A Nova Maravilha - s01_e01

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Primeiro capítulo do livro sendo escrito pelo celular durante uma viagem pelo Mundo.

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  • 1. A NOVA MARAVILHAFernando Palacios
  • 2. CAPÍTULO 1O ANÚNCIO QUE MUDOU O MUNDO 03/10/2011, Hora local 11:23 Amazonas / sobrevoando uma área fora-de-mapa ainda que especial da FlorestaACORDOU, não do sono, mas de volta para a realidade. Foi osilêncio súbito que o resgatou da imersão nos própriospensamentos. Agora seus olhos pareciam uma bola de pinballque ricocheteavam para reconhecer os arredores. As janelascontinuavam a exibir um repetitivo oceano verde de copas deárvores. Desenroscou a cabeça para o lado e deu de cara com oolhar fixo do parceiro de conversa. Ele aguardava algo.Provavelmente uma resposta para uma pergunta que ele sequerouviu. Teve que se esforçar para conter a expressão de susto.Não queria levantar a bandeira de desatento. Sua menteacelerou na missão de resgate das últimas palavras que teriamsido registradas. Brotaram gotas frias em todo o horizonte datesta. A boca abriu muda. A memória encontrou apenasfragmentos inúteis. As cordas vocais resolveram se manifestarantes que o suor rolasse bochecha abaixo. Arranhou a gargantatrês vezes. A voz tentou soar convincente sim, você temrazão. Você tem toda razão, meu velho amigo. É tudo muitocurioso. Essa história toda de um convite de surpresa. Voarnesse troço. O dia promete mesmo ser interessante.O velho amigo não escondeu a frustração com cada palavra.Retrucou em tom de bronca -Ô, Dodô, voc- mas foi interrompidopelos alto-falantes. O Capitão anunciou que a tripulaçãoiniciaria os preparativos para o pouso.O breu vazou através das janelas e inundou o ambiente. Dodôera um homem do Sol, da luz do dia. Nunca foi fã da noite.Para piorar, bastou sair da aeronave para que todas as luzesse apagassem. Era como se vendasse os olhos com as duas mãos.Dessa vez, a voz do capitão dispensou amplificadores:
  • 3. "Em nome de Cezar Goldman peço desculpas pelos inconvenientesda viagem. Continuarei guiando os senhores durante o processode descompressão."A escuridão reinou absoluta até cintilarem pequenos pontos deluz. Mesmo quando criança, Dodô nunca foi de sonhar em serastronauta e não gostou de se sentir perdido no espaço. Ospontos estelares começaram a valsar ao som de um zumbidoindustrial. Dodô relembrou sua fábrica deixada sem supervisãoem Fortaleza. A voz do Capitão ecoou para longe "porgentileza, queiram me seguir."Os pequenos pontos cintilantes se aproximaram até delinearemuma caixa tridimensional. O capitão indicou que adentrassem.O velho amigo disse "vai você primeiro, Dodô, você é onovato". Assim que todos entraram o chão começou a se mover.Dodô teve a sensação de ser uma bagagem numa esteira deaeroporto. O Capitão aproveitou o trajeto para narrar algunscausos da Floresta Amazônica. Não que isso fosse suficientepara amenizar a ansiedade do Dodô. Foram três histórias atéque a esteira estacionasse. Diante deles um clarão. Dodôsentiu vontade de empurrar o Capitão e correr direto para aluz no fim do escuro.- Senhores, já não precisam mais de mim. Até a volta. - foramas últimas palavras do Capitão, antes de recuar sozinho nacaixa fosforescente.Dodô apressou o passo. Entrou num recinto amadeirado que nãoera tão retangular quanto um corredor, nem tão arredondadoquanto um túnel. Ficou com a impressão de estar no interioroco de uma sequoia caída. Um grande tronco esculpido, polido,envernizado e lustrado. A única coisa que destoava da madeiraera uma série de lâminas de vidro dispostas lado a lado. Dodôfoi inspecionar mais de perto. Quando ficou diante de um dosvidros, surgiu o rosto de uma moça. Parecia um quadrodigital, até o momento em que ela abriu um sorriso. Dodôolhou para os vidros ao lado e entendeu que eramrecepcionistas virtuais, com feições e nomes peculiares:Marianne, Marla, Melina, Mhilena... Quando olhou de novopara a que estava sorrindo diante de si, ela começou a falar:- Seja muito bem-vindo, Senhor Domingos, nosso check-in serárápido. Para sua comodidade peço que deixe comigo algunsitens pessoais. Vejo que não trouxe malas ou pastas. Porgentileza coloque a carteira dentro da caixa. Os dispositivos
  • 4. eletrônicos devem ser acoplados à dockstation para que sejammantidos carregados.Dodô não se sentia nada bem com a ideia de se separar de suacarteira e, preferia estar sempre com seu celular, ainda quesem sinal. Olhou em volta. Relembrou que estava rodeado demultibilionários. Todos pareciam muito confortáveis, de certaforma até aliviados em deixar seus pertences em poder dasmoças dos vidros. Ele que já era visto como o novato, nãoqueria ser também o chatão da turma. A sorridente Marlaencerrou o check-in "muito obrigada, Senhor Domingos, desejoque seu tempo por aqui seja produtivo e memorável."Dodô voltou a observar os demais. Alguns foram até a paredede madeira que de tão lustrada parecia molhada, no melhorestilo da tampa dos pianos mais caros. Para espanto de Dodô,eles revelaram armários até então imperceptíveis e ládeixaram suas pastas e maletas. Por um breve momento Dodô sesentiu no vestiário do seu yatch club. Botou reparo ao redore notou que extremidade por onde entraram permanecia escuraenquanto que a oposta radiava uma luz esverdeada. Foijustamente nesse momento que uma silhueta se formou contra aluminosidade. Dodô ficou parado enquanto a mancha negracresceu em sua direção. Enfim alguém do grupo identificou oforasteiro. "Luzio!"Luzio vestia branco em tudo, camisa, terno e sobretudo.Caminhou confiante entre o grupo e retribui os olharesatentos com um sorriso seguido por uma respeitosa saudação."Cavalheiros... Madame."Dodô levou um susto. Não tinha reparado nesse detalhe.Aproveitou para inspecionar os rostos enquanto todos semantinham vidrados em Luzio, que prosseguiu em sua saudação"nem que eu fosse o mais hábil dos poetas gregos seria capazde expressar a satisfação que sinto ao encontrar todos vocêsaqui reunidos. O Cezar Goldman compartilha dessa satisfação edeve se juntar à reunião em dezessete minutos."Uma surpresa confirmou o susto. No meio dos paletós encontrouum rosto delicado. A madame vestia um terninho preto e estavacom cabelos presos. Dodô entrou num modo deautorrecriminação. Tamanha beleza não devia ter passadodespercebida. Decidiu compensar dedicando um olhar maisdemorado. Luzio alternou o tom de voz e puxou a atenção deDodô para finalizar o discurso. "Sou o responsável emgarantir que todos se sintam como se estivessem em casa.
  • 5. Podem aposentar os sapatos ao lado e sejam muito bem-vindosao Manauéden!"Dodô viu que Luzio olhava diretamente para ele e apontavapara uma estante. Já estava achando tudo muito estranho. Masjulgou isso de ter que tirar os sapatos como demais daconta. Começaram os pensamentos de que não deveria terdeixado sua empresa num dia tão importante. Devia ter ficadoe assinado os papéis. Amaldiçoou a hora que se deixou seduzirpor histórias fantásticas de um homem misterioso e um passeiode zepelim. Justo ele, o coronel da objetividade e daprodutividade. Que jeito mais fora de linha para começar umasemana. Ainda assim acabou se rendendo ao espírito do bom-convidado. Se bem que a verdade é que a proposta não era tãoruim assim. Sempre desfrutou de um certo prazer aodesaprisionar os pés.O chão também era de madeira. Uma espécie de deck que seguiaaté a saída do recinto. Antes de colocar o primeiro pé parafora, Dodô sucumbiu a uma estranha sensação. Teve a impressãode estar prestes a andar descalço em plena Floresta. Comentoupra si mesmo em voz baixa "Onde já se viu uma coisa dessas?"Só então percebeu que apesar das árvores e da grama e de todaaquela natureza aparente, eles ainda estavam do lado dedentro. Paredes compostas de lâminas de vidros verdes cobriama área externa. Esquadrinhou as paredes translúcidas e viuque formavam grandes degraus. Jogou a cabeça para trás eficou intrigado. Ao deslizar o olhar para o teto entendeu queestava no interior de uma pirâmide. Ainda assim era possívelver a densa mata do lado de fora. Concluiu que estava dentrode um Chitchen-Itza de paredes de esmeralda.-É uma variedade de cristal - disse Luzio - capaz de nosmanter protegidos... não se preocupe com os pés, a grama écuidadosamente cultivada.A maré de sentimentos revoltosos começou a virar. Dodô foitomado por uma felicidade súbita no momento em que seus pésacariciaram a grama curta e aveludada. Parecia estar pisandoum tapete de pelúcia. E esse pensamento o transportou devolta às manhãs em que brincava com a sua irmã e a girafinhaverde chamada Magula.Só mesmo um apertão no braço seria capaz de trazer Dodô devolta dessa viagem no tempo. "Dodô, Dodô... é a quinta vezque te vejo mergulhado em pensamentos. O que há com você,
  • 6. velho colega? Quatro décadas e continua um sonhador? Venhacá, deixa te apresentar alguns dos pares."Dodô sempre detestou essa coisa de chegar a encontros sociaise ter de sair cumprimentando as pessoas. Ainda mais quando setratava de uma maioria de estranhos. Não era aberto a fazernovos amigos e quando forçado a falar com desconhecidospreferia manter o contato no nível profissional. Até porisso, numa ocasião normal, iria insistir para que ficassemali, relembrando o passado e evitando o presente. Mas haviaalguma coisa naquele lugar, aquele ar, que estava distorcendoseu modelo tradicional. Mais do que disposição para serabordado, sentia vontade de ir até os outros e iniciarconversas. Era como se previsse um futuro em que todos ali jáfossem grandes amigos. Queria saber quem eram e como tinhamchegado até ali. Em especial aquela dama. Ficou se indagandocomo uma patroa de tamanha beleza não vestia uma aliança.Ensaiou galanteios imaginários... voltou a ser adolescente.Ficou inspirado, literalmente. Ouviu o ar preencher ospulmões. Decidiu não perguntar dela para seu velho amigo.Queria saber tudo sobre ela. Mas queria saber da boca dela -ah, aqueles lábios - não queria estragar a naturalidade daconversa. Iria beber direto da fonte. Iria ter com ela.Na imaginação já estava tudo premeditado. Só que hesitou nahora de dar o primeiro passo em direção ao real. Fazia anosque não abordava uma mulher... pelo menos não dessa forma,tão de igual para igual. Mais uma vez, foi interrompido.Olhou para o lado e deu de cara com um velhote. Seu rostolembrava uma uva passa desbotada. O esquisito apoiou o poucopeso do corpo em cima uma bengala negra e falou "eu acho quefaz falta um carrinho de golfe aqui. Na verdade, o golfe fazfalta". Como ninguém riu da piada o estranho emendou "euqueria vir pessoalmente dar as minhas boas vindas ao novato."O velho amigo tratou logo de fazer as introduções "Carmona,esse aqui é o Domingos. Dodô, Carmona". Dodô desconfiado selimitou ao aperto de mãos. Antes que o silêncio se juntasseao grupo, o amigo puxou conversa "por que será que o CezarGoldman chamou a gente aqui, hoje, assim tão de repente?". Oestranho Carmona engatou na conversa:-Só pode ser para se gabar daquele negócio que ele acabou defechar na China. Sim, eu aposto.
  • 7. -Não, não pode ser. Ele não iria quebrar o protocolo por umacoisa dessas. Fora que gabação não faz o estilo do Goldman.Dodô entrou na conversa - mas afinal que tipo de sujeito éesse Cezar Goldman? E que lugar é esse?Carmona respondeu - Esse Cezar, meu caro novato, é umrapazote que comprou a boa vontade de todos aqui pelabagatela de visitarem esse resort.- Não é bem assim - protestou o amigo - esse lugar favoreceos negócios. Sempre me sinto tão bem aqui. Esse equilíbrioperfeito entre civilização e natureza. Esse cheiro de matasem nenhum mosquitinho pra atrapalhar a conversa... Vai? Esselugar foi uma grande contribuição do Cezar Goldman.-Ora, por favor. Ele mal tinha entrado na associação e jásaiu sugerindo um novo local para o encontro. Em seguida oquê? Quando percebemos, ele já estava se intitulando deímpar. Ímpar! Quanta arrogância e prepotência dessesujeito.-Não seja assim, Carmona. Todos aqui têm saído comincrementos substanciais a cada encontro. Também não gostomuito dessa coisa de ímpar, mas é fato que ele está fazendomuito mais do que qualquer antes dele.-Nah. O Cezar nunca me enganou. Nunca! - Carmona apontava abengala para o alto para enfatizar sua revolta.Dodô já não ouvia mais nada da conversa. Sua atenção járetornara para aquela dama. Deusa. Absoluta. Como seria onome dela? De certo, deveria ter um nome aristocrático. Nadade Sheila ou Josefa. Só podia ser um nome distinto. Estava nahora de descobrir. Só não sabia se pedia licença ou sesimplesmente deixava os dois falando. Nem um, nem outro.Foram todos interrompidos por um tilintar de taças. Dodônotou uma certa movimentação.Girou a cabeça por cima do ombro para olhar para trás e tevea impressão de ver uma série de mulheres nuas. Cerrou osolhos e viu que estavam vestidas a caráter. O tom dosuniformes é que se confundia com a pele. Só então notou quecada uma delas equilibrava uma espécie de bandeja. Quandovoltou a cabeça para frente estava sozinho.
  • 8. Seus pares haviam se deslocado para a névoa baixa que pairavasobre o leito do rio, que começava numa cachoeira à borda dapirâmide e repartia o ambiente até sair por debaixo daesquina oposta. Dodô se juntou aos seus pares que aguardam namargem.A brigada de garçonetes e garçons chegou até eles numa filaindiana. A primeira tinha a beleza clássica dos quadros deBotticelli. Parou diante do velho amigo de Dodô e ofereceu abandeja que, de perto, dava para ver que era uma planta.O velho amigo arregalou os olhos, levantou as duas mãos naaltura do rosto e ficou ondulando os dedos, como se jogasseum feitiço sobre a planta, que a bela garçonete retirougentilmente para descortinar uma garrafa deitada junto a umcopo de conhaque com água e gelo até a boca. A planta foidevolvida ao leito do rio em seu estado natural, era umavitória régia que até então estava de ponta cabeça. A garrafafoi erguida deixando evidente seu contorno circular. Erafeita de cristal negro. Não havia rótulo, apenas letras emrelevo "Blue Moon Rare Whisky".O amigo alcançou o copo suado. Deu um farto gole na água,pescou um gelo entre dois dedos e despejou o resto no rio. Ocopo voltou para a bandeja. A garçonete empunhou a garrafa equebrou o lacre de cera que prendia a rolha. Ao depositar olíquido viscoso e dourado no copo, disse:-esse blended malt scotch foi produzido no interior daEscócia de acordo com a tradição iniciada em 1913 por umgrupo de rebeldes. Motivados pela Lei Seca instituída emalgumas regiões do País, eles se encontravam once in a blueMoon, nas raras ocasiões em que a Lua é vista no céu como umespectro azul. Cada um levava seu melhor malte e durante todaa noite eles trabalhavam no equilíbrio da combinação. Oesconderijo nunca foi encontrado e a bebida não écomercializada. Apenas os descendentes diretos têm acesso àbebida. Depois de quase um Século de rebeldia, o Senhor seráo primeiro fora das famílias a provar. Seja bem-vindo a essadinastia!O amigo posicionou o punho cerrado acima da boca do copo. Ogelo começou a derreter. Pingou apenas uma gota de água, coma cautela de um chef de cozinha que dá seu toque final noprato a ser provado pelo crítico gastronômico. A bebidadançou dentro do copo. Finalmente o amigo degustou oaguardado gole e ficou inerte, como se nada mais importasse.
  • 9. A próxima garçonete da fila se manifestou. Dona de uma belezaexótica, ela ficou diante do mais jovem entre todos ali.Mesmo com toda seriedade do traje formal, ele aparentava nãoter comemorado mais do que vinte aniversários. Sua pelereluzia um bronzeado sedimentado, uma declaração de que elepassava muito menos tempo encavernado que os demais. Asuposição era fortificada pelo porte atlético.A exótica garçonete destampou a bandeja para exibir umaparelho celular, deu uma piscadela e comentou "é o iPhone 4Sde platina, ainda indisponível no mercado. E já estáconfigurado com alguns números bastante interessantes." Ojovem pegou admirado e começou a brincar com o gadget.Foi a vez de um garçom, homem, e com pinta de descolado. Dotipo que nas horas vagas deve trabalhar como barman em algumapraia particular do norte da Espanha, fazendo malabarismoscom garrafas. Ele chegou perto do velhote e jogou a planta naágua como se fosse um frisbee.Dodô espiou uma caixa metade mostarda, metade enxadrezada coma silhueta de um rosto. Logo abaixo da icônica menina dorabo-de-cavalo, as 6 letras mágicas: C O H I B A. O abrir dacaixa revelou um charuto do comprimento de um talão decheques e da espessura de um dedinho. O garçom fitou os olhosde Carmona, pegou uma guilhotina e passou calmamente pelaponta arredondada. Antes de decepar, o garçom discursou:- Hoje é o aniversário de 40 anos deste lancero, recebido dasmãos do próprio Fidel. Acabou de sair do seu quinto e últimohumidor para comemorar com você, Carmona. Flame on!Carmona enfiou a mão dentro do paletó e sacou um maço denotas de 100 euros, enrolou e ateou fogo na ponta. Trocou oisqueiro pelo charuto e rodou a ponta cortada sobre o fogo.Deixou escapar um riso de puro prazer."Uhuhu!"Descartou as notas queimadas no rio e deu a primeirabaforada. Bochechou a fumaça como se escovasse os dentes efinalmente cuspiu uma série de anéis.- Ahhh... as notas queimadas complementam a última nota. -esnobou contemplando o vazio.Uma garçonete chegou atrasada com uma xícara de Nespressofora de catálogo. O próximo garçom entregou um perfume feito
  • 10. a partir da Edelweiß, a flor dos alpes. Depois, um documentoconfidencial. Uma peça de arte. Um baralho egípcio. E assim,um após o outro, os pares foram presenteados. Cada um com umritual mais esquisito que outro: cheiravam, inspecionavam,alisavam, provavam... terminando sempre em regozijo.Enfim chegou um garçom para a dama. Debaixo da vitória-régiahavia uma joia. Uma espécie de tiara de brilhantes. Antes queo garçom pudesse se pronunciar, a madame se antecipou:-não precisa dizer, querido, eu sei. Ai, esse Cezar me paga!Já falei pra ele que não precisa me mimar. Mas eu amei, amei.Muito obrigada, viu?De todos os presentes inusitados, aquele era o único que Dodôconhecia de fato. Uma joia da coroa italiana. A primeira donada tiara foi a Rainha Elena de Montenegro. A crise na Itáliaobrigou que as peças fossem vendidas. Um leilão público deviaacontecer no fim do ano. Mas já havia acontecido umparticular com as peças mais valiosas e, de certa forma, maisembaraçosas para a monarquia. Dodô sabia disso porque estevenesse leilão. Seu interesse era por outro item, mas a joiafoi marcante. Primeiro porque não estava anunciadapreviamente. Segundo porque não é sempre que um governodecide se desfazer de sua coroa. E terceiro porque havia sidoarrematada por um valor desproporcional por um compradoranônimo. Pronto! O Universo conspirou a seu favor. Agora Dodôtinha um ótimo começo de conversa. E que essa conversaacontecesse logo. Ela ficou ainda mais deslumbrante com atiara...Mas antes que ele desse um passo, veio a última garçonete emsua direção. Era linda, mas ele conteve seus impulsos. Sabiaque a dama e sua tiara estariam de olho. Preferiu se fixar naexuberante vitória-régia que ocultava seu presente. Ficounervoso. Nem ele sabia ao certo qual seria seu maior desejo.Como haveria o Cezar de saber? Dodô já tinha tudo, tanto quenenhum dos outros presentes havia despertado inveja oucobiça. Dispensava as frugalidades da vida. Seu desejo - sehavia algum - devia estar em sonhos distantes deste mundo.A respiração estancou por um instante. Seus olhos refletidosna flor iluminavam o que estava por acontecer. Desviou avisão em busca de um olhar fugido, mas cúmplice. E se eleficasse frustrado com o presente? Deveria fingir a mesmaestupefação dos outros? Não seria mais autêntico mostrar queele não é tão superficial ou previsível assim?
  • 11. A garçonete subtraiu a planta e eliminou o dilema. Sobre abandeja apenas uma colher e uma pequena lata recheada commassa. Não podia ser verdade.A garçonete agarrou a lata com uma das mãos e num movimentosubido colidiu contra a bandeja. Ao sumir com a lata, sobre abandeja restou um pequeno bolo. "Domingos, o bolo estádesenformado, mas eu estou desinformada. O Cezar disse apenasque você saberia. Bom mergulho."Suor de ansiedade. Seus dedos se apoderaram do garfo de pratacomo tentáculos de um polvo. Ao cavar a iguaria sua mãotremia. Arregalou a boca, fechou os olhos e embarcou naviagem mais longa de sua vida. Em tempo e distância. Estavade volta ao útero.Havia se desprendido do espaço-tempo. Mastigou durante meses.Finalmente engoliu e despertou. Olhou em volta com novosolhos. Sentiu a vibração viva da composição de verdes.Reparou na mobília lustrosa esculpida na própria madeira dasárvores. Aquele lugar era mais aconchegante do que camaquente em noite fria.- Não lembro como vocês chamam esse lugar. Mas eu vou chamarde ventre. Sempre que vier cá vou sentir um prazer enorme emvirar pras pessoas e dizer, olha gente, um abraço, mas tenhoque voltar pro ventre. - disse Dodô num tom estranho, comose estivesse compartilhando algo que talvez não devesse.Ameaçou rir e então chorou. Chorou copiosamente. Levou asduas mãos ao rosto e caiu de joelhos. Lágrimas e soluços.Olhares atônitos. Nem tanto pela reação, mas principalmentepelo motivo. O que um bolinho poderia conter de tão especial?Dodô sentiu os olhares grudados em si e tentou despistar: -olha aqui, minha gente, isso aqui não é bolinho, não! - maslogo viu que teria que ser realmente estúpido para dissipar acuriosidade. Achou melhor se render e explicar:- Pensem no bolo favorito de vocês. É sério. Se querem saciara curiosidade, precisam me acompanhar. É pra pensar mesmo.Lembrem do bolo favorito... Qual é o sabor? Chocolate? Coco?Merengue? - Dodô olhou em volta com ares de inquisidor. Jáque queriam tanto saber, então que colaborassem. Prosseguiu:
  • 12. - E quem que faz a melhor versão desse sabor? É algumadoceria? Algum parente? - Fez uma pausa para que pensassem.Continuou:- Agora fechem os olhos e imaginem esse sabor. Como seestivessem acabado de dar uma mordida. Agora mesmo, nessemomento. Qual é a sensação? - Dodô se certificou que todosestavam prestando atenção e então sentenciou:- Pois esse bolo aqui precisa ficar um ano curtindo dentro dalata. Era uma receita que minha avó fazia e que tinha seperdido. A última vez que comi foi pouco depois que elafaleceu. Eu já era órfão de pai e mãe e vivia com umagovernanta terrível que estava destruindo o patrimônio dafamília. Esse último bolo minha avó preparou justamente parameu aniversário de dezoito anos. Esse bolo não é de chocolateou baunilha. Esse bolo tem sabor de liberdade, com recheio dereconquista e cobertura de afeto.Todos ficaram parados e pensativos, com a exceção da dama,que aterrissou a mão compadecida sobre o ombro de Dodô. Masantes que pudesse esboçar qualquer reação uma voz trovejantepreencheu o ambiente:- CAMINHEM COMIGO!Pela primeira vez, viu Cezar Goldman. Ele passou de relance etodos foram depressa atrás dele. Ele caminhava em ritmorápido enquanto discursava:- Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a resposta detodos a um convite tão emergencial. Estou certo que paraestarem aqui agora, tumultos fizeram parte da manhã de todos.- alguns acenaram com a cabeça.Mesmo quando tinha que se esquivar de um galho de árvore,Cezar Goldman mantinha a fala num ritmo cadenciado:- Reitero que a presença individual hoje é fundamental e serárecompensada. – exceto por Carmona, todos pareciam alegres.- Dois anos atrás, iniciei a concepção de um empreendimento.Mas só agora tomei a decisão de levar esse desígnio adiante.Seu timbre de voz carregava um traço de profunda seriedade,talvez até preocupação:
  • 13. - Sei que essa decisão vai afetar direta ou indiretamentetodos os brasileiros. Assim, gostaria que os senhores aquipresentes fossem os primeiros e, por enquanto, os únicos asaber.Depois de uma pausa para o consentimento, continuou: - Estouem processo de liquidar em absoluto todo o meu patrimônio. Épossível, inclusive, que este seja nosso último encontronesse local.O nível de atenção era tanta que algumas pessoas ali malrespiravam. Um dos pares chegou a tropeçar numa raiz.- Pretendo concentrar todos os meus recursos, sejamfinanceiros, humanos, sociais e de tempo, para investir em umúnico projeto...Cezar Goldman fez uma pausa dramática, como quem procura otermo mais preciso para se expressar. Até que disparou.- Vou construir a Nova Maravilha da Humanidade.A informação estarreceu! Pequenos comentários começaram aformar um zunido. Todos diziam algo na linha de "como assim?"Cezar se calou e o zunido logo cessou. Deu continuidade aoseu anúncio:- Confesso que não sei que Maravilha é essa. Por isso chameios senhores aqui. Para pedir que me tragam ideias. Nãomedirei esforços e cuidarei pessoalmente para assegurar que omelhor projeto seja realizado.Cezar Goldman desacelerou o passo para frisar a próximainformação:- Minha única exigência é que esta Maravilha seja entregueaté meu aniversário de 60 anos, em 21 de Dezembro do próximoano.Continuaram a caminhada em silêncio enquanto Cezar ponderavaum pensamento importante. Finalmente disse que era tudo o quetinha a dizer sobre o assunto. Como sempre, todos estavamconvidados a permanecer hospedados no Manauéden. Mas que ozepelim estava a postos para levar aqueles que tivessem quevoltar aos seus assuntos.
  • 14. Começou a movimentação. Alguns já se prepararam para ir. Dodôficou de olho na dama... O que ela fizesse, ele faria também.E para sua alegria, ela não pareceu disposta a deixar aqueleparaíso tão cedo. Pensou que as conquistas são feitas assim,nas pequenas manobras. E que as vitórias são resultado dospequenos golpes, nem que sejam de sorte.Cezar Goldman seguiu sua caminhada até a rocha esfumaçada poronde havia chegado. Por fim reverenciou a todos e, antes dedeixar o ambiente, encerrou o momento com seu bordão quemnão muda o Mundo, o Mundo molda.-----------------------------------------------------------Para acompanhar a continuação dessa história, bem como os bastidores dasua escrita, basta curtir a página: www.facebook.com/proximamaravilhaDisclaimer: os direitos autorais dessa história, bem como de seuspersonagens, estão registrados, ficando proibida sua reprodução ouadaptação seja parcial ou integralmente sem o consentimento escrito doautor.Dúvidas sobre publicação e licenciamento podem ser esclarecidas pelo e-mail palacios@storytellers.com.brEste arquivo foi inteiramente redigido como uma grande mensagem de textodiretamente em um aparelho celular E71 durante uma viagem a Buenos Aires.