Lingusitica aplicada
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  • 1. TENDÊNCIAS ATUAIS DA PESQUISA EM LINGÜÍSTICA APLICADA Maria Aparecida Garcia LOPES-ROSSI Universidade de Taubaté - UNITAU Resumo. Este artigo apresenta, em linhas gerais, as tendências atuais da pesquisa em Lingüística Aplicada (LA) e os métodos de pesquisa mais utilizados na área a fim de familiarizar o estudante iniciante em Lingüística Aplicada com o tema. Inicia-se com uma rápida incursão pelos focos de interesse dos lingüistas e complementa-se com comentários sobre o percurso da LA como área de pesquisa, seu caráter interdisciplinar e sobre as principais características das pesquisas em LA. 1 Apresentação do artigo Este artigo apresenta, em linhas gerais, as tendências atuais da pesquisa em Lingüística Aplicada (LA) e os métodos de pesquisa mais utilizados na área a fim de familiarizar o estudante iniciante em Lingüística Aplicada com o tema. Inicia-se com uma rápida incursão pelos focos de interesse dos lingüistas e complementa-se com comentários sobre o percurso da LA como área de pesquisa, seu caráter interdisciplinar e sobre as principais características das pesquisas em LA. 2 Breve comentário sobre focos de interesse dos lingüistas A Lingüística pode ser definida, de acordo com Lobato (1986), como o estudo científico da linguagem verbal humana (língua oral e escrita). Como ciência, busca responder, no aspecto geral: "o que há nas línguas humanas que lhes atribui caráter único e as distingue dos demais sistemas de comunicação?"; no aspecto específico, busca responder: "o que as diferentes línguas têm em comum e o que as diferencia entre si?". O início da Lingüística como ciência moderna é marcado pela publicação de Cours de Linguistique Générale, do lingüista suíço Ferdinand de Saussure, em 1916. Os inúmeros aspectos da língua passíveis de estudo - ou subsistemas da língua – originaram, a partir dessa data, diferentes áreas de estudo da Lingüística, em diferentes épocas. Alguns momentos de concentração de interesse em algumas áreas (não são as únicas possíveis), de acordo com Castro (1993), são: anos 30: fonologia; anos 40 e início dos 50, morfologia; final dos anos 50 e anos 60, sintaxe e semântica.
  • 2. 2 Nessas áreas, privilegia-se a língua "em si mesma" e "por si mesma". Alguns autores usam o termo "Lingüística" num sentido estrito (micro), considerando como pertencentes a essa ciência apenas as áreas de fonologia, morfologia e sintaxe, como Roulet (1978, p. 81). O fenômeno lingüístico é descrito de maneira predominantemente formalista, a partir de um número restrito de princípios e de um corpus de análise (pressuposto do método positivista), como comentam Mussalim e Bentes (2001). Nota-se que o objeto de estudo dessa fase da Lingüística é a língua, “concebida simplesmente como um código ou um sistema de sinais autônomo, transparente, sem história e fora da realidade social dos falantes”. Essa atenção ao sistema e não aos episódios de uso da linguagem talvez justifique, em parte, que um questionamento sobre o ensino de língua portuguesa e de línguas estrangeiras tenha sido retardado até o final dos anos 70 do século XX. A partir dos anos 60, a atenção dos pesquisadores voltou-se para o uso e o funcionamento lingüístico com implicações que são próprias às condições de produção real da língua, ou seja, para a atividade discursiva com todos os fatores nela envolvidos. Com freqüência, passa-se a falar em linguagem mais do que em língua. Passaram a integrar os estudos lingüísticos – "Lingüística" entendida agora num sentido macro – , além dos anteriormente citados, temas como: contexto, falante, ouvinte, referente, enunciado, enunciador, espaço de interação, fatores socioculturais, entre outros. Algumas das áreas surgidas a partir de então (não necessariamente nesta ordem) foram: semântica argumentativa, sociolingüística, psicolingüística, pragmática, lingüística textual, análise do discurso, análise da conversação, lingüística histórica (numa perspectiva diferente da do séc. XIX), lingüística aplicada (no seu início, entendida como subárea da Lingüística). Marcuschi e Salomão (2004, p. 15), comentando um conjunto de textos sobre fundamentos epistemológicos da Lingüística moderna, afirmam: “A Lingüística não se recusa a analisar todos os problemas que dizem respeito a aspectos formais e estruturais, processos comunicativos e interativos, cognitivos e (sócio)históricos que envolvem o ser humano em suas atividades
  • 3. 3 diárias. Afinal, a linguagem é o maior empreendimento conjunto do ser humano e não pode ser cercado de um lado apenas.” A partir dessa nova perspectiva, o fenômeno lingüístico passou a ser visto como um fenômeno sócio-cultural, fundamentalmente heterogêneo e em constante processo de mudança. Em decorrência dessa mudança de enfoque dos estudos da linguagem, práticas de uso da linguagem em situações específicas antes consideradas fora do escopo da Lingüística passaram a interessar aos estudos lingüísticos. A concepção de língua ampliou-se e sua definição, como comenta Marcuschi (2005, p. 152), pode ser: A língua não é sequer uma estrutura; ela é estruturada simultaneamente em vários planos, tais como o fonológico, o sintático, o semântico e o cognitivo, que se organizam no processo de enunciação. A língua é um fenômeno cultural, histórico, social e cognitivo que varia ao longo do tempo e de acordo com os falantes: ela se manifesta no seu funcionamento e é sensível ao contexto. 3 O desenvolvimento de outras áreas relacionadas à Educação Nessa época em que os focos de interesse dos lingüistas se diversificaram e ampliaram, também ocorriam desenvolvimentos significativos em outras ciências relacionadas à educação. Como comentam Williams e Burden (1997), a psicologia cognitiva, a partir dos anos 60, voltou-se a estudos sobre atenção, percepção, memória, funcionamento da mente. Na área específica da aprendizagem, o psicólogo Jean Piaget desenvolveu a teoria construtivista, segundo a qual a criança participa ativamente do processo de aprendizagem, desde o nascimento, na construção de um sentido pessoal para o mundo a partir de suas próprias experiências. Outro enfoque psicológico relacionado ao contrutivismo foi o humanismo, cujo principal representante, Carl Rogers, defendeu uma aprendizagem significativa relacionada a pensamentos, sentimentos, emoções dos alunos, com respeito às suas diferenças. Também as traduções para o ocidente (em 1962 e 1978) de textos do psicólogo russo Vygotsky contribuíram muito para as pesquisas sobre ensino e aprendizagem. Esse autor demonstrou que o ser humano dá sentido ao mundo pela interação diária com as pessoas, desde o nascimento. A
  • 4. 4 construção das funções psíquicas da criança foi vinculada à apropriação da cultura humana, por meio de relações interpessoais na sociedade à qual pertence. A criança se desenvolve à medida que, orientada por adultos ou companheiros, se apropria da cultura elaborada pela humanidade. A linguagem é um fator importante para o desenvolvimento mental da criança, exercendo uma função organizadora e planejadora de seu pensamento, ao mesmo tempo que lhe permite interagir socialmente e adquirir conceitos sobre o mundo que a rodeia, apropriando-se da experiência acumulada pela humanidade no decurso da história social. 4 A Lingüística Aplicada (LA) Nesse contexto de ampliação dos horizontes dos estudos lingüísticos e educacionais, a partir dos anos 60, cresceu a preocupação entre os lingüistas com o ensino de línguas, como comenta Celani (1992), de forma que a Lingüística Aplicada (LA) se constituiu uma área de pesquisa. Inicialmente a LA foi entendida como subárea da Lingüística. Até hoje é assim classificada pelo CNPq. Voltava-se apenas ao ensino e aprendizagem de línguas e era considerada consumidora e não produtora de teorias. Nessa concepção, já ultrapassada, a LA subordinava-se à Lingüística, como as outras áreas citadas no item 2. Na concepção atual, a LA é considerada como área interdisciplinar, empenhada na solução de problemas humanos que derivam dos vários usos da linguagem, de acordo com Celani (1992, p. 20) e (1998, p. 132). Assim, de acordo com a autora, uma visão pluri/multi/interdisciplinar da LA poderia ser representada por uma integração com muitas outras áreas, tais como: Comunicação Social .............. Didática .......... Psicologia cognitiva Lingüística Educação Aplicada Lingüística História Sociologia Psicologia do desenvolvimento
  • 5. 5 Moita Lopes (1996, p. 114), a respeito dessa visão interdisciplinar da LA, afirma: O lingüista aplicado, partindo de um problema com o qual as pessoas se deparam ao usar a linguagem na prática social e em um contexto de ação, procura subsídios em várias disciplinas que possam iluminar teoricamente a questão em jogo, ou seja, que possam ajudar a esclarecê-la. Não há dúvida de que a interface da LA com a Lingüística é muito forte uma vez que o objeto de estudo de ambas é a língua, ainda que em perspectivas diferentes. No entanto, deve-se notar que, dependendo do tema e do objetivo da pesquisa em LA, a interdisciplinaridade pode ser maior com algumas áreas específicas. Alguns exemplos: pesquisas sobre problemas de ensino e aprendizagem relacionados a aspectos de interação professor-aluno beneficiam-se muito de teorias da Psicologia e da Educação; pesquisa sobre aprendizagem de segunda língua com enfoque em dificuldades gramaticais específicas beneficiam-se de teorias lingüísticas; pesquisa sobre caracterização de gêneros discursivos da esfera jornalística ou publicitária utilizam-se de teorias da Comunicação Social; pesquisas sobre o ensino de tópicos gramaticais em grande variação na língua falada necessitam de fundamentos teóricos da sociolingüística. O ensino de línguas – materna e estrangeiras – sempre foi uma área de forte atuação da LA e vem passando por mudanças de concepção muito significativas. A idéia de que a língua poderia ser estudada apenas como um sistema de regras foi substituída pela de que a linguagem deve ser considerada pela escola numa dimensão bem mais ampla. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN; BRASIL, 1998, p. 20), capitalizando conhecimentos das últimas décadas da Lingüística e da Lingüística Aplicada, propõem que as atividades de ensino de língua materna tenham sempre em foco a linguagem [...] como ação interindividual orientada por uma finalidade específica, um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos da sociedade, nos distintos momentos de sua história. [...] Nessa perspectiva, língua é um sistema de signos específico, histórico e social, que possibilita a homens e mulheres significar o mundo e a sociedade. Aprendê-la é aprender não somente palavras e saber combiná-las em expressões complexas, mas apreender
  • 6. 6 pragmaticamente seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas entendem e interpretam a realidade e a si mesmas. Interagir pela linguagem significa realizar uma atividade discursiva: dizer alguma coisa a alguém, de uma determinada forma, num determinado contexto histórico e em determinadas circunstâncias de interlocução. Um rápido exame em cadernos de resumos de congressos da área, como os do Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada (CBLA) e os do Intercâmbio de Pesquisas em Lingüística Aplicada da PUC-SP (InPLA), mostra que temas como gêneros discursivos no ensino de leitura e produção escrita, caracterização de gêneros discursivos, formação de professores, práticas docentes, afetividade e cognição, novas tecnologias no ensino, educação a distância, práticas discursivas em ambientes educacionais, entre muitos outros, passaram a integrar a pauta das pesquisas em LA. Embora ressaltemos essa significativa contribuição da LA para o ensino de línguas, é importante lembrar que essa ciência não se restringe apenas ao ensino. De acordo com Moita Lopes (1996, p. 123): Há uma preocupação cada vez maior em LA com a investigação de problemas de uso da linguagem em contextos de ação ou em contextos institucionais, ou seja, há um interesse pelo estudo das pessoas no mundo. Kleiman (1998, p. 70) comenta que o foco de interesse da LA não é a linguagem em si, mas o conhecimento das práticas de uso e de aprendizagem da língua em instituições, porque seu conhecimento pode ajudar a entender os fatores que condicionam as práticas institucionais (sociais). Nesse sentido, afirma a autora, a LA tem relevância social “uma vez que as práticas institucionais, em geral, inibem o desenvolvimento dos grupos minoritários”. As linhas de pesquisa predominantes na LA atual, de acordo com Celani (1998, p. 136), são: • interação em contextos institucionais e informais, incluindo-se neste caso contextos específicos tais como, negócios, sala de aula, médico/paciente, análise crítica do discurso; • interação em aprendizagem, incluindo letramento, aprendizagem de segunda língua, interações transculturais e intraculturais em contexto
  • 7. 7 pedagógico. O foco das pesquisas é sociocultural, discursivo e psicológico; • aquisição e desenvolvimento da linguagem (materna e estrangeira) e ensino de língua, incluindo aquisição e desenvolvimento de escrita, leitura, habilidade oral; • tradução, do ponto de vista da teoria, da prática e do ensino. Celani (1998, p. 142) conclui seu artigo comentando a seguinte frase de Faure (1992; apud Celani, 1998): "O pesquisador interdisciplinar, mais do que qualquer outro, é um nômade, um rei sem reino". A autora comenta que não há problema em ser nômade "se isso significar liberdade, amplitude de ação". Quanto a ser um rei sem reino, pergunta: "há lugar para reinos no domínio do saber?" 5 Métodos de investigação científica em Lingüística e Lingüística Aplicada De acordo com Salomon (1993), a metodologia científica é a disciplina que ensina o "caminho", quer dizer, as normas técnicas que devem ser seguidas na pesquisa científica. Uma pesquisa (ou investigação) científica pressupõe o emprego de método científico, definido por Lakatos e Marconi (1991, p. 83) como: “o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros – , traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista”. O estudioso de qualquer matéria deve cultivar o espírito científico. Nas palavras de Cervo e Bervian (1983, p. 18), isso “é, antes de mais nada, uma atitude ou disposição subjetiva do pesquisador que busca soluções sérias, com métodos adequados, para o problema que enfrenta. Essa atitude não é inata na pessoa. É conquistada ao longo da vida, à custa de muitos esforços e exercícios”. Os conceitos de ciência e de método científico têm sido objeto de controvérsia através dos tempos, como comenta Lobato (1986). A tendência atual é a rejeição da existência de um método científico unificado, válido para
  • 8. 8 qualquer ciência. Aceita-se uma multiplicidade de métodos de investigação, sendo esses métodos variáveis de ciência para ciência. Vejamos esquematicamente o que se observa em termos de métodos de pesquisa na Língüística, de acordo com Lobato (1986) e Coracini (1991). Especialmente até os anos 60, eram usados métodos de interpretação de base positivista para os dados da língua; as análises baseavam-se em uma certa quantidade de dados - corpus - obtidos de amostras de fala (gravada ou transcrita) e escrita (trechos extraídos de jornais, livros, redações etc.) – acreditava-se que só assim a objetividade seria obtida; pesquisas quantitativas, uso de estatísticas; hipóteses teóricas propostas deveriam ser comprovadas pelos dados. O método indutivo é o que usa nessa perspectiva metodológica: observação dos dados para posterior construção de uma teoria; controle de variáveis de modo a se demonstrarem relações de causa e efeito; rejeição do uso de intuições do pesquisador. As pesquisas de base positivista partem de um corpus que é produto do uso da linguagem. Devemos ressaltar que a análise e diagnóstico de produto de uso da linguagem não é em si uma má pesquisa. A resolução de problemas depende de pesquisas dessa natureza para diagnósticos. Certas áreas da linguagem ainda não foram estudadas e certos problemas não foram diagnosticados e, portanto, podem beneficiar-se, numa primeira etapa, desse tipo de pesquisa, embora hoje não se acredite no conceito de objetividade como outrora e na seleção de dados desvinculada de uma concepção teórica. Outras áreas já foram bem mapeadas e carecem de pesquisa para a resolução de problemas já bem descritos. Para essas últimas, pesquisa de base positivista é inútil. O gerativismo americano (a partir de 1957) passou a aceitar o uso de intuições do pesquisador e dos sujeitos de pesquisa; nessa corrente teórica - cujo objetivo é retratar o conhecimento mentalizado que os falantes/ouvintes têm de sua língua - o lingüista cria seus dados (frases) para análise. Isso significou uma forte quebra de paradigmas no que diz respeito a métodos
  • 9. 9 considerados “científicos” e contribuiu significativamente para a discussão sobre o tema. 1 Atualmente admite-se que qualquer seleção e análise de corpus se faz com o auxílio da intuição e com base em concepções teóricas do pesquisador, tanto na coleta de dados quanto no estabelecimento das relações entre os aspectos da língua a serem analisados. A aceitação dessa noção de cientificidade da lingüística admitindo-se que a escolha de um corpus de análise é dependente de alguma concepção teórica decorre das idéias do filósofo da ciência Popper. 2 Faraco (1991, p. 58), comentando sobre o fato de a diversidade teórica não ser apenas um fenômeno desejável, mas uma necessidade lógica, afirma: Como não temos o dom da onisciência, nem o poder de apreensão global instantânea do mundo, nossas aproximações científicas do real são sempre parciais: fazemos recortes nele, construindo nossos objetos de estudo, e formulamos hipóteses explicativas para esses recortes. [...] Isso não significa que a ciência seja toda ela condicionada apenas pelas crenças e valores dos cientistas. Há uma tensão permanente entre as teorias e o real , o que constitui, por assim dizer, um dos aspectos específicos e diferenciadores da ciência em contraste com outras formas de conhecimento (a arte ou o saber prático, por exemplo). 1 A noção de quebra de paradigma foi estabelecida por Thomas Kuhn, filósofo da ciência. A partir da citação de livros clássicos sobre ciências naturais, Kuhn (1987, p. 30-32) afirma: [...] esses e muitos outros trabalhos serviram, por algum tempo, para definir implicitamente os problemas e métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações posteriores de praticantes da ciência. Puderam fazer isso porque partilhavam duas características essenciais. Suas realizações foram suficientemente sem precedentes para atrair um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras formas de atividade científica dissimilares. Simultaneamente, suas realizações eram suficientemente abertas para deixar toda a espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência. Daqui por diante deverei referir-me às realizações que partilham essas duas características como ‘paradigmas’ [...]. Com a escolha do termo pretendo sugerir que alguns exemplos aceitos na prática científica real - exemplos que incluem, ao mesmo tempo, lei, teoria, aplicação e instrumentação - proporcionam modelos dos quais brotam as tradições coerentes e específicas da pesquisa científica. [...] O estudo dos paradigmas [...] é o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica determinada na qual atuará mais tarde. Uma vez que ali o estudante reúne-se a homens que aprenderam as bases de seu campo de estudo a partir dos mesmos modelos concretos, sua prática subseqüente raramente irá provocar desacordo declarado sobre pontos fundamentais. Homens cuja pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica. Esse comprometimento e o consenso aparente que produz são pré-requisitos para a ciência normal, isto é, para a gênese e a continuação de uma tradição de pesquisa determinada.” [...] As transformações de paradigmas [...] são revoluções científicas e a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida . 2 Mais informações sobre esse assunto podem ser encontradas em Coracini, 1991.
  • 10. 10 De acordo com Moita Lopes (1996), a LA tem se utilizado de diferentes métodos e privilegiado diferentes enfoques à medida que vai se estabelecendo como área científica autônoma. Algumas de suas tendências, limitações e méritos, quando voltada ao ensino de línguas, são: • investigação teórico-especulativa baseada em informação teórica advinda principalmente da Lingüística. A limitação: a descrição de um fato lingüístico não tem uma relação direta com o ato de ensinar/aprender línguas; professores e alunos não são considerados. • investigação do produto de ensino/aprendizagem; submissão dos alunos a testes ou atividades para coleta de dados. Pesquisa quantitativa orientada para a sala de aula. A limitação: o processo de ensino/aprendizagem fica fora do alcance do pesquisador. • pesquisa de caráter introspectivo, com base em análise de protocolo verbal com o objetivo de revelar aspectos do processamento cognitivo do sujeito de pesquisa; pesquisa qualitativa (baseia-se em poucos sujeitos de pesquisa). As limitações: o sujeito não revela muitos aspectos de seu processamento cognitivo por não ter consciência deles; outros elementos que interagem no processo de ensino/aprendizagem ficam fora da pesquisa. • pesquisa baseada em análise interativista, pesquisador utiliza-se de uma grade de categorias previamente estabelecidas com objetivo de detectar o comportamento de professores e alunos em ação em sala de aula 3 . As limitações: resultados expressos em números que são tratados estatisticamente; baseia-se em categorias definidas anteriormente à investigação. • pesquisas que enfocam o processo de ensinar/aprender línguas, realizadas na sala de aula de línguas (pesquisas interpretativistas). Observam-se dois tipos básicos: 1) pesquisa diagnóstico – investigação do processo de ensinar/aprender conforme realizado em sala de aula; qualitativa.; 2) pesquisa de intervenção – investiga a 3 Ver: Cavalcante e Moita Lopes (1991).
  • 11. 11 possibilidade de se modificar a situação existente em sala de aula. Tendência para a pesquisa qualitativa, notadamente de natureza etnográfica – preponderante hoje em dia, descrição narrativa da vida diária da sala de aula a partir de observação participante, diários, entrevistas, gravações de aulas. Essa é a tendência mais moderna, voltada aos processos sociointeracionais envolvidos na construção do conhecimento; o professor pode ser o pesquisador (pesquisa- ação). Foco no processo de uso da linguagem. Podemos observar que grandes transformações ocorreram nos métodos de pesquisa em Lingüistica e Lingüistica Aplicada, especialmente na segunda metade do século XX. Os estudos sobre a linguagem humana passaram por verdadeiras "revoluções científicas", por "quebras de paradigmas", se nos basearmos na teoria de Kuhn (1987). Para concluir essa seção, devemos lembrar que, de acordo com Kuhn (1987, p. 38), "para ser aceita como paradigma, uma teoria deve parecer melhor que suas competidoras, mas não precisa (e de fato isso nunca acontece) explicar todos os fatos com os quais pode ser confrontada". Também não precisa derrotar todas as teorias competidoras. Daí se explica a diversidade teórica existente em todos os campos de pesquisa. Para os alunos iniciantes na pesquisa em Lingüística Aplicada , bem como em qualquer outra ciência, é bem apropriada a seguinte citação de Faraco (1991, p. 59): Como se vê, a ciência, – além de caracterizada pela diversidade teórica – é, em conseqüência dessa mesma diversidade, uma atividade em que a crítica, a polêmica, a controvérsia, o pôr em dúvida, o debate são ingredientes indispensáveis: eles é que nos preservam do dogmatismo, do obscurantismo, do irracionalismo que são a morte da própria ciência. Quem se inicia numa disciplina científica precisa, portanto, buscar compreender as suas polêmicas, o que significa ter condições de explicitar os fundamentos de cada uma, bem como sua retórica específica, isto é, os processos de argumentação predominantes. Deve também ter como objetivo delas participar, o que significa amadurecer sua capacidade de trabalhar, não de forma aleatória ou impressionista, mas dentro de um sistema teórico, conhecendo seus fundamentos empíricos, seus pressupostos
  • 12. 12 filosóficos, seus métodos e sua localização no conjunto da história da disciplina. 6 Considerações finais Em pesquisas de Lingüística Aplicada centradas no ensino e aprendizagem de línguas, como as que constituem o enfoque do Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada da UNITAU, temos também como referência o fato de que os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1998) – baseiam sua proposta de ensino na concepção sócio-discursiva de linguagem e nos avanços da Lingüística Aplicada. O conceito mais recente de língua subjaz aos objetivos para o ensino de língua portuguesa e, como observou Geraldi (1998, p. 19) a respeito do ensino de produção de textos – e aqui me aproprio de suas palavras para o ensino de línguas de modo geral – , não se trata "de mero gosto por novas terminologias. Por trás dessa troca de termos, outras concepções estão envolvidas". No que se refere ao ensino de Língua Portuguesa, buscamos a consecução de seu objetivo geral proposto pelos PCN: [...] criar situações nas quais o aluno amplie o domínio ativo do discurso nas diversas situações comunicativas, sobretudo nas instâncias públicas de uso da linguagem, de modo a possibilitar sua inserção efetiva no mundo da escrita, ampliando suas possibilidades de participação social no exercício da cidadania. (MARCUSCHI, 2004, p. 266) Referências BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília : MEC/SEF. 1998. CASTRO, Vandersí S. De que vêm se ocupando os lingüistas ultimamente. Trabalhos em Lingüística . Aplicada, Campinas, n. 22, p. 25-31, jul./dez. 1993. CELANI, Maria A. A. Afinal, o que é Lingüística Aplicada? In: PASCHOAL, M.S.Z. de. ; CELANI, M.A.A. (Org.). Lingüística Aplicada. São Paulo: EDUC, 1992. p. 15-24. _______. Transdisciplinaridade na Lingüística Aplicada no Brasil. In: SIGNORNI, I.;
  • 13. 13 CAVALCANTI, M. do C. ; MOITA LOPES, L. P. Implementação de pesquisa em sala de aula de língua estrangeira. Trabalhos em Lingüística Aplicada, Campinas, n.17. p. 133- 144. jan./jun. 1991. CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A. Metodologia Científica. 3. ed. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1983. CORACINI, Maria José. Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da ciência. São Paulo: Educ; Campinas: Pontes, 1991. FARACO, Carlos A. Lingüística Histórica. São Paulo: Ática, 1991. KLEIMAN, A. B. O estatuto interdisciplinar da Lingüística Aplicada: o traçado de um percurso, um rumo para o debate. In: SIGNORNI, I.; CAVALCANTI, M. C. (Org.). Lingüística Aplicada e trasndisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p.51-77. KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1987. LAKATOS, Eva M.; MARCONI, Marina de A. Fundamentos da Metodologia Científica. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 1991. LOBATO, Lúcia M. P. Sintaxe Gerativa do Português. Belo Horizonte: Vigília, 1986. MARCUSCHI, Luiz A. Perspectivas no ensino de Língua Portuguesa nas trilhas dos Parâmetros Curriculares Nacionais. In: BASTOS, Neusa B. (Org.). Língua portuguesa em calidoscópio. São Paulo: EDUC, 2004. p. 159-282. ______. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, Acir M.; GAYDECZKA, Beatriz, BRITO, Karim S. (Org.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. Palmas-PR: Kaygangue, 2005. p. 17-33. MARCUSCHI, Luiz A.; SALOMÃO, Maria M. M. Introdução. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Org.). Introdução à Lingüística: fundamentos epistemológicos. Vol. 3. São Paulo: Cortez, 2004. p. 7-26. MOITA LOPES, L. P. Oficina de Lingüística Aplicada. Campinas: Mercado de Letras, 1996. MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Org.). Introdução à lingüística: domínios e fronteiras. V. 2. São Paulo: Cortez, 2001. SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia. 2.ed. rev. e atual. São Paulo: Martins Fontes, 1993. ROULET, Eddy. Teorias lingüísticas, gramáticas e ensino de línguas. São Paulo: Pioneira, 1978.
  • 14. 14 WILLIAMS, Marion; BURDEN, Robert L. Psychology for language teachers. A social constructivist approach. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.