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Apostilla UFF História da Medicina - Parte 1
 

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    Apostilla UFF História da Medicina - Parte 1 Apostilla UFF História da Medicina - Parte 1 Document Transcript

    • 1Do Primitivismo ao NaturalismoA idéia de deuses - ou de Deus - deve ter surgido cedo na consciência do homem, como a deseres dotados de poderes sobrenaturais. Salvos os casos de causas manifestas (uma hemorragia emconseqüência de um ferimento, da mordida de uma fera, uma fratura causada por acidente ou pelaagressão de um inimigo), atribuía-se a doença e a saúde à intervenção de seres sobrenaturais: deuses,semideuses, espíritos, demônios, etc. Os meios de ação desta medicina religiosa não podiam seroutros senão as preces e os sacrifícios em honra da divindade, para conseguir-lhe bênçãos e aplacar-lhes a cólera. Os próprios enfermos, ou indivíduos de uma classe especial, os sacerdotes, invocavam adivindade.I - A Concepção Religiosa de Saúde e DoençaNa Antiga Grécia, dominava o conceitoreligioso de enfermidade. Isto não causaestranheza, uma vez que, entre os gregosantigos, tudo resultava da vontade divina. Osdeuses participavam da vida diária,partilhavam com os homens o amor e a lutapelo poder, e estavam presentes na guerra.Ainda que todos os deuses pudessem causardoenças e curá-las, Apolo e sua irmã,Artemísia (ou Diana, na mitologia romana),distinguiam-se. Capazes de gerar padecimentosagudos e morte violenta com suas flechas; mastambém dispunham de dardos mais suaves, queproduziam a morte por senilidade. Umexemplo clássico de enfermidade sob forma decastigo divino encontra-se no Canto I da“Ilíada” de Homero (século X a.C.). Este longopoema narra a última e breve etapa do cerco deTróia, cidade da Ásia Menor, imposto pelaaliança de vários estados gregos, sob ocomando de Agamenon, rei de Micenas.Homero conta que Agamenon haviaraptado Criseida, uma bela donzela de Tebas,cujo pai, Crises, era sacerdote do deus Apolo.Quando Agamenon recusou o resgate de Crisespor sua filha, o sacerdote se dirigiu a Apolo:!"#Ao escutar esta oração, Apolo irritou-se:$%& $#!% () & !) "#
    • 2Os gregos, dominados pelo medo,decidiram consultar Calcante, intérprete desonhos, o melhor dos adivinhos. Este disse aAquiles:* +,+ #-. $% # */ 0 $%$ 1& 2# 3 +!1& 2#%4% %+5 %5 #!0 5 +36 5 55 7 "#Isto provoca a fúria de Agamenon, queluta com Aquiles. Finalmente, Criseida édevolvida ao pai e se realizam sacrifíciosrecomendados por Calcante, com o que Apolose satisfaz e interrompe a praga.Este episódio ilustra a concepçãoreligiosa da doença. O fato principal é que umdeus, com um poder muito superior ao doshomens, pode mudar o curso dosacontecimentos, segundo sua vontade. Nestecaso particular, Apolo desencadeia umaepidemia (epi + demos = as flechas de Apolocaem sobre o povo), como castigo pelocomportamento dos gregos e, depois, asuspende. Nesta concepção, é importanterealçar que as ações do deus são influenciadaspelo comportamento dos homens.O conceito religioso de doença tambémse encontra, em sua forma pura, no AntigoTestamento, onde a enfermidade é expressãoda ira de Deus, e se cura por meio de dolorososcastigos morais, rezas e sacrifícios. É Deusquem confere tanto a saúde quanto a doença,de acordo com sua misteriosa vontade.Muitos séculos depois, já na IdadeMédia, cada vez que a peste bubônica e outrasdoenças infecciosas epidêmicas apareciam naEuropa, as pessoas se aglomeravam nascatedrais a pedir a Deus que perdoasse seuspecados e não lhes castigasse de maneira tãocruel. Este comportamento favorecia ocontágio da doença e, em conseqüência,milhares de pessoas adoeciam e morriam.No século VII a.C., viveu Hesíodo,considerado o pioneiro da poesia didática.Escreveu os livros: “O Trabalho e os Dias” e“Teogonia” (“A Origem dos Deuses”). Nesteúltimo, Hesíodo narra a criação dos deuses e,entre outros, revela a origem de Asclépio.Na “Ilíada” já se mencionava Asclépiocomo tendo sido um médico da Tessália(região central da Grécia), de extraordináriosaber, que teria aprendido sua arte com Quíron,exímio conhecedor de ervas medicinais. Doisfilhos de Asclépio, Macaon e Podalírio,também médicos ilustres, combateram noexército grego em Tróia.Todavia, a lenda em breve se apoderoudestas figuras. Quíron foi transformado emCentauro, o ser mitológico com cabeça etronco de homem, o resto do corpo e as patasde cavalo. Diga-se, aliás, o mais nobre dos
    • 3centauros, sábio e generoso. Asclépio passou aser filho de Apolo e da ninfa Coronis.Acusada, levianamente, de infidelidade por umcorvo, encarregado por Apolo de a vigiar, aninfa foi morta pelo arrebatado deus que, noentanto, salvou o filho.A arte de Asclépio tornou-se a cada diamais admirável, e ele chegou a ressuscitarmortos. A pedido de Plutão, senhor dosinfernos, que via seu reino desfalcado pelaaudácia de um mortal, o que de resto tambémnão agradava aos outros deuses, Zeusfulminou-o com um raio. Logo, porém,arrependeu-se do gesto irrefletido, e Asclépiofoi admitido na categoria dos deuses evenerado como tal. As filhas de Asclépio -Jaso, Higéia e Panacéia - especialmente asduas últimas, também se tornaram personagensimportantes da medicina.Higéia representava a força curativa dopróprio organismo, Panacéia, as forçasexternas, como os remédios. Seja por razõesfilosóficas, ou porque os gregos conheciampoucas substâncias terapêuticas (apenas as deorigem vegetal), eles demonstravam clarapredileção por Higéia.Encontram-se nos poemas homéricosalgumas raras alusões ao uso “interno” desubstâncias com o intuito medicamentoso.Importa salientar que a medicina é apresentadana “Ilíada” como uma arte natural, sem carátermágico ou sacerdotal, exercida por pessoasconhecidas pelo seu saber. Já na “Odisséia”,posterior à “Ilíada”, aparecem referências aremédios e práticas mágicas, como abeberagem ministrada por Circe aoscompanheiros de Ulisses, que os leva aesquecer a pátria e os transforma em porcos.Só Ulisses escapou dessa sorte, pelas virtudesde uma erva de “raiz negra e flor branca comoo leite”, que lhe havia sido ensinada porHermes.Oriundo de sua terra natal (Tessália), oculto de Asclépio como divindade curadora seespalhou, pouco a pouco, a partir do século VIa.C., por toda a Grécia, onde se contaram maisde 200 templos destinados à sua devoção.Epidauro, Cós e Pérgamo foram principaiscentros de culto a Asclépio. O mais célebre,maior e mais belo de desses templos era o“Asklepeion” de Epidauro, que se diziaedificado sobre a sepultura do próprio deus.No ano 291 a.C., Asclépio (com o nomelatinizado de Esculápio) chegou a Roma,trazido de Epidauro para terminar com umagrave doença epidêmica que assolava a cidadehá três anos. O deus tomou a forma de umaenorme serpente e, assim, viajou de barco comos emissários romanos até chegar ao rio Tibre,e rapidamente acabou com a epidemia. Emtodo o mundo antigo havia mais dequatrocentos templos e santuários dedicados aEsculápio, e alguns tiveram vigor até o séculoVI d.C.A medicina exercida por Asclépio e seusseguidores era quase completamente religiosa.As curas eram, em sua imensa maioria,milagres realizados pelo deus ou por algum deseus animais favoritos, a serpente ou ocachorro. Os templos de Asclépio eramhabitualmente edificados em lugares saudáveise de grande beleza. Incluíam um santuário,uma fonte e um bosque sagrado. Haviatambém um lugar para os pacientes dormirem
    • 4o sono durante o qual haviam de ser curados.O paciente, depois de uma purificaçãopreliminar mais ou menos longa, por meio desacrifícios, abluções (cerimônia religiosa queconsiste na purificação por meio de lavagensrituais) e jejuns, era admitido no templo epassava uma ou mais noites à espera do sonhoprofético em que o próprio Asclépio viria curá-lo ou, pelo menos, dar instruções que,interpretadas pelos sacerdotes, lhe permitiriamrecuperar a saúde.A confiança no valor dos sonhos, muitoantiga, veio provavelmente do Egito.Acreditava-se que, durante o sonho, a almalibertava-se, temporariamente, do corpo epodia entrar nas regiões divinas, e receber dosdeuses avisos, conselhos ou ordens. Apagadasas luzes e convidados os pacientes ao silêncioe ao recolhimento, os sacerdotes visitavam osenfermos, davam-lhes indicações terapêuticas(que eles aceitavam como provenientesdiretamente do deus), e talvez ministrassemmedicamentos e até praticassem alguns atoscirúrgicos, como a incisão de abscessos.Conseguida a cura, ou o alívio dos males,cabia aos doentes manifestaremreconhecimento através de ofertas e dádivas.Longo tempo perdurou a peregrinaçãoaos santuários de Asclépio, até o século IV ouV da Era Cristã, o deus mais importante nomundo greco-romano. Os templos de Asclépioem Epidauro e na ilha de Cós foram tãofamosos como, em épocas anteriores, o templode Apolo em Delfos. Mesmo Hipócrates deCós será citado como sacerdote de Asclépio.Quando o cristianismo se impôs comomovimento religioso, a prometer a cura dasdoenças e a redenção da alma, Asclépio foi oúnico deus pagão a competir com Jesus.Como podemos explicar, hoje, a eficáciacurativa da medicina dos templos? Em certaparte, devia-se à influência das medidashigiênicas, do regime dietético, dahidroterapia, do repouso ou dos exercíciosfísicos, e do clima. Por outro lado, a densaatmosfera de sugestão criada no ambiente e aconfiança no poder curativo da divindadetinham considerável significado. Não sabemos,no entanto, até que ponto os conhecimentosmédicos dos sacerdotes de Asclépiocontribuíam para a aplicação de medidascurativas mais decisivas.Porém, para além do valor ou dautilidade dos conhecimentos acumulados poroutros povos, e dos quais os gregos tenhamtirado proveito, distingue o gênio grego terreconhecido claramente a necessidade de umaexplicação racional e inteligível dosfenômenos da natureza. Assim, apesar do valorque possam ter atingido os conhecimentosmédicos e a atuação dos sacerdotes, oalvorecer da medicina naturalista deve serprocurado nas escolas filosóficas da AntigaGrécia, e não no santuário de Asclépio.
    • 5II - O Nascimento da Concepção Naturalista de Saúde e DoençaOs intelectuais gregos eram bastantecéticos com relação à religião. Xenófanes (565- 473 a.C.) comentava: “Os etíopes afirmamserem os seus deuses negros e os dos tráciostêm olhos azuis e cabelos vermelhos; se osbois e os cavalos pudessem pintar e esculpir,teríamos deuses bovinos e eqüinos”. Assim, atônica da “revolução grega”, encontrada nopensamento dos filósofos pré-socráticos,possui dois eixos principais: o ceticismoreligioso e o naturalismo lógico. Isto é, aintenção de explicar a natureza (“physis”1) pormeio da razão, sem recorrer a elementoslocalizados “além da natureza” - sobrenaturais.Em particular, os milesianos (de Mileto)proporcionaram o primeiro impulso nestadireção. Principalmente o fizeram pelanatureza de suas respostas às perguntas maisbásicas da vida. No entanto, filosofia gregaparece começar com uma idéia absurda. Talesde Mileto (640 - 546 a. C.), um dos “setesábios da Grécia”, é considerado o iniciador daciência e da filosofia quando assinalou: “Todasas coisas são feitas de água”. Ora, por quevalorizar uma afirmação, para nós, claramentedesprovida de verdade? Sucede que, pelaprimeira vez na história conhecida daHumanidade, abandonava-se as explicaçõessituadas além da “physis” (metafísicas) e sebuscava nela mesma a razão dos fenômenos.De fato, foi a partir do séc. V a.C., que os1Na verdade, a “physis” grega não correspondeexatamente ao que chamamos de “natureza”. NaGrécia daqueles tempos, a “physis” era um conceitogregos começaram a acreditar na natureza.Depois de Tales, ao invés da água, outrosfilósofos atribuíram o papel de substânciafundamental ao fogo, ao ar, à terra. Para nós,importa saber que, a partir deste naturalismológico, se construirá a base naturalista damedicina.Além do pensamento milesiano, outrospontos de vista diferentes se desenvolveram,de forma mais ou menos simultânea. O demaior interesse é o fundado por Pitágoras deSamos (570 - 489 a.C.), o primeiro filósofoque se admite ter sido também médico. Anoção de harmonia, o sentido de balanço eequilíbrio, o ajuste e a complementariedadedos opostos, podem ser atribuídos adescobrimentos e idéias pitagóricas. ParaPitágoras e seus seguidores, os números são aessência de todas as coisas, nada pode serconcebido sem o número, o universo inteiro éharmonia e número. Não só os fenômenos seexprimem em números, mas os própriosnúmeros têm uma realidade material e sãoverdadeiros constituintes da matéria. O númerosurgiu como a essência de todas as coisas: aunidade (1) era a perfeição e representava aDeus; o 12 era o equivalente a todo o Universomaterial; o 4, a perfeição no fluir eterno danatureza, etc. Os pitagóricos estabeleceramuma tábua das qualidades dos números e dascoisas, opostas duas a duas: o Infinito e oFinito; o Par e o Ímpar; O Múltiplo e o Uno;etc. A concordância das qualidades contrárias,totalizante, a englobar todos os seres vivos e todas
    • 6o acordo do que discorda, são realizados pelaHarmonia. Também a vida e a saúdedependem da harmonia das diferentesqualidades dos componentes do corpo.Apesar de os pitagóricos serem gregos ede se terem desenvolvido dentro de umasociedade aberta e livre, constituíam umasociedade fechada, secreta e exclusiva, à qualsó podiam pertencer aqueles que assinavamum compromisso voluntário. Esse documentoincluía a solene promessa de não revelaremnenhum dos segredos mágicos e místicos,assim como a de renunciar a uma série depráticas que a sociedade grega consideravadireitos natos e absolutos do homem livre, taiscomo o aborto, o suicídio, o amor entre adultosde ambos os sexos, conscientes e livres. Estejuramento, com poucas modificações, éconhecido, há mais de 2000 anos, comoJuramento Hipocrático.as coisas existentes.
    • 7• As Escolas Médicas de Cós e de CnideNestas duas escolas, apesar daproximidade geográfica das ilhas de Cós eCnide, os conceitos que orientavam a medicinaeram profundamente diferentes. Em Cnide,procurava-se reconhecer e distinguir asdoenças, umas das outras, pelos sintomas, erelacioná-las com os órgãos. Uma vezconhecidas as doenças e descoberta a maneirade tratá-las, seria possível ensinar e aprender amedicina como uma ciência.Em Cós, pelo contrário, dominava oconceito de doença como afecção geral doorganismo. Seria vão tentar distinguir as“doenças”, umas das outras, pelos sintomas,umas vez que estes variam constantemente nodecorrer de uma mesma doença. Cada dia opaciente teria uma “nova doença”, e o númerode doenças seria infinito. Para a escola de Cós,a doença é uma abstração e o doente é oproblema real. A medicina não pode deixar deser a arte de tratar o homem enfermo, segundoas normas ditadas pela experiência e guiadaspela observação minuciosa e esclarecida. AEscola de Cós é dominada e “personificada”pela figura de Hipócrates.Estas duas tendências da Medicina - ado estudo do particular, do órgão doente, dadoença como disfunção do órgão, da medicinacomo ciência; ou a do estudo do geral, dohomem doente, da medicina como arte,embora baseada na observação e naexperiência - simbolizadas por estas escolassão duas tendências permanentes em toda ahistória. Evidentemente, as premissas destasduas maneiras de entender a medicina, hoje, jánão são válidas, pois o particular não se opõeao geral, mas integra-se a ele, e a medicinadeve ser uma só.III - Hipócrates e a Medicina HipocráticaPoucos dados biográficos seguros temosacerca de Hipócrates. Sabe-se que nasceu nailha de Cós, filho de um médico, seu primeiromestre. Os autores concordam em fixar onascimento de Hipócrates cerca do ano 460a.C.. Há divergências quanto à data de suamorte, mas não há dúvida de que morreu emidade avançada. Viveu, portanto, no famoso“século de Péricles”, quando Atenas era aprimeira cidade da Grécia, o centro cultural,artístico e científico mais importante do seutempo. Foi contemporâneo dos filósofosSócrates e Platão, de historiadores comoHeródoto e Tucídides, de escultores comoFídias, e de dramaturgos como Ésquilo,Sófocles e Aristófanes. É do tempo deHipócrates a devastação de Cós, aliada deAtenas, pelos Espartanos, na Guerra doPeloponeso (431-404 a.C.). No entanto, aedificação do magnífico “Asklepeion”, na suailha natal, é posterior à sua morte.
    • 8• O Corpus HippocraticumOs escritos atribuídos a Hipócrates eaos seus discípulos começaram a ser reunidosna Biblioteca de Alexandria, a partir do séculoIII a.C.; o seu conjunto é designado ColeçãoHipocrática. Trata-se de um conjunto demanuscritos, vários incompletos, formadospela reunião de textos originariamentedistintos, a expressarem diferentes conceitos.Tais escritos não podem ser atribuídos a um sóautor, nem a uma só escola, e nem sequer auma mesma época. Assim, o valor dos cerca de70 livros da Coleção é desigual, e que apenasalguns devem ser considerados representantesdo pensamento médico hipocrático.• A Medicina Hipocrática:“A vida é curta, a arte é longa, a oportunidadeé fugaz, a experiência enganosa, o julgamentodifícil”. (Aforismas, I, 1)A arte (“tekné”) da medicina aparececomo um conjunto de noções, de teorias e deexperiências; como um saber que permitetomar uma atitude e uma prática. Em síntese:uma técnica. Entretanto, nunca a teoria merecedestaque. Ao contrário, é a descrição do“observado” que assume maior importância.Esta medicina também se distinguiu porreconhecer em todas as doenças uma causanatural, e por combater os ritos mágicos, asuperstição e o charlatanismo.Hipócrates usava o raciocínio indutivo, aexperimentação, e negava as atitudes mágicasperante a doença. Em “Dos ares, águas elugares”, escreveu: 8 /$9 5# +55 $%# 3$%0 $%. 5 7 %# 30 %%.5 00 05 5 5 .%$9 %) : 7) "#Quanto à “doença sagrada”, aepilepsia, o autor hipocrático afirma commuita coragem: !5 "#% %
    • 9$ %060 "#São quatro os princípios da medicinahipocrática:1 - primeiro, não lesar o paciente;2 - abster-se do impossível: não procurarmilagres;3 - agir contra a causa da doença;4 - crer na força curativa da natureza.Para bem cumprir estes quatroprincípios, o médico hipocrático deveriaaplicar as seguintes regras:- atacar a causa da doença pelo seucontrário;- ‘agir belamente’, ou agir com arte;- evitar o excesso de intervençãosobre o corpo e crer no poder decura da natureza);- educar bem o doente;- individualizar o tratamento: tipofísico, sexo, idade, etc.;- aproveitar a ‘ocasião fugaz’,oportuna, para tratar;- tratar o doente como um todo; nãotratar apenas uma parte (ou umórgão) doente;- agir guiado pela ética.• Conceitos EtiológicosAs causas das doenças são procuradasna influência de fatores do ambiente (estaçõesdo ano, clima, modo de alimentação, regime devida) e também na transmissão hereditária. Aimportância de descobrir a etiologia daenfermidade era permitir encontrar o remédioadequado que lhe seria, naturalmente, ooposto.• A observação clínica e a terapêutica. A importância do prognóstico.A observação era minuciosa, metódica:observava-se o aspecto do doente, sua posiçãono leito, a agitação, a quentura, etc. Se adoença é uma luta entre a força curativa danatureza, que tende a restabelecer o estadofisiológico, e as causas da moléstia que operturbam, o verdadeiro agente da cura é anatureza, não o médico ou os remédios. Afunção do médico é auxiliar, por todos osmeios ao seu alcance, a força natural a vencera doença, é por o paciente nas condições maisfavoráveis e cuidar para não perturbá-la poruma ação inadequada: “primeiro, nãoprejudicar o doente”, diz o preceitohipocrático.Cada doente é um caso individual.Assim, o diagnóstico da doença, como umquadro definido, não era possível e, aliás,tampouco fazia falta. A preocupação realmenteimportante era compreender o curso da doença,
    • 10prever-lhe a evolução e o modo de término,isto é, estabelecer-lhe o prognóstico. Acapacidade de previsão do médico, sinal de suacompreensão do problema clínico e garantia doseu domínio dos meios próprios para debelar omal, contribuía para aumentar a confiança dopaciente na sua pessoa.Os meios terapêuticos de que Hipócratespodia dispor - caldo e papas de cevada,hidromel (mistura de água e mel), oximel(mistura de vinagre e mel), vinho, algumasplantas medicinais, purgativos, sangrias,banhos e ungüentos, exercício físico ourepouso - parecem-nos modestos. Nãodevemos, porém, esquecer que a terapêutica,indistinguível da dietética, tinha por objetivonão o curar, mas o permitir que a naturezarealizasse a cura.• FisiopatologiaA Teoria Humoral da DoençaA patologia hipocrática baseava-se nadoutrina dos quatro humores: sangue, fleugmaou pituíta, bílis amarela e bílis negra, que sepensava constituírem a própria natureza docorpo humano. Quando estes humores estãoperfeitamente misturados, e guardam a devidaproporção, uns em relação aos outros, a“crase” é normal – “eucrasia” - e o indivíduogoza de saúde. Se um desses elementos estáem falta ou excesso, ou está isolado no corposem se combinar com todos os outros, sente-sedor, dá-se a “discrasia”. Em resumo, a TeoriaHumoral da Doença consta de dois postuladosbásicos: a) o corpo humano contém (ou éformado) por um número variável, mas finito,quase sempre quatro, de líquidos ou humoresdiferentes; b) a saúde é o equilíbrio doshumores e a doença é o predomínio de algumhumor sobre os demais.a) Os humores do corpo humano.Atribui-se a Empédocles de Agrigento (490-435 a.C.), senão a criação, pelo menos aintrodução na ciência da “Doutrina dos QuatroElementos Fundamentais” que, isoladamenteou associados em diferentes proporções,constituiriam todos os corpos da natureza.Empédocles aceita que a matéria não podeprovir do nada e que é indestrutível, mas buscauma explicação para a possibilidade domovimento e da transformação. Pensa seremos diferentes corpos constituídos por quatroprincípios elementares: o fogo, o ar, a água e aterra, em proporções variadas. Por si mesmossão eternos, incriados e indestrutíveis.Misturados em diversas proporçõesformam todos os corpos e, da sua união ou dasua separação, resultam todas astransformações. Os elementos possuem quatroqualidades fundamentais, opostas duas a duas:o quente e o frio; o úmido e o seco. Cadaelemento partilha duas destas qualidades: ofogo é quente e seco (como a bílis amarela); oar é quente e úmido (como o sangue); a água éúmida e fria (como o fleugma); a terra é seca efria (como a bílis negra).Assim, embora o conceito dos quatrohumores do organismo se perca naAntigüidade, os primeiros enunciados da
    • 11Teoria Humoral da Doença só aparecem nofinal da era hipocrática, em um volumeintitulado “A Natureza do Homem”, que tentaexplicar a saúde e a doença através de algunsprincípios gerais:5# 65 5 ; "#b) Os quatro humores, a saúde e adoença. A saúde é o equilíbrio dos humores ea doença resulta da perda deste equilíbrio. Istofoi enunciado, pela primeira vez, por Alcmeónde Crotona, médico que viveu no princípio doséc. V a.C. (em sua cidade natal surgiu aprimeira escola de medicina da Grécia; as deCnides e Cós surgiram meio século depois).A Teoria dos Opostos, de Alcmeón, seassemelha à dos pitagóricos, para a filosofiageral2 +#+ ;5 $9 ;5. $/#+ $ :)5 . :) ) 5 7# + ;"#Em suma, a Teoria Humoral da Doençasurgiu de dois conceitos distintos: o corpohumano contém quatro humores em equilíbrio,e doença ocorre quando este se perde.Entretanto, tal equilíbrio não seria um balançopuramente quantitativo; cada um dos humorespossuía outras propriedades, cujo equilíbrioqualitativo era indispensável para conservar asaúde. Através da história, as propriedades decada um dos quatro humores básicos semodificaram; além disso, a relação de cada umdos humores que compunham o corpo humanocom os elementos que formavam o Universotambém sofreu diversas mudanças.Com todos estes elementos, os médicoshipocráticos tiveram uma rede complexa deexplicações para as diferentes enfermidades,embora sempre propusessem três tipos detratamento: sangria (para eliminar os humoresque se encontravam em excesso ou compropriedades patogênicas); purgante (paracompletar a eliminação dos humorescausadores de doença); e dieta (para evitar quevoltassem a se formar os maus humores).Os quatro elementos que participavamda teoria não eram puramente teóricos. Osangue possui uma existência objetivaindubitável; o fleugma é óbvio em pessoascom catarro nasal, com vômitos incoercíveisou com diarréia mucosa; a bile amarelaaparece ocasionalmente no vômito e a icteríciaseria uma demonstração de sua existência noorganismo; a bile negra é mais difícil de seexplicar, mas derive da observação dasmatérias fecais de pacientes com hemorragiadigestiva, ou do vômito de indivíduos comcâncer gástrico.Apesar de sua evidente impropriedadepara explicar os fenômenos, esta teoria doshumores obteve o maior êxito em toda aHistória da
    • 12Medicina, da Ciência e do modo de pensar devários povos e gerações pois, sob diversasversões, sobreviveu durante quatorze séculos.Enunciada na idade de ouro da Grécia (séculoV a.C.) perdurou, com mínimas alterações, aoocaso do mundo helênico (século I a.C.), àemergência, ao apogeu e à desaparição doImpério Romano (séculos I a IV d.C.), àsturbulências do Império Bizantino (séculos IVa XV d.C.), ao prolongado obscurantismo daIdade Média (séculos VI a XIII d.C.) e à aurorado Renascimento (séculos XIII a XVI d.C.).Como foi visto, os gregos centraram suaatenção no homem e na natureza. Para eles, amedicina era “peri physis anthropoe”, isto é,“acerca da natureza do homem”. Além disso,procuraram compreender, a ambos, com o usoexclusivo do entendimento e da razão, sem, noentanto, se utilizar de experimentos. Estemétodo se, por um lado, mostrou-se útil pararefutar explicações transcendentais, por outro,revelou-se quase estéril para produzirconhecimento.• A Ética Médica e o Juramento HipocráticoPelo ano 400 a.C., Hipócrates escreveuseu Juramento, onde jura solenemente usar suaArte unicamente em benefício dos pacientes.< ++ = !%#+:#+5 %##/ $5 $%5 5 :#/5 /55 %. 5 50 "#
    • 13Referências BibliográficasGRANT, M. História Resumida da Civilização Clássica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.HESÍODO. Teogonia. Trad.: Ana Lúcia Silveira Cerqueira e Maria Therezinha Arêas Lyra. Niterói:EdUFF, 1996.HOMERO. Ilíada . Trad.: Carlos Alberto Nunes. 5ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1966.MARGOTTA, R. The Hamly History of Medicine. London: Reed International Books Ltda., 1996.PRÉ-SOCRÁTCOS. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.ROSEN, G. Uma História da Saúde Pública. trad. Marcos Fernandes S. Moreira. São Paulo: Hucitec.Rio de Janeiro: Abrasco, 1994.PHILLIPS, ED. Greek medicine. London and Southhampton: The Camelot Press, 1973.SIGERIST, HE. A History of Medicine – Vol. II – Early Greek, Hindu and Persian Medicine. NewYork and Oxford: Oxford University Press, 1961.SOUZA, A. T. Curso de História da Medicina - das origens aos fins do século XVI. Lisboa: FundaçãoCalouste Gulbenkian, 1981.TAMAYO, P.R. El Concepto de Enfermedad - Su evolución a través de la historia - Tomo I.Guadalajara: Fondo de Cultura Economica, 1988.XAVIER Fº, E. O Homem e a Cura. Porto Alegre: Rígel, 1993.