Escolha Sua Vida - Trecho

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Escolha Sua Vida - Trecho

  1. 1. A ESCOLH A SUA VID
  2. 2. PAULA ABREU OLHA ESC VIDA SUA
  3. 3. Para Davi “Não estar morto não é estar vivo.” – e.e. cummings
  4. 4. sumário introdução 9 1. breve explicação ou não diga que eu não avisei! 2. agora sim, a introdução 3. “se você encontrar o Buda, mate-o.” (Mestre Linji) 10 12 15 parte i. como eu escolhi a minha vida 1. “despertencendo” em Paris 2. primeiros movimentos 3. o Universo sempre responde 4. meu momento “arrá” 5. o meu dia perfeito 17 parte ii. oi, quem é você? 1. qual é o seu propósito de vida? 2. quais são os seus valores? 3. o que sua mãe não lhe ensinou sobre ser feliz 37 parte iii. escolha sua vida 1. o que você quer ser antes de morrer? 55 18 22 25 29 33 40 45 51 58
  5. 5. 2. assuma a responsabilidade por não seguir seus sonhos 3. elimine as crenças negativas 63 68 parte iv. no meio do caminho tinha uma pedra 1. medo 2. procrastinação 3. falta de dinheiro 4. falta de tempo 5. críticas alheias 73 e agora? 76 92 103 113 123 133 gratidão 139
  6. 6. introdução “Sempre que você estiver do lado da maioria, é hora de parar e refletir.” – mark twain
  7. 7. 1 breve explicação ou não . diga que eu não avisei! C uidado! Este é um livro muito perigoso. Ele vai deixar você incomodado, porque vai destruir todas as suas desculpas para não estar vivendo hoje a vida que gostaria. Vai provar que a responsabilidade por isso é toda sua. Ao terminar de ler, você poderá ter vontade de largar o emprego, terminar seu relacionamento, mudar de cidade, virar sua vida de cabeça para baixo. Vou lhe contar como mudei a minha própria vida – como escapei do mundo corporativo, aposentei meu carro, me tornei mais saudável, criei mais tempo e felicidade para mim. E vou fazer uma dancinha feliz sacudindo as mãozinhas para o alto. Desculpe, não é por mal, mas eu não consigo resistir! Depois, quando você começar a dizer “Ah, mas você só conseguiu porque era x, y, z, ou tinha x, y, z, ou podia x, y, z,
  8. 8. só que EU não sou x, y, z, não tenho x, y, z, ou não posso x, y, z, e nunca poderia fazer algo assim…” vou apontar o dedo para , o seu nariz e mostrar que você não é uma vítima do mundo, da sociedade, da família, do emprego chato. E vou provar-lhe que você já tem todos os recursos de que precisa para dar o primeiro passo em direção à mudança. Você vai ver que, na verdade, escolheu cada uma das coisas irritantes, chatas e frustrantes que existem na sua vida. E que, a cada dia, refaz essas escolhas. O lado bom (tinha que ter um!) é que, assim como a cada dia você refaz – muitas vezes de forma inconsciente – as escolhas que mantêm a sua vida exatamente do jeitinho que ela é, também tem a chance de fazer escolhas diferentes. De recomeçar. De mudar. Só leia este livro se estiver disposto a seguir um novo caminho, em vez de ficar sentado esperando que um super-herói qualquer apareça para salvá-lo de sua própria vida. Se estiver preparado para agarrar a segunda chance que o mundo lhe dá todos os dias, repensar toda sua vida, descobrir quem você é de verdade e escolher uma existência mais autêntica e feliz, então este livro é para você. 11
  9. 9. 2 . agora sim, a introdução N os dias de hoje, existe uma epidemia global de descontentamento. De acordo com uma pesquisa recente da Deloitte, uma companhia norte-americana de consultoria empresarial, a maioria das pessoas entrevistadas – oitenta por cento – está insatisfeita com o emprego atual. Se você está lendo este livro, desconfio que faça parte desse grupo e que exista algo que o incomode. Ao mesmo tempo, no mundo todo, desponta um novo movimento de pessoas que não se conformam mais com a mediocridade de uma vida sem propósito. Elas acreditam que o trabalho deve ser baseado em alegria, espírito de comunidade e contribuição. E você – veja que sorte! – está vivo justamente agora e tem a oportunidade de testemunhar uma das maiores – embora silenciosa – revoluções que a história já viu.
  10. 10. Quando a humanidade conseguir unir a descoberta do eu interior com a ação exterior – o trabalho –, entraremos numa nova fase. No momento em que isso acontecer, finalmente haverá o encontro dos valores que têm sido almejados de forma isolada pelo Oriente (a verdade, o mundo interior) com os do Ocidente (o trabalho, a ação, o mundo material). A unificação desses valores será a grande revolução que irá gerar uma nova forma de vida. Aposto que, se você parar cinco minutos para pensar, vai lembrar de algum conhecido que recentemente largou tudo para seguir uma nova carreira, muitas vezes alternativa, e está muito mais feliz e realizado. Este não é um livro de autoajuda tradicional. Ele não vai lhe ensinar a fazer amigos, ter sucesso, ganhar mais dinheiro, organizar melhor a sua casa ou ser mais produtivo. Também não vai ajudá-lo a se enquadrar no conceito tradicional de sucesso e felicidade, porque eu acredito que essa noção é falsa e precisa ser destruída. Se você não está totalmente feliz com a sua vida, já pensou que talvez não seja você que tem um “problema” que precisa de ajuda para resolver? Que talvez não seja você que tenha 13
  11. 11. que “melhorar” para se enquadrar? Talvez só precise criar uma vida nova. Para isso, tem que descobrir mais sobre si mesmo, parar e entender por que não está feliz e o que pode fazer para mudar não a si mesmo, mas o mundo que o cerca. Você só precisa escolher uma vida melhor. 14
  12. 12. 3 “se você encontrar o Buda, . mate-o.” (mestre linji) “Se existe um caminho, não é o seu caminho.” – joseph campbell N essa jornada para escolher uma vida melhor, nunca deixe que ninguém – nem mesmo eu! – diga o que você deve querer, o que é ser bem-sucedido ou o que é seguir a sua paixão. Afinal, o que você quer? O que é sucesso para você? Quais são as suas paixões? Enquanto não tiver as respostas a essas perguntas – e a tantas outras que encontrará ao longo deste livro –, você não terá como criar as próprias regras ou a vida perfeita. A beleza de escolher a própria vida é que só você pode fazer isso. Cada um tem o direito e o dever de descobrir o próprio conceito de felicidade. Eu escrevo sobre o meu caminho, mas ele é meu. O objetivo deste livro é motivá-lo a encontrar o seu caminho e escolher como quer levar a vida. Não sou sua mestra ou guru nessa busca.
  13. 13. Você é seu próprio mestre. Tudo o que precisa descobrir já está dentro de você. Eu vou só segurar a lanterna enquanto você dá uma olhada no fundo da bolsa para achar suas chaves. Meu propósito é fazê-lo acordar, sair da inércia, motivá-lo a fazer as perguntas certas a si mesmo. São perguntas que eu mesma me fiz – algumas das quais ainda faço – no meu processo de mudança. Em alguns momentos, posso até falar das minhas conclusões, das respostas a que cheguei. Mas não se espelhe nisso: encontre as suas próprias. Procure grupos de discussão no Google, vídeos no YouTube, leia blogs, crie um blog, descubra outros livros, conheça pessoas, crie o seu próprio exército, sua própria tribo, e comece a própria revolução. Não espere que surja um mestre para lhe dizer o que fazer. Não siga supostos mestres. Seja o seu próprio mestre. Procure respostas para as suas perguntas. Só depende de você. 16
  14. 14. parte i como eu escolhi a minha vida
  15. 15. 1 . “despertencendo” em Paris A os 34 anos, eu finalmente estava em Paris. Em todas as minhas fantasias sobre a cidade, nunca tinha me imaginado chegando lá tão sozinha. Paris romântica. Paris, a cidade do amor. A minha Paris era outra. Era a Paris de quem está perdido. Paris da encruzilhada da minha vida. Eu não pertencia àquela cidade, mas também não pertencia a nenhum outro lugar. Já estava tão perdida que talvez o segredo para me encontrar fosse justamente me perder por completo. Meu único destino em Paris era eu mesma. Menos de seis meses antes, tinha terminado um casamento de quase dez anos, num divórcio complicado. Estava fisicamente exausta e emocionalmente destruída, mas havia decidido manter a viagem que tinha planejado com meu ex.
  16. 16. Ao longo dos seis meses anteriores, havia perdido metade do meu dinheiro no divórcio, além da minha força e da minha paz. Como se não bastasse, logo em seguida conseguira me meter em um relacionamento problemático com um sujeito que, ao brincar que um dia acabaria virando personagem de um dos meus livros, se autobatizou “o Ignorantão” . Antes da minha chegada a Paris, o Ignorantão tinha sido... bem, ignorantão comigo em Londres. Lá também, meu então chefe, bêbado e depois de vomitar duas vezes nos meus pés, havia me chamado carinhosamente de “loira burra” Para . quem não me conhece, um esclarecimento: sou morena. Minha autoestima já tinha visto dias melhores. Fiquei em Paris uma semana. Sem falar francês, passei dias inteiros sem dizer praticamente nada a ninguém. Quando, em vez de ir à padaria da esquina pedir um croissant, eu tomava o café da manhã no meu apartamento alugado, horas e horas se passavam antes que eu pronunciasse a primeira palavra do dia. Nunca, em toda a minha vida, eu tinha ficado tão sozinha. Cresci numa casa cheia, com meus pais e um casal de irmãos, e casei duas vezes: a primeira aos 21 anos e a segunda aos 25. Nunca tinha morado sozinha por mais de seis meses. Nunca tinha viajado sozinha. Aquela foi uma experiência totalmente nova para mim. Já a sensação de “despertencer” era antiga para mim. Nascida no Rio de Janeiro, já havia vivido por um ano em Nova York e por quatro em São Paulo. Em termos geográficos, já não me sentia “em casa” em lugar algum. Na vida profissional, também despertencia desde sempre. Advogada, eu tinha feito parte de um grande escritório por 19
  17. 17. treze anos e, na época da viagem a Paris, trabalhava para uma multinacional fazia um ano. Apesar disso, nunca me sentira bem no mundo corporativo. Dentro dele, me via como uma extraterrestre, um camaleão que podia, com alguma facilidade, mudar de cor e passar despercebido, mas que no fundo não pertencia àquela paisagem. Eu já era escritora, com dois livros publicados, mas tinha um filho pequeno para sustentar. Não via a menor possibilidade de escapar do mundo corporativo e viver de arte, ainda que sentisse a cada dia que aquele ambiente aos poucos sugava minha alma e me transformava em alguém que eu não reconhecia e não me orgulhava de ser. Naquela semana em Paris, tive uma overdose de mim mesma. Afoguei-me nos meus pensamentos. E senti uma falta absurda do meu filho. De repente me dei conta, um tanto assustada, de que ele era a única coisa importante na minha vida. Absolutamente tudo naquele ano tinha dado errado, e não só erradinho, mas erradíssimo, como em um filme, com dramalhão, bullying, muito choro e ranger de dentes. E as perspectivas para o futuro não eram as melhores. Pela primeira vez em minha existência, eu tinha chegado ao fundo do poço e, exceto pelo relacionamento com o meu filho, toda a minha vida estava ruindo. Eu podia ouvir o barulho das rachaduras ficando cada vez maiores. Naquele momento, percebi que o fundo do poço era libertador: desde que eu e meu filho estivéssemos bem, com saúde e juntos, eu ficaria feliz. E isso era razoavelmente simples de manter. Com essa visão do que era de fato essencial para mim, veio também uma revelação inesperada: todo o resto começou a 20
  18. 18. me parecer supérfluo, dispensável. Voltei para casa com uma sensação incômoda de que a vida era mais do que apenas ficar sentada em um escritório o dia inteiro e assistir os dias passarem por mim. Tinha que existir algo maior! Não queria mais construir a minha vida em torno do meu trabalho, e sim o contrário. Meu objetivo era construir o meu trabalho em torno da vida que eu queria escolher viver. Ainda não via um caminho, mas sabia que havia um. 21
  19. 19. 2 . primeiros movimentos V oltei para o Brasil e resolvi que precisava fazer alguma coisa. Não sabia para onde ir, mas tinha consciência de que precisava dar o primeiro passo. Tinha que tomar alguma atitude para recuperar minha vida. Comecei a conversar com um amigo publicitário sobre montarmos uma agência de marketing. Ele já tinha um escritório, experiência e clientes. Era o mestre das imagens, enquanto eu dominava as palavras; ele morava em São Paulo e eu no Rio – éramos a combinação perfeita. Antes do fim do ano, escolhemos um nome e nos programamos para trabalhar naquele projeto no ano seguinte. Aparentemente, tudo continuou igualzinho. Mas, olhando para trás, sei que foi naquele momento, quando comecei a agir, que a minha vida começou a mudar, ainda que nada do que eu planejei ali tenha se concretizado da forma
  20. 20. que eu previa, e embora mil reviravoltas ainda estivessem por acontecer antes que eu enfim chegasse aonde estou hoje. Ali, naquele momento, deixei claro para o Universo que eu não aceitava mais uma vida sem propósito. O novo ano começou e meu amigo desapareceu. Não falávamos mais da tal empresa, e era como se a ideia tivesse morrido. Mas eu já estava no modo “movimento” e não podia mais ficar parada. Então, quando uma amiga me perguntou se eu tinha interesse em substituí-la como diretora jurídica na multinacional em que ela trabalhava, eu disse que sim. Qualquer mudança me parecia bem-vinda. Ela estava prestes a se mudar para os Estados Unidos, buscava uma sucessora e achava que eu me encaixaria bem na vaga. Eu vi aquilo como uma possibilidade de recomeço – uma nova empresa, com novas pessoas. O processo seletivo ia bem quando, de repente, meu amigo publicitário ressurgiu das cinzas. Numa segunda-feira de abril, ele me ligou, superentusiasmado: – Nossa empresa está bombando! Já temos quatorze clientes aqui em São Paulo! Chegou a hora de você começar a tocar a sede do Rio! – Como assim? – perguntei, totalmente surpresa com o reaparecimento dele, e com novidades tão incríveis. Então ele me explicou que vinha trabalhando no projeto desde o começo do ano, que tinha conseguido fechar negócio com um grupo de investidores responsável por uma série de restaurantes em São Paulo e no Rio, que já tinha, inclusive, montado uma sede para a empresa no bairro dos Jardins. Pelo jeito, já tínhamos até uma funcionária. 23
  21. 21. Pegar no sono naquele dia foi complicado. Fiquei olhando para o teto e pensando que não conseguiria conduzir por muito tempo uma empresa em paralelo com meu emprego atual. Dez anos antes, já tinha montado uma editora e, depois de um período, havia constatado que era impossível viver a vida de empresária e de empregada simultaneamente. Por outro lado, não podia parar de trabalhar. Tinha um filho e, sobretudo depois de ter perdido metade do meu dinheiro no divórcio, não podia me dar ao luxo de ficar sem ganhar nada. Precisava permanecer no emprego ao menos até que a empresa nova começasse a gerar alguma receita. Eu continuei presa ao mundo corporativo. 24
  22. 22. 3 . o Universo sempre responde N o dia seguinte, fui para o trabalho normalmente. Logo depois do almoço, meu chefe foi à minha mesa e perguntou se eu tinha um tempinho. – Claro – respondi. Peguei meu laptop e o segui até uma sala de reuniões. Chegando lá, vi a diretora de recursos humanos já acomodada. Alguma confusão grande devia estar acontecendo. Então, meu chefe começou um discurso pronto que não durou mais que cinco minutos: – Bom, como você sabe, a empresa está passando por uma reestruturação e algumas posições estão sendo extintas. A sua é uma delas. Pá! – A empresa está oferecendo um pacote para todos os funcionários que estão sendo desligados, blá-blá-blá, eu sinto
  23. 23. muito, blá-blá-blá, a fulana do RH está aqui para lhe explicar como vai ser o seu pacote, blá-blá-blá, o seu computador já está desconectado da rede da empresa, blá-blá-blá, você pode pedir ao pessoal da informática para fazer backup do que vai precisar, blá-blá-blá... – continuou ele. Eu já não estava mais ouvindo. Não voltei mais à minha mesa. Na própria sala de reuniões, entreguei as chaves do carro da empresa, o BlackBerry e o laptop. Uma colega de trabalho pegou minha bolsa e algumas coisas pessoais, e o resto seria entregue depois na minha casa por um funcionário. Meu coração flutuava dentro do peito. Depois de quinze anos no mundo corporativo, depois de um mestrado numa universidade estrangeira, depois de ter sido apontada por uma respeitável publicação internacional, no ano anterior, como um dos talentos em destaque no Brasil, eu estava sendo chutada para fora junto com um monte de gente. Era apenas mais uma. Por um lado, embora eu conhecesse muito bem todas as variáveis que tinham levado àquele momento, meu ego estava mortalmente ferido, e ainda demoraria um tempo para que eu percebesse que o que acontecera tinha sido uma enorme bênção. Por outro lado, em termos práticos, era inegável a minha sorte – eu recebi uma polpuda indenização para fazer exatamente o que queria – cair fora. Tinha passado a noite anterior inteira acordada pensando em como poderia escapar daquele mundo sem ter dinheiro, e ali estava, naqueles papéis na mão da moça do RH, a resposta do Universo à minha pergunta. Apesar do ego destroçado, senti-me ao mesmo tempo 26
  24. 24. inexplicavelmente feliz. Naquela noite, saí com dois amigos para beber cerveja e comer pastéis. Enquanto eles se preocupavam com o meu futuro, eu sabia – ainda que não entendesse muito bem como – que tinha tirado a sorte grande. No dia seguinte, fui à praia e fiquei olhando o mar. Se aceitasse uma vaga em outra multinacional, em um cargo com ainda mais responsabilidade e poder, seria “um novo começo” e eu me , empolgaria por algum tempo com as novas pessoas e funções. Mas, certamente, após alguns meses, estaria entediada e infeliz. Enquanto isso, compraria um carro novo, roupas novas, um computador novo, novas geringonças tecnológicas. E ficaria ainda mais presa à vida da qual queria fugir. Comecei a fazer contas e pensar nas alternativas. O dinheiro da indenização me permitiria ficar uns bons meses sem receber nada, tentando algo diferente. A mera possibilidade de abandonar aquele mundo, ainda que por ora, me deu uma sensação indescritível de liberdade. Mas e se desse tudo errado? Como eu poderia pagar por todo o conforto a que estava acostumada? Como seria capaz de manter aquele padrão de vida? Naquele instante, tive meu primeiro momento de clareza: todo aquele conforto e aqueles bens materiais não me faziam feliz. Eu não precisava de nada daquilo. Ter sido até então bem-sucedida naquele universo não havia me trazido realização alguma. Tinha me dado 27
  25. 25. independência financeira, claro, e muitas posses, mas a um preço que eu não estava . Passei então a repensar, ali sobre a areia da praia, todas as minhas conquistas materiais. Foi ficando cada vez mais claro que eu podia viver muito bem sem nada daquilo – ou com muito menos – e ainda assim me sentir muito mais satisfeita. Morar em um apartamento enorme com uma vista deslumbrante, andar em um carro zero imenso, usar produtos de grife, entrar no shopping e poder comprar qualquer coisa sem sequer perguntar o preço, nada disso era para mim. Não mais. Eu tinha aprendido, no fundo do poço, o que era essencial na minha vida: eu e meu filho juntos, com saúde. Se desse tudo errado, mas tudo mesmo, eu me mudaria para uma cidadezinha no interior do Nordeste, pagaria um aluguel irrisório, seria garçonete num restaurante de pescadores, matricularia meu filho numa escola pública e continuaríamos sendo muito felizes. Levantei e andei até a arrebentação. Fiz uma pequena prece agradecendo ao Universo por todas as minhas experiências até então, por todas as pessoas maravilhosas que tinha conhecido enquanto trabalhara como advogada, por todas as oportunidades que me tinham sido dadas e por tudo o que havia aprendido, especialmente sobre mim mesma. Uma onda bateu no meu pé. Naquele momento, me despedi de toda uma vida e enterrei a Paula advogada nas areias da praia. 28
  26. 26. 4 . meu momento “arrá” “O sentido da vida é a felicidade.” – dal ai l ama A lguns dias depois, criei uma página no Facebook e comecei a escrever sobre todas as minhas novas escolhas, as mudanças na minha vida: não advogar mais; não ter mais um carro; me alimentar melhor; correr todos os dias. Enfim, falei sobre minha opção de levar uma vida mais simples e mais feliz. Nos meses seguintes, vi aquela página florescer e crescer rápido. Em paralelo, eu realizava alguns trabalhos de pesquisa e redação com meu sócio na agência de publicidade. Era um trabalho criativo e gostoso de fazer, e eu não me sentia vendendo minha alma ao diabo. Mas meu maior prazer era escrever e interagir com meus leitores. De repente, me dei conta de que tinha caído mais uma vez na armadilha: a agência era o meu “emprego” o meu traba, lho, a resposta que eu dava quando alguém me perguntava
  27. 27. o que estava fazendo da vida. Escrever continuava a ser só uma atividade paralela que eu podia ou não realizar quando tivesse tempo livre. Eu amava o que escrevia, me emocionava diariamente com as mensagens dos leitores contando que algo na página tinha tocado a vida deles, feito-os pensar, inspirado mudanças. Eu respondia a essas mensagens, dava conselhos, ajudava quem parecia estar na mesma situação que eu um ano antes: preso e infeliz no mundo corporativo, em busca de uma saída. Vi que era isso que eu queria fazer. Todos os dias. O tempo todo. Tinha passado a vida inteira querendo ser escritora. Mas, mesmo já tendo publicado dois livros, nunca tinha me sentido tão realizada como naquele momento. Minha primeira obra, um romance, tinha sido elogiada por ídolos meus, como Millôr Fernandes. Eu adorava o que tinha criado, mas ao me perguntarem quando eu escreveria o próximo livro, eu respondia: “Quando tiver outra história para contar.” Eu sabia que meu romance tinha tocado a vida de várias pessoas, mas ainda não era exatamente o que eu queria. Meu segundo livro, sobre adoção, era um misto de manual e relato biográfico. Toda semana eu recebia mensagens de futuras mães adotivas me agradecendo e dizendo quanto a obra as tinha ajudado a aplacar a ansiedade durante o período de espera por um filho. Apesar de ver que o que eu tinha escrito de fato podia ajudar outras pessoas, também ainda não era o que eu queria. O que eu escrevia agora, na página do Facebook, motivava e ajudava meus leitores a pensar, a refletir e a mudar. Então tive 30
  28. 28. o meu momento “arrá” como diria Oprah Winfrey: era aquilo , que eu desejava, aquele era o meu emprego dos sonhos! O único problema é que era um emprego que não existia. Mas algo assustador tinha acontecido. Agora que eu tinha descoberto quem era, não podia ser nada menos que aquilo. Não podia não fazer o que queria. Preferiria morrer, porque viver qualquer outra coisa não faria mais sentido. Ao mesmo tempo, essa revelação era também libertadora. Porque, se eu preferiria morrer a não fazer o que desejava, o fato de aquele meu emprego dos sonhos não existir não tinha mais nenhuma importância. Eu precisava dar um jeito, porque tinha virado uma questão de vida ou morte. Se não existia um caminho, então eu viraria o Rambo, morderia uma faca e abriria um caminho, nem que fosse na marra. Comecei a pesquisar dia e noite sobre outras pessoas que tinham abandonado o mundo corporativo para viver do que amavam. Passei a estudar tudo sobre negócios, empreendedorismo, estratégia digital, marketing on-line, e-books, e-commerce, multipotencialidade, nômades digitais. Cada vez que descobria alguém, em algum lugar do mundo, que tinha conseguido abrir o próprio caminho e criar seu emprego dos sonhos, meu coração ficava num misto de entusiasmo e paz. Eu sabia que também conseguiria. Ao contrário 31
  29. 29. do que sempre tinha ouvido de todo mundo – e acreditado –, não, não era impossível. Investi meu tempo e meu dinheiro em livros e cursos que mostravam a trajetória que outros haviam percorrido para chegar aonde eu também queria chegar. Juntei um time de pessoas extremamente competentes para transformar o meu plano em realidade. Continuei escrevendo textos em que abria meu coração por completo, contava as minhas mais profundas – e algumas recém-descobertas – verdades e dividia tudo o que estava aprendendo sobre ter uma vida alternativa. A cada texto novo, centenas de novos leitores se juntavam à minha tribo. Pouco tempo depois, de forma espontânea e orgânica, me vi dando sessões de coaching. O que começou com amigos e leitores pedindo ajuda e conselhos sobre como descobrir suas paixões e transformar suas vidas – e também com alguns leitores a quem tomei a iniciativa de oferecer ajuda, por ter me interessado pelas suas histórias e pelo seu potencial – passou a atrair gente que eu não conhecia e que chegava a mim pelos mais variados caminhos, pessoas incríveis cujas histórias me inspiram todos os dias. Foi assim que, poucos meses depois de abandonar minha carreira, ganhei o meu primeiro dinheiro como não advogada. 32
  30. 30. INFORMAÇÕES SOBRE A SEXTANTE Para saber mais sobre os títulos e autores da EDITORA SEXTANTE, visite o site www.sextante.com.br e curta as nossas redes sociais. Além de informações sobre os próximos lançamentos, você terá acesso a conteúdos exclusivos e poderá participar de promoções e sorteios.  www.sextante.com.br  facebook.com/esextante  twitter.com/sextante  instagram.com/editorasextante Se quiser receber informações por e-mail, basta se cadastrar diretamente no nosso site ou enviar uma mensagem para atendimento@esextante.com.br Editora Sextante Rua Voluntários da Pátria, 45 / 1.404 – Botafogo Rio de Janeiro – RJ – 22270-000 – Brasil Telefone: (21) 2538-4100 – Fax: (21) 2286-9244 E-mail: atendimento@esextante.com.br

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