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Reboco caído nº34 vs pdf

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versão digital do zine impresso Reboco Caído, de Fabio da Silva Barbosa

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Reboco caído nº34 vs pdf

  1. 1. Pag 1 REBOCO CAÍDO- 34 Editorial Com o zine praticamente pronto, eis que acontece uma daquelas coisas da vida e o computador, que já não anda muito bem das pernas faz tempo, dá pau e perco tudo. Consequência: Em primeiro lugar, como tava nunca mais vai ser. Pensei até em forçar a barra e tentar reconstituir pedaço por pedaço, mas não tava ficando a mesma coisa. Resolvi começar outra situação, de outra maneira. Tinha feito um editorial de uma página, tendo como princípio um pequeno texto que escrevi sobre a morte da menina Ohana por uma bala perdida. Mais uma vítima da violência na periferia. Lamentável. Provavelmente aquele editorial seria o mais bonito que esse zine teve até hoje, cheio de emoção... O textinho que tinha escrito no ato, foi trabalhado, ampliado, acrescentado... Enfim... Não consegui refazer. Não estava ficando da mesma maneira. Mas já ofereço logo de saída uma homenagem a essa guria. Salve, salve. Outra consequência desse imprevisto com o computador, foi que a situação me pegou em um momento bem fragilizado em vários sentidos e por vários motivos. Daí lembrei dos meus antigos cadernos de desenhos e poesias. Sempre que estava muito assim, destruía tudo. Rasgava, botava fogo... Mas hoje em dia a maioria dos meus arquivos são virtuais. Essa sempre foi uma forma de me violentar, de me flagelar, mutilar... Pensei em excluir todos os meus trabalhos, blogs, rasgar o que tem no meu arquivo de impresso, desistir de tudo.... Resumo: Excluí minha conta no Tumblr e pronto. Foi o suficiente. Não temos mais essa ferramenta. Talvez algum dia reconstrua a mesma. Alguns dias depois comecei a refazer este número do Reboco. A capa é de Ana Clara, a mesma que produziu a famosa capa dos três macaquinhos (Reboco Caído – nº 16). Desta vez ela abordou o tema da piXação (com x mesmo) e do grafite, tão em voga na pauta da repressão. Além de escritos meus e dos amigos RoJefferson Moraes e Barata Knup, temos quadrinhos de Solano Gualda e entrevistas com a banda surf punk Paquetá, com o artísta plástico, músico e tatuador (entre outras coisas) Roger e com o Ciberpagé Edgar Franco. Contatos R.C. fsb1975@yahoo.com.br www.facebook.com/RebocoCaido www.rebococaidozine.blogspot.com.br www.twitter.com/RebocoCaido Caixa postal: 21819 PortoAlegre, RS cep.:90050-970 Por Fabio da Silva Barbosa mais um inocente vai para o chão bala perdida matando o irmão o sangue tingindo a periferia em desespero na gaveta escura entra o caixão mais uma vida destruída o choro acompanha a vida perdida a tristeza de ver essa partida morte rondando a rotina maldita mais um jovem assassinado um destino precocemente sepultado com flores, dores e lágrimas caindo Mais dor - Mais horror a oração soluçante continua fluindo mais um pobre morto é normal não tinha envolvimento ou ficha criminal nem deu tempo de terminar o segundo grau esse menino virou estatística em jornal
  2. 2. REBOCOCAÍDO-34 Pag 2 Por Rojefferson Moraes O ano era 2004. Eu chegava em Manaus com uma mochila nas costas, uma carteira de cigarro Derby prata no bolso de uma bermuda velha, e um certificado de conclu- são do ensino médio numa pasta amarrota- da pelo tempo. Eu não sabia exatamente o que fazer. Desci do barco e tentei encon- trar um trocado no bolso para arriscar um almoço na feira Manaus Moderna. Nada. Retirei da bolsa alguns poemas rabisca- dos e li para um casal que dividia um belo pedaço de carne assada. Eles se olharam e riram. Ninguém liga pra esse negócio de poesia aqui não, moleque. Caminhei por alguns metros. Arrisquei ler os poemas para um grupo de cachaceiros que esta- vam sentados ao lado do Mercado Munici- pal. Me ofereceram pinga e peixe frito.As pessoas iam e vinham. As águas do Rio Negro lambavam o paredão de concreto da Escadaria dos Remédios. Menininhos passavam e perguntavam se não quería- mos fumar uma pedra. Os bebuns, a quem eu já chamava de irmãos, cantarolavam Re- ginaldo Rossi. No horizonte uma linha ver- de dividia os céus e as águas. As únicas pessoas realmente dispostas a lhe dar aten- ção quando você está na merda, são aque- las que sabem o que significa perder tudo na vida. Batedores de carteira, noiados, putas, travestis, carregadores passavam com suas caras de muitos inimigos e vári- as passagens na delegacia, mas eu me sen- tia seguro ali. Tava em paz. ----------------------xx--------------------- Levou um tempo para que a máscara caísse. O Amazonas sempre teve seu Oriente Mé- dio escondido em suas entranhas. Guerras canibais. Acorrida pelo ouro, pelo petróleo, pelo gás, pela água... O santo verde românti- co foi enforcado na entrada da maloca, e o cortejo fúnebre seguiu ao som de atabaques até à encruzilhada mais próxima.As cabeças rolam nos pavilhões feito a cabeça de bone- ca que fora usada por meninos que não ti- nham bola pra jogar a costumeira pelada no final da tarde.As meninas sempre abortaram bonecas não planejadas. Crianças queima- das durante a procissão. As mulheres conti- nuam sendo apredejadas e queimadas vivas diante dos olhos alegres dos soldados. A população se delicia com a justiça feita com as próprias mãos, contra criminosos sem foro privilegiado, que não tem tempo de fingir um aneurisma cerebral, pois suas cabeças são abandonadas em sacos plásticos sem as ore- lhas, e com os olhos perfurados. Amanhã teremos peixe no jantar. -----------------------xx---------------------- Fontes não oficiais dão conta de que Brayan Bremer foi recapturado. Mas levou tanta por- rada que resolveram não apresentar ele para a imprensa. Fora isso tem o número errado de fugitivos, e os mortos por policiais den- tro das matas.Além, é claro, das tantas men- tiras que governo, juízes, advogados e secre- tários corruptos estão repassando para nos fazer acreditar que a presença da força naci- onal vai de fato mudar alguma coisa por aqui. ----------------------xx----------------------- SurfPunkPsicodélico Por Fabio da Silva Barbosa Desde minha chegada a Porto Alegre, tenho tido o prazer de encontrar uma galera que produz e faz a cena resistir. Entre os nomes que sempre cito e já tive o prazer de entrevis- tar está Wender Zanon. O sujeito já passou por várias bandas, como a inesquecível Vida Torta. Agora ele se juntou com outros caras da pesada e montou a Paquetá. Já tive a oportunidade de assistir umas apresentações da banda e posso dizer que a energia é hi- pnótica. Parada lisérgica mesmo. Então vamos lá. É nós nessa porra! Paquetá!
  3. 3. Pag 3 REBOCOCAÍDO-34 Paquetá é uma banda que produz som surf de primeira. Os integrantes vieram de ou- tras bandas e estilos musicais. Como foi a resolução de engrenar neste tipo de som? Natural. O rock´n roll, de forma geral, tem uma escola bem surf.Abanda surgiu durante uma festa. Vimos uma banda de surf tocando, ficamos empolgados e marcamos ensaio na semana seguinte. Nossas influências passei- am por essas semelhanças: Dead Kennedys, Ramones, Man or astroman?, essas coisas... Como anda o cenário da surf music hoje? Falar de cenário é sempre complicado. Acredito que o “cenário” da surf music é mais reduzido (não sei se é o termo correto para usar...), mas isso se for comparar com hardcore/punk/metal, sei lá, mas parece que por ser algo “menor”, a comunicação parece que flui melhor. Tem uma galera que organiza o “cenário” do surf no Brasil e dialoga bastante com o “cenário” lá de fora. Por exemplo, rola um festival bem conhecido na Itália em que o pessoal do Brasil sempre vai pra lá com algumas bandas. Ano passado até rolou uma palestra com o Leopoldo, da Reverb Brasil, falando de como anda este “cenário” aqui. Enfim, acho que não é uma comparação e nem algo de “competição”. Independente do cenário ser grande, pequeno, maior, menor, melhor ou sei lá o que, é o “nicho” que você está inserido. Então, de qualquer forma, a coisa precisa fluir da melhor maneira. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos a Mary O and The Pink Flamingos, Trabajo Cubano, Reverba Trio, Surfabats, As Aventuras e tem mais algumas outras bandas, essas são as que me lembro de cabeça no momento. Por quantas andam os shows? Fechamos 50 shows em praticamente um ano e meio de atividade. Isso devido a nossa ansiedade em tocar e mostrar o trabalho, mas também é um lance que a gente tá curtindo muito. Curtimos muito tocar, dar esse rolê de banda e estar juntos. Então é algo que tem fluido muito naturalmente. Temos rodado o interior e aqui na região metropolitana da grande Canoas. Inicio deste ano fomos pra SC, ficamos quinze dias convivendo 24 horas e no final do rolê ninguém tinha brigado ainda, rsrs. Os integrantes estão com outros projetos ou a dedicação é integral? Sempre tem outros projetos, mas o que não tira o foco do nosso projeto como Paquetá. O lance é ter vários focos, né! Temos nossos trabalhos e atividades paralelas. No campo da música, o Dagger e o Fogaça tocam na Estado Flow (www.facebook.com/estadoflow). O Dagger também produz música eletrônica (www.soundcloud.com/daggerattack). O que está por vir? Estamos preparando mais um trabalho para esse ano ainda e queremos tocar por aí. Conhecer novos lugares, pessoas e cidades. Paraescutar:ww.paqueta.bandcamp.comMaisinformações:www.facebook.com/paquetasurf Contato:paquetasurf@gmail.com
  4. 4. Pag 4REBOCOCAÍDO-34 Poesia sonâmbula Por Barata Knup Um cárcere invisível Grades psicológicas Pensamentos destrutivos Quarto escuro Calor de verão Solidão noturna Preso na própria libertação Uma mente biodegradável Ciclo inquebrável Cigarro barato Devaneios repetidos Vontades simples Complexidade humana Olhando a luz da cozinha por baixo da porta do quarto, aguardado ela apagar. Poesia do fracasso Por Barata Knup Angustia de existir Medo de sorrir U não querer usar máscaras Tentar ser linha curva verdadeira Caminhando de forma diferente A maioria fracassada na sua própria casca. Sentir todos os dias A decepção de estar vivo. Frustração continua Si mesmo folha em branco Nuvem cinza Céu nublado Folha seca Vazio negro Buraco negro Nebulosa Erro biológico Poeira cósmica Falha evolutiva Predador egocêntrico Hipócrita por acaso um gole no copo do desgosto Por Fabio da Silva Barbosa quando a depressão bate fundo a angustia tempera a tormenta e a droga acabou só nos resta estes cortes profundos fazendo o sangue vazar dos pulsos acompanhando as lágrimas que escorrem dos olhos os punhos esfolados um rosto que já não é rosto ninguém ao seu lado a corda apertando o pescoço morrer não seria esforço um corpo denegrido pela vida vendendo sua miséria por trocados furados um litro de álcool já é pouco para fazer o sono chegar feridas e hematomas por toda a parte perfurando cada parte de seu corpo cicatrizes e marcas deformações constantes se arrastando por toda a vida infecção se alastrando a dor do aborto vivo o inferno eterno derretendo como colostro bestial como seres mundanos besuntados de febre e delírios fúnebres Um brinde Por Fabio da Silva Barbosa concreto borracha plástico poluição devastação assassinato extinção alienação flagelo total situação crítica caos atmosférico destruição
  5. 5. Pag 5 REBOCOCAÍDO-34 Roger Kichalowsky e a caminhada pela arte Roger é o tipo de cara que tem uma história pela estrada da arte. Atualmente é tatuador e proprietário do Artéria Tattoo Studio. Tive oportunidade de conhecer o espaço quando fiz minha última tauagem com o amigo Nelson Machado. Lembro que, sempre muito receptivo, Roger arrumou logo um cantinho para eu deixar uns zines na sala de espera. Como foi a caminhada? A caminhada é longa. Desde jovem as coisas pareciam me levar pro campo da arte, sem- pre inquieto e “inventando” alguma coisa, riscava paredes de casa, enfim, era arteiro kkk Antes de chegar na tattoo fiz muita coisa. Trabalhei com teatro durante seis anos, tive uma experiência forte com a Bienal do Mercosul, desde a 2ª edição até a 10ª, trabalhei cinco anos no Santander Cultural. A música também fez parte da minha vida desde o iní- cio. Aos doze anos tinha uma guitarra de mentira que meu pai recortou em madeira e co- locamos umas cordas de nylon kkkkk Me formei duas vezes na UFRGS, fiz bacharelado em escultura e licenciatura em artes, dei aula de artes durante seis anos no município de Esteio, fui funcionário público nesse período, mas resolvi chutar tudo pro ar em função da grana... Faz cinco anos que tatuo. Nesse tempo trabalhei em três espaços diferentes até chegar no endereço novo, no Menino Deus. Nossa equipe agora tem seis pessoas. Como o profissional pode se manter atualizado nessa evolução constante? Aatualização deve ser constante. Cheguei na tattoo por curiosidade, artista pesquisador... e isso deve continuar, participar dos eventos, convenções, works, formação etc... Quais as principais dificuldades encontradas pelo tatuador hoje? Sobre as dificuldades, acho que um pouco é informar e educar teu cliente pra que ele entenda que não é só um serviço, mas também um trabalho de arte. Existe um perfil frequente de clientes? Perfil de cliente varia muito. Que tipo de desenho você mais gosta de trabalhar? Curto fazer meus desenhos no preto e cinza. E o que você menos gosta? Não curto tribais e oriental Existe algum tipo de tatuagem que você não faria de jeito nenhum? Não faria desenhos “feios” mesmo o cliente querendo pagar mais kkkk Um toque fundamental para os principiantes: Estudar, paciência, disciplina, calma, pesquisar etc... Como é o lado musical? É o que mais gosto, embora não esteja produzindo muito. Agora que a arte/tattoo me possibilita estabilidade, quero investir nos trabalhos engavetados. Por Fabio da Silva barbosa
  6. 6. Algumas perguntas enviadas para Edgar Franco, o Ciberpajé. Ciberpajé: A ira genuína é um dom raro na contemporaneidade! Por Fabio da Silva Barbosa. Pag 6REBOCOCAÍDO-34 Quadrinhos e poesia: Minha história pessoal como artista é uma história de convergência entre meios, por isso sou um artista transmídia com criações em múltiplas mídias e suportes conectadas pelo meu universo ficcional da Aurora Pós- humana. No entanto, tudo começou quando iniciei a criação de minhas HQs para fanzines, com 12 anos eu era admirador de poesia simbolista e do chamado “mal do sé- culo” e um fã do horror em todas as suas facetas, eassim comecei a desenhar e a es- crever minhas próprias poesias simultanea- mente, então foi natural desde o princípio de minhas narrativas quadrinhizadas fundir texto poético aos meus quadrinhos. Isso é
  7. 7. Pag 7 REBOCOCAÍDO-34 perceptível desde minha primeira HQ e foi se aprimorando gradativamente. Devido a essa opção experimental minhas narrativas sempre incomodaram os puristas das HQs que as acusam de serem “poesias ilustradas”, dizem que não são quadrinhos, é impres- sionante como já ouvi isso milhares de vezes e algumas vezes dito com raiva, a autoexpres- são original provoca e irrita os travados e enquadrados no sistema. Nunca me incomo- dei com isso, o que faço são quadrinhos, que na perspectiva narrativa das artes sequencias, se fizermos um paralelo com a literatura, es- tão mais para a poesia do que para a prosa. Mas eventualmente também crio narrativas mais tradicionais, como no caso do álbum “BioCyberDrama Saga”, longa HQ de 280 páginas feita em parceria com Mozart Couto e que teve sua segunda edição em capa dura lançada recentemente pela Editora UFG. Não tenho amarras para as minhas criações qua- drinhísticas ou em qualquer outra mídia. Sou inclusive o criador do neologismo “quadri- nhos poético-filosóficos”, que criei para no- mear o gênero de quadrinhos que crio e fui um dos pioneiros. Esse termo foi adotado pelo saudoso amigo e pesquisador Dr. Ely- dio dos Santos Neto em seu doutorado em artes na UNESP que estudou os Quadrinhos poético-filosóficos e os situou como um gê- nero genuinamente brasileiro. A produção e pesquisa sobre esses quadrinhos rendeu in- clusive uma coleção de livros teóricos que já inclui 6 livros, a coleção “Quadrinhos Po- ético-filosóficos” da editora Marca de Fan- tasia, 3 desses volumes são sobre minha obra (“Os Quadrinhos Poético-filosóficos de Edgar Franco”, escrito pelo Dr. Elydio dos Santos Neto; “Edgar Franco e suas Criaturas no Banquete de Platão, escrito pela Dra. Nadja Carvalho; e “Processos Criativos de Quadrinhos Poético-filosó- ficos: A revista Artlectos e Pós-huma- nos”, escrito por mim em parceria com a doutoranda da Fiocruz-RJ e pesquisa- dora da minha obra IV Sacerdotisa Danielle Barros). Edgar Franco e o Pajé Cibernético: Os dois se amalgamaram e o Ciberpajé é a minha persona viva e ativa hoje! Trata- se do nome de ser renascido que adotei, um título que eu mesmo outorguei-me! Desde os meus 40 anos adotei-o em mi- nha vida cotidiana como uma forma de conectar diretamente vida e arte. Na tra- dição de correntes ocultistas e esotéricas encontramos o ato simbólico de renasci- mento que é acompanhado por novo ba- tismo. Então, em meu aniversário de 40 anos, em 2011, alguns meses depois de ter vivido uma experiência transcendente poderosa e transformadora após o uso de um enteógeno, estava passando interna-
  8. 8. Pag 8REBOCOCAÍDO-34 mente por uma profunda crise de valores e decidi reavaliar minha vida. Através de um sistema ritualístico desenvolvido por mim com base em meu universo ficcional e mágico da “Aurora Pós-humana”, em contagem regressiva que durou 10 dias, até a data de meu aniversário -20 de setembro- realizei um processo de transmutação sele- cionando 10 valores que acredito serem essenciais em minha existência. Descobri que sou um criador de mundos ficcionais e que esses mundos ser- vem como caminhos para transformar minha reali- dade ordinária, então sou como um pajé, crio cone- xões entre as cosmogo- nias fantásticas que inven- to e a realidade para trans- mutá-la. O prefixo ciber está diretamente ligado à ideia de cibernética da di- fusão de minha arte e atra- vés das conexões digitais. É importante dizer que o Ciberpajé não é guru de ninguém, uso a arte como uma forma de autocura rumo à minha integralidade de ser.Atualmente me apresento como Ciber- pajé em todos os contextos sociais, desde minha família, passando pelos espaços a- cadêmicos e chegando às performances de minha banda Posthuman Tantra. E a parceria com Alan Flexa? O musicistaAlan Flexa, doAmapá, lançou recentemente comigo o novo EP do meu projeto musical Ciberpajé, intitulado “En- tranhas do Sol”. O projeto musical Ciber- pajé nasceu no mês de setembro de 2014. Fiquei conhecido na cena musical underground com o Posthuman Tantra, mi- nha banda que já lançou CDs na Suíça, Fran- ça, Inglaterra, Japão e Brasil, e já realizou suas performances multimídia em 4 regi- ões do país. Em 2014 recebi um convite inusitado do músico GenilsonAlves, men- tor da banda Each Second (SP) e da grava- dora Lunare Music, ele sugeriu a criação de um projeto musical que musicasse os meus aforismos iconoclastas - escritos quase diariamente e publicados em página no Facebook com cerca de 3 mil seguido- res - também propôs que o nome do proje- to fosse simplesmente “Ciberpajé”. Ao pensar no projeto, Genilson lembrou-se do escritor de ficção cien- tífica cyberpunk japo- nês Kenji Siratori - que participou do primeiro disco do Posthuman Tantra. Siratori grava recitações de seus tex- tos viscerais e intrigan- tes e envia para bandas de industrial e darkwave musicarem, tendo parti- cipado de inúmeros ál- buns pelo mundo afora. A ideia foi fazer algo parecido, mas dessa fei- ta com os aforismos criados e recitados por mim. Assim passei a gravar os aforis- mos com a minha voz dando as impos- tações e emoções que sentia ao escrevê- los e as bandas e musicistas convidados criariam uma atmosfera musical para o a- forismo. A partir dessa concepção inicial foi gravado e lançado o primeiro EP do pro- jeto Ciberpajé, “A Invocação da Serpente”, com vozes e aforismos meus e música cri- ada por Genilson Alves com seu projeto Each Second, importante representante da cena dark ambiente nacional. Eu também fiquei a cargo da arte do EP, criando um padrão para o projeto com desenhos sim- ples e simbólicos desenhados em branco sobre fundo negro. O EP foi lançado pelo selo brasileiro Lunare Music, dedicado à música darkwave e experimental, e a Lu-
  9. 9. Pag 9 REBOCOCAÍDO-34 nare desde então tornou-se a casa do projeto Ciberpajé, todos os EPs são dis- ponibilizados para streaming e download gratuito. Já foram lançados 7 EPs do pro- jeto Ciberpajé e um CD reunindo 21 ban- das de 5 países, uma performance-vídeo e 2 videoclipes. O EP “Entranhas do Sol” surgiu da parceria com o notório musi- cista da região norte do país, Alan Flexa, e teve toda sua parte instrumental analó- gica criada por Flexa, com forte influên- cia das culturas ancestrais amazônicas. O Ciberpajé Edgar Franco selecionou 3 aforismos com forte conexão com a na- tureza e o Cosmos para a concretização do EP e gravou as vozes. Alan Flexa optou por um set de instrumentos acús- ticos para gerar as atmosferas imagina- das para as faixas.As vozes foram grava- das pelo Ciberpajé no estúdio Oca, em Goiânia; e as músicas foram gravadas, mixadas e masterizadas no Estúdio Zaro- lho Records, de Macapá, contando com o esmero e cuidado dos produtores Alan e João Flexa. O EP também teve um vi- deoclipe produzido para a faixaAforismo II, com direção e edição do Ciberpajé. Link para ouvir e baixar o EP: https:// lunarelabel.bandcamp.com/album/ entranhas-do-sol O passado, o presente e o futuro: Respondo essa com um de meus aforis- mos: “A verdadeira existência acontece no agora, o momento eterno e singular. O ontem é uma licença poética do existir, o amanhã uma ficção desenhada pelo desejo. O agora é a maior de todas as celebrações: vida!” Para a galera que está produzindo hoje: Faça com os meios dos quais dispõe, crie sem amarras, não se submeta a ne- nhum editor ou grupo ideológico, pes- quise e se aprofunde nos temas que trata em suas obras assim como nas técnicas de desenho, mas, na hora de criar, deixe sua intuição gerir o processo. Só ouça os conse- lhos das pessoas que têm real afeto por você. 99% das críticas ao seu trabalho serão idioti- ces ditas por não criadores tentando minar sua verve criativa, ignore-as. Arte é um pro- cesso de autocura, autodescoberta e autoex- pressão, se quer ganhar dinheiro faça outra coisa. Com arte genuína não se ganha di- nheiro e não existem exceções a essa regra, portanto crie alternativas financeiras para manter suas criações imaculadas. Termos como “economia criativa” são formas pom- posas que idiotas mercantilistas encontraram para convencê-lo a mudar seu trabalho visan- do o mercado, não caia nessa armadilha. E crie, crie muito, transforme o processo cri- ativo em algo diário para você, e procure ex- perimentar também com outras mídias e for- mas expressivas. Eu, por exemplo, no mo- mento tenho muitas obras simultaneamente em processo. Estou trabalhando no novo CD do Posthuman Tantra que será lançado pela Legatus Records da Suíça, tenho um álbum de HQforismos no prelo, 2 livros sendo orga- nizados, 3 álbuns de quadrinhos em parceria em processo, novo EP do Projeto Ciberpajé sendo gravado, estou desenvolvendo novos elementos para minhas performances e preparando obras para uma exposição. O caos, a destruição e a construção: Respondo com 3 dos meus aforismos: “Com entusiasmo e respeito profundo apertei a mão do demônio, pois ele é o incentivador incrível do caos e da escuridão que precisam existir para que a luz seja sublime.“ “Não sou um arauto da reconstrução, sou um mensageiro da destruição. O humano como assim está faliu, é preciso que um apocalipse total consuma tudo que se tornou valoroso aos olhos da civilização, a implosão das insti- tuições, de seus dogmas enraizados e do do- mínio onipresente da objetificação do mun- do. No estado em que isso se encontra, sem
  10. 10. REBOCO CAÍDO- 34 Pag 10 uma devastação total, qualquer reconstru- ção é impossível. Antes de reconstruir- mos é preciso destruirmos, minha espada é a arte, com ela faço estragos na base dessa superestrutura, dando minha pe- quena contribuição para que ela desmo- rone.” “O que você chama de realidade é só uma construção cultural, tão frágil quanto um fino cristal, mas que por ser extremamen- te opaco impede-o de vislumbrar o tecido eterno e mutante do universo. Se você re- conecta-se à natureza cósmica, mesmo as leis da física tornam-se realidades mutáveis e transitórias.” Resistência e comodismo: Tentaram dogmatizar-me com cristianis- mo, mas com 11 anos de idade eu já tinha clareza de como era feio e discriminató- rio o tal dogma. Tentaram dogmatizar-me com futebol, e logo vi o jogo sórdido por trás desse e de todos os tais esportes pro- fissionais. Tentaram dogmatizar-me com capitalismo, ensinaram-me a importância de lucrar, de competir, ganhar, mas logo vi o aspecto doentio disso. Tentaram do- gmatizar-me com marxismo, e assustei- me com as incoerências de igualdades forjadas. Tentaram dogmatizar-me com ciência e seu inefável “método cientí- fico”, e rapidamente percebi as fragili- dades desse dogma imberbe e inconsis- tente em sua tentativa falha de explicar forçadamente inúmeros fenômenos que fogem de seu escopo.Tentaram dogmati- zar-me com semiótica, pós-estrutura- lismo, fenomenologia, cultura visual e em poucos segundos vi as limitações e incoerências desses micro túneis de reali- dade acadêmicos. Tentaram dogmatizar-me com veganismo, e apesar de não me alimen- tar ou comprar nada de origem animal, não aceito o tal rótulo que torna a maior parte de seus “seguidores” seres que se con- sideram os eleitos e salvadores do mundo. Seguem tentando dogmatizar-me com seus ismos, ideologias, receituários teóricos, mas minha vida é uma história de resistência. Assim é, assim foi, assim será! Um momento de amor: O silêncio mágico de se estar na presença de quem amamos sob vontade, sem a necessidade de nada mais, apenas fluindo o agora! Um momento de ira: A ira genuína é um dom raro na con- temporaneidade, só quem consegue explodir em ira absoluta, conseguirá atingir o grau sublime do amor cósmico integral!Acultura alienante doutrina-nos a reprimirmos a ira, e o resultado é doença e pestilência. Minha ira é totalmente regurgitada e exposta nas performances de minha banda Posthuman Tantra, quem já as assistiu sabe do que falo. Agradeço o espaço da entrevista no lendário Reboco Caído e convido os interessados a saberem mais sobre minhas obras visitando o meu blog que é atualizado semanalmente: Blog A Arte do Ciberpajé Edgar Franco - www.ciberpaje.blogspot.com.br

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