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Reformas e conflitos político religiosos
 

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    Reformas e conflitos político religiosos Reformas e conflitos político religiosos Document Transcript

    • Reformas e conflitos políticos religiosos Prof. Dr. Gilberto Aparecido Angelozzi Lucien Febvre em seu trabalho sobre Martinho Lutero apresentou o líder reformista como um semióforo, ou seja, aquele cujo significado da sua ação simbólica influenciou todo o movimento reformista e contra reformista. O mito reformista de Lutero também foi resignificado quando o Segundo Império buscou reescrever a História da Alemanha a partir de um conceito nacionalista e necessitando estabelecer uma ligação com o Sacro Império Romano Germânico, como apontou Eric Hobsbawm na obra A invenção das tradições. O próprio Lucien Febvre se refere a isso ao afirmar na obra Martinho Lutero, um destino que através dos tempos se fez com que Lutero desempenhasse um papel na História da Alemanha e do mundo cristão. (FEBVRE, L., 1994, P.16) O nome de Lutero está associado à Reforma e a Contra Reforma, caracterizado como defensor dos oprimidos, combatente das indulgências, insurgente contra a corrupção da Igreja Católica, Crente em Deus, tradutor da Bíblia para o alemão vulgar, ilustre excomungado pela Igreja Católica, enfim, seja como for, os fundamentos para o movimento reformista iniciado em Wüttenberg, na Alemanha do século XVI, são anteriores e suas raízes se fazem presentes na Baixa Idade Média. Na Baixa Idade Média, enquanto se difundia o pensamento escolástico de Tomás de Aquino, a Igreja Católica atravessava o Grande Cisma do Ocidente e a disputa entre o Papa e o Antipapa, um em Roma e outro em Avignon.
    • Jean Delimeau, na obra Mil anos de felicidade apresenta influência dos precursores da Reforma Wycliffe, Huss e os Valdenses, para as ações que se concretizaram a partir de Lutero e conduziram a um amplo movimento de Reforma. Cabe lembrar que mesmo a tradução da Bíblia que se concretizou como uma empreitada Luterana era antes um projeto de John Wycliffe. Naquele momento as teses de John Wycliffe contra a simonia, os sacramentos e a hierarquia eclesiástica, assim como seus apelos à pobreza evangélica e às denúncias relativas aos compromissos da Igreja para com os poderes temporais se difundiram e influenciaram outros como Jan Huss. Tratava-se de um período marcado por um forte conteúdo milenarista e cujos resultados se prolongaram para além do século XVI. Jean Delimeau considera ainda na obra O nascimento e afirmação da Reforma que as causas da mesma devem ser buscadas no forte conteúdo que foi atribuído pelas populações à questão do pecado pessoal, como consequência de uma sequência de fatos geradores de uma grande angústia coletiva, ou seja, Peste Negra, Guerra dos Cem Anos, Guerra das Duas Rosas, O Cisma do Ocidente, a morte dos Hussitas, o grande desastre de Burguinhão. O autor vê ainda que o horror religioso do pecado e a ausência de circunstâncias atenuantes gerou um agravamento da crueldade judiciária, como aquele que se traduziu no Malleus Malleficarum. O milenarismo apocalíptico se traduziu também em um combate a Satanás e ao reinado do Anticristo. Tudo isso contribuiu para a ocorrência da Reforma no Século XVI. Ainda no campo das ideias a obra O elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam e as ideias do autor serviram a Lutero e ao movimento reformista, porém, como escreveu Johan Huizinga na obra Erasmo, Roterdam defendia uma Reforma no interior do catolicismo, aproximando
    • os homens, vivendo como uma comunidade, defendendo um retorno aos princípios e às práticas do cristianismo primitivo. Ele negou-se a apoiar Lutero e escreveu contra ele no que se referia às discórdias entre ambos, ou seja, a questão do livre arbítrio e a natureza humana. O conteúdo apocalíptico e a ideia do Juízo Final eram comuns a ambos, mas a maneira com interpretavam-na diferia em modo e forma.1 Já para Lutero, Erasmo se tornara um semipelagiano e traidor de Santo Agostinho, como afirmara no Tratado do Servo-arbítrio que escrevera contra o autor do Elogio da Loucura.2 A Reforma e a Contra Reforma não podem ser vistas apenas como movimentos religiosos, isto porque tiveram implicações econômicas, políticas e sociais, na medida em que explicitaram interesses de várias classes sociais e contaram com a participação do poder dos pequenos principados alemães e também de monarquias como a portuguesa, espanhola, francesa e inglesa. Essa influência se deu tanto no sentido de fortalecer o poder político contra a Igreja Católica, como também para afirmar as relações entre os Estados e o papado. Os principados alemães careciam de um poder central forte que fosse capaz de defender as populações diante do Sacro Império através do qual a Igreja Católica obtinha suas maiores rendas, motivo pelo qual era contestada pelos príncipes. Apesar de propor a formação de uma Igreja nacional, a extinção do celibato, das ordens mendicantes e medidas contra o luxo e a usura, Lutero respeitava o lucro, o dinheiro e a hierarquia social e concebia uma Igreja subordinada ao poder temporal. Animados com suas propostas s cavaleiros e a pequena nobreza empobrecida avançaram sobre as terras da Igreja 1 HUIZINGA, Johan. Erasmo. Torino: Giulio Einaudi Editore, 2002. 2 DELIMEAU, Jean. O nascimento e afirmação da Reforma, p.106.
    • Católica e a dividiram com os camponeses. Lutero não lhes deu apoio e defendendo que os bens da Igreja deveriam pertencer aos príncipes conseguiu apoio para enfrentar a Igreja Romana. Os cavaleiros, nobres e camponeses foram derrotados pelos exércitos dos príncipes alemães. A aliança de Lutero com os príncipes gerou a revolta do teólogo Thomaz Münzer e seus seguidores os anabatistas. Na Alemanha Central o movimento tornou-se revolucionário, com os camponeses exigindo a posse comunitária da terra e a abolição da servidão. Por toda a Alemanha conventos e castelos da nobreza foram queimados e em alguns lugares artesãos urbanos empobrecidos passaram a apoiar os camponeses. Grandes burgueses, príncipes católicos e luteranos aliaram-se para esmaga-los com o incentivo de Lutero. Mais de cem mil camponeses foram mortos e Thomas Münzer foi decapitado. Em 1530 os príncipes alemães formaram a Liga de Smallkalde, abrangendo a maioria dos Estados alemães. A unidade da Igreja Romana na Alemanha foi rompida quando Fernando I assinou a Paz de Augsburgo em 1555 que estabeleceu que a religião do príncipe fosse a religião do principado. Assim na Alemanha, o norte tornou-se protestante e o sul católico. Delimeau considera que a crise do luteranismo explodiu após a morte do reformista, porém ele manteve-se como líder espiritual da Reforma.3 Porém, devemos afirmar que o mito Lutero ganhou novos significados e a invenção de tradições, como analisamos anteriormente. Em 1519 a Reforma chegou à Suíça através de Ulrich Zwinglio, defensor do rompimento com Roma e já em 1528 o norte havia assimilado suas ideias. A oposição dos estados cantões ao reformista gerou uma guerra civil que eclodiu em 1529 e culminou com a derrota das forças de Zwinglio 3 Ibid p. 114.
    • e sua morte. No ano de 1531 foi assinada a Paz de Kappel estabelecendo que cada governo cantonal teria a sua própria religião. Apesar da derrota e morte de Zwinglio seus seguidores expandiram- se para o Norte de Genebra onde o poder econômico estava nas mãos da burguesa e o poder político pertencia à nobreza feudal leiga e eclesiástica, representada pelo Conde de Saboia e pelo bispo local. Mantinha-se uma moral medieval que desagradava a burguesia e as massas urbanas que se revoltou e fundou uma cidade república independente. A partir dessa revolta, João Calvino, lá refugiado, depois de fugir das perseguições na França, iniciou a sua pregação. Na obra Instituições da religião cristã, Calvino afirmou que Deus é transcendente e incompreensível e por isso, Dele, só é possível saber aquilo que Ele quis revelar através da Bíblia, sem a qual o homem tem uma falsa ideia de Deus. Definiu também a doutrina da predestinação, através da qual defende que Deus predestinou os homens de antemão e que uma minoria são os eleitos e uma maioria os condenados à eterna maldição. Para ele o sinal da graça é a fé com que Deus presenteia os homens e dela decorre a salvação. O eleito é aquele que transforma o mundo, através do seu trabalho para a glória de Deus. O fruto do trabalho deve ser poupado e reaplicado para a transformação do mundo, criando mais necessidade de trabalho, por isso o ócio é condenado. O princípio calvinista da predestinação absoluta transformou-se na ética religiosa da nascente burguesia, justificando sua prática econômica e sua ação política no mundo que deveria ser transformado. Christopher Hill na obra O eleito de Deus demonstrou que a doutrina da predestinação foi o grande motor de Oliver Cromwell e dos revolucionários ingleses. A questão de ser eleito, vinculada ao pensamento
    • puritano era a força motriz que induzia os revolucionários à ação em uma Inglaterra na qual a monarquia era absolutista e o parlamento composto por uma maioria puritana e onde prevaleciam os conflitos de interesses econômicos-religiosos. Max Weber na obra A ética protestante e o espírito do capitalismo demonstrou como os conceitos calvinistas de predestinação, a concepção sobre o trabalho, a poupança, o combate ao ócio e ao luxo foram motores para a Revolução Industrial e o avanço do capitalismo. A Contra Reforma Católica foi marcada pelo Concílio de Trento que durante 20 anos tratou da reorganização moral, econômica e política da Igreja. De acordo com Michael Mullet na obra A Contrarreforma4 a ação da Igreja Católica resistiu a qualquer hipótese de aproximação do sacerdote e do leigo e os primeiros deveriam ser graves, reservados, não afáveis, diferenciados por sua preparação profissional e pelo desempenho de seus deveres como missão. O sacerdócio passou a ser considerada uma vocação. A ação do clero católico expandiu-se principalmente para o Novo Mundo onde os missionários se voltaram para a evangelização dos africanos e indígenas e cujo modelo se fundamentou muitas vezes no apaziguamento através das armas e posteriormente no aldeamento no caso indígena e na ação junto aos engenhos (caso brasileiro especialmente) como demonstrou Hornaert e Azzi demonstraram na obra História da Igreja no Brasil. A ação do Santo Ofício da Inquisição se deu principalmente em relação aos judeus ou mosaisantes em Portugal e na Espanha dos Reis Católicos. 4 MULLET, Michael. A Contrarreforma. Lisboa: Gradiva, 1985, pp. 27-30.
    • Felipe II tomou para si a missão de combater o protestantismo e isso se projetou na sua luta contra os ingleses, na qual a Invencível Armada foi derrotada. O combate com os Países Baixos do Norte ganhou contornos políticos e contra reformistas estendendo-se para além de 1621 com o fim da Trégua dos Doze anos O combate à Reforma e aos movimentos heréticos da bruxaria continuou dentro e fora da Península Ibérica, e a ação do Santo Ofício se estendeu por diversas monarquias europeias e também na Península Itálica na qual os trabalhos de Ginzburg Os andarilhos do bem, O sabá das feiticeiras e O queijo e os vermes demonstram essa ação. No Brasil, a ação do Santo Ofício pode ser observada através da obra de Laura Cardoso Mello O diabo na terra de Santa Cruz e também em Os infiéis de Ronaldo Vainfas. As Guerras de Religião se estenderam ainda pelos séculos XVI e XVII. Em 1598 o Édito de Nantes permitiu o culto protestante na França e garantiu o direito aos huguenotes de manterem locais fortificados, mesmo assim, entre 1618 e 1648 as rivalidades religiosas, dinásticas, territoriais e comerciais foram reacendidas na Guerra dos Trinta Anos. Essa guerra envolveu um grande esforço político da Suécia e da França para procurar diminuir a força da dinastia dos Habsburgos, que governavam a Áustria. Os confrontos entre católicos e protestantes e assuntos constitucionais germânicos se transformaram em uma luta europeia e mesmo a questão religiosa não sendo a razão e causa imediata e direta da guerra, as hostilidades causaram sérios problemas econômicos e demográficos na Europa Central. O fim do conflito se deu com a assinatura de alguns tratados que, em bloco, são chamados de Paz de Vestefália, no ano de 1648. A França saiu fortalecida e o Sacro Império sofreu grandes perdas de território, mas não foi atingido em sua autonomia. As questões territoriais
    • retornaram no século XIX e na invenção das tradições da Alemanha unificada serão resignificadas para o fazer a História da Alemanha e no contexto do nacionalismo.