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  • 1. SUMÁRIO SUMMARYAlimentos preservados com radiação: a vantagem competitiva Food preservation with radiation: the competitive advantageque falta ao Brasil 1 that Brazil lacks 1 Patricia Wieland, Leonardo Junqueira Lustosa, Teresia Diana Lewe van Aduard de Patricia Wieland, Leonardo Junqueira Lustosa, Teresia Diana Lewe van Aduard de Macedo-Soares Macedo-SoaresO treinamento experiencial e sua aplicação no contexto corporativo: The experiential training and its corporate context application:estudo comparativo entre programas de treinamento realizados nos comparative study between training programs in the United StatesEstados Unidos e no Brasil 17 and Brazil 17 Zélia Miranda Kilimnik, Eder Menezes Reis Zélia Miranda Kilimnik, Eder Menezes ReisA importância dos sistemas de gestão da qualidade: Fmea e Seis Quality management sistems regard: Fmae and Six Sigma - anSigma - uma abordagem teórica 31 theoric approach 31 Elizabeth Giron Cima, Miguel Angel Uribe Opazo Elizabeth Giron Cima, Miguel Angel Uribe OpazoCustos da qualidade: como medir o impacto dos esforços pela The quality cost: how to measure the impact of the efforts forqualidade 37 the quality 37 Fabiano Goldacker, Rubens Ricardo Franz Fabiano Goldacker, Rubens Ricardo FranzPlanejamento estratégico e gestão familiar em empresas Strategic planning and family management of enterprises inpaulistanas 47 São Paulo 47 Marilia Branquinho, Maximiliano da Silva Ribeiro, Pedro Rehem Santana, Tito Marilia Branquinho, Maximiliano da Silva Ribeiro, Pedro Rehem Santana, Tito Olavo Pereira Dancuart, Victor Souza, Adriana Beatriz Madeira, Luciano Augusto Olavo Pereira Dancuart, Victor Souza, Adriana Beatriz Madeira, Luciano Augusto Toledo ToledoAnálise comparativa dos modelos de precificação de ativos Capital Comparative analysis of both Capital Asset Pricing Model andAsset Pricing Model e Downside Capital Asset Pricing Model 65 Downside Capital Asset Pricing Model 65 Adriana Moreira Bastos de Faria, Lucas Maia dos Santos Adriana Moreira Bastos de Faria, Lucas Maia dos SantosO uso do cheque especial e do cartão de crédito pelos acadêmicos The use of overdraft and credit card by studentsda FAE Centro Universitário 81 at FAE Centro Univeritário 81 Aline Fernanda da Silva Ferreira, Amilton Dalledone Filho Aline Fernanda da Silva Ferreira, Amilton Dalledone FilhoA sustentabilidade e sua relação com as The sustainability and its relation withestratégias organizacionais 93 corporate strategies 93 Valéria da Veiga Dias, Uiara Gonçalves De Menezes, Eliete Pozzobon Palma, Marcia Valéria da Veiga Dias, Uiara Gonçalves De Menezes, Eliete Pozzobon Zampieri Grohmann Palma, Marcia Zampieri GrohmannEmpreendedorismo social e sustentabilidade: um estudo de caso sobre o Social entrepreneurship and sustainability: a study of in case on theprojeto “mulheres em ação jogando limpo com a natureza” project “women in action playing clean with the nature”do IFNMG 111 of IFNMG 111 Edson Oliveira Neves, Cezar Augusto Miranda Guedes, Kléber Carvalho dos Santos Edson Oliveira Neves, Cezar Augusto Miranda Guedes, Kléber Carvalho dos SantosAbertura de capital como fonte de financiamento aos IPO as source of financing of investments in Brazil: analysis ofinvestimentos no Brasil: análise do período de 2004 a 2007 125 the 2004-2007 period 125 Leide Albergoni, Guilherme Blanski Küster Leide Albergoni, Guilherme Blanski KüsterFatores determinantes na escolha de alunos pela FAE Blumenau Factors in the choice of students by FAE Blumenau as an Institutioncomo Instituição de Ensino Superior 147 of Higher Education 147 Simone Cristina Aléssio, Maria José Carvalho de Souza Domingues Simone Cristina Aléssio, Maria José Carvalho de Souza DominguesDiferenciais competitivos dos cursos superiores de tecnologia Competitive advantages of technology undergraduate coursespela percepção dos acadêmicos 165 through the perception of students 165 Adriana Galli Velho Adriana Galli VelhoOportunidades nos mercados globalizados: estudo nas empresas Opportunities in global markets: study in the brazilian companies ofbrasileiras de consultoria em tecnologia da informação 179 consulting in information technology 179 Bruna Zambel Russo, Carolina Batista de Deus, Simone Cardoso de Almeida Bruna Zambel Russo, Carolina Batista de Deus, Simone Cardoso de Almeida Marques, Ingrid Araujo Silva, Francisco Américo Cassano Marques, Ingrid Araujo Silva, Francisco Américo Cassano FAE Centro Universitário Curitiba, v.13, n.2, jul./dez. 2010 - ISSN 1516-1234
  • 2. Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus Coordenadores de CursoPresidente Aline Fernanda Pessoa Dias da Silva (Direito) Frei Guido Moacir Scheidt, ofm Tiago Luís Haus (Engenharia Ambiental)Diretor Geral Carlos Roberto Oliveira de Almeida Santos (Informática – Sistema de Informação e Jorge Apóstolos Siarcos Tecnologia em Sistema para Internet) Cleuza Cecato (Letras)Centro Universitário Franciscano do Paraná Daniele Cristine Nickel (Psicologia)Reitor da FAE Centro Universitário Eliane Cristine Francisco Maffezzolli (Comunicação Social: Publicidade e Propagan-Diretor Geral da FAE São José dos Pinhais da e Desenho Industrial) Frei Nelson José Hillesheim, ofm Enon Laércio Nunes (Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção)Pró-Reitor Acadêmico Érico Eleutério da Luz (Ciências Contábeis)Diretor Acadêmico Gilmar Mendes Lourenço (Ciências Econômicas) André Luis Gontijo Resende Jacir Adolfo Erthal (Tecnologia em Logística, Tecnologia em Gestão Financeira, Tecnologia em Gestão de Recursos Humanos e Tecnologia em Marketing)Pró-Reitor Administrativo Joaquim Almeida Brasileiro (Negócios Internacionais) Régis Ferreira Negrão Marcus Vinicius Guaragni (Administração)Diretor de Campus – FAE Centro Universitário, Campus Centro Ney de Lucca Mecking (Educação Física) Julio Kiyokatsu Inafuco Silvia Iuan Lozza (Pedagogia)Diretor de Campus – FAE Centro Universitário, Campus Cristo Rei Frei Jairo Ferrandin, ofm (Filosofia) Carlos Roberto de Oliveira Almeida SantosDiretor Acadêmico FAE São José dos Pinhais Wagner Rodrigo WeberCoordenador dos Programas de Pós-Graduação Lato Sensu Coordenadores dos Núcleos Adriana Pelizzari (Coordenadora do Núcleo de Extensão Universitária) Gilberto Oliveira Souza Areta Galat (Coordenadora do Núcleo de Relações Internacionais)Coordenador dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu Cleonice Bastos Pompermayer (Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Acadêmica) José Henrique de Faria Marcelo de Araújo Cansini (Coordenador do Núcleo de Empregabilidade)Diretor de Relações Corporativas Rita de Cássia Marques Kleinke (Coordenadora da Pastoral Universitária) Paulo Roberto de Araújo Cruz Simone Wiens (Coordenadora do Núcleo de Carreira Docente)Secretário-Geral Eros Pacheco NetoDiretor do Instituto de Ciências Jurídicas Bibliotecas Soraia Helena F. Almondes (Biblioteca – Campus Centro) Sérgio Luiz da Rocha Pombo Edith Dias (Biblioteca – Campus Centro)Ouvidoria Fernanda Périco Jorge (Biblioteca – São José dos Pinhais) Samar Merheb JordãoEditor Frei Nelson José Hillesheim, ofm Comitê EditorialCoordenação Editorial Bruno Harmut Kopittke, Dr. (UFSC); Francisco Antonio Pereira Fialho, Dr. (UFSC); Glauco Cleonice Bastos Pompermayer (coordenadora editorial) Ortolano, Ph.D (Lauder Institute/Wharton School/University of Phennsylvania); Harry Danielle Francesca Lopes Lago (revisão de linguagem) J.; Burry, Ph.D (Baldwin Wallace); Heloísa Lück, Ph.D (UFPR); Heloiza Matos, Dra. (USP); Mariana Fressato (normalização) Jair Mendes Marques, Dr. (FAE Centro Universitário, UTP); João Benjamim da Cruz Edith Dias (normalização) Junior, Ph.D (UFSC); Cleverson Vitório Andreoli, Dr. (USP); Mirian Beatriz Schneider Braun, Dra. (Unioeste); Christin Luiz da Silva, Dr. (UFSC). Ewerton Diego Oliveira da Silva (diagramação) Braulio Maia Junior (diagramação) Pareceristas Eliane Cristine Francisco Maffezzolli, Dra. (FAE), Denise Maria Candioto Caselani, Dra. (UNINOVE), Walter Tadahiro Shima, Dr. (UFPR), Nicolau Barth, Ms. (UTFPR), Edson Pacheco Paladini, Dr. (UFSC), Najila Rejanne Alencar Juliao Cabral, Phd (IFCE), João Júlio Vitral Amaro, Dr. (UFMG), Anapatrícia Morales Vilha, Dra. (UFABC), Júlio Francisco Blumetti Facó, Dr. (ESAGS e FECAP), Eduardo Raupp de Vargas, Dr. (UNB), Antônio André Cunha Callado, Dr. (UFRPE), Pery Francisco Assis Shikida, Phd (UEL e UNIOESTE), Lafaiete Santos Neves, Dr. (FAE), Valéria Maria Martins Judice, Dra. (UFSJ), Mario Sérgio Cunha Alencastro, Dr. (UTP), Leonardo Freire de Mello, Dr. (UNIVAP), Antonio Carlos Silva Costa, Dr. (UFAL), Carlos Alberto Diehl, Dr. (UNISINOS), Ana Maria Coelho Pereira Mendes, Dra. (FAE), Francisco Antonio Pereira Fialho, Dr. (UFSC), Amilton Dalledone Filho, Ms. (FAE), Carla Cristina Dutra Búrigo, Dra. (UFSC), Rosalinda Chedian Pimentel, Phd (UNIFRAN e UNESP), Helder Gomes Costa, Dr. (UFF), Joel Souza Dutra, Dr. (USP), João Bosco Ladislau de Andrade, Dr. (UFAM), Sidnei Vieira Marinho, Dr. (UNIVALI), Antônio Lázaro Conte, Ms. (FAE), Luiz Carlos Pereira, Ms. (FAE) Indexação CAPES/Qualis Latindex Portal Livre/CNEN GeoDados Distribuição Comunidade Científica: 700 exemplares Permuta: 100 exemplares Revista da FAE. n.1/2, jan./dez. 1998 - Curitiba, 1998 - v. 28cm. regular Semestral Substitui ADECON: revista da Faculdade Católica de Administração e Economia. ISSN 1516-1234 1. Abordagem interdisciplinar do conhecimento. I. FAE Centro Universitário . Núcleo de Pesquisa Acadêmica. CDD - 001 Os artigos publicados na Revista da FAE são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não representam, necessariamente, pontos de vista da FAE Centro Universitário. A Revista da FAE tem periodicidade semestral e está disponível em www.fae.edu Endereço para correspondência: FAE Centro Universitário - Núcleo de Pesquisa Acadêmica Rua 24 de Maio, 135 - 80230-080 - Curitiba-PR Tel.: (41) 2105-4093 - e-mail: pesquisa@fae.edu
  • 3. Revista da FAEApresentação Prezados leitores Com os votos de Paz e Bem temos a alegria de disponibilizar à comunidade acadêmica e a toda a sociedade mais uma edição da Revista da FAE. Para a elaboração deste número da Revista contamos com a colaboração de autores representantes de várias áreas e subáreas do conhecimento, assim como, de nacionalidade brasileira e internacional, para os quais desejamos expressar nossos agradecimentos. As valiosas e importantes reflexões desses autores compõem as temáticas abordadas, oscilando desde a preocupação com as inovações, relatos de casos, educação, sustentabilidade, competitividade, a métodos específicos para a solução de questões sobre gestão empresarial. A partir destes temas apresentados, torna-se possível sintetizar os conteúdos aqui apresentados por meio de uma breve descrição sobre os artigos. Iniciando pelo artigo que relata os vários aspectos de gestão industrial, avanços estratégicos, segurança ambiental e regulação da irradiação de alimentos: a vantagem competitiva que falta no Brasil. O artigo a seguir analisa por meio de uma investigação, de forma comparativa, os resultados obtidos em treinamento comportamental tradicional face à opção de treinamento experiencial no contexto corporativo. Na sequência, três artigos nos oferecem a possibilidade de compreender a importância e a relevância dos procedimentos, métodos e programas de gestão na busca da eficiência dos ambientes organizacionais, expondo questões como qualidade e planejamento. Os dois artigos subsequentes apresentam características e formas de precificação dos ativos voltados ao mercado de capitais, e uma pesquisa com jovens acadêmicos sobre o conhecimento para o uso adequado do cheque especial e do cartão de crédito. A preocupação de como alcançar e manter-se no conceito de sustentabilidade é enfatizado, a seguir, nos dois temas citados na revista. Um relatando a percepção de gestores de uma indústria do setor de alimentos e bebidas sobre a relação intrínseca entre a sustentabilidade e as estratégias organizacionais e o outro apresentando uma análise sobre a importância do empreendedorismo social e da sustentabilidade. Uma abordagem histórica e econômica nos permite compreender o comportamento da abertura de capital como fonte de financiamento dos investimentos no Brasil: uma análise do período de 2004 a 2007.
  • 4. Experiências e preocupações com a educação, especificamente do ensino superior, tambémse fazem presentes nos artigos que apresentam os fatores determinantes nas escolhas dealunos pela FAE na cidade de Blumenau e a percepção dos acadêmicos sobre os diferenciascompetitivos dos cursos superiores de tecnologia.Finalmente, um estudo nas empresas brasileiras de consultoria em tecnologia da informaçãonos apresenta a importância e o papel dos mercados globalizados no sucesso dessasempresas.Gratos pelo prazer de compartilhar com todos a leitura da obra de cada autor, esperamoster contribuído mais uma vez com o pensamento, reflexões e atitudes acadêmicas. PAZ E BEM! Frei Nelson José Hillesheim, ofm Editor
  • 5. Revista da FAEAlimentos preservados com radiação: a vantagem competitivaque falta ao Brasil1Food preservation with radiation: the competitive advantagethat Brazil lacks Patricia Wieland* Leonardo Junqueira Lustosa** Teresia Diana Lewe van Aduard de Macedo-Soares***ResumoA técnica de preservação de alimentos por radiação vem sendo aplicadamundialmente para aumentar o tempo de armazenamento e reduzir adependência de pesticidas químicos. Apesar dos incentivos governamentaise do mercado produtor agrícola crescente, o Brasil ainda não entrou noseleto clube dos exportadores de produtos agrícolas tropicais tratadoscom radiação. As dificuldades para oferta regular de um serviço deirradiação de alimentos independem da tecnologia utilizada. Instalaçõessemelhantes que esterilizam artigos médicos ou melhoram as propriedadestermo-mecânicas de materiais têm operado no Brasil sem interrupçõese de modo crescente. Este artigo analisa os vários aspectos da gestãoindustrial, alianças estratégicas, segurança ambiental e regulação dairradiação de alimentos e apresenta perspectivas para desenvolvimentosfuturos no Brasil.Palavras-chave: irradiação; alianças estratégicas; industrialização;exportação; frutas.AbstractFood preservation with radiation is a worldwide technique to increasestorage time and reduce chemical pesticides dependence. In spite of * Doutoranda do Departamento degovernmental support and a growing market, Brazil does not export Engenharia Industrial da PUC-Rio/ DEI. Pesquisadora Titular U-III dairradiated food. The difficulties of the irradiation services supply are not Comissão Nacional de Energiarelated to the technology, given that similar facilities are in full operation, Nuclear (CNEN). Rio de Janeiro-RJ.offering medical aid product sterilization services or improving materials E-mail: pwieland@cnen.gov.br.thermo-mechanical properties. This paper analyses several aspects of the ** PhD em Engenharia Industrial pelaindustrial management, strategic alliances, environmental safety and Stanford University, EUA. Professor do Departamento de Engenhariaregulation of food irradiation and presents some perspectives for future Industrial da PUC-Rio/DEI. Rio dedevelopments in Brazil. Janeiro-RJ. E-mail: ljl@puc-rio.br *** PhD em Filosofia Econômica eKeywords: irradiation; strategic alliances; industrialization; export, fruits. Social pela Montréal University, Canadá. Professora da Escola de Negócios da PUC-Rio/IAG. Rio de Janeiro-RJ. E-mail: tdiana.1 Os autores agradecem os comentários da Dra. Nélida del Mastro, bolsista de produtividade vanaduardmacedosoares@gmail. em pesquisa do CNPq e professora/orientadora em Tecnologia Nuclear do IPEN e USP comRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |1
  • 6. Introdução Este artigo procura examinar diversos aspec- tos relevantes para o desenvolvimento industrial O tratamento com radiação visa conservar os da preservação de alimentos no Brasil, com oalimentos por mais tempo, reduzindo as perdas uso de radiação ionizante. O propósito não écausadas por brotamento ou maturação, além de fazer uma análise detalhada, mas tão somentereduzir a presença de micro-organismos, parasitas dar uma visão abrangente e multidisciplinar dae pragas, sem afetar a qualidade do produto. A questão que, frequentemente, é investigada comtecnologia de irradiação já é empregada em mais base em problemas isolados. Assim, discutem-sede 50 países e é aplicada, por exemplo, para a pre- brevemente os aspectos relevantes referentes àservação de carnes, frutas frescas, condimentos, qualidade de alimentos, à tecnologia, à gestão, àervas medicinais e temperos. segurança, à regulação da indústria da irradiação Desde a década de 1980, vários estudos de e ao comércio internacional. Por fim, analisa-se oviabilidade têm sido realizados para a implantação conjunto de elementos apresentados com vistasde unidades industriais de tratamento de alimentos a sugerir algumas linhas de ação gerais.no Brasil (GLÓRIA, 1987a, 1987b), (FARIA et al., A informação foi coletada por meio de revisão1999) e (GHOBRIL; DEL MASTRO, 2009). Um da literatura científica e de relatórios de organi-estudo recente realizado em cooperação com o zações internacionais, investigação documental,Canadá avaliou a qualidade de mangas irradiadas discussão com peritos de institutos de pesquisa,após o transporte e também fez uma avaliação de empresários do setor e especialistas de órgãos decustos (SABATO et al., 2009). regulação. A experiência operacional com sucesso No Brasil existem 1376 instalações industriais de exportação de frutas irradiadas de países taisque utilizam fontes de radiação para os mais diver- como Índia e México foram de grande ajuda.sos fins, e, entre estas, 34 possuem equipamentosde grande porte para irradiação (MARECHAL,2009). Apesar do otimismo sobre a exportação 1 Aspectos relacionados à tecnologiade produtos agrícolas no Brasil, faltam plantas de irradiação e à agro-indústriaindustriais dedicadas à irradiação de alimentospara atender às necessidades dos produtoresagrícolas de forma compatível com as ambiçõesde expansão desse mercado. 1.1 Necessidade de melhorias na Tendo em vista os investimentos que vêm qualidade de alimentossendo feitos nas últimas décadas para o desenvol-vimento da agricultura no Nordeste, um programa O agronegócio no Brasil é caracterizado pelade irradiação de alimentos parece ter um elevado fartura, regularidade no fornecimento, grandebeneficio-custo. Os fracassos incorridos na tenta- variedade de produtos, baixo custo de produçãotiva de explorar tal potencial não parecem estar e boa aceitação dos produtos. Entretanto, no querelacionados a questões fundamentais de ordem toca aos perecíveis, várias são as dificuldades paraeconômica, tecnológica, social ou ambiental. Ao a produção de alimentos com qualidade: frequen-contrário, todos esses aspectos parecem ser alta- temente, as águas de irrigação e de lavagem pos-mente favoráveis. suem contaminação microbiana e existe incidência 2|
  • 7. Revista da FAEde insetos em função do clima tropical. A logística realizado uma viagem internacional nos dias an-de acondicionamento é, por vezes, inadequada e, teriores (CDC, 2005). Baseado nestas ocorrências,devido à falta de rede de transporte satisfatória e conclui-se que o risco de adquirir uma infecçãoaos longos trajetos, pode haver interrupções de devido à ingestão de alimentos preparados emresfriamento ideal. Observa-se ainda, em locais viagens aéreas de longa duração não pode sersem educação agrícola adequada, que o foco é menosprezado.no aumento de volume e na redução do custo de Considerando este quadro, acredita-se queprodução, em detrimento da qualidade. as seguintes metas deveriam ser observadas para Mesmo com a disseminação de boas práticas melhorar a qualidade dos alimentos:agrícolas e com a aplicação de métodos de a) Aspectos sociais:tratamento como a fumigação, a hidrotermia e - reduzir a probabilidade de ocorrênciao congelamento, as estimativas mostram que de doenças transmitidas por alimentosa perda da produção nacional é ainda cerca de deteriorados ou contaminados;30% para frutas e hortaliças, o que corresponde - promover a educação agrícola e alimentarao desperdício de mais de 200 mil hectares para a produção e ingestão de alimentoscultivados por ano (PEROZZI, 2007). De acordo mais saudáveis.com a Food and Agriculture Organization of theUnited Nations (FAO, 2009), a perda pós-colheita b) Aspectos econômicos:varia de 15 a 50%, não só devido à colheita fora - evitar grandes perdas por deterioraçãoda época correta, excesso de chuva, seca ou de alimentos devido à infestação, con-extremos de temperatura, contaminação por taminação e decomposição;micro-organismos e danos físicos degradação - promover o comércio internacional,do alimento, mas também por não atender a atendendo aos requisitos de controlerígidos controles de qualidade de supermercados, fitossanitário.com relação a tamanho, existência de manchas, c) Aspectos ambientais:formato desigual etc. - reduzir o uso de pesticidas químicos, que Com o crescimento da população, o alimento deixam resíduos nos alimentos (ICGFI,terá que ser transportado para distâncias cada vez 1999);maiores, necessitando de esforços especialmente - otimizar as áreas de plantio, consideran-em infraestrutura de armazenamento e processa- do perdas menores no escoamento damento para reduzir a perda de alimentos ao longo produção agrícola.da cadeia produtiva. Alimentos preparados e servidos para a po-pulação em restaurantes, bares e em transportes 1.2 Tecnologia: o tratamento de alimentosde longa distância também são motivos de preo- com radiaçãocupação para a saúde. De acordo com um estudosobre contaminação alimentar nos Estados Unidos O tratamento de alimentos com radiaçãoda América, dos casos de hospitalização reporta- é feito em irradiadores com fonte radioativados, 63% das pessoas infectadas por Salmonella intensa de cobalto-60 ou em aceleradores dee 86% com Escherichia coli (STEC O157) tinham partículas. O alimento, já na sua embalagemRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |3
  • 8. final, é exposto à radiação. Como não há gênicos e aumenta a vida útil em armazenamentocontacto com a fonte radioativa, não há risco de sem comprometer a qualidade da alimentação.contaminação radioativa e, após o tratamento, A técnica também beneficia os pacientes imuno-não há necessidade de manipulação do alimento, deprimidos que não podem se expor ao risco deo que evita uma possível re-infestação bacteriana contaminação alimentar (IAEA, 2009). Por outro(ICGFI, 1999). Os aceleradores de elétrons atuam lado, a radiação não é recomendada para todosmais superficialmente e são ideais para alimentos os alimentos. Em alguns pode provocar alteraçõescom pouca espessura. Os aceleradores possuem na cor, no odor ou no sabor, como por exemplo,a vantagem de não necessitarem de recarga de no leite e em seus derivados e no abacate.fontes. Em ambos os casos, as caixas com os Além da vantagem de preservação de ali-alimentos entram, sobre esteiras transportadoras, mentos por mais tempo, a radiação tambémnum recinto blindado onde são irradiados durante pode contribuir para a melhoria da qualidade eum tempo pré-determinado e saem por outra de características intrínsecas do produto. O usoabertura, prontas para serem despachadas. de hidrocolóides está se tornando cada vez mais A irradiação pretende reduzir ou eliminar as importante e as propriedades reológicas de adi- tivos irradiados é uma das linhas de pesquisa embactérias patógenas para o homem tais como andamento (DEL MASTRO, 1999). O quadro 01Escherichia coli, Salmonella, Listeria e Campylo- mostra as aplicações e a faixa de dose de radiaçãobacter, os fungos formadores de micotoxinas para o tratamento de alimentos. No caso de frutase insetos (por exemplo, moscas-das-frutas dos frescas, como a manga e papaya, o maior interessegêneros Ceratitis e Anastrepha) que deterioram fitossanitário é a desinfestação de insetos e a doseos alimentos armazenados. Se aplicada na dose média aplicada é 0,4 kGy. No caso de redução decorreta para cada alimento, a radiação não afeta micro-organismos até a esterilização de alimentos,a sua estrutura molecular e, portanto, não modi- aplica-se uma dose mais alta, de até 50 kGy.fica as suas propriedades nutricionais e nem assensoriais (ICGFI, 1999). Wieland-Fajardo e Rego(1993) apresentam um resumo em linguagemsimples sobre a técnica de irradiação de produtos,a curva dose-sobrevivência de micro-organismos,os equipamentos, a segurança, a validação e ocontrole do processo por determinação de doseabsorvida no produto e outros métodos. Não só alimentos in-natura, como as frutase os desidratados, como os condimentos, podemser irradiados para sua preservação. Há umacrescente demanda por alimentos preparados,que necessitam ser estocados temporariamente,tais como as refeições para membros das forçasarmadas em serviço, passageiros em transportede longa distância ou alimentos especiais étnicosou religiosos. A irradiação elimina agentes pato- 4|
  • 9. Revista da FAEQUADRO 01 - FAIXAS DE DOSE ABSORVIDA PARA O TRATAMENTO DE ALIMENTOS COM RADIAÇÃO Faixa de dose absorvida no Função Objetivo produto (kGy) Inibição de brotamento em batatas, cebolas, alho, 0,05 – 0,15 gengibre etc. Prolongamento do tempo de 0,25 – 1,0 frutas frescas e armazenamento vegetais Retardo do amadurecimento 1,0 – 3,0 peixe fresco, morangos, cogumelos etc. Desinfestação de insetos e parasitas em cereais, grãos leguminosos, carnes e peixes desidratados, frutas frescas e 0,15 – 0,5 desidratadas etc. Melhoria da qualidade Redução ou eliminação da carga microbiana em frutos do 1,0 – 7,0 mar ou frangos congelados ou frescos, carnes etc. Inativação de agentes patogênicos em aditivos e ingredien- 10 – 50 tes tais como condimentos, enzimas, gomas etc. Redução do número de micro-organismos até a Esterilização em combinação esterilização: carnes, frangos, frutos do mar, alimentos 30 – 50 com outros métodos preparados, alimentos para pacientes imunodeprimidos . Desenvolvimento de novas Alteração das características intrínsecas (uvas mais 2,0 – 7,0 características e produtos suculentas, redução do tempo de cozimento de vegetais) .FONTE: ICGFI (1999) Alternativamente à radiação, alguns fume- livres, originalmente presentes nas amostras. Osgantes são usados para preservação de alimentos. autores desta pesquisa lembram que alguns mitosEntretanto, alguns são prejudiciais à saúde huma- ainda necessitam ser superados antes que a irra-na e agridem o meio ambiente. O Brasil tem uma diação se torne um método amplamente aceitolegislação bastante rígida a esse respeito, confor- pelo público. Para tal, enfatizam que (a) irradiaçãome o Decreto 4.074/2002. O brometo de metila, não torna o alimento radioativo; e (b) irradiaçãomuito usado no passado, é depletor da camada de não destrói nutrientes em maior extensão queozônio e está sendo mundialmente banido. Exceto qualquer outro processo de preservação.para produtos de uso médico, a descontaminação Em pesquisa de opinião pública (ORNELLAScom óxido de etileno (ETO) está proibida no Brasil et al., 2006), ficou evidente que a falta de conhe-desde 1999 (artigo 7º da Portaria Interministerial cimento sobre o processo e seus benefícios é umn. 482/99 dos Ministérios da Saúde e do Trabalho). fator limitante: 89% dos entrevistados consumi- Uma pesquisa realizada na Empresa Brasileira riam alimentos irradiados se soubessem que a irradiação aumenta a segurança alimentar.de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) (MARTINNETO; RODRIGUES; TRAGUETTA, 1996) mostroua total adequação do uso de radiação ionizante 1.3 A gestão industrial de instalações decomo um método eficiente e seguro de desconta- irradiação de alimentosminação de pimenta do reino. Houve uma redu-ção, quando não eliminação completa, de micro- As unidades industriais de irradiação são ins--organismos e ainda a redução do nível de radicais talações compactas onde a máquina, sua estruturaRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |5
  • 10. com a blindagem da radiação e sistemas auxiliares A estratégia de entrada no mercado do serviçopodem ser instalados em menos de 100 m2. O de irradiação de alimentos deve dar atençãoempreendimento é capital intensivo e representa especial à possibilidade de formação de aliançasum investimento da ordem de US$ 3 milhões. cooperativas. Seguindo a tipologia de Garcia-CanalA operação é simples, com pouca manutenção, et al. (2002), acredita-se que as alianças favoráveisflexibilidade de produção e reduzido número de seriam locais e de capacitação. A aliança “local”operadores, que, entretanto, devem ser qualifica- com associações de produtores agrícolas, pordos. A capacidade de produção típica é de 40.000 exemplo, expandiria os mercados de fornecedorest/ano. No investimento inicial, deve-se prever e distribuidores. A aliança “de capacitação” comnão só as despesas decorrentes da instalação do institutos de pesquisa que já atuam nesta áreaequipamento, mas, também, as decorrentes de poderia garantir o cumprimento mais aceleradomarketing e legalização para funcionamento. As dos vários requisitos de regulação e serviria paradespesas anuais devem prever o recarregamento obter vantagem competitiva sobre eventuaisparcial da fonte de Co-60 (dispensável para o concorrentes nacionais ou internacionais. Aacelerador de elétrons), e um fundo de reserva Food Irradiation Processing Alliance - FIPA (FIPA,para o descomissionamento da instalação ao fim 2009) é um fórum internacional de representantesde sua vida útil. industriais com finalidade de discutir e influenciar O cálculo do tempo de retorno do investimento assuntos relacionados à irradiação de alimentos.depende da estimativa dos custos de investimento Uma vez que a escala de produção industriale operacionais, do esquema de tarifas para o seja adequada, também uma aliança global comserviço e da taxa de utilização do equipamento. outro serviço de irradiação já inserido no mercadoNo caso de irradiador, o alto custo da fonte exterior, poderia ser benéfica para atingir estesradioativa, que tem meia-vida de cerca de cinco mercados de modo sustentável.anos (i.e. devido ao decaimento radioativo, emcinco anos a atividade cai à cerca da metade do 1.4 Análise de segurançavalor inicial), faz com que o custo fixo seja aindamaior, tornando crítica a taxa de utilização. O valor Segundo recomendações da Agência Interna-agregado é de especial interesse para o produtor cional de Energia Nuclear (IAEA), vários requisitosou distribuidor do alimento e é calculado com de segurança intrínsecos de projeto da instalação ebase no aumento da vida útil do alimento, ou de operação devem ser observados, especialmenteseja, quanto estoque deixou de ser perdido e no para blindar a radiação da fonte nas áreas comunsaumento do preço que novos mercados podem e para evitar a entrada de pessoas no recinto deproporcionar. Esse cálculo deve considerar a taxa irradiação durante operação e a consequentede venda do produto, sua variação sazonal e a exposição a altos níveis de radiação (IAEA, 1992).distribuição de probabilidade do tempo que o Os irradiadores e aceleradores operam no interiorproduto permanece sem degradação. No caso de labirintos com blindagens densas e espessasde tratamento de mangas com uma dose de 400 suficientes para não expor trabalhadores ou mem-Gy, o custo de produção é em torno de US$18,00 bros do público a níveis de radiação superiores aospor tonelada (SABATO et al., 2009). limites recomendados. 6|
  • 11. Revista da FAE Dentre as instalações não nucleares, os irra- 1.5 Regulação e fiscalização de instalaçõesdiadores e os aceleradores de partículas com capa- que irradiam alimentoscidades para preservar alimentos ou esterilizar arti-gos médicos são classificados como as instalações As instalações estão sujeitas à legislaçãode maior risco (IAEA, 2005). Já ocorreram aciden- pertinente para obtenção de licenças. A fiscalizaçãotes graves em instalações deste tipo, ocasionados é necessária para verificar se os itens de segurançapor falhas humanas decorrentes da pressão para estão sendo obedecidos. Os requisitos atuaisse resolver problemas mecânicos no irradiador que evoluíram conforme previsto por Oliveira (2000)causavam a descontinuidade de produção. A fonte com a publicação da Resolução nº 21/2001de radiação é poderosa o suficiente para causar a da Agência Nacional de Vigilância Sanitáriasíndrome aguda da radiação (SAR). Em 1991, ocor- (Anvisa), que regula as atividades de irradiação dereu um acidente em Nesvizh, Belarrúsia, quando alimentos. Esta resolução permite que qualquero operador propositadamente corrompeu vários alimento poderá ser tratado por radiação desdedispositivos de segurança e intertravamentos de que a dose máxima absorvida seja inferior àquelaum antigo irradiador usado para esterilização de que comprometeria as propriedades funcionais ouartigos médicos e entrou na câmara de irradiação os atributos sensoriais do alimento. Exige tambémpara desemperrar a correia transportadora (IAEA, que a embalagem contenha a informação:1996). O operador permaneceu a 0,2 m da fonte “Alimento tratado por processo de irradiação”.Co-60 com 28,1 PBq de atividade por menos dedois minutos e cerca de cinco minutos depois, No caso de alimentos vendidos a granel, deve-já sentia os efeitos da SAR, tais como vômitos e se colocar uma faixa com a indicação citada.dores no estômago, seguidos, após 50 minutos, Pode-se também utilizar o símbolo internacionalde diarreia. Pela geometria de exposição e sinto- correspondente (figura 01).mas físicos, estimou-se que ele tivesse recebido FIGURA 01 - SÍMBOLO INTERNACIONAL DA IRRADIAÇÃO DE ALIMENTOSuma dose letal superior a 10 Gy, necessitando decuidados médicos especializados emergenciais. Aanálise deste e de outros acidentes que ocorreramno passado serviram como base para modificaçõesno projeto de instalações deste tipo, de modo agarantir que os princípios de redundância, defesaem profundidade e independência de dispositivosde segurança sejam obedecidos em qualquer caso. Sob o ponto de vista de proteção ambien-tal, como a operação de irradiadores não geraefluentes radioativos, não há impacto ambiental.Também não gera rejeitos radioativos, pois as fon-tes de Co-60 exauridas devem ser devolvidas ao FONTE:CAC (1991)fabricante. O benefício ambiental está na reduçãodo uso de fumegantes nocivos. Mantendo-se os O licenciamento para garantir a proteçãocontroles exigidos, a etapa de maior risco radioló- radiológica de trabalhadores e do público e agico durante a vida do irradiador é o carregamento segurança das fontes de radiação é conduzidodas fontes de Co-60. pela Comissão Nacional de Energia NuclearRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |7
  • 12. (CNEN). O licenciamento de instalações radiativas A Organização Mundial de Comércio apontasegue um conjunto de etapas consecutivas que o Brasil como o quarto país em volume deinicia com a aprovação do local da instalação exportação de produtos agrícolas (WTO, 2008).e segue até a retirada de operação, ao fim da O Brasil é o terceiro país produtor de frutas, atrásvida útil da instalação. O Ibama é o órgão que da China e da Índia. Segundo o Instituto Brasileirorealiza o licenciamento ambiental das instalações de Frutas (IBRAF, 2009), em 2008 o Brasil exportouque também segue etapas de autorizações 888 mil toneladas de frutas frescas, das 43 milhõesdesde a aprovação do local. O funcionamento de toneladas produzidas, com um decréscimode uma instalação para irradiação de alimentos de 3,3% em relação a 2007. Neste período, adepende ainda da obtenção do Alvará Sanitário exportação de mangas aumentou ligeiramente,e o cadastramento nos órgãos competentes do mas a de papaias caiu.Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura. Uma das restrições à exportação é, semCom todas as exigências dos vários órgãos do dúvida, o custo do frete, que está relacionado aogoverno, o licenciamento pode durar pelo menos tempo gasto em transporte. O frete aéreo é mais2 anos. Durante o período de licenciamento, caro que o marítimo e a tendência é que o custo dovárias atividades de desenvolvimento do mercado frete aéreo aumente. A União Européia reconhecepoderiam ser realizadas, por exemplo, campanhas que o transporte aéreo é um dos principaisde esclarecimento da população e abertura do emissores de gases que causam o aquecimentomercado exterior. global e resolveu impor limitações e controles baseados no princípio de que “o poluidor paga” (EU, 2006). A preservação de manga e papaia com1.6 Comércio internacional de alimentos radiação triplica o tempo de vida útil da fruta, irradiados chegando a 21 dias (CENA, 2007), o que viabiliza o frete marítimo dessas frutas para alguns mercados A tecnologia de irradiação de alimentos parasua preservação surgiu oportunamente como uma mais distantes.alternativa viável de tratamento para atender aos Apesar do curto prazo para transporte e dis-requisitos do Acordo na Aplicação de Medidas tribuição para os consumidores, a União EuropéiaSanitárias e Fitosanitárias da Organização Mundial foi responsável por 72% das exportações brasilei-do Comércio (WTO, 1995). Esse acordo considera ras de mangas de janeiro a novembro de 2009,as recomendações de organizações internacionais, segundo dados disponíveis no sistema de análiseincluindo a Codex Alimentarius Commission que das informações de comércio exterior via Internettrata de irradiação de alimentos (CAC, 2003). A (ALICEWeb) mantido pela Secretaria de ComércioConvenção Internacional de Proteção a Plantas Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimen-(IPPC), cujo texto está disponível em www.fao.org/ to, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).Legal/TREATIES/004s-e.htm, tem como objetivoassegurar a ação efetiva para prevenir a dissemina- Entretanto, quando se considera o trata-ção de pestes e doenças em plantas e produtos e mento fitossanitário com radiação, nem todospromover medidas apropriadas para seu controle. os mercados aceitam os produtos irradiados tãoDentre as recomendações desta Convenção estão bem quanto os quase 50 países que já possuemas diretrizes para o uso de irradiação como medida regulamentação sobre o tema. Por exemplo, nofitossanitária (ISPM, 2003). Parlamento Europeu, prevaleceu nas décadas pas- 8|
  • 13. Revista da FAEsadas uma política de atraso e obstrução no uso de o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nuclearesqualquer tecnologia nuclear, o que contrastou com (Ipen) e Centro de Desenvolvimento de Tecnologiao crescente desenvolvimento americano, onde a Nuclear (CDTN), assim como em algumaspreocupação com a saúde pública impulsionou universidades. Algumas unidades de esterilizaçãoa aceitação de produtos tratados com radiação de artigos médicos por radiação existentes no Brasil(DIEHL, 2002). Os requisitos americanos para im- também irradiam, eventualmente, condimentos,portação de produtos tratados com radiação são atendendo parcialmente a esse mercado.bastante rígidos e o processo de avaliação pode As duas iniciativas recentes para irradiar ali-levar anos. Mudanças estão sendo planejadas pelo mentos em escala industrial no Brasil fracassaramDepartamento de Agricultura americano (GREEN, em poucos anos. Na unidade instalada no Rio de2008), o que irá reduzir o custo de controle sobre a Janeiro, a causa provável foi a falência da empresairradiação para importação pelos Estados Unidos. matriz americana SureBeam Corp.. Atualmente, Farkas (2006) apresenta um resumo do sta- a unidade é operada por uma empresa nacional,tus da irradiação de alimentos no mundo e prevê Acelétrica Com. e Rep. Ltda.. Na unidade de Ma-avanços na área com a formação de fóruns inter- naus instalada pela TechIon Industrial Brasil Ltda.,nacionais para reunir e disseminar informação, uma ação na justiça decorrente de denúncia decom base científica, sobre segurança e benefícios má gestão do financiamento público suspendeuda irradiação de alimentos. De acordo com o a operação do irradiador. Em ambos os casos, aestudo detalhado da situação da irradiação de localização do serviço não é a ideal, por estaremalimentos (KUMEA et al., 2009), a quantidade de distantes dos mercados produtores de alimentos,alimentos irradiados no mundo em 2005 foi de e, portanto, os alimentos podem chegar para irra-405 mil toneladas, com uma estimativa de cres- diação já em deteriorização avançada. Atualmente,cimento na Ásia. uma empresa americana que controla totalmente Na América Latina, existem unidades indus- uma subsidiária brasileira, Gamma - Serviços detriais de irradiação na Argentina, Brasil, Chile, Irradiação Ltda., está planejando implantar qua-Cuba, México e Peru. A China tem 101 irradiadores tro irradiadores no Nordeste, com possibilidadee está construindo outros dez (WANG; ZHANG; de expansão para oito unidades (SECUREFOODS,PENG, 2008). Dos 25 irradiadores da Índia alguns 2009). Embora o nível de competitividade entresão dedicados à exportação de alimentos. Após empresas que irradiam alimentos ainda não sejao governo dos EUA ter aprovado a importação claro, a empresa americana informa ter obtidode mangas indianas irradiadas, a tendência é de os direitos sobre o uso exclusivo no Brasil de umcrescimento nessa área industrial (KOHLI, 2008). tipo de tecnologia particularmente adequada para irradiação de alimentos.1.7 Irradiação de alimentos no Brasil 2 Resultados e discussão As pesquisas brasileiras na área de preservaçãode alimentos vêm sendo conduzidas pela Empresa Com base na investigação documental re-Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), alizada e nas entrevistas semi-estruturadas comCentro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/ especialistas dos vários setores envolvidos, existemUSP) e por outros institutos de pesquisa como evidências de que o Brasil possui conhecimentoRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |9
  • 14. acumulado sobre o que é necessário para o uso e etiquetagem, além de consultoria emem escala da preservação de alimentos por irra- certificação para exportação. A gestãodiação (CENA, 2007). Além disso, possui excelente dos riscos operacionais é fundamental parainfraestrutura em equipamentos e competência prevenir contingências e interrupções detécnica para pesquisa e desenvolvimento da fornecimento e para correta definição detécnica. Os empresários interessados podem se preço do serviço (WIELAND; DEL MASTRO, 2008).beneficiar dessa vantagem e focar os esforços naprodução, aproveitando ao máximo a capacidade b) Mercado interno – A desmistificação sobredo equipamento e, assim, aumentando o retorno alimentos irradiados deve ser feita em ca- nais de comunicação que atinjam a popula-do investimento. Está prevista a construção de ção consumidora, a cadeia de fornecedoresvários irradiadores de alimentos no Nordeste. e de distribuidores.Entretanto, sem uma política de desenvolvimen- c) Exportação – Para a exportação dos pro-to de infraestrutura de transportes, exportação dutos tratados com radiação sugere-see programa e aceitação de produtos irradiados, divulgar no exterior uma marca que sim-além da simplificação da regulação e do apoio bolize a qualidade dos produtos tratadosdo Ministério da Agricultura, a produção não irá brasileiros, além de esclarecer os produ-escoar para os mercados consumidores a preços tores agrícolas a respeito das exigênciasacessíveis. dos diversos mercados. A certificação pelo A investigação das possíveis causas do atraso Instituto Nacional de Metrologia, Normali-no desenvolvimento industrial do tratamento de zação e Qualidade Industrial (Inmetro) daalimentos com radiação no país revela a necessi- conformação com critérios de qualidade edade de agir de modo integrado especialmente fitossanitários é de suma importância paranas seguintes áreas (quadro 01): a plena aceitação dos produtos. Souza e Amato Neto (2009) analisaram a inserção a) Gestão Industrial - A ação de melhorias de mangas e uvas nos mercados inglês e deve-se dar, preferencialmente, por meio alemão e ressaltam a importância da aná- de alianças estratégicas entre os diversos lise e distinção da estrutura da cadeia de atores envolvidos, incluindo associação de valor para cada mercado alvo para garantir produtores e cooperativas, processadores, maior vantagem competitiva. exportadores, distribuidores, bancos fi- nanciadores, Instituto Brasileiro de Frutas d) Educação agrícola – As informações sobre (Ibraf), Serviço Brasileiro de Apoio às Micro a irradiação de alimentos são publicadas e Pequenas Empresas (Sebrae), empresas em revistas científicas ou limitadas aos de logística e institutos de pesquisa. Em centros de pesquisa. Sugere-se que o tema se tratando de uma indústria em fase de seja divulgado adequadamente nos meios crescimento no Brasil, é desejável que esta educacionais de nível médio e superior e forneça assistência aos clientes, a exemplo tratado como uma realidade economica- do que faz a empresa mexicana Benebión mente competitiva. (www.phytosan.com). Esse apoio poderia e) Financiamento – o empreendimento é ca- ser em controle de qualidade da produção pital intensivo e já houve casos de fracasso do alimento, preenchimento dos requisi- para implantação desta indústria no país, tos regulatórios, serviços de transporte, mesmo com a disponibilidade de financia- embalagem, armazenagem intermediária mento público. A sustentabilidade do ne- 10 |
  • 15. Revista da FAE gócio não deveria ser comprometida pela realizar mais rapidamente as avaliações de má gestão deste tipo de empreendimento, risco necessárias ao processo de tomada o que pode impactar negativamente na de decisão em regulação na área de agri- reputação do setor nuclear como um todo. cultura, as instituições especializadas, por f) Licenciamento - os órgãos governamentais exemplo, a Embrapa ou o Cena, poderiam envolvidos, Ministério da Agricultura, se- ser contatadas. cretaria estadual e municipal relacionados g) Apoio governamental – vários órgãos do ao agronegócio, Ibama e órgãos seccionais, governo estão envolvidos no agronegócio. Anvisa e VISAs e CNEN, deveriam tentar O sucesso do empreendimento depende simplificar a regulação através de acordo de essencialmente da política governamental mútua cooperação, evitando duplicidade favorável à exportação de alimentos. de esforços, atrasos e a criação de monopó- lios, por dificultar a livre competição. ParaQUADRO 02 - OPORTUNIDADES DE MELHORIAS EM IRRADIAÇÃO DE ALIMENTOS, VISANDO A EXPORTAÇÃO Área Oportunidades de melhorias - Análise e integração dos vários aspectos de gestão industrial para tomada de decisão sobre o investimento. - Definição da localização e dimensionamento da capacidade de produção. - Padronização de parâmetros de irradiação com a elaboração de um manual com as faixas de dose e condições de irradiação para os diversos alimentos e flexibilidade para a) Gestão industrial do serviço de aprimoramentos. tratamento com radiação - Otimização do tempo de preparação para irradiar diferentes alimentos e programação sazonal. - Avaliação de riscos. - Gestão de alianças estratégicas. - Assistência a clientes. - Programa de esclarecimento sobre as vantagens dos alimentos tratados com radiação nos b) Mercado interno grandes canais de comunicação. - Atendimentos aos requisitos técnicos, comerciais e da vigilância sanitária dos mercados recebedores. - Obtenção da certificação da qualidade para a aceitação dos produtos no mercado c) Exportação de produtos irradiados internacional. - Marketing internacional. - Divulgação dos benefícios da técnica entre os empresários do agronegócio e exportadores. - Maior ênfase do tema nos currículos educacionais de nível médio e superior das escolas de tecnologia agrícola e de alimentos, não como uma tecnologia nova, mas como um d) Educação agrícola procedimento viável. - Divulgação das vantagens do tratamento de produtos com radiação pela imprensa especializada no agronegócio e demonstrada em feiras e exposições da agroindústria. Abertura de crédito para financiamento do empreendimento a cooperativas com dispositivos e) Financiamento que garantam a longevidade e segurança da instalação. - Acordo entre os vários órgãos do governo para agilizar e evitar a duplicação de esforços f) Licenciamento e exigências desnecessárias uma vez atendidas as condições de segurança radiológica, ambiental e alimentar. - Concentração dos esforços das áreas de indústria e comércio e de relações exteriores para divulgar e facilitar as exportações. g) Apoio governamental - Apoio às iniciativas dos estados e municípios para melhoria das vias vicinais de escoamento da produção.FONTE: Os autores (2010)Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |11
  • 16. Conclusões Destaca-se a importância do apoio gover- namental para divulgar as vantagens da técnica, Este trabalho contribui para o desenvolvimen- facilitar o comércio de alimentos tratados com radiação e atualizar os currículos educacionais deto da indústria de preservação de alimentos com escolas agrícolas.radiação ionizante, fornecendo uma visão abran-gente e multidisciplinar da questão, e indicando A preservação de alimentos com radiação élinhas de ação, calcadas na proposta de alianças uma técnica bem conhecida pelos pesquisadoresestratégicas e acordos de cooperação, tanto para da área nuclear, entretanto, não tão divulgada noacessar e conquistar o mercado interno quanto agro-negócio. Sugere-se como futuro desenvol-para o desenvolvimento do comércio exterior. vimento da área que as atividades de irradiação de alimentos seja levada intensivamente a feiras Para uma efetiva promoção da conservação de e exposições agroindustriais. Futuras pesquisasalimentos por radiação, a análise das informações poderiam ser realizadas para a redução de custolevantadas sugere que a indústria deve tratar os de produção, relacionadas ao desenvolvimento devários aspectos técnicos, empresariais, econômicos irradiadores e aceleradores nacionais e a simplifi-e ambientais de forma integrada e coordenada, cação de critérios regulatórios, visando à reduçãoconsiderando estrategicamente a formação de do tempo de obtenção de licenças. O mercadoalianças tanto com entidades relacionadas à sua alvo para a exportação de alimentos tratados comcadeia de suprimentos, quanto com instituições de radiação deve ser avaliado em termos de gover-ensino e pesquisa. As associações de produtores e nança do comércio, beneficiando-se da comple-distribuidores, cooperativas agrícolas e industriais mentariedade sazonal da produção agroindustrialinteressados devem focar os esforços na gestão de frutas tropicais com outros exportadores, taisindustrial e otimizar a utilização das instalações como Índia e México.e a logística de suprimentos, escoamento edistribuição da produção. O quadro 02 sintetiza as principais açõespropostas em gestão industrial do serviço de tra-tamento com radiação, desenvolvimento do mer-cado interno, exportação de produtos irradiados, • Recebido em: 23/07/2010 • Aprovado em: 13/10/2010educação agrícola, financiamento, licenciamentoe apoio governamental. 12 |
  • 17. Revista da FAEReferênciasCAC. Codex General Standard for Irradiated Foods. Codex Alimentarius Commission. CODEXSTAN 106-1983. rev.1, 2003._____ Codex General Standard For The Labelling Of Prepackaged Foods. CODEX ALIMENTARIUSCOMMISSION. CODEX STAN 1-1985. rev. 1, 1991.CDC. FoodNet Surveillance Report 2005. EUA: Center for Disease Control and Prevention. 2005.Disponível em: <http://www.cdc.gov/foodnet/annual/2005/2005_AR_Report.pdf>. Acesso em: 30dez. 2009.CENA. Divulgação da tecnologia de irradiação de alimentos e outros materiais. Piracicaba: Centrode Energia Nuclear na Agricultura, 2007. Disponível em: <http://www.cena.usp.br/irradiacao/index.asp>. Acesso em: 30 dez. 2009.DEL MASTRO, N. Development of food irradiation in Brazil. Progress in Nuclear Energy, New York,v.35, n.3-4, p.229-248, 1999.DIEHL, J. F. Food irradiation: past, present and future. Radiation Physics and Chemistry, Oxford NY, v.63, p.211-215, 2002.EU. European Parliament Resolution on Reducing the Climate Change Impact of Aviation.P6_TA(2006)0290. 4 jul. 2006. Disponível em: <http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:C:2006:303E:0119:0123:EN:PD. Acesso em: 03 jan. 2010.FAO. Post-harvest losses aggravate hunger: Improved technology and training show success inreducing losses. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Disponível em: <http://www.fao.org/news/story/en/item/36844/icode/>. Acesso em: 30 dez. 2009.FARIA, E. F. et al. Viabilidade técnica, econômica e ambiental da implantação de um irradiador demateriais. In: ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 19., 1999, Rio de Janeiro.Anais...Rio de Janeiro, 1999.FARKAS, J. Irradiation for better foods. Trends in Food Science and Technology, Guildford, GB,v.17. p.148-152, Apr. 2006.FOOD IRRADIATION PROCESSING ALLIANCE – FIPA. Disponível em: <http://www.fipa.us/>. Acessoem: 15 set. 2009.GARCIA-CANAL, E. et al. Accelerating international expansion through global alliances: A typologyof cooperative strategies. Journal of World Business, Greenwich, Conn., v.37, n.2, p. 91-107,Summer 2002.GLORIA, M. B. Estudo de viabilidade técnico-econômica para implantação de uma instalaçãoindustrial de grande porte na Amazônia Legal. Rio de Janeiro: IRD, 1987a (Separata, n.152)._____. Estudo de viabilidade técnico-econômica para implantação de uma instalação industrial deirradiação de grade porte no Vale do São Francisco. Rio de Janeiro: IRD, 1987b (Separata, n.153).Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |13
  • 18. GREEN, A. USDA’s operational experience in the growing use of irradiation as a plant quarentinetreatment for safe trade. In: International Meeting on Radiation Processing (IMRP2008).London, 2008. Disponível em: <http//:www.iiaglobal.org/uploads/documents/imrp2008/Alan%20Green.pdf>. Acesso em: 30 dez. 2009.GHOBRIL, C.; DEL MASTRO, N. The socioeconomic aspects of the construction of an industrialgamma irradiator in the Ribeira Valley, Sao Paulo, Brazil. International Journal of NuclearGovernance, Economy and Ecology, Olney, GB, v.2, n.3, p.250-261, June 2009.INSTITUTO BRASILEIRO DE FRUTAS - IBRAF. Comparativo de exportações brasileiras defrutas frescas 2008-2007. Disponível em: <htt://www.ibraf.org.br/estatisticas/exportação/ComparativoExportacoesBrasileiras2008-2007.pdf>. Acesso em: 04 out. 2009.IAEA. Categorization of radiation sources. Viena: International Atomic Energy Agency, 2005.______. Irradiation to ensure the safety and quality of prepared meals. Viena: InternationalAtomic Energy Agency, 2009.______.The Radiological accident at the irradiation facility in Nesvizh. Viena: InternationalAtomic Energy Agency, 1996.______.Radiation safety of gamma and electron irradiation facilities. Viena: International AtomicEnergy Agency, 1992 (IAEA Safety Series n.107).ICGFI. Facts about food irradiation. International Consultative Group on Food Irradiation, 1999.Disponível em: <http://www.iaea.org/nafa/d5/public/foodirradiation.pdf>. Acesso em: 08 fev. 2009.ISPM. Guidelines for the use of irradiation as a phytosanitary measure. International Standardsfor Phytosanitary Measures. ISPM No. 18: Secretariat of the International Plant ProtectionConvention, 2003.KOHLI, A. K. New opportunities of radiation rrocessing in India. In: International Meeting onRadiation Processing (IMRP2008). London, 2008. Disponível em: <http://www.iiaglobal.org/uploads/IMRP2008/186%20Kohli.pdf>. Acesso em: 30 dez. 2009.KUMEA, T. et al. Status of food irradiation in the world. Radiation Physics and Chemistry, Oxford,NY, v.78, n.3, p.222–226, Mar. 2009.MARECHAL, M. H. H. Licenciamento de instalações médicas e industriais. In: ENCONTRO NACIONALDE INFORMAÇÃO REGULATÓRIA, 2., 2009, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, 2009. Disponívelem: <www.cnen.gov.br/hs_enir2009/palestras/02_CGMI.pps>. Acesso em: 30 dez. 2009.MARTIN NETO, L.; RODRIGUES, H. R.; TRAGHETTA, D. G. Uso de radiação ionizante para esterilizaralimentos e detecção de radicais livres por EPR. São Carlos, 1996. Disponível em: <http.://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/handle/CNPDIA/9815>. Acesso em: 30 dez. 2009.OLIVEIRA, L. C. Present situation on food irradiation in South America and the regulatoryperspectives for Brasil. Radiation Physics and Chemistry, Oxford, NY, v.57, p.249-252, 2000. 14 |
  • 19. Revista da FAEORNELLAS, C. B. D. et al. Atitude do consumidor frente à irradiação de alimentos. Ciência eTecnologia de Alimentos, Campinas, v.26, n.1, p.211-213, jan./mar. 2006.PEROZZI, M. Irradiação: tecnologia boa para aumentar exportações de frutas. Inovação Uniemp,Campinas, v.3 n.5, p.42-44, set./out. 2007.SABATO, S.F. et al. Advances in commercial application of gamma radiation in tropical fruits atBrazil. Radiation Physics and Chemistry, Oxford, NY, v.78, n.7-8, p.655-658, July/Aug. 2009.SECUREFOODS. Food Irradiation. Brazilian Resources Inc., Disponivel em: <www.brazilianresources.com/s/Food-Irradiation.asp2008>. Acesso em: 30 dez. 2009.SOUZA, R.; AMATO NETO, J. As transações entre supermercados europeus e produtores brasileirosde frutas frescas. Gestão & Produção, São Carlos, v.16, n.3, p.489-501, jul./set. 2009.WANG, C.; ZHANG, H.; PENG, W. Gamma irradiation in China: past, present and future. In:International Meeting on Radiation Processing (IMRP2008). London, 2008. Disponível em:<http://www.iiaglobal.org/uploads/documents/imrp2008/Peng%20Wei.pdf>. Acesso em: 30 dez.2009.WIELAND, P; DEL MASTRO, N. Operational risk management at industrial irradiation plants. In:International Meeting on Radiation Processing. London, 2008. Disponível em: <http://www.iiaglobal.org/uploads/IMRP2008/077%20del%20Mastro%20paper.pdf>. Acesso em: 30 dez. 2009.WIELAND-FAJARDO, P.; REGO, F. C. Radioesterilização. Rio de Janeiro: Instituto de EngenhariaNuclear, 1993.WORLD TRADE ORGANIZATION - WTO. The WTO Agreement on the Application of Sanitary andPhytosanitary Measures (SPS Agreement). 1995. Disponível em: <http://www.wto.org/english/tratop_e/sps_e/spsagr_e.htm>. Acesso em: 20 fev. 2009.______. WTO International Trade Statistics. 2008. Disponível em: <http://www.wto.org/english/res_e/statis_e/its2008_e/its08_merch_trade_product_e.pdf>. Acesso em: 04 out. 2009.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 1-16, jul./dez. 2010 |15
  • 20. Revista da FAEO treinamento experiencial e sua aplicação no contextocorporativo: estudo comparativo entre programas detreinamento realizados nos Estados Unidos e no BrasilThe experiential training and its corporate context application:comparative study between training programs in the UnitedStates and BrazilResumo Zélia Miranda Kilimnik* Eder Menezes Reis**As corporações têm passado por períodos contemporâneos de mudanças edesafios que as têm levado a adotar ações gerenciais diversas para incrementono resultado financeiro, na manutenção do resultado financeiro alcançado ouà sua sobrevivência no mercado. Em escalas diferenciadas e de acordo como porte e a cultura, as empresas têm se preocupado com o capital intelectualdos empregados, apostando no valor intangível das suas organizações. Esteartigo investiga uma opção ao treinamento comportamental tradicional,avaliando a eficácia, de forma comparativa, da utilização do treinamentoexperiencial no contexto corporativo. Foi realizada uma pesquisa qualitativa equantitativa, envolvendo diversas técnicas, tais como observação, entrevistase questionário de avaliação de efetividade do treinamento (Ropeloc), quefoi aplicado aos funcionários de uma empresa contratante do treinamentoexperiencial situada em Huston, Estados Unidos, e em outra situada emBelo Horizonte, Brasil. Os resultados indicam melhor aproveitamento dotreinamento aplicado no Brasil, sendo que os itens que apresentam melhordesempenho com a aplicação da metodologia de treinamento experiencial sãobusca pela qualidade, pensamento aberto, liderança e lidar com mudanças.Esses resultados surpreendem, dada a melhor infraestrutura da organizaçãoestudada nos Estados Unidos e seus maiores cuidados com a segurança noque se refere aos equipamentos utilizados.Palavras-chave: treinamento comportamental; treinamento experiencial;metodologia de treinamento experiencial.AbstractCorporations have gone through periods of contemporary changes andchallenges that have led then to adopt management actions to increase infinancial results, maintenance of the achieved financial results and their ownsurvival in the market. In different scales and according to their size and culture,business has been concerned with the intellectual capital of its employees byfocusing on intangible value of their organizations. This study investigatesan option to traditional behavioral training, evaluating the effectiveness ofa comparative analysis of the use of experiential training in the corporatecontext. We performed a qualitative and quantitative research, involvingseveral techniques such as observation, interviews and a questionnaire on the * Doutora em Administração pelaeffectiveness of training (ROPELOC), which was applied on the employees of a Universidade Federal de Minascontractor of experiential training based in Huston, United States of America Gerais. Professora na Fundaçãoand another, located in Belo Horizonte, Brazil. The results show a better use of Mineira de Educação e Cultura.applied training in Brazil, and the items that perform better in the application ** Mestre em Administração pelaof experiential training methodology is the search for quality, open thinking, Fundação Mineira de Educação eleadership and dealing with the changes. These results are surprising, given cultura. Gerente de Fábrica da DSIthe best infrastructure of the organization studied in the United States and Fosminas (Multinacional ligada aits better care of safety concerning to equipments used. mineração). E-mail: ederynca@Keywords: behavioral training; experiential training; experiential training yahoo.com.brmethodology.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |17
  • 21. Introdução nas modalidades low ropes (cordas baixas) e high ropes (cordas altas). Esses termos são utilizados Em 1920, a primeira escola que enfocou nos Estados Unidos para definir os níveis de difi-responsabilidade, igualdade, justiça social, res- culdade aos quais as pessoas são expostas.peito e serviço comunitário surgiu na Alemanha, Low ropes são atividades aplicadas no solo oucom o primeiro trabalho realizado por Kurt Hahn bem próximas a ele, com a função de integração(educador e filósofo alemão) atuando com edu- das pessoas que estão em treinamento e tambémcação inovativa praticada ao ar livre. Na época, para que o facilitador avalie o nível de coesão,as atividades físicas ao ar livre já tinham caráter comprometimento, envolvimento e auto-suportecolaborativo. entre os participantes, visando à proposição de De acordo com Hammerman (1980), os pri- forma progressiva de atividades mais desafiadorasmeiros programas de treinamento experiencial ao para os grupos, nos equipamentos de high ropes,ar livre em áreas de camping nos Estados Unidos que geralmente são acessíveis por paredões de es-começam em 1930. Em 1976, surge a Associa- calada, escadas e postes inclinados. As atividadesção para a Educação Experiencial, referindo-se chamadas high ropes elevam o nível de estresseao aprendizado ao ar livre como uma forma de por estarem posicionadas geralmente a oito, noveeducação experiencial. A indústria de construção ou mais metros do solo, tornando a percepçãode challenge courses (percursos de desafio), que de risco maior. São utilizados equipamentos desão áreas de treinamento ao ar livre compostas segurança, cordas, cabos de aço, cinturões etc.de diversos equipamentos, onde acontecem ativi- As atividades fora do solo podem ser pratica-dades relacionadas à educação experiencial, teve das por uma, duas ou mais pessoas, dependendocrescimento acentuado na década de 1990 e o do equipamento e de sua configuração. Quandonúmero de consultores que proviam essa moda- os equipamentos estão isolados, são chamadoslidade de treinamento também acompanhou esse por nomes próprios, mas se são utilizados em áreacrescimento. próxima ou estão em configuração sequenciada, Attarian (2001) afirma que se, em 1992, são chamados de challenge courses (percursoshavia 300 áreas de treinamento ao ar livre nos de desafio).Estados Unidos, em 2001, eram mais de 15 000 A partir do início dos anos 1990, técnicas eem operação. O governo norte-americano, até os equipamentos de esportes e atividades não-con-dias atuais, não regulamentou essas atividades, vencionais praticados ao ar livre, como escaladapropiciando que a iniciativa privada crie padrões em rocha, rapel, arvorismo e atividades no solo,para construção, operação, manutenção e geren- têm sido utilizados em treinamentos comporta-ciamento relacionados a essas atividades. mentais corporativos experienciais, com a fina- No Brasil, o Treinamento Experiencial ao Ar lidade de desenvolver determinadas habilidadesLivre – TEAL – ocorreu pela primeira vez em maio (liderança, superação de obstáculos, trabalho emde 1992, em uma área em Teresópolis, Rio de Ja- time, entre outros), em grupos de trabalho, visan-neiro, sendo organizado pela Dinsmore Associats do ao melhor desempenho nas atividades corpo-e pela empresa americana Pro Action, usando rativas. Unir as pessoas em torno de uma tarefa,técnicas desenvolvidas por eles, de acordo com na qual é esperado que elas atinjam um objetivoo modelo americano de treinamento ao ar livre com esforço mútuo, ou expor cada indivíduo a 18 |
  • 22. Revista da FAEsituações nas quais a superação de obstáculos própria. Já outras optam por alugar esse espaçoserá incentivada pelo grupo são exemplos de ob- e utilizar equipamentos próprios. Foi tambémjetivos de uma gama de propostas de treinamento percebido que empresas menores e consultoresque buscam conciliar objetivos e atividades para adquiriram o hábito de alugar áreas naturais paragerar um ciclo de aprendizado vivencial dirigido treinamentos e contratar serviços, tais como oà proposta do treinamento. equipamento de empresa terceira. No contexto norte-americano, a padroniza- Também foi verificado que é comum queção foi fruto da possibilidade de embargo gover- empresas de ecoturismo expandam suas ativida-namental às atividades, caso a falta do padrão des, oferecendo treinamentos experienciais por jácausasse acidentes aos praticantes. Dessa padro- possuírem área natural e equipamento, mesmonização surgiu a Association of chalenge courses que não possuam capacidade técnica tanto detecnology – (ACCT) – Associação para tecnologia aplicação do treinamento quanto de manuten-dos percursos de desafio. Atualmente, essa enti- ção e lida com os treinandos. Essas empresas dedade é responsável pela criação, pela divulgação ecoturismo abordam o foco mais recreativo, seue pela revisão dos padrões que são utilizados negócio original, na utilização da vivência obtidapelas empresas que operam, constroem e que nas atividades ao ar livre refletidas no treinamentodão manutenção e suporte. A associação, por sua organizacional, ao contrário do que ocorre nos Es-vez, é ligada ao Instituto Nacional Americano de tados Unidos, de acordo a percepção deste autor,Padrões – ANSI –, que é responsável por atualizar e que teve a oportunidade de fazer treinamentos edivulgar as normas referentes às atividades de pa- estágios naquele país.dronização em diversos segmentos das atividades As maiores empresas mineiras não são muitoindustriais, comerciais e de engenharia, visando à receptivas quando são abordadas sobre a possibili-segurança para os produtos e para os usuários. O dade de abertura para um trabalho acadêmico, te-ANSI desenvolve trabalhos similares aos realizados mendo o plágio de suas atividades. Seus dirigentespelo Instituto Nacional de Metrologia – INMETRO não são claros quando são inquiridos sobre seus–, que é o órgão brasileiro responsável pela pa- métodos e suas principais atividades específicas dedronização e pela normalização. treinamento, descartando a possibilidade de um Com o intuito de obter informações relevan- estudo, sob a alegação de que pessoas externastes sobre o treinamento experiencial, obtivemos, à organização podem criar uma empresa similar,por meio de entrevista com empresas e com con- tornando-se concorrentes.sultores que realizam treinamentos experienciais, Justifica-se, assim, um estudo exploratóriono período de abril a junho de 2009, informações em outro país, mais especificamente nos Estadosrelevantes de como é esse mercado na realidade Unidos, visando a obter conhecimento teórico elocal. Observa-se, assim, que, na grande Belo Hori- prático sobre o tema, e trazê-lo para a realidadezonte e regiões próximas, existem várias empresas local, colaborando para a melhoria do conteúdoque oferecem essa modalidade de treinamento, dessas atividades com foco corporativo. Os pro-com grande diversidade de propostas, em ter- cedimentos de segurança e de organização deve-mos de duração e de custos. Algumas empresas rão somar valor para as prestadoras de serviço,dispõem de toda a estrutura necessária, como: gerando boas práticas no manuseio e na estoca-recursos humanos, equipamentos e área natural gem dos seus equipamentos. Adicionalmente, asRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |19
  • 23. atividades de ecoturismo poderão potencializar do por obstáculos naturais. De fato, o ambientesuas atividades por meio da melhoria qualitativa ao ar livre tem longa história por prover espaçosdos processos internos. especiais para que o indivíduo aprenda, de modo As corporações contratantes do treinamento profundo, sobre si mesmo e sobre sua interaçãoexperiencial ao ar livre poderão também avaliar as social com os outros.etapas das atividades, baseando-se nas teorias e FIGURA 01 - A ÁRVORE DA EDUCAÇÃO AO AR LIVREconhecendo a fundamentação dos processos dotreinamento. Devido ao fato de o treinamentoexperiencial ser utilizado geralmente para reforçara missão da empresa ou para modificar compor-tamentos inadequados à realidade corporativa,este estudo dará subsídios para que a corporaçãoobtenha o resultado esperado nessa modalidadede treinamento. Ou seja, para que o treinamentotorne-se efetivo e não resulte apenas em horasde lazer. Este trabalho teve como objetivo gerarconhecimentos, colaborando com empresas,consultores, prestadores de serviço e corporaçãocontratante, disponibilizando, de forma maisaprofundada, os fundamentos da atividade detreinamento ao ar livre e da educação experiencial. FONTE: Adaptado de Priest e Gass (1983) De acordo com Priest e Gass (1983), ilustradoTeoria da educação ao ar livre em seu modelo chamado “árvore da educação ao ar livre”, na qual, em sua base (as raízes), estão Segundo Barros (2000), Outdoor Education cognição, afetividade e movimentos como gran-ou Educação ao Ar Livre é uma vivência edu- des grupos, e sons, intuição, tato, gosto, visãocacional que faz uso de desafios presentes em e olfato são alusivamente relacionados com aáreas naturais como metodologia educativa. A essência humana, que deve ser aprimorada peloEducação ao Ar Livre é um método de aprendi- treinamento ao ar livre. Logo acima das raízes,zagem experiencial que utiliza todos os sentidos o tronco simboliza a educação ao ar livre comode uma pessoa, ocorrendo principalmente pela grande suporte ao ser humano em seu processoexposição do aluno ou do visitante a ambientes de treinamento. Mais acima, o frondoso tronco senaturais. De acordo com Neill (2003), a utilização desdobra em duas partes, duas vertentes: uma é a educação por meio da aventura em áreas abertasdas atividades ao ar livre para fins educativos e a outra é a vertente para a educação ambiental.envolve aventura para propiciar crescimento pes- Já os galhos simbolizam as relações intrapessoaissoal, sob a orientação de um instrutor ou líder. Os e interpessoais, as relações com os ecossistemasambientes de aprendizagem ao ar livre são mais e as relações do homem com as ciências da terra.que uma “sala de aula ao ar livre”, uma vasta área Nos galhos, também está o processo de aprendi-de diversão ou um campo de batalha entremea- zado experiencial. 20 |
  • 24. Revista da FAE Beard e Wilson (2002) criaram um modelo no Na verdade, o primeiro grupo está relacionadoqual incorporaram muitos outros elementos psico- à área física, ao ambiente onde acontecerá ológicos, educacionais, experimentais e específicos treinamento e a qual atividade será propostada educação ao ar livre. Esse modelo, o cadeado como formato do treinamento. Os sensores estãode segredo da aprendizagem, faz referência ao descritos no segundo grupo considerando-se asistema de travamento e abertura dos cofres, no comunicação por meio dos sentidos. Os olhos, osqual existem engrenagens contendo inúmeros ouvidos, a boca, o nariz, os nervos e a racionali-dentes. A combinação desses dentes resultará dade. Os sensores são responsáveis pela ligaçãoem processos de aprendizagem. Quando se posi- entre o ambiente externo e o interno, por meio dosciona os dentes na primeira engrenagem, está se sentidos, da percepção e dos sentimentos. Esta éfazendo a seleção do ambiente de aprendizagem considerada uma engrenagem-chave, à qual see, consequentemente, todas as engrenagens se- deve dedicar tempo para fazer a ligação corretaguintes podem ser colocadas em qualquer posição entre ambiente interno e externo.desejada. São três grandes grupos de engrena- O ambiente interno é o maior grupo, com-gens: Ambiente externo, Sensores e Ambiente posto de três engrenagens, sendo elas:interno, sendo que cada engrenagem representa a) Emoções no aprendizado; agressão, medo,um subgrupo específico e cada dente dela é um esperança, tédio, alegria, tristeza.componente variante. b) Inteligências estimuladas; lógica, verbal,FIGURA 02 - O CADEADO DE SEGREDO DA APRENDIZAGEM corporal, musical, espacial e interpessoal. c) Aprendizado e mudança; emergente, sem modificação, participativa, pragmatista, aprendizagem simultânea, aprendizagem contínua. Há um mecanismo adicional para que essas engrenagens sejam movidas. Trata-se de um eixo central que conecta todas as engrenagens e permite a combinação ou o arranjo comutativo. AFONTE: Beard e Wilson (2002) linha central do mecanismo do cofre é manuseada para atingir uma combinação que o abra, por meio da seleção das engrenagens e dos dentes. No primeiro grande grupo, a primeira engre- Simbolicamente, é o dispositivo que possibilitanagem, chamada de Ambiente Externo, é relacio- o arranjo correto entre os grandes grupos,nada aos fatores do ambiente, melhor dizendo, subgrupos e itens para obter a correta combinaçãoo “ambiente do aprendizado”, sendo ele descrito entre o primeiro grande grupo, o ambientecomo: salas de conferência, salas de relaxamen- externo e os demais grupos, subgrupos e itens.to, ao ar livre, computadores, cafés, aprendizadovirtual, teatros. Também nesse grande grupo, asegunda engrenagem é denominada “atividadesde aprendizagem”, que se considera a soluçãode problemas, desafios, mentalização, sinestesia,aprendizagem colaborativa, realidade simulada.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |21
  • 25. Educação experiencial apresentamos, as saídas de campo ocorrem em grupos pequenos, com no máximo doze integran- De acordo com Ewert, Baker e Bissix1 (2004 tes. A diversidade é o fator de enriquecimento daapud BARROS, 2000), a Educação Experiencial aprendizagem, tão importante quanto a inclusãoé uma forte ferramenta da promoção de com- social e a heterogeneidade. Mas não apenas essesportamentos ambientalmente corretos, em três valores são estimulados. Também o mesmo autoresferas: a construção da consciência ambiental; destaca: o educador tem como tarefa básica aju-a formação de atitude; e a capacitação. Nas vi- dar os alunos a superar medos e descobrir quevências da Educação ao Ar Livre, a sala de aula têm muito mais dentro deles do que imaginam.deixa de ser entre quatro paredes e passa a ser o Sauvé (1997) também contribui para a edu-ambiente natural. cação experiencial quando afirma que o meio Em 1941, a Outward Bound2 foi fundada ambiente possibilita o aprendizado experiencial,por Kurt Hahn3. Sua criação deveu-se à morte tornando-se o meio de aprendizado. Beard e Wilsonde marinheiros da marinha mercantil em barcos (2002) buscam demonstrar o processo que dá senti-salva-vidas quando seus navios eram afundados do à conexão entre o mundo interno da pessoa e ono Atlântico Norte pelas forças navais alemãs. O mundo externo. O autor demonstra em seu modeloprograma tinha como filosofia que o caráter do que a interação entre esses dois mundos dá origemindivíduo é “lapidado”, pois ao encarar desafios ao aprendizado experiencial. Afirma também queem ambiente natural, ele constrói o senso de au- a transferência da aprendizagem para um novotovalorização, o grupo aumenta sua consciência contexto ocorre devido a uma sequência, sendoda interdependência humana e todos adquirem que a primeira fase é a experiência, quando a pes-mais envolvimento com a atividade. soa é exposta a regras, seguida do ato de realizar É impressionante como os princípios e visões alguma tarefa como parte operativa da experiênciasão ainda contemporâneos e vão ao encontro planejada, sendo que a reflexão e a interpretaçãode nossa sociedade atual e futura. Flavin (1996) relacionadas à ação são itens do aprendizado vi-afirma que os princípios da escola de Salém4, vencial. Gilbertson et al. (2005) advoga a favor daaqueles originários da Outward Bound, advogam educação experiencial como precursora das ativi-que a aprendizagem funciona melhor em peque- dades de educação ao ar livre referindo-se a elasnos grupos, nos quais existe confiança, e, como como habilidades físicas, educação por meio da aventura, crescimento interpessoal ou habilidades educacionais, ecoturismo, relações com a ecologia,1 EWERT, A.; BAKER, D.; BISSIX, G. Integrated resource educação ambiental (formal) ou interpretativa (in- management: the human dimension. Cambridge, MA: formal). A aprendizagem pode ser definida como CABI Publishers, 2004. “uma modificação sistemática do comportamento,2 Expressão utilizada por marinheiros para descrever o momento em que o navio deixa o porto, levando a si e por efeito da prática ou experiência, com um sen- sua tripulação para riscos desconhecidos e aventuras no tido de progressiva adaptação ou ajustamento” mar aberto. Soltar as amarras das pessoas de seus abrigos (CAMPOS,1987, p.30). seguros do lar, da família e de rotinas familiares para crescer por meio de experiências não-familiares, de dificuldades e de aventuras.3 Educador nascido em 1886, em Berlim, na Alemanha.4 Localizada na cidade de Salém, oeste da Alemanha. 22 |
  • 26. Revista da FAEFIGURA 03 - INTERLIGAÇÕES DA EDUCAÇÃO EXPERIENCIAL riência (vivência) adquirida à reflexão de forma estruturada por intermédio da educação expe- riencial facilitada. A experiência e a reflexão são vetores do aprendizado, de acordo com o ciclo de dois estágios. Bacon (1987) propõe o Modelo Metafórico, que consiste na experiência ao ar livre seguida da reflexão, ou seja, a metáfora entre a experiência e os fatos do dia a dia, fatos reais, profissionais ou pessoais do participante. A aprendizagem foi um item acrescido ao modelo de dois estágios por intermédio das pesquisas de Dewey (1971). A experiência complementada pela reflexão relacionada à vivencia conduzia ao aprendizado orientado pela aplicação da experiência vivida.FONTE: Gilbertson et al. (2005) Juch (1983) coletou 17 ciclos de quatro estágios na literatura como sendo base de várias teorias relacionadas ao aprendizado experiencial,Ciclos do aprendizado experiencial entre os quais ele destacou o ciclo de Kolb (1983, p.4) como sendo o mais completo e que explica Os ciclos de aprendizagem experiencial são melhor o ciclo de aprendizado experiencial.modelos que tanto demonstram como o apren-dizado é transferido da vivência (experiencial) FIGURA 04 - CICLO DE QUATRO ESTÁGIOSpara a aplicabilidade prática, quanto auxiliam noentendimento do treinamento baseado na expe-riência e em programas de educação ao ar livre.Esses ciclos variam de um a cinco estágios, quesão fases nas quais ocorre o aprendizado, sendoque o ciclo de quatro estágios é o mais abordadona literatura. De acordo com Kolb (1984), o ciclode um estágio considera a experiência (vivência)como um estágio único e suficiente para o apren- FONTE: Kolb (1983)dizado. Kolb remonta ao ditado de Confúcio, queafirma: “Diga-me, e eu esquecerei. Mostre-me eme lembrarei. Envolva-me, e eu compreenderei”. MetodologiaKolb refere-se à experiência (vivência) como en-volvimento, que, por ser um ciclo único, leva ao Trata-se de uma pesquisa de natureza quan-aprendizado. titativa e qualitativa, envolvendo a utilização de O modelo de dois estágios complementa diversas técnicas, tais como observação, entrevis-o primeiro modelo por adicionar a reflexão ao tas e aplicação de questionários, tanto nos Estadosprocesso de aprendizagem, relacionando a expe- Unidos quanto no Brasil.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |23
  • 27. Inicialmente, foi realizado estudo exploratório Cada fator é medido por três questões com-em uma região geográfica que tem cultura de apli- postas de escala Likert de oito pontos, das quaiscação dessa modalidade de treinamento empresa- é tirada a média para se obter o escore. O estilorial, ou seja, nos Estados Unidos. Foi escolhida a dos itens, assim como a escala de medição, derivaregião sul do estado do Texas, onde se concentra do Questionário de Efetividade de Neill, Marsh eo maior número de indústrias de construção de Richards (1997), que tem sido amplamente utili-equipamentos para essas atividades, além de áre- zado na avaliação dos resultados dos programasas de treinamento ao ar livre. Por consequência, de formação experiencial.nessa área estão diversas empresas que são res-ponsáveis pela certificação de facilitadores, pelaconstrução de dispositivos e equipamentos e pela População, amostra e coleta de dados.manutenção das áreas de treinamento. O estudo foi realizado em dois contextos Conforme mencionado, o instrumento paracoleta de dados foi o ROPELOC (NEILL; MARSH; geográficos distintos, sendo que o primeiro a serRICHARDS, 1997). Essa ferramenta de avaliação do pesquisado foi o da região de Houston, Texas,programa de treinamento experiencial corporativo em agosto de 2009. Na oportunidade, foramé projetada para auxiliar a avaliação de programas entrevistados um especialista e dois facilitado-e desenvolvimento dos participantes. O instrumen- res e foi aplicado um questionário (Ropeloc) emto permite a mensuração, pré ou pós-treinamento, amostra não-probabilística de 28 treinandos dado impacto sobre uma variedade de qualidades modalidade experiencial. O especialista e os faci-pessoais, sociais e de trabalho que os programas litadores eram funcionários de uma empresa quede treinamento experiencial corporativo visam a oferece treinamento experiencial para empresas,melhorar. O conteúdo do instrumento é personali-zável a partir de um conjunto de escalas predeter- principalmente no âmbito da cidade de Houstonminadas. Os números advindos desse questionário e proximidades.possibilitam a análise das dimensões dos principais O outro contexto foi o da cidade de Belodomínios psicológico e comportamental nos níveis Horizonte, Minas Gerais, no Brasil, no período depessoal, social e das relações de trabalho. Ele foi novembro de 2009. Nesta ocasião, foram aplicadosprojetado especificamente para ser sensível aos 28 questionários (Ropeloc) em treinandos. Atipos de mudanças pessoais que podem ocorrer empresa participante deste estudo e contratantecomo resultado da participação em programas de do treinamento experiencial é da área de vendasintervenção baseados em vivência experiencial. de bens de consumo de alto valor agregado O Ropeloc (questionário de efetividade) e goza de grande conceito junto ao mercadoconsiste de 39 itens e nas medidas de doze áreas belo-horizontino em seu segmento. A amostraespecíficas da eficácia pessoal, incluindo habi- da população à qual foi aplicado o questionáriolidades pessoais (autoconfiança, autoeficácia, (Ropeloc) foi propositadamente do mesmogerenciamento do estresse, pensamento aberto),habilidades sociais (eficácia social, trabalho em tamanho da amostra de Houston, sendo que seequipe, liderança), competências organizacionais procurou respeitar a mesma porcentagem entre(gestão do tempo, busca pela qualidade, lidar com membros dos sexos masculino e feminino.mudanças). 24 |
  • 28. Revista da FAETratamento estatístico dos dados Comparação entre programas realizados nos Estados Unidos e no Brasil, com base nos fatores Os dados qualitativos obtidos na entrevista do questionário Ropeloccom o especialista tiveram por objetivo descrever Partindo da análise dos dados primáriosquais as principais atividades utilizadas no contex- obtidos por meio do instrumento de pesquisato norte-americano e foi descrita no tópico 2.3.4. Ropeloc referentes à avaliação pós-treinamento,A mesma entrevista com esse especialista tam- pode-se constatar que as três dimensões de análisebém gerou outros dados que dizem respeito ao (competências organizacionais, habilidades sociaisconteúdo técnico e organizativo relevantes dessa e habilidades pessoais) apresentam diferençasmodalidade de treinamento, devido ao fato de o significativas entre o contexto americano e oespecialista ser quem treinou e certificou vários brasileiro, sendo que este apresentou valoresprofissionais desta modalidade de treinamento. mais elevados, de modo geral, indicando melhorApós a entrevista com ele, foi gerado um roteiro de resultado, segundo a percepção dos participantes,entrevista semiestruturada para ser aplicado aos todos eles líderes ou gerentes de empresas.facilitadores, visando a verificar se os conteúdos Pode-se perceber, no gráfico 01, que:técnicos e organizativos eram realmente utilizados – A dimensão comportamentos organizacio-na prática do treinamento experiencial. nais apresenta diferença de 21,93% entre Já os questionários aplicados nos treinandos os contextos, sendo favorável ao Brasil.geraram dados quantitativos que foram analisa- – Com diferença de 16,46%, percebe-sedos por meio da estatística descritiva (média e que as habilidades sociais são mais bem-percentual) e a comparação entre as médias foi trabalhadas no contexto brasileiro.confirmada por intermédio do teste T-Student, – Verificou-se também diferença sutil entre asutilizando-se o programa Minitab para análise habilidades pessoais em favor ao contextoquantitativa. brasileiro, de 16,38%. GRÁFICO 01 - COMPARAÇÃO DAS DIMENSÕES DE ANÁLISEResultados da pesquisa RESULTANTES DO TREINAMENTO EXPERIENCIAL ENTRE ESTADOS UNIDOS E BRASIL Para o entendimento dos gráficos, ressaltamosque se foi utilizada uma escala tipo Likert de 1 a 8 Comparação das dimensões de análise resultantes do treinamento experiencial entre Estados unidos e Brasile que todos os resultados obtidos nesse intervaloforam tratados estatisticamente, aplicando-se 8 7cálculos das médias e comparação entre estas, 6 5realizadas com o testes t em intervalo de confiança 4 3de 95%. Os questionários aplicados geraram 2muitos dados de relevância à compreensão 1 Comp. Organizacionais Habilidades sociais: Habilidades pessoais:dos efeitos que a modalidade de treinamento Estados Unidos 5,226 6,98 5,123 6,44 4,812 6,122 Brasilexperiencial gera aos participantes e quais os itens FONTE: Os autores (2009)são mais relevantes por dimensão de análise e porcontexto.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |25
  • 29. Comparação entre os itens da dimensão de GRÁFICO 02 - COMPARAÇÃO ENTRE OS ITENS DA DIMENSÃO DE ANÁLISE COMPETÊNCIAS ORGANIZACIONAISanálise competências organizacionais Comparação entre os itens da dimensão de análise COMPETÊNCIAS ORGANIZACIONAIS Os dados demonstram que, nesta dimensãode análise, os três itens tiveram valores mais altos 8,00 7,00no contexto brasileiro, com variações em relação 6,00 5,00ao contexto americano entre 15% e 31,50%, 4,00 3,00passando por 16,46%, sendo demonstrado 2,00 1,00 Busca pela qualidade Lidar com mudanças Gestão do tempoque, no contexto brasileiro, de acordo com os Estados Unidos 5,00 5,37 5,30 Brasil 7,52 6,92 6,50resultados, as competências organizacionais são FONTE: Os autores (2009)mais observadas. Dentro desses itens, a busca pela qualidadese destacou devido à diferença de as médias com- Comparação entre os itens da dimensão deparadas estarem muito distantes. Verificando o análise habilidades sociaisdesvio-padrão do teste t, temos o valor de 2, 048,o que explica que a média baixa aferida em desfa- Observa-se que, de acordo com o resultado davor aos Estados Unidos deveu-se à dispersão dos pesquisa realizada nos dois grupos dos contextosvalores colhidos nos questionários. Pode-se inferir, americano e brasileiro, a capacidade de liderançapela análise do gráfico, que, no contexto brasileiro, se destaca no contexto brasileiro, com 25,88% dea busca pela qualidade é mais intensa do que no vantagem com relação ao contexto americano.contexto americano. Além disso, de acordo com O mesmo se percebe ao analisar o gráfico 03,o autor do Ropeloc, a busca pela qualidade é o ocorrendo aos itens trabalho em equipe e eficáciadesejo de obter o melhor resultado possível. social, sendo respectivamente as diferenças de A segunda competência organizacional é 17,38% e 20,38%.descrita como a capacidade de ser receptivoàs mudanças que podem ocorrer no ambiente GRÁFICO 03 - COMPARAÇÃO ENTRE OS ITENS DA DIMENSÃOda empresa. Verificou-se, então, que lidar com DE ANÁLISE HABILIDADES SOCIAISmudanças é mais efetivo, também, no contexto Comparação entre os itens da dimensão de análisebrasileiro. A gestão do tempo apresenta a menor HABILIDADES SOCIAISdiferença entre as médias nos dois contextos, 8,00 7,00 6,00sendo de 15% a diferença entre elas. 5,00 4,00 3,00 2,00 1,00 Liderança Trabalho em Eficácia social Estados Unidos 5,11 5,25 5,01 Brasil 7,18 6,64 6,64 FONTE: Os autores (2009) 26 |
  • 30. Revista da FAEComparação entre os itens da dimensão de As características específicas de cada empre-análise habilidades pessoais gado que é submetido à modalidade de treina- mento experiencial devem ser consideradas para No que se refere às habilidades sociais, tem-se que o programa de treinamento não incorra nodiferença muito significativa entre as médias rela- erro de expor pessoas a um treinamento quecionadas aos contextos estudados, especialmente exija esforço físico ou emocional ao qual elasno item pensamento aberto, sendo que 33,38% possam apresentar restrições. Na entrevista comé o percentual de diferença em favor do contexto o especialista norte-americano, ficou claro que:brasileiro. Contudo, são percebidos valores muito “Antes de iniciar sua atividade é bom que vocêpróximos no item autoconfiança, sendo a diferen- peça a uma pessoa por vez para segurar a cordaça de apenas 4,25% entre os contextos. O teste t e suportar seu próprio peso. Durante esse exer-apontou diferença pouco significativa, afirmando cício, você como facilitador pode observar quemque as médias são iguais. As médias intermediá- tem facilidade, quem tem dificuldade e quem nãorias são 14,5% e 13,38%, sendo representadas se sente capaz. O facilitador deve, a partir dessasimultaneamente no gráfico pela autoeficácia e observação, pensar em alguma forma para que opelo gerenciamento do estresse. treinando participe do treinamento, mesmo que a atividade apresente restrições por algum motivo,GRÁFICO 04 - COMPARAÇÃO ENTRE OS ITENS DA DIMENSÃO DE ANÁLISE HABILIDADES PESSOAIS físico ou emocional”5. Comparação entre os itens da dimensão de análise HABILIDADES Portanto, quando o especialista percebe, PESSOAIS durante o treinamento, que alguém não tem ca- 8,00 7,00 pacidade física ou emocional para a participação 6,00 5,00 4,00 nas atividades, o fato é indicador de que a fase de 3,00 2,00 1,00 planejamento não foi eficaz e que expôs a pessoa Pensamento Autoeficácia Ger. do estresse Autoconfiança Estados Unidos 4,68 4,63 4,85 5,10 a um possível constrangimento perante os demais empregados envolvidos no treinamento. Como Brasil 7,35 5,79 5,92 5,44FONTE: Os autores (2009) análise posterior, cabe, por parte dos responsáveis pelo planejamento, averiguar se esse caso ocorreu em treinamentos experienciais contratados. NaFatores que afetam o resultado do eventualidade de isso ocorrer, deve-se entendertreinamento experiencial nos dois países a motivação que levou o empregado até o ponto de ser excluído ou desempenhar papel secundário Alguns importantes aspectos com relação no treinamento.ao treinamento experiencial foram ressaltadosnas entrevistas e devem ser observados visando à Compreender se o empregado participousua aplicação correta e à geração dos resultados do treinamento sem ter condições físicas ouesperados. As restrições quanto à condição física emocionais por negligência própria ou se pore emocional devem ser levadas em conta, logo no medo de retaliação por parte dos superiores,início do processo de planejamento do treinamen- submetendo-se a uma condição desconfortávelto. Milkovick e Boudreau (2000) afirmam também e de risco está ligada a cultura interna da corpo-que a consideração das diferenças individuais oude características específicas de cada empregado 5 Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada em Trinity, Texas,contribui para a eficácia do treinamento. Estados Unidos em 23/07/2008.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |27
  • 31. ração. A corporação com perfil mais hostil pode e especialistas, no período de abril a junho degerar no empregado este comportamento e é 2009, em Belo Horizonte, indicaram que o co-função dos responsáveis pelo planejamento, que nhecimento acerca da metodologia experiencialdevem, a partir desse diagnóstico, propor ações de treinamento é limitado e que os proprietárioscorretivas para planejamentos futuros de treina- não são abertos para permitir um estudo maismento focando a cultura interna e a modalidade aprofundado em suas organizações.de treinamento experiencial. Uma explicação secundária para os melhores resultados do treinamento experiencial obtidos na coleta de dados realizada no Brasil relaciona-Considerações Finais se ao fato de que nos Estados Unidos, esse tipo de atividade é muito utilizada com finalidades A comparação dos resultados entre o treina- recreativas e comportamentais, para criançasmento experiencial realizado no contexto norte- e adolescentes, sendo que boa parte desse-americano e o realizado no Brasil, na região de público passa também, na vida adulta, por umBelo Horizonte, demonstra que a aplicação dessa treinamento experiencial com foco de treinamentomodalidade de treinamento para treinamentos organizacional. Na fase adulta, não é umacom finalidade de melhorar ou desenvolver com- completa novidade participar de treinamentosportamentos em equipes de trabalho é válida. E experienciais, portanto a avaliação vai ser menosos resultados apontam para o melhor aproveita- movida pela emoção e encarada como umamento do treinamento aplicado no Brasil. atividade de treinamento comum. A princípio, a explicação mais lógica, de Os treinamentos muitas vezes são escolhidos em funçãoacordo com os resultados, para que o estudo no das técnicas modernas, que por serem participativas, vivenciais e lúdicas, fazem com que os participantes secontexto brasileiro tenha encontrado melhores envolvam e gostem muito das técnicas apresentadas.médias é que, possivelmente, pode estar havendo Estão classificados nesta categoria de treinamentos:uma melhor absorção à metodologia em nosso dinâmicas de grupo, auto-ajuda, treinamentospaís e que essa modalidade de treinamento está vivenciais ao ar livre (teal, rafting, rapel, corrida desendo aplicada com excelência. kart, canoagem, sobrevivência na selva), programas de aventuras (expedição ao deserto, caçada na África, Essa possível explicação pode, porém, ser etc.), todos eles muito divertidos e emocionantes, masquestionada, uma vez que alguns autores apon- de resultado prático muito duvidoso para os negóciostam para uma estrutura física mais adequada (SIMÕES, 2009, p.2).nos Estados Unidos do que no contexto brasilei- O fator cultural também pode ser influenciadorro. Attarian (2001) afirma que, em 1992, havia do resultado gerando uma supervalorização desta300 áreas de treinamento experiencial ao ar livre atividade, mais relacionada aos seus aspectos(challenge courses) nos Estados Unidos. Dinsmore lúdicos do que aos pedagógicos. Borges-Andrade(2004) afirma que, no Brasil, podemos considerar e Abbad (1996) apontaram os riscos associadosque o marco inicial do treinamento experiencial ao à importação de técnicas de treinamento semar livre ocorreu em maio de 1992, em uma área de a observância de determinados fatores queTeresópolis, no estado do Rio de Janeiro. justamente resultar em um desvirtuamento de Outros fatos percebidos durante as entre- sua real finalidade.vistas preliminares realizadas com consultores 28 |
  • 32. Revista da FAE Na fase de planejamento, o envolvimento dos incipiente na região focada em nosso estudo.responsáveis com os especialistas é fundamental São sugestões de estudos futuros que in-para que o treinamento não seja um “pacote de vestiguem:treinamento” já padronizado para todo tipo de – a utilização de novos instrumentos de cole-empresa e para que tal pacote não desempenhe ta de dados para avaliação de treinamentosa função de uma panaceia para curar quaisquer experienciais, com o intuito de aferir omales (BORGES-ANDRADE; ABBAD,1996). impacto dessa modalidade de treinamento; As principais limitações deste estudo devem- – a relação entre cada comportamento quese principalmente: se pretende trabalhar e os equipamentos a) ao fato de ter sido pesquisada apenas uma utilizados no treinamento experiencial; empresa contratante do treinamento expe- – a padronização dos equipamentos e seus riencial, em ambos os contextos; respectivos nomes; b) à não-aplicação prévia do questionário aos – a aplicação do treinamento experiencial, participantes, tal como a aplicação ao final abrangendo desde o levantamento das do treinamento; necessidades de treinamento, planejamen- c) aos poucos estudos conduzidos no Brasil to, execução e avaliação até a teoria e os relacionados ao treinamento experiencial; equipamentos envolvidos na atividade no d) às empresas terem sido pouco receptivas contexto brasileiro. à pesquisa. – influência da variável gênero no que se O medo da crítica futura dos métodos de refere ao aproveitamento dos participantes,cada empresa e a possibilidade de haver exposi- uma vez que que não foi abordada noção do seu nome no mercado foi também muito presente estudo.evidente nas entrevistas. A dificuldade de falarsobre autores correlatos ao tema deveu-se a dois • Recebido em: 01/08/2010fatores: número inexpressivo de publicações espe- • Aprovado em: 05/11/2010cializadas no país e carência da leitura em outroidioma. Pesquisando sites de algumas empresas,percebemos que quase todas apresentam conte-údo similar e, quando comparadas a empresasem outras regiões, vemos que uma imensidão deequipamentos, métodos e procedimentos não sãoutilizados e tampouco citados. As entidades normativas e de classe não sãocitadas sob qualquer aspecto e há o desconhe-cimento de empresas que constroem, treiname executam manutenção nessas áreas. A maior“saia justa” ocorre quando as empresas sãoperguntadas quanto ao modo como obtiveramconhecimento para a organização das atividades,demonstrando que a fundamentação teórica éRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 17-30, jul./dez. 2010 |29
  • 33. ReferênciasATTARIAN, A. Artificial climbing environments. Andover, MA: Ventura, 2001.BACON, Stephen Barcia. The evolution of the outward bound process. Greenwich, USA: OutwardBound, 1987.BARROS, M. I. A. Outdoor education, uma alternativa para a educação ambiental através doturismo de aventura. In: SERRANO, C. A educação pelas pedras: ecoturismo e educação ambiental.São Paulo: Chronos, 2000.BEARD, C.; WILSON, J. P. Experiential learning. 2nd ed. Philadelphia: Kogan Page, 2002.BORGES-ANDRADE, J. E; ABBAD, G. Treinamento no Brasil: reflexões sobre suas pesquisas. Revistade Administração, São Paulo, v.31, n.2, p.112-125, abr./jun.1996.CAMPOS, D. M. S. Psicologia da aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 1987.DEWEY, J. Experiência e educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.DINSMORE, P.C. (Org.). Treinamento experiencial ao ar livre: uma revolução em educaçãoempresarial. Rio de Janeiro: SENAC, 2004.FLAVIN, M. Kurt. Hahn´s Schools & Legacy: to discover you can be more and do more than youbelieve. Wilmington Delaware: Middle Atlantic, 1996.GILBERTSON, K. et al. Methods and strategies for teaching outdoors. Champaign, IL: HumanKinetics, 2005.HAMMERMAN, W. M. Fifty yearsof resident outdoor education (1930-1980): its impact onAmerican education. Martinsville Ind.: American Camping Association, 1980.JUCH, BERT. Personal development: theory and practice in management training Chichester: Wiley,1983.KOLB, David A. Experiential learning: experience as the source of learning and development.Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1983.______. Experiential learning: experience as the source of learning and development. EnglewoodCliffs, NJ: Prentice-Hall, 1984.MILKOVICH, G.; BOUDREAU, J. Administração de recursos humanos. São Paulo: Atlas, 2000.NEILL, J. T. Reviewing and benchmarking adventure therapy outcomes: applications of meta-analysis. Journal of Experiential Education, San Francisco, 2003.NEILL, J. T.; MARSH, H. W.; RICHARDS, G. E. The life effectiveness questionnaire: development andpsychometrics. Sydney, NSW: The University of Western Sydney, 1997.PRIEST, S.; GASS, M. A. Effective leadership in adventure programming. Champaign, IL: HumanKinetics, 1983.SAUVÉ, L. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável: uma análise complexa. Revista deEducação Pública, Cuiabá, v.6, n.10, p.72-103, dez. 1997.SIMÕES, A. Vencer. Disponível em <http://www.vencer.com.br/materiacompleta.php?id=1275>.Acesso em: 22 jan. 2009. 30 |
  • 34. Revista da FAEA importância dos sistemas de gestão da qualidade: Fmea eSeis Sigma - uma abordagem teóricaQuality management sistems regard: Fmae and Six Sigma -an theoric approach Elizabeth Giron Cima * Miguel Angel Uribe Opazo **ResumoAtualmente, mercados e clientes estão exigindo produtos e serviços maiselaborados, fazendo com que as exigências em termos de qualidadeestejam sempre em um processo de evolução constante. É necessárioque os produtos e serviços comercializados tenham, não só, a qualidadeexigida pelos consumidores (usuários), como também, um custo mínimopara as empresas. Com a globalização da economia, percebe-se adisseminação de conceitos abordando a gestão da qualidade tais como:Fmea e Seis Sigma, os quais abordam de maneira objetiva ações pró-ativas buscando minimizar prejuízos causados por falhas e deficiênciasmuitas vezes irreversíveis no processo produtivo das empresas. Este artigobuscou analisar a importância da aplicabilidade dos sistemas de gestãoda qualidade: Fmea e Seis Sigmas nos processos industriais e produtosacabados.Palavras-chave: gestão; qualidade; seis sigmas; indústria.AbstractPresently, markets and clients are requiring more work out in details ofproducts and services, getting the better of quality, requiring of industriesbeing working out doing the best constantly. It’s necessary that theproducts and services sold get the quality that consumers (users) want, and,minimize cost to companies. The economy globalization is broadcastingquality management concept, like FMEA and SIX SIGMA, which approachobjectively actions that will minimizing damage caused by wrongs at * Mestre em Desenvolvimentoproduction process at industries. This article analysis how important is Regional e Agronegócio pela UNIOESTE. Professora do Institutothe implement of quality management system: FMAE and SIX SIGMA into Tecnológico e Educacional –industrialization process. Faculdades ITECNE. Cascavel-PR E-mail: egcima@bol.com.brKeywords: management; quality; SIX SIGMA; industry. ** Doutor em Estatística, pela Universidade de São Paulo - SP. Professor Associado do Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas da UNIOESTE. Cascavel - PR. E-mail: mopazo@unioeste.brRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 31-36, jul./dez. 2010 |31
  • 35. Introdução O artigo está estruturado em cinco sessões. Na primeira, encontra-se a introdução onde é Os sistemas de qualidade abordam aspectos relatada a importância do sistema de gestão dafundamentais de controles e ações de melhorias qualidade. Na segunda sessão, apresenta-se a revi-contínuas que agem na prevenção de eventos são de literatura que contém os tópicos: definiçãoadversos que possam ocorrer durante o processo importância e aplicabilidade da fmea; conceitos,produtivo de determinados produtos (CIMA; definições e importância do Seis Sigma. Na terceiraURIBE-OPAZO, 2009). sessão apresentam-se a metodologia; Na quarta sessão apresentam-se a análise e a discussão dos A produção de produtos e serviços com resultados e na quinta sessão estão as considera-qualidade não é uma tarefa fácil de ser conse- ções finais.guida. Faz-se necessário o desenvolvimento eimplantação de sistemas de gestão da qualidadenas organizações para que se garanta o compro-metimento de todos com objetivo de conquistar 1 Revisão de literaturaa excelência nos processos e produtos (PALADINI,2005). Nesta perspectiva pode-se afirmar que oavanço do conhecimento tecnológico, ou seja, dosaber fazer, está relacionado aos ganhos de pro- 1.1 Definição, importância e aplicabilidadedutividade que definem o próprio conceito atual da Fmeado crescimento econômico. O efeito principal da Técnica utilizada para definir e identificarevolução dos padrões tecnológico é o de aumen- problemas ou erros potenciais ou conhecidos detar a capacidade de produção da economia em um sistema que pode ser projeto, processo e/ourelação à quantidade de recursos humanos e de serviço antes que eles cheguem ao usuário (cliente);capital empregados (BATALHA, 2005). Nesta mes- também conhecido como método analítico parama visão apresenta-se o conceito de FMEA (Failure identificar e documentar de forma sistemáticaMode and Effect Analysis), como um método de falhas em potencial em produtos ou processos.análise de produtos ou processos o qual é usado Esta dimensão da qualidade tem se tornado cadapara identificar os possíveis modos potenciais de vez mais importante para os consumidores, poisfalha e determinar o efeito de cada uma sobre o a falha de um produto causa, no mínimo, umadesempenho do sistema (produto ou processo). insatisfação ao consumidor ao privá-lo do uso doA definição de cliente abordada pela Fmea, não é produto por determinado tempo; Foi desenvolvidasimplesmente o usuário final, mas toda a cadeia com um enfoque no projeto de novos produtos eprodutiva (desenvolvimento, produção, vendas e processos, mas passou a ser utilizada para diminuirlogística), atua como apoio ao gerenciamento do as falhas de produtos e processos existentes e paraprocesso (ROSA; GARRAFA, 2009). diminuir a probabilidade de falha em processos Este artigo teve como objetivo demonstrar a administrativos (FERNANDES, 2005).importância dos sistemas de gestão da qualidade A metodologia de análise do tipo efeitoFmea e Seis Sigma nos processos industriais e de falha, conhecida como FMEA (Failure Modeprodutos acabados. and Effect Analysis), é uma técnica que busca evitar, por meio de análise das falhas potenciais 32 |
  • 36. Revista da FAEpossíveis falhas no projeto do produto ou do cendo metas constantes de redução de desperdí-processo, este é o objetivo desta técnica, ou seja, cio (SANTOS; MARTINS, 2004).detectar falhas antes que se produza peça e ou O nível Seis Sigma de qualidade consideraproduto com defeitos. Pode-se dizer que, com sua a especificidade e natureza do negócio, seu ta-utilização está diminuindo as chances do produto manho, suas características específicas, aspectosou processo falhar, ou seja, busca-se aumentar as culturais e sociais dos indivíduos que dele par-chances de produção de produtos sem defeitos ticipam. Nessa caracterização, são identificadase desta formar aumentar sua confiabilidade, as necessidades e desejos dos consumidores e asesta técnica é usada para antecipar as falhas que atuais capacidades produtivas (WEBER, 2005).podem ocorrer em um produto, processo ou peça, O método Seis Sigma visa alcançar a quali-permitindo atuar antecipadamente na causa para dade quase ideal. Ele é um esforço planejado eque a falha ou o defeito não venha a ocorrer disciplinado que examina minuciosamente os pro-(ROSA; GARRAFA, 2009). cessos repetitivos na empresa, tem condições de A importância desta técnica de gestão da minimizar os defeitos nos produtos e serviços paraqualidade está relacionada com o grau de exigência níveis sem precedentes devido à sua forte ênfasedos consumidores associado ao lançamento de nas análises estatísticas e na preocupação com onovos produtos onde que determinados tipos de design, a fabricação e todas as áreas relacionadasfalhas podem ter consequências insatisfatória para aos consumidores (DEFEO, 2006).o consumidor, tais como aviões, equipamentos As possibilidades da aplicação do método seishospitalares medicamentos os quais o mau sigma resulta em melhoria de qualidade, econo-funcionamento pode significar até mesmo um risco mia de custos, satisfação dos clientes, fidelidadede vida ao usuário. Apesar de ter sido desenvolvida e desenvolvimento dos funcionários, porém estecom um enfoque no projeto de novos produtos sucesso somente será possível se houver um com-e processo, a metodologia fmea, pela sua grande prometimento de todos os envolvidos. São fatoresutilidade, passou a ser aplicada em diversas áreas fundamentais para atingir níveis de eficiênciadas indústrias, tem sido empregada também significativos, através de resultados reais obtidosem aplicações especificas tais como análises de (DEFEO, 2006).fontes de risco em engenharia de segurança e na Definir o método seis sigma pode tornar-seindústria de alimentos (FERNANDES, 2005). uma tarefa extensa se for feita uma análise da literatura sobre o assunto, em vista da grande gama de definições que podem ser encontradas.1.2 Conceito, definição e importância do Perez-Wilson (2000) analisa o seis sigma como seis sigma sendo muitas coisas, tais como: uma estatística, O termo Seis Sigma é considerado uma ex- uma medida, uma estratégia, um objetivo, umatensão dos conceitos da Qualidade com foco na visão, uma filosofia.melhoria contínua dos processos, que atingem Atualmente o Seis Sigma é consideradodiretamente o cliente. A estratégia Seis Sigma uma das mais importantes metodologias paraaproveita todas as ações de qualidade que estão o melhoramento e crescimento dos negóciosem andamento ou que já foram implantadas num (WATSON, 2000).sistema industrial, harmonizando-as e estabele-Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 31-36, jul./dez. 2010 |33
  • 37. Conforme relata Andrietta (2002), o programa O estudo também demonstrou que asSeis Sigma é considerado muito mais do que um técnicas de gestão da qualidade Fmea e Seis Sigmamétodo de melhoria de qualidade e aumento aprimorada em suas aplicações são capazes dede produtividade baseado na estatística, ele permitir um maior entendimento das variaçõescausa verdadeira mudança de visão, habito e que ocorrem num processo produtivo, ambascomportamento no ambiente empresarial. oferecem um grande aporte de informações que De acordo com a mesma autora é mais do quando assimiladas e compreendidas podemque quebrar paradigmas, ele exige total compro- indicar exatamente onde as falhas e defeitosmetimento e envolvimento, portanto se torna um estão ocorrendo sinalizando que o processo estádesafio sua implantação. precisando de correções ou ajustes. Neste sentido, de acordo com a pesquisa realizada, entende-se que com a abertura de mer- cado, a competitividade entre nações aumentou2 Metodologia a necessidade de adequação das indústrias frente a essa nova ordem mundial que impulsionou sig- A pesquisa foi realizada sobre a importância nificativas mudanças nos processos produtivos.dos sistemas de qualidade Fmea e Seis Sigma nas As técnicas de gestão Fmea e Seis Sigma sãoorganizações industriais é de natureza qualitativa conceitos modernos de qualidade que buscam eme descritiva. As etapas da pesquisa envolveram sua aplicabilidade contribuir de forma sistêmica aanálises reflexivas e posteriormente foram realiza- sobrevivência das empresas nos mercados. Dentredas reflexões teóricas referente ao assunto. tantas técnicas de gestão da qualidade, tanto a metodologia Fmea quanto a Seis Sigma buscam conscientizar as empresas, auxiliando-as através3 Análise e discussão dos resultados do fornecimento de informações e orientações nas questões de qualidade, contribuindo desta forma Após análise da literatura abordada no pre- nas questões ambientais, saúde e segurança nosente estudo, verificou-se a importância de imple- trabalho. Pode ser considerada uma oportunidadementação dos sistemas de gestão da qualidade em de aperfeiçoamento que podem ser conciliadoprocessos industriais, no caso aqui estudado Fmea com outras técnicas, ex: Iso 22000, dentre outras.e Seis Sigma. Estas técnicas de gestão da qualidade Todas buscam minimizar ou eliminar riscosdemonstraram sua importância e contribuição nos potenciais que podem estar agindo nos processosprocessos produtivos, uma vez que estas metodolo- produtivos.gias estão voltadas para redução de custos, maior Na análise de Defeo (2006), observa-se que olucratividade e satisfação dos clientes. sucesso quanto à implantação destes métodos só A compreensão dos controles e maior será possível se houver comprometimento de to-eficiência na busca de resultados apresentados dos os funcionários de uma organização, partindopor estas técnicas apresentaram significativa da alta administração até os níveis operacionais,possibilidade quanto à produção de produtos analisando esta idéia nota-se que o desafio daseguros e com perspectivas de atender as implantação está relacionado também ao processonecessidades dos clientes. de interação e integração dos envolvidos. 34 |
  • 38. Revista da FAE Avalia-se outro aspecto importante na visão da qualidade em sua totalidade. Desta forma ode Andrietta (2002), quando a mesma relata a estudo realizado não esgota o assunto e algumasimportância dos sistemas de gestão da qualidade recomendações podem ser mencionadas.e os desafios que são enfrentados quanto sua im- Levando em consideração o foco nos pro-plantação, tendo em vista que todo processo de cessos, melhoria da produtividade e redução deimplantação de novos métodos geram custos e custos observa-se a necessidade de um estudosignificativo grau de incerteza para as organizações. mais aprofundado a respeito da aplicabilidade Neste sentido, e de acordo com a literatura destas técnicas.consultada, a importância e contribuição da Fmea Sugere-se para as indústrias que seja feitoe o Seis Sigma para as organizações industriais um acompanhamento sistêmico na aplicação dasestão relacionadas aos seguintes indicadores: técnicas Fmea e Seis Sigma coletando o máximoProporcionam um melhor conhecimento dos pro- de informações possíveis em diferentes etapasblemas nos processos e produtos; colaboram no dos processos.sentido de promover ações de melhorias baseado Também, sugere-se para trabalhos futurosem dados; favorecem a diminuição de custos por estudos de casos evidenciando a importância demeio da análise de ocorrências de falhas; impul- tais métodos.sionam o trabalho em equipe buscando sempre a O trabalho atingiu, portanto, seu objetivosatisfação dos clientes; melhoria na produtividade; proposto na medida em que as técnicas de quali-aumento da competitividade e crescimento de dade Fmea e Seis Sigma demonstraram que é pos-mercados. sível melhorar a qualidade de processo e produtos.Considerações finais De acordo com o estudo realizado verificou-seque a importância da gestão da qualidade requerpreparo, conhecimento e acompanhamento de • Recebido em: 25/06/2010todas as atividades desenvolvidas pelas indústrias. • Aprovado em: 20/10/2010O significativo número de variáveis que interferemna qualidade de processos e produtos requeremanálises representativas e fiéis de todo o processo,sobretudo porque há sempre causas novassurgindo no ambiente. Neste estudo ficou caracterizado a importânciadas técnicas de gestão da qualidade Fmea e SeisSigma aplicados nos sistemas industriais. Ènecessário, portanto que tais técnicas quandoaplicadas em algumas etapas do processo possamser expandidas para as demais atividades daindústria a fim de que se consiga atingir a melhoriaRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 31-36, jul./dez. 2010 |35
  • 39. ReferênciasANDRIETTA, João Marcos; MIGUEL, Paulo Augusto Cauchick. A importância do método Seis Sigmana gestão da qualidade: analisada sob uma abordagem teórica. Revista de Ciência & Tecnologia,Recife, v.11, n.20, p.91-98, jul./dez. 2002.BATALHA, M. O. Recurso humano e agronegócio, a evolução do perfil profissional. São Paulo:Novos Talentos, 2005.BOGAN, C. E; ENGLISH, Michael J. Benchmarking, aplicações praticas e melhorias contínua. SãoPaulo: Makron Books, 1997.CIMA, Elizabeth Giron.; URIBE-OPAZO, Miguel Angel. Sistemas de controle de qualidade: umaanálise da agroindústria avícola. Revista da FAE, Curitiba, v.12, n.1, p.121-131, jan./jun. 2009.DEFEO, J. A. O mapa do caminho da sobrevivência. Disponível em: <http://www.minitabbrasil.com.br/novidades/artigos/artigos32.asp>. Acesso em: 9 abr. 2006.FERNANDES, J. M. R. Proposição de abordagem integrada de métodos da qualidade baseadano FMEA. 2005. 105p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção e Sistemas) - PontifíciaUniversidade Católica do Paraná, Curitiba, 2005.PALADINI, Edson Pacheco; CARVALHO, Marly Monteiro de. Gestão da qualidade: teorias e casos.Rios de Janeiro: Elsevier, 2005.ROSA, L. C.; GARRAFA, M. Análise dos modos de falhas e efeitos na otimização dos fatores deprodução no cultivo agrícola: subprocesso colheita da canola. Revista Gestão & Produção, SãoPaulo, v.16, n.1, p.63-73, jan./mar. 2009.SANTOS, A.B.; MARTINS, M.F. Pensamento estatístico: um componente primordial para o sucesso doPrograma de Qualidade Seis Sigma. In:Enegep, 23; 2004, Florianópolis. Anais... Florianópolis, 2004.WATSON, G.H. Seis Sigmas no gerenciamento dos processos e negócios das empresas. Rio deJaneiro: Campus, 2000.WEBER, L. H. Análise das etapas de implementação do Seis Sigma incorporando atributospromotores de aprendizagem organizacional. 2005. 90p. Dissertação (Mestrado em Engenhariade Produção) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. 36 |
  • 40. Revista da FAECustos da qualidade: como medir o impacto dos esforços pelaqualidadeThe quality cost: how to measure the impact of the efforts forthe quality Fabiano Goldacker*Resumo Rubens Ricardo Franz**A busca por excelência no mundo globalizado tem acirrado a competiçãoentre as empresas. Margens de lucro cada vez mais exíguas e a exigênciacada vez mais acentuada dos mercados têm provocado uma verdadeiracorrida à tecnologia e à informação, a fim de manter a competitividadedas organizações. O mesmo acontece com a qualidade. O que outrora eratolerado pelo mercado começou a ser substituído por concorrentes locais ouinternacionais, mais eficientes, competitivos e baratos. Diante disto, fez-senecessário o desenvolvimento de uma ferramenta que auxiliasse na mensuraçãodo quanto custa para a empresa a busca pela qualidade de seus produtos ouserviços: os custos da qualidade. Contudo, com o apontamento eficaz dasineficiências e desperdícios e dos investimentos realizados pelas empresas noseu esforço pela qualidade, a ferramenta de custos da qualidade adquiriu umacaracterística interessante. Deixou de ter caráter meramente estatístico paramostrar sua importância como ferramenta para análise e tomada de decisõesgerenciais, principalmente nas áreas de finanças e custos, pois a qualidadepassou a ser sinônimo de lucro ou prejuízo nas organizações.Palavras-chave: qualidade; custos; gestão; finanças; lucro.AbstractThe search for excellence has increased the competition among thecompanies. Low profitability and the demands of the consumers haveelicited the importance of technology and information, in order to keep thecompetitiveness of the organizations. The same situation happens with thequality. Things that have always been tolerated by the consumers were replacedby more efficient, competitive and cheap local or international products. Due tothis situation, it has become necessary the development of a tool that allowedthe measurement of how expensive it is for a company to keep and improve * Mestrando em Administração pelathe quality of its products and services: the quality costs. However, this tool UFSC. Consultor de empresas ehas acquired an interesting characteristic, just by showing the companies´ professor de ensino superior e delack of efficiency, the wastefulness and the investments that are made in their especialização. Blumenau - SC.efforts for the quality. It is no longer only a statistical-purpose report. It has E-mail: fgoldacker@yahoo.com.brshown how important the analysis of the quality costs can be for the decision ** Mestre em Administração pelamaking processes, mainly in the areas of finances and costs, whereas the FURB. Consultor de empresas e professor em cursos de ensinoquality has become a synonymous of profit or damage for the organizations. superior e de especialização. Balneário Camboriú - SC. E-mail:Keywords: quality; costs; management; finances; profit. rrf@terra.com.brRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 37-46, jul./dez. 2010 |37
  • 41. Introdução pamentos e principalmente no treinamento das pessoas envolvidas. Os custos de uma empresa podem ser re- Para a melhor contabilização destas ativida-presentados de diferentes formas, e diversos des, há uma ferramenta que informa às organi-podem ser os sistemas para seu gerenciamento. zações o quanto a qualidade e tudo o que estáAs atividades de inspeção, controle e garantia da relacionado a ela (testes, inspeções, controles,qualidade geralmente são encaradas como custos treinamento, reclamações, satisfação do consu-fixos e indiretos, uma vez que estas atividades não midor etc.) representam financeiramente para asão empregadas na transformação propriamente empresa.dita de matéria-prima em produto final. O intuito deste artigo é mostrar que com esta Em tempos de crise, geralmente as atividades ferramenta, aliada à quebra de alguns paradigmasque representam custos fixos e indiretos são as gerenciais, é possível visualizar que o montanteprimeiras que passam por cuidadosas análises a que as empresas investem nos esforços pela qua-fim de buscar a redução de seu impacto financeiro lidade, principalmente nas ações corretivas, podepara as empresas. Com isso, muitas empresas ser significativo. O objetivo é evidenciar quais áre-buscam reduzir as atividades relacionadas à as necessitam de maior ação e atenção, auxiliandogarantia da qualidade, principalmente aquelas na tomada de decisões por parte dos gestores.que têm um caráter preventivo. Esta atitude revela que em muitos lugares aconcepção sobre qualidade ainda está equivocada 1 A gestão da qualidadee que os esforços no intuito de obtê-la e melhorá-la são vagos. Para amenizar este problema, muitas Não há dúvidas de que a qualidade é um dosvezes são promovidos eventos e atitudes isoladas, conceitos que mais necessitam de atenção nascomo campanhas, slogans e exortações que têm empresas. Tanto as empresas industriais comocomo objetivo melhorar a percepção do mercado as prestadoras de serviços realizam esforços nosobre a qualidade dos produtos e serviços das sentido de que a qualidade produzida e entregueempresas. Mas as atitudes internas podem deixar seja satisfatória aos olhos dos clientes.a desejar. Nestas organizações são necessárias Mas estes esforços necessitam de uma orga-mudanças na cultura e na gestão de forma que nização e estruturação básica. E são necessáriosseja possível estabelecer uma perfeita conexão controles, que possam servir como fonte de in-entre todos os processos, a fim de se produzir formações para a tomada de decisões. Os itens aconstantemente altos níveis de qualidade. seguir irão apresentar a importância do Controle Atualmente, organizações que têm como Estatístico de Processos (CEP) dentro da esfera daobjetivo manter ou ainda explorar novos merca- gestão da qualidade.dos estão buscando mudanças significativas namaneira como os processos internos de controle egarantia da qualidade são executados. Estas açõesbuscam cada vez mais a garantia da qualidade nofornecimento e transformação da matéria-prima,na conservação adequada das máquinas e equi- 38 |
  • 42. Revista da FAE1.1 A importância do controle estatístico A competição mundial traz consigo crescentes exigências por parte dos consumidores. Melhor de processos para os custos da qualidade, maior variação de modelos, entregas mais qualidade confiáveis e menores custos tornaram-se parte das expectativas dos consumidores. Pressupõe-se que para que a metodologiade avaliação dos custos da qualidade cumpra sua Por este motivo, deve-se fazer o apontamentofinalidade e sirva como fonte confiável de informa- correto dos custos da qualidade a fim de poderções para a tomada de decisões, é necessário que evidenciar de maneira mais objetiva a origem dosas empresas lancem mão de outras ferramentas problemas. Para dar suporte a esta missão, o CEPde controle da qualidade no ambiente industrial. pode ser utilizado para aferir os índices de não- conformidade de um processo e suas informações Boa parte destas ferramentas está contem- podem ser transformadas em medidas não-plada dentro do chamado Controle Estatístico de financeiras que podem auxiliar na leitura dosProcessos (CEP), que tem como objetivo identificar problemas relacionados à má qualidade.as variações que ocorrem durante o processo pro-dutivo e suas causas, a fim de buscar sua correção. Por outro lado, Robles Junior (2003, p.117)Para Slack, Chambers e Johnston (2008, p.564): afirma que “as informações de custos da qualida- O controle estatístico de processos preocupa-se com de não levam por si só a uma melhoria da qualida- checar um produto ou serviço durante a sua criação. de”. Ou seja, a eficiência produtiva somente será Se há razões para acreditar que há um problema com melhorada a partir do momento que os mesmos o processo, ele pode ser interrompido (onde é possível produtos forem manufaturados com custos me- e adequado) e os problemas podem ser identificados nores, sem prejuízos à qualidade. e retificados. As empresas utilizam as informações geradaspelas atividades ligadas ao CEP como uma forma 1.1.1 O Controle Estatístico de Processosde diagnosticar os principais problemas em seus (CEP)processos. Mas estas informações podem ser Moreira (2008, p.569) conceitua controleutilizadas de forma mais abrangente, abastecendo como “[...] um processo usado para manter certoa ferramenta de custos de qualidade a fim de se fenômeno dentro de padrões preestabelecidos.”conhecer com precisão o custo das falhas internas. No que diz respeito à qualidade, os controles A má qualidade causa um impacto negativo existem para garantir que certas característicassobre os processos industriais e, consequentemente, básicas dos produtos ou serviços sejam cumpridas.sobre os custos. No entanto, as metodologias de Assim, o controle da qualidade industrial temapontamento destes custos não salientam as como objetivo medir as características objetivas daorigens exatas destes problemas. Sabe-se apenas qualidade de um produto, comparando-as sempreque são necessários investimentos para a melhoria com um padrão desejado.da qualidade. Porém, para se investir em qualidade Em essência, o CEP é sobre o entendimento da variaçãoos gestores devem reconhecer que seu retorno no processo. Todo processo varia de forma distinta.compensa o investimento. O mercado clama por Alguns processos variam amplamente, alguns variamesta evolução. A respeito disto, Oliveira Filho de maneira tênue (DAVIS; AQUILANO; CHASE, 2001,(2001, p.27) comenta que: p.191).Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 37-46, jul./dez. 2010 |39
  • 43. Com base nisto, pode-se concluir que há va- dade do produto. A partir da análise dasriação em todos os processos. Mesmo produtos amostras, pode-se inferir se a qualidadeoriundos do mesmo lote apresentarão variações. de tudo o que está sendo produzido éBallestero-Alvarez (2001) comenta que o CEP parte adequada ou não;do princípio de que sempre há variação, ou seja, b) inspeção por amostragem: seu objetivo énunca há dois objetos que sejam exatamente iguais. concluir se o lote inspecionado (produzido O CEP usa em sua definição o termo “esta- internamente ou recebido de fornecedores)tístico” porque se utiliza de diversas ferramentas pode ser aprovado ou deve ser rejeitado,estatísticas para leitura, análise e interpretação tendo em vista sempre os padrões dedos dados encontrados, justamente com a fina- qualidade e tolerâncias estabelecidas paralidade de detectar as variações nos processos cada produto.(MOREIRA, 2008). Embora exista entre muitos gestores um O maior divulgador da análise estatística sentimento de que não seja possível definir ouda qualidade foi William Edwards Deming, quantificar a qualidade (RUST; ZAHORIK; KEININ-que desenvolveu a estatística para a qualidade GHAM, 1995), pode-se considerar que o conceitoprimeiramente no Japão e depois no mundo moderno de controle da qualidade está cada vezocidental. Segundo Chiavenato (2005, p.60): mais voltado à integração dos processos internos A idéia original era aplicar metodologia estatística na com os custos relacionados à obtenção dos níveis inspeção de qualidade, passando depois ao controle de qualidade desejados. Esta visão se opõe à filo- estatístico de qualidade e chegando à qualidade sofia corrente nas empresas ocidentais, em que a assegurada a fim de obter conformidade com as manutenção de altos padrões de qualidade impli- especificações e proporcionar alto grau de confiabilidade, ca em adição de custos para o produto (COSTA; durabilidade e desempenho nos produtos. ARRUDA, 1999). Percebe-se, então, que o CEP “[...] é uma Gryna e Juran (1991, p.35) endossam estapoderosa coleção de ferramentas de resolução afirmação ao comentar que “[...] a alta qualidadede problemas, útil na obtenção da estabilidade não pode ser entregue com custos excessivos.” Istodo processo [...]” (MONTGOMERY, 2004, p.95). deve ser levado em consideração no processo de planejamento dos padrões de qualidade, pois uma1.1.2 Tipos básicos de Controle Estatístico vez que determinado padrão de qualidade for defi- nido e atingido, o mercado passará a exigir que os de Processos (CEP) produtos e serviços atendam sempre a este padrão. Apesar de todo controle estatístico da qua-lidade atuar com base em amostras, é possível 1.2 Novos conceitos da qualidadeafirmar que há duas maneiras de tratá-las, apartir de dois tipos básicos de controle: controle Ao contrário do que se observava no passado,de processo e inspeção por amostragem. Moreira quando o consumidor dava importância essen-(2008) define estes dois tipos básicos de controle: cialmente ao preço dos produtos, preterindo a a) controle de processo: seu objetivo é manter qualidade, o consumidor atual está muito mais as variáveis dentro das faixas de tolerâncias consciente do que deseja adquirir e do que está estabelecidas, garantindo a reprodutibili- disposto a pagar por isto. 40 |
  • 44. Revista da FAE A definição de qualidade como um produto Foi o primeiro a defender que a qualidade deveriasem defeito ou em conformidade com suas deixar de ser responsabilidade exclusiva de umespecificações (CROSBY, 1994) esteve por muito departamento específico (Controle da Qualidade),tempo em vigor em grande parte das organizações. e sim obrigação de todas as áreas da organização.E em algumas ainda está. Esta ideia exclui um Atualmente, este conceito é o ponto central daimportante elemento do processo: o cliente. gestão da qualidade moderna, em que há divisãoAtualmente as empresas têm que se concentrar das responsabilidades e cooperação entre todasem atender as especificações do cliente, e não as as áreas envolvidas (FEIGENBAUM, 1994).suas (DEMING, 1990). Assim, as políticas de qualidade passaram a Esta postura tem a ver com a nova definição ser aplicadas desde a compra da matéria-prima ede mercado e preço, que hoje são definidos o desenvolvimento do produto até a realização dopelos clientes. A globalização tem permitido o acompanhamento pós-venda. Nota-se que a tradi-surgimento de marcas e produtos alternativos cional visão da qualidade nas empresas como algopara os consumidores. Produtos importados são essencialmente industrial e voltado às atividadescada vez mais comuns e marcas nacionais têm de inspeção e controle não encontra mais lugar nas organizações contemporâneas. Neste sentido,buscado se fortalecer frente a esta concorrência. Peters (2000) identificou a liderança como pontoRobles Junior (2003, p.15) comenta esta situação fundamental da melhoria da qualidade, ao afirmarquando afirma que que os três principais elementos para garantir a [...] a globalização é a maneira que as multinacionais excelência são: os clientes, a inovação e as pessoas. têm encontrado para enfrentar a concorrência de pequenas empresas, porém com alto padrão de E que as três principais atividades do líder são: o eficiência. ouvir, o ensinar e o facilitar. Desta forma, a qualidade adquire um papel Com base nas premissas de que os consumi-fundamental principalmente para as empresas dores estarão dispostos a pagar bem pela quali- dade, que as empresas que fornecerem qualidadenacionais, pois será um diferencial no momento terão sucesso, que os trabalhadores queremem que o consumidor fizer a escolha. Mas é oportunidades para fornecer qualidade elevadaimportante ressaltar que “[...] a qualidade deve e que nenhum produto ou serviço está isento deser atingida sem agregar valores aos preços finais problemas de qualidade, torna-se necessário tam-dos produtos, uma vez que preço é determinante bém quebrar o paradigma de que as atividadesno mercado” (BONA, 1996, p.6). relacionadas à gestão da qualidade representam Acompanhando esta nova postura do mercado somente um custo indireto para as empresas, sen-e a nova realidade econômica mundial (sobretudo do muitas vezes as primeiras atividades a sofreremno Brasil), muitas empresas passaram a investir sanções quando da existência de crises internas ouconsideravelmente em suas políticas de qualidade, deficiência nos processos (PETERS, 2000).fazendo com que as atividades de gestão e garantiada qualidade passassem a ter um envolvimentoestratégico cada vez maior nas empresas. Estanova postura é perfeitamente consoante coma teoria proposta por Armand Feigenbaum aoapresentar o Controle da Qualidade Total (TQC).Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 37-46, jul./dez. 2010 |41
  • 45. 2 A relação da contabilidade com os que a maioria das empresas não se estruturou custos da qualidade de forma a permitir que a contabilidade conheça os custos da qualidade. E a relação entre custo e qualidade é inevitável: a má qualidade gera Por muito tempo o Brasil viveu um período retrabalho, desperdícios e consequente perdaem que a instabilidade econômica e a incertezaao se fazerem projeções financeiras eram uma na produtividade. E a perda na produtividade iráconstante e influenciavam toda a cadeia produti- aumentar os custos de produção. Em suma, osva nacional. Nesta época, que durou até meados custos para obtenção do produto irão aumentar àda década de 1990, as empresas viam-se diante medida que o processo gerar mais produtos comde inflações elevadas e de uma realidade que de- má qualidade.mandava a constante correção monetária de seus Conforme observado por Bona (1996, p.5),ativos. A contabilidade foi uma peça fundamental Com a criação de blocos de mercados, com aneste período. Organizações com departamentos globalização da economia e quebras de barreiras paracontábeis e de custos bem estruturados experi- a importação e exportação, está se exigindo muito maismentaram crescimento por muitos anos, graças da contabilidade de custos tradicional.também à possibilidade que as empresas tinhamde maximizar seus ganhos em aplicações no mer- Diante desta nova realidade, o controladorcado financeiro. passou a ter um papel mais decisivo e estratégico No entanto, com o advento do Real e com a para as organizações, pois, além da apuração dosestabilização da economia a partir do controle da atos e fatos contábeis da empresa, o cálculo dosinflação, o país passou para uma nova realidade. custos da qualidade realizado pelo controladorAo mesmo tempo, a abertura dos mercados e a ou contador dá mais credibilidade à informaçãoglobalização fizeram com que somente empresas (ROBLES JUNIOR, 2003).bem estruturadas permanecessem competitivas. Checoli (2000, p.13) também lembra o papelMuitas organizações tradicionais entraram em dos administradores nestes esforços, ao salientardeclínio a partir de então. que “[...] deveriam estar motivados para começar a Assim como ocorreu com as políticas da mudança, já que eles possuem compromisso comqualidade, tornou-se necessário que a contabi- a melhoria da eficácia na organização”.lidade passasse a desempenhar um novo papelnas organizações, pois até então as informaçõesrelacionadas aos custos da qualidade não eramconhecidas. Ou seja, a contabilidade desconhecia 3 Os custos da qualidadeo custo da não-conformidade, da ineficiência e dosreprocessos e da insatisfação dos clientes, pois as Campanela1 (1990 apud ZILLI, 2003, p.27)medidas tradicionais de contabilização do custo define custos da qualidade comonão acompanhavam ou identificavam completa- [...] aqueles que representam a diferença entre o customente os custos relacionados à baixa qualidade atual de um produto ou serviço e o custo ideal, se não(RUST; ZAHORIK; KEININGHAM, 1995). houvesse o serviço fora do padrão, falha de produtos, Embora Jennings (2003, p.60) afirme que ou defeitos na manufatura.“As empresas produtivas são abertas com relaçãoa todos os números e elas registram tudo o que 1 CAMPANELLA, Jack. Principles of quality costs. 2.ed. Milwaukee:é importante [...]”, atualmente ainda se observa ASQC, 1990. 42 |
  • 46. Revista da FAE Segundo defendido por Hunt (1993, p.137), qualidade em dois grandes blocos: custos de [...] os custos da qualidade consistem em todos os controle (que abrangem os custos de prevenção custos envolvidos na manutenção de uma qualidade e avaliação) e custos de falha de controle (que aceitável, somados aos custos decorrentes na falha da abrangem os custos de falhas internas e externas), obtenção desta qualidade. conforme pode ser observado na figura 01. Esta definição por si só permite enxergar a FIGURA 01 - CLASSIFICAÇÃO DOS CUSTOS DA QUALIDADEimportância que a qualidade adquiriu não só paraas relações comerciais, mas também para a política Custos de Prevençãode custos das empresas modernas. Paladini (2008) Custos de Controlesalienta que a economia da qualidade trata de Custos de Avaliaçãoexpressar em unidades monetárias os benefíciosda qualidade. Defende também que: Custos de Falha Interna Custos de Falha de Há duas maneiras de observar como esta expressão Controle Custos de Falha Externa é desenvolvida. Uma se refere à contribuição positiva da qualidade; a segunda, aos ganhos decorrentes da redução de custos decorrentes dos esforços para FONTE: Feigenbaum3 (1991 apud ZILLI, 2003, p. 31). otimizar o processo produtivo. Ambas são relevantes, embora só a primeira agregue valor à qualidade (PALADINI, 2008, p.123). É interessante que os custos de controle sejam superiores aos custos de falha de controle, Por muito tempo a qualidade nos processos pois estes últimos representam “[...] materiais oufoi mantida em segundo plano quando se tratava produtos que não atendem as especificações, oude informação relevante para a alta administração. as expectativas do consumidor [...].” (DEPEXE,Atualmente ainda é muito comum encontrar rela- 2006, p.65). O problema que os custos de falha detórios gerenciais que contemplam as informações controle trazem para a empresa, além do impactofinanceiras e de custos sem levar em consideraçãoas nuances que estes relatórios sofrem por con- negativo na eficiência, produtividade e qualidade,ta dos problemas relacionados à qualidade. No é o eventual prejuízo à imagem da empresa juntoentanto, Deming (2003, p.27) lembra que “os ao mercado.defeitos não são livres de custo”, ou seja, ignorar Martins e Laugeni (2005) apresentam umao impacto que a má qualidade causa nos custos definição dos quatro grandes grupos que com-pode ser prejudicial à gestão da empresa. põem os custos da qualidade: a) custos de falhas internas: são todos os custos oriundos das falhas, defeitos, ou3.1 Classificação dos custos da qualidade falta de conformidade para com as espe- De acordo com Montgomery (2004) os cificações de um produto ou serviço, antescustos da qualidade são classificados em quatro da entrega para o cliente;categorias distintas: prevenção, avaliação, falhas b) custos de falhas externas: são os custosinternas e falhas externas. Já Feigenbaum2 (1991 relacionados às falhas, defeitos ou falta deapud ZILLI, 2003, p.31) classificou os custos da2 FEIGENBAUM, Armand V. Controle da qualidade total. São Paulo: 3 Ibidem Makron Books, 1991.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 37-46, jul./dez. 2010 |43
  • 47. conformidade para com as especificações Porém há certa dificuldade por parte de mui- de um produto ou serviço após a entrega tos gestores em conseguir conjugar as informa- ao cliente. Podem ter também um impacto ções não financeiras e não contábeis, oriundas das não mensurável, que é a insatisfação e a áreas industriais, a fim de torná-las ferramentas perda do cliente; eficientes para o auxílio no processo de tomada de c) custos de avaliação: são os custos relativos decisões. Hunt (1993, p.21) explica esta situação às atividades desenvolvidas para avaliar a ao afirmar que “[...] muitos gerentes dependem da qualidade (medição, avaliação, inspeção e intuição e de julgamentos baseados na experiência auditoria), que servem para garantir que para resolver os problemas”. Com base nisto, a os produtos e serviços atendam as suas ferramenta de custos da qualidade foi desenvol- especificações; vida com o objetivo de transformar informações técnicas em informações financeiras, pois d) custos de prevenção: são os custos associa- dos às atividades desenvolvidas para man- As informações dos custos da qualidade têm maior relevância e utilidade para a tomada de decisões ter os custos de falhas (internas e externas) quando são avaliadas e divulgadas em termos e de avaliação em níveis mínimos. Robles financeiros (ROBLES JUNIOR, 2003, p.76). Junior (2003, p.119) lembra que “[...] os in- vestimentos em prevenção podem demorar a refletir-se na diminuição das falhas”. Considerações Finais3.2 Os custos da qualidade como Há um consenso no que diz respeito ao su- ferramenta de gestão cesso das organizações no mercado: a qualidade não é mais considerada como uma vantagem Os custos da qualidade podem ser evidencia- competitiva das empresas. É obrigação. Trata-sedos em todas as áreas das empresas. No entanto de um conceito que deve ser cuidado desde omuitas organizações utilizam esta ferramenta projeto do produto ou serviço.apenas para buscar soluções para as áreas ope- Analisando esta ideia, pode-se observar queracionais, motivo pelo qual não obtêm resultados o mercado não tolera mais absorver a ineficiênciarelevantes com programas de custos da qualidade ou inoperância das organizações. Tendo em vista(BONA, 1996). a quantidade de opções existentes nos mais Esta falha muitas vezes ocorre pela falta de variados tipos de produtos ou serviços, tornou-seenvolvimento das áreas operacionais da empresa muito mais fácil para o mercado estabelecer umana definição dos investimentos a serem feitos seleção natural entre os fornecedores, elegendopara garantir e melhorar a qualidade. Hunt (1993) aqueles que prezam pela entrega de produtos eafirma que a melhoria da qualidade é o caminho serviços com qualidade, pontualidade e preçosmais direto para o aumento dos lucros de uma competitivos.empresa e Rust, Zahorik e Keiningham (1995, Além disso, vale salientar que toda e qualquerp.109) observaram que “uma das formas pela qual atividade, quando executada de forma constante ea qualidade conduz aos lucros é na economia de periódica sem que sua real lucratividade e eficiên-custos acarretada pelo aumento da eficiência”. cia sejam observadas, tende a gerar uma situação financeira perigosa no longo prazo. 44 |
  • 48. Revista da FAE Diante do exposto, é esperado que o gestor diz respeito à sua lucratividade. Isto ficou bembusque a maximização do valor do seu negócio evidente a partir da afirmação de que a qualidadepor meio do gerenciamento eficaz dos recursos não pode ser entregue com custos excessivosdisponíveis. Diante desta necessidade, a ferra- (GRYNA; JURAN, 1991). As organizações quementa de custos da qualidade pode se encaixar possuem um sistema de custos da qualidade bemperfeitamente no ambiente da gestão financeira, estruturado conseguem evidenciar os desvios epois suas informações podem ser utilizadas tanto exageros no exercício da obtenção da qualidade,de maneira direta na causa dos problemas, como permitindo que níveis excelentes de produtos epodem também ser transformadas em informa- serviços sejam disponibilizados ao mercado deções importantes para a tomada de decisão. acordo com os padrões exigidos, sempre com Em resumo, as empresas devem procurar ado- custo adequado e preços competitivos.tar sistemas internos que busquem a excelênciano que diz respeito à qualidade. Porém, devemtambém fazê-lo observando sempre o ponto deequilíbrio entre o nível de excelência que o merca-do deseja e aquele que a empresa tem condiçõesde fornecer. Por conta disto, fica evidente que as empresas • Recebido em: 09/03/2010não têm outra escolha senão resguardar-se no que • Aprovado em: 04/10/2010ReferênciasBALLESTERO-ALVAREZ, María Esmeralda. Administração da qualidade e da produtividade:abordagens do processo administrativo. São Paulo: Atlas, 2001.BONA, Márcio. Custos da não qualidade em empresas industriais: um enfoque conceitual. 1996.77p. Monografia (Pós-Graduação em Contabilidade Gerencial Avançada) – Universidade Regional deBlumenau. Blumenau, 1996.CHECOLI, Paulo Fernando. Aplicação da teoria das restrições em linha produtiva: um estudo decaso. 2000. 105p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis,2000.CHIAVENATO, Idalberto. Administração da produção: uma abordagem introdutória. Rio deJaneiro: Elsevier, 2005.COSTA, Carlos Aníbal Nogueira; ARRUDA, Carlos Alberto. Em busca do futuro: a competitividadeno Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 37-46, jul./dez. 2010 |45
  • 49. CROSBY, Philip B. Qualidade sem lágrimas: a arte da gerência descomplicada. 3.ed. Rio de Janeiro:J. Olympio, 1994.DAVIS, Mark M.; AQUILANO, Nicholas J.; CHASE, Richard B. Fundamentos da administração daprodução. 3 ed. Porto Alegre: Bookman, 2001.DEMING, William Edwards. Qualidade: a revolução da administração. Rio de Janeiro: MarquesSaraiva, 1990._____. Saia da crise. São Paulo: Futura, 2003.DEPEXE, Marcelo Dalcul. Modelo de análise da prática da qualidade em construtoras: focos dacertificação e custos da qualidade. 2006. 168p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal deSanta Catarina. Florianópolis, 2006.FEIGENBAUM, Armand V. Controle da qualidade total. 4.ed. São Paulo: Makron Books, 1994.GRYNA, Frank M.; JURAN, Joseph M. Controle da qualidade: componentes básicos da funçãoqualidade. 4.ed. São Paulo: Makron Books, 1991.HUNT, Daniel. Gerenciamento para a qualidade: integrando qualidade na estratégia de negócios.Rio de Janeiro: LTC, 1993.JENNINGS, Jason. Menos é mais: os segredos da produtividade - o que as empresas vencedorasfazem de diferente. 2.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2003.MARTINS, Petrônio Garcia; LAUGENI, Fernando Piero. Administração da produção. 2.ed. SãoPaulo: Saraiva, 2005.MONTGOMERY, Douglas C. Introdução ao controle estatístico da qualidade. 4.ed. Rio de Janeiro:LTC, 2004.MOREIRA, Daniel Augusto. Administração da produção e operações. 2.ed. São Paulo: CengageLearning, 2008.OLIVEIRA FILHO, Edgar. Estratégia de manufatura: as mudanças no sistema de PCP de umaindústria têxtil – um estudo de caso. 2001. 126p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Regionalde Blumenau. Blumenau, 2001.PALADINI, Édson Pacheco. Gestão estratégica da qualidade: princípios, métodos e processos. SãoPaulo: Atlas, 2008.PETERS, Tom. Centros de excelência sim, departamentos não. Rio de Janeiro: Campus, 2000.ROBLES JUNIOR, Antônio. Custos da qualidade: aspectos da gestão da qualidade e da gestãoambiental. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2003.RUST, Roland T.; ZAHORIK, Anthony J.; KEININGHAM, Timothy L. Mensurando o impactofinanceiro da sua empresa: questões para a qualidade. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1995.SLACK, Nigel; CHAMBERS, Stuart; JOHNSTON, Robert. Administração da produção. 2.ed. SãoPaulo: Atlas, 2008.ZILLI, Carlos Afonso. Desenvolvimento de um modelo de melhoria de processos e projetos combase no gerenciamento dos custos da qualidade em um ambiente de gestão por atividades. 46 |
  • 50. Revista da FAEPlanejamento estratégico e gestão familiar em empresaspaulistanasStrategic planning and family management of enterprises inSão Paulo Marilia Branquinho1 Maximiliano da Silva Ribeiro 2Resumo Pedro Rehem Santana3 Tito Olavo Pereira Dancuart4O estudo do planejamento estratégico em micro e pequenas empresas de gestão Victor Souza5familiar é importante devido à representatividade das empresas desse porte Adriana Beatriz Madeira6 Luciano Augusto Toledo7para a economia do Brasil: 98% das empresas são classificadas como micro epequeno porte e 72% delas apresentam gestão familiar. Este trabalho objetivouidentificar como ocorre o planejamento estratégico neste tipo de empresa, assimcomo avaliar a influência da gestão familiar na adoção ou não do planejamentoestratégico. Com este intuito, foi utilizado o estudo de casos múltiplos comquatro empresas de micro e pequeno porte de diferentes setores. Os resultadosalcançados através da análise dos dados obtidos por meio das entrevistas e oreferencial teórico mostram que todas as empresas pesquisadas fazem uso de 1 Bacharel em Administração departes do planejamento estratégico consciente ou inconscientemente. O grau Empresas pela Universidadede formalização é diretamente influenciado pela gestão familiar. Cada empresa Presbiteriana Mackenzie. Gerente deapresenta peculiaridades, variando de acordo com o nível de profissionalização Marketing, Acqua Fish. São Paulo-SP.da estrutura da empresa, o tempo de mercado e do estilo do gestor. Este estudo Email: 40622045@mackenzista.com. brapresenta os benefícios que podem ser gerados pela formalização e utilização das 2 Bacharel em Administração deferramentas do planejamento estratégico. Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. EstudantePalavras-chave: planejamento estratégico; gestão familiar; empresas de micro e na UPM. São Paulo-SP. Email: 40614041@mackenzista.com.brpequeno porte. 3 Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estudante na UPM.São Paulo-SP. Email:Abstract 40645770@mackenzista.com.br 4 Bacharel em Administração deThe study of strategic planning in family-managed micro- and small companies Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estudanteis important because of their impact on Brazil’s economy: 98% of businesses are na UPM. São Paulo-SP. Email:classified as micro- and small companies, 72% of which are run by families. This 40644499@mackenzista.com.brwork aims to identify how strategic planning plays out in this type of company, as 5 Bacharel em Administração dewell as to assess the influence of family management in determining whether or Empresas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Estudantenot strategic planning is adopted. To this end, we have conducted a multiple case na UPM. São Paulo-SP. Email:study on four micro- and small companies from different sectors of industry. Results 40725278@mackenzista.com.brdrawn from data obtained via interviews and the selected theoretical framework 6 Doutor e Mestre em Administraçãodemonstrate that all of the companies analyzed use elements of strategic planning, pela FEA – USP. Professor Adjuntowhether consciously or not. The degree of formalization is directly influenced by da Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo-SP. Email:the type of family management. Each company has individual characteristics adri.madeira@mackenzie.braccording to its degree of professionalization, company structure, duration in 7 Doutor em Administração pelathe market, and management style. This study presents the benefits arising from FEA – USP. Professor Adjuntoformalization and the use of strategic planning tools. da Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo-SP. Email: luciano@mackenzie.brKeywords: strategic planning; family management; micro- and small companies.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |47
  • 51. Introdução que por meio do método do caso investiga um fenômeno ou situação específica em um cenário Este artigo aborda o tema planejamento particular (empresa), proporcionando assim maiorestratégico nas micro e pequenas empresas de conhecimento do problema a partir de entrevistas com indivíduos familiarizados e inseridos no meiogestão familiar do estado de São Paulo, conside- do problema pesquisado. Segundo Gil (2002) arando as oportunidades oferecidas pelo setor e a pesquisa exploratória tem como meta criar umacarência de planejamento, que pode ser uma das maior familiaridade com o problema.causas da grande mortalidade destas empresas.Segundo o SEBRAE (2007) a taxa de sobrevivên- O presente trabalho utilizou-se de contornoscia das pequenas empresas brasileira melhorou dedutivos, exploratórios e bibliográfico e comple-consideravelmente passando de 51% em 2002 mentado pelo uso de um estudo de caso múltiplo.para 78% em 2005 e esta evolução é atribuída A pesquisa de campo se deu por meio do estudoa melhoria no ambiente econômico e também a de quatro empresas de micro e pequeno portemaior qualidade empresarial, esta última atribu- com gestão familiar. As empresas estudadas sãoída ao maior nível de instrução de seus gestores. classificadas como de micro e pequeno porte deFrente a este panorama e dada a importância das acordo com os critérios do SEBRAE (2009). SãoMPE’s (Micro e Pequenas Empresas) é indiscutível, caracterizadas com micro empresas do comérciocomo se pode verificar nos dados divulgados pelo e serviços aquelas que possuem até nove funcio-SEBRAE (2009), que 98% das empresas no Brasil nários e pequenas empresas, as que têm entresão classificadas como micro e pequeno porte, 10 e 49 funcionários. Releva-se que o objetivosendo que 72% destas empresas apresentam do estudo foi o de analisar como ocorre o pla-gestão familiar e 90% das empresas brasileiras são nejamento estratégico nas empresas de micro efamiliares. Elas representam 28% da receita bruta pequeno porte de gestão familiar. Para tal, foramdo setor formal e 67% dos trabalhadores formais. feitas entrevistas com os principais gestores de cada uma das quatro empresas de acordo com o A investigação se dá por meio de um estudo roteiro de entrevista com perguntas abertas. Asde casos múltiplos que contempla a análise dos empresas analisadas foram uma fabricante de eti-conceitos teóricos e uma pesquisa de campo comquatro empresas de micro e pequeno porte de se- quetas e rótulos, uma distribuidora de autopeças,tores diferentes com gestão familiar. Em seguida, uma joalheria que tem fabricação própria das jóiassão analisados os dados obtidos na pesquisa de e uma loja de venda de artigos de pesca, campingcampo a luz dos conceitos teóricos a fim de iden- e aquarismo.tificar semelhanças e diferenças, peculiaridades Adotou-se para maior credibilidade do traba-destas empresas. Por fim, são apresentados os lho a utilização de um protocolo do estudo de casoresultados e a conclusão do estudo. (TOLEDO, SHIRAISHI, 2009). Yin (2006) cita que no contexto do protocolo do estudo deve permear procedimentos e as regras gerais que deveriam ser seguidas ao utilizar o instrumento. Assim, passa1 Procedimentos Metodológicos a constituir em uma das táticas principais para se somar a credibilidade da pesquisa de estudo A pesquisa deste trabalho enquadra-se nos de caso e orientar o pesquisador ao conduzir omoldes de uma pesquisa qualitativa exploratória estudo de caso. 48 |
  • 52. Revista da FAE O protocolo pode ser entre outros itens, análise SWOT (pontos fortes e fracos, ameaças ecomposto por: questões em estudo, objetivos de oportunidades); plano estratégico (definição depesquisa, unidades de análise, coleta de dados, objetivos, estratégias); seleção e formulação daanálise de evidencias e elaboração do relatório. estratégia e execução e avaliação. Yin (2006) estabelece que, para melhor con- A análise SWOT ganhou força na década de 60duzir um estudo de caso, os pesquisadores devem com a escola do Design, tem grande participaçãoutilizar alguma estratégia global ou geral para na escola do planejamento estratégico e consistenortear a coleta e interpretação dos dados. O au- na avaliação de quatro pontos da organização:tor divide esta estratégia geral em: basear-se em forças, fraquezas, oportunidades e ameaças emproposições teóricas, estabelecer uma estrutura seu ambiente (MINTZBERG; AHLSTRANDE; LAM-fundamentada em explanações concorrentes ou PEL, 2000). Com base na missão da organizaçãodesenvolver descrições de caso. Tendo o pesqui- e análise dos pontos fortes e fracos, que são frutosador escolhido sua estratégia geral, irá aplicar as da análise do ambiente interno da organização, étécnicas específicas para analisar os estudos de trilhado um caminho (estratégia) que possibilitacaso, que segundo o autor são cinco: adequação a empresa aproveitar oportunidades e minimi-ao padrão, construção da explanação, análise de zar ameaças identificadas no ambiente externoséries temporais, modelos lógicos e síntese de (FISCHMANN; ALMEIDA, 1991; SERRA; TORRES;casos cruzados. Assim, para o tratamento dos TORRES, 2004).dados foi selecionado o padrão combinado de A análise interna segundo Oliveira (1987),Yin (2006), que consiste na observação de um Maximiano (2004) e Sertek et al. (2007), consistefenômeno em comparação a teoria estudada. em avaliar se os recursos financeiros, humanos, tecnológicos e materiais que a empresa tem são suficientes e satisfatórios para o mercado,2 Referencial teórico verificando assim pontos fortes ou fracos. Oli- veira (1987) acrescenta ainda a importância dos Segundo Oliveira (1987, p.46), ao se realizar pontos neutros que são as variáveis que, quandoum planejamento estratégico, a empresa espera identificadas pela empresa, não existem critériosconhecer e melhor utilizar seus pontos fortes, de avaliação para sua classificação como pontosconhecer e eliminar ou adequar seus pontos fortes ou fracos. Os principais fatores analisadosfracos, conhecer e usufruir das oportunidades na etapa de autoanálise - pontos fortes e fracosexternas, conhecer e evitar as ameaças externas - são: capacidade de gerenciamento (comprome-e ter um efetivo plano de trabalho estabelecendo timento, capacidades e experiências dos principaispremissas, expectativas, caminhos, como e onde gerentes), capacidades comerciais (capacidade deos recursos devem ser alocados e o que, como, promoção, publicidade, criação de marcas pró-quando, por quem devem ser realizados os planos prias, relacionamentos com fornecedores etc.),de ação. Para o autor, o planejamento estratégico recursos financeiros (fluxo de caixa, capacidadepode ser dividido em duas etapas: elaboração de financiar o patrimônio líquido etc.), capacidadee implementação. Basicamente as etapas do de gerenciamento de lojas (qualidade e compro-planejamento estratégico, segundo Maximiano metimento dos vendedores, e capacidades ge-(2004, p.164), são: análise da situação estratégica; renciais), operações (SIG, qualidade dos sistemasRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |49
  • 53. operacionais, capacidade de distribuição etc.), Segundo Porter (1990) as regras que determinamlocais e clientes (fidelidade). Há ainda três formas as habilidades da empresa obter retornos acima daprincipais para se identificar os pontos fortes e média estão englobadas em cinco forças: entradafracos: estudo das áreas funcionais, estudo do de novos concorrentes, a ameaça de substitutos,desempenho e benchmarking (OLIVEIRA, 1987; poder de negociação dos compradores, poderMAXIMIANO, 2004; SERTEK et al., 2007). de negociação dos fornecedores e a rivalidade Quanto a classificação das variáveis macro- entre os concorrentes existentes. Porter (1986)ambientais Hitt, Irelan e Hoskisson (2002) ilustram esclarece que cada empresa tem seus pontoso ambiente externo de uma empresa dividido fortes e fracos, e entender estes pontos deve serem três áreas principais: ambiente geral (que é o ponto de partida para lidar com e estrutura da indústria, que está sempre mudando ao longoagrupado em seis segmentos ambientais: demo- do tempo. Essas mudanças se dão devido asgráfico, econômico, político-legal, sociocultural, diversas características técnicas e econômicas quetecnológico e global), ambiente do setor (5 forças influenciam na intensidade de cada força no setor.de Porter) e ambiente da concorrência. Oliveira(1987) semelhantemente a Hitt, Irelan e Hoskis- A análise do ambiente do concorrente fazson 2002), divide a análise do ambiente externo parte da análise do ambiente externo e para Hitt,em oito variáveis: econômicas, sociais, políticas, Irelan e Hoskisson (2002, p.82) realizar a análisedemográficas, culturais, legais, tecnológicas e eco- dos concorrentes a organização “[...] enfoca cadalógicas. Segundo Hitt, Irelan e Hoskisson (2002) uma das empresas com as quais ela concorre dire-o ambiente externo é constituído por elementos tamente [...]” tentando entender cada um desses concorrentes, suas estratégias, seus objetivoscom diferentes graus de impacto, que afetam cada futuros, suas estratégias atuais, suas suposiçõessetor e as empresas neles inseridas. Tendo como e sua capacidade buscando sempre obter estasdesafio acompanhar e avaliar esses elementos informações sobre a concorrência de forma legal.determinando quais tem maior grau de importân- Hitt, Irelan e Hoskisson (2002) comenta ainda quecia para cada setor, a empresa busca reconhecer este tipo de análise é mais intensa em setores cons-mudanças, tendências, oportunidades e ameaças tituídos de empresas com capacidade relativamen-no ambiente (HITT; IRELAN; HOSKISSON 2002). te igual ou onde a concorrência é extremamente A análise do ambiente externo deve conter intensa, que é o caso do varejo.a análise do setor, onde a empresa deve levarem conta o aspecto do ambiente do setor emque a empresa se encontra para estabelecer as 2.1 Plano estratégicoestratégias competitivas da organização. As forças Oliveira (1987, p.21) expõe que o plano é oexternas podem afetar todas as empresas do setor, arquivamento em forma de documento das infor-a diferença se dá na forma com que a organização mações obtidas e das atividades exercidas duranteusa suas habilidades para lidar com elas (PORTER, o processo de planejamento, além de afirmar de1986). Porter (1986, p.22) diz ainda que uma maneira mais simplificada que “[...] plano é A estrutura industrial tem uma forte influência na determinação das regras competitivas do jogo, assim uma visão estática do planejamento”. Maximiano como das estratégias potencialmente disponíveis para (2004) diz que o plano estratégico é o resultado a empresa. de uma analise SWOT, e a maneira com que ele 50 |
  • 54. Revista da FAEé tratado varia de acordo com a empresa, cada ção, bem como sua integração com o ambienteuma dando importância da maneira que convém buscando a melhor adequação e levando é claropara a organização, em aspectos como o grau de sua missão, visão e valores. Existem alguns tiposformalidade, controle e abrangência. Segundo de estratégias genéricas que o administradoro autor o plano estratégico se fragmenta em 5 deverá escolher, tendo em vista a situação que aelementos básicos: missão, objetivos, estratégias, empresa se encontra, visando alcançar o objetivoexecução e avaliação. estabelecido. Estes tipos de estratégias são: de Por meio da missão a organização expõe sobrevivência, de manutenção, de crescimento ouqual é seu papel perante a sociedade e ela pode de desenvolvimento (OLIVEIRA, 1987).permanecer ou sofrer modificações com o passar Maximiano (2004) destaca que as etapasdo tempo (MAXIMIANO, 2004). Já segundo Hitt, de execução e avaliação são as partes mais com-Irelan e Hoskisson (2002) o enfoque interno da plicadas do planejamento estratégico, porque amissão estratégica trata da assimilação das ha- implementação das estratégias traçadas a partirbilidades e aptidões encontradas, servindo assim dos objetivos envolverão mudanças com pessoasde insumos para que a empresa possa criar ações e investimento financeiro. Para Bateman e Sneelestratégicas, e o enfoque externo busca colocar (2006), o processo de implantação inicia-se coma razão na qual a organização faz planejamento a definição das tarefas estratégicas, o que ajudaráestratégico e onde pretendem chegar no que diz os funcionários a entender como eles contribuemrespeito a produto e mercado. Para Sertek et al. com a organização, em seguida deve-se avaliar a(2007, p.53) “[...] a declaração da missão deve ser capacidade dos funcionários e gerentes da orga-curta, clara e de fácil compreensão e deve escla- nização de implementar as tarefas estratégicas, o próximo passo é desenvolver um cronogramarecer o propósito da organização [...]”. definindo as pessoas e as atividades que são cha- Os objetivos são todos os resultados palpáveis ves e quais estruturas, medidas e informações queque as empresas almejam, para assim elaborar o sustentarão o comportamento especificado e o ul-seu planejamento estratégico e posteriormente timo passo é elaborar um plano de implementaçãofocalizar nas estratégias (MAXIMIANO, 2004; para acompanhar o progresso da implementação.THOMPSON; STRICKLAND; GAMBLE, 2008). Após implementar o planejamento a empresa deveBarney e Hesterly (2008, p.8) dizem que os “[...] buscar controlar e avaliar as decisões que, segundoobjetivos são alvos específicos e mensuráveis [...]” Ackoff (1976), envolve a previsão dos resultadose a empresa pode se utilizar deles para verificar obtidos em forma de medidas de desempenho,se ela está no caminho correto para a realização reunindo assim informação sobre o desempe-de sua missão. nho real, comparando se o desempenho real se As estratégias são os cursos de ação, as for- aproximou do previsto no plano, verificando-semas de competir ou as políticas de negócios da as estratégias e políticas estão sendo de fatoorganização, ou seja, os caminhos que a organiza- eficazes buscando sempre identificar as falhas,ção elege. A formulação da estratégia no processo erros e problemas que possam desviar o cursode elaboração do planejamento estratégico é uma da implementação para corrigi-los e evitar suadas etapas mais importantes e devem-se consi- reincidência. Maximiano (2004) completa dizen-derar inicialmente todas os resultados obtidos do que as informações geradas nesta etapa irãocom as análises internas e externas da organiza- servir como instrumento gerencial para manter oRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |51
  • 55. desempenho em todas as fases de acordo com o (a empresa se situa no mercado da cidade de Sãoesperado, para minimizar as possíveis perdas que Paulo, mas o gestor mostrou preocupação parapodem ocorrer devido ao mal gerenciamento do estender a área de atuação da empresa para asprocesso. regiões Sul e Sudeste do Brasil), econômico (a Nesta seção foram apresentados todos os empresa busca produzir produtos para qualquerconceitos necessários para dar base à pesquisa cliente independente do seu porte e procurade campo, abordando todas as etapas do plane- facilitar as formas de pagamentos oferecendojamento estratégico, desde suas origens, etapas descontos e aumentando prazos), socioculturalde elaboração até os resultados que podem ser (a empresa demonstrou estar atenta as mudançasobtidos com sua boa execução e sua relevância e tendências do mercado). Os outros fatores nãopara as organizações. foram mencionados pelo gestor na sua entrevista. Observamos que a organização não formaliza as informações obtidas pelo ambiente geral e que ela se baseia no conhecimento adquirido pelo3 Resultado e exibição dos casos seu gestor e no feeling que ele possui ao atuar a mais de 25 anos nesse mercado. A empresa já está consolidada no mercado da cidade de São Paulo3.1 Caso 1 e tem como objetivo expandir seus negócios para A empresa analisada sempre produziu etique- a região Sul e Sudeste. O gestor da empresa acre-tas adesivas. Possui 35 anos de existência e atua dita que ainda não expandiu a sua empresa parano mercado de rotulagem e etiquetas na cidade outras localidades do território nacional devidode São Paulo. A empresa foi adquirida pelo atual a comodidade de atuar no mercado paulista e agestor há 27 anos, após enfrentar alguns pro- facilidade de logística encontrada pela organiza-blemas como o alto endividamento causado por ção na área. A empresa não sabe e nem procuramá administração do antigo gestor. Após quitar se informar sobre a sua participação no mercado.todas as dívidas e se tornar o sócio majoritário da A empresa tem um conceito bem definidoempresa, o atual gestor reformulou o maquinário para identificar seus concorrentes. A empresada empresa tornando-o mais atual e competitivo se baseia na similaridade de maquinário entrecom a realidade do mercado e até hoje a empresa as organizações e também no perfil dos clientesinveste em novas tecnologias, para sempre estar finais. A organização estudada se considera maisno mesmo nível que os seus concorrentes ou um forte que os seus concorrentes no relacionamentodegrau acima. A empresa trabalha com fabrica- com o cliente já que acredita que, por ser de me-ção de rótulos e etiquetas adesivas padronizadas nor porte que os seus rivais, a empresa conseguee personalizadas contando com o total de cinco oferecer um serviço mais personalizado para osfuncionários. seus clientes (relacionamento direto com o dono). O gestor demonstrou se preocupar com Além disso, possui maquinário de alta tecnologiaalguns fatores do ambiente geral como o tecno- que não costuma ser encontrado em empresas delógico (onde ficou implícito a busca sucessiva da pequeno porte no mercado de rótulos e embala-empresa por novas tecnologias, visando melhorar gens. O gestor informou que existe um relaciona-o maquinário para desenvolver rótulos e etiquetas mento de cooperação entre os concorrentes nocom uma maior qualidade e rapidez), demográfico mercado. Inclusive existe um auxilio mutuo onde 52 |
  • 56. Revista da FAEé possível encontrar um concorrente utilizando as postos a fazer o melhor pela empresa e por seusinstalações desta fabricantes de rótulos e etiquetas colegas de trabalho. Dificilmente identificam-separa “rodar” algum serviço nas suas máquinas. gargalos no processo de produção dos rótulos. To-O contrario também ocorre. Não há nenhuma dos possuem um alto grau de comprometimentoformalização referente ao funcionamento do não somente com a organização, como tambémmercado, a empresa não realiza nenhum tipo de com o gestor da empresa. A empresa possuipesquisa de preço e não monitora todos os passos como desvantagem interna o fato de seu gestorde seus concorrentes. Ou seja, informações que a não gostar de computadores. Provavelmente é aempresa obtém são baseadas em conhecimento razão para não possuir pessoal capacitado paraadquirido por seu gestor e também por seu feeling operar computadores. Porém, ele vem tentandode mercado. trazer novas ideias para a empresa por intermé- O poder dos clientes é alto, pois há diversas dio de seu filho. O gestor mostrou na entrevistaempresas neste ramo. Assim sendo, podem barga- ser altamente centralizador. Tudo o que ocorrenhar o melhor preço. Os clientes são fiéis a marca, na empresa necessita da sua autorização e todosjá que admiram a empresa pela confiança que ela os departamentos estão ligados à ele. Inclusive ooferece e pelo fato de ela ser bem flexível quanto acompanhamento do desempenho dos funcio-as formas de pagamento inclusive realizando par- nários é realizado por ele que dispensa a forma-celamento. Existem poucas barreiras de entrada, lização de relatórios para executar essa tarefa:já que vem ocorrendo, com certa freqüência, a observa pessoalmente o desempenho individualabertura de novas empresas no mercado. Porém, de cada funcionário.de acordo com o gestor, essas empresas costumam O gestor procura realizar o seu benchmarkingser ilegais e são abertas em sua grande maioria com visitas esporádicas aos seus concorrentespor ex-funcionários das organizações do ramo. Ou percebendo por observação a maneira como osseja, por serem ilegais conseguem trabalhar com funcionários de outras organizações efetuam suasmelhores preços e prejudicam empresas como tarefas. As informações são passadas dentro daesta que acabam tendo que rever seus preços, empresa de maneira verbal. Todas elas devem che-para conseguir competir com essas organizações. gar ao gestor e não existe nenhuma formalizaçãoEntão, foi possível identificar que a empresa não das intenções. Existe somente a ordem de pedido,desenvolve nenhum tipo de formalização referen- que diz respeito ao que foi solicitado pelo clientete ao ambiente externo, obtendo integralmente no processo de compra. A empresa não efetuatodas as informações com seu gestor; e o feeling nenhum tipo de formalização pensando em seuque possui para tomada de decisão e conheci- ambiente interno. Também está centralizada emmento adquirido. um único pilar que é o seu gestor, o responsável As vantagens mencionadas pelo gestor quan- por todas as tomadas de decisão sejam elas es-to ao ambiente interno consistem principalmente tratégicas ou operacionais.na forma como funcionário da empresa desen- A empresa não tem a missão formalizada, jávolve o seu trabalho. A empresa demonstrada que o gestor não tem esse conhecimento. A en-preocupação em avaliar se o seu funcionário está trevista deixa claro que a organização demonstramotivado, se sentindo útil para a empresa. Todos uma grande preocupação com os seus clientes, jápossuem espírito de equipe e estão sempre dis- que oferece as melhores formas de pagamentos eRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |53
  • 57. também todas as informações exigidas pelos clien- 3.2 Caso 2tes. Possui o entendimento de qual é o seu públicoalvo, inclusive define os seus concorrentes por meio A distribuidora de autopeças em questãodesta informação e procura desenvolver produtos ainda não completou um ano de funcionamento. A razão da sua abertura foi em se tornar parte dode alta qualidade e diferenciados para o seu cliente grupo da empresa Shiniko-Izza do Brasil Produtoscom máquinas de ultima geração que proporcio- Automotivos. Surgiu em virtude dos benefíciosnam uma melhor impressão dos rótulos e etiquetas. fiscais. O número de funcionário que trabalhamO gestor procura manter todos os seus funcionários na empresa somam 15, sendo cinco internos einformados sobre o que a empresa vem buscando 10 externos. As principais atividades da empresaalcançar estrategicamente. O gestor procura não são: revenda de autopeças, produtos químicos eformalizar essas informações e sim transmiti-las aos pneumática.seus funcionários por meio de conversas, pois ele Foi possível identificar que a distribuidora deacredita que assim os funcionários se sintam mais autopeças conhece a região (sudeste, sul e nor-integrados a organização. Os objetivos da organi- deste) e o mercado na qual atua, pela experiênciazação normalmente visam o longo prazo pensando e prática, apesar de não conseguir saber sua par-em medidas que fiquem estabelecidas por um bom ticipação de mercado, tem alguma idéia sem tertempo na empresa, mas o gestor tem a preocupa- nenhum dado concreto. Os seus concorrentes sãoção de também avaliar medidas em curto prazo, identificados a partir do critério de serem aquelespara assim estar atualizado a mudanças repentinas que oferecem os mesmos tipos de produtos eque possam ocorrer no mercado. Na entrevista não buscam o mesmo tipo de clientes. A organizaçãofoi informado pelo gestor como são realizados os também afirma que os próprios produtos sãoplanos de curto e longo prazo. uma vantagem em relação à seus concorrentes, As estratégias normalmente são implemen- pois possui certificados de qualidade e garantiatadas pela organização, mas não ocorre nenhum da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sani-tipo de formalização. O monitoramento dessas tária) e ANP (Agência Nacional do Petróleo) , alémestratégias implantadas na organização é realiza- experiência de mercado, por volta de 30 anos. Asdo de acordo com os resultados obtidos financei- informações sobre os concorrentes, Wurth, Rycalramente e avaliados pelo gestor e também pelo e Uniforte, não são formalizadas. São adquiridascontador da empresa. O controle das estratégias quando ocorre o contato com o consumidor. Porimplantadas é feito mensalmente e procura ava- meio deste contato se dá a comparação com ou-liar as entradas e saídas do mês (bens que foram tras empresas. Apesar da falta de documentaçãoadquiridos pela empresa para a realização dos nesse aspecto, a empresa se mostra preparadarótulos e etiquetas e também as vendas realiza- para reagir a mudanças no ambiente externo e sedas no período). O gestor procura compreender organizar contra seus concorrentes, pois o diretora representatividade do mês em comparação com levanta informações sobre eles, por meio de visi-outros já passados, para assim definir a estratégia tas, e consultas com a própria equipe de vendas.que será utilizada. Na entrevista foi citado como Agora, sobre seus clientes, foi analisado queestratégia a redução de custos e também a iden- a distribuidora de autopeças procura manter suatificação de possíveis perdas e prejuízos que a fidelidade, sempre procurando se relacionar deorganização possa estar tendo. maneira a atingir suas expectativas e necessidades, 54 |
  • 58. Revista da FAErealizando entregas no tempo prometido, prazos Identificou-se no ambiente interno que sãode pagamento flexíveis e mantendo contato mesmo realizados treinamentos de seus funcionários,após a venda, pessoalmente ou pelo SAC (Serviço busca-se a motivação interna e a criação de umde Atendimento ao Consumidor), para saber se o ambiente sem conflitos por meio da confiançaproduto atendeu suas expectativas. Também há dos gestores em seus empregados. A empresaum relacionamento com os fornecedores, que dá autonomia aos funcionários, principalmenteentregam produtos que são considerados pela para a equipe de vendas, deixando assim umaempresa de qualidade porém a empresa busca liberdade maior para realizarem seu trabalho. Aconhecer outros fornecedores para que esteja organização nota também a importância da ino-preparada a qualquer imprevisto, como por vação no ambiente interno, mesmo que não tendoexemplo o não cumprimento na data de entrega isso como um processo formalizado. A empresade um pedido. Assim, percebe-se que o risco de tem softwares desenvolvidos especialmente paraprejuízo em função do fornecedor é pequeno, pois ela, facilitando os operadores dos programas,não depende dele. O diferencial da empresa é a normalmente os gestores, a tomarem decisõeslinha de produtos oferecidos que são considerados mais precisas e rápidas. Quando necessário, de-novos e inovadores no mercado, como o xampu senvolve novos softwares, para se manter a parem pastilha biodegradável para automóveis e das mudanças e tentar encontrar a maneira maiso higienizador de ar condicionado, dificilmente rápida e eficaz para a solução de problemas. Deencontrados em outras empresas do ramo. maneira geral, o investimento no capital intelec- Apesar do diferencial e o conhecimento tual é alto, nota-se a importância que a empresasobre as outras empresas do segmento, foi ve- dá no desenvolvimento do funcionário, fazendorificado que há um alto grau de rivalidade entre muito treinamento e oferecendo cursos como webos principais concorrentes. Isto ocorre, pois os designer e Inglês. Contudo existe a ocorrência devendedores fazem um grande esforço e é preciso um ponto fraco, citado pelo entrevistado, que seuma grande equipe para que seja possível entrar da ao fato de os clientes de determinadas regiõesem contato com a maior parte possível de clientes não possuírem atendimento, por falta de cober-até conseguirem concluir a venda. Verificou-se tura por parte dos vendedores.também que a barreira de entrada é um aspec- Mesmo que a empresa não possua um planoto a ser levado em conta pela distribuidora de estratégico, ela formaliza muitos de seus processosautopeças, já que abrem muitas empresas do que são analisados visando a sua melhoria, como amesmo segmento. Então a organização, para se avaliação de desempenho dos funcionários. Existemanter competitiva, procura promover algumas também a interligação entre os departamentosfacilidades para seus clientes: flexibilidade na for- da empresa (que não são formalizados) para ama de pagamento, descontos, parcerias com os circulação e compartilhamento das informaçõesfornecedores e acompanhamento das inovações entre todos. A sua missão está definida pelodo mercado(lançamento de produtos novos ou Diretor, apesar dele não ter consciência do conceitoserviço que atraia o consumidor). A empresa for- de missão e nem ter registrado em nenhum lugar,maliza o processo de acompanhamento de novos como sendo: “Entregar serviços de qualidade eentrantes em forma de, relatórios sobre preço e ter um bom relacionamento com seus clientes,mercado concorrente feitos bimestralmente para funcionários e fornecedores, trabalhando sempreacompanhar as mudanças e tendências. para oferecer o melhor para nossos clientes [...]Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |55
  • 59. e funcionários”. Há a formalização dos objetivos espera desenvolver uma lucrativa organização,e metas em forma de planilhas para a equipe classificada entre as melhores do ramo por voltade vendas, avaliando seu desempenho e assim, de 10 anos. Verifica-se que não há dados concretosestabelecendo metas a serem atingidas, sempre sobre a posição da empresa ao longo do tempo.visando o curto prazo. Como a empresa está no Apesar disso, a distribuidora de autopeças possi-estágio de crescimento por estar conquistando bilita o crescimento profissional dos empregados,mercado, ela realiza ações para conseguir ganhar proporcionando um plano de carreira para aquelesparticipação de mercado, com avaliações de que se destacam e são julgados como merecedoresgerentes, que identificam se a empresa deve de uma posição melhor dentro da empresa.mudar ou manter determinado processo. A empresa faz o controle de todas as estra- No que diz respeito aos concorrentes, a em- tégias que são implementadas, como as de custo,presa estabelece algumas maneiras para se manter preço, alcance aos clientes, mix de produtos e ocompetitiva, adotando estratégias, como prazos serviço de televendas, e faz isso verificando asde pagamentos aumentados, preços menores, informações, se os objetivos foram atingidos, emix de produtos, e até utilizando algumas vezes esses controles são realizados mensalmente, feitaspraticas parecidas com as dos concorrentes, como reuniões para discussões, tomadas de decisões ebrindes. Outra estratégia adotada e que é uma desenvolvimento de melhorias, para que sejamvantagem competitiva é a grande quantidade realizadas posteriormente mudanças necessáriasde vendedores espalhados por vários Estados nas estratégias.Apesar de o diretor dizer que al-(atuação fora de São Paulo) e a utilização de tele- gumas estratégias não são implementadas, nãovendas. A maior parte das estratégias da empresa foi possível verificar quais seriam.fica por conta da área de vendas, pois isso mudadiretamente a lucratividade da organização, além 3.3 Caso 3de procurar reduzir custos para poder tambémeventualmente mudar sua estratégia de preços. O início do funcionamento da joalheriaEntão os funcionários dessa área acabam se en- aconteceu em 1967 no centro de São Paulo. Lávolvendo mais na busca de estratégias contra os comercializava apenas pedras preciosas e sou-concorrentes. Para que seja desenvolvida uma es- venires e era voltada para o publico estrangeiro.tratégia nessa área, os vendedores primeiramente Após algum tempo e depois de algumas parceriasconhecem as estratégias dos concorrentes, para com outras empresas, adotou a personalização daque assim possam escolher ou alterá-las. Um dos jóia, onde o cliente escolhia a pedra e criava a suacustos é o estoque. A empresa toma cuidado com própria jóia. No ano de 1984, abriu uma loja nasuas decisões relacionadas ao estoque e formaliza cidade de São José dos Campos, onde em 1997seu processo de pedidos de compras, utilizando se fundiu a atual empresa e uniu as duas marcas.um software para a reposição programada de Hoje conta com o total de 22 funcionários (15produtos, não ultrapassando o limite máximo nem funcionários da fábrica e 7 da loja física). Desdeo mínimo de produtos em estoque. então a empresa vem segmentando seu trabalho A visão de empresa, diferentemente da mis- para alianças personalizadas, onde atende pessoassão, é apenas uma ideia de como e onde ela quer do mundo inteiro, por meio do site da empresaestar daqui um determinado período. O Diretor www.reisman.com.br e clientes da região com a 56 |
  • 60. Revista da FAEloja física localizada no Vale do Paraíba. O gestor para ser possível oferecer um preço bom para odemonstrou se preocupar com alguns fatores do cliente e manter boas margens de lucro. A facili-ambiente geral como o demográfico (a empresa dade de imitação dos produtos leva a empresa aabrange todo o território nacional), econômico proporcionar freqüentemente o lançamento de(a empresa busca produzir alianças para todas novos produtos para atender as preferências eas classes econômicas e flexibiliza o pagamento, necessidade dos cliente e as tendências de mer-mas não citou a saúde econômica do país), tec- cado e assim diferenciar-se dos concorrentes. Onológico (produção de qualidade) e sociocultural gestor mostrou-se ciente do nível de concorrência(a empresa parece bem preocupada com a ten- do seu setor e as causas que levam a isso, mos-dência das preferências dos clientes e mudanças trou conhecer bem seus clientes e concorrentes edo mercado). Já fatores como político-legal e mostrou também que responde rapidamente àsglobal não foram enfatizados, o gestor não citou ações dos concorrentes e mudanças dos clientesnenhum sindicato, lei, ou órgão que influencie e do mercado. Mas novamente a maior parte dasas atividades da empresa. Observamos, portanto decisões são tomadas com base principalmenteque a análise do ambiente geral, nos moldes do no feeling do gestor e poucas das pesquisas sãoplanejamento estratégico, é feita parcialmente, formalizadas e arquivadas, a maior parte é feitapois nenhuma das informações são formalizadas no boca a boca entre os players do ramo quee a maior parte das conclusões sobre os fatores já se conhecem. O gestor demonstra perceberdo ambiente geral são baseadas no feeling do e aproveitar as oportunidades no mercado, porgestor. A ameaça de entrantes potenciais na loja meio da loja virtual recentemente montada, masfísica é baixo devido ao alto custo de entrada e a com a característica reativa, as adequações às ne-necessidade de conhecer bem o mercado, já no cessidades dos clientes e alterações dos produtosmercado virtual a ameaça é maior devido ao baixo conforme tendências do mercado. Parece estarcusto de montagem. ciente também das ameaças e tenta de defender Em relação ao poder dos fornecedores, a dessas com a maior rapidez possível.joalheria produz suas próprias alianças, depen- No referente a forças e fraquezas o gestor sedendo assim somente de matérias primas (ouro) mostrou bem confiante com seus recursos internosque tem seu preço padrão no mercado. O poder principalmente no tocante a conhecimento nados compradores, segundo o gestor, quanto aos área de jóias e a vantagem de produzir suaspreços é baixo já que por ser uma loja que fabrica próprias alianças (esta é ressaltada como a maioras próprias jóias os preços são mais em conta o força da empresa), também foi ressaltada por eleque possibilita a não concessão de descontos, como vantagem ou força a baixa burocratização.porém quanto a forma de pagamento tem que O único fator citado como desvantagem emhaver flexibilidade, por ser um produto de alto relação aos concorrentes foi o número de lojasvalor e nem sempre os clientes dispões do valor que a empresa não possui para não elevar seude imediato. Como a empresa tem seu foco na custo fixo e não ter que dispor de mais pessoascomercialização de alianças, não existem os pro- com o conhecimento e qualidade da marca, odutos substitutos. O gestor percebe o ambiente que é difícil de encontrar. A empresa busca estarexterno com uma forte concorrência devido a alta sempre treinando seus funcionários para mantê-volatilidade dos preços do ouro, e sendo assim, a los como diferencial e o gestor procura tambémcompra tem que ser feita da melhor forma possível sempre conversar com seus funcionários paraRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |57
  • 61. saber se estão satisfeitos e para saber o que os dos principais concorrentes. A empresa, por serclientes estão comentando sobre a loja ou os fabricante, muitas vezes lança novos modelos noprodutos que estão procurando, entre outros, e mercado que seus concorrentes copiam.isso se mostra bem eficiente para saber as forças Na entrevista percebe-se que todas ase fraquezas da empresa. São feitos relatórios estratégias são implementadas rapidamente emensais sobre o desempenho dos integrantes controladas por meio de relatórios mensais ouda equipe de vendas para medir o benefício semanais, e se são identificadas falhas o gestorque cada vendedor representa para a empresa busca ajustá-las o mais rápido possível parae quanto aos ourives da produção são emitidos otimizar os resultados. Percebe-se que o gestorrelatórios semanais para manter a qualidade dos tem uma experiência muito grande de mercadoprodutos. A empresa busca frequentar feiras, o que o torna consciente sobre as suas forçascursos e conseguir estudos na área para melhorar (fabricação própria de alianças, o que possibilita aseu desempenho em processos e desempenho dos criação de jóias com qualidade superior, a tradiçãofuncionários. No ambiente interno os processos da empresa e a grande experiência de mercado dosão bem formalizados, todas as informações são gestor) e devido ao grande tempo de mercado osregistradas em computadores ou documentos concorrentes já são conhecidos tornando a buscaassim como os relatórios de desempenho também de informações mais fácil, mas isto leva o gestor asão arquivados. tomar decisões baseadas no seu conhecimento de A empresa possui missão formalizada e mercado sem realizar pesquisas mais profundas.publicada no site: “Concretizar sonhos e eternizar Quanto a formalização dos processos da empresa,sentimentos”, porém o conceito de missão para a pesquisa de preços e informações de comoa empresa não está claro para o gestor, já que os clientes acharam a Reisman foram uns dosele citou a missão inconscientemente ao dizer poucos processos percebidos que são feitosque: “[...] nós fornecemos um produto de alta frequentemente, da mesma maneira e arquivadosqualidade por preços de fábrica [...] para casais em planilhas.de todas as classes sociais de todo Brasil [...] ” e ogestor reconhece que houve mudança do papelda empresa no mercado em relação ao público 3.4 Caso 4alvo (“estrangeiros para o público interno) e oproduto (“de pedras preciosas para jóias para Trata-se de uma empresa nova que atua noalianças”). No tocante aos objetivos e metas são segmento de aquário e pesca. Surgiu no ano deinformais e divulgados em reuniões internas com 2008 com a proposta de oferecer a seus clientesos funcionários e normalmente visam o curto produtos por meio de parcerias com os principaisprazo, mas o gestor não citou nenhum alvo fornecedores do segmento, grande variedade deespecífico ou mensurável, mas o gestor mostrou produtos e atendimento de qualidade com fortesque busca envolver todos da organização em relacionamentos com os clientes. Sua instalaçãobusca do bom funcionamento da empresa. As inicial foi feita a partir de uma loja no Shoppingestratégias da empresa visam o crescimento e de Campo Limpo e posteriormente mudou-se paraa diferenciação (criação de novos modelos de uma loja de rua próxima ao shopping, devidoalianças principalmente), mas são modificadas e ao alto custo fixo e a necessidade de um espaçomelhoradas de maneira reativas às ações e decisões maior. Com isso, o leque de produtos foi ampliado 58 |
  • 62. Revista da FAEe a empresa passou a focar-se principalmente em experiências com os fornecedores com o objetivoprodutos de pesca. Hoje conta com 6 funcionários de identificar mudanças no mercado e ajustar seusna busca de oferece uma grande variedade destes preços. Para não errar a empresa acompanha asprodutos, além de trabalhar com equipamentos tendências e iniciativas da concorrência e passa apara camping, náutica e ainda mergulho. utilizá-las na empresa. O segmento apresenta alta Do mesmo modo que qualquer empresa barreira de entrada já que o investimento inicialiniciante se depara com dificuldades de adentrar é alto e é necessário um bom conhecimento dosem um segmento, seja por falta de conhecimento consumidores, principalmente de seus hábitosdo seu público-alvo, feeling de mercado, conhe- de consumo. A satisfação dos clientes é medidacimento dos produtos, concorrentes, tributos, a por meio da frequência e retorno dos clientes, ouloja pesquisada está passando por um período mesmo da indicação da loja por parte dos consu-estabilização no mercado. O segmento de aquá- midores para amigos, familiares e conhecidos. Osrio e principalmente de pesca possui uma forte funcionários mantêm um registro dos melhoresconcorrência, devido à presença de empresas clientes e freqüentemente através do contatotradicionais além de empresas grandes redes que telefônico apresentam novidades de produtoscriam promoções que dificilmente pode ser acom- ou mesmo realizam avaliações de necessidades epanhadas por empresas de pequeno porte. Assim, contentamento para com a loja.a empresa busca conquistar o mercado por meio A empresa possui como vantagem interna ade uma administração eficaz e um atendimento recente formação dos gestores em administraçãodiferenciado. A loja, além da facilidade da locali- de empresas. Com isso acredita-se que ela conse-zação, possui um amplo espaço com diversas va- guirá identificar falhas nos processos internos, degas, o que garante aos clientes da empresa maior funcionários e mesmo na gestão e rapidamenteconforto para fazerem suas compras em relação as corrige-los de forma adequada, guiando assim alojas da região. Por falta de informações e dados empresa rumo ao sucesso e o planejamento ne-relevantes sobre o setor a empresa não sabe qual cessário para alcançá-lo. Os funcionários recebemé sua participação de mercado, mas comparativos treinamento através de troca de experiências porpor faturamento mostra que a empresa possui no parte dos funcionários mais velhos com os maismomento uma participação pequena de mercado. novos, além de apostilas, livros e vídeos do assun- Uma grande dificuldade identificada pela to. A empresa busca também uma parceria comempresa é o fato de ainda não haver pessoas na os fornecedores, para que estes possam instruir aparte da direção da empresa que entendam efe- equipe de venda a respeito dos produtos por elestivamente dos produtos e conheçam os hábitos oferecidos. Como muitos clientes do segmentode consumo dos clientes, tornando a empresa possuem um conhecimento considerável sobre osvulnerável em comparação a concorrentes tradi- produtos, a loja busca manter uma equipe comcionais. Os fornecedores são considerados fortes alto conhecimento dos produtos e dessa formaaliados para a empresa, já que eles possuem poder sanar dúvidas e identificar necessidadescontato direto com a concorrência e possuem dos clientes, consequentemente transformando-grande experiência no mercado, além de terem -as em vendas.conhecimento do preço praticado por eles. Assimsendo, a empresa realiza constantemente troca deRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |59
  • 63. Por meio das vendas individuais a empresa de crescimento no longo prazo, tanto da lojaconsegue identificar o desempenho dos funcioná- como dos funcionários. Dessa forma a empresarios, acompanhando assim melhoras ou dificulda- encontra-se no estagio de crescimento, já quedes encontradas por cada um deles, que tentam existe um grande mercado a ser explorado tantoser ajustadas com aumento de treinamento ou na loja física quanto em planos de loja virtual.recursos para capacitação. O perfil dos profissio- Porém uma grande dificuldade encontrada pelanais da empresa são vendedores que possuam ex- empresa é a respeito da reposição de estoque, queperiência no assunto, tenham vontade de aprender ainda não é totalmente informatizada.ainda mais e que almejam crescer juntamente com Os preços dos produtos são atualizados cons-a loja. Como a gerência possui ainda pouca expe- tantemente através de pesquisas com clientes eriência e conhecimento a respeito dos produtos e fornecedores, além da observação das lojas dosmercado, a empresa encontra grande dificuldade concorrentes e de sites do segmento, para que apara comprar produtos certos e que atendam as empresa possa ter preços compatíveis com seusnecessidades dos clientes, e ainda contato com concorrentes, já que seus clientes são muito sensí-estes fornecedores, tornando a empresa vulnerável veis ao preço. Por isso, a empresa busca conseguir oem comparação com os tradicionais concorrentes. melhor custo possível de seus produtos para ter umaComo a empresa é de pequeno porte os departa- margem melhor e transmite. Por meio das informa-mentos são liderados por pessoas próximas, tendo ções transmitidas pelos clientes a empresa busca ossuas vantagens como rápido tempo de resposta e melhores canais de divulgação para atingi-los.desvantagens como problemas da informalidade Analisando as estratégias discutidas ao lon-nas atividades. go da pesquisa (custo, qualidade, diferenciação), No inicio da atividade da empresa, o produto a empresa realiza hoje pouca implementação,principal seria aquarismo, mas com a mudança focando-se principalmente ou quase exclusiva-de localização da loja o core business passou a mente na estratégia de preços, feita principal-ser a comercialização de produtos para pesca. A mente por meio da observação da reação dosempresa tem a missão declarada no site: garantir clientes. A empresa preocupa-se em organizar-sea excelência na comercialização de produtos de internamente, formalizando os processos internospesca, aquário e camping, agregando valor ao e treinando os funcionários de forma à atender ascliente e garantindo a sua plena satisfação. O necessidade dos clientes. Por meio de observaçãoconceito, porém, está incompleto, pois falta citar dos concorrentes e troca de informações como público alvo, e a área de atuação. Identificou- os fornecedores, a empresa consegue implantarse que a Acqua fish aponta como ponto a ser estratégias que já foram testadas no segmento emelhorado o atendimento aos clientes por parte obtiveram sucesso.dos vendedores, pessoas que lidam diretamentecom todos os compradores, mostrando assimum ponto crucial para o alcance da proposta 3.5 Análise comparativa dos resultadosda empresa que é oferecer um diferencial no apuradosatendimento ao cliente por meio de funcionáriosque efetivamente entendam dos produtos. A Analisando conjuntamente os casos percebe-loja preocupa-se que os vendedores saibam mos que as empresas realizam diversas pesquisasdo almejo que a direção da empresa possui no ambiente externo, principalmente no tocante 60 |
  • 64. Revista da FAEaos concorrentes, mas poucas destas pesquisas Embora todas as empresas conheçam seusão formalizadas e feitas de maneira padronizada. público alvo, a região de atuação e o papel queA formalização é muito enfatizada na pesquisa a empresa desempenha no mercado, nenhumade preços pelas empresas, com exceção da fabri- possui um conceito formalizado que seja completocante de etiquetas e rótulos que não formaliza sobre a missão. A joalheria tem sua missãoeste processo. As empresas mostraram conhecer declarada no site, porém está conceitualmentebem o setor e os seus concorrentes, com exceção errada, as outras não possuem nenhuma missãoda fabricante de etiquetas e rótulos e da loja de declarada. Todas as empresas estão buscando oartigos de pesca, camping e aquarismo que não crescimento, embora a fabricante de etiquetasconhecem muito bem seu setor, mas conhecem e rótulos tenha declarado que se encontra emseus concorrentes. Todas têm ciência sobre os uma fase de estagnação, ela mostrou o claroentrantes potenciais no ramo e as barreiras que interesse (de curto e longo prazo) em voltar aexistem e que podem utilizar para evitar estes crescer. Os gestores parecem não ter o conceitoentrantes. De uma maneira geral todas as em- de objetivo muito claro já que nenhuma empresapresas fazem análises do ambiente externo, mas apresenta objetivos mensuráveis, somente metasa formalização é praticamente inexistente. predominantemente de curto prazo. A fabricante de etiquetas e rótulos foi a única empresa que Quanto as práticas de mercado, todas as se mostrou preocupada com objetivos de longoempresas buscam imitar as melhores (benchma- prazo, embora não mensuráveis.rking), observando seus concorrentes e adaptandoestas às suas empresas. Em todos os casos este Como a maior parte das estratégias não sãoprocesso é feito de forma informal. Os pontos formalizadas, a maior parte das empresas não per-fortes e fracos são percebidos pelas empresas e a cebe o momento exato da implementação o quemaior parte delas aproveita os fortes e trabalha dificulta estabelecer métodos e critérios de análiseos fracos. Esses pontos são identificados pela para aquela estratégia. Apenas a joalheria mostrou utilizar o processo de implementar, controlar eobservação da empresa e dos concorrentes e realizar um feedback para arrumar as falhas.verificando-se o que a empresa tem de melhor notocante a processos e recursos internos, mas estapesquisa também é feita de maneira informal. Noambiente interno é onde as empresas mostraram Considerações finaismaior nível de formalização, vimos que a BR 101,emite relatórios semanais de desempenho dos Em detrimento da literatura preconizada nes-seus vendedores, a joalheria também faz relatórios te trabalho se pode ventilar que o planejamentosemanais sobre o desempenho dos funcionários estratégico corteja a mobilização de todos osda fábrica, relatórios mensais sobre o desempenho recursos da empresa no âmbito global externo edos vendedores e todos os novos processos que interno visando atingir objetivos definidos previa-são adotados pela empresa são passados para os mente. Tem-se ai uma metodologia gerencial quefuncionários e todos assinam que estão cientes. permite estabelecer o caminho a ser seguido pelaNa loja de artigos de pesca, camping e aquarismo empresa, visando elevar o grau de interações come na fabricante de etiquetas e rótulos não foram os ambientes internos e externos. O planejamentoidentificados processos que sejam formalizados. estratégico procura responder a questões básicas,Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |61
  • 65. como: Por que a organização existe? O que e como Finalmente pode se elencar que pelo fatoela faz? E aonde ela quer chegar? O planejamen- de a gestão das empresas ser familiar, há umato estratégico deve comportar decisões sobre o grande resistência dos gestores em aceitar novosfuturo da organização. Nesse aspecto tem-se: os conceitos administrativos, de modelo de negócio,objetivos organizacionais de longo prazo; as ati- e uma centralização das atividades e processos quevidades escolhidas, isto é, os produtos (bens ou ocorrem na organização o que dificulta a formali-serviços) que a organização pretende produzir; zação e elaboração do planejamento estratégico.os consumidores ou clientes que se pretende A pesquisa deixa espaço para outros pesquisa-abranger; os lucros esperados para cada uma dores buscarem comprovar os resultados desta,de atividades desempenhadas pela organização; com pesquisas mais abrangentes ou em setoresalternativas estratégicas quanto ao manter o pro- específicos, assim como podem se aprofundar emduto atual, maior penetração no mercado atual e temas mais específicos do trabalho para identificardesenvolvimento de novos mercados; e finalmen- sua relação com os resultados desta pesquisa.te novos investimentos em recursos (materiais,financeiros, máquinas e equipamentos, recursos Limitaçõeshumanos, tecnologia etc.) A primeira limitação refere-se à abordagem No presente trabalho exposto acima, ao se metodológica utilizada. Por se tratar de umarealizar a investigação de campo com o objetivo de pesquisa de natureza exploratória, os resultadosverificar como ocorre o planejamento estratégico encontrados não devem ser generalizados. Asnas micro e pequenas empresas de gestão familiar, considerações finais só podem ser estabelecidaspode-se perceber que em todas as empresas pes- para o caso estudado. Além disto, as diferençasquisadas ocorre, consciente ou inconscientemente, encontradas das atividades refletem somente auma etapa ou mais do planejamento estratégico. concordância ou discrepância em relação à revi-A ausência de formalização dos vários processos são bibliográfica, não sendo válidas comparaçõesnessas empresas parece ser consequência do estilo sobre a eficácia e eficiência entre estas empresas.centralizador de gestão adotado pelos gestores. A As considerações observadas foram feitas a partirestrutura é muito influenciada pela gestão familiar. da interpretação em torno das declarações dosPercebe-se que nenhuma empresa define de ma- entrevistados e de outras fontes de evidênciasneira conceitualmente correta sua missão, embora consultadas, sendo, portanto, guiadas pela per-todas tenham clara consciência do seu papel no cepção do pesquisador e ocasionalmente passíveismercado, região de abrangência, público alvo e de vieses em algumas colocações.os produtos oferecidos e seus objetivos não sãodeclarados de maneira mensurável. Nos ambientesinterno e externo, as empresas demonstraram re-agir às ameaças e fraquezas e também aproveitaras oportunidades e forças que possuem, para deadaptar às mudanças do mercado e do setor. Ofeedback e controle, nas empresas pesquisadas,não é muito presente principalmente por estas nãoterem o conceito claro de qual seja a estratégia • Recebido em: 10/09/2010adotada pela empresa ou sobre os objetivos. • Aprovado em: 27/10/2010 62 |
  • 66. Revista da FAEReferênciasACKOFF, Russell Lincoln. Planejamento empresarial. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1976.ANSOFF, H. Igor; MCDONNELL, Edward J. Implantando a administração estratégica. 2.ed. SãoPaulo: Atlas, 1993.BARNEY, Jay B.; HESTERLY, William. Economia das organizações: entendendo a relação entre asorganizações e a análise econômica. In: Handbook de estudos organizacionais. São Paulo: Atlas,2008. v.3.BATEMAN, Thomas S.; SNELL; Scott A. Administração: novo cenário competitivo. 2.ed. São Paulo:Atlas, 2006.CERVO, Amado Luiz; BERVIAN, Pedro Alcino. Metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Prentice-Hall, 2004.FISCHMANN, Adalberto A.; ALMEIDA, Martinho Isnard Ribeiro De. Planejamento estratégico naprática. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1991.GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2002.HARRISON, Jeffrey S. Administração estratégica de recursos e relacionamentos. Porto Alegre:Bookman, 2005.HITT, Michael A.; IRELAND, R. Duane; HOSKISSON, Robert E. Administração estratégica. São Paulo:Pioneira Thomson Learning, 2002.MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Introdução à administração. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2004.MINTZBERG, H.; AHLSTRAND, Bruce; LAMPEL, Joseph. Safári de estratégia: um roteiro pela selvado planejamento estratégico. São Paulo: Bookman, 2000.OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Planejamento estratégico: conceitos, metodologia epráticas. 2.ed. São Paulo: Atlas, 1987.PORTER, Michael E. Competição: on competition - estratégias competitivas essenciais. 10.ed. Rio deJaneiro: Campus, 2003.______. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. 17.ed. SãoPaulo: Campus, 1986.______. Vantagem competitiva: criando e sustentando um desempenho superior. 13.ed. Rio deJaneiro: Campus, 1990.RASMUSSEN, U. W. Manual da metodologia do planejamento estratégico: uma ferramentacientífica de transição empresarial do presente para o futuro adotada para o âmbito operacionalbrasileiro. São Paulo: Aduaneiras, 1990.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 47-64, jul./dez. 2010 |63
  • 67. SEBRAE. Fatores condicionantes e taxas de sobrevivência e mortalidade das micro e pequenasempresas no Brasil 2003-2005. Ago. 2007. Disponível em: <http://201.2.114.147/bds/BDS.nsf/8F5BDE79736CB 99483257447006CBAD3/$File/NT00037936.pdf>. Acesso em: 01 fev. 2010.______. Indicadores SEBRAE-SP: pesquisa de conjuntura. Fev. 2009. Disponível em: < http://www.sebraesp.com.br/sites/default/files/ indicadores_fev_10.pdf>. Acesso em: 01 fev. 2010.______. No Brasil, 90% das empresas são familiares. Out. 2005. Disponível em: <http://www.sebrae-sc.com.br/newart/default.asp? materia=10410>. Acesso em: 01 fev. 2010.SERRA, Fernando A. Ribeiro; TORRES, Maria Candida S.; TORRES, Alexandre Pavan. Administraçãoestratégica: conceitos, roteiro prático e casos. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso, 2004.SERTEK, Paulo et al. Administração e planejamento estratégico. Curitiba: Ibpex, 2007.TAVARES, Mauro Calixta. Gestão estratégica. São Paulo: Atlas, 2000.THOMPSON JR., Arthur A.; STRICKLAND III, A. J.; GAMBLE, John E. Planejamento estratégico. SãoPaulo: McGraw-Hill, 2008.TOLEDO L. A; SHIRAISHI G. Estudo de caso em pesquisas exploratórias qualitativas: um ensaio paraa proposta de protocolo do estudo de caso. Revista da FAE, Curitiba, v.12, n.1, p.103-120, jan./jun.2009.WRIGHT, Peter; KROLL, Mark J.; PARNELL, John. Administração estratégica: conceitos. São Paulo:Atlas, 2000.YIN, Robert K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 3.ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. 64 |
  • 68. Revista da FAEAnálise comparativa dos modelos de precificação de ativosCapital Asset Pricing Model e Downside Capital Asset PricingModelComparative analysis of both Capital Asset Pricing Model andDownside Capital Asset Pricing Model Adriana Moreira Bastos de Faria* Lucas Maia dos Santos**ResumoNeste estudo discutiremos dois modelos de equilíbrio: o CAPM convencional euma de suas variações, o Downside Capital Asset Pricing Model. Foram utilizadosdados secundários obtidos da base de dados Economática Software paraInvestimentos Ltda. Utilizaram-se o preço de fechamento das cotações diáriasde 21 ações escolhidas aleatoriamente negociadas na Bolsa de Valores de SãoPaulo, correspondendo ao período entre 01/09/2006 a 21/06/2010, com 935observações de rentabilidade. Utilizou-se como proxy da carteira de mercado oíndice Ibovespa e quanto ao ativo livre de risco, a taxa Selic. No geral, percebeu-se que o downside beta foi inferior ao beta tradicional indicando que a análise apartir da semi-covariância e semi-variância possibilitou a redução do risco sistêmicodo ativo, o que foi corroborado pela redução dos retornos esperados para osmesmos ativos. No entanto realizando o teste t de student, verificou-se que nãoexiste diferença significativa entre os betas. Concluindo, pode-se observar que avolatilidade negativa dos ativos é bastante significativa na composição do riscodo ativo, o que mostra a importância do downside beta como fator explicativodo verdadeiro risco sistêmico.Palavras-chaves: CAPM; DCAPM; Finanças.AbstractIn this study we discuss two models of balance: the conventional CAPM and itsvariations, the Downside Capital Asset Pricing Model. Secondary data were obtainedfrom the database Economática Software Investimentos Ltda. We used the closing * Mestranda em Administraçãodaily prices of 21 randomly selected stocks traded on the Bolsa de Valores de São com ênfase em Finanças pelaPaulo, corresponding to the period from 01/09/2006 to 21/06/2010, with 935 Universidade Federal de Minasobservations. It was used as a proxy of market the Ibovespa index and as a risk Gerais, . Analista do Banco Centralfree asset the Selic rate. The downside beta was lower than the traditional beta do Brasil, com atuação na área deindicating that the analysis from the semi-variance and semi-covariance allowed Planejamento, Orçamento e Custos.for the reduction of systemic risk of the assets, which was corroborated by the Brasília - Distrito Federal. E-mail:reduction of the expected returns for the same assets. However performing the adrianambf@gmail.comt test, it was found that there is no significant difference between the betas. In ** Mestrando em Administraçãoconclusion, we can observe that the negative volatility of assets is quite significant com ênfase em Finanças pelain the composition of risk assets, which shows the importance of downside beta Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte - Minasas an explanatory factor of the real systemic risk. Gerais. E-mail: admlucasmaia@ hotmail.comKeywords: CAPM; DCAPM; Finance;Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |65
  • 69. Introdução o próprio CAPM, representando, na verdade, variações do mesmo. O desenvolvimento de modelos de previsão Neste estudo discutiremos dois modelos: ode retorno de ativos financeiros tem sido alvo de CAPM convencional e uma de suas variações, ograndes discussões pelos teóricos da administração Downside Capital Asset Pricing Model ou D-CAPM.financeira. Entre os vários modelos desenvolvidos, Este segundo veio como uma alternativa que visaos trabalhos de Markowitz (1952), Tobin (1958), propor adaptações ao tradicional CAPM, com aSharpe (1964), Lintner (1965) e Mossin (1966) finalidade de corrigir imperfeições provocadas pelaresultaram no modelo mais utilizado tanto no falta de liquidez e a alta volatilidade do mercadomeio acadêmico quanto no meio empresarial. de capitais dos países emergentes. O modeloEste foi denominado Capital Asset Pricing Model D-CAPM propõe-se estimar o retorno requerido(CAPM). Sua simplicidade teórica e prática é a utilizando uma medida de downside risk, a fim deprincipal razão de seu sucesso. corrigir vieses na mensuração da medida de risco, Investimentos financeiros podem ser previs- provocados especialmente pela assimetria dostos a partir de uma relação linear com o fator de retornos das ações. Assim, usa como alternativamercado. Para isso, supõe-se que todos os inves- o downside beta, que utiliza a semivariância notidores possuam um mesmo conjunto de infor- lugar da variância como medida de dispersão.mações; por conseguinte, todos eles desenhariam Desta forma, tentaremos responder a seguinteum mesmo conjunto eficiente de ativos com risco. pergunta: Existem diferenças significativas entreEm tal situação, o mercado atingiria o que se cha- os modelos CAPM e DCAPM para precificação emou de equilíbrio entre cada risco e retorno. Este medida de risco das ações do mercado brasileiro?é o principal pressuposto da teoria do CAPM: o Uma das vantagens da semivariância é queequilíbrio do mercado. Autores como Damodaran ela considera indesejável apenas os retornos que(2002), Ross, Westerfield e Jaffe (2002), Damoda- estão abaixo do esperado, enquanto a variânciaran (2007) e Assaf Neto et al. (2008) argumentam considera igualmente indesejáveis todos os extre-sobre o assunto. mos dos retornos. Segundo Elton et al. (2003), o Nas últimas duas décadas evidenciou-se o D-CAPM é um modelo que centra seu foco uni-crescimento do número de estudos empíricos camente no risco não desejado, ou seja, analisaque examinam a capacidade preditiva da versão apenas os retornos que estão abaixo do retornoestática do CAPM (BONOMO, 2002; RIBENBOIM, esperado (desvio negativo), pois, de acordo com2002; PAIVA, 2005; TAMBOSI FILHO et al., 2010). Estrada (2000), os investidores se preocupam ape-Os resultados obtidos nesses estudos mostram nas com a parte negativa do risco, uma vez queque a versão estática é incapaz de explicar esta é indesejável para os investidores.razoavelmente a variação cross-sectional do Assim, este estudo terá como objetivo prin-retorno médio dos portfólios analisados. Para cipal comparar os modelos de precificação CAPMtentar explicar essas e outras questões, surgem e DCAPM para um mesmo grupo de ações doentão adaptações mais complexas ao modelo mercado brasileiro. Para isso este estudo está di-CAPM. A partir das limitações encontradas no vidido em cinco partes, incluindo esta Introdução.CAPM, passaram a ser desenvolvidas novas Na segunda parte faremos uma breve revisão damodelagens, tendo muitas delas tido como base literatura para explicar a construção dos dois mo- 66 |
  • 70. Revista da FAEdelos de equilíbrio. Essa parte será seguida pelos pouco mais que afirmações. A sua preocupaçãométodos e procedimentos aplicados e pela análise era que não existia realmente um meio significa-dos resultados com informações de uma amostra tivo de relacionar retorno e risco.de ações negociadas na BMF & Bovespa. Por fim, Outro trabalho na mesma linha foi o publicadotem-se a conclusão com as principais comparações por Lintner (1965), também sobre a mensuraçãoentre os modelos, buscando identificar a maior do risco envolvido nos retornos de ativos decorrelação com o retorno dos ativos e o que obteve capital. Este trabalho expunha o problema demelhor desempenho para as ações analisadas. se selecionar uma carteira ótima de ativos por investidores com aversão a risco, os quais tinham a alternativa de investir em ativos livres de risco com1 Referencial teórico retorno positivo. Lintner (1965), do mesmo modo que Sharpe (1964), também baseou seu estudo em diferentes expressões contendo elementos1.1 Capital Asset Pricing Model de desvio-padrão, variância e covariância dos retornos dos ativos, de modo a obter diferentes O estudo da relação risco e retorno em finanças combinações de expectativa de resultados, talteve um de seus trabalhos seminais representado como no modelo CAPM, que será utilizado comopelo artigo de Sharpe (1964). O autor, através base para o presente estudo.desse trabalho, deu um passo importante na Uma terceira abordagem independente ebusca da compreensão do comportamento dos contemporânea sobre precificação de ativos foiretornos dos ativos financeiros em condições de feita por Mossin (1966) que se propôs a investigarrisco, tornando-se um dos pilares da moderna as propriedades dos ativos de risco de mercadoadministração financeira. Seu modelo ficou baseado no modelo simples de equilíbrio geral deconhecido pela sigla CAPM (Capital Asset Pricing câmbio. Baseou sua teoria na existência de umaModel) e até hoje tem sido muito utilizado nos linha de equilíbrio de mercado, onde discutiuestudos sobre estratégias de investimento nos o conceito de prêmio de risco em termos damercados financeiros. No caso do mercado inclinação desta linha.acionário brasileiro, a fim de testar a aplicabilidade Baseado nas ideias de Markowitz (1952),do CAPM, muitos estudos recentes têm sido Sharpe (1964) desenvolveu o CAPM, atualmenterealizados, destacando-se os de autores como: consagrado um dos modelos mais utilizadosCosta Jr. e Neves (2000), Ribenboim (2002), Hagler para avaliação de ativos financeiros, dado sua(2003), Paiva (2005), Mussa, Rogers e Securato simplicidade e reduzido número de cálculos.(2008) e Tambosi et al. (2010). As premissas assumidas por Sharpe (1964) na Sharpe (1964) manifestou à época a dificul- construção deste modelo foram as seguintes:dade existente de predizer o comportamento do – Os investidores são indivíduos que temmercado de capitais devido à ausência de conceito aversão ao risco. Eles compõem seus por-microeconômicos adequados. Mas, devido à influ- tfólios segundo o critério de maximizaçãoência do risco nos mercados, os administradores do retorno e de minimização da variânciaeram obrigados a adotar modelos de compor- das rentabilidades;tamento de preços que significavam apenas umRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |67
  • 71. – Todos os investidores são tomadores de Essa relação supõe que o retorno esperado preços e possuem expectativas homogêne- de qualquer ativo com risco seja igual à taxa de as em relação aos rendimentos dos ativos; retorno do ativo livre de risco, mais um prêmio – Existência de um ativo livre de risco. Os pelo risco, que é o segundo termo da equação. O investidores podem tomar empréstimos e prêmio pelo risco é o retorno que os investidores emprestar sem limites e à mesma taxa; exigem pelo risco e é obtido pelo preço de mercado do risco multiplicado pela quantidade de – Todos os ativos são perfeitamente divisíveis; risco (ELTON et al., 2003). Segundo Silva (2007), – Não há custo de transação nem impostos; essa relação também pode ser escrita da seguinte – As quantidades de todos os ativos são forma: dadas e fixas e a informação está ao alcance de todos os investidores. Retorno esperado = Preço do tempo + Quantidade de risco * Preço do risco (2) Consideradas essas premissas, o modelo deSharpe (1964) estabelece que o retorno médio O preço do risco é a diferença entre a taxa deesperado de um ativo é função apenas do seu risco retorno esperada na carteira de mercado e a taxanão diversificável (também conhecido como risco de retorno livre de risco. A quantidade de risco ésistemático) relacionado às flutuações do sistema chamada de beta (ß). O beta é, segundo Brighameconômico como um todo, já que o risco não et al. (2001), a tendência de uma ação se moversistemático depende de fatores que podem afetar para cima ou para baixo, com o mercado e podeo desempenho da empresa, como estrutura de ser calculado pela seguinte fórmula:capital, performance da administração, campo deatuação entre outros, e que, por sua vez, pode ser σ iM Cov (Ri, RM) ßi = = (3)eliminado por meio da diversificação da carteira σ 2M Var (RM )proposta por Markowitz (1952). Desta forma,o relacionamento entre o risco sistemático e o em que:retorno de títulos é dado por uma relação linear, e ßi é o beta do ativo i;esta pode ser explicada por um índice de mercado. Cov (Ri, RM) é a covariância entre o retorno do A forma básica do CAPM pode ser escrita ativo i e o retorno do mercado;como: Var (RM) é a variância do retorno do mercado. E(Ri )= RF + ß [ E(RM) - RF ] (1) Assim, quanto mais elevada a covariância en- tre o retorno de um ativo e o retorno do mercado, maior será o beta deste ativo e, conseqüentemen- Onde: te, maior será seu risco. E(Ri): taxa de retorno esperado de um ativo Nas carteiras diversificadas, o beta torna-qualquer em situação de equilíbrio; se a medida correta do risco dos ativos. Nesses RF: taxa livre de risco; casos, segundo Elton et al. (2003), o risco não- ß: coeficiente beta ou risco sistemático; sistemático tende a zero e o único risco relevante E(RM): taxa de retorno esperado a ser paga é o medido pelo beta. Então supondo-se aspelo mercado. expectativas homogêneas e uma possibilidade limitada de empréstimos, todo investidor irá 68 |
  • 72. Revista da FAEoptar pela carteira de mercado, pois sua opção como alternativa para superar as limitações daserá por uma carteira muito bem diversificada. variância, indicando a semivariância como medidaLogo, assumindo-se que o investidor tem interesse apropriada nesses casos.apenas nos retornos e riscos esperados, as únicas De acordo com López e Garcia (2010), se adimensões do ativo necessárias para tomada de distribuição das rentabilidades dos ativos é simé-decisão são os retornos esperados e o beta (ELTON trica, não há problema algum em medir o riscoet al., 2003). pelo desvio-padrão e pela variância, pois, quando a distribuição é simétrica, a probabilidade de ocor- rerem desvios negativos e positivos da média é a1.2 Downside Capital Asset Pricing Model mesma. Mas, se a distribuição é assimétrica, como (D-CAPM) ocorre normalmente nos mercados emergentes, em virtude da alta volatilidade de seus mercados, O modelo de mensuração de ativos financei- o desvio-padrão e a variância deixam então de serros CAPM, como visto anteriormente, foi criado medidas eficazes de risco, pois a probabilidade dena década de 1960 e, deste então, vem sendo se obter um rendimento acima da média é diferen-protagonista de fervorosos embates teóricos em te da probabilidade de se atingir um rendimentotodo o mundo. Um dos questionamentos mais abaixo da média (ou vice-versa). Em substituição,usuais é se a medida de risco beta é a ferramenta adotam-se a semivariância e o semidesvio-padrãomais apropriada para mensurar o risco. como medidas de dispersão ideais. Segundo Estrada (2002), porém, a discussão Para Hogan e Warren (1974), o principal fatorsobre a validade do CAPM não deve girar em que motiva o uso da semivariância no lugar datorno do beta, e sim, da base de sustentação variância é que a minimização da semivariânciateórica do beta. Em outras palavras, investidores se concentra na redução das perdas, ao passoprocuram maximizar sua função de utilidade, que, que a variância identifica como indesejáveis tantopor sua vez, depende da média e da variância dos ganhos extremos como perdas extremas. Ou seja,retornos de seu portfólio. Ou seja, a utilização o retorno esperado talvez seja sacrificado na eli-da variância como medida de risco é passível de minação de ambos os extremos.ser questionada, principalmente em mercados A medida de risco semivariância pode seremergentes, em razão da assimetria dos retornos expressa da seguinte forma:das ações. Segundo Markowitz (1959), a definição sobre S²=E(Min((Rx-T),0)²) (3)qual medida de dispersão adotar na análise de por- Onde:tfólio dependerá do formato da distribuição dosretornos das ações. Se esta possuir um formato Se (Rx-T)>0, (Rx-T)=0simétrico, ou se todos os ativos possuírem o mes-mo grau de desvio, sugere-se utilizar a variância Se (Rx-T)<0,(Rx-T)<0como medida de risco. Porém, se o formato dadistribuição dos retornos dos ativos for assimétri-co ou se os ativos possuírem graus de dispersãodiferentes uns dos outros, Markowitz (1959) su-gere que se utilize uma medida de downside riskRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |69
  • 73. Recentemente, Estrada (2000) desenvolveu No mercado brasileiro, caracterizado porum modelo para substituir o tradicional CAPM. grande volatilidade dos ativos torna-se interessan-Esse modelo foi nomeado de Downside Capital te utilizar o D-CAPM como medida alternativa deAsset Pricing Model (D-CAPM). O que difere o mo- risco sistêmico, considerando apenas as variaçõesdelo criado por Estrada do convencional CAPM é a dos retornos negativos. Ademais, os retornos ne-medida de sensibilidade, que aqui é denominada gativos são as verdadeiras possibilidades de perdadownside beta. para um investidor, tornado o modelos ainda mais Contudo, não se trata da mesma medida de- interessante no uso prático de análise de mercado.senvolvida por Hogan e Warren (1974). O D-CAPMpode ser calculado pela razão entre o semidesviodos retornos do ativo e o semidesvio dos retornos 2 Metodologiado mercado, ou seja, pela co-semivariância divididapela semivariância dos retornos do mercado. De Para execução deste estudo foram utilizadosacordo com Estrada (2000), essa medida de do- somente dados secundários obtidos da base dewnside risk possui um maior poder de explicação dados Economática Software para Investimentosdos retornos dos ativos em mercados emergentes Ltda. Utilizaram-se o preço de fechamentoque o tradicional beta do CAPM. das cotações diárias de 21 ações escolhidas Estrada apoiou-se nas mesmas suposições do aleatoriamente negociadas na Bolsa de Valores deCAPM para construir seu modelo de precificação São Paulo (BOVESPA), correspondendo ao períodode ativos financeiros. Segundo Elton et al. (2003), compreendido entre 01 de setembro de 2006 ao D-CAPM é um modelo que centra seu foco 21 de junho de 2010. Este período possibilitouunicamente no risco não desejado, ou seja, analisa analisar 935 observações de rentabilidade. Oapenas os retornos que estão abaixo do retorno retorno das ações foram calculados pelo regime deesperado (desvio negativo), pois, de acordo com capitalização contínua de acordo com a seguinteEstrada (2000), os investidores se preocupam equação:apenas com a parte negativa do risco, uma vezque esta é indesejável para os investidores. Pt- Pt-1 Sendo assim, o D-CAPM consegue estimar Pt-1 (6)melhor o retorno que o investidor efetivamenteespera por estar investindo seu capital em ativosde um país emergente. O cálculo do retorno Onde:esperado pelo D-CAPM é dado pela seguinte Pt - preço da ação no período tfórmula: Pt-1 - preço da ação no período t-1 ri= rf + (rM- rf ) ßD (4) Utilizou-se como proxy da carteira de mer- O cálculo do beta é revelado pela seguinte cado o índice da Bolsa de Valores de São Pauloequação, (Ibovespa). O Ibovespa é o principal índice do mercado brasileiro de ações e sua determinação baseia-se no volume de negócios de uma cesta de títulos de empresas com alto valor agregado, 70 |
  • 74. Revista da FAEo que o torna, portanto, representativo do com- Com as variáveis apostas partiu-se para aportamento geral do mercado acionário brasilei- construção dos modelos de precificação. Para oro. Cabe ressaltar que alguns dos artigos citados cálculos dos modelos utilizou da ferramenta deanteriormente como Paiva (2005) e Tambosi et al. regressão linear univariada para o cálculo do beta(2010), também usaram o Ibovespa como proxy. de risco sistêmico. A equação 3 exibe a regressão Quanto ao ativo livre de risco, na literatura ele utilizadaé aquele que possui retornos com desvio padrão Ri - Rf = α + ß × (Rm- Rf) (8)igual a zero. Entretanto, não existe consenso entreos pesquisadores sobre qual seria a taxa livre derisco apropriada na economia brasileira, visto que Ri - Rf - excesso de risco do ativo inão existe ativo com tal padrão de desvios no País. Rm- Rf - excesso de risco do mercadoNeste estudo optou-se por utilizar a taxa Selic. α – Coeficiente linear A utilização da Selic, como aproximação ß - beta representativo do risco sistêmicoda taxa livre de riscos, é corroborada por Hull1(1995), citado por Fraletti (2004), que sugere o No calculo do D-CAPM, os excessos de retornorendimento de operações compromissadas com do ativo e de mercado foram calculados de acordoprazo de um dia como equivalente à taxa livre de com a seguinte equação:todos os riscos (crédito, liquidez e mercado, dado Ri - Rf = α+ ßD × (Rm- Rf) (9)o curtíssimo prazo). No âmbito doméstico, pode-se, portanto, adotar a remuneração da poupança Onde ßD representa o downside beta sob ase a taxa Selic como aproximações da taxa livre seguintes condições:de riscos ou, pelo menos, como parâmetro de“taxa de retorno de mínimo risco da economia”, Se Ri - Rf )>0 → Ri - Rf )= 0 ouconforme proposto por Fraletti (2004). Alémdisso, a taxa Selic tem um spread praticamente Se Ri - Rf < 0 → Ri - Rf ) = Ri - Rf e;nulo para emprestar e tomar emprestado, o quea aproxima de uma das premissas colocadas por Se Rm - Rf > 0 → Rm - Rf =0 ou;Sharpe (1964) ao pressupor a existência de umataxa de juros pura, disponível aos investidores para Se Rm - Rf < 0 → R m - Rf = Rm - Rftomar e emprestar recursos. Este estudo teve caráter exploratório, pois A Taxa Selic foi transformada para seu valor as informações necessárias para o conhecimentodiário segundo a seguinte equação: das características dos modelos de precificação Selic diária=Selic anual1/360) (7) foram obtidas pela coleta secundária. Também pode ser considerado descritivo, visto que mos- trou as estatísticas das rentabilidades deste ativos possibilitando caracterizá-los e compará-los de acordo com a relação risco e retorno. Quanto à abordagem do problema e operacionalização das1 HULL, J. Introdução ao mercado de futuros e de opções. 2.ed. variáveis, a pesquisa foi quantitativa no levanta- São Paulo: BMF, 1995. mento e tabulação dos dados e qualitativa naRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |71
  • 75. análise e comparação desses dados para identificar dependência dos riscos sistemáticos encontrados.as especificidades do objeto de pesquisa, bem Como característica do mercado de ações brasi-como comparar os dois modelos de equilíbrios leiro, observa-se pelo coeficiente de variação edemonstrados neste estudo: CAPM e D-CAPM. desvio padrão das ações, a grande volatilidade, tanto destas ações como da proxy de mercado, ou seja, o IBOVESPA. Mesmo a proxy de risk free utilizada neste trabalho possui uma volatilidade de3 Resultados aproximadamente 15% para cada unidade média de retorno. No geral observa-se pelo coeficiente Para iniciar a discussão dos resultados, exibe- de variação que a volatilidade destas ações cor--se na tabela 01 as estatísticas descritivas dos responde a mais de 1000 vezes o valor de cadaretornos das ações utilizadas na amostra em aná- unidade do retorno médio, sugerindo um altolise. Observa-se que as ações escolhidas provém risco de investimento.de setores heterogêneos, pressupondo menorTABELA 01 - ESTATÍSTICA DESCRITIVA DAS RENTABILIDADES DAS AÇÕES Desvio- Coeficiente Tipo Empresa Mínimo Máximo Média padrão de variaçãoAMBV4 PN Ambev -11,2750 11,5233 0,1099 2,1425 19,5018ITUB4 PN Itaubanco -12,1399 23,3727 0,0987 2,9257 29,6418BRAP4 PN Bradespar -0,1901 2,7157 0,0042 0,0944 22,2811BRKM5 PN Braskem -0,1184 0,7258 0,0011 0,0380 33,3227ELPL6 PN Eletropaulo -0,1333 1,4203 0,0029 0,0530 18,5211GOAU4 PN Gerdau Met -0,1475 0,1933 0,0013 0,0324 24,1828TBLE3 ON Tractebel -0,6188 0,1619 -0,0001 0,0312 480,4370VIVO4 PN Vivo -1,7647 0,1381 -0,0006 0,0657 104,6354VALE3 ON Vale -0,1858 3,1277 0,0047 0,1068 22,7956UGPA4 PN Ultrapar -0,0893 1,1960 0,0025 0,0456 18,2994CMIG3 ON Cemig -0,8205 0,1236 -0,0003 0,0345 114,9162TCSL4 PN Tim Part S/A -0,8147 0,2479 -0,0005 0,0410 81,5366LIGT3 ON Light S/A -0,1145 2,2170 0,0035 0,0770 22,3059GOLL4 PN Gol -1,3339 0,2432 -0,0019 0,0571 29,8367NATU3 ON Natura -0,1374 2,2500 0,0033 0,0778 23,2685PSSA3 ON Porto Seguro -0,1134 1,0989 0,0017 0,0413 24,1317USIM3 ON Usiminas -0,1297 0,9772 0,0021 0,0463 22,1945BBAS3 ON Brasil -0,1537 3,5636 0,0051 0,1204 23,7987RENT3 ON Localiza -1,4118 0,2725 -0,0004 0,0579 137,5865EMBR3 ON Embraer -0,1108 1,1236 0,0008 0,0453 53,9059SBSP3 ON Sabesp -0,1492 1,0860 0,0019 0,0460 24,2551IBOVESPA - - -11,3931 14,6592 0,0878 2,2623 25,7630SELIC - - 0,0230 0,0368 0,0298 0,0045 0,1505FONTE: Os autores (2010) 72 |
  • 76. Revista da FAE Para validade dos modelos de regressão, teste Pesarán-Pesarán. Sua forma, segundo Corrar,todos as pressuposições foram analisadas e verifi- Paulo e Dias Filho (2007) consiste em regredir oscadas para que os próximos resultados possam ser quadrados dos resíduos padronizados em funçãosignificantemente interpretados. Porém é impor- do quadrado dos valores estimados padronizados.tante ressaltar que, segundo Corrar, Paulo e Dias Como os valores padronizados apresentaram sig-Filho (2007), a análise de regressão requer testes nificância superior a 5% o modelo é consideradode suposições para as variáveis separadas e em homocedástico, ou seja, as variâncias dos resíduosconjunto e cada técnica apresenta seu conjunto não se alteram ao longo da distribuição das vari-de suposições e pressupostos. Os principais pres- áveis dependentes preditoras.supostos aqui testados serão os de normalidade Pela simplicidade da exibição das estatísticas,dos resíduos, homocedasticidade dos resíduos e o teste de Durbin Waltson foi o único exibido nascorrelação entre os resíduos. tabelas. Este teste possibilita identificar a existên- Para testar a normalidade dos resíduos foi uti- cia de correlação entre a distribuição dos resíduos.lizado o teste Kolmogorov-Smirnov, que examina É pressuposição na regressão que não existemse determinada série está conforme a distribuição correlações entre os resíduos.esperada. Inicialmente os resíduos não apresenta- Após verificados a maioria dos pressupostosram normalidade (CORRAR; PAULO; DIAS FILHO, da regressão é possível analisar de forma válida2007). Após utilização da padronização (escores os resultados e estatísticas. A tabela 02 fornece az) de todos os resíduos obteve-se significâncias correlação entre o excesso de retorno do ativo esuperiores a 5% para o teste, assim, não rejeitando excesso de retorno do mercado. Ademais pode-sea hipótese nula de normalidade da distribuição. conferir nesta tabela o R² e R² ajustado, os coefi- Para testar se a variância dos resíduos cientes de Durbin Watson e o teste F. Mais relevan-mantém-se em todo o espectro das variáveis te para esta análise, os testes F foram significativosindependentes, ou seja, examinar a existência de a 5%, podendo afirmar que os coeficientes dehomocedasticidade dos resíduos, foi utilizado o correlação (R) não são iguais a 0.TABELA 02 - REGRESSÃO DO MODELO CAPM Continua Desvio Durbin- Ações Correlação R² R² ajustado F Sig. padrão Watson AMBV4 0,5941 0,3529 0,3522 1,7245 2,113 508,303 0,000 ITUB4 0,8342 0,6958 0,6955 1,6145 2,003 2131,911 0,000 BRAP4 0,3041 0,0925 0,0915 0,0902 1,927 95,004 0,000 BRKM5 0,4795 0,2299 0,2291 0,0338 1,973 278,265 0,000 ELPL6 0,2879 0,0829 0,0819 0,0510 1,842 84,205 0,000 GOAU4 0,4283 0,1835 0,1826 0,0549 2,098 209,428 0,000 TBLE3 0,3386 0,1147 0,1137 0,0296 1,617 120,727 0,000 VIVO4 0,2857 0,0816 0,0806 0,0631 1,760 82,807 0,000 VALE3 0,3086 0,0952 0,0943 0,0437 1,869 98,104 0,000 UGPA4 0,2636 0,0695 0,0685 0,1033 1,620 69,581 0,000 CMIG3 0,3212 0,1032 0,1022 0,0329 1,946 107,205 0,000 TCSL4 0,4774 0,2279 0,2271 0,0363 1,863 275,107 0,000 LIGT3 0,2053 0,0421 0,0411 0,0755 1,791 41,000 0,000Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |73
  • 77. TABELA 02 - REGRESSÃO DO MODELO CAPM Conclusão Desvio Durbin- Ações Correlação R² R² ajustado F Sig. padrão WatsonGOLL4 0,3088 0,0954 0,0944 0,0546 1,729 98,237 0,000NATU3 0,1592 0,0253 0,0243 0,0770 1,982 22,227 0,000PSSA3 0,2723 0,0741 0,0731 0,0401 1,760 74,623 0,000USIM3 0,5580 0,3114 0,3106 0,0388 1,662 421,438 0,000BBAS3 0,2022 0,0409 0,0398 0,1182 1,823 39,718 0,000RENT3 0,3415 0,1166 0,1157 0,0546 1,977 123,040 0,000EMBR3 0,3044 0,0926 0,0917 0,0435 1,859 95,147 0,000SBSP3 0,4158 0,1729 0,1720 0,0421 1,663 194,860 0,00FONTE: Os autores (2010) A tabela 03 mostra os testes t para os coefi- dos betas, apenas o ß do ativo ITUB4 foi maior quecientes da regressão bem como o cálculo do re- 1. Todos os outros apresentaram valores abaixotorno esperado para cada ativo em valores diários. de 1, mostrando que essas ações possuem riscoObserva-se que o teste t para todos os betas foram inferior ao mercado. Assim, uma variação bruscasignificativos, mostrando que este coeficiente é no mercado não influenciaria com a mesma forçadiferente de zero. Com relação ao valor absoluto esses ativos, exceto o ativo ITUB4.TABELA 03 - BETAS DO MODELO CAPM Retorno Coeficiente Valor t Sig. Beta Valor t Sig. esperado do linear ativoAMBV4 0,0470 0,8400 0,4010 0,5630 22,5460 0,0000 0,0625ITUB4 0,0063 0,1196 0,9047 1,0787 46,1726 0,0000 0,0924BRAP4 -0,0263 -8,9232 0,0000 0,0127 9,7470 0,0000 0,0306BRKM5 -0,0292 -26,3366 0,0000 0,0082 16,6813 0,0000 0,0303ELPL6 -0,0274 -16,3823 0,0000 0,0068 9,1764 0,0000 0,0302GOAU4 -0,0004 -0,2421 0,8087 0,0115 14,4716 0,0000 0,0305TBLE3 -0,0302 -31,0928 0,0000 0,0047 10,9876 0,0000 0,0301VIVO4 -0,0309 -14,9881 0,0000 0,0083 9,0999 0,0000 0,0303VALE3 -0,0277 -19,3915 0,0000 0,0063 9,9048 0,0000 0,0302UGPA4 -0,0259 -7,6523 0,0000 0,0125 8,3415 0,0000 0,0306CMIG3 -0,0304 -28,2929 0,0000 0,0049 10,3540 0,0000 0,0301TCSL4 -0,0308 -25,9799 0,0000 0,0087 16,5864 0,0000 0,0303LIGT3 -0,0268 -10,8370 0,0000 0,0070 6,4032 0,0000 0,0302GOLL4 -0,0322 -18,0265 0,0000 0,0078 9,9115 0,0000 0,0303NATU3 -0,0268 -10,6326 0,0000 0,0055 4,9221 0,0000 0,0302PSSA3 -0,0284 -21,6691 0,0000 0,0050 8,6385 0,0000 0,0301USIM3 -0,0284 -22,3974 0,0000 0,0115 20,5290 0,0000 0,0305BBAS3 -0,0254 -6,5648 0,0000 0,0108 6,3022 0,0000 0,0305RENT3 -0,0308 -17,2055 0,0000 0,0088 11,0923 0,0000 0,0303EMBR3 -0,0294 -20,6007 0,0000 0,0061 9,7543 0,0000 0,0302SBSP3 -0,0284 -20,6190 0,0000 0,0085 13,9592 0,0000 0,0303FONTE: Os autores (2010) 74 |
  • 78. Revista da FAE Realizadas as etapas de preparação dos dados são assimétricas, o que reforça a utilização dopara efetivação dos testes empíricos dos modelos D-CAPM.de precificação de ativos, procedeu-se ao teste Analisando a tabela 04 pode-se verificar quepara verificar o formato da distribuição dos prê- os testes F também foram significativos. Valoresmios esperados de risco das ações, comparando- de Durbin Watson próximos de 2 indicam a ine--se a média com a mediana, e comprovou-se que xistência de correlação entre os resíduos.todas as distribuições dos retornos das açõesTABELA 04 - ESTATÍSTICAS DA REGRESSÃO DO MODELO D-CAPM Desvio Durbin- Correlação R² R² ajustado padrão das F Sig Watson estimativas AMBV4 0,5635 0,3175 0,3168 1,0052 1,9906 433,600 0,000 ITUB4 0,7979 0,6367 0,6363 0,9717 1,8467 1,633,479 0,000 BRAP4 0,8152 0,6646 0,6642 0,0156 1,8815 1846,392 0,000 BRKM5 0,5806 0,3371 0,3364 0,0196 1,8608 473,920 0,000 ELPL6 0,5255 0,2762 0,2754 0,0184 2,0331 355,615 0,000 GOAU4 0,4286 0,1837 0,1828 0,0286 1,9462 209,766 0,000 TBLE3 0,3101 0,0961 0,0952 0,0276 1,4926 99,132 0,000 VIVO4 0,2185 0,0477 0,0467 0,0617 1,9200 46,716 0,000 VALE3 0,5147 0,2649 0,2642 0,0168 1,8798 335,939 0,000 UGPA4 0,8106 0,6571 0,6567 0,0153 1,9127 1785,600 0,000 CMIG3 0,2850 0,0812 0,0803 0,0318 1,8090 82,415 0,000 TCSL4 0,3969 0,1576 0,1566 0,0339 1,7849 174,299 0,000 LIGT3 0,5240 0,2746 0,2738 0,0192 2,0418 352,824 0,000 GOLL4 0,2777 0,0771 0,0761 0,0505 1,8510 77,871 0,000 NATU3 0,3903 0,1523 0,1514 0,0206 2,0233 167,501 0,000 PSSA3 0,5340 0,2852 0,2844 0,0159 1,7532 371,823 0,000 USIM3 0,6995 0,4893 0,4887 0,0199 1,7851 829,863 0,000 BBAS3 0,6910 0,4775 0,4769 0,0184 1,8739 851,685 0,000 RENT3 0,2650 0,0702 0,0692 0,0520 1,2009 70,406 0,000 EMBR3 0,4600 0,2116 0,2108 0,0201 1,9342 250,138 0,000 SBSP3 0,5943 0,3532 0,3526 0,0200 1,8414 509,038 0,000FONTE: Os autores (2010) A tabela 05 mostra os downside betas, di- esperanças de retorno para as ações a partir doferentes de zero conforme resultados do teste modelo de precificação D-CAPM. Neste caso, nãoZ. Nesta Tabela também é possível verificar as houve nenhum downside beta superior a 1.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |75
  • 79. TABELA 05 - DOWNSIDE BETAS Retorno Coeficiente Ações Valor t Sig. D-Beta Valor t Sig. esperado do linear ativo AMBV4 -0,3610 -9,6418 0,0000 0,4962 20,8231 0,0000 0,4022 ITUB4 -0,2699 -7,4568 0,0000 0,9311 40,4163 0,0000 0,7284 BRAP4 -0,0196 -33,6959 0,0000 0,0159 42,9697 0,0000 0,0418 BRKM5 -0,0248 -33,9328 0,0000 0,0101 21,7697 0,0000 0,0374 ELPL6 -0,0240 -35,0483 0,0000 0,0082 18,8578 0,0000 0,0360 GOAU4 -0,0159 -14,8811 0,0000 0,0098 14,4833 0,0000 0,0372 TBLE3 -0,0265 -25,7209 0,0000 0,0065 9,9565 0,0000 0,0347 VIVO4 -0,0263 -11,4271 0,0000 0,0100 6,8349 0,0000 0,0373 VALE3 -0,0244 -38,9063 0,0000 0,0073 18,3286 0,0000 0,0353 UGPA4 -0,0196 -34,2394 0,0000 0,0154 42,2564 0,0000 0,0414 CMIG3 -0,0260 -21,9518 0,0000 0,0069 9,0783 0,0000 0,0350 TCSL4 -0,0253 -20,0345 0,0000 0,0106 13,2022 0,0000 0,0378 LIGT3 -0,0242 -33,8570 0,0000 0,0085 18,7836 0,0000 0,0362 GOLL4 -0,0280 -14,8945 0,0000 0,0106 8,8244 0,0000 0,0378 NATU3 -0,0258 -33,5873 0,0000 0,0063 12,9422 0,0000 0,0346 PSSA3 -0,0247 -41,7735 0,0000 0,0073 19,2827 0,0000 0,0353 USIM3 -0,0218 -29,3552 0,0000 0,0141 29,8808 0,0000 0,0404 BBAS3 -0,0217 -31,6585 0,0000 0,0127 29,1836 0,0000 0,0394 RENT3 -0,0262 -13,5219 0,0000 0,0103 8,3908 0,0000 0,0376 EMBR3 -0,0264 -35,3450 0,0000 0,0075 15,8158 0,0000 0,0355 SBSP3 -0,0234 -31,4231 0,0000 0,0107 22,5619 0,0000 0,0379FONTE: Os autores (2010) De acordo com a Tabela 6, a variação dos da semi-covariância e semi-variância possibilitoubetas mostrou-se negativa, exceto para os ati- a redução do risco sistêmico do ativo, o que foivos AMBV4 e ITUB4. Para todos os outros ativos corroborado pela redução dos retornos esperadospercebe-se que o downside beta foi inferior ao para os mesmos ativos.beta tradicional indicando que a análise a partirTABELA 06 - VARIAÇÃO DO DOWNSIDE BETA Continua Retorno Variações Beta D-beta Retorno CAPM Variação Betas DCAPM Retornos AMBV4 0,5630 0,4962 0,062476942 0,4022 0,0668 -0,3397 ITUB4 1,0787 0,9311 0,092374794 0,7284 0,1476 -0,6360 BRAP4 0,0127 0,0159 0,030574235 0,0418 -0,0032 -0,0112 BRKM5 0,0082 0,0101 0,030310412 0,0374 -0,0019 -0,0071 ELPL6 0,0068 0,0082 0,030229802 0,0360 -0,0014 -0,0058 GOAU4 0,0115 0,0098 0,030503243 0,0372 0,0017 -0,0067 TBLE3 0,0047 0,0065 0,030110169 0,0347 -0,0018 -0,0046 VIVO4 0,0083 0,0100 0,030318437 0,0373 -0,0017 -0,0070 76 |
  • 80. Revista da FAETABELA 06 - VARIAÇÃO DO DOWNSIDE BETA Conclusão Retorno Variações Beta D-beta Retorno CAPM Variação Betas DCAPM Retornos VALE3 0,0063 0,0073 0,030199614 0,0353 -0,0011 -0,0051 UGPA4 0,0125 0,0154 0,030559738 0,0414 -0,0029 -0,0108 CMIG3 0,0049 0,0069 0,030122212 0,0350 -0,0019 -0,0049 TCSL4 0,0087 0,0106 0,030341593 0,0378 -0,0019 -0,0075 LIGT3 0,0070 0,0085 0,030242608 0,0362 -0,0015 -0,0060 GOLL4 0,0078 0,0106 0,030290689 0,0378 -0,0027 -0,0075 NATU3 0,0055 0,0063 0,030155005 0,0346 -0,0008 -0,0044 PSSA3 0,0050 0,0073 0,030127225 0,0353 -0,0023 -0,0052 USIM3 0,0115 0,0141 0,030504473 0,0404 -0,0026 -0,0099 BBAS3 0,0108 0,0127 0,03046187 0,0394 -0,0020 -0,0089 RENT3 0,0088 0,0103 0,030345244 0,0376 -0,0016 -0,0072 EMBR3 0,0061 0,0075 0,030193087 0,0355 -0,0014 -0,0053 SBSP3 0,0085 0,0107 0,030330267 0,0379 -0,0022 -0,0075FONTE: Os autores (2010) No entanto realizando o teste t de student, tais como: taxa de câmbio, balança comercial, re-indicado para amostras pequenas, abaixo de 25 servas internacionais, taxa Selic, índices de preços,indivíduos (CORRAR; PAULO; DIAS FILHO, 2007), inflação, nível de desemprego, etc.verificou-se que não existe diferença significativa Observou-se relativa diferença absoluta entreentre os betas, ou seja, não se rejeita a hipótese o beta tradicional do modelo CAPM e o downsidede que os betas são iguais. Obteve-se um valor t beta do modelo D-CAPM. Observa-se que os valores1,12 e o valor p 0,274. para o downside beta foram inferiores ao beta tra- dicional. No entanto, pelo teste t, verificou-se que não é possível rejeitar a hipótese de igualdade dasConclusão médias. A partir desses resultados pode-se observar que a volatilidade negativa dos ativos é bastante O presente trabalho teve como objetivo significativa na composição do risco do ativo, o queprincipal de estudo avaliar qual dos modelos de mostra a importância do downside beta como fatorprecificação de ativos financeiros, o Capital Asset explicativo do verdadeiro risco sistêmico.Pricing Model ou o Downside Capital Asset Pricing Julga-se que este trabalho teve como prin-Model, comporta-se como o melhor previsor de cipal limitação, um número pequeno de obser-retornos dos ativos do mercado brasileiro. Diante vações considerando todo mercado de ações.disso, chegou-se a algumas conclusões relevantes. Contudo, como as ações foram escolhidas aleato- Primeiramente, os resultados obtidos na pes- riamente, encontraram-se ações com lançamentoquisa indicam que no mercado acionário da Bolsa relativamente recente no mercado. Sugere-se quede Valores de São Paulo uma boa parte da varia- para futuros estudos a utilização de uma amostrabilidade média dos ativos não está relacionada maior, com um espaço temporal superior ao obti-aos riscos sistemáticos dos mesmos, em razão da do e com valores mensais para que as diferençasineficiência e pouca liquidez do mercado de ca- dos retornos esperados possam ser mais captadas.pitais brasileiro. Outros fatores macroeconômicos • Recebido em: 12/08/2010podem contribuir para a explicação dos retornos, • Aprovado em: 04/11/2010Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |77
  • 81. ReferênciasASSAF NETO, A. et al. Uma proposta metodológica para o cálculo do custo de capital no Brasil.Revista de Administração, São Paulo, v.43, n.1, p.72-83, 2008.BARROS, L. de C.; FAMÁ, R.; SILVEIRA, H. P. Aspectos da teoria de portfólio em mercadosemergentes: uma análise de aproximação para a taxa livre de risco no Brasil. In: SEMINÁRIOS EMADMINISTRAÇÃO, 6., 2003, São Paulo. Anais... São Paulo: SEMAD, 2003.BONOMO, M. Finanças aplicadas ao Brasil. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, 2002.BRIGHAM, E. F.; GAPENSKI, L. C.; EHRHARDT, M. C. Administração financeira: teoria e prática. SãoPaulo: Atlas, 2001.CORRAR, L. J., PAULO, E., DIAS FILHO, J. M. Análise multivariada: para os cursos de administração,ciências contábeis e economia. São Paulo: Atlas, 2007.COSTA JR, N. A.; NEVES, M. B. E. Variáveis fundamentalistas e os retornos das Ações. RevistaBrasileira de Economia, Rio de Janeiro, v.54, p.123-137, 2000.DAMODARAN, A. Avaliação de investimentos. 2.ed. Rio de Janeiro: Pearson Prentice Hall, 2007.______. Finanças corporativas aplicadas: manual do usuário. Porto Alegre: Bookman, 2002.ELTON, E. J. et al. Modern portfolio theory and investment analysis. 6th.ed. Hoboken, NI: J. Wiley,2003.ESTRADA, J. The cost of equity in emerging markets: a downside risk approach. Emerging MarketsQuarterly, New York, v.13, n.1, p.19-30, Fall 2000.______. Systematic risk in emerging markets: the D-CAPM. Emerging Markets Quarterly, New York,v. 14, n.6, p.365-379, Spring 2002.FRALETTI, P. B. Ensaios sobre taxas de juros em reais e sua aplicação na análise financeira.2004. 171p. Tese (Doutorado em Administração) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.HAGLER, C. Testando a eficiência dos índices de ações brasileiros. Rio de Janeiro: IBMEC, 2003.HOGAN, W. W.; WARREN, J. M. Toward the development of an equilibrium capital-market modelbased on semivariance. Journal of Financial and Quantitative Analysis, Seattle, Wash. v.9, n.1,p.1- 11, Jan. 1974.LINTNER, J. The valuation of risk assets and the selection of risk investments in stock portfólios andcapital budgets. Review of Economics and Statistics, Cambridge, mass. v.47, n.1, p.13-37, Feb.1965.LÓPEZ, O. C.; GARCIA, F. J. H. D-CAPM en México: un modelo alternativo para estimar el costo decapital. Disponível em: <http://www.ipade.mx>. Acesso em: 10 jun. 2010.MARKOWITZ, H. M. Portfólio selection. Journal of Finance, New York, v.7, n.1, p.77-91, Mar. 1952. 78 |
  • 82. Revista da FAEMARKOWITZ, H. M. Portfolio selection: efficient diversification of investments. New York: J. Wiley,1959.MOSSIN, J. Equilibrium in a capital asset market. Econometrica, Chicago, v.34, p.768-783, Oct.1966.MUSSA, A.; ROGERS, P.; SECURATO, J. R. Modelos de retornos esperados no mercado brasileiro:testes empíricos utilizando metodologia preditiva. In: CONGRESSO USP DE CONTROLADORIA ECONTABILIDADE, 8., 2008, São Paulo. Anais... São Paulo, 2008.PAIVA, F. Modelos de precificação de ativos financeiros de fator único: um teste empírico dosmodelos CAPM e D-CAPM. REGE-USP. Revista de Gestão, São Paulo, v.12, n.2, p.49-65, 2005.RIBENBOIM, G. Testes de versões do modelo CAPM no Brasil. In: Bonomo M.; (Ed.) Finançasaplicadas ao Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002. p.17-40.ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J. F. Administração financeira. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2002.SHARPE, W. F. Capital asset prices: a theory of market equilibrium under conditions of risk. TheJournal of Finance, New York, v.19, n.3, p.425-442, Sept. 1964.SILVA, S. S. da. Precificação de ativos com risco no mercado acionário brasileiro: aplicação domodelo CAPM e variantes. 2007. 144p. Dissertação (Mestrado em Administração) – UniversidadeFederal de Lavras, Lavras, MG,2007.TAMBOSI FILHO, E. et al. Teste do CAPM condicional dos retornos de carteiras dos mercadosbrasileiro, argentino e chileno, comparando-os com o mercado norte-americano. Revista deAdministração de Empresas, São Paulo, v.50, p.60-74, 2010.TOBIN, J. Liquidity preference as a behavior toward risk. Review of Economic Studies, Aberdeen,GB, v.25, n.66, p.65-86, Feb. 1958.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 65-80, jul./dez. 2010 |79
  • 83. Revista da FAEO uso do cheque especial e do cartão de crédito pelosacadêmicos da FAE Centro UniversitárioThe use of overdraft and credit card bystudents at FAE Centro UniveritárioResumo Aline Fernanda da Silva Ferreira* Amilton Dalledone Filho**O cartão de crédito e o cheque especial são modalidades de financiamentooferecidas por instituições financeiras - bancos comerciais e múltiplos - paraclientes pessoa física ou pessoa jurídica. O crescimento da participaçãodestes produtos no mercado pode por um lado dinamizar a economia, mastambém pode aumentar o endividamento geral da população, provocandograndes problemas financeiros e sociais. Pretende-se, com este estudo,verificar o conhecimento sobre a correta utilização do cheque especiale do cartão de crédito pelos alunos dos terceiros e quartos anos doscursos de graduação da FAE Centro Universitário, buscando verificar se osacadêmicos, após terem estudado e conhecido questões financeiras queenvolvem estes produtos bancários, sabem utilizá-los de forma adequada.Os resultados encontrados demonstram que os alunos estão conscientesdos produtos bem como sua correta forma de utilização, pois a maioria dosacadêmicos da FAE Centro Universitário têm um perfil mais conservador emsuas finanças pessoais e não utilizam o limite do cheque especial duranteo mês nem pagam a fatura do cartão de crédito com atraso.Palavras-chave: cartão de crédito; cheque especial; crédito bancário;endividamento; produtos bancários.AbstractThe credit card and overdraft are financing arrangements offered byfinancial institutions – commercial and multibank - to individuals orcorporations. The participation growth of these products in the marketmay stimulate the economy in one hand but, in the other, may increase thegeneral indebtedness of the population, causing large financial and socialproblems. This study intends to verify the knowledge about the correctuse of overdraft and credit cards by students in the third and fourth yearsof undergraduate courses at FAE Centro Universitário; moreover, it also * Graduanda em Ciênciasseeks to verify whether the scholars, after having studied about financial Econômicas da FAE Centromatters related to these banking products, learn how to use them properly. Universitário.E-mail: aline_nda@The results review that students are familiar with the products as well as hotmail.com.the correct way of using them; most students at FAE Centro Universitário ** Mestre em Administração pelahave a more conservative profile in dealing with personal finances and UFSC. Professor da FAE Centroavoid overdraft during the month or pay their credit card bill in due time. Universitário Curitiba-PR e da FALEC. E-mail: adalledone@Keywords: credit card, overdraft, bank loan, indebtedness, bank products. yahoo.com.br.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |81
  • 84. Introdução acadêmico proporcionado aos alunos de gradu- ação dos terceiros e quartos anos da FAE Centro O cheque especial e o cartão de crédito são as Universitário proporcionou uma gestão eficaz demodalidades de crédito fácil mais utilizadas, uma suas finanças pessoais e o correto uso do chequevez que suas características de disponibilidade especial e do cartão de crédito no seu dia-a-dia?”fazem com que eles não pareçam empréstimos. Buscando resolver a problemática destaHá casos de pessoas que adotam o cartão de pesquisa, foi estabelecido como objetivo geral acrédito e o limite do cheque especial como parte realização de uma pesquisa junto aos acadêmicosde seus salários. dos terceiros e quartos anos dos cursos de Dados da pesquisa Tracking de Cartões, do graduação da FAE Centro Universitário, buscandoInstituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística levantar informações quanto ao correto uso– Ibope Inteligência, referentes a setembro de do cartão de crédito e do cheque especial após2008, revelam que 20% dos portadores de cartões conhecerem os conceitos básicos de finançasde crédito possuem dívidas que se configuram estudados nos diversos cursos de graduação. Parano crédito rotativo, parcelamento da fatura ou isso, deverão ser alcançados os seguintes objetivosinadimplência. específicos: (i) apresentar a estrutura do sistema Acerca do cheque especial, no mês de julho financeiro nacional e suas especificidades; (ii)de 2008, os bancos emprestaram quase R$ 21 pesquisar as características do cheque especial ebilhões a uma taxa de juros média de 160% ao do cartão de crédito no mercado, seus custos eano, conforme dados do Banco Central do Brasil peculiaridades; (iii) efetuar uma pesquisa de campo(ENDIVIDAMENTO, 2008). quanto à utilização do cartão de crédito e cheque Sendo assim, por mais que o uso dessas especial junto aos acadêmicos dos terceiros emodalidades de crédito tenha o benefício da quartos anos dos cursos de graduação, verificandocomodidade, o crescimento da participação se estes sabem diferenciar essas modalidades dedestes produtos no mercado pode aumentar o crédito e se sabem utilizar esses produtos; e (iv)endividamento geral da população, provocando identificar os resultados alcançados sugerindograndes problemas financeiros e sociais. ações de esclarecimentos a todos acadêmicos da Para não entrar num endividamento espiral, FAE Centro Universitário.conhecido como “juros em cima de juros” é Quanto à metodologia, a pesquisa apresentaessencial que se tenha a consciência de gastar aspectos descritivos, exploratórios e explicativos.no máximo o que se ganha, adaptando as O caráter exploratório tenderá estar mais presentenecessidades e desejos ao salário mensal. Também na revisão da literatura, buscando aumentarse carece compreender que o uso do cheque o grau de familiaridade com o problema (GIL,especial e do cartão de crédito deve ocorrer 1991). Pretende-se alcançar os demais objetivossomente em caso extremo, pois as taxas de específicos por meio de um levantamento dejuros cobradas pelas instituições financeiras que dados. Assim, desenvolveu-se um instrumentooferecem estes serviços são muito altas, conforme de coleta de dados na forma de questionário,verificaremos no decorrer deste artigo. para ser utilizado em uma amostra probabilística A pergunta que se pretende responder com intencional, representativa dos segmentosa efetivação deste estudo é: “O conhecimento alvos. Por fim, conforme apontar o resultado da 82 |
  • 85. Revista da FAEpesquisa, sugerir ações que venham a esclarecer FIGURA 01 - O SISTEMA FINANCEIRO NACIONALas pessoas sobre a utilização do cheque especial,do cartão de crédito e a melhor forma de uso econtrole destes produtos.1 O sistema financeiro nacional FONTE: Os autores (2009) Para entender o funcionamento dos produ-tos cheque especial e cartão de crédito, faz-senecessária uma breve abordagem a respeito do 2 O cartão de créditoSistema Financeiro Nacional- SFH, que refletirácomo essas modalidades de crédito estão inseridas Conforme dados da Associação Brasileira dasno mercado financeiro. Empresas de Cartão de Crédito e serviços (ABECS, Para Assaf Neto (2009), o Sistema Financeiro 2009a), referentes ao ano de 2008, o Brasil éNacional (SFN) pode ser definido como o conjunto um dos países com maior número de cartões dede instituições financeiras que geram a política e crédito, com cerca de 547 milhões de unidades ea instrumentação econômico-financeira do país, mais de 5,5 bilhões de transações por ano.visando, em última análise, transferir recursos dos A história do cartão de crédito inicia em 1950,agentes econômicos - pessoas, empresas, governo quando Frank MacNamara e alguns convidados,- superavitários para os deficitários, mantendo o executivos financeiros de Nova York, saíram parafluxo monetário entre poupadores e investidores. jantar em um restaurante e, quando receberam Fazem parte do SFN: o Subsistema Normativo, a conta, perceberam que haviam esquecido o di-constituído pelas instituições que regulamentam e nheiro e o talão de cheque. Mediante discussão, ofiscalizam o mercado financeiro e o Subsistema de dono do estabelecimento concordou que o execu-Intermediação, composto de instituições bancárias tivo pagasse o jantar posteriormente e solicitou ae não bancárias que atuam em operações de assinatura do mesmo na nota de despesas.intermediação financeira. Após o episódio, MacNamara concebeu a Como se pode verificar na figura 01, o cartão ideia do cartão de crédito. Em 1950, foi emitidode crédito e o cheque especial estão inseridos o primeiro cartão denominado Diners Club Card,dentro do Subsistema de Intermediação, nas aceito inicialmente como meio de pagamento emcarteiras das Instituições Financeiras Bancárias, vinte e sete restaurantes. Cerca de duzentas pes-ou seja, os bancos comerciais, bancos múltiplos soas, a maioria amigos de MacNamara, aderirame caixas econômicas, que executam operações de ao cartão naquele ano. Dois anos depois foi emi-crédito, transferência de recursos e prestações de tido o primeiro cartão de validade internacional,serviços financeiros. expandindo o mercado de cartões, e, no início da década de 1960, o Diners Club Card foi aceito em mais de 50 países em todos os continentes (ABECS, 2009b).Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |83
  • 86. 2.1 Conceito, Utilização e Características – Bandeira marca do cartão. Responsável do Cartão de Crédito pela comunicação da transação entre a ad- quirente e o emissor do cartão de crédito. O cartão de crédito é uma forma de pagamen- As maiores bandeiras no Brasil são Visa,to eletrônico de bens e serviços que o cliente da MasterCard e Hipercard.instituição financeira pode adquirir para executar – Emissor do cartão. Instituição financeirao pagamento de suas compras. Mensalmente, ele que emitirá o cartão de crédito. O emissorreceberá em seu endereço uma fatura detalhandoas transações efetuadas. O usuário poderá pagar a será o responsável pela aprovação oufatura até a data do vencimento ou solicitar o finan- recusa da transação, conforme o limite deciamento da dívida, mediante cobrança de juros. compras disponível. Também é responsável Normalmente, os cartões de crédito possuem pela emissão e entrega da fatura, cobrançaum limite estabelecido pela instituição financeira, e recebimento.através da análise do perfil financeiro e compor- O tramite das transações realizadas comtamental do usuário. Quando este realiza uma cartão de crédito inicia-se no estabelecimentocompra, o valor do bem ou serviço adquirido reduz comercial, quando o cartão é inserido em umo limite disponível e se o valor da nova aquisição equipamento eletrônico chamado POS (Point ofultrapassar o saldo disponível, novas compras Sale), comum no mercado de varejo, ou um equi-serão bloqueadas até o pagamento da fatura. pamento denominado TEF (transferência eletrônica As transações com cartões de crédito são de fundos), autorizador acoplado ao caixa usadofiguradas pelos seguintes elementos: na maioria dos supermercados e lojas de depar- tamentos. O cliente escolherá a opção de crédito – Portador do cartão. Usuário do cartão de ou débito, o número de parcelas e o tipo de par- crédito. Aquele que efetua aquisições de celamento – parcelado pelo estabelecimento ou bens e/ou serviços através de pagamento pelo emissor – e o responsável pelo recebimento eletrônico. Há duas modalidades de usuá- no estabelecimento comercial digitará as opções rio, o titular e o adicional. O titular é o res- escolhidas no POS ou no equipamento acoplado ponsável financeiro do cartão e o usuário ao TEF. O aparelho iniciará a comunicação, descrita adicional é a pessoa indicada pelo titular conforme fluxo da figura 02. que fará uso de um cartão adicional, que também está sob responsabilidade finan- FIGURA 02 - FLUXO DA TRANSAÇÃO DE PAGAMENTO COM CARTÃO DE CRÉDITO ceira do titular. – Estabelecimento comercial. Organização que permite pagamento de produtos ou prestação de serviço através do cartão de crédito. São exemplos supermercados, FONTE: Os autores (2009) lojas, farmácias, clubes, entre outros. – Rede adquirente. Rede de captação de tran- O equipamento eletrônico no estabelecimen- sações responsável pela comunicação entre to fará a comunicação via rede com a Adquirente, o estabelecimento e a bandeira. As maiores para que esta envie a transação para a Bandeira. adquirentes no Brasil são a Redecard, a Cielo Esta, por sua vez, comunicar-se-á com o Emissor – antiga VisaNet – e a Hipercard. para que a transação seja autorizada. Após a au- 84 |
  • 87. Revista da FAEtorização, a transação percorre o caminho inverso percebe na comparação dos gráficos 01 e 02, aaté retornar ao estabelecimento. Desta forma, participação dessa modalidade nos empréstimoso equipamento fará a emissão de dois compro- apresenta crescimento contínuo. É importantevantes, uma via do estabelecimento e outra do salientar que a inadimplência nas operações rea-comprador. lizadas com cartões de crédito também é maior No caso do cartão de crédito possuir apenas que nas outras operações de crédito. Conformea tarja magnética, o cliente deverá assinar a via do dados do Banco Central do Brasil - Bacen, em ju- lho de 2009, 28,3% das transações tinham atrasocomprovante do estabelecimento, apresentando superior a 90 dias e o uso do crédito rotativo,um documento oficial com foto, para conferência parcelamento com juros e saque somou R$ 14,56das assinaturas. bilhões neste mês (NAKAGAWA, 2009). Atualmente, os emissores estão adicionando GRÁFICO 01 - TAXA DE JUROS CARTÃO DE CRÉDITOaos cartões de crédito a tecnologia do chip. Nestecaso, não é necessária a assinatura no comprovan-te, pois o sistema solicitará a senha do cartão aousuário, para efetivação da transação.2.2 Taxa do Cartão de Crédito FONTE: Adaptado de ANEFAC (2010) Em pesquisa realizada por Felipe Frisch(2010), publicada no jornal O Globo, em janeiro de2010, constatou-se a desigualdade entre as taxasde juros cobradas pelas instituições financeiras, 3 O cheque especialconforme a renda dos clientes. Os clientes que possuem cartões de crédito O cheque especial é o crédito vinculado à conta corrente que as instituições financeiras -dos segmentos de alta renda pagam taxas bem bancos comerciais ou múltiplos – disponibilizammenores quando da utilização do cartão de cré- aos clientes correntistas, mediante análise dasdito, comparadas às taxas pagas pelos clientes do informações cadastrais e do relacionamento entrevarejo, dessas mesmas instituições. a instituição e o cliente. Este produto pode ser No levantamento citado na mesma matéria de considerado um empréstimo pré-aprovado, poisO Globo, realizado em vários bancos do país que está sempre à disposição do cliente e não exigepossuem agências especiais para atendimento de que este solicite o produto no momento do uso.clientes com alta renda (Itaú Unibanco, Bradesco, O produto pode ser utilizado para a coberturaSantander Real, HSBC e Banco do Brasil) observou- de cheques, DOC’s, TED’s, compras com o cartãose que, enquanto os clientes do varejo chegam a de débito, pagamentos de taxas e encargos etc.pagar taxas de juros na casa dos 14% ao mês, os Esta modalidade de crédito está sujeitaclientes dos segmentos especiais contam com taxas cobrança de juros sobre o valor utilizado, alémmensais inferiores a 10% ao mês. de encargos como IOF. A utilização do cheque Apesar de a taxa de juros do cartão ser mais especial deve ser racional e eventual, restringindo-alta até que a do cheque especial, conforme se se ao curto prazo, isto é, poucos dias.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |85
  • 88. A adesão da disponibilização do cheque es- e deixou de utilizar o limite do cheque especialpecial ocorre mediante contrato entre o banco e e consequentemente encerrou-se a cobrança deo cliente, que pode ser feito na abertura da conta juros e encargos.corrente, ou, posteriormente, mediante solicitação TABELA 01 - SIMULAÇÃO UTILIZAÇÃO CHEQUE ESPECIALe o aceite das partes. Valor utilizado do limite R$ 200,00 Tempo de utilização do limite em dias 30 Os contratos de cheque especial estabelecem:as condições e valor do crédito, o prazo de validade Taxa Valorda disponibilização, a taxa de juros, encargos, IOF* 0,0082% R$ 0,49vencimento, multas, renovação automática etc. IOF adicional** 0,38% R$ 0,76O banco poderá mudar unilateralmente essas Juros bancários ao mês 10% R$ 20,00condições, mediante aviso prévio ao cliente. A utilização do cheque especial se dá pelo Valor total da dívida R$ 221,25uso do limite disponibilizado na conta corrente FONTE: Os autores (2010) * Imposto cobrado sobre o valor utilizado do limite,do cliente, e que, se utilizado, deverá ser devol- multiplicado pela quantidade de dias utilizados.vido com o acréscimo de juros e outros encargos ** Imposto cobrado sobre o valor utilizado do limite, em única parcela mensal.financeiros. Para exemplificar, supondo que um cliente Conforme apresentado, é necessário compre-possui em 01/01/2009 um saldo de R$ 1000,00 e ender que o cheque especial deve ser empregadoum limite do cheque especial de R$ 500,00, apa- somente em caso extremo e o cartão de créditorecerá a seguinte informação no extrato bancário: deve ser usado de forma responsável, pois a cor- 01/01/2009 reta utilização dos mesmos poderá reduzir a co- Saldo Disponível: R$ 1.000,00 brança das altas taxas que estes serviços possuem. Limite de Crédito: R$ 500,00 Disponível + Limite: R$ 1.500,00 3.1 Taxa do Cheque Especial Se o cliente realizar uma compra de R$1200,00 em 01/01/2009, este fará uso de R$ Apesar dos benefícios que o cheque especial200,00 do limite de seu cheque especial. Conside- pode proporcionar, tais como agilidade e como-rando que a taxa de juros naquele período seja de didade para o consumidor que necessita de uma10% ao mês, e o IOF (imposto sobre operação fi- linha de crédito rápida e sem burocracia, este pro-nanceira) de 0,0082% ao dia, acrescidos de 0,38% duto poderá implicar em problemas provenientesdo valor do limite utilizado (GRANER, 2008), o do não planejamento de sua utilização.pagamento dos juros provenientes da utilização Os problemas aparecem quando o consumidordo cheque especial durante um mês, ou seja, de passa a utilizar o limite do cheque especial como01/01/2009 a 01/02/2009, será de R$ 21,25, cujo se fosse parte de suas receitas.pagamento será feito na data de vencimento, Tendo em vista esta realidade, os bancosconforme disposto em contrato. cobram valores astronômicos pelo valor dispo- A cobrança de juros incidirá sobre o prazo de nibilizado, aplicando taxas de juros que fogemduração do uso do limite. Neste caso, o cliente efe- à realidade econômica brasileira (ENDIVIDADO,tuou um depósito de R$ 221,25 no dia 02/02/2009 2009), pois tanto o cheque especial quanto o 86 |
  • 89. Revista da FAEcartão de crédito não possuem garantias reais, GRÁFICO 03 - EVOLUÇÃO DA TAXA DE JUROS DO CHEQUE ESPECIALsendo, desta forma, operações de risco elevado deinadimplência para as instituições financeiras. Nográfico 02, podem-se identificar as taxas de juroscobradas pelas maiores instituições financeirasdo país, acerca da utilização do cheque especial.GRÁFICO 02 - TAXA DE JUROS CHEQUE ESPECIAL POR INSTITUIÇÃO FINANCEIRA FONTE: Adaptado de BACEN (2009a) 4 Metodologia A metodologia adotada para esta pesquisaFONTE: Adaptado de BACEN (2009b) será, do ponto de vista de sua natureza, de caráter aplicado, com o objetivo de gerar conhecimentos Pode-se verificar, através do gráfico 03, que novos e/ou úteis para aplicação prática dirigidos àas taxas de juros são elevadas. Através do gráfico solução de problemas específicos, tais como a de-visualiza-se a evolução da mesma no período de ficiência no nivelamento dos conhecimentos sobre1999 a 2009. os produtos cheque especial e cartão de crédito e Em entrevista publicada pelo portal G1, em a melhor forma de utilização dos mesmos, pelosjunho de 2009, o Chefe do Departamento Econô- acadêmicos da FAE Centro Universitário.mico do Banco Central, Altamir Lopes, afirmou que Quanto aos procedimentos técnicos (GIL,o cheque especial tem uma taxa muito elevada, 1991), os tipos de pesquisa utilizados foram: (i)e que é a modalidade de crédito mais cara (o pesquisa bibliográfica, elaborada a partir de ma-valor registrado em maio foi de 167,8% ao ano), terial já publicado, como livros sobre o sistemapor isso ele considera que “a taxa é proibitiva” e financeiro nacional, notícias e dados divulgadosafirma que a utilização do cheque especial não é por instituições e associações - tais como a ABECSrecomendada, pois com a alta taxa de juros ha- e Banco Central - do setor financeiro, artigos deverá um grande comprometimento da renda do periódicos e outros materiais disponibilizados nausuário (MARTELLO, 2008). Internet; (ii) levantamento de dados através da aplicação de questionário específico que pretende traduzir os objetivos específicos desta pesquisa, através de treze perguntas fechadas ou de múltipla escolha sobre a utilização do cheque especial e do cartão de crédito.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |87
  • 90. 4.1 Amostra e População com um nível de confiança de 90% e um erro máximo de 7% por curso, conforme se verifica Para realização da pesquisa foi estabelecido o na tabela 02.tamanho da amostra representativa da população,TABELA 02 - POPULAÇÃO E AMOSTRA ESTABELECIDA Ciências Contábeis Ciências Econômicas Administração TotalQuestionários 3º Ano 4º Ano 3º Ano 4º Ano 3º Ano 4º AnoPopulação 80 89 58 67 227 224 745Amostra 36 40 31 35 54 53 249FONTE: Os autores (2010)5 Resultados da pesquisa Com a segunda etapa de distribuição dos questionários concluída, alcançaram-se os valores definidos na amostra, que foram utilizados para Foram feitas duas etapas de distribuição dos a análise do levantamento de dados, conformequestionários. Na primeira etapa, foram distribuí- tabela 03. Para estas amostras trabalhou-se comdos 265 questionários, dos quais retornaram 199 um erro máximo de 8% para o curso de Ciênciaspreenchidos. Como a amostra total estabelecida Contábeis e de 7% para os cursos de Administraçãonão foi atingida, foi feita uma segunda distri- e Ciências Econômicas, considerando um nível debuição dos questionários. Nesta segunda etapa, confiança de 90%.foram distribuídos 55 questionários, dos quaisretornaram 54.TABELA 03 - POPULAÇÃO E AMOSTRA ESTABELECIDA Ciências Contábeis Ciências Econômicas Administração TotalQuestionários 3º Ano 4º Ano 3º Ano 4º Ano 3º Ano 4º AnoPopulação 80 89 58 67 227 224 745Amostra 30 36 30 37 51 54 238FONTE: Os autores (2010) Quanto à divisão por cursos, dos 238 alunos5.1 Análise da Amostra Total 44,1% são do curso de Administração, 28,2% são do curso de Ciências Econômicas e 27,7% são do Os gráficos de 04 a 12 apresentam os resul- curso de Ciências Contábeis.tados do levantamento de dados. Os gráficos sãocompostos pelas perguntas do questionário, pelas Quanto ao ano da graduação, 46,6% estãotabelas com os resultados em números e pelos cursando o terceiro ano da graduação e 53,4%gráficos com os resultados em porcentagem. A estão cursando o quarto ano da graduação.elaboração dos gráficos e tabelas de análise foi fei- A maioria dos alunos que responderam aota através de um software específico de estatística. questionário possui uma ou mais contas bancárias, A amostra total é composta por 238 alunos, a maior participação em números é de alunos quedos quais 52,9% são do sexo masculino e 47,1% possuem conta corrente, seguida pela participaçãodo sexo feminino. dos alunos que possuem conta universitária. 88 |
  • 91. Revista da FAEGRÁFICO 04 - CONTAS BANCÁRIAS GRÁFICO 07 - UTILIZAÇÃO DO CHEQUE ESPECIALFONTE: Os autores (2010) FONTE: Os autores (2010) Dos 238 alunos que responderam à pesquisa, Quando ao conhecimento das taxas cobradas,159 deles – 66,8% – afirmam que possuem 19,5% dos alunos que possui limite do chequelimite do cheque especial e, 193 deles – 81,1% – especial não sabem quais taxas são cobradas pelapossuem cartão de crédito. Os gráficos a seguir utilização do mesmo. Há ainda aqueles – menospodem auxiliar na verificação da correta utilização de 1% da amostra total – que acreditam que ta-dos produtos pelos acadêmicos. xas como Imposto de Renda (IR) ou ContribuiçãoGRÁFICO 05 - CHEQUE ESPECIAL Provisória sobre a Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Fi- nanceira (CPMF), porém, na realidade, essas taxas não são cobradas para a utilização deste produto. Apenas 60 alunos, ou seja, 37,7% dos alunosFONTE: Os autores (2010) que utilizam o cheque especial marcaram as duas opções corretas, o Imposto sobre Operações Fi-GRÁFICO 06 - CARTÃO DE CRÉDITO nanceiras (IOF) e os Juros Bancários. GRÁFICO 08 - TAXAS DO CHEQUE ESPECIALFONTE: Os autores (2010) Dos alunos que utilizam o cheque especial,66,7% têm um perfil mais conservador em suasfinanças pessoais e não utilizam o limite do che- FONTE: Os autores (2010)que especial durante o mês. Porém, percebe-seque quase 20% dos alunos utilizam seu limite pormais de cinco dias por mês, ou seja, muitas vezes Quanto ao cartão de crédito, mais de 50%os alunos acabam excedendo o valor do salário dos alunos sempre utilizam o cartão de créditoou bolsa-auxílio mensal e utilizando o limite para na compra de bens e serviços.efetuar compra de produtos e serviços.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |89
  • 92. GRÁFICO 09 - FREQUÊNCIA DE UTILIZAÇÃO DO CARTÃO DE GRÁFICO 12 - AVALIAÇÃO DAS TAXAS CRÉDITOFONTE: Os autores (2010) FONTE: Os autores (2010) Os acadêmicos demonstraram responsabi-lidade no pagamento da fatura, pois 83,5% dos Considerações finaisalunos afirmaram que sempre pagam a faturaem dia. E cerca de 2% dos alunos demonstram Conclui-se que a maioria os acadêmicos dadificuldade para pagar a conta até o vencimento. FAE Centro Universitário tem um perfil mais con-GRÁFICO 10 - PAGAMENTO DA FATURA DO CARTÃO DE CRÉDITO servador em suas finanças pessoais e não utilizam o limite do cheque especial durante o mês nem pagam a fatura do cartão de crédito com atraso. Porém, percebe-se que há dificuldade por par- te dos alunos quanto ao conhecimento das taxas incidentes sobre o cheque especial, pois 19,5% dos alunos que possui limite do cheque especial nãoFONTE: Os autores (2010) sabem quais taxas são cobradas pela utilização do mesmo e apenas 26% dos alunos marcaram as Porém, cerca de 13% dos acadêmicos já utili- duas opções corretas, o Imposto sobre Operaçõeszaram o crédito rotativo, ou seja, o financiamento Financeiras (IOF) e os Juros Bancários.de uma parte da fatura, e mais de 85% dos alunos Sobre o uso do cartão de crédito os pro-procuram pagar a fatura integralmente. blemas diminuem, uma vez que apenas 2% dosGRÁFICO 11 - UTILIZAÇÃO DO CRÉDITO ROTATIVO acadêmicos demonstram dificuldade para pagar a conta até o vencimento. De acordo com os resultados da pesquisa, nota-se que os alunos de Administração são os mais cautelosos na utilização do cheque especial eFONTE: Os autores (2010) do cartão de crédito. Os alunos que apresentaram maior dificuldade na utilização do cheque especial Ao serem questionados sobre as taxas de foram os do curso de Ciências Econômicas, sendojuros cobradas pelas instituições financeiras, mais que 27,5% dos pesquisados utilizam o limite porde 80% dos alunos avaliaram as taxas como altas mais de cinco dias por mês.e quase 11% afirmam não saber se as taxas são Quando a análise é feita com base no ano deabusivas ou não. graduação, nota-se um comportamento diferente para cada produto, uma vez que os alunos do 90 |
  • 93. Revista da FAEterceiro ano são mais cuidadosos na utilização do tração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicascheque especial, e os alunos do quarto ano tomam da FAE Centro Universitário.mais cuidado com o uso do cartão de crédito. Os resultados encontrados demonstram que Sendo assim, observa-se que a pesquisa re- os alunos estão conscientes dos produtos bemalizada cumpriu o seu objetivo quanto ao levan- como sua correta forma de utilização.tamento de informações referentes ao conheci-mento e forma de utilização dos produtos cartãode crédito e cheque especial pelos alunos dos • Recebido em: 07/05/2010terceiros e quartos anos dos cursos de Adminis- • Aprovado em: 05/07/2010ReferênciasANEFAC. Informações sobre cartão de crédito. Disponível em: <http://www.anefac.com.br/Pages/Default.aspx>. Acesso em: 3 mar. 2010.ASSAF NETO, A.; LIMA, F. G. Curso de administração financeira. São Paulo: Atlas, 2009.ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS EMPRESAS DE CARTÕES DE CRÉDITO E SERVIÇOS – ABECS. Dadossobre mercado de cartões. Disponível em: <http://www.abecs.org.br>.Acesso em: 16 nov. 2009a.______. História do cartão de crédito. Disponível em: <http://www.abecs.org.br/quemsomos_historia.asp>. Acesso em: 5 out. 2009b.BANCO CENTRAL DO BRASIL - BACEN. Evolução da taxa de juros do cheque especial. Disponívelem: <http://www.bcb.gov.br>. Acesso em: 27 nov. 2009a.______. Taxa de juros cheque especial por instituição financeira. Disponível em: <http://www.bcb.gov.br>. Acesso em: 27 nov. 2009b.ENDIVIDADO. Como se proteger dos juros do cheque especial Disponível em: <http://www.endividado.com.br/faq_det.php?id=7>. Acesso em: 08 dez. 2009.ENDIVIDAMENTO do brasileiro no cheque especial bate recorde. Destak Jornal, São Paulo, 2008.Disponível em: <http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?id=15,28129>. Acesso em: 15nov. 2009.FRISCH, F. Juros do cartão de crédito são desiguais: bancos cobram taxa menor da alta renda. OGlobo, Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/01/10/juros-do-cartao-de-credito-sao-desiguais-bancos-cobram-taxa-menor-da-alta-renda-915499981.asp>. Acesso em: 20 jan. 2010.GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 3.ed. São Paulo: Atlas, 1991.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 81-92, jul./dez. 2010 |91
  • 94. GRANER, F. Receita esclarece cobrança de IOF no cheque especial. Portal Exame, 2008. Disponívelem: <http://portalexame.abril.com.br/ae/economia/m0148341.html>. Acesso em: 02 dez. 2009.IBOPE Inteligência. Tracking de cartões, 2008. Disponível em: <http://www.ibope.com.br>. Acessoem: 16 out. 2009.MARTELLO, A. Juros do cheque especial são os mais altos desde 2003, diz BC. Brasília, 2008.Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL580103-9356,00.html>.Acesso em: 20 jan. 2010.NAKAGAWA, F. Dívidas com cartão de crédito batem recorde. Brasília, 2009. Disponível em:<http://www.anucc.com.br/noticias/noticias_outras/336>. Acesso em: 21 nov. 2009.OLIVEIRA, Kelly. Cheque especial foi principal motivo de aumento da inadimplência para famílias,diz BC. Agência Brasil, 2009. Disponível em:<http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/06/25/materia.2009-06-25.3032210795/view>. Acesso em: 02 dez. 2009. 92 |
  • 95. Revista da FAEA sustentabilidade e sua relação com as estratégiasorganizacionaisThe sustainability and its relation with corporatestrategiesResumo Valéria da Veiga Dias1 Uiara Gonçalves De Menezes2O presente artigo visa conhecer a percepção dos gestores de uma indústria do setor Eliete Pozzobon Palma3de alimentos e bebidas, quanto à sustentabilidade e qual sua relação na formulação Marcia Zampieri Grohmann4de estratégias da empresa, visando verificar se a empresa faz uso de práticassustentáveis e se estas estão claramente definidas nas estratégias; e qual suaimportância na percepção dos gestores. O conceito de desenvolvimento sustentáveltem se aprimorado num processo contínuo de reavaliação da relação existente entreas dimensões econômica, ambiental e social e as estratégias da organização. Paraavaliar a percepção dos gestores foi utilizado o modelo de conceitual de Tachizawa,que propõe um modelo de gestão ambiental e responsabilidade social que levaem conta o delineamento estratégico de uma organização. Como resultado desteestudo, que busca relacionar as práticas sustentáveis e a gestão estratégica daorganização, é possível dizer que a organização não relaciona os dois aspectos, ouseja, as ações sociais não visam trazer uma melhoria de desempenho nos negócios.Quanto à percepção, os gestores apresentam-se dispersos quanto aos conceitose práticas de sustentabilidade.Palavras-chave: sustentabilidade; estratégia; gestão.AbstractThe present work aims to assess the perception of managers from a industry ofthe food and drinks sector, about the sustainability and it’s relationship in the 1 Mestranda em Administração pelaformulation of strategies to the company, aiming to check whether the company UFSM. Gestora de Marketing. Santamakes use of sustainable practices and whether these practices are clearly defined Maria - Rio Grande do Sul. E-mail:in the company strategies and also the importance of the sustainability in the valeria-adm@hotmail.comperception of these managers. The concept of sustainable development has been 2 Mestranda em Administraçãoimproved in a continuous process of reassessment of the relationship between pela UFSM. Tutora do Curso dethe economic and environmental dimensions and the social strategies of the Bacharelado em Administração- UFSM. Caxias do Sul - Rio Grande doorganization. To assess the perception of these managers, it was used the Tachizawa Sul. E-mail: uiara.menezes@gmail.conceptual model, which proposes a model of environmental management comand social responsibility which takes into account the strategic design of an 3 Mestranda em Administração pelaorganization. As a result of this study, which aims to establish a relation between UFSM. Santa Maria - Rio Grande dothe sustainable practices and the strategic management of the organization, it is Sul. E-mail: elietepalma-rs@ibest.possible to confirm that the organization did not link the two aspects, since the com.brsocial actions do not seek to bring any improvement to the business performance. 4 Doutora em Administração pelaRegarding to the managers perception, they present themselves scattered about UFSC. Professora do Departamento de Administração da UFSM. Santaconcepts and sustainability practices. Maria - Rio Grande do Sul. E-mail: marciazg@gmail.comKeywords: sustainability; strategy; management.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |93
  • 96. Introdução melhoria da qualidade de vida. Nos países desen- volvidos, o debate sobre responsabilidade social No momento do surgimento das organi- e sustentabilidade toma importância, na medidazações elas foram vistas como organismos que em que parece surgir um novo paradigma daspromoviam ações sociais, já que ao se instala- relações empresariais. No Brasil, embora o temarem, geravam empregos, moviam a economia e esteja em discussão, à mudança do empresariadodinamizavam relações entre outras empresas. No ainda é bastante reduzida. O que mostra que oentanto, com o passar do tempo, tais aspectos tema precisa ser muito mais estudado para quepassaram a ser vistos como parte das obrigações existam bases sólidas a respeito de conceitos,mínimas de uma organização e não como mani- teorias, percepções e práticas.festações da consciência social por parte da gestão Como ainda não existe o consenso a respeitoda empresa. da utilização de uma nomenclatura única que re- Mudanças profundas, tais como a preocupa- presente questões como governança corporativa,ção com a qualidade de vida dos colaboradores, sustentabilidade, responsabilidade social, respon-clientes, consumidores, a tecnologia ligada ao sabilidade socioambiental, responsabilidade cor-aperfeiçoamento de produtos e redução de im- porativa e sabe-se que existe complementaridadepactos ambientais, alteraram o foco estratégico entre eles, para fins de compreensão deste temadas empresas. Para melhorar a sua competitivida- que será abordado ao longo do artigo utilizar-se-de as empresas podem desenvolver um modelo -á o conceito de sustentabilidade proposto porintegrativo de gestão e práticas que relacione as Elkington (1998) que se refere à interação dasáreas, processos e stakeholders num contexto esferas social, ambiental e econômica.sustentável. Dessa forma, o presente artigo visa conhecer a A concepção de que é responsabilidade percepção dos gestores de uma indústria do setorsomente da empresa apoiar o desenvolvimento de alimentos e bebidas, quanto à sustentabilidadeda comunidade e preservar o meio ambiente não e qual sua relação na formulação de estratégias daé mais suficiente para atribuir a uma empresa a empresa, com o objetivo de verificar se a empresacondição de socialmente responsável. É necessário faz uso de práticas sustentáveis e se estas estãoinvestir no bem estar dos seus funcionários e num claramente definidas nas estratégias; e qual suaambiente de trabalho saudável, além de promover importância na percepção dos gestores.comunicações transparentes, dar retorno aos Para tanto, o artigo esta estruturado emacionistas, assegurar sinergia com seus parceiros seis seções, a primeira seção é a introdução, ae garantir a satisfação dos seus clientes e/ou segunda aborda as associações e diferenças en-consumidores (MELO NETO; FROES, 1999). tre estratégias e planejamento, a terceira trata Nesses termos uma empresa socialmente de definir sustentabilidade e estratégia, a quartaresponsável é aquela pautada por uma política seção aborda a metodologia baseada no modeloinstitucional firme, ética, dinâmica e empreende- conceitual de Tachisawa, que propõe um modelodora. É aquela que, com criatividade, gerencia e de gestão ambiental e responsabilidade socialcontribui com projetos sociais bem administrados, que leva em conta o delineamento estratégicoatuando ao lado de entidades da sociedade civil e de uma organização; a quinta seção apresentado poder público, na busca de alternativas para a os resultados subdivididos em caracterização da 94 |
  • 97. Revista da FAEempresa e influência das práticas sustentáveis na que seguem um curso de ações previamente de-percepção dos gestores e a última seção refere-se terminadas (pretendidas), como também um cursoàs conclusões. de ações não previstas (emergentes), originadas ao longo do tempo. Os planos que conseguem combinar a mistura destas estratégias refletindo1 Planejamento estratégico e as condições existentes serão mais eficazes em prever e reagir a eventos inesperados. A percepção estratégia de complexidade do sistema organizacional nos leva a reflexão de Capra (2002) afirmando que O planejamento de longo prazo foi uma no mundo vivo existem dois tipos de estruturas,ferramenta desenvolvida nos Estados Unidos a as planejadas e as emergentes, que também sãopartir da década de 50 (ALDAY, 2000), mas foi na indispensáveis para uma organização. As estru-metade dos anos 60 que Igor Ansoff introduziu a turas planejadas que são as bases formais dametodologia do planejamento estratégico. Kotler organização, compostas dos documentos oficiais,(1997) defende a utilização do planejamento proporcionam regras e rotinas, necessárias paraestratégico e conceitua como uma metodologia seu correto funcionamento e proporcionam agerencial que proporciona o estabelecimento da otimização dos processos de produção e venda,direção a ser seguida pela organização, além de produzindo estabilidade organizacional, e as es-visar maior interação com o ambiente. Mintzberg truturas emergentes (não planejadas) incitam a(2004, p.34) na análise das várias respostas sobre novidade, flexibilidade e criatividade.o que é planejamento, defende os argumentoslevantados por Mariann Jelinek, que a formalização Seguindo a abordagem de Mintzberg (2004)do planejamento é uma forma “de criar e também a estratégia como plano, também pode ser umoperacionalizar a estratégia”. pretexto, uma manobra específica para desconser- tar um concorrente, configurando uma ameaça e Segundo Oliveira, Terence e Escrivão Filho não uma estratégia real. Estratégia como posição(2008, p.2) “o modelo racional do processo de é a definição de determinados produtos em deter-criação de estratégia está fortemente relacionado minados mercados, ou seja, “nicho” de atuaçãocom o sistema de planejamento estratégico” e da empresa, e estratégia como perspectiva é aafirmam que mesmo após três décadas continua maneira como a organização faz as coisas.sendo uma ferramenta amplamente utilizada Segundo Porter (1986) estratégia competitivapelas empresas. Mintzberg, Ahlstrand e Lampel significa ser diferente criando um conjunto de ati-(2006) inferem que a formulação da estratégia vidades diferentes para integrar um mix único dese trata de um processo formal e afirmam que valores, ou seja, ocupar uma posição não explora-os planos são desenvolvidos para que não haja da. Essas posições surgem de três fontes distintasflexibilidade, devendo, assim, estabelecer direções (custo, diferenciação e enfoque) que definem queclaras, propor estabilidade e equilíbrio para a tipo de vantagem a empresa quer alcançar. A cria-organização. ção e escolha de um posicionamento estratégico Para Mintzberg (2004), estratégia está emba- dependem da eficácia operacional, capacidade desada em cinco conceitos (5 Ps da estratégia): como ajustes estratégicos e um planejamento de longoplano, padrão, pretexto, posição e perspectiva. Es- prazo, para garantir uma vantagem competitivatratégia como planos desenvolvidos para o futuro, e sustentabilidade empresarial.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |95
  • 98. A integração das estratégias organizacionais 2 Sustentabilidade e estratégiacom o ambiente em que a empresa está inseri-da se torna um desafio que pode ser atenuado Nos conceitos sobre a sustentabilidade oucom a administração estratégica, sendo definida responsabilidade social empresarial (RSE) aindacomo “um processo contínuo e interativo que não há consenso. Diversos autores a relacionamvisa manter uma organização como um conjunto com as responsabilidades legais, com filantropia,apropriadamente integrado ao seu ambiente” com ética e transparência. O Instituto Ethos a(ALDAY, 2000, p.13). O que também se reflete em define como uma forma de gestão que pautadatodo o comportamento organizacional através pela relação ética e transparente da empresa comdo comportamento estratégico, que é definido todos os públicos com os quais ela se relacionapor Ansoff (1983, p.16) como um “processo de em busca do desenvolvimento sustentável dainteração com o ambiente acompanhado de um sociedade, através da preservação de recursosprocesso de promover a modificação das configu- ambientais e culturais e respeito à diversidade.rações e dos aspectos internos dinâmicos”. Com Porém o entendimento de sustentabilidadeessa visualização dinâmica e altamente compe- não se resume somente ao contexto social, poistitiva da formulação estratégica e utilização da o objetivo de uma empresa é a obtenção de lucroferramenta de planejamento torna-se mais fácil e o retorno aos seus acionistas. Dessa formapara a organização entender todas as mudanças, a utilização estratégica desses conceitos podesendo uma empresa que acompanha as transfor- proporcionar vantagens às organizações frentemações, baseia suas ações nessas transformações aos seus concorrentes, em forma de diferenciaçãopercebidas ou propõe inovações ao meio. ou até mesmo em redução de custos. A inserção da sustentabilidade dentro das Bowen (1953) foi o primeiro autor a publicarestratégias da organização pode ocorrer de duas sobre o tema. Ele afirma que os objetivos da in-formas, ou seja, a organização pode executar dústria e da sociedade precisam estar alinhados,ações que se referem à responsabilidade social de forma que as empresas estejam a serviço dae ambiental de maneira pouco organizada ou sociedade. Ao contrário do proposto por Bowen,planejada, apenas visando à prática da ação, ou Friedman (1970) afirma que as empresas apresen-ainda pode formular estratégias sustentáveis e tam somente a responsabilidade da maximizaçãoincorporá-las aos objetivos da organização de do lucro dos proprietários e acionistas. De maneiraforma que afetem o andamento e os resultados da que a utilização de recursos organizacionais paramesma. A organização pode, por exemplo, lançar outros fins, resultaria em uma interrupção da efi-uma linha de produtos “verdes”, ou desenvolver ciência da economia da organização, pois refleteum novo segmento que não maltrate o meio em um “imposto ilegal”, na visão do autor.A partirambiente, criar uma vinculação responsável a desta visão global do comportamento destes ele-sua marca ou ainda alterar valores internos que mentos, pode-se verificar o quanto as ações dasfiquem externados ao consumidor. O sucesso de empresas refletem na sociedade, na economia eestratégias depende de se fazer bem várias coisas no meio ambiente, de maneira que atualmentee da integração entre elas, possibilitando ajustes são percebidos muitos reflexos do sistema deestratégicos, para que a organização cria um produção desenfreada em que se encontravam ediferencial competitivo e sustentável. se encontram muitas empresas. 96 |
  • 99. Revista da FAE Em consequência da necessidade de inter- Na perspectiva econômica tem-se a preservaçãopretação das relações que surgem a partir da da lucratividade da organização e o não com-interação dos diversos ambientes, surge um novo prometimento do desenvolvimento econômicoparadigma, o paradigma da sustentabilidade, da mesma. E por fim a esfera social, que inclui aque é proposto por Tachizawa (2005) e engloba questão da justiça social, onde o objetivo maioras mudanças que têm ocorrido no mundo e nas é o desenvolvimento de um mundo mais justo, através das relações com todos os stakeholdersrelações entre as organizações e seus stakeholders, (colaboradores, clientes, fornecedores, governo).referente ao reflexo dos padrões de crescimentoeconômico desenfreado, sem considerar os demais Sachs (1986) entende que o equilíbrio entreaspectos da sociedade. Esse paradigma é caracte- crescimento econômico, equidade social e cui-rizado por um novo modo de administrar, através dado ecológico, gera maior poder de efetivar asde uma consciência sustentável. As organizações estratégias de desenvolvimento. Mas conclui quepassam a incluir em seus objetivos, a gestão am- a sustentabilidade vai além das três dimensõesbiental e a responsabilidade social, indo além do mencionadas (SACHS, 2002), pois considera aindasimples cumprimento da legislação, pois resultam a questão cultural, territorial, política nacional eem uma mudança na cultura e valores organiza- política internacional.cionais, transformando esse novo conceito em um Outros autores ainda debatem sobre a abran-critério de desenvolvimento dos negócios e uma gência da sustentabilidade e quais as verdadeirasoportunidade que pode ser aproveitada para criar responsabilidades das organizações. Os temas queou sustentar um diferencial competitivo. são mais relacionados à sustentabilidade são fi- lantropia, ética, cumprimento da legislação, lucro, Ashley (2002) propõe, para a inserção dessas transparência com stakeholders, cuidado com omudanças de valores e cultura, um modelo de meio ambiente e atenção à sociedade, explorandointeração de quatro dimensões organizacionais, os conceitos com foco mais nas ações praticadasque são: as relações de produção e distribuição e seus beneficiários.interna; as relações econômicas, objeto e meio Srour (1998) considera que uma empresade negócio (Core Business); as relações político- socialmente responsável, desenvolve produtos desociais; e de tempo e espaço, denominado por qualidade com preços competitivos, investindoela como Modelo Relacional Multidimensional em pesquisa tecnológica de processos e produtos,para a Responsabilidade Social nos Negócios com a preocupação na preservação ambiental,(RMRSN). Essas dimensões se relacionam de forma sem esquecer o investimento no desenvolvimentomultidimensional, sistêmica e interdependente. profissional dos trabalhadores e também em me- A sustentabilidade tem sido discutida tanto lhores condições de trabalho e benefícios sociais.na comunidade empresarial como acadêmica, e Ele identifica três beneficiários das ações da em-ainda não apresenta um conceito completamente presa, além de seus clientes: a comunidade, o meiodefinido. O conceito, desenvolvido por Elkington ambiente e o trabalhador, seja ele empregado da(1998), sobre o Triple Bottom Line, se refere às própria empresa, terceirizado ou temporário.esferas social, ambiental e econômica. Na esfera Na concepção de Oliveira (1984) são acres-ambiental, ressalta-se a utilização dos recursos centados outros grupos de beneficiários: os acio-de forma a não prejudicar as gerações futuras, nistas, sócios ou proprietários. Carrigan e Attallareduzindo impactos da ação das indústrias e uti- (2001) identificam que existem divergências entrelizando de forma sustentável os recursos naturais. o interesse dos acionistas, sócios ou proprietáriosRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |97
  • 100. que visam à maximização do lucro, e o interesse retrata a aceitação das operações da empresa pe-dos demais grupos, gerando uma contradição los stakeholders. Por último a reputação, que ligapara a empresa ao tentar atender às diferentes a RSC à imagem da organização, fortalecimento daexpectativas de todos os seus stakeholders. marca e valorização das ações. Os autores defen- Mintzberg (1983) afirma que uma das gran- dem que as questões de responsabilidade social,des dificuldades para uma empresa ser social- sendo visualizadas de forma estratégica, tendemmente responsável, não apenas no papel, mas de a proporcionar grande avanço social, porque afato, é sua estrutura e sistema de funcionamento. organização aplica seus recursos em questõesUma empresa, explica o autor, tem a natureza de que a sociedade necessita. Com esta mesma visãoperseguir objetivos econômicos. Estes objetivos alguns autores inferem a necessidade da inclusãoeconômicos são definidos pela alta gestão e são da variável sustentabilidade ao planejamento es-propagados hierarquia abaixo, de forma que tratégico como Nascimento, Lemos e Mello (2008)permita aos trabalhadores realizarem tarefas al- e Tachizawa (2005).tamente formais de acordo com os preceitos da Outros estudos atentam para os efeitos dadivisão do trabalho. Para assegurar que as tarefas sustentabilidade, no que se refere às atitudes desejam cumpridas o sistema prevê várias formas de colaboradores e consumidores. Quanto ao com-controles formais para que as pessoas não se des- portamento dos colaboradores, Melo Neto e Froesviem dos objetivos econômicos. Arlow e Gannon1 (2001) argumentam que ações de sustentabilidade(1982 apud MOSTARDEIRO; FERREIRA, 2005) aumentam a produtividade no trabalho, motivamentendem que as empresas buscam formalizar e melhoram a auto-estima dos mesmos, impac-a inserção da sustentabilidade em sua estrutura, tando positivamente na sua qualidade de vida.porém este é um processo que pode levar anos, Quanto ao comportamento do consumidor, umadevido a questões como falhas e revisões na sua pesquisa merece destaque, a conduzida por Brownimplementação e que efetivamente atendam às e Dacin (1997) que busca fazer uma correlaçãoquestões sociais. positiva entre preferência dos consumidores pelos Porter e Kramer (2006) utilizam o termo res- produtos das empresas e suas práticas sustentá-ponsabilidade social corporativa (RSC) e voltam às veis, não associando aos atributos de qualidade deatenções da questão da RSC para um foco mais seus produtos, porém identificando a construçãoestratégico. Afirmam que existem quatro princi- de uma avaliação mais favorável por parte dospais argumentos que motivam a adoção de uma consumidores. A motivação das empresas, alémgestão voltada para a RSC nas organizações. São do cumprimento das obrigações sociais impostaseles o apelo ou dever moral, a sustentabilidade, a pela lei, também pode ser proveniente da questãolicença para operar e a reputação. O dever moral da sustentabilidade pautada em ações éticas ese relaciona com “fazer a coisa certa”, ou seja, a filantrópicas (OLIVEIRA, 1984).organização precisa agir conforme valores consi-derados corretos pela sociedade. A sustentabili- Em face da identificação desses conceitos edade se traduz na eficiência operacional de forma constatações, a capacidade de inovação tecnoló-que não se comprometa os recursos existentes gica, capacidade produtiva e certificados de qua-para as gerações futuras. A “licença para operar” lidade não bastam como diferencial competitivo, e as empresas começam a enxergar a necessidade de uma participação mais direta em assuntos que,1 ARLOW, Peter; GANNON, Martin. Social responsiveness, corporate structure, and economic performance. Academy of Management até então, não faziam parte do interesse dos negó- Review, v.7, n.2, p.235-241, 1982. cios. Esses desafios associados à sustentabilidade 98 |
  • 101. Revista da FAEpodem ajudar as empresas a identificar estraté- influências das práticas sustentáveis. Para Triviñosgias e práticas que resultem em maior valor aos (1987) a entrevista semi-estruturada, em geral,acionistas e contribuam, simultaneamente, para é aquela que parte de alguns questionamentosum mundo mais sustentável. básicos, aparados em teorias e hipóteses que inte- ressam à pesquisa, e que fornecem amplo campo de questionamentos, fruto de novas hipóteses que vão surgindo, à medida que se recebe as respostas3 Metodologia do entrevistado. Desta maneira, o entrevistado, seguindo a linha de seu pensamento e de suas O presente estudo pretende analisar a per- experiências dentro do foco de pesquisa, começa acepção dos gestores de uma indústria de bebidas participar na elaboração do conteúdo da pesquisa.santamariense sobre a sustentabilidade e a influ- Na visão de Minayo e Sanches (1993) a entre-ência das práticas sustentáveis na formulação das vista é a palavra na forma da fala cotidiana queestratégias. A escolha da empresa foi intencional, se torna uma revelação das condições estruturais,baseada em seu histórico de atuação em projetos de sistemas de valores, normas e símbolos e aindade cunho social na cidade de Santa Maria. possui a magia de transmitir, através do entrevista- A pesquisa caracteriza-se como uma investi- do, as representações de grupos determinados emgação de natureza qualitativa, através do método condições históricas, sócio-econômicas e culturaisde estudo de caso, utilizando como instrumento específicas. Desta forma, através do estudo dede coleta de dados entrevistas semi-estruturadas caso, que conforme Yin (2001) pode ser utilizadocom perguntas abertas, não obedecendo a uma quando o foco é um fenômeno contemporâneoestrutura formal preestabelecida, mas utilizando dentro de um contexto da vida real, foi possívelum roteiro onde o pesquisador pôde tomar por identificar as visões que cada um dos entrevista-base o comportamento do entrevistado e ques- dos apresenta sobre o tema estudado.O estudotionar o respondente quanto às modificações buscou identificar e explicar os efeitos da implan-decorrentes da inserção de práticas sustentáveis tação de práticas sustentáveis na formulação dasnas estratégias organização. As entrevistas foram estratégias empresariais e para tanto, foi utilizadorealizadas individualmente com seis gestores. um modelo analítico conceitual para investigar aPara melhor compreensão acerca das informa- influência da adoção de estratégias sustentáveisções dispostas pelos entrevistados optou-se por em empresas regionais que adotam esta política.identificá-los pelas áreas de atuação de cada um Tachizawa (2005) propõe um modelo dee criar uma sigla para referenciá-los. G1,gerente gestão ambiental e responsabilidade social quede recursos humanos; G2, diretor- presidente da leva em conta o delineamento estratégico deorganização; G3, gerente de marketing; G4, geren- uma organização, considerando a existência dete de T.I. (Tecnologia de Informação); G5, gerente estratégias genéricas (do setor) e estratégias es-financeiro e responsável pela controladoria e o pecíficas (da organização), consequentemente,G6, gerente de vendas. estratégias sociais e ambientais. Deste conjunto Para compreender o padrão de mudanças es- há a formulação de estratégias próprias de cadatratégicas, sejam estas incrementais ou quânticas organização. O modelo da Figura 1 retrata a or-(MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, 2006) as per- ganização inserida no ambiente em que operaguntas formuladas buscaram identificar aspectos e ilustra a influência e a interação das variáveisobserváveis que pudessem caracterizar a visão dos ambientais com os seus diferentes stakeholders. Ogestores da empresa em relação às estratégias e autor ainda ressalta a importância dessa interação,Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |99
  • 102. pois as organizações, que são caracterizadas por QUADRO 01- ASPECTOS AVALIADOS A PARTIR DOrelações complexas, necessitam de “esquemas MODELO CONCEITUALclassificatórios” (TACHIZAWA, 2005, p.112) que Aspectos • Impactos do processo produtivo daexpressem essa complexidade. Além disso, existe a ambientais empresa no meio ambiente, considerando todos os impactos tanto do processonecessidade de adaptação do modelo aos diversos industrial como de divulgação, transportetipos de organização, já que, através do exposto etc., que possam prejudicar o meiopelo autor ambiente e a qualidade de vida da sociedade. cada empresa precisa determinar suas exigências • Programas ambientais ou de proteção de estratégia social e ambiental, usando a referida ambiental desenvolvidos pela organização classificação como uma possibilidade de orientação a e praticados pela mesma interna e sua determinação (TACHIZAWA, 2005, p.113). externamente, que visam à proteção e/ou redução dos impactos ambientais. Não existindo uma única forma de gestão Aspectos • Inserção dos aspectos de preocupaçãosustentável, pois cada decisão é “fruto das esco- sociais social (bem-estar da sociedade, qualidadelhas dos gestores e suas interações organização de vida do colaborador e incentivo àversus ambiente” (TACHIZAWA, 2005, p.113). participação dos colaboradores em projetos sociais e ambientais) e ambientalFIGURA 01 - MODELO CONCEITUAL DA PESQUISA (proteção do ambiente) na cultura interna da organização, visando à construção de Variáveis ambientais Stakeholders uma consciência sustentável. Aspectos • Investimentos em práticas sustentáveis, econômicos considerando a aplicação e realocação Decisões estratégicas: Indicadores de negócio de recursos e pessoas em projetos - objetivo corporativos - estratégias genéricas sustentáveis e o quanto isso impactou no orçamento organizacional. • Economia interna, enfocando nos Indicadores consumo de insumos, matérias-primas, Decisões ambientais sociais: ambientais - projetos ambientais e sociais energia, reaproveitamentos, re-trabalho, - ptojetos de resposabilidade social entre outros aspectos Aspectos • Inserção de práticas sustentáveis no Estratégicos planejamento e estratégias já existentes; • Impactos e mudanças surgidas a partir Cadeia produtiva Processos produtivos do uso de práticas sustentáveis dentro da Clientes Fornecedores Processos de apoio organização; • Divulgação interna e externa das práticasFONTE: Tachisawa (2005) sustentáveis da organização; • Resultados que a organização espera com o uso das práticas sustentáveis e os tipos de resultados que foram obtidos; Considerando as decisões socioambientais, • Imposição e influência externa que levamque se referem aos projetos sociais e ambientais, a organização a focar em uma posturae as decisões estratégicas, que se baseiam nos sustentável através da adoção de práticas sustentáveis;objetivos organizacionais e estratégias genéricas, • Inovações surgidas a partir do uso dasfoi possível identificar, através da análise do mo- práticas sustentáveisdelo proposto por Tachizawa (2005) e do conceito FONTE: Tachizawa (2005)do triple bottom line, sobre a interação das trêsdimensões da sustentabilidade; social, ambientale econômica, e estratégia, visualizados no quadroabaixo, estão os quatro aspectos analisados.100 |
  • 103. Revista da FAE4 Análise dos resultados 4.2 A influência das práticas sustentáveis na percepção dos gestores Os resultados da pesquisa estão organizados A partir das entrevistas realizadas com osem duas seções: a caracterização da empresa e a dirigentes da empresa estudada foi possível iden-influência das práticas sustentáveis na percepção tificar a compreensão das práticas sustentáveis,dos gestores. através de suas experiências dentro da organi- zação. Os resultados destas discussões foram sumarizados nas seguintes categorias de análise:4.1 Caracterização da empresa influência externa na adoção das práticas susten- táveis; influência das ações de sustentabilidade nas A empresa estudada é fabricante de bebidas, decisões organizacionais e influência na cultura.como refrigerantes, sucos, água mineral e chásde uma marca multinacional e está situada naregião central do Rio Grande do Sul. Com produ- 4.2.1 Influência Externa nas Decisões sobreção anual de 400 milhões de litros de bebidas nas Sustentabilidadeembalagens de vidro, pet e lata, distribui para as A principal motivação da organização emregiões do centro e oeste do Estado. Apresenta desenvolver programas sustentáveis foi à solicita-uma equipe de vendas que atua em 200 cidades ção dos acionistas, que sentiram a necessidade dado Rio Grande do Sul, e abastece cerca 16.000 organização estar mais próxima da comunidade epontos de venda. Iniciou suas atividades há 25 agir proativamente frente aos acontecimentos eanos e atualmente conta com aproximadamente projetos locais, em busca do desenvolvimento des-500 funcionários. ta comunidade. Essa assertiva pode ser conferida A empresa desenvolve vários programas na colocação do G2: [...] nós tomamos algumas decisões baseadas pelas intenções dos acionistasambientais interna e externamente, publica seu em interagir com a comunidade, de se relacionarbalanço social periodicamente e mantém um pro- mais fortemente com a comunidade e de mantergrama social criado há sete anos em que são rea- um elo com essa comunidade.lizadas atividades a fim de auxiliar e desenvolver Outro motivador foi a construção de umaorganizações. Tem sido pioneira no atendimento imagem positiva, pois o mercado tem valorizadodas novas imposições legais onde os aspectos de as organizações voltadas para a preservação dosustentabilidade são abordados, como a digitali- ambiente e sociedade. O G4 assim se posicionazação de toda a documentação fiscal, reduzindo quando questionado sobre quais as intenções dasubstancialmente o consumo de papel, coleta organização com as práticas de sustentabilidade:seletiva de lixo, método exclusivo para consumo [...] para melhorar a imagem empresa, pois ade energia, entre outras ações desta ordem, con- empresa não se sustenta sem uma boa imagem.tribuindo para criação de uma cultura sustentável Essa preocupação é compartilhada com a mul-entre seus colaboradores e melhorando a quali- tinacional, detentora da marca, o que vêm con-dade de vida dos colaboradores e comunidade. tribuindo para que a empresa insira no seu mix, produtos como sucos e chás, que são percebidos como produtos naturais e saudáveis. Somado aRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |101
  • 104. projetos e campanhas institucionais com apelo 4.2.2 Influência das Ações de Sustentabilidadesocial e ambiental bancados pela multinacional. nas Decisões Organizacionais Incentivo da empresa quanto as práticas sus- Os entrevistados demonstraram através detentáveis dos seus colaboradores fora da empresa, suas falas a preocupação da organização em rela-através do reconhecimento da organização através ção à apresentação de ações e resultados do usode um programa de premiação, fica claro na visão de práticas sustentáveis perante a comunidade.do G2 quando: Então temos aí uma oportunidade, Para o G3 a organização inseriu em seus planos oque é uma forma de valorizar as pessoas que fa- desenvolvimento, como uma das formas de estarzem trabalho voluntário e interagir positivamente em contato e promovendo a melhoria para so-com a sociedade, para nós valorizarmos ela aqui ciedade, através do apoio a eventos e programasdentro. O que se traduz em uma estratégia para que seria [...] uma contribuição pra fomentar oengajar ainda mais seus funcionários nas questões empreendedorismo na cidade, [...] Está muito clarode conscientização da sustentabilidade. pra nós a questão da sustentabilidade [...]. O G6 Percepção que as práticas sustentáveis para corrobora com essa idéia [...] Hoje nós estamosreduzir os impactos ambientais trazem economia contribuindo de forma direta ou indireta atravésde recursos. Porém sobre as atividades desenvol- da realização de uma série de eventos, que fazemvidas em âmbito social não há mensuração, pois com a proximidade com a comunidade seja per-a empresa não apresenta indicadores suficientes, cebida como algo muito forte. Então sem dúvidaconforme G2: Nós não encontramos o formato nenhuma, refletem em uma imagem positiva noscerto e a medida certa. Na origem nós queríamos nossos negócios.encontrar o projeto que desse maior retorno para A empresa tem a preocupação de promovercada real investido, mas é uma dinâmica que não é eventos que agreguem valor a comunidade, pois,fácil. Sobre as atividades sociais internas, focadas segundo o G3: [...] nos preocupamos em ajudar,para os funcionários, foi possível verificar que há o em desenvolver, e quando falo em ajudar e desen-entendimento, por parte dos gestores, de que os volver não só dar dinheiro, mas ver se ele é bem aplicado e acho que é isso que o Programa Social dafuncionários percebem esse esforço organizacio- organização faz, tem esse foco [...] dá pra aquelasnal que se reflete em pesquisa de clima, conforme instituições que querem e que se preparam pracolocação do G1: interferem tanto no público poder receber recursos e aplicar isso bem [...]interno e externo, tanto nas pesquisas de clima,como nas pesquisas de satisfação com clientes. Este interesse no tipo de resultado esperado é reforçado pelo G5 [...] existe a compreensão A inversão da forma de elaboração do pla- da participação da organização em programasnejamento estratégico que era feito de cima para sociais [...] quem mais ganha com a participaçãobaixo, partindo dos interesses dos acionistas, para da organização em projetos sociais é a sociedadea elaboração de baixo para cima também incorre como um todo. Mesmo partindo de uma visãoem na mudança de visão que os gestores têm do bastante filantrópica, a empresa pode ser conside-negócio, pois há maior envolvimento dos colabo- rada como uma organização inovadora, pois nãoradores da organização e melhora a comunicação foram encontrados programas ligados às questõesinterna das decisões. sustentáveis, desenvolvidos por outras empresas do mesmo ramo e com o mesmo objetivo.102 |
  • 105. Revista da FAE A preocupação ambiental surge a princí- tange a refrigeração [...], temos assim, um contro-pio como uma imposição legal, da matriz e da le inteligente de energia, que tem um sensor desociedade. A organização passou a desenvolver presença, que após o fechamento do estabeleci-programas, alguns vinculados a matriz e outros mento, a geladeira passa a não ser tanto aberta,desenvolvidos dentro da organização com a ele lê que o estabelecimento está fechado e passaidéia de disseminar uma cultura sustentável, mas a consumir menos energia. Foi um sistema que apercebe-se uma preocupação muito maior em matriz desenvolveu com os fabricantes, e entãoações de “ajuda social” do que de inserção dentro por um tempo temos a exclusividade nisso [...]da cultura organizacional ou inserção estratégica. Conforme o G2 as questões ligadas ao O G1 demonstra a influência da matriz investimento, mensuração e retorno dos programasquando diz que [...] trabalhamos dentro de uma sociais ainda são uma incógnita, apesar de haverplataforma da matriz, com proposta saudável plano de investimentos, é tudo encarado como ume sustentável, que procura colocar a empresa, investimento, sem projeções de retorno, além damostrando a nossa responsabilidade com o imagem ética e responsável perante a sociedade,planeta. claro que pequenas economias de energia, água e De acordo com o G3 a questão ambiental outros materiais são mencionados [...] queríamosera primeiramente vista como cumprimento encontrar o projeto que desse maior retorno parade normas legais e de certificação [...] olhando cada real investido, mas é uma dinâmica que nãopela parte ambiental, tem toda certificação ISO é fácil. Não é fácil traduzir tudo nesse objetivo [...]14001 que prega toda essa gestão ambiental [...] O G3 reforça essa dificuldade ao afirmarsomado a [...] preocupação com vários indicadores que [...] os ganhos, a gente entra num campoambientais seja, tratamento da água, consumo de subjetivo, de difícil mensuração, ao cuidar daenergia, redução de gases, manejo de resíduos. água, da energia [...] Com o cumprimento das normas e imposições Destacando-se desta forma que a mensuraçãolegais e com a emergente demanda por empresas do retorno para esses investimentos em ações sus-ecologicamente corretas, a organização buscou tentáveis não são tão relevantes para a organiza-apoiar alguns programas e desenvolveu algumas ção que considera isso um investimento necessárioações internas para reduzir os impactos provocados e não ações inseridas na cultura organizacional.por seus produtos na natureza e na sociedade. Sabe-se que o retorno dos investimentos O G3 destaca programas de reciclagem e em sustentabilidade são de longo prazo em suaum grupo chamado ECO que trabalha questões maioria, como mudança de hábitos, economia deambientais [...] temos o programa de reciclagem, recursos, tempo, dinheiro, preocupação com uma[...] pra que seja encaminhada pra um destino realidade sustentável, que garanta a sobrevivênciacorreto de manejo desses resíduos. das futuras gerações, etc., no entanto muito pode A matriz multinacional desta organização, ser mensurado, apesar disso, nota-se ainda nessabuscando redução de impactos e custos que questão uma despreocupação da organizaçãorefletem em economia de recursos, desenvol- pelo fato de se tratar de uma questão dissociadaveu um sistema inovador ligado diretamente á dos planos estratégicos e sim por se tratar depreocupação sustentável, conforme G3 [...] uma uma questão necessária, mas muito vinculada àpreocupação agora, nos investimentos no que filantropia organizacional.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |103
  • 106. 4.2.3 Influência na Cultura No entanto, percebeu-se que quando se trata da visão objetiva da organização sobre o papel da As empresas começam a desenvolver uma sustentabilidade fica claro que dentro da culturacultura própria no que diz respeito à sustentabi- da organização predomina a visão do G2 [...] Eulidade, baseadas em sua própria forma de gestão, não enxergo uma organização, com fins lucrativos,objetivos e compreensão do tema. fazendo atividade socioambiental se ela não tem A cultura da organização pesquisada está pas- o seu maior objetivo a sobrevivência, participaçãosando por transformações no sentido da inclusão de mercado, ganho de mercado e de lucratividade.de valores e idéias novas, inclusive, no que tange Porque se a visão socioambiental cresce mais quea participação dos colaboradores na elaboração a empresa, isso pode acabar engolindo a empresados planos, como pode ser percebido através e, acabando com a empresa, vai ‘acabar’ acabandodos trechos dos entrevistados: O G5 afirma que a com o retorno social. Então a visão empresarial departicipação de um mediador externo já faz parte lucro e resultado é a visão que capacita a organiza-da cultura da organização [...] o planejamento ção para poder dar mais retorno. E o maior retornoocorre com auxílio de um facilitador externo, que social que uma empresa pode dar é o imposto.faz a mediação e a coordenação das atividades, Mais um fato que demonstra isso é quandoe houveram mudanças na formulação dos planos se percebe que o fator econômico é quase irrele-estratégicos que possibilitaram a participação das vante quando se fala de sustentabilidade dentroequipes dos setores [...], e o G2 [...] nós invertemos da empresa, pois como não consideram uma fonteos fluxos em um planejamento de baixo para cima. de retorno ou como algo agregado a naturezaEstamos concluindo uma primeira fase de busca estratégica da empresa o fator econômico passade dados de fechamento de um planejamento a ser irrelevante, assim como a mensuração docom toda a equipe de gestores e coordenadores. quanto às práticas e mudanças nesse sentido podem afetar o negócio. Em relação aos novos valores e idéias, estãoas questões sustentáveis. O G4 propõe uma visão Uma mudança que seja profunda a ponto desustentável e estratégica [...] a responsabilidade alterar aspectos da cultura é difícil, como destacasócio-ambiental, tem que fazer parte do negócio, o G3 [...] acho que não é natural, e digo que nãoassim como o negócio da empresa que é desen- é natural em nenhuma empresa, mas quando é devolver e sustentar marcas de valor [...] cima pra baixo todos acabam se engajando nessa causa [...] como todo mundo fala disso, acaba Inicialmente a proposta de mudanças den- incorporando e a gente vê como necessidade detro dos valores organizacionais seria incluir esses fazer melhor com menos impacto [...]valores e ações sustentáveis com intenção de A questão sustentável está sendo desen-maior interação com a comunidade e melhoria da volvida dentro da organização a partir da visãoimagem da empresa e do produto, como afirma de seus gestores, conforme alguns é bastanteo G2 [...] dentro desse processo de planejamento ampla e envolve os pilares da sustentabilidade esocioambiental nós já, desde o primeiro plane- desenvolvimento e, para outros refere-se a açõesjamento, tomamos algumas decisões baseadas filantrópicas e legais, pela emergência do temapelas intenções dos acionistas em interagir com e pela diversidade de compreensão do mesmoa comunidade. pode-se dizer que a cultura da organização está104 |
  • 107. Revista da FAEem formação no que se refere ao mesmo. Essa forma, vemos pessoas físicas se agrupando pra terconstrução aparece nas declarações do G2, [...] projetos que eles tocam, porque enxergam queo Programa Social entrou como processo da podem fazer alguma coisa, isso toca as pessoas emudança da cultura de gestão das organizações eles percebem que podem fazer alguma coisas, umsociais, e G3: [...] como praticante do conceito grupo começa e depois outro. Segundo o G6 [...]socioambiental, precisa ser correto, no sentido de o RH, tem várias ações e campanhas que fazemética para recolhimento de tributos, trate bem os com que as pessoas ao participar dessas atividadesfuncionários, competição ética [...] aumentem o grau de consciência em relação a essa As mudanças em relação à inserção da questão da sustentabilidade.[...] várias iniciativassustentabilidade na cultura da organização são visam melhorar a qualidade de vida das pessoas.graduais e muito delas se deve às transformações As questões sustentáveis fazem parte dasda sociedade e do mercado. Conforme G1 [...], discussões internas, mas como um projeto ou pro-quando que imaginávamos que iríamos vender grama paralelo, de forma que sejam programassuco. Dentro da estrutura nova construída temos legais ou sociais a serem cumpridos e que deman-que, sustentar marcas de valor [...] A matriz é dam investimento, mas não que fazem parte dosbem interessante porque mostra bem o nosso planos estratégicos como um todo.foco, que é o mercado e como nosso produto é Uma de suas principais contribuições destamuito dinâmico, a concorrência é forte e pesada. pesquisa é a identificação de variáveis que pode-[...] agora com essa revisão do planejamento rão ser exploradas em futuros trabalhos sobre oestratégico, começamos a observar outros nichos. tema. Dessa forma, o quadro, a seguir, apresenta Esse ponto também é destacado pelo G6 [...] um resumo dos principais pontos levantados pelosa mudança se dá na sociedade como um todo. [...] gestores entrevistados, sobre as ações de susten-estamos trabalhando sistematicamente no intuito tabilidade adotadas pela organização.de fazer ações e atividades que ampliem essa ques-tão da consciência, eu não vejo dificuldade e simum aliado, mas é um processo que vai demandarde mudanças em hábitos e comportamentos. O que vem sendo desenvolvido dentro daorganização pode ser sentido pelos colaborado-res, que vão participando dessas novas propostasconforme seu entendimento e interesse inicial-mente. Novos comportamentos e atitudes sãoincentivados pela organização como parte danova cultura social. G1 afirma que [...] de dentroda empresa tem os que ajudam mais, mas nãoé uma participação homogênea, é mais os quetrazem essa cultura de casa. E a empresa tambémfaz a sua parte, temos uma boa evolução, mastemos que trabalhar, conscientizar mais. Para G3[...] os colaboradores vêem a empresa de outraRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |105
  • 108. QUADRO 02 - PRINCIPAIS ASPECTOS INFLUENCIADORES Considerações finais DA SUSTENTABILIDADE DA ORGANIZAÇÃO • Acionistas • Necessidade de criar imagem positiva A análise qualitativa das questões levantadasInfluência externa • Atender às questões legais possibilitou perceber as diferenças na percepçãona adoção • Campanhas institucionais do tema dos gestores, quando se trata de definir sustenta-das práticas • Economia de recursossustentáveis • Pesquisas de clima bilidade e como esta é percebida na prática desta • Pesquisas de satisfação dos clientes organização. • Fomentar o empreendedorismo na Os gestores entrevistados compreendem a cidade • Participação em eventos importância e a necessidade da sustentabilidade • Criação de empresa para desenvolver para a organização e a encaram como inevitávelInfluência os programas sociaisdas ações de dentro da cultura organizacional. Porém, as dife- • Plataforma socioambiental da matrizsustentabilidade • Certificação ISO 14001 renças aparecem no entendimento do que vemnas decisões • Tratamento da água a ser práticas sustentáveis para a organização. Aorganizacionais • Redução de gases • Programa de reciclagem questão sustentabilidade aborda aspectos nos âm- • Controle inteligente de energia bitos social, econômico e ambiental e cada gestor • Os programas ocorrem paralelos às percebe com mais intensidade um, no máximo dois, estratégias • Ações sociais desvinculadas das dentre os três aspectos, o que interfere na forma estratégias como enxergam as ações da empresa, que estão • Mediador externo no planejamento dispostos de forma resumida no quadro abaixo. • Desenvolver e sustentar marcas de valor QUADRO 03 - ASPECTOS MAIS RELEVANTES NA • Maior interação com a comunidade PERCEPÇÃO DOS GESTORES • Imagem positiva da empresa Âmbitos G1 G2 G3 G4 G5 G6 • Objetivo continua sendo ganho de Social X X X mercado e lucratividadeInfluência na • Produzir causando menos impacto Econômico X X X Xcultura ambiental Ambiental X X X • Inserção do Programa Social FONTE: Os autores • Introdução de novos produtos em novos nichos, como sucos e chás A organização desenvolve projetos na área • Mudanças de hábitos e comportamentos ambiental e social. Os projetos sociais estão em • Cultura levada pessoal para dentro fase de desenvolvimento e amadurecimento, da empresa mas não é possível verificar um alinhamento e • Ações de estímulo à participação de atividades sociais e filantrópicas interação com toda a organização e as demaisFONTE: Os autores dimensões da sustentabilidade (econômica e ambiental). Esse caráter é visível principalmente nos projetos que visam filantropia. Dentro dos projetos ambientais a maior parte dos gestores percebe que existe um retorno financeiro, embora não significativo e, portanto, não há interesse em mensurar adequadamente seu retorno. Os projetos, além de cumprir as obrigações legais, visam proporcionar desenvolvimento da106 |
  • 109. Revista da FAEcomunidade como um todo, porém estes projetos lhoria de desempenho nos negócios. O que ficousão desenvolvidos paralelamente às estratégias e evidente, é que as ações sociais visam resultadosplanejamento estratégico da empresa. A cultura relacionados à sua imagem como propulsora deda empresa prega que o objetivo maior da empre- atividades sociais perante a comunidade, no sen-sa é a sobrevivência, ganho de mercado e lucrativi- tido de uma organização que auxilia as demais adade, que é visto como ser sustentável, colocando se estruturarem, assim como também, fomenta oo aspecto ambiental e social em segundo plano. desenvolvimento empreendedor na cidade. Alguns gestores percebem que isto é apenas A organização tem grande interesse em de-obrigação da empresa e que sustentabilidade senvolver questões sustentáveis dentro de sua cul-inclui a manutenção dos recursos naturais e de- tura, mas sabe-se que é uma inserção gradual, quesenvolvimento de ações que possam impulsionar exige mudança comportamental e de consciênciae possibilitar melhor qualidade de vida à comu- dos colaboradores. No momento, a visão compar-nidade onde a empresa está inserida. Mesmo tilhada pelos gestores, é da importância do temacom esse paradoxo sobre as ações sustentáveis diante do mercado, da sociedade e do planeta, noda organização é possível verificar que a mesma entanto sua prática é basicamente centrada nostem procurado desenvolver e compreender o que quesitos legais e atuação mais expressiva em açõesé ser sustentável. sociais externas, com pouca relação estratégica Como resultado deste estudo, que busca ou visando mensuração de resultados e retornosrelacionar as práticas sustentáveis e a gestão para o negócio da organização.estratégica da organização, é possível dizer quea organização não relaciona os dois aspectos, ou • Recebido em: 07/07/2010seja, as ações sociais não visam trazer uma me- • Aprovado em: 24/09/2010ReferênciasALDAY, H. E. O planejamento estratégico dentro do conceito de administração estratégica. RevistaFAE, Curitiba, v.3, n.2, p.9-16, 2000.ANSOFF, I. H. Administração estratégica. São Paulo: Atlas, 1983.ASHLEY, P. A. Ética e responsabilidade social nos negócios. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 2002.BOWEN, H. R. Social responsibilities of the businessman. New York: Harper & Row, 1953.BROWN, T.; DACIN, P. A. The company and the product: corporate associations and consumerproduct responses. Journal of Marketing, Chicago, Ill, v.61, p.68-84, 1997.CAPRA, F. Conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002.CARRIGAN, M.; ATTALLA, A. The myth of the ethical consumer - do ethics matter in purchasebehavior? The Journal of Consumer Marketing, Bradford, GB, v.18, n.7, p.560-577, 2001.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 93-110, jul./dez. 2010 |107
  • 110. ELKINGTON, J. Cannibals with Forks: the triple bottom line of 21st century business. Gabriola Island, BC:New Sociely Publishers, 1998.FRIEDMAN, M. The social responsibility of business is to increase its profits. New York TimesMagazine, New York, v.17, n.6, p.595-612, 1970.INSTITUTO ETHOS. Disponível em: <http://www.ethos.org.br>. Acesso em: 18 maio 2009.KOTLER, P. Administração de marketing. São Paulo: Atlas, 1997.LINS, L. S.; MAGRINI, A.; SILVA, R. N. Integração entre a gestão ambiental e o planejamentoestratégico no segmento de petróleo e gás. In: ENCONTRO DA ENANPAD, 31., 2007. Rio de Janeiro.Anais... Rio de Janeiro, 2007.MELO NETO, F.P.; FROES, C.Gestão da responsabilidade social corporativa: o caso brasileiro. Riode Janeiro: Qualitymark, 2001.______. Responsabilidade social & cidadania empresarial: administração do terceiro setor. Rio deJaneiro: Qualitymark, 1999.MINAYO, M.; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade? Cadernos desaúde pública, Rio de Janeiro, v.9, n.3, p.239-262, 1993. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v9n3/02.pdf>. Acesso: 18 maio 2009.MINTZBERG, H. Ascenção e queda do planejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2004.______. The case for corporate social responsibility, The Journal of Business Strategy, Boston,Mass., v.4, n.2, p.3-16, Mar./Apr. 1983.MINTZBERG, H.; AHLSTRAND, B.; LAMPEL, J. Safári de estratégia: um roteiro pela selva doplanejamento estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2006.MOSTARDEIRO, M. M., FERREIRA, G. C. Análise do processo de formação de estratégias deresponsabilidade Social. In: 3ES, 2005. Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, 2005.NASCIMENTO, L. F.; LEMOS, Â. D.; MELLO, M. C. Gestão socioambiental estratégica. Porto Alegre:Bookman, 2008.OLIVEIRA, J. A. Responsabilidade social em pequenas e médias empresas. Revista deAdministração de Empresas, Rio de Janeiro, v.24, n.4, p.203-210, 1984.OLIVEIRA, J.; TERENCE, A.C.; ESCRIVÃO FILHO, E. Planejamento estratégico e operacional napequena empresa: impactos da formalização no desempenho e diferenças setoriais. In: ENCONTRODA ENANPAD, 32., 2008. Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, 2008.PORTER, M. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. 7.ed. Riode Janeiro: CAMPUS, 1986.PORTER, M.; KRAMER, M. Strategy & society: the link between competitive advantage and corporate108 |
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  • 112. Revista da FAEEmpreendedorismo social e sustentabilidade: um estudo decaso sobre o projeto “mulheres em ação jogando limpo com anatureza” do IFNMGSocial entrepreneurship and sustainability: a study of incase on the project “women in action playing clean with thenature” of IFNMG Edson Oliveira Neves*Resumo Cezar Augusto Miranda Guedes** Kléber Carvalho dos Santos***O presente artigo tem por objetivo analisar a evolução e importância doempreendedorismo social no atual cenário brasileiro e relatar as açõesempreendedoras de um grupo organizado de mulheres da cidade de Januária-MG, protagonistas de um projeto social denominado “Mulheres em Ação:Jogando Limpo com a Natureza” desenvolvido e operacionalizado pelo IFNMG eque contribuiu para a melhoria da qualidade de vida de muitas famílias a partirdo incentivo e facilitação da produção comunitária de sabão em barra caseiro,utilizando como matéria-prima o óleo vegetal comestível usado, contribuindo einfluenciando diretamente na redução do descarte inadequado destes resíduos nomeio ambiente. Ou seja, geração de renda numa perspectiva de sustentabilidadeambiental e não-agressão ao meio ambiente. O projeto teve como foco odesenvolvimento sustentável comunitário e caracteriza-se por ser uma intervençãoempreendedora social de forte impacto que se fundamentou na capacitação efortalecimento de um grupo comunitário ativo na região, visando fomentar ageração de emprego e renda, sob bases sustentáveis e de auto-gestão.Palavras-chave: empreendedorismo social; desenvolvimento comunitário; geraçãode renda; sustentabilidade.AbstractThe present work has for objective to analyze the evolution and importanceof the social entrepreneurship in the current Brazilian scenery and to tell theentrepreneurial actions of an organized group of women of the city of Januária- * Mestre em Educação Agrícola pelaMG, protagonists of a social project denominated “Women in Action: Playing Clean UFRRJ, Professor e Coordenadorwith the Nature” developed and executed by IFNMG and that it contributed to the do Curso de Bacharelado emimprovement of the quality of life of a lot of families starting from the incentive Administração do IFNMG. Januária – MG. E-mail: edsoneves@ibest.com.br.and facilitation of the community production of soap in bar caretaker, using as raw ** Pós-Doutor pela Universidade Técnicamaterial the eatable vegetable oil used, contributing and influencing directly in the de Lisboa. Professor Associado dareduction of the inadequate discard of these residues in the environment. In other UFRRJ. Diretor do Núcleo de Estudoswords, generation of income in a maintainable perspective and no-aggression of the da Sociedade, Trabalho e Territórioenvironment. The project had as focus the community maintainable development (NESTTE / UFRRJ). Rio de Janeiro – RJ.and it is characterized by being a social entrepreneurial intervention of strong E-mail: cguedes@ufrrj.brimpact that was based in the training and invigoration of an active community *** Doutorando em Desenvolvimentogroup in the area seeking to foment the employment generation and income, Rural pela UFRGS. Pró-Reitor deunder maintainable Administração e Professor do Curso Bacharelado em AdministraçãoKeywords: social entrepreneurship; community development; generation of do IFNMG. Januária – MG. E-mail: kleberjanuaria@hotmail.comincome; maintainable.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |111
  • 113. Introdução promovam o bem estar social e a exclusão de pes- soas das condições de risco social. É o indivíduo A partir dos anos 1990, o Brasil começa a que foca o coletivo e não o individual, que faz doexperimentar um considerado aumento das ini- inconformismo uma arma para desenvolver estra- tégias para o desenvolvimento humano.ciativas voltadas às causas sociais impetradas porgrupos organizados como: empresas, organiza- O empreendedorismo social está inserido nes-ções não-governamentais, instituições públicas te novo paradigma da economia, a socioeconomiaetc. Esse quadro pode ser explicado pelo cenário solidária, e se concretiza naexistente, caracterizado pelo baixo investimento contribuição efetiva de empreendedores sociais inovadores cujo protagonismo na área social produzpúblico no campo social, pela inflexão no mercado desenvolvimento sustentável, qualidade de vida ede trabalho desde os anos noventa, pelo conside- mudança de paradigma de atuação em benefício derado aumento do nível de pobreza e desigualdade comunidades menos privilegiadas (ROUER; PÁDUA,social e que se refletia na lenta evolução dos ín- 2001, p.13).dices de desenvolvimento humano do país. Neste As ações empreendedoras sociais no Brasilperíodo houve um crescimento do número de or- foram essenciais para as recentes e sensíveisganizações do terceiro setor e o fortalecimento de melhoras nos indicadores de desenvolvimentoformas de organização alternativas ao mercado de humano nos últimos anos. Estas iniciativas, emtrabalho formal onde se encaminharam práticas grande parte, populares e com impactos locais,de gestão social. atuam muitas vezes, como parceiras do estado Esse cenário resultou no desenvolvimento da e de grandes organizações públicas e privadas.chamada economia solidária ou socioeconomia É com essa perspectiva de parcerias em prol dosolidária que, conforme Dowbor (2006), concentra social que apresentamos neste trabalho o projetosistemas de autogestão, cooperativas de nova desenvolvido pelo Instituto Federal de Educação,geração, produções conveniadas de diversos Ciência e Tecnologia do Norte de Minas Gerais –tipos, iniciativas organizadas com fins coletivos. A IFNMG que teve como atores um grupo organizadoeconomia solidária pode ser entendida como um de mulheres – senhoras donas de casa - da cidadefenômeno social e compreende a organização e de Januária - MG. O grupo se destacou por suasmovimentos sociais visando a geração de renda, iniciativas empreendedoras para geração de rendadistribuição de riquezas, produção e consumo a para suas famílias e comunidade com ética epartir de sistemas de autogestão. Fundamenta-se respeito aos valores humanos e ao meio ambiente.no associativismo e no cooperativismo e envolve a O projeto denominado de “Mulheres emadministração e gerenciamento dos mecanismos de Ação: Jogando Limpo com a Natureza” teveprodução de forma democrática, com igualdade de como foco o desenvolvimento sustentável comu-direitos e de responsabilidades (DOWBOR, 2006). nitário e caracterizou-se por ser uma intervenção É neste contexto onde se desenvolvem dife- empreendedora social de forte impacto que serentes ações de protagonismo social que ganha fundamentou na capacitação e fortalecimento dedestaque a figura do empreendedor social, pessoa um grupo comunitário ativo na cidade de Janu-que assume o papel de agente transformador, que ária, norte do Estado de Minas Gerais. O projetoa partir de uma postura visionária e inovadora, buscou fomentar a geração de emprego e rendabusca idealizar e desenvolver mecanismos que a partir do incentivo e facilitação da produção112 |
  • 114. Revista da FAEcomunitária de sabão em barra caseiro, utilizando tem sido imputada a responsabilidade pelocomo matéria-prima o óleo vegetal comestível crescimento econômico e pelo desenvolvimentousado, contribuindo e influenciando diretamente social de comunidades e de nações.na redução do descarte inadequado destes resí- O empreendedorismo tem sido entendidoduos no meio ambiente. Fundamentou-se dessa como uma alternativa a mais frente às grandesforma em dois pilares básicos: geração de renda questões econômicas e sociais que assolam oe sustentabilidade ambiental. mundo contemporâneo, como o desequilíbrio Juntamente com o empreendedorismo econômico, recessões, geração e distribuição desocial, vale dizer que no encaminhamento das renda, desenvolvimento humano, sustentabilidade,ações estiveram presentes as práticas de gestão qualidade de vida, dentre outras.social, uma vez que predominou um processo O termo empreendedorismo deriva de umagerencial dialógico onde a autoridade decisória livre tradução da palavra “entrepreneurship” quefoi compartilhada entre os participantes da ação, está relacionada às ideias de iniciativa e inovação,o que pode ocorrer em qualquer tipo de sistema “é um termo que implica uma forma de ser, umasocial – público, privado ou de organizações não concepção de mundo, uma forma de se relacionar”governamentais (TENÓRIO, 2008). (DOLABELA, 2008, p.24). Hoje, é utilizado para Este trabalho desenvolve uma conceituação designar os estudos relativos ao empreendedor, seu perfil, suas origens, seu sistema de atividades,inicial e discussão sobre a importância do empre- seu universo de atuação.endedorismo social no atual cenário brasileiro e,posteriormente, passa-se à caracterização do grupo Uma corrente do empreendedorismo ganhou grande visibilidade e destaque em função dade senhoras empreendedoras e do projeto desen- contribuição para o desenvolvimento social novolvido e operacionalizado pelo IFNMG que buscou Brasil. É o chamado empreendedorismo social,sua emancipação, capacitação e fortalecimento. emerge no cenário dos anos 1990, ante a crescente problematização social, a redução dos investimentos públicos no campo social, o crescimento das1 Empreendedorismo social: organizações do terceiro setor e da participação das empresas no investimento e nas ações sociais (OLIVEIRA, conceituação e importância 2004, p.9). Oportunamente, Oliveira (2004, p.10) observa O empreendedorismo é um tema que, nas que “o tema empreendedorismo social é novoúltimas décadas, tem sido objeto de intenso estudo em sua atual configuração, mas na sua essênciae pesquisa, presente nas principais discussões já existe há muito tempo”. Melo Neto e Fróessociais, políticas e econômicas do mundo. (2002, p.17), sobre o surgimento e disseminaçãoDolabela (2008) observa que isso se deve à grande do empreendedorismo social no Brasil, observamimportância que este assumiu no atual cenário que estee que pode ser explicada pela sua contribuição surgiu como um avanço, uma nova proposta depara o desenvolvimento político, econômico e desenvolvimento social. É algo que só pode ocorrer mediante a intermediação da sociedade, por ser estasocial. O empreendedorismo funciona como um o motor da atual ativação, em colaboração com aimportante fator de equilíbrio econômico, de administração pública, e a principal responsável pelogeração de empregos, de inovação, de dinamismo direcionamento de comportamentos empreendedoresno mercado e na sociedade. Ao empreendedor [sic].Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |113
  • 115. O empreendedorismo social refere-se às Para Dolabela (2008), o empreendedor éiniciativas empreendedoras voltadas às causas alguém que acredita que pode contribuir, umsociais. Difere do empreendedorismo tradicional visionário, que com atos busca alterar a realidade.(empresarial ou corporativo) – mais conhecido, O empreendedor é um insatisfeito que transforma seupois este busca maximizar retornos sociais ao invés inconformismo em descobertas e propostas positivas para si mesmo e para os outros. É alguém que preferedo lucro. Baseia-se na cooperatividade, é centrado seguir caminhos não percorridos, que define a partirno desenvolvimento autônomo, autogestionário do indefinido, acredita que seus atos podem gerarde cada pessoa, comunidade e nação. Evidencia consequências. Em suma, alguém que acredita quea sustentabilidade, o respeito ao meio, apoia- pode alterar o mundo. É protagonista e autor de sise na dimensão indivíduo-grupo-coletividade- mesmo e, principalmente, da comunidade em que vive (DOLABELA, 2008, p.24).comunidade-sociedade e tem os membros dacomunidade como os principais agentes ou O empreendedor social possui um perfilsujeitos do desenvolvimento. diferenciado, assemelha-se em alguns aspectos Nesta perspectiva mais abrangente de com o empreendedor tradicional, porémempreendedorismo, Franco 1 (2000 apud não é qualquer um que pode ser um empreendedor social. O empreendedorismo social é um misto deDOLABELA, 2003, p.32) salienta que o ciência e arte, racionalidade e intuição, ideia e visão, Empreendedorismo significa protagonismo social, sensibilidade social e pragmatismo responsável, utopia ruptura de lanços de dependência, crença dos indivíduos e realidade, força inovadora e praticidade (MELO NETO; e das comunidades na própria capacidade de construir o FRÓES, 2002, p.34). seu desenvolvimento pela cooperação entre os diversos âmbitos político-sociais que a caracterizam. Em poucas Vieira e Gauthier2 (2000 apud SILVA, 2009, palavras: assumir a responsabilidade pela construção p.5) observam que de seu próprio destino. Aqui, estão embutidos dois Os empreendedores sociais são aqueles que criam conceitos importantes: a capacidade da comunidade de valores sociais através da inovação e da força de recursos tornar dinâmicas as suas potencialidades e a localidade financeiros, independente da sua origem, visando o como palco do desenvolvimento, isto é, como espaço desenvolvimento social, econômico e comunitário para o exercício de novas formas de solidariedade, [...] têm a visão, a criatividade, e a determinação para parceria e cooperação. redefinirem os seus campos [...] são os pioneiros na inovação de soluções para os problemas sociais e não Nesse sentido, o empreendedor social atua podem descansar até mudarem todo o modelo existentecomo um agente de transformação. Ele reconhece da sociedade.os problemas sociais e busca soluções utilizando-se Há uma grande diferença entre o empre-de estratégias de intervenção baseadas no mercado endedorismo social e o empresarial. Este últimocomo a combinação de práticas, conhecimentos fundamenta-se nos princípios econômicos doe inovação, a criação de novos procedimentos e mercado. Nesses termos o empreendedorismoserviços, a realização de parcerias, o planejamen- empresarial é definido como sendoto de formas/meios de autossustentabilidade dos Um processo dinâmico pelo qual os indivíduosprojetos dentre outras atividades de caráter empre- identificam idéias e oportunidades econômicas eendedoras (MELO NETO; FRÓES, 2002). atuam desenvolvendo-as, transformando-as em 2 VIEIRA, Renata M.F.; GAUTHIER, Fernando A.O. Introdução ao empreendedorismo social. In: ENCONTRO NACIONAL1 FRANCO, A. de. Por que precisamos de desenvolvimento local DE EMPREENDEDORISMO, 2., 2000, Florianópolis. Anais... integrado e sustentável? Brasília: Instituto de Política, 2000. Florianópolis, 2000. 114 |
  • 116. Revista da FAE empreendimentos e, portanto, reunindo capital, empresas contempla as ações das organizações trabalho e outros recursos à produção de bens de fins lucrativos no campo social, porém não e serviços. Trata-se, portanto, de uma atividade econômica geradora de bens e serviços para a venda podem ser desvinculadas dos objetivos e interesses (MELO NETO; FRÓES, 2002, p.6). corporativos, seja direta ou indiretamente. Oliveira (2004, p.448) traz a seguinte carac- Já o empreendedorismo social, como observa terização de responsabilidade social:Melo Neto e Fróes (2002, p.9) “não é direcionado a responsabilidade social empresarial se caracteriza porpara mercados, mas para segmentos populacionais objetivos específicos e relações interligadas de formaem situações de risco social (exclusão social, interna e externa aos objetivos da empresa. A suapobreza, miséria, risco de vida)”. Complementa: intervenção, seja direta ou indireta, não se caracteriza O que o empreendedorismo social busca, na verdade, por ser de empreendedorismo social, por não ter uma não é o seu sucesso de vendas, como o faz o ação voltada e focada no desenvolvimento sustentável e empreendedor privado, sua medida de sucesso é potencialização da comunidade, e isso de forma direta, o impacto social. Ou seja, o número de pessoas e que envolva os três setores. beneficiadas com a solução proposta no programa Melo Neto e Fróes (1999) apresentam a res- ou projeto de empreendedorismo social (MELO NETO; FRÓES, 2002, p.11). ponsabilidade social das empresas como sendo um conjunto de ações, que podem ser de ordem No quadro 01 são apresentadas as principais interna, junto aos funcionários, e de ordemdiferenças entre o empreendedorismo tradicional, externa, junto à comunidade. Pode ocorrer deempresarial ou corporativo e o empreendedorismo forma direta, quando a empresa elabora ações esocial. projetos em que ela, através de uma fundação ou O empreendedorismo social também difere da ONG, presta serviços à comunidade, ou, de formaresponsabilidade social empresarial, em crescente indireta, realizando investimentos sociais, atravésascensão no Brasil. A responsabilidade social das de doações ou parcerias com instituições que jáQUADRO 01 - DIFERENÇAS ENTRE O EMPREENDEDORISMO atuam no campo social. EMPRESARIAL E O SOCIAL Empreendedorismo Empreendedorismo Empresarial Social 2 O projeto mulheres em ação e Perspectiva individual Perspectiva coletiva Produz bens e o seu protagonismo social em Produz bens e serviços serviços em prol da Januária – Minas Gerais comunidade Foco na busca de Tem o foco no mercado soluções para os O projeto “Mulheres em Ação: Jogando problemas sociais Limpo com a Natureza” surgiu de um ideal de Sua medida de desenvolvimento comunitário sustentável prota- Tem como medida de desempenho é o gonizado por um grupo organizado de senhoras desempenho o lucro impacto social de suas ações empreendedoras, donas de casa, de bairros da Fundamenta-se em satisfazer Fundamenta-se em periferia da cidade de Januária, norte do Estado as necessidades dos clientes e respeitar pessoas da de Minas Gerais. As ações empreendedoras na ampliar as potencialidades do situação de risco social comunidade ganharam status de projeto social negócio e promovê-las com maior abrangência e repercussão com aFONTE: Adaptado de Melo Neto e Fróes (2002, p.11)Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |115
  • 117. parceria do Instituto Federal de Educação, Ciência de 0,610 em 1991, para 0,699 em 2000. Das trêse Tecnologia do Norte de Minas Gerais – IFNMG, dimensões utilizadas para mensuração do IDH, aque atuou como incentivador das ações empre- que mais contribuiu para este crescimento foi aendedoras do grupo comunitário. longevidade, com 44,2%, seguida pela educação, A partir desse momento caracterizaremos o com 43,1%. A contribuição da dimensão renda foiprojeto em questão respaldados nas informações a menor, 12,6%. O que denota uma carência deadvindas do documento enviado ao Ministério da políticas e estratégias para geração e distribuiçãoEducação – MEC pelo IFNMG (2008). de renda na região. O projeto buscou o fortalecimento e a ca- Os bairros Jussara, Eldorado e Alto dospacitação em diferentes aspectos de um grupo Poções acolhem como moradores principalmentecomunitário organizado denominado de “Mulhe- os januarenses provenientes da zona rural dores em Ação”. O grupo, formado em sua maioria município. Em sua maioria, estão na condiçãopor donas-de-casa atuantes dos bairros Jussara, de desempregados, exercendo esporadicamenteEldorado e Alto dos Poções, produz sabão em serviços avulsos ou informais. Há uma presençabarra, reutilizando o óleo vegetal comestível, significativa de aposentados e, principalmente,com o objetivo de auxiliar na composição da de beneficiários das transferências do Governo Federal. A bolsa família atinge 279 famílias,renda familiar. A ação do Instituto foi efetivada número significativo, próximo da metade dasatravés da disponibilização de assessoria técnica famílias da comunidade, o que denota umaatravés de equipe multidisciplinar que viabilizou intensa dependência de políticas públicas dea efetiva implantação e funcionamento de uma assistência social.microindústria comunitária de sabão em barracomo uma estratégia de fortalecimento de gru- Cerca de 80% das mulheres residentes nospos comunitários que busquem a autonomia e a bairros considerados no estudo trabalham em casasustentabilidade econômica e ambiental. devido às oportunidades reais de emprego formal ser bastante escassas na cidade. Esse quadro indica O município de Januária tem sido historica- a possibilidade e, mais ainda, a necessidade damente caracterizado pela situação de miséria e implantação de projetos alternativos que estimulempobreza, na qual se encontra a maior parte de a organização e produção na comunidade, visandosua população. Segundo o PNUD (2000), o muni- à geração de renda.cípio está entre as regiões consideradas de médiodesenvolvimento humano (IDH entre 0,5 e 0,8).Pela classificação do Programa, em relação aosoutros 5.564 municípios do país, Januária ocupa 3 Históricoa 3003ª posição, já em relação aos municípios doEstado, ocupa a 545ª posição. No ano 2000, o Os registros de ações protagonizadas poríndice de desenvolvimento humano (IDH) do mu- grupos organizados, que buscam alternativasnicípio era de 0,699, que mesmo sendo o maior sustentáveis de desenvolvimento, são raros ementre os municípios da microrregião que está Januária. No bairro Jussara, desde 31 de agosto deinserido (16 municípios), está abaixo da média 2003, um grupo composto por 16 donas de casado Estado (0,773) e do país (0,766). De 1991 a do bairro se organizou com o propósito de buscar2000, o IDH de Januária cresceu 14,59% passando alternativas para a produção e o aumento da renda116 |
  • 118. Revista da FAEde suas famílias. Entre as diferentes atividades do mês, sendo comercializada a R$ 0,50 a unidade),grupo (produção de doces, bordados, marmitas) a aparência do sabão (as barras murchavam),ocupava o lugar de pouco destaque a produção inexistência de padrão das barras (tamanho ede sabão em barra caseiro. peso das barras), as dificuldades em adentrar em O início da produção de sabão caseiro foi um mercado extremamente competitivo (venderrepleto de dificuldades. Era realizada com o que para supermercados, escolas e outras merceariascada uma das participantes tinha em casa. A partir locais), dificuldades em articular com outrosda experiência de uma das moradoras na produção grupos locais a fim de que recolham e doemdo sabão, o processo foi repassado às demais o óleo a ser usado para produção do produtocomponentes do grupo. Em seguida, iniciaram o (as famílias e as empresas descartam o materialrecolhimento nas casas dos bairros do óleo vegetal jogando o óleo em quintais e ralos das residências)comestível usado e, com ele, produziam o sabão e o desconhecimento da legislação específicacom a tecnologia que conheciam. aplicada ao setor. Parte da produção inicial era vendida na Tendo em vista a relevância dessa iniciativacomunidade, de porta em porta e na feira livre comunitária e o grau de dificuldades enfrentadasmunicipal, e a outra parte era destinada ao uso pelo grupo, o IFNMG, a partir de uma parceriadas famílias do grupo produtor. Não havia até ali iniciada em meados de 2007, realizou umanenhuma preocupação em aproveitar as oportu- intervenção consentida no trabalho realizadonidades ou de minimizar os riscos do negócio. A pelo grupo comunitário que se materializou nointenção se restringia em demonstrar a capacidade projeto: “Mulheres em Ação: Jogando Limpodas mulheres em produzir e melhorar as condições com a Natureza” iniciado fevereiro de 2008 ede vida de cada uma. operacionalizado no mesmo ano. O projeto, que Com o reconhecimento local o grupo passou foi enquadrado nas atividades de extensão doa estender suas ações para as comunidades Instituto, teve como objetivo principal capacitarcircunvizinhas. Passaram a ensinar outras donas e fortalecer o grupo comunitário empreendedorde casa, ministravam cursos de produção de sabão contribuindo assim para a geração de rendacaseiro utilizando apenas o que dispunham de observados os princípios da sustentabilidade e,capital humano e materiais – há de ponderar que ainda, fazer deste grupo um multiplicador dasboa parte das senhoras empreendedoras do grupo iniciativas empreendedoras sociais na região.comunitário não detinham alto grau de instrução, Outros objetivos compunham a proposta doem sua maioria eram semianalfabetas. projeto, entre eles: O grupo enfrentava muitas dificuldades para – promover a organização comunitária,prosseguimento de suas atividades relacionadas visando particularmente à implantaçãocom a comercialização do produto, a aceitação do de um programa para o recolhimento domesmo em outras esferas sociais, local adequado óleo vegetal comestível utilizado em esta-para produção e beneficiamento, transporte belecimentos comerciais, educacionais edo produto, custos envolvidos no processo de residências;produção dentre outros. – promover a capacitação das integrantes Graves problemas foram evidenciados no do grupo “Mulheres em Ação” em temasprocesso produtivo, como a baixa produção (a ligados à organização comunitária, econo-produção total é de 500 barras de sabão porRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |117
  • 119. mia solidária, cooperativismo, cidadania, residências do município não possuem rede de geração de renda e terceiro setor; esgoto (IFNMG, 2008). – promover a capacitação das integrantes do O descarte inadequado do óleo vegetal grupo comunitário em temas ligados ao utilizado pode causar sérios problemas ao meio desenvolvimento sustentável relacionados, ambiente, uma vez que o óleo dificilmente em particular, à reutilização de óleos se decompõe, chegando intacto aos rios e às vegetais comestíveis; represas, podendo ainda contaminar solos e – prestar assessoria técnica e jurídica para a lençóis freáticos. Sendo mais leve que a água, o implementação, gestão e funcionamento óleo tende a permanecer na superfície, criando da microindústria de sabão em barra a par- uma barreira que dificulta a penetração de luz e tir da utilização de óleo vegetal comestível; oxigenação da água. Deste modo, ao atingir os rios, o óleo ocasionará a mortandade de peixes, – melhoria do processo produtivo do sabão, fitoplânctons e outros organismos essenciais para observando importantes aspectos como a cadeia alimentar aquática. Por outro lado, o a padronização, aromas, cor e demais óleo ao se decompor emite metano na atmosfera, atributos; como todo material orgânico, contribuindo para – promover a conscientização e comprome- o superaquecimento terrestre (efeito estufa). timento da comunidade januarense, com o Uma vez descartados nos ralos, pias e vasos projeto, especificamente quanto à recolha sanitários, os óleos formam uma crosta gordurosa do óleo vegetal comestível usado; nas paredes dos canos, o que dificulta a passagem – promover a capacitação do grupo visando da água; ao chegar nas redes coletoras de esgoto, ao empoderamento deste e causam problemas de drenagem, retenção de – promover estudos de viabilidade econômica sólidos, mau cheiro, refluxo do esgoto e até do produto – sabão em barra, tendo como rompimentos nas redes de coleta. Nas estações de foco o mercado regional. tratamento, um maior esforço será exigido para o A proposta de fomentar a geração de renda tratamento ideal da água.através das iniciativas populares embasada numa Geralmente, quando as tubulações domésti-proposta de sustentabilidade ambiental e não- cas estão entupidas, as famílias utilizam objetosagressão ao meio ambiente foi abraçada pelo pontiagudos, como fios e arames que podem vir aIFNMG que buscou assistir o grupo durante um danificar os canos; não resolvendo, a utilização deano e capacitá-los tecnicamente, para produção, soda cáustica e ácido muriático é bastante comum.administração, vendas e gestão do novo negócio. Estes produtos químicos são tóxicos, portanto Sobre o óleo vegetal comestível, é importante não são indicados para tal finalidade, pois alémconsiderar que este, após 6,25 horas da fritura de causar corrosão nas tubulações, alcançam osde alimentos, apresenta substâncias nocivas ao rios ou as estações de tratamento, desencadeandoser humano. Desta forma, sua reutilização não é efeitos negativos sobre o ambiente.indicada para tal finalidade. Em sua maioria, seudescarte é feito em quintais, terrenos baldios e Um aspecto importante considerado noralos. Como agravante tem-se o fato de que 100% projeto “Mulheres em Ação: Jogando Limpo comdas residências do bairro e mais da metade das a Natureza” foi justamente buscar a conscienti-118 |
  • 120. Revista da FAEzação das famílias da região quanto ao descarte informática, letras, pedagogi etc.) e de diferentesinadequado do óleo e promover através de par- formações como docentes, discentes e técnicoscerias e organização comunitária a implantação foi essencial para fazer frente às inúmeras dificul-de um programa para o recolhimento do óleo dades e desafios do projeto. O caráter transdisci-vegetal comestível utilizado em estabelecimentos plinar do projeto exigia uma troca constante decomerciais, educacionais e residências que, por informações e uma intensa interação entre todossua vez, seria utilizado como matéria-prima na os envolvidos.produção do sabão caseiro. Na concepção do projeto, buscou-se traba- lhar e desenvolver no grupo a pré-disposição para a auto-gestão. A partir do desenvolvimento de4 Desenvolvimento do projeto cursos direcionados para o planejamento estraté- gicos de ações e de gerenciamento de negócios, Para consecução do projeto foi formada pretendeu-se engendrar no grupo a capacidadeuma grande equipe multidisciplinar. Esta se deu de auto-gestão do empreendimento.com uma chamada pública no IFNMG. Recorreu- A equipe coordenadora multidisciplinar tra-se a uma lista de adesão voluntária, tendo balhou no período de um ano utilizando a infra-es-recebido 37 adesões em uma população de 137 trutura e recursos do Instituto Federal e prestandoservidores. Realizou-se o encontro de servidores contínua assistência ao grupo. A partir da plenacomprometidos com a ação e deu-se início a estruturação das operações da microindústria naum processo de seleção de profissionais nesse comunidade (bairro Jussara) e da consolidaçãouniverso para compor a equipe multidisciplinar. do mercado consumidor, o grupo passou a terA escolha dos professores participantes, num plena autonomia, entendida como a auto-gestãototal de nove, se deu pelo grau de interesse em e auto-financiamento de suas atividades.trabalhar em comunidades, pelo conhecimento O trabalho junto ao grupo envolveu três gran-e habilidades específicas com o foco do projeto. des fases compostas de uma série de atividades Concomitantemente à definição da equipe de como viagens para troca de experiências em nívelprofessores, iniciou-se a divulgação do processo estadual com atividades semelhantes que tenhamseletivo junto aos alunos dos cursos técnicos e apresentado sucesso na geração de emprego comsuperiores do IFNMG. Foram selecionados 15 a produção de sabão artesanal; estudo de viabi-alunos, privilegiando a multidisciplinaridade, lidade econômica do produto - sabão em pedra;formação e conhecimento que possa contribuir com realização de concurso com os graduandos do Cur-as ações do projeto e a completa disponibilidade so de Administração com vistas a uma campanhapara as ações e atividades planejadas. publicitária focando a comercialização do sabão A equipe coordenadora multidisciplinar era em barra produzido pelo grupo; conscientizaçãocomposta por 11 professores de diferentes áreas, da população quanto à responsabilidade ambien-sendo a coordenação geral do projeto exercida tal no que se refere à importância do recolhimentopor dois professores ligados ao departamento do óleo vegetal comestível usado; realização dede extensão da Instituição. O engajamento de cursos sobre gestão de negócios, cooperativas po-profissionais de diferentes especialidades (bioquí- pulares, desenvolvimento sustentável, reutilizaçãomica, engenharia agrícola, direito, administração, de óleos vegetais comestíveis e regulamentaçãoRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |119
  • 121. do Terceiro Setor; aquisição de equipamentos FIGURA 01 - PRODUÇÃO ARTESANALpermanentes para utilização pelo grupo comuni-tário através do edital MEC/PROEXT - Programade Apoio à Extensão Universitária.5 Resultados primários Transcorrido pouco mais de dois anos deimplementação do projeto “Mulheres em Ação: FONTE: Os autores (2008)Jogando Limpo com a Natureza”, os primeiros FIGURA 02 - EVOLUÇÃO NO PROCESSOresultados já podem ser observados. O processo PRODUTIVO DO SABÃOde produção artesanal foi melhorado para atenderde forma mais adequada às exigências do merca-do consumidor local e regional. Novas formas deprodução foram testadas e implantadas, contudo,sem se desligar da perspectiva de respeito ao meioambiente, que caracteriza as ações do grupo. No-vas cores, odores e formas foram testadas e inse-ridas, a partir de então, no processo de produção. Com a nova configuração o produto foi aceito FONTE: Os autores (2008)nos comércios e supermercados e aumentousua venda nas comunidades antes atendidas. A produção foi padronizada, a pequena “fa-Com o apoio do Instituto o sabão em pedra foi briqueta” caseira com instrumentos artesanaisdevidamente registrado e hoje é comercializado na foi substituída por instalações e equipamentosregião com o nome de “Ação”. As figuras abaixo mais adequados e específicos para a produção demostram a evolução do processo produtivo e o sabão. As figuras abaixo apresentam momentosresultado no sabão caseiro. de capacitação do grupo comunitário no processo de produção mecanizado do sabão com auxílio dos profissionais da equipe coordenadora mul- tidisciplinar do projeto. Essas capacitações que envolveram também temas ligados à organização comunitária, economia solidária, cooperativismo, cidadania, geração de renda e terceiro setor, permitiram ao grupo continuarem com os pro- gramas que já desenvolvia nas cidades vizinhas de orientação de donas de casas na produção do sabão caseiro, ou seja, fortalecendo o papel de multiplicador de ações empreendedoras sociais nas comunidades da região.120 |
  • 122. Revista da FAE FIGURA 03 - PERÍODO DE CAPACITAÇÃO FIGURA 05 - APRESENTAÇÃO DO SABÃO À COMUNIDADE LOCAL FONTE: Os autores (2008) FONTE: Os autores (2008) FIGURA 04 - INÍCIO DA PRODUÇÃO ORIENTADA F I G U R A 0 6 - G R AVA Ç Ã O D E REPORTAGEM DA TV NORTE E TV GRANDE MINAS FONTE: Os autores (2008) Com o projeto as ações empreendedoras FONTE: Os autores (2008)do grupo comunitário, foram amplamente re-conhecidas. A aceitação do sabão fabricado a As atividades de produção de sabão caseiropartir do óleo comestível reciclável foi grande. O têm gerado renda de forma direta para cerca detrabalho realizado pelo Instituto Federal visando 20 famílias ou 86 pessoas, e indiretamente paraà conscientização da população para a questão cerca de 2.500 pessoas que é o número estimadoda reciclagem do óleo e colaboração da comu- de moradores dos Bairros Jussara, Eldoradonidade no recolhimento dos resíduos, teve forte e Alto dos Poções (bairros alvo do projeto).impacto social e culminou em novas parcerias e Entretanto o impacto do projeto foi muito maiorapoio de diferentes setores da sociedade local, e mais abrangente. Os trabalhos e campanhascomo comerciantes, instituições públicas, escolas, de conscientização ambiental e divulgação dasempresas de telecomunicações e outros. ações empreendedoras do grupo ultrapassaram As figuras a seguir apresentam um momento as “fronteiras” comunitárias. Quando observadasde gravação de reportagem da TV Norte de a população de Januária - 63.605 habitantes – eJanuária e TV Grande Minas, divulgando o projeto de toda microrregião de Januária, 16 municípios -e o produto para a região Norte de Minas Gerais. 257.072 habitantes, segundo o IBGE (2000), pode se ter noção do impacto do projeto na região.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |121
  • 123. Considerações finais dialógicas de encaminhamento e tomada de de- cisões. O empreendedorismo social tem relação com esta forma alternativa de gestão na medida O projeto “Mulheres em Ação: jogando limpo em que seus desígnios não são os impulsos cegoscom a natureza” deixou a valiosa lição de que é das forças de mercado, dinâmicas onde há maispossível e necessário estabelecer parcerias segu- renda, conhecimento e poder. Ao contrário, trata-ras e promissoras entre as Instituições públicas e -se de resgatar para o mundo do trabalho e daas organizações comunitárias locais. Neste caso, cidadania a população que vive precariamente ema parceria com o IFNMG foi fundamental para o termos de renda e ocupação. Este último aspectosucesso das ações empreendedoras das donas de será objeto de estudo num próximo artigo.casa em Januária. O Instituto assume um papel Os impactos sociais de ações empreendedorasde extrema relevância para o desenvolvimento como as do grupo de senhoras de Januária sãoregional. Por ser um berço de tecnologia e conhe- muito benéficos para a região do Norte do Esta-cimento, sua influência e suas ações na comunida- do de Minas Gerais. Essa região que está inseridade trazem grande impacto para os projetos desta numa mesorregião do semiárido mineiro é reco-natureza e para tantas outras iniciativas populares nhecidamente carente de investimentos sociais,que propiciam a melhoria da qualidade de vida da apresenta baixos indicadores de desenvolvimentopopulação e o desenvolvimento local. humano, principalmente relacionados à saúde, Nessa oportunidade, vislumbrou-se no tra- renda e educação.balho junto ao grupo “Mulheres em Ação” a Diante do que demonstrou este projeto, aspossibilidade de contribuir para a melhoria da iniciativas populares voltadas para o social devemqualidade de vida de muitas famílias e também ser sempre incentivadas, assim como indivíduos eincentivar as iniciativas populares para geração de grupos que buscam através do empreendedorismorenda e desenvolvimento social. A proposta de se social condições para melhoria da qualidade detrabalhar com o eixo desenvolvimento sustentável vida e desenvolvimento de suas comunidades ecomunitário facilitou a adesão, a aceitação e o territórios. Devem ser fortalecidos, tornando-sedesenvolvimento do projeto, já que a comunidade alvos de investimentos e políticas públicas queescolar tem grande identificação com a questão. visem à valorização e promoção dessas ações. Como observam Rouer e Pádua (2001, p.17),estas iniciativas e estratégias relacionadas aoempreendedorismo social são muitos relevantespara o desenvolvimento local, pois visam dotar as comunidades de capacidades e habilidades empreendedoras (abrir e gerir seus próprios • Recebido em: 20/04/2010 negócios), conscientizá-los, mobilizá-los para as • Aprovado em: 24/11/2010 mudanças com base numa educação libertadora, sem no entanto, violar suas culturas e tradições. Embora não fosse objeto nesse artigo, a for-ma de gestão social implementada, distingue-seda gestão estratégica onde estão presentes apenasas lógicas de mercado e estão ausentes as formas122 |
  • 124. Revista da FAEReferênciasDOLABELA, F. Pedagogia empreendedora: o ensino de empreendedorismo na educação básicavoltado para o desenvolvimento social sustentável. São Paulo: Cultura, 2003.______. O segredo de Luísa: uma idéia, uma paixão e um plano de negócios: como nasce oempreendedor e se cria uma empresa. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.DOWBOR, L. O que acontece com o trabalho?. São Paulo, 2006. Disponível em: <http://dowbor.org/06oqueacontecetrab.doc>. Acesso em: 15 out. 2009.IBGE. Censo demográfico 2000: pesquisa por amostra de domicílios. 2000. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/default.php>. Acesso em: 18 nov. 2009.IFNMG. Projeto mulheres em ação: jogando limpo com a natureza. Januária: Coordenadoria deExtensão, 2008.MELO NETO, F. P. de; FROES, C. Responsabilidade social & cidadania empresarial: a administraçãodo terceiro setor. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999.______. Empreendedorismo social: a transição para a sociedade sustentável. Rio de Janeiro:Qualitymark, 2002.PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O DESENVOLVIMENTO - PNUD. Disponibiliza informaçõessobre os índices de desenvolvimento humano dos municípios brasileiros no ano de 2000.Brasília, 2000. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/atlas/>. Acesso em: 23 dez. 2009.OLIVEIRA, E. M. Empreendedorismo social no Brasil: fundamentos e estratégias. 2004. 538p. Tese(Doutorado em Serviço Social) – Universidade Estadual Paulista. Franca, 2004.ROUER, M. de; PÁDUA, S. M. Empreendedores sociais em ação. São Paulo: Cultura Associados,2001.SILVA, P. C. R. da. Práticas sustentáveis de empreendedorismo social. Disponível em: <http://www.craes.org.br/doc/artigos/Artigos_Praticas%20sustentaveis%20de%20empreendedorismo%20social_33.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2009.TENÓRIO, F .G. (Re)visitando o conceito de gestão social. In: SILVA JR, J. T. et al. (Orgs.). Gestão social:práticas em debate, teorias em construção. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2008. v.1.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 111-124, jul./dez. 2010 |123
  • 125. Revista da FAEAbertura de capital como fonte de financiamento aosinvestimentos no Brasil: análise do período de 2004 a 2007IPO as source of financing of investments in Brazil: analysis ofthe 2004-2007 periodResumo Leide Albergoni* Guilherme Blanski Küster**Na teoria econômica, o mercado de capitais é considerado fundamentalao financiamento produtivo de longo prazo e ao crescimento econômico.No Brasil historicamente esse mercado não teve um papel significativono financiamento das empresas, dadas as limitações ao seu crescimento.No entanto, o aquecimento recente do mercado de capitais no Brasillevanta a necessidade de se analisar a contribuição dos recursos captadospara a realização de investimentos. A proposta deste artigo é analisar asaberturas de capital realizadas no período de 2004 a 2007 para identificara destinação planejada dos recursos captados. A análise é realizada para asempresas não financeiras que realizaram oferta primária e a hipótese quepermeia a pesquisa é a de que os recursos captados por essas empresasforam usados predominantemente para a realização de investimentosprodutivos. A pesquisa tem caráter exploratório e se baseia em dadossecundários divulgados pela CVM e Bovespa.Palavras-chave: mercado de capitais; estrutura de capital; abertura decapital; Brasil.AbstractThe capital market is considered as fundamental to finance productionin long term and to economic growth. Traditionally in Brazil this marketnever played a significant role in financing companies, due to the existinglimitations to its growth. Nevertheless, the recent acceleration in Braziliancapital market brings the necessity to analyze whether the capturedresources contributed into the realization of productive investments. Thisarticle intent to analyze the IPO’s (Initial Public Offering) occurred between2004 and 2007, in order to identify the planned allocation to the raisedfunds. The analysis is performed to the non-financial companies whichmade primary offer and the hypothesis of the research is that the resourcescaptured by these companies were mainly used to perform productive * Mestre em Política Científicainvestments. The research is exploratory and is based on secondary data e Tecnológica pela Unicamp. Professora da Universidadepublished by CVM and Bovespa. Positivo. Curitiba-PR. E-mail: lalbergoni@up.com.brKeywords: capital market; capital structure; IPO (Initial Public Offering); ** Mestrando em CiênciasBrazil. Econômicas pela UFPR. Analista de Logística e Transportes da Exxonmobil BSC Brasil. Curitiba- PR. E-mail: guilhermeblanski@ hotmail.comRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |125
  • 126. Introdução maior parte dos recursos captados via abertura de capital foram usados para a realização de Na discussão sobre o papel do investimento investimentos nas empresas.para o crescimento econômico, a análise das fontes O trabalho se divide em três partes, alémde financiamento empresarial tem um papel de de introdução e conclusão: primeiro, discute-sedestaque. O debate pauta-se na importância do o papel do mercado de capitais para o financia-mercado de capitais como provedor de recursos mento empresarial, com uma revisão bibliográ-de longo prazo e os menores custos de capital fica sobre a importância do mercado de capitaisrelativos a essa fonte. Sendo assim, teóricos e para o financiamento e crescimento econômico,participantes do mercado de capitais têm discutido as alternativas de financiamento empresarial, asobre a importância do estabelecimento de um estrutura de capital no Brasil, além de uma breveforte e estruturado mercado de ações e outras análise do desenvolvimento recente do mercadoformas de captação de recursos nesse mercado, de capitais no Brasil; em seguida apresentam-seargumentando sobre os impactos positivos destas os procedimentos metodológicos utilizados namedidas para a economia. pesquisa; finalmente, na seção 3, analisam-se os Historicamente no Brasil o mercado de capi- dados coletados em fontes secundárias.tais nunca predominou como fonte principal definanciamento aos investimentos, devido a fato-res como a característica familiar da maioria das 1 Mercado de capitais eempresas nacionais, a regulação tardia no setor, financiamento empresariala presença mais significativa de fontes de finan-ciamento da produção via empréstimos estatais, Esta seção está dividida em quatro partes.dentre outros. Não obstante, em períodos mais Primeiro discute-se o papel do mercado financeirorecentes tem-se observado um considerável forta- para o crescimento econômico e investimentos.lecimento deste mercado, em especial no período Em seguida abordam-se as alternativas de finan-de 2004 a 2007, quando o número de abertura ciamento empresarial e a forma como as empre-de capital foi recorde. Sendo assim, coloca-se a sas compõem sua estrutura de capital. A terceiraseguinte questão: qual a contribuição dos recursos seção discute a estrutura de capital no Brasil. Porcaptados em aberturas de capital para a realização último analisa-se a trajetória do mercado de capi-de investimentos produtivos? tais brasileiro na década de 2000 destacando-se Dentro desse contexto, o presente artigo as medidas institucionais que contribuíram paratem o objetivo de analisar esta recente tendência seu fortalecimento.de crescimento do mercado de capitais brasileiroe identificar a utilização dos recursos captadosem abertura de capital para a realização de 1.1 A importância do mercado financeiroinvestimentos produtivos. Delimita-se a análise para o crescimento econômicopara o período de 2004 a 2007, pois foram osanos com maior número de abertura de capital A disponibilidade de fontes de financiamen-e intensa negociação no mercado de capitais. A to e sua relação com o crescimento econômicohipótese que permeia esse trabalho é a de que a foi abordada por diversos autores como Keynes,126 |
  • 127. Revista da FAESchumpeter, Wicksell e Tobin, e continua em pau- Ao mencionar a teoria de Rogers, Studart (1993)ta em trabalhos acadêmicos atuais. Do ponto de afirma que:vista neoclássico, o mercado de capitais é formado A introdução da moeda no esquema neoclássico dapor dois agentes maximizadores de suas respec- teoria dos fundos emprestáveis, portanto, não modificativas satisfações intertemporais: os investidores essencialmente a visão sobre o mercado financeiro enquanto mero intermediador de poupanças. O crédito(demandantes de capital) e os poupadores (ofer- acima (ou abaixo da “poupança voluntária”) é tratadotantes de capital). O mercado financeiro é visto como um fenômeno de desequilíbrio e/ou ligado apuramente como o local de intermediação destes imperfeições na intermediação financeira, tais comoagentes, e a taxa de juros serve como o elemento estruturas não competitivas ou distribuição ineficientede estímulo às transações financeiras entre eles de informações (STUDART, 1993, p.103).(CARDIM DE CARVALHO, 2007). Em concordância com estas teorias o modelo Nesta concepção, a realização de investimen- teórico de desenvolvimento -McKinnon Modeltos exige a existência de uma poupança prévia (SMM) desenvolvido em 1973 defendia a teoria(ex-ante), o que significa, portanto, que para o de crescimento exógeno e a hipótese de mercadoscrescimento econômico é necessário que se esti- financeiros eficientes, ou seja, com ausência demule a poupança. Esta perspectiva do mercado arbitragens. Em relação a este modelo, Hermann3financeiro, rotulada como “visão convencional”, (2002 apud CASTRO, 2008, p.288) afirma que:tem sido defendida por instituições e agências de O SMM estabelece uma relação direta entre poupançadesenvolvimento como o Fundo Monetário Inter- e crescimento econômico. A mais importante diferençanacional e o Banco Mundial, as quais recomendam (em relação à teoria convencional) é o tratamento conferido à propensão a poupar, que deixa de ser vistaque os países, sobretudo aqueles em desenvolvi- como algo estrutural para ser uma variável influenciávelmento, pratiquem a liberalização financeira de através de políticas.modo a eliminar a repressão financeira criadapor políticas de juros baixos e de crédito seletivo Este modelo aborda também a questão do(STUDART, 1993; CASTRO, 2008). avanço tecnológico como significativo na pro- Ligada à visão convencional está a teoria dos moção do crescimento econômico, e argumentafundos emprestáveis desenvolvida pelo neoclás- que o desenvolvimento e desregulamentação dossico Knut Wicksell. Nas economias modernas as mercados financeiros aumentam sua competiti-instituições financeiras que captam depósitos à vidade, proporcionam taxas de juros reais maisvista têm o poder para criar meios de pagamento elevadas e estimulam a poupança. Uma maioratravés de uma simples operação contábil. Ape- disponibilidade de recursos emprestáveis ampliasar da maior complexidade agregada ao sistema o acesso das empresas a técnicas mais avançadasfinanceiro com os bancos, Wicksell1 (1936 apud e eleva a taxa de progresso tecnológico.STUDART, 1993), assim como Rogers2 (1989 apud A esse respeito, Schumpeter já destacavaSTUDART, 1993), ratificam a teoria convencional. em 1912 o papel do mercado financeiro como1 WICKSELL, K. Interests and prices. New York: Augustus Kelly, 1936. 3 HERMANN, J. Liberalização e crises financeiras: o debate teórico e a experiência brasileira nos anos 1990. 2002. Tese2 ROGERS, C. Money, interest and capital. Cambridge: (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio Cambridge University Press, 1989. de Janeiro, 2002.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |127
  • 128. provedor de recursos para empreendedores uma equalização entre poupança e investimentodesenvolver e difundir suas inovações. Contudo, ex-post. Para o autor, a elevação dos juros podeSchumpeter se desprende da ideia de poupança ter o efeito contrário do esperado pela visãoprévia e argumenta que os bancos financiam as clássica: ao invés de se estimular a poupança, osempresas, criando “poder de compra” a partir de juros altos elevam o custo do financiamento dosrecursos inexistentes (CASTRO, 2008). investimentos empresariais, podendo inviabilizar Uma visão alternativa à neoclássica é apre- projetos e retrair o produto no longo prazo.sentada por Keynes em 1937 na Teoria Geral dos O modelo idealizado por Keynes tem a ex-Juros, Moeda e Emprego, bem como em obras se- pansão da demanda agregada como fator chaveguintes. Keynes traz o conceito da preferência pela para o crescimento da renda. Com desempregoliquidez e argumenta que os agentes econômicos de recursos, um aumento de demanda causadodemandam moeda não só pelos motivos de tran- por um acréscimo na renda faz com que as famí-sação e precaução, expostos pelos neoclássicos, lias consumam mais, estimulando o aumento damas também pelo motivo especulação. Para ele, produção. Em um processo que se propaga paranão é irracional manter ativos monetários para outros setores, as empresas contratam mais traba-satisfazer as oportunidades especulativas, pois lhadores, aumentando o nível de renda e estimu-a incerteza sobre as taxas de juros futuras e sua lando o aumento do consumo. Cria-se assim umarelação com o preço dos títulos torna a retenção onda de gastos, que alcançará por fim um novode moeda uma atitude coerente e racional. ponto de equilíbrio no lado real da economia com Também é introduzido o motivo financeiro um nível de renda mais elevado (STUDART, 1993).(finance motive) para demanda por moeda, con- Este processo é conhecido como o efeitoforme explicado por Cardim de Carvalho (2007): multiplicador keynesiano, responsável pela gera- O motivo financeiro (finance motive) refere-se à ção de renda através da expansão da demanda demanda por moeda antecipada a alguma despesa agregada e do investimento. Nesta concepção, a discricionária planejada, sendo o gasto deste tipo poupança torna-se um subproduto do processo mais vultoso e menos rotineiro – o investimento multiplicador, o que significa que o crescimento em bens de capital. Neste caso, saldos monetários são mantidos em antecipação à compra de bens de não exige a existência de poupança prévia, pois há investimento. Esta demanda pode ser satisfeita pela uma equalização entre poupança e investimento venda de bens e serviços ou de ativos líquidos por parte ao final deste movimento (STUDART, 1993). do empresário ou com dinheiro tomado emprestado junto aos bancos. O pressuposto é que o investimento A partir da premissa de que os bancos não planejado (ex ante) pode precisar garantir sua provisão são meros intermediários de poupança, mas que financeira antes que ocorra o investimento, gerando criam meios de pagamento por meio do crédito uma demanda temporária e antecipada de moeda sem a necessidade de uma poupança prévia, o para uma despesa excepcional. Conseqüentemente, a investimento na visão de Keynes é viável graças à demanda por moeda pelo motivo financeiro resulta – ao nível agregado – da taxa de investimento (CARDIM DE existência da alavancagem financeira, como uma CARVALHO, 2007, p.52-53). fonte alternativa ao autofinanciamento. Chick (1994) explica que: Keynes inverte a causalidade entre poupança, Na teoria keynesiana, o investimento originava ainvestimento e renda, defendendo que na realidade poupança através da geração de renda: a iniciativaé o nível de investimento que determina a renda e vinha dos empresários e dependia de suas expectativasposteriormente a poupança da economia, pois há quanto ao potencial de lucros no longo prazo. Se suas128 |
  • 129. Revista da FAE expectativas estivessem corretas, os investimentos para que este processo funcione de forma efetiva feitos seriam suficientemente rentáveis para pagar é necessária os empréstimos tomados para financiá-los: essa é [...] a existência de fundos que permitam às empresas a essência do ato de investir até o ponto em que a reembolsar suas dívidas aos bancos credores, a partir da eficiência marginal (esperada) do capital investido venda de títulos (papéis de longo prazo e/ ou direitos iguala-se à taxa de juros (CHICK, 1994, p.18-19). de propriedade), para que possa haver um ajuste Neste sentido, Keynes também quebra o pa- temporal adequado à maturação do investimento e sua amortização. Em suma, como condição necessáriaradigma do papel dos juros como simples variável para o aumento da capacidade de financiamento efruto do cruzamento entre investimento e poupan- para a proteção do sistema financeiro em momentosça, expondo a visão de que os juros são resultado de crescimento econômico deve existir um arranjoda demanda por moeda do lado dos detentores institucional que permita a “transformação do estoque de dívidas herdado do passado em diversas formas dede renda e da oferta monetária (CHICK, 1994). ativos financeiros de longo prazo” (COSTA4 , 1999 apud A partir dessas concepções, Keynes explica a LOBO, 2005, p.244).relação entre o mercado financeiro e crescimento Há uma convergência entre a teoria dos fun-econômico com o Circuito Finance-Investimento- dos emprestáveis e a visão keynesiana da preferên-Poupança-Funding: cia pela liquidez na teoria de James Tobin de 1958 – para realizar investimentos, as empresas e ampliada posteriormente por outros autores. demandam moeda pelo motivo financeiro Tobin5 (1958 apud CARDIM DE CARVALHO, 2007) (finance motive); traz o conceito da avaliação de risco na alocação – além de meios próprios, as empresas uti- de recursos e escolha de portfólio de investimen- lizam recursos advindos de emissão de tos. O autor explica que o investidor diversifica obrigações e da tomada de empréstimos sua carteira de ativos de acordo com os retornos bancários (geração de meios de pagamento dos títulos com seu grau de aversão a riscos, oti- via crédito); mizando o portfólio ao seu perfil. Portanto, para se promover crescimento econômico, as políticas – os investimentos realizados criam a “onda monetárias devem reduzir a atratividade do ativo de gastos” e o processo multiplicador monetário, fazendo com que seu espaço na car- da renda, a partir do qual a poupança teira ótima seja substituído por ativos de capital. agregada é determinada de acordo com a propensão marginal a poupar; A despeito das divergências conceituais en- tre as diferentes linhas de pensamento da teoria – a poupança gerada é alocada entre ativos econômica, pode-se convencionar que a existência monetários e em títulos no mercado finan- de fontes de financiamento da produção é um ceiro de acordo com a preferência pela liqui- elemento necessário para promoção do cresci- dez, e devido à possibilidade das empresas mento econômico. A disponibilidade de recursos emitirem títulos financeiros de longo prazo (funding), elas podem pagar seus emprés- timos bancários de curto prazo. O crescimento econômico, portanto, pode 4 COSTA, Fernando N. Economia monetária e financeira: uma abordagem pluralista. São Paulo: Makron, 1999.ocorrer sem uma contrapartida inicial de poupança 5 TOBIN, J. Liquidity preference as behavior toward risk. Theprévia, por meio deste processo de financiamento Review of Economic Studies, Briston, GB v.25, n.2, p.65-do investimento. De acordo com Lobo (2005), 86, Feb.1958.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |129
  • 130. financeiros é um fator necessário para que se A visão de que a estrutura de capital da em-engendre o processo de geração de renda por presa não interfere em seu valor ou custo de capitalintermédio da realização de investimentos empre- tomou força com o teorema de Modigliani-Millersariais. Destaca-se, nesse caso, o papel das fontes (1958), o qual afirma que o valor de uma firmade financiamento de longo prazo. financiada somente por capital próprio possui o mesmo valor de uma firma alavancada. Para esse modelo, os autores se baseiam nas seguintes su-1.2 Alternativas de financiamento de posições: 1) presença de concorrência perfeita no investimentos empresarial mercado de capitais; 2) graus de risco equivalentes entre as empresas; 3) perfeita informação disponí- Estrutura de capital é a composição de en- vel aos agentes no mercado financeiro; e 4) ausên-dividamento e capital próprio utilizado para o cia de impostos sobre os lucros (ALDRIGHI, 2006).financiamento empresarial. Os tipos de capital A conclusão para esse teorema, no âmbitopodem ser próprio, como lucros retidos e emis- macroeconômico, implica que para o crescimentosão de ações, ou de terceiros, como empréstimos econômico de um país pouco importa se o seubancários e emissão de títulos (GITMAN6, 1997 financiamento é baseado no mercado de capitais,apud SOUSA; MENEZES, 1997). crédito bancário ou endividamento externo, Os primeiros estudos sobre estrutura de quando a hipótese de mercados eficientes écapital foram feitos pelos autores denominados respeitada (CASTRO, 2008).tradicionalistas. Estes dividem o custo total de Como crítica e visão alternativa à tradicionalcapital da empresa em custo do capital acionário da estrutura ótima de capital e ao teorema dee custo da dívida e analisam a variação do custo Modigliani-Miller, há a abordagem histórico-total de acordo com mudanças na composição do institucional, que explica que não há uma estrutura financeira ideal, atemporal e aplicável a todos oscapital. Inicialmente, a maior alavancagem finan- países, mas que cada configuração dos mercadosceira reduz o custo total de capital da empresa, financeiros em seu peculiar local e tempo possuipois o pagamento de juros é contabilizado como seu grau de eficácia. As estruturas financeiras sãodespesa, reduzindo a base de tributação (FAMÁ; de difícil comparação entre os países e por issoGRAVA, 2000). a eficácia deve ser medida pela sua capacidade Porém, sabendo que quanto maior o risco de em fomentar o crescimento e desenvolvimentoinsolvência maior o retorno pago aos acionistas, o econômico em seu local (CASTRO, 2008).custo total de capital das empresas passa a se elevar Um aspecto importante a ser destacado é acom a crescente proporção de endividamento. A importância das instituições no mercado: emborapartir disto, a abordagem tradicional defende uma de instituições fortes possam trazer estabilidade e funcionalidade ao mercado, elas tambémestrutura ótima de capital, que proporciona maior podem trazer ineficiências à medida que se nãovalor à empresa. se adaptam às novas circunstâncias conjunturais e se tornam obsoletos neste sentido. Ao longo da história é possível verificar a presença de “mix” diferentes na estrutura fi-6 GITMAN, Lawrence J. Princípios de administração nanceira dos países, e ao mesmo tempo taxas financeira. São Paulo: Harbra, 1997. 130 |
  • 131. Revista da FAEde crescimento e desenvolvimento econômico A teoria da pecking order desenvolvida porsatisfatórias. É o caso das diferenças entre a Myers8 (1984 apud BRITO; CORRAR; BATISTELLA,Alemanha e Inglaterra do século XX; enquanto 2004) explica que as empresas seguem uma hierar-a Alemanha teve seu crescimento com presença quia de opções preferenciais para o financiamentode forte intermediação financeira via bancos, os dos investimentos: as empresas escolhem primeiroingleses desenvolveram um forte mercado de o autofinanciamento, seguido do endividamentocapitais (MOREIRA; PUGA, 2000). ou financiamento via crédito e, em último lugar Observando as diferentes formas de organi- a opção por emissão de ações, para evitar sinali-zação financeira e fomento ao crescimento nos zação negativa no mercado.países Castro (2008) cita as três classificações de As empresas mais lucrativas, de acordo comsistemas financeiros criadas por Zysman7 (1983 esta teoria, recorrem menos aos empréstimos, eapud CASTRO, 2008, p.292): as menos lucrativas, por não terem disponíveis O primeiro se baseia em mercados de capital, com fundos internos suficientes para custearem seus preços refletindo alocações de livre mercado; o segundo investimentos, buscam primeiramente o endivi- se baseia em crédito, com preços administrados pelo damento como fonte de financiamento externo governo; e, finalmente, instituições financeiras privadas dominam o terceiro (sistema com base em crédito (DIAS, 2007). bancário privado). De acordo com Cherobim (2008), devido à Cardim de Carvalho (2007) corrobora essa vi- assimetria de informaçãosão ao destacar as diferenças entre o sistema finan- [...] gestores da empresa sabem mais sobre seusceiro norte americano (baseado em financiamento projetos, seus riscos e sua valorização do que o investidor externo. Além de o custo do endividamentodireto, ou desintermediado) e o japonês e alemão ser menor, é dispendioso e arriscado convencer(baseado em crédito, ou intermediado), salientando acionistas sobre as boas perspectivas de retorno dosque os três países conseguem prover recursos de projetos da empresa; em função disso, eles deveriamlongo prazo para suas empresas, não obstante as comprar as ações das empresas a preço justo. Édiferenças em seus arranjos institucionais. mais interessante reaplicar os lucros da empresa nos novos projetos do que fazer novas captações junto Outra visão crítica foi a vasta análise feita ao a acionistas. A divulgação é trabalhosa e tem custos,longo dos anos por Stiglitz, o qual concluiu de seus além de municiar a concorrência com informações sobreestudos empíricos que a aplicação do teorema e produtos a serem lançados, sobre novas tecnologiasa consequente visão de neutralidade da política e sobre detalhes do planejamento (CHEROBIM, 2008,financeira da empresa sobre seu valor p.49-50). [...] depende de condições muito restritivas, entre No entanto, a principal característica da as quais caberiam destacar: a probabilidade nula de emissão de ações no mercado de capitais não falência, igual acesso dos investidores a informações sobre os retornos da empresa, a neutralidade da são os custos e sim o prazo do financiamento e política financeira das empresas sobre os incentivos e a flexibilidade da remuneração do capital. Como a propensão ao risco de seus diretores, e expectativas a remuneração dos acionistas depende do resul- sobre o valor da empresa independentes da política financeira (ALDRIGHI, 2006, p.7).7 ZYSMAN, J. Governments, markets, and growth financial 8 MYERS, S.C. The capital structure puzzle. Journal of systems and the politics of industrial change. Ithaca, Finance, Chicago: American Finance Association, v.39, N.Y.: Cornell University Press, 1983. n.3, July 1984.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |131
  • 132. tado da empresa, não existe um compromisso dos acionistas assim como crescimento defixo como a amortização de dívida mobilizando investidores potenciais;recursos que poderiam ser usados em projetos de e) reestruturação societária: capacidade deexpansão da empresa. Além disso, não há prazo fazer arranjos societários como processosde vencimento da obrigação, tendo em vista que sucessórios mais facilmente, através deo acionista é sócio da firma. novas emissões de ações; Assim, a decisão de abrir capital ou utilizar f) profissionalização da empresa: alteraçãoempréstimos inclui não apenas a análise do custo na cultura da administração, por haver ade capital, como também a existência de obriga- necessidade de transparência na relaçãoções fixas e o prazo de vencimento de tal obriga- com investidoresção. De acordo com Casagrande Neto (2000), a g) mudança no relacionamento com funcio-composição da estrutura de capital é definida pela nários: maior participação dos funcionáriosponderação de fatores como: na empresa quando estes passam a obter – custo e disponibilidade de capital próprio ações da mesma. e de terceiros; Em contrapartida às vantagens já mencionadas, – grau de risco aceito pelo empresário; surgem novas obrigações e custos relativos às – importância dos investimentos planejados; companhias abertas. Torna-se obrigatória a – índices comparativos setoriais. divulgação de informações econômico-financeiras, A abertura deve levar em conta a análise tanto passa a existir uma auditoria externa e requer-se o estabelecimento de um setor de Relações comdestes fatores técnicos - como os custos, análises Investidores (RI). Também deve ser constituídode viabilidade, taxas de retorno do investimento um Conselho de Administração e Conselho Fiscal,– quanto dos subjetivos, tais como aceitação de além de se cobrar profissionalismo do corponovos acionistas, disposição para prestação de dirigente da empresa e transparência junto aoscontas e incorrência de riscos. Assim, na visão de investidores, bem como os adicionais custos legaisCasagrande Neto (2000) as principais razões para e administrativos e a necessidade de distribuiçãoa abertura de capital seriam: de resultados aos novos acionistas (CASAGRANDE a) captação de recursos para investimentos: NETO, 2000). abertura de um canal permanente para obtenção de recursos; b) reestruturação de passivos: forma de re- 1.3 A estrutura de capital no Brasil posição de passivos através dos recursos Até a década de 1970, a maioria do investi- obtidos via mercado no lugar de passivos mento no país adveio da intervenção estatal e do de perfil inadequado; endividamento externo, devido à baixa capacida- c) aprimoramento da imagem institucional: de de investimentos do capital privado nacional. conquista de maior credibilidade para Quando realizados, os investimentos privados com seus stakeholders e maior poder de eram viabilizados por subsídios governamentais negociação no mercado; ou financiamentos do Banco Nacional de Desen- d) criação de liquidez patrimonial: maior volvimento Econômico e Social - BNDES (BRESSER mobilidade de negociação do patrimônio PEREIRA, 1987).132 |
  • 133. Revista da FAE O mercado de capitais brasileiro somente se níveis de inflação relevantes (ASSAF NETO9, 2003tornou mais organizado a partir de 1964 com o apud BRITO; CORRAR; BATISTELLA, 2004).Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), Alguns estudos empíricos já foram realizadosdo qual um dos efeitos positivos foi a reforma do sobre a estrutura de capital no Brasil. Brito, Corrarmercado de capitais, cujo objetivo é explicado por e Batistella (2004) analisaram uma amostra deMacarini (2008, p.154): empresas, abrangendo o período de 1998 a 2002, A reforma do mercado de capitais (Lei nº4. 728, de e concluíram que o endividamento médio das 1965) buscou atacar aquele conjunto de problemas empresas brasileiras era de 52,8%, com dívidas – modernizando as Bolsas, extinguindo o monopólio de curto prazo na proporção de 30,2% e de longo dos corretores públicos etc. – e criar um sistema de distribuição de valores mobiliários, composto de prazo em 22,6%. Os autores evidenciaram a corretoras e distribuidoras (com atuação no “varejo”) tendência de restrição de recursos de longo prazo e dos bancos de investimento (dotados da atribuição no país. Neste trabalho, porém, não se verificou de agentes “atacadistas” do mercado)”. uma tendência ao comportamento explicado pela Após esta regulamentação do mercado de teoria de pecking order.capitais, o movimento no mercado acionário expe- O mesmo estudo verificou que quanto maiorrimentou uma significativa expansão. O auge ocor- o risco de uma empresa, maior seu grau dereu em 1971 quando se quadruplicou o volume endividamento. Também se confirmou a evidênciade transações nas bolsas brasileiras, gerando uma empírica de que no Brasil as grandes empresasgrande bolha especulativa no período, precedida têm mais facilidade em captar recursos de longode um posterior desaquecimento continuado no prazo do que as menores.mercado acionário que perdurou pela década de Schnorrenberger (2004) estudou a influência1980 (MACARINI, 2008). da estrutura de controle acionário nas decisões Mesmo após a estruturação do mercado de de estrutura de capital das empresas brasileirascapitais brasileiro, o padrão de financiamento listadas na Bolsa de Valores de São Paulo - Bovespadas empresas brasileiras ainda é mais voltado de 1995 a 2000 e concluiu que as empresas deao autofinanciamento e ao crédito do que ao maior concentração acionária têm tendência a semercado. Esta tendência pode ser explicada devido endividarem menos e a evitarem riscos. Observouao porte reduzido e caráter familiar da maioria das também que as empresas que retêm maioresempresas brasileiras (MACARINI, 2008). lucros utilizam em maior proporção recursos Conforme explica a abordagem histórico- próprios para a realização de investimentos.institucional referente às teorias de estrutura de Outros estudos sobre estrutura de capital nocapital, cada país possui suas peculiaridades que Brasil foram realizados. Matsuo, Rochman e Eiddificultam a avaliação de uma melhor estrutura Junior (2008, p.87-88) apontam que no períodofinanceira para o desenvolvimento econômico. de 1988 a 2005 foram publicados 96 trabalhosAlgumas das particularidades do Brasil são as sobre o assunto em eventos e periódicos nacionaistaxas de juros heterogêneas às internacionais, e internacionais. Após uma detalhada revisão dea presença de controles artificiais de mercado e tais trabalhos, os autores resumem que: 9 ASSAF NETO, A. Finanças corporativas e valor. São Paulo: Atlas, 2003.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |133
  • 134. – as empresas preferem financiamento pe- 1.4 O desenvolvimento do mercado de los lucros retidos, dívida e capital próprio, capitais do Brasil na década de 2000 seguindo a pecking order. Contudo, as escolhas são bastante limitadas devido às Conforme observado na seção anterior, o mercado de capitais brasileiro nunca desempe- restrições do mercado de capitais e, con- nhou um papel significativo no financiamento sequentemente, o seu crescimento; produtivo e desde a bolha especulativa do início – lucros retidos são a principal fonte de fi- da década de 1970 mergulhou em um período de nanciamento, mais do que 50% do total, fraca atividade que perfurou até a década de 1990, seguido pela dívida e capital próprio; quando houve uma breve recuperação. – mesmo na ausência de mercados secun- A respeito dessa recuperação observada a dários, a importância das debêntures vem partir do início dos anos 1990, um estudo do aumentando. Razão para o sucesso são comportamento do mercado de capitais brasileiro as sofisticadas restrições e garantias para do período contido na publicação da Bovespa ambos: empresas e investidores; “Desafios e oportunidades para o mercado de – exposição aos mercados externos por meio capitais brasileiro”, traz a seguinte conclusão: O mercado de capitais brasileiro, em especial o de ADRs reduz a assimetria de informação, mercado acionário, passou por uma fase de aparente reduzindo a volatilidade, e retornos anor- florescimento nos anos 90. Neste período observamos mais negativos. grande aumento da capitalização bursátil, volume transacionado e emissões primárias. Este crescimento Os autores ainda comentam que alguns é fortemente influenciado pela entrada expressiva deestudos indicam que a opção por alavancagem capitais estrangeiros (BOVESPA, 2000, p.47).ocorre quando há restrições financeiras em dívida As mudanças da década de 1990, como ae capital próprio. “Este caso te sido muito comum abertura comercial e financeira e o controle dano Brasil e explica o volume de lucros retidos das inflação colaboraram para reavivar o mercado deempresas” (MATSUO; ROCHMAN; EID JUNIOR, capitais nacional, mas outras medidas macroe-2008, p.88). conômicas e institucionais faziam-se necessárias O estudo das estruturas de capital apresentadas para fortalecer o mercado.no Brasil ainda é campo fértil para pesquisa, Após um período de sucessivas perdas dedevido ao caráter dinâmico do mercado e às expressão do mercado de capitais nacional empossíveis alterações no padrão de financiamento virtude das crises asiática e russa ocorridas emao longo do tempo. Diversas pesquisas já foram 1997 e 1998, seguidas da crise cambial no país em 1999, a crise argentina de 2001 e outrosrealizadas sobre o assunto e, de maneira geral, eventos como os ataques terroristas aos Estadosobserva-se que o financiamento via mercado de Unidos, o mercado de capitais brasileiro encolheucapitais ainda perde para o endividamento e para consideravelmente. Medidas governamentaiso autofinanciamento, tendo, portanto, muito de tributação das aplicações de capital tambémespaço ainda a ser conquistado na participação reforçaram este movimento negativo.da estrutura de capital. A partir disto a Bovespa liderou a chamada “Ação Cívica pelo Fortalecimento do Mercado de Capitais” que tinha a participação de outras134 |
  • 135. Revista da FAE45 entidades, entre elas a FEBRABAN (Federação recursos, ajuste fiscal de longo prazo eBrasileira das Associações de Bancos), a ANBID redução da vulnerabilidade externa para(Associação Nacional dos Bancos de Investimento), reduzir taxa de juros básica, ampliação daa FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São regulação dos participantes do mercado.Paulo) e o IBMEC (Instituto Brasileiro de Mercado Na introdução do Plano Diretor em 2002,de Capitais). Nesse movimento foram lançadas foram lançadas 50 medidas específicas, as quaisdiretrizes e ações voltadas ao fortalecimento exigiam ações tanto das empresas quanto dosdo mercado de capitais, as quais incluíam a investidores e governo. Devido ao comprometi-política macroeconômica, ações para empresas, mento das entidades envolvidas e do constanteinvestidores, agentes de mercado, além de acompanhamento do progresso na implementa-medidas de regulação, mobilização e divulgação ção do Plano, diversas medidas já foram efetiva-do mercado de capitais (BOVESPA, 2005). mente cumpridas, dentre as quais destacam-se Foi então elaborado o Plano Diretor do Merca- (IBMEC, 2008):do de Capitais com o objetivo de criar condições de – adoção de normas de governança corpo-isonomia competitiva em relação às práticas inter- rativa, transparência e cumprimento denacionais e condições de eficiências. As diretrizes regras;e ações do Plano focavam o mercado de capitais – reformulação da lei que regulamenta a re-como fonte de liquidez e recursos para empresas cuperação judicial, extrajudicial e a falênciae como melhor alternativa de investimento para do empresário e da sociedade empresária;investidores, bem como a regulação para preservar – criação do Comitê de Pronunciamentosa credibilidade e promover o desenvolvimento de Contábeis – CPC em 2005 com fins deinstituições, mercados e produtos. trazer convergência internacional das nor- O Plano foi dividido em 12 diretrizes e 50 mas contábeis e centralização na emissãoações específicas, com o intuito de sobrepujar os de normas, e a determinação do Bancoobstáculos observados e promover o desenvolvi- Central de que os Bancos publiquem suasmento do mercado de capitais. Em resumo, as di- demonstrações no padrão internacionalretrizes podem ser organizadas da seguinte forma: (IFRS) até 2010; – estímulo à oferta de recursos: implemen- – regulamentação e incentivo à atuação de tação de fundos de pensão aos servidores fundos de private equity e venture capital por públicos, difusão do mercado a maior par- meio da Instrução CVM nº 209/94 e 391/03; cela da população, avanço nas medidas de – estímulo ao investimento estrangeiro nas proteção ao investidor, adoção de critérios bolsas brasileiras por meio de projetos de tributação condizentes com as práticas como o Projeto BEST Brazil; internacionais; – implementação de um critério de tributa- – estímulo à demanda: promoção do acesso ção do mercado de capitais em harmonia ao mercado; redução do custo de capital; com as práticas internacionais através da – macroeconômicos/Institucionais: incor- extinção da CPFM (Contribuição Provisória poração do desenvolvimento do mercado sobre a Movimentação ou Transmissão de nos planos governamentais, substituição Valores e de Créditos de Natureza Financei- do governo pelo mercado na alocação de ra) em 2007 e da possibilidade de adesãoRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |135
  • 136. a regimes de tributação regressiva do im- GRÁFICO 01 - BOVESPA: VOLUME FINANCEIRO X NÚMERO DE NEGÓCIOS (2000-2007) posto de renda na fonte de rendimentos advindos de planos previdenciários de longo prazo (Lei 11053/04). A partir de 2004, como resultado das pri-meiras ações, mas também acompanhando atrajetória internacional, o mercado de capitaisbrasileiro apresentou um crescimento significa-tivo, indicando um fortalecimento do setor. Obom desempenho é percebido em dados como ocrescimento significativo do volume de negócios FONTE: Bovespa (2008)realizados, o desempenho do Índice Bovespa, O volume médio diário negociado cresceu deo nível de capitalização das empresas e outros R$746,7 milhões em 2000 para R$ 4,9 bilhões noindicadores. fim de 2007, mantendo a trajetória ascendente O número de empresas listadas em bolsa ao longo de 2008 até o mês de maio, no qual oapresentou crescimento de 3,4% em 2006 e 13,7% volume médio diário chegou a R$ 7 bilhões.em 2007, passando de 381 empresas em 2005 Houve também um grande fluxo de capitalpara o número de 394 em 2006 e 448 em 2007. O estrangeiro para as bolsas brasileiras na negocia-número de empresas que abriram capital também ção direta de ações na Bovespa e em aquisiçõescresceu consideravelmente no período de 2004 a realizadas nas ofertas públicas de ações (IPOs). De2007, conforme os dados abaixo: acordo com dados da Bovespa, a participação dosTABELA 01 - BOVESPA: NÚMERO DE ABERTURAS DE investidores estrangeiros no volume financeiro total CAPITAL (2004-2007) negociado passou de 29,1% em janeiro de 2002 Ano 2004 2005 2006 2007 para 37,98% em dezembro de 2007. Em termos ab- Número de IPO 7 9 26 64 solutos, o ingresso de capital estrangeiro aumentouFONTE: Bovespa (2008) de R$ 5,4 bilhões em janeiro de 2002 para R$ 75, 5 bilhões em dezembro de 2007, evidenciando a O índice Ibovespa passou dos 11.268 pontos grande expansão do mercado no período.ao final de 2002 para 63.886 pontos em 2007, O conjunto de informações recentes do mer-um crescimento de 466,97%. Entre 2004 e 2007 cado de capitais brasileiro mostra que a atividadea maioria dos demais índices da BM&FBOVESPA econômica do setor tem crescido consideravel-cresceu anualmente, com destaque para o IBrX- mente nos últimos anos. Esta expansão torna50, que avalia o desempenho das 50 ações mais apropriada a análise da destinação dos recursosnegociadas na Bovespa em termos de liquidez; e o captados para verificar sua contribuição para osIGC – Índice de Ações com Governança Corporativa investimentos produtivos.Diferenciada, cujo crescimento foi de 167,19% noperíodo (BOVESPA, 2008). O gráfico 01 ilustra a evolução do mercado,apresentando o volume financeiro total e o núme-ro de negócios efetuados na Bovespa no períodode 2000 a 2007, apresentados no gráfico 01:136 |
  • 137. Revista da FAE2 Metodologia ção secundária, as ações ofertadas são de propriedade de sócios e os recursos desti- nados somente aos mesmos. A distribuição A pesquisa é de caráter exploratório baseada mista tem os dois propósitos, mas entrariaem dados secundários. Os dados foram obtidos nas na análise também a destinação de recur-seções referentes às empresas listadas disponíveis sos para remuneração dos sócios. Portanto,no site da Bovespa, e nos prospectos de abertura para os fins de análise dos impactos dade capital das empresas selecionadas registrados abertura de capital no setor produtivo, ana Comissão de Valores Mobiliários (CVM). distribuição primária é de maior relevância; A princípio, o universo de análise constituía- – por fim, foram retiradas as empresas clas-se em 106 empresas que abriram o capital no sificadas como “Instituições Financeiras”período de 2004 a 2007. No entanto, para maior com o objetivo de manter somente ashomogeneidade de características e utilização dos empresas cujos recursos teriam a possibi-recursos, esse universo foi delimitado a partir dos lidade de ser empregados exclusivamenteseguintes critérios: no âmbito produtivo. – foram excluídas empresas do segmento Sendo assim, a população constituía-se em de listagem Brazilian Depositary Receipts empresas nacionais não financeiras que abriram (BDR), referente a empresas estrangeiras capital no período de 2004 a 2007, com oferta pri- que ofertam valores mobiliários no mercado mária e nos segmentos de governança corporativa nacional. O critério para exclusão é o de Novo Mercado, pois nenhuma das empresas sele- que os recursos captados seriam usados cionadas estava em outro segmento de listagem. no país de origem e não no Brasil; A aplicação do filtro totalizou 25 empresas. Como – excluiu-se as empresas cuja natureza da a definição de uma amostragem probabilística oferta era secundária ou mista, mantendo- totalizaria 24 empresas, decidiu-se utilizar todos -se apenas as ofertas primárias. Na distri- os elementos da população para melhorar o nível buição primária, ofertam-se novas ações ao de confiança da pesquisa. mercado e os recursos advindos da venda As empresas selecionadas para análise são são dirigidos às empresas. Já na distribui- apresentadas no quadro 01.QUADRO 01 - IPOS DE NATUREZA PRIMÁRIA DE EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS (2004-2007) Continua NOME DA EMPRESA NOME NO PREGÃO ANO DE ABERTURA SEGMENTO DE LISTAGEM MPX Energia S/A MPX ENERGIA 2007 Novo Mercado Helbor Empreendimentos S.A. HELBOR 2007 Novo Mercado Marisa S.A. MARISA 2007 Novo Mercado Construtora Tenda S/A TENDA 2007 Novo Mercado Trisul S/A TRISUL 2007 Novo Mercado General Shopping Brasil S/A GENERALSHOPP 2007 Novo Mercado Companhia Providencia Ind. e Comercio PROVIDENCIA 2007 Novo Mercado Açúcar Guarani S/A GUARANI 2007 Novo Mercado Invest Tur Brasil Des. Imob e Turístico INVESTTUR 2007 Novo MercadoRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |137
  • 138. QUADRO 01 - IPOS DE NATUREZA PRIMÁRIA DE EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS (2004-2007) Conclusão NOME DA EMPRESA NOME NO PREGÃO ANO DE ABERTURA SEGMENTO DE LISTAGEMEZ TEC Empreendimentos e Participações S.A. EZTEC 2007 Novo MercadoInpar S/A INPAR S/A 2007 Novo MercadoCR2 Empreendimentos Imobiliários S/A CR2 2007 Novo MercadoJHSF Participações S.A. JHSF PART 2007 Novo MercadoBR Malls Participações S/A BR MALLS PAR 2007 Novo MercadoEven Construtora e Incorporadora S.A. EVEN 2007 Novo MercadoGVT (Holding) S.A. GVT HOLDING 2007 Novo MercadoIguatemi Empresa de Shopping Centers S.A IGUATEMI 2007 Novo MercadoRodobens Negócios Imobiliários SA RODOBENSIMOB 2007 Novo MercadoBrasil Ecod Ind Com Biocomb Oleos Veg SA ECODIESEL 2006 Novo MercadoAbyara Planejamento Imobiliário S.A ABYARA 2006 Novo MercadoMMX Mineração E Metálicos S/A MMX MINER 2006 Novo MercadoBrasilAgro Cia Bras Propriedades Agricol BRASILAGRO 2006 Novo MercadoCia. de Saneamento de Minas Gerais COPASA 2006 Novo MercadoCosan S.A. Indústria e Comércio COSAN 2005 Novo MercadoRenar Maçãs S/A RENAR 2005 Novo MercadoFONTE: Bovespa (2008) Para identificar a destinação dos recursos das A pesquisa se limita a fazer uma análise deempresas, a pesquisa se baseou na análise dos caráter subjetivo dos dados levantados com o ob-prospectos definitivos de distribuição pública de jetivo de identificar a parcela de recursos captadosações de cada empresa disponível na CVM. Foram destinados aos investimentos.extraídos os seguintes dados: nome da empresa;data do prospecto definitivo; valor total da ofer-ta; valor total da oferta descontadas as diversascomissões; valor líquido deduzidos os demais 3 Análise dos dadoscustos da oferta; capital social antes da aberturae informações dos planos para destinação dos re- Ao se analisar as aberturas de capital na Bo-cursos. Em que pese a existência de uma estrutura vespa no período de 2004 a 2007, verifica-se queúnica e consolidada dos prospectos definitivos 71% das empresas optaram pelo segmento dede distribuição pública de ações, na coleta dos listagem Novo Mercado, indicando a tendência dedados selecionados para análise, observou-se a adesão a altos níveis de governança corporativapossibilidade de melhoria na padronização das pelas novas participantes do mercado acionário.informações fornecidas pelas empresas para cada Em volume, o segmento Novo Mercado represen-item do prospecto. tou 77% do total captado. O número de empresas A análise foi realizada individualmente por que abriram capital no Novo Mercado e no Nívelempresa e os dados mais relevantes foram agre- 2, os mais altos níveis de governança corporativa,gados para a elaboração de gráficos e tabelas com representa 86% do total de empresas. Na tabelao objetivo de comparar o comportamento das 02 pode-se observar os dados referentes ao seg-empresas para verificação de um possível padrão mento de listagem:na proporção de realização de investimentos emrelação ao capital adquirido.138 |
  • 139. Revista da FAETABELA 02 - NÚMERO DE ABERTURAS POR SEGMENTO DE LISTAGEM E NATUREZA DA OFERTA (2004-2007) Segmento de Nº de Volume (R$ Nº de % % % Listagem Empresas milhões) investidores BDR 8 7,55% 4.231,00 5,23% 40.965 3,34% Nível 1 8 7,55% 4.992,00 6,17% 74.621 6,08% Nível 2 15 14,15% 9.428,00 11,65% 144.791 11,79% Novo Mercado 75 70,75% 62.310,00 76,96% 967.767 78,80% TOTAL 106 100,00% 80.961,00 100,00% 1.228.144 100,00%FONTE: Bovespa (2008) Percebe-se que as aberturas de natureza pri- A tabela abaixo apresenta os dados de aber-mária foram realizadas por 31% das empresas, tura, bem como a relação entre a captação efetivamas o volume de recursos captados representa e o capital social antes do IPO das 25 empresasaproximadamente 25% do total. da amostra.TABELA 03 - OFERTA INICIAL X VOLUME CAPTADO X CAPITAL SOCIAL ANTES DO IPO Continua VOLUME VALOR DA CAPTADO/ CAPITAL SOCIAL CAPTAÇÃO EMPRESA (NOME NO EFETIVAMENTE OFERTA INICIAL OFERTA INICIAL ANTES DO IPO EFETIVA/ CAPITAL PREGÃO) CAPTADO (R$ (R$ milhões) (%) (R$ milhões) SOCIAL (%) milhões) MPX ENERGIA 1.916,36 2.035,00 106,19 10,58 19.233,63 MMX MINER 1.029,01 1.119,00 108,75 23,62 4.737,58 GVT HOLDING 936,00 1.076,00 114,96 1.220,71 88,15 INVESTTUR 840,00 945,00 112,50 0,10 935.643,56 COSAN 770,23 886,00 115,03 300,00 295,33 COPASA 723,08 813,00 112,44 1.818,78 44,70 INPAR S/A 661,50 756,00 114,29 29,92 2.527,14 GUARANI 665,76 666,00 100,04 344,99 193,05 BR MALLS PAR 605,28 657,00 108,55 517,72 126,90 TENDA 603,00 603,00 100,00 89,70 672,24 BRASILAGRO 518,40 583,00 112,46 1,02 56.933,59 IGUATEMI 477,11 549,00 115,07 216,00 254,17 EZTEC 471,43 542,00 114,97 181,92 297,93 MARISA 440,00 506,00 115,00 44,63 1.133,65 PROVIDÊNCIA 468,75 469,00 100,05 419,77 111,73 EVEN 400,00 460,00 115,00 99,67 461,54 RODOBENSIMOB 390,00 449,00 115,13 63,94 702,24 JHSF PART 376,00 432,00 114,89 69,33 623,07 ECODIESEL 378,93 379,00 100,02 10,02 3.780,62 TRISUL 318,84 330,00 103,50 107,69 306,45 CR2 307,58 308,00 100,14 61,86 497,92 GENERALSHOPP 273,00 287,00 105,13 31,08 923,28 HELBOR 232,46 252,00 108,41 89,11 282,80 ABYARA 163,75 164,00 100,15 1,30 12.615,38Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |139
  • 140. TABELA 03 - OFERTA INICIAL X VOLUME CAPTADO X CAPITAL SOCIAL ANTES DO IPO Conclusão VOLUME VALOR DA CAPTADO/ CAPITAL SOCIAL CAPTAÇÃO EMPRESA (NOME NO EFETIVAMENTE OFERTA INICIAL OFERTA INICIAL ANTES DO IPO EFETIVA/ CAPITAL PREGÃO) CAPTADO (R$ (R$ milhões) (%) (R$ milhões) SOCIAL (%) milhões)RENAR 16,00 16,00 100,00 26,40 60,61TOTAL 13.982,47 15.282,00 109,29 5.779,87 264,40MÉDIA 559,30 611,28 108,51 231,19 264,40FONTE: Adaptado de CVM (2008) O volume captado pelas empresas analisadas GRÁFICO 02 - RECURSOS EFETIVAMENTE CAPTADOS PELASrepresenta 17,3% do total levantado no período, EMPRESAS DA AMOSTRA POR SETOR DEapresentado na tabela 02. O total de recursos ATUAÇÃObrutos ofertados inicialmente pelas 25 empresasda amostra foi de quase R$14 bilhões, porém ototal efetivamente captado foi 9,29% maior (poucomais de R$ 15 bilhões) devido à possibilidade deemissão de ações adicionais na proporção de até15% do total das ações inicialmente ofertadas.Observou-se que todas as empresas da amostrativeram suas ações absorvidas pelo mercadointegralmente ou acima do valor ofertado inicial,o que seria explicado pela adesão de 24 das 25empresas ao regime de colocação de garantiafirme, a qual obriga a instituição coordenadorada oferta a adquirir eventuais ações não vendidasno mercado. O grau de diluição da composição societáriadas empresas após a abertura foi comparadopela proporção do valor da oferta em relação aocapital social antes do IPO, e observou-se que22 empresas realizaram ofertas primárias emvalores acima do capital social prévio à abertura,mostrando tendência à considerável diluição dacomposição societária a partir da abertura decapital. Os destaques são Investtur, Brasilagro,MPX e Abyara, cujo volume captado foi mais de100 vezes maior do que o capital social. O gráfico 02 apresenta a distribuição derecursos de acordo com o setor de atividadeeconômica. FONTE: Adaptado de CVM (2008)140 |
  • 141. Revista da FAE O setor de construção civil, composto por Na primeira categoria foram classificadas10 empresas, representou 28% do total, seguido destinações para redução de recursos de terceiros,do setor agrícola. Outros setores expressivos são financiamento de aquisições feitas, assim comoo energético e o setor de administração e par- pagamento de obrigações com sócios, com desti-ticipação em shoppings centers e imóveis, que nações em 13 empresas da amostra, cujos valorescorrespondem, respectivamente, a 13% e aproxi- identificados representavam 11,4% do total.madamente 10% do total de recursos. Na classificação “capital de giro ou financia- mento a clientes” foram listadas 16 empresas, Quanto à destinação dos recursos, as infor- sendo que destas 3 não explicitaram valores exatosmações existentes nos prospectos foram dividas a serem empregados (MMX Mineração e Metálicosnas 5 categorias a seguir: S.A., MPX Energia S.A. e INPAR S.A). Os volumes a) alongamento do perfil de endividamento identificados mostram que o valor destinado a ou redução de passivo; esse fim representa quase 7% do total levantado. b) capital de giro ou financiamento a clientes; A classificação de “investimentos produtivos” abrange investimentos em capacidade instalada, c) investimentos produtivos (implantação de projetos como de incorporação e construção, ex- projetos, investimentos em imobilizado, pansão de redes de venda, aquisição de terrenos infraestrutura); e equipamentos, entre outros. A proporção de d) investimento ou aquisição de participações recursos com destinação identificada como inves- societárias; timentos produtivos seria cerca de 40% em relação ao total de empresas da amostra. A tabela a seguir e) reestruturação, modernização e recupera- apresenta os valores aproximados coletados do ção empresarial. prospecto destinado a investimentos produtivos:TABELA 04 - DESTINAÇÃO DOS RECURSOS - “INVESTIMENTOS PRODUTIVOS” continua ESTIMATIVA PARA INVESTIMENTO EMPRESA VALOR DA OFERTA (R$) % PRODUTIVO (R$) RENAR 16.000.000,00 17,33% 2.773.333,33 PROVIDÊNCIA 468.750.000,00 25,00% 117.187.500,00 BR MALLS PAR 605.278.845,00 30,00% 181.583.653,50 TRISUL 318.835.000,00 35,00% 111.592.250,00 ECODIESEL 378.932.220,00 37,00% 140.204.921,40 EZTEC 471.431.147,00 37,50% 176.786.680,13 GUARANI 665.758.062,00 40,00% 266.303.224,80 GENERAL SHOPP 273.000.000,00 40,00% 109.200.000,00 MARISA 440.000.000,00 41,00% 180.400.000,00 IGUATEMI 477.110.820,00 45,00% 214.699.869,00 GVT HOLDING 936.000.000,00 46,65% 436.644.000,00 HELBOR 232.458.919,00 73,00% 169.695.010,87 RODOBENS IMOB 390.000.000,00 80,00% 312.000.000,00 ABYARA 163.750.000,00 80,53% 131.867.875,00 TENDA 603.000.000,00 82,00% 494.460.000,00 EVEN 400.000.003,50 85,00% 340.000.002,98Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |141
  • 142. TABELA 04 - DESTINAÇÃO DOS RECURSOS - “INVESTIMENTOS PRODUTIVOS” conclusão ESTIMATIVA PARA INVESTIMENTO EMPRESA VALOR DA OFERTA (R$) % PRODUTIVO (R$)INVESTTUR 840.000.000,00 88,60% 744.240.000,00COPASA 723.076.928,50 90,00% 650.769.235,65CR2 307.575.000,00 100,00% 307.575.000,00BRASILAGRO 518.400.000,00 100,00% 518.400.000,00JHSF PART 376.000.000,00 < 38,20% < 143.632.000,00INPAR S/A 661.500.000,00 < 80% < 529.200.000,00COSAN 770.232.480,00 < 88,19% < 679.268.024,11MMX MINER 1.029.010.850,00 N/A N/AMPX ENERGIA 1.916.364.816,09 N/A N/ASubtotal 1- excluindo JHSF, INPAR, 9.229.356.945,00 60,75% 5.606.382.556,65COSAN, MMX e MPXSubtotal 2 – excluindo MMX e MPX 9.229.356.945,00 63,00% 6.958.482.580,76FONTE: Adaptado de CVM (2008) O subtotal 1 abrange as empresas cujas infor- No quarto critério foram listadas destinaçõesmações do prospecto eram mais claras e mostra de recursos a compras de instalações de proprie-que o total destinado a investimentos produtivos dade de terceiros, incorporação de empreendi-representava quase 61% do volume captado por mentos, aquisição de maiores participações emessas empresas. O subtotal 2 inclui a estimativa companhias e aquisição de empresas em setoresdas outras 3 outras companhias cujas informa- complementares, com participação de 7 empresasções não estavam suficientemente explícitas no da amostra. Dos recursos identificados, o volumeprospecto, mas que continham indicações de pro- destinado a esse fim representa quase 9%.porção de alocação em investimento produtivo. A última classificação se refere a investi-Nesse caso, percebe-se que o percentual destinado mentos em melhorias em sistemas produtivos,a investimentos produtivos das empresas analisa- estruturação de novas cadeias de matérias-primas,das representaria 63% do total captado por elas. logística, tecnologia da informação, pesquisa eNa comparação com o total captado por todas as desenvolvimento, modernização dos pontos deempresas da amostra, o subtotal 2 representaria venda, dentre outros, destinação apresentada50% das destinações de recursos. somente em 3 das empresas. O volume destinado a investimentos nessa rubrica representa 1,5% do A exclusão das companhias MMX e MPX pre- total ofertado.judica uma análise mais precisa, mas é importante Em algumas empresas, considerável partelembrar que tais empresas eram recém-criadas na dos recursos totais não pode ser identificada emépoca da abertura de capital e, portanto, possivel- valores monetários nas classificações lançadas.mente pretendiam usar seus recursos em capital Esses recursos não identificados são significativosde giro e investimentos em projetos do setor na amostra analisada, pois representam 31,5% daenergético e minerador. Nesse caso, o percentual oferta inicial total das empresas da amostra, o quede recursos dessas empresas destinado a investi- compromete a precisão da análise da destinaçãomentos produtivos seria, potencialmente, elevado. dos recursos por parte das empresas.142 |
  • 143. Revista da FAE Contudo, uma análise parcial da tendência de e recuperação empresarial” apresenta proporçãodestinação dos recursos da amostra pode ser feita baixa devido a sua especificidade.ao excluírem-se os recursos com destinação não Percebe-se que embora o destino investimen-identificada, configurando-se então as proporções tos produtivos seja menos da metade do totalconforme o gráfico 03: captado, eles são significativos e constituem aGRÁFICO 03 - DESTINAÇÃO PROPORCIONAL DOS principal destinação dos recursos captados pelas RECURSOS IDENTIFICADOS empresas analisadas. Quando se inclui a estimativa de investimentos produtivos das empresas JHSF, INPAR e COSAN na análise, a rubrica atinge 50% do volume total captado pelas empresas da amostra. A utilização de recursos para alongamento do perfil de endividamento indicaria uma substituição de dívidas de curto prazo para longo prazo. Isso significaria que parte dos recursos destinados a alongamento do perfil de endividamento ou redução de passivo estaria relacionada a investimentos produtivos, pois é possível que as empresas captem recursos via abertura de capital com o intuito de compatibilizar fluxo de caixa de longo prazo com financiamento adequado, ou seja, substituição de endividamento de curto prazo em possíveis investimentos produtivos passados. Conclusões Conforme discutido anteriormente, no Brasil o mercado de capitais, especialmente bolsa de valores, não desempenhou um papel significativo como fonte de financiamento empresarial. As explicações mais frequentes para tal situação é o modelo de financiamento do país baseado em crédito, do qual parte predominante dos recursos provém de financiamento público (BNDES). No entanto, buscando ampliar as fontes deFONTE: Adaptado de CVM (2008) financiamento das empresas e fortalecer o merca- O emprego de recursos em aquisições de par- do de capitais, as instituições do setor financeiroticipações societárias caracteriza somente inver- buscaram desenvolver ações para ampliar a cana-sões financeiras e possui significativa participação lização de recursos dos investidores ao mercadoem conjunto com o uso para capital de giro. Já de capitais, além de estimular a demanda pora classificação de “reestruturação, modernização recursos nesse segmento pelas empresas. Para incentivar a oferta de recursos, buscou-se estabe-Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |143
  • 144. lecer medidas que reduzissem o risco dos ativos, Não obstante, dos recursos identificados nosaumentasse a transparência de informações e prospectos para as destinações elencadas, obser-melhorasse sua rentabilidade relativamente aos vou-se que pelo menos 61% do volume captadotítulos públicos, além de atrair um maior número pelas empresas tinham como destinação planejadade investidores como fundos de previdência pri- a realização de investimentos produtivos. Sendovada e pequenos poupadores. assim, as captações por essas empresas refletem Medidas macroeconômicas também foram em parte as concepções teóricas de que o mercadoindicadas nas diretrizes do Plano Diretor do Mer- de capitais é fonte de recursos para financiamento,cado de Capitais para reduzir o risco sistêmico e principalmente, de investimentos produtivos.melhorar a atratividade dos ativos de renda variá- Além disso, ao se analisar a demais destinaçãovel. Além disso, medidas institucionais foram ado- percebe-se que embora não utilizados direta-tadas para melhorar a proteção aos investidores, mente no financiamento produtivo, tais recursosampliar os canais de captação de recursos (fundos foram alocados em operações de longo prazo,de private equity, venture capital e previdência como alongamento do perfil de endividamentoprivada), além de facilitar o acesso das empresas para longo prazo e investimento ou aquisição deao mercado de capitais. participações societárias. Embora não sejam dire- Tais medidas resultaram na expansão do mer- tamente aplicados a investimento produtivo, oscado, na medida em que o número de empresas recursos teriam impacto nessa rubrica na medidae o volume negociado aumentaram consideravel- em que alongamento de perfil de endividamento,mente na década de 2000. por exemplo, provém da necessidade de se conci- liar fluxo de caixa de possíveis investimentos pro- A análise realizada para o período de 2004 a dutivos de longo prazo realizados anteriormente2007 mostra que a maior parte das empresas abriu com recursos de curto prazo. Ao proceder destacapital no segmento Novo Mercado, com maior maneira, o mercado de capitais estaria cumprindotransparência e benefícios para o investidor. Os seu papel primordial de funding ou financiamentodados mostram que a maior parte das aberturas dos investimentos empresariais de longo prazo.foi de natureza mista, o que significa a utilizaçãodo mercado de capitais para realização do retorno Ressalta-se, porém, o tamanho limitado dado investimento realizado pelos sócios. A análise amostra frente à dimensão total do mercado deda destinação dos recursos, no entanto, foi capitais brasileiro, que apresenta diferentes natu-realizada apenas em empresas com natureza de rezas de oferta, segmentos de listagem de ações eoferta primária, que representou 25% do volume mercados além do acionário, como por exemplocaptado no período. o de debêntures. Esta pesquisa analisou somente um corte específico do mercado acionário, com- Constatou-se a necessidade de maior padro- posto pelas ofertas de natureza primária, de em-nização nas informações prestadas pelas compa- presas não-financeiras, excluindo-se o segmentonhias em seus prospectos, principalmente no que BDR. Uma análise de escopo maior, abrangendotange à apresentação de valores quantitativos na outros tipos de produtos, poderia trazer resultadosdestinação de recursos. Este fator é nítido nos mais conclusivos e concretos quanto à importânciadados da pesquisa, pois não foi possível analisar a do mercado de capitais brasileiro em seu papel dedestinação de aproximadamente 30% dos recursos financiador dos investimentos produtivos, ou naofertados inicialmente, já que os prospectos nãoidentificavam a destinação. estrutura de capital das empresas. • Recebido em: 01/09/2010 • Aprovado em: 30/11/2010144 |
  • 145. Revista da FAEReferênciasALDRIGHI, D. M. Uma avaliação das contribuições de Stiglitz à teoria dos mercados financeiros.Revista de Economia Política, São Paulo, v.26, n.1, p.135-57, jan./mar. 2006BOLSA DE VALORES DE SÃO PAULO – BOVESPA. Estudos para o desenvolvimento do mercadode capitais: desafios e oportunidades para o mercado de capitais brasileiro. São Paulo, jun. 2000.Disponível em: <http://www.bovespa.com.br/pdf/mercado_capitais_desafios.pdf>. Acesso em: 16mar. 2009.______. Informações gerais sobre a BOVESPA e o mercado de capitais: dados & notas. São Paulo,abr./jun. 2008. Disponível em: <http://www.bovespa.com.br/pdf/DadosNotas.pdf>. Acesso em: 16mar. 2009.______. Mercado diário: sala de imprensa. São Paulo, 2009. Disponível em: <http://mrm.comunique-se.com.br/arq/86/arq_86_5848.xls>. Acesso em: 16 mar. 2009.______. Plano diretor do mercado de capitais 2005. São Paulo, dez. 2004. Disponível em: <http://www.bovespa.com.br/pdf/PlanoDiretor2005.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2009.BRESSER PEREIRA, L. Mudanças no padrão de financiamento do investimento no Brasil. Revista deEconomia Política, São Paulo, v.7, n.4, p.5-22, out./dez. 1987.BRITO, G. A. S.; CORRAR, L. J.; BATISTELLA, F. D. Fatores determinantes da estrutura de capitaldas maiores empresas que atuam no Brasil. In: CONGRESSO USP DE CONTROLADORIA ECONTABILIDADE, 4., 2004, São Paulo. Anais eletrônicos... São Paulo: USP, 2004.CARDIM DE CARVALHO, F. Economia monetária e financeira. 2.ed. São Paulo: Atlas, 2007.CASAGRANDE NETO, H. Abertura do capital de empresas no Brasil: um enfoque prático. 3.ed.São Paulo: Atlas, 2000.CASTRO, L. B. Financiamento e crescimento econômico. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v.14,n.29, p. 277-308, jun. 2008.CHEROBIM, A. P. Estrutura de capital: revisão teórica. In: SAITO, R.; PROCIANOY, J.L. (Orgs.)Captação de recursos de longo prazo. São Paulo: Atlas, 2008.CHICK, Victoria. A evolução do sistema bancário e a teoria da poupança, do investimento e dosjuros. Ensaios FEE, Porto Alegre, v.15, n.1, p.9-23, 1994.COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS – CVM. Prospectos definitivos (empresas selecionadas).São Paulo: CVM, 2008. Disponível em: <http://www.cvm.gov.br>. Acesso em: 10 abr. 2009.DIAS, E. M. Decisões de financiamento de empresas brasileiras de capital aberto maduras:testando pecking order. 2007. 64p. Dissertação (Mestrado Profissionalizante em Economia) –IBMEC-RJ. Rio de Janeiro, 2007.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 125-146, Jul./Dez. 2010 |145
  • 146. FAMÁ, R.; GRAVA, J. W. Teorias de estrutura de capital: as discussões persistem. Caderno dePesquisas em Administração, São Paulo, v.1, n.11, p.27-36, jan./mar. 2000.INSTITUTO BRASILEIRO DE MERCADO DE CAPITAIS – IBMEC. Plano diretor 2002: atualização daexecução até março de 2008. Rio de Janeiro, mar. 2008. Disponível em: <http://www.ibmec.org.br/pub/pdmc2002_a200803.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2009.LOBO, Breno Santana. Teoria dos fundos emprestáveis x circuito financiamento-investimento-poupança-funding: uma avaliação empírica para o Brasil. Revista Desenbahia, Salvador, v.2, n.3,p.241-251, set. 2005.MACARINI, J. P. Um aspecto da política econômica do “milagre brasileiro”: a política de mercado decapitais e a bolha especulativa 1969-1971. Estudos Econômicos, São Paulo, v.38, n.1, p.151-172,jan./mar. 2008.MATSUO, A. K.; ROCHMAN, R. R.; EID JUNIOR, W. Estrutura de capital no Brasil: uma revisão teóricados estudos de 1988 até 2005. In: SAITO, R.; PROCIANOY, J. L. (Orgs.) Captação de recursos delongo prazo. São Paulo: Atlas, 2008.MODIGLIANI, F.; MILLER, M. The Cost of Capital, Corporation finance, and the theory of investment.American Economic Review, Nash Nashville, Tenn. v.48, p.261-97, 1958.MOREIRA, M. M.; PUGA, F. P. Como a indústria financia o seu crescimento: uma análise do Brasilpós-real. Revista de Economia Contemporânea. Rio de Janeiro, v.5, ed. especial, p.13-34, out.2000.SCHNORRENBERGER, A. A influência da estrutura de controle nas decisões de estrutura de capitaldas companhias brasileiras. Revista Brasileira de Economia, Rio de Janeiro, v.58, n.1, p.121-146,jan./mar. 2004.SOUSA, A. F.; MENEZES, E. J. C. Estratégia, crescimento e a administração do capital de giro.Caderno de Pesquisas em Administração, São Paulo, v.2, n.5, p.27-38, jun./dez. 1997.STUDART, Rogério. O sistema financeiro e o financiamento do crescimento: uma alternativa pós-keynesiana à visão convencional. Revista de Economia Política, São Paulo, v.13, n.1, p.101-118,jan./mar. 1993.ZONENSCHAIN, Claudia Nessi. Estrutura de capital das empresas no Brasil. Revista do BNDES, Riode Janeiro, v.6 n.10, p.63-92, dez. 1998.146 |
  • 147. Revista da FAEFatores determinantes na escolha de alunos pela FAEBlumenau como Instituição de Ensino SuperiorFactors in the choice of students by FAE Blumenau as anInstitution of Higher Education Simone Cristina Aléssio*Resumo Maria José Carvalho de Souza Domingues**O presente artigo tem a intenção de investigar os fatores de atração quelevaram alunos ingressantes no ensino superior a escolher uma instituiçãoprivada de Blumenau – SC como Instituição de Ensino Superior responsávelpor sua formação. A pesquisa caracteriza-se por ser descritiva, comabordagem quantitativa. Para a coleta dos dados foram aplicados 362questionários, com 42 questões, usando o método adaptado de Mainardes(2007), tendo como foco todos os alunos regularmente matriculados noscursos: Direito, Administração de Empresas, Tecnologia em Gestão deRecursos Humanos, Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas,Logística e Ciências Contábeis. O resultado indica motivações diferentesna escolha do aluno quando comparadas as respostas com o cursofreqüentado. Nota-se que os cursos superiores em tecnologia e tambémo curso de Logística, apresentam perfil de aluno diferente dos alunos doscursos de Administração e Direito, sendo isto evidenciado pela avaliaçãodos itens propostos.Palavras-chave: atração de alunos; satisfação dos alunos; qualidadeeducacional.AbstractThis article intends to investigate the factors that led to lure new studentsin higher education to choose a private institution in Blumenau - SC HigherEducation Institution as responsible for their formation. The research ischaracterized by being descriptive and quantitative approach. To collectthe data were applied 362 questionnaires with 42 questions, using themethod adapted from Maine (2007), focusing on all students enrolledin courses: Law, Business, Technology, Human Resources, TechnologyAnalysis and Systems Development, Logistics and Accounting. The result * Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Regionalindicates different motivations in the choice of student responses when de Blumenau. Professora universitária.compared with the course taken. Note that the higher education courses Blumenau – SC. E-mail: profa.in technology and also the course of logistics, have different student salessio@gmail.com.profile of students of Business and Law, evidenced by evaluation of the ** Doutora em Engenharia deproposed items Produção pela UFSC. Professora da Universidade Regional de Blumenau/FURB. Blumenau – SC.Keywords: attracting students, student satisfaction, quality of education E-mail: mjcsd2008@gmail.comRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |147
  • 148. Introdução O ensino superior atualmente encontra-se em um período de transição, com enfoque para Num passado não tão distante, o foco das a diversidade: há grande oferta de ensino técnico,questões e pesquisas de competitividade eram cursos superiores de tecnologia e cursos sequen-as organizações tradicionais como comércio e ciais, cursos a distância, além dos tradicionais.indústria. Todas estas abordagens apresentam objetivos muito parecidos: oferecer ao aluno conhecimento Com o aumento progressivo na abertura de prático, teórico e específico, considerando-se umnovas Instituições de Ensino Superior (IES) e novos tempo de duração viável em relação à situaçãocursos de Graduação e Pós-graduação, ganha evi- econômica do aluno. Sob este aspecto, cursos quedência a acirrada concorrência entre este tipo de formam tecnólogos têm um custo financeiro me-organização, exigindo das mesmas, gestores mais nor do que a abordagem dos cursos tradicionais,capacitados na condução de sua sobrevivência, sendo um atrativo para muitos alunos.levando em conta aspectos como infra-estrutura, Neste processo de transição, as IES vêm serelacionamento entre envolvidos (alunos, profes- transformando para atender às novas exigênciassores, coordenação), valorização e divulgação da dos alunos; mudanças estas, geradas muitas vezesmarca, aspectos financeiros, entre outros. pelo próprio mercado educacional, pelo contexto Após finalizar o ensino médio, muitos jovens social e mercado de trabalho.se apóiam nas experiências familiares ou em seu Até a última década, imaginava-se que a pro-interesse ou domínio em conteúdos específicos cura por cursos superiores sempre seria maior dopara dar sequência aos estudos. A maioria procura que a quantidade de vagas ofertadas, tornandoIES e cursos que possibilitem maior visibilidade e a situação muito confortável para as IES. Atual-crescimento profissional, independente da classe mente, pode-se considerar uma situação oposta,social à qual pertencem. Muitos optam pela com o número de vagas crescendo rapidamenteinstituição e curso considerando a grade curricular, e a procura decrescendo na mesma velocidade.o fator financeiro, a marca da instituição quepossibilitará melhores oportunidades de trabalho, O Brasil apresenta um mercado de educaçãoentre outros. Para Mainardes (2007, p.19), evidenciado pelo crescimento e pela concorrência a educação constante tem se mostrado como a única acirrada das IES, principalmente quando o foco maneira de se chegar o sucesso e, em um momento em é a rede privada de ensino, forçando estas que o conhecimento é tão importante, estudar sempre instituições a desenvolverem novas habilidades e é uma necessidade. em consequência novas formas de abordagem de A formação no ensino médio há muito tempo alunos, a fim de se tornarem mais eficientes nonão é mais considerada suficiente para ingresso no processo de atração dos mesmos.mercado de trabalho, e, dependendo da função Dentro deste contexto de oferta e de procura,a ser exercida, esta formação deixou de ser um a educação por muitas vezes passa a ser vistadiferencial para se tornar requisito indispensável, como serviço e o aluno como cliente. E, a partirexigindo do jovem formação complementar a deste conceito, torna-se indispensável que as IESser proporcionada por algum curso técnico ou mudem sua abordagem em relação ao aluno,superior, direcionado à área de atuação deste identificando suas carências e necessidades eprofissional. investindo fortemente nos fatores que mais o148 |
  • 149. Revista da FAEatraem para a sua estrutura física e educacional, Para Mainardes (2007, p.38),focando suas estratégias no “cliente aluno” e nos igual a qualquer outro negócio, as IES privadasserviços que serão prestados a ele, entendendo passaram a conviver com a constante necessidade de ‘disputar’ os novos acadêmicos, devido à maiorprincipalmente o que o motiva no momento facilidade de acesso e de disponibilidade de vagasda escolha da instituição responsável por sua oferecidas pelas IES.formação. Em acordo, Alves (1999) argumenta que se Por isso, é de grande relevância avaliar os as IES estão inseridas num contexto de concor-fatores determinantes na escolha da IES, por rência declarada, que afeta sua estrutura e impõeparte do aluno cliente e comprador de curso restrições financeiras aos processos de gestão, osuperior, pois assim será possível avaliar seu perfil futuro das mesmas está diretamente relacionadoe de outros potenciais clientes estabelecendo à sua capacidade de atrair e reter alunos, sendoentre estes e a instituição vínculos de confiança, fundamental que entendam quem é o seu clientecredibilidade e lealdade. e o que ele espera dela. A abertura do mercado educacional coloca as IES em ambiente de acirrada concorrência, e para1 Desenvolvimento teórico Mainardes (2007, p.41): Possibilita aos estudantes, um maior leque de opções, dificultando a escolha deles. O aluno sofre pressões econômicas e profissionais que o obrigam a refinar as1.1 Mercado, produto e clientes das suas expectativas e analisar com cuidado, as diversas propostas das IES concorrentes no mercado. instituições de ensino superior Para Alves (2000), o estudante irá perceber a Se por um lado houve um aumento considerável relevância da sua formação acadêmica, optandodo número de IES, possibilitando acesso ao ensino por uma IES que lhe proporcione as melhoressuperior de uma grande quantidade de pessoas oportunidades de emprego.excluídas destas estatísticas, por outro, este Mainardes (2007) aponta que os clientes deaumento ocasionou um problema para as próprias instituições universitárias são estudantes, empre-IES, principalmente as mais tradicionais, que gadores, famílias e sociedade de um modo geral.tiveram que acordar para uma nova realidade: a Na visão de Yanaze (2010), o mercado de IESinstitucionalização do ensino superior, motivo de é caracterizado pelo aluno, sua família, a comuni-grande disputa principalmente no setor privado. dade e as empresas que absorvem a mão-de-obra Este processo divide as instituições em dois por elas formada, além do próprio governo.grupos distintos: as universidades tradicionais, Os alunos e todos aqueles que direta ouque se mantêm focadas no aluno de qualidade, indiretamente são afetados pelo processo educa-e outro grupo de instituições amparadas em ca- cional, mesmo que não pertencendo ao universoracterísticas “clientelistas”, que abordam outro acadêmico, como a família, as indústrias, a socie-nicho de mercado priorizando valores de men- dade nacional e internacional, governo, professo-salidades inferiores, agressivas campanhas de res, funcionários e os próprios gestores das IES,marketing, entre outros aspectos que atraem os ou seja, todos que de alguma forma recebem e sealunos apenas por conveniência ou comodismo. beneficiam dos serviços prestados por estas ins-Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |149
  • 150. tituições, são clientes da mesma pela abordagem é recém saído do ensino médio), compensandode Mezomo (1997). e equilibrando, de certa maneira, a oferta e a Sob outro ponto de vista, os autores Tachizawa procura.e Andrade (1999) caracterizam o aluno como um A pesquisa de Lima (2006) também aponta acliente intermediário, e dão importância a todos redução do número de estudantes da faixa etáriaos outros clientes que sustentam à existência da ideal para ingressar no ensino superior, de acordoinstituição, destacando a empresa ou organização com estimativas que evidenciam que a populaçãocomo o cliente final, pois as mesmas são as da faixa etária entre 18 e 24 anos encolheu emcontratantes do público que recebe a formação torno de 24%, diminuindo consideravelmenteacadêmica, e desta forma são determinantes nas o universo de estudantes com idade de grandeatribuições e habilidades que esperam deles. Sob interesse para as IES.esta abordagem, quanto mais as IES contribuírem De acordo com Mainardes (2007, p.43):para as necessidades destas organizações As escolas de ensino superior no Brasil tendem a serconsumidoras de mão-de-obra especializada, mais freqüentadas por públicos muito diversos: jovensalunos seus serão contratados, tornando a mesma em formação inicial, graduada e pós-graduada;referência em qualidade, gerando maior procura profissionais em formação contínua; adultos em busca de uma atualização de conhecimentos ou de umapor seus cursos. valorização profissional. O produto educacional final da escola estáfocado no desenvolvimento das habilidades do Uma análise feita por Alves (2003) propõeestudante, na sua forma de pensar, raciocinar, que alunos que já têm experiência profissionalescrever e resolver problemas (MEZOMO, 1997). são mais exigentes quando se fala em valor nas relações de troca, tendo muito claro o que desejam Nesse contexto, alguns estudos, entre eles receber. Em contra partida, têm baixa expectativaos realizados por Navarro, Iglesias e Torres (2005) em relação à IES que frequentam.percebem uma diminuição de acesso ao ensinosuperior da faixa etária entre 18 e 24 anos, sendo De certa forma há uma maior democratizaçãomajoritário o perfil de estudantes mais maduros e do ensino, evidenciada pela procura de umem idade superior à faixa ideal estabelecida. Este crescente número de alunos de classes sociais maisnovo perfil de aluno traz consigo necessidades e baixas e com menor poder aquisitivo (KALSBEK,motivações muito diferentes dos alunos tradicio- 2003). Este mesmo autor também aponta o grandenais, exigindo, em consequência, um formato de número de alunos em idades mais avançadaseducação diferente da tradicionalmente oferecida. aderindo ao ensino superior, indicando este fatorEste estudo aponta o grupo de estudantes mais como determinante de grandes oportunidadesmaduros, como sendo indivíduos já alocados no para as IES.mundo profissional, mas que têm forte necessi- As IES estão enquadradas no segmentodade de se manterem atualizados. serviços, possuindo características especificas Este mesmo apontamento já havia sido feito diferenciando-se umas das outras, pela estrutura,por Michael (1997), que complementa afirmando qualidade de ensino, processos democráticos, eque com a decrescente demanda do aluno tradi- corpo docente, entre outros aspectos de igualcional também é possível perceber o aumento da importância. Portanto, ter bons professores eprocura do aluno não tradicional (aquele que não estrutura satisfatória não é mais diferencial para150 |
  • 151. Revista da FAEa clientela que tem seu perfil modificado seja Um longo caminho é percorrido entre apor necessidades pessoais ou por imposição decisão de prestar vestibular e o momento dede forças e movimentos sociais, ou do próprio efetivar a matrícula. Pesam incertezas em relaçãomercado de trabalho. Pode-se considerar que se à escolha do curso e da IES. Isso sem considerara IES não tem boa estrutura e bons professores, aspectos importantes para o jovem como ocertamente terá desvantagem competitiva séria. histórico da sua escolarização, sua condiçãoMas, evidenciando e tendo estes fatores, também social e econômica. Para a maioria dos alunos,não leva vantagem alguma, pelo fato de que estes geralmente não existe um processo de escolha,são considerados indispensáveis. mas sim, um momento de adaptação a uma nova Atualmente, as IES têm consciência do mer- realidade.cado concorrencial em que estão inseridas. Isto A vida acadêmica constitui uma experiênciafica evidenciado pelas campanhas de marketing social complexa e única, colocando ao jovemvinculadas nos mais diversos meios de comunica- ingressante um conjunto de expectativas, respon-ção e das mais variadas tecnologias de propagan- sabilidades e novos desafios. Este período permi-da existentes no momento. te o desenvolvimento não somente do quesito Mesmo as organizações mais tradicionais que intelectual, mas também a elaboração de outrosde certa forma são até contrárias a este tipo de valores, atitudes, crenças, sonhos.disputa, sabem que terão que fazer algo para se O momento da escolha da profissão, da IESmanter atrativas. A procura está caindo muito e as e do curso escolhido é decisivo para o futuro dosalas estão ficando vazias, obrigando as próprias jovem e visto pela família, pela sociedade e por eleinstituições a realizarem mais processos de seleção próprio como uma necessidade. A “necessidade”e tornando-os mais flexíveis. da escolha segundo (LUCCHIARI, 1993) não afeta Portanto, visando-se o futuro, não é difícil apenas o jovem. A família também é afetada,perceber que somente as IES mais estruturadas pelo fato de alguns pais buscarem sua realizaçãoterão condições de manter suas atividades, e que a pessoal por meio dos filhos. Outros pais sofremprincipal vantagem competitiva será mudar o foco junto com os filhos por causa do momento depara a sala de aula, para a qualidade do produtofinal oferecido, usando recursos tecnológicos indecisão.atuais, mantendo a gerência interna, cumprindo Para o adolescente, o processo de escolha irámetas acadêmicas e financeiras e inovando nos guiar seus caminhos futuros. E o ato de escolherprocessos de gestão. requer decisão e abdicação, tornando necessário deixar para trás várias opções que foram descar- tadas durante todo este processo.1.2 A trajetória do jovem até o ensino superior 1.3 Fatores de atração Com a conclusão do ensino médio, os jovensse deparam com uma dúvida, gerada muitas vezes Atrair e reter alunos não uma tarefa fácil parapela escassez de recursos financeiros: ingressar no as IES, considerando-se o nível de disputa entremercado de trabalho ou dar continuidade à vida as mesmas e a perceptível redução na procuraacadêmica escolhendo uma IES para completar a dos serviços de educação superior, por partesua formação? dos alunos. Com base nisso, torna-se de grandeRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |151
  • 152. importância conhecer os pontos favoráveis ou informações (publicações das escolas, visitas àsnão das mesmas no que se refere principalmente instalações); avaliação da decisão (reputação,ao momento de atração do público. Este estudo currículo, corpo docente, instalações, localização,segue as características de outras abordagens preço, tamanho da escola, outros atributos);conforme detalhado pelas pesquisas referenciadas execução da decisão (assistência ao aluno,na sequencia. informações adicionais); avaliação pós-decisão Alves (1999) foca a escolha da IES no prestí- (publicações da escola, informações adicionais,gio acadêmico e aponta família e amigos como mala direta, feiras e eventos escolares).meio de divulgação e apreciação de instituições A imagem da instituição surge em trabalhoe cursos. Seguindo a mesma linha, Franco (2000) executado por Palácio, Meneses e Pérez (2002),destaca o status como forma de reconhecimento e destacam a influência da marca no comporta-para a escolha e que estes alunos vêem neste sta- mento de quem vai comprar o serviço educacio-tus uma grife ligada ao ensino, para que a mesma nal. A imagem é considerada por eles como umse torne um meio garantido e seguro para um forte fator de decisão, atraindo os mais diversosbom reconhecimento no mercado de trabalho, públicos, sendo de grande relevância para as ins-assegurando-lhes boas remunerações. tituições que querem se permanecer competitivas Localização, qualidade de ensino, marketing, no mercado. A marca está associada ao prestígiovalor das mensalidades bem como valorização de e à qualidade.outras formas de ingresso que não seja o vestibu- Para Hides, Davies e Jackson (2004), a imagemlar, reconhecimento do mercado de trabalho e da é construída a partir da qualidade dos serviçossociedade como um todo, nível de conhecimento prestados e buscam uma definição para o quedo corpo docente com valorização de sua titula- seria excelência em ensino superior. Para eles oção são fatores que fundamentaram a pesquisa auge seria alcançado através de fatores como:elaborada por Mund, Durieux e Tontini (2001). as melhores práticas pedagógicas e de gestão, Carvalho (1999), apoiado nos estudos de vínculos e compromissos com a sociedade ouStafford em 1994, e de Kotler e Fox, também de comunidade na qual a IES está inserida, boa1994, cita alguns grupos de valores específicos relação custo-benefício, incentivo às boas práticas,para a escolha: o valor funcional (expectativas aperfeiçoamento do uso dos mais variadosdos estudantes no sucesso que possam estar recursos, além de ambiente educacional tranqüilo.relacionadas a futuros empregos); o valor social Alves (2003) enumera os fatores que mais(escolha de instituições onde já se encontrem influenciam a marca de uma instituição: corpoconhecidos da pessoa); o valor emocional (depende docente; conteúdo do curso; qualidade do ensi-totalmente da pessoa e seus gostos pessoais); no; reputação; preço e acessibilidade em termoso valor epistêmico (inovações no curso, por de preço; facilidade de conclusão da graduação;exemplo, a grade curricular); o valor condicional preparação para a carreira; peso das atividades(fatores acadêmicos para a graduação). extracurriculares; localização; ambiente acadêmi- O trabalho de Kotler e Fox (1994) aponta as co; atenção pessoal dada ao aluno; colocação noinfluências do processo de escolha: (mala direta, emprego; modo de atuação da IES; ética da IES;notícias e relações públicas, propaganda, eventos, responsabilidade social da IES.orientação educacional, pais, colegas); coleta de152 |
  • 153. Revista da FAE Estrutura, funcionamento da IES, utilização gem da IES; benefícios dos serviços educacionaisde recursos são fatores destacados por Trevisan oferecidos; professores com mestrado e douto-(2002), que aponta a importância de sua aplicabi- rado; estrutura física da instituição; possibilidadelidade e funcionalidade na prática para não passar de realização profissional; biblioteca diversificadauma imagem de algo que na verdade, não existe, e informatizada; reconhecimento da IES pela co-ou não funciona direito. munidade, como sendo de qualidade; localização Alfinito e Granemann (2003), em pesquisa da IES (próxima à casa ou ao trabalho); facilidaderealizada com alunos em fase de vestibular, na obtenção de estágios; indicações por amigos,procuraram identificar a relevância de fatores familiares ou profissionais da área. Campanhascomo: localização (instituição estar situada próxima de marketing da IES e valor de mensalidade nãoda residência ou local de trabalho); tradição ou foram considerados fatores determinantes nastatus da IES; infraestrutura e instalações; preço; escolha da instituição ou curso.avaliação do Ministério de Educação e Cultura Inovação é um fator citado em estudo reali-(MEC) - o conhecido Exame Nacional de Cursos zado por Mavondo, Chimhanzi e Stewart (2005).(Provão) -; cursos oferecidos; aceitação da IES Para os autores este é um quesito relevante parano mercado de trabalho; horários disponíveis; que uma IES se mantenha situada no mercado,método de ensino; segurança no campus. Sendo pois possibilita a geração e implantação de ideiasapontado como resultado que fatores como novas agregando desta forma valor ao produto einfra-estrutura e instalações, tradição ou status serviço ofertado, sendo decisivo para instituiçõesda IES, cursos oferecidos e proximidade de casa que desejam manter a visibilidade da marca noou do trabalho são os atributos mais citados pelos mercado.participantes. Para Silva (2005), estas campanhas fazem com A família é destaque no estudo de Lanzer que a imagem da instituição seja lembrada, pela(2004), evidenciando a dependência financeira do assimilação dos valores vinculados na propaganda.jovem em relação a este grupo social. Familiares Apontam que alguns destes valores como desdeque já frequentaram a IES em questão também que bem comunicados, podem se tornar fatoresinfluenciam diretamente a decisão. de atração de alunos para a IES. No estudo de Piñol (2004) destacam-se como Em sua pesquisa Thies et al. (2005) destacafatores importantes da escolha as instalações fatores como: conhecimento teórico e prático;físicas da instituição, a tradição da instituição, colegas de classe; biblioteca; relação aluno-a titulação do corpo docente, a experiência professor; corpo docente; ambiente e instalaçõesprofissional do corpo docente, o relacionamento físicas; incentivo a pesquisas; participação emcom a coordenação, o atendimento pré-matrícula, seminários. No final do estudo, conclui-se que aa qualidade dos meios utilizados para divulgação assimilação dos conteúdos teóricos e a relaçãodo curso, o tempo de duração do curso, o valor professor/aluno são os fatores mais positivos nada mensalidade, as visitas técnicas, a composição escolha do curso e da IES.das disciplinas e opinião de terceiros sobre o curso. O tema sustentabilidade é fator de destaque No estudo Bronemann e Silveira (2004) são no estudo de Ciurana e Leal Filho (2006), queidentificados fatores considerados fundamentais sendo adicionada à grade curricular ou adotadapara escolha de uma IES: empregabilidade; ima- como estratégia organizacional, pode ser umRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |153
  • 154. diferencial na atração de alunos se focados os Qualidade de ensino e localização da insti-aspectos de regulamentação e adaptação de tuição próxima à residência ou local de trabalhoespaços, administração do desperdício, correta foram fatores pesquisados por Miranda e Domin-utilização de recursos e despertar da consciência gues. (2006). Através desta pesquisa constatou-sedos alunos quanto à sustentabilidade. A orientação 55% de importância para a qualidade de ensino epara sustentabilidade se reflete na melhoria da 30% para a localização da instituição. A pesquisaimagem das IES que aderem a este assunto. não aborda o preço, provavelmente considerando A reputação acadêmica é apontada como que se o mesmo for exposto, certamente será in-um dos principais fatores na tomada de decisão dicado como fator importante e decisivo. Pode-see foi evidenciada pela pesquisa de Seeman e observar entre tantas pesquisas com foco no tema,O’hara (2006). Outros fatores também foram que o mesmo é variável e que o resultado dependeidentificados como a colocação no mercado de da instituição pesquisada, do público envolvido natrabalho, satisfação de outros alunos da IES e taxa amostra e também de fatores externos.de aprovação em exames. Em outro estudo, Holanda Jr., Farias e Gomes(2006) abordam outro grupo de fatores impor- 2 Método de pesquisatantes: expectativa em relação ao grau de nívelsuperior; influência da família e mercado de tra- Como o trabalho tem o objetivo principal debalho, percepção de profissionais de sucesso que apontar os fatores ou motivos que influenciaramfrequentam a IES, vocação pessoal para o curso a escolha da instituição de ensino superior paraescolhido, a confiança e infraestrutura da IES; dar sequência à trajetória acadêmica e também dequalificação do corpo docente e discente; o valor história de vida, optou-se por utilizar uma pesquisadas mensalidades; o reconhecimento pelo MEC e descritiva quantitativa transversal, cujo método émercado, entre outros. Como resultado, nota-se baseado em indicadores capazes de resultar emque na percepção dos entrevistados, a obtenção informações que contribuam satisfatoriamentedo grau de nível superior é importante para o para o entendimento do resultado da pesquisasucesso da carreira profissional. Como resultado aplicada.oposto a outras pesquisas a opinião de família ou Para a coleta dos dados, utilizou-se um ques-amigos não foi considerada fator determinante na tionário adaptado de Mainardes (2007) e que estáescolha. Outros fatores importantes apontados apoiado em um escala Likert de sete pontos. Estapelo estudo são a tendência de mercado; o exem- escala foi desenvolvida por Rensis Likert em 1932plo de profissionais bem-sucedidos; a vocação e tem como base a coleta de opiniões objetivasdo aluno para uma determinada área e a opinião das pessoas envolvidas na pesquisa, a respeito deprópria na escolha do curso e da instituição. Es- um objeto de estudo apoiando-se em um conjuntotrutura física e os serviços prestados pela IES não de afirmações proposto pelo modelo em questão.são decisivos na escolha, bem como mensalidade, Com base no método proposto, a pessoaqualificação do corpo docente, localização, entre respondente da pesquisa deve dar uma nota comoutros. Campanhas de marketing são percebidas, peso de um a sete, justificando o nível de impor-mas têm pouca influência na escolha. tância da questão para sua decisão na escolha da IES.154 |
  • 155. Revista da FAE A pesquisa quantitativa é uma forma de inves- Pela fórmula de Barbetta (2001) chega-se àtigação empírica que permite analisar fenômenos amostra mínima de 146 alunos, de uma populaçãoe isolar variáveis. Este tipo de pesquisa utiliza-se de 362. A intenção da pesquisa foi a de realizaçãoda abordagem quantitativa para estabelecer pro- de um censo, porém, foram obtidos, comoporções ou relações entre as variáveis investigadas resultado final, 191 questionários respondidos.possibilitando a comprovação de hipóteses (OLI- Para a coleta de dados realizou-se a aplicaçãoVEIRA, 2001). Adota-se como procedimento deste aleatória de um questionário com perguntas fe-trabalho a verificação de correlações e proporções chadas, o que configura o método como survey,entre as variáveis do questionário. sendo o mesmo administrado pelo autor pes- Em conjunto, a pesquisa descritiva possibi- quisador. O método survey também possibilita alita a interpretação e conhecimento da realidade pesquisa através de entrevistas. Considerando-seexposta pelos dados quantitativos explorados a quantidade de alunos pesquisados, optou-se porpelas proporções ou correlação. Com isso, o tipo utilizar questionários, que possibilitam coletar da-de pesquisa proposto permite melhor compre- dos quantitativos abordando um número maior deensão dos fatores que influenciam o fenômeno pessoas de forma mais ágil (HAIR JR. et al., 2005).estudado. Por envolver a coleta de dados de uma Inicialmente, o questionário foi estruturadoamostra de elementos de uma população total, para caracterizar a amostra através de informaçõessendo isto feito uma única vez, esta pesquisa é como: idade, sexo, profissão e curso frequentadoconsiderada transversal (MALHOTRA, 2001). Os na instituição. Em seguida, direcionou-se odados coletados são considerados primários, por questionário para aspectos focando os fatoresnão haver outro registro de coleta dos mesmos de atração dos alunos para os seguintes critérios:em outros períodos (HAIR Jr. et al., 2005). atributos da instituição de ensino, atributos Como instituição para análise, foi escolhida relacionados com mercado de trabalho, atributosuma instituição de ensino superior privada de ligados a motivos pessoais, atributos do cursoBlumenau - SC. Para a pesquisa de campo foram escolhido. Para configuração do questionárioconsiderados todos os alunos regularmente adaptou-se e replicou-se o método utilizado pormatriculados no ano de 2010, caracterizando a Emerson Wagner Mainardes em dissertação quepopulação em 362 alunos. Os cursos de graduação teve como tema de estudo a atração e retençãoenvolvidos foram: Direito, Administração de de alunos de cursos de graduação em instituiçõesEmpresas, Administração de Recursos Humanos, particulares da cidade de Joinville, SC. Este métodoAnálise e Desenvolvimento de Sistemas, e Logística. foi replicado por ter sido considerado completo Para validação da amostra mínima utilizou-se e por abordar todos os fatores necessários para aa fórmula de Barbetta (2001, p.60), onde o número elaboração deste estudo.de elementos da população é representado por Para análise dos dados foi utilizado o métodoN, o número de elementos da amostra por n; n0 Stepwize, através do qual foram analisadasrepresenta uma primeira aproximação para o tama- todas as variáveis independentes, obtendo-senho da amostra e finalmente E0 representa o erro um modelo com onze variáveis relevantes. Osamostral tolerável. Nesta pesquisa, o erro amostral dados coletados foram inseridos no softwaretolerável foi de, no máximo, 5% (E = 0,05). SSP2. No processo de análise, primeiramente, foram realizadas as proporções de respostasRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |155
  • 156. de cada variável, possibilitando-se chegar aos ticas pedagógicas da universidade; preocupaçãoprimeiros apontamentos. Na segunda etapa, foi da universidade com seus alunos; propensão dautilizada uma técnica estatística de regressão universidade com a inovação; regulamentação elinear envolvendo a variável dependente e as seis adaptação de espaços para uso dos alunos, fun-categorias de variáveis independentes. cionários e comunidade; segurança no campus A adaptação do modelo de Mainardes (2007) da universidade; sua percepção da qualidade dopermitiu a aplicação de um questionário contendo serviço educacional prestado pela universidade;42 questões fechadas, gerando um conjunto de valor da mensalidade; instituição de ensino de111 variáveis. uma forma geral. Nesta classe de variáveis os A nota geral de influência de todos os fatores respondentes assinalaram cinco dos itens maiscitados na escolha dos alunos participantes foi importantes identificados por eles.considerada como a variável dependente. Esta A terceira classe de variável foca-se nosvariável aborda uma avaliação geral dos fatores atributos de interesse sob a visão do mercadoem relação ao curso e instituição de ensino. de trabalho: aceitação da universidade peloCompõem o grupo das variáveis independentes mercado de trabalho; empregabilidade do cursoum total de 110 questões que são separadas em escolhido; opinião da comunidade com relaçãoseis categorias de variáveis que diferenciam entre à universidade; participação da universidade emsi no aspecto da abordagem. assuntos atuais (desenvolvimento sustentável, res- A primeira classe de variável compõe a carac- ponsabilidade social, meio ambiente); reputaçãoterização do entrevistado, onde foram levantadas do curso e da universidade, tradição e status dainformações como: sexo, função profissional universidade; valor do diploma da universidade(operacional, supervisão, gerência média, alta ge- no mercado de trabalho; visibilidade e reconhe-rência, direção, proprietário/acionista, se trabalha cimento da universidade e do curso escolhidoou não, e outros). Também foi apurado o curso perante a sociedade. Nesta fase foi solicitado quefrequentado na instituição. os respondentes assinalassem apenas os três itens A segunda classe de variável se propõe a que consideravam mais importantes e decisivosidentificar os atributos de atração com foco no momento da escolha.para a instituição de ensino de uma forma geral, Motivos pessoais compõem a quarta classe dedestacando-se fatores como: atendimento dos variáveis, com destaque para os fatores: horáriosfuncionários da instituição; campanha de marke- disponíveis de aulas no curso escolhido; imagemting realizada pela universidade; compromisso da criada por você da universidade; proximidadeuniversidade com o serviço educacional prestado da universidade de sua casa ou de seu trabalho;pela mesma; compromisso da universidade com a satisfação com a universidade de ensino porcomunidade e suas relações com sociedade e natu- parentes, amigos, conhecidos; seus familiares,reza, cursos oferecidos pela universidade; geração, amigos, colegas de trabalho na escolha do cursoaceitação e implantação na universidade de novas e da universidade; suas experiências anterioresidéias; processos, produtos ou serviços; imagem nesta universidade; seus motivos pessoais de umada universidade oferecida a você por alunos que já forma geral. Esta etapa também foi caracterizadaestão cursando uma graduação nesta instituição; pela escolha dos três fatores de maior relevânciainfraestrutura e instalações da universidade; prá- para o aluno.156 |
  • 157. Revista da FAE Como foco da quinta classe encontra-se intermediário(18%) e alta gerência ou di-o curso escolhido, com as seguintes opções: retoria(4%);.atividades do curso escolhido realizadas em sala – 85% dos alunos não recebem qualquer tipode aula e fora dela de simulação da vida real; de auxílio financeiro, sendo responsáveiscoerência e interação entre teoria e prática no por custear os estudoscurso escolhido por você; comentários realizados Os dados levantados na caracterização con-pelos alunos atuais com o curso da instituição; vergem com a teoria, uma vez que os estudantescorpo de professores do curso escolhido por você; estão mais maduros, sendo que a maior incidênciasatisfação de alunos formados na instituição de de idade encontrava-se na faixa etária acima deensino; sua percepção de qualidade de ensino no 24 anos, observada em apontamentos feitos porcurso; curso de uma forma geral. Como critério Navarro, Iglesias e Torres (2005), Michael (1997)de escolha, o aluno deveria nesta etapa, marcar e Lima (2006), caracterizando a diferença dosapenas os dois itens mais importantes. estudantes atuais dos alunos ingressantes em IES A sexta classe aponta para questões gerais até um passado não tão distante.como: fui atraído para o curso e para a instituição As estatísticas da regressão para este modelode ensino que escolhi para estudar; entre as minhas são demonstradas no quadro 01.opções de cursos e instituições de ensino, acreditoter escolhido a melhor opção; pensei muito antes QUADRO 01 - ESTATÍSTICAS GERAIS DO MODELOde escolher este curso e esta instituição de ensino. R quadrado Erro padrão R R quadrado ajustado da regressão 0,865 0,693 0,673 0,581 FONTE: Os autores3 Análise de dados O modelo aponta 67,3% de significância da variável dependente. No resultado, o modelo apresentou-se com3.1 Caracterização dos respondentes a rejeição da hipótese nula dos coeficientes das Como resultado da caracterização dos alunos, variáveis independentes em conjunto serem iguaistem-se: a zero, com um valor do teste F igual a 24, 635 e com Sig igual a 0,000. – idade média dos respondentes é de 22,04 anos (mediana – 22 anos; moda – 20 anos); As características do grupo como sexo, idade 78 (casos), sendo que o mais jovem conta e função não foram consideradas determinantes com 17 anos e o mais velho com 46 anos; na escolha da instituição, apontando significância do Teste T > 0,05. – Predominância do gênero masculino, com 61% dos alunos participantes; – 7% dos alunos não trabalham; 5% traba- lham em negócios familiares e 3% têm negócio próprio; O restante de 85% está divido entre as funções operacionais(43%), de supervisão(20%), gerentes de nívelRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |157
  • 158. 3.2 Atributos da instituição de ensino 3.3 Atributos relacionados ao mercado de trabalho Para o grupo de atributos da instituição deensino, foram encontradas as seguintes variáveis Para o grupo de atributos relacionados aoindependentes constantes do quadro 02. mercado de trabalho, foram encontradas asQUADRO 02 - COEFICIENTES – ATRIBUTOS DA INSTITUIÇÃO seguintes variáveis independentes constantes do DE ENSINO quadro 03. Std. QUADRO 03 - COEFICIENTES – ATRIBUTOS RELACIONADOSCoeficientes Beta T Sig Error AO MERCADO DE TRABALHOSegurança no Std.campus da 0,136 0,027 2,725 0,000 Coeficientes Beta T Sig Erroruniversidade Aceitação daInfraestrutura e universidade pelo 0,087 0,018 2,146 0,031instalações da 0,147 0,046 3,671 0,000 mercado de trabalhouniversidade Tradição e status daValor da 0,126 0,045 3,117 0,014 -0,093 0,034 -2,923 0,005 universidademensalidade FONTE: Os autoresImportânciado itempreocupação da 0,317 0,168 2,631 0,009 Os índices apresentaram relevâncias estatísticasuniversidade comseus alunos boas, com Sig inferior a 5%. As variáveis sobreImportância valor do diploma da universidade no mercadodo item -0,328 0,123 -2,321 0,037 de trabalho e tradição e status da universidade,sustentabilidade foram itens identificados como atrativos paraFONTE: Os autores a escolha da IES, indicando que a instituição já Os índices apresentaram relevâncias estatísti- possui uma marca reconhecida pelo mercado decas boas, com Sig inferior a 5%. As variáveis sobre trabalho e comunidade. Em tabulações paralelassegurança no campus da universidade, infraestru- ao software SSP2, verificou-se que o item quetura e instalações da universidade e localização, mede a aceitação da universidade pelo mercado deforam itens apontados como atrativos na escolha trabalho teve como respondentes 71% dos alunosda IES, colaborando com os dados levantados dos cursos superiores em Tecnologia em Análisepor Mund, Durieux e Tontini (2001); Alfinito e de Sistemas e Recursos Humanos (79%), além dosGranemann (2003); Bronemann e Silveira (2004). graduandos de Logística (93%). Do outro lado,Valor da mensalidade e sustentabilidade impac- os itens tradição e status da instituição, foramtam de maneira negativa, divergindo da pesquisa apontados por 89% dos alunos de Administraçãorealizada por Mund, Durieux e Tontini (2001), e e 81% dos alunos de Direito, indicando interessescolaborando fortemente com os resultados en- distintos, se considerados os cursos frequentados.contrados por Bronemann e Silveira (2004). Valor Mesmo percebendo-se motivações diferentesda mensalidade merece destaque uma vez que entre os cursos, o resultado converge com osapenas 14% dos entrevistados se julgam pertencer apontamentos feitos em pesquisa realizada poràs classes média e média alta. Alfinito e Granemann (2003). Responsabilidade social é um item percebido, porém de baixo158 |
  • 159. Revista da FAEimpacto no momento da decisão, sendo este 3.5 Atributos do curso escolhidoresultado diferente do encontrado por Alves(2003). Para o grupo de atributos do curso escolhido, foram encontradas as seguintes variáveis indepen- dentes constantes do quadro 05.3.4 Atributos relacionados aos motivos QUADRO 05 - COEFICIENTES – ATRIBUTOS DO CURSO pessoais ESCOLHIDO Std. Para o grupo de atributos ligados a motivos Coeficientes Beta T Sig Errorpessoais, foram encontradas as seguintes variáveis Curso de uma forma 0,387 0,063 4,661 0,000independentes constantes do quadro 04. geralQUADRO 04 - COEFICIENTES – ATRIBUTOS RELACIONADOS Sua percepção da AOS MOTIVOS PESSOAIS qualidade de ensino 0,324 0,051 3,991 0,000 do curso Std. Coeficientes Beta T Sig FONTE: Os autores Error Seus motivos Os índices apresentaram relevâncias estatís- pessoais de uma 0,198 0,072 2,918 0,000 ticas boas, com Sig inferior a 5%. A variável que forma geral trata do curso de uma forma geral foi um item Importância do item satisfação com percebido como atrativo para a escolha de um a universidade de 0,231 0,183 2,466 0,041 curso de graduação, e isto demonstra que de ensino por parentes, uma formal geral o estudante está satisfeito com amigos, conhecidos a Instituição.FONTE: Os autores 3.6 Questões genéricas Os índices apresentaram relevâncias estatísti-cas boas, com Sig inferior a 5%. As variáveis sobre Nesta análise destacou-se o item: curso deseus motivos pessoais de uma forma geral e satis- uma forma geral, sendo que os demais itens nãofação com a universidade de ensino por parentes, obtiveram importância significativa.amigos, conhecidos, foram itens percebidos como QUADRO 05 - COEFICIENTES – ATRIBUTOS DO CURSOatrativos para a escolha da IES, demonstrando ESCOLHIDOque o estudante tem opinião própria e que con- Std. Coeficientes Beta T Sigsidera opiniões de grupos próximos no processo Errorda escolha. Deve-se considerar a probabilidade Curso de uma forma 0,387 0,063 4,661 0,000 geraldeste grupo de alunos influenciarem através de FONTE: Os autoressua opinião sobre a instituição, outro grupo dealunos e assim sucessivamente, conforme pesqui-sas de Bronemann e Silveira (2004); Piñol (2004)e Lanzer (2004).Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |159
  • 160. Considerações finais por alunos de Administração e Direito. Os outros cursos manifestaram-se positivamente em relação Analisando-se os resultados apresentados, ao item localização da instituição. Estes foram ospode-se perceber que os alunos são predomi- fatores de destaque do quesito. Pela análise dosnantemente do sexo masculino, atuando como outros fatores do questionário, percebeu-se umacolaboradores do setor privado, principalmente importância relativa e generalizada dos mesmos,na função operacional. A idade encontra-se no com médias variando entre 3,97 e 4,68, indicandointervalo de 17 a 46 anos, havendo maior predo- que o aluno realmente pensa e avalia as possibili-minância da faixa etária acima de 24 anos, indi- dades no momento da decisão.cando um público diferenciado e mais maduro. Pela abordagem feita em relação ao mercadoQuase a totalidade dos alunos não recebe auxílio de trabalho há destaque para três itens: aceitaçãofinanceiro, assumindo a responsabilidade por sua da instituição pelo mercado de trabalho, tradiçãoformação. Os que recebem, frequentam respec- e status da instituição e importância do itemtivamente os cursos de Administração e Direito. responsabilidade social e meio ambiente. Nova- Este foi o primeiro objetivo do estudo que as- mente apontamentos diferentes entre os cursos:pirava caracterizar o grupo de estudantes e aponta ao primeiro item foram atribuídos notas entre 5para características distintas: alunos dos cursos e 7, com predominância dos cursos de Tecnolo-superiores em Tecnologia de Análise e Desenvol- gia em Análise de Sistemas, Recursos Humanos evimento de Sistemas e Tecnologia em Gestão de Logística. Tradição e status da instituição foramRecursos Humanos, juntamente com o curso de positivamente percebidos pelos alunos de Admi-Logística, não possuem alunos beneficiados por nistração e Direito, com predominância da nota 7.auxílios financeiros. Responsabilidade social é percebida, porém, não Em relação aos atributos da Instituição de decisiva. Alguns questionários (36 deles) apresen-Ensino as variáveis que focam a segurança no tavam observações ao lado da questão, indicandocampus da universidade, infraestrutura e insta- que a organização não utiliza adequadamente oslações da universidade e localização, foram itens recursos e como exemplo foi citado o exagero noapontados como atrativos na escolha da IES. Valor uso de papel, que poderia ser prontamente subs-da mensalidade e sustentabilidade influenciam tituído por correio eletrônico. Outra colocaçãode maneira negativa. Deve-se destacar o item é que a instituição gasta muito com panfletos evalor da mensalidade uma vez que a maioria dos que este valor deveria ser mais bem investido naalunos é o próprio responsável financeiro pela instituição.formação. Isso indica que impulsionado pela O quesito motivos pessoais evidenciou osmaturidade do grupo, e quase que totalmente itens: motivos pessoais de forma geral e percep-inserida no mercado de trabalho, deixou de ser ção de família, amigos conhecidos em relação àum atrativo em decorrência do peso de outros instituição. Novamente identificam-se posicio-fatores mais impactantes na realidade deste novo namentos diferenciados: os cursos superioresperfil de aluno. A sustentabilidade é percebida, em tecnologia destacam a opinião pessoal, emporém não se apresenta forte o suficiente para contraste com a percepção de alunos de Direitoinfluenciar a decisão. Cabe ressaltar que o item e Administração que valorizam mais a visão quesegurança no campus foi maciçamente apontado outras pessoas têm da instituição.160 |
  • 161. Revista da FAE Os atributos do curso escolhido permitiram No entanto, percebem-se motivações diferen-a verificação da convergência de opiniões entre os tes na escolha ao se cruzar os dados estatísticoscursos da instituição com destaque para os itens: com o curso frequentado. Nota-se que os cursoso curso de forma geral e a percepção pessoal em superiores em tecnologia e também o curso derelação ao curso. Logística, apresentam perfil de aluno diferente Nas questões genéricas, destaca-se o item: dos alunos dos cursos de Administração e Direito,curso de forma geral. Há consenso entre os res- sendo isto evidenciado pela avaliação dos itenspondentes de todos os cursos, indicando que o propostos.curso de forma geral, com sua grade, estrutura, Como contribuição, este estudo permite quecorpo docente é um fator importante e decisivo a instituição elabore estratégias distintas para ano processo de escolha, sem deixar de lados os atração de alunos, com abordagens diferenciadasdemais atributos analisados, uma vez que os mes- e direcionadas aos cursos ofertados.mos apresentaram média geral de 5,3. É importante ressaltar que o objetivo princi-pal deste trabalho é apontar os fatores mais im-portantes na atração de alunos para a instituiçãosob análise, e que isto foi devidamente alcançado.Não é objetivo deste estudo apontar ou analisar • Recebido em: 10/08/2010os fatores de pior desempenho no processo de • Aprovado em: 28/10/2010escolha dos alunos.ReferênciasALFINITO, Solange; GRANEMANN, Sérgio R. Escolha de uma IES em função da utilidade dousuário potencial: o estudante. In: ROCHA, Carlos H.; GRANEMANN, Sérgio R. (Orgs.). Gestão deinstituições privadas de ensino superior. São Paulo: Atlas, 2003. p.93-103.ALVES, Helena M. B. Uma abordagem de marketing à satisfação do aluno no ensinouniversitário público: índice, antecedentes e conseqüências. 2003, 286p. Tese (Doutorado emGestão) – Departamento de Gestão e Economia, Universidade da Beira Interior. Covilhã, Portugal,2003.______. As dimensões da qualidade no serviço educação: uma percepção dos alunos daUniversidade da Beira Interior. Revista Portuguesa de Gestão, Covilhã, v.4, n.2, p.78-89, ago.2000.______. O marketing das instituições de ensino superior: o caso da Universidade da BeiraInterior. 1999. 202p. Dissertação (Mestrado em Gestão) – Departamento de Gestão e Economia,Universidade da Beira Interior. Covilhã, Portugal, 1999.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |161
  • 162. Revista da FAEBARBETTA, Pedro A. Estatística aplicada às ciências sociais. Florianópolis: Universidade Federal deSanta Catarina, 2001.BRONEMANN, Márcia R.; SILVEIRA, Amélia. Marketing em instituições de ensino superior: apromoção do processo seletivo. In: MELO, Pedro A.; COLOSSI, Nelson (Orgs.). Cenários da gestãouniversitária na contemporaneidade. Florianópolis: Insular, 2004. v.1, p. 97-114.CARVALHO, Frederico A. de; LEITE, Valdecy F. Atribute importance in service quality: na empiricaltest of the PBZ conjecture in Brazil. International Journal of Service Industry Management,Bradford, GB, v.10, n.5, p.487-504, 1999.CIURANA, Anna M. G.; LEAL FILHO, Walter. Education for sustainability in university studies:experiences from a project involving european and latin american universities. InternationalJournal of Sustainability in Higher Education, v.7, n.1, p.81-93, 2006.FRANCO, M. A. R. S. Dinâmica compreensiva: integrando identidade e formação docente. In:ENDIPE. 10. 2000, Rio de Janeiro. Anais.... Rio de Janeiro: DP&A, 2000.HAIR JR, Joseph F et. al. Fundamentos e métodos de pesquisa em administração. Porto Alegre:Bookman, 2005.HIDES, Michael T.; DAVIES, J. John; JACKSON, Sue. Implementation of EFQM excellence modelself-assessment in the UK higher education sector – lessons learned from other sectors. The TQMMagazine, New York, GB, v.16, n.3, p.194-201, Nov. 2004.HOLANDA Jr., Ari; FARIAS, Iracema Q.; GOMES, Danielle M. de O. A. O valor do cliente comoelemento de marketing para instituições de ensino superior. BASE – Revista de Administração eContabilidade da Unisinos, v.3, n.2, p.102-111, maio/ago. 2006.KALSBEK, David H. Mudança transformadora através do “assessment”: uma visão que compensao esforço. In: MEYER JR., Victor; MURPHY, J. Patrick (Orgs.). Dinossauros, gazelas & tigres: novasabordagens da administração universitária, um diálogo Brasil EUA. 2.ed. Florianópolis: Insular,2003. p.123-150.KOTLER, P.; FOX, K. F. A. Marketing estratégico para instituições educacionais. São Paulo: Atlas,1994.LANZER, Letícia S. Estratégias de marketing de relacionamento para instituições de ensinosuperior: um estudo de caso na Universidade do Sul de Santa Catarina. 2004, 182p. Dissertação(Mestrado em Engenharia da Produção) – Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis,2004.LIMA, Mmanolita C. Globalização ou internacionalização do ensino superior? Revista de ESPM, SãoPaulo, v.13, n.12, p. 80-90, jul./ago. 2006.LUCCHIARI, Dulce Helena Penna Soares. O que é orientação profissional? Uma nova proposta deRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |162
  • 163. Revista da FAEatuação. In: LUCCHIARI, Dulce Helena Penna Soares; LISBOA, Marilú Diez; PRADO FILHO, Kleber(Orgs.). Pensando e vivendo a orientação profissional. São Paulo: Summus, 1993. p.11-16.MAINARDES, Edson. W. Atração e retenção de alunos em cursos de graduação emadministração das instituições particulares de ensino superior de Joinville/SC. 2007. 332p.Dissertação (Mestrado em Administração) - Universidade Regional de Blumenau. Blumenau, 2007.MALHOTRA, Newton K. Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. 3.ed. Porto Alegre:Bookmark, 2001.MAVONDO, Feelix T.; CHIMHANZI, Jacqueline; STEWART, Jillian. Learning orientation and marketorientation: relationship with innovation, human resource practices and performance. EuropeanJournal of Marketing, Birmingham, UK, v.39, n.11/12, p.1235-1263, Oct. 2005.MEZOMO, J. C. Gestão da qualidade total na escola. Petrópolis: Vozes, 1997.MICHAEL, Steve O. American higher education system: consumerism versus professorialism.International Journal of Education Management, Bradford, GB, v.11, n.3, p.117-130, Aug. 1997.MIRANDA, Cristina M. S.; DOMINGUES, Maria J. C. S. Razões para escolha de uma IES: umaabordagem sobre o perfil sócio-econômico de alunos interessados em cursar administração. In:ENANGRAD, 17., 2006, São Luís. Anais... São Luís: ENANGRAD, 2006. p.67-70.MUND, Aniceto L.; DURIEUX, Fabricia; TONTINI, Gerson. A influência do marketing na opção doaluno pela Universidade Regional de Blumenau. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DACOMPUTAÇÃO, 24., 2001, Campo Grande. Anais... Campo Grande, 2001. p.34-36.NAVARRO, Mercedes M.; IGLESIAS, Mstrta P.; TORRES, Pilar R. A new management elementfor universities: satisfaction with the offered courses. International Journal of EducationalManagement, Bradford, GB, v.19, n.6, p.505-526, Feb. 2005.OLIVEIRA, Silvio L. Tratado de metodologia científica. São Paulo: Pioneira, 2001.PALACIO, Asunción B.; MENESES, Gonzalo D.; PÉREZ, Pedro J. P. The configuration of theuniversity image and its relationship with the satisfaction of students. Journal of EducationalAdministration, Brisbone, AU, v.40, n.5, p.486-505, Oct. 2002.PIÑOL, Susana T. Janela do cliente-aluno nos cursos de pós-graduação. In: COLÓQUIOINTERNACIONAL SOBRE GESTÃO UNIVERSITÁRIA NA AMÉRICA DO SUL, 4., 2004. Florianópolis.Anais... Florianópolis, 2004.SEEMAN, Elaine D.; O’HARA, Margaret. Customer relationship management in higher educationusing information systems to improve the student-school relationship. Campus- Wide InformationSystems, Nova Deli, v.23, n.1, p.24-34, June 2006.SILVA, Roberta D. de O. Fazer ver e crer: valores de educação na publicidade e propaganda escolar?.In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 28, 2005, Rio de Janeiro. Anais... Riode Janeiro, 2005.TACHIZAWA, T.; ANDRADE, R. O. B. Gestão de instituições de ensino. Rio de Janeiro: FundaçãoGetúlio Vargas, 1999.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |163
  • 164. Revista da FAETHIES, Rosemar B. et al. A visão dos formandos em administração e dos empresários com relaçãoao mercado de trabalho. In: CONGRESSO VIRTUAL BRASILEIRO DE ADMINISTRAÇÃO, 2., 2005, SãoPaulo. Anais... São Paulo, 2005.TREVISAN, ROSI M. Marketing em instituições educacionais. Revista PEC, Curitiba, v.2, n.1, p.93-103, jul.2001/jul.2002.YANAZE, Mitsuru Higuchi. Novos desafios: o marketing educacional. Disponível em: <http://www.aec-sp.org.br>. Acesso em: 11 abr. 2010.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 147-164, jul./dez. 2010 |164
  • 165. Revista da FAEDiferenciais competitivos dos cursos superiores de tecnologiapela percepção dos acadêmicosCompetitive advantages of technology undergraduate coursesthrough the perception of students Adriana Galli Velho*ResumoEste trabalho teve por finalidade fazer um estudo das expectativas epercepções dos acadêmicos dos Cursos Superiores de Tecnologia, servindode subsídio para a construção de diferenciais competitivos. Para tanto,apresenta resultados de uma investigação utilizada através de pesquisaqualitativa de cunho exploratório, onde alunos ingressos e egressos destescursos expressaram sua opinião. Com base nas respostas foram construídascategorias com o objetivo de identificar as razões de escolha destas pessoaspor esta modalidade de ensino. A partir das categorizações realizadas edo referencial teórico utilizado neste trabalho, são apresentadas algumaspossibilidades de construção de diferenciais competitivos que possamcontribuir para a construção de um posicionamento estratégico exclusivopara a modalidade de ensino superior de tecnologia, visto que o atualcenário da educação superior aliado às demandas do mercado sãoextremamente propícios para este novo profissional.Palavras-chave: cursos superiores de tecnologia; diferenciais competitivos.AbstractThis paper aims to study the expectations and perceptions of undergraduatestudents Technology Courses, serving as a subsidy for the construction ofcompetitive advantages. For such, it presents the results of a qualitativeresearch of exploratory nature where former and undergraduate studentsof these courses expressed their opinions. Based on the responses given,categories were devised in order to identify the reasons for selectingthis type of education. Based on the established categorizations and thetheoretical framework used in this study, we have presented a numberof possibilities for building competitive advantages that can contributeto building a unique strategic positioning for technology undergraduatestudies, as the current scenario of higher education and market demandsare extremely conducive to this new professional.Keywords: technology undergraduate courses; competitive advantages. * Pós-graduada em marketing pela PUC-RS. Professora da FAE sévigné. Porto Alegre - RS. E-mail: agalli@ ig.com.brRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |165
  • 166. Introdução e como o profissional egresso se sente diante desse novo cenário. Percebe-se que a procura Hoje, o mundo vive na era da globalização, pelos Cursos de Tecnólogos vem crescendo em grandes proporções nos últimos anos, bem comoe as empresas que querem sobreviver neste o oferecimento destes cursos, vide Censo Superiormercado têm que se ajustar aos novos métodos de 2004:de gestão que possam atender a sua demanda. Há apenas 6 anos, em 1999, os Centros de EducaçãoDessa forma, as exigências que o mercado impõe Tecnológica e as Faculdades de Tecnologia ofereciamnecessitam de profissionais mais qualificados em no País 74 cursos. Dois anos mais tarde, em 2001, jááreas específicas. A educação, que é setor de base havia 183 cursos, representando um crescimento deneste processo, tem papel fundamental, pois é o 147,3%. O crescimento não parou aí. Mais dois anos secondutor destas transformações. passaram e em 2003 foi possível constatar que já havia 495 cursos, representando um crescimento de 170,5% Ora, se a educação é a base dessas mudanças, com relação ao ano de 2001 e de 568,9% em relaçãoela também tem que se modernizar e criar vanta- ao ano de 1999. O Censo da Educação Superior degens competitivas. No caso do ensino superior já 2004 revela que os Centros de Educação Tecnológica e Faculdades de Tecnologia ofereceram 758 cursos - umexiste uma aceleração com a cadeia globalizada, crescimento de 53,1% no ano. Isto indica que, em seisque abrange o ensino a distância, universidades anos, o Brasil decuplicou o número de cursos oferecidosvirtuais, de conhecimento específico e aplicação por esta modalidade de organização acadêmica (INEP,de novas tecnologias. Tudo isso é um celeiro de 2004, p. 37).aprendizagem. Neste sentido, as Instituições de Cabe ressaltar o fato de que estes cursosEnsino Superior terão de acompanhar a evolução devem estar vinculados ao mundo do trabalho,do mercado, prestar atenção nos cenários para portanto o tecnólogo deve estar em sintonia comterem condições de exercer uma gestão eficiente. as novas tecnologias e as complexidades deste As IES precisam se adequar a esse novo ambiente. As propostas apresentadas pelos Planosambiente. Existe uma demanda por formação de Desenvolvimentos Institucionais - PDIs - são deeducacional capaz de conferir novas habilidades que o próprio corpo docente seja valorizado pore competências aos profissionais que estão sendo profissionais com grande experiência no mundobuscados pelo mercado. Aliado a isso, a desbu- do trabalho e que tragam aos discentes, além dorocratização do ensino superior, seguindo uma conhecimento acadêmico, o que existe de maistendência mundial dos países desenvolvidos e em moderno em relação às novas práticas e novasdesenvolvimento faz com que o tempo de duração tecnologias.seja fator determinante na escolha pelos cursos A possibilidade de evidenciar as expectativasde tecnologia. Eles foram criados para atender a dos participantes poderá alavancar o processodemandas atuais e potenciais do mercado. Sendo de efetividade dos cursos superiores de curtao mercado cíclico e dinâmico, os cursos também duração, pois poderá alicerçar o planejamento etêm mais facilidade para se adaptar e atualizar o desenvolvimento dos mesmos, contribuindo,suas ementas. dessa forma, para que eles possam obter um po- A proliferação desta modalidade de ensino e a sicionamento estratégico valioso e exclusivo noabertura de novas Instituições de Ensino Superior mercado altamente competitivo, tendo semprepromovem um questionamento quanto a quais em mente que “o ajuste estratégico, entre mui-são as expectativas dos que procuram estes cursos tas atividades, é fundamental não apenas para a166 |
  • 167. Revista da FAEvantagem competitiva mas também para a sus- nesta época e até 1820, os cursos se estendiamtentabilidade dessa vantagem” (PORTER1, 1996 ao Rio de Janeiro e à Bahia e iam de economia àapud MITZBERG et al., 2006, p.38). Para tanto, é agricultura, passando por química e matemática,necessário ouvir as pessoas que estão ingressando história e filosofia. Os cursos de direito forame terminando estes cursos. criados após a Independência, já em São Paulo, em 1827, por D. Pedro I. Com o fim do Império e a Proclamação da1 Breve histórico da educação República começou a formar-se uma consciência em relação à educação, que a tratava como o superior tecnológica e a prestação ressurgimento da identidade nacional. Assim, em de serviço educacional neste 1912 surgia a Universidade Livre de São Paulo, a contexto primeira com moldes populares ligada a uma Ins- tituição de Ensino Superior. Já em 1920 inicia-se um processo de re-organização e reunião desses cursos criados por D. João VI, dando origem, só1.1 Histórico da educação superior nos meados dos anos 20, às primeiras IES. Nesta tecnológica no Brasil época foi criada pelo governo federal a Universi- dade do Rio de Janeiro, tendo por base a incor- A definição de Universidade dentro da histó- poração das escolas profissionais Politécnica, deria pode-se dizer que iniciou com o termo Acade- Medicina e de Direito.mia, que foi fundada por Platão em 387 a.C.. De Em 1932 foi lançado um Manifesto ao Povofato, as primeiras IES, com uma formatação mais e ao Governo, contendo programa de reforma dadefinida, surgiram na Europa, no século XII, com educação, criando universidades de “verdade”.os cursos de Direito, Medicina e Teologia. Universidades estas de cunho realmente científi- Segundo Ana Walesca Mendonça (2000), na co, popular, das ciências e das artes. Desta novaAmérica Latina, enquanto as colônias espanholas mentalidade de educadores surgiu, em 1934, ajá possuíam universidades, o Brasil não oportu- Universidade de São Paulo (USP) e, em 1935, anizava este benefício. Quem quisesse seguir os Universidade do Distrito Federal (UDF). Com estaestudos leigos (distintos dos do Clero) só vislum- última rompe-se o modelo até então utilizado debraria essa possibilidade se atravessasse o mar até agregação de escolas profissionalizantes. As es-a metrópole, em Portugal (Coimbra e Évora). Só colas aí reunidas propõem-se a unificar o ensino.em 1808, com a transferência da corte portuguesa Todo este movimento oriundo do Manifestopara o Rio de Janeiro, começaram as movimenta- de 32 dá origem à Escola Nova. Em 1937 surgeções em torno da criação de cursos de anatomia, a Universidade do Brasil, modelo de universidadecirurgia e engenharia, porém todos de cunho ao qual todas as instituições deveriam se adequar.militar, com a intenção da defesa do rei. Também Porém, com o passar dos anos, a UB perdeu o seu foco principal de unificação e as instituições passaram novamente a se expandir isoladamente.1 PORTER, Michael E. Vantagem competitiva: criando e Já dos anos 50 a 60, com o governo populista, as sustentando um desempenho superior. São Paulo: Campus, IES passaram a se expandir de forma acelerada. 1996.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |167
  • 168. Este “boom” do ensino superior propiciou, em mais contestadas que possam ser as tendências1968, a Reforma Universitária, com a Lei 5.540/68, de mercado, com o uso intensivo de tecnologias,que visava à adequação do ensino superior devido comunicação e informação e a revolução da Inter-ao novo panorama econômico-social do Brasil. Aí net, elas chegaram para integrar o modelo antigocomeça a se desenvolver a ideia de departamento de IES ao conceito atual e virtual.e o sistema de créditos, com o surgimento dos Para que se possa buscar um entendimentoprimeiros cursos de Pós-Graduação e também com entre estas novas linhas de ensino, precisa-seo direcionamento da universidade para o mercado também analisar a postura das Instituições emde trabalho. A nova universidade toma forma, os relação à prestação de serviço, levando em contaprofessores passam a ter melhores condições de a estratégia, inovação e diferenciação que sãotrabalho e o ensino superior passa a ter uma visão necessárias para sua sustentabilidade. A seguirmais humanista. A reforma é também curricular. procurou-se mapear este assunto. Já nos anos 70, através do Conselho Federalde Educação, o ensino superior sofre um processode massificação, com as instituições se alastrando 1.2 Evolução do serviço educacional:através do aval da iniciativa privada. Esta é a terceira estratégia, inovação e diferenciaçãogeração das IES, que se expande até os anos 90, Estratégia é um conjunto de decisões quequando há uma demanda crescente em torno orientam as ações organizacionais, dentro dodo ensino superior e muita facilidade propiciada contexto em que está inserida. Segundo Porterpelo governo, gerando uma comercialização do (1996), as organizações devem ser flexíveis paraensino. A partir de meados dos anos 90, este novo atingir as melhores práticas, através das mudançasmodelo de IES visava atingir, além da expansão, competitivas que se apresentam.a diversificação, aliadas à avaliação, supervisão, A estratégia competitiva significa ser diferente. Significaqualificação e modernização (MENDONÇA, 2000, escolher deliberadamente um conjunto de atividadesp.132-149). diferentes para entregar um mix único de valores No final do século XX houve uma expansão (PORTER, 1996, p.36).de novos Cursos e novas Instituições, iniciando A análise deste contexto é muito importanteo processo da quarta geração de IES, inclusive para se formar um prognóstico sobre os riscosoferecendo uma nova modalidade, os chamados e oportunidades a serem enfrentados. AspectosCursos a Distância, técnica que permite que o legais, econômicos, políticos, sociais, demográfi-estudante não esteja fisicamente no ambiente cos, culturais e tecnológicos devem ser avaliados.de ensino, usando como ferramenta a tecnologia Deve-se conhecer profundamente a concorrênciada Internet. Outra modalidade surgida foram dentro de aspectos como qualidade, estrutura,os Cursos Tecnológicos, cujo tempo de duração desempenho, estratégia, recursos e capital inte-é menor que o dos Cursos de Bacharelado, lectual. O reconhecimento das forças e fraquezaspermitindo uma rápida absorção do profissional internas é fundamental para atingir vantagempelo mercado. competitiva. A satisfação do cliente é premissa Somado a isso, existe uma tendência de re- para a permanência no mercado.novação mercadológica que imprime a também Trazendo estes conceitos para o mundoproliferação de novos cursos. O fato é que, por educacional, visualiza-se que, no século XIX, o168 |
  • 169. Revista da FAEmodelo de gestão adotado nas Instituições de com o planejamento contínuo e deve-se “[...] agirEnsino era o da Administração Científica – Taylo- rumo a objetivos inovadores e relevantes para arismo –, baseado no planejamento, preparação, comunidade na qual está inserido” (grifo nosso).controle e execução, ainda hoje utilizado, porém Conseguir vantagem competitiva neste am-já considerado por muitos ultrapassado. Atual- biente é tarefa árdua nos dias atuais, é enxergarmente, as organizações estão mais voltadas para onde se pode atuar, em quais mercados, de queo conhecimento. maneira. Neste contexto, as Instituições de Ensino O sistema educacional acompanha os mo- devem observar o baixo custo no desenvolvimentodelos capitalistas de gestão, portanto sempre se de seus cursos e a conseqüente oferta de preçosbuscou uma equivalência também entre termos atrativos ao seu cliente, aliando qualidade noutilizados, então, quando se lê sobre os modelos serviço e benefícios aos alunos.de Taylor e também sobre os modelos de Fayol, As Instituições de Ensino Superior não fogemtem-se em mente que a esta análise apresentada. E, além disso, ainda [...] conceitos e práticas normalmente utilizados na são geridas por normas e leis governamentais indústria como direção por objetivos, administração que, a partir dos anos 80 (Constituição Federal científica etc. passaram a ser habituais nos tratados de 1988), vêm se intensificando na condução de de pedagogia e nos programas de formação em administração escolar” (VIEIRA, 2003, p.39). políticas educacionais indicadas pelo Governo, como a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Aí se confirma a necessidade que a educação Nacional – LDB (Lei 9394/1996).tem de estar em constante atualização, inclusive Consequentemente o perfil da educação su-com o mundo empresarial, onde as mudanças perior no país vem se transformando e se expan-corporativas ocorrem com frequência. dindo. É visível a política de expansão promovida Os fatores econômicos também regem estas pelo governo brasileiro, alavancada por recursosmudanças e conduzem a uma maior flexibiliza- oriundos do Banco Interamericano de Desenvol-ção nos mercados de trabalho. As Instituições vimento (BID), o qual fomenta a reforma educa-de Ensino devem ser vistas como empresas, até cional, através de políticas de disseminação depara sua própria sobrevivência, porque além do novos currículos, desenvolvimento de estratégiasaspecto pedagógico que norteia o negócio, elas e planos de expansão.devem ter estruturalmente um Planejamento Es- O cenário hoje é de uma maior oferta detratégico, estar voltadas para a competitividade, serviços, preços diferenciados, metodologias no-produzir ações de marketing. vas e estratégias mercadológicas diferentes para As decisões estratégicas são aquelas que determinam a cada Instituição. O foco atual é no mercado, no direção geral de um empreendimento e sua viabilidade final à luz das mudanças possíveis, imprevisíveis e negócio, no cliente, nos serviços e na qualidade. irreconhecíveis que podem ocorrer nos principais Outro dado importante a ser considerado é a ambientes adjacentes (MINTZBERG; LAMPEL; QUINN, globalização, segundo a qual o que rege os siste- 2006, p. 29). mas é a tecnologia, a rapidez da informação e os Segundo Colombo (2004, p.18), a estratégia novos modelos de gestão. Há uma necessidadecria condições para se atingir “uma posição de adequação, uma demanda social em busca deexclusiva, competitiva e sustentável ao longo do um maior dinamismo.tempo”. Mas a sustentabilidade só é atingidaRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |169
  • 170. É neste novo contexto que as Instituições fazendo parcerias com outras IES), otimi-de Ensino Superior – IES, amparadas por novas zação das instalações (utilização dos trêsleis, vêm se adaptando e inovando de uma forma turnos), corte de pessoal (reengenharia),mais arrojada para oferecer um novo ambiente informatização e automação de processos,a quem busca o conhecimento de forma mais redução da jornada de professores, terceiri-direta, capaz de oferecer vantagem competiti- zação e quarteirização, criação de unidadesva. Assim, manter-se neste âmbito não é tarefa estratégicas de negócios;fácil. A concorrência cresce de forma acelerada, c) ampliar geograficamente, com novas uni-criando um mercado tão atrativo e, com facili-dade de acesso como o Ensino a Distância – EAD dades (novos campi), o que depende dae os cursos superiores de curta duração – Cursos capacidade de investimento da instituição.Superiores de Tecnologia. Portanto, ter destaque A localização é muitas vezes elemento- cha-e sustentabilidade requer ajustes. ve na escolha do aluno pela Instituição; Os currículos dos cursos também sofrem d) desenvolver o mercado: descobrir novosconstantes readequações para atender as mu- usos para os produtos que já existem;danças dessa nova tendência, com novos campos e) desenvolver produtos e serviços: novosprofissionais e áreas específicas. Todas essas mu- cursos;danças que o setor educacional vem promovendo f) diversificar: novas modalidades de produ-no mercado devem ser permeadas por variáveis tos (EAD, educação corporativa, ensinoque garantam sua sustentabilidade. Dessa forma,não podemos deixar de falar em estratégias, com- técnico);petitividade e qualidade em serviços educacionais. g) ampliar o target: atrair novos públicos, A administração de sucesso prospecta à Ins- como, por exemplo, clientes nas classes Dtituição antecipar-se às ameaças e problemas que e E, mais velhos, executivos;possam surgir, podendo aproveitar oportunidades h) inovar: inovação é a estratégia de cres-para seu desenvolvimento. Ao pensar seu plane- cimento mais abrangente e significativa,jamento estratégico, a IES pode investir numa quando obtém êxito. Ela vem ao encontrosérie de estratégias que, de acordo com seu perfil das necessidades do mercado e é ele quee de acordo com o perfil de seus clientes, podem deve regê-la.ajudá-la a obter a maior precisão para as ações a Os autores também listam estratégias deserem realizadas. diferenciação com base: Ryon Braga e Carlos Monteiro, através da Re- a) na tecnologia;vista Aprender Virtual (2008) enumeram algumas b) no relacionamento com o aluno;destas estratégias: c) no fortalecimento da marca; a) aumentar a penetração no mercado: cap- d) na educação continuada; tando alunos que tradicionalmente iriam para a concorrência, ou seja, aumentar sua e) na especialização dos cursos; fatia de mercado (market share), através de f) na criação de cursos para atender a deman- ações de marketing e vendas; das específicas; b) reduzir preços a partir de redução dos cus- g) nas parcerias com a iniciativa privada; tos, ou seja, utilizando economia de escala h) no prolongamento do relacionamento com (otimizando serviços administrativos ou o cliente;170 |
  • 171. Revista da FAE i) na formação de uma estrutura de pesquisa; cidade na informação. A partir daí foram abertas j) nos cursos diferenciados. as perspectivas para a criação dos Cursos Técnicos Algumas ações de marketing também devem de Nível Superior, hoje denominados Cursos Supe-ser citadas, como: atendimento aos alunos por riores de Tecnologia, que preparam o profissionalmeio de Central de Atendimento; criação de um para ingresso imediato no mercado de trabalho.Centro de Contato para prospecção de alunos; Existe uma legislação cada vez mais definida sobrecriação de unidades estratégicas de negócios o assunto, regulamentando e assegurando certos(UEN) para ações de comunicação, promoção e deveres e direitos às IES que oferecem Cursos derelacionamento; programas de relacionamento Tecnologia.com escolas e empresas, etc. A Lei 9394/96 (Lei das Diretrizes Básicas – Tudo isso deve ser bem avaliado, principal- LDB) trata da questão da educação profissionalmente porque, no caso dos Cursos de Tecnólogos, integrada ao trabalho, ciência e tecnologia. “Oa competitividade do setor vem crescendo, em Decreto 2208/97 fixa os objetivos da educaçãofunção dos incentivos, por parte do governo, profissional” (BRASIL, 1996, p.3). Dentre eles, o deque esta modalidade de ensino superior vem maior destaque é “Promover a transição entre arecebendo. escola e o mundo do trabalho, capacitando jovens e adultos com conhecimentos e habilidades gerais e específicas para o exercício das atividades pro-1.3 Cenário do ensino superior no dutivas.” (BRASIL, 1996, p.3). Em nível tecnológico Brasil são os Cursos Superiores de Tecnologia oferecidos a egressos do ensino médio e técnico, previstos O mundo vive ciclos de ordem econômica, para áreas especializadas, que os diplomam comopolítica e social, e a sociedade se adapta a esses Tecnólogos.ciclos, visando suprir as necessidades vigentes O que é evidente nesta análise é que a socie-do período. A educação está inserida de forma dade começou a demandar uma maior agilidadedireta nestas transformações. Na sociedade Pós- nos processos educacionais e a integrá-los cadaModerna o que se busca é flexibilidade, novas vez mais às necessidades mercadológicas. Comformas de trabalho e educação. E um novo aluno esta linha de raciocínio, as faculdades de Tecno-também surge e se adapta às novas tendências logia são vistas como facilitadoras, podendo criarde ensino e mercado. cursos específicos conforme requer a necessidade No Brasil, a preocupação em rever os con- do momento e, ao mesmo tempo, extinguir cursosceitos e premissas na Educação Superior vem dos que já não estão mais de acordo com a atual de-anos 60, quando a Lei 5.540/68, que fixa as nor- manda do mercado. Esta agilidade aliada à espe-mas de organização e funcionamento do Ensino cificidade dos cursos pontua a favor do Tecnólogo.Superior, já previa a abertura de novos cursos Outro ponto favorável está no valor das men-(art. 18) e mudanças na duração destes (art. 23), salidades; os cursos de curta duração oferecematendendo às exigências específicas do mercado ao aluno um menor número de parcelas a pagar,de trabalho. despendendo menor valor para sua formação. A Esta Reforma Universitária oportunizou ao acessibilidade neste sentido atinge uma maiorEnsino Superior uma maior agilidade e especifi- parte da população do que os tradicionais cursosRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |171
  • 172. de graduação, em que o aluno despende de mais Alves (2003, p.52), este tipo de pesquisa permitetempo e dinheiro para completar seus estudos. De o uso de entrevistas com pessoas que já tiveramqualquer forma, a graduação em nível de bacha- experiência com o objeto estudado.relado encaminha o profissional para o lado mais Os resultados são aqui apresentados con-científico, com uma formação mais abrangente. forme os dados que foram coletados através de Mas existem diversas dificuldades enfrenta- entrevistas estruturadas com alunos ingressos edas pelos profissionais graduados nos cursos de egressos de Cursos Superiores de Tecnologia. Taiscurta duração como: dados, neste momento, serviram de parâmetro [...] rejeição por parte do mercado de trabalho, para elucidar quais são as expectativas dos alunos não aceitação pelas instituições, órgãos de classe ingressos e quais são as percepções dos egressos e profissionais e pelas próprias empresas; número quanto a sua escolha por esta modalidade de crescente de alunos desejando continuar seus estudos ensino superior. Dessa forma foi feita uma análise em nível de graduação, etc. [...] (BASTOS, 1991, p.24). de conteúdo com o objetivo de analisar categorias Contudo, um avanço aparentemente peque- e, assim, ter uma visão mais específica do que erano, por se tratar da troca de denominação de mais evidente. A partir disso observou-se, então,Centro de Educação Tecnológica para Faculdade que as variáveis que mais se destacaram ao longode Tecnologia disposta no artigo 3º do Decreto das entrevistas foram: tempo, foco, mercado de5225/2004, tornou-se decisiva para a consolidação trabalho e valor (no sentido financeiro).do profissional em não ser mais visto como um Tanto os alunos ingressantes quanto os queTécnico de Nível Superior, e sim um respeitável estão finalizando, ou já são egressos dos CursosGraduado. Superiores de Tecnologia, afirmam que o fator tempo é o principal determinante na sua escolha. O fato de poderem concluir um curso superior em2 Resultados da pesquisa dois anos em média é muito estimulante quando vão optar por este tipo de curso. Algumas percepções surgidas referentes ao A pesquisa elaborada para o desenvolvimento tempo:deste artigo foi qualitativa de cunho exploratório,pois tem como alicerce a indagação à realida- Ingressos:de, baseada em teoria e método, neste caso, a “A possibilidade de concluir um curso supe-identificação das percepções dos indivíduos em rior num curto período conta bastante. Comorelação à forma como os Cursos de Tecnólogos o mercado está bastante competitivo, tem-se avão projetá-los no mercado. vantagem de, em quatro anos, se especializar em A pesquisa qualitativa visa à construção da duas áreas distintas.”realidade, sem quantificá-la. Considera o ambien- Egressos:te como principal elemento gerador de dados. “... carga horária adequada, tornando aÉ meramente descritiva, não utiliza métodos conclusão do curso mais rápida, e automaticamenteestatísticos. É baseada em pequenas amostras, implica também em[sic] curso reduzido em relaçãoque proporcionam percepções e compreensão aos cursos de bacharelado e licenciatura...”do contexto do problema. O método utilizado foio da pesquisa exploratória, pois, de acordo com172 |
  • 173. Revista da FAE “O tempo para conclusão é um dos grandes “... foi o fato de ser um curso específico,motivos (diferencial) que me levou a escolher focado em uma área apenas, não havendo, assim,um curso tecnólogo; por ter curta duração, te uma abrangência demasiada, como o curso dequalificar para o mercado, ofertar com mais Administração, por exemplo. Em segundo lugar,brevidade a oportunidade de ingressar em uma a área que eu escolhi é uma área que está em defasagem, com falta de profissionais habilitadosPós-Graduação, enfim, quem gosta de uma vida e focados a suprir necessidades de recursosdinâmica com certeza entenderá o motivo de humanos.”quem escolhe um curso tecnólogo.” Egressos: Conforme Niskier e Nathanael (2006, p.32), “É um curso focado no mercado, com profes- o mercado tradicional para graduados está saturado. sores altamente ligados no mercado de trabalho, Nossos jovens universitários perderam a paciência com os cursos longos, que não garantem nada ao seu término. e muitas vezes funcionários de grandes empresas, e de decisões estratégicas, pessoas com alto grau O autor adverte para o fato de que nada de informação e praticidade em colocar em práticagarante a empregabilidade, nem os tradicionais conhecimentos jamais passados em um bachare-cursos de bacharelado. O mercado está saturado, lado, a experiência,...”então demanda áreas específicas, não trabalha É notório que as pessoas aliam uma categoriamais com o generalismo. Para atender a esta a outra. Vimos aí que, do tempo, aliado aonova demanda é necessário focar em categorias foco, passamos a observar que os entrevistadosespecíficas e desenvolvê-las ao máximo, e isso o passam também a vincular o foco ao mercadotecnólogo consegue rapidamente, seguindo um de trabalho, trazendo uma nova categoria àcurso de curta duração com uma grade curricular pesquisa.focada na sua escolha. Porém, neste item, percebe-se que quem Podemos constatar que o foco, que é a segun- optou por Cursos de Graduação Tecnológica temda variável mais citada, está diretamente ligado a percepção de que o mercado ainda está despre-à escolha pelo tempo, pois as duas categorias parado para absorvê-lo. Há o sentimento de queandam juntas, estão atreladas. Os alunos e os existe um despreparo, uma falta de entendimentoegressos afirmam que, durante o período em que de que este profissional possui um curso superiorestão cursando, estão direcionados estritamente e que possui alta qualificação em áreas específicas.para o que pretendem aprender. A especificidade Outra preocupação foi quanto ao fato de a forma-dos cursos de tecnólogos cria expectativas de uma ção nestes cursos não permitir aos profissionaisinserção mais rápida no mercado de trabalho, visto concorrer a concursos públicos.que as disciplinas oferecidas são voltadas ao mun- Vejamos algumas percepções quanto aodo do trabalho e às exigências atuais do mercado. mercado de trabalho: Seguem algumas considerações que fixam o Ingressos:foco como determinante: “Apesar de saber que este tipo de curso, por Ingressos: ser muito novo no mercado, sofre ainda muito “A dinâmica do curso é bastante atrativa. preconceito por acharem que ele não possui oAs aulas são mais diretas e nos dá [sic] uma base mesmo “peso” de um curso normal de faculdade,sólida para atuarmos com mais conhecimento espero criar base para o mercado de trabalho,dentro da área escolhida.” de abrir novas portas, pois ele traz muitas idéias inovadoras.”Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |173
  • 174. Egressos: “...os cursos não têm muita aceitação no mer- Egresso:cado de trabalho (principalmente em programas “Também acredito que estes cursos sejamde estágio e trainee de grandes organizações);... uma tendência de mercado, não só pelos pontospreconceito em relação aos cursos de tecnólogos que já mencionei, mas também em relação a(existem pessoas que comparam um curso de custos e deslocamentos cada vez mais crítico[sic].”tecnólogo com cursos técnicos, achando que é a É inegável que estes cursos sejam mais aces-mesma coisa.” síveis em relação aos valores, mas isso se justifica “Tenho conhecimento que o tecnólogo não pela própria condição de tempo mais reduzidome permite prestar concursos públicos...” para a sua conclusão. Então, o custo do curso De acordo com Bastos (1991, p.50-51), os ficaria em segundo plano, não sendo condiçãoCursos Superiores de Tecnologia não são meros relevante na busca por este tipo de graduação.cursos profissionalizantes, pois, através de seus O resultado da pesquisa foi extremamentecurrículos, selecionam os conhecimentos essen- significativo para perceber que os alunos que op-ciais para as bases tecnológicas para atender à tam por Cursos Superiores de Tecnologia queremdemanda do mercado em “aproximar as funções agilidade nos processos e inserção mais rápidade concepção e execução, do técnico e do prático no mercado de trabalho. Já o preço, que antese, conseqüentemente, diminuir a distância entre poderia ser determinante, apareceu como poucoo trabalho intelectual e o manual.” importante no peso da escolha. Bastos (1991) chega a citar que as associaçõesprofissionais consideram o tecnólogo como um“concorrente indesejável no campo profissional.” 3 Algumas reflexõesMas ele encara isso como positivo, visto que ostecnólogos carregam consigo uma formação que Os acadêmicos entrevistados, tanto ingressosconsegue projetar a teoria sobre a prática, o que quanto egressos, demonstraram uma coesão naslhes possibilita desenvolver pensamento crítico suas respostas, evidenciando, curiosamente, quee lhes dá condições para enfrentar desafios, as expectativas dos entrantes transformaram-sevisto que eles celebram as vivências do mercado em percepções ao término do curso. Ou seja, osconstantemente em sua formação. dois pólos pesquisados estão bem afinados na sua Por último, a pesquisa revelou o quesito valor escolha por esta modalidade de ensino.(no sentido de custo) como condicionante para a Realmente percebe-se que os Cursos Supe-procura dos cursos de tecnólogos. O que durante riores de Tecnologia encontraram seu espaço noo trabalho se pensava ser um dos principais deter- mercado educacional, possibilitam a muitos aminantes de escolha apareceu como apenas uma obtenção de um curso superior em menor tem-observação por parte de dois dos entrevistados. po, variável esta condicionante para sua escolha, conforme se justificou na pesquisa. Ingresso: A especificidade deste ensino, focado numa “... e com um valor mais acessível que os área determinante, também surgiu nas percep-outros cursos existentes, buscando ampliar meus ções dos tecnólogos como fator especial nestaconhecimentos profissionais e pessoais, dividir modalidade. Já a variável valor, no sentido deexperiências para o aprendizado.”174 |
  • 175. Revista da FAEcusto, mostrou-se pouco significativa para a es- A educação profissional tem por objetivos: I - promover a transição entre escola e o mundocolha destes cursos, contrariando a idéia inicial, do trabalho, capacitando jovens e adultos comsegundo a qual se pensava que custo fosse um conhecimentos e habilidades gerais e específicas paracondicionante. o exercício de atividades produtivas: II - proporcionar O que foi apontado na pesquisa, causando a formação de profissionais, aptos a exercerem atividades específicas no trabalho, com escolaridadepreocupação, é a percepção de que os cursos correspondente aos níveis médio, superior e de pós-ainda não são bem recebidos pelo mercado. graduação; III - especializar, aperfeiçoar e atualizar oNeste sentido cabe salientar a importância de trabalhador em seus conhecimentos tecnológicos; V -desenvolver um trabalho esclarecedor junto ao qualificar, reprofissionalizar e atualizar jovens e adultos trabalhadores, com qualquer nível de escolaridademercado, para que seja fechada esta lacuna. O visando a sua inserção e melhor desempenho noque poderia ser feito em parceria entre as IES e o exercício do trabalho (BRASIL, 1996).mundo empresarial. De acordo com a Revista Aprender Virtual O Curso Superior de Tecnologia não veio (2008), existem faculdades, como a IBTA (Sãopara substituir o Curso de Bacharelado, mas sim Paulo) e o SENAI, que firmam parcerias com aspara transitar junto com este último como opção empresas para que elas ajudem a compor asde ensino superior. Até porque são modalidades bases curriculares dos cursos, adaptando-os àscompletamente diferentes no seu foco. suas necessidades, tornando-os extremamente A partir destas percepções pode-se sugerir focados no que o mercado demanda. Isso tornaàs Instituições que organizem um trabalho em o egresso um profissional em potencial para aconjunto com o mercado de trabalho, trazendo inserção nestas empresas depois de formado. Sãoas empresas para dentro das faculdades para queajudem, inclusive, a montar os currículos dos cur- ações assim que se esperam das instituições, poissos ofertados. As exigências do mercado podem isso dará maior visibilidade ao tecnólogo e maiorditar quais os cursos devem permanecer e quais entendimento por parte do empresariado. Outradevem ser substituídos. É muito importante que se forma de estímulo seria trazer estas empresas parafaça este trabalho até mesmo para conscientizar o ministrarem palestras dentro das faculdades aosempresariado e aproximá-lo do tecnólogo. O novo alunos para permear um intercâmbio entre eles.muitas vezes precisa ser adaptado, e as parcerias Por outro lado, a pesquisa também sugeresão essenciais para que o sucesso ocorra para parâmetros significativos para ações de marketingambos. Já é tempo de quebrar o paradigma do para captação de um público interessado nestaensino superior, adaptar os modelos mentais, pois a modalidade de ensino superior. A necessidadeverdade é que existe um novo perfil de trabalhador de atender às necessidades, desejos e demandase um novo mercado, que clama por uma forte es- deste público ficou evidente na pesquisa quandopecialização. Os Cursos de Graduação Tecnológica os próprios alunos trouxeram o tempo, o foco esurgem, então, como a porta para a inserção para o mercado de trabalho como determinantes naestes novos moldes de mercado de trabalho. sua escolha. Para tanto é dever da educação promover Segundo Kottler e Fox (1994, p.47):a transição entre a faculdade e o mundo do Marketing destaca a satisfação dos consumidorestrabalho, conforme o que reza o Artigo 1º da ao responder a suas necessidades e desejos. UmaLei nº 9.394/96, regulamentada pelo Decreto nº instituição educacional que responde ao mercado faz todos os esforços para sentir, atender e satisfazer às2.208/97: necessidades e aos desejos de seus consumidores eRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |175
  • 176. públicos dentro das restrições de missão e orçamento. Afinal, se foi um ensino aprovado pelos ór- Cada instituição deve determinar qual nível de resposta gãos competentes, e se há público para absorver deseja e, depois, implementar programas para alcançar este nível de satisfação. esta demanda, devemos nos preocupar em inserir esses profissionais respeitadamente no mercado. O que também realmente é necessário é cons-tituir uma literatura urgente neste sentido, paraque se tenha mais embasamento para continuartratando deste assunto e dar mais respaldo ao • Recebido em: 27/06/2010profissional que opta por este ensino. • Aprovado em: 30/11/2010ReferênciasALVES, Magda. Como escrever teses e monografias. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.APRENDER VIRTUAL. Portal do ensino superior. Disponível em: <http://www.aprendervirtual.com.br/noticiaInterna.php?IDx=102&ID=53>. Acesso em: 30 mar. 2008.______. Portal do ensino superior. Disponível em: <http://www.aprendervirtual.com.br/noticiaInterna.php?IDx=60&ID=102>.Acesso em: 22 out. 2008.BASTOS, João Augusto de S. de A. Cursos superiores de tecnologia: avaliação e perspectivas deum modelo de educação técnico-profissional. Brasília: Senete, 1991.BRASIL. Lei n° 5540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organização e funcionamentodo ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. RepúblicaFederativa [do] Brasil, Brasília, 28 nov. 1968. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L5540.httm>. Acesso em: 20 abr.2008.______. Lei n° 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educaçãonacional. República Federativa [do] Brasil, Brasília, 23 dez. 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.httm#art92>. Acesso em: 20 abr. 2008.______. Decreto n° 3860, de 09 de julho de 2001. Dispõe sobre a organização do ensino superior,a avaliação de cursos e instituições, e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil,Brasília, 10 jul. 2001. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5225.httm#art11a>. Acesso em: 20 abr.2008.176 |
  • 177. Revista da FAE______. Decreto n° 5225, de 01 de outubro de 2004. Altera dispositivos do Decreto no 3.860, de9 de julho de 2001, que dispõe sobre a organização do ensino superior e a avaliação de cursos einstituições, e dá outras providências. República Federativa [do] Brasil, Brasília, 04 out. 2004.Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5225.httm#art11a>. Acesso em: 20 abr.2008.COLOMBO, Sonia Simões (Coord.). Gestão educacional: uma nova visão. Porto Alegre: Artmed,2004.COLOMBO, Sonia Simões et al. Marketing educacional em ação: estratégias e ferramentas. PortoAlegre: Artmed, 2005.FLORES, Luiz Carlos da Silva. Fatores de gestão que influenciam o desempenho dasuniversidades comunitárias do sistema fundacional de ensino superior de Santa Catarina.2005. 175p. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção) – Universidade Federal de SantaCatarina, Florianópolis, 2005.INEP. Portal do INEP. Disponível em: <http://www.inep.gov.br/download/superior/2004/censosuperior/Resumo_tecnico-Censo_2004.pdf>. Acesso em: 26 maio 2008.KOTLER, Philip. Administração de marketing: análise, planejamento, implementação e controle.São Paulo: Atlas, 1995.KOTLER, Philip; FOX, Karn F. A. Marketing estratégico para instituições educacionais. São Paulo:Atlas 1994.MEC. Portal do MEC. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf_legislacao/superior/legisla_superior_parecer4362001.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2008.______. Portal do MEC. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf_legislação/superior/legisla_superior_parecer4362001.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2008.MENDONÇA, Ana Walesca P. C. A universidade no Brasil. Revista Brasileira de Educação, Rio deJaneiro, v.14, n.14, p.131-150, mai/ago. 2000.MINTZBERG, Henry. at al. O processo da estratégia: conceitos, contextos e casos selecionados.Porto Alegre: Bookmann, 2006.NISKIER, Arnaldo; NATHANAEL, Paulo. Educação, estágio e trabalho. São Paulo: Integrare, 2006.PORTER, Michael E. Vantagem competitiva: criando e sustentando um desempenho superior. SãoPaulo: Campus, 1996.VIEIRA, Alexandre Thomaz (Coord.). Gestão educacional e tecnologia. São Paulo: Avercamp, 2003.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 165-178, jul./dez. 2010 |177
  • 178. Revista da FAEOportunidades nos mercados globalizados: estudo nasempresas brasileiras de consultoria em tecnologia dainformação1Opportunities in global markets: study in the braziliancompanies of consulting in information technology Bruna Zambel Russo1Resumo Carolina Batista de Deus2 Simone Cardoso de AlmeidaEste artigo teve como objetivo verificar, a partir de uma pesquisa em Marques3quatro empresas de consultoria em Tecnologia da Informação, se o Ingrid Araujo Silva4 Francisco Américo Cassano5processo de internacionalização desse setor ocorre em função da buscade oportunidades em mercados globalizados. O estudo adotou umaabordagem qualitativa, através da coleta de dados por questionário,respondido por executivos de nível gerencial. A análise dos dados coletadosfoi feita por análise de conteúdo, sob a categorização das dimensõesde acordo com os objetivos a serem alcançados, verificando-se que asempresas analisadas obtiveram, de uma forma geral, mais vantagens 1 Bacharel em Administração com ênfasedo que desvantagens com o processo de internacionalização e que as em Comércio Exterior pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Secretariadoestratégias adotadas tiveram participação importante no sentido de dar Executivo pela FATEC/SP. Vivência emsuporte a este processo. Pelos resultados obtidos, concluiu-se que de fato a processos de recrutamento e seleção,internacionalização das empresas brasileiras de consultoria em Tecnologia integração institucional, programa de estágio, programa de inclusão de pessoasda Informação foi decorrente da busca de oportunidades nos mercados com deficiência e outplacement, na Pepsicoglobalizados. do Brasil Ltda. E-mail: brurusso@yahoo.com. 2 Bacharel em Administração com ênfasePalavras-chave: internacionalização de empresas; tecnologia da em Comércio Exterior na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Vivência em análiseinformação; mercados globalizados. documental nas áreas de importação e exportação aérea e marítima, na ITATRANS RL Logística Internacional S/A. E-mail: ea1.Abstract sao@itatransrl.com.br. 3 Bacharel em Administração com ênfaseThis study aimed to verify if internationalization process comes from em Comércio Exterior na Universidadesearch of opportunity in global markets. The study adopts a quality Presbiteriana Mackenzie. Vivência em análise de sistemas, na Telefônica S/A. E-mail:method through data base that was answered by managers executive that marques_sissa@hotmail.com.kindly fill up a questionary. The data base was analyzed through content 4 Bacharel em Administração com ênfaseanalyses and checked that interviewed companies have been aquiring em Comércio Exterior na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Vivência na área demore advantages than disadvantages after internationalization process. compras e de logística, na ARROW BRASILThe adopt strategies were crucial to succeed the process. For obtained S/A. E-mail: araujo.ingrid@hotmail.com.result the study conclude that internationalization process from Brazilian 5 Doutor em Ciências Sociais concentração em Relações Internacionais, pela PontifíciaConsulting in Information Technology Company was decurrent of the Universidade Católica de São Paulo. Vivênciasearch of opportunity in global search. empresarial em comércio exterior, com atuação em empresas do tipo TradingKeywords: internationalization of companies; information of technology; Company e em consultoria de empresas nas áreas de finanças internacionais e de gestão.global markets. Professor Adjunto e Professor Responsável pela Linha de Formação Específica em Comércio1 Artigo aprovado e apresentado no XII SEMEAD – Seminários em Administração, Exterior na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: famcassano@uol.com.br. Universidade de São Paulo – USP, agosto de 2009.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |179
  • 179. Introdução I. conhecer as possibilidades de negócios para as consultorias de TI existentes nos É senso comum que a relevância das ativida- mercados globalizados;des de serviços na geração de renda nas econo- II. analisar o processo de internacionalizaçãomias modernas vem se ampliando. As atividades nas empresas identificadas acima;terciárias promovem o desenvolvimento econô- III. avaliar se as oportunidades nos mercadosmico, pois aumentam a competitividade interna globais influenciam no processo de inter-e internacional, geram empregos qualificados e nacionalização.aceleram o progresso tecnológico. Para orientar o estudo em torno dos objetivos Durante vários anos consecutivos, as exporta- definidos, o problema de pesquisa foi caracteriza-ções brasileiras de serviços não superaram a marca do da seguinte forma: como as oportunidades dede 10% do valor das exportações brasileiras de negócios nos mercados globalizados influenciambens. Apenas a partir de 2004 esta marca foi su- o processo de internacionalização das empresasperada e o Brasil passou a ampliar as exportações brasileiras de consultoria em TI?de serviços, se comparadas ao restante do mundo, O estudo adotou uma abordagem qualitativa,alcançando em 2005 o ápice de 28% de crescimen- através da coleta de dados por questionário,to em relação ao ano anterior (BRASIL, 2008). respondido por executivos de nível gerencial. A Dada a relevância do setor de serviços e a sig- análise dos dados coletados foi feita por análisenificativa contribuição dos serviços de tecnologia de conteúdo, sob a categorização das dimensõesda informação para o incremento do setor, este de acordo com os objetivos a serem alcançados.estudo visou se aprofundar no tema, buscandoinformações relevantes que possam servir comobase para novos empreendedores. Além disso,também tem como foco tornar-se material de 1 Referencial teóricoapoio e consulta para empresas da área de tecno-logia da informação que estejam se preparando Pelo que foi apresentado na Introdução, apara entrar em novos mercados. temática abordada no estudo se relaciona com Em termos acadêmicos, este estudo se propôs as oportunidades de negócios nos mercadosa enriquecer as pesquisas voltadas para assuntos globalizados e com a internacionalização dasrelacionados à internacionalização de empresas. empresas. Neste item foi desenvolvida a revisão daA sua proposta foi descobrir se a dinâmica da in- literatura desses dois temas, buscando obterem-ternacionalização deste setor no Brasil está ligada se elementos que permitam verificar se na práticaà busca por oportunidades no mercado global. estão sendo utilizados os mesmos conceitos. O objetivo geral, portanto, foi descobrir seo processo de internacionalização das empresas 1.1 Oportunidades de negócios nosbrasileiras de consultoria em Tecnologia da Infor- mercados globalizadosmação – TI é decorrente da busca de oportunida-des nos mercados globalizados. Porter (1989) apresentou um fator deter- A fim de se atingir tal objetivo, foram defini- minante para que as empresas obtivessem êxitodos alguns objetivos específicos: em longo prazo com o processo de internacio-180 |
  • 180. Revista da FAEnalização: o desenvolvimento de uma vantagem Essa visão de Kotler foi corroborada porcompetitiva sustentável. Brito e Lencastre (2000), que complementaram e A vantagem competitiva pode se apresentar agruparam esses fatores em motivações proativasem dois tipos, como menor custo ou diferenciação. e reativas na busca de oportunidades de entradaO menor custo, ainda segundo Porter (1989), no mercado global.consiste na capacidade da empresa desenvolver Brito e Lencastre (2000) discorreram sobre cadae comercializar um produto ou serviço com um dos estímulos, explicando-os separadamente:mais eficiência do que seus concorrentes e com I. estratégias de crescimento: o objetivoo mesmo preço ou menor. Esta redução de principal das empresas que tencionamcusto transforma-se em lucros superiores. Já a buscar oportunidades nos mercadosdiferenciação é a habilidade da empresa propiciar globais é crescer. Geralmente encontramum valor exclusivo ao cliente em relação à dificuldades de crescimento no mercadoqualidade ou característica do produto ou serviço. interno por diversas razões, como a faltaCom esta vantagem a empresa, ao manter os de sofisticação dos consumidores locaiscustos comparáveis aos concorrentes, consegue ou a entrada de novos concorrentes, e, emaumentar o preço do produto ou serviço e obter função disto, veem a internacionalizaçãoum lucro maior. como alternativa; Por outro lado, para Kotler (2000), um dos II. aproveitamento de oportunidadesprincipais motivos que levam uma empresa a se criadas em um novo mercado: muitasdecidir pela internacionalização é a percepção de empresas têm representantes ou mes-que terá mais oportunidades em novos mercados, mo distribuidores de seus produtos emuma vez que o mercado interno não é grande o mercados externos e se aproveitam dosuficiente para absorver tanta oferta. Relaciona fato de sua marca já estar consolidadaainda outros fatores que influenciam a busca por nesse mercado para passar a distribuirmercados globais quando: diretamente sem intermediários, usu- I. o mercado internacional oferece condições fruindo todos os benefícios desta nova de lucro maiores do que o mercado interno; configuração de negócio; II. há necessidade de a empresa aumentar III. proximidade geográfica e afinidades sua carteira de clientes a fim de atingir culturais e linguísticas: consideram que economias de escala; a proximidade dos mercados é um fator III. é necessário fazer com que a empresa facilitador na percepção de oportunida- se torne menos dependente de um só des de internacionalização, pois permite mercado; um conhecimento maior de um mercado IV. muitas vezes empresas globais entram no sobre o outro, o que traz segurança e di- mercado nacional oferecendo produtos minui as incertezas durante esse processo; mais interessantes a preços mais baixos e IV. redução do risco: a internacionalização é necessário que a empresa contra-ataque proporciona a diluição dos riscos, pois esses concorrentes em seus mercados a empresa deixa de ser dependente de internos. apenas um mercado e possivelmente de poucos clientes, passando a ampliarRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |181
  • 181. sua área de atuação para mercados VII. apoios governamentais: muitas empresas diversos. Com isto um resultado abaixo são atraídas por incentivos oferecidos do esperado em um dos países pode ser pelo governo, ou instituições de seu equilibrado com um bom resultado em país de origem ou de destino do inves- outro país; timento, e, por esta razão, decidem se V. redução de custos e aproveitamento de internacionalizar; economias de escala: algumas empresas VIII. internacionalização por arrastamento: aproveitam-se do fácil acesso e do custo geralmente empresas prestadoras de ser- reduzido da mão-de-obra, ou matéria- viços acabam por acompanhar seus clien- prima, encontrados em outros mercados tes quando estes optam por se instalar para realocar seu local de operação, em novos mercados a fim de continuar além, também, de muitas vezes encontrar prestando serviços aos mesmos; nesses novos mercados uma legislação IX. imperativos do próprio negócio: ocorrem menos restritiva. Fica evidenciado que quando o segmento de atuação da muitas vezes essa realocação não oferece empresa a obriga a ter instalações em apenas vantagens à empresa, podendo, diferentes mercados, como é o caso de por outro lado, aumentar alguns custos uma empresa de transporte aéreo, que tais quais os de transporte ou os que serve tanto ao mercado interno quanto estão relacionados à instalação da ao externo. Uma outra forma também empresa neste novo mercado. Esta ocorre quando a demanda no próprio decisão pode ainda estar atrelada ao mercado interno não é mais suficiente fato da empresa almejar atingir uma para impulsionar o desenvolvimento da escala de produção maior do que a que empresa. trabalha no momento, e muitas vezes Nessa mesma linha de pensamento, Sousa encontrar facilidades na centralização de e Palacios (2004) confirmaram a existência de suas operações em outro mercado como motivações proativas – como um atrativo para se citado anteriormente. Esta resolução alcançar um objetivo estratégico – e motivações deve sempre levar em consideração todos reativas – como uma reação da empresa a mu- os pontos negativos citados até aqui e, danças que já estão em andamento no mercado. também, o fato de que a empresa pode Assim como Brito e Lencastre (2000), Sousa enfrentar neste novo mercado o risco e Palacios (2004) listam essas motivações a seguir político, as oscilações cambiais e as no quadro 01. barreiras tarifárias e não-tarifárias; VI. aproveitamento da imagem do país: a visibilidade positiva que um determinado país tem perante o mercado externo, pode facilitar e fortalecer as oportunidades de suas empresas adentrarem em outros mercados. O mesmo pode ocorrer de forma contrária, caso o país tenha uma imagem negativa no mercado externo;182 |
  • 182. Revista da FAEQUADRO 01 - ESTÍMULOS DE INTERNACIONALIZAÇÃO I. vantagem de liderança em custos: ocorre EMPRESARIAL quando a empresa, em mercados abran- PROATIVOS REATIVOS gentes ou perante ampla oferta de mix Lucro Pressões competitivas de produtos, fundamenta o valor do seu Produto único Excesso de produção Vantagem tecnológica Vendas no mercado em queda produto ou serviço no baixo custo. Com Informação exclusiva Excesso de capacidade instalada isso, o preço final do produto ou serviço Benefícios fiscais Mercado interno saturado pode ser menor, o que aumenta seu valor Economias de escala Proximidade de clientes e mercado na percepção do cliente;FONTE: Sousa e Palacios (2004, p.30) II. diferenciação: ocorre quando o produto ou serviço é percebido como único pelos Apresentadas essas motivações para a inter- clientes em um mercado amplo. Este tiponacionalização, Sousa e Palacios (2004) conside- de estratégia permite que o preço cobradoraram que as empresas que obtêm melhor desem- seja mais elevado e que a empresa mante-penho no mercado internacional são aquelas que nha sua posição de mercado.optam por uma postura proativa em relação às Já as estratégias de mercado restrito sãooportunidades, não esperando que estas cheguem classificadas em:àquela, mas sim indo à busca das mesmas. I. diferenciação focalizada: ocorre quando Keegan (2006) complementou afirmando a empresa tem como alvo um mercadoque, baseando-se nestas duas fontes de vantagem mais reduzido e definido, criando um valorcompetitiva, Porter desenvolveu um modelo de diferenciado para este público. A utilizaçãoestratégias genéricas para empresas, conforme desta estratégia possibilita que a empresademonstrado na figura 01. compreenda melhor as necessidades eFIGURA 01 - ESTRATÉGIAS GENÉRICAS desejos de seus clientes; VANTAGEM COMPETITIVA II. foco de custo: ocorre quando a empresa, considerando um mercado-alvo restrito, Alvo Amplo Liderança de Custos Diferenciação consegue fornecer aos seus clientes um ÂMBITOCOMPETITIVO produto ou serviço com preços mais baixos Alvo Enfoque nos Custos Diferenciação se comparado à concorrência. Limitado Focalizada Craig e Grant (1999) corroboraram o modeloFONTE: Porter (1989, p.50) apresentado por Porter e procuraram explicar a razão de duas empresas que fabricam produtos Esse modelo, segundo Keegan (2006), ao similares apresentarem diferenças de custoscombinar custo e diferenciação com o escopo do unitários. Para isso, demonstraram as fontes demercado-alvo atendido (classificado em limitado vantagem de custos evidenciadas a seguir:ou amplo) e com a dimensão do mix de produto(dividido em limitado ou amplo), possibilitou o I. economias de aprendizagem: o custo dedesenvolvimento das quatro estratégias genéricas: um produto tende a diminuir conformeliderança de custo, diferenciação, foco em custos as empresas fabricantes aumentam seue diferenciação focalizada. De acordo com esta know-how, ou seja, seu conhecimentoclassificação, as estratégias amplas de mercado sobre a fabricação de um determinadosubdividem-se em: produto. O que se percebe é que quantoRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |183
  • 183. mais se fabrica um determinado produto, VII. fatores administrativos: apesar de se ter mais qualificados estarão os envolvidos apresentado diversos fatores para a dimi- no processo, o que acarretará em maior nuição de custos, muitas vezes a vanta- rapidez e redução do tempo do funcionário gem de algumas empresas está na forma por unidade produzida; como os recursos são administrados. II. economias de escala: apresenta-se na medi- Já em relação à diferenciação, Craig e Grant da em que a quantidade dos insumos em- (1999) optaram por demonstrar a singularidade pregados na fabricação de um determinado desta vantagem, que pode se apresentar não produto aumenta a quantidade final da pro- somente em produtos como também nos serviços dução sem que os custos fixos aumentem. atrelados a ele. A empresa que decide ter um Neste caso, por mais que os custos variáveis diferencial deve não somente se comprometer aumentem, juntamente com a produção, os com o cliente como também compreender suas custos fixos como, por exemplo, os custos reais necessidades e conhecer sua capacidade de de publicidade, permanecem os mesmos unir ambas as habilidades. A diferenciação não diminuindo o custo final; pode ser generalizada, uma vez que cada empresa III. custos dos insumos: a empresa pode re- tem uma percepção única para o desenvolvimento duzir seus custos com mão-de-obra para desses diferenciais, o que gerará características alcançar a vantagem de custo; distintas no produto ou serviço. IV. tecnologia de processo: o investimento em Craig e Grant (1999) ainda consideraram inovação tecnológica acarreta em redução que, devido a esta singularidade, a vantagem de de custos nos processos organizacionais; diferenciação tende a ser mais sustentável que a de custos, já que a segunda pode ser facilmente V. projeto do produto: a integração dos pro- copiada pela concorrência, além de ser influencia- fissionais responsáveis por um projeto de da por variações de câmbio, por exemplo. desenvolvimento de produto é de extre- ma importância no sentido de repensar a Diferente da visão exposta pelos autores estrutura do mesmo, de forma a reduzir anteriores, Barney e Hesterly (2008) apresentaram o número de componentes e facilitar sua a vantagem competitiva por uma nova ótica. O montagem. Desta maneira, tem-se como modelo descrito é a Visão Baseada em Recursos objetivo reduzir etapas desnecessárias e – VBR, que foca nos recursos e capacidades retrabalho; controladas por uma empresa como fontes de vantagem competitiva. VI.utilização da capacidade: em alguns ramos empresariais boa parte dos custos unitários A VBR define recursos como ativos que podem é fixa, ou seja, se a empresa utilizar 1% ou ser tangíveis ou intangíveis e que são controlados 100% de sua capacidade, o custo de pro- pela empresa podendo ser utilizados com o dução será o mesmo. Assim, para reduzir objetivo de desenvolver e estabelecer estratégias. o custo unitário do produto, é necessário Como exemplo, é possível citar os produtos da que a empresa utilize o máximo de sua empresa como ativos tangíveis e a reputação da capacidade para baixar custos e aumentar empresa como ativo intangível. os lucros; Capacidades são partes dos recursos de uma empresa e permitem que estes sejam utilizados na184 |
  • 184. Revista da FAEcriação e implementação de estratégias. Barney e Segundo Maia (2006), o comércio interna-Hesterly (2008) consideraram que a capacidade cional está inserido em um cenário muito maior,e os recursos devem ser utilizados em conjunto, a Economia Internacional, que abrange outrospois são complementares, podendo ser divididos fatores como domínio de tecnologia e transportes,em quatro categorias: movimentação de capitais e pessoas e abertura de I. recursos financeiros: incluem todos os novos mercados. valores financeiros, advindos de qualquer Essa constante movimentação justifica que fonte lícita, utilizados pela empresa para pequenas e grandes empresas visualizem seu mer- criar e implantar estratégias; cado como um todo e não se restrinjam somente II. recursos físicos: englobam desde insumos ao seu mercado local, fazendo assim com que a até o espaço físico em que a empresa se internacionalização seja uma condição necessária encontra; para a posição competitiva bem como à própria sobrevivência (LORGA, 2003). III. recursos humanos: reúne todo capital O processo de internacionalização distingue- humano da empresa considerando suas se por duas grandes perspectivas: a econômica atividades e contribuições individuais à e a comportamental. A econômica, identificada organização; por Welch e Luostarinen, deve ser equacionada IV. recursos organizacionais: são representados de forma precisa, com base na avaliação das pela cultura e políticas organizacionais, vantagens e desvantagens da suposta decisão. pelas relações formais e informais entre Os recursos financeiros podem funcionar como os grupos, bem como pelo planejamento, barreira à decisão da internacionalização, mesmo controle e coordenação dessas relações. que não constituam um fator determinante. A Essa perspectiva de Barney e Hesterly (2008) comportamental, de Bjorkman e Fosgren, baseia- se no processo de como as empresas iniciam acomplementa a visão de Craig e Grant (1999) de sua internacionalização. Contrária à perspectivaque uma empresa que possui recursos e capacida- econômica, a perspectiva comportamental aplica-des de grande valor, frente às empresas que não se melhor às empresas menores e no início docompartilham disto e que acreditam ser muito processo (LORGA, 2003).custoso imitar esses recursos e capacidades, pode- Para orientar o estudo, adotou-se um modelorá obter uma vantagem competitiva sustentável. teórico que descreve as principais etapas do processo de internacionalização.1.2 O processo de internacionalização das Iniciando-se pela definição, e ao contrário do empresas que muitos pensam, Cintra e Mourão2 (2005 apud ALMEIDA, 2007) afirmam que o processo de inter- Os primeiros a estudar as transações interna- nacionalização é muito mais do que exportaçãocionais foram os mercantilistas, tendo em seguida e/ou importação de bens. Para uma empresa sero advento do liberalismo econômico que cedia reconhecida internacionalmente, tem que estartal privilégio às Nações, porém, com o constantepapel impulsionador das empresas, estas assumi-ram os fluxos de bens e capitais impondo-se como 2 CINTRA, R.; MOURÃO, B. Perspectivas e estratégias na internacio-unidade de análise nas questões de internaciona- nalização de empresas brasileiras. São Paulo: Focus RI Assessorialização (ROCHA, 2002). e Consultoria em Relações Internacionais, 2005.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |185
  • 185. inserida em um processo no qual exista uma re- De acordo com Almeida (2007), é necessáriolação maior com as partes envolvidas no país de que a empresa esteja inteiramente alinhada comorigem e no exterior. Abertura de filiais, parcerias as necessidades do mercado interno antes de secomerciais, investimentos entre as empresas, bem projetar para o mercado exterior. Passada estacomo cooperação industrial/comercial, são alguns etapa, as empresas iniciam o processo de alianças,exemplos de atividades que a empresa deve “ga- abertura de “filiais” no exterior e joint-ventures.rantir” para ser chamada de internacional. Analisando-se tais alternativas, constatam-se De acordo com Almeida (2007), o simples que algumas atitudes são mais pró-ativas e outrasprocesso de importação e/ou exportação é somente mais reativas, reações essas decorrentes dos estí-uma fase desse processo de internacionalização. mulos de oportunidades e ameaças que giram no O modelo de Upsalla defende duas grandes mercado (LORGA, 2003).proposições para o entendimento do processo. A Embora a internacionalização não deva serprimeira é de que a ordem de seleção de países encarada como solução de todos os males queseguiria uma relação inversa com a distância psí- as empresas enfrentam, a mesma tem se tor-quica entre o país alvo e o país de origem. A se- nado condição necessária para reforçar a açãogunda dá-se através do estabelecimento da cadeia competitiva. A expansão internacional é apenasem mercados estrangeiros, estágios intermediários uma dentre as diversas formas de estratégias depara assim seguir a um maior comprometimento crescimento (PRESCOTT; WELFORD4, 1994 apudde recursos (ROCHA, 2002). LORGA, 2003). Seguindo essa lógica, as atividades das em- No entanto, Almeida (2007) afirmou que apresas iniciariam no mercado doméstico e somen- liberação dos processos comerciais e financeiroste depois se inseriam no mercado externo. tem levado as empresas ao inevitável processo de Para Welch e Luostarien3 (1988 apud ROCHA, internacionalização.2002), internacionalização pode ser definida como Assim, admite-se que a estratégia de servirum processo de crescente envolvimento com ope- mercados externos deve ser submetida a diferentesrações internacionais, sendo que essas operações decisões que condiz com o pensamento da empresa.podem ser de dois tipos: para dentro (inward) epara fora (outward). A internacionalização paradentro se realiza através de importações, obtenção 2 Metodologiade licenças de fabricação, compra de tecnologiaou contratos de franquia de empresas estrangei- A partir das características apresentadas e doras. Já a internacionalização para fora ocorre por objetivo de estudo, para esta pesquisa foi definidomeio de exportações, concessão de licenças ou o método qualitativo.franquias e investimento direto no exterior. As As pesquisas de campo têm outra classifica-duas direções combinadas permitem maior apro- ção, que varia conforme o tipo de estudo: estudosfundamento do processo de internacionalização exploratórios, estudos descritivos e estudos explica-de empresas. tivos. Tais estudos se caracterizam pelos diferentes3 WELCH, L. S.; LUOSTARIEN, R. Internationalization: evolution of a concept. Journal of General Management, Henley-on-Thames, Eng. 4 WELFORD, R.; PRESCOTT, K. European Business: an issue based v.14, n.2, p.34-55, 1988. approach. London: Pitman, 1994. 186 |
  • 186. Revista da FAEníveis de aprofundamento, objetivos desejados, população restringiu-se às consultorias brasileirasperspectiva do objeto de estudo e a qualificação de TI que se internacionalizaram.do pesquisador (CERVO; BERVIAN, 2004). Com relação à amostra, Richardson (2008) Os estudos exploratórios são recomendados definiu como um subconjunto da população.quando há pouco conhecimento sobre o assunto a Sampieri, Collado e Lucio (2006) consideraramser pesquisado. Realizam-se descrições precisas do que, para os estudos qualitativos, a amostraassunto e buscam-se as relações existentes entre os corresponde ao conjunto dos contextos, eventoselementos encontrados (CERVO; BERVIAN, 2004). ou fatos sobre o qual são extraídas informações Assim sendo, este estudo seguiu o tipo de que não necessariamente representam o universo.pesquisa exploratória. Para este estudo, quatro empresas da popu- Por outro lado, Lakatos e Marconi (2008) lação de consultorias, que prestam serviços inter-afirmam que são utilizados entrevistas, questio- nacionais, receberam o questionário abrangendo todos os tópicos necessários para as respostas donários e formulários para a coleta de dados e que, problema de pesquisa e o alcance do objetivo geral.neste tipo de pesquisa, emprega-se bastante oprocedimento de amostragem. 2.1.2 Instrumento de Coleta de Dados2.1 Pesquisa de campo Podem ser utilizados diversos instrumentos de coleta de dados para se obter informações acerca A pesquisa de campo permitiu a constatação de grupos sociais e os instrumentos de largo usoprática daquilo que a revisão da literatura apon- são: a entrevista, o formulário e o questionáriotou como sendo o caminho para as empresas (CERVO; BERVIAN, 2004).aproveitarem as oportunidades nos mercados A entrevista é utilizada quando não se podemglobalizados. encontrar dados em registros documentais e po- dem ser fornecidos por certas pessoas, recorrendo2.1.1 Plano Amostral a este instrumento os pesquisadores em ciências sociais e psicológicas (CERVO; BERVIAN, 2004). O plano amostral de uma pesquisa de campo Cervo e Bervian (2004) também afirmaramorigina-se com a seleção de um universo a que se que o questionário pode ser enviado pelo correio,refere o estudo, da população que será estudada eda unidade amostral, objeto sobre o qual o estudo entregue ao respondente ou aplicado por elemen-concentrará os seus objetivos. tos preparados e selecionados. Segundo Sampieri, Collado e Lucio (2006), o Richardson (2008), no entanto, alertou queuniverso consiste no agrupamento dos elementos a interação face a face é a melhor situação paraque possuem características comuns. Assim, o uni- participar na mente de outro ser humano, permi-verso deste estudo é representado pelo mercado tindo uma estreita relação entre as pessoas.brasileiro de consultoria em TI, que é formado por Por outro lado, um formulário, destinado àempresas de diferentes portes. coleta de dados resultantes de observações feitas Richardson (2008) considerou universo e pelo próprio investigador, pode ser aplicado apopulação definições bastante próximas, como grupos heterogêneos, inclusive analfabetos,sendo o conjunto de eventos com as mesmas diferente do que acontece com o questionário, e,especificações. Para o enfoque deste estudo, a após isso, o formulário é codificado em gráficos,Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |187
  • 187. mapas e então analisados, interpretados (CERVO; QUADRO 02 - DADOS E CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESASBERVIAN, 2004). DA AMOSTRA Além disso, o questionário, mais comum Início de Área de Diferencial de atuação noentre os instrumentos de coleta de dados, tem Empresa atuação no serviço mercadoa função de descrever as características e medir Brasil externodeterminadas variáveis de um grupo social Softwares de(RICHARDSON, 2008). aplicativos Sonda Todas as Entre 1991 e Complementa- Visando atender ao objetivo geral deste Procwork regiões 2000 res a sistemaestudo, foi utilizado como instrumento de coleta de ERPde dados o questionário de questões fechadas Consultoriaque, segundo Richardson (2008), é composto HR e produtospor indagações ou afirmações cujas alternativas Todas as específicos Entre 2001 e Developers regiões para Recursos 2008de resposta já estão estabelecidas, sendo que Consultoria Humanos noo respondente deverá optar pela opção mais SAP ERPadequada à sua realidade. Consultoria Sampieri, Collado e Lucio (2006) afirmaram Todas as e venda de Entre 1971 e Datasul S/A regiões software como 1980ainda que os questionários fechados são mais ERP, HCM, BIfáceis de serem aceitos pelos indivíduos, pois Nordeste,levam menos tempo de serem respondidos e, Centro- Stefanini IT Entre 1991 eportanto, se obtém mais respostas. oeste, Consultoria Solutions 2000 Sudeste e Sul2.1.3 Análise de Tratamento dos Dados FONTE: Os autores (2008) Richardson (2008) observou que as definições Para a categorização dos dados obtidosde análise de conteúdo sofreram alterações ao nas entrevistas, foram escolhidas quatro cate-longo do tempo, à medida que as técnicas foram gorias: motivos e oportunidades que levaram àaprimoradas e o campo de aplicação diversificado. internacionalização; incentivos para a atuação de empresas estrangeiras no mercado externo; Para Bardin (2000), a análise de conteúdo estratégias adotadas pela empresa no processoconsiste em um conjunto de instrumentos meto- de internacionalização; resultados da internacio-dológicos em constante desenvolvimento e que nalização da empresa. Tais categorias, sem quese aplicam a diversos tipos de discursos. A maioria haja qualquer hierarquização, permitiram que osdos processos de análise de conteúdo é baseada na resultados obtidos pudessem ser analisados decategorização, não sendo um processo obrigatório. forma agrupada e que possibilitassem maior clare- A categorização consiste em classificar, sob za na análise das respostas que cada respondenteum título genérico, os elementos que constituem ofereceu à pesquisa.um conjunto de elementos por diferenciação ereagrupamento segundo o gênero, tendo por basea definição de critérios (BARDIN, 2000). Previamente à categorização, foi elaborado oquadro 02 que apresenta as características geraisdas empresas que compuseram a amostra.188 |
  • 188. Revista da FAEQUADRO 03 - CATEGORIA 1: MOTIVOS E OPORTUNIDADES QUE LEVARAM À INTERNACIONALIZAÇÃO EMPRESA RESPOSTA A oportunidade para a internacionalização surgiu porque a empresa foi procurada por clientes do exterior. Além disso, os motivos que mais influenciaram na internacionalização da empresa foram: obter oportunidades em novos mercados; necessidade de aumentar a carteira de clientes a fim de atingir economias de escala; ter menor dependência de um só mercado; atender os clientes que se internacionalizaram. Outros motivos que tiveram uma influência média foram: possibilidade de Sonda Procwork lucros maiores que os do mercado interno, pois as vendas neste estavam em queda; desenvolvimento de produto único; vantagem tecnológica; pressões competitivas. Os motivos que tiveram pouca ou nenhuma influência no processo de internacionalização foram: contra-ataque a novos entrantes no mercado interno; informação exclusiva; benefícios fiscais; excesso de produção; excesso de capacidade instalada; proximidade de clientes e do mercado de forma geral. A oportunidade para a internacionalização surgiu tanto da busca da empresa por novos clientes, quanto da demanda pela empresa de clientes do exterior. Além disso, os motivos que mais influenciaram na internacionalização da empresa foram: obter oportunidades em novos mercados; necessidade de aumentar a carteira de clientes a fim de atingir economias de escala; ter menor dependência de um só HR Developers mercado; atender os clientes que se internacionalizaram. Outros motivos que tiveram uma influência Consultoria média foram: possibilidade de lucros maiores que os do mercado interno; contra-ataque a novos entrantes no mercado interno; desenvolvimento de produto único; vantagem tecnológica; informação exclusiva; benefícios fiscais; pressões competitivas; proximidade de clientes e mercado. Já motivos que tiveram pouca ou nenhuma influência no processo de internacionalização foram: excesso de produção; vendas no mercado interno em queda; excesso de capacidade instalada. A oportunidade para a internacionalização surgiu tanto da busca da empresa por novos clientes quanto da demanda pela empresa de clientes do exterior. Além disso, os motivos que mais influenciaram na internacionalização da empresa foram: contra-ataque a novos entrantes no mercado interno; atender os clientes que se internacionalizaram; desenvolvimento de produto único. Outros motivos que tiveram uma influência média foram: obter oportunidades em novos mercados; possibilidade de lucros maiores que os Datasul S/A do mercado interno; necessidade de aumentar a carteira de clientes a fim de atingir economias de escala; ter menor dependência de um só mercado; vantagem tecnológica; informação exclusiva; benefícios fiscais; pressões competitivas; proximidade de clientes e mercado. Já motivos que tiveram pouca ou nenhuma influência no processo de internacionalização foram: excesso de produção; vendas no mercado interno em queda; excesso de capacidade instalada. A oportunidade para a internacionalização surgiu da busca da empresa por novos clientes. Além disso, os motivos que mais influenciaram na internacionalização da empresa foram: obtenção de oportunidades em novos mercados; ter menor dependência de um só mercado; contra-ataque a novos entrantes no mercado interno; atender os clientes que se internacionalizaram; pressões competitivas; proximidade Stefanini IT de clientes e mercado. Outros motivos que tiveram uma influência média foram: possibilidade de Solutions lucros maiores; necessidade de aumentar a carteira de clientes a fim de atingir economias de escala; excesso de capacidade instalada. Já motivos que tiveram pouca ou nenhuma influência no processo de internacionalização foram: desenvolvimento de produto único; vantagem tecnológica; informação exclusiva; benefícios fiscais; excesso de produção; vendas no mercado interno em queda.FONTE: Os autores (2008) Nesta primeira categoria, todos os respon- Além disso, o motivo que mais impulsionoudentes afirmaram que a oportunidade de interna- a maioria das empresas respondentes a se inter-cionalização surgiu com a busca da empresa por nacionalizar foi a obtenção de oportunidadesnovos clientes e a maioria também se internacio- em novos mercados seguido pela necessidade denalizou por conta da demanda de novos clientes aumentar a carteira de clientes, ter menor depen-no exterior. dência de um só mercado e atender aos clientes que se internacionalizaram.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |189
  • 189. QUADRO 04 - CATEGORIA 2: OS INCENTIVOS PARA A QUADRO 05 - CATEGORIA 3: ESTRATÉGIAS ADOTADAS ATUAÇÃO DE EMPRESAS ESTRANGEIRAS NO PELA EMPRESA NO PROCESSO DE MERCADO EXTERNO INTERNACIONALIZAÇÃO EMPRESA RESPOSTA EMPRESA RESPOSTA A empresa atua na América Latina As estratégias utilizadas pela e não contou com nenhum tipo empresa foram: eficiência, Sonda Procwork de incentivo do mercado onde se qualidade, inovação e diferenciação Sonda Procwork instalou. do produto. A empresa tem A empresa atua na Europa projetos para continuar/ampliar sua Ocidental, América do Norte e atividade. HR Developers Latina e não contou com nenhum As estratégias utilizadas pela Consultoria tipo de incentivo para se instalar empresa foram: preço, eficiência, nesses mercados. HR Developers qualidade e diferenciação do A empresa atua na América do Consultoria produto. A empresa tem projetos Norte e Latina e contou com para continuar/ampliar sua Datasul S/A incentivos fiscais e processos menos atividade. burocráticos para instalação nesses As estratégias utilizadas pela mercados. empresa foram: preço, eficiência A empresa atua na África, América Datasul S/A e qualidade. A empresa tem Stefanini IT do Norte e Latina e não contou com projetos para continuar/ampliar sua Solutions nenhum tipo de incentivo para se atividade. instalar nesses mercados. As estratégias utilizadas pelaFONTE: Os autores (2008) empresa foram: eficiência, qualidade Stefanini IT e diferenciação de produto. Solutions A empresa tem projetos para Na categoria dois, todas as empresas respon- continuar/ampliar sua atividade.dentes atuam na América Latina e a maioria não FONTE: Os autores (2008)contou com nenhum incentivo para instalaçãono mercado. Nesta categoria três, as empresas respondentes Em contrapartida, uma das empresas que confirmaram que as estratégias mais utilizadasatua também na América do Norte contou com para a internacionalização foram a eficiência eincentivos fiscais e com processos menos buro- a qualidade dos serviços e produtos e todas têmcráticos. projetos para continuar e/ou ampliar sua atividade internacional.QUADRO 06 - CATEGORIA 4: RESULTADOS DA INTERNACIONALIZAÇÃO DA EMPRESA Continua EMPRESA RESPOSTA A empresa enfrentou algumas dificuldades, tais como: a burocracia para entrada no mercado externo e a economia desses mercados. Em contrapartida obteve resultados satisfatórios, pois Sonda Procwork com o processo de internacionalização conquistou diversos benefícios como ganhos financeiros, maior poder de marca, crescimento da empresa, ampliação e abertura para a atuação em novos mercados, novas possibilidades de relacionamentos empresariais e ganho de credibilidade. A empresa enfrentou algumas dificuldades tais como: a burocracia para entrada no mercado externo e sua carga tributária. Em contrapartida obteve resultados satisfatórios, pois com o HR Developers processo de internacionalização conquistou diversos benefícios como ganhos financeiros, maior Consultoria poder de marca, crescimento da empresa, ampliação e abertura para a atuação em novos mercados.190 |
  • 190. Revista da FAEQUADRO 06 - CATEGORIA 4: RESULTADOS DA INTERNACIONALIZAÇÃO DA EMPRESA Conclusão EMPRESA RESPOSTA A empresa enfrentou algumas dificuldades, tais como: a burocracia para entrada no mercado externo e as diferenças culturais. Em contrapartida obteve resultados satisfatórios, pois com Datasul S/A o processo de internacionalização conquistou diversos benefícios como ganhos financeiros, maior poder de marca, crescimento da empresa, ampliação e abertura para a atuação em novos mercados e novas possibilidades de relacionamentos empresariais. A empresa enfrentou algumas dificuldades tais como: as diferenças culturais e econômicas. Em contrapartida obteve resultados satisfatórios, pois com o processo de internacionalização Stefanini IT Solutions conquistou diversos benefícios como maior poder de marca, crescimento da empresa, ampliação e abertura de novos mercados e novas possibilidades de relacionamentos empresariais.FONTE: Os autores (2008) Na categoria quatro, as empresas respondentes por exemplo, maiores ganhos financeiros, maiorapontaram como maior dificuldade no processo poder de marca, crescimento da empresa, amplia-de internacionalização a burocracia, seguida de ção e abertura para atuação em novos mercados,diferenças culturais e a economia dos países-alvo. possibilidade de relacionamentos empresariais e Por outro lado, os resultados foram satisfa- ganho de credibilidade.tórios, pois houve benefícios como: ganhos finan- Já alguns benefícios mencionados no re-ceiros, maior poder de marca, crescimento da em- ferencial teórico como a redução de riscos depresa, ampliação e abertura de novos mercados. investimento, disputa de mercado, aumento de produtividade e redução de custos de produção, não configuraram a realidade das empresas.Conclusão Para entrar em novos mercados as empresas analisadas utilizaram diversas estratégias para se destacar frente à concorrência, e, entre elas, Pela análise de conteúdo sobre os dados as mais importantes são: eficiência; qualidadecoletados, verificou-se que todas as empresas de produto e serviço; inovação; diferenciaçãoestudadas obtiveram resultados satisfatórios no de produto ou serviço; preço. A única estratégiaprocesso de internacionalização e têm interesse verificada na teoria e não empregada pelasem manter ou ampliar suas atividades no exterior. empresas é a utilização da marca corporativa. No decorrer desse processo, as empresas se As empresas estudadas foram mais fortementedepararam com alguns obstáculos que foram impulsionadas por motivações pró-ativas ao sesuperados como, por exemplo, a burocracia em decidirem pela internacionalização, entretanto,excesso para a entrada de empresas estrangeiras algumas motivações reativas também foramnos países-alvo, a economia de mercado, a carga importantes neste processo. No quadro 07 étributária e as diferenças culturais. Embora os possível observar-se com mais clareza o grau deautores apresentados mencionem, também, importância dessas motivações.questões políticas como uma barreira, nenhumadas empresas teve empecilhos desta natureza. Essas dificuldades, porém, foram suplantadaspor benefícios obtidos durante o processo como,Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |191
  • 191. QUADRO 07 - ESCALA DE IMPORTÂNCIA PARA AS MOTIVAÇÕES aumento da carteira de clientes, menor dependên- PARA A INTERNACIONALIZAÇÃO cia de um só mercado e atendimento internacional Motivações Grau de aos clientes do mercado interno. importância Em vista disto é possível verificar que a Contra-ataque a novos entrantes no mercado interno maioria das empresas, por ter motivações pró- ALTA ativas muito mais fortes que as reativas, buscou Desenvolvimento de produto único PRÓ-ATIVAS Vantagem tecnológica novas oportunidades em mercados externos. Informação exclusiva Com isso, conclui-se que o processo de in- MÉDIA Benefícios fiscais ternacionalização das empresas brasileiras de Há pressões competitivas Consultoria em Tecnologia da Informação decorre Obtenção de oportunidades em da busca de oportunidades nos mercados globali- novos mercados ALTA zados, embora, em alguns casos, tais oportunida- Há proximidade de clientes e mercado des surgissem para as empresas sem que fossem REATIVAS Há excesso de produção pró-ativas, como, por exemplo, o caso de clientes Vendas no mercado estão em queda BAIXA que demandaram seus serviços. Há excesso de capacidade instaladaFONTE: Os autores (2008) Desta forma é possível entender que, de fato,o que foi apresentado na teoria reflete-se na rea-lidade das empresas estudadas, pois as respostasdemonstraram que a maioria das motivaçõesapresentadas pelos autores influenciou de algumaforma o processo de internacionalização. Existem também outras motivações definidascomo de alta relevância pelas empresas, mas que • Recebido em: 15/08/2010não foram categorizadas como reativas ou pró- • Aprovado em: 24/09/2010-ativas na literatura: obtenção de lucros maiores,192 |
  • 192. Revista da FAEReferênciasALMEIDA, André. Internacionalização de empresas brasileiras. Rio de Janeiro: Fundação DomCabral, 2007.BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2000.BARNEY, Jay B.; HESTERLY, William S. Administração estratégica e vantagem competitiva. SãoPaulo: Pearson Prentice Hall, 2008.BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - MDIC. Informativoda Secretaria de Comércio e Serviços – SCS, abril - 2008. Disponível em: <http://www.desenvolvimento.gov.br/arquivos/dwnl_1202750324.pdf>. Acesso em: 12 maio 2008.BRITO, Carlos M.; LENCASTRE, Paulo de. Os horizontes do marketing. Lisboa: Verbo, 2000.CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A. Metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Pearson, 2004.CRAIG, James; GRANT, Robert. Gerenciamento estratégico. São Paulo: Littera Mundi, 1999.DUNNING, John H. International production and the multinational enterprise. London: Allenand Unwin, 1981.HYMER, S. H. The international operations of national firms: a study of foreign direct investment.Cambridge, Mass.: M.I.T., 1976.KEEGAN, Warren J. Marketing global. 7.ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006.KERLINGER, Fred N. Metodologia da pesquisa em ciências sociais. 9.ed. São Paulo: E.P.U., 2003.KOTLER, Philip. Administração de marketing. 10.ed. São Paulo: Prentice Hall, 2000.LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Técnicas de pesquisa: planejamento eexecução de pesquisas, amostragens e técnicas de pesquisa, elaboração, análise e interpretação dedados. 7.ed. São Paulo: Atlas, 2008.LORGA, Susana Costa e Silva. Internacionalização e redes de empresas. Lisboa: Verbo, 2003.MAIA, Jayme de Mariz. Economia internacional e comércio exterior. 10.ed. São Paulo: Atlas, 2006.PORTER, Michael E. A vantagem competitiva das nações. 10.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989.RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2008.RICUPERO, Rubens; BARRETTO, Fernando Mello. A importância do investimento direto estrangeirodo Brasil no exterior para o desenvolvimento socioeconômico do país. In: ALMEIDA, André (Org.).Internacionalização de empresas brasileiras. Rio de Janeiro: Fundação Dom Cabral, 2007. p.1-36.ROCHA, Angela da (Org.). Internacionalização das empresas brasileiras: estudos de gestãointernacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.SAMPIERI, Roberto H.; COLLADO, Carlos F.; LUCIO, Pilar B. Metodologia de pesquisa. 3.ed. SãoPaulo: Mc Graw Hill, 2006.SOUSA, José M. M. de; PALACIOS, Tomás M. B. Estratégias de marketing internacional. São Paulo:Atlas, 2004.Rev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p. 179-194, jul./dez. 2010 |193
  • 193. Revista da FAEOrientações aos colaboradores da Revista da FAEHistórico e missão de uma visão holística sobre a gestão de negócios, a partir de uma abordagem multidisciplinar das áreas de ciências sociais aplicadas (administração, contábeis e economia), A Revista da FAE, existente desde 1998, é um espaço jurídica (direito) e exatas (engenharias).para divulgação da produção científica e acadêmica de temasmultidisciplinares, que enfoca, principalmente, as áreas de Já com o tema organizações e desenvolvimento, oadministração, contabilidade, economia, direito, engenharia, objetivo é analisar o papel e a interação da organização,educação, sistemas de informação, psicologia e filosofia, com qualquer que seja sua origem ou situação societária, noo intuito de discutir o posicionamento das organizações e o processo de sustentabilidade econômica, social, ambientaldesenvolvimento local. e política. Por ter como missão fomentar a produção e a dis- Além de trabalhos puramente teóricos, serão aceitosseminação de conhecimento em áreas correlatas à discussão para apreciação artigos resultantes de estudos de casossobre a gestão de negócios e o posicionamento das organi- ou pesquisas direcionadas que exemplifiquem ou tragamzações no processo de desenvolvimento local, entre nossos experiências, fundamentadas teoricamente, e que contribuamleitores, encontram-se professores, alunos de graduação e com o debate estimulado pelo objetivo da revista.pós-graduação, consultores, empresários e profissionais de Enfatiza-se a necessidade de os autores respeitarem asempresas públicas e privadas. normas estabelecidas nas Notas para Colaboradores, espe- cialmente as referentes ao limite de tamanho. Os trabalhos serão publicados de acordo com a ordem de aprovação,Objetivo porém será priorizado o conteúdo multidisciplinar do debate. Todos os artigos estão disponíveis para download, O objetivo da Revista da FAE é promover a publicação exceto a última edição.de temas relacionados à gestão de negócios e à inserçãodas organizações no processo de desenvolvimento local. A Revista da FAE deseja motivar e instigar os seus Focosleitores a compreenderem o papel das organizações noprocesso de desenvolvimento local, tendo acesso à discussão O principal requisito para publicação na Revista da FAEde temas atuais e relevantes para definição estratégica e consiste em que o artigo represente, de fato, contribuiçãooperacional das organizações. científica. Tal requisito pode ser desdobrado nos seguintes Assim, será dada prioridade à publicação de artigos que, tópicos:além de inéditos, nacional e internacionalmente, versem sobre • O tema tratado deve ser relevante e pertinenteo papel das organizações no desenvolvimento local e discutam ao contexto e ao momento e, preferencialmente,sobre temas contemporâneos da gestão de negócios. pertencer à orientação editorial. • O referencial teórico-conceitual deve refletir oOrientação editorial estado da arte do conhecimento na área. • O desenvolvimento do artigo deve ser consistente, Os trabalhos selecionados pela Revista da FAE serão com princípios de construção científica doaqueles que abordem temas relacionados ao seu objetivo, conhecimento.ou seja, que se refiram a ferramentas, técnicas e teorias rela- • A conclusão deve ser clara e concisa e apontarcionadas à gestão de negócios e à função das organizações implicações do trabalho para a teoria e/ou para ano processo de desenvolvimento local. prática administrativa. Com o tema gestão de negócios, visa-se contribuir com Espera-se, também, que os artigos publicados nao debate sobre sistemas de gestão de produção e gestão Revista da FAE desafiem o conhecimento e as práticaseconômica de sistemas produtivos, com o intuito de discutir estabelecidas com perspectivas provocativas e inovadoras.o processo de desenvolvimento da organização. Trata-seRev. FAE, Curitiba, v.13, n.2, p.195-196, jul./dez. 2010 |195
  • 194. Escopo ordem alfabética no final do texto, de acordo com as normas da ABNT (NBR-6023). A Revista da FAE tem interesse na publicação de artigos • Diagramas, quadros, figuras e tabelas devem serde desenvolvimento teórico e trabalhos empíricos. numerados seqüencialmente, apresentar título e fonte, Os artigos de desenvolvimento teórico devem ser bem como ser referenciados no corpo do artigo.sustentados por ampla pesquisa bibliográfica e devem propor • Os artigos deverão ser enviados em disquete ou CD,novos modelos e interpretações para fenômenos relevantes acompanhados de duas vias impressas ou via e-mailcom relação à gestão de negócios e à interação das organiza- em arquivo eletrônico anexo. O autor receberá ações no desenvolvimento local. confirmação de recebimento. Os trabalhos empíricos devem fazer avançar o conheci-mento na área, por meio de pesquisas metodolo-gicamente Permutabem fundamentadas, criteriosamente conduzidas e adequa-damente analisadas. A Revista da FAE faz permuta com as principais faculdades e universidades do país.Notas para colaboradores Assinatura A Revista da FAE está aberta a colaborações do Brasile do exterior. A pluralidade de abordagens e perspectivas é Periodicidade: Anualincentivada. Valor: R$ 50,00 Podem ser publicados artigos de desenvolvimentoteórico e artigos baseados em pesquisas empíricas (de 5.000 • Para assinar, favor entrar em contato pelo telefonea 8.000 palavras). (41) 2105-4093 ou pesquisa@fae.edu A aceitação e publicação dos textos implicam atransferência de direitos do autor para a Revista. Não são Envio de artigospagos direitos autorais. Os textos enviados para publicação são apreciados por Os artigos deverão ser encaminhados para:pareceristas pelo sistema blind review. Os artigos deverão ser encaminhados para o Núcleo de FAE Centro UniversitárioPesquisa Acadêmica (NPA) com as seguintes características: Núcleo de Pesquisa Acadêmica Rua 24 de Maio, 135 • Em folha de rosto deverão constar o título do 80230-080 Curitiba/PR trabalho, o(s) nome(s) completo(s) do(s) autor(es), E-mail: pesquisa@fae.edu acompanhado (s) de breve currículo, relatando Fone: (41) 2105-4093 - Fax (41) 2105-4195 experiência profissional e/ou acadêmica, endereço, números do telefone e do fax e e-mail. • A primeira página do artigo deve conter o título Agradecemos o seu interesse pela Revista da FAE e (máximo de dez palavras), o resumo em português esperamos tê-lo(a) como colaborador(a) frequente. (máximo de 250 palavras) e as palavras-chave (máximo de cinco), assim como os mesmos tópicos vertidos para o inglês (title, abstract, keywords). • A formatação do artigo deve ser: tamanho A4, editor de texto Word for Windows, margens 2,5 cm, fonte times new roman 13 e/ou arial 12 e espaçamento 1,5 linha. • As referências bibliográficas devem ser citadas no corpo do texto pelo sistema autor-data. As referências bibliográficas completas deverão ser apresentadas em196 |