1    REPRESENTAÇÃO DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS PARA O                                       ENSINO FUNDAMENTAL ...
2         O racismo, na maioria das vezes, acontece de forma subliminar, implícita, silenciosae, tão sutilmente articulado...
3minimizar o preconceito racial, além de contribuir para a formação de uma escola voltadapara a diversidade cultural pront...
4         Vale ressaltar que é difícil definir quem é considerado negro no Brasil. SegundoMunanga (2004), a classificação ...
5é dada pelos “dominantes” que querem continuar o processo de dominação. A autoramenciona, ainda, que a mensagem visual se...
6       Sales Jr. (2006), afirma, porém, que a discriminação de caráter racial, muitas vezes,ocorre sem nenhuma enunciação...
7estereotipifica a figura do negro. Lembramos que as ilustrações foram analisadas conformecritério descrito na primeira se...
8       A partir de agora iremos verificar de que forma o negro está representado nas imagensencontradas no livro didático...
9       Wilson (2005) menciona em seu artigo, que trata da invisibilidade da branquidade, queo privilégio branco é discurs...
10       As práticas culturais dominantes disseminam a idéia de que os afrodescendentes sãoincompetentes e inábeis para ce...
11disso, a postura em que o negro se encontra na Figura 3A – abaixado, sem o rosto amostraindica a forma como os negros de...
12       Rocha (2006) cita que a formação profissional, desde as suas origens, sempre foireservada às classes menos favore...
13        FIGURA 6. DESENHO ESQUEMÁTICO MOSTRANDO TRÊS TIPOS DE                     HOSPEDEIROS DO Trypanosoma cruzi..    ...
14                      FIGURA 7. MULHER NEGRA BRINCANDO                                 COM SEU CÃO.                     ...
15estereótipos, dos valores, e conseqüentemente, da tendência do pensamento históricoeducacional brasileiro (DIAS, 2004 ap...
16mesmo persuadir reproduz as fórmulas da cultura do racismo e do preconceito” (ORLANDI,2003).         Além do que foi des...
17"subsidiar" a escolha do livro didático pelo professor, já que dezenas de livros são inscritos noPlano Nacional do Livro...
18Referência BibliográficaAQUINO, Miriam de Albuquerque. A imagem do afrodescendente na escola: a versão queficou. In: IV ...
19MUNANGA, Kabengele - Org. Superando o Racismo na Escola. Ministério da Educação,Secretaria de Educação Continuada, Alfab...
20WILSON, Anna V. Borboletas, pássaros e teias de aranha: Interrogar o privilégio de serbranco por meio da investigação na...
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Artigo sonia helena et al(2)

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Artigo sonia helena et al(2)

  1. 1. 1 REPRESENTAÇÃO DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO DE CIÊNCIAS PARA O ENSINO FUNDAMENTAL ÁREA DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO Sonia Helena Furtado Costa 1 Helena do Socorro Campos da Rocha 2 Ronaldo Martins Gomes 3RESUMOEste trabalho tem por objetivo analisar de que forma o negro está representado no livrodidático de Ciências para o ensino fundamental. Textos e imagens que apresentaram negroscomo personagens, foram analisados, verificando-se a existência ou não de estereótipos eformas discriminatórias aos mesmos. As análises indicaram, além da sub-representação donegro, a presença de estereótipos e formas de preconceitos presentes tanto nas imagens comonos textos, de forma explicita ou implícita, evidenciando um descaso e/ou preconceito com aetnia negra por parte dos autores e/ou ilustradores. Tendo em vista que o professor é omediador das informações previamente estabelecidas nos livros didáticos, acreditamos que omesmo deva estar apto a detectar e observar fragilidades implícitas nos livros, tais como apresença de preconceitos raciais. Nesse sentido, propõem-se o desenvolvimento de cursos deeducação continuada, cursos de aperfeiçoamento, extensão, especialização, abordando atemática étnico-racial, como os que têm acontecido na instituição no Centro Federal deEducação Tecnológica do Pará.Palavras-chave: negro. livro didático. ciências.Introdução Falar sobre preconceito racial no Brasil pode parecer, para muitos, coisa do passado,algo que foi deixado para trás com a abolição da escravatura. Há tempos, a classe hegemônicadominante branca insiste em simular um quadro democraticamente racial, onde todos vivemde maneira harmônica, sem discriminações ou preconceitos. Sabe-se, entretanto, que taldemocracia não existe, pois a realidade brasileira é totalmente contrária a qual a classedominante insiste em fazer prevalecer como a real. A literatura não deixa margem paradúvidas, pois está repleta de informações que mostram ao longo das décadas a presença deracismo e formas discriminatória ao negro na sociedade Brasileira (ROSEMBERG, 2003;AQUINO, 2003; GOMES, 2003; ROCHA, 2006; MAGGIE, 2006; KALCKMANN, 2007).1 Mestre em Ciências Veterinárias – UECE; Bacharel em Biologia – UFPA; Licenciada Plena em Biologia – CEFET-PA;Concluinte do Curso de Especialização em Educação para Relações Étnico Raciais. sonia_helena35@yahoo.com.br;2 Orientadora do Artigo. Professora de Educação Especial do CEFET-PA. Mestre em Teoria e Pesquisa do Comportamento –Psicologia Experimental – UFPA; Doutoranda em Teoria e Pesquisa do Comportamento – Psicologia Experimental – UFPA;Coordenadora do Curso de Especialização em Educação para Relações Étnico Raciais – CEFET-PA;3 Co-orientador do Artigo. Graduando em Licenciatura Plena em Pedagogia do CEFET-PA; Bolsista da Diretoria deEnsino Superior CEFET-PA e vice-presidente do DCE – CEFET-PA.
  2. 2. 2 O racismo, na maioria das vezes, acontece de forma subliminar, implícita, silenciosae, tão sutilmente articulado que passa despercebido por muitos, porém não deixa de atingirseu objetivo, que é desvalorizar, marginalizar, diminuir, destruir, execrar a auto-estima, adignidade, a cultura e a história da classe social africana e afro-brasileira. Segundo Lima &Vala (2004), as novas expressões de racismo, mais veladas e hipócritas, são tão ou maisdanosas e nefastas do que as expressões mais abertas e flagrantes, uma vez que, por seremmais difíceis de serem identificadas, são também mais difíceis de ser combatidas. Diversas pesquisas têm demonstrado, ao longo dos anos, que o Livro didático têmsido utilizado na reprodução de estereótipos e formas discriminatória ao negro, contribuindopara o fortalecimento das desigualdades (ROSEMBERG, 1980, 2003; NEGRÃO, 1990;SILVA, 1995; FREITA, 2005; CARVALHO, 2006). Essa questão é preocupante, haja vista olivro didático, enquanto recurso pedagógico, fazer-se presente “desde os momentos iniciais deescolarização das crianças, que aprendem a percebê-los como legitimadores de ‘verdades’”(COSTA, 2008). Nesse contexto é que o presente estudo tem por objetivo verificar de que forma onegro está representado no livro didático de ciências para o Ensino Fundamental, e dessaforma tentar contribuir para o fim do preconceito racial ainda tão latente nas práticaspedagógicas. A maioria dos livros de Ciências presente no Guia de Ciências do ProgramaNacional do Livro Didático para o Ensino Fundamental apresenta um manual do professor, háum tópico que trata da relevância que as Ciências têm para os jovens. Neste, lê-se que namedida que o jovem aumenta sua compreensão da estrutura e do funcionamento da natureza,ele aprenderá a observar intencionalmente, a formular hipóteses, a experimentar para testá-las,a concluir e, finalmente, a operar com os conceitos adquiridos para solucionar novosproblemas; que o aluno constrói, gradualmente, valores e princípios que lhe permitem melhorenfrentar os desafios do dia-a-dia, tanto àqueles relacionados ao mundo do trabalho como osque exigem um posicionamento ético diante dos fatos. Aprender Ciência, portanto, faz parte de um dos objetivos maiores da educação, queé o de formar cidadãos conscientes, participantes e solidários. Após a implementação da Lei 10.639, promulgada em 9 de fevereiro de 2003, quetornou obrigatório a inclusão no currículo oficial da Rede de Ensino a temática “História eCultura Afro-Brasileira”, em especial nas áreas de Educação Artística, Literatura e HistóriaBrasileira (BRASIL, 2008), acredita-se que outras disciplinas, tais como as Ciências, tenhamtambém incluído em seus livros didáticos tal temática, contribuindo, dessa maneira, para
  3. 3. 3minimizar o preconceito racial, além de contribuir para a formação de uma escola voltadapara a diversidade cultural pronta a respeitar as diferenças raciais. Estando plenamente de acordo que o livro de Ciência exerce forte influência naformação do aluno e do cidadão brasileiro, é que nos propusemos a examinar imagens e textosutilizados nos livros didáticos de Ciências para verificar se tais livros têm incorporado o queprega a Lei 10.639. Para nortear esse exame, delimitamos nossos problemas em algumasquestões, tais como: o número de ilustrações de pessoas negras e pardas nos livros deCiências do ensino fundamental é proporcional ao de ilustrações de pessoas brancas? Hápresença de estereótipos e formas discriminatórias ao negro nas imagens e textos queapresentam o negro como personagem? Diante do exposto, o presente artigo tem por objetivo geral, analisar a maneira pelaqual os negros são representados nos livros didáticos de Ciências do Ensino Fundamental e,como objetivos específicos, verificar se o número de imagens de negros é proporcional aonúmero de imagens de brancos; identificar, ainda, a presença de estereótipos e formasdiscriminatórias ao negro nas ilustrações que apresentam o negro como personagem, bemcomo identificar a presença de estereótipos e formas discriminatórias ao negro nos textos queo apresentam como personagem. Para tanto, selecionamos um livro de Ciências da 6ª série do ensino fundamental quefaz parte do guia de Ciências do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD): “Entendendoa Natureza: os seres vivos no ambiente” dos autores César da Silva Júnior, Sezar Sasson ePaulo Sérgio Bedaque Sanches, Editora Saraiva, ano 2007. O critério utilizado para a seleçãodo livro didático neste estudo foi justamente sua presença no PNLD. Nesta pesquisa, são tomados como instrumentos de análise os textos e as imagens,presentes no livro didático de Ciências, que mostram o negro como personagem,identificando-se a existência da presença de formas discriminatórias à etnia, construídas pelosautores e ilustradores; enfocando situações atribuídas, o meio sócio-cultural e a forma pelaqual o negro destacado aparece ilustrado. Vale ressaltar, que, para fins de classificação,considerou-se como ilustrações: fotos, figuras e desenhos de seres humanos. Selecionadas as imagens, iniciou-se um trabalho de descrição minuciosa, nas quaispudéssemos encontrar negros retratados. Realizamos também um estudo quantitativo, no qualcomparamos os números de imagens que representavam sujeitos negros com aquelas imagensque traziam sujeitos brancos retratados, bem como a análise dos textos e legendas, buscandoestabelecer relações destas com as imagens.
  4. 4. 4 Vale ressaltar que é difícil definir quem é considerado negro no Brasil. SegundoMunanga (2004), a classificação racial no Brasil é “baseada na marca e na cor da pele, e nãona origem ou no sangue, como nos Estados Unidos e na África do Sul”. Dessa forma,utilizamos neste estudo uma classificação por cor, baseada nas categorias usadas pelo InstitutoBrasileiro de Geografia e Estatística, que considera negro todos pretos e pardos (OLIVEIRA,2004). O presente artigo está subdividido em três partes. A primeira parte trata da abordagemda imagem de negros no livro didático de Ciências para o ensino fundamental; a segundaparte trata de estereótipos e formas discriminatórias ao negro nas ilustrações dos livrosdidáticos de Ciências e, finalmente, a terceira parte deste artigo trata de estereótipos e formasdiscriminatórias ao negro nos textos dos livros didáticos de Ciências. Sabendo-se que os afro-descendentes que compõem a população brasileira são damaior importância na constituição do estado, a relevância do presente artigo se dá pelanecessidade que esse segmento tem de se ver representado nos livros didáticos das váriasáreas, não apenas naquelas apontadas pela Lei 10.639/03, ou seja, Educação Artística,Literatura e História Brasileiras.1. Abordagem quantitativa das imagens do negro no livro didático de Ciências Nessa seção, pretendemos mostrar ao leitor como o negro está representado no livrodidático de Ciências, ou seja, se o número de ilustrações de personagens negros éproporcionalmente similar ao número de personagens não negros; mostrando, dessa forma, seos autores estão, de fato, dando a devida atenção a esse segmento, tendo em vista os mesmosa merecem, não apenas por que ficaram por anos na “invisibilidade”, mas por ser um direitoprevisto em Lei (10.639/08), e como tal deve ser respeitado. Muitas vezes, o livro didático se constitui como a única fonte de acesso aoconhecimento, tanto por professores, em razão das condições de trabalho, ou seja, salas deaulas repletas de alunos e escassez de materiais pedagógicos, como também pelos alunos, queoriundos das classes populares e de baixa renda, é pouco provável que tenham contato comoutras leituras. Assim, “em virtude da importância que lhe é atribuída e do caráter de verdadeque lhe é conferido, o livro didático pode ser um veículo de expansão de estereótipos nãopercebidos pelo professor” (MUNANGA, 2005, p. 23). Nosella (1981, apud COSTA, 2008) descreve que a maioria dos livros didáticos estárepleta de estereótipos. Segundo a autora, a forma de representar os valores, noções e crenças,
  5. 5. 5é dada pelos “dominantes” que querem continuar o processo de dominação. A autoramenciona, ainda, que a mensagem visual se torna um eficiente instrumento ideológicocomplementar dos textos, devido à sua força comunicativa, rapidez e impacto emotivo, muitasvezes maior que a própria comunicação escrita. A representação de imagens visuais resulta de processos produtivos que acompanhama existência humana desde os tempos mais remotos. Assim, estudar as imagens tornou-setarefa quase obrigatória não só para historiadores e professores de História, de Comunicação ede Arte, como também para quem queira saber interpretá-las numa sociedade onde grandeparte dos valores é regida por signos ou códigos visuais, carregadas de ideologias eestereótipos. Para a análise do tratamento dispensado ao negro nos livros didáticos de Ciências,conforme citado anteriormente, procedeu-se à contagem do número de vezes que pessoasnegras aparecem nas ilustrações, sendo estas representadas por fotos, figuras e desenhos quemostrem o corpo inteiro de personagens humanos negros, bem como partes do corpo ousimplesmente sua epiderme. Após contagem das ilustrações apresentadas no livro, observamos um total de 39imagens de personagens humanos, onde apenas 6 eram negros. Esses resultados nos permitemdizer que para cada 7 personagens identificados no livro de Ciências analisado, apenas 1personagem era negro. Diante destes resultados, podemos afirmar que o negro aparece deforma sub-representada nos livros didáticos de Ciências do ensino fundamental. Além disso,essa diferença marcante observada entre o número de ilustrações de personagens negros ebrancos analisados no livro, leva-nos a perceber claramente um silenciamento sobre a questãoétnico-racial e sugere que os poucos negros que aparecem servem apenas para simular umquadro de igualdade racial, sem êxito, pois, fica claro, pela grande quantidade de personagensbrancos presentes nos livros, que o branco ainda é tido como norma de humanidade. Rosemberg (1985 apud ROSEMBERG, 2003), analisando a literatura infanto-juvenil,da mesma forma, verificou a sub-representação de personagens negros em textos eilustrações. Freitas (2005), em seu estudo sobre a relação negros, brancos e índios nos manuaisdidáticos de História, mostrou uma situação majoritária da representação de brancos (180ocorrências), seguida de uma sub-representação de negros (20). Silva (2007) verificou uma desproporção entre personagens brancos e negros emlivros didáticos de Língua Portuguesa, onde para cada personagem negro eram observados16,7 personagens brancos.
  6. 6. 6 Sales Jr. (2006), afirma, porém, que a discriminação de caráter racial, muitas vezes,ocorre sem nenhuma enunciação explícita ou implícita e que as relações raciais constituem,nesse caso, um discurso silencioso, um jogo de linguagem não-verbal, não-dito. Além disso, podemos dizer que o silenciamento referente ao segmento negro pode serverificado não apenas pela omissão de palavras textuais, mas também pela ocultação ouredução quase completa de suas imagens. Nós, professores, devemos, portanto, ter o cuidadopara não cairmos nessas armadilhas, compactuar com esse silenciamento. Segundo Aquino (2003), silenciar a história de determinado grupo social é reforçar oracismo, é silenciar os saberes históricos; é condená-los ao holocausto cultural. O autor dizainda que “silenciar a cultura do outro por meio de estratégias de submissão e inferiorização éapagar as vozes da história, é extirpar a memória” (AQUINO, 2003, p.11). Após a identificação de problemas acerca da representação do negro no livro didáticode Ciências, tais como a sub-representação e silenciamento, nada mais justo que apontarproposições para melhoria desse livro. Sugerimos, inicialmente, aos autores, às editoras, aosilustradores, aos professores, aos órgãos competentes e a todos àqueles que, de alguma forma,sintam-se responsável pela educação e formação de uma sociedade livre de preconceitos eracismos, que, inicialmente, buscassem realmente compreender a importância social que acultura africana e afro-descendente tem para um país marcado pela diversidade étnica ecultural - o Brasil; que buscassem reconhecer a relevância de incluir a cultura negra nos livrosdidáticos; pois dessa maneira, será muito mais fácil tratar de questões como preconceito eestereótipos nos livros didáticos. Ainda no que diz respeito aos livros didáticos, sabe-se que estes têm se constituído emfontes inesgotáveis de pesquisa que abordam os mais diversos temas, dentre os quais osestereótipos que veiculam e que contribuem para o fortalecimento das desigualdadesexistentes entre os atores que atuam no cotidiano social (GOMES, 2002; ROSEMBERG,2003). A seguir, passaremos à próxima seção do artigo, onde analisamos justamente apresença de estereótipos nas imagens dos personagens negros no livro de Ciência.2. Estereótipos e formas discriminatórias ao negro nas imagens dos livros didáticos deCiências Nessa seção, mostraremos ao leitor como a figura do negro está representada no livrodidático de Ciências, através da análise das imagens presentes no livro dos autores César daSilva Júnior, Sezar Sasson e Paulo Sérgio Bedaque Sanches, verificando se e como este livro
  7. 7. 7estereotipifica a figura do negro. Lembramos que as ilustrações foram analisadas conformecritério descrito na primeira seção deste artigo. Ninguém duvida que o mundo que nos circunda é imagético e complexo, visto que nosdeparamos o tempo todo com os mais variados tipos de imagens, tais como outdoors, painéis,fotografias, faixas, banners, filmes, programas televisivos, sites, anúncios, dentre outros. A fotografia é, muitas vezes, tomada como uma copia do real, é um “fio de uma redeque conecta sujeitos entre si e ao mundo. Um mundo que ao ser representado e, de algumaforma, recriado. Vê-la como um signo é um caminho que, percorrido, poderá nos levar aoencontro da potencia simbólica da imagem” (VAZ, 2003. p. 98). Assim, refletir acerca de possíveis leituras de imagens pode significar tambéminvestigar que padrões de visualidade um dado contexto sócio-histórico organiza e conforma,ou seja, devemos sempre considerar o caráter ideológico subjacente e qual a idéia essencialque quer ser transmitida. O termo Ideologia Imagética tem sido bastante utilizado em textos que tratam deanálises de obras de artes, cartazes, livros, televisão etc. Nelson Fernando Inocêncio da Silvaem seu livro “Consciência negra em cartaz”, valendo-se dos pressupostos teóricos de NicoHadjinicolauou, define Ideologia Imagética como “uma combinação específica de elementosformais e temáticos da imagem, que constitui uma das formas particulares da ideologia globalde uma classe (categoria)” (SILVA, 2001, p.49). Tendo em vista a construção histórica e imagética dos livros didáticos, que, via deregra, retratam o segmento negro de forma estereotipada, destituído de história, de passado, deinteligência, faz-se necessário aprendermos a “ler” as imagens que retratam o negro nos livrosdidáticos e saber qual a condição e posição que o segmento negro está ocupando nestes livros. Carvalho (2006), analisando artigos que tratam de estereótipos relacionados ao negroem livros didáticos, concluiu que o preconceito e racismo veiculados nos textos e imagens dosLivros Didáticos são multifacetados, ou seja, podem ser apresentados de diversas formas, sejaatravés dos fenótipos e estereótipos criados em torno do corpo negro como cor da pele,formato e espessura do nariz e lábios, textura dos cabelos; associando-os à feiúra einferioridade biológica em relação ao corpo branco; através das características dospersonagens negros que aparecem em situações de subjugação e inferioridade social eintelectual em relação aos personagens brancos; entre outras constatações que evidenciam aveiculação de preconceitos e posições racistas de forma implícita e explicitamente nosconteúdos e gravuras dos Livros Didáticos (CARVALHO, 2006).
  8. 8. 8 A partir de agora iremos verificar de que forma o negro está representado nas imagensencontradas no livro didático de Ciências dos autores César da Silva Júnior, Sezar Sasson ePaulo Sérgio Bedaque Sanches (Silva Júnior, Sasson, Bedaque, 2005). Gostaríamos, inicialmente, de tecer algumas considerações acerca da imagem que noschamou a atenção. A imagem está situada logo na primeira página do livro, onde os autoresmostram a relevância do livro de Ciências aos alunos, e mostra uma criança do gêneromasculino, branca, elevando um globo terrestre com suas mãos (Figura 1). FIGURA 1. CRIANÇA BRANCA COM GLOBO TERRESTRE NAS MÃOS FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. A imagem anterior, em nossa concepção, ilustra muito bem a idéia eurocêntrica deuma cultura monolítica de poder, ou seja: homem, jovem e branco. Assim, não somente opreconceito de raça fica tipificado na imagem, mas o de sexo também. Os autores propõem,de forma explicita, que tal fato deve ser considerado normal e essa normalidade deve serassumida por todos os alunos, seja negro ou não negro. A branquidade passou a ser mais do que ela própria; ela simboliza objetividade,normalidade, verdade, conhecimento, mérito, motivação, sucesso e credibilidade; além disso,acumula apoios invisíveis que contribuem anonimamente para o capital já acumulado ereforçado dos brancos. Raramente, porém, se reconhece que a branquidade exige e constitui ahierarquia, a exclusão e a destituição (FINE et al., 1997 apud WILSON, 2005),
  9. 9. 9 Wilson (2005) menciona em seu artigo, que trata da invisibilidade da branquidade, queo privilégio branco é discurso mono cultural e contestar este discurso aumenta o incômododos que têm o privilégio e ajuda àqueles que não têm a falar. A autora acredita que seeducadores e futuros professores não estivermos disponíveis a desconstruir esses privilégios ea colaborar no sentido de alterar o discurso enraizado do racismo no âmbito dos cursos delicenciatura e pós-graduação, teremos de assumir a responsabilidade pelas conseqüências doprivilégio branco que continuarão a manifestar-se na nossa sociedade. No capítulo 19, que trata as relações animais-seres humanos, na página 191,observamos a imagem das mãos de um homem negro abrindo a boca de uma jararaca viva(Figura 2), mostrando as grandes presas inoculadoras de veneno, tendo em vista que o tópicotrata de acidentes com cobras e a produção de soro antiofídico. Será o homem negro umpesquisador? Pouco provável, pois se assim o fosse, teria seu rosto visível, como verificadono presente livro didático analisado, onde se verificou que todos os pesquisadores presenteseram da cor branca. Em nossa concepção, o homem em questão é, provavelmente, um tratadorde animais, o que só reforça a idéia de que subempregos, bem como aqueles de altapericulosidade, são, na maioria das vezes, destinados a uma maioria, como exemplo os negrose pobres. FIGURA 2. HOMEM NEGRO ABRINDO A BOCA DE UMA JARARACA VIVA: MOSTRANDO AS GRANDES PRESAS INOCULADORAS DE VENENO. FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. p. 191 Nota-se que, quanto à questão do “trabalho”, os afro-descendentes ainda sãoconfinados em um micro-espaço para exercer funções menos favorecidas no discurso social,sobrando-lhes, apenas, a representação de papéis servis, socialmente pouco significativos(AQUINO, 2003, p.7).
  10. 10. 10 As práticas culturais dominantes disseminam a idéia de que os afrodescendentes sãoincompetentes e inábeis para certas atividades no mundo da produção cultural. A partir dessaspercepções, são produzidas imagens negativas em relação “a cultura, o conhecimento e otrabalho” dessa população, negando-lhes a sua força de trabalho como um elemento decisivono processo histórico-social e cultural da formação do País (CUNHA Jr, 2001). Gostaríamos de lembrar mais uma vez que a discriminação racial, muitas vezes, se dásem nenhuma enunciação explícita ou implícita. Porém, segundo Sales Jr. (2006), confrontaros comportamentos observados com outros comportamentos ou inseri-lo numa sériedivergente de comportamentos repetidos que separam e distribuem “brancos” e “negros”,talvez seja uma maneira de caracterizar melhor tal prática. Fazendo um paralelo entre o que Sales Jr. disse com os tipos empregos e/ou cargos eseus respectivos ocupantes, podemos citar como exemplos uma imagem verificada na página10, onde observamos um homem negro no garimpo, segurando uma peneira, tendo com issoseu corpo inclinado para frente, de modo que sua face não está visível (Figura 3A), uma outraimagem, na página 240, mostrando um seringueiro negro (Figura 3B). FIGURA 3. FORMAS DE SUBEMPREGOS DESTINADOS AOS NEGROS: GARIMPEIRO E SERINGUEIRO FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. Para nós, o objetivo ideológico das imagens observadas acima é convencer o leitor deque trabalhos pesados e inferiores, como garimpeiro, por exemplo, fazem parte da vida donegro, pois como exerciam atividades similares antes, como escravos, é de sua natureza sesubmeter a esse tipo de trabalho. Ao mostrar imagens como esta, o livro didático só contribuipara reforçar estereótipos do tipo “negros deverão sempre ocupar cargos inferiores”. Além
  11. 11. 11disso, a postura em que o negro se encontra na Figura 3A – abaixado, sem o rosto amostraindica a forma como os negros devem se portar diante da sociedade dominantemente branca,submissos e obedientes. A correlação de personagens negros com profissões socialmente desvalorizadastambém foi percebida por Rosemberg (1985, apud ROSEMBERG, 2003) ao analisar textos eilustrações na literatura infanto-juvenil publicada entre 1955 e 1975. Observem que apesar dejá terem se passado 33 anos, estereótipos como estes ainda continuam sendo reproduzidos emobras didáticas. Outro exemplo relacionado a empregos, ou subempregos, pode ser verificado nocapítulo 13 (p.130), onde identificamos a imagem de 3 homens no interior de um helicóptero:1 homem branco, vitima de acidente, e 2 profissionais habilitados que o estão prestandosocorro ao primeiro. Sendo, que um dos “profissionais” é negro e está trajando blusa azul ecalça escura, traje este muito parecido com um uniforme (Figura 4). Apesar dos autores teremusado o termo “profissionais habilitados”, não sabemos, ao certo, qual a profissão do negro,tendo em vista que o outro profissional parece ser o piloto do helicóptero. FIGURA 4. PROFISSIONAIS HABILITADOS SOCORRENDO VÍTIMA DE ACIDENTE DE TRÂNSITO. FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. p.130. A imagem acima além de reforçar a idéia de que atendimento hospitalar de qualidadesó beneficia pessoas brancas, deixando o negro apenas como um mero coadjuvante da classedominante branca, a qual insiste em reforçar estereótipos, tais como pessoas negras, na áreamédica, só chegam a ser, no máximo, auxiliares.
  12. 12. 12 Rocha (2006) cita que a formação profissional, desde as suas origens, sempre foireservada às classes menos favorecidas, estabelecendo-se uma nítida distinção entre àquelesque detinham o saber e os que executavam tarefas manuais. Ao trabalho, freqüentementeassociado ao esforço manual e físico, acabou se agregando ainda a idéia de sofrimento. Aautora ainda diz que a herança colonial do Brasil escravista influenciou preconceituosamenteas relações sociais e a visão de sociedade sobre a educação e a formação profissional. Analisando figuras, na página 65, observamos dois esquemas representando o ciclo devida do Trypanosoma cruzi, transmissor da doença de chagas. O primeiro esquema mostras oparasita Trypanosoma cruzi, seu agente transmissor (o inseto barbeiro) e o seu hospedeiro (oser humano). Este representado pela figura de um menino negro, colorido artificialmente(Figura 5). O segundo esquema mostra três tipos de hospedeiros do Tripanosoma cruzi: oinseto barbeiro, o tatu e o ser humano. Este último, porém, representado pela figura de ummenino branco, colorido também artificialmente (Figura 6). FIGURA 5. DESENHO ESQUEMÁTICO MOSTRANDO O CICLO DE VIDA DO Trypanosoma cruzi. FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. p.65.
  13. 13. 13 FIGURA 6. DESENHO ESQUEMÁTICO MOSTRANDO TRÊS TIPOS DE HOSPEDEIROS DO Trypanosoma cruzi.. FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. p.65. A partir das análises dos esquemas ilustrativos, surgiu-nos o seguinte questionamento:se os desenhos foram coloridos artificialmente, ficando, portanto, a escolha das cores acritério dos autores e/ou ilustradores, então por que o livro mostra apenas um único desenhoilustrativo de personagem negro? Lembrando que, no presente livro, existe várias figurasilustrativas de personagens humanos e que as mesmas foram coloridas ora em tonalidadesrosa, ora amarela. Tais resultados evidenciam claramente o modelo de estética considerado pelos autorese/ou ilustradores, ou seja, a classe hegemônica branca. No capítulo 10, que trata das relações animais-seres humanos, na página 184,percebemos a imagem de uma mulher negra na praia, trajando um maiô, brincando com seucão (Figura 7). A imagem em questão apresenta a seguinte legenda: “Mesmo cães mansospodem ferir seus donos. Mantenha seus cães e gatos vacinados e tenha cuidado ao brincarcom eles”. Esta ilustração complementa o texto que trata de acidentes vulnerantes, comoaqueles causados por mordeduras de animais como cães, gato, cobras, cavalos, peixes,macacos etc. Essa imagem revela uma forma bastante comum de representação do negro: asensual, que passa por uma estetização do corpo. A exploração do corpo feminino ganhoudestaque nessa imagem.
  14. 14. 14 FIGURA 7. MULHER NEGRA BRINCANDO COM SEU CÃO. FONTE: SILVA Jr; SASSON; SANCHES, 2005. p.184. Segundo Silva (2001), a ideologia imagética hegemônica existente em nosso contextoproduz, ao nível imaginário, uma forte associação do corpo negro com a virilidade e com apromiscuidade. Certamente, isso não isenta algumas imagens nos livros didáticos analisadasdos estereótipos sexuais, nem mesmo quando a proposta é bem diferente, como o caso daimagem acima. Dessa forma, ainda que hoje a mulher negra esteja aparentemente mais assimilada nacultura brasileira, esta se vê aprisionada a alguns lugares ou estereótipos, tais como: asambista, a mulata, a doméstica, herança de um passado histórico (NOGUEIRA, 1999).3. Estereótipos e formas discriminatórias ao negro nos textos dos livros didáticos deCiências Nessa última seção, procuramos mostrar ao leitor se e como o negro está representadonos textos do livro didático de Ciências, se os autores fazem alusão a personagens negros equal o tratamento dado a cada uma deles. O livro didático exerce um papel fundamental na cultura escolar, posto que é um dosinstrumentos importantes para se pensar a questão dos conteúdos, das imagens, dos
  15. 15. 15estereótipos, dos valores, e conseqüentemente, da tendência do pensamento históricoeducacional brasileiro (DIAS, 2004 apud CARVALHO 2006, p. 61). Os resultados apresentados no presente artigo mostraram, até então, sinais claros deestereótipos e preconceito atribuídos aos personagens negros, conforme observado através deimagens analisadas no livro didático de Ciências. Com relação à análise da representação do negro nos textos do livro didático,chamamos a atenção para o texto correspondente à figura 1 (ilustrado na primeira seção desseartigo), onde os autores expressam seus desejos, aos alunos, de que o trabalho com Ciênciaspossa ajudá-los a pensar de forma cada vez mais clara, rejeitando superstições e preconceitos.Apesar dos autores não explicitarem os tipos de preconceitos, levando-nos a deduzir quesejam todos e quaisquer tipos, acreditamos que se os desejos dos autores forem realmenteverdadeiros, eles devam dar maior atenção à imagem correspondente ao texto, tendo em vistaestar “carregada” de preconceitos, haja vista que os autores passam, através da imagem, omodelo de estética preferencialmente, ainda, de população eurocêntrica. No tocante às figuras 5 e 6 (ver foto na seção 2), em que mostra o desenhoesquemático do ciclo de vida do Tripanosoma cruzi, a principio, não percebemos nenhumaforma de preconceito ou estereótipos ao negro no texto referente a estas figuras. Porém, umpequeno detalhe: chamou nossa atenção, a legenda que identifica o menino negro, pois alémda palavra “ser humano”, observamos uma outra legenda com o termo “hospedeiro”; já nodesenho esquemático em que aparece o menino de cor branca, o termo “hospedeiro” foiomitido, ficando apenas a legenda “ser humano” (Figura 6). Essa “inocente” ou aparenteomissão de uma simples legenda contribui para fomentar estereótipos tais como a associaçãodo negro às doenças, visto que ele é um “hospedeiro” de seres patogênicos. Segundo Vaz (2003), existe uma relação de contigüidade entre a foto e a legenda, ouseja, quando se vê uma fotografia, os olhos do leitor, obedecendo a uma pulsão, percorrem asmargens da foto a procura da tão esperada etiqueta que ira lhe informar exatamente de que setrata a imagem. Nessa perspectiva, cada foto, somada a sua legenda, consiste numa narrativa,numa história sendo contada. O autor menciona também que a leitura das fotos pode serinfluenciada consideravelmente pelo simples fato de a legenda nomear ou não seuspersonagens (VAZ, 2003, p. 230). Segundo Orlandi (1987) o discurso pedagógico pode ser entendido como um discursodo poder que, em suas estratégias discursivas, tende para o “esmagamento” do outro. Essediscurso pedagógico, freqüentemente, na sua função de “informar, explicar, influenciar ou
  16. 16. 16mesmo persuadir reproduz as fórmulas da cultura do racismo e do preconceito” (ORLANDI,2003). Além do que foi descrito acima, em nenhum momento no texto contido no livro osautores fizeram referência quanto aos personagens negros ilustrados no livro ou quemqualquer outra página. Assim, exceto pelas imagens, notou-se um silenciamento completosobre a população negra. Esse silenciamento, a nosso ver, contribui sobremaneira para ofortalecimento da exclusão racial tão presente ainda no Brasil. Segundo Silva (1995, p.47 apud MANEGASSI e SOUZA, 2005), “a quase totalausência dos negros nos livros e a sua presença de forma estereotipada concorrem em grandeparte para a fragmentação da identidade e auto estima desse segmento, além de estimularpreconceitos às pessoas pertencentes ao grupo do qual foram associadas característicasdistorcidas”. Sei que alguns podem dizer que por se tratar de um livro de Ciências, e não deHistoria, Geografia, Arte, aquele não teria como abordar questões relacionadas à etnia negra.Entretanto, o bom senso nos mostra que é possível abordar a cultura, os costumes da etnianegra e afrodescendentes brasileiros.Considerações Finais Pretendeu-se com este estudo verificar como o negro está representado no livrodidático de Ciências para alunos do ensino fundamental. Para tanto, imagens representandoseres humanos negros e brancos foram quantificadas, objetivando descobrir se a proporçãoentre negros e brancos são proporcionais. Analisou-se, ainda, a presença de formas depreconceitos e estereótipos aos negros nos textos e imagens do livro didático. Os resultados em nosso estudo mostraram que o negro aparece de forma sub-representada no livro didático de Ciências analisado. Além disso, indicaram a presença deestereótipos e formas de preconceitos tanto nas imagens como nos textos contidos no livro,evidenciando, dessa maneira, uma falta de preocupação com a etnia negra, além de terdeixado claro a visão eurocêntrica e discriminatória por parte dos autores e/ou ilustradores dolivro de Ciência. Nos últimos anos, o Ministério da Educação (MEC) tem incentivado odesenvolvimento de atividades visando à avaliação do livro didático. Em junho de 1998 oMEC lançou o Guia de Livros Didáticos de 5ª a 8ª Séries, que foi elaborado com a intenção de
  17. 17. 17"subsidiar" a escolha do livro didático pelo professor, já que dezenas de livros são inscritos noPlano Nacional do Livro Didático – PNLD (SILVA, 2005). O PNLD tem como objetivo básico, a aquisição e a distribuição universal e gratuita delivros didáticos para alunos das escolas públicas do ensino fundamental brasileiro. Valeressaltar que um dos critérios eliminatório dos livros do PNLD é a expressão de preconceitosde origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de descriminação. Infelizmente, os resultados apresentados em nosso estudo mostram que os critériosmencionados acima não estão sendo respeitados pela comissão de “especialistas”,encarregados da avaliação. Mesmo sabendo que a Lei 10639/03 obriga as escolas a trabalhar com essa temática,os autores de livros didáticos, em sua maioria, não têm se empenhado em explorar a Históriae Cultura dessas etnias. Além disso, esses mesmos autores ainda têm contribuindo parareforçar estereótipos e formas de preconceitos ao negro como àqueles observados no livrodidático de Ciências analisado no presente trabalho. Tendo em vista que o professor é o mediador das informações previamenteestabelecidas nos livros didáticos, acreditamos que o mesmo desempenha um papelextremamente importante nesse contexto, pois, poderá, em suas aulas, trabalhar nadesconstrução de toda e qualquer forma de preconceito e discriminação presentes nos livrosdidáticos, tais como desmistificar questões que envolvem negros, haja vista os critérios nãoserem cumpridos de maneira rigorosa, conforme mencionado acima. Entretanto, para tomar tal postura, faz-se necessário que o professor seja qualificadopara detectar essas deficiências. Qualificado, o professor saberá identificar estereótipos eformas de preconceitos implícitos encontrados nos livros didáticos, esclarecendo os alunossobre tais questões e mostrar os tipos de estratégias e artifícios utilizados para manipulargrupos e incutir ideologias, bem como àquelas em que negros são seres inferiores e que omodelo de estética e poder é o branco. Nesse sentido, propõem-se o investimento maciço na qualificação de professores,intensificando desenvolvimento de cursos de educação continuada, cursos deaperfeiçoamento, extensão, especialização, abordando a temática étnico-racial, como os quetêm acontecido na instituição CEFET-PA.
  18. 18. 18Referência BibliográficaAQUINO, Miriam de Albuquerque. A imagem do afrodescendente na escola: a versão queficou. In: IV Semana de Letras, 2003, João Pessoa. Curso de Letras: novos paradigmas edesafios, 2003.BRASIL. Lei nº. 10.639 de 9 de janeiro de 2003. Altera lei de diretrizes e bases da educaçãonacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2003/L10.639.htm>Acesso em: 14 jun.2008.CARVALHO, Andréa Aparecida de Moraes Cândido. As Imagens dos Negros em LivrosDidáticos de História. Tese de doutoramento. Florianópolis. Out/2006.pdf.COSTA, Candida Soares da. Imagens do Negro em Livros Didáticos Adotados para o ITriênio do Século XXI, segundo indicado pelo MEC. Grupo de Trabalho: Afro-brasileiro eEducação da – UFMT. Extraído de [http://www.Ipp-uerj.net/olped/documentos/0758.pdf] emmaio de 2008.CUNHA Jr, Henrique. Imagens de africanos e afrodescendentes na escola. In. AQUINO,Miriam de Albuquerque. A imagem do afrodescendente na escola: a versão que ficou. In: IVSemana de Letras, João Pessoa. Curso de Letras: novos paradigmas e desafios, 2003.FREITAS, Itamar. “Negros, brancos e índios”: Ideologia e Poder nos manuais didáticosde História. Palestra proferida na UNIT, em 13 set. 2005, dentro do Seminário de História eCultura Africana.Set/2005. Disponível em http://www.ensinodehistoria.com.br/producao.htm.GOMES, Nilma Lino. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução deestereótipos ou ressignificação cultural?. Rev. Bras. Educ., Sept./Dec. 2002, no.21, p.40-51.KALCKMANN, Suzana, SANTOS, Claudete Gomes dos, BATISTA, Luís Eduardo et al.Racismo institucional: um desafio para a eqüidade no SUS? . Saude soc., maio/ago.vol.16, no.2, p.146-155.2007.OLIVEIRA, Fátima. Ser negro no Brasil: alcances e limites. Estud. av., vol.18, no.50, 2004,p.57-60.MAGGIE, Yvonne. Racismo e anti-racismo: preconceito, discriminação e os jovensestudantes nas escolas cariocas. Educ. Soc., out. vol.27, no.96, p.739-751. 2006.MANEGASSI, Renilson José; SOUZA, Neucimara Ferreira. A Visão do negro no livrodidático de Português. Revista Espaço Acadêmico. N0 47. Abril/2005. P PMEC. Ministério da Educação. Guias do Programa Nacional do Livro Didático. Disponívelem <http://portal.mec.gov.br/seb/index.php?option=content&task=view&id=377> acesso em15 de junho de 2008.MUNANGA, Kabengele, Mestiçagem e experiências interculturais no Brasil.In:MENDONÇA, R.F.; VAZ, P.B.F. Só preto sem preconceito?. In: Congresso brasileiro deCiências da Comunicação, 27., 2004. Porto Alegre. Anais... São Paulo: Intercom, 2004.
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