O Nordeste.com Ruy Câmara

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O Nordeste.com Ruy Câmara

  1. 1.   O NORDESTE  ALAGOAS   BAHIA  CEARÁ  MARANH ÃO  PARAÍBA  PIAUÍ  PERNAMBUCO  RIO GRANDE DO NORTE  SERGIPE  O JORNAL DO  NORDESTE  Todas as capas  NOTÍCIAS  Nordeste Desenvolvimento   Nordeste Urgente     Pesquisar neste Blog     BLOG´S  c d e f g  Pesquisar em todos os Blogs     Angelo Castelo 13.09.2009 Voltar Branco   Editora Coqueiro   RUY CÂMARA Ivan Maur ício  Mídia Nordeste   Enviar Tamanho 0 Coment á rio Imprimir por e ­m a i l da letra O NORDESTE    Sobre o Nordeste  Enciclop édia Nordeste   Nordeste Not ícias  ESPECIAIS  Movimento de Cultura Popular   O Carnaval de Pernambuco   PARCEIROS  Todos os nossos parceiros     O poeta, romancista, roteirista,  dramaturgo e sociólogo, Ruy Câmara,  nasceu em 15/04/1954, em Recife e  viveu a infância em Messejana,  subúrbio de Fortaleza ­ Ceará, onde  leu pela primeira vez Augusto dos  Anjos, Cruz e Sousa e José de Alencar, 
  2. 2.   O poeta, romancista, roteirista,  dramaturgo e sociólogo, Ruy Câmara,  nasceu em 15/04/1954, em Recife e  viveu a infância em Messejana,  subúrbio de Fortaleza ­ Ceará, onde  leu pela primeira vez Augusto dos  Anjos, Cruz e Sousa e José de Alencar,  o pai do romance brasileiro.  Formado em Tecnologia Mecânica  pela Escola Técnica Federal do Ceará,  cursou Engenharia Operacional e  Engenharia Mecânica na Universidade  de Fortaleza (1973 à 1979); estudou  Filosofia como autodidata; em 1996  retorna à Universidade e bacharelou­ se em Sociologia e Ciências Políticas),  com um honroso 1º lugar geral; em  1998 obteve o diploma de  especialização em Dramaturgia  Clássica para teatro, cinema e televisão    no Instituto Dragão do Mar de Arte e  Cultura.  Antes de entregar­se à Literatura, Ruy Câmara exerceu os mais diversos ofícios,  desde operador de máquinas operatrizes e de usinagem, instrutor mecânico, técnico  em lubrificação de navios, locomotivas e de máquinas de terraplenagem; caixeiro­ viajante na Amazônia; representante comercial no Norte e Nordeste, agente  exportador na América do Sul, América Central e Caribe, à diretor comercial de  empresas multinacionais de petróleo. Aos 26 anos, Ruy Câmara criou e dirigiu o 1ª  consórcio de exportação o Ceará, um marco para a consolidação da indústria da  moda nacional no exterior. Após as contínuas viagens que empreendeu por mais de 80 países e de haver  assimilado diversas culturas, em abril de 1992, no casarão 2300 da rua Gilberto  Studart, em Fortaleza, Ruy Câmara reuniu sua família e um punhado de amigos em  torno do seu aniversário de 38 anos e anunciou que abdicara em definitivo de sua  promissora carreira empresarial para se dedicar exclusivamente aos livros e ao ofício  literário.  Após 11 anos de clausura em sua biblioteca, sempre em convivência com autores e  obras, Ruy Câmara estreou na literatura brasileira com Cantos de Outono, o  romance da vida de Lautréamont, publicado pela Editora Record, obra que teve o  seu lançamento nacional em 2003, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de  Janeiro. Aplaudida pela crítica e pela imprensa especializada do Brasil e América  Latina, a obra de Ruy Câmara foi 1ª finalista do Prêmio Jabuti, da Câmara  Brasileira do Livro, e arrepanhou o Prêmio de Ficção 2004, da Academia Brasileira  de Letras, na categoria ­ melhor Romance de 2004.   Como intelectual habituado às longas jornadas do pensamento, Ruy Câmara  tornou­se uma voz respeitada nos meios sociais, políticos e acadêmicos do Brasil,  tendo colaborado com diversos jornais e revistas, onde publica ensaios, crônicas e  artigos abordando diversos temas de interesse coletivo.    Em 2007 sua obra foi traduzida para cinco línguas e Ruy Câmara é instado a se  lançar numa carreira internacional. Em 2008 sua obra entrou nos prelos de  importantes editoras da América Latina e da Europa, tendo sido publicada como  clássico contemporâneo na Romênia, Servia & Montenegro, Espanha, México,  Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Porto Rico,  República Dominicana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile,  Paraguai, Uruguai e Argentina.  Em 2010 a obra será publicada nos Estados Unidos  pela Amazon.com e estará disponível para o mundo anglo­falante. No momento  Ruy Câmara trabalha no seu 2º romance, intitulado, O Alfarrabista (ficção) cujos  direitos de publicação já estão cedidos para 30 países.
  3. 3. Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Porto Rico,  República Dominicana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile,  Paraguai, Uruguai e Argentina.  Em 2010 a obra será publicada nos Estados Unidos  pela Amazon.com e estará disponível para o mundo anglo­falante. No momento  Ruy Câmara trabalha no seu 2º romance, intitulado, O Alfarrabista (ficção) cujos  direitos de publicação já estão cedidos para 30 países. Pai de cinco filhos, frutos de dois casamentos anteriores, Ruy Câmara é casado há 17  anos com Rossana, sua musa inspiradora e a quem dedica suas obras.  Página na web: WWW.ruycamara.com.br E­mail: ruycamara@uol.com.br PROGRAMA ESPAÇO ABERTO Pedro Bial entrevista o escritor Ruy Câmara. Rio de Janeiro 13 de agosto de 2003. Abertura No Espaço Aberto a revelação de um romancista estreante, Ruy Câmara, que  constrói em sua estréia uma Biografia ficcional do Conde De Lautréamont, um dos  casos mais misteriosos e instigantes da história da literatura. Não deixe de ouvir Ruy  Câmara falar e narrar um pouco essa aventura, esse mergulho na vida e na obra do  precursor do surrealismo, Lautréamont. Íntegra da Entrevista Pedro Bial: Salve, bem vindos ao Espaço Aberto. Você provavelmente nunca ouviu  falar de Lautréamont, portanto sabe muito pouco sobre esse poeta franco­uruguaio  do século XIX. Você provavelmente não conhecia Ruy Câmara, portanto não sabe  nada sobre este romancista estreante. Em Cantos de Outono, Ruy Câmara  ficcionaliza a biografia de Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, ao que me  parece muito mais baseado em inspiração poética do que em fontes históricos. Mas  isso é uma das coisas que vamos saber agora.  Ruy, muito obrigado pela sua presença e parabéns por ter sobrevivido a essa  dificílima empreitada. Antes de falarmos exatamente do livro, parece que você teve  uma trajetória meio incomum; você era engenheiro, empresário, depois se tornou  sociólogo, dramaturgo e aí virou escritor... Como foi que se deu isso? Ruy: Bial, em primeiro lugar eu quero agradecer o seu convite e a sua gentileza de  ter lido o romance Cantos de Outono, que deve ter tomado um pouco do seu tempo.  A minha vida sempre foi marcada por tomadas de decisões, de altos e baixos,  sobretudo na década de 90, que eu acompanhei e me ative, sobretudo, às  transformações que ocorriam. Com isso eu assimilei muito bem o que precisava  fazer de diferente para me sentir bem em relação a mim mesmo diante do mundo. A  primeira coisa foi mudar radicalmente a minha concepção de vida e a forma de  viver. É verdade que realizei muitos projetos noutras áreas até 1990. Em 1991 eu me  vi diante de uma tragédia familiar, perdi minha filha Lia Câmara, e isso me obrigou  a refletir muito sobre tudo. Então, a partir daquele momento eu comecei a atribuir  outros valores à vida. Deixei de lado os negócios da família e passei a me identificar  com a literatura como sendo a instância simbólica, ou melhor, o refúgio da minha  fuga.  Bial: Uma tábua de salvação?  Ruy: Mais ou menos isso. A leitura de profundidade preenchia completamente o  meu tempo e o meu vazio interior. Após alguns anos de clausura em minha  biblioteca, eu tive a grande momento de encontrar esse personagem através de um  livro terrível...
  4. 4. Ruy: Mais ou menos isso. A leitura de profundidade preenchia completamente o  meu tempo e o meu vazio interior. Após alguns anos de clausura em minha  biblioteca, eu tive a grande momento de encontrar esse personagem através de um  livro terrível... Bial: Isso era o que eu ia perguntar. Como é que foi esse encontro com  Lautréamont.  Ruy: É uma história muito engraçada. Um amigo poeta, José Alcides Pinto, que é  muito festejado no Ceará, surrupiou Les Chants de Maldoror de uma importante  biblioteca e me enviou pelo correio. O livro caiu em minhas mãos em 1995. Na  leitura do primeiro parágrafo tomei um susto tremendo e logo percebi que tinha em  mãos uma literatura estranhíssima, algo sem precedentes... Bial: Você lembra da frase?  Ruy: Claro. Praza aos céus que o leitor afoite e tornado momentaneamente feroz  com isto que lê,  encontre sem se desorientar o seu caminho abrupto e selvagem  através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheios de veneno, pois, a  não ser que invista em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo  menos igual a sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeber­lhe­ão  sua alma assim como a água ao açúcar... E por aí vai.    Participação especial de Cláudio Willer: Lautréamont é um mistério literário. Ele morreu em Paris, em 1870, aos 24 anos de  idade. A causa da sua morte não é sabida, seu túmulo também desapareceu. Ele era  uruguaio, filho de pais franceses e estudou na França. O realismo, a preocupação  com o sentido é praticamente suprimida. As histórias que ele conta são fantásticas,  são delirantes e representam uma inteira liberdade de criação. É a palavra­ linguagem de absoluta liberdade. Então ele indicou um caminho pra modernidade,  que seria a criação em estado puro e liberta das convenções, sejam as convenções da  literatura, ou as convenções da moral. Por isso ele é importante e é tido como um  dos pilares da modernidade.  Ruy: Em 1995 eu ousei enfrentar a literatura de Lautréamont e mergulhei fundo.  Bial: O que lhe levou a reinventar Lautréamont? Ruy: Creio que foi o "quase nada biográfico" que me estimulou a empreender uma  caçada ao espectro de Lautréamont. Em 1996 fui a Paris com minha mulher,  Rossana, e lá iniciei, sem muita pretensão, um levantamento bibliográfico, talvez  pensando em fazer parte do núcleo dos autores importantes que escreveram sobre  ele. Comecei a pesquisa na Biblioteca Nacional de Paris, onde há informações  bibliográficas importantes e também muita repetição do que escreveram no início do  século XX. Hoje tenho em meu poder uma vastíssima bibliografia, com mais de 500  artigos e ensaios sobre a obra de Lautréamont. Nesse romance, aqui e ali, eu entro  em confronto com algumas teses esdrúxulas escritas por proeminentes autores. Em  1997 voltamos a Paris e numa caminhada, que se iniciou na Ile de la Cite,  percorrendo igrejas e cemitérios, chegamos à rua du Faubourg Montmartre e  avistamos, no frontão de um edifício, uma placa que fazia alusão a Lautréamont. Do  átrio, onde puseram uma placa com um texto terrível de Lautréamont, vimos ao  fundo um bistrô e fomos lá tomar um café. À mesa, já tomando vinho, vi uma  janela fechada no 3° andar do edifício e comecei a imaginar: deve ter sido ali,  provavelmente, onde aconteceu tudo, onde ele passou os últimos momentos...  Participação especial de Cláudio Willer Nas manhãs ensolaradas quando as janelas estão escancaradas, ele apoia­se num  parapeito e diz: esta janela é mágica, mesmo quando estou desgostoso, acuado na  cama, o sol entra sempre alegre. De volta a cama ele prega os olhos nas partes  protuberantes da noviça e já não consegue mais resistir às intoxicações dos prazeres  da carne.  
  5. 5. Nas manhãs ensolaradas quando as janelas estão escancaradas, ele apoia­se num  parapeito e diz: esta janela é mágica, mesmo quando estou desgostoso, acuado na  cama, o sol entra sempre alegre. De volta a cama ele prega os olhos nas partes  protuberantes da noviça e já não consegue mais resistir às intoxicações dos prazeres  da carne.   Ruy: A aventura que começou no Montmartre, se estendeu pelo norte da Espanha,  em San Sebastien, subimos para sul da França, percorrendo liceus, universidades,  museus, bibliotecas, colecionadores, enfim, chegamos em  Bayonne, antigo Porto  Basco. De lá fomos a Tarbes, a Pau, a Bordeaux, retornamos a Paris com algumas  pistas novas e com a verdadeira foto de Isidore Ducasse, que está no meu site.  Repito, a verdadeira e única foto de Isidore Ducasse e também outras informações  preciosas que abriram caminhos para a concepção do romance. De Paris seguimos  de trem para Bruxelas, onde se deu o encontro de Lautréamont com Baudelaire, e  por fim desembarcamos no Porto de Montevidéu.  Bial: Mas você se viu diante de uma escassez de documentos, eu presumo,  documentos, digamos, rigorosamente históricos sobre... Ruy: Claro que sim. Vi­me diante de um mito e da sua miséria biográfica. O pouco  que se sabe da sua biografia se confunde com o muito que escreveram sobre sua  obra. Na França, na Bélgica e até mesmo no Uruguai, não há quase nada de Isidore  Ducasse, nem mesmo uma tumba, já que seu cadáver, pela sua desimportância à  época, teve de ser trasladado da 35ª divisão do Cemitério Montmartre­Nord para um  ossuário público no subúrbio de Paris e lá se extraviou para sempre. Em 1998 refiz  todo o percurso.  Voltei a Montevidéu, que é berço do poeta. Lá, revirei arquivoss,  comprei livros, mapas antigos, etc. As pistas indicadas em 1925 pelos irmãos, Alvaro  e Gervasio Muñoz, me levaram ao atual Nº 544 da rua Camacuá, onde Célestine  teria parido Isidore Ducasse. Estivemos na rua Bacacay, para onde o cônsul François  Ducasse, já viúvo, teria se mudado em virtude do novo traçado urbanístico da  cidade, com a construção da Rambla Costanera. De pista em pista chegamos ao  quarto Nº 9, no Hotel Pyramides, onde o pai de Ducasse teria vivido seus momentos  de glória e também a sua agonia. Hoje temos certeza que o cônsul François Ducasse  morreu completamente solitário, velho e doente, praticamente falido, aos 80 anos,  no dia 18 de novembro de 1889. Seus restos estão sepultados no jazigo Nº 713, no  Cemitério Central, onde depositei uma pedra simbolizando que nenhum mistério  resiste ao tempo e aos rigores de uma investigação séria. Estive algumas vezes na  Catedral de Montevidéu, onde conseguimos com Maria Eugenia Arnaud, secretária  geral da Cúria,  a cópia autêntica da Certidão de batismo de Isidore Ducasse. Enfim,  andei por toda parte. Recentemente, após mil horas de novas pesquisas, eu e  Rossana voltamos a Montevidéu, refizemos os percursos de modo  inverso e  desvelamos algumas pistas novas que mais tarde serão reveladas aos fãs desse autor  monumental que é Lautréamont.  Bial: Mas ele não é monumental em termos de quantidade de livros? Ruy: Não, não, Lautréamont deixou apenas um único livro. Poesias é uma obra  menor, que ficou inacabada. Tenho essas obras em meu poder, ou melhor, uma  reprodução fidedigna de Les Chants de Moldoror, edição de 1968, que após a  publicação logo foi tirada de circulação, e também uma reprodução de Poesias, livro  publicado postumamente, na sombra do mais importante, que é os Cantos. Bial: Por que tiraram de circulação? A obra é muito obscena, violenta  demais? Ruy: Eu, particularmente, não vejo obscenidade alguma na obra de Lautréamont.  Como diz o meu amigo JAP, obsceno mesmo é o escritor que escreve ruim. (Risos)   Participação especial de Cláudio Willer:  Porque não dissestes logo quem eras, cristalizações de uma beleza moral superior,  moral com o peito ornado de grinaldas, de rosas e vetiver. Foi preciso que eu abrisse  vossas pernas para vos conhecer, e que minha boca se pendurasse às insígnias do  vosso pudor... Mas, coisa importante para se ter em mente: não esqueceis de todo dia  lavar a pele de vossas partes com água quente, pois, senão, cancros venéreos  cresceriam infalivelmente sobre as comissuras fendidas dos meus lábios insaciados...  
  6. 6. Porque não dissestes logo quem eras, cristalizações de uma beleza moral superior,  moral com o peito ornado de grinaldas, de rosas e vetiver. Foi preciso que eu abrisse  vossas pernas para vos conhecer, e que minha boca se pendurasse às insígnias do  vosso pudor... Mas, coisa importante para se ter em mente: não esqueceis de todo dia  lavar a pele de vossas partes com água quente, pois, senão, cancros venéreos  cresceriam infalivelmente sobre as comissuras fendidas dos meus lábios insaciados...   Ruy: O falso pudor é uma característica de toda sociedade que se orienta, em  termos de moral, pelas idéias crucíferas, do medo, do pecado e do castigo, sem falar  que naqueles anos a Suprema Corte Francesa era um horror em termos de falsa  moral.  Era ao mesmo tempo inescrupulosa e conservadora. Era uma corte  carcomida pelos cancros sifilíticos e pela corrupção da própria moral. As prisões  escolares e as abadias eram o reino da pedofilia. Portanto, naqueles anos...     Bial: Diga­se de passagem, 1868. (Risos)  Ruy: Sim, estamos a falar do século XIX, século de perseguições aos autores  transgressores, Flaubert, Baudelaire e muitos outros dessa linhagem, conceituada  Maldita. Isidore Ducasse também seria perseguido e, para não apodrecer no cárcere,  escondeu­se por detrás de Lautréamont, seu cognome. Aliás esse termo Maldito não  é originariamente de Paul Verlaine, já que, bem antes dele, em 1868, Isidore Ducasse  fez uma alusão ao termo numa carta enviada ao banqueiro Darasse, na qual  menciona o nome de Ernesto Naville, que lhe prometera escrever sobre Les Chants  de Maldoror e falar dessa obra nas suas conferências em Genebra e Lousanne,  tematizando o Problema do Mal. Verlaine viria a falar disso somente em 1884. Antes  dele, bem antes, em 1868, Lautréamont utilizou essa expressão numa carta ao  banqueiro Jean Darasse. Ele já tinha consciência de que seria mal compreendido e  perseguido. Bial: Agora, você a partir de uma Certidão de Nascimento e um atestado  de óbito põe de pé, um livro que fica de pé, desse tamanho (risos) quer  dizer... Ruy: Mas ele deixou também sete cartas (risos).  Quem lê os Cantos de Maldoror com uma profundidade maior, encontra, aqui e ali,  fragmentos autobiográficos de Isidore Ducasse, os quais, numa transplantação  metafórica poder­se compreender o real sentido de algumas construções ficcionais  que eu levei adiante para reinventar esse personagem no seu próprio universo. São  nos fragmentos dessas cartas e nos recorte do seu texto que realçamos o dilema  individual do personagem. Além das sete cartas originas que aparecem no romance,  reproduzimos outras mais, naturalmente que são reinvenções daqueles momentos  de tédio e de dor. Recorri a tudo isso porque eu tive a preocupação de reconstituir  uma época de glória e caos e o pensamento dominante daquela época. Isso não foi  fácil. A fase mais difícil nessa escritura foi encontrar a linguagem e o momento certo  de puxar o personagem para a ação ou para a inação absoluta, porque tinha  momentos em que ele ficava no estado de completa inanição de idéias e isso  perspassava para o narrador. O momento mais terrível e que antecedeu a finalização  do livro foi quando mergulhei no abismo do seu pensamento e descobri que o real  sentido da vida de Isidore Ducasse era a negação da própria vida.  Bial: De eventos tidos como reais, é mais ou menos aceito que o encontro  com Baudelaire realmente se deu. Como você vê isso? Ruy: Tudo me leva a crer que esse encontro realmente ocorreu, afinal Baudelaire  era o ídolo voluptuoso de Isidore Ducasse. O encontro se deu na primavera de 1866,  no Hotel Grand Miroir, em Bruxelas, um ano antes da morte de Baudelaire. Naquela  época os autores franceses costumavam se exilar na Bélgica, como o fez Victor Hugo  logo após a vitória de Luis Napoleão. No caso de Baudelaire, sua ida à Bélgica, a  pretexto de fazer conferências sobre Delacroix e outros, foi um auto­exílio, uma  forma de fugir dos credores. Imaginar esse encontro entre Baudelaire e  Lautréamont, dois monstros sagrados da literatura universal, um em ruína física e o  outro em plena juventude, foi um dos grandes momentos da minha experiência  literária. Esse bloco narrativo exigiu­me um esforço gigantesco. Foi muito sofrido,  mas também prazeroso. Esse encontro eu considero como um dos pontos altos do  romance Cantos de Outono.  
  7. 7. forma de fugir dos credores. Imaginar esse encontro entre Baudelaire e  Lautréamont, dois monstros sagrados da literatura universal, um em ruína física e o  outro em plena juventude, foi um dos grandes momentos da minha experiência  literária. Esse bloco narrativo exigiu­me um esforço gigantesco. Foi muito sofrido,  mas também prazeroso. Esse encontro eu considero como um dos pontos altos do  romance Cantos de Outono.   Bial: Já a carta da mãe de lautréamont sugerindo a Baudelaire o título  Flores do Mal, deve ser pura ficção? Ruy: Claro que sim. Em matéria de ficção tudo é possível. (Risos) Bial: Lautréamont, antecipando artistas do século XX, morreu de  overdose, não foi? Ruy: Eu tenho plena convicção que ele se matou ingerindo coquetéis mortíferos,  portanto, morreu de overdose e de um ato ainda mais secreto, que está na sua  infância em Montevidéu, para onde jamais voltou. Bial: Ele morreu de overdose e de um ato que, na sua versão, foi  misteriosamente herdado da mãe, que se entorpecia manipulando pétalas  de papoula, beladona, mandrágora, etc. Você tem alguma indicação de  que a mãe de Ducasse usava mesmo essas drogas? Ruy: Não só ela. É verossímil que na Europa, como em todas as civilizações, desde  os primórdios, o homem sempre procurou uma fuga, sempre procurou alteradores  de consciência para suportar o real ou até mesmo para suportar o tédio de um longo  inverno. Bial, você que passou muitos invernos na Europa, sabe o que o tédio e a  solidão significam. Tem momentos que você não suporta mais aquela monotonia.  Sem sol o tempo não passa e o ambiente fechado passa a ser uma prisão. Naquela  época o recurso aos alucinógenos não tinha o efeito nem a noção maléfica dos dias  atuais, das manipulações químicas e dos fármacos produzidos em escala industrial.  Os alteradores de consciência eram consumidos como nas tribos mais primitivas. O  sujeito ingeria uma pasta de haxixi como forma de ficar ali parado, calmo, sem  aflições, completamente ausente a tudo, sem noção daqueles tédios infinitos. Não era  só vício, mas também uma necessidade. Baudelaire escreveu belos ensaios sobre as  drogas, Paraísos Artificiais, traduzidos no Brasil, se não me engano pelo Saramago.  Tudo isso me leva a crer que Célestine, uma jovem francesa, transplantada para um  pais em guerra permanente com os vizinhos, vendo as carroças de cadáveres  passando em sua porta, vendo as valas públicas engolindo os mortos aos bocados de  cem ou duzentos, vendo aquele corpos incinerados nas ruas de Montevidéu, e diante  da ameaça constante de contrair a peste, é mais do que verossímil que ela não  suportou, tanto que se matou. Além do mais ela estava mal casada e não suportava  viver submetida a um homem autoritário, pois como sabemos, François Ducasse era  um conquistador incorrigível e assíduo freguês dos bordeis em Montevidéu.  Bial: Ela se mata e o filho sequer tinha completado dois anos de idade? Ruy: Exatamente. Ela comete suicídio em dezembro de 1847 e deixa o filho  entregue à própria sorte. Isidore Ducasse nunca perdoou a família pelo  descometimento de sua mãe. Viveu 13 anos com o pai, sob a proteção de sua ama,  Maná, até o dia do seu embarque para a França. Não podemos reprovar a decisão do  cônsul François Ducasse, porque naquela época, educar os filhos na Europa era  ponto de honra, era uma questão cultural relevante, de dominação e supremacia das  famílias tradicionais que objetivavam a cúpula patricial de uma nação­colônia. Bial: Por que os surrealistas fizeram de Lautréamont um modelo? Eu  queria saber se você tem uma resposta para isso? Ruy: Li recentemente, há 5 anos, um livro da Leyla Perrone­Moisés, intitulado  Inútil Poesia, no qual há um artigo bastante esclarecedor sobre Lautréamont e os  surrealistas. Eu penso que Lautréamont, ao romper o paradigma lógico da idéia  preconcebida, ao quebrar a hegemonia aristotélica de narrar (começo, meio e fim), e  ao impor o que se presume ser uma escrita automática, abriu um novo horizonte  para a literatura ocidental. Com a ousadia ele foi acusado de haver cometido uma  heresia literária, uma atrocidade imperdoável, tanto que, até hoje tem gente por aí 
  8. 8. Inútil Poesia, no qual há um artigo bastante esclarecedor sobre Lautréamont e os  surrealistas. Eu penso que Lautréamont, ao romper o paradigma lógico da idéia  preconcebida, ao quebrar a hegemonia aristotélica de narrar (começo, meio e fim), e  ao impor o que se presume ser uma escrita automática, abriu um novo horizonte  para a literatura ocidental. Com a ousadia ele foi acusado de haver cometido uma  heresia literária, uma atrocidade imperdoável, tanto que, até hoje tem gente por aí  que resiste um pouco a isso. Mas quem lê com rigor e esmero a adulteração literária  da sua composição, percebe que tudo ali está solidamente apoiado dentro de um  conjunto e de uma concepção extremamente lógica e bem ordenada. Quem lê os  Cantos de Maldoror com um olhar bem posicionado, vai compreender que ali há um  talento inventivo de alguém superdotado de uma imaginação poderosíssima para  compor com tanta fertilidade. Essa, certamente, foi a percepção de André Breton  quando, de repente, Cantos de Maldoror cai em suas mãos, numa daquelas noites  em que ele e Louis Aragon se ocupavam em acalmar os loucos num asilo parisiense.  Logo trataram de dar a ele o título de poeta maior da modernidade. Mas André Gide  foi um dos primeiros, senão o primeiro a conceber o valor de Lautréamont. Puxou  um autor que andava esquecido para o centro de um palco que o tornou emblema  de vanguarda. Breton teve o mérito de pinçar Lautréamont da escuridão do século  XIX e o tomou como inspirador desse movimento vanguardista, tão importante  para as artes, em todas as suas formas e expressões. Salvador Dali bebeu muito nas  fontes ducasseanas para criar aquelas obras fantásticas, aquele jogo de imagens que  se abraçam e se fundem no mesmo espaço.  Bial: E hoje, qual é a atualidade que permanece sobre a obra de  Lautréamont?  Ruy: Sua obra tem sido tema de importantes colóquios em diversas universidades de  todas as partes do mundo, inclusive com o patrocínio da UNESCO. Lautréamont é  um dos poucos autores do século XIX que continua sendo estudado. Ele é  considerado unanimemente um mito da literatura. Sua obra tem amplitude porque  influenciou toda uma concepção artística e com isso revolucionou o conceito de arte.  Os dadaístas e surrealistas estão todos aí, no berço lautreamoniano. Então a  importância desse autor é perene e universal porque, por mais que se pense que a  concepção surrealista está sepultada, ela ressurge do nada, como ocorreu na minha  aventura de escrever Cantos de Outono. A concepção suprareal surge do nada  porque tem muitas formas de sobrevivência no íntimo do ser, como se vê na  pretensão humanista da arte, da política, nas expressões dos jovens, na liberdade  reprimida do nosso tempo, e até mesmo nas intenções dos pichadores de ruas. Bial: Liberdade que se empresta ao artista depois que o século XX derruba essas  barreiras e liberdade até para se expor. Por exemplo, o narrador de Cantos de  Outono, você, neste livro, evidentemente que está contaminado por Lautréamont,  você se deixa contaminar por ele. Como é que se dá isso? Ruy: Não há outra forma de você escrever sobre um personagem grandioso sem se  deixar influenciar pelas suas idéias. Quem se mete com Lautréamont há de  incorporá­lo ou refutá­lo de imediato. O escritor que não incorpora o seu  personagem corre o risco de ser fiel a ele e a si próprio. Então eu procurei ser  duplamente fiel e para conseguir isso, eu não podia fugir da temática surrealista,  como se vê nos personagens, Olhar do alto e Voz que narra, que nem sempre  refletem a posição do narrador. Tudo isso faz parte de uma reflexão contextualizada  dentro da concepção que metaforiza o real e também o que vigia no meado do  século XIX. O maior desafio que enfrentei foi justamente ser fiel e respeitar essa  contradição de identidade, essa forma de fazer literatura e arte pelo avesso.   Bial: Inclusive, uma das frases mais bonitas do seu livro e reveladoras  desses artifícios que você cita é: Do ângulo em que estamos, podemos  dizer que tanto o Olhar oculto, quanto a Voz que narra, se expressam por  códigos que exigem de nós, interlocutores mudos, um metacódigo  referencial com o qual possamos identificar, na ação e no tempo, quando  o Olhar diz o que a Voz nos faz ver.  Ruy: O Olhar diz o que a Voz nos faz ver é mimético, ilusório..., muito de quem  conta uma história mais por adivinhar ou recriar do que por apurar. (Risos)  Bial: Vem cá, em português só há a tradução do Cláudio Willer? 
  9. 9. Ruy: O Olhar diz o que a Voz nos faz ver é mimético, ilusório..., muito de quem  conta uma história mais por adivinhar ou recriar do que por apurar. (Risos)  Bial: Vem cá, em português só há a tradução do Cláudio Willer?  Ruy: Que eu saiba, de referência bibliográfica importante, sim. Eu soube que vai  sair agora uma nova edição de Obras Completas de Lautréamont, o que é muito  importante, afinal o Willer nos fez o favor de introduzir Lautréamont no Brasil, uma  tradução dificílima e complicada. Por isso o Willer tem uma importância muito  grande nesse resgate. Bial: Qual é trajetória ideal que você sonha para esse livro? Não é um  livro talhado assim para qualquer leitor pegar, deitar e rolar. É um livro  que no início exige do leitor entrar num universo e até mesmo numa  retórica nada coloquial, nada que se acha no cotidiano de hoje. Então, o  que você sonha de trajetória ideal para seu livro?  Ruy: Eu acho que esse romance precisa de um tempo para ser lido, relido e  assimilado. Não se resume apenas à vida de Lautréamont, como se presume. As  idéias estão todas aí. Creio que aos poucos ele irá ocupar o seu espaço e terá uma  vida longa. O livro já está ao alcance do leitor, disponível em todas as livrarias do  país, a Record  tem uma força muito grande de distribuição e tudo isso conta muito.  Agora  vamos ganhar tempo cuidando das traduções. Tem aí um interesse editorial  praticamente certo na América Latina, no ano que vem deve sair em espanhol, há  também um interesse na França, que é o cenário de ação, portanto, as possibilidades  são muitas. Precisamos trabalhar um pouco lá fora para que as coisas aconteçam.  Sem falar do mérito literário, se é que tenho algum, a reinvenção do fenômeno  Lautréamont desperta interesse em todas as partes do mundo. É surpreendente o  número e a qualidade dos seus leitores secretos.     Bial: E você já está adaptando a obra para o cinema, que você me  contou...  Ruy: É verdade. O roteiro já vai bem adiantado, mas ainda há muito a fazer. Em  julho próximo irei novamente a Montevidéu para definir as locações. Recentemente  um importante escritor ironizou a minha pretensão dizendo: você vai saber adaptar  um livro com este para o cinema? E eu respondi: o mais difícil foi construir essa obra  do nada. Logo, adaptá­la para um roteiro de cinema vai ser 1% do meu trabalho.  Bial: Será, cara? (Risos)  Ruy: Adaptar a obra que escrevi para um roteiro fílmico é fácil, mas até sair o filme,  é outra história. (Risos)  Bial: Está certo. Parabéns, Ruy, pela aventura bem sucedida. Eu acho que  com esse livro muitos brasileiros irão entrar em contato com  Lautréamont pela primeira vez, e é uma estréia luxuosa para você como  romancista.  Ruy: Também acho, Bial. Muito obrigado pela oportunidade e por suas palavras.  Você é um cara muito admirado no Brasil e por todos nos no Ceará, onde o seu  programa tem uma bela audiência.  Bial: Então leve pessoalmente o meu abraço para todo mundo do Ceará.  Nós então conversamos com o escritor Ruy Câmara, que lança o seu  romance de estréia, Cantos de Outono, o romance da vida de  Lautréamont. Aquele abraço e até a próxima no espaço aberto.  Tchau.                  ___________  1­ Pedro Bial é poeta, escritor, jornalista e apresentador da Rede Globo de Televisão 
  10. 10. Tchau.                  ___________  1­ Pedro Bial é poeta, escritor, jornalista e apresentador da Rede Globo de Televisão  e Globo News. 2­ Cláudio Willer é poeta, tradutor, crítico literário e presidente da União Brasileira  de Escritores. 3­ Ruy Câmara é poeta, romancista, dramaturgo e sociólogo, autor de Cantos de  Outono.      BIBLIOGRAFIA DE RUY CÂMARA Palavras­chave: Biografia  Comentários  Deixe Seu Comentário  Nome:    E­mail:    URL:  http://   Estado:  PE   Cidade:    Comentário     Enviar Limpar Voltar PERFIL  Ivan Maur ício Jornalista desde os  17 anos. Rep órter e  editor do "Diário da 
  11. 11. PERFIL  Ivan Maur ício Jornalista desde os  17 anos. Rep órter e  editor do "Diário da  Noite" (Recife,  Prêmio Esso de  Jornalismo  ­ Região  Nordeste (1978).  Leia o perfil completo ANTERIORES  2010 Janeiro/2010   MAIS FALADOS  Alberto Cunha Melo    Araripina    Aves    Belchior    Biografia    Cajuina    Calabar    Danca    Desenhos de  Ivan Mauricio    Economia    Fruticultura    Futebol    Gastronomia    Historia   Imprensa    Jackson do Pandeiro    Lampiao    Lazer    Mata  Atlantica    Meio  Ambiente    Museu da  Imagem e do Som    Musica   Negocios    Poesia  Politica    Rede Globo    Sebos    Serra Talhada    Terrorismo    ACOMPANHE  Olinda Urgente    Pernambuco  Desenvolvimento    Mídia Nordeste    Alagoas  Desenvolvimento    Bahia  Desenvolvimento    Ceará  Desenvolvimento    Maranhão  Desenvolvimento    Paraíba  Desenvolvimento    Piauí  Desenvolvimento    Rio Grande do  Norte  Desenvolvimento    Sergipe  Desenvolvimento    Nordeste Not ícias    Editora Coqueiro    Recife Urgente    Angelo Castelo  Branco    Quem Somos   Fale Conosco   Downloads   Mapa do Portal   Parceiros  
  12. 12. Editora Coqueiro    Recife Urgente    Angelo Castelo  Branco    Quem Somos   Fale Conosco   Downloads   Mapa do Portal   Parceiros   s 

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