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Evangelho de marcos

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Estudo resumido do evangelho de Marcos

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  • 1. Resumo sobre o livro de MarcosEvangelho de Marcos é o segundo dos quatro evangelhos do NovoTestamento e um dos três chamados de sinópticos, junto com oEvangelho de São Mateus e o Evangelho de São Lucas, sendo divididoem 16 capítulos.Como é em geral reconhecido, o Evangelho segundo Marcos foi oprimeiro entre os evangelhos canônicos a ser escrito, por volta doano de 70 d.C., ano da destruição do Templo pelos Romanos.Dos sinópticos, é o mais simples e o menor, sendo igualmente aqueleque será provavelmente o mais antigo, servindo de uma possívelfonte para os demais evangelistas, embora contenha 31 versículos amais relativos a outros milagres não relatados nos outros evangelhos.Índice 1 Autoria o 1.1 A tradição dos pais da Igreja o 1.2 Evidências textuais internas o 1.3 Quem foi Marcos? • 2 Data da composição o 2.1 Principais teses sobre a data de composição do Evangelho de Marcos • 3 Local, destinatários e propósito • 4 Peculiaridades de estilo e linguagem • 5 Referências gerais • 6 Ligações externasAutoriaComo em nenhum lugar deste evangelho se menciona o nome do seuautor, trata-se, tecnicamente, de uma obra anônima. Entretanto,existem elementos extra-bíblicos, além de evidências internas,suficientes para apontar como seu autor Marcos, ou João Marcoscomo era conhecido.João Marcos (o primeiro nome é hebraico e o segundo grego) teriasido primo de Barnabé (Cl 4,10), de família levita (At 4,36).Marcos acompanhou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionáriado apóstolo (At 12,25; 13,5) e depois separou-se deles durante o
  • 2. percurso (At 13,13). Tal fato parece ter irritado Paulo que a princípioteria se decepcionado com o evangelista.Na segunda viagem missionária, Paulo rompe com Barnabé porqueeste pretendia levar Marcos novamente com o grupo. Devido a isso,Marcos e Barnabé foram para Chipre sem a companhia do apóstolo(At 15,36-39).Porém, na prisão de Paulo, Marcos está com ele novamente (Cl 4,10),que o cita entre os "seus colaboradores" (Fm 24) e o apóstolo pedesua ajuda antes de morrer (2Tm 4,11).Marcos foi também companheiro de Pedro, que o chamava de "meufilho" (1Pd 5,13) e alguns afirmam que o Evangelho de Marcos teriasido o resumo dos ensinamentos de Pedro.Há dúvidas se Marcos conheceu Jesus pessoalmente. Alguns pensamque seria Marcos o jovem que "fugiu nu" de Mc 14,52 (pois só Marcosnarra este episódio). Existe também a hipótese que tenha sido nacasa da mãe de João Marcos, em Jerusalém, que Jesus celebrou aúltima Ceia (14,12-31), já que era um local de oração e acolhida,pois foi para esta casa que Pedro se dirigiu ao ser libertado da prisão(At 12,12).A tradição dos pais da IgrejaA maioria dos estudiosos concorda que tradição eclesiástica maisantiga, no tocante à origem ou autoria do evangelho de Marcos éaquela fornecida por Papias, bispo de Hierápolis, cerca do ano 140.As palavras de Papias sobre a autoria do evangelho de Marcos foramregistradas na obra de Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica,conforme segue:"E João, o presbítero, também disse isto: Marcos, sendo o intérpretede Pedro, tudo o que registrou, escreveu-o com grande exatidão,não, entretanto, na ordem em que foi falado ou feito por nossoSenhor, pois não ouviu nem seguiu nosso Senhor, mas, conforme sedisse, esteve em companhia de Pedro, que lhe deu tanta instruçãoquanto necessária, mas não para dar uma história dos discursos donosso Senhor. Assim Marcos não errou em nada ao escrever algumascoisas como ele as recordava; pois teve o cuidado de atentar parauma coisa: não deixar de lado nada que tivesse ouvido nem afirmarnada falsamente nesses relatos."Além de Papias e de Eusébio, podemos citar outros importantesnomes da patrística como defensores da autoria de Marcos, entreeles:
  • 3. • Irineu, bispo de Lyon: "Após o falecimento [de Pedro e Paulo], Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, pessoalmente deixou-nos em forma escrita aquilo que Pedro proclamara." • Clemente de Alexandria: "Assim, quando a palavra divina estabeleceu-se entre os romanos, o poder de Simão foi extinto e pereceu de imediato, juntamente com ele próprio. Mas uma grande luz de piedade iluminou a mente dos ouvintes de Pedro, de modo que não lhes era suficiente ouvir uma vez nem receber o ensino não escrito da proclamação divina, mas com todo tipo de exortação suplicaram a Marcos, cujo Evangelho temos, que, como companheiro de Pedro, lhes deixasse um registro escrito do ensino que lhes fora dado verbalmente. Também não interromperam os apelos até o convencer, tornando-se assim a causa da história chamada Evangelho segundo Marcos. E eles dizem que o apóstolo (Pedro), sabendo por revelação do Espírito o que fora feito, agradou-se com o zelo fervoroso expresso por eles e ratificou a escritura para que fosse lida nas igrejas." • Orígenes: "Segundo aprendi com a tradição a respeito dos quatro evangelhos, que são os únicos inquestionáveis em toda a Igreja de Deus em todo o mundo. (…) O segundo é de acordo com Marcos, que compôs conforme Pedro explicou a ele, a quem também reconhece como seu filho em sua Epístola Geral, dizendo: ‘A igreja eleita na Babilônia vos saúda, como também Marcos, meu filho’."Existe ainda o relato de Jerônimo, Justino Mártir e Tertuliano quedefendem a autoria de Marcos. Há ainda um outro documentointitulado Prólogo Anti Marcionita que também cita Marcos como oautor deste evangelho.Evidências textuais internasAs evidências do próprio texto estão de acordo com o testemunhohistórico da igreja primitiva. O autor demonstra grande conhecimentoda região da Palestina e, em particular, a cidade de Jerusalém (11:1 -"Betfagé", "Betânia" e "Monte das Oliveiras"). Também conhece oaramaico, a língua da Palestina, como indica o uso que faz dela (5:41- "talitá cumi"; 7:34 - "efatá"; etc) bem como pela evidência dainfluência do aramaico no seu grego. Pela familiaridade com que se
  • 4. refere a costumes dos judeus, o autor revela conhecer muito bem opovo e as instituições judaicas (1:21 - "sábado" e "sinagoga"; 2:14 -"coletoria"; 2:16 - "escribas", "fariseus" e "publicanos"; 7:2 a 4 -"tradição dos anciãos"). Todas estas características apontam umjudeu da Palestina como o autor e, de acordo com Atos 12:12,Marcos se encaixava bem nesta descrição pois morava em Jerusalém.Portanto, muito embora os críticos modernos levantem suspeitasacerca da autoria de Marcos, não há porque duvidar da veracidadedas tradições antigas e dos testemunhos feitos pelos pais da Igreja.É improvável que Marcos era apenas um secretário ou umamanuense de Pedro. Muito embora não fosse um dos 12 discípulosde Jesus, é patente que Marcos possuía conhecimento dos fatosnarrados. Concluí-se, portanto, que Marcos não escreveu seuevangelho apenas como um trabalho fruto do ditado de Pedro, antes,empresta seu estilo e sua própria narrativa ao texto sagrado. Poroutro lado, existem várias evidências internas ao texto desteevangelho que apontam uma forte influência de Pedro sobre osescritos de Marcos: • O evangelho começa, logo após uma pequena preparação, com a chamada de Pedro, sem referência à natividade de Jesus; • Este evangelho focaliza o ministério de Jesus na Galiléia, e mais especialmente nos arredores de Cafarnaum, cidade de Pedro; • A vividez da narrativa indica que são experiências pessoais de uma testemunha ocular; • São omitidos alguns pormenores que destacam a pessoa de Pedro, como sua confissão em Cesaréia de Filipe e sua experiência de andar sobre o mar; • As derrotas de Pedro, especialmente a sua negação a Jesus, é relatada minuciosamente.Papias deixou claro que o Evangelho de Marcos não apresenta anarrativa dos fatos em ordem cronológica e, segundo o NovoComentário da Bíblia, "aparentemente, o evangelho segue um ordemhomilética, em vez de cronológica".Quem foi Marcos?Alguns estudiosos acreditam que João Marcos, ou simplesmenteMarcos, como ficou conhecido, tivesse aproximadamente 20 anos deidade, ou fosse cerca de 10 a 15 anos mais jovem que os discípulosna época da prisão e crucificação de Jesus.O seu nome João vem do grego Ioannes (IwannhV), derivado dohebraico Yohanan, que significa "Yahweh tem sido gracioso". Seusegundo nome, Marcos, tem origem no latim e significa "martelogrande".
  • 5. Seu primo era Barnabé (Cl 4:10a), que aparentava possuir bens, poisvendeu um campo e depositou o dinheiro aos pés dos discípulos (At4:36,37) logo no início da igreja em Jerusalém. "Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (…)" – Colossenses 4:10(a) "José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé, que quer dizer filho da exortação, levita, natural de Chipre, como que tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos" – Atos 4:36,37Marcos era filho de Maria (At 12:12), uma mulher de posses, vistoque era dona de casa e tinha escravos. Como o nome do marido deMaria não é mencionado, supõe-se que ela era viúva. Sua famíliateve, possivelmente, uma grande importância no princípio da IgrejaCristã em Jerusalém. Merrill Tenney fala da possibilidade de a casa deMarcos ser o mesmo lugar do Cenáculo, lugar onde os discípulos sereuniram para a última ceia pascal com Jesus (Mc 14:15). "Considerando ele a sua situação, resolveu ir à casa de Maria, mãe de João, cognominado Marcos, onde muitas pessoas estavam congregadas e oravam" - Atos 12:12 "E ele vos mostrará um espaçoso cenáculo mobiliado e pronto; ali fazei os preparativos." – Marcos 14:15Ele foi levado ao ministério por Barnabé, juntamente com Paulo, deJerusalém a Antioquia (At 12:25). Da Antioquia, viaja como auxiliarde Barnabé e Paulo até o Chipre (At 13:5), no início da 1ª viagemmissionária. Mas, quando saíram de Chipre com destino a Perge, naÁsia, João Marcos abandona a comitiva e retorna a Jerusalém (At13:13). "Barnabé e Saulo, cumprida a sua missão, voltaram de Jerusalém, levando consigo a João, apelidado Marcos." - Atos 12:25 "Chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas judaicas; tinham também Marcos como auxiliar." - Atos 13:5 "E, navegando de Pafos, Paulo e seus companheiros dirigiram- se a Perge da Panfília. João, porém, apartando-se deles, voltou para Jerusalém." - Atos 13:13A atitude de Marcos deixa Paulo muito desgostoso e, mais tarde,depois do Concílio de Jerusalém (At 15), por ocasião dos preparativospara a 2ª viagem missionária, Barnabé propõe novamente acompanhia de Marcos, o que foi prontamente recusado por Paulo,causando uma grande desavença entre os dois. Barnabé e Paulo se
  • 6. separam. Marcos vai com Barnabé para o Chipre, enquanto que Pauloescolhe a Silas e parte para a Ásia (At 15:37-40). "E Barnabé queria levar também a João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levarem aquele que se afastara desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que vieram a separar-se. Então, Barnabé, levando consigo a Marcos, navegou para o Chipre. Mas Paulo, tendo escolhido a Silas, partiu encomendado pelos irmãos à graça do Senhor." - Atos 15:37-40Anos mais tarde, Marcos e o apóstolo Paulo encontram-sereconciliados (Cl. 4:10). Na carta a Filemom, o apóstolo Paulo oreconhece como um dos seus colaboradores (Fl 23,24) e, na segundaepístola a Timóteo, Paulo, na sua segunda prisão em Roma, exorta ojovem pastor a trazer-lhe Marcos, pela sua utilidade no ministério (2Tm 4:11). "Saúda-vos Aristarco, prisioneiro comigo, e Marcos, primo de Barnabé (sobre quem recebestes instruções; se ele for ter convosco, acolhei-o)." – Colossenses 4:10 "Saúdam-te Epafras, prisioneiro comigo, em Cristo Jesus, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores." - Filemom 23,24 "Somente Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil ao ministério" - 2 Timóteo 4:11Em Babilônia (seria uma alusão a Roma?) já se encontra junto aoapóstolo Pedro, por intermédio de quem reúne todos as anotações edemais subsídios necessários para a elaboração do primeiro dosevangelhos. "Aquela que se encontra em Babilônia, também eleita, vos saúda, como igualmente meu filho Marcos." - 1 Pedro 5:13Uma tradição preservada por Eusébio diz que Marcos fundou asIgrejas de Alexandria: "Dizem que este Marcos, sendo o primeiro a ser enviado ao Egito, ali proclamou o evangelho que também pusera por escrito e foi o primeiro a estabelecer Igrejas na cidade de Alexandria. O número de homens e mulheres convertidos desde o início foi tão grande, e tão extraordinária a disciplina e a austeridade filosófica deles que Filo achou por bem descrever a conduta, as assembléias, as refeições e todo o modo de viver deles."
  • 7. Existem algumas relatos interessantes no texto deste evangelho quepodem nos auxiliar a conhecer melhor o seu autor: • Seria Marcos o jovem que testemunhou a prisão de Jesus (Mc 14:51,52)? Este é um dos relatos que são encontrados somente neste evangelho. Se admitirmos este hipótese como verdadeira, Marcos seria aproximadamente 10 a 15 anos mais jovem que os discípulos, testemunha ocular ou conhecedor de fatos por ele narrados. • Somente no evangelho de Marcos é que encontramos a informação de que os filhos de Simão Cireneu (aquele que foi forçado a carregar a cruz de Jesus) chamavam-se, respectivamente, Alexandre e Rufo (Mc 15:21). Isto poderia indicar uma relação de conhecimento ou amizade entre Marcos e os filhos de Simão, reforçando a hipótese de que Marcos seria um jovem judeu habitante de Jerusalém por ocasião da prisão e crucificação de Jesus.Data da composiçãoQual teria sido a data exata em que Marcos escreveu e publicou seuevangelho? Infelizmente não podemos ter certeza.Os principais estudiosos contemporâneos divergem entre si nasconclusões a respeito da data em que este evangelho foi escrito, mastodas as teses sobre a época de sua elaboração não apresentam umavariação superior a um período de 25 anos, isto é, todas as tesessobre a data mais adequada deste texto estão concentradas entre osanos 45 a 70 d.C, entretanto, a data mais provável deve ficar entre48 a 68 d.C. aproximadamente.Por causa da profecia sobre a destruição da cidade de Jerusalém, suadata é anterior ao ano 70 d.C., ano em que esta profecia se cumpriuliteralmente com a destruição da Cidade Santa pelo general romanoTito.O Pastor Eneas Tognini, em sua obra Janelas para o Novo Testamentocita os estudiosos A.T. Robertson e Harnack. Este último aponta adata do evangelho de Marcos entre 50 e 55 d.C., "época em que jácirculavam as logia de Mateus e as epístolas aos Gálatas, 1ª e 2ª aosTessalonissences". Thomas Nelson, em sua obra "Nelson’s CompleteBook of Bible Maps and Charts" menciona como data aproximada ointervalo entre os anos 55 a 68 d.C.Estes mesmos estudiosos contemporâneos, entretanto, concordamque o evangelho de Marcos é o mais antigo dos 4 evangelhos.Antigamente as opiniões a este respeito eram outras, visto que o fato
  • 8. do evangelho de Marcos aparecer como o 2º livro do NovoTestamento, isto é, vir depois do evangelho de Mateus, deve-se àcrença dos primeiros estudiosos do Novo Testamento (especialmenteJerônimo) de que Marcos era um resumo do Evangelho de Mateus,por não incluir muito da narrativa presente neste último.Principais teses sobre a data de composição doEvangelho de MarcosComo já foi dito, há correntes que defendem datas diferentes sobre apublicação de Marcos, onde duas delas se destacam das demais. Aquestão principal que divide as opiniões dos estudiosos eespecialistas é a seguinte: Marcos teria escrito seu evangelho antesou depois da morte de Pedro? Como também não podemosdeterminar precisamente a data de sua morte, que deve ter ocorridoaproximadamente entre os anos 64 a 67 da era comum, durante aépoca das perseguições de Nero. a datação do Evangelho de Marcosfica um pouco mais complicada. Esta discordância vem desde a épocaapostólica.Em sua obra Contra as Heresias - Cap.3, Verso 1:1, Irineu defende atradição antiga dizendo que Marcos escreveu seu evangelho "depoisda morte de Pedro e Paulo" (vide citação na p. 5). Segundo esta tese,o Evangelho de Marcos teria sido escrito entre 65 a 68 da eracomum.Clemente de Alexandria afirma que o evangelho de Marcos foi escritoainda em vida de Pedro, e autorizado pelo próprio apóstolo para aleitura nas igrejas (vide citação na p. 5), conforme o relato deEusébio – História Eclesiástica (Livro 2 – Cap. 15). Ainda segundoEusébio, este relato de Clemente é confirmado por Papias, bispo deHierápolis. Orígines (225 d.C.), anos mais tarde, também afirma queo evangelho de Marcos escreveu seu livro como Pedro lho aiexplicando. Os que apoiam suas teses nos relatos de Clemente eOrígines defendem que este evangelho teria sido escrito entre 55 a60 d.C.Local, destinatários e propósitoO local de origem mais aceito pelos estudiosos para a elaboração doEvangelho de Marcos é a cidade de Roma. Os destinatários, portanto,seriam os cristãos daquela cidade - os gentios romanos.De fato, Marcos omite muitas informações, presentes em outrosevangelhos, que não tinham muito significado para os gentios: agenealogia de Jesus, o cumprimento das profecias sobre Sua missãomessiânica, referências da Lei Mosaica e a descrição de costumes
  • 9. judaicos, exceção feita em 7:1-23 [3,4], onde a explicação sobre apurificação dos judeus auxilia o leitor na compreensão dos fatos.O texto de Marcos é repleto de palavras e expressões quedemonstram que seu público alvo não era da Palestina. Utiliza váriaspalavras em latim (latinismos), preocupa-se em explicar e nãoapenas citar, como já foi dito acima, determinados costumes einstituições judaicas (judaísmos), além de traduzir palavras doaramaico (aramaísmos), que era língua utilizada na região daPalestina:Latinismos • "modius" → "alqueire" (4:21) • "speculator" → "executor" (6:27) • "census" → "tributo" (12:14) • "quadrantis" → "quadrante" (12:42) • "pretorium" → "pretório" (15:16) • "centurio" → "centurião" (15:39, 44,45)Judaísmos • "sábado" e "sinagoga" (1:21) • "coletoria" (2:14) • "escribas", "fariseus" e "publicanos" (2:16) • "tradição dos anciãos" (7:2-4)Aramaísmos • "Boanerges" → "Filhos do trovão" (3:17) • "talita cumi" → "Menina, eu te mando, levanta-te" (5:41) • "efatá" → "Abre-te" (7:34) • "Gólgota" → "Lugar da Caveira" (15:22)Seu texto utiliza um estilo mais voltado à mentalidade romana, quenão gostava de abstrações nem fantasia literária. Marcos nãoapresenta a genealogia de Jesus, pois segundo Russell Shedd, "osromanos interessavam-se mais em poder do que em descendência"Por que este evangelho foi escrito? Qual teria sido o propósito deMarcos ao escrevê-lo? Clemente de Alexandria nos dá o relato arespeito dos ouvintes de Pedro, romanos que "não interromperam osapelos até o convencer" [Marcos] para lhes deixar "um registroescrito do ensino que lhes fora dado verbalmente" (de Pedro).Segundo o Pastor Enéas Tognini, uma tradição antiga revela quePedro pregava aos catecúmenos de Roma ou do oriente, e queMarcos conservou de forma escrita o que Pedro pregava – "a mão era
  • 10. de Marcos, mas a voz era de Pedro", conclui. Ainda segundo E.Tognini, o propósito central do evangelho de Marcos era firmar a fédos cristãos gentios de Roma, pois o início das perseguições contrasos crentes já haviam começado sob a mão do insano, tirano e cruelNero, que foi o imperador romano durante 14 anos (de 54 d.C., apósa morte por envenenamento de Cláudio, até o seu suicídio, em 9 dejunho de 68 d.C.).Marcos queria encorajar os crentes sofredores e, para tanto, revela apessoa de Jesus como o Servo Sofredor (Isaías 53), que veio paraservir, morrer e ressuscitar com a finalidade de salvar o mundo,incluindo romanos e judeus. Enéas Tognini, em obra citada, declaraque Marcos "pretendia consolar os soldados da cruz: assim comoJesus sofreu por nós, também precisamos dar testemunho corajosoacerca Dele, mesmo que tenhamos que pagar isto com a própriavida".Peculiaridades de estilo e linguagemEntre aqueles que avaliam a qualidade e estrutura do texto emgrego, é quase unânime a opinião de que Marcos apresenta o gregokoinê mais inferior do Novo Testamento. A falta de polimento dogrego de Marcos só não é percebida aos leitores de língua portuguesadevido ao trabalho dos tradutores, que não deixam transparecer oserros gramaticais encontrados, mesmo que ainda continuem fiéis aotexto original. Um exemplo disso é o uso abundante da conjunçãogrega "kai", traduzida para o português como a conjunção "e". Porexemplo, dos 45 versículos do original grego do capítulo 1, 35 versoscomeçam por "kai" (apenas os versos 1, 2, 3, 4, 8, 14, 24, 30, 32 e45 não começam por esta conjunção no original grego). Dos 16capítulos deste evangelho, 12 capítulos começam com a conjunção"kai" e das 88 seções e subseções que compões este livro, 80começam por "kai". Russell Champlin aponta que Marcos "utiliza-sede um vocabulário de cerca de 1270 vocábulos, dos quais penas 80lhe são peculiares. Isto demostra que ele empregou um vocabulárioextremamente comum". entretanto, o que falta a Marcos em estilo,sobra em riqueza literária. Marcos é uma obra inovadora, vibrante echeia de emoções e ação.Inovadora porque foi Marcos quem criou este novo estilo literário:Evangelho, que no grego mais recente quer dizer "boas novas", aopasso que no grego mais antigo, queria dizer "um galardão oferecidopara se levar as boas novas". Conforme declara o Pr. Enéas Tognini,"trata-se de um testemunho cristão e não exatamente de umabiografia. E isso serviu de padrão para a Igreja. É como se eleestivesse expondo material básico para sermões".
  • 11. Vibrante porque o estilo da narração de Marcos é vívido, cheio deação, direto e dinâmico. A palavra grega "euthus" (ou "eutheos")aparece 42 duas vezes neste evangelho, mais do que em todo orestante do Novo Testamento, e é traduzida no texto como"diretamente", "imediatamente", "in contineti", "logo", "então",empregando uma grande velocidade na narração dos fatos. No grego,o tempo verbal presente aparece 151 vezes, e o tempo imperfeito,também aparece muitas vezes, e retratam a ação emdesenvolvimento e não simplesmente como um acontecimento.Cheia de emoções porque ninguém registrou mais as reaçõespessoais do que Marcos. Estas reações estão espalhadas ao longo detodo o evangelho, revelando o sentimento e a emoção dos ouvintesde Jesus: • "admirados" (1:27) • "criticavam" (2:7) • "medrosos" (4:41) • "aterrorizada e tremendo" (5:33) • "perplexos" (6:14) • "espantados" (7:37) • "amargamente hostis" (14:1) e mais 22 referências deste tipoNo evangelho de Marcos também estão registrados as ações esentimentos de Jesus: • "olhando em redor (…) com indignação" (3:5) • "tomando a mão da menina" (5:41) • "admirou-se da incredulidade deles" (6:6) • "meteu-lhe os dedos nos ouvidos (…) tocou-lhe na língua" (7:33) • "Jesus (…) arrancou do íntimo do seu espírito um gemido" (8:12) • "tomou o cego pela mão (…) cuspindo-lhe nos olhos" (8:23) • "tomando-o pela mão, o ergueu" (9:27) • "tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava" (10:16) • "fitando-o, o amou e disse" (10:21)Marcos dá ênfase total à ação, colocando os ensinamentos de Jesusem segundo plano. Das 70 parábolas ou alocuções parabólicasregistrados em todos os evangelhos, Marcos apresenta apenas 18 e,em alguns casos, algumas delas compreendem apenas uma frase. Emcontrapartida, concede mais espaço aos milagres do que qualqueroutro evangelho (20 dos 40 milagres registrados nos sinópticos): • Milagres sobre curas de enfermidades o Cura da sogra de Pedro (1:31)
  • 12. o Diversas curas em Cafarnaum (1:32-34) o Cura de um leproso (1:40-45) o Cura de um paralítico (2:3-12) o Cura do homem da mão ressequida (3:1-5) o Cura de uma mulher enferma (5:25-34) o Cura de um surdo e gago (7:32-35) o Cura de um cego em Betsaida (8:22-25) o Cura de Bartimeu, cego de Jericó (10:46-52) • Milagres sobre a natureza o Jesus acalma uma tempestade (4:35-41) o Jesus multiplica os pães e peixes (6:30-44) o Jesus anda por sobre o mar (6:45-52) o Jesus multiplica pães e peixes pela segunda vez (8:1:9) o Jesus amaldiçoa a figueira sem fruto (11:13-14, 20-21) • Milagres sobre demônios o Libertação de um endemoninhado em Cafarnaum (1:21) o Libertação do endemoninhado geraseno (5:1-14) o Libertação da filha endemoninhada da mulher siro-fenícia (7:24-29) o Libertação de um jovem possesso (9:17-27) • Milagres sobre a morte o Ressurreição da filha de Jairo (5:35-42) o Sua própria ressurreição (16:9-11)Enquanto Marcos narra estes 20 milagres utilizando-se de 53 páginasdo texto grego, Lucas narra a mesma quantidade de milagresutilizando 93 páginas do texto grego. É o dinamismo da ação dorelato de Marcos.A palavra lei não é encontrada neste evangelho, ao passo que emMateus ocorre 8 vezes, em Lucas 9 vezes e em João ocorre 15 vezes.Mais de 40% do conteúdo total de Marcos (capítulo 11 em diante) édedicado a contar detalhadamente os últimos 8 dias da vida de Jesus.Dos 661 versículos de Marcos, 600 foram copiados por Mateus. Aotodo, Lucas e Mateus aproveitam 610 versículos de Marcos. Lucasusou 60% dos versículos de Marcos, portanto, menos do que Mateus,mas procurou preservar a mesma ordem de palavras utilizada porMarcos.Mesmo sendo a base textual utilizada pelos outros dois evangelhossinópticos (Mateus e Lucas), o evangelho de Marcos ainda assimapresenta conteúdos exclusivos, como a parábola da semente em
  • 13. desenvolvimento (4:26-29) e os milagres do surdo-mudo (7:31) e docego (8:22).Referências gerais • CESARÉIA, Eusébio de; História Eclesiástica, Editora CPAD, 1ª Edição, 1999 • CHAMPLIM, Russell Norman; O Novo Testamento Interpretado Versículo a Versículo, Editora Candeia, 1995 • CORNELL, Tim e MATTHEWS, John; Roma – Legado de um Império, Edições del Prado, 1996 • DAVIDSON, F.; O Novo Comentário da Bíblia, Edições Vida Nova, 1985 • HARRISON, Everett F.; Comentário Bíblico Moody, Imprensa Batista Regular, 1984 • IRINEU; Contra as Heresias, • MCNAIR, S. E.; A Bíblia Explicada, Editora CPAD, 9ª Edição, 1987 • NELSON, Thomas; Nelson’s Complete Book of Bible Maps and Charts, Thomas Nelson Publishers, 1993 • TENNEY, Merrill C.; O Novo Testamento – Sua Origem e Análise, Editora Vida Nova, 3ª edição, 1995 • THOMPSON, Frank Charles; Bíblia de referência Thompson, Editora Vida, 1992 • TOGNINI, ENÉAS; Janelas para o Novo Testamento, Edições Louvores do Coração, 1992Marcos, o segundo dos relatos do Evangelho, é talvez o menos lido emenos apreciado dos quatro. Todavia, ele faz uma apresentaçãopoderosa da vida de Cristo.INTRODUÇÃO AO LIVRO DE MARCOSO Autor do LivroO autor não é citado no Livro de Marcos, mas a tradição antiga (nãoinspirada) atribuiu o livro a João Marcos. O historiador da igrejaEusébio (ca. 260–340 d.C.) citou Papias (ca. 60–150 d.C.), que sereferiu a Marcos como o escritor do livro. Eusébio também indicouque Clemente de Alexandria e Orígenes (ca. 185–254 d.C.)
  • 14. acreditavam que Marcos tivesse escri¬to o relato1. Irineu (ca. 140–195 d.C.) confirmou essa tradição em seus escritos2.O nome hebraico de João Marcos era João (“o Senhor tem sidogracioso”), mas o conhecemos me¬lhor por seu nome romano,Marcos (“guerreiro”). É provável que ele vivesse em Jerusalém nacasa de Maria, sua mãe (Atos 12:12). É possível que ele tenha sidouma testemunha ocular de alguns dos acontecimentos da vida deCristo que ocorreram1 Eusébio, História Eclesiástica 3.39; 2.15; 6.25. Papias foi um dos“Pais Apostólicos”. Seus escritos continham infor¬maçõesimportantes para as tradições e lendas orais dos tempos apostólicos,mas eles só sobrevivem nos fragmentos preservados peloshistoriadores posteriores Eusébio e Irineu. Eusébio, um escritor degrande erudição e produtividade, foi o primeiro historiador adescrever o desenvolvimento da igreja. Clemente de Alexandria, umteólogo grego, é conside¬rado um dos “Pais da Igreja”. Orígenes,chamado de “pai da pregação expositiva” é visto como o pregadormais impor¬tante do terceiro século.2 Irineu, Contra Heresias 3.1.1. Irineu, pupilo de Policar¬po, “bispo”de Esmirna, é considerado o teólogo mais impor¬tante do segundoséculo.em Jerusalém. Muitos escritores acreditam que em Marcos 14:51 e52 João Marcos estava se referindo a si próprio. Marcos foievidentemente convertido pela pregação de Pedro (1 Pedro 5:13).Mais tarde, a casa de sua mãe passou a ser um local de reunião paraos cristãos (Atos 12:12)3.Colossenses 4:10 identifica Marcos como pri¬mo de Barnabé. Emboraainda jovem, ele começou a viagem com Paulo e Barnabé na segundaviagem missionária de Paulo, mas logo desistiu de continu¬ar (Atos12:25; 13:5, 13), deixando Paulo muitíssimo descontente (Atos15:37–39). Barnabé ainda acredi¬tava no potencial de Marcos e olevou numa viagem de pregação a Chipre (Atos 15:39). Mais tarde,Mar¬cos trabalhou com Pedro na divulgação do evange¬lho (1 Pedro5:13). Por fim, Marcos trabalhou com Paulo, e o apóstolo contou coma ajuda dele (Colos¬senses 4:10, 11; Filemom 24; 2 Timóteo 4:11).Geralmente considerado mais jovem do que Je¬sus e a maioria dosapóstolos4, alguns estimam que Marcos fosse uns dez anos maismoço. Juntamente com Timóteo e Tito, ele poderia ser descrito comoum “pregador júnior” da era apostólica. A tradição não inspirada dizque ele fundou a igreja em Ale¬xandria, no Egito.
  • 15. Marcos teve oportunidades de aprender com muitos homensinspirados, incluindo Paulo. To¬davia, a tradição antiga (nãoinspirada) enfatiza especialmente seu relacionamento com Pedro. Asmesmas fontes que atribuem o Livro de Marcos a3 É possível que essa casa fosse a locação da última ceia (Marcos14:12–17) e/ou o lugar onde os apóstolos aguarda¬ram pelo EspíritoSanto que Jesus prometera (Atos 1:4–8, 12).4 Se Marcos 14:51 e 52 refere-se a João Marcos, isto indica que eleera mais jovem que os apóstolos.João Marcos insistem que seu relato adveio de Pe¬dro. Por exemplo,Papias referiu-se a Marcos como “o intérprete de Pedro”. Disse ele:…o que ele registrou ele escreveu com grande precisão, todavia, nãona ordem em que foi dito ou feito por nosso Senhor, pois ele nãoouviu nem seguiu nosso Senhor, mas… ele estava na companhia dePedro, que lhe deu a instrução necessária, mas não a ponto decompor uma história dos discursos do nosso Senhor: razão por queMarcos não errou em nada, escrevendo algumas coisas assim comoas registrou; pois ele foi cuidadosamente atento a uma coisa, nãoignorar nada do que ouvira, nem afirmar nadafalsamente nesses relatos.5Clemente de Alexandria disse que os ouvintes de Pedro instaramMarcos a deixar um registro da dou¬trina que Pedro comunicaraoralmente, e que Pedro autorizara a leitura do relato nas igrejas6.Irineu escre¬veu que “após a morte de Pedro e Paulo, Marcosen¬tregou-nos por escrito coisas pregadas por Pedro”7.Uma série de fatos parece confirmar esta antiga tradição: o sermãode Pedro em Atos 10:36–42 teria servido de esboço para o Livro deMarcos. Marcos foio único escritor do evangelho que registrou as pala¬vras de Marcos16:7, que mencionam Pedro. O estilo do livro é do depoimento oralde uma testemunha ocular. (Alguns escritores referem-se a Marcoscomo [o relato] contendo “o grego inculto de um falante”.)O Propósito do LivroAmaioria acredita que Marcos tenha escrito para um públicoromano8. Ele eliminou questões que não interessariam esse público,
  • 16. incluindo genealogias. Ele disse pouco sobre as profecias do AntigoTesta¬mento. Não deu ênfase ao contexto judaico da vida de Cristo.Ao introduzir palavras ou costumes ju¬daicos, geralmente asexplicou. Usou expressões latinas onde outros escritores doevangelho usaram o grego (modius para “alqueire” [Marcos 4:21; ou“ces¬to” na ERC], census para “tributo” [12:14], speculatorpara“executor” [6:27] e centurio para “centurião” [15:39, 44, 45], porexemplo). Ele foi o único escritor do evangelho a mencionar Rufo(15:21), que era co¬nhecido pelos cristãos de Roma (Romanos16:13). Aconclusão de Merrill C. Tenney foi que “[o Livro de] Marcosera apropriado para o leigo de mentalidade romana prática queestava ainda por evangelizar”9.5 Eusébio, História Eclesiástica 2.16.6 Ibid., 3.39.7 Irineu, Contra Heresias 3.1.1.8 Veja a lição “Os Quatro Relatos do Evangelho”, nesta edição.9 Merrill C. Tenney, O Novo Testamento, Sua Origem e Análise. SãoPaulo: Edições Vida Nova, 1972, p. 168.Para agradar esse público, Marcos apresentou Jesus como um homemde ação. O livro é breve e conciso, o mais curto dos quatroEvangelhos. Pouco ensino é registrado: há somente quatro parábolasdetalhadas e nenhum discurso extenso. Marcos en¬fatizou osmilagres de Jesus, que saciaram necessida¬des humanas:considerando seu tamanho, o relato dá mais espaço a milagres doque qualquer outro relato do evangelho.O Livro de Marcos tem movimento. Treze dos de¬zesseis capítuloscomeçam com a palavra “e”. Uma das palavras gregas favoritas doautor era euthus (ou eutheos), que é traduzida por “logo a seguir”,“imediatamente” ou “a seguir”. Marcos usou essa palavra quarenta eduas vezes. Jesus é descrito se movimentando a uma velocidadesempre crescente rumo ao cumprimento de Sua missão.Marcos 10:45 é um versículo chave do livro: “Pois o próprio Filho doHomem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vidaem resgate por muitos”. Prestemos atenção especial às palavras“servido” e “servir”. No Livro de Mateus; Jesus é descrito como Rei;mas no Livro de Marcos, Ele é revelado como um servo. Marcos nãousou nenhum dos títulos divinos para Jesus, e Sua autoridade não foienfatizada10. Jesus ministrou11.
  • 17. Marcos Um evangelho de…• ação• emoção• preocupação• serviço• cruz• vivacidadeObviamente, o propósito principal desse relato inspirado é o mesmodos demais Evangelhos: revelar Jesus como o Filho de Deus e nossoSalvador. O livro começa com as palavras: “Princípio do evangelho deJesus Cristo, Filho de Deus” (Marcos 1:1). A palavra “evangelho”encontra-se doze vezes nos quatro relatos; oito delas estão no Livrode Marcos. Marcos diferenciou-se dos outros escritores somente10 Compare o relato de Mateus da grande comissão (Mateus 28:18–20) com o relato de Marcos (Marcos 16:15, 16).11 Aqui está um aspecto secundário interessante: Marcos, queinicialmente falhou como servo, apresentou Jesus comoO Servo perfeito.quanto à perspectiva: Ele pintou um quadro conciso de Jesus edeixou o quadro falar por si mesmo.As Características do LivroAs características do livro estão amplamente relacionadas com suaprovável fonte (Pedro) e seu propósito (apresentar Jesus comoservo).Como já observamos, Marcos é um evangelho de ação.Além disso, Marcos é um evangelho de emoção. O livro registra asemoções e respostas dos públicos de Jesus: eles “se admiraram”(1:27); criticaram (2:7); ficaram com “grande temor” (4:41); ficaramconfusos (6:14); “maravilharam-se” (7:37); foram hostis (14:1).Estão registradas vinte e três reações desse tipo. O livro tambémregistra as emoções de Jesus: Ele fi¬cou “compadecido” (1:41; 6:34;
  • 18. 8:2), condoído (3:5), indignado (10:14), profundamente comovido(7:34; 8:12), “tomado de pavor e de angústia” (14:33, 34).Marcos também é um evangelho de preocupação. Jesus preocupou-Se com a felicidade, a fome, as difi¬culdades, a saúde e a hipocrisiadas pessoas.Além disso, Marcos é um evangelho de serviço. Jesus socorreu osestranhos, libertou os mudos, alimentou os famintos e censurou osradicais.Assim como os demais relatos, Marcos é um Evangelho da cruz. Omaior serviço de Cristo foi Sua morte na cruz. Quarenta por cento doLivro de Marcos trata da última viagem a Jerusalém e dosacontecimentos consecutivos. Marcos só perde para João naquantida¬de de espaço dedicado a esses acontecimentos.Finalmente, Marcos é um evangelho de vivaci¬dade. O livro atérelata os gestos pessoais de Jesus. O estilo é vigoroso e comovente.Alguns o classificaram como “o estilo de um pregador de rua”.A Data do LivroO Livro de Marcos evidentemente foi escrito no começo da segundametade do primeiro sécu¬lo. Marcos mencionou Alexandre e Rufo(15:21), aparentemente porque eles eram conhecidos aos seusleitores. Isto coloca o livro dentro da geração da cruz. Observamosanteriormente a tradição que vincula o livro a Pedro. Muitosescritores antigos sugeriram que Pedro verificou o relato de Marcosantes que este entrasse em circulação. Estima-se que a morte dePedro tenha ocorrido entre 65 e 68 d.C.1212 Alguns escritores primitivos atribuíram à composição do Livro deMarcos uma data após a morte de Pedro, mas isto pode se referir à“publicação” do livro (fazendo-se có pias e colocando-as emcirculação).Hoje, muitos acreditam que Mateus e Lucas copiaram de Marcos, masas tradições mais antigas (não inspiradas) colocam Mateus emprimeiro lugar. O comentário de Tenney é relevante:Se… estes Evangelhos são três diferentes apresentações escritas damensagem apostólica acerca do Senhor Jesus Cristo inspiradas peloEspírito Santo [e de fato são], tiradas do material comum que osapóstolos e os seus cooperadores pregavam, há uma boapossibilidade de que te¬nham sido produzidos simultaneamente.
  • 19. 13 Entre os palpites dados para a data da composi¬ção de Marcosestão estes: 50–60, 58–65 e 60–70 d.C. Podemos afirmarseguramente que o livro foi escrito não depois do ano 70 d.C.As Divisões do LivroO Livro de Marcos não é fácil de ser esboçado. Marcos não seguiu alinha teológica de pensamento. Seu relato é um todo, elaborado paracausar um impacto total.Perspectivas diferentes têm sido sugeridas parao esboço do livro: John Phillips usou os pensamentos chaves deMarcos 10:45 para fazer suas divisões:1) O Servo Dá Sua Vida em Serviço (capítulos 1—10);2) O Servo Dá Sua Vida em Sacrifício (capítulos 11—16)14. Henrietta Mears ampliou essa idéia e sugeriu uma divisão em setepartes usando a palavra “servo”:1) A Vinda e a Prova Servo (capítulo 1);2) O Servo Trabalhando (capítulos 2 e 3), e assim por diante15. Alguns dividem o livro pelas duas principais regiões em que Jesustrabalhou: Galiléia e Judéia. A divisão em sete partes feita porTenney fez uma decomposição mais detalhada das regiões por ondeJesus viajou16.Usaremos uma combinação dessas idéias e outras no esboçoseguinte. Tenhamos em mente, porém, que o Livro de Marcos deveser considerado como um todo.13 Tenney, p. 157. 14John Phillips, Exploring the Scriptures(“Explorando as Escrituras”). Londres: Victory Press, 1965, p.200.15Henrietta C. Mears, Estudo Panorâmico da Bíblia. São Paulo:Editora Vida, 1982, p. 341–42.16Tenney, pp. 159–60.ESBOÇO DO LIVRO DE MARCOSI. O SERVO PREPARADO PARA SERVIR (1:1–13).A. Título e propósito (1:1).B. O caminho preparado por João (1:2–8).
  • 20. C. Jesus preparado por Seu batismo (1:9–11).D. Jesus preparado por Sua tentação (1:12, 13).E. Em tudo isto, Jesus recebeu Suas credenciais. Ele foi…1 Endossado por João.2 Ungido pelo Espírito Santo.3 Provado pelo diabo.II. O SERVO COMPROMETIDO COM O SERVIÇO (1:14—8:30).A. O começo do serviço (1:14—2:12).1 Este período foi basicamente na Galiléia, para onde Jesus foiapós João ser morto (1:14, 15).2 Jesus chama quatro pescadores (1:16–20).3 Um grande dia em Cafarnaum (1:21–34) (o começo de umalista de curas).4 Um passeio geral pela Galiléia, incluindo a cura de um leproso(1:35–45).5 Outro grande dia em Cafarnaum, incluindo a cura do homemque desceu pelo telhado (2:1–12). A lista de curas culminada pelopoder de Jesus para perdoar pecados.B. Começam as críticas (2:13—3:35).1 Ensinando à beira-mar (2:13).2 O chamado de Levi e comendo com pecadores (e críticas)(2:14–17).3 Críticas referentes ao jejum (2:18–22).4 Críticas referentes ao sábado (2:23—3:5).5 Uma conspiração pelos fariseus e herodianos (3:6).
  • 21. 6 O ministério de Jesus é alterado: escolhe os doze e se ocupa aponto de até Seus parentes pensarem que Ele está “fora de Si” (3:7–21).7 A acusação de que Jesus fez Seus milagres pelo poder deBelzebu; ensino sobre o pecado contra o Espírito Santo (3:22–30).8 A mãe e os irmãos de Jesus identificadoscomo os que fazem a vontade de Deus (3:31–35).C. O desafio do serviço. (Conflitos ininterruptos, retiradasocasionais—do outro lado do1 Ensinando de um barco por parábolas: as parábolas dosemeador, da candeia, da semente germinando e do grão demostarda (4:1–34).2 Atravessando o mar da Galiléia (e acalmando uma tempestade)— até Decápolis (4:35–41).3 Curando o endemoninhado geraseno (e a história dos dois milporcos mortos) (5:1–20).4 Atravessando o mar de novo e a cura da filha de Jairo (mais “omilagre parentético”) (5:21–43).5 Indo para Nazaré e sendo rejeitado (Jesus chamado decarpinteiro) (6:1–6).6 Enviando os doze numa comissão limitada (chamando aatenção de Herodes—um passo perigoso considerandoo que esse rei fizera a João) (6:7–32).7. Indo com Seus discípulos para um lugar deserto e seguido pormultidões; cinco mil homens alimentados (um acontecimentosignificativo) (6:33–44).8. Usando o mar como calçada (6:45–52)—mais o ensino geral ecura na região de Genesaré (6:53–56).
  • 22. 9. Crítica por comer sem lavar as mãos—e um discurso sobretradicionalismo (7:1–23).10. Retirada para Tiro e Sidom—e a história da cura da filha de umasiro-fenícia(7:24–30).11. Retirada para Decápolis: Ensino geral e cura (7:31–37) Quatro mil homens alimentados (8:1–9).12. De volta à Galiléia (Dalmanuta na costa ocidental do mar daGaliléia)—um sinal esperado, e advertência contra “o fermento dosfariseus” (8:10–21).13. Retirada para Betsaida—e um cego curado (8:22–26).14. Retirada para Cesaréia de Filipe—e a grande confissão (8:27–30) (um clímax do ministério de Jesus).III. O SERVO EM DIREÇÃO AO MAIOR ATO DE SERVIDÃO: MORRERNA CRUZ (8:31—15:47).A. O encerramento do Seu ministério (8:31— 10:52).1. Tentando preparar os discípulos para Sua morte.mar até Decápolis, Fenícia, Cesaréia de Fi ipe, e outros lugares.) -a.Dizendo aos discípulos que Ele morreria, e incentivando-os atomarem suas cruzes (8:31—9:1). (Veja 9:1.) A verdadeira glória de Jesus mostrada na transfiguração;predita a ressurreição (9:2–13).
  • 23. Cura de um menino que Seus discípulos não conseguiram curar(9:14–29). Ensino adicional sobre Sua morte (9:30–32). A total incompreensão dos discípulos; uma discussão sobrequem sentaria ao lado do Senhor (9:33–50).2. Partindo para Jerusalém.a. Na Judéia e além do Jordão (Peréia) (10:1).1) O desafio de Jesussobre casamento e divórcio (10:2–12).2) Abençoando as crianças (10:13–16).3) A história do jovem rico que guardava a lei—e as recompensaspara quem abandona tudo (10:17–31).b. A caminho de Jerusalém.1) Explicando aos discípulos o que estava prestes a acontecer(10:32–34). Tão confusos que dois desejam estar à Sua direita eesquerda (10:35–45). (Um versículo chave: 10:45.)2) Passando por Jericó; o cego Bartimeu curado (10:46–52).B. Uma hora crucial: a última semana de Seu ministério (11:1—14:42).1. Domingo: o dia da entrada triunfal (11:1–11).2. Segunda: o dia da maldição da figueira e da purificação dotemplo (11:12–19).3. Terça-feira: um dia ocupado. Uma figueira seca (11:20–26).
  • 24. Um dia de perguntas.1) A pergunta “com que autoridade?”(11:27–33). 2) A inserção da parábola dos administradores infiéis(12:1–12).3) Uma pergunta sobre o tributo a César (12:13–17).4) Uma pergunta sobre a ressurreição (12:18–27).5) Uma pergunta sobre o primeiro mandamento, e uma não muitodistante do reino (12:28–34).6) Silenciados os inimigos de Jesus; uma pergunta de Jesus(12:35–37).c. Uma advertência para acautelar-se dos escribas (12:38–40). A oferta da viúva (12:41–44). Saindo do templo, uma mensagem apocalíptica de Jesus (13:1–37).4. Quarta-feira: um dia tranqüilo para Jesus. Um dia ocupado para Seus inimigos (14:1, 2), mas calmo paraJesus. A refeição em Betânia e a unção de Jesus (14:3–9). A parte de Judas na conspiração para matar Jesus (14:10, 11).5. Quinta-feira: um dia de preparação. Preparação para a Páscoa (14:12–16). A festa da Páscoa e a instituição da ceia do Senhor (14:17–26). A predição de que todos abandonariam Jesus e que Pedro Onegaria (14:27–31). No jardim do Getsêmani (14:32–42).
  • 25. C. Sua crucificação e sepultamento (na sexta-feira) (14:43—15:47).1 A traição de Jesus, e a fuga dos discípulos (14:43–52).2 Julgamento perante Caifás; Pedro se aquece no fogo (14:53–65).3 Negação de Pedro (14:66–72).4 Confirmação pelo sinédrio e a audiênciaperante Pilatos; a soltura de Barrabás eo escárnio de Jesus (15:1–20).5. Morte de Jesus por meus pecados (15:21–41).6. Sepultamento de Jesus (15:42–47).IV. O SERVO EXALTADO PELA RESSURREIÇÃO (16:1–20).A. A ida das mulheres ao túmulo e o anúncio do anjo (16:1–8)17.B. Algumas aparições após a ressurreição:1 A Maria Madalena (16:9–11).2 A dois discípulos (16:12, 13).3 Aos onze (16:14–18). (A necessidade dos discípulos terem fé ea grande comissão: 16:15, 16.)C. A ascensão de Jesus, mais a obra posterior dos discípulos e aconfirmação de Jesus (16:19, 20).17A autenticidade dos doze versículos seguintes ao versículo 8 temsido questionada, pois esses versículos não constam de vários dosmanuscritos mais importantes. A maioria dos escritoresconservadores acredita que eles pertençam a esse lugar como partedo texto original, como uma nota posterior acrescentada por Marcos,ou como uma nota de rodapé inspirada acrescentada por outroescritor inspirado. (Veja um exemplo disso em Deuteronômio 34,
  • 26. onde um outro escritor, talvez Josué, acrescentou as informaçõessobre a morte de Moisés ao livro que este escrevera.) Durante os primeiros séculos da História de Roma, a construção do direito estevenas mãos dos sacerdotes, ou seja, dos pontífices. Eles foram os responsáveis por definir ocomportamento social dos patres, isto é, dos chefes das gentes, das famílias extensas queformaram os primordiais núcleos sociais da Roma Antiga. Deste modo, a pronúncia do ius,do direito, foi atribuída inicialmente a um círculo de sacerdotes, o chamado colégio dospontífices, componente essencial da religião romana arcaica (Schiavone, 1991:76). Estessacerdotes eram os responsáveis por guardar e interpretar as mais importantes reservas deconhecimentos da coletividade, controlando socialmente o tempo (pela definição dos diasfastos e nefastos para a realização dos negócios públicos e privados), das orações e dasinvocações aos deuses (para garantir a sua proteção às ações empreendidas pelos romanos),da escrita nascente e dos costumes dos ancestrais, os chamados mores maiorum. Como asdecisões deveriam estar plenamente de acordo com os costumes dos ancestrais, para seremvistas como corretas e eficazes, os sacerdotes, por conhecerem estes costumes e seremresponsáveis pela sua divulgação e manutenção, ficaram também encarregados de ditaremas leis para a comunidade e de julgarem os litígios de acordo com as tradições dosantepassados. As leis e as sentenças ditadas por estes sacerdotes regulavam as relações sociaistravadas entre os homens e as relações rituais desenvolvidas entre os homens e os deuses,visando a conquista de uma estabilidade duradoura e de uma segurança infinita. Pelacriação de regras de conduta e de preceitos fixos, baseados em normas morais eéticas, buscava-se uma organização social garantida pela lei e pela ordem. Naspalavras dos pontífices e no seu talento interpretativo estava depositado o segredo daadesão da cidade e de seus moradores ao mundo do sagrado e do mágico, que se imaginavaempenhado em proteger e tornar invencível quem sabia entender a sua linguagem econformar-se com a vontade dos deuses que o habitavam (Schiavone, 1991:77). Para osantigos romanos, os deuses não eram potências distantes, mas, ao contrário, eram entidadespresentes, que se manifestavam a todo momento sua aprovação ou desaprovação comrelação aos atos humanos, mediante sinais manifestados na natureza e através dos sonhos(Cramer, 1954:52). Era fundamental para os romanos entender e agir de acordo com as
  • 27. vontades das divindades, por isso os sacerdotes que tinham acesso a esse conhecimentoeram os responsáveis por regulamentar a vida social.Deste modo, os litígios resolvidos por estes primeiros legisladores-sacerdotes tinham aintenção de resolver a querela não apenas no mundo humano, mas também no mundodivino. Para o romano, qualquer crime ou desavença ocorrida no meio dos homens afetavadiretamente sua relação com o cosmos, a habitação das divindades. Devido a essepensamento, o direito apresentou origens tão religiosas. O castigo ou punição dados a umcrime eram responsáveis por restabelecerem não somente a paz entre os homens, masprincipalmente a pax deorum. Assim, era fundamental que se garantisse a cada um os seusdireitos e que cada membro da comunidade garantisse o que é seu, e no caso de desavençassobre propriedades, as reparações deveriam ser definidas rapidamente. Foram estas noçõesque iniciaram o próprio princípio da justiça na Antigüidade Romana. A não reparação deuma injustiça ou a não punição de um crime abalavam toda a sociedade e se transformavamem verdadeiros sacrilégios. Por isso, todos os julgamentos deveriam ser feitos em recintosabertos, para a admiração de todos, e na presença da estátua de uma divindade, que, decerta forma, presidia e verificava o julgamento realizado pelos homens (Grimal, 1988:91-95).A caveira do boiJoaquim RibeiroEm todas as regiões canavieiras de nosso país, persiste ainda uma velha superstiçãoagrícola.É muito comum nas plantações de cana encontrar-se, fincada numa estaca, uma caveirade boi.Os lavradores de todas as partes, do Norte e do Sul, acreditam que a caveira de boidefede o canavial contra as pragas, as intempéries, o mau-olhado, enfim, afugenta todasas ameaças contra a lavoura.A crença está generalizada, e até mesmo na zona rural do Rio de Janeiro pode serobservada.Quando realizei, nesta cidade, com os meus colegas da Comissão de Folclore da extintaSociedade dos Amigos do Rio de Janeiro, a primeira Exposição de Folclore Carioca,recolhi, em Jacarepaguá, uma caveira de boi que figurou no referido certame.Os lavradores brasileiros usam-na não só nas plantações de cana como, em geral, emqualquer outra lavoura. É uma espécie de amuleto agrícola, tido como de grandeeficácia.Donde recebemos essa arraigada tradição?Como podemos explicá-la nas suas origens?
  • 28. Pereira da Costa admite, dubitativamente, duas fontes: uma oriental (onde se observaum culto de adoração ao boi) e outra greco-romana (culto de Príapo).Tais são as suas palavras:"Esta supersticiosa usança, se não indica reflexos do culto voltado ao boi pela suadeificação entre certos povos da antigüidade, em cujo culto, particularmente, se notam oboi Ápis, no Egito, o touro Mitríaco entre os persas, o boi de Cadmo e o touro deMaraton, sem falar mesmo na vaca Atir, adorada como deusa suprema entre os egípcios,cultos esses que espalharam-se [sic] depois por todo o Oriente; vem, talvez, de Príapo,que apesar de pertencer à classe dos deuses da impureza, segundo a consagraçãomitológica, era venerado entre os romanos como uma divindade suprema que tinha ospoderes de prodigalizar a abundância e de afastar a esterilidade.É assim que se via aquele ídolo tutelar dos romanos figurar nos seus vinhedos e vergéis,e particularmente nos seus jardins, encostado a uma vara que subia-lhe [sic] acima dacabeça sustentando a divindade no seu braço direito uma grande cornucópia, o corno daabundância, em cuja ampla boca se viam como que, despejando-se, flores e frutosvariados, produções e atributos dos jardins e campos de plantação, aos quais, entrevários povos e, sobre todos, os romanos especialmente, essa divindade presidia.Implantada essa supersticiosa crença dos romanos nas suas colônias, chegou às quefundaram na Península Ibérica, e daí aos portugueses de quem imediatamente nos vem otradicional costume". (Folclore pernambucano, 1908, p.56-57)Não me parece convincente essa exegese de Pereira da Costa.Creio mesmo que ele desprezou o elemento essencial da superstição, isto é, a caveira doboi.A explicação da origem deve, antes de tudo, justificar a razão pela qual persistiu ocostume de conservar-se a caveira do animal. Partindo daí é que chegaremos a umesclarecimento satisfatório.Qual o significado dessa relíquia fúnebre?A caveira (outra não pode ser a resposta) indica o testemunho do sacrifício do animal,do boi.Esta usança parece-nos, portanto, uma sobrevivência do vetusto rito de sacrifício detouros, rito popularíssimo entre gregos e romanos.De fato, a documentação clássica evidencia a sua larga projeção no mundo greco-romano.Em Homero e Virgílio colhemos comprovantes.Lá está na Odisséia, logo no princípio do canto III:
  • 29. "(...) Na praia oferenda de touros faziamnegros sem mácula ao deus de cabelos escuros, Possidon"(Homero, sd, p.33)E na Eneida:"(...) À sorte eleitoO antiste Lacoon com sacra pompaa Netuno imolava um touro ingente"(Virgílio, 1854, p.45-46)"(...) e um touroNédio imolo na praia ao deus superno"(Virgílio, 1854, p.77)Em Roma, o chamado Jupiter Dolichenus era representado sobre um touro, conforme seatesta numa tábua de bronze existente no Museu de Wiesbaden.Hans Lamer, analisando este documento arqueológico, diz que o culto do touro éantiquíssimo e já era observado na civilização micenaica:"El culto del toro y la doble hacha, como simbolo religioso se encuentram también enlá religión de la civilización cretense (2 milenários a.d. J.C.)."Tal é o inlorme que se encontra no seu livro La civilización romana (tradução espanholade D. Miral, p.25).Desse culto primitivo é que surgiram os sacrifícios de touros, tão populares entre osromanos.O culto do touro chegou à Península Ibérica e, naturalmente, sofreu, mais tarde, ainfluência cristã. Assim é que, no século passado, na procissão de Corpus Christiobservava-se a sobrevivência do vetusto culto. Diz um documento registrado porTeófilo Braga (1885, v.2, p.294):"Desfilam depois algumas corporações, e após, um boi, a que chamam boi bento, comas pontas douradas e o corpo coberto com um manto de damasco guarnecido de ouro".O rito do sacrifício, pela sua crueldade, foi abolido, mas havia de deixar vestígios.Não se podendo matar boi, surgiu a prática de venerar-se as caveiras dos mesmos.***Surge, agora, um outro problema: como e em virtude de que se fixou, em nosso mundorural, essa usança?Aqui temos de admitir um influxo negro-africano, o que não é de estranhar-se, uma vezque, durante séculos, o nosso trabalho agrícola obedeceu ao regime servil.
  • 30. O negro escravo teve também cooperação nessa tradição popular.O hábito de fincar caveira de boi em estacas ou troncos podados revela essa influênciaafricana.De origem européia, micenaica, é a noção de sacrifício do animal, consubstanciada nacaveira de boi — como oferenda para benefícios.De origem negro-africana, banto, é o costume rural de fincar bichos em troncos.Entre os bantos existe este curioso costume, que o major português Henrique AugustoDias de Carvalho, no valioso livro Etnografia e história tradicional dos povos da Lundaassim menciona:"Um chifre grande, espetado no tronco de uma grande árvore, tendo em volta o terrenolimpo e pisado, uma trepadeira a enlear essa árvore, e uma cabaça e uma panelasuspensas de outro tronco, constitui isso também um monumento dedicado a um outroídolo denominado Muata Calombo.Servem eles de indicação aos caçadores peritos, pois pela sua construção, disposição,orientação e ainda por outros sinais, dão a conhecer o cognome de caça de quem o fez, olugar onde encontrou caça, sua qualidade, enfim se viu muita ou pouca, se há água ounão perto etc." (1890, p.245)O explorador lusitano refere-se ainda ao muhanhe, tronco, assim chamado, onde oscaçadores depositam as caveiras, chifres e ossadas como troféus de suas atividadesrurais.O fincamento do muhanhe obedece a certos rituais. Assim diz o mencionadoafricanólogo:"Observam-se umas certas cerimônias, no lugar emque se determina colocar um troncode árvore grande com muitas ramificações, despido de folhagem para servir de cabide àscaveiras, chifres e ossadas maiores dos animais mortos pelo caçador da povoação,quando esses animais são de grande porte.Essas ossadas são enfeitadas com tiras de baeta, preferindo-se para isso a vermelha.À cerimônia da muhanhe (muhane), assim se chama aquele tronco, preside o chefe dapovoação e assistem todos os seus caçadores". (1890, p.245-246)Verificamos que do negro é que recebemos a usança de fincar caveira em tronco. Essausança confundiu-se com o vetusto culto do touro, de origem micenaica, que passoupara Roma (Jupiter Dolichenus) e deixou sobrevivência em Portugal (o boi bento daprocissão de Corpus Christi).Trazida essa sobrevivência para o Brasil, em contato com os negros de nossas lavouras,fácil foi fundir-se com o muhanhe dos bantos.
  • 31. Mais uma vez atestamos a fusão de tradições derivadas de troncos distanciados eremotos.Europa: Culto do touro (Creta); Sacrifício de touros (Grécia e Roma); JupiterDolichenus (Roma e império); Boi bento — Corpus Christi (Portugal)África: ídolo Muata Calombo; Rito do muhanhe (área banto)Brasil: caveira de boi (zona agrícola)O foclore brasileiro, na verdade, resulta de numerosas convergências étnicas.Quase sempre as nossas tradições populares, analisadas à luz de um exame maisprofundo, baseado na filiação histórica e na comparação, revelam essas múltiplasorigens, aparentemente indevassáveis.A superstição agrícola, que ora estudamos, tãopopular nas zonas canavieiras do Brasil,está nesse caso.A convicção mística de nosso lavrador quando pendura uma caveira de boi num troncoou numa estaca para afastar os malefícios dos canaviais, por certo, pouco difere dacrença que, há milênios, inspirava cretenses a cultuar o touro ou os negros de Lunda areverenciar o Muata Calombo nas selvas da África.O dom de acreditar parece ter algo de eterno, pois desafia os séculos e a própriacivilização.