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29gomífera asiática superou a amazônica devido ao fato de que “os países importadores deborracha, no caso os países indust...
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31     Embora o controle do processo de geração e apropriação do excedente fossemonopolizado pelos agentes do grande capit...
32nova direção que toma o investimento estatal, isto é, ao maciço incentivo que passou aser dado à implementação da ativid...
33Menos de uma década após essa mudança administrativa, econômica e espacial, grandeparte da produção agrícola é comercial...
34                         A desativação dos seringais e a implantação da pecuária extensiva de corte veio                ...
35     Entretanto, não bastava a simples resistência dos seringueiros ao novo modeloeconômico que estava se instaurando na...
36                        [...] parte da luta pela reforma agrária no Brasil, [...] questiona o modelo tradicional        ...
37de sobrevivência à população local. Esse fato contribuiu para o êxodo rural de umaparcela considerável da população das ...
38anexar um território rico numa das principais commodities da época: o látex. Porém, ariqueza gerada por essa matéria-pri...
39(Graduação) Graduação em Economia, Departamento de Economia, UniversidadeFederal do Acre, 1993.GONÇALVES, Carlos Walter ...
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  1. 1. 19 ACRE: ENTRE O FUZIL E A BORRACHA Ana Karolina Ferreira Corrêa Graduanda do Curso de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) anageo.correa@gmail.com Denison da Silva Ferreira Graduando do Curso de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) denisonferreira2008@hotmail.com Edson Maués Corrêa Graduando do Curso de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) edsonmcorrea@gmail.com Fernando Alves de Araújo Graduando do Curso de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) mcsfernando@gmail.com Larissa Paola Damasceno Graduanda do Curso de Geografia da Universidade Federal do Pará (UFPA) llpld86@hotmail.comRESUMOO processo de formação territorial do Estado do Acre é resultado de uma série de acordos econflitos internacionais envolvendo países da América do Sul e os interesses imperialistas dasgrandes potências econômicas do final do século XIX e início do século XX, que viram naextração gomífera uma rentável atividade no mercado internacional. Nesse sentido, este artigobusca fazer uma breve análise sobre tal processo, considerando os agentes envolvidos, bemcomo as atividades econômicas praticadas no território mostrando de que forma estas afetaramsua configuração socioespacial, e evidencia, num contexto atual, o papel dos movimentos deresistência local às políticas adotadas pelo governo federal para o Estado acreano, dando origemàs chamadas reservas extrativistas.Palavras – chave: Acre; Extração Gomífera; Formação Territorial; Reservas Extrativistas.RÉSUMÉLe processus de formation du territoire d’État du Acre est résultat d’une série d’accords et conflitsinternationales entre pays de l’Amérique du Sud e les intérêts des grandes puissances de la fin duXIXº siècle et début du XXº, qu’on a vu l’extraction de la gomme comme une riche activité dans lemarché international. Notre travail veut faire une petite analyse sur ce processus, en considérantses eléments et encore les activités économiques pratiqués dans le territoire, en montrant la formecomme ses eléments et activités ont affecté sa configuration sociale et spatiale. On souligne aussi,dans l’actualité, la fonction des mouvements sociaux à propos des actions du gouvernementfédéral, avec, par exemple, la formation des réserves extractivistes. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  2. 2. 20Mots-clés: Acre; Extraction de la Gomme; Formation Territoriale; Réserves Extractivistes.INTRODUÇÃO Este artigo analisa, de forma breve, o processo de formação territorial do estado doAcre (Figura 01), expondo como e por quais motivos este ocorre, levando emconsideração os interesses internacionais, nacionais e locais envolvidos e tendo comomarco as diversas figuras político-territoriais assumidas por este Estado ao longo de suahistória (parte do território boliviano, território federal e unidade da federação brasileira). É justamente a partir da constituição do Acre enquanto Estado brasileiro que emergea problemática socioambiental decorrente de um novo modelo econômico pensado para aregião, que impõe a pecuária como principal alternativa para o desenvolvimento doterritório acreano. Nesse sentido, o trabalho abordará os conflitos gerados pela introduçãodessa nova atividade e como a mesma influenciou na geração de uma nova configuraçãoterritorial, a partir da implantação das reservas extrativistas no Estado. Portanto, inicialmente, será abordada a formação territorial do Acre, a partir de suaconquista pelos brasileiros até sua elevação à categoria de Estado. Posteriormente, serãoenfatizados, dentro de um contexto atual, os conflitos que deram origem a uma novaabordagem dos aspectos sociais, econômicos e ecológicos, que foi a criação dasreservas extrativistas, pautadas na concepção do chamado desenvolvimento sustentável. Figura 01: Mapa de localização do Estado do Acre. Fonte: Elaboração dos autores, 2010. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  3. 3. 21ACRE: BOLIVIANO OU BRASILEIRO? O processo de conquista do Acre é de fundamental importância paracompreendermos os motivos do país possuir os atuais limites, sendo este processoresultante de uma série de interesses, seja nacional ou não, que acabaram levando aalguns acordos internacionais. Na época da colônia, estes acordos eram realizados com base nos interesses dasmetrópoles européias. É o que ocorreu com o Tratado de Madri, em 1750, em que aEspanha reconhecia o direito à posse dos portugueses sobre o território do Brasil,baseada no uti possidetis, ou seja, nas terras em que houvesse ocupação portuguesa,Portugal teria direito. O Tratado de Santo Ildefonso (1777), é basicamente o mesmo de 1750, comexceção dos limites territoriais dos estados sulinos. No entanto, é necessário destacarque “a fronteira norte conservou, assim, as características do Tratado de Madri”, poisespanhóis e portugueses não chegaram a um consenso a respeito desta, uma vez que osúnicos cursos d’água conhecidos da fronteira da região eram o rio Madeira e o Javari, queacabaram servindo como pontos de referência para a fronteira sul da Amazônia, conformedestacado por Leandro Tocantins (2001, p. 96). No século XIX, em decorrência do processo de independência dos países daAmérica, estes acordos passaram a ser realizados diretamente entre as novas nações; éo caso do Acre, entre Brasil e Bolívia. Os dois países assinaram, em 1867, na tentativa dedemarcar a fronteira, o Tratado de Ayacucho, em que o Brasil reconhecia o direitoboliviano sobre o território do Acre, porém a diplomacia brasileira conseguiu obter o“reconhecimento do uti possidetis post facto, como critério de fixação de limites, sob odisfarce de um instrumento a título de regular o comércio de fronteira e a navegação dosrios” (TOCANTINS, idem, p. 151). O consentimento do uti possidetis estabelecia que a fronteira partiria da confluênciados rios Beni e Madeira “por uma paralela tirada da sua margem esquerda, na latitude10° S, até encontrar as nascentes do Javari” (TOCANTINS, ibiden, p. 153). Entretanto, 20’as nascentes do rio Javari eram desconhecidas. Machado (1989, p. 423) destaca que osbolivianos conseguiram inserir no tratado que, caso a nascente do Javari estivesse aonorte, a fronteira partiria em linha reta (leste-oeste) até as nascentes. Desta forma, se afronteira estivesse ao sul, o território pertenceria ao Brasil, porém se estivesse ao norte Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  4. 4. 22caberia à Bolívia. Entretanto, o Tratado de Ayacucho foi uma iniciativa dos bolivianos,preocupados em demarcar os limites fronteiriços, mas o governo imperial compreende anecessidade de conseguir a neutralidade boliviana na guerra contra a República doParaguai, pois as autoridades nacionais temiam que Solano Lopes conseguisse agregaras tropas bolivianas contra o Brasil (LIMA, 1998, p. 37). As terras do Acre estavam assinaladas como “tierras no descubiertas” nos mapasbolivianos, pois “era um triângulo de moléstias tropicais e, rios tortuosos encravados entrea Bolívia, Peru e o Brasil. Enfim, um lugar que nenhum cristão procuraria para juntar seustrapos” (SOUZA, 1995, p. 15). Em grande parte, estes cristãos que se aventuraram por essas “tierras nodescubiertas” eram destemidos plantadores - remanescentes da economia agrícola dacana-de-açúcar, vaqueiros e boiadeiros. “E foi desta subcamada infeliz que saíram ospovoadores do Acre” (BASTOS, 1960, p. 23). A dificuldade encontrada pelos nordestinos, em decorrência da grande seca dadécada de 1870, levou a um aumento significativo destes, principalmente cearenses, paraa região amazônica, cuja grande procura pelo látex foi decorrente do “desenvolvimento daindústria de pneumáticos, que possibilitou uma crescente demanda pelo consumo daborracha nos países industrializados da Europa e Estados Unidos da América” (MAIANETO, 2000, p .27). Isso, consequentemente, provocou o aumento da área de produção,que se foi deslocando para a Amazônia Ocidental, chegando aos altos cursos dos riosJuruá e Purus. “Os cearenses não tiveram medo da febre e entraram na região.Empurraram a fronteira com a própria miséria [...]” (SOUZA, 1995, p. 44). Os cearenses encontraram uma região rica em belas espécies de HeveaBrasiliensis, que satisfazia a demanda internacional transformando o Acre no maiorprodutor de látex da região, proporcionando “o povoamento da margem direita do rioAmazonas, principalmente nos vales dos Purus, Juruá e Madeira” (MACHADO, idem, p.420). Dessa forma, mesmo com novos habitantes, permanecia o espaço sendoorganizado, no que Gonçalves (2008) denomina como o padrão de organização rio-várzea-floresta, pois, apesar da existência de barracões com produtos para o consumo, arelação de dependência dos produtos da floresta permanecia. O desenvolvimento proporcionado pelo látex, retirado do Acre, beneficiou,principalmente, as casas aviadoras instaladas em Belém e Manaus, pois através da Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  5. 5. 23política do aviamento financiavam a extração e a comercialização do produto, levando auma maior dependência dos seringueiros em relação ao seringalista (MAIA NETO, 2000,p. 27). Entretanto, este crescimento produtivo passou a atrair cada vez mais interesses daBolívia pelas “tierras no descubiertas”, em virtude da grande riqueza que a região estavaproporcionando ao Brasil. A Bolívia passa a reivindicar o território do Acre como porçãode seu domínio territorial embasado no Tratado de Ayacucho, direito este reconhecidopelo governo brasileiro. Uma das primeiras atitudes tomadas pelo governo boliviano, na tentativa de garantira posse do território, foi a implantação de uma aduaneira em Porto Alonso, pelo MinistroJosé Pavancine, onde este determina que seja cobrado 15% sobre as importações emgeral e 30 a 40% sobre os gêneros indispensáveis à vida dos acreanos (LIMA, 1998, p.42). Esta atitude tomada pelo governo boliviano causou sérios prejuízos à economia doAmazonas, uma vez que “a supressão de vultosas rendas provenientes dos impostossobre a borracha, bem como dos polpudos impostos que derivam do movimento da praçade Manaus” provocará a redução das divisas do Estado (LIMA, 1998, p. 42). A política boliviana provoca sérios protestos dos brasileiros do Acre, principalmentepor parte de Joaquim Vítor, o mais prestigiado produtor da região. Este organiza arebelião chefiada pelo advogado José Carvalho, em fins de abril de 1899, comaproximadamente 15.000 homens dispostos a lutar. A luta armada leva à deposição do cônsul Dom Moisés Santinez por parte de JoséCarvalho: “Venho em nome do povo deste rio e em nome do povo brasileiro, intimar V.Excia. a abandonar este lugar, porque não toleramos mais o governo que V. Excia.representa” (LIMA, 1998, p. 43). Entretanto, a postura do governo federal era dereconhecer vigente o Tratado de Ayacucho e garantir o direito boliviano à criação daaduaneira, porém a posição do governo do Amazonas é de apoiar os compatriotas. Em 30 de maio de1899, a canhoteira norte-americana Wilmington, sob o comandodo Champam Todd, partiu rumo às cidades de Tabatinga e Iquito, secretamente, levandoo cônsul dos Estados Unidos. Esta atitude não é vista com bons olhos pelas autoridadesbrasileiras, principalmente do Amazonas e do Pará, pois consideravam um desrespeito àsoberania nacional, pediram explicações às autoridades americanas, e estas informaramque o comandante Todd não tinha ordem para agir desta forma. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  6. 6. 24 As explicações americanas colocariam fim à questão se o jornalista Luiz GalvezRodrigues Aires não tivesse denunciado, na edição de 3 de junho de 1889 de A Provínciado Pará, que a verdadeira missão da canhoteira Wilmington era transportar as base doacordo com a Bolívia para o presidente americano K. K. Kennedy. Em 4 de junho de1899, são publicadas “as bases de um grave acontecimento de ordem comercial e políticapara as relações internacionais” (LIMA, 1998, p. 47): Os Estados Unidos auxiliariam a Bolívia a defender seus direitos sobre o território do Acre, Purus e Iaco, por via diplomática ou, no caso de guerra com o Brasil, fornecendo armas e financiamento e recebendo em hipoteca as rendas das alfândegas bolivianas. Também exigiriam que o Brasil nomeasse uma comissão, para demarcar, juntamente com a Bolívia, as fronteiras definitivas entre o Purus e o Javari, e concedesse livre trânsito pelas alfândegas de Belém e Manaus as mercadorias bolivianas. A Bolívia, por sua vez, concederia abatimento de 50% sobre a borracha destinada aos portos dos E.U.A, pelo prazo de 10 anos. Caso tivesse que apelar para a guerra com o Brasil, a Bolívia denunciaria o tratado de 1867 e a linha de fronteira passaria a correr pela boca do Acre, ficando com os E.U.A, em livre posse, o território restante (BANDEIRA, 2000, p. 03). Após a deposição da delegação boliviana, é formada uma junta Revolucionária, cujapresidência ficou a cargo de Joaquim Domingos Carneiro. Entretanto, Galvez, que haviachegado ao Acre, a serviço do Governo do Estado do Amazonas, diante de problemas,como o direito boliviano reconhecido pelo governo federal em detrimento dos interessesdos brasileiros do Acre e as insistentes expedições frustradas que o governo de La Pazdespachou na tentativa de recuperar o território, resolve proclamar o EstadoIndependente do Acre. Com o processo de independência, Galvez baixou decretos importantes e, “emmenos de 24 horas de poder, já mandou despachos para todos os países da Europa,designando representantes diplomáticos do novo Estado que acaba de tirar do nada”(LIMA, 1998, p. 51). Entretanto, Galvez foi destituído por uma operação conjunta dasforças armadas de Brasil e Bolívia, em 08 de dezembro de 1899, sendo deportado para aEspanha.O TERRITÓRIO FEDERAL DO ACRE Após a queda da “República do Galvez”, chamada assim pelos “pariodistasbrasileiros” (MACHADO, ibidem, p. 426), o governo amazonense apoia uma expedição Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  7. 7. 25criada para a retomada do território acreano, formada por engenheiros, repórteres eescritores. A expedição Floriano Peixoto, apelidada de Expedição dos Poetas e lideradapor Orlando Corrêa Lopes, fracassou logo no primeiro confronto com os bolivianos devidoà inexperiência militar de seus integrantes. Contudo, a Bolívia estava inclinada a livrar-se do problema acreano, pois aadministração desse território se tornara deveras dificultosa, principalmente apóssucessivas investidas dos levantes de seringueiros brasileiros que buscavam expulsar osbolivianos daquelas terras. Para isso, assinou, em 1901, um acordo de arrendamento doAcre para a companhia anglo-americana Bolivian Syndicate, que passaria a ter, durante30 anos, direitos soberanos sobre aquele território, podendo inclusive “manter polícia eequipar uma força armada ou barcos de guerra, para a defesa dos rios ou conservação daordem interna” (BANDEIRA, 2000, p. 06). Entretanto, constantes conflitos entre os soldados bolivianos e os seringueirosbrasileiros impediam a Bolívia de ter o controle efetivo do território e assim cumprir a suaparte no acordo, o de conceder o território à companhia. Dessa forma, o governo bolivianopede ajuda aos EUA, sinalizando que “não tinha força para sustentar o contrato”(BANDEIRA, 2000, p .07), e estes se mostram dispostos a ajudar a Bolívia, instruindo queo governo brasileiro defendesse os ‘interesses de inocentes americanos’ e justificou sua atitude [...], argumentando que os americanos entraram no acordo ‘perfeitamente inocentes’ e contavam com o cumprimento do acordo por parte da Bolívia, mas o Brasil, por meio de sérias ameaças, tentava impedi-lo, o que agradável não era para os EUA (BANDEIRA, 2000, p. 07). O governo norte-americano se refere, além dos confrontos armados, ao embargobrasileiro à navegação boliviana no rio Amazonas e seus afluentes, que foi motivado pelaemergência do acordo anglo-americano com La Paz, quando cita que o Brasil “ameaça” oacordo da Bolivian Syndicate. A questão acreana se encaminha para um momento decisivo quando Plácido deCastro, um ex-militar gaúcho que foi trabalhar na região como agrimensor, foi convidado aassumir o comando do movimento de resistência à ocupação boliviana no Acre. Eleaceitou o cargo ao tomar ciência sobre o acordo da Bolívia com a companhia anglo-americana Bolivian Syndicate, pois considerava tal fato um perigo à soberania nacional.Plácido denota isso quando escreve em seu diário: Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  8. 8. 26 Veio-me à mente a ideia de que a pátria brasileira se ia desmembrar, pois a meu ver, aquilo não era mais do que um caminho que os Estados Unidos abriam para futuros planos, forçando desde então a lhes franquear a navegação dos nossos rios, inclusive o Acre. Qualquer resistência por parte do Brasil ensejaria aos poderosos Estados Unidos o emprego da força e a nossa desgraça em breve estaria consumada. Guardei apressadamente a bússola de Casella, de que me estava servindo, abandonei as balisas e demais utensílios e saí no mesmo dia (23 de junho de 1902) para as margens do Acre (SCHILLING, 2006). Sob a liderança de Plácido de Castro, os seringueiros brasileiros iniciam a novacampanha de retomada do Acre ao atacar e tomar a vila de Xapuri, em 07 de agosto de1902 (MACHADO, 1989, p. 429), para concluí-la em 24 de janeiro de 1903 com aassinatura da carta de rendição da Bolívia após uma ofensiva no Porto do Acre. Três diasdepois, em 27 de janeiro de 1903, foi novamente proclamada a República do Acre(SCHILLING, 2006). A relação entre Brasil, Bolívia e EUA se torna ainda mais complicada com aexpulsão das tropas bolivianas do Acre pelo levante de Plácido, pois os norte-americanostêm grande interesse econômico na região, e a Bolívia teria de pagar indenização para acompanhia anglo-americana caso não cumprisse sua parte no acordo. Nesse contexto,José Maria da Silva Paranhos, conhecido como Barão do Rio Branco, já havia assumido oministério das relações exteriores brasileiro, mudando a postura do Brasil frente à questãoacreana, que a partir de então passou a reivindicar o Acre para si. Rio Branco é motivadoa intervir no Acre devido à iminência de um conflito armado com a Bolívia, sendo estapossivelmente auxiliada pelos EUA, e assume a atitude de reivindicá-lo devido àconsolidação dos seringueiros brasileiros na região a partir da proclamação da Repúblicado Acre por Plácido. Nesse sentido, o novo ministro das relações exteriores assume o problema comodiplomata e político, e não simplesmente geográfico, como seus antecessores(BANDEIRA, 2000, p. 08-09), e atua em duas frentes para resolver a questão(SCHILLING, 2003). A primeira buscou um acordo com a Bolivian Syndicate. Nele ogoverno brasileiro se comprometeu a pagar 110.000 libras esterlinas para a companhiaem troca da desistência da concessão, acordo este assinado em fevereiro de 1903. Asegunda foi mostrar à Bolívia que o Brasil estava disposto a enfrentar um conflito armadopelo território acreano caso La Paz não aceitasse negociar e, para isso, mobilizou tropasfederais do Mato Grosso e do Amazonas para o Acre, baseado no termo do uti possidetissolis, previsto no acordo de 1867 entre os dois países (SCHILLING, 2003). Com o seu Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  9. 9. 27principal aliado e sócio fora das negociações, La Paz não teve escolha senão aceitar asreivindicações brasileiras. O território acreano foi formalmente anexado ao Brasil com a assinatura do Tratadode Petrópolis em novembro de 1903, que estabeleceu que: A Bolívia cederia não só a parte do território do Acre em disputa, como uma porção da bacia do rio Acre localizada ao sul de 10º20’ e sobre o qual seu direito era inquestionável. O Brasil, por outro lado, cedeu a Bolívia um pequeno triângulo de terra, considerado valioso porque permitia o acesso ao rio Madeira. Como também quatro trechos de terra na margem esquerda do rio Paraguai, totalizando cerca de 3.164 Km². [...] Para compensar as desigualdades das concessões territoriais - 189.000 Km² pela Bolívia e somente 3.164 Km² pelo Brasil - o último concordou em pagar uma indenização de 2.000.000 de libras esterlinas para a melhoria das comunicações entre os dois países. Também concordou em financiar e construir no território brasileiro uma estrada de ferro para evitar as cataratas do [rio] Madeira, o que permitiria aos bolivianos terem acesso ao baixo Madeira. (MACHADO, 1989, p. 430-431). Porém, o Acre não passa a fazer parte da República do Brasil na forma de Estado,como queriam os seringueiros e seringalistas acreanos, nem como parte do Estado doAmazonas, mas sim como um Território Federal, o que Gonçalves (2008, p. 89) afirma seruma figura jurídica inventada, já que Territórios Federais não constavam na LegislaçãoBrasileira. O território acreano, agora sob tutela do governo federal, tem o dinheiro geradopela borracha transferido, via impostos exorbitantes, para a capital federal. Nessecontexto, Francisco Pereira Passos, prefeito da cidade do Rio de Janeiro, inicia oprocesso de revitalização urbana da capital federal com o dinheiro da borracha acreana(GONÇALVES, idem, p. 89). Bastos denota que esse contexto de permuta de poder naverdade não contemplou o interesse dos sujeitos envolvidos na causa revolucionária. Antes, era o fuzil boliviano, o chumbo da tributação boliviana, as ameaças bolivianas, o “território das colônias”. Depois, o fuzil brasileiro, o chumbo da tributação brasileira, as ameaças brasileiras e, sobre o revolucionário “estado independente” com foro de república e pronunciamentos populares, o “‘Território Federal do Acre” e a ocupação militar (1967, p. 14). A situação de insatisfação com a realidade acreana neste contexto pode serobservada nas palavras de Plácido de Castro em carta enviada ao ministro da justiça enegócios interiores Augusto Tavares Lyra: Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  10. 10. 28 Convenha V. Ex. em que para ninguém é mais doloroso do que para nós vir dizer que na qualidade de colonos do estrangeiro, cujo jugo sacudimos, tínhamos mais direitos do que temos hoje na comunhão brasileira [...] antes [quando o acre era boliviano] a nossa importação pagava apenas 15 por cento ad-valoren. Hoje sob denominação da soberania brasileira não temos direitos de voto, nem tribunal, nem habeas corpus e por conseguinte não temos existência política na comunhão nacional; o nosso produto de exportação paga 23 por cento de imposto [...]. Os acreanos [...] tem consciência de sua aflictiva situação e [...] o que se vê no Acre é a exploração da terra e a espoliação do homem (LYRA apud BEZERRA, 2006, p. 75-76). De acordo com Bezerra (2006), o Território Federal do Acre foi divido em trêsdepartamentos administrativos: o do Alto Acre, Alto Purus e Alto Juruá. Os departamentoseram autônomos entre si, eram governados por prefeitos nomeados pelo presidente darepública e se reportavam diretamente a este ou ao ministro da justiça e negóciosinteriores. Seu território configura-se a partir dos acordos firmados entre o Brasil, Bolívia ePeru no século XIX e início do XX, considerando a região abaixo da linha oblíqua aoparalelo de 10° S, que vai da confluência do rio Beni com o Madeira até a nascente do 20’rio Javarí, como terras pertencentes ao Brasil (Figura 02). Figura 02: Mapa do Território Federal do Acre em 1904. Fonte: Atlas do Estado do Acre, 2008. Porém, no início do século XX, inicia a produção de látex no sudeste asiático, queconcorre com a produção amazônica, diminuindo de forma progressiva e intensa aexportação do látex da região para os países produtores de borracha. A exportação Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  11. 11. 29gomífera asiática superou a amazônica devido ao fato de que “os países importadores deborracha, no caso os países industrializados, mantinham à época uma relação de controlecolonial sobre os países asiáticos” e compravam o látex asiático por preços muitomenores que o do amazônico (GONÇALVES, ibidem, p. 91). Com a crise da exportação gomífera na Amazônia, o Acre passa a depender dosrecursos do governo federal, de sua produção gomífera em crise e da fraca produçãoagrícola. Ou seja, os papéis se invertem, pois agora é a capital federal que sustenta oterritório acreano. A sua estrutura socio-espacial também foi alterada, pois a crise fez ruiro sistema de aviamento, fazendo com que muitos seringueiros passassem a exerceroutras atividades. Houve uma intensa emigração, principalmente entre 1920 e 1940,causando um decréscimo populacional na região (GONÇALVES, ibidem, p. 90). A crise da produção gomífera se estende até a II Guerra Mundial (1939-1945),quando o látex amazônico torna-se importante para os principais países consumidoresdesta matéria-prima, uma vez que os japoneses, inimigos desses países, tomaram ocontrole dos seringais do sudeste asiático. O governo federal brasileiro incentiva aimigração para região amazônica para o trabalho nos seringais, dinamizando a economiaacreana com o aumento de suas exportações.O ESTADO DO ACRE Com o fim da segunda guerra mundial, há uma queda abrupta na exportação dolátex da Amazônia, pois os EUA retomam o controle da produção asiática. Com isso, oterritório acreano deixa de repassar para o governo federal as altas somas em dinheirogeradas pelos impostos sobre a produção gomífera durante a segunda guerra. Dessaforma, o Acre volta a depender do dinheiro do governo federal para sustentar-se, e adisparidade entre o que este último arrecada e o que ele investe no território acreanochega a Cr$ 300.000.000 por ano de saldo negativo (BEZERRA, 2006, p. 146). Essefator, somado à articulação de autoridades locais, representadas na figura do ex-governador delegado e, nessa época, atual deputado federal do território do AcreGuiomard dos Santos, com interesses político-eleitoreiros, o Acre foi elevado à categoriade Estado em julho de 1962. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  12. 12. 30 O projeto de transformação do Acre em Estado, proposto por Guiomard dos Santos,teve como base um discurso pró-democrático e desenvolvimentista, que argumentava queum sistema de governo de um território federal conduz a “fórmulas totalitárias, senão aoconformismo ou aceitação de seus princípios” (Santos apud BEZERRA, 2006, p. 144).Lembremos que estamos, nesse momento, no contexto da guerra fria, em que discursoscomo estes eram muito pertinentes e perfeitos para respaldar as políticas dedesenvolvimento que o governo federal planejara para a Amazônia, consequentementepara o Acre, criando um novo padrão de organização espacial (GONÇALVES, ibidem, p.95) para a região.ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS NO TERRITÓRIO DO ACRE: DA BORRACHA ÀPECUÁRIA Como visto anteriormente, o Acre se consolidava como o maior produtor de látex dopaís, que praticamente monopolizava toda a produção da borracha mundial, entre fins doséculo XIX e começo do século XX. Nesse sentido, a produção da borracha no Acre representava uma importanteatividade econômica com implicações locais, nacionais e internacionais, envolvendodesde o seringueiro até os diversos setores da indústria, especialmente o da indústriaautomobilística. Contudo, historicamente, o sistema que pautou as relações de trabalho nosseringais no Acre fundamentava-se na subordinação de seringueiros a patrões. Por estesistema, os seringueiros eram obrigados a pagar uma taxa anual (renda) pelas estradasde seringa que exploravam, além de entregar toda a sua produção de borracha nosbarracões, onde encontravam disponíveis para venda artigos de consumo doméstico (sal,açúcar, querosene, munição etc.). A borracha operava como uma moeda para a aquisiçãodessas mercadorias. Entretanto, devido ao preço extremamente elevado das mesmas, os seringueirosterminavam por contrair uma dívida com o "barracão" que, mesmo comportando saldosem seu favor, era renovada no início da safra anual de borracha, ocasião em que seaviavam. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  13. 13. 31 Embora o controle do processo de geração e apropriação do excedente fossemonopolizado pelos agentes do grande capital internacional, a dinâmica das relaçõesinternas permanecia regida por uma trama típica do capital mercantil - o de imobilizar aforça de trabalho e perpetuar sua utilização e exploração na atividade extrativa. Tambémera proibido nas colocações dos seringueiros o cultivo de agricultura de subsistência, acaça e a pesca. Verifica-se, a partir de tais afirmações, que o período histórico contextualizado noEstado do Acre compreende o primeiro padrão de organização social do espaçoamazônico, rio-várzea-floresta, assinalado por Gonçalves, quando enfatiza que nessecontexto: [...] a Amazônia se organizava sob a hegemonia do capital comercial. Como é da natureza do capital comercial, mais do que uma apropriação direta dos recursos naturais, o que lhe é importante, é o controle das vias de acesso, das vias de circulação. Aqui, sem dúvida alguma, a intensa e intricada rede hidrográfica da região foi uma importante aliada do capital comercial permitindo que se lançasse capilarmente pelos lugares mais recônditos da Amazônia (GONÇALVES, 2008, p.114). Contudo, vale ressaltar que esse padrão passa por um processo de transformação,e o ciclo da borracha, importante elemento econômico da estruturação de tal padrão,entra em fase de declínio. Entre as causas de tal processo aparece a noção de que apartir de 1915 entrou no mercado mundial a produção de borracha de cultivo oriunda dosseringais asiáticos, o que, devido à impossibilidade de concorrência, fez declinar aprodução de borracha nativa da Amazônia, fator evidenciado também no Estado do Acre.Esse fato trouxe como consequência um arrefecimento do controle do seringalista,permitindo ao seringueiro fazer agricultura de subsistência, bem como explorar atividadesprimárias comerciais, como castanha, madeira, entre outros. Assim, os seringueiros foramganhando autonomia no processo de produção através da posse da terra e do acessoparcial a alguns meios de produção. Em contrapartida, durante a II Guerra Mundial, a economia extrativa da borracha noAcre recebeu novo estímulo, inclusive contando com os “soldados da borracha”(ALEGRETTI, 2002, p. 130-131), quando o sistema de controle da produção doseringueiro obrigou-o a dedicar-se exclusivamente à extração do látex. No entanto, vale assinalar que em 1969-1970 uma boa parte dos seringais nativosno Acre entrou novamente em estágio de desativação. Dessa vez, em consequência da Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  14. 14. 32nova direção que toma o investimento estatal, isto é, ao maciço incentivo que passou aser dado à implementação da atividade pecuarista neste Estado. Esse novo modeloeconômico, embutido, por sua vez, no processo de modernização pensado para aAmazônia, trouxe profundas transformações na estrutura econômica de base extrativa.Nesse sentido: Deve-se salientar que a expansão extensiva do capitalismo para a Amazônia desestruturou e modificou significativamente a relação típica do seringal, o aviamento, fazendo surgir novas relações de produção, alterando o ser das frações de classe e suas relações. O seringueiro tradicional transmuta-se em seringueiro autônomo, posseiro, pequeno proprietário e trabalhador assalariado; o seringalista mantêm-se nas regiões mais interiores ou transforma-se em fazendeiro e comerciante urbano; aparecem o grande fazendeiro e o parceleiro do INCRA; crescem a pequena burguesia do comércio, dos serviços e do Estado, e operariado urbano, na esteira da urbanização precoce (RÊGO apud CAVALCANTE, 1993, p. 10). Considera-se, portanto, que este novo modelo pauta-se em novas matrizesideológicas em relação ao papel da Amazônia face ao contexto nacional nesse períodohistórico (1960-1970). Nesse sentido, como salienta Gonçalves (ibidem), o novo padrãode organização do espaço amazônico ganha suporte, através do governo federal, nasagências multilaterais como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o BIRD(Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento), para realizar obras deinfraestrutura, comunicação, transporte e energia necessárias às iniciativas do grandecapital. Em 1967, o governo decreta o fim da linha de crédito à borracha, o que resultou navenda de grande parte dos seringais. Essas propriedades foram transformadas emfazendas de gado, pois as linhas de créditos e incentivos fiscais partiam nessa direçãodesde 1965, a agropecuária era o novo carro chefe para o desenvolvimento da região,sucumbindo o extrativismo vegetal. A intenção era ocupar a região. Sendo assim, apecuária era o grande objetivo do I PND (Plano Nacional de Desenvolvimento). No Estadodo Acre, entre os anos de 1974 e 1978, a SUDAM aprovou a implantação de quatrograndes projetos agropecuários no Estado em uma área que somadas totalizavam159.111 ha. A primeira iniciativa para estes ex-seringueiros se adaptarem à nova situação foi amudança para a beira dos rios, local de melhor acesso. Em seguida, se empenharam naagricultura, caça, pesca e produção de madeira serrada, gerando uma pressão sobre ostrês últimos recursos e dando início aos primeiros conflitos de ocupação de território. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  15. 15. 33Menos de uma década após essa mudança administrativa, econômica e espacial, grandeparte da produção agrícola é comercializada nos centros urbanos mais próximos. Nesse contexto, a luta contra o desmatamento provocado pelo fazendeiro e aconsequente expulsão dos seringalistas de suas terras em função deste novo modeloeconômico criam um ambiente fértil para o surgimento de grupos de resistência aodesmatamento e em defesa da terra que aos poucos imprimirão significativas mudançasno território acreano no que diz respeito à forma de organização fundiária.LUTA PELA POSSE DA TERRA, RESERVAS EXTRATIVISTAS EDESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Os conflitos ocorridos no Acre a partir, principalmente, da década de 1970decorreram de vários fatores, entretanto é importante salientar pelo menos dois quecontribuíram significativamente para este cenário. O primeiro deles diz respeito à políticainstaurada pelo governo federal de suspensão dos subsídios à produção de borracha edirecionamento de incentivos fiscais a atividades agropecuárias. E, de outro lado, tem-sepor parte do governo estadual o desenvolvimento de políticas de atração de empresas dosul do país para adquirirem terras no Estado do Acre e, consequentemente, implantaremprojetos agropecuários (ALEGRETTI, 2002, p. 191). Apesar da redução de subsídios à atividade gomífera, por parte do governo federal,é importante destacar que a mesma não deixou de existir, mesmo com a chegada daatividade agropecuária. É a partir, portanto, da coexistência entre essas duas atividadesque derivam os confrontos entre ambas. De um lado tem-se a extração do látex, atividadeque já existia previamente e que dependia dos recursos naturais para sua reprodução, e,de outro, tem-se a agropecuária, que vai completamente de encontro à manutenção dosrecursos da floresta. Nesse sentido, expõe Alegretti Os processos sociais que emergiram durante este período estão relacionados, simultaneamente, à resistência à destruição do modelo anterior, à contestação do novo, e à busca de soluções que contemplassem as especificidades do modo de vida dos protagonistas principais, os seringueiros (2002, p. 191). Outra questão importante decorrente do surgimento da pecuária como atividadeeconômica foi a formação de mão de obra livre, como posseiros, seringueiros earrendatários, como enfatiza Cavalcante: Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  16. 16. 34 A desativação dos seringais e a implantação da pecuária extensiva de corte veio propiciar a formação de contingentes livres de posseiros, seringueiros, arrendatários, que, ao não mais permanecerem ligados ao trabalho rural, migram para as periferias das cidades, onde passam a viver em condições precárias (1993, p.10). Devido à formação dos contingentes de mão de obra livre, muitos dessestrabalhadores rurais tornaram-se seringueiros autônomos em relação aos seringalistas earrendatários e, posteriormente, deram origem a um movimento contra a pecuária comoatividade predatória. É válido ressaltar que antes da implementação da nova atividadeeconômica a luta no território acreano se dava pela liberdade nas relações semi-escravistas e, posteriormente, essa luta passa a ser a favor pela posse da terra, pelamanutenção da floresta ameaçada, pelas imensas pastagens, e na resistência a setornarem favelados nas periferias urbanas (CAVALCANTE,1993, p. 10). Foi exatamente nessa luta contra os fazendeiros que se destacaram nomesimportantes como os dos líderes sindicais Wilson Pinheiro e Chico Mendes, que viriam aser assassinados nos anos de 1980 e 1988, respectivamente. A luta dos seringueiroscontou, ainda, com o apoio de importantes instituições como a Igreja Católica e aCONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura). Esta última, alémde esclarecer sobre os direitos do trabalhador rural e dar assistência jurídica aosinjustiçados, também objetivou organizar os sindicatos. Nesse sentido, uma das principaisformas de luta foi o chamado "empate", que “são formas de resistência mais organizadasque visam impedir o desmatamento e a implantação das fazendas, assegurando asubsistência através da defesa da seringueira e da castanheira” (Jornal “O Varadouro”apud GONÇALVES, ibidem, p. 454). É importante destacar que: [...] a luta dos seringueiros pela defesa da terra não se deu com o intuito de defender a propriedade privada, e sim de defender a preservação da floresta e o direito de usufruto dela, ou melhor, lutar pela manutenção dos seringais, para os seringueiros, era lutar pela própria vida (DUARTE apud CAVALCANTE, 1993, p.12). Dessa forma, fica evidente que a principal preocupação estava na manutenção dosinteresses socio-econômicos desses sujeitos, sendo, portanto, a preservação da florestauma consequência de tais interesses. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  17. 17. 35 Entretanto, não bastava a simples resistência dos seringueiros ao novo modeloeconômico que estava se instaurando na Amazônia, no caso a pecuária, era necessária aproposição de uma nova alternativa. É nesse contexto que surge a concepção de reservaextrativista, ou seja, esta seria uma alternativa econômica e ecológica para justificar a lutacontra o desmatamento na Amazônia. A partir de 1985, após o I Encontro Nacional dos Seringueiros, as pressões demovimentos sociais e ambientalistas foram intensificadas a favor da criação das ReservasExtrativistas. Essa pressão intensificou-se ainda mais após o assassinato de ChicoMendes, visto que, ainda em vida, foi responsável pela repercussão internacional daspolíticas ditas de desenvolvimento para a região amazônica. Dessa maneira, em 1990, foicriada a primeira reserva extrativista no Estado do Acre, a reserva Alto Juruá, com506.186 ha., e, ainda neste ano, a reserva Chico Mendes, com 970.570 ha (Figura 03). Figura 03. Mapa das Reservas Extrativistas Alto Juruá e Chico Mendes (em amarelo). Fonte: IBAMA sd. A definição de Reservas Extrativistas pressupõe que os grupos sociais quedependem dos recursos da floresta para sua sobrevivência devem se utilizar dos mesmosde forma sustentável, ou seja, considerando um modelo de desenvolvimento que leve emconta a associação de, pelo menos, três fatores: o social, o econômico e o ecológico.Nesse sentido, de acordo com o CNS (Conselho Nacional dos Seringueiros), a ReservaExtrativista deve ser entendida como: Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  18. 18. 36 [...] parte da luta pela reforma agrária no Brasil, [...] questiona o modelo tradicional de assentamento em lotes agrícolas padronizados, propondo a utilização coletiva da terra. Junta a questão fundiária com a agroecológica propondo novos critérios no apossamento da terra, centrado no uso sustentável dos recursos naturais. A principal característica da reserva extrativista é o resgate da importância do homem numa nova perspectiva de ocupação do espaço amazônico associada à conservação do meio ambiente, onde são levados em consideração os aspectos sociais, culturais e econômicos das populações locais (CNS apud CAVALCANTE, 1993, p. 20). Dessa maneira, percebe-se uma inter-relação entre os conceitos de ReservasExtrativistas e de desenvolvimento sustentável, sendo este último possuidor de diversossignificados. Para Becker (1993), por exemplo: O conceito de desenvolvimento sustentável não é claro; envolvendo múltiplas e diversas interpretações constitui uma ‘caixa preta’. Só pode, pois, ser compreendido no contexto histórico da nova ordem em construção sobre a desordem global e do desafio que representa para o Brasil e para a Amazônia (BECKER apud CAVALCANTE, 1993, p. 38). Considerando, por outro lado, o que diz o Relatório Brundtland a respeito dedesenvolvimento sustentável, este “é aquele que satisfaz as necessidades do presentesem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem as suas”, observa-seque este é um conceito já ultrapassado, pois não questiona o modelo econômico vigente: O debate entre desenvolvimento e o meio ambiente não pode ficar restrito à propostas de desenvolvimento sustentável, que não questiona os pressupostos econômicos do sistema que provoca a miséria. Ou então, pode-se direcionar a um profundo questionamento das relações de dominação existentes na sociedade e entre os países, pois a sustentabilidade do planeta não se encontra apenas na defesa da natureza, mas também na mudança das relações de dominação entre os homens (CEDI/CRAB apud CAVALCANTE, 1993, p. 19). É válido ressaltar que o debate sobre a sustentabilidade nas Reservas Extrativistasdeve abordar o papel do Estado, que abrange medidas relativas à criação deinfraestrutura, programas de saúde e educação, apoio à comercialização de produtosagroextrativistas, exigindo a atuação dos diversos níveis do governo em seufinanciamento e sua implementação, o federal, estadual e municipal. Contudo, dados do CNPT (Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado dasPopulações Tradicionais) revelam que, de forma geral, no Acre, as reservas foram apenascriadas, isto é, o governo não procedeu da forma prevista, dando as mínimas condições Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  19. 19. 37de sobrevivência à população local. Esse fato contribuiu para o êxodo rural de umaparcela considerável da população das Reservas Extrativistas, “na RESEX Chico Mendes,por exemplo, a população residente, reduziu-se mais de 33% em 4 anos caindo de 9 milpara cerca de 6 mil habitantes” (ZEE apud SEVÁ, 2002, p. 64). A luta dos seringueiros intensificou-se ainda mais, pois na década de 1990,principalmente, o setor extrativista entrou em decadência. Dessa forma, os seringueirosperceberam que apenas o extrativismo não era suficiente para que a reserva se tornassesustentável, eram necessários incentivos também à diversificação da produção dentro dareserva. Com a incorporação, portando, de outras atividades econômicas como apecuária, por exemplo, o nível de desmatamento dentro das reservas aumentouconsideravelmente. Diante desses fatos, compreende-se que a realidade das reservas, assim como oextrativismo, contrasta com a perspectiva que os mesmos oferecem como alternativas desustentabilidade para os povos que vivem na floresta. Entretanto, apesar das críticascontrárias a esse modelo, é importante que se reconheça que a proposta de criação dasReservas Extrativistas constitui-se num importante avanço para o tratamento dosproblemas ambientais amazônicos, a partir do momento em que esses problemas sãofocados diante da visão e dos interesses das comunidades locais. Sendo assim, asdeficiências decorrentes desde sua criação dizem respeito mais à questão de tratamentoinadequado por parte dos órgãos competentes do que por constituírem-se comoinviabilidade econômica.CONCLUSÃO A história do estado do Acre é marcada pelo confronto armado, causado peloconflito de interesses dos diversos agentes que buscaram o controle deste território, como objetivo de explorá-lo economicamente, seja a nível local, nacional ou internacional. Aprodução gomífera foi o elemento sine qua non para sua formação territorial, visto que aocupação da região onde se localiza, se deu em função desta atividade, além de ter sidoessencial para a sua formação social, econômica e cultural. Este Estado foi protagonista de um singular episódio de articulação geopolítica queobjetivou impedir um confronto direto com a Bolívia, e indireto com os Estados Unidos, e Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  20. 20. 38anexar um território rico numa das principais commodities da época: o látex. Porém, ariqueza gerada por essa matéria-prima, de maneira geral, não foi aplicada nodesenvolvimento do próprio território. A partir da década de 1970, a “imposição” de um modelo de desenvolvimento, quenão levava em consideração as peculiaridades do território acreano, implementando alógica da circulação rodoviária e da atividade agropecuária, torna-se o estopim para acriação de um movimento de resistência ao poder hegemônico, visto que o modo de vidada população local estava ameaçado diante dessa nova lógica. Nesse sentido, surge aproposta de criação das Reservas Extrativistas, que levava em consideração a tríade:sociedade, economia e ambiente, pautada num modelo de desenvolvimento sustentável. Entretanto, é importante avaliar se após a criação das reservas extrativistas,criadas há aproximadamente duas décadas, tais propostas foram realmente postas emprática, se as RESEX’s, de fato, resolveram as questões as quais se propuseram e,principalmente, se os órgãos competentes atuaram no sentido de promover melhorescondições de vida da população extrativista acreana.REFERÊNCIASACRE, Governo do Estado. Fundação de Tecnologia do Estado do Acre. Atlas do Estadodo Acre/Governo do Estado do Acre. Fundação de Tecnologia do Estado do Acre – RioBranco: FUNTAC, 2008. Disponível em:http://www.acre.ac.gov.br/images/stories/atlas_30_06_2009.pdf, acesso em: 01/11/2009.ALEGRETTI, Mary Helena. A construção social de políticas ambientais: Chico Mendese o movimento dos seringueiros. Brasília, 2002, 811f. Tese (Doutorado) Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília, 2002.BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Barão de Rothschild e a questão do Acre. RevistaBrasileira de Política Internacional, Brasília, v.43, n. 2, dezembro 2000. Disponível em:http://www.scielo.br , acesso em: 14/10/2009.BASTOS, Abguar. A conquista Acreana: um olhar social. Rio de Janeiro: SPVEA, 1960.BEZERRA, Maria José. Invenções do Acre: de território a estado – um olhar social. SãoPaulo, 2006, 383f. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social,Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2006.CAVALCANTE, Ormifran Pessoa. A polêmica em torno do conceito de reservaextrativista enquanto atividade econômica sustentável. Rio Branco, 1993. Monografia Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br
  21. 21. 39(Graduação) Graduação em Economia, Departamento de Economia, UniversidadeFederal do Acre, 1993.GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Amazônia, Amazônias. São Paulo: Contexto, 2008.______. Geografando nos varadouros do mundo: da territorialidade (o seringal) àterritorialidade seringueira (a Reserva Extrativista). Brasília: IBAMA, 2003.SEVÁ, Fernando Farias. Ambientalismo e desenvolvimento sustentável: o caso daborracha e da pecuária no Acre. Rio Branco, 2002. Monografia (Graduação) Graduaçãoem Economia, Departamento de Economia, Universidade Federal do Acre, 2002LIMA, Cláudio de Araujo. Plácido de Castro: um caudilho contra o imperialismo. RioBranco: Fundação Cultural do Estado do Acre, 1998.MACHADO, Lia Osório. Mitos e realidades da Amazônia brasileira no contextogeopolítico internacional (1540-1912). Barcelona, 1989. Tese (Doutorado) Facultat deGeografia i História, Universitat de Barcelona, 1989.MAIA NETO, José. A economia da Borracha e o Esforço de Guerra: Os soldados daBorracha na Amazônia. In: FILHO, Armando Alves et al. Pontos de história daAmazônia. Belém: Paka-Tatu, 2000. p. 27-43.MARTMO, Giovana Beatriz Teodoro. Hevea brasiliensis (serigueira). Disponível em:<http://www.ipef.br/identificacao/hevea.brasiliensis.asp>, acesso em: 01/12/2009.SCHILLING, Voltaire. A questão do Acre, 2003. Disponível em:http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2007/01/08/000.htm, acesso em 01 denovembro de 2009._________________. Plácido de Castro e a conquista do Acre, 2006. Disponível em:http://educaterra.terra.com.br/voltaire/brasil/2007/01/08/000.htm, acesso em 01/11/2009.SOUZA, Márcio. Galvez: imperador do Acre. São Paulo: Marco Zero, 1995.TOCANTINS, Leandro. Formação histórica do Acre. Brasília: Senado Federal, 2001. Revista Discente Expressões Geográficas, nº 06, ano VI, p. 19 – 40. Florianópolis, junho de 2010. www.geograficas.cfh.ufsc.br

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