Morfologia   maria filomena sandalo
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  • 1. MORFOLOGIA Maria Filomena Spatti Sândalo 1. INTRODUÇÃO A Morfologia é o ponto de maior controvérsia no estudo de linguagem rural. Especialistas se debatem tomando posições que vão desde aquelas que nsideram a Morfologia como o principal componente do estudo gramatical, r aquelas que desconsideram totalmente o nível morfológico na construção de ia teoria da gramática. Este capítulo, cujo objetivo é fazer uma introdução aos rudos de Morfologia, tem como foco a controvérsia que caracteriza esta área, ;ando as formas como algumas correntes linguísticas variaram no detrer dos anos ao darem um maior ou menor papel para a Morfologia. Este texto tem a seguinte organização: em primeiro lugar, apresentaremos coes básicas relacionadas aos domínios dos estudos morfológicos; em segui. apresentaremos discussões sobre o papel da Morfologia dentro de dois quas teóricos: o estruturalista e o da teoria gerativa; por fim tentaremos fazer rceber que o momento atual vai na direção de um maior acordo sobre o papel Morfologia na Gramática. •OtFOLOGIA E SUAS UNIDADES BÁSICAS A Morfologia é frequentemente definida como o componente da Gradca que trata da estrutura interna das palavras. Mas o que é uma pala-
  • 2. 183 182 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA MORFOLOGIA (3), a palavra nabos ocorre como objeto da sentença e em (4) ocorre como sujeivra?1 A existência de palavras é assumida como uma realidade pela maioria to. Isto é, esta sequência de sons pode ocorrer em mais de uma posição sintática. de nós, linguistas ou não. No entanto, não é simples definir o que é unia É, portanto, uma palavra. palavra. Na Linguística, como em qualquer ciência, um dos problemas bási (2) O que Maria comprou na feira hoje? cos é identificar critérios para definirmos as unidades básicas de estudo. Em línguas isolantes, como o chinês, cada palavra carrega apenas um significa Nabos. do, mas em línguas polissintéticas, como a língua kadiwéu, falada no Maio (3) Maria comprou nabos na feira hoje. Grosso do Sul, ou o georgiano, falado na Europa oriental, certas sequência', (4) Nabos foi o que Maria comprou na feira hoje. de sons, assumidas por seus falantes como palavras, carregam significado'. traduzidos por frases em línguas como o português. Assim, como podcmo. Um elemento como lhe pode ocorrer em mais de uma posição na sentença, ter certeza de que jotayanyetayadomitiwaji do kadiwéu é uma palavra c n.m como demonstrado em (5) e (6): lhe pode ocorrer antes ou depois do verbo. Lhe uma frase? O significado não nos ajuda. Esta sequência de sons signilu .1 è uma palavra? "eu falo com eles por vocês". Critérios semânticos não nos ajudam a de! i m i (5) Maria quer lhe dar um Ambos têm o nu uma palavra em línguas como o português tampouco. Como saber se con e aquele que constrói são palavras do português?livro de presente. . (6) Maria quer ãai-lhe um livro de presente. mo significado. Assim, se nosso critério for significado, deveríamos d i / n Palavra é a unidade mínima que pode ocorrer livremente. Uma vez assuque ambas as sequências pertencem à mesma classe gramatical. No e n t a n i o mida essa definição de palavra, podemos distinguir vários elementos que carrenosso conhecimento de falantes do português nos sugere que a primei M < gam exatamente o mesmo significado, mas que não têm o mesmo status gramauma palavra, mas a segunda sequência é uma frase. lical. Assim, um pronome clítico, como lhe, embora possa carregar o mesmo Critérios fonológicos também não nos ajudam. É impossível elaborai um significado que um pronome, não pode ser caracterizado como uma palavra, teste baseado em critérios fonológicos que possa ser categoricamente apli. "i" unia vez que não atinge os critérios sintáticos anteriormente definidos. Por exempara qualquer língua para sabermos se estamos lidando com uma pá l a vi plo, o pronome clítico o "terceira pessoa singular masculino" (Maria o viu na frase. Algumas pessoas já tentaram definir palavras pelo acento. Segundo . i 11-1 rã) não pode ocorrer como resposta a uma pergunta e não pode servir como critério, uma palavra deveria contar com um acento principal (i.e. de m.um u|eito de uma sentença. Não é, portanto, uma palavra. Mas o pronome ele, intensidade) e alguns acentos secundários. No entanto [detergente] e [dètcrr< m. ! > uiboi a carregue o mesmo significado, isto é, "terceira pessoa singular masculiambos com um acento principal e um secundário, correspondem a uma l i IK >", qualifica-se como uma palavra, pois pode ocorrer isoladamente e em várias uma palavra, respectivamente. Essa ambiguidade é explorada pela seguink- pi.i. i > 1'osicõcs sintáticas. No português brasileiro vernáculo, ele ocorre em qualquer i >• >:.icão argumentai (Ele me viu, Eu vi ele, José deu um livro para ele). (1) O que é detergente? A pergunta "como podemos ter certeza de que jotagangetagadomitiwaji É o ato de prender pessoas. do k<idiwéu é uma palavra e não uma frase?" pode ser respondida da seguinte Muitos linguistas preferem definir palavras usando critérios s i n l a i u < 101 ma: a sequência de sons do kadiwéu obedece aos critérios sintáticos apontaquais parecem funcionar em qualquer língua do mundo. Uma sequência < l> iendo, portanto, uma palavra, mesmo que, em português, ela seja traduzida somente pode ser definida como uma palavra se (i) puder ser usada ou M < omn nina sentença. posta mínima a uma pergunta e se (ii) puder ser usada em várias posií, ors l Ima vez definido o que é uma palavra, temos definida a unidade máxima ticas. Em (2), nabos ocorre como a menor resposta possível à questão d.ida l m • l.i Morfologia. O que seria a unidade mínima deste componente da Gramática? m i u lades mínimas da Morfologia são os elementos que compõem uma pala>i-i iam fonemas e traços, como definidos no capítulo Fonologia, neste mesl . A controvérsia sobre a noção de palavra é antiga dentro da Linguística. Para uni a i l r n d i i n . claro desta questão ver Bloomfield (1933), Stockwel, Bowen & Silva-Fucn/ulidu ( I ' ) V > ) . Andi-i mn volume? Não. A Morfologia tem seus próprios elementos mínimos. O cor AionotT (1994). Esses textos que inauguraram certas correntes de argumentação vno r i > i - i i ' . itm-nto desses elementos é o que nos permite entender o significado de r n i i a d a paru um maior aprofundamento sobre o ussniilo.
  • 3. 184 INTRODUÇÃO À LINGUISTICA MORFOLOGIA palavras que nunca ouvimos antes. Ao nos depararmos com uma palavra como nacionalização, mesmo sem nunca termos ouvido esta palavra, podemos desço brir o que ela significa se soubermos o significado de nação, "pátria", e o signi ficado dos elementos que derivam novas palavras em português: ai, "elemenlo que transforma um substantivo em adjetivo", izar, "elemento que transfornui um adjetivo em verbo", e cão, "elemento que transforma verbo em substauli vo"2. Assim, ao adicionarmos nação e ai, criamos o adjetivo nacional e, ;io adicionarmos izar, temos o verbo nacionalizar. Finalmente, ao somarmos ç<i< • com nacionalizar, formamos o nome (ou substantivo, segundo a terminologiii da Gramática tradicional) nacionalização3. A palavra nacionalização signifk .1 ato de nacionalizar. Seu significado é derivado do significado das partes que compõem esta palavra. Os elementos que carregam significado dentro de uma palavra são rotulados de morfemas e são estes a unidade mínima da Morfologia. Apesar de muitas pessoas afirmarem que a palavra é a unidade mínima que carrega significado, o morfema é que o é. 3. O QUADRO ESTRUTURALISTA Para o estruturalismo, uma das preocupações da Linguística é tentar explicar como reconhecemos palavras que nunca ouvimos antes e como podemos -criar palavras que nunca foram proferidas antes. A resposta é que nosso conhecimento dos morfemas da língua é o que nos dá esta capacidade. Assim, o problema central da Linguística para o quadro teórico estruturalista é identificar os morfemas que compõem cada língua falada no mundo; a Morfologia, portanto, é de crucial importância para o estruturalismo4. Nesta perspectiva, uma parte central do estudo envolve identificar morfemas de línguas não previamente descritas. A metodologia estruturalista mostra que não é necessário saber falar uma língua para ser capaz de identificar seus morfemas. Os seguintes passos são usados para a documentação dos morfemas de uma dada língua: 2. Izar, dado aqui como uma única unidade para fins de simplificação, pode ser subdividido cm unidades menores: iz "verbalizador", a "vogal temática da primeira conjugação" e r "infinitivo". 3. Obviamente temos aí aplicações de regras fonológicas, uma vez que nação + ai é nacional e n a < > *naçãoal e nacionalizar + cão é nacionalização e não *nacionalizarção. Sobre regras fonológicas, ver o capítulo Fonologia neste volume e sobre a relação entre Fonologia e Morfologia, ver Mohanan (1986) c Kager, assunto. sobre o Van Der Hulst & Zonneveld (1999), que apresentam visões distintas e oferecem mais referências 4. Para um maior conhecimento da morfologia do português, ver Mattoso Câmara (1970), Sandmmin (1992), Silva & Koch (1986), e Pontes (1972). Note-se que esta pequena lista não representa uma lisia exaustiva do assunto. Os volumes indicados constituem-se em referências importantes que podem pn>|>i ciar o conhecimento de outras obras sobre o mesmo assunto. 185 a) Identifique formas recorrentes e tente observar qual é o pedaço de significado recorrente na tradução. Assim, nas palavras a seguir, provenientes da língua kadiwéu, j ocorre em todas as palavras. Na tradução é recorrente o significado "primeira pessoa". Assim,y deve ser o morfema que carrega o significado de primeira pessoa na língua kadiwéu em verbos. jiwi "eu escuto" j-iwin Ipessoa-escutar jacako "eu soco" j-acakon Ipessoa-socar jacawra "eu ajudo" j-acaw:a Ipessoa-ajudar Figura 5.1 Palavras do kadiwéu e identificação morfológica. b) Não assuma que morfemas universalmente aparecem na mesma ordem que os morfemas do português. Assim, o português também conta com um morfema que marca primeira pessoa em verbos: o (ajudo, soco, escuto). Mas as ordens de morfemas do kadiwéu e do português são distintas. Assim, este morfema é um prefixo no kadiwéu, isto é, ocorre antes da raiz verbal, mas é um sufixo (ocorre depois da raiz verbal) no português. c) Não assuma que todos os significados expressos por morfemas em sua língua nativa serão expressos em outra língua por um morfema específico. Em chinês, por exemplo, não há marcas de pessoa. d) Não assuma que sua língua nativa apresenta todos os contrastes morfológicos possíveis universalmente. Uma grande parte das línguas indígenas brasileiras, por exemplo, é caracterizada pela presença de um morfema, rotulado de relacional, que não se encontra em nenhuma língua europeia. O papel deste morfema ainda é amplamente desconhecido. Sabe-se apenas que quando este morfema estiver presente no verbo, o objeto direto não pode ser deslocado. Islo é, ele deve estar contíguo ao verbo. O estudo de línguas não
  • 4. 186 INTRODUÇÃO À LINGUISTICA previamente descritas apresenta um universo de morfemas a seivin descobertos5. Estamos agora preparados para conhecer a estrutura interna da palavra do kadiwéu que deu início a este capítulo: jotayanTetaYadomitiwaji j- otajan-jen: -t -já -dom -t -waji í Isujeito- j os significados de uma sentença são expressos por meio de morfemas val>.n Sapir (1921) propôs a seguinte caracterização para uma língua polissintética'1: Uma língua polissintética, como seu nome implica, é mais que ordinariamente sintética. A elaboração de uma palavra é extrema. Conceitos que nós nunca sonharíamos em tratar de uma maneira subordinada são simbolizados por afixos derivacionais ou mudanças "simbólicas" no elemento radical, enquanto noções mais abstraias, incluindo relações sintáticas, podem também ser transmitidas pela palavra7. Assim, em uma língua como o kadiwéu, até mesmo significados expressos l»oi meio de preposições, como acontece em português, são expressos por morfemas verbais. Esta língua apresenta um morfema verbal que indica o papel ••rmântico do objeto indireto (benefactivo). Línguas como o português contam iom preposições na sintaxe com essa função. O kadiwéu não tem adposições. Além de sufixos e prefixos, a tipologia de morfemas conta também com i n lixos. Infixos são morfemas adicionados dentro de outros morfemas. Por exemplo, na língua tagalog (falada nas Filipinas), um "passado" é adicionado dentro do verbo: falar -transitivizador -? -2objeto indireto -benefactivo -plural do objeto indireto "Eu falo com eles por vocês." MORFOLOGIA objeto d u r i , , Formas infixadas Figura 5.2 Palavra do kadiwéu e a identificação morfológica. l;ikhuh "correr" É possível observar que há várias diferenças entre a morfologia do porlu guês e a do kadiwéu, o que ilustra a diversidade linguística que encontram* is .«• estudar Morfologia. Assim, o kadiwéu separa os morfemas de pessoa daqurl.--. de número. Já o português agrupa estes traços semânticos em um único morim u Por exemplo, m (cf. amam) agrupa pessoa e número: terceira pessoa do plm .d O kadiwéu conta com um morfema que marca o objeto indireto, além di- uni morfema que marca o sujeito. O verbo só é marcado para o sujeito no poiiu guês. A interrogação no glossário em 7 indica que ainda não sabemos/enk-n<l> mós este morfema. Como dito anteriormente, o estudo morfológico é um um verso a ser explorado. As línguas polissintéticas, como o kadiwéu, são líiipu em que qualquer palavra, exceto o verbo, pode ser omitida, uma vez que l < > < l < IN 5. O Brasil tem uma média de 180 línguas (Rodrigues, 1986). A diversidade HngiiíMic.-i nu n< muito maior que em qualquer outro país da América do Sul (Adelaiir, 1991). Muitas dessas In não foram descritas ou foram apenas parcialmente analisadas. tumakbuh "correu" lakad "andar" lumakad "andou" mira 5.3 Infixos do tagalog. Infixos são muito raros nas línguas do mundo e parecem ser derivados, M.IO primitivos. Assim, os infixos do tagalog parecem ser infixos somente por• i ' i ' :a da língua não permite que palavras sejam iniciadas por uma 11, c a prefixação de um resultaria em uma palavra iniciada por uma vogal. A liii)',ua resolve esse conflito adicionando o morfema de passado logo após a d l'ara um maior conhecimento sobre línguas polissintéticas, ver Sapir (1921) e Baker (1995). Sobre i . . i , u n i , especificamente, ver Sândalo (1995, 1997 e 1999) e Sândalo & Gordon (1999). / ( l irxlo original é o que se segue: "A polysynthetic language, as its name implies, is more than inl ly synthelic. The elaboration <>l lhe word is extreme. Concepts which we should never dream ol in .1 Miliunlinnle fashiou aiv syiulxili/.nl hy derivalional affixes or 'symbolic1 changes in thc nuli |l pli inciil, while lhe more ab.ilraol iiolions. incliiding the synlaclic relations, may also be conveyed by lhe Md t':.i|>ir. 1921: 128).
  • 5. 188 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA consoante (ou encontro consonantal) que inicia a palavra. Assim, a palavra continua iniciada por uma consoante (não violando as restrições fonotáticas da língua). Aqueles que seguem o quadro estruturalista de análise linguística, entretanto, não têm como preocupação fundamental entender o porquê de certos afixos serem infixos, sufixos ou prefixos. Essa é uma preocupação da teoria gerativa recente, como será discutido mais adiante. Mas certos fenómenos gerados pela interação entre a Fonologia e a Morfologia são de fundamental importância para o estruturalismo, bem como para o quadro gerativo. Na seção seguinte, abordaremos o início da teoria gerativa, a qual deu muita ênfase para a interface entre Morfologia e Fonologia. / 4. MORFOFONOLOGIA E A TEORIA GERATIVA PADRÃO Esta seção tem como objetivo introduzir o estudo da relação entre Fonologia e Morfologia tomando corno base os critérios usados nos primeiros anos do gerativismo (Chomsky & Halle, 1968). O exemplo do tagalog nos mostra que a Morfologia sofre um impacto bastante acentuado da Fonologia, pois os fatos do tagalog nos indicam que a Fonologia pode definir o lugar onde o morfema deverá ser inserido na palavra. Entretanto, derivar a posição de afixos não era uma preocupação para a teoria gerativa padrão, nem para o estruturaslismo. Ao observarmos as línguas naturais, veremos que a Fonologia pode exercer influência não apenas em relação ao lugar onde o morfema é inserido, mas também na própria forma fonética dos morfemas. A derivação das diferentes formas fonéticas de um mesmo morfema é de crucial importância para a teoria padrão. Assim, vemos que, em inglês, o morfema de plural em nomes é realizado como [z] depois de vogais e depois de uma oclusiva sonora (ex.: dogs), como [s] depois de uma oclusiva surda (ex.: cats), mas como [3z] em palavras comojudges. As variantes (i.e., as diferentes formas fonéticas) de um mesmo morfema são chamadas de alomorfes. No capítulo Fonologia neste volume, tratamos de variação alofônica (i.e., as diferentes formas fonéticas de um fonema) em termos de regras que derivam alofones de formas subjacentes. Como a variação alofônica, a variação alomórfica é tratada por meio da postulação de uma representação subjacente da qual alomorfes podem ser derivados por meio de regras fonológicas. Uma estratégia fundamental do linguista ao selecionar uma representação subjacente de um morfema é escolher o alomorfe que conta com a distribuição menos marcada (i.e., mais frequente). A realização do morfema de plural nonii l nv MORFOLOGIA nal do inglês mais frequente é z, uma vez que ocorre depois de consoantes sono rãs e depois de vogais. Vamos, assim, escolher esta forma para ser a forma subjacente. Os alomorfes podem, agora, ser derivados por meio de regras fonológicas como aquelas discutidas no capítulo Fonologia deste volume. São ;is seguintes as regras fonológicas responsáveis pela derivação dos alomorfes do morfema de plural nominal do inglês, segundo O'Grady et ai. (1991): 1) Devozeamento: [+ consonantal, + sonoro] —> [- sonoro] / [+ consonantal, - sonoro] 2) Epêntese de schwa: 0 —> d l [+ consonantal, + estridente, + coronal] + estridente, + coronal] [+ consonantal, A regra l postula que uma consoante sonora perde seu traço de vozeamento ioda vez que estiver adjacente a uma consoante dês vozeada. A regra 2 postula (|iic um schwa, [9], é inserido toda vez que duas fricativas estiverem adjacentes. A Figura 5.3 mostra a derivação dos alomorfes do morfema z "plural nominal" nprcsentados8: Forma subjacente dog+z Desvozeamento Epêntese de schwa [d] cat+z judg+z cats judg3z Forma Fonética dogz cats judg9z 1'lKiiru 5.4 Derivação das formas de plural nominal do inglês. Há, entretanto, algumas diferenças entre alomorfia e alofonia. Por exemplo, regras de alofonia geralmente não têm exceções. Assim, sabemos que o •.lymciiU) /!/ é realizado como [w] sempre que ocorrer na coda silábica (isto é, no l i n . i l da sílaba) na fala de paulistas jovens (cf. /sal/ que se realiza como l >v|). Em contraste, regras morfofonêmicas, isto é, regras de alomorfia, nem • mpre são produtivas como a variação alomórfica do morfema de plural nomiii, il do inglês. As regras morfofonêmicas frequentemente fazem referência a H ( ) s exemplos do inglês nu l'i((iira 5.3 nSo foram transcritos foneticamente, exceto pelo afixo que l H,... IILIIII|Mll.Ilido
  • 6. 191 190 INTRODUÇÃO À LINGÚiSIK A MORFOLOGIA uma estrutura morfológica específica, isto é, obrigam uma dada regra fonolój1,!» .1 a ser aplicada somente quando uma dada estrutura morfológica for encontra <l.i Como exemplo, podemos citar a variação entre nação e nacion, vista anterioi mente quando discutimos a palavra nacionalização, ou entre leão e leon d l leonino). Mattoso Câmara (1970) postula que formas contendo ditongos nasar. como ao, são derivadas. Traduzindo para o quadro gerativo, podemos dizei c|n< as formas subjacentes relativas aos exemplos anteriores são nacion e leon. h tipo de análise conta com a transformação de on em ao, a qual nem sem|>i. ocorre, uma vez que baton não se transforma em botão. Essa transformai,.i" apenas acontece quando há o acréscimo de uma vogal temática, isto é, quando uma determinada estrutura morfológica é encontrada9. Como já foi mencionado, uma representação subjacente é aquela da t|n.il podemos derivar todos os alomorfes por meio de regras fonológicas. Disscim i| que uma estratégia fundamental do linguista ao selecionar uma representa- Ho subjacente de um morfema é escolher o alomorfe que conta com a distribim. .i« • , „ módulos representados por quadrados na Figur menos marcada. Entretanto, essa não é a única estratégia permitida pela tem M gerativa padrão. Nada na teoria gerativa da década de sessenta nos obrigav.i .1 escolher uma forma existente na língua como a forma subjacente. Naquele um mento, era permitido postular uma forma jamais realizada na língua como ,o subjacente de um dado morfema (desde que fosse possível dei i var da forma subjacente postulada todas as formas alomórficas por meio <l> regras fonológicas), o que é conhecido como neutralização absoluta. Esse (<« de abordagem coloca um sério problema para a aquisição de linguagem. C'«n m pode uma criança adquirir uma forma que jamais ouviu? Na teoria geiain . recente, neutralizações absolutas não são permitidas. A seção seguinte apresenta um histórico do desenvolvimento do csiml< > . 1.1 Morfologia na teoria gerativa, mostrando que a Morfologia tem também mu i interface com a Sintaxe, além da interface com a Fonologia. 4.1. O desenvolvimento da teoria gerativa Fonologia pós-lexical Com a apresentação da teoria gerativa na década de sessenta, a m< >i l < • i e a descrição morfológica de línguas não previamente analisadas, corno <K * •> .5 Módulos componentes da gramática segundo a teoi 9. Veja que a transformação de on em ao tem se tornado produtiva em alguns dialclos du pnn Hrasil, como no dialeto rural de Mato Grosso do Sul, onde são frequentes palavras como lininn r ni,ni Um processo de mudança linguística pode levar uma regra morfofonológica pouco prodniiv.i .1 i i mar cm uma regra fonológica totalmente produtiva. i vá das décadas de setenta nla. , S. Where is Mo,plM,lo r y7 Unguiaic Inquiry, n. 13. p. 571, 1982. K) Aiulcrson.
  • 7. 192 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA A Morfologia passou a ser tratada dentro do quadro da Fonologia Lexical'' O estudo da interação entre Morfologia e Fonologia ganhou o rótulo de Fonoloj; 1.1 Lexical. Segundo essa abordagem, morfemas seriam adicionados uns aos outros no léxico, regras fonológicas seguiriam aplicadas depois da adição de c;ul;i morfema. Uma regra fonológica poderia ser aplicada mais de uma vez, se cíclica. Um exemplo de regra cíclica é a atribuição de acento no português12. Assim observamos que a palavra cafezinho conta com dois acentos: na sílaba fé e n.i sílaba zi. Sabemos que a sílaba fé conta com um acento porque a vogal desla sílaba é aberta (i.e. [e]). Vogais abertas como esta só ocorrem em sílabas acen tuadas no português (compare pérola e perolado, onde a vogal [e] passa para | e | quando não se encontra em uma sílaba acentuada). Sabemos também que a síla ba zi conta com um acento, uma vez que a palavra cafezinho é tradicionalmente classificada como paroxítona. Dentro do quadro da Fonologia Lexical, este fenómeno é analisado dizendo-se que primeiro o morfema café entra na derivaca< > e o acento é atribuído. Então, o morfema zinho é acrescentado e o acento é atribuído novamente. Assim, regras cíclicas são aplicadas repetitivamente n<> final de cada operação de adição morfológica. As regras não-cíclicas seriam aplicadas no final das operações de adição de morfemas13. O léxico, como visto dentro desse modelo, é um local de armazenamenlo de irregularidades memorizadas. A morfologia específica de cada língua seria, assim, objeto da memória. Como cada língua tem seu léxico específico, expli car-se-ia, assim, a diversidade encontrada nos domínios da Morfologia. De acordt» com Chomsky (1970), a Sintaxe seguiria toda e qualquer operação lexical, ma nipulando palavras inteiras, sendo, portanto, cega à estrutura interna das palavras, isto é, às operações lexicais. Essa perspectiva, entretanto, se mostrou simplista demais no decorrer da década de oitenta. Anderson (1982) questionou, em um artigo chamado Where is Morphologv?, se a Morfologia é realmente irrelevante para a Sintaxe e se toda Morfologia deve ser processada no léxico. O autor fundou uma discussão cujo objetivo cia mostrar que, pelo menos uma classe de morfemas, aqueles conhecidos como morfemas flexionais, são relevantes para a Sintaxe e não podem ser ignorados 11. Ver Abaurre & Wetzels (1992), o qual apresenta uma seleção de textos contendo algumas análisivi do português dentro da Fonologia Lexical, e Bisol (1999) para uma apresentação da teoria da Fonoloc.i.i Lexical. Para uma discussão mais detalhada desta teoria, ver Mohanan (1986). 12. Não entraremos na discussão sobre a natureza da regra de atribuição de acento primário no |>orhi guês. Para uma discussão detalhada, ver Bisol (1999). 13. Para uma visão mais aprofundada sobre a relação entre Fonologia e Morfologia no portuguílt dentro da visão da teoria da Fonologia Lexical, bem como para mais informação sobre acentuação o ciclicidade, ver Lee (1992). MORFOLOGIA 193 pelo componente sintático. Antes, no entanto, de demonstrar o porquê de a Sintaxe não poder ignorar a Morfologia Flexionai, é necessário definir Morfologia Flexionai e Derivacional. A Morfologia Derivacional apresenta as seguintes propriedades: a) a Morfologia Derivacional tem a característica de alterar a categoria gramatical de uma palavra. Assim, em nosso exemplo nacionalização, trabalhamos com vários morfemas derivacionais. Vimos a transformação de um substantivo em adjetivo, deste adjetivo em verbo e, finalmente, deste verbo em substantivo novamente. Caso a categoria não seja alterada pela adição de um morfema derivacional, um novo traço de significado que pode ser parafraseado por uma palavra independente é adicionado. Por exemplo, se adicionarmos ré ao verbo fazer, temos fazer de novo; b) a Morfologia Derivacional não é produtiva, isto é, não é qualquer morfema derivacional que pode ser adicionado a qualquer raiz. Morfemas derivacionais têm muitas restrições de co-ocorrência; assim, podemos adicionai o morfema iz ao substantivo hospital e criar hospitalizar, mas não podemos adicioná-lo ao substantivo clínica e criar clinizar. Devemos dizer clinicar, devemos memorizar que podemos dizer hospitalizar e que não podemos dizer clinizar. Este é um argumento para acreditar-se que a Morfologia Derivacional r um fenómeno lexical, uma vez que o léxico é visto neste modelo como um icceptáculo de irregularidades e memorizações. A Morfologia Flexionai conta com as seguintes propriedades: a) a Morfologia Flexionai não altera categorias. Ela estabelece ligações rnl i c as palavras. Assim, na frase eu falo, o morfema o mostra que o sujeito da Ncutença é primeira pessoa. Na frase Os macacos caíram da árvore, o plural no .u ligo, s, indica que o núcleo do sintagma nominal é plural, e o morfema m nu l iça que o sujeito da sentença é terceira pessoa do plural. Assim, a Morfologia l l. ional acena para a Sintaxe, ficando difícil de aceitar a sua não-relevância l-.u a a Sintaxe; b) a Morfologia Flexionai é produtiva. Assim, qualquer verbo pode ser m.iicado por um morfema indicando terceira pessoa do plural e qualquer artigo l " H I r sei pluralizado. Exceções são muito raras, enquanto exceções no paradigma .Inivacional são muito frequentes. l ividência clara da relevância da Morfologia Flexionai para a Sintaxe vem .1. morfemas que indicam caso. Algumas línguas são caracterizadas por aprei ni.iu-m alguns moifcmas adicionados ao núcleo de um sintagma nominal indi. .melo o papel siulalico tlcslc siiilagma; esses morfemas são conhecidos como
  • 8. 194 INTRODUÇÃO À LIN( ,1 morfemas de caso. Por exemplo, o caso nominativo mostra que o sintagin. minai é sujeito, o caso acusativo mostra que o sintagma nominal é objeto c 111. i < < o caso ergativo indica que o sintagma nominal é sujeito de um verbo transiu . . Assim, fica muito difícil pensar que a Morfologia pode ser totalmente pro< da antes da Sintaxe, uma vez que morfemas flexionais, como morfemas de fazem referência a estruturas sintáticas. As línguas são classificadas entre aquelas com um padrão de nominativo-acusativo ou ergativo-absolutivo. Nas línguas com padrão ei J-..H i • absolutivo, o objeto e o sujeito de um verbo intransitivo são marcados d;i m. ma maneira, e o sujeito de um verbo transitivo conta com uma marca cspo • .1 Como exemplo de uma língua ergativa, veja as sentenças do Yidin, l a l a d . > n , Austrália: (7) Wagudja-ngu djugi gundal Homem-ERGATIVO árvore estar cortando "O homem está cortando uma árvore." (8) Wagudja gundal Homem estar cortando "O homem está realizando a tarefa de cortar." Observe que o sujeito da sentença transitiva é marcado por uni I I K . I i especial, ngu. Este é o morfema de caso ergativo. O sujeito da intransilh < objeto da transitiva não são marcados (absolutivo). Compare essas sentem,.. Yidin com sentenças paralelas do russo: (9) Andrei Ijubit Natash-u Andrei ama Natasha-ACUSATIVO "Andrei ama Natasha." (10) Natasha uxodit Natasha partiu MORFOLOGIA 195 nisso apresenta um padrão acusativo-nominativo. Outras línguas acusativas são 0 latim, o alemão, o turco, o japonês, o coreano, entre muitas outras. As línguas <-i cativas são mais raras, entre elas estão o basco (falado na Espanha), o tagalog ( l Mipinas), o avar (Cáucaso), o inuktitut (norte do Canadá e Groenlândia), o dyrbal (Austrália) e o kuykuru (Brasil). É interessante observar que o sistema de caso tem um impacto na ordem de t onstituintes sintáticos, e esta é uma evidência forte para a afirmação de que a Sintaxe é sensível à Morfologia Flexionai. Assim, não há nenhuma língua ergativa t|ue apresente a ordem sintática SVO como ordem não-marcada (i.e. sentenças t n u- podem servir de respostas para questões como o que aconteceu ?), ordem esta 1 H u- é muito comum entre as línguas acusativas. Além disso, em nenhuma língua IK nsativa, ao coordenarmos sentenças do tipo o homem viu uma onça e correu, o l.il.mtc nativo interpretará o sujeito da segunda sentença como a onça. Mas este i« MHineno sintático, de interpretar o sujeito da coordenada como sando aquele t|iie corresponde ao objeto da oração principal, ocorre em várias línguas ergativas. A hipótese de Chomsky (1970), de que a Sintaxe deveria ser cega para a Morfologia, ficou conhecida como hipótese lexicalista. Mas a discussão levani ,i< l.i por Anderson (1982) convenceu a comunidade linguística de que a sintaxe n . i i ) |>ode ser cega à Morfologia Flexionai. A divisão entre Morfologia l > t - i ivacional como um processo lexical e Morfologia Flexionai como um pro• > sintático passou a ser conhecida por hipótese lexicalista fraca. Assim, • 1 1 ii >s a Morfologia Flexionai ganhar um espaço dentro da árvore sintática como l H M K-iiios ver no capítulo Sintaxe, neste volume, onde a flexão é representada na > 1 1 1 1 1 1 1 rã sintática por F. Dcgraff (1997) apresenta forte evidência empírica para acreditarmos que n l l r x a o verbal deve realmente ocupar uma posição na estrutura sintática. O i i i i i t n mostra que diferenças entre o francês e o haitiano relativas ao lonamento de advérbios podem ser elegantemente capturadas ao assumir...... t|iic a flexão verbal ocupa uma posição sintática. Assim, os advérbios são i i- malicamente colocados depois do verbo no francês, enquanto são colocaistematicamente antes do verbo no haitiano. Veja os exemplos a seguir, • l ..... lanipulam exatamente o mesmo advérbio: "Natasha partiu." As línguas com o padrão nominativo-acusativo marcam o sujeito < l < bos transitivos ou intransitivos, da mesma maneira. O objeto é inaiv.it l< > . l i. especial. Este é o caso do russo. O russo, ao contrário do Yidin, m . M C i , , , i, com um morfema especial, u. Este é o morfema de caso acusativo. < > siiji Ilii seja de uma sentença transitiva ou intransitiva, não é marcado ( n < > m m . , n ( I I ) Francês: L'élève étudie bien/mal Ia leçon. Haitiano: Elèv Ia byen/mal etidye leson an. "O aluno estudou bem/mal a lição." • i ai T assume que o l'i ancês e o haitiano têm a mesma estrutura subjacente ns sentenças acima, onde o adverbio ocupa uma posição mais alta que o
  • 9. 197 196 INTRODUÇÃO À UNGI verbo na árvore sintática (o advérbio é adjungido ao sintagma verbal). O fr;m cês e o haitiano, entretanto, diferem no fato de que o haitiano não conta com Morfologia Flexionai. Degraff, assumindo que F (flexão) ocupa um lugar n.i árvore sintática, explica o fenómeno acima dizendo que o verbo é alçado n<> francês para a posição F, onde se anexa ao morfema flexionai de tempo/modo/ pessoa, passando a ocupar uma posição mais alta na árvore sintática que o ad vérbio. O haitiano não conta com Morfologia Flexionai, com o verbo permane cendo in situ. Portanto, no haitiano, o advérbio continua ocupando uma posição mais alta, precedendo o verbo. A teoria sintática ganha uma teoria de caso, como também podemos oh servar no capítulo Sintaxe, neste volume. Isto é, caso passou a ser visto como um fenómeno puramente sintático. Assumiu-se, assim, dentro da teoria gerati vá, que todas as línguas contam com atribuição de caso; as línguas apenas difere m no fato de que algumas têm caso morfologicamente marcado e outras não. Segundo esse ponto de vista, mesmo quando o caso não é marcado morfologi camente no substantivo, ainda é possível descobrir qual é o sistema de caso de uma dada língua pelo padrão de concordância verbal. No português, o caso não é marcado morfologicamente, mas percebemos que esta língua tem um padrão acusativo-nominativo. Percebemos isso porque o verbo sempre concorda com o sujeito, seja transitivo ou intransitivo, com o mesmo morfema (cf. eu como, eu lavo pratos). Em uma língua ergativa, é possível encontrar um padrão de concordância em que o verbo concorda da mesma forma com o objeto e com o sujeito intransitivo, apresentando uma concordância especial para o sujeito transitivo14. Como fundador da discussão sobre o lugar da Morfologia na Gramática, Anderson (1982) não seguiu, entretanto, a corrente que simplesmente deslocou a Morfologia Flexionai do léxico para a Sintaxe. Em sua obra de 1992, Anderson recusa a ideia de que a Morfologia Flexionai fizesse parte da Sintaxe e funda um quadro teórico para a análise de Morfologia Flexionai. Uma ideia muilo interessante desse quadro é a proposta de que morfemas não constituem a uni dade mínima da Morfologia. Morfemas são um epifenômeno, como o fonema. Para Anderson (1992), a unidade mínima da Morfologia são traços, aqui definidos como propriedades semânticas mínimas. Traços morfológicos seriam do tipo +lpessoa, +passado etc. O autor propôs que o léxico contivesse os traços a 14. Sobre teorias sintáticas de caso, ver o capítulo Sintaxe neste volume, bem como "Papers ou ousr and agreement I", publicados pelo MIT Working Papers, em Linguistics, n. 18, 1993. Para uma disi mais avançada, ver Bittner & Hale (1996), Nash (1995) e Chomsky (1995, 1998 e 1999). MlNrOLOGIA •.nem manipulados por uma dada língua. A Sintaxe poderia manipular esses u aeos e a Fonologia Pós-lexical resolveria como eles seriam (ou não) pronunciados na superfície. Isto é, para Anderson, a Morfologia Flexionai não tem um liij-ar específico dentro dos módulos da teoria linguística. A Morfologia percorie lodo o processo linguístico e, portanto, estudar Morfologia envolve contar • oin uma visão global de Linguística. De acordo com Anderson (1992): ...a estrutura da palavra pode ser entendida apenas como um produto de princípios em interação provenientes de muitas partes da gramática: ao menos da fonologia, da sintaxe e da semântica, em adição ao "léxico". Como tal, não é uma teoria que lida com o conteúdo de uma caixa num diagrama de fluxo típico, mas, ao invés, uma teoria de um domínio substantivo, cujo conteúdo é disperso através da gramática15. A proposta de Anderson de considerar traços como unidades mínimas da Morfologia foi adotada pelo Minimalismo de Chomsky (1993, 1995) e pela teoria denominada Morfologia Distribuída, de Halle & Marantz (1993, 1995), na década de noventa. O Minimalismo reformulou totalmente o papel da Morfologia dentro da teoria linguística. A Morfologia voltou a contar com um ' t tio papel de destaque. Segundo os adeptos do Minimalismo, a Morfologia ( i e. os traços morfológicos) "guiam" a Sintaxe. Isto é, processos sintáticos, K imo o movimento de constituintes, somente podem ser ativados se a Morfologia IX ijjjr que isto ocorra. Para os minimalistas, entretanto, apesar de a Morfologia voltar a ganhar uma ênfase especial, ela continuou a ser parte da Sintaxe. Os adeptos da Morfologia Distribuída defendem, como os seguidores de ('liomsky, que a teoria deve ser modular, mas se diferenciam daqueles que seguem o Minimalismo, ao afirmarem que a Morfologia tem seu próprio componente, definido como um nível de interface entre a Sintaxe e a Fonologia. Asini, o módulo da Morfologia, segundo esta perspectiva, está localizado entre a Sinlaxe e a Fonologia e, deste modo, a Sintaxe é visível para a Morfologia e a Morfologia é visível para a Fonologia, permitindo maior intersecção entre MorfoU >)• ia-Fonologia-Sintaxe: 15. O texto original é o que se segue: "...word structure can only be understood as the product of iMii-i.ii inif! principies from many parts of the grammar; at least phonology, syntax, and semantics in addilion in i In- 'U-xiam'. As smh, ihis is ii»t ;i ilu-ory ih:ii duais with the content of one box in a Standard flowchartlih |MI•um- cil a ji.ramiiiar, bui rathcr a thi-ory ot a substantive domain whose content is widely dispcrscd i l u o c i j ' l i Ilu- paiimiai" (Andrrson, 1992: 2).
  • 10. 199 198 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA MORFOLOGIA C >mo vimos antes, o kadiwéu conta com um morfema que marca concordância do verbo com o sujeito e com um morfema que marca concordância do verbo i om o objeto, mas o português marca apenas a concordância do verbo com o sujeito. Como já dissemos, a Morfologia Distribuída postula que, universalmente, cada posição de concordância conta com uma posição sintática. Assim, .1 concordância com o sujeito conta com uma posição e a concordância com o t >h jeto conta com uma segunda posição em todas as línguas do mundo. Segundo i-sle modelo, línguas como o português, que só apresentam corcordância com o sujeito marcada morfologicamente, passaram por um processo de fusão de posições para concordância16. Outro fenómeno da Morfologia Flexionai (também rotulada de morfossinlaxe), abordado frequentemente por linguistas que dominam apenas as ferramentas da análise sintática, é a voz, como, por exemplo, a voz passiva e a voz .uiiipassiva. Tanto a passiva como a antipassiva são processos de intransitivi/;icão. Elas diferem apenas no fato de que na passiva o agente é removido, enquanto o paciente é removido na antipassiva. A voz passiva pode ser representada pela seguinte frase do português: Figura 5.6. Módulos segundo a Morfologia Distribuída de Halle e Marantz (1993). A Morfologia Distribuída passou a recusar a ideia de que as Morfologias Derivacional e Flexionai estão separadas em dois módulos distintos e dependentes da Fonologia Lexical e da Sintaxe, respectivamente. Este modelo defendo que a Morfologia, como um todo, tem seus processos independentes de quais quer outros fenómenos linguísticos. Segundo Halle & Marantz (1993), protvs sós morfológicos incluem fenómenos como fusão e fissão, os quais não caraclr rizam nenhum outro módulo linguístico. Não temos, segundo a Morfologia Distribuída, morfemas como primitivos linguísticos. Ao contrário, temos posições onde traços morfológicos e fonológicos são inseridos. De acordo com este modelo, as morfologias de todas as línj-u.i. do mundo teriam as mesmas posições sintáticas para inserção de traços morl ol<> gicos. Mas a Morfologia, a qual segue a Sintaxe, pode manipular as posições sintáticas por meio de fusão de determinadas posições ou fissão de uma dada posição. Como exemplo, podemos citar o caso dos morfemas de concord;m« 1.1 (12) Todos estes livros foram escritos pelo mesmo autor. A passivização tem um impacto considerável na Sintaxe. O argumento l>acicnte passa a ser o sujeito da sentença e o argumento agente passa a ser 1'overnado por uma adposição. O agente passa a ser opcional, provando que a .1 Miença se torna intransitiva. A antipassiva, comum nas línguas ergativas, também causa intransitivi/.acao. No caso da antipassivização, o argumento paciente passa a ser governado por uma adposição e passa a ser opcional, como pode ser notado no exemplo .ihaixo do chukchee, língua indígena norte-americana: (13) a) 3nan qaa-t ele-ERG rena-ABS "Ele procurou uma rena". q3rir-ninet. procurar-3SUBJ/30BJ (13) b) Ine-lq3rir-3-rk3n ANTIPASS-procurar-0-PRES/3SUBJ (qora-ta). rena-adposição "Ele está procurando (por uma rena)". U, 1'ara um melhor cn lemlimcnto iln Morfologia Distribuída, ver Halle & Marantz (1993).
  • 11. 200 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA A estrutura de passivas e antipassivas continua sendo uma questão atual dentro da teoria linguística17. Outro fenómeno linguístico muito discutido na década de oitenta e que ainda continua sendo objeto de controvérsia, são os pronomes clíticos. Assim, alguns autores tentam abordar os pronomes clíticos na Sintaxe puramente, mas outros, como Anderson, Marantz e Halle, reivindicam que os clíticos são objeto de um módulo independente. Como mencionado anteriormente, clíticos não podem ser classificados como palavras, pois não ocorrem livremente em qualquer posição sintática e não podem ocorrer em isolamento. Mas também não podem ser classificados como afixos (prefixo, sufixo ou infixo), pois afixos têm uma posição fixa em relação ao seu hospedeiro, enquanto um clítico tende a ser mais livre. Assim, o afixo de primeira pessoa do singular o ocorre sempre sufixado à raiz verbal (cf. venho}. Um clítico de primeira pessoa do singular no português brasileiro pode ocorrer antes ou depois do verbo (desculpe-me ou me desculpe). Dado o seu caráter híbrido, não é uma palavra, mas não chega a ser um afixo. Os clíticos têm sido objeto de muita controvérsia na teoria linguística, passando por aqueles que argumentam que clíticos devem ser tratados como palavras e que, portanto, devem funcionar como argumentos sintáticos (Jelinek, 1984) e por aqueles que acreditam que clíticos são afixos e devem ser tratados como concordância (Suner, 1988). Uma proposta que ganhou bastante destaque foi a de Anderson (1992), segundo a qual clíticos são afixos. A diferença de afixos tradicionais é que eles seriam afixados à frase, enquanto afixos tradicionais seriam afixados à palavra18. 4.2. Outros desenvolvimentos dentro da teoria gerativa atual O objetivo deste capítulo é dar uma visão geral dos fenómenos encontrados ao trabalharmos com Morfologia. Entretanto, os fenómenos já apresentados não esgotam todas as possibilidades de análise. Os fenómenos morfológicos nem sempre são concatenativos, isto é, processados por meio da adição de morfemas. Toda língua conta com um componente de Morfologia Nãoconcatenativa. No português esses processos são os que se seguem: a) mistura: palavras que são criadas pela junção de partes de duas palavras já existentes na língua. Em português, podemos observar este processo 17. Para um estudo ainda parcial de passivas e antipassivas, bem como de outros fenómenos morlossimáticos, ver Baker (1988) e Ura (2000). l X. Ver Kato (1993), Nunes (1990), Duarte (1989), Galves (1997) para referências sobre cliticização no português brasileiro. MORFOLOGIA em palavras como portunhol, uma mistura entre as pala vi.r, / • < • / / ( / nhol; b) abreviação: um processo no qual uma nova palavra é criada pelo truncamento de uma palavra já existente, como, por exemplo, biju para bijuteria; c) acronímia: palavras iniciadas pelas letras iniciais de uma sigla, por exemplo, IEL, pronunciada [ieco] por Instituto de Estudos da Linguagem; d) retroformação: processo pelo qual uma palavra é formada pela desafixação de certos morfemas, como, por exemplo, delega de delegado. A Morfologia Não-concatenativa tem sido atualmente abordada dentro de uma nova versão da teoria gerativa que surgiu no início da década de noventa e que ganhou grande ênfase no final dessa década. Apesar de ser uma teoria gerativa, a chamada teoria da otimalidade (ou otimidade) diferencia-se drasticamente da teoria chomskyana. A teoria da otimalidade, proposta inicialmente por Prince & Smolensky (1993), é uma teoria que nega a análise gramatical por meio de módulos. De acordo com esse modelo, uma gramática particular é o resultado do ordenamento de um conjunto de princípios universais, isto é, aplicados em todas as línguas, mas violáveis. Como todos os princípios são processados paralelamente, pode haver conflito entre vários deles, o que impossibilita a satisfação de todos os princípios. Somente em uma situação de conflito um princípio pode ser violado. Uma hierarquização de princípios desempenha um papel fundamental neste modelo, portanto, pois somente os princípios mais baixos na hierarquia podem ser violados em uma situação de conflito. Para entendermos o funcionamento da teoria da otimalidade, voltemos aos dados do tagalog (ver Figura 5.3). Como já observamos, os infixos do tagalog são infixos somente porque a fonologia da língua não permite que palavras sejam iniciadas por uma vogal, mas o morfema de passado inicia por uma vogal. Assim, a prefixação do morfema de passado um resultaria em uma palavra iniciada por uma vogal. A língua resolve este conflito adicionando o morfema de passado logo após a consoante (ou encontro consonantal) que inicia a raiz. Deste modo, a palavra continua iniciada por uma consoante (não violando as restrições fonotáticas da língua). Note que qualquer outro morfema que não se inicia por vogal no tagalog pode ser prefixado. A teoria da otimalidade analisa este fenómeno por meio do ordenamento de dois princípios: (i) ataque — as sílabas devem se iniciar por uma consoante; (ii) alinhamento — os morfemas devem ser adicionados à esquerda da raiz. O ideal é satisfazer esses dois princípios, o que ocorre com um morfema iniciado por consoante. É impossível, entretanto, satisfazer simultaneamente esses dois princípios se um afixo iniciar por vogal porque, se o adicionarmos à esquerda do radical, satisfazemos (ii) e violamos
  • 12. 202 INTRODUÇÃO À (i), pois criamos uma sílaba sem ataque. Se o colocarmos em qualquer oníi posição, violamos (i), o qual exige prefixação. Como é impossível satisfazer os dois princípios manipulados nesta si n M cão, a língua deve priorizar um deles. A forma com infixação é preferívd mi tagalog, apesar de violar a restrição de alinhamento. Este fato é represeni.nl.. dizendo que o tagalog prioriza a restrição sobre formação silábica (isto é •> restrição ataque é ordenada em primeiro lugar e nunca pode ser violada) A forma aceita pelo tagalog é indicada por "®° na Figura 5.6. A forma que viol.i restrição priorizada é totalmente banida. um + lakad "passado + andar" Segundo esse modelo, a diversidade linguística é decorrente de um ordenamento distinto das mesmas restrições criando diferentes conflitos e d i l i gentes soluções de conflitos de acordo com o dado ordenamento. O portuguOs apresenta uma ordenação oposta àquela do tagalog em relação aos princípios ( i ) e (ii). Assim, o português jamais viola alinhamento, não gerando ínfixos, nus permite a violação de ataque, gerando sílabas iniciadas por vogais: . i Figura 5.8 Prefixação em português segundo a teoria da otimalidade. A teoria da otimalidade não pretende, no entanto, ser uma teoria moríolo gica. Seu objetivo é muito mais ambicioso. A teoria da otimalidade pretende sei uma teoria da linguagem como um todo. Isto é, pretende analisar e explk ai qualquer fenómeno linguístico por meio da mesma instrumentação. Assim, os adeptos desse modelo propõem tratar da interação entre Fonologia e Morfologia e Morfologia e Sintaxe, bem como da interação entre quaisquer princípios linguísticos, por meio de um único modelo, o que pode representar um ganho •m simplicidade teórica para a Linguística. No entanto, essa teoria ainda rsf.i MORFOLOGIA 201 i|»i-nas se iniciando, principalmente na abordagem de fenómenos sintáticos in ti lossintáticos. Ainda precisamos de alguns anos de investigação dentro do islrumental fornecido pela otimalidade antes de abandonarmos a proposta de lalisar a linguagem por meio de módulos distintos. Sobre a necessidade de investirmos na teoria da otimalidade, cabem as seguintes palavras de Pesetsky (1998): Seria interesssante, por exemplo, se nós descobríssemos que os mecanismos de interação de restrições propostos por Prince, Smolensky (1993) caracterizam todos os aspectos do conhecimento e uso linguístico. Tal descoberta revelaria uma uniformidade extraordinária entre os processos linguísticos que iria imediatamente levantar questões sobre uma possível uniformidade de interações para além das fronteiras da linguagem. É a faculdade de linguagem humana ou a mente, de uma maneira mais geral, um otimizador? Seria igualmente interessante, entretanto, se nós aprendêssemos algo totalmente diferente: que interações de otimização caracterizam alguns, mas não todos, os aspectos da linguagem. Nós iríamos, então, nos deparar com a intrigante tarefa de descobrir exatamente para o que a teoria da otimalidade é e não é satisfatória — e, em última instância, entender as razões para divisões de trabalho que podemos encontrar.19 De acordo com o modelo gerativo, otimalista ou não, os mecanismos resI» msáveis pela linguagem são inatos e, portanto, independentes de aspectos cullurais. Assim, todas as línguas são regidas por princípios universais (i.e. uma Dramática universal). Uma questão que o trabalho de linha gerativista levanta, e que o quadro gerativo atual está colocando muito esforço em responder, é como pode haver tamanha diversidade e uma gramática universal ao mesmo tempo, l im outras palavras, se realmente existe uma gramática universal, os gerativistas precisam responder qual é a natureza desta gramática universal que permite tamanha diversidade linguística. É impossível tentar abordar essa questão sem 19. O texto original é o que se segue: "It would be interesting, for example, if we were to discover i l i . i l lhe mechanisms of constraint interaction proposed by Prince & Smolensky (1993) characterize ali iispccls of linguistic knowledge and use. Such a discovery would reveal a striking uniformity across linguistic processes that would immediately raise wider questions about possible uniformity of interactions liryond lhe boundaries of language. Is the human language faculty, or the mind, more broadly, an opiimi/.cr? U would be equally interesting, however, if we were to learn something entirely different: that nplimalily-thcorctic interactions characterize some, but not ali, aspects of language. We would then face Mu n i i i i|'niii)' task ol discovering exactly what Optimality Theory is and is not good for — and, ultimately, umlast;imliiií> the reasons for any divisions of labor thal we may find" (Pesetsky, D. in Archangeli & lnrii, IWX: H4).
  • 13. 201 204 INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA pensarmos em Morfologia, pois é no estudo de Morfologia que percebemos que a diversidade linguística não é tão restrita como uma análise paramétrica nos faz supor à primeira vista. A Morfologia, como no quadro estruturalista, volta a ser o principal campo de investigação da teoria gerativa atual. Neste ponto, há uma convergência entre o gerativismo atual e o estruturalismo, ao considerar a Morfologia como um ponto crucial de investigação21. BIBLIOGRAFIA ABAURRE, M. B. & WETZELS, W. L. Fonologia do português. Cadernos de Estudos Linguísticos, n. 23, 1992. ADELAAR, W. The endangered languages problem: South America. In: ROBINS, R. & UHLENBECK, E. (eds.) Endangered Languages. New York, St. Marin's Press, 1991. ANDERSON, S. Where is Morphology? Linguistic Inquiry, n. 13, pp. 571-612, 1982. . A-morphous Morphology. Cambridge, Cambridge University Press, 1992. ARONOFF, M. Morphology by itself. Cambridge, MA, The MIT Press, 1994. BAKER, M. Incorporation. A theory of grammatical function changing. Chicago, University of Chicago Press, 1988. . The polysynthesis parameter. Oxford, Oxford University Press, 1995. BISOL, L. Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. Porto Alegre, Edipucrs, 1999. BITTNER, M. & HALE, K. The structural determination of case and agreement. Linguistic Inquiry, n. 27, pp.1-68, 1996. BLOOMFIELD, L. Language. Chicago, The University of Chicago Press, 1933. BOBALJIK, J. & PHILLIPS, C. Papers on case & agreement I. MIT Working Papers. In: Linguistics, n. 18, 1993. CARVALHO, J. B. Phonological conditions on portuguese clitic placement: on syntactic evidence for stress and rhythmical patterns. Linguistics, n. 27, pp. 405-436,1989. CHOMSKY, N. & HALLE, M. The sound pattern of English. New York, Harper & Row, 1968. CHOMSKY, N. Derívation byphase. MIT ms, 1999. . Remarks on nominalization. In: JACOBS, R. & ROSENBAUM, P. (orgs.) Readings in English transformational grammar. Waltham, MA, Ginn, 1970. 21. Para aqueles que se interessaram pela área, seria interessante ler Spencer (1991), que apresenta uma introdução detalhada ao estudo da construção da teoria morfológica até o final da década de oitenta. MORFOLOGIA . The minimalist program. Cambridge, MA, The MIT Press, 1995. . Minimalist inquiries: the framework. MIT occasional papers in Linguistics, n. 15, 1998. . A minimalist program for linguistic inquiry. In: HALLE, K. & KEYSER, J. (eds.) Viewfrom the building 20. Cambridge, MA, MIT Press, 1993. CUNHA, C. & CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. l MiGRAFF, M. Verb syntax in, and beyond, creolization. In HAEGEMAN, L. (ed.) The new comparative syntax. New York, Addison Wesley Longman, 1997. DUARTE, M. E. Clítico acusativo, pronome lexical e a categoria vazia no português do Brasil. In: TARALLO, F. (org.) Fotografias sociolinguísticas. Campinas, Pontes, 1989. G ALVES, C. La syntaxe pronominale du portugais brésilien et Ia typologie dês pronoms. In: ZRIBI-HERTZ, A. (ed.) Lês pronoms: morphologie, syntaxe et typologie. SaintDenis, Presses Universitaires de Vincennes, 1997. 11ALLE, M. & MARANTZ, A., Distributed morphology and the pieces of inflection. In: HALLE, K. & KEYSER, J. (eds.) View from the Building 20. Cambridge, MA, MIT Press, 1993. JELINEK, E. Empty categories, case, and configurationality. Natural Language and Linguistic Theory, n. 2, pp.39-76, 1984. KAGER, R. Optimality theory. Cambridge, Cambridge University Press, 1999. KAGER, R.; VAN DER HULST, H. & ZONNEVELD, W. Prosody-morpholoKv interface. Cambridge, Cambridge University Press, 1999. K ATO, M. A. The distribution of null and pronominal objects in Brazilian Porlu^iii-sr. In: ASH-BY, W. et ai. (eds.) Current issues in linguistic theory: selecictl /»<I/«TV from the XXI Linguistic Symposium on Romance Languages. Amsterdum, Joliu Benjamins, 1993. LEE, S. Fonologia lexical do português. In: ABAURRE, M. B. & WETZELS, W. L. Cadernos de Estudos Linguísticos, n. 23, 1992. MATTOSO CÂMARA JÚNIOR, J. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis, V o zes, 1970. MOHANAN, K. P. The theory of lexical phonology. Reidel, Dordrecht, 1986. NASH, L. Portée agrumentale et marquage casuel dons lês langues SOV et danx li-x langues ergatives. Tese de doutorado. Paris, Université de Paris, 1995. NUNES, J. O famigerado se. Dissertação de mestrado. UNICAMP — IEL.1990. ()'GRADY, W.; DOBROVOLSKY, M. & ARONOFF, M. Contemporary linguixtics: an introduction. New York, St. Martins's Press, 1991. PESETSKY, D. Optimality theory and syntax: movement and pronuncialion. In: ARCHANGELI, D. & LANGENDOEN, D. T. (eds.) Optimality theory: <m ovcrvit-w. Oxford, Blackwell Publishers, 1998.