Fatores de risco para hipertensão arterial

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Fatores de risco para hipertensão arterial

  1. 1. p.370 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6.Hipertensão arterial em motoristasRESUMO:RESUMO:RESUMO:RESUMO:RESUMO: Estudo transversal com objetivo de investigar fatores de risco cardiovascular em motoristas e cobradores deônibus e analisar a relação dos valores de pressão arterial e glicemia com demais fatores de risco. Realizado em Fortale-za–Ceará, em 2005, mediante entrevista e avaliação antropométrica, glicêmica e medida da pressão arterial com 124motoristas e 96 cobradores. Verificou-se valores da pressão arterial limítrofes ou alterados em 49,2%; 72,9%com sobrepeso e obesidade; 87,3% sedentários; 53,4% ingeriam bebida alcoólica; e 73,6% consumiam gordura ani-mal. Encontrou-se correlação estatisticamente relevante entre consumo de gordura animal e valores médios elevados depressão arterial sistólica e entre consumo reduzido do sal, glicemia e pressão arterial diastólica. Isso sugere dificuldadepara avaliar este aspecto a partir da informação do participante. Evidenciou-se presença de significativos fatores de riscocardiovascular, o que indica a necessidade da implementação de ações educativas visando especialmente o desenvolvi-mento de atividades físicas e alimentação adequada.Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave:Palavras-chave: Hipertensão; fator de risco; saúde do trabalhador; trabalho.ABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACTABSTRACT::::: This cross-sectional study aims at both investigating cardiovascular risk factors to workers from an urbantransport company and analyzing the relation of blood pressure values and glucose with other risk factors. It was carriedout in Fortaleza-Ceará, Brazil, in 2005, by means of interviews and anthropometric evaluation, glucose evaluation, andblood pressure measurements with 124 drivers and 96 collectors. Results demonstrated that 49.2% had borderline ormodified blood pressure values; 72.9% were overweight and obese; 87.3% were sedentary; 53.4% ingested alcohol; and73.6% ate animal fat. There was significant statistic correlation between consumption of animal fat and increased meanvalues of systolic blood pressure as well as between reduced consumption of salt, and glucose and diastolic bloodpressure. This specific aspect is difficult to evaluate on the basis of the information provided by the participant. Assignificant cardiovascular risk factors were evinced, implementation of educative actions is suggested, aiming at thedevelopment of physical activities and proper dieting.Keywords:Keywords:Keywords:Keywords:Keywords: Hypertension; risk factor; occupational health; work.RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN:RESUMEN: Estudio transversal con objetivo de investigar los factores de riesgo cardiovascular en trabajadores deautobús y analizar la relación de los valores de la presión arterial y glucemia con los demás factores de riesgo. Desarrolladoen Fortaleza-Ceará-Brasil, en 2005, mediante entrevista y evaluación antropométrica, de la glucemia y medida de lapresión arterial con 124 motoristas y 96 cobradores. Los resultados demostraron que 49,2% presentaba valores depresión sanguínea límites o alterados; 72,9% tenían sobrepeso y obesidad; 87,3% no desarrollaban actividad física;53,4% ingerían bebida alcohólica; y 73,6% consumían grasa animal. Fue encontrada correlación estadística significanteentre el consumo de grasa animal y los valores medios elevados de presión arterial sistólica y entre consumo reducido desal, glucemia y presión arterial diastólica. Eso sugiere dificultad para evaluar este aspecto a partir de la información delparticipante. Se evidenció que hay significativos factores de riesgo cardiovascular, que indican la necesidad de actividadeseducativas que planteen especialmente el desarrollo de actividades físicas y alimentación adecuada.Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave:Palabras Clave: Hipertensión; factor del riesgo; salud laboral; trabajo.FATORES DE RISCO PARA HIPERTENSÃO ARTERIAL:INVESTIGAÇÃO EM MOTORISTAS E COBRADORES DE ÔNIBUSRISK FACTORS TO HIGH BLOOD PRESSURE: INQUIRY WITH BUS DRIVERSAND COLLECTORSFACTORES DE RIESGO PARA LA HIPERTENSIÓN ARTERIAL:INVESTIGACIÓN EN MOTORISTAS Y COBRADORES DE AUTOBÚSDaniel Bruno Resende ChavesIAlice Gabrielle de Sousa CostaIIAna Railka de Souza OliveiraIIITaciana Cavalcante de OliveiraIVThelma Leite de AraujoVMarcos Venícios de Oliveira LopesVIIAcadêmico de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE. Bolsista do CNPq-PIBIC. E-mail: dbresende@yahoo.com.brIIAcadêmica de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE. Bolsista do CNPq-PIBIC.IIIAcadêmica de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE. Bolsista do CNPq.IVEnfermeira. Doutoranda em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE. Docente da Universidade Federal dos Vales Jequitinhonhae Mucuri (UFVJM). Bolsista do CNPq.VDoutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Pesquisadora CNPq.VIDoutor em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará. Pesquisador do CNPq.
  2. 2. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6. • p.371Chaves DBR, Costa AGS, Oliveira ARS, Oliveira TC, Araújo TL, Lopes MVOINTRODUÇÃOAhipertensão arterial (HA) é uma doença crô-nico-degenerativa que apresenta custos médicos esocioeconômicos elevados, decorrentes principal-mente de suas complicações. Como mostra a litera-tura, pode ser considerada uma doença complexa,na qual diferentes portadores podem apresentar inú-meros fatores causais. Essa doença atinge milhões depessoas no mundo e o Brasil não se afasta dessa rea-lidade. Na população jovem, os níveis de pressãoarterial elevaram-se bastante e esse percentual au-menta com a idade1,2.Para um controle adequado da doença, é ne-cessário, além do uso de medicamentos, mudançano estilo de vida, com redução dos fatores de riscocardiovascular, tais como: excesso de peso,sedentarismo, elevada ingestão de sal, assim comode álcool, tabagismo, alto estresse emocional, entreoutros. Conforme destacado por estudos, combatera hipertensão é prevenir o aumento da pressão pelaredução dos fatores de risco em toda a população enos grupos com maior risco de desenvolver a doen-ça, a exemplo de indivíduos que desempenham ati-vidades ocupacionais consideradas estressantes emuitas vezes sobrecarregadas3.Dessa forma, segundo se supõe, a realização dopresente estudo, cujo objetivo foi investigar fatoresde risco cardiovascular em trabalhadores de umaempresa de transporte coletivo urbano, e ao mesmotempo analisar sua relação com valores de pressãoarterial e glicemia, poderá contribuir para a dimi-nuição do risco de morbi-mortalidade cardiovasculardesses trabalhadores.REVISÃO DE LITERATURAO aumento da pressão arterial com a idade pa-rece representar um comportamento biológico nor-mal. Diante dessa realidade, é preciso adotar medi-das com vistas a mantê-la dentro de limites conside-rados de normalidade. Com essa finalidade, preve-nir a instalação da hipertensão arterial parece ser omeio mais eficiente de atuar e, desse modo, evitar asdificuldades e o elevado custo social do seu trata-mento e das suas complicações1.Apesar de estar presente em diferentes faixasetárias e em ambos os sexos, há maior prevalênciade casos de hipertensão arterial em pessoas que de-sempenham determinadas atividades ocupacionais.Isso pode estar relacionado a alguns fatores, taiscomo: estresse, causado pela sobrecarga de trabalhoe de responsabilidades, bem como ruídos ambientais;insatisfação no emprego; elevação da complexidadee da intensidade do trabalho; repetitividade, níveldeconcentraçãorequerido;instabilidadenoempregoou supervisão severa4,5. Destaca-se que as maioresprevalências de hipertensão arterial são encontra-das entre os trabalhadores não especializados, queganham menores salários, dos setores secundários eterciários da economia6.Nesta situação encontram-se motoristas e co-bradores de ônibus. Ao se considerar a grande ma-lha viária existente no Brasil, o transporte coletivourbano por ônibus adquire importância significativano cenário da saúde ocupacional, já que diversosfatores como alimentação, estresse, duração da jor-nada de trabalho, ambiente de trabalho desfavorá-vel com presença de ruídos, poluição, entre outros,poderão influenciar a saúde desses trabalhadores demaneira negativa. Em uma revisão de literatura, comanálise de 22 estudos epidemiológicos relativos ao ris-co à saúde de motoristas de ônibus, demonstrou-seque este grupo tem alta morbidade e mortalidade portrês principais grupos de doenças. Entre estas, as do-enças do aparelho cardiovascular aparecem em pri-meiro lugar, especialmente a hipertensão arterial7.Continuamente, os trabalhadores de transpor-te urbano são submetidos a altos níveis de ruído, alémdo estresse próprio do trânsito. Nesse contexto, es-tudos experimentais têm demonstrado relação entreexposição a níveis elevados de ruídos e respostascardiovasculares semelhantes às identificadas emepisódios de estresse agudo. A mais característicadessas respostas é a elevação da pressão arterial, pro-vavelmente em decorrência do aumento da resistên-cia vascular periférica. Esses estudos serviram de basepara trabalhos que avaliaram pessoas expostas a ruí-dos, como o que investigou a ocorrência de hiper-tensão arterial entre trabalhadores de petróleo ex-postos a ruídos8, no qual os resultados confirmarama associação.Atuar junto aos portadores de hipertensão ar-terial, com vistas à promoção de condições favorá-veis para o esclarecimento de dúvidas e adoção dehábitos e estilos de vida saudáveis, consta como ca-minho seguido pelo enfermeiro competente paraobter resultados positivos em relação ao autocuidadoe adesão ao tratamento iniciado9.A atuação dos enfermeiros na aferição da pres-são arterial vem sendo reconhecida há várias déca-das, e, nos últimos anos, esse papel se ampliou muitoalém do procedimento de verificação. Esses profissi-onais estão envolvidos na detecção precoce da hi-
  3. 3. p.372 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6.Hipertensão arterial em motoristaspertensão arterial desconhecida e não controlada,participam de grupos multiprofissionais com açõesassistenciais e educativas conjuntas, implantam pro-gramas e consultas, desenvolvem e aprofundam seucorpo de conhecimento na área. São particularmenteatuantes na educação de pessoas, reforçando a im-portância do controle constante da pressão arterial.METODOLOGIATrata-se de um estudo transversal, descritivo eexploratório, realizado com trabalhadores de umaempresa de ônibus da cidade de Fortaleza-CE, nosmeses de outubro a dezembro de 2005. A populaçãodo estudo foi composta por 220 funcionários da re-ferida empresa. Destes, eram 124 motoristas e 96cobradores, com idade superior a 18 anos, que acei-taram participar da pesquisa e se encontravam naempresa no momento da coleta de dados.Em atendimento às recomendações expressasna Resolução 196/96, sobre pesquisa envolvendoseres humanos10, o projeto foi encaminhado e apro-vado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universi-dade Federal do Ceará, em 21 de outubro de 2005,conforme protocolo nº 285/05.Seguiu-se um contato inicial com os sujeitosda pesquisa, com a promoção de uma palestra sobrehipertensão arterial e fatores de risco associados.Durante a palestra, os trabalhadores foram informa-dos sobre os objetivos do estudo e lhes foi assegura-do o direito à livre opção de participarem ou não dapesquisa, bem como o anonimato sobre todas as in-formações constantes da divulgação dos resultadosdo estudo. A aceitação do participante foi assegura-da pela assinatura do Termo de Consentimento Li-vre e Esclarecido.Para a coleta de dados, utilizou-se um questio-nário tipo inquérito com questões referentes à pre-sença de fatores de risco para hipertensão arterial,como: etilismo, tabagismo, sedentarismo, ingesta desal, consumo de verduras e frutas, gorduras (animal,vegetal, ou ambas), café, condição de sono e repou-so e atividades de lazer adotadas.Vale ressaltar que os dados foram coletados coma fonte primária, solicitando aos participantes queclassificassem o seu consumo de sal em ausente, pou-co, normal ou excessivo. Como atividade de lazerfoi considerada qualquer prática prazerosa ao indi-víduo, exercida no intuito de relaxamento ou dis-tração. A prática de atividades física era considera-da adequada quando feita mais de três vezes por se-mana e por tempo superior a trinta minutos11.Após a entrevista, os funcionários foram sub-metidos a uma avaliação antropométrica (medidasde peso e altura), seguida da verificação de pressãoarterial e teste de glicemia capilar.Para a coleta dos dados antropométricos, al-guns equipamentos foram utilizados, tais como: ba-lança antropométrica digital eletrônica devidamen-te testada e calibrada da marca Welmy com hastepara avaliação da estatura, fita métrica nãodistensível com intervalos de 0,1 cm e extensão de100 cm.As medidas de peso e estatura foram realizadascom o funcionário na posição ortostática,posicionado no centro da balança com os pés juntose descalços e os braços estendidos ao longo do cor-po. Para a medida da estatura, o participante foi ori-entado a permanecer com as mãos espalmadas sobreas coxas e o queixo ereto12.Como método utilizado para a medida da pres-são arterial, optou-se pelo indireto, com técnicaauscultatória. Foram utilizados esfigmomanômetrosaneróides e estetoscópios duplos da marca Tycos,além de jogos de manguitos com larguras variáveis,procurando-se manter a relação recomendada delargura que correspondesse a 40% da circunferênciado braço do indivíduo e o seu comprimento envol-vesse pelo menos 80% deste1.Quando da aferição da pressão arterial, o indi-víduo permaneceu em posição sentada, relaxado,com as costas apoiadas, pés pousados no chão, per-nas descruzadas e com o braço apoiado sobre umamesa e à altura do precórdio, como recomendado,padronizando-se o braço direito para a mensuração.Os funcionários mantiveram-se em repouso por pelomenos quinze minutos antes da verificação, e foramorientados quanto à necessidade de silêncio duran-te a medida.A pressão arterial foi verificada três vezes, comintervalos de um minuto entre cada verificação. Naocorrência de diferença igual ou superior a 6 mmHgentre os valores da pressão arterial sistólica (PAS) e/ou pressão arterial diastólica (PAD), precedeu-se anova verificação da pressão arterial e calculou-se amédia dos três valores de PAS e/ou PAD mais próxi-mos, sendo abandonado o valor mais divergente.A glicemia capilar foi medida com glicosímetroda marca Accu-Chek Active, que faz a determina-ção da glicose no sangue capilar fresco pelafotometria de refletância, sendo capaz de detectarglicemias capilares situadas entre 10 mg/dl e 600 mg/dl. Para a análise, foram utilizados os valores daglicemia capilar.
  4. 4. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6. • p.373Chaves DBR, Costa AGS, Oliveira ARS, Oliveira TC, Araújo TL, Lopes MVOCom base na V Diretrizes Brasileiras de Hiper-tensão Arterial1,os valores da pressão arterial foramassim classificados: normais (<130 x 85 mmHg),limítrofes (130-139 x 85-89 mmHg) e alterados(e”140 x 90 mmHg).O peso e a estatura possibilitaram o cálculo doÍndice de Massa Corporal (IMC)12classificado como:abaixo do peso (<18,5), peso normal (18,5 - 24,9),sobrepeso (25 – 29,9) e obesidade (e”30).Concluída essa etapa, os dados foram organi-zados numa planilha do programa Excel 8.0 e anali-sados com apoio do software SPSS versão 15.0. Naanálise dos dados, foram calculadas as freqüênciaspercentuais para variáveis nominais e medidas detendência central e dispersão para as variáveis nu-méricas. Na comparação múltipla de diferença demédia dos valores da pressão arterial sistólica ediastólica, com seus respectivos fatores de risco, foiaplicado o Teste de Tukey.RESULTADOS E DISCUSSÃOOs 220 participantes da pesquisa eram todos dosexo masculino, com idade média de 38,43 anos(±9,57). Na distribuição da amostra quanto aos va-lores de pressão arterial, segundo observou-se, 51,9%apresentaram valores normais, 23,6% valoreslimítrofes e 24,5% valores alterados. Ou seja, 48,1%da população avaliada possuíam valores de pressãoarterial classificados como limítrofes ou alterados.Foramencontradososseguintesfatoresderisco:sedentarismo (87,3%), consumo de cafeína (79,5%),consumo de gordura (73,6%), sobrepeso e obesidade(72,9%), consumo de bebida alcoólica (53,4%), con-sumo de verduras inadequado (39,5%), consumo defrutas inadequado (30%), problemas durante o sono(16,9%), atividade de lazer deficiente (9,6%), taba-gismo (9,5%) e consumo excessivo de sal (5,5%).Quanto ao índice de massa corpórea, 27,1%dos participantes apresentaram IMC normal, 49,5%sobrepeso e 23,4% obesidade. Referido dado podese relacionar diretamente com o consumo de gordu-ra pela maior parte da população, assim como com ogrande número de sedentários, considerados aque-les que não praticavam atividade física por temposuperior a trinta minutos e mais de três vezes porsemana. Esses fatores são apontados por estudospregressos que mostram a significância da obesidadequanto à gênese da hipertensão arterial, aumentan-do seu poder quando associada à alimentação ina-dequada e ao sedentarismo, expondo esses indiví-duos a alterações cardiovasculares e, conseqüente-mente, a maior risco de morbidade e mortalidadequando não tratadas essas alterações13.Outro fator de risco presente nessa clientelafoi o elevado consumo de cafeína. Como alguns es-tudos demonstram, a cafeína pode agir diretamentena resistência vascular periférica, provocandovasoconstrição com conseqüente aumento da pres-são arterial14.Verifica-se que mais da metade da populaçãoconsome bebida alcoólica e o tipo de bebida maisingerido pela maioria dos entrevistados foi a fermen-tada (cerveja), indicada por 86 trabalhadores, en-quanto 29 relataram consumir bebidas destiladas(aguardente). Quanto à freqüência de consumo debebida alcoólica, 74 indivíduos referiram beber pelomenos uma vez por semana, enquanto 41 mencio-naram bebê-la esporadicamente. Conforme se sabe,o consumo excessivo de álcool eleva a pressão arte-rialeavariabilidadepressóricaaumentaaprevalênciade hipertensão. O álcool é, assim, uma das causas deresistência à terapêutica anti-hipertensiva1.Com relação à dieta, o fator de risco cardio-vascular presente foi relacionado ao consumo de gor-duras na alimentação. Em contraposição, a grandemaioria dos participantes consumia diariamente fru-tas e verduras, e uma minoria classificou o seu consu-mo de sal como excessivo. É importante assinalar ofato de serem esses dados subjetivos (obtidos pela in-formação) e, portanto, sujeitos a questiona-mento.Tambémseidentificoubaixaincidênciadetabagistas,de referência a problemas durante o sono, além deum número significativo de participantes que manti-nham alguma atividade de lazer. Por ser a hipertensãoarterial uma doença multifatorial, tais fatores, quan-do simultaneamente controlados, contribuem para amanutenção de valores normais da pressão arterial15.>>TTTTTABELAABELAABELAABELAABELA 1:1:1:1:1: Caracterização da população do estudo segundoas variáveis idade, peso, estatura, IMC, glicemia e valores depressão sistólica (PAS) e diastólica (PAD). Fortaleza, 2005.*dois participantes não tiveram seus parâmetros antropométricosavaliados por serem portadores de deficiência física. **trêsparticipantes recusaram se submeter à avaliação glicêmica.***Pressão Arterial Sistólica. ****Pressão Arterial Diastólica.VVVVVariáveisariáveisariáveisariáveisariáveis NNNNN MédiaMédiaMédiaMédiaMédia Desvio-Desvio-Desvio-Desvio-Desvio- MedianaMedianaMedianaMedianaMedianapadrãopadrãopadrãopadrãopadrãoIdade 220 38,43 9,57 37,00Peso*218 75,19 11,71 74,10Estatura*218 1,65 0,07 1,66IMC*218 27,41 4,10 26,92Glicemia**217 97,49 31,32 91,00PAS***220 123,25 18,00 120,00PAD****220 83,10 11,76 80,66
  5. 5. p.374 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6.Hipertensão arterial em motoristasA Tabela 1 mostra as variáveis idade, peso,estatura, IMC, glicemia e valores de pressão sistólica(PAS) e diastólica (PAD). Observa-se que, apesardos valores alterados da pressão arterial apresenta-dos, os valores médios da PAS e da PAD estão den-tro da normalidade. Da mesma forma, o valor médioglicêmico estava dentro do padrão recomendado. Jáo valor médio de IMC (27,41 kg/m²) foi considera-do sobrepeso12.Conforme descrito, o Teste de Tukey foi apli-cadoparaverificaçãodasdiferençasdemédiadepres-são arterial de acordo com as variáveis comoglicemia, quantidade de sal e consumo de gordura.Ao prosseguir na análise, encontrou-sesignificância estatística entre os participantes querelataram consumir pouca quantidade de sal e apre-sentaram níveis maiores de glicemia, PAS e PAD(Tabela 2). Esse achado difere dos de alguns estudosrelativos ao consumo de sal, os quais demonstramque uma alimentação mais rica em gordura e sal pa-receserpreditoradeagravosàsaúde,particularmenteassociada aos níveis de pressão arterial 16. Destaca-senovamente que o consumo de sal foi uma variávelobtida por informações dos participantes e não porobservação direta.Nesse aspecto, outros estudos, no entanto, cor-roboram os achados ora identificados, pois tambémnão demonstraram relação estatística entre o maiorconsumo de sal e o aumento da pressão arterial, emvirtude da dificuldade de mensuração representati-va quanto ao uso de sal na dieta usual17.Há tempos a necessidade de controle da pres-são arterial, assim como sua prevenção em popula-ção com sobrepeso, vêm sendo enfatizadas, com oobjetivo de minimizar os riscos de desenvolvimentode doenças cardiovasculares18.TTTTTABELAABELAABELAABELAABELA 3:3:3:3:3: Comparação múltipla de diferença de média (Testede Tukey) entre glicemia, PAS, PAD e tipo de gorduraconsumida. Fortaleza, 2005.*Pressão Arterial Sistólica. **Pressão Arterial Diastólica.VVVVVariávelariávelariávelariávelariável (I) T(I) T(I) T(I) T(I) Tipo deipo deipo deipo deipo de (J) T(J) T(J) T(J) T(J) Tipo deipo deipo deipo deipo de DiferençaDiferençaDiferençaDiferençaDiferença VVVVValor palor palor palor palor pgorduragorduragorduragorduragordura gorduragorduragorduragorduragordura de médiade médiade médiade médiade média(I-J)(I-J)(I-J)(I-J)(I-J)Animal Vegetal 5,23 0,23Ambas 8,80(*) 0,00PPPPPASASASASAS*****Vegetal Animal -5,23 0,23Ambas 3,56 0,54Ambas Animal -8,80(*) 0,00Vegetal -3,56 0,54Animal Vegetal 0,97 0,90Ambas 3,49 0,20PPPPPADADADADAD**********Vegetal Animal -0,97 0,90Ambas 2,51 0,57Ambas Animal -3,49 0,20Vegetal -2,51 0,57Animal Vegetal -0,75 0,98Ambas 4,60 0,36GlicemiaGlicemiaGlicemiaGlicemiaGlicemiaVegetal Animal 0,75 0,98Ambas 5,36 0,40Ambas Animal -4,60 0,36Vegetal -5,36 0,40*Pressão Arterial Sistólica. **Pressão Arterial Diastólica.TTTTTABELAABELAABELAABELAABELA 2:2:2:2:2: Comparação múltipla de diferença de média (Tes-te de Tukey) entre glicemia, PAS, PAD e consumo de sal. Forta-leza, 2005.VVVVVariáveisariáveisariáveisariáveisariáveis ConsumoConsumoConsumoConsumoConsumo ConsumoConsumoConsumoConsumoConsumo DiferençaDiferençaDiferençaDiferençaDiferença VVVVValor palor palor palor palor pde sal (I)de sal (I)de sal (I)de sal (I)de sal (I) de sal (J)de sal (J)de sal (J)de sal (J)de sal (J) de médiade médiade médiade médiade média(I-J)(I-J)(I-J)(I-J)(I-J)Pouco 3,98 0,95Ausente Normal 14,45 0,26Excessivo 12,75 0,51Ausente -3,98 0,95PPPPPASASASASAS*****Pouco Normal 10,47 0,00Excessivo 8,77 0,35Ausente -14,45 0,26Normal Pouco -10,47 0,00Excessivo -1,70 0,98Pouco 0,98 0,99Ausente Normal 6,17 0,64Excessivo 2,93 0,96Ausente -0,98 0,99PPPPPADADADADAD**********Pouco Normal 5,18 0,01Excessivo 1,94 0,94Ausente -6,17 0,64Normal Pouco -5,18 0,01Excessivo -3,24 0,79Pouco -22,10 0,40Ausente Normal -9,77 0,90Excessivo -11,75 0,89Ausente 22,10 0,40GlicemiaGlicemiaGlicemiaGlicemiaGlicemia Pouco Normal 12,330,02Excessivo 10,35 0,69Ausente 9,77 0,90Normal Pouco -12,33 0,02Excessivo -1,97 0,99
  6. 6. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6. • p.375Chaves DBR, Costa AGS, Oliveira ARS, Oliveira TC, Araújo TL, Lopes MVOCom controle efetivo do peso, redução doconsumo de gorduras, substituição de açúcaressimples por carboidratos complexos e aumento daingestão de frutas, verduras e legumes, já se ob-servou uma redução média da pressão arterialsistólica em torno de 4%, no intervalo de tempode um ano 19.Apesar dessa constatação, no referente às de-mais variáveis, como prática de atividade física re-gular e tipo de dieta, quando correlacionadas comos valores médios de PAS, PAD e glicemia, não seobservou significância estatística relevante segun-do o Teste de Tukey.Como mostra a Tabela 3, percebeu-se cor-relação estatisticamente relevante entre os par-ticipantes que consumiam gordura animal e apre-sentaram valores médios de PAS maiores que osdemais. Outros estudos têm apontado os efeitosdos níveis de gordura na dieta de pacientes por-tadores de doenças crônicas como a hipertensãoarterial. Conforme demonstram, em populaçõescujas dietas têm excessivo teor de gordura, so-bretudo as saturadas, ocorre maior número dedistúrbios cardiovasculares20.CONCLUSÃONo estudo ora elaborado, identificou-se, emmotoristas e cobradores de uma empresa de trans-porte coletivo urbano, a existência de fatores derisco para complicações cardiovasculares, comênfase na hipertensão arterial. Hábitos de vidainadequados, a exemplo de consumo aumentadode gordura animal, cafeína e álcool, concomitanteà presença de obesidade na maioria dos indiví-duos estudados, e sedentarismo constituem fato-res que poderão ter influenciado o desenvolvi-mento de níveis de pressão arterial alterados.Encontrou-se associação estatística relevan-te entre os valores de pressão arterial sistólica eda pressão arterial diastólica e de glicemia entreaqueles que consumiam pouco sal, evidenciandoa dificuldade em avaliar este dado partindo deinformações dos participantes. Outra associaçãoestatística encontrada foi entre o consumo degordura animal e valores de PAS.Esta última associação é respaldada pela li-teratura e deve representar um aspecto a ser des-tacado na educação à saúde da população comoum todo.Outros fatores de risco, no entanto, não de-monstraram estatisticamente influenciar a ele-vação da pressão arterial, como a prática de ativida-de física inadequada, o consumo de cafeína e álcoole a obesidade, quando correlacionadas com os valo-res médios de PAS, PAD e glicemia.No entanto isso não torna a presença dos fato-res de risco menos importantes, uma vez que estão nagênese das alterações cardiovasculares, sendo queoutras associações devem ser investigadas. A exten-são da influência dos fatores de risco para alteraçõescardiovasculareséaindaobjetodeinvestigações,prin-cipalmente com relação a determinadas atividadesocupacionais,sobretudoempaísesemdesenvolvimen-to,resultandoemgrandedesvantagememrelaçãoaospaíses desenvolvidos. No referente à população eco-nomicamente ativa, a falta de dados é real, até mes-mo em setores de grande importância econômica.Mesmo diante das limitações do estudo, umavez que foi desenvolvido com um grupo específicode trabalhadores, a detecção de um significativonúmero de fatores de risco sugere a necessidade doestabelecimento de ações de promoção da saúde eprevenção de complicações futuras quanto à saúdecardiovascular.Tais ações são inerentes ao papel do enfermei-ro. E acredita-se que esse profissional possa desem-penhar um papel imprescindível para a modificaçãoefetiva do cenário encontrado, dando atenção es-pecial aos índices de sobrepeso e obesidade, emcontraposição ao grande número de sedentários, in-cluindo os cuidados na manutenção de uma alimen-tação adequada com frutas e verduras.REFERÊNCIAS1.Mion Júnior D, coordenador. V Diretrizes Brasileirade Hipertensão Arterial. São Paulo: Sociedade Brasi-leira de Cardiologia; 2006.2.Pereira AC, Krieger JE. Dos fatores de risco clássicos aoperfil de risco individualizado. Rev Soc Bras Hipert. 2005;8(4):131-7.3.Mansur AP, Favarato D, Souza MFM. Tendência dorisco de morte por doenças circulatórias no Brasil de 1979a 1996. Arq Bras Cardiol. 2001; 76(6):497-503.4.Araújo TM, Dantas J, Mendes R. Hipertensão arterial efatores psicossociais em uma refinaria de petróleo. RevBras Med Trab. 2004; 2(1):55-68.5.Oliveira EB, Lisboa MTL. As representações sociais doruído pelos trabalhadores de enfermagem de um centro deterapiaintensiva.RevenfermUERJ.2007;15(4):495-01.6.Cordeiro R, Lima Filho EC, Almeida IM. Pressão arterialentre trabalhadores de curtume. Rev Saúde Pública. 1998;32(5):468-75.7.Santos Júnior ÉA. De que adoecem e morrem os moto-ristas de ônibus? Uma revisão de literatura. Rev BrasMed Trab. 2003; 1(2):138-47.
  7. 7. p.376 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jul/set; 16(3):370-6.Hipertensão arterial em motoristas8.Souza NSS, Carvalho FM, Fernandes RCP. Hiper-tensão arterial entre trabalhadores de petróleo expos-tos a ruídos. Cad Saúde Pública. 2001; 17(6):1481-8.9.Pavan RMS, Siviero IMPS, Toledo VP, Duran ECM. Di-agnósticos de enfermagem em trabalhadores hipertensosde uma empresa de transporte urbano coletivo. Rev Ele-trônica Enfermagem [online] 2005 [citada 14 fev 2007];7(2):173-8. Disponível em: URL: http://www.fen.ufg.br/revista/revista7_2/original_04.htm.10.Ministério da Saúde (Br). Conselho Nacional de Saú-de. Resolução n° 196 de 10 de outubro de 1996. Dire-trizes e normas regulamentadoras da pesquisa envol-vendo seres humanos. Brasília (DF): Conselho Nacio-nal de Saúde; 1996.11.Forjaz CLM, Santaella DF, Souza MO. Atividade físicae a pessoa hipertensa. In: Pierin AMG, coordenadora.Hipertensão arterial: uma proposta para o cuidar. Barueri(SP): Manole; 2004.12.Jarvis C. Exame físico e avaliação de saúde. 3ªed. Riode Janeiro: Guanabara Koogan; 2002.13.RezendeFAC,RosadoLEFPL,RibeiroRCL,VidigalFC,Vasques ACJ, Bonard IS, et al. Índice de massa corporal ecircunferência abdominal: associação com fatores de riscocardiovascular.ArqBrasCardiol.2006;87(6):728-34.14.Cavalcante JWS, Santos Júnior PRM, MenezesMGF, Marques HO, Cavalcante LP, Pacheco WS.Influence of caffeine on blood pressure and plateletaggregation. Arq Bras Cardiol. 2000; 75(2):102-5.15.Simonetti JP, Batista L, Carvalho LR. Hábitos desaúde e fatores de risco em pacientes hipertensos. RevLatino-am Enfermagem 2002; 10:415-22.16.Molina MCB, Cunha RS, Herkenhoff LF, Mill JG. Hi-pertensão arterial e consumo de sal em população urbana.RevSaúdePública[online]2003[citadoem17mar2007];37(6):743-50. Disponível em: http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=s0034-89102003000600009&Ing=en&nrm=iso17.Swales J. Population advice on salt restriction: the soci-al issues. Am J Hypertens. 2000; 13(1): 2-7.18.World Health Organization. International Society ofHypertension Guidelines for the managemente ofhypertension. J Hypertens. 1999; 17:151-83.19.Sartorelli DS. Estudo de intervenção nutricionalaleatorizado em adultos com sobrepeso em UnidadeBásica de Saúde em Ribeirão Preto/SP. [dissertaçãode mestrado]. Ribeirão Preto (SP): Universidade deSão Paulo; 2003.20.Lima FEL, Menezes TN, Tavares MP, Szarfarc SC,Fisberg RM. Ácidos graxos e doenças cardiovasculares:uma revisão. Rev Nutr. 2000; 13(2): 73-80.Recebido em: 30.04.2008Aprovado em: 30.06.2008

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