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Transição para a vida adulta - autonomia e dependência na família

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Transição para a vida adulta - autonomia e dependência na família

  1. 1. Ψ v. 40, n. 1, p. 42-49, jan./mar. 2009 Transição para a vida adulta: autonomia e dependência na família Carolina de Campos Borges Andrea Seixas Magalhães Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio Rio de Janeiro, RJ, Brasil RESUMO Neste trabalho, analisa-se a permanência de adultos-jovens na residência dos seus pais, na contemporaneidade, problematizando os tradicionais parâmetros definidores da entrada na vida adulta, de acordo com a concepção de ciclo de vida familiar. A entrada na vida adulta envolve negociações entre dependência e autonomia, dentro de um contexto sociocultural mais amplo. Discute-se o prolongamento da convivência intergeracional a partir da influência do individualismo na constituição da vida social contemporânea. Considera-se este fenômeno paradigmático, na medida em que esconde e revela os seguintes paradoxos contemporâneos: a conciliação de práticas individualizantes e hierarquizantes na família; e a formação de elos sociais numa sociedade marcada pela cultura individualista. Palavras-chave: adultos-jovens; ciclo de vida familiar; relações intergeracionais. ABSTRACT Transition to the adult life: autonomy and dependence The aim of this study is to analyse the prolonged staying of young-adults in their parent’s home, assessing the standard parameters which define the passage to adult life concerning to the family life cycle. The passage to adulthood involves transactions between autonomy and dependence, within a wider social-cultural context. The extension of intergerational co-living under the influence of the individualism in constitution of contemporary social life is discussed. This phenomenon is considered paradigmatic, once it hides and reveals the following current paradoxes: the conciliation of individual and hierarchical practices in the family; and the social bonds in a individual-culture society. Keywords: young-adults; family life cycle; intergerational relations. RESUMEN Transición para la vida adulta: autonomía y dependencia Este trabajo analiza la actual permanencia de los jóvenes adultos en la residencia de sus padres, problematizando los parámetros tradicionales que definen la entrada en la vida adulta, de acuerdo con la concepción del ciclo de la vida familiar. El ingreso a la vida adulta comprende negociaciones entre dependencia y autonomía, dentro de un contexto socio-cultural más amplio. Además, este trabajo aborda la prolongación de la convivencia intergeneracional a partir de la influencia del individualismo en la constitución de la vida social actual. Este fenómeno se considera paradigmático, en la medida en que esconde y revela las siguientes paradojas contemporáneas: la conciliación de las prácticas individualistas y jerárquicas en la familia; y la formación de eslabones sociales en una sociedad marcada por la cultura individualista. Palabras clave: jóvenes adultos; ciclo de vida familiar, relaciones intergeneracionales. INTRODUÇÃO família, os jovens estão permanecendo por mais tempo morando na casa de seus pais e demorando mais tempo Nas famílias contemporâneas, quando comparadas para viver independentemente deles. O que estariaàs famílias do início do séc XX, evidenciam-se formas ocorrendo?mais flexíveis de relações, com maiores possibilidades Se, conforme Guerreiro (2003) assinala, a con-de reivindicações pessoais, de diálogo e de negociação dição referente à atividade econômica configura-entre os indivíduos. Nesse contexto, tem sido observado se como um fator determinante para a possibilidadeo prolongamento da convivência intergeracional na de individualização residencial, essa permanência
  2. 2. Transição para a vida adulta 43prolongada dos jovens na casa de seus pais corresponde momento em que o jovem já está se tornando adulto –simplesmente à busca de um refúgio no ambiente seguro quando vai para a universidade ou começa a trabalhar.e estável do “lar” (a casa dos pais) num momento de Segundo esse ponto de vista, a autonomia é umturbulências no mundo do trabalho? Como entender indicador de saúde do indivíduo e da família como umesse acontecimento num contexto em que é marcante todo, ou seja, de que as relações foram bem vividas nasa valorização das identidades pessoais e da autonomia fases anteriores do ciclo de vida familiar e, inclusive,dos indivíduos, bem como a liberação das obrigações de que os pais suportarão viver bem como um casale solidariedades para com a família? quando seus filhos se forem; f) por fim, com a chegada É possível que a demora dos filhos adultos-jovens da velhice, a família vive a transição para o estágioem sair da casa dos seus pais para viverem sós esteja tardio da vida (Carter e McGoldrick, 1995).relacionada também a outras problemáticas, dentre elas, Como Carter e McGoldrick (1995) ressalvam,à forma como vem se dando a passagem dos jovens essas fases do ciclo de vida familiar se modificamà condição adulta, considerando mudanças macro e conforme se tratem de diferentes contextos histórico-microssociais da contemporaneidade (Pappámikail, sociais. Contudo, persiste a idéia de que o decorrer2004). da vida envolve necessariamente a passagem de uma Neste trabalho, buscamos melhor entender o fe- fase do ciclo para outra. Essa passagem é normalmentenômeno da convivência intergeracional prolongada, vivida como uma “crise” e só poderá ser superadaconsiderando a ênfase que o mundo contemporâneo dá com a adequação do sistema familiar às necessidadesao valor do individualismo e à autonomia. Para tanto, impostas pela nova realidade que se apresenta atravésiniciamos discutindo os parâmetros que sinalizam a do passar dos anos.transição para a vida adulta na contemporaneidade. Em Observa-se que, nessa descrição do ciclo de vidaseguida, refletimos sobre como são vividas as relações familiar, a transição para a fase adulta é sinalizadafamiliares hoje, a partir da centralidade do valor do pelo afastamento dos jovens em relação à famíliaindividualismo na nossa sociedade, e argumentamos de origem. Nessa concepção, ser adulto se definiriaque a permanência de adultos-jovens nas residências através de acontecimentos como a saída da casa dados seus pais só pode ser compreendida a partir desta família de origem, o investimento em um trabalho ouconfiguração de valores. uma formação profissional, com a entrada no mercado de trabalho, a independência financeira, a autonomia e,O processo de transição para a vida posteriormente, a possibilidade de formar seu próprio adulta e o ciclo de vida familiar núcleo familiar. No entanto, hoje nos deparamos com o fato de Como vem se dando a entrada na vida adulta hoje? que a própria noção de curso de vida em geral temQuais são os parâmetros definidores do ser adulto hoje? sofrido mudanças desde o século XX. Na modernidade,É uma tradição nos estudos da família considerar a acreditava-se que havia uma ordem e um tempoexistência de um ciclo de vida familiar. A idéia é que de ocorrência de eventos vitais, baseado na idadeos relacionamentos familiares vão se modificando cronológica, que definiriam as etapas do curso deconforme cada pessoa vai se movendo ao longo do ciclo vida. Mas, segundo Goldani (2004), essa forma dede vida. Desta forma, a família vai se movimentando institucionalização do curso de vida é decorrente doatravés do tempo: a) os adultos-jovens saem da casa processo de individualização da modernidade e se opõede sua família de origem, ainda sem estabelecer uma a outra, advinda da contemporaneidade, onde a famíliafamília de procriação e, nesse momento, começa a é vista como um processo de articulação das trajetóriasestabelecer uma identidade própria (no trabalho e nos de vida de seus membros, construída no contextorelacionamentos); b) esse jovem se casa com outra das relações de classe, étnicas e de gênero. Nessapessoa, formando o novo casal; c) desse casamento concepção, a família deixa de ser entendida como algovêm os filhos e, assim, o casal torna-se “pais”; d) o homogêneo, dentro do qual os papéis familiares eramfilho cresce e entra na adolescência, levando a família complementares, e passa a ser o resultado de acordosa se transformar e os indivíduos a renegociarem seus elaborados por meio da interação familiar. As normaspapéis; e) após essa fase do ciclo de vida, os filhos vão se de conduta na família não estariam dadas, mas seriamtornando adultos e a família passa para outro momento o resultado das fases do desenvolvimento familiarem que os filhos são “lançados” para o mundo para configuradas pela articulação das trajetórias individuaisseguirem seus caminhos. O uso do termo “lançamento” (Goldani, 2004).se justifica pelo fato de sua saída ser o resultado de um Isso nos remete à necessidade de um olhar críticolongo processo de “deixar partir” gradualmente, desde sobre o ciclo de vida da família e a passagem para a fasea infância, passando para a adolescência e chegando ao adulta, uma vez que os critérios de entrada no mundo Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009
  3. 3. 44 Borges, C. de C. & Magalhães, A. S.adulto hoje estão mudando e a própria noção de ciclo observado, sobretudo, nos estratos médios e altos dade vida familiar parece, muitas vezes, não dar conta sociedade brasileira, justamente nesses segmentosmais da realidade contemporânea em que as relações sociais em que são mais evidentes estilos de vida efamiliares são estabelecidas. visões de mundo constituídos a partir de valores Seguindo uma tendência mundial, dado o maior individualistas e igualitários. As autoras defendem queacesso à informação e a um conjunto de recursos em esse fenômeno remete tanto a fatores provenientes doescala global, os jovens de hoje, segundo Guerreiro mundo público contemporâneo – a instabilidade dase Abrantes (2005), alcançam a condição adulta a relações de trabalho e inseguranças que propicia –partir de condições tais como: percursos escolares quanto a fatores relativos ao mundo privado da famíliamais prolongados e inserções profissionais mais – a mutualidade das relações. A família estaria setardias e instáveis num mercado de trabalho bastante constituindo, segundo as autoras, num refúgio dianteexigente e competitivo. Muitas vezes, constituem- das instabilidades e incertezas do mundo do trabalho,se modos de entrada no mercado de trabalho que se tomando como referência a oposição do mundo privadocaracterizam como “trajetórias yoyo”, que, segundo em relação ao mundo público. Esta oposição do mundoos autores citados, seriam modalidades de trajetórias da família em relação ao mundo do trabalho se deveda escola para o trabalho, marcadas pela instabilidade menos ao fato de a família ser um lugar isolado dedos vínculos. Alternam-se períodos de desemprego, tudo aquilo que aflige os indivíduos no espaço público,de emprego precário e de investimento na formação e mais à complementaridade que regula esses doisprofissional. mundos. É claro que o modo pelo qual ocorre o processo Observa-se, portanto, que os processos quede passagem para a vida adulta dependerá do meio permeiam a transição da juventude para a vida adultasocial, econômico e cultural a que o jovem pertence hoje são bastante complexos e não são fundamentados(Guerreiro e Abrantes, 2005), pois dentro desses mais em critérios como idade ou afastamento da famílialimites estão inscritos a origem social, os percursos de origem rumo à independência. Hoje, pais e filhosde escolaridade, as oportunidades e as condições de desfrutam de um espaço de maior diálogo e liberdadeemprego, os modelos culturais, os papéis de gênero e nas relações familiares. Certamente, a possibilidade deas redes de apoio formais e informais. Mas é fato que, conciliar dependência e autonomia dentro da famíliaatualmente, o período de transição para a vida adulta traz outras possibilidades para se viver e se pensar essatende a se constituir, por si próprio, numa fase de vida passagem. Por isso, considera-se que o prolongamentomarcada por condições, oportunidades e dificuldades da vida familiar esteja relacionado, não com algumpróprias. Nesse contexto, a transição para a vida “atraso” desses jovens em entrar para a vida adulta,adulta se dá, conforme apontam Guerreiro e Abrantes mas com as novas formas de constituição da vida(2005), em dois tempos: um primeiro, onde se isenta adulta de hoje.de grandes preocupações e se dedica a experiências e Acredita-se que, para compreendermos o signi-aventuras; e um segundo, onde já se tem estabilidade ficado da permanência de adultos-jovens nas casase responsabilidade, no qual se pensa em casar e ter de suas famílias de origem, é fundamental considerarfilhos. aspectos culturais mais amplos da contemporaneidade: É, portanto, uma tendência na contemporaneidade a centralidade do valor do indivíduo e as práticasa complexificação e a diversificação do período de instituídas dirigidas à autonomização dos sujeitos tantotransição para a vida adulta, ao mesmo tempo em que na esfera pública como na esfera privada. É a partirse verificam mudanças profundas e aceleradas na esfera desse enfoque que analisamos o fenômeno da saídafamiliar, onde há uma enorme variedade de modelos e tardia dos adultos-jovens da casa de seus pais.estruturas. Nesse contexto, diante da experiência do risco e da O conceito de individualismo e asimprevisibilidade no mundo do trabalho, muitos jovens mudanças na famíliatendem a adiar a saída da casa de seus familiares, numprocesso de transição para a vida adulta que não mais se O sentido que a experiência do prolongamentodá como uma passagem imediata. Surge o modelo das da convivência intergeracional na família tem no“trajetórias yoyo” para ilustrar essa forma de transição contexto atual remete-nos, primeiramente, ao pro-intermitente, descontínua, com idas e vindas. cesso de configuração individualista da sociedade Conforme Henriques, Féres-Carneiro e Magalhães contemporânea.(2006), o prolongamento da convivência intergeracio- A constituição do indivíduo livre como um sernal na família, ou seja, a permanência mais longa do “individualizado” tem repercussões para a vida social,jovem na casa dos pais, é um fenômeno psicossocial implicando, necessariamente, na emancipação dosPsico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009
  4. 4. Transição para a vida adulta 45laços herdados. A noção mais precisa da categoria apresenta como um princípio estruturante da visão de“indivíduo” pode ser compreendida pela oposição mundo do indivíduo contemporâneo: afirmando-seformulada por Dumont (1993) entre as sociedades como um valor, o indivíduo é concebido como sujeito“holistas” e as “individualistas”. de direitos iguais, mas de experiências singulares. No holismo, padrão ideológico predominante A ênfase atribuída ao individualismo como valornas sociedades tradicionais, as visões de mundo são central na vida social contemporânea influenciafundamentadas no princípio onipresente da hierarquia, também as relações que se estabelecem no casamentode forma que a identidade e a inteligibilidade de cada (Magalhães, 1993) e na família contemporânea (Féres-membro estão atreladas ao seu papel na totalidade das Carneiro; Ponciano e Magalhães, 2007). Os dilemasrelações sociais. As pessoas, segundo essa configuração que surgem dentro da família, inclusive a experiênciasocial, são concebidas como socialmente determina- do prolongamento da convivência familiar, podem serdas, já que estão destinadas aos fins socialmente pensados a partir dessa visão. Para analisar como issoprescritos. se dá, destacamos três pontos importantes. Já na configuração ideológica moderna, essa O primeiro ponto as ser analisado refere-se àtotalidade hierarquicamente ordenada é segmentada, seguinte afirmação: a mesma tensão que atinge osprevalecendo um universo ideológico em que o indivíduos, a de pertencer a um coletivo e não se deixarindivíduo constitui-se como valor moral central e como englobar por ele, pode ser vista também no âmbito dasujeito normativo das instituições jurídicas, políticas, família. O modelo de família nuclear, tão permeável aossociais e filosóficas. A igualdade e a liberdade surgem princípios da igualdade, da liberdade e da valorizaçãoassociadas a esta noção do indivíduo, segundo a qual da experiência subjetiva do indivíduo, expressa coma sociedade é representada como um fardo a cada clareza o comprometimento do meio familiar com oum, constrangendo o pleno exercício da liberdade valor do indivíduo, tendo como conseqüências o seuindividual. Funda-se a noção de um indivíduo em afastamento das obrigações para com a família extensaoposição à sociedade (Dumont, 1993). e a ênfase na afetividade regendo as relações que se O valor da igualdade é, assim, o princípio que estabelecem dentro dela.impulsiona a fragmentação e a individualização No modelo de família tradicional, o casal eracrescentes. Está referida como uma disposição simbólica valorizado apenas como uma parte do sistema familiar,que recusa englobamentos e hierarquias. Implica, de modo que os laços com os filhos e outros parentesjustamente, em conferir igual valor às identidades eram igualmente ou até mais importantes para a vidasociais, produzindo o sentido da indiferenciação que familiar. Diferentemente, hoje o casal é o cerne dadesautoriza quaisquer encapsulações ou ordenamentos família, tendo o amor, somado à atração sexual, comohierárquicos. Portanto, a configuração individualista a base da formação dos laços de casamento. Há aé entendida como a entronização do indivíduo como separação entre sexualidade e reprodução. Cada um dosvalor moral central, tendo como consequência a membros da família é reconhecido como indivíduo efragmentação ou individualização de domínios e a as decisões a serem tomadas pelas famílias são guiadasrecusa de englobamentos e hierarquias (Salem, 2007). por necessidades psicológicas e individuais (Giddens, A influência do individualismo na constituição da 2003; Singly, 2007).vida social contemporânea deve considerar também A concepção de “relação pura” proposta por Giddensque o comprometimento com a ideologia individualista (1993; 2002) ilustra bem a constituição do modelo dedá ênfase ao sujeito psicológico. Conforme Simmel relações que conjuga autonomia e afetividade. Segundo(1971), a partir dos valores da universalidade, da ele, essas relações são “reflexivamente organizadas”.liberdade e da igualdade, a noção de individualismo Não se pode garantir por quanto tempo se sustentarão,desloca-se para outra configuração que acentua a uma vez que elas só dependem de si mesmas, tanto paraparticularidade, a desigualdade e a diferenciação começar a existir, quanto para permanecer existindo.interna entre os indivíduos. É o que o autor denomina Atreladas ao projeto reflexivo do eu, as relações“individualismo quantitativo” e “individualismo puras se caracterizam qualitativamente em função dasqualitativo”. Enquanto a idéia de “individualismo satisfações subjetivas que produzem em cada um dosquantitativo” comporta o princípio de igualdade entre indivíduos envolvidos.todos os indivíduos, em oposição aos englobamentos Atentar para a importância das questões relacionadashierarquizantes da configuração social holista, a ao indivíduo nas formas de constituição das relaçõesidéia de “individualismo qualitativo” compreende a familiares é fundamental para se entender o que significanoção de singularidade dos indivíduos. Daí advém a o prolongamento da vida familiar que discutimos aqui,representação do indivíduo como sujeito psicológico, pois ele é experimentado pelos membros da família aonde a individualidade ganha expressividade. Este se partir de uma lógica predominantemente individualista. Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009
  5. 5. 46 Borges, C. de C. & Magalhães, A. S.Assim, o fato de estarem compartilhando o mesmo Para este mesmo autor, a decadência da famíliaespaço e vivendo juntos não torna os membros da família ocidental moderna faz surgir incertezas que sãomenos comprometidos com as questões do indivíduo. desafiadoras porque não se referem somente àPelo contrário, corrobora a lógica individualista. dissolução ou à transformação de uma instituição, mas No estudo realizado por Ramos (2006), a autora à reformulação da combinação que até então existiaressalta que a relação de coabitação de “jovens entre o individualismo e a hierarquia de uma formaadultos” e seus pais é fortemente marcada pela busca mais ampla.de autonomia, e que ela se constrói através da prática de A função de viabilizar a ontogênese dos sujeitosnegociações constantes sobre suas condutas no espaço individualizados, designada à família contemporânea,doméstico, de modo que vão criando “consensos” que acabou por realçar a complexidade desta tarefa epermitem a construção de uma relação de igualdade explicitar a limitação da família de dar conta disso. Pois,entre os jovens adultos e seus pais. segundo Duarte (1995), a família antiga “representava, Portanto, o que se observa é que a relação que se sobretudo, um limite ou garantia – por precária queconstrói com a permanência desses filhos na casa de seus fosse – ao ‘artificialismo’ da ideologia individua-pais e com o prolongamento da convivência familiar lista e à sua incapacidade de reconhecer a inarre-não se caracteriza pelo englobamento do indivíduo dável necessidade sociológica da hierarquia e dapelas regras familiares e, sim, é guiada por princípios relação” (p. 40).de igualdade e de valorização da individualidade de Assim, o adiamento da saída de casa pelos jovenscada membro da família. sinaliza a constituição de um tipo “novo” de relações O segundo ponto analisado refere-se ao fato de familiares, que em nada se assemelha àquele das famíliasque a incorporação do individualismo às relações tradicionais, em que havia um acordo socialmentefamiliares é um tanto problemática, conflituosa, na estabelecido sobre as solidariedades intergeracionais.medida em que ela não prevê a substituição completa Na atualidade, há, antes, um exercício constante dedos ideais hierárquicos pelos ideais individualistas. O negociação pelos indivíduos a respeito de seus papéisque se verifica é a coexistência tensa desses valores, na família, o que não se dá, de forma alguma, semlegitimando tanto a formação de modelos de relações conflitos. Ainda que influências igualitárias estejamfamiliares igualitárias como de modelos hierarquizados. presentes na configuração dessas relações, persisteOu seja, há duas lógicas simultâneas do ponto de vista a tensão de conciliar práticas individualizantes edo sujeito: a primeira envolve algum tipo de reprodução hierarquizantes na família. Aliás, convém assinalar quede valores e comportamentos fundada em determinada a permanência de adultos jovens nas casas de seus pais,tradição; a segunda implica na produção de novos reivindicando apoio e autonomia concomitantemente,valores e comportamentos, ou seja, no rompimento ilustra exatamente o mecanismo de conciliação decom a tradição (Vaitsman, 1997). valores hierárquicos e individualistas que opera nas Uma vez que a família se compromete com ideais famílias contemporâneas.individualistas, funda-se um paradoxo dentro dela, um Um terceiro ponto que concerne à relevância dacampo de tensão, que é o de ter que conciliar práticas repercussão do individualismo nas relações familiaresindividualizantes e hierarquizantes. Sobre essa referida nesta análise do prolongamento da convivênciatensão, são proveitosas as contribuições de Duarte intergeracional na família é que o individualismo, ou(1995). Segundo esse autor, em função da assimilação as relações individualistas, só pode se tornar realidadedo Valor-Indivíduo, a família ganhou a função social de se for também um projeto coletivo. Isso parece muitoser “matriz para o indivíduo adulto”. Contudo, no seu óbvio se atentarmos para o fato de que na organizaçãocomprometimento com a educação de seus membros, familiar, em contextos pré-industriais, o envolvimentoou seja, com a reprodução legítima dos sujeitos sociais, de todos os membros da família nas atividadesa família se constrange entre dois extremos: ou ser produtivas era necessário, pois viviam numa relaçãoinsuficientemente individualizante, restringindo a de dependência mútua. Foi com a transformação dos“liberdade” de seus membros em desenvolvimento, modos de produção advindos da industrialização queou ser insuficientemente hierarquizante, não lhes surgiu a possibilidade dos familiares se tornarem menosinculcando “responsabilidade” e “ética”. dependentes uns dos outros e se individualizarem. Segundo Duarte (1995), a crise contemporânea Singly (2007) afirma que a família contemporâneada família parece mais radical quando a aceleração vive um duplo movimento: o de sua privatização, emda individualização nas sociedades metropolitanas razão da maior atenção dada à qualidade das relaçõesameaça o equilíbrio em que até hoje a instituição interpessoais, e de sua “socialização”, em face dafamiliar sobrevivera, combinando a forma hierárquica intervenção do Estado e da delegação de suas funções ae o espírito individualizante. outras instâncias sociais. Ela é caracterizada por “umaPsico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009
  6. 6. Transição para a vida adulta 47grande dependência em relação ao Estado, uma grande Nesse sentido, é interessante observar, porindependência em relação aos grupos de parentesco e exemplo, que o trabalho assalariado das mulheres éuma grande independência de homens e mulheres em algo fundamental para a vida do casal hoje, pois,relação a esta família” (p. 30). neste caso, a sua independência financeira é o que vai Assim, os indivíduos organizam a sua vida viabilizar uma relação conjugal mais igualitária, cujoprivada a partir de uma demanda individual e coletiva foco é unicamente o aspecto afetivo. A independênciade independência e de uma dependência enorme da é elemento de estabilidade do casal. A dependênciaesfera pública. Para entendermos isso melhor, Singly interpessoal é sentida como peso para os indivíduos e(2007) se refere a dois períodos da família moderna. o projeto de estarem juntos pressupõe que, antes, cadaUm primeiro, compreendido do século XIX até os anos um tenha meios de estar sozinho (Singly, 2007). Em1960, em que o modelo de família era baseado no amor pesquisa sobre o lugar do casamento no projeto de vidano casamento; na divisão estrita do trabalho entre o de jovens adultos solteiros, constatou-se que metashomem e a mulher; na atenção à criança, sua saúde e como a independência financeira e o aprimoramentoeducação. Um segundo período, que surge a partir de profissional antecedem o plano de casar-se ou de formar1960, onde há a crítica ao modelo da “mulher dona-de- família para a maioria das mulheres entrevistadascasa”, a desestabilização do casamento e o crescimento (Féres-Carneiro, Ziviani e Magalhães, 2006).da coabitação fora do casamento. Essa é uma mudança bastante significativa para a A focalização nas relações, como meio de satisfação vida familiar, uma vez que a família, historicamente,pessoal, afirma-se como a principal diferença entre os esteve incumbida da tarefa de prover seus membrosdois modelos de família moderna. Nesse contexto, e assegurar-lhes os elementos materiais e simbólicoso projeto da conjugalidade e da composição da vida necessários para sua existência. Na medida em que elafamiliar não deixam de existir, mas as relações que se restringe a necessidades afetivas dos indivíduos,se estabelecem a partir dele mostram-se instáveis, outras instituições entram em cena.fugazes, na medida em que são reguladas por uma Singly (2007) chama atenção para o fato de que,lógica afetiva. Por isso, elas são vulneráveis às ao mesmo tempo em que a família se torna cada vezquestões da individualidade. E, mais que isso, tornam- mais “privada”, também se torna mais “pública”. Ouse ambíguas, atendendo tanto à necessidade de laços seja, é como se o movimento de autonomização dade interdependência entre os sujeitos quanto à negação família em relação à parentela, à vizinhança, ao restodessa necessidade, com o projeto de construção de da sociedade, estivesse duplicado por uma lógica desujeitos autônomos. grande dependência do Estado. Ainda assim, a busca de autonomia individual O que Singly (2007) vem alertar é que a autonomiano seio da família não exclui a construção de áreas da família individualista, conjugal, é relativa, porquecomuns entre seus membros. O que ocorre é que, com a ela requer que outras instâncias assegurem aosseparação entre os espaços públicos e privados, cresce indivíduos o que antes cabia à família garantir. Assim,a importância da afetividade na regulação das relações se por um lado o Estado ajuda a diminuir os laços deintrafamiliares, de forma que os membros da família dependência da família em relação à parentela ou àdesenvolvem um interesse maior em “estar juntos”, vizinhança ou, dentro dela, entre as gerações, por outroem compartilhar a intimidade, estando cada vez mais lado, produz-se uma menor autonomia da família e desensíveis à “qualidade” de suas relações. seus membros com relação ao Estado, criando uma No entanto, conforme Singly (2007), para conciliar solidariedade estatal. É nesse sentido que ele afirmao individualismo com a formação de um elo social é que o individualismo só pode se tornar realidade se elepreciso cortar os laços de dependência interpessoal, o for também um projeto coletivo.que pode ser feito por meio de mediações institucionais Então, numa sociedade individualista, o Estadoque sustentem essa independência. É desta forma que tende a garantir a mais completa individualização,o autor compreende as transformações pelas quais a “liberando” o indivíduo da sociedade, incorporando emfamília vem passando. Para ele, todas essas mudanças suas políticas sociais, por exemplo, valores e práticasque vêm ocorrendo têm um sentido coerente e nos igualitários e assegurando, através de sua políticaremetem, justamente, à demanda de autonomia pessoal social, a autonomia nas relações familiares.e à desvalorização dos elos de dependência em relação Nesse contexto, conforme Singly (2007), uma criseàs instituições e às pessoas. Por isso, os indivíduos assalariada e uma crise da proteção social culminamtendem a recusar a instituição do casamento, como uma na produção da crise do elo social. O liberalismoimposição social, e a criticar a divisão do trabalho entre econômico, reduzindo ao mínimo as funções doos sexos, segundo o modelo tradicional das relações Estado, cria um contexto que inibe a individualização,de gênero. favorecendo o comunitarismo. Nesse contexto, torna- Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009
  7. 7. 48 Borges, C. de C. & Magalhães, A. S.se propício o ressurgimento de novas solidariedades O fenômeno da saída tardia dos adultos-jovensfamiliares, dentre as quais podemos localizar o da casa de seus pais leva-nos a refletir também sobreprolongamento da convivência intergeracional. o paradoxo da família contemporânea – a saber, Cabe fazer a ressalva de que a realidade a partir ao incorporar o valor do indivíduo às relações, ada qual Singly nos fala, a realidade da França, é família tem que conciliar práticas individualizantes ebastante diferente da que vivemos no Brasil ou mesmo hierarquizantes. Na experiência do prolongamento dana América Latina, especialmente no que se refere à convivência intergeracional na família, a permanênciaeficácia das instâncias estatais em oferecer seguridade desses adultos-jovens juntos aos pais impõe que seaos indivíduos. Ainda assim, sua análise pode ser faça uma articulação entre pertencer à família e nãoproveitosa para se entender este fenômeno que nos ser englobada por ela.propomos a analisar, pois o processo de autonomização Mas, tudo isso – as mudanças nos parâmetrosdos sujeitos sociais é complexo, pressupõe uma dentro dos quais se faz a transição da juventude para a“sincronia” no ritimo das mudanças subjetivas e sociais. vida adulta e as mudanças nas relações familiares, comÉ justamente isso que o tema do prolongamento da a conciliação entre dependência e autonomia dentroconvivência familiar problematiza. delas – deve ser pensado dentro de um contexto socio- A família, na sua versão igualitária e individualista, cultural mais amplo.está se constituindo numa importante rede de suporte Consideramos, neste trabalho, que as relaçõespara os indivíduos. O apoio familiar, nesse caso, é visto individualistas só podem se tornar realidade se forem,como indispensável para viabilizar a realização de também, um projeto coletivo. A independência emprojetos individuais, ou também como uma possibilidade relação ao grupo de parentesco, por exemplo, sóde dar a esses jovens algum “conforto” no início de é possível se houver a substituição dos vínculossuas trajetórias via autonomização. Funda-se um tipo de dependência de dentro da família para os dede relação de solidariedade entre as gerações que pode outras instâncias do espaço público. No entanto, aser compreendida considerando o descompasso entre falência das instituições em oferecer sustentaçãoas práticas individuais e os modelos adotados pelas aos indivíduos acaba impedindo a individualizaçãoinstituições que mediam a vida coletiva. completa das relações, fazendo surgir uma nova Assim, o prolongamento da convivência familiar forma de comunitarismo, muito própria da atualidade,emerge como uma estratégia de conciliação entre as que nada tem a ver com as formas de solidariedadenecessidades individuais de adultos jovens, que buscam intergeracional do início do século XX. Essas relaçõessua autonomia, e as necessidades de apoio nessa fase são calcadas cada vez mais na centralidade do valor dode transição para a vida adulta. A solução encon- individualismo na sociedade.trada pode ser a de se tornarem adultos na casa dospais, ainda que temporariamente, ou a de tomar a REFERÊNCIAScasa dos pais como um “porto seguro” para possíveisretornos. Carter, B., & McGoldrick, M. 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Revista Cultura y Educación – Familia y Isso, a nosso ver, compõe um retrato interessante Pareja, 18, 1, 95-108.das relações familiares hoje, podendo ser considerado Féres-Carneiro, T., Ponciano, E. L. T., & Magalhães, A. S. (2007).um fenômeno paradigmático. Se, no passado, ser adulto Família e casamento: da tradição à modernidade. In C. Cevernyse definia por ser independente dos pais, financeira (Org.). Família em movimento (pp. 23-36). São Paulo: Casa do Psicólogo.e emocionalmente, hoje é possível ser adulto e ter Giddens, A. (1993). Transformação da intimidade. São Paulo:autonomia não sendo completamente independente. Unesp.Essa possibilidade de ser autônomo sendo ainda, Giddens, A. (2002). Modernidade e identidade. Rio de Janeiro:de alguma forma, dependente dos pais obriga-nos a Jorge Zaha.repensar os critérios de entrada na vida adulta no Giddens, A. (2003). Mundo em descontrole: O que a globalizaçãomundo contemporâneo. está fazendo de nós. 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  8. 8. Transição para a vida adulta 49Goldani, A. M. (2004). Mulheres e envelhecimento: Desafios Salem, T. (2007). O casal grávido: Disposições e dilemas da para novos contratos intergeracionais e de gênero. In A. A. parceria igualitária. Rio de Janeiro: Editora FGV. Camarano (Org.). Muito além dos 60: Os novos idosos brasileiros Segalen, M. (1995). Continuités et discontinuités familiales: (pp. 75-113). Rio de Janeiro: IPEA. approche sócio-historique du lien intergénérationnel. In C.Guerreiro, M. D. (2003). Pessoas sós: Múltiplas realidades. In Attias-Donfut. Les solidarités entre générations: Vieillesse, Sociologia: Problemas e Práticas, 43, 31-49. familles, état (pp. 27-40). Paris: Nathan.Guerreiro, M. D., & Abrantes, P. (2005). Como tornar-se adulto: Simmel, G. (1971). On individuality and social forms. Chicago: Processos de transição na modernidade avançada. In Revista The University of Chicago Press. Brasileira de Ciências Sociais – Associação Nacional de Pós- Singly, F. (2006). Sociologia da família contemporânea. Rio de Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, São Paulo, 20, 58, Janeiro: Editora FGV. 157-175, junho. Vaitsman, J. (1997). Pluralidade de mundos entre mulheres de baixaHenriques, C. R., Féres-Carneiro, T., & Magalhães, A. S. (2006). renda. In Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro: Trabalho e família: o prolongamento da convivência familiar em IUPERJ, 40, 3, 303-319. questão. In Paidéia, 16, 35, 327-336.Magalhães, A. S. (1993). Individualismo e conjugalidade: um Recebido em: 22/10/2007. Aceito em: 16/04/2009. estudo sobre o casamento contemporâneo. Dissertação de Autores: mestrado, PUC-Rio. Carolina de Campos Borges – Doutoranda em Psicologia Clínica pela PUC-Rio,Pappámikail, L. (2004). Relações Intergeracionais, apoio familiar e Especialista em Terapia Familiar pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ. transições juvenis para a vida adulta em Portugal. In Sociologia: Andrea Seixas Magalhães – Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Professora Assistente do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Problemas e Práticas, 46, 91-116.Ramos, E. (2006). As negociações no espaço doméstico: construir Enviar correspondência para: a “boa distância” entre pais e jovens adultos “coabitantes”. In Andrea Seixas Magalhães Rua Vicente de Souza, 14/403 M. L. Barros (Org.). Família e gerações (pp. 39-65). Rio de CEP 22251-070, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Janeiro: Editora FGV. E-mail: andreasm@puc-rio.br; carolinacambor@gmail.com Psico, Porto Alegre, PUCRS, v. 40, n. 1, pp. 42-49, jan./mar. 2009

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