A IMAGEM DIGITAL COMO DISPOSITIVO DE APROPRIAÇÃO DOS MODOS DE                      SUBJETIVAÇÃO CONTEMPORÂNEOS            ...
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Imagem digital e contemporaneidade                                                                                        ...
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Imagem digital

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  1. 1. A IMAGEM DIGITAL COMO DISPOSITIVO DE APROPRIAÇÃO DOS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO CONTEMPORÂNEOS * Patrícia Beatriz Argôllo Gomes Kirst # Tania Mara Galli FonsecaRESUMO. O artigo “A imagem digital como dispositivo de apropriação dos modos de subjetivação contemporâneos” trata deproblematizar a imagem digital como emblema dos atuais modos de produção de subjetividade. Na imagem digital, o tempo éresignificado na despotencialização de seus aspectos acumulativos vindo a ser integrado a uma temporalidade transitória e de confluênciade encontros. A discussão proposta expõe dimensões do conceito de virtual afirmando-o como potência imaginativa, fruto deagenciamentos múltiplos e heterogêneos entre arte, tecnologia e ciência fundando novas interações entre sujeito e mundo. É justamente,desde uma leitura da realidade como pura transformação, não existindo essências e sim estados de coisas, que a simulação se tornaadequada para pensar as relações entre imagem digital e subjetividade.Palavras-chave: Imagem digital; contemporaneidade; subjetivação. THE DIGITAL IMAGE AS A TOOL FOR THE ASSUMPTION OF CONTEMPORARY SUBJECTIVIZING METHODSABSTRACT. The article "The digital image as a tool for the assumption of contemporary subjectivizing methods" brings intothe matter the digital image as the symbol of the current ways we produce subjectivity. In the digital image, time is redefinedin the weakness of its accumulative aspects eventually integrated to a momentary temporality and of confluence of meetings.The proposed discussion exposes dimensions of the concept of virtuality strengthning it as an imaginative power, creation ofmultiple and heterogeneous administrations among art, technology and science establishing new interactions between manand world. Since reality is seen as pure transformation, without the existence of essences and yet the state of things,simulation becomes appropriate to the thinking of the relationship between digital image and subjectivity.Key words: Digital image; contemporarity; subjectivity.. "LA IMAGEN DIGITAL COMO DISPOSITIVO DE APROPIACIÓN DE LOS MODOS DE SUBJETIVIDAD CONTEMPORÁNEOS"RESUMEN. El artículo "La imagen digital como dispositivo de apropiación de los modos de subjetividad contemporáneos" trata deproblematizar la imagen digital como emblema de los actuales modo de producción de subjetividad. En la imagen digital, el tiempo es otravez significado en la pérdida de potencia de sus aspectos acumulativos siendo integrado a una temporalidad transitoria y de confluencia deencuentros. La discusión propuesta expone dimensiones del concepto de virtual afirmándolo como potencia imaginativa, fruto deagenciamentos múltiplos y heterogéneos entre arte, tecnología y ciencia fundando nuevas interacciones entre sujeto y mundo. Esjustamente, desde una lectura de la realidad como pura transformación, no existiendo esencias y sí estados de cosas que la simulación setorna adecuada para pensar las relaciones entre imagen digital y subjetividad.Palabras-clave: Imagen digital; contemporaneidad; subjetividad. Uma boa imagem mental para relacionar a uma flor que se faz pingo e este pingo virando estrelaimagem digital e a produção de subjetividade é a de e em estrelas transformam-se os olhos do espectador.* Psicóloga. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGIE/UFRGS), Brasil.# Psicóloga. Doutora em Educação. Pós-doutora. Professora titular da UFRGS nos Programas de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional (PPGPSI) e Informática na Educação (PPGIE), Brasil.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  2. 2. 402 Kirst e FonsecaAssim, um se faz no outro e quem vê tem o corpo heterogêneos entre arte, tecnologia e ciência fundandotornado imagem. É destas possibilidades de novas interações entre sujeito e mundo.acoplamento, dos jogos das imagens pregnantes, É a partir desta terceira tendência de compreensãoimagens autopoiéticas, imagens em corpos e corpos da imagem, com sua potência virtual, que nortearemosem imagens que queremos pensar os modos de nossa escrita. A imagem digital como espaço desubjetivação contemporâneos. criação de mundos e rompimento com a perspectiva de A imagem desde sempre apresentou um mistério duplicidade signo-real inovando a sensibilidade emligado ao esforço de decifrar e tornar possível. Dar relação ao tempo e tratando as potências virtuais aísentido ao mundo, oferecendo-se como espelho, contidas como emblema do desejo de trânsito decertamente, imperfeito. As tantas miragens do mundo informações resignificadas conforme a demanda doque vêm desde as pinturas nas cavernas, passando da momento; emblema da modelagem própria de nossospintura, a fotografia, à televisão e sua aldeia global e, tempos e de suas formas de conhecer. Se toda amais recentemente, à imagem digital, dizem das imagem é linguagem, temos, na imagem digital, umtransformações dos modos de pensar e arcar com os acesso ao ritmo e à estética da produção deimpasses da processualidade do real/sujeito. subjetividade contemporânea. Mais precisamente, trata-se da localização das Então, não é possível separar o mundo datantas formas de relação com o real através de que o imagem, o real da imagem, o corpo da imagem, poissujeito se inventa através dos tempos. Estas tudo é tentativa de construção de sentido. A leitura etecnologias de apreensão explicitam o limite do criação da imagem digital colocam em jogo apensamento e da capacidade de criação de mundos e formação do olhar ou, mais exatamente, como sesubjetividade. produz subjetividade e isto se dá através da memória O que foi modificado na imagem, através de sua como mar de imagens pronto a ser cartografado pelodigitalização no contemporâneo, basicamente, é a sua presente, memória como espaço virtual capturado pelarelação com a verdade e sua potência virtual. Na última vista.imagem digitalizada, a simulação adquire o atributo de Nem passado, nem futuro, inexoravelmente o agora é que nos defronta. O passado pode vir, masinfinita, a imagem depoimento do mundo vira sempre atravessado pela última cena. Quanto aoimagem-imaginação. O real se reinaugura através de futuro, simplesmente não existe, é somente imagem.um click no mouse. O tempo linear e cumulativo das Vemos com o visto. Dobramos com a própria dobra. Averdades infinitas, das imagens como duplicidade captura da imagem é da mesma ordem da lembrança,podendo provar algo, é substituído por um tempo ao lembrarmos estamos criando e decifrando o própriofugidio, sempre em trânsito, tempo do encontro que corpo.acompanha o acender da faísca criativa. Não se pode, portanto, aprender com a imagem. O virtual, neste sentido, deve ser problematizado, Podemos modificá-la para fusionar com o passado, opois está o tempo todo sendo movimentado pelo aqui e agora. Então, a imagem convida à diferença,trânsito de atualizações decorrentes do trabalho na pois, potencialmente, guarda outros muitos regimes deimagem digital. Mas, quais podem ser as vias visão. A imagem é violenta no sentido que não possuiconceituais para pensarmos a arquitetura do virtual, sua própria decifração, mas se sincroniza com anão o concebendo como somente da ordem da memória passando a exigir seu desdobramento nelatecnologia? própria. Entraremos no terreno do virtual e seus três Assim, a violência da imagem repousa, muitoconceitos-chave que segundo André Parente (1999), freqüentemente, onde a imagem pode projetar umpodem ser pensados, em primeiro lugar, através da reflexo, tornando-se um pequeno espelho. É, em peloidéia de que, na cultura contemporânea a imagem se menos, um ponto de acoplamento entre o espectador etornou auto-referente quebrando com os modelos de imagem que o sujeito se surpreende com o reflexo derepresentação, em autores como Arlindo Machado, seus próprios olhos. Se não houver pelo menos umEdmond Couchot e Paul Fargier; em segundo, temos ponto onde o sujeito se descubra, a imagem é refutada,uma tendência mais pessimista onde a imagem virtual procura-se um novo link. A imagem pode ser vista eé um significante sem referente social, em autores não ser subjetivada e o que está em pauta é a própriacomo Virilio e Baudrillard e, finalmente, existe a persuasão-conjuntura onde o inconsciente pode serafirmação de autores como Gilles Deleuze, Félix seduzido então entregando-se a mais uma tradução.Guattari e Pierre Lévy de que o virtual é potência Por isto, a imagem não é em si, é para e com o sujeito,imaginativa, fruto de agenciamentos múltiplos e existe na relação.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  3. 3. Imagem digital e contemporaneidade 403 Pensar a subjetividade através da imagem permite Ainda poderemos pensar que, conforme apensar o mundo como superfície movimentada e o demanda de função de uma dobra, ela irá redobrar-se esujeito como dobra desta superfície/mundo. Talvez, o ativar outras dobras que darão a ela própria e as outrasmais intrigante é como o sujeito se produz frente ao formas diversas conforme a necessidade de atividade.mundo, frente a tantas imagens, como encontra lugar Tal atividade pode ser acionada por imprevistos, porpara acomodar a si? Pensadores como Michel novidades, como quando um corpo é tomado por umFoucault, Michel Serres e Gilles Deleuze produziram vírus ou quando uma máquina entra em pane ou,boa parte da dobra de suas obras tentando arcar com ainda, quando um sujeito sente-se convocado aeste enigma. mergulhar em uma experiência não vivida e a matéria Segundo Deleuze (1992, p. 195), o conceito de e a subjetividade entram em tipo de curvatura trans oudobra-inflexão está ligado à singularidade, textura, sem a certeza de onde irão parar. Pelas forças do foradiferença/potência de metamorfose, pois “o mundo é que a dobra redobra-se ao infinito, pois um corpo,está dobrado em cada alma”, mas conforme cenas e para manter-se, deve adaptar-se aos acontecimentos. Atempo específicos para aquele sujeito. Pode-se pensar curvatura da dobra é sempre transversal, pois ana dobra com base em Michel Serres (1994, p. 51), subjetividade nunca é vetorizada por um só ente deque a traduz como implicação no mundo, ou dobra cada vez, mas por uma série de entes demandantes decomo “pli” de explicação, multiplicação, complicação, ajustes maiores ou menores que fazem o corpo-onde o sujeito se movimenta no sentido de dar conta pensamento oscilar em novas emergências. Mesmode algo, “a dobragem forma a direção do pequeno no que, o ser fosse acionado por apenas um ente, este é composto por molecularidades que o fragmentamgrande, a dobra permite passar do lugar ao espaço”, infinitamente, compondo campos de força e, portanto,seria o ser cavando a si mesmo do mundo. E ainda campos de curvatura diferentes.para Foucault (citado por Deleuze, 1991, p. 113-114) A coisa, o objeto, o sujeito, o ser, a multidão, oa dobra é concebida como espessura do fora-mundo referente não são um, são multiplicidade dobrada erecolhida em si, interior do exterior. Sendo o exterior redobrada na divisão ilimitada de cada matéria como próprio tempo, o sujeito ao ser arrastado nele, forma suas propriedades de diferenciação e exposição. Estasmemória (“o tempo como sujeito chama-se propriedades produzem os corpos em dureza,memória”), esta não só de si, meramente psicológica, molaridade e resistência e, simultaneamente, emmas memória de mundo, “memória esquecida”. O fluidez, criação e molecularidades. A força de fluidezexterior também é tido como força e o sujeito-dobra dos corpos, suas adaptações, marcam sua expressão decomo resistência/seleção a tudo o que pode/poderia curvatura em relação às suas exposições às forças quearrastar os processos de feitura de si/ eterno vir a ser. dobram e pressionam em direção às formas. SendoAlém de tempo e da força, o fora foi pensado como o assim, as formas são convocadas pela compressão dasimpensado e a dobra como pensamento ou espaço de forças. A menor unidade de um ser é ainda uma dobra,subjetivação, “pois não se pode descobrir o impensado pois poderá diferenciar-se na relação com as forças ou(...) sem prontamente aproximá-lo de si”. (Deleuze, com outras dobras.1991, p. 126). Em relação à fotografia digital em processo, Enfim, a existência do ser está dentro das poderíamos pensar o píxel não mais como ponto, masentranhas do mundo, ou, ainda poderíamos pensar no como dobra infinetesimal da imagem. Então, afora ou no tempo como plano de virtualidade e a organização não se dá entre partes, mas em um infinitoexistência como canal de sua atualização. Existir ou de dobras que em seu movimento de des-re-dobragem,subjetivar o mundo é atualizar. No campo infinito das formam novos sistemas de agregação. Tal processodiferenças das existências, a complexidade está ligada organizativo apresenta-se na forma conservando aà dobra, no sentido de quanto mais especializações força que, convocada por outra força, destruirá apossui o ser, mais dobras com especializações e forma anterior. A desdobra é nova dobra. Na relaçãofinalidades. Como um corpo com seus órgãos ou um entre transfotografia e subjetivação, sujeito e imagemsoftware com seus comandos, ou mesmo a imagem digital, multidão e tecnologia o que marca a diferençadigital com seus subsistemas e camadas de agregação é a força, pois segundo Deleuze (1991, p. 19) “aem píxels. Assim, cada dobra ou órgão é entendido matéria orgânica não é o contrário da inorgânica.como um subsistema, não se configurando como Inorgânica ou orgânica é a mesma matéria, mas nãoponto em relação com outro ponto em um esquema são as mesmas forças ativas que se exercem sobrelinear, mas em multiplicidade dobrada em muitas ela.” A relação de forças possui imanência com ovariações. movimento variável, pois, o espaço que os corposPsicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  4. 4. 404 Kirst e Fonsecaocupam não poderá ser o mesmo; assim, as dobras do palavra final, não existe a certeza, não há porto para oencontro são únicas e geram novos espaços, novas pensamento. O que resta para o sujeito contemporâneoocupações territoriais. Os processos de des-re- é a manutenção constante da narrativa no sentido dedobragem, a partir dos espaços de habitação dos píxels não deixar o labirinto hipertextual fazer calar, pois ana imagem, dos sujeitos no mundo e, a cada vivacidade da narrativa da imagem constante edeslocamento, gerado pelas curvaturas resultantes das deslocada de si aponta para um mundo em aberto eforças vão inaugurando novos espaços. Cada ainda por fazer.deslocamento gerado pelas forças geradoras dos E, esta idéia se opõe à idéia de que a imagemencontros, refazem o cenário da vida. A digital indica uma fabulação que não se interessa maistransfotografia, por sua gênese digital e, portanto, de pelo referente e que não mantém laço nenhum com omovimento e efemeridade, é um meio por onde se social. Opõe-se ainda, à idéia de por ter-se àdiferencia outras espécies de organismos ou disposição imagens mutantes em abundância, acabamorganizações. Os pixels em troca espacial produzem as potências de resistência. É preciso perder o medoum viveiro de alteração do pensamento e das de navegar resignificando o virtual e as distâncias,sensibilidades: subjetivação. concebendo que virtual é tudo o que não é aqui/agora Os movimentos que a transfotografia recebe da estando lá fora e, não ligado unicamente, àsmultidão são os princípios imateriais de sua vida possibilidades que as ferramentas de simulação nossingular. O lugar, o espaço que a imagem digital trazem.ocupa indica sua subjetivação, as suas companhias, O que está em questão é entender o sujeito nãoseus parceiros humanos e inumanos em diferenciação como cópia de si mesmo, mas como entidade emmútua. Sua morada no software e nos corpos que a estado de outramento não conforme sua vontade ouinventam. sua pseudo-liberdade, mas pelas ofertas externas, pelo Seguindo os conceitos expostos, a própria horizonte, que será, em alguma medida, alvo dosuperfície suporta, então, o que se pode chamar de desejo: medida de singularidade. Então, a imagem“interioridade” do sujeito no instante, a parte externa digital pode ser emblema de um estado de outramentoda dobra, aquela que toca o fora e que pode ser que, consiste em tornar-se estrangeiro de si mesmo,explorada com o olhar. Mas, a camada fronteiriça está possibilitando ao sujeito experimentar-se em novoscolada às mais interiores em “continuum” e, por isto, espaços e modos de existência. Aqui, o sujeito pode“traz a pista” daquilo que a faz emergir. ser entendido, como uma multiplicidade à espera de Os olhos são fundadores/dobradores do mundo, recursos para sair do conhecido e refazer sua formasendo através deles que, em primeiro lugar, somos através dos devires apresentados pelo mundo.tomados por sua materialidade. Canais fundamentais O desejo é movido pela necessidade dede apropriação do fora, sendo chamados por alguns de atualização e não pela vontade de satisfação. Enfim,“janelas da alma”, sugerindo, talvez, que a visão pode traduzir é duplicar-se não em outro idêntico, mas emser uma das pontas da dobra. um outro efêmero. Somos o corpo do mundo em ação. Em uma ponta, a percepção com suas Se o sujeito busca deslocar-se de si para manter adeformações, defesas, sua filtragem, sua influência, própria vida, a imagem não pode caber dentro dasua memória e, de outro, o mundo dos perceptos que, representação do Fora, pois isto remeteria à noção depor mais que se queira fechar os olhos, adentra todas um sujeito identitário e impedido do encontro com aas janelas do corpo, influindo e tornando-se diferença. A imagem vista como motor dasubjetividade. A subjetividade é imagética na medida representação está fadada a aprisionar a diferençaem que, de sua metamorfose, revela, declara, conhece dentro da noção da semelhança, do ponto de vista dae deixa entrar, dobrando mundos... Pode-se perguntar: percepção e da analogia, do ponto de vista do juízo.O que o sujeito pode ser diante de uma imagem? Ou Tal complexificação sugere conceitos porosos e,como cada um vai incorporar/ser possuído pelo mundo por vezes, voláteis e, em se tratando da velocidade daatravés da velocidade mutante da imagem digital? imagem digital, o sujeito contemporâneo está frente a A dobra, gerada pelo artifício imagético digital, é frente com sua alteridade, interminavelmente. O quea retenção da passagem de algum aspecto do mundo está emergindo é a nova gestão do conhecimento queque implica a sobre-vida de um momento e sua convoca novas formas de conceber a autoriaproliferação de entretempos. quebrando a hierarquia capitalística dos espaços- O que está presente nesta ficção que sempre está tempo e criando um espaço polissêmico para acom seu outro pronto para tomar seu lugar? atribuição dos sentidos de si. O sujeito não irá,Acreditamos ser justamente a idéia de que não existe a definitivamente, dar conta do mar de imagens,Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  5. 5. Imagem digital e contemporaneidade 405entretanto poderá descobrir respostas sem solução pré- nascimento de mundos” (Guattari & Rolnik, 1993, p.determinada e eliminar o “correto” e orientar para a 23).noção daquilo que pode ou não fazer sentido. A imagem pode ser uma das inúmeras formas que Nesta quebra de hierarquia, o pensamento grego o sujeito emprega para simular(se), expressando-seque originou, até então, as formas de conceber o através da escolha de certos “portos” dentro do “mar”conhecimento entra em crise. Mas o que concede a da linguagem. Então, a imagem digital, pensada comovisão? Ou melhor, o que a imagem pode oferecer na multiplicidade de signos, simulação do mundo ouapreensão do real e no aprendizado da vida? como “tempo redescoberto” (Proust, 1998), é criaçãoRetomando, de forma sucinta, o pensamento grego, e, portanto, nada mais é do que um território possívelpara Platão a imagem integra o terreno das ilusões e para o trânsito da perpétua busca/fuga das tantassuas potências tomam força no convencimento do formas do desejo e do tempo.espectador menos atento. Neste sentido, a imagem A imagem coloca em questão que, mesmo nosdesfigura e fragmenta a forma primeira, ideal, e, por tempos de fotografia analógica, que carregava aassim dizer “verdadeira”. Aristóteles concebe a certeza da prova e da presença, portanto, no lugar daimagem como parte importante e privilegiada do cena, esta era desfigurada e recriada pela memória doaprendizado sobre o mundo. É preciso “imitar” para espectador. A fotografia analógica, por exemplo, poraprender o mundo. estas propriedades, nos transportava para um passado Nessa discussão, está presente, em ambos, talvez habitado pelo produtor da imagem. E, emde forma indireta, a resistência ao devir, pois o que contrapartida, a imagem digital faz com que possamosimporta é que a imagem seja ou possibilite a verdade marcá-la com qualquer tempo fugindo da tríadeou a aprendizagem da realidade sem distorções. passado, presente, futuro sendo marcada pelo tempoEntretanto, pode-se admitir uma terceira possibilidade: momentâneo.pensar a simulação como verdade, a imagem como Podemos temporalizar a imagem digital, fazê-laexpressão da vida, em constante reconfiguração pelos carregar diversos regimes do tempo, pois ao mesmoolhos do espectador, sempre trocando de “aparência”. tempo, em que se transforma carrega a memória de É justamente desde uma leitura da realidade como suas faces anteriores, tendo no píxel, uma espécie depura transformação, não existindo essências e sim “célula tronco” ou grão da matéria do mundo que,estados de coisas, que a simulação se torna adequada quando reaplicado, pode gerar qualquer geografia depara pensar as relações entre imagem e subjetividade. qualquer paisagem, contendo, no caso da imagem,Na vida, o terreno é acidentado, tenso e mutante e, a tempo históricos, artísticos, tecnológicos, científicos...simulação não só é marca, é o caminho dos A imagem digital está sempre pronta à auto-destruir-semovimentos do desejo para a leitura de signos. O para renovar sua cena, escapando até do tempo e dedesejo é o alquimista da imagem em imagem tornando suas misérias, pois está, de alguma forma, “foreverpossível a articulação das diferentes fluências da young” .linguagem. O desejo promove um ente mestiço, não Alguns fotógrafos melancólicos dizem,dicotômico, que nasce nas derivas da imagem sem carregando suas velhas máquinas analógicas que nãofim. se adaptam à imagem digital porque estas não têm Félix Guattari e Suely Rolnik (1993) afirmam que alma, indicando uma outra incidência temporal quea simulação é a exteriorização do desejo, cuja não remete aquele passado-porto que ostentava aintensidade toma uma forma provisória, mas habitação da cena com o corpo físico estando “olho-consistente, em matéria e expressão. A forma ideal no-olho” com o referente. A seqüencialidade históricanão existe, o rosto tampouco, a não ser que seja foi rompida, pode-se entrar na cena, virtualmente, semconsiderado uma sucessão de máscaras. A simulação sujar os sapatos.nada tem a ver com falsidade ou fingimento; é, Sabe-se que a imagem não é transparente. Algo seapenas, uma condutora da intensidade dos afetos, interpõe entre a mensagem e seu tradutor, nãotornando-se, então, realidade. A realidade é artifício e, havendo possibilidade de input e output sem que,neste sentido, a busca pela verdade se torna um falso nesta seqüência, não se leve em conta o híbrido com oproblema. nascimento de uma terceira imagem composta pela “Vê-se que é no artifício e só nele que as existência daquele que vê. Aquilo que, anteriormente,intensidades ganham e perdem sentido, produzindo-se poder-se-ia chamar de descrição, narrativa oumundos e desmanchando-se outros, tudo ao mesmo discurso, a partir deste ponto de vista, pode sertempo. Movimentos de territorialização: intensidades chamado de produção existencial ou cartografia doaterrizando em certas matérias de expressão; tempo.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  6. 6. 406 Kirst e Fonseca O olhar nunca foi passivo. A imagem não vem interior, forças que propiciem tanto linhas, como asomente de fora e, certamente, o grau de compreensão difusão das mesmas e, ainda, trânsitos indeterminados.de uma mensagem se dá na medida em que ela é Cada píxel da imagem pode ser transformado emresignificada e associada com a vida. Se ela não sofre um sufocamento ou em transmutação, mas capturadonenhuma modificação ela é apenas um clichê e se e, a partir disto, tomado, incontestavelmente, pelosprocessa na ordem da reprodução. A imagem pode ser agenciamentos de poder que se impõem, devido à suaengendrada em dois tempos pelo menos: enquanto presença constante entre o autor e o referente.clichê, ligada à certeza, e enquanto simulação, Com base em Gabriel Tarde (2007), se poderelacionada à imagem como intermezzo, como barco pensar a potência imagética como um “fluxo”, umapara adentrar o real e viajá-lo, e neste sentido, torná-lo crença ou desejo que pode se propagar em forma decorpo. tradução (sobrecodificação) de uma cópia, mais ou A intenção é se fazer sensível às oportunidades de menos desfocada, da imagem apresentada com oancoragem produzidas pelas imagens. Para que se intuito de “dar conta”, generalizar, encontrar umapossa pensar sob o ponto de vista das possibilidades suposta essência, criando, assim, uma estruturada subjetivação, é preciso inicialmente, circunscrever baseada em um único eixo e dando a perceber ascomo os desejos são aprisionados e arrastados possibilidades diminutas de mudança de opinião:uniformemente (trajetos subordinados a pontos macropolítica.fixos/endurecimento de segmentaridades/ponto de Por outro lado, a dita propagação pode não estarcruzamento ou ressonância massiva entre os olhares) inclinada à unificação e permite, então, a produçãona criação de certos regimes de verdade que virão a pela diferença (desterritorialização) caracterizada pelaser a lente por onde passarão a maioria dos olhares. hibridez e por um “controle” menos rígido da Quando se pode identificar este tipo de regime produção. E, principalmente, demonstrandoterritorial endurecido, está-se diante de um “efeito” maleabilidade no redirecionamento do desejo emmacropolítico na medida em as sensibilidades podem relação à imagem e, conseqüentemente, a disposiçãoser antevistas ou pré-determinadas e a imagem perde a em ser levado por novas cargas de sentido que, porsua vitalidade, não mais sendo transformada pelo ventura, poderiam não ter sido percebidas:espectador, mas, pelo contrário, sendo reproduzida micropolítica.como um xerox. O real pode ser visto tanto como território para a Um dos aspectos importantes da macropolítica é a emergência do novo como manancial de repetição desua qualidade de “máquina de ressonância”, ou seja, a imagens presas a significantes paralisados, ou ainda,de homogeneizar os sentidos e correlações. Tal como território que existe em função de uma possívelcentralização não se opõe aos discursos menos imagem que possa tocá-lo, sem bloquear seus fluxos.repetitivos que residem no mesmo espaço rizomático, Não basta apenas libertar a imagem de seu duplopois, para que as exceções possam ser identificadas verdadeiro e correspondente ao real como certeza, masdevemos ter um parâmetro e um tipo de discursiva muní-la de intuição como agenciamento capaz deinsistente. Dentro da macropolítica, que desacelera o imaginação e de manutenção da vida (diferente dapotencial de virtualidade da imagem legitimando-a forma como se apresenta) entendida como proliferaçãocomo uma só, existe algo que escapa, transbordando e de sentidos.se alastrando para novos sentidos, justamente em É preciso também pensar a diferença oriunda dafunção de combater ou desterritorializar as imposições imagem deslocada da mediação da representação.das segmentaridades solidificadas ou afastar uma Segundo André Parente (1999, p. 6):espécie de estética linear: micropolítica/quanta. Assim, o desejo pode ser pensado como arrastado Uma coisa é certa: a auto-referência positiva,e aprisionado ou resistindo e tornando-se recém dito e desterritorializante, pode ser de dois tipos:pensado. Este espaço, a princípio genuíno, uma auto-referência imanente, relacionada à revelação de verdades locais, e a auto-posteriormente pode vir a se tornar um pólo de referência transcedental, relacionada àrepetição (as linhas de escape podem tomar força e fabulação livre. Tanto uma como a outraengendrarem um novo ritmo às marés de produção de liberam a imagem dos modelos e sistemas desentido) e, por isto, micro e macropolítica estão verdade.definitivamente arraigadas, apesar de não serem amesma e de se articularem, justamente, pela ordem da Portanto, libertar a imagem da verdade é, dediferença. Ao passo que a imagem pode gerar ambas alguma forma, libertar o pensamento de seus dogmasas políticas, se pode supor que contenham, em seu de naturalidade, ou, exercício de impermeabilizaçãoPsicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  7. 7. Imagem digital e contemporaneidade 407ao erro como se este fosse desvio de seu fluxo em espaço integral e indissociável do visto e dos que“normal”, ou deslocá-lo da idéia de agente de re- vêem.conhecimento, dentro da perspectiva representacional, Rastrear pela imagem pregnante, o exercíciodando-lhe o emblema de sua positividade no acaso oriundo da resistência à forma primeira, da reinvençãoarriscado dos encontros que o forçam a produzir. do corpo desterritorializado que busca acomodação- Finalmente, através da potência camaleônica da sentido e, para isto, modifica, desfaz, pinta, filtra,imagem digital, ou de qualquer meio possível, desistir recorta e cola inspirado é produção política. Cria-se,da busca de uma origem que não possa ser atuante no então, um modo de agonia da forma inicial da imagempresente. A marca inquieta da transformação fotográfica ou a metabolização da imagem vai tecendocontinuada da imagem digital indica o desvio do olhar corpos estranhos e cada modificação vai contagiar ada linearidade tranqüilizante da representação e próxima, até que por saturação de diferença o novodesorientá-o a ponto de poder estranhar a sonoridade afinal é definido.quase imperceptível da repetição. A referida intervenção contém o passado e o No horizonte de tal estranhamento e na vontade futuro da fotografia e apresenta, a cada click node desvio da representação é que se pode pensar a mouse, atualizações, contrariando, com estilo singular,transfotografia como exercício político. Assim, a o adestramento e disciplina na criação de mundos. Os corpos poderão ser tomados pela tênue alegriafotografia digital que engendra potência perceptiva que primeiro toma a lente fotográfica de quem disparaaos corpos pode ser concebida como fotografia e, depois, parte pelo mundo: alguém, finalmente,política, pois não bordeja a interpretação e sim o levanta-se e refaz. Tal é o que pretendemos pensar naultrapassamento do corpo-pensamento na tentativa de presente proposta.mostrá-lo como certo convite à alguma resistência à Nietzsche (1995), em seus estudos biológicosinstituição, à lei, à repetição e, talvez, ao esperado. relativos ao corpo concebeu a definição da vida como Portanto, a manipulação digital de imagens e sua excitação ou como irritação, mas inicialmente,potência inventiva indicam um procedimento de passiva, no sentido que sua matéria é reativa.desmultiplicação causal que consiste não em analisar No pensamento de Nietzsche e também no detais práticas como um fato de instituição ou efeito de Deleuze, a afirmação do corpo, parte da afirmação doideologia, mas desde os múltiplos processos de fazeres próprio sofrimento e seu ultrapassamento.simultâneos que concorreram para criar as condições Majoritariamente, o corpo protege-se da dor por fugas,de sua emergência. defesas ou pela passividade. A questão voltada à Torna-se necessário aquele olhar que leva em reversão do corpo na dor é de que a exposição aoconsideração a contínua erosão das regras sociais, não sofrimento pode vir a aumentar a potência de ação dospor macro-guerras de Estado, mas por práticas corpos.referidas como microbianas e que se referem aos Aqui, então, o corpo sai do mero campo reativo esujeitos como terminais de consumo da rede de parte para uma linha de fuga inventiva. A resistência,poderes-saberes. Estes se encontram alocados no portanto refere-se ao exercício da manutenção dasocial como pontos moleculares a partir dos quais, sensibilidade e da abertura às feridas sutis. Para osalguma fissura se alarga, outra é vedada, na filósofos a fraqueza está em sentir o menos possível,interminável e impossível tarefa de estabelecimento do controlando ao máximo o grau de exposição. Expor-controle social a partir de um centro irradiador. Antes se, existencialmente, pela manipulação de imagensdo que uma ampla e reta estrada, um labirinto de seria lidar com o impacto da imagem escolhida paramuitas entradas, muitos feixes em bifurcação, entrar e tecer autoria.impulsionados por um modo rizomático de expansão. O perigo é o intolerável na captura da própria O que está em pauta no ato fotográfico diferença. Imagem que faz valer a intensidade daprocessual, que é pós-captação da imagem in loco, é procura talvez em um pequeno gesto, em uma parte dodenotar certa resistência na instauração de crise e corpo, em um suspiro o vislumbrar de um sujeitocrítica do atual. A fotografia política convida para histórico que possua a marca de contra-fluxo e demaquinação diferentemente da interpretação porque práticas conscientes ou não, de seu caráteratravés de sua força ela pode transmitir uma energia extemporâneo. Enquadrar aquilo que escapa, mostrarcapaz de ultrapassar a representação. A manipulação o outro de nós não seria a resistência ao Eu e àsfotográfica revela uma fotografia e, mais ainda, um pequenas ansiedades narcísicas cheias de culpa eente sempre ficcional. Assumir tal condição libera a apego? Mergulhar na imagem alheia e, ali, criar umimagem da verdade e relança a produção sobre o visto espaço, uma pequena pátria mutante.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010
  8. 8. 408 Kirst e Fonseca Fazer do visível um estado de tensão interna com digital nos modos de subjetivação contemporâneos eo socius e retribuir a opressão da forma de modo a não como pesquisadores da Psicologia, temos um conviteposicionar-se com ressentimentos que culminam em ao pensamento. A questão que se coloca precisa serpassividade e queixa. Entretanto, apenas corporificar debatida, coletivamente, se abrindo e diferenciandoinvenção e sopro fresco de liberação de saúde. em múltiplos posicionamentos tal e qual a imagem queExercitar a coragem e expor-se ao limite da aceitação nos ocupamos.na aproximação dos tantos inimigos das afirmações deforça do corpo. Tal aproximação faz-se necessária naconvocação de uma pequena guerra, pois, para que a REFERÊNCIASresistência seja vivida é preciso sentir certo peso domundo, certa ofensa do fora e certo vislumbre da Deleuze, G. (1991). A dobra: Leibniz e o Barroco. Campinas, SP: Papirus.existência insidiosa do pathos. Estar à altura do inimigo sem tocar a vitimização Deleuze, G. (1992). O que é filosofia? São Paulo: Ed. 34.que espreita, estar atento, de olhos abertos prontos Guattari, F. & Rolnik, S. (1993). Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes.para disparar a vida. Assim é a fotografia política, elaprecisa de provocação, de violência, de pontos de Nietzsche, F. (1995). Ecce homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras.opressão. Para que o click seja disparado ou amanipulação seja criada, o fotógrafo e quem desfaz o Parente, A. (1999). O virtual e o hipertextual. Rio de Janeiro: Pazulin.click, precisam ser afetados para que desvele seus Proust, M. (1998). O tempo redescoberto. São Paulo: Globo.olhares, para que o encontro possa ser posteriormente Serres, M. (1994). Atlas. Lisboa: Instituto Piaget.mostrado como espaço de “outramento” para que, Tarde, G. (2007). Monadologia e Sociologia e outros ensaios (P.então, outros desejem ver. Neves, Trad.). Em E. V. Vargas (Ed.), Gabriel Tarde - Registrar imagens fotográficas em processo é Monadologia e Sociologia e outros ensaios. São Paulo: Cosacforma de integrar certas lutas e multiplicar a Naify.resistência fazendo-a adentrar em outras retinas erebrilhar o exercício micropolítico de renovação daface do mundo. Que este mostrar possa ser de forma a Recebido em 24/09/2008não banalizar e que as defesas da diferença possam ser Aceito em 16/12/2009tratadas vigorando o desejo de aproximação.Finalmente, torna-se importante ressaltar que aqui estáexposta uma possibilidade de compreensão da imagemEndereço para correspondência: Patrícia Kirst. R. Aurélio Bittencourt,150/302, Bairro: Rio Branco, CEP: 90430-080, Porto Alegre-RS, Brasil. E-mail: pgomes.voy@terra.com.br.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 15, n. 2, p. 401-408, abr./jun. 2010

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