A complicada arte de ver!

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A complicada arte de ver!

  1. 1. A COMPLICADA ARTE DE VER Rubem AlvesEla entrou, deitou-se no divã edisse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meusprazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, ostomates, os pimentões _é uma alegria!
  2. 2. Entretanto, faz uns dias, eu fuipara a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas devezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nuncahavia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo arosácea de um vitral de catedral gótica.
  3. 3. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, setransformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmoaconteceu quando cortei os tomates, ospimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
  4. 4. Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu melevantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", dePablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhedisse: "Essa perturbaçãoocular que a acometeu é comum entre os poetas.
  5. 5. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causouassombro: Rosa de águacom escamas de cristal.Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
  6. 6. Ver é muito complicado.Isso é estranho porque osolhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física éidêntica à física óptica deuma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do ladode dentro. Mas existe algona visão que não pertence à física.
  7. 7. William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore queo sábio vê não é a mesmaárvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali estáuma epifania do sagrado.
  8. 8. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque elesujava o chão, dava muito trabalho para a suavassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
  9. 9. Adélia Prado disse: "Deusde vez em quando me tira a poesia. Olho para umapedra e vejo uma pedra".Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
  10. 10. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastantenão ser cego para ver as árvores e as flores. Nãobasta abrir a janela paraver os campos e os rios",escreveu Alberto Caeiro,heterônimo de FernandoPessoa. O ato de ver não é coisa natural.
  11. 11. Não é bastante não sercego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
  12. 12. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade éuma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho".
  13. 13. Não sei se Cummings seinspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora osouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
  14. 14. Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-nosubitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".
  15. 15. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De formaque, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operáriofoi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
  16. 16. A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemosobjetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação.
  17. 17. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas,quando os olhos estão nacaixa dos brinquedos, eles se transformam emórgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar,querem fazer amor com o mundo.
  18. 18. Os olhos que moram nacaixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Osolhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhosbrincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
  19. 19. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de vercom um menininho, Jesus Cristo fugido do céu,tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
  20. 20. Por isso _porque eu acho que a primeira função daeducação é ensinar a ver_eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, umprofessor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
  21. 21. O texto foi extraído da seção Sinapse, jornalFolha de S.Paulo, versão on line, publicado em 26/10/2004.

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