6 saude trabalhadores area transportes

2,240 views

Published on

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
2,240
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
159
Actions
Shares
0
Downloads
22
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

6 saude trabalhadores area transportes

  1. 1. Car regando o Brasil nas costas: trabalho e saúde dastrabalhadoras e trabalhadores do ramo de transportes AUTORA Leny Sato Doutora em Psicologia Social, professora do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. COLABORADORES Diretores da CNTT-CUT: Marta Carlota de Oliveira, Eduardo Alves Pacheco, João Braz Pereira, Luiz Antonio de Queiroz. Coordenadora de secretaria da CNTT-CUT: Tania Macedo. Secretário de Saúde do Sindicato dos Metroviários de São Paulo: Sérgio Roque. À CC.OO. (Federación de Comunicación y Transporte) um agradecimento especial pelo rico material produzido sobre condi-ções de trabalho e saúde das trabalhadoras e trabalhadores no ramo de transporte, o qual forneceu subsídios importantes para a elaboração desse manual.
  2. 2. Trabalhadores no ramo de transportes Índice APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 CARREGANDO O BRASIL NAS COSTAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .6 CONDIÇÕES DE TRABALHO E SAÚDE DAS TRABALHADORAS(ES) EM TRANSPORTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .8 A AÇÃO DAS ENTIDADES SINDICAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .18 ENRIQUECENDO AS INFORMAÇÕES SOBRE A SAÚDE DOS TRABALHADORES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .20 -4-
  3. 3. Apresentação A CNTT-CUT vem participando de diversas atividades ligadas ao temaSaúde e Condições de Trabalho das trabalhadoras(es) em transportes. Sejapor terra, água ou ar, este é um assunto que tem merecido nossa atenção. Neste caderno, abordaremos de forma suscinta, alguns agentes causado-res de sofrimento, doenças e lesões, assim como as ações que estamosdesenvolvendo no sentido de orientar os sindicatos no reconhecimento dascausas e encaminhamento das soluções necessárias. Questões como asnovas tecnologias, que estão sendo implementadas nos sistemas de transpor-tes, que deveriam estar voltadas também a amenizar a exposição dos traba-lhadores a condições de penúria, são impostas sem que se discutam seusriscos e benefícios. É preciso reconhecer que, "carregar o Brasil nas costas" é tarefa de muitaresponsabilidade, que requer seja reconhecida como atividade essencialtambém na hora de discutir condições de trabalho para quem a realiza. Com esta simples leitura você conhecerá um pouco da história dessa cate-goria que, embora tão explorada, sente-se orgulhosa por ser responsável pelotransporte do progresso do país. Falam com palavras simples e gírias, muitasvezes se sentem incompreendidos e discriminados devido a falta de prioridadede alguns governos no que concerne às questões relacionadas a melhorias,sejam salariais, de condições de trabalho, saúde, entre outras que não sãomenos importantes. Ora! Se as empresas investem na manutenção de seus maquinários, veí-culos e outros bens, nada mais justo que invista para que trabalhadoras(es)também estejam em boas condições, inclusive de satisfação pessoal. Quevalorizem o trabalho desses profissionais! Remigio Todeschini Executiva Nacional da CUT e A DIREÇÃO DACNTT-CUT Coordenador do Coletivo Nacional deSaúde no Trabalho e Meio Ambiente -5 -
  4. 4. Trabalhadores no ramo de transportes CARREGANDO O uso em outras indústrias, enfim, uma infini- BRASIL NAS COSTAS... dade de coisas. Trabalhadoras(es) do setor primário, plantam, colhem e extraem miné- Certo dia, na cidade de São Paulo, um rios. Mas quem os faz chegar em seus desti-motorista de ônibus urbano, ao fim de uma nos são as trabalhadoras(es) em transporte.longa conversa, com um misto de desabafo e São essas trabalhadoras e trabalhadoresde orgulho, disse: "o motorista é totalmente o que dinamizam a economia, garantindo oprogresso do país". funcionamento do mercado e a vida social. Antes, ele falava sobre o seu trabalho, E, mais ainda, garantem o transporte de tra-sobre as dificuldades em realizá-lo, mas balhadoras(es) para seus locais de trabalho,também sobre aquilo que lhe dava satisfação, de seus filhos para as escolas, para asnuma conversa cheia de gírias e jargões pró- festas, para os estádios de futebol e para osprios da linguagem da categoria, relatando sindicatos. Transportam também os empre-acontecimentos que só os que pertencem a sários e executivos para fechar seus negó-essa categoria profissional vivem e testemu- cios e os políticos.nham. E carrega-se por ar, por terra e por mar... Essa é uma das O ramo de trans-frases que transmite portes define-se comouma das idéias que aquele que presta ser-pode ajudar a caracte- viços, o que provê ser-rizar o que é o trabalho viços essenciais àno ramo de transpor- população. Comotes. Juntamente com também dizem algu-ela, vem uma outra mas trabalhado-frase dita por trabalha- ras(es), "é um gênerodoras(es) desse ramo, de primeira necessi-que é: dade". E, se assim "a gente carrega o não fôsse, não existi-Brasil nas costas". ria um dispositivo O sentido dessa específico na lei defrase leva-nos a greve que põe algu-pensar no complexo mas restrições quantoprodutivo e de traba- à realização de parali-lho do Brasil. Ve m o s sações nesse ramo,que trabalhadoras(es) tais como a exigênciados ramos industriais em notificar com ante-fabricam bens mate- cedência a decisão dariais, como os alimen- categoria em realizá-tos, o vestuário, os la e a manutenção deeletrodomésticos, as um mínimo de funcio-máquinas, os remé- namento de atividadedios, os automóveis, (por exemplo: mantera materia-prima para uma porcentagem da -6-
  5. 5. frota em funcionamento). Essa lei refere-se Setores que compõemaos serviços considerados essenciais, como o ramo de transportesé o caso também das trabalhadoras(es) nosetor saúde. A história das trabalhadoras(es) em trans- Os outros segmentos de trabalhadoras(es) porte no Brasil está intimamente relacionadatambém consideram o ramo de transportes com a política nacional adotada pelos sucessi-essencial, e isso pode ser observado em situa- vos governos para esse ramo. Tais políticasções de greves. Uma greve no setor ferroviário, levaram ao crescimento e à diminuição deportuário, marítimo e de transporte rodoviário investimentos e de incentivos aos distintosde cargas pode levar à interrupção de abasteci- meios de transporte existentes. Assim, presen-mento de bens de consumo; no setor metroviá- ciamos hoje o longo processo de desmantela-rio, ferroviário, aeroportuário e rodoviário inter- mento do transporte ferroviário que deu espaçomunicipal e interestadual pode significar que às grandes rodovias e, com isso o crescimento,pessoas não irão trabalhar, não irão à escola ... da categoria de trabalhadoras(es) rodoviários eUma greve no ramo de transportes certamente a diminuição dos ferroviários. Nos grandes cen-trará repercussões em outros setores do traba- tros urbanos emerge a categoria dos metroviá-lho e da economia, pois interrompe-se um elo rios a partir da década de 70. Grandes empre-importante do ciclo produtivo. sários centralizam o setor rodoviário e aéreo, O caderno de resoluções do IV Congresso formando um verdadeiro cartel. Privatizam-seda CNTT/CUT assim define o setor de trans- rodovias e empresas de transporte. Tambémportes: como decorrência da política nacional de trans- "Uma característica essencial dos transpor- portes, observam-se diferenças de oferta detes é que eles não constituem um fim em si meios de transporte nas áreas urbanas e ruraismesmo. Ao contrário, eles devem ser pensados do Brasil. Em geral, os moradores das zonascomo atividades meio, isto é, como alavanca rurais têm poucos meios de transportes coleti-fundamental para o processo de desenvolvi- vos, sendo que muitos deles, como é o casomento econômico e social do País. Os trans- dos bóias-frias, são transportados em cami-portes constituem assim, um setor estratégico nhões, expondo-os a maiores riscos de aciden-para a melhoria da mobilidade das pessoas e tes de trajeto.de bens , contribuindo dessa forma para a Apolítica de transportes no Brasil incentivoumelhoria da qualidade de vida" (p. 18) o transporte individual, articulando-se ao cresci- Uma outra característica também impor- mento da indústria automobilística, em detri-tante, presente em quase todas as atividades mento do transporte coletivo. Assim, fez umadesse ramo, é o fato de os usuários (os consu- opção política e pouco democrática, já que estamidores) estarem presentes no momento em opção sustenta-se no poder de consumo indivi-que o serviço é prestado (consumido). Como dual das cidadãs(ãos).será visto adiante, isso tem implicações impor- A CUT tem em sua base cerca de 703.463tantes para as condições de trabalho e para a trabalhadoras(es) dos setores de transportesaúde das trabalhadoras(es), mas, ao mesmo Aéreo, Terrestre e Marítimotempo, significa a possibilidade de ter nos usuá- Há uma grande diversidade de situações derios - muitos deles também trabalhadoras(es) - trabalho internamente a esse ramo o que impli-um aliado importante para a conquista de cará em condições de trabalho variadas. Dissomelhoria de condições de trabalho. decorrem diversos problemas de saúde e as -7-
  6. 6. Trabalhadores no ramo de transportesameaças à integridade física das trabalhado- de funções e cargos. Estão presentes, porras(es). exemplo, a secretária, o controlador de tráfego, A prática sindical visando a melhoria das o conferente de cargas portuárias, o cobra-condições de trabalho e saúde requer a adoção dor/trocador de ônibus, o bilheteiro de umade estratégias e meios para reconhecer e equa- estação de metrô, o funileiro, o mecânico, ocionar esses problemas bem como para enca- pintor. Essa é apenas parte de uma longa listaminhar a sua resolução. de trabalhadoras(es) que, além dos operado- res, estão envolvidos na garantia dos desloca- CONDIÇÕES DE TRABALHO mentos, lista esta impossível de ser esgotada E SAÚDE DAS nesse manual. TRABALHADORAS(ES) EM Essa grande diversidade tem implicações TRANSPORTE diretas na conformação das condições de tra- balho e, portanto, dos riscos aos quais os traba- É muito fácil ter-se a idéia de que o ramo de lhadoras(es) estão expostos. Estão presentestransporte congrega apenas aqueles trabalha- riscos de natureza:dores que operam os física, como o ruído,meios de transporte, vibração e radiação;como por exemplo, o química, como osmotorista, o motor- solventes e metaisneiro, o operador de pesados;metrô, o piloto de aero- mecânica, comonaves. No entanto, aqueles que provocamdeslocar pessoas e acidentes de trabalhocoisas envolve um (máquinas e equipa-complexo processo mentos);que garanta a condi- ergonômica, como ação dos meios para exigência de adoção deque o transporte se dê, posturas incômodas ebem como a própria forçadas;atividade de transpor- as situações decor-tar. Isto exige ativida- rentes da forma comodes características do se organiza o processosetor industrial (por exemplo nas atividades de de trabalho, como o trabalho em turnos emanutenção) e de serviços propriamente (ope- noturno, o trabalho aos finais de semana, oração, administração e tráfego). Internamente a ritmo de trabalho, as relações interpessoais, ocada um desses tipos de atividade - manuten- conteúdo do trabalho.ção, operação, administração e tráfego - hátambém diferenças importantes quando se O quê determina as condiçõescompara os setores Rodoviário, Aéreo, Ferro- de trabalho e a saúdeviário, Metroviário, Viário e Portuário. das trabalhadoras(es)? São distintas formas de organização do tra-balho, de instrumentos de trabalho e de traba- A exposição a esses riscos não é uma reali-lho propriamente, definindo a grande variedade dade naturalmente dada. Pelo contrário, a -8 -
  7. 7. adoção de tal ou qual tecnologia, de tal ou qual nossa sociedade é a busca do lucro para oscondição de trabalho é determinada pela forma proprietários.como se dão as relações de trabalho. Mesmo quando se trata de empresas estatais, Numa sociedade capitalista, o processo de a lógica é a de mercado. Nesse contexto, o traba-trabalho visa cumprir a função de gerar lucro lhador, de pessoa fica reduzido a recurso humano.para os empresários e não o bem-estar dos Desta forma, as condições de trabalho e decidadãos. Há basicamente duas formas para saúde dos trabalhadoras(es), passa a ser umafazer isso: cobrar mais pelos serviços presta- questão de natureza política e econômica e nãodos e economizar no modo como se faz esse apenas de ordem técnica.serviço. Na segunda forma busca-se economi-zar nos meios de produção (instrumentos de Principais riscostrabalho, produtos utilizados, local de trabalho, à saúde das trabalhadoras(es)por exemplo) e super-explorar o trabalho em transportehumano (extender a jornada de trabalho eintensificar o ritmo de trabalho, por exemplo). Esse manual não tem por objetivo esgotar a Vale dizer, então, que não é natural que se discussão de todos esses riscos e de seus efei-trabalhe em situações com altos níveis de tos para a saúde. Para suprir essas informa-ruído, manuseando produtos químicos como o ções, sugere-se consultar os outros fascículoschumbo e o benzeno, que se operem máquinas da coleção Cadernos de Saúde do Trabalha-e equipamentos perigosos e em ritmo intenso; dor do INST-CUT. Eles tratam do ruído, lesõesque não é naturalmente por esforços repetitivos,necessário adotar postu- acidentes com máquinas,ras incômodas e força- riscos químicos e sobre osdas. E por isso, as condi- métodos de avaliação deções de trabalho são riscos e de acidentes. Fazdeterminadas pela forma parte dessa coletânea,como o trabalho humano manuais que se dedicamé visto na sociedade - ou a outras categorias profis-seja a ideologia de traba- sionais e, também esteslho - que está associada poderão trazer conteúdosàs relações de trabalho. que sejam úteis para asNo nosso caso, o capita- trabalhadoras(es) emlista (proprietário dos transporte. Por isso, suge-meios de produção) rimos que eles sejam con-compra o trabalho ven- sultados.dido pelos trabalhado- Apresentamos abaixoras(es). O trabalho não é um quadro com os riscosrealizado visando garan- mais frequentes a quetir bem-estar e boa quali- estão expostos os traba-dade de vida e saúde lhadoras(es) de manuten-aos trabalhadoras(es) e ção do ramo de transpor-à população em geral. A tes. Decerto, uma série delógica que o governa em outros riscos não citados -9-
  8. 8. Trabalhadores no ramo de transportes QUADRO I Principais riscos de acidentes de trabalho , de doenças e de intoxicações para os trabalhadoras(es) de manutenção no ramo de transportes Acidentes de trabalho projeção de partículas - esmirilhadora,rebarbadora explosão por soldagem alogênica golpes com amoladoras, rebarbadoras incêndio com produtos inflamáveis queda de objetos metálicos e outros explosão de atmosferas deflagrantes queda de altura e no mesmo nível eletricidade radiação Doenças e intoxicações ruído vibração inalação de gases, fumos e vapores contato com solventes, tintas, etc... exposição à intempéries trabalho noturno e em turno alternado posturas forçadas e incômodaspoderão ser encontrados a depender da espe- venham a dificultar não só a continuidade decificidade de cada setor. trabalho na mesma atividade, mas gozar a vida Há uma série de produtos químicos utiliza- social e familiar plenamente.dos nas atividades de manutenção, os quais Já as atividades administrativas, técnicas epodem causar diversos problemas, como por de atendimento ao público apresentam asexemplo os neurológicos (tremores, esqueci- seguintes características: trabalho com compu-mento, dificuldade de manter atenção, nervo- tadores (com risco de contrair as lesões porsismo, etc..). Alguns desses produtos são os esforços repetitivos); trabalho de atendimentosolventes que podem conter benzeno, tolueno, telefônico ao público, presentes, por exemplo,estireno, xileno e os metais pesados ferro, nas companhias aéreas; trabalho de atendi-cobre, níquel, zinco, chumbo. Emprega-se mento pessoal ao público; diversas atividadesainda o amianto, uma fibra mineral cancerí- administrativas e técnicas de retaguarda às ativi-gena, em juntas de motor e lonas de freio. dades de operação, manutenção e viário. O tra- Por sua vez, os acidentes de trabalho (quei- balho nessas situações oferece poucos riscos demaduras, queda, cortes, perfuração) podem acidente de trabalho propriamente, mas explicalevar a perdas com sequelas importantes que muitos problemas de saúde física e mental. -10 -
  9. 9. Na operação temos grande diversidade de Essas frases, que povoam as conversassituações a depender do setor. Os trabalhado- dessas trabalhadoras(es), dizem muito sobreres no setor rodoviário urbano não podem quais são as principais agruras no seu trabalho:escapar do tráfego e da poluição ambiental (do é a grande exigência de esforço físico e mentalar, sonora, visual); para os rodoviários intermu- que trazem como conseqüência a fadiga e osnicipais, interestaduais e internacionais há os problemas de saúde mental.riscos de acidentes graves e os impedimentos Os problemas de saúde associados aode convívio familiar; também os aeronautas esforço físico e mental são de tal modo impor-sofrem essas dificuldades quanto aos relacio- tantes - acometem um grande número de traba-namentos familiares e as constantes mudanças lhadoras(es) - que tem feito com que diversosde fuso horário, no caso das viagens de longa estudos sejam desenvolvidos, buscando carac-distância; para os metroviários há o trabalho terizar as condições de trabalho que deman-isolado, em ambientes em geral monótonos; os dam esses esforços e os efeitos para a saúdeferroviários têm vivenciado situações seme- das trabalhadoras(es). São estudos realizadoslhantes às acima citadas e a crescente automa- por serviços públicos da área da saúde e do tra-ção do trabalho. balho, por universidades e institutos de pes- Por sua vez, no tráfego viário, ao organizar quisa, pelos sindicatos e centrais de trabalha-a circulação de veículos e pedestres, fiscaliza doras(es) e pelas empresas.e promove práticas educativas. Por serem ativi- Sabemos que essas queixas também estãodades realizadas ao ar livre, as trabalhado- presentes entre trabalhadoras(es) desse ramoras(es) estão sujeitas às intempéries e à polui- em outros países, inclusive nos de Primeiroção (sonora, visual e do ar) durante longas jor - Mundo, como Suécia, Dinamarca, Noruega,nadas de trabalho em pé, ocasionando proble- Inglaterra e Espanha. Se nesses países, ondemas de articulação dos membros inferiores, de as condições de vida são melhores identificam-coluna e de perda auditiva. se problemas significativos de saúde entre essas trabalhadoras(es), podemos ter uma Um problema generalizado: idéia de como eles se agravam quando nos o esforço físico e mental voltamos às condições de trabalho em países como o Brasil, onde as condições de infra- Quando vamos aprofundando o conheci- estrutura viária, portuária e aeroportuária émento sobre os problemas que acometem as precária; onde as condições de vida da popula-trabalhadoras(es) de transporte, vemos que há ção que transporta bem como a que se servealgo presente de modo quase generalizado entre dos transportes muitas vezes ultrapassou oeles, independente da função e do setor em que limite da dignidade; onde não há prioridadetrabalham. Começamos a compreender porque para o transporte coletivo; onde pessoaseles sentem que carregam o Brasil nas costas. podem gastar até 2 horas por dia para serem Se ouvirmos os motoristas de coletivos transportadas de suas casas ao trabalho; ondeurbanos, é muito comum vê-los dizendo que a violência em alguns centros urbanos fazchapéu de bico mistura, os metroviários parte do cotidiano e, infelizmente, seja vistodizendo que fulano é código 13, os aeropor- como normal.tuários consideram que o trabalho é pesado, Nos países europeus há vários estudosque eles ficam transpassados, que o trabalho sobre problemas físicos, como os de coluna, eabala o sistema nervoso etc... problemas mentais, como o que denominamos -11 -
  10. 10. Trabalhadores no ramo de transportesde stress. Há também um grande número de nado? Será a tecnologia empregada pelasestudos sobre o trabalho e a saúde dos pilotos empresas? Será o conteúdo do trabalho quede aeronaves pois considera-se que a segu- demanda muita responsabilidade ou, ao con-rança dos passageiros depende grandemente trário, é monótono demais? Poderíamos con-das condições de trabalho e da saúde dessas cluir que se deve à rigidez de procedimentostrabalhadoras(es). Motoristas de coletivos urba- ou à existência de procedimentos incon-nos são também muito estudados pois basta gruentes? Não seriam então as relaçõesolhar o seu trabalho para concluir-se que é um interpessoais, muitas vezes com o público, etrabalho desgastante. Os motoristas rodoviários o poder advindo dos escalões superiores datambém são bastante estudados pois as longas hierarquia? Na verdade, é tudo isso e muitasjornadas, o trabalho isolado e a pressão do outras coisas mais. E isso tudo é determi-tempo são importantes para os problemas de nado pela forma como se organiza o pro-saúde. Enfim, há muito conhecimento acumu- cesso de trabalho.lado sobre as trabalhadoras(es) do ramo de No caso dos problemas de esforço físico etransporte. Todos esses estudos confirmam a mental não se pode dizer que há apenas umvivência das trabalhadoras(es). fator que seja exclusivamente responsável. Ao Sabe-se que há uma série de problemas de contrário, dizemos que há um contexto de tra-saúde associadas ao esforço físico e mental, balho conformado pela presença e interaçãocomo por exemplo: entre todos aqueles fatores citados acima, e os problemas de coluna e articulações outros mais, que também mudam a cada dia de as lesões por esforço repetitivo trabalho e a cada momento. irritabilidade emocional nervosismo em suas distintas manifesta- A fadigações sensação de esgotamento mental (dificulda- A alta freqüência da fadiga entre as traba-des em manter a atenção, em desenvolver o lhadoras(es) em transporte é inegável. Issoraciocínio, dificuldades de memorização, etc...) pode ser observado pelo fato de existirem publi- problemas gástricos e intestinais (úlceras, cações de entidades sindicais específicasgastrites, colites, dores de estômago) sobre esse assunto. hipertensão e problemas cardíacos A fadiga é caracterizada por sensações de abuso de bebidas alcoólicas e uso de esti- cansaço físico e mental e ela passa a ser consi-mulantes derada fadiga patológica ou crônica quando o Interessante notar que as trabalhadoras(es) cansaço não é recuperado com os períodos dedo ramo de transportes reconhecem bem que sono e descanso. Começam a aparecer distúr-esses são os problemas de saúde que os atin- bios de sono, insônia, irritabilidade, sensaçãogem. Reconhecem pelas informações dadas de desânimo, dificuldade para realizar qualquerpelos colegas e pela experiência pessoal no atividade, de trabalho ou não, perda de apetite.trabalho. Sentimo-nos fatigados quando temos a sensa- É difícil dizer o quê especificamente no ção de que não dá mais para trabalhar, detrabalho em transporte pode explicar esses que já passou do limite, quando estamosproblemas: Será o ritmo de trabalho, a pres- transpassados.são para cumprir horários e metas, ou a dura- Muitas vezes pensamos que a fadiga é umção da jornada ou o trabalho em turno alter- problema apenas físico (o corpo cansado) e - 12-
  11. 11. devido aos esforços físicos no trabalho, como aspecto desgastante do trabalho. Cada clientepor exemplo, quando se carregam e tranpor- atendido tem suas exigências, sua pressa e,tam pesos manualmente (como as contínuas por vezes, pouca disponibilidade para com-exigências de movimentação no carregamento preender que quem os atende também é gente.de objetos na carga e descarga de trabalho Muitas vezes, esses clientes trazem proble-nos portos e aeroportos); o trabalho dos moto- mas a serem resolvidos mas nem sempre oristas e ajudantes de caminhão; as diversas atendente tem autonomia ou condições parafunções nos setores de manutenção. No responder às solicitações pois, em geral, asentanto, isso é apenas parcialmente verda- regras de funcionamento das empresas dãodeiro. Ocorre que, além de a fadiga estar pouca margem para contemplar a situação par-associada a esses esforços devido à atividade ticular de cada cliente.física intensa, há também uma série de situa- Em geral, aquelas trabalhadoras(es) queções nas quais aparentemente não há esforço estão em contato direto com os clientes/usuá-do corpo, como por exemplo o trabalho de rios - mesmo que através de um atendimentocontrole de tráfego nas salas de controle do telefônico - são consideradas o cartão de visitasmetrô e na ferrovia, nos aeroportos e no sis- da empresa e, por isso, muitas exigências lhestema viário das cidades; nas diversas ativida- são feitas, como: aparência física, cordialidade,des administrativas e técnicas em todos os tom de voz, etc. Ser considerado o cartão deramos. Ficar sentado, operando a vigilância de visitas da empresa sem dúvida implica em muitoequipamentos automatizados e esperando esforço mental e emocional. Pode-se observarque alguma intercorrência apareça para atuar essa situação no caso das(os) comissárias(os)pode ser sentido como tão desgastante de bordo, das(os) atendentes de balcão emquanto transportar várias caixas de objetos empresas aéreas, etc.durante a mesma jornada de trabalho. Isso Da mesma forma que essas atividades nãoporque o nosso corpo também requer movi- implicam em esforço mental apenas, o traba-mentação. Ser obrigado a ficar parado, com lho de caminhoneiros, de manutenção e depouco espaço de movimentação também carga e descarga também não demandaexige esforço físico. apenas esforço físico. Eles têm que estar Ao lado disso, muitas vezes esses traba- atentos para cumprir metas, para não cometerlhos de vigilância de equipamentos têm uma erros no trabalho, sofrem a pressão por faze-dupla exigência de natureza contraditória: rem parte de um processo de trabalho quemanter-se atento e pronto a atuar frente às nem sempre lhes dá condições adequadas deintercorrências mas, ao mesmo tempo, o local trabalho. Trabalhar no setor viário implicade trabalho pode ser extremamente monó- também em ter nas mãos grande responsabili-tono. É um trabalho que gera a sonolência, dade, onde acidentes de trânsito, às vezes demas, ao mesmo tempo, requer atenção. Esse grandes proporções, podem ocorrer ou causarexemplo, que não é o único, mostra que há o grandes transtornos para a população comoesforço mental. um todo, principalmente nos grandes centros Há ainda aqueles tipos de atividade nas urbanos, nas ferrovias e rodovias. Dado oquais o trabalho dá-se mediante o grande con- crescimento do tráfego aéreo em aeroportostato com o público, ainda que não requeira de grandes centros, os riscos de acidentesgrande movimentação física. O contato inter- aumentaram.pessoal com o público é sabidamente um É importante ressaltar que todo e qualquer - 13-
  12. 12. Trabalhadores no ramo de transportestrabalho sempre demandará algum nível de los que exigem sua ação. Em geral as situa-esforço físico e mental simultaneamente, ainda ções que causam acidentes aparecem rapida-que possa ser identificada a preponderância de mente, requerem trabalhadoras(es) alertas,uma ou de outra. É impossível separar corpo e descansados e tranqüilos. Além disso, o maismente. Importante ressaltar também que dentre importante, é contar com máquinas e equipa-os esforços mentais estão os de ordem emocio- mentos que sejam seguros.nal e não apenas a atenção, o raciocínio e a Os motoristas rodoviários, com o objetivoresponsabilidade. de cumprir metas tomam os famosos rebites, As diversas solicitações, os diversos proble- o que agrava ainda mais o problema e, aomas e demandas no trabalho (conteúdo de tra- mesmo tempo, tomam para si a responsabili-balho, tipo de atividade, contato ou não com o dade de dar conta do trabalho. Tomar os rebi-público) serão agravados caso a jornada de tra- tes é declarar que são os motoristas quebalho seja muito longa; caso as viagens impli- devem se adaptar às condições para cumprirquem em mudanças de fuso horário; caso os os prazos impostos pelas empresas.prazos sejam apertados, muitas vezes impossí- Diante da complexidade que caracteriza aveis de serem cumpridos; caso o trabalho seja fadiga, o mais adequado é dizer que ela éorganizado em turnos alternados, com siste- simultaneamente física e mental, até porque, omas de folgas que não respeitem os finais de corpo e a mente não podem ser separados.semana; caso o trabalho exija que as pessoaspousem fora de casa, como ocorre no trans- Os problemas deporte rodoviário, ferroviário, portuário e aero- saúde mentalnauta. Entre as aeronautas, são freqüentes asalterações do ciclo menstrual devido às mudan- o nervoso que eu sinto deve-se ao meuças de fuso horário. jeito ou ao trabalho que faço? Um dos aspectos mais estudados com rela- Sinto-me assim por causa da minha natureza?ção ao trabalho em turnos alternados refere-se Será que eu sou fraco?ao descanso e sono. Sabidamente, o sono Essas são perguntas que sempre nos fazemos.noturno tem uma qualidade melhor do que o Sempre queremos saber a causa dos problemassono diurno. Para driblar a irregularidade dos vividos. E sempre buscamos uma única causa.horários de sono, há casos de trabalhado- Na nossa sociedade temos por hábito con-ras(es) que adotam a auto-medicação. Tomam cluir que os problemas de saúde mentalestimulantes para se manterem acordados à sempre se devem ao jeito e às estórias de vidanoite, e remédios para dormir de dia, forçando o das pessoas: ela sempre foi nervosa, a famí-corpo a funcionar não de acordo com o relógio lia dele tem problemas, ele teve um problemabiológico, mas de acordo com o relógio criado quando era criança. Esse tipo de explicaçãopela empresa. Essa é uma prática perigosa acaba culpabilizando as pessoas pelo seu sofri-para a saúde, e há casos em que essa combi- mento no trabalho. Quando adotamos essenação de remédios foi determinante para a raciocínio para pensar os problemas de saúdeocorrência de acidentes. mental das trabalhadoras(es), é como se as Afadiga está associada a ocorrência de aci- pessoas tivessem a obrigação de se encaixardentes de trabalho, incluindo-se os de trânsito. nas regras que organizam o nosso trabalho.Isto porque, a fadiga leva as trabalhadoras(es) Parece que dizemos o seguinte: o trabalho éa perderem a capacidade de resposta a estímu- assim mesmo, a gente deve se adaptar a ele. -14 -
  13. 13. Como se a organização do trabalho fosse algo serviço que é nervoso; b) independente do jeitonatural criado por Deus e não pelos homens. de ser da trabalhadora(dor) haverá um Essa explicação que culpabiliza as pessoas momento no qual ele também não aguentará;simplesmente esquece que pessoas são dife- c) mesmo a trabalhadora(dor) santa(o) temrentes, têm estórias diferentes, gostam de um limite. Sendo assim, a causa dos problemascoisas diferentes, têm diferentes habilidades, de saúde mental no trabalho reside na falta detêm diferentes ritmos, constróem diferentes sintonia na relação trabalho-trabalhador. E aexpectativas e projetos de vida. Há dias em que sintonia é possibilitada pelo exercício de con-estão bem-humoradas e outros não, há dias em trole da trabalhadora(dor) sobre os contextosque estão com toda a paciência do mundo e em de trabalho. Ter controle significa poder interfe-outros não querem ver ninguém pela frente. E rir no planejamento do trabalho.as pessoas têm o direito de ser como são. Pode-se identificar essa falta de sintonia no relacionamento com os usuários, com o funcio- Gente é assim! namento e ritmo das máquinas e equipamen- tos, nos relacionamentos com colegas de traba- Acontece que quando as empresas contra- lho, com os chefes e subordinados, aos horá-tam as pessoas, o fazem adotando uma lógica, rios apertados, à desorganização, à impossibili-um raciocínio que acredita que pessoas podem dade de compatibilizar o cumprimento deser transformadas em recursos humanos. Se regras e procedimentos com o andamento realpensarmos bem, a palavra recurso reduz a do trabalho, dentre outras coisas.pessoa a coisa, a objeto, a máquina. Uma Quando não é possível exercer essa açãomáquina bem-humorada sempre, que não falhe, que sintonize o trabalho com o jeito do trabalha-que não tenha preferências, e que não reclame. dor, os problemas de saúde mental aparecem,É certo que em algumas funções e cargos quer- sinalizando que o limite foi ultrapassado. Elesse que essa máquina seja inteligente e criativa, não se manifestam apenas na forma de doen-mas ainda assim não deixa de ser uma máquina. ças estruturadas; não necessariamente fazem Muitas vezes, o trabalho é organizado de tal com que as trabalhadoras(es) sejam afastadosforma que as possibilidades de as trabalhado- do trabalho porque podem aparecer como sofri-ras(es) regularem os acontecimentos são míni- mento emocional, cansaço mental, perda damas e não deixam espaço para que elas procu- paciência, pensamentos depressivos, agressi-rem adequar as exigências do trabalho ao jeito vidade, necessidade de descarregar emde cada um naquele dia. Dizemos que há traba- alguém, dificuldade de raciocinar e de se man-lhos nos quais as trabalhadoras(es) têm pouco terem atentos.controle. Ter pouca possibilidade de controle Enfim, como dizem as trabalhadoras(es): oimplica em desrespeitar o limite que cada um sistema nervoso fica abaladode nós agüenta. E não podemos negar que Nesse momento, alguém poderia dizer:pessoas têm limite, que varia de dia para dia e mas isso é muito complicado!. Diríamos que éde hora para hora. complexo e não complicado. Diríamos ainda Sabiamente, um trabalhador do ramo de que querer simplificar essa complexidade nostransportes disse: a pessoa pode ser o maior conduz a transformar pessoas em recursossanto, mas uma hora ela também vai acabar humanos. É também essa complexidade queestourando. Esse serviço é nervoso. Essa fala nos explica por que, de 20 pessoas trabalhandomostra-nos alguns aspectos importantes: a) o na mesma função, na mesma empresa e sub- -15 -
  14. 14. Trabalhadores no ramo de transportesmetidas às mesmas regras, podemos ter 10 sas desses controladores mostram que a faltaque adoecem e outras 10 que suportam apa- de equipamentos adequados e de condiçõesrentemente bem trabalhar sob essas condi- mínimas de trabalho exigem esforços sobre-ções. Das 10 que adoecem, temos ainda uma humanos para garantir a segurança dos vôos.variedade de quadros: alguns sentem dor de Eles têm crises emocionais, sofrem de depres-estômago, outras têm colite, outras ainda são e relatam problemas de convívio familiar eobservam a pressão arterial sofrer alterações. social devido às altas exigências do trabalho.Por outro lado, observamos que pessoas traba- Essa situação se agrava ainda mais porque olhando em situações completamente diferentes número de vôos aumenta a cada dia e, conse-desenvolvem quadros patológicos semelhan- qüentemente, o volume de trabalho. Condiçõestes: o mecânico de manutenção, o maquinista, semelhantes são vividas pelos controladoreso controlador de tráfego e o bilheteiro de esta- de tráfego ferroviário e metroviário.ção podem, por exemplo, desenvolver gastrite Entre os aeroportuários, observa-se que oe sofrimento emocional. trabalho realizado no pátio implica em grande Além do sofrimento vivido pelas próprias esforço físico e mental, estando expostos àstrabalhadoras(es), os problemas de saúde intempéries, ao barulho em níveis absurdos. Tra-mental podem repercutir no relacionamento balham em condições nas quais há excesso defamiliar, explicando conflitos e violência contra estimulações (visual, auditiva e poluição do ar).cônjuges, filhos e parentes próximos. Muitas Assim, é inevitável que eles fiquem zuretas.vezes as trabalhadoras(es) demonstram seusofrimento através do desinteresse pelas ativi- Automação nodades de lazer e culturais. ramo de transportes Uma frase freqüentemente dita pelas traba-lhadoras(es) do ramo de transportes é: eu A introdução da automação no ramo degosto do que eu faço mas não do jeito que tem transportes tem crescido significativamente, prin-que fazer. Vemos que de modo geral, sentem cipalmente em alguns setores nas áreas de ope-orgulho do que fazem, conhecem e valorizam o ração, de controle de tráfego, de atendimento esignificado social e econômico do seu trabalho, de administração. E, mais recentemente, vimosmas gostariam de poder fazê-lo de um modo a introdução da catraca eletrônica no transportediferente. Gostariam de poder interferir no pla- rodoviário urbano. Se de um lado a automaçãonejamento do trabalho e contar com equipa- pode significar maior segurança e conforto; dementos adequados de modo a diminuir o outro, ela está associada a maior esforço mental,esforço físico e mental e, conseqüentemente, a problemas visuais, à lesão por esforço repetitivo,fadiga e os problemas de saúde mental. à monotonia. De modo geral, o planejamento do Uma menção especial deve ser feita à situa- trabalho é realizado privilegiando-se a otimiza-ção dos controladores de tráfego aéreo (aero- ção da tecnologia implantada e não conside-portuários e militares da aeronáutica) que car- rando o limite das pessoas. Além disso, como oregam em suas mãos grande responsabilidade emprego de tecnologias informatizadas requerpelo transporte de aeronaves. Trata-se de um menos quantidade de trabalho humano, opta-setrabalho extremamente nervoso pois a por reduzir o número de postos de trabalho aotomada de decisão que orienta os pilotos de invés de reduzir a jornada semanal de trabalho,aeronaves pode evitar a ocorrência de grandes o que manteria o nível de empregos.acidentes aéreos. Relatos dramáticos de espo- A adoção de novas formas de organização -16-
  15. 15. do processo de trabalho e da automação pode podem gerar benefícios para os usuários -modificar o conteúdo do trabalho, do ritmo e o quando, por exemplo, o operador imprimemodo como se dinamizam as relações interpes- maior velocidade nos carros - e para gerentessoais. Cada vez mais os controles gerenciais e empresários, ao burlarem regras inaplicáveissobre as trabalhadoras(es) estão embutidos frente aos problemas reais ou aumentando anos equipamentos informatizados, muitas produtividade. É por isso que quando aeronau-vezes prescindindo do encarregado ou supervi- tas e aeroviários fazem a operação-padrão, osor para garantir as metas gerenciais. Ao lado ritmo de trabalho diminui, a produtividade cai,disso, criam-se novos papéis de trabalho atra- reduzem-se os lucros dos empresários e osvés dos quais se exige a polivalência e o usuários ficam irritados.aumento de responsabilidade sem com isso Esses jeitinhos melhoram o trabalho eaumentar a autonomia das trabalhadoras(es) fazem o trabalho andar mais.sobre as atividades que desenvolvem. Diante das contínuas inovações novos pro- O trabalho no ramoblemas de saúde poderão emergir. de transportes é penoso Buscando amenizar Dadas as características do trabalho no ramo as exigências do trabalho de transportes, muitas das atividades aí exerci- das foram consideradas penosas pela lei da Pre- As trabalhadoras(es) não ficam passivos vidência Social que em 1960 definiu as regrasfrente às diversas exigências do trabalho. Ao para a aposentadoria especial . Alógica adotadacontrário, buscam evitar ao máximo as conse- por essa lei é a de que há determinadas ativida-qüências da falta de sintonia entre os contextos des profissionais que potencialmente desgastamde trabalho e o jeito de cada um. Desta forma, mais a saúde dos trabalhadoras(es) e, por isso,procuram evitar ao máximo as doenças, os aci- eles teriam direito a se aposentar com menordentes e o sofrimento no trabalho. Para tanto, tempo de trabalho do que outros. Dentre essescriam jeitinhos próprios para lidar com a motivos estava a penosidade, que, embora nãosituação. São formas de se adaptar e de mudar contasse com uma clara definição, podia-seas prescrições do trabalho de modo a amoldar, deduzir que era devido a esforços, sofrimentoso máximo possível, o que deve ser feito às físicos e mentais.características pessoais de cada um. Mas alguém poderia contra-argumentar: Tais práticas funcionam como se fôsse um mas qualquer trabalho gera sofrimento! Dedesabafo. Em geral, os(as) trabalhadoras(es) fato, momentos de sofrimento, de esforço e deconstróem essas estratégias de adaptação incômodo estão presentes em qualquer traba-coletivamente; constróem também uma lingua- lho, mesmo naqueles que gostamos e quegem própria que possibilita manter a privaci- escolhemos fazer. Porém, o problema é quandodade mesmo estando em público. eles são sentidos como demasiados, quando Se de um lado, esses jeitinhos possibili- sentimos que fomos transpassados, denun-tam amenizar os esforços demandados pelo ciando que o limite subjetivo foi desrespeitadotrabalho, de outro eles não resolvem o pro- e, além disso, não temos meios para interferirblema em sua origem (mudando as regras, o no trabalho. Quando o sofrimento, o esforço e oritmo de trabalho e os procedimentos). É bom incômodo passam a explicar os problemas defrisar que algumas dessas práticas também saúde física e mental. -17 -
  16. 16. Trabalhadores no ramo de transportes do trabalhador requerem um trabalho contínuo A AÇÃO DAS de identificação e análise dos problemas, elei- ENTIDADES ção de prioridades e definição de estratégias SINDICAIS para atuar em vários níveis. por ser um ramo iminentemente prestador de Para dar conta desses problemas acima dis- serviços, deve-se, quando possível, articularcutidos, deve-se: ação sindical com o movimento social mais organizar as Comissões de Saúde e Traba- amplo, ou seja, com a população que se utilizalho (COMSATs) nos sindicatos; dos serviços prestados. atuar em sintonia com a CUT nas diversasinstâncias; Identificando organizar a ação sindical no local de traba- e analisandolho, através das CIPAs etc... os problemas Alguns aspectos devem ser reconhecidoscomo norteadores da ação sindical em saúde: 1. Um princípio: uma primeira pergunta diz ter como meta alcançar a melhoria das con- respeito a quem pode identificar os problemasdições e da organização do trabalho. Isto de condições/organização do trabalho e deporque, se são elas que não respeitam o limite saúde. Entendemos que são as trabalhado-das pessoas, de nada adianta apenas tratar as ras(es) que vivenciam cotidianamente e reali-trabalhadoras(es) já adoecidas(os) e acidenta- zam o trabalho os que têm um conhecimentodas(os); insubstituível sobre o que é bom e o que é ruim as condições de trabalho que afetam a na atividade laboral. Em função disso, deve-sesaúde dos trabalhadores também afetam a iniciar a identificação desses problemas pelosegurança e a quali- que dizem as trabalha-dade dos serviços pres- doras(es). Essa visão étados à população; contrária àquela de que não existem procedi- apenas os técnicosmentos-padrão que especializados podempoderão ser adotados proceder à identificaçãopara todas as catego- e análise dos proble-rias e situações; mas. essas ações não 2. níveis de identifi-poderão ter apenas cação dos problemasuma abordagem téc- de saúde e condi-nica, mas requererá ções/organização douma ação política, atra- trabalho: (a) no âmbitovés das centrais sindi- de cada categoria decais, sindicatos, comis- trabalhadoras(es); (b)sões por local de traba- no âmbito da base delho e CIPAs, envol- cada sindicato; (c) novendo ativamente os âmbito de cada localtrabalhadores de base; de trabalho. É em as ações em saúde função da existência -18-
  17. 17. desses vários níveis que se coloca a importân- goria. O mesmo pode ser buscado nos servi-cia em contar com organizações de trabalha- ços públicos de saúde que atendam adultos.dores em cada local de trabalho que poderão (d) No âmbito de cada local de trabalhoatuar juntamente com os diretores sindicais podem ser empregadas as reuniões compara o delineamento de uma política sindical grupos de trabalhadoras(es) por área, setor,de saúde. turno, etc...; as conversas individuais; aplica- 3. como fazer o levantamento dos proble- ção de questionários. Uma metodologiamas. Não existe um jeito melhor de se fazer importante a ser empregada é o mapeamentoesse levantamento. Tudo vai depender da de riscos, já bastante disseminada no meioorganização das trabalhadora(es) no local de sindical no Brasil, influenciada pelo movi-trabalho e em seus sindicatos. Vai depender mento sindical italiano. Quanto aos acidentestambém das condições materiais que se têm. de trabalho, há a metodologia da árvore deA técnica não é o mais importante, mas sim causas.garantir que as trabalhadoras(es) efetiva- 4. a busca de assessoria e informações téc-mente participem de modo a possibilitar o nicas: Após a identificação dos problemas dedelineamento de uma ação sindical em condições/organização do trabalho e saúde asaúde. (a) É importante haver um espaço nos partir do que informam os trabalhadores, muitassindicatos no qual trabalhadoras(es), mesmo vezes teremos necessidade de aprofundar oindividualmente, possam apresentar suas conhecimento sobre efeitos à saúde, de melhorqueixas e problemas. E talvez os sindicatos caracterizar os problemas de saúde e as doen-possam aproveitar estruturas que já possuem ças, de identificar as formas de melhoria dase que são procurados por muitos trabalhado- condições/organização do trabalho e tambémres, como por exemplo os serviços de asses- as de tratamento dos problemas de saúde jásoria jurídica. Cada uma dessas queixas indi- instalados. O aprofundamento da análiseviduais poderá fazer parte de um banco de poderá ser obtido através de informações edados que, ao lado de outras fontes, poderá assessoria técnica na CUT, nas Universidades,elaborar um perfil de problemas naquela base nos Serviços Públicos de Saúde do Trabalho esindical. Há diversos modos de construir um órgãos de pesquisa.mapeamento de problemas na categoria e 5. definindo prioridades de ação: aqui tambémprecisamos dele para elegermos prioridades não há um melhor jeito de definir as prioridades. Ode ação sindical em saúde. (b) Os encontros, importante é que elas sejam discutidas e elabora-seminários e cursos sobre saúde e condi- das com as trabalhadoras(es) envolvidas emções/organização do trabalho oferecidos cada situação e/ou local de trabalho.também para trabalhadoras(es) de base éuma oportunidade na qual duas atividades A formação empodem ocorrer simultaneamente: a de forma- saúde e trabalhoção e a de identificação de problemas. (c) Noslocais onde existam Centros de Referência de De acordo com o IV Congresso Nacional daSaúde do Trabalhador (CRSTs), além de os CNTT, os sindicatos e a CUTdevem:sindicatos participarem ativamente de sua formar conselheiros de saúde, assessores,gestão e das ações nas empresas de sua cipeiros através de seminários e cursos;base, pode-se buscar informações sobre realizar pesquisas caracterizando o impactoatendimentos de trabalhadoras(es) da cate- das condições de saúde sobre a saúde; -19 -
  18. 18. Trabalhadores no ramo de transportes formar dirigentes; CC.OO. - Apuntes para um método de tra- divulgar a metodologia de Árvore de Causas; bajo con los delegados de prevención. Espa- promover cursos de iniciação para cipeiros; nha, s.d. promover formação voltada para atacar os CNTT-CUT - Resoluções e memória do IVefeitos da periculosidade, penosidade e insalu- Congresso Nacional de Trabalhadores embridade, buscando a superação destas condi- Transporte da CUT. São Paulo, setembro deções de trabalho e da monetização da saúde. 1999. Sugerimos que seja consultado o fascículo CUT - Saúde, meio ambiente e condições de1 dos Cadernos de Saúde do Trabalhador do trabalho - conteúdos básicos para uma açãoINST-CUT, Construindo a organização no local sindical em saúde. São Paulo, outubro de 1997.de trabalho – Manual de ação sindical em Dejours, Ch. - A loucura do trabalho - estudosaúde do trabalhador e meio ambiente, espe- de psicopatologia do trabalho. São Paulo:cialmente dedicado à ação sindical em saúde. Oboré, 1987. D I E S AT - As condições de trabalho na área operativa - estudo na OPM realizado ENRIQUECENDO pelo DIESAT e Sindicato dos Metroviários AS INFORMAÇÕES de São Paulo. Relatório de Pesquisa, SOBRE A SAÚDE mímeo, 1985. DOS TRABALHADORES DIESAT - De que adoecem e morrem os tra- balhadores. São Paulo, Imesp, 1984. Recomendamos a consulta dos manuais que DIESAT - Insalubridade - morte lenta no tra-fazem parte dessa série de publicações da CUT. balho. São Paulo, DIESAT/Oboré, 1989.Recomendamos DIESAT - Relatóriotambém a busca de sobre condições de tra-informações na central balho e saúde dos aero-sindical, em sindicatos nautas. Relatório de pes-e bibliotecas das facul- quisa, 1984.dades, universidades Fetcomar-CC.OO. -e órgãos de pesquisa. Fatiga y conducción enEm geral, as centrais carretera. Madrid, 1997.sindicais e os sindica- Ministerio de Trabajo,tos mantêm intercâm- Empleo y Formación debio com sindicatos e Recursos Humanos.centrais de outros Encuesta sobre condicio-países, os quais nes de trabajo en elenviam material de transporte internacionalinteresse dos trabalha- de cargas por carreteras.dores. Abaixo encon- (Mercosur, sub-grupo detram-se algumas indi- trabajo 10, comisióncações de leitura. temática 3). Argentina, Acordos coletivos abril 2000.dos diversos setores Sato, L. - A r e p r e-que compõem o ramo. sentação social do tra- -20-
  19. 19. balho penoso. In: M.J.P. Spink (org.) O trabalho dominado. Rio de Janeiro:conhecimento no cotidiano - as representa- Cortez/UFRJ Editora, 1994.ções sociais na perspectiva da psicologia Sindicato dos Trabalhadores em Trans-social. São Paulo: Brasiliense, 1993. porte de São Paulo, Departamento de Medi- Seligmann-Silva, E. - Saúde mental e auto- cina Preventiva da Faculdade de Medicina damação: a propósito de um estudo de caso no USP, Fundacentro-CTN - Estudo das condi-setor ferroviário. Cadernos de Saúde Pública, ções de trabalho e saúde dos motoristas e13(supl. 2): 95-109, 1997. cobradores urbanos de São Paulo. Relatório Seligmann-Silva, E. - Desgaste mental no de Pesquisa, 1991. -21-
  20. 20. -22-
  21. 21. Rua Caetano Pinto, 575 - Brás São Paulo - CEP 03041-000 Tel.: (0XX11) 3272 9411 ramais: 153 e 291 Fax: (0XX11) 3272 9610Homepage: www.instcut.org.br E-mail: inst@instcut.org.br Diretor responsável Remigio Todeschini EQUIPE TÉCNICA Coordenador executivo Domingos Lino Consultor técnico Nilton Freitas Assessores técnicos Fátima Pianta Luiz Humberto Sivieri EQUIPE DE FORMAÇÃO Escola São Paulo São Paulo/SP Escola Sul Florianópolis/SC Escola Sete de Outubro Belo Horizonte/MG CENTRALÚNICADOS TRABALHADORES Escola Centro Oeste Rua Caetano Pinto, 575 - Brás - CEP03041-000 - São Paulo - SP- BRASIL Goiânia/GO Tel.: (0XX11) 3272 9411 - Fax: 3272 9610Escola Marise Paiva de Moraes Homepage: www.cut.org.br - E-mail: executiva@cut.org.br Recife/PE Escola Amazonas Belém/PA EXECUTIVA NACIONAL DACUT - 1997/2000 Escola Chico Mendes Presidente: João Antonio Felício. Vice-Presidente: Mônica Valente. Porto Velho/RO Secretário Geral: Carlos Alberto Grana. Primeiro Secretário: Remígio Todeschini. Tesoureiro: João Vaccari Neto. Secretário de Relações Capa Internacionais: Kjeld Aagaard Jakobsen. Secretária de Política Sindical: Marco Godoy Gilda Almeida de Souza. Secretário de Formação: Altemir Antonio Tortelli.Projeto gráfico e diagramação Secretária de Comunicação: Sandra Rodrigues Cabral. Secretário dePIXEL Comunicação e Design Políticas Sociais: Pascoal Carneiro. Secretário de Organização: Rafael Freire Neto. Diretoria Executiva: José Jairo Ferreira Cabral, Maria Fotolito Ednalva Bezerra de Lima, Elisangela dos Santos Araújo, Luzia de Oliveira Kingpress Fati, Rita de Cássia Evaristo, Lúcia Regina dos Santos Reis, Jorge Luis Martins, Lujan Maria Bacelar de Miranda, Temístocles Marcelos Neto, José Impressão Maria de Almeida, Júnia da Silva Gouvêa, Wagner Gomes, Gilson Luis Kingraf - gráfica e editora Reis, Júlio Turra. Suplentes: José Gerônimo Brumatti, Francisco Alano, Aldanir Carlos dos Santos, Wanderley Antunes Bezerra, Rosane da Silva, OUTUBRO 2000 Dirceu Travesso, Mônica Cristina da S. Custódio.

×