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Poemas para dramatizar
 

Poemas para dramatizar

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    Poemas para dramatizar Poemas para dramatizar Document Transcript

    • Para Viver Um Grande AmorVinicius de MoraesPara viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade epouco riso — para viver um grande amor.Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser demuitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua damapor inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se amulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", queporque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimocuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está semprepreparado pra chatear o grande amor.Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existeamor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidadeé um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um sóamor.Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e dejudô — para viver um grande amor.Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso tambémter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a suaprimeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito maisque na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer sabermesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo contaponto a favor...Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos,strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinhae preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grandeamor?Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, sepossível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente nãosó com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — eesfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador semcovardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeávelao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
    • Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achara bem-amada — para viver um grande amor.Drummond...só podia ser dele...Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por algunssegundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles,fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encheremdágua neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficarjuntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino - OAmor.Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber umabraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoasofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisamaravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse alido seu lado...Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos,chinelos de dedo e cabelos emaranhados...Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que estámarcado para a noite...Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seulado...Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver aconvicção que vai continuar sendo louco por ela...Se você preferir morrer, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.É uma dádiva.Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontramum amor verdadeiro.Ou às vezes encontram e, por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amorpassar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixemcego para a melhor coisa da vida: O Amor.
    • Essa negra fulo _ Jorge de LimaOra, se deu que chegou(isso já faz muito tempo)no bangüê dum meu avôuma negra bonitinha,chamada negra Fulô.Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!(Era a fala da Sinhá)— Vai forrar a minha camapentear os meus cabelos,vem ajudar a tirara minha roupa, Fulô!Essa negra Fulô!Essa negrinha Fulô!ficou logo pra mucamapra vigiar a Sinhá,pra engomar pro Sinhô!Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!(Era a fala da Sinhá)vem me ajudar, ó Fulô,vem abanar o meu corpoque eu estou suada, Fulô!vem coçar minha coceira,vem me catar cafuné,vem balançar minha rede,vem me contar uma história,que eu estou com sono, Fulô!Essa negra Fulô!"Era um dia uma princesaque vivia num casteloque possuía um vestidocom os peixinhos do mar.Entrou na perna dum patosaiu na perna dum pinto
    • o Rei-Sinhô me mandouque vos contasse mais cinco".Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!Vai botar para dormiresses meninos, Fulô!"minha mãe me penteouminha madrasta me enterroupelos figos da figueiraque o Sabiá beliscou".Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!(Era a fala da SinháChamando a negra Fulô!)Cadê meu frasco de cheiroQue teu Sinhô me mandou?— Ah! Foi você que roubou!Ah! Foi você que roubou!Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!O Sinhô foi ver a negralevar couro do feitor.A negra tirou a roupa,O Sinhô disse: Fulô!(A vista se escureceuque nem a negra Fulô).Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!Cadê meu lenço de rendas,Cadê meu cinto, meu broche,Cadê o meu terço de ouroque teu Sinhô me mandou?Ah! foi você que roubou!Ah! foi você que roubou!Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!O Sinhô foi açoitar
    • sozinho a negra Fulô.A negra tirou a saiae tirou o cabeção,de dentro dêle pulounuinha a negra Fulô.Essa negra Fulô!Essa negra Fulô!Ó Fulô! Ó Fulô!Cadê, cadê teu Sinhôque Nosso Senhor me mandou?Ah! Foi você que roubou,foi você, negra fulô?Essa negra Fulô!Inverno_ Jorge de LimaZefa, chegou o inverno!Formigas de asas e tanajuras!Chegou o inverno!Lama e mais lamachuva e mais chuva, Zefa!Vai nascer tudo, Zefa,Vai haver verde,verde do bom,verde nos galhos,verde na terra,verde em ti, Zefa,que eu quero bem!Formigas de asas e tanajuras!O rio cheio,barrigas cheias,mulheres cheias, Zefa!Águas nas locas,pitus gostosos,carás, cabojés,e chuva e mais chuva!Vai nascer tudomilho, feijão,até de novoteu coração, Zefa!
    • Formigas de asas e tanajuras!Chegou o inverno!Chuva e mais chuva!Vai casar, tudo,moça e viúva!Chegou o invernoCovas bem fundaspra enterrar cana:cana caiana e flor de Cuba!Terra tão moleque as enxadasnelas se afundamcom olho e tudo!Leite e mais leitepra requeijões!Cargas de imbu!Em junho o milho,milho e canjicapra São João!E tudo isto, Zefa...E mais gostosoque tudo isso:noites de frio,lá fora o escuro,lá fora a chuva,trovão, corisco,terras caídas,córgos gemendo,os caborés gemendo,os caborés piando, Zefa!Os cururus cantando, Zefa!Dentro da nossacasa de palha:carne de solchia nas brasas,farinha dágua,café, cigarro,cachaça, Zefa......rede gemendo...Tempo gostoso!Vai nascer tudo!Lá fora a chuva,chuva e mais chuva,trovão, corisco,terras caídase vento e chuva,chuva e mais chuva!Mas tudo isso, Zefa,vamos dizer,só com os poderes
    • de Jesus Cristo!JoséE agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, Você?Você que é sem nome,que zomba dos outros,Você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José?Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não veio,não veio a utopiae tudo acaboue tudo fugiue tudo mofou,e agora, José?E agora, José?sua doce palavra,seu instante de febre,sua gula e jejum,sua biblioteca,sua lavra de ouro,seu terno de vidro,
    • sua incoerência,seu ódio, - e agora?Com a chave na mãoquer abrir a porta,não existe porta;quer morrer no mar,mas o mar secou;quer ir para Minas,Minas não há mais.José, e agora?Se você gritasse,se você gemesse,se você tocasse,a valsa vienense,se você dormisse,se você cansasse,se você morresse....Mas você não morre,você é duro, José!Sozinho no escuroqual bicho-do-mato,sem teogonia,sem parede nuapara se encostar,sem cavalo pretoque fuja do galope,você marcha, José!José, para onde?Morte do Leiteiro Carlos Drummond de AndradeHá pouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.
    • Há muita sede no país,é preciso entregá-lo cedo.Há no país uma legenda,que ladrão se mata com tiro.Então o moço que é leiteirode madrugada com sua latasai correndo e distribuindoleite bom para gente ruim.Sua lata, suas garrafase seus sapatos de borrachavão dizendo aos homens no sonoque alguém acordou cedinhoe veio do último subúrbiotrazer o leite mais frioe mais alvo da melhor vacapara todos criarem forçana luta brava da cidade.Na mão a garrafa brancanão tem tempo de dizeras coisas que lhe atribuonem o moço leiteiro ignaro,morados na Rua Namur,empregado no entreposto,com 21 anos de idade,sabe lá o que seja impulsode humana compreensão.E já que tem pressa, o corpovai deixando à beira das casasuma apenas mercadoria.E como a porta dos fundostambém escondesse genteque aspira ao pouco de leitedisponível em nosso tempo,avancemos por esse beco,peguemos o corredor,depositemos o litro...Sem fazer barulho, é claro,que barulho nada resolve.Meu leiteiro tão sutilde passo maneiro e leve,antes desliza que marcha.É certo que algum rumorsempre se faz: passo errado,vaso de flor no caminho,cão latindo por princípio,ou um gato quizilento.E há sempre um senhor que acorda,
    • resmunga e torna a dormir.Mas este acordou em pânico(ladrões infestam o bairro),não quis saber de mais nada.O revólver da gavetasaltou para sua mão.Ladrão? se pega com tiro.Os tiros na madrugadaliquidaram meu leiteiro.Se era noivo, se era virgem,se era alegre, se era bom,não sei,é tarde para saber.Mas o homem perdeu o sonode todo, e foge pra rua.Meu Deus, matei um inocente.Bala que mata gatunotambém serve pra furtara vida de nosso irmão.Quem quiser que chame médico,polícia não bota a mãoneste filho de meu pai.Está salva a propriedade.A noite geral prossegue,a manhã custa a chegar,mas o leiteiroestatelado, ao relento,perdeu a pressa que tinha.Da garrafa estilhaçada,no ladrilho já serenoescorre uma coisa espessaque é leite, sangue... não sei.Por entre objetos confusos,mal redimidos da noite,duas cores se procuram,suavemente se tocam,amorosamente se enlaçam,formando um terceiro toma que chamamos aurora.Romance II ou do Ouro Incansável _ Cecília MeirelesMil bateias vão rodandosobre córregos escuros;a terra vai sendo abertapor intermináveis sulcos;infinitas galerias
    • penetram morros profundos.De seu calmo esconderijo,o ouro vem, dócil e ingênuo;torna-se pó, folha, barra,prestígio, poder, engenho...É tão claro! - e turva tudo:honra, amor e pensamento.Borda flores nos vestidos,sobe a opulentos altares,traça palácios e pontes,eleva os homens audazes,e acende paixões que alastramsinistras rivalidades.Pelos córregos, definhamnegros a rodar bateias.Morre-se de febre e fomesobre a riqueza da terra:uns querem metais luzentes,outros, as redradas pedras.Ladrões e contrabandistasestão cercando os caminhos;cada família disputaprivilégios mais antigos;os impostos vão crescendoe as cadeias vão subindo.Por ódio, cobiça, inveja,vai sendo o inferno traçado.Os reis querem seus tributos,- mas não se encontram vassalos.Mil bateias vão rodando,mil bateias sem cansaço.Mil galerias desabam;mil homens ficam sepultos;mil intrigas, mil enredosprendem culpados e justos;já ninguém dorme tranqüilo,que a noite é um mundo de sustos.Descem fantasmas dos morros,vêm almas dos cemitérios:todos pedem ouro e prata,e estendem punhos severos,
    • mas vão sendo fabricadasmuitas algemas de ferro.Romance XXI ou das IdéiasA vastidão desses campos.A alta muralha das serras.As lavras inchadas de ouro.Os diamantes entre as pedras.Negros, índios e mulatos.Almocrafes e gamelas.Os rios todos virados.
    • Toda revirada, a terra.Capitães, governadores,padres intendentes, poetas.Carros, liteiras douradas,cavalos de crina aberta.A água a transbordar das fontes.Altares cheios de velas.Cavalhadas. Luminárias.Sinos, procissões, promessas.Anjos e santos nascendoem mãos de gangrena e lepra.Finas músicas broslandoas alfaias das capelas.Todos os sonhos barrocosdeslizando pelas pedras.Pátios de seixos. Escadas.Boticas. Pontes. Conversas.Gente que chega e que passa.E as idéias.Amplas casas. Longos muros.Vida de sombras inquietas.Pelos cantos da alcovas,histerias de donzelas.Lamparinas, oratórios,bálsamos, pílulas, rezas.Orgulhosos sobrenomes.Intrincada parentela.No batuque das mulatas,a prosápia degenera:pelas portas dos fidalgos,na lã das noites secretas,meninos recém-nascidoscomo mendigos esperam.Bastardias. Desavenças.Emboscadas pela treva.Sesmarias, salteadores.Emaranhadas invejas.O clero. A nobreza. O povo.E as idéias.E as mobílias de cabiúna.E as cortinas amarelas.Dom José. Dona Maria.Fogos. Mascaradas. Festas.Nascimentos. Batizados.Palavras que se interpretamnos discursos, nas saúdes...Visitas. Sermões de exéquias.Os estudantes que partem.
    • Os doutores que regressam.(Em redor das grandes luzes,há sempre sombras perversas.Sinistros corvos espreitampelas douradas janelas.)E há mocidade! E há prestígio.E as idéias.As esposas preguiçosasna rede embalando as sestas.Negras de peitos robustosque os claros meninos cevam.Arapongas, papagaios,passarinhos da floresta.Essa lassidão do tempoentre imbaúbas, quaresmas,cana, milho, bananeirase a brisa que o riacho encrespa.Os rumores familiaresque a lenta vida atravessam:elefantíase; partos;sarna; torceduras; quedas;sezões; picadas de cobras;sarampos e erisipelas...Candombeiros. Feiticeiros.Ungüentos. Emplastos. Ervas.Senzalas. Tronco. Chibata.Congos. Angolas. Benguelas.Ó imenso tumulto humano!E as idéias.Banquetes. Gamão. Notícias.Livros. Gazetas. Querelas.Alvarás. Decretos. Cartas.A Europa a ferver em guerras.Portugal todo de luto:triste Rainha o governa!Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!E sugestões indiscretas:Tão longe o trono se encontra!Quem no Brasil o tivera!Ah, se Dom José IIpõe a coroa na testa!Uns poucos de americanos,por umas praias desertas,já libertaram seu povoda prepotente Inglaterra!Washington. Jefferson. Franklin.(Palpita a noite, repletade fantasmas, de presságios...)
    • E as idéias.Doces invenções da Arcádia!Delicada primavera:pastoras, sonetos, liras,- entre as ameaças austerasde mais impostos e taxasque uns protelam e outros negam.Casamentos impossíveis.Calúnias. Sátiras. Essapaixão da mediocridadeque na sombra se exaspera.E os versos de asas douradas,que amor trazem e amor levam...Anarda. Nise. Marília...As verdades e as quimeras.Outras leis, outras pessoas.Novo mundo que começa.Nova raça. Outro destino.Planos de melhores eras.E os inimigos atentos,que, de olhos sinistros, velam.E os aleives. E as denúncias.E as idéias.
    • Tu Tens um MedoAcabar.Não vês que acabas todo o dia.Que morres no amor.Na tristeza.Na dúvida.No desejo.Que te renovas todo dia.
    • No amor.Na tristezaNa dúvida.No desejo.Que és sempre outro.Que és sempre o mesmo.Que morrerás por idades imensas.Até não teres medo de morrer.E então serás eterno.Não ames como os homens amam.Não ames com amor.Ama sem amor.Ama sem querer.Ama sem sentir.Ama como se fosses outro.Como se fosses amar.Sem esperar.Tão separado do que ama, em ti,Que não te inquieteSe o amor leva à felicidade,Se leva à morte,Se leva a algum destino.Se te leva.E se vai, ele mesmo...Não faças de tiUm sonho a realizar.Vai.Sem caminho marcado.Tu és o de todos os caminhos.Sê apenas uma presença.Invisível presença silenciosa.Todas as coisas esperam a luz,Sem dizerem que a esperam.Sem saberem que existe.Todas as coisas esperarão por ti,Sem te falarem.Sem lhes falares.Sê o que renunciaAltamente:Sem tristeza da tua renúncia!Sem orgulho da tua renúncia!Abre as tuas mãos sobre o infinito.E não deixes ficar de tiNem esse último gesto!O que tu viste amargo,Doloroso,Difícil,O que tu viste inútil
    • Foi o que viram os teus olhosHumanos,Esquecidos...Enganados...No momento da tua renúnciaEstende sobre a vidaOs teus olhosE tu verás o que vias:Mas tu verás melhor...... E tudo que era efêmerose desfez.E ficaste só tu, que é eterno.O VaqueiroEu venho dêrne menino,Dêrne munto pequenino,Cumprindo o belo destinoQue me deu Nosso Senhô.Eu nasci pra sê vaquêro,Sou o mais feliz brasilêro,Eu não invejo dinhêro,Nem diproma de dotô.
    • Sei que o dotô tem riquêza,É tratado com fineza,Faz figura de grandeza,Tem carta e tem anelão,Tem casa branca jeitosaE ôtas coisa preciosa;Mas não goza o quanto gozaUm vaquêro do sertão.Da minha vida eu me orgúio,Levo a Jurema no embrúioGosto de ver o barúioDe barbatão a corrê,Pedra nos casco rolando,Gaios de pau estralando,E o vaquêro atrás gritando,Sem o perigo temê.Criei-me neste serviço,Gosto deste reboliço,Boi pra mim não tem feitiço,Mandinga nem catimbó.Meu cavalo Capuêro,Corredô, forte e ligêro,Nunca respeita barsêroDe unha de gato ou cipó. Tenho na vida um tesôroQue vale mais de que ôro:O meu liforme de côro,Pernêra, chapéu, gibão.Sou vaquêro destemido,Dos fazendêro querido,O meu grito é conhecidoNos campo do meu sertão.O pulo do meu cavaloNunca me causou abalo;Eu nunca sofri um galo,pois eu sei me desviá.Travesso a grossa chapada,Desço a medonha quebrada,Na mais doida disparada,Na pega do marruá.Se o bicho brabo se acoa,Não corro nem fico à tôa:Comigo ninguém caçoa,Não corro sem vê de quê.É mêrmo por desaforoQue eu dou de chapéu de côroNa testa de quarqué tôroQue não qué me obedecê.
    • Não dou carrêra perdida,Conheço bem esta lida,Eu vivo gozando a vidaCheio de satisfação.Já tou tão acostumadoQue trabaio e não me enfado,Faço com gosto os mandadoDas fia do meu patrão.Vivo do currá pro mato,Sou correto e munto izato,Por farta de zelo e tratoNunca um bezerro morreu.Se arguém me vê trabaiando,A bezerrama curando,Dá pra ficá maginandoQue o dono do gado é eu.Eu não invejo riquezaNem posição, nem grandeza,Nem a vida de finezaDo povo da capitá.Pra minha vida sê belaSó basta não fartá nelaBom cavalo, boa selaE gado preu campeá.Somente uma coisa iziste,Que ainda que teja tristeMeu coração não resisteE pula de animação.É uma viola magoada,Bem chorosa e apaxonada,Acompanhando a toadaDum cantadô do sertão.Tenho sagrado direitoDe ficá bem satisfeitoVendo a viola no peitoDe quem toca e canta bem.Dessas coisa sou herdêro,Que o meu pai era vaquêro,Foi um fino violêroE era cantadô tombém.Eu não sei tocá viola,Mas seu toque me consola,Verso de minha cacholaNem que eu peleje não sai,Nunca cantei um repenteMas vivo munto contente,Pois herdei perfeitamenteUm dos dote de meu pai.O dote de sê vaquêro,Resorvido marruêro,
    • Querido dos fazendêroDo sertão do Ceará.Não perciso maió gozo,Sou sertanejo ditoso,O meu aboio sodosoFaz quem tem amô chorá.Patativa do AssaréA TERRA É NATURÁEsta terra é como o SóQue nace todos os diaBriando o grande, o menóE tudo que a terra cria.O só quilarêa os monte,Tombém as água das fonte,Com a sua luz amiga,Potrege, no mesmo instante,Do grandaião elefanteA pequenina formiga.Esta terra é como a chuva,Que vai da praia a campina,Móia a casada, a viúva,A véia, a moça, a menina.Quando sangra o nevuêro,Pra conquistá o aguacêro,Ninguém vai fazê fuxico,Pois a chuva tudo cobre,Móia a tapera do pobreE a grande casa do rico.Esta terra é como a lua,Este foco prateadoQue é do campo até a rua,A lampa dos namorado;Mas, mesmo ao véio cacundo,Já com ar de moribundoSem amô, sem vaidade,Esta lua cô de prataNão lhe dêxa de sê grata;Lhe manda quilaridade.Esta terra é como o vento,O vento que, por caprichoAssopra, às vez, um momento,
    • Brando, fazendo cuchicho.Ôtras vez, vira o capêta,Vai fazendo piruêta,Roncando com desatino,Levando tudo de móioJogando arguêro nos óioDo grande e do pequenino.Se o orguiôso podesseCom seu rancô desmedido,Tarvez até já tivesseEste vento repartido,Ficando com a viraçãoDando ao pobre o furacão;Pois sei que ele tem vontadeE acha mesmo que percisaGozá de frescô da brisa,Dando ao pobre a tempestade.Pois o vento, o só, a lua,A chuva e a terra também,Tudo é coisa minha e sua,Seu dotô conhece bem.Pra se sabê disso tudoNinguém precisa de istudo;Eu, sem escrevê nem lê,Conheço desta verdade,Seu dotô, tenha bondadeDe uvi o que vô dizê.Não invejo o seu tesôro,Sua mala de dinhêroA sua prata, o seu ôroO seu boi, o seu carnêroSeu repôso, seu recreio,Seu bom carro de passeio,Sua casa de moráE a sua loja surtida,O que quero nesta vidaÉ terra pra trabaiá.Iscute o que tô dizendo,Seu dotô, seu coroné:De fome tão padecendoMeus fio e minha muié.Sem briga, questão nem guerra,Meça desta grande terraUmas tarefa pra eu!Tenha pena do agregado
    • Não me dêxe deserdadoDaquilo que Deus me deu.Poema(s) da CabraJoão Cabral de Melo NetoNas margens do Mediterrâneonão se vê um palmo de terraque a terra tivesse esquecidode fazer converter em pedra.Nas margens do MediterrâneoNão se vê um palmo de pedraque a pedra tivesse esquecidode ocupar com sua fera.Ali, onde nenhuma linhapode lembrar, porque mais doce,o que até chega a parecersuave serra de uma foice,
    • não se vê um palmo de terrapor mais pedra ou fera que seja,que a cabra não tenha ocupadocom sua planta fibrosa e negra.A cabra é negra. Mas seu negronão é o negro do ébano douto(que é quase azul) ou o negro ricodo jacarandá (mais bem roxo).O negro da cabra é o negrodo preto, do pobre, do pouco.Negro da poeira, que é cinzento.Negro da ferrugem, que é fosco.Negro do feio, às vezes branco.Ou o negro do pardo, que é pardo.disso que não chega a ter corou perdeu toda cor no gasto.É o negro da segunda classe.Do inferior (que é sempre opaco).Disso que não pode ter corporque em negro sai mais barato.Se o negro quer dizer noturnoo negro da cabra é solar.Não é o da cabra o negro noite.É o negro de sol. Luminar.Será o negro do queimadomais que o negro da escuridão.Negra é do sol que acumulou.É o negro mais bem do carvão.Não é o negro do macabro.Negro funeral. Nem do luto.Tampouco é o negro do mistério,de braços cruzados, eunuco.É mesmo o negro do carvão.O negro da hulha. Do coque.Negro que pode haver na pólvora:negro de vida, não de morte.O negro da cabra é o negroda natureza dela cabra.Mesmo dessa que não é negra,como a do Moxotó, que é clara.O negro é o duro que há no fundoda cabra. De seu natural.Tal no fundo da terra há pedra,
    • no fundo da pedra, metal.O negro é o duro que há no fundoda natureza sem orvalhoque é a da cabra, esse animalsem folhas, só raiz e talo,que é a da cabra, esse animalde alma-caroço, de alma córnea,sem moelas, úmidos, lábios,pão sem miolo, apenas côdea.Quem já encontrou uma cabraque tivesse ritmos domésticos?O grosso derrame do porco,da vaca, do sono e de tédio?Quem encontrou cabra que fosseanimal de sociedade?Tal o cão, o gato, o cavalo,diletos do homem e da arte?A cabra guarda todo o arisco,rebelde, do animal selvagem,viva demais que é para seranimal dos de luxo ou pajem.Viva demais para não ser,quando colaboracionista,o reduzido irredutível,o inconformado conformista.A cabra é o melhor instrumentode verrumar a terra magra.Por dentro da serra e da secanão chega onde chega a cabra.Se a serra é terra, a cabra é pedra.Se a serra é pedra, é pedernal.Sua boca é sempre mais duraque a serra, não importa qual.A cabra tem o dente frio,a insolência do que mastiga.Por isso o homem vive da cabramas sempre a vê como inimiga.Por isso quem vive da cabrae não é capaz do seu braçodesconfia sempre da cabra:diz que tem parte com o Diabo
    • Não é pelo vício da pedra,por preferir a pedra à folha.É que a cabra é expulsa do verde,trancada do lado de fora.A cabra é trancada por dentro.Condenada à caatinga seca.Liberta, no vasto sem nada,proibida, na verdura estreita.Leva no pescoço uma cangaque a impede de furar as cercas.Leva os muros do próprio cárcere:prisioneira e carcereira.Liberdade de fome e sededa ambulante prisioneira.Não é que ela busque o difícil:é que a sabem capaz de pedra.A vida da cabra não deixalazer para ser fina ou lírica(tal o urubu, que em doces linhasvoa à procura da carniça).Vive a cabra contra a pendente,sem os êxtases das decidas.Viver para a cabra não ére-ruminar-se introspectiva.É, literalmente, cavara vida sob a superfície,que a cabra, proibida de folhas,tem de desentranhar raízes.Eis porque é a cabra grosseira,de mãos ásperas, realista.Eis porque, mesmo ruminando,não é jamais contemplativa.O núcleo de cabra é visívelpor debaixo de muitas coisas.Com a natureza da cabraoutras aprendem sua crosta.Um núcleo de cabra é visívelem certos atributos roucosque têm as coisas obrigadasa fazer de seu corpo couro.A fazer de seu couro sola,a armar-se em couraças, escamas:
    • como se dá com certas coisase muitas condições humanas.Os jumentos são animaisque muito aprenderam com a cabra.O nordestino, convivendo-a,fez-se de sua mesma casta. 9O núcleo de cabra é visíveldebaixo do homem do Nordeste.Da cabra lhe vem o escarpadoe o estofo nervudo que o enche.Se adivinha o núcleo de cabrano jeito de existir, Cardozo,que reponta sob seu gestocomo esqueleto sob o corpo.E é outra ossatura mais forteque o esqueleto comum, de todos;debaixo do próprio esqueleto,no fundo centro de seus ossos.A cabra deu ao nordestinoesse esqueleto mais de dentro:o aço do osso, que resistequando o osso perde seu cimento.O Mediterrâneo é mar clássico,com águas de mármore azul.Em nada me lembra das águassem marca do rio Pajeú.As ondas do Mediterrâneoestão no mármore traçadas.Nos rios do Sertão, se existe,a água corre despenteada.As margens do Mediterrâneoparecem deserto balcão.Deserto, mas de terras nobresnão da piçarra do Sertão.Mas não minto o Mediterrâneonem sua atmosfera maiordescrevendo-lhe as cabras negrasem termos da do Moxotó.
    • MORTE E VIDA SEVERINA João Cabral de Melo NetoO RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI— O meu nome é Severino,como não tenho outro de pia.Como há muitos Severinos,que é santo de romaria,deram então de me chamarSeverino de Mariacomo há muitos Severinoscom mães chamadas Maria,fiquei sendo o da Mariado finado Zacarias.Mais isso ainda diz pouco:há muitos na freguesia,por causa de um coronelque se chamou Zacariase que foi o mais antigosenhor desta sesmaria.Como então dizer quem faloora a Vossas Senhorias?Vejamos: é o Severinoda Maria do Zacarias,lá da serra da Costela,limites da Paraíba.Mas isso ainda diz pouco:se ao menos mais cinco haviacom nome de Severinofilhos de tantas Mariasmulheres de outros tantos,já finados, Zacarias,vivendo na mesma serramagra e ossuda em que eu vivia.Somos muitos Severinosiguais em tudo na vida:na mesma cabeça grandeque a custo é que se equilibra,no mesmo ventre crescidosobre as mesmas pernas finase iguais também porque o sangue,que usamos tem pouca tinta.
    • E se somos Severinosiguais em tudo na vida,morremos de morte igual,mesma morte severina:que é a morte de que se morrede velhice antes dos trinta,de emboscada antes dos vintede fome um pouco por dia(de fraqueza e de doençaé que a morte severinaataca em qualquer idade,e até gente não nascida).Somos muitos Severinosiguais em tudo e na sina:a de abrandar estas pedrassuando-se muito em cima,a de tentar despertarterra sempre mais extinta,a de querer arrancaralguns roçado da cinza.Mas, para que me conheçammelhor Vossas Senhoriase melhor possam seguira história de minha vida,passo a ser o Severinoque em vossa presença emigra.ONDE SAIU O HOMEM,ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ —— Compadre José, compadre,que na relva estais deitado:conversais e não sabeisque vosso filho é chegado?Estais aí conversandoem vossa prosa entretida:não sabeis que vosso filhosaltou para dentro da vida?Saltou para dento da vidaao dar o primeiro gritoe estais aí conversandopois sabeis que ele é nascido.
    • APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DOHOMEM VIZINHOS,AMIGOS, DUAS CIGANAS, ETC—— Todo o céu e a terralhe cantam louvor.Foi por ele que a maréesta noite não baixou.—— Foi por ele que a maréfez parar o seu motor:a lama ficou cobertae o mau-cheiro não voou.—— E a alfazema do sargaço,ácida, desinfetante,veio varrer nossas ruasenviada do mar distante.—— E a língua seca de esponjaque tem o vento terralveio enxugar a umidadedo encharcado lamaçal.—— Todo o céu e a terralhe cantam louvore cada casa se tornanum mocambo sedutor.—— Cada casebre se tornano mocambo modelarque tanto celebram ossociólogos do lugar.—— E a banda de maruinsque toda noite se ouviapor causa dele, esta noite,creio que não irradia.—— E este rio de água, cega,ou baça, de comer terra,que jamais espelha o céu,hoje enfeitou-se de estrelas.
    • COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDOPRESENTES PARAO RECÉM-NASCIDO — Minha pobreza tal éque não trago presente grande:trago para a mãe caranguejospescados por esses manguesmamando leite de lamaconservará nosso sangue.—— Minha pobreza tal éque coisa alguma posso ofertar:somente o leite que tenhopara meu filho amamentaraqui todos são irmãos,de leite, de lama, de ar.—— Minha pobreza tal éque não tenho presente melhor:trago este papel de jornalpara lhe servir de cobertorcobrindo-se assim de letrasvai um dia ser doutor.—— Minha pobreza tal éque não tenho presente caro:como não posso trazerum olho dágua de Lagoa do Cerro,trago aqui água de Olinda,água da bica do Rosário.—— Minha pobreza tal éque grande coisa não trago:trago este canário da terraque canta sorrindo e de estalo.—— Minha pobreza tal éque minha oferta não é rica:trago daquela bolacha dáguaque só em Paudalho se fabrica.—— Minha pobreza tal éque melhor presente não tem:dou este boneco de barrode Severino de Tracunhaém.—— Minha pobreza tal éque pouco tenho o que dar:dou da pitu que o pintor Monteirofabricava em Gravatá.—— Trago abacaxi de Goianae de todo o Estado rolete de cana.—— Eis ostras chegadas agora,apanhadas no cais da Aurora.
    • —— Eis tamarindos da Jaqueirae jaca da Tamarineira.—— Mangabas do Cajueiroe cajus da Mangabeira.—— Peixe pescado no Passarinho,carne de boi dos Peixinhos.—— Siris apanhados no lamaçalque já no avesso da rua Imperial.—— Mangas compradas nos quintais ricosdo Espinheiro e dos Aflitos.—— Goiamuns dados pela gente pobreda Avenida Sul e da Avenida Norte.FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAMAPARECIDO COM OS VIZINHOS—— Atenção peço, senhores,para esta breve leitura:somos ciganas do Egito,lemos a sorte futura.Vou dizer todas as coisasque desde já posso verna vida desse meninoacabado de nascer:aprenderá a engatinharpor aí, com aratus,aprenderá a caminharna lama, como goiamuns,e a correr o ensinarãoo anfíbios caranguejos,pelo que será anfíbiocomo a gente daqui mesmo.Cedo aprenderá a caçar:primeiro, com as galinhas,que é catando pelo chãotudo o que cheira a comidadepois, aprenderá comoutras espécies de bichos:com os porcos nos monturos,com os cachorros no lixo.Vejo-o, uns anos mais tarde,na ilha do Maruim,
    • vestido negro de lama,voltar de pescar sirise vejo-o, ainda maior,pelo imenso lamarãofazendo dos dedos iscaspara pescar camarão.—— Atenção peço, senhores,também para minha leitura:também venho dos Egitos,vou completar a figura.Outras coisas que estou vendoé necessário que eu diga:não ficará a pescarde jereré toda a vida.Minha amiga se esqueceude dizer todas as linhasnão pensem que a vida delehá de ser sempre daninha.Enxergo daqui a planuraque é a vida do homem de ofício,bem mais sadia que os mangues,tenha embora precipícios.Não o vejo dentro dos mangues,vejo-o dentro de uma fábrica:se está negro não é lama,é graxa de sua máquina,coisa mais limpa que a lamado pescador de maréque vemos aqui vestidode lama da cara ao pé.E mais: para que não pensemque em sua vida tudo é triste,vejo coisa que o trabalhotalvez até lhe conquiste:que é mudar-se destes manguesdaqui do Capibaribepara um mocambo melhornos mangues do Beberibe.
    • FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUEVIERAM COM PRESENTES, ETC—— De sua formosurajá venho dizer:é um menino magro,de muito peso não é,mas tem o peso de homem,de obra de ventre de mulher.—— De sua formosuradeixai-me que diga:é uma criança pálida,é uma criança franzina,mas tem a marca de homem,marca de humana oficina.—— Sua formosuradeixai-me que cante:é um menino guenzocomo todos os desses mangues,mas a máquina de homemjá bate nele, incessante.—— Sua formosuraeis aqui descrita:é uma criança pequena,enclenque e setemesinha,mas as mãos que criam coisasnas suas já se adivinha.—— De sua formosuradeixai-me que diga:é belo como o coqueiroque vence a areia marinha.—— De sua formosuradeixai-me que diga:belo como o avelóscontra o Agreste de cinza.—— De sua formosuradeixai-me que diga:belo como a palmatóriana caatinga sem saliva.—— De sua formosuradeixai-me que diga:é tão belo como um simnuma sala negativa.
    • —— é tão belo como a socaque o canavial multiplica.—— Belo porque é uma portaabrindo-se em mais saídas.—— Belo como a última ondaque o fim do mar sempre adia.—— é tão belo como as ondasem sua adição infinita.—— Belo porque tem do novoa surpresa e a alegria.—— Belo como a coisa novana prateleira até então vazia.—— Como qualquer coisa novainaugurando o seu dia.—— Ou como o caderno novoquando a gente o principia.—— E belo porque o novotodo o velho contagia.—— Belo porque corrompecom sangue novo a anemia.—— Infecciona a misériacom vida nova e sadia.—— Com oásis, o deserto,com ventos, a calmaria.O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUEESTEVE DE FORA,SEM TOMAR PARTE DE NADA—— Severino, retirante,deixe agora que lhe diga:eu não sei bem a respostada pergunta que fazia,se não vale mais saltarfora da ponte e da vidanem conheço essa resposta,se quer mesmo que lhe digaé difícil defender,só com palavras, a vida,ainda mais quando ela éesta que vê, severina
    • mas se responder não pudeà pergunta que fazia,ela, a vida, a respondeucom sua presença viva.E não há melhor respostaque o espetáculo da vida:vê-la desfiar seu fio,que também se chama vida,ver a fábrica que ela mesma,teimosamente, se fabrica,vê-la brotar como há poucoem nova vida explodidamesmo quando é assim pequenaa explosão, como a ocorridacomo a de há pouco, franzinamesmo quando é a explosãode uma vida severina.A um Bruxo, Com AmorCarlos Drummond AndradeEm certa casa da Rua Cosme Velho(que se abre no vazio)venho visitar-te; e me recebesna sala trajestada com simplicidadeonde pensamentos idos e vividosperdem o amarelode novo interrogando o céu e a noite.Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,uma luz que não vem de parte algumapois todos os castiçaisestão apagados.Contas a meia vozmaneiras de amar e de compor os ministériose deitá-los abaixo, entre malinase bruxelas.Conheces a fundoa geologia moral dos Lobo Nevese essa espécie de olhos derramadosque não foram feitos para ciumentos.E ficas mirando o ratinho meio cadávercom a polida, minuciosa curiosidadede quem saboreia por tabelao prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.Olhas para a guerra, o murro, a facadacomo para uma simples quebra da monotonia universale tens no rosto antigo
    • uma expressão a que não acho nome certo(das sensações do mundo a mais sutil):volúpia do aborrecimento?ou, grande lascivo, do nada?O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,mostra que os homens morreram.A terra está nua deles.Contudo, em longe recanto,a ramagem começa a sussurar alguma coisaque não se estende logoa parece a canção das manhãs novas.Bem a distingo, ronda clara:É Flora,com olhos dotados de um mover particularente mavioso e pensativo;Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);Virgília,cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;Mariana, que os tem redondos e namorados;e Sancha, de olhos intimativos;e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,o mar que fala a mesma linguagemobscura e nova de D. Severinae das chinelinhas de alcova de Conceição.A todas decifrastes íris e braçose delas disseste a razão última e refolhadamoça, flor mulher florcanção de mulher nova...E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosóficaentre loucos que riem de ser loucose os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.O eflúvio da manhã,quem o pede ao crepúsculo da tarde?Uma presença, o clarineta,vai pé ante pé procurar o remédio,mas haverá remédio para existirsenão existir?E, para os dias mais ásperos, alémda cocaína moral dos bons livros?Que crime cometemos além de vivere porventura o de amarnão se sabe a quem, mas amar?Todos os cemitérios se parecem,e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvidaapalpa o mármore da verdade, a descobrira fenda necessária;onde o diabo joga dama com o destino,
    • estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,que resolves em mim tantos enigmas.Um som remoto e brandorompe em meio a embriões e ruínas,eternas exéquias e aleluias eternas,e chega ao despistamento de teu pencenê.O estribeiro Oblivionbate à porta e chama ao espetáculopromovido para divertir o planeta Saturno.Dás volta à chave,envolves-te na capa,e qual novo Ariel, sem mais resposta,sais pela janela, dissolves-te no ar. Caso do Vestido Carlos Drummond de Andrade Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego? Minhas filhas, é o vestido de uma dona que passou. Passou quando, nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas, boca presa. Vosso pai evém chegando. Nossa mãe, dizei depressa que vestido é esse vestido. Minhas filhas, mas o corpo ficou frio e não o veste. O vestido, nesse prego, está morto, sossegado.
    • Nossa mãe, esse vestido tanta renda, esse segredo! Minhas filhas, escutai palavras de minha boca. Era uma dona de longe, vosso pai enamorou-se. E ficou tão transtornado, se perdeu tanto de nós, se afastou de toda vida, se fechou, se devorou, chorou no prato de carne, bebeu, brigou, me bateu,me deixou com vosso berço, foi para a dona de longe, mas a dona não ligou. Em vão o pai implorou. Dava apólice, fazenda, dava carro, dava ouro, beberia seu sobejo, lamberia seu sapato. Mas a dona nem ligou. Então vosso pai, irado, me pediu que lhe pedisse, a essa dona tão perversa, que tivesse paciência e fosse dormir com ele...Nossa mãe, por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. Minhas filhas, vosso paichega ao pátio. Disfarcemos.Nossa mãe, não escutamos pisar de pé no degrau. Minhas filhas, procurei aquela mulher do demo.
    • E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Eu não amo teu marido, me falou ela se rindo. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto, só pra lhe satisfazer,não por mim, não quero homem. Olhei para vosso pai, os olhos dele pediam. Olhei para a dona ruim, os olhos dela gozavam. O seu vestido de renda, de colo mui devassado, mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Eu fiz meu pelo-sinal, me curvei... disse que sim. Sai pensando na morte, mas a morte não chegava. Andei pelas cinco ruas, passei ponte, passei rio, visitei vossos parentes, não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. Fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca,perdi meus dentes, meus olhos, costurei, lavei, fiz doce,minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia.
    • Vosso pais sumiu no mundo.O mundo é grande e pequeno. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada, pobre, desfeita, mofina, com sua trouxa na mão. Dona, me disse baixinho, não te dou vosso marido, que não sei onde ele anda. Mas te dou este vestido, última peça de luxoque guardei como lembrança daquele dia de cobra, da maior humilhação. Eu não tinha amor por ele, ao depois amor pegou. Mas então ele enjoado confessou que só gostavade mim como eu era dantes. Me joguei a suas plantas, fiz toda sorte de dengo, no chão rocei minha cara, me puxei pelos cabelos, me lancei na correnteza, me cortei de canivete, me atirei no sumidouro, bebi fel e gasolina, rezei duzentas novenas, dona, de nada valeu: vosso marido sumiu. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho.
    • Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. Olhei para a cara dela, quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso, quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela, boca não disse palavra. Peguei o vestido, pus nesse prego da parede. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Olhou pra mim em silêncio, mal reparou no vestido e disse apenas: — Mulher,põe mais um prato na mesa. Eu fiz, ele se assentou, comeu, limpou o suor,era sempre o mesmo homem, comia meio de lado e nem estava mais velho. O barulho da comida na boca, me acalentava, me dava uma grande paz, um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho,vestido não há... nem nada. Minhas filhas, eis que ouçovosso pai subindo a escada.
    • Texto extraído do livro "Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora -1985, pág. 157.