Economia – a economia intertemporal parte 2

  • 550 views
Uploaded on

 

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
No Downloads

Views

Total Views
550
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0

Actions

Shares
Downloads
23
Comments
0
Likes
1

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. 1 “A arte de ensinar Economia de uma maneira simples, sem mistérios”. De Maria Eulália, uma ex-aluna. AULA 4: A ECONOMIA INTERTEMPORAL Parte 2: O INVESTIMENTO (Veja observação contida no início da Aula 4, anterior).1. Introdução O investimento tem um duplo papel nos modelosmacroeconômicos: primeiro, constitui-se num importantecomponente da demanda agregada da economia; segundo,contribui para o aumento da capacidade produtiva da economia aolongo dos anos. Também é, certamente, o componente dademanda agregada mais volátil. De uma forma geral, quando osgastos com bens e serviços caem durante uma recessão, um boaparte desta queda decorre do redução dos gastos de investimento. Os modelos de produto e de demanda agregada queestudamos em tópicos anteriores como, por exemplo, no caso domodelo IS-LM, baseavam-se em hipóteses simples, ora fazendo ovalor do investimento como uma variável autônoma (I = I), nãodependente de nada, ora relacionando negativamente oinvestimento com a taxa de juros: I = I - ir. Há três tipos de gasto com investimento: o investimento emcapital fixo privado – que inclui os máquinas e equipamentos queas empresas compram para usar na sua produção; o investimentoem imóveis residenciais – que inclui a construção de imóveisnovos que as pessoas compram para morar ou para alugar; e oinvestimento em estoque – que inclui tanto as matérias-primasque as empresas guardam, como os próprios bens produzidos pelaempresa e eventualmente não vendidos.
  • 2. 2 Neste texto, nós vamos nos concentrar no estudo doinvestimento em capital fixo privado que, na verdade, representaquase 80% do total de investimento da economia. O termo“privado” aqui significa que não estamos tratando dos gastos deinvestimento do governo e sim dos bens de capital adquiridospelas empresas particulares para sua produção futura. Já o termo “capital fixo” significa um capital que vai ficarinstalado por algum tempo, o que não é o caso, por exemplo, doinvestimento em estoque que será vendido ou usado logo, numfuturo mais ou menos breve. A rigor, o investimento em capitalfixo inclui desde uma fábrica até um aparelho de fax,microcomputadores e caminhões que a empresa utiliza. Nesta Aula 4, nós examinaremos mais a fundo a teoriasubjacente à função investimento, tentando responder asseguintes questões principais: . Por que o investimento se relaciona negativamente com a taxa de juros? . O que causa o deslocamento da função investimento? . O que faz o investimento aumentar durante os períodos de crescimento econômico e diminuir nos períodos de recessão?2. O Modelo Neoclássico de Investimento O modelo padrão de análise do investimento em capital fixoprivado é o chamado modelo neoclássico de investimento. Estemodelo examina os benefícios e os custos que as empresas têmcom a posse de bens de capital, mostrando como os acréscimos aoestoque de capital se relacionam com o rendimento marginal docapital, com a taxa de juros e com as regras tributárias relativasàs empresas. Para desenvolver e entender o modelo, vamos imaginar quehá dois tipos de empresas na economia: as empresas de produção- que produzem bens e serviços usando máquinas e equipamentos(bens de capital) alugados – e as empresas de locação que, defato realizam todos os investimentos na economia, comprando
  • 3. 3máquinas e equipamentos e alugando-os para as empresas deprodução. Na economia real, a maioria das empresas desempenha, defato, as duas funções, ou seja, investem em capital para produçãofutura e também produzem bens e serviços. Mas, para tornar aanálise mais simples, é melhor separar as empresas naquelas duascategorias acima. Vamos, então, primeiro analisar a empresa deprodução típica, isto é, aquela que aluga as máquinas paraproduzir bens e serviços. Ao decidir alugar capital, a empresa compara, antes, o custoe o benefício de cada unidade de capital. A empresa aluga amáquina a um custo de aluguel A, e vende sua produção pelopreço P. O custo real desta máquina para a empresa é A/P. Obenefício real de uma unidade de capital é o produto marginal docapital – PMgK – ou seja, a produção extra que se obtém com ouso de mais uma unidade de capital. Observe que o PMgK declinaà medida que aumenta a quantidade de capital utilizada. Pelateoria microeconômica, sabemos que, para maximizar seu lucro, aempresa alugará o capital até que o PMgK se iguale com o custodo capital, isto é, com o valor do aluguel. A/P Oferta de capital A/P = preço real do capital Demanda por Capital PMgK Quantidade de capital Figura 1
  • 4. 4 A Figura 1 mostra a curva de demanda por capital que, naverdade, coincide com a curva do PMgk. Esta curva de demanda énegativamente inclinada, indicando que quanto maior a quantidadede capital utilizada, menor é o PMgK. Em qualquer momento,existe um estoque de capital fixo e, por isso, a curva de oferta decapital é vertical. O preço real do aluguel de capital é determinado,no ponto de equilíbrio entre a oferta e a demanda por capital – oque ocorre no cruzamento das duas curvas, tal como ilustrado naFigura 1. Já que, em equilíbrio, o preço do aluguel é igual ao produtomarginal do capital, podemos concluir o seguinte: i) Quanto mais baixo for o volume de capital instalado (maior, portanto, é o PMgK), mais alto será o preço real do aluguel; ii) Quanto melhor a tecnologia, maior é o PMgK e, então, maior será o preço real do aluguel.3. O custo do capital Vamos, agora, analisar a situação das empresas de locação.Tal como as locadoras de automóveis, essas empresas comprambens de capital e os oferecem para alugar. A exemplo do queocorre com as empresas de produção, as empresas de locação, aofazer investimentos em mais capital, comparam o benefício e ocusto de se possuir capital. A vantagem ou benefício de se possuir capital é a receitaobtida ao alugá-lo para as empresas de produção. Já o custo de sepossuir o capital é um pouco mais complexo pois, na verdade,para cada período de locação, a empresa arca com três custos: i) Para adquirir o capital, a empresa ou pega dinheiroemprestado no banco e paga juros (r), ou usa o próprio dinheiro edeixa de ganhar juros sobre ele. De qualquer forma, a empresatem um custo de juros que será dado por rPk – sendo Pk o preço docapital; ii) um segundo custo ocorreria se, durante a locação, o preçodo capital se alterar: se Pk cai, a empresa perde porque o valor de
  • 5. 5seu ativo diminuiu; se Pk sobe, a empresa ganha, porque o valorde seu ativo aumentou. O custo desta perda ou deste ganho podeser representado por -∆Pk (sinal de menos significa que estamosmedindo custos e não benefícios). iii) um terceiro tipo de custos para a empresa é adepreciação, que corresponde ao desgaste da máquina enquantoestá alugada. Chamando de δ a taxa de depreciação, o custo dadepreciação será dado por δPk. Assim, o custo total de aluguel de uma unidade de capital(Ck) por um período qualquer é dado por: Ck = rPk - ∆Pk + δPk (1) Ou, Ck = Pk(r - ∆Pk/ Pk + δ) (2) Ou seja, o custo do de uma unidade de capital depende dopreço do capital, da taxa de juros, da taxa à qual o preço docapital varia e da taxa de depreciação. Um exemplo numérico pode facilitar a compreensão do queestamos dizendo. Vamos imaginar uma empresa que aluga carrospara empresas e que o preço de compra de cada carro sejaR$20.000,00. A taxa de juros (r) é de 10% ao ano, ou seja,R$2.000,00 para cada carro. Supondo que o preço do carro suba5% ao ano, a empresa tem um ganho de R$1.000,00 por ano e,supondo, ainda, que o carro sofra uma depreciação de 15% aoano, então δPk é de R$3.000,00. Temos, assim: Ck = 2000 + 1000 + 3000 = 6000 Agora, supondo que o preço do capital suba na mesmaproporção da taxa de inflação (π), e que a taxa de juros real (r*)seja dada pela taxa nominal de juros (r) menos a taxa de inflação(π), podemos definir o custo do capital como: Ck = Pk(r* – δ) (3) A equação (3) diz que o custo do capital depende do preço docapital, da taxa de juros real e da taxa de depreciação.
  • 6. 6 Por fim, queremos expressar o custo de capital relativamentea outros bens da economia, encontrando, assim, o custo real docapital (CRk) que será dado por: CRk = (Pk/P)(r* + δ) (4) A equação (4) diz, simplesmente, que o custo real do capitaldepende do preço relativo de um bem de capital (Pk/P), da taxa dejuros real (r*) e da taxa de depreciação (δ).4. Os determinantes do investimento Vamos analisar, agora, a situação em que uma empresa delocação decida aumentar ou diminuir seu capital instalado. Note-seque cada unidade de capital gera uma receita real para a empresaigual a R/P e acarreta um custo real igual a (Pk/P)(r* + δ). Assim,o lucro real por unidade de capital será dado por: Lucro = Receita – Custo (5) Lucro = R/P - (Pk/P)(r* + δ) (6) Como, em equilíbrio, o preço real do aluguel é igual aoproduto marginal do capital (PMgK), podemos escrever o lucrocomo: Lucro = PMgK – (Pk/P)(r* + δ) (7) Ou seja, a empresa de locação só terá lucro se o PMgK formaior que o custo de capital (Pk/P)(r* + δ), e terá prejuízo se oPMgK for menor que o custo de capital. A partir daí podemos deduzir os determinantes da decisão daempresa de investir ou não, ou seja, de aumentar seu estoque decapital ou se deixa que o capital instalado se deprecie. Pelo que foivisto, esta decisão depende de se determinar se é lucrativo possuirou alugar capital. Em outras palavras, a variação do capital instalado –chamado de investimento líquido – depende da diferença entreproduto marginal do capital e o custo do capital, podendo-seafirmar o seguinte:
  • 7. 7 i) se o PMgK > (Pk/P)(r* + δ), as empresas consideram vantajoso, isto é, lucrativo, aumentar o estoque de capital instalado; ii) se o PMgK < (Pk/P)(r* + δ), as empresas preferirão deixar o capital instalado diminuir.5. A demanda por investimento em geral A separação que fizemos entre empresas de produção eempresas de locação de capital, embora torne mais fácil a análisedo investimento, não é essencial nem necessária para se deduzir amaneira como as empresas decidem quanto investir. Assim, porexemplo, vamos imaginar o caso de uma empresa que possui eutiliza o capital (que é o caso mais comum). Para esta empresa, obenefício de uma unidade extra de capital é o seu produtomarginal, e o custo é o custo de capital. A exemplo do que acontece com uma empresa que possui ealuga capital, essa empresa só aumentará seu estoque de capitalse o produto marginal do capital superar o custo do capital. Ouseja: ∆K = i[(PMgk - (Pk/P)(r* + δ)] (8) onde i seria o coeficiente que mostra o quanto oinvestimento reage ao incentivo de investir. Em outras palavras, ocoeficiente i corresponderia à elasticidade do investimento aoincentivo de investir, sendo este último dado pela expressão: I = i[(PMgk -(Pk/P)(r*+δ) + δK (9) De outra parte, o gasto total em investimento em capital fixoprivado, isto é, o investimento bruto, é dado pela soma doinvestimento líquido e a substituição do capital depreciado. E, pelaexpressão (9), este investimento bruto depende do produtomarginal do capital, do custo de capital e da depreciação docapital. Neste raciocínio, chegamos à conclusão de que oinvestimento privado depende essencialmente da taxa de jurosreal (r*). Caso r* se reduza, o custo do capital também se reduz,
  • 8. 8aumentando, portanto, o lucro do capital e, daí, estimulando novosinvestimentos. O contrário ocorrerá caso a r* se eleve. Esta relação negativa entre o volume de novos investimentose o valor de r* está mostrada na Figura 2. Já a Figura 3 mostraum deslocamento da curva de investimento para direita provocadopor, digamos, uma melhoria tecnológica que aumente o produtomarginal do capital, elevando, em conseqüência, a lucratividade doinvestimento. Este aumento na lucratividade do investimentoaumenta a quantidade de unidades de capital que a empresagostaria de adquirir para qualquer nível de r*. r* r* Investimento, I Investimento, I Figura 2 Figura 3 A Figura 2 mostra que o investimento em capital fixo privadoaumenta quando a taxa de juros cai. Isso acontece porque umataxa de juros mais baixa reduz o custo do capital e faz com quepossuir capital seja mais lucrativo. Já a Figura 3 mostra umdeslocamento para fora da função investimento, o que pode sedecorrente de um aumento do produto marginal do capital. Agora, vejamos o que pode ocorrer ao longo do tempo: Se oproduto marginal está acima do custo de capital, haverá novosinvestimentos, reduzindo o produto marginal do capital; se oproduto marginal estiver abaixo do custo de capital, o estoque decapital cairá, aumentando, em conseqüência, o produto marginaldo capital.
  • 9. 9 Neste raciocínio, podemos concluir que o nível ótimo deinvestimento será aquele em que o produto marginal do capital seiguala com o custo do capital, quando a empresa atinge, então, oestado estacionário que ocorre quando: PMgK = (Pk/P)(r* + δ) (10) Em conclusão, no longo prazo, o produto marginal do capitalé igual ao custo real do capital. A velocidade de ajuste do estoquede capital ao estado estacionário depende da rapidez com que asempresas ajustam seu capital instalado – o que, por seu turno,depende do custo de fabricar, entregar e instalar capital novo. * * * Com essas considerações, encerramos esta 2ª Parte do tópico“Economia Intertemporal”. Com já prevenimos nossos alunos, trata-se de umassunto um tanto abstrato para a maioria dos estudantes de Economia. Mas,infelizmente, este tópico está no programa... e o jeito é estudá-lo, gostemosdele ou não! Nossa próxima Aula – a de n° 5 – continuaremos nesta mesma linha deestudo, analisando a restrição intertemporal do governo. Até lá!______________________ Bibliografia consultada: Este texto foi elaborado tomando por base, fundamentalmente, ocapítulo 17 de Mankiw, N. G., Macroeconomia, LTC Editora, R.Janeiro,5ª Edição, 2004. Complementarmente, foram também consultados o Manual deMacroeconomia, da equipe de Professores da FEA-USP, Editora Atlas,S.Paulo, 1998, 1ª Edição, e Macroeconomia, de Olivier Blanchard,S.Paulo, Prentice Hall, 3ª Edição, 2004. _____________________
  • 10. 10