Esporte e meio ambiente v.2
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Livro sobre Esporte e Meio ambiente.

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Esporte e meio ambiente v.2 Esporte e meio ambiente v.2 Document Transcript

  • Meio ambiente,esporte, lazer e turismo estudos e pesquisas no Brasil, 1967-2007 VOLUME 2 Ana Cristina P.C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta (Editores) Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2007
  • Meio Ambiente, Esporte, Lazer e Turismo: Estudos e Pesquisas no Brasil 1967– 2007/ Editores : Cristina Pimentel Carneiro de Almeida e Lamartine P. DaCosta Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007 400 p. ISBN 85-7444-062-0 1 . Meio ambiente. 2. Esporte. 3. Lazer. 4. Turismo. 5. Desenvolvimento sustentável CDD – 809 CDU – 82.09 “Livro organizado em associação da Editora Gama Filho com a Universidade Federal do Pará, 2006 - 2007" Universidade Gama Filho REITORIA Reitor Prof. Luiz Eduardo Braune da Gama Pró-Reitor de Humanidades e Ciências Sociais Prof. Arno Wehling Pró-Reitor de Saúde Prof. Gilberto Chaves Pró-Reitor de Exatas e Tecnologia Prof. José Leonardo Demétrio de Souza Editora Gama Filho Editor Dante Gastaldoni Programação Visual Evlen Joice Lauer Supervisão de textos Lamartine P. DaCosta
  • DIREITOS AUTORAIS E CÓPIASA presente obra está sendo publicada sob forma de coletânea detextos fornecidos voluntariamente por seus autores, sem compensaçãofinanceira mas mantendo seus direitos autorais, segundo a legislaçãoem vigor. Neste termos, este livro tem distribuição gratuita em CDROM e outras mídias, como também está disponível em site paradownload de livre acesso, sem custos para usuários. Cópias em papeldo livro e dos textos estão autorizadas desde que não tenhampropósito comercial e que sejam citados os autores e fontes originaisem eventuais reproduções.ENGLISH FOREWORDS AND TEXTSThe “Introduction” of this book in English is available following the“Contents” section in the next pages. There are several chapters inEnglish as far as original texts were included using this language.These texts are also listed in the above mentioned “Introduction”.Any part of this book may be reproduced in any form under thecondition of being referred to authors and sources. All rights reserved.Commercial use of parts of this book only with permissionof the authors.
  • Sumário Volume II11 Tendências centrais dos estudos e pesquisas em Meio Ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil no período 1967 - 2007 Ana Cristina P.C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta (Editores)27 Research mainstreams of studies on environment, sport, leisure and tourism in Brazil within the period 1967-2007 Ana Maria Miragaya31 Turismo, lazer e natureza Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns35 Turismo de aventura e educação: desafios e conquista de espaços Alcyane Marinho e Jossett Campagna De Gáspari43 O Movimento na Natureza Interfaces entre Educação Física e educação Ambiental no Ensino Infantil Cae Rodrigues e Mey van Munster59 Brinquedos, brincadeiras, recreação, arte e cultura popular: alternativas para um museu interativo Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier67 Equilibrando desenvolvimento com meio ambiente: Garantindo lazer, ecologia e turismo no centro urbano. Estudo de caso do projeto parque do recife Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier77 Clube de máscara Galo da Madrugada: o maior bloco de carnaval do mundo, vivendo a cultura pernambucana Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier87 Lazer e meio ambiente: multiplicidade de atuações Heloisa Turini Bruhns e Alcyane Marinho97 A formação técnica e o seu papel no mercado turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz121 Política de turismo e desenvolvimento local: um binômio necessário Lillian Maria de Mesquita Alexandre1131 Hotéis de selva no amazonas: Ecodesign, meio ambiente e sustentabilidade? Luiza Elayne Luíndia Azevedo
  • 141 Ecoturismo: do natural ao cultural (e vice-versa) Rogério Santos Pereira, Silvio Ricardo da Silva, Samuel Gonçalves Pinto e Eliane de Souza Resende147 Refletindo sobre lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade Sandoval Villaverde Monteiro165 Percepções do uso público em UCs de Proteção Integral Teresa Magro173 Impacto ambiental nas competições de trekking de regularidade segundo os seus praticantes Valdo Vieira, Bernardo de Miranda Villano e Manoel J. G. Tubino181 Sítios geológicos e geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, região Seridó do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros183 Ecogeoturismo e geoconservação de sítios geológicos e geomorfológicos no Seridó Oriental do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros195 A Formação Técnica e o seu Papel no Mercado Turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz219 Atividades na Natureza, Lazer e Educação Ambiental: Refletindo Sobre Algumas Possibilidades Alcyane Marinho237 Meio Ambiente Heloísa Turini Bruhns245 Atividade de Geoturismo no Litoral de Icapuí/CE (Ne Do Brasil) e a Necessidade de Promover a Preservação do Patrimônio Geológico Débora do Carmo Souza e Marco Antonio L. do Nascimento253 Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades na natureza Alcyane Marinho255 O museu como espaço de lazer: atrativo turístico e local de preservação da cultura de uma sociedade Gustavo de Lira Santos269 Ecoturismo & Amazônia – biodiversidade, etnodiversidade e diversidade cultural João Meireles Filhos
  • 285 Possibilidades de leitura sobre os esportes da natureza: o caso dos Jogos Mundiais da Natureza (1997) Kátia Bortolotti Marchi305 Meio ambiente e ecoturismo na região de Iporanga / SP: impactos ambientais por esgotos domésticos e resíduos sólidos Leandro Luiz Giatti321 Lazer e esportes na natureza: impactos sócio-ambientais Mirleide Chaar Bahia e Tânia Mara Vieira Sampaio329 Subjetividade, amizade e montanhismo: potencialidades das experiências de lazer e aventura na natureza Sandoval Villaverde Monteiro345 Desenvolvimento de um instrumento de identificação de impactos ambientais em práticas esportivas na natureza (IMPAC-AMBES) Valdo Vieira363 A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão potiguar): necessi- dade para a conservação do patrimônio natural no rio grande do norte (NE do brasil) Marcos Antonio Leite do Nascimento, Yves Guerra de Carvalho, Wendson Dantas de Araújo Medeiros e Daniela Bezerra Tinoco371 Geoturismo como novo segmento do turismo de natureza e sua impor- tância para a conservação do patrimônio natural Marcos Antonio L. do Nascimento, Úrsula A. Ruchkys e Virgínio Mantesso Neto381 A prática do geoturismo como meio de promover a educação ambiental em unidades de conservação (uc) no Rio Grande do Norte (ne do Brasil) Marcos Antonio L. do Nascimento, Debora do Carmo Sousa e Werner Farkatt Tabosa Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 7
  • Capítulos por ano de publicação,autores e títulos dos trabalhos1967 Lamartine P. DaCosta A ATIVIDADE DESPORTIVA NOS CLIMAS TROPICAIS E UMA SOLUÇÃO EXPERIMENTAL: O ALTITUDE TRAINING1967 Lamartine P. DaCosta PLANEJAMENTO MÉXICO1981 Lamartine P. DaCosta PRINCÍPIOS DO ESPORTE PARA TODOS1983 Jürgen Diekert Floriano Dutra Monteiro PARQUE DE LAZER E DE ESPORTE PARA TODOS1987 Lamartine P. DaCosta A REINVENÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DO DESPORTO SEGUNDO PARADIGMAS DO LAZER E DA RECREAÇÃO1992 Lamartine P. DaCosta O OLHAR E O PENSAR AMBIENTALISTA1993 Rita MendonçaTURISMO OU MEIO AMBIENTE: UMA FALSA OPOSIÇAO1996 Ana Cristina P. C. de Almeida A INTER-RELAÇÃO DO ENSINO EM RECREAÇÃO E LAZER E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL1996 Rita MendonçaVISITAR E COMPARTILHAR A NATUREZA1996 Flávio Leonel A. da Silva ECOTURISMO: VIAGEM, LAZER & AVENTURA1997 Lamartine P. DaCosta INTRODUCTION - ENVIRONMENT AND SPORT: AN INTERNATIONAL OVERVIEW1997 Lamartine P. DaCosta TOWARD A THEORY OF ENVIRONMENT AND SPORT1999 Alcyane Marinho DO BAMBI AO RAMBO OU DO RAMBO AO BAMBI? AS RELAÇÕES COM A (E NA) NATUREZA1999 Cristiane Ker de MeloAna Cristina P. C. de Almeida NAS TRILHAS DA RELAÇÃO EDUCAÇÃO FÍSICA – MEIO AMBIENTE1999 Teresa Magro IMPACTOS DO USO PÚBLICO EM UMA TRILHA NO PLANALTO DO PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA1999 Alba Vieira ECOTURISMO URBANO: RUA DE LAZER EM TOMBOS – MG APRENDENDO, BRINCANDO E INOVANDO O MEIO AMBIENTE1999 Alba Vieira TURISMO ECOLÓGICO: ESSA POSSIBILIDADE DE LAZER É “QUENTE”1999 Rita Mendonça SENTIDO DA VIAGEM2000 Vera Lúcia Menezes Costa AVENTURA E RISCO NA NATUREZA: SÍMBOLOS E MITOS PRESENTES NOS DISCURSOS DO ECOTURISMO ESPORTIVO Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 9
  • 2000 Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte & Juarez V. Nascimento O FUTURO DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER E RECREAÇÃO LIGADAS À NATUREZA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL2000 Rita Mendonça A EXPERIÊNCIA NA NATUREZA SEGUNDO JOSEPH CORNELL2000 Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte, Juarez V. Nascimento & Markus Vinícius Nahas CONSIDERAÇÕES SOBRE O FUTURO DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER NA NATUREZA: UM ESTUDO DELPHI2000 Ana Cristina P. C. de Almeida LAZER E RECREAÇÃO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA QUESTÃO INTERDISCIPLINAR2000 Elizara Carolina MarinValquíria Padilha LAZER E CONSUMO NO ESPAÇO URBANO2000 Renato Miranda MOTIVAÇÃO NO TREKKING: UM CAMINHAR NAS MONTANHAS2001 Alcyane Marinho LAZER, NATUREZA E AVENTURA: COMPARTILHANDO EMOÇÕES E COMPROMISSOS2001 Alcyane Marinho DA BUSCA PELA NATUREZA AOS AMBIENTES ARTIFICIAIS: REFLEXÕES SOBRE A ESCALADA ESPORTIVA2001 Daniele B. F Silva, Gustavo Santos, Maria Cecília de A. B. Mendes, Sérgio Henrique Verçosa Xavier BRINQUEDOS, BRINCADEIRAS, RECREAÇÃO, ARTE E CULTURA POPULAR: ALTERNATIVAS PARA UM MUSEU INTERATIVO.2001 Lamartine P. DaCosta INTERNATIONAL TRENDS OF SPORT AND ENVIRONMENT - A 2001 OVERVIEW2001 Alba P. Vieira ARTE, LAZER E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O CASO DA LUDOTECA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA2002 Leopoldo Vaz GESTÃO DO LAZER, TURISMO E EVENTOS: UMA NOVA HABILITAÇÃO A SER OFERECIDA PELO CEFET-MA2002 Valdo Vieira TREKKING DE REGULARIDADE – O ESPORTE CONSTRUINDO VALORES PARA A MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA2002 Rita Mendonça ECOTURISMO: DISCURSO, DESEJO E REALIDADE2002 Otávio Tavares, Renato Miranda, Lamartine DaCosta ESPORTE, OLIMPISMO E MEIO AMBIENTE: VISÕES INTERNACIONAIS2002 Tânia Sampaio “AVANÇAR SOBRE POSSIBILIDADES”: HORIZONTES DE UMA REFLEXÃO ECO-EPISTÊMICA PARA REDIMENSIONAR O DEBATE SOBRE ESPORTES10 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Introdução Tendências centrais dos estudos e pesquisas em Meio Ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil no período 1967 - 2007 Ana Cristina P. C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta Relacionando meio ambiente com esporte, lazer e turismo, este livro se pro-põe a ser uma coletânea de textos apresentados a público no Brasil desde 1967- ano da provável primeira obra no assunto segundo interpretações atuais – quesugere representar diferentes caracterizações e tendências assumidas por estetipo de conhecimento ao longo do tempo. Em resumo, este novo livro estábasicamente proposto como um documento de memória e uma referência paratrabalhos acadêmicos futuros numa área de conhecimento que tem exibido grandeimpulso nos últimos anos, no país e no exterior. Os textos inventariados foram fornecidos voluntariamente por seus autores apartir de solicitação pública de livros individuais e coletivos, artigos em periódi-cos, teses, dissertações, contribuições em congressos e seminários, e publica-ções técnicas diversas. Pesquisas e estudos aceitos para publicação (no preloem 2006 - 2007) foram incluídos tendo em vista o objetivo de discernir tendên-cias à semelhança das obras antecedentes. Como tal, a presente publicaçãodestina-se à distribuição gratuita e fácil acesso por várias mídias e formatos. As tendências centrais (research mainstreams) dos trabalhos foram assumidasna tradição científica de identificar convergências por tipos de abordagenstemáticas e por quantidade de estudos. Entretanto, as interpretações e síntesesadiante apresentadas devem ser consideradas apenas como indicações de usogenérico uma vez que não se baseiam em levantamentos exaustivos nemamostragens estatísticas de trabalhos publicados. Em que pese uma validadereduzida - mas todavia pertinente - priorizou-se a reprodução de trabalhospublicados em livros, um meio ainda aceitável e útil nas condições acadêmicasbrasileiras para caracterizar enfoques principais. Isto posto, encontra-se em seguida nesta “Introdução”, em ordem cronológi-ca, a identidade inicial de textos na temática objetivada por este livro com Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • exame adicional de características e respectivos relacionamentos, quer no tem-po, no espaço e segundo interesses de seus autores. Esta análise descritiva foifeita por contextualização histórica a partir de obra publicada no Brasil em 1850(ver adiante) no tema do meio ambiente e suas influências em entes humanos. Aobservação das relações do meio ambiente com o esporte, lazer e turismo foifeita nos anos subseqüentes até 2007. Para esta tarefa textos e autores nãocontemplados nesta Coletânea foram citados à vista de esclarecimentos sempreque convenientes para melhor compreensão e registro. Em resumo, tais disposi-ções nesta abordagem inicial incorporam tendências centrais e secundárias porsínteses e re-interpretação dos textos arrolados. As contribuições para o livro ora em apresentação foram resumidas peloscedentes das obras originais, procurando-se relevar aspectos essenciais dosestudos. Também foram mantidos os padrões estabelecidos originalmente pelosautores, incluindo forma de redação e modos de referenciação bibliográfica.Nos casos de obra publicada no exterior foi mantida a versão em inglês. Emsuma, cada texto constituiu um capítulo do livro também integrado numa ordemcronológica geral que ao final permitiu uma primeira periodização de tendênciascentrais dos estudos e pesquisas: 1967 – 2000 (fase pioneira) e 2001 - 2007 (fasede maturidade). Esta mesma disposição permitiu antever dois períodos deinternacionalização independentes entre si dos estudos brasileiros em meioambiente, esporte, lazer e turismo: 1967 – 1987 (enfoque maior no esporte) e1997 – 2007 (enfoque prioritário na sustentabilidade com visões integradas doesporte, lazer e turismo). Em termos epistemológicos, para que fosse possível identificar researchmaintreams dos estudos e pesquisas, os editores deste livro adotaram interpreta-ções e conceitos amplos (soft definitions) quer do meio ambiente – por vezesidentificado como “natureza” – como do esporte, lazer e turismo, evitando defini-ções estreitas e especializadas. Estas últimas hard definitions inviabilizariam aobservação das relações típicas do meio ambiente à luz da sustentabilidade, dis-tante portanto do objetivo da presente obra. Neste particular, assumiu-se comodiretriz principal a concepção geral de meio ambiente estipulada pelo ComitêOlímpico Internacional – COI, isto é : “todos os fatores externos, condições einfluências que afetam um organismo ou uma comunidade” (IOC, “Manual on Sportand the Environment”, Lausanne, 2001, p. 80). Adicionalmente, definiu-se tambéma sustentabilidade como “o desenvolvimento que atende as necessidades das ge-rações presentes sem prejudicar as gerações futuras” (Ibidem, p. 81). Por sua vez, a mesma fonte do COI (2001, pp. 13 - 14) ajusta a concepção deesporte aos problemas da proteção ambiental declarando que “a prática doesporte inclui atividades físicas em diferentes níveis, com participação informale ocasional ou de alto rendimento com normatização, implicando em gestãoespecializada ou de livre iniciativa de praticantes”. Já as relações do esportecom o turismo, sob o enfoque do meio ambiente, seguiram as proposições de12 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Tom Robison & Sean Gammon (“Revisiting and Applying the Sport TourismFramework”, Journal of Sport Tourism, Volume 9, Number 3, 2004) “as quaiscompreendem pessoas viajando, ou com estadas em locais fora de seu ambienteusual, com participação ativa ou passiva em atividades esportivas de competi-ção ou recreativas”. Outra recomendação adotada concerne às inter-relaçõesentre o turismo e o lazer, segundo Guy Swinnerton (“Recreation and Conservation”,in Jackson, E.L. & Burton, T.L., “Understanding Leisure and Recreation”, VenturePublishing, State College, PA, 1989, pp. 517 - 565), que geralmente ocorrem sobforma de coexistência, simbiose ou conflito, sendo a última alternativa a maiscomum dada à expansão do turismo em escala mundial. À vista do exposto, apresenta-se em seguida análises históricas e contextuaisque fundamentam os textos reunidos para a produção deste livro, com base emrevisões equivalentes de DaCosta (1997) elaboradas para a Universidade do Por-to – Portugal (ver “Introduction and Chronology”, pp. 15 - 37) ; de Ana Cristina P.C. Almeida (2000) para sua dissertação de Mestrado em que fez verificações detendências usando a técnica Delphi (texto incluído nesta Coletânea); e, finalmen-te, mas não menos importante, de Andrade da Costa para o capítulo “MeioAmbiente e Esporte – Produção do Conhecimento”, publicado no ‘Atlas do Espor-te no Brasil’, 2006 (pp.720 – 721), organizado por Lamartine DaCosta, Ana Miragayae Evlen Lauer Bispo.1850 Eduardo Ferreira França (1809 – 1857) de Recife-PE, médico formado naFrança, publica o livro “Influência dos Pântanos sobre o Homem” (TipografiaLiberal do Século, Salvador, 1850), no qual se analisam os efeitos da insalubrida-de do meio ambiente sobre a moral humana. Esta obra confirma a idéia dominan-te no Brasil de que o clima tropical produzia indolência, vícios e doenças.1888 A Editora Garnier do Rio de Janeiro-RJ, lança a obra do escritor e políticoSílvio Romero (1851 – 1914) intitulada “História da Literatura Brasileira” em cujocapítulo “O Meio Fisiologia do Brasileiro” são descritas as teorias correntes naEuropa quanto à inferioridade dos povos habitantes de regiões de clima quente.Sílvio Romero interpretando o fato argumenta que era necessário não generali-zar a questão climática brasileira, pois o ambiente nocivo limitava-se a determi-nadas áreas da nação. Porém reconhecia a deterioração física de grande parte deseus cidadãos: “Temos uma população mórbida, de vida curta, achacada e pesa-rosa em sua mor parte (...) O trabalho intelectual é no Brasil um martírio; por issopouco produzimos; cedo nos cansamos, envelhecemos e morremos depressa”(p. 93, vol. 1 da 7ª. Edição, 1980). Além destas dificuldades, Romero já comodeputado federal e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (Rio deJaneiro), denunciou em 1902, o tamanho das colônias alemãs no sul do país, quejá comprometiam em sua opinião a identidade cultural lusófona do Brasil.1902 O escritor Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras, publicao romance “Canaã”, um livro em que explora em estilo pré-modernista, a deca- Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 13
  • dência cultural de colonos alemães no estado do Espírito Santo diante das difi-culdades de adaptação ao ambiente tropical.1907 Na França, o Barão Pierre de Coubertin – onze anos depois de resgatar osJogos Olímpicos – adotava pela primeira vez no mundo do esporte uma posiçãode defesa da natureza, ao mobilizar os esportistas para que limpassem seuscampos de prática. Estava inaugurada então a definição do esporte como poluidorcomo também um envolvimento permanente do Movimento Olímpico internaci-onal – sobretudo manifestado pelos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão –com a proteção do meio ambiente. Uma revisão histórico-analítica deste com-promisso foi produzida no início dos anos 2000, pelo brasileiro Lamartine DaCostaem capítulo de livro internacional denominado de “Towards an OlympicEpistemology: Sport Sciences or Theory of Sustainable Sport?”, como se verificaem “Olympic Studies”, Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2002, pp. 131 – 152(não incluído nesta Coletânea).1922 O Exército Brasileiro adota oficialmente o Método Francês de EducaçãoFísica, o qual incorpora nesta versão inicial brasileira – entre várias outrastendências de origem francesa - as concepções de George Hébert (1875 –1957), líder da “L’ École Naturaliste” criada em 1905. Esta doutrina elegia osmovimentos naturais (saltar, correr, trepar etc.) como base do método depráticas físicas se aplicados em meio aos elementos naturais (água, sol, flores-ta, ar etc.). Hoje, a Escola de Hebért ainda apresenta manifestações na Françae na Bélgica (Gleyse, J. et al., 2002).1932 A Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx, situada no Rio deJaneiro (Urca), inaugura uma “Torre de Hébert” junto à sua pista de atletismo,marcando a incorporação do Método Natural aos currículos daquela institui-ção militar. A Torre de Hébert foi mantida até meados da década de 1960quando o Método Francês foi substituído pelo Método Calistênico na instru-ção física do Exército Brasileiro (ver site www.esefex.ensino.eb.br/). No Brasilda atualidade dos anos 2000, o Método de Hébert ainda sobrevive em suaspropostas essenciais em Curitiba-PR, em São Paulo-SP e outras cidades, pormeio de pistas de treinamento de exercícios naturais, com a denominaçãooriginal francesa “Le Parkour”. Há também ainda uma Associação Brasileira deParkour – ABPK, cujo site é www.abpk.br/.1967 Lamartine DaCosta, professor de Educação Física do Centro de Esporte daMarinha-RJ, publica um livro com relatórios de pesquisas sobre atividades físicasem clima tropicais, realizadas na cidade do Rio de Janeiro, durante três anos (1964,1965 e 1966). O livro foi denominado de “A Atividade Desportiva nos Climas Tropi-cais e uma Solução Experimental: o Altitude Training” (DaCosta, 1967), em razão deterem as investigações o objetivo de medir o gradiente redutor da performancefísica de longa duração sob impacto direto dos raios solares, como também osefeitos do mesmo esforço ao se realizar à sombra, em meio ao ambiente florestal.14 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O experimento foi feito com 10 atletas masculinos de nível nacional e internacio-nal do atletismo, em provas de corridas de média e longa distâncias. Como asanálises estatísticas das observações comprovaram uma melhoria no gradienteredutor à sombra, especificamente nas subidas da Floresta da Tijuca da mesmacidade, surgiu um método de treinamento como resultado adicional ao estudo. Porconseguinte, a inibição do esforço físico devido ao calor foi relativizado pelomodo de se conduzir e dosar o exercício. Em suma, o determinismo que definia otrabalho físico em ambiente tropical no Brasil desde 1850, tornou-se improcedentediante dos resultados desta pesquisa. Destaque-se ainda que estas investigaçõesbiometeorológicas foram pioneiras na área esportiva nacional quanto ao uso decomputadores e de protocolos de rigor científico. O livro de DaCosta (1967) en-contra-se resumido em suas partes principais na presente Coletânea, representan-do a inauguração no Brasil de estudos e pesquisas sobre o meio ambiente e esportee posteriores desdobramentos nas áreas de lazer e turismo. Há uma versão eminglês deste livro datada de 1966, compondo um manual técnico da Academia doConseil International du Sport Militaire-CISM, Brussels, sob a denominação “SportActivities in Tropical Climates and an Experimental Solution: the AltitudeTraining”(DaCosta, L.P., 1966). Esta obra marca o início da internacionalização daprodução científica brasileira na área do esporte e possivelmente na do meioambiente como disciplina autônoma de conhecimento.1967 Lamartine DaCosta publica “Planejamento México” (obra incluída nesta Coletâ-nea) pela então Divisão de Educação Física do MEC, em que estuda os efeitos domeio ambiente encontrado na altitude em geral e na Cidade do México em particular,a 2.240 metros, local dos Jogos Olímpicos de 1968 e da Copa do Mundo de 1970. Estepesquisador participara de um grupo de observadores de diversas nacionalidadesque visitaram a Cidade do México em 1967, a fim de levantar as dificuldades decompetições de alto rendimento no local. DaCosta em razão de seus estudos ante-riores – desde 1963 - já participava na época da Sociedade Internacional deBiometereologia e da Academia do Conselho Internacional do Esporte Militar-CISM,esta última uma entidade de ponta nas questões de treinamento esportivo. Nestesestudos, tal como ocorrera antes com o clima quente, demonstrou-se que o meioambiente adverso à atividade física representado por regiões elevadas, era realporém eivado de preconceitos. Neste mesmo ano, uma versão reduzida deste livrofoi publicada em artigo em língua inglesa na revista “Sport International”, Da Costa,L.P., vol 3, no. 36, pp. 16 – 23, sob o título “Altitude Training”. Esta publicação (nãodisponível nesta Coletânea) é possivelmente o primeiro texto em inglês na área doesporte produzida por autor brasileiro para periódico científico de circulação inter-nacional, e talvez um dos mais citados até hoje.1968 Os Jogos Olímpicos do México têm lugar neste ano, superando a ameaça desuspensão do evento pelo COI por existirem ameaças ambientais aos atletas pelaelevada altitude da sede dos Jogos. DaCosta acompanhou o evento e fez umlevantamento minucioso das condições de aclimatação para a Seleção Brasileirade Futebol no local e em outras regiões do México, para uso quando da Copa doMundo de Futebol de 1970 a ser realizada no México. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 15
  • 1968 João Lyra Filho publica neste ano o livro “Desporto e Trópico”, em quedefende a teoria determinista do esporte praticado no clima prevalente na maiorparte do Brasil, a qual subentende efeitos prejudiciais. Este então famoso cultordo direito e da sociologia do esporte, propôs nesta obra a elaboração de um“Cadastro Nacional dos Desportos” com a finalidade de “explicar, à luz dostrópicos, em relação a um povo ou outro, as preferências por desportos maisatuados pelo instinto, pela alma ou pelo espírito” (Lyra Filho, 1968, p. 6).1970 Realização da Copa do Mundo de Futebol no México. Lamartine DaCostaproduziu um plano científico de adaptação usando os efeitos benéficos da alti-tude (super aclimatação) e minimizando suas causas nocivas. Em conjunto comoutras contribuições positivas, o plano biometereológico garantiu a vitória daSeleção ao final da competição. O relatório oficial da Federação Internacionalde Futebol Amador-FIFA sobre a Copa de 1970, publicado em 1972, enfatizou otrabalho científico de aclimatação à altitude mexicana de 2.240 metros, consi-derando como o mais eficaz entre os países concorrentes (FIFA, World CupMéxico 70 - Official FIFA Report, Zurich, 1972). A partir deste ano, vários estudose registros foram publicados sobre os feitos científicos para Copa de 1970 combase em conhecimento gerado no Brasil. Este tema repercutiu mais uma vezdurante a Copa de 2006 (Alemanha) como se verifica em estudo incluído nestaColetânea (Santoro, Soares e Bartholo, 2006), o que confirma ser uma das ten-dências dominantes da produção de conhecimento na área de meio ambiente noBrasil, com quatro décadas de sobrevivência.1977 Publicação do livro “Treinamento Desportivo e Ritmos Biológicos” (JoséOlympio Editora, Rio de Janeiro, 1977) de Lamartine DaCosta, reunindo pesquisasfeitas com atletas brasileiros no Rio de Janeiro e em Atvidaberg, na Suécia,quando as reações dos sujeitos da investigação à mudança de ambientes forammensuradas e comparadas à luz da aplicação de treinamento físico. Neste está-gio da produção do conhecimento já se considerava importante o cruzamentode efeitos diversos advindos do meio ambiente (calor, altitude, mudança de fusohorário etc) buscando-se fatores de maior influência. Neste particular, o relaci-onamento social destacou-se como variável fundamental da aclimatação “cru-zada”, fenômeno de natureza ecológica incluindo influências de vários sistemasrelacionados à vida humana. O livro de DaCosta (1977) não esta incluído nestaColetânea, em que pese seu valor para o estímulo do esporte-turismo, hoje emampla expansão. Esta obra, também pioneira, recebeu como pesquisa o PrêmioMEC de Literatura Esportiva de 1976. Estes resultados sugerem também que aopção biológica e ambientalista de DaCosta e associados situava-se à época emnível similar às pesquisas internacionais.1981 Neste ano, publica-se no Rio de Janeiro, o livro “Teoria e Prática do EsporteComunitário e de Massa”, Lamartine P. DaCosta (Ed.), Palestra Edições. Esta obraconsolidou experiências e conhecimentos do chamado “Esporte para Todos”(EPT) no Brasil – gerados nas décadas de 1920 a 1970 -, incluindo autores sobre-16 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • tudo das áreas de lazer e esporte recreativo. Entre as diversas revisões feitaspelo EPT brasileiro, destacou-se a valorização da natureza como ambiente depráticas físicas, como se verifica nos Princípios do Esporte para Todos (ver textode DaCosta de 1981, incluso nesta Coletânea).1981 – 1982 No Brasil, neste estágio, as atenções para o meio ambiente por partedos esportistas permaneceram limitadas a interesses incidentais, tais como aosrelacionados a competições em altitude na Colômbia, Equador, Bolívia e México.Entretanto, a agenda de pesquisas de DaCosta em termos de influência do meioambiente no desenvolvimento atlético neste período incorporou experiênciascom atletas brasileiros preparando-se para os Jogos Olímpicos de Moscou (1981);planejamento in loco da adaptação à altitude de 3.600 metros para a representa-ção brasileira ao Campeonato Sul-Americano de Natação em La Paz, Bolívia(1982); reconhecimento dos locais de jogos da Copa do Mundo de Futebol-1982,na Espanha, para adaptação da Seleção Brasileira de Futebol ao calor, alimenta-ção e mudança de fusos horários. Em adição a estes desenvolvimentos, DaCostafez estágio em Font Romeu, França, no laboratório de pesquisas em altitude dosPirineus (1.850m), também em 1981.1983 Diekert & Monteiro da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, publi-cam o possível primeiro livro nacional – incluso nesta Coletânea - sobre equipa-mentos e parques de lazer em que privilegiaram atividades físico-recreativas emambientes naturais, promovidas por trabalhos comunitários e locais (mutirão).Jürgen Diekert era à época professor visitante na UFSM e trouxe experiências daAlemanha quanto ao uso de materiais de origem florestal.1987 DaCosta publica em Portugal, pelo Ministério da Educação e Cultura, oestudo “A Reinvenção da Educação Física e do Desporto segundo Paradigmas doLazer e da Recreação”, em que explora especulativamente a oposição funda-mental entre a idéia da natureza e a de cultura. Este nexo tradicional da filosofia,revelou-se para o autor brasileiro como um fio condutor para se re-conceituar olazer à luz das atividades físicas organizadas de modo pedagógico ou de livrearbítrio. Possivelmente este texto inaugura o pensar ecológico no lazer no âm-bito acadêmico de língua portuguesa.Década de 1990 Neste período, o eixo de compreensão das questões ambientaisno esporte se deslocou da proteção do praticante para a proteção do meioambiente em que se pratica ou se competem esportes. Este fato foi produto doespírito da época desde que em 1992, realizava-se no Rio de Janeiro, a Conferên-cia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento de grandeimpacto internacional e marcante quanto ao início da responsabilidade dos esta-dos nacionais, formalmente assumida, a respeito da proteção da natureza emescala global. Do lado do esporte, o COI assumiu a liderança no plano internaci-onal e, já em 1995, esta instituição organizava a 1a. Conferência Mundial sobreEsporte e Meio Ambiente em Lausanne, Suíça. Neste evento se estabeleceram as Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 17
  • bases para emendar a Carta Olímpica, documento maior de princípios do COI edas Federações Internacionais a ele filiadas, o que ocorreu efetivamente em1996. A partir desta data, o COI passou a assumir publicamente os seus “trêspilares de sustentação: esporte, cultura e meio ambiente” (Tavares, 2002). Amodificação da Carta Olímpica incluiu a definição de desenvolvimento sustentá-vel, já consagrada na histórica Conferência do Rio de Janeiro de 1992. Por estemarco definitório, “as atividades físicas, os jogos e competições são sustentá-veis quando sua instrumentalização respeita os valores intrínsecos da naturezae do esporte” (DaCosta, 2002). Em síntese, a definição então estabelecida e hojecorrente, propunha uma adaptação mútua entre praticantes e o meio ambiente,uma posição bem distinta em perspectivas do passado no Brasil com relação aodeterminismo ambiental de Lyra Filho dos anos de 1960 ou do higienismo radicalde Eduardo Ferreira França do século XIX, que entendia o meio ambiente comouma ameaça à saúde humana.1992 DaCosta publica em capítulo de livro seu segundo estudo filosófico sobreo meio ambiente “O Olhar e o Pensar Ambientalista”, no qual explora sua expe-riência científica de três décadas no tema. Neste texto – ora incorporado nestaColetânea – há um resumo de sua crítica, ao declarar que “estamos incorporan-do, enfim, uma cultura ecológica, mas não conseguimos compreendê-la alémdos dados científicos reducionistas ou da informação efêmera da mídia”.1993 Realização do Simpósio Internacional Cidadania, Esporte e Natureza, orga-nizado pela Universidade do Porto, em Portugal, por proposta de LamartineDaCosta, então professor visitante daquela universidade. Também neste ano, noBrasil, Rita Mendonça, especialista em Planejamento Ambiental pela UNESCO emestre em Sociologia do Desenvolvimento pela École des Hautes em SciencesSociales, da França, publica o artigo “Turismo ou meio ambiente: uma falsaoposição” (incluído nesta Coletânea) denunciando que no Brasil “o turismo, talcomo vem sendo implantado, não apresenta característica de sustentabilidade amédio e longo prazos”. Este estudo pioneiro, todavia de índole conceitual, cons-trói preliminares ao pensamento sobre o meio ambiente, que aparentementeinfluenciaram autores brasileiros de temas relacionados com o lazer de ativida-des físicas e turismo. Nas conclusões há perspectivas futuras da parte da autoraque revelam tendências hoje razoavelmente confirmadas: “Há vários indícios deque essa sustentabilidade não ficará apenas em nosso exercício de raciocínio: osnovos planos de desenvolvimento turístico vêm incorporando pouco a pouco osaspectos ambientais; a legislação ambiental brasileira é bastante clara e interes-sante em muitos aspectos; os conceitos e técnicas em educação ambiental têmevoluído muito. É claro que tudo isso precisa ser posto efetiva e completamenteem prática. Mas não podemos perder de vista que se trata de um processo,formado por etapas e pequenas conquistas individuais”1994 Realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer, Noruega, querepresentaram os primeiros “Jogos Verdes” (Green Games) da história do Movi-18 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • mento Olímpico Internacional, pelos critérios de sustentabilidade adotados nasinstalações e organização das competições e hospedagem de atletas e visitantes.Neste ano, Sydney – Austrália foi escolhida por eleição como sede dos JogosOlímpicos de Verão do ano 2000, tendo privilegiado a proteção do meio ambienteem seu projeto de candidatura. Em condições similares de dar prioridade aoambientalismo, Atenas – Grécia foi eleita em 1998, a sede dos Jogos Olímpicos de2004. Entretanto, a partir de Lillehammer tornou-se comum o uso dos JogosOlímpicos como showcases (projetos - demonstração) de boas práticasambientalistas. No âmbito brasileiro, autores como DaCosta, Carvalhedo e Veerman– seguidores da tradição científica, tecnológica e ética – adotaram então os even-tos olímpicos como suporte empírico de seus estudos, incluindo no caso o turismoe o lazer. Tal opção foi reforçada em 1999 quando da adesão oficial do ProgramaAmbiental das Nações Unidas – UNEP ao trabalho em conjunto com o ComitêOlímpico Internacional (ver adicionalmente Tavares et al., 2002, nesta Coletânea).1996 Neste ano, outros autores brasileiros incluem-se na senda aberta antes porRita Mendonça, como no exemplo de Ana Cristina P.C. Almeida ao preconizar“ênfase na Educação Ambiental que direciona a uma atualização voltada, princi-palmente, ao uso adequado dos recursos naturais, porém, geralmente, discriminaas relações globais de causa e efeito por falta de tempo, dedicação e até expe-rimentação científica que tornaria o assunto mais pró-ativo além da simples‘conscientização’ e, portanto, de maior importância ao aprendizado” (ver nestaColetânea o texto “A Inter-Relação do Ensino em Recreação e Lazer e a Educa-ção Ambiental” de 1996). Por sua vez, Flávio Leonel A. Silveira em seu “Ecoturismo:Viagem, Lazer & Aventura” (incluído nesta Coletânea), adotando uma linhaconceitualista e experimental, levanta perspectivas futuras indicando que “oturismo ecológico ou o ecoturismo é um fenômeno recente e em evidência, oumelhor, é um evento típico do final do século XX, dentro do que se poderiaapontar como uma perspectiva pós-moderna de interação com os naturais. Tra-ta-se de uma atividade turística que se caracteriza por certo hibridismo, no qualas questões ecológicas mesclam-se com a experiência turística gerando umoutro tipo de evasão do espaço urbano, a qual prefiro denominar ‘experiênciaecoturística’.” A própria Rita Mendonça retorna este ano, publicando “Visitar ecompartilhar a natureza” (incluído nesta Coletânea), uma reflexão em que sebaseia em destacado pensador ambientalista que tenta combinar posições filo-sóficas com imperativos pedagógicos: “Para Joseph Cornell, a verdadeira defini-ção de educação, que abrange a educação ambiental, é sugerida por J. DonaldWalters: ‘É a habilidade de se relacionar com outras realidades, e não apenas coma sua própria’. No fundo, nós estamos ligados a todas as formas de vida, só quenão percebemos mais,.. No nosso dia-a-dia quase não nos damos conta desteafastamento e de quão longo é o caminho para nos reencontrarmos verdadeira-mente com elas”.1997 Neste ano, foi organizado um Seminário na Universidade de Cingapurasobre os problemas ambientais dos Jogos Olímpicos de Sydney - 2000, no qualLamartine DaCosta (Universidade Gama Filho-RJ) debateu com Richard Cashman Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 19
  • e Kristine Toohey, da Universidade de New South Wales, Austrália, as questõescentrais sobre o meio ambiente envolvendo os Jogos Olímpicos. Nesta ocasião,foi divulgado um position paper (não incluído nesta Coletânea) então referenciadocomo: DaCosta, L.P., The Green Dream: the Olympic Movement and theEnvironment, National Olympic Academy of Singapore Seminar, Singapore, 1997.Posteriormente, ainda em 1997, este autor brasileiro publicou pela AcademiaOlímpica Internacional, Grécia, um estudo de revisão conceitual e tecnológicapara dar suporte à candidatura de Atenas para os Jogos Olímpicos – 2004; taldocumento (também não incluído nesta Coletânea) está referenciado como:DaCosta, L. P., The Olympic Movement Today and the Environment Protection,I.O.A. Report of the 37th Session, Ancient Olympia, 1997, 3-6. Em resumo, noBrasil, a linha de pesquisa liderada por DaCosta neste estágio já estava consoli-dada como marcada por bases científicas, filosóficas e tecnológicas ao passoque o caminho em construção exemplificado por Mendonça, Pimentel e Silveiramostrava-se como de revisão conceitualista, pedagógica e auto-reflexiva dian-te uma realidade típica nacional. Significativamente estas duas tendências cen-trais dos anos de 1990 focalizavam igualmente o meio ambiente, o lazer e oturismo, gerando um certo hibridismo conceitual e operacional.1997 Publica-se em Portugal, o livro “Meio Ambiente e Desporto – Uma Perspec-tiva Internacional”, tendo como editor Lamartine DaCosta e como organizadorAntônio Marques, professor da Universidade do Porto. O livro – escrito em inglêse português - teve o apoio financeiro do Comitê Olímpico Internacional - COI ea colaboração de 15 especialistas de vários países no tema proposto. A tesecentral do livro dispôs-se na condição ambivalente do esporte que tem atuado“como vilão e vítima” do meio ambiente. A presente coletânea inclui a “Introdu-ção” deste livro como também um capítulo de DaCosta em que se apresenta umateoria geral sobre o meio ambiente e a prática esportiva, ambos na versão eminglês da publicação. Esta última construção conceitual, filosófica, empírica deíndole científica e internacionalista demarcou a produção do autor em foco até2006 quando publica um estudo sobre a proteção do meio ambiente – comeducação ambiental e turismo correlatos – nos Jogos Olímpicos de Inverno deTurim – Itália (em associação com Cris Veerman e incluído nesta coletânea). Noseu significado de obra coletiva internacional, o livro da Universidade do Portoconstituiu um marco para os especialistas brasileiros em meio ambiente na me-dida em que se expandiu o intercâmbio com outros países como se verifica nosanos seguintes desta cronologia. Este viés explica, por exemplo, o destaquedado pelo European College of Sport Sciences aos trabalhos da linha de pesquisade DaCosta e associados em 1991 (ver adiante).1998 Acontece o Seminário Internacional de Esporte e Meio Ambiente, emCuritiba-PR, promovido pelo Comitê Olímpico Brasileiro-COB, com a presença derepresentantes de países latino-americanos e do COI. Otavio Tavares, RenatoMiranda e Lamartine DaCosta organizaram um livro com os textos apresentadose as notas das discussões, que foi publicado em 2002 com o título “Esporte,Olimpismo e Meio Ambiente”. Neste Seminário teve destaque a “Agenda 21”20 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • como base para a revitalização dos esportes tendo em vista as exigências deproteção ambiental. A Agenda 21 teve também origem na Conferência de 1992 doRio de Janeiro, consistindo num compromisso de esforços conjugados de gover-nos e instituições em projetos de conservação ou de proteção da natureza (“21”refere-se ao século visado pela Agenda).1999 Tem lugar no Rio de Janeiro-RJ a Terceira Conferência Mundial sobre Espor-te e Meio Ambiente, promovida pelo COI e organizada pelo COB. Este evento foio maior até então ocorrido no tema proposto, com a presença de 93 represen-tantes de Comitês Olímpicos Nacionais e de 19 Federações Internacionais deesportes. O significado desta participação inédita prendeu-se ao crescenteenvolvimento das modalidades esportivas per se nas questões ambientais, emcomplementação aos interesses voltados para os Jogos Olímpicos e mega even-tos esportivos em geral. Segundo avaliação de DaCosta produzida em 2001 porsolicitação da Universidade de Colônia, Alemanha, em 29,7% das contribuições ediscussões da Conferência de 1999, o foco se pôs na ética, sobretudo em termosde comportamento pessoal e de intervenções de governo. Já 27,0% dos trabalhosvoltou-se para perspectivas e projeções futuras do tema de proteção ambiental,enquanto 24,3% abordou técnicas e instrumentos de manejo ecológico. Os as-suntos de promoção de eventos e os relacionados com a educação e culturaforam residuais com 18,9%. Estes resultados indicaram a existência de ambigüi-dade no trato das questões ambientais por parte dos gestores esportivos dasentidades internacionais, o que foi posto em foco por DaCosta posteriormenteno trabalho “International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview”,já aqui citado e resumido pela presente Coletânea.1999 No Brasil, Rita Mendonça amplia sua linha de reflexão e re-conceituaçãodo turismo vinculado ao meio ambiente, publicando “Sentido da Viagem”, capí-tulo de livro em que a busca de novos sentidos constitui a abordagem principal(ver texto com este título na presente Coletânea) diante da crescente valoriza-ção da natureza. Na mesma linha de conta, situam-se Cristiane Ker de Melo & AnaCristina P. C. Almeida no estudo “Nas Trilhas da Relação Educação Física – MeioAmbiente” – incluído nesta Coletânea – inserindo os nexos das atividades físicasorganizadas ou de lazer na re-semantização unificada da natureza. Tais re-significações neste estágio implicaram em verificações empíricas, como o fize-ram Alba Pedreira Vieira & Priscyla Assis em “Turismo Ecológico: essa possibili-dade de lazer é ‘quente’” (ver nesta Coletânea), produzindo levantamento decampo. Para estas autoras, o desenvolvimento da Educação Ambiental passapelo turismo ecológico (EMBRATUR, 1994: “Um segmento da atividade turísticaque utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva suaconservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através dainterpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvi-das”). Este, por sua vez, “oferece enquanto espaço para vivência tanto do ho-mem com seus pares, quanto do homem com a natureza; essa vertente do turis-mo vem a cada dia se consolidando como potencializadora forma de se conhe-cer a natureza, dela fruindo e usufruindo, de maneira orientada e sustentável”. A Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 21
  • verificação prática de propostas de lazer, atividades físicas e Educação Ambientalfoi feita também por Teresa Magro em “Impactos do uso público em uma trilhano Planalto do Parque Nacional do Itatiaia” (ver Coletânea), em que um estudo decaso demonstrou que “fatores institucionais, ligados à administração do parque,contribuíram fortemente para a degradação de parte do ecossistema estudado”.Outra verificação foi feita por Alba Pedreira Vieira, Priscyla Assis & FernandaFernandes por meio de vivências no município de Tombos-MG (ver “Ecoturismourbano” nesta Coletânea) quando se comprovou que a “cultura lúdica” dos pra-ticantes pode alavancar um experiência de Educação Ambiental. Uma discussãodestas possibilidades de integração de fatores culturais, educacionais e gerenciaisenvolvendo o meio ambiente é feita ainda em 1999 por Alcyane Marinho (vernesta Coletânea “Do Bambi ao Rambo ou do Rambo ao Bambi? As relações coma (e na) natureza”. Para esta última autora, as novas formas de se relacionar como meio natural e com outras pessoas, manifestam-se preferencialmente pormeio da prática de atividades de aventura na natureza. No seu todo, os estudose pesquisas inventariados em relação ao final dos anos de 1990, sugerem que afase de re-conceituações diminuiu progressivamente enquanto ampliavam-se asinvestigações e observações de campo. A explicação, no caso, é a de que oimpacto do ambientalismo em face aos fatos sociais no Brasil exigiu reflexão eajustes conceituais no início da década de 1990, dando lugar posteriormente àsconstatações práticas para legitimação de intervenções por parte de indivíduos,grupos sociais e instituições.2000 A fase identificada para o final da década de 1990 inclui sobretudo asinvestigações de Ana Cristina P. C. de Almeida fazendo verificações de tendênci-as, usando a técnica Delphi reunindo especialistas diversos exercendo projeçõesfuturas. Nesta Coletânea foram arrolados dois textos da autora em foco, sendoo primeiro “Considerações sobre o Futuro das Atividades Físicas de Lazer eRecreação Ligadas à Natureza - Um estudo Delphi”; e o segundo “O Futuro dasAtividades Físicas de Lazer e Recreação ligadas à Natureza e à EducaçãoAmbiental”, ambos extraídos da dissertação de Mestrado desta pesquisadora. Deacordo com a metodologia usada nas pesquisas foram consultados 35 especia-listas em painéis sucessivos em horizontes de tempo imediato e de três anosadiante. Ao final, concluiu-se que na opinião dos especialistas entre as práticasde ocorrência imediata encontram-se caminhadas ecológicas, corridas rústicas,surfe, canoagem, rodeio, as diversas modalidades esportivas nas areias das prai-as do litoral brasileiro e fotografia da natureza. Entre 2000 e 2001, os especialis-tas apontam que o crescimento do ecoturismo, em fazendas, sítios, e no Panta-nal; as atividades desenvolvidas pelas empresas de ecoturismo, os crescentescampeonatos em diferentes ambientes naturais, colônia de férias, acampamen-tos, surgimento e continuidade de eventos científicos, publicações acadêmicasnas áreas do Lazer e do Turismo e o surgimento de programas relativos àsatividades ligadas ao ambiente natural. No período de 2000 a 2002, destacam-seo Congresso Virtual do Meio Ambiente, a construção de parques temáticos, aspressões do poder econômico para a transformação de ambientes naturais parao lazer de massas, a educação para o lazer e o Meio Ambiente e a construção de22 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • espaços alternativos para a prática de atividades físicas para a terceira idade.Não houve consenso quanto aos impactos considerados negativos ao ambientenatural; porém pressupõe-se que estes eventos possam causar diferentes impac-tos ao ambiente e no estilo de vida das pessoas. Dos conteúdos analisadosreferentes aos programas de Educação Ambiental, observou-se que a disciplinanão consta nos currículos e apenas 10% dos professores responderam no questi-onário que trabalham a Educação Ambiental. Entre as sugestões metodológicasapresentadas, destacaram-se em linhas gerais o trabalho interdisciplinar, o in-centivo a linhas de pesquisas, a efetivação da atividade e a preparação de mate-riais educativos para a comunidade, entre outros. Ao final, foi possível discernirque a disciplina Lazer e Recreação deva contemplar a Educação Ambiental devi-do ao crescimento dos eventos ligados à natureza e seus possíveis comprome-timentos ao ambiente natural. Estas verificações ainda estão hoje (2006) emaberto para confirmações. Porém já se pode admitir que os elementos destaca-dos na consulta Delphi estão presentes nas relações sócio-culturais atuais, mascontinuam desconhecidas as proporções em que se influenciam umas às outras.2001 Uma avaliação dos principais direcionamentos da produção do conheci-mento do esporte em seus relacionamentos com o meio ambiente foi feito porLamartine DaCosta durante o Congresso do European College of Sport Sciences-ECSS, na Universidade de Colônia, Alemanha (28 – 24 de julho de 2001), a convitedos organizadores. A síntese cobriu as três últimas décadas de exploração dotema e na essência incidiu sobre o caráter de resolução de conflitos que revesteos problemas da proteção do meio ambiente, e que inclui o esporte entre váriasoutras manifestações humanas. Contudo, o esporte tem apresentado um diferen-cial nesta relação por expressar fatos ao passo que o meio ambiente expressavalores (ver nesta Coletânea DaCosta, 2001), explicando assim sua condiçãoambivalente já enfatizada no livro de 1997 antes citado. Em conclusão, o pesqui-sador brasileiro pôs em evidência a ética como caminho apto para a solução dodilema de ser o esporte simultaneamente vilão e vítima do entorno físico, sociale cultural. Já em relação às outras tendências identificadas no Brasil na temáticaora em exame, percebe-se a partir deste ano que a linha seguida por DaCosta emquatro décadas de estudos do meio ambiente voltara-se progressivamente parauma visão micro de relações privilegiando intervenções operacionais técnico-científicas, fundadas em argumentação histórico-filosóficas. Entretanto, a linhasócio-pedagógica aqui descrita com maiores empenhos por iniciativas dos anos1999-2000, situam-se numa visão de predominância macro que visa ao desen-volvimento social e à proteção da natureza. Enquanto neste estágio a opção deDaCosta e seus seguidores enfatiza a gestão do esporte, lazer e turismo dandoênfase a resultados práticos, a linha sócio-pedagógica revela-secomportamentalista e produtora de valores, tanto por meio de agentes como deinterventores.2000 – 2002 Uma outra avaliação dos dois últimos anos desta ordem cronológi-ca em conjugação com 2002 confirma o surgimento de convergência dos estu-dos e pesquisas nacionais – abrangendo as duas linhas dominantes - no sentido Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 23
  • de comprovações empíricas e revisões teóricas das propostas de sustentabilidadetípicas da década de 1990 no Brasil e no exterior. De fato, dos 16 trabalhosinventariados deste estágio, 18,7% são estudos de caso e relatos de experiência;25,0% compõem pesquisas de campo e levantamentos (surveys); 37,5% represen-tam artigos de revisão e position papers, e 18,7% se referem a novas abordagensmetodológicas e de re-conceituação. Neste último item, classificam-se o uso dométodo Delphi de Almeida (2000) e a abordagem do imaginário social em espor-tes de aventura na natureza de Costa (2000). Entre os surveys, inclui-se o levan-tamento internacional de DaCosta (2001) para o ECSS que se desenvolve a partirdos conflitos entre elementos de intervenção relacionados ao meio ambiente.Desta investigação, aliás, derivou-se um outro estudo de DaCosta (“ConflitosAmbientalistas do Desporto e da Educação Física e a Nova Cidadania Ecológica”,in Vargas, A. (Ed.), Desporto e Tramas Sociais, Sprint, Rio de Janeiro, 2001, pp. 91– 104) não disponível nesta Coletânea, que incide na ética como âncora dasustentabilidade e veículo da solução dos inevitáveis conflitos ambientais en-volvendo esporte, lazer e turismo.2003 – 2007 Este período revela mais claramente a maturidade dos trabalhosinventariados em conjunto, uma tendência já identificada desde 2001. Nestestermos, sustentabilidade e impacto ambiental são elementos de importânciaconsensual e como tal constituem fundamentos básicos em estudos e pesquisas.Já o perfil de caracterização define-se com 17,9% de um total de 67 trabalhosvoltados para estudos de caso e relatos de experiência (cifra próxima àquelaregistrada em 2000-2002); 20,8% são pesquisas de campo e levantamentos(surveys), com queda de 4% em relação ao triênio anterior; 34,3% constituemartigos de revisão e position papers (redução de 3% em relação a 2000 – 2002); e23,8% se referem a novas abordagens metodológicas e de re-conceituação, cifraaumentada em 5% comparando-se com o período anterior. No geral, esses quan-titativos revelam uma tendência dominante para a inovação ao se somarem ostrabalhos de revisão – incluindo position papers - com os de novas abordagensmetodológicas, totalizando 58,3% da produção técnica e científica arrolada nes-ta amostra indicativa. Este resultado ao se cotejar com a teoria de Sinclair-Desgagné (1999) sugere a existência de uma orientação adequada para o desen-volvimento da produção e gestão do conhecimento científico-ambientalista emesporte, lazer e turismo no Brasil. Segundo esta teoria, a pesquisa de inovação naárea de meio ambiente permite a identificação de intervenções seletivas quecriam um melhor e mais abrangente potencial de desenvolvimento. Entretanto,para se consolidar esta interpretação há que se avaliar futuramente a qualidadedas investigações produzidas no país na área de saber em foco, o que demandaum desdobramento da presente apreciação com amostragem e monitoraçãomais precisas.2006 – 2007 Este último estágio classificado pela presente Coletânea comoinserido no período 2003 - 2007, inclui trabalhos os quais por comparação suge-rem haver uma convergência entre as duas principais abordagens históricas dos24 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • estudos e pesquisas em meio ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil: a degestão bio-tecnológica de bases éticas e a sócio-pedagógica, de índolecomportamentalista e axiológica. De fato, a coletânea “Viagens, lazer e esporte:o espaço da natureza” de Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns (Eds.), SãoPaulo: Manole, 2006, amplia o foco sócio-pedagógico optando por autores etemas que trabalham nos vieses da interdisciplinaridade, de mapeamento, deimpactos ambientais e de monitoramento participativo. Outro exemplo de auto-res clássicos, reside no texto de Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006),publicado em livro na Alemanha sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim,que embora se mantenha na tradição tecnológica-científica privilegia a educa-ção ambiental e posturas valorizativas. Em geral, os textos inventariados daprodução 2003 – 2007 convergem para pontos comuns de análise sobretudoquando abordam a temática do eco-turismo e a dos problemas de impactosambientais.REFERÊNCIASDaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidadedo Porto-Portugal, 1997, p. 44; DaCosta, L.P.,Conflitos ambientalistas do desporto e da educação física e a nova cidadaniaecológica. In Vargas, A., Desporto e Tramas Sociais. Sprint, Rio de Janeiro, 2001,pp. 91 – 104;DaCosta, Lamartine. A Atividade desportiva nos climas tropicais e uma soluçãoexperimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967;DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa-ção e Cultura, 1967;FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972;Tavares, O., DaCosta, L. P. e Miranda, R., Esporte, Olimpismo e Meio Ambiente.Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002;DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CDROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm;DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview.ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001;Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Educationas a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body andthe Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7,Number 1, 2002, pp. 5 – 23;Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior andInnovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations,Montréal, 1999 (position paper) Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 25
  • English forewords and review Research mainstreams of studies on environment, sport, leisure and tourism in Brazil within the period 1967-2007 Ana Maria Miragaya, PhD Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro Sports and environment have been historically related through the followingperspectives: (i) the environment as agent - acting on the participant’s bodycausing physical performance loss (example: excessive heat); (ii) sports as sourceof pollution – or even destruction – (example: winter sports in naturalenvironment), and (iii) sports as agent - participants as environment guardians(example: surfers protecting local beaches). Although research tradition on humanphysical impairment due to hostile climate conditions started in Brazil in 1850, itwas only in the 1960s that sports became part of scientific investigations thatbrought successful results such as Brazil’s conquest of the 1970 Soccer WorldCup, as the main games were held in Mexico City, elevation 2,240m. The issue that dealt with the protection of the environment where sportsevents are held was approached in Brazil in the 1990s as a result of internationalaction, which produced more theoretical academic research in addition to fieldresearch. After evaluating international research on sports and environment duringthis period, the Brazilian researcher Lamartine DaCosta concluded that whilesports express facts, environment expresses values, which generates an ambivalentcondition. The solution in this case would be the development of some type ofethics that could solve the dilemma permitting sports to be both a villain and avictim of the physical, social and cultural context at the same time. Among several lines of investigation in this theme, it is possible to state thatBrazil has had two main groups of research over the years. The first one started upwith DaCosta in 1964 and focused initially on sports, leisure, later on tourism, andtheir influences on the environment. This research group was already establishedand had scientific, philosophical and technological bases in the early 1990s. As aresult, researchers sharing these same objectives have been publishing their scientificproduction in international periodicals since 1967. The second main research group, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • which began in the early 1990s, focused on revisions of concepts and of educationalprocedures due to the need of environmental conservation. As a result of thestudies developed, this book presents contributions from 86 authors with the purposeto explore general tendencies within the proposed theme. At the turn of the millennium, Brazilian research was taken to Europe in 2001,when DaCosta made a first evaluation of the main directions of the production ofknowledge in sport and its links with the environment during the 2001 Conferenceof the European College of Sport Sciences - ECSS, at the University of Cologne,Germany (28 – 24 July), as a guest of the organizers. The synthesis coveredresearch in this area over the last three decades, focusing on conflict resolutionrelated both to problems of environmental conservation and to sports amongvarious other human manifestations. The Brazilian researcher indicated ethics asa way out to solve the dilemma of sport viewed at the same time as both villainand victim of physical, social and cultural delimitations. The works published in 2001 and 2002 show a convergence of studies and researchin Brazil – including both main research groups – in terms of empirical evidence andtheoretical revisions of the proposals related to sustainability that are typical ofthe 1990s not only in Brazil but also abroad. As a matter of fact, out of the 16studies examined within this period, 18.7% are case studies and reports ofexperiences; 25.0% are field research studies and surveys; 37.5% represent reviewarticles and position papers, and 18.7% refer to new approaches of methods and ofre-conceptualization, which includes not only the use of the Delphi method byAlmeida (2000) but also the social imaginary approach to sports and adventures inthe great outdoors by Costa (2000). Among the surveys, it is important to includethe international survey done by DaCosta (2001) for the ECSS, which was developedfrom the conflicts between elements of intervention related to the environment. The period 2003 – 2007 reveals more clearly the maturity of the studies as awhole, a tendency which was identified in 2001. In these terms, sustainability andenvironmental impact are elements of consensual importance and as suchconstitute basic principles in studies and research. In terms of profiles, it ispossible to define that 17.9% out of 67 works which include case studies andreports of experiences (similar to the one registered for the period 2000-2002);20.8% refer to field research and surveys, with a decrease of 4% related to theprevious three-year period; 34.3% constitute review articles and position papers(reduction of 3% in relation to the 2000-2003 period) and 23.8% refer to newapproaches of methods and of re-conceptualization, number increased in 5% ifcompared to the previous period. In terms of Brazil, as of 2006, it is possible to observe on the one hand thatresearch conducted by DaCosta during the last four decades of studies onenvironment has been going back towards a micro vision of relations which privilegetechnological and scientific operational interventions based on historical and28 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • philosophical arguments. On the other hand, the social-pedagogical group ofresearch, which developed initiatives between 1999 and 2000, has shared a macrovision which aims at social development and nature conservation. In other words,while DaCosta and his followers have been working on sport, leisure and tourismmanagement emphasizing practical results, the social pedagogical group of researchhas been focusing on the behavior of producers of values by means of agents. In general, these numbers reveal a major tendency related to innovations ifreview works, including position papers, are added to works that deal with newmethodological approaches, reaching 58.3% of the technical and scientificproduction registered in this indicative sample. If compared with the theory ofSinclair-Desgagné (1999), this result suggests the existence of an orientationthat is adequate for the development of the production and management of thescientific-environmental knowledge in sport, leisure and tourism in Brazil.According to this theory, the research of innovation in the area of environmentpermits the identification of selective interventions which create a better andmore comprehensive potential for development. Nevertheless, in order toconsolidate this interpretation in the future, it is necessary to evaluate the qualityof the investigations produced in Brazil in this area of knowledge This will requiremore detailed samples and more precise monitoring. The research works identified for 2006 and 2007 in terms of comparison suggestthat there is a convergence between the two main historical approaches of studiesand research on environment, sport, leisure and tourism in Brazil. Such coincidenceprimarily refers to bio-technological management with ethical bases, and in thesecond place to a social-pedagogical tendency, of behaviorist and axiologicalcharacter. As a matter of fact, the classic anthology “Viagens, lazer e esporte: oespaço da natureza” (“Trips, leisure and sport: the space of nature”) by AlcyaneMarinho and Heloisa Turini Bruhns (Eds.), São Paulo: Manole, 2006 enlarges thesocial-pedagogical focus choosing authors and themes that work with differentviewpoints and biases in the areas of interdisciplinarity, mapping, environmentalimpact and participative monitoring. Another example of classic authors resides inthe text of Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006), published in a book inGermany about the Winter Olympic Games of Turin, which in spite of keeping itselfwithin the techno-scientific tradition privileges environmental education and values-led attitudes. In general, the texts surveyed for the production 2003 – 2007 seem toconverge to common points of analysis particularly when they approach themesrelated to eco-tourism and environmental impacts.SOURCES AND REFERENCESDaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidadedo Porto-Portugal, 1997, p. 44; Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 29
  • DaCosta, Lamartine. A Atividade desportiva nos climas tropicais e uma soluçãoexperimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967;DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa-ção e Cultura, 1967;FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972;DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CDROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm;DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview.ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001;Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Educationas a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body andthe Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7,Number 1, 2002, pp. 5 – 23;Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior andInnovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations,Montréal, 1999 (position paper).30 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: livroFormato da contribuição: texto da introdução do livroFonte: MARINHO, Alcyane; BRUHNS, Heloisa T. (Orgs.). Turismo, Lazer e Natureza.São Paulo: Manole, 2003E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação peloDepartamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado eDoutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), naÁrea de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMPe em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia daEducação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos doLazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Turismo, lazer e natureza Alcyane Marinho e Heloisa Turini BruhnsINTRODUÇÃO DO LIVRO A idéia de organizar esta coletânea partiu dos trabalhos desenvolvidos noGrupo de Estudos Lazer e Cultura (GLEC), da área de concentração Estudos doLazer, pertencente ao programa de Pós-graduação da Faculdade de EducaçãoFísica da UNICAMP. Tal grupo tem sua existência desde 1995, sob coordenaçãoda Profa. Dra. Heloisa T. Bruhns e já desenvolveu vários projetos, bem comopossui uma participação consistente em congressos e publicações em periódi-cos da área. Atualmente, o GLEC tem concentrado suas investigações e publicações narelação lazer e meio ambiente, sendo que vários projetos de mestrado e dou-torado estão sendo desenvolvidos nessa temática. Dessa forma, o Grupo ga- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • nhou um destacado fator identificador, dentre outros, em um momento no quala discussão acadêmica é reforçada por meio da forte demanda populacionalrelacionada ao ecoturismo e às atividades esportivas praticadas junto à natu-reza. Dentre tantas controvérsias, presentes nessas práticas, tais como preser-vação ou destruição, conhecimento ou consumo, exclusão ou inclusão, faz-senecessária uma reflexão mais elaborada, trazendo elementos para essa discus-são, bem como criando um espaço fértil para o diálogo com os leitores inte-ressados na temática. Esta, por sua vez, envolve uma abordagem interdisciplinar,requisitando vários olhares sobre o assunto (Educação Física, Geografia, Bio-logia, Sociologia, dentre outros), constituindo parcerias importantes, as quaisjuntam esforços na busca do entendimento, da mesma forma comoproblematizam aquilo que, às vezes, não é refletido ou, ainda, não é refletidoadequadamente. O tema é bastante atual, espelhando uma época, na qual a nature- za, enquanto construção sociocultural, expõe os danos sofridos ao longo de séculos, ao mesmo tempo, constituindo-se como es- paço no qual grupos diferenciados buscam uma relação mais ínti- ma com a mesma. Nesse sentido, o homem urbano desloca-se em busca daquilo que, talvez, seja a necessidade de um reencontro consigo próprio, bem como a necessidade de revisar valores ou de construir uma identidade, dentre tantas outras possibilidades. O importante é não negligenciarmos esse movimento que traduz os anseios, bem como as frustrações do homem ocidental contempo- râneo, o qual, por meio dessas práticas, relaciona-se com experi- ências as quais nunca antes tinha imaginado concretizar, como viajar para descer a corredeira de um rio num bote inflável, descer uma cachoeira dependurado em cordas, explorar cavernas ou en- frentar obstáculos e dificuldades em trilhas no meio de florestas e matas. Essas atividades estão envolvidas por emoções e sentimen- tos que extrapolam suas formas e seus conteúdos, pois se relacio- nam a rituais, mitos, temores, bem como a imagens de aventura, de risco, de ousadia, de distinção, estilo de vida e outros. Assim, reunimos esse grupo de autores, os quais têm se dedicado a tal tema.Dentre eles, tivemos a satisfação de contar com a colaboração do Prof. Dr. JavierOliveira Betrán, do INEF (Instituto Nacional de Educação Física de Catalunha), daUniversidade de Barcelona, Espanha, quem, prontamente, respondeu ao nossoconvite, possibilitando a extensão do diálogo, aqui pretendido, com aspectos deuma outra cultura, enriquecendo sobremaneira o nosso objetivo. Sem a pretensão de nos alongarmos demasiadamente nesta apresentação,pois não desejamos criar muitas ansiedades no leitor em relação ao conteúdodos textos desenvolvidos, buscamos um breve resumo dos mesmos, emboracientes dos riscos envolvidos em não conseguir captar a essência pretendida32 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • pelos autores. Porém, a intenção foi mais no sentido de despertar a curiosidadedos leitores, instigando-os ao prazer da leitura aqui proposta. Alcyane Marinho levanta algumas discussões sobre a estreita ligação entre oturismo, o lazer e a natureza, procurando apontar o corpo como foco de resistên-cia, diante de suas inúmeras faces e interfaces, frente às complexidades vividas emnossa contemporaneidade. A partir da compreensão da necessidade do estabele-cimento de noções éticas, permeadas por conceitos de respeitabilidade e compro-misso para com a natureza, o artigo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada:corpos aventureiros como possibilidades de resistência” pretende dar pistas capa-zes de conduzir a um melhor entendimento das inovadas atividades esportivasmanifestadas junto ao meio ambiente, a partir da perspectiva do lazer, refletindosobre as dinâmicas da sociedade, bem como sobre valores mais gerais. No texto “A leviana territorialidade dos esportes de aventura: um desafio àgestão do ecoturismo”, Gilmar Mascarenhas de Jesus procura identificar os agen-tes do ecoturismo, bem como sua fugaz inscrição espacial, associado às ativida-des de aventura, debatendo as relações (por vezes, contraditórias) entre o con-teúdo discursivo que fundamenta tal atividade e algumas de suas manifestaçõesconcretas no Brasil. O autor alerta para o desafio que tais práticas representamàs políticas de gestão do meio ambiente, destacando a necessidade de elabora-ção de uma metodologia de mapeamento e avaliação dos impactossocioambientais produzidos por tais atividades, caso a caso, exigindo, por suavez, um amplo esforço multidisciplinar. Além disso, segundo o autor, faz-se,igualmente necessária a definição de estratégias de participação responsável nademarcação de novas localidades, envolvendo praticantes, agências, técnicos eo poder público. “Lazer e natureza no turismo rural” apresenta uma discussão sobre as possibi-lidades de experimentação do turismo no espaço rural em áreas naturais, privile-giando, particularmente, duas atividades: a pesca esportiva e o mountain bike,práticas, segundo o autor Giuliano Gomes de Assis Pimentel, que se traduzem deforma mais complementar que antagônica, refletindo diferentes usos do rural.Objetivando reforçar os debates e as reflexões sobre as atividades, tradicionaisou de aventura, desenvolvidas pelo turismo no espaço rural, o autor instiga-nosa, primeiramente, compreendermos tais práticas para, posteriormente, almejar-mos transformá-las. Em seu artigo “No ritmo da aventura: explorando sensações e emoções”,Heloisa Turini Bruhns inicia com a questão da emoção relacionada aos esportesna natureza, envolvida em rituais e ficções, destacando diversos fatores. A auto-ra reflete sobre esses “novos esportes”, os quais, mais que a busca por umaperformance, envolvem uma busca por emoções e sensações. Neles manifes-tam-se novas sensibilidades presentes no corpo e a presença do feminismoenquanto valor, envolvendo a figura do novo herói e da flexibilidade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Javier Oliveira Betrán aborda questões sobre a emergência de um recenteconceito de ócio ativo, o qual, particularmente, na Espanha, tem promovidoofertas turísticas, fundamentadas, principalmente, na comercialização da diver-são e da experimentação junto à natureza. Ao longo das discussões no texto“Rumo a um novo conceito de ócio ativo e turismo na Espanha: as atividadesfísicas de aventura na natureza”, o autor propõe uma classificação para taispráticas, uma vez que as mesmas se identificam com valores, atitudes e menta-lidades do mundo contemporâneo; contribuindo, por conseqüência, no processode compreensão desse movimento turístico e esportivo. Em “Monitoramento participativo do turismo desejável: uma propostametodológica preliminar” Lilia dos Santos Seabra apresenta uma propostametodológica de monitoramento de impacto de visitação e de capacidade decarga turística, visando a uma sustentabilidade no que tange as dimensõesambiental, socioeconômica e cultural. Para tal discussão, a autora se propõe ainvestigar o Distrito de Sana, no município de Macaé, Estado do Rio de Janeiro. Apartir de uma perspectiva voltada ao planejamento turístico, a autora destaca ascomunidades receptoras enquanto importantes protagonistas do turismo sus-tentável, capazes de identificar o turismo desejável para suas localidades ecapazes de trabalhar em prol de sua concretização. Sandoval Villaverde, desenvolvendo reflexões sobre lazer, turismo e experi-ências vivenciadas em ambientes naturais, apresenta uma aproximação ao deba-te sobre ética, subjetividade e formas contemporâneas de sociabilidade, emparticular as relações de amizade. Partindo da perspectiva de que o lazer, univer-so no qual se insere a atividade turística, é um campo fértil de práticas sociaisque mobilizam processos renovados de constituição de subjetividades, o autordiscute algumas vivências corporais praticadas na natureza, apontando aspec-tos de sua expansão, bem como a incorporação pelo mercado turístico e espor-tivo. Esta problematização, colocada pelo autor no texto “Refletindo sobrelazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade”, sugere a criação e a re-criação de formas alternativas de relacionamentos. Convidamos, então, nossos leitores a compartilhar conosco da “aventura” proposta neste livro, ou seja, o desafio e o risco con- tidos na tentativa de abordar a atual busca pela natureza como palco de novas experiências, um tema ainda tão pouco explora- do, porém instigante e atrativo.34 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: revistaFormato da contribuição: artigo (texto completo)Fonte: MARINHO, Alcyane; DE GÁSPARI, Jossett C. Turismo de aventura e educação:desafios e conquistas de espaços. Turismo: visão e ação. Santa Catarina:Universidade do Vale do Itajaí, v. 5, n. 1, 2003.E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de EducaçãoFísica da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado (em andamento)pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área deEstudos do Lazer.Turismo de aventura e educação:desafios e conquista de espaçosAlcyane MarinhoJossett Campagna De Gáspari Sabidamente o desafio que se impõe à educação brasileira, neste século,passa pela gestão da qualidade, a partir de ações compromissadas, competen-tes e criativas, das quais podem emanar mudanças significativas quanto aoprocesso formativo dos futuros profissionais do lazer, do turismo, do ecoturismoe outros. Passar do desafio à ação efetiva implica em mobilizar competências na pers-pectiva de articular todos os recursos disponíveis e, também, de organizar asinterações e as práticas de forma que cada aprendiz seja capaz de vivenciar,freqüentemente, situações fecundas de aprendizagem (PERRENOUD, 1996). Implica, ainda, em construir estratégias pedagógicas que funcionem, simulta-neamente, como possibilidades de viver a teoria na prática e de estimulação daspercepções/sensações dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendiza-gem, oportunizadas pelos cursos de formação de futuros profissionais. O termosujeito, evidenciado neste artigo, tem, no bojo, a concepção de aprendizagemde natureza construtivista, na qual é ativamente envolvido no processo que deveser significativo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Assim, para que o aprendiz progrida, ou seja, dê saltos qualitativos, faz-senecessária a ruptura com pedagogias frontais (PERRENOUD, 2000) e a organiza-ção das experiências, capazes de criar uma situação ótima de aprendizagem,dotada de significância e, ainda, capazes de mobilizar o sujeito em sua zona dedesenvolvimento proximal - conceito desenvolvido por Vygotsky (1991), noâmbito de uma teoria mais geral, a qual salienta a interação e a relação sociaiscomo origem da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Tanto a relação como a interação, presentes em vivências coletivas, podemfacilitar a zona de desenvolvimento proximal, podendo ser compreendida comoa distância entre o nível de resolução de uma situação-problema de forma inde-pendente e o nível que o sujeito num processo de aprendizagem pode atingir,com a ajuda de um orientador ou mediador. A idéia construtivista pressupõe umprofissional com a habilidade de utilizar como ponto de partida as experiênciasanteriores presentes nos esquemas de conhecimento já assimilados no aprendize, ao mesmo tempo, provocar desafios que o façam questionar seus significadose sentidos, instalados em seu repertório de respostas e comportamentos. Essanoção instrumentaliza educadores na compreensão dos processos internos dodesenvolvimento do ser humano. Nessa perspectiva, tendo como eixo norteador um relato de experiência do-cente, no âmbito do ensino superior, temos como proposta socializar os resul-tados de uma atividade lúdica de aprendizagem, planejada com esses pressupos-tos, na disciplina “Técnicas de Animação Cultural e Turística”, do Curso de Turis-mo do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo, da PUC-Campinas (SP). A proposta de aula informal, concebida a partir dos conteúdos curriculares esua tradução em objetivos de aprendizagem visou, também, a romper com amonotonia pedagógica dos espaços fechados e formais da instituição, simboli-zados pelos blocos didáticos “concretos”. Os sujeitos envolvidos foram os alu-nos regularmente matriculados no 3o ano, sob a coordenação da professoraregente da referida disciplina do citado curso. O espaço informal contemplado foi o de Brotas, região do interior do Estadode São Paulo, porque, além da proximidade, reunia as condições ideais para aprática do turismo de aventura, um dos conteúdos focalizados na propostacurricular da disciplina em questão. Naquela ocasião, essa vivência, planejada eorganizada para ir além da mera reposição de aulas que se fazia premente,pretendeu propiciar a todos os envolvidos momentos privilegiados de experiên-cia com as atividades de aventura, as quais muitos só haviam tido prévio acessopor meio da literatura existente. O deslocamento até a Cachoeira do Astor, na região de Brotas (SP) foi efetiva-do, principalmente, por um ônibus fretado, além de alguns carros. Foram adotadasalgumas medidas básicas de segurança, tais como a contratação de quatro36 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • monitores especializados nesse tipo de vivência junto aos ambientes naturais; aassinatura de termo de ciência quanto à natureza da atividade proposta e aosriscos inerentes a essa prática; seguro de vida extensivo a todos os participantesdas atividades previstas. Ao oportunizar esse acesso às vivências junto à natureza, por muitos denomi-nadas de turismo de aventura 2, abriram-se as perspectivas de esses profissio-nais, em processo de formação, incorporarem às suas experiências emoçõesdecorrentes das práticas do cascading 3, de trilhas, caminhadas e piqueniquestendo como elementos aliados as matas e o leito dos rios. Conforme Perrenoud (2000), profissionais competentes, com pedagogias dife-renciadas, podem criar situações ótimas de aprendizagem, nas quais o sujeitoativo mobiliza suas inúmeras habilidades para lidar com o novo, o inusitado, odesconhecido, tão peculiares nas atividades de aventura. Além disso, os graduandos parecem ter tido a oportunidade de redimensionarsuas atitudes e valores de respeito, integração e educação para com o meioambiente e, analogicamente, o próprio conceito de natureza. Este trabalho pretende, portanto, apresentar parte dos dados coletados e arespectiva discussão dos seus resultados, na perspectiva de um lazer crítico,prazeroso e criativamente vivido.METODOLOGIA Com a finalidade de avaliar os objetivos propostos e efetivamente alcança-dos nessa atividade extra-classe; os comportamentos de entrada e de saídados educandos no processo ensino-aprendizagem e o perfil de um grupo espe-cífico, visando futuras experiências no gênero, foi utilizado um questionárioaberto, contendo oito questões, aplicado aos 58 alunos regularmente matricu-lados no Curso de Turismo, do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo daPUC-Campinas (SP). O questionário, instrumento de pesquisa, construído conforme normas e téc-nicas de planejamento das pesquisas de campo, apresenta inúmeras vantagensapontadas por Marconi & Lakatos (1982). Dentre elas, destacam-se: a possibili-dade de encontrar maior liberdade nas respostas e uniformização na avaliação,em razão do anonimato ou da impessoalidade do instrumento, entre outras. Os dados obtidos foram analisados, descritivamente, visando identificaraspectos relevantes, capazes de incrementar as discussões sobre a temáticaem questão. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • RESULTADOS E DISCUSSÃO Questionados sobre suas experiências anteriores com atividades de aventuraem ambientes naturais, 43 dos 58 envolvidos responderam não ser inédita aquelasituação, pois já haviam tido a oportunidade de experiênciá-las em outros mo-mentos, tais como: caminhadas, rafting 4, bóia-cross 5, mergulho livre, rappel,mountain bike, motocross, escalada, trilha a cavalo, espeleologia, canoagem,dentre outras. Estes dados se revelam bastante positivos, denotando a diversida-de de interesses presente nos elementos do grupo, constituindo seu perfil, igual-mente, diversificado. Das experiências anteriores apontadas, a prática de caminhadas e trilhas foipredominante, sendo possível inferir sobre os motivos dessa preferência, comopor exemplo: a facilidade de deslocamento, gestos motores menos sofistica-dos e um investimento menor em equipamentos esportivos. Com relação àcaminhada, é pertinente apontar que, nos centros urbanos, onde o “verde” émenos presente, essa manifestação corporal conta com expressiva adesão dediferentes faixas etárias e categorias sociais fazendo dela um momento quali-tativo de lazer5. Particularmente quanto à prática da caminhada em parques urbanos, Bruhns(1997) salienta que talvez os parques possam ser pensados como amostras danatureza, uma vez que agregam árvores, bosques e animais em seus espaços.Esta idéia ratifica a importância que tem a escolha do local para a prática,evidenciando o fato de que as pessoas parecem preferir os ambientes naturais. No que concerne à preferência por companhia durante as atividades de aven-tura, os alunos elegeram os amigos e a família, respectivamente, em primeiro esegundo lugares. Faz-se pertinente destacar que a opção pelos amigos é justi-ficável, tendo em vista que no curso de Turismo algumas disciplinas solicitam,como parte do conteúdo acadêmico, a organização e participação em algu-mas viagens e, por conseguinte, os amigos da faculdade acabam sendo, nelas,seus parceiros. Este fato, por sua vez, parece comprovar a possibilidade dearticular momentos de obrigações e estudos, vividos na faculdade, aos mo-mentos de lazer. Também é importante ressaltar que apenas uma pessoa expressou sua opçãopor vivenciar só essas atividades, remetendo-nos a duas principais reflexões. Aprimeira, diz respeito à necessidade da coletividade nas referidas atividades,advinda da importância de um parceiro, seja para checar o equipamento, fazersegurança, dar conselhos e servir de companhia, haja vista que essas atividadesdemandam certos riscos, sendo, portanto, aconselhável que nunca sejam prati-cadas isoladamente. A segunda salienta a dificuldade do ser humano em ficar só,pois tem subjacente a confrontação consigo mesmo. Se, de uma forma, o ficarsó pode significar um momento bastante particular e propício às introspecções,38 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • por outra, pode detonar o medo da solidão. Nesse sentido, nas vivências indivi-duais ou coletivas, as inteligências interpessoal e intrapessoal têm oportunida-des de serem estimuladas, melhorando a qualidade de vida de seus praticantes(GARDNER,1995). Falar de grupo nos remete às diferentes necessidades, expectativas, interes-ses e motivos de seus membros. Em grupo, o prazer, a espontaneidade, aliberdade, a individualidade, os interesses pessoais não podem serdesconsiderados, já que também funcionam como fatores de identidade deseus elementos. Além disso, em grupo, alguns indivíduos assumem condutas,positivas ou negativas, as quais, isoladamente, talvez não assumissem. O pra-zer compartilhado, proveniente das atividades de aventura, provavelmenteadquire magnitude, funciona como elemento de coesão do grupo e de satisfa-ção das necessidades individuais no coletivo. Todos os sujeitos envolvidos alegaram ter se identificado com as vivênciaspropostas, demonstrando, assim, uma predisposição natural quanto às ativida-des de aventura, manifestadas por fatores que vão desde a escolha do local(natural, atrativo), até a flexibilidade prevista na gama de atividades sugeridas. Nessa perspectiva, o rappel, em uma torre de cinco metros, aproximadamente,antecedeu o cascading propriamente dito, vivido em uma cachoeira de 34 metros.Enquanto alguns participavam dessas atividades, outros faziam trilhas, tocavamviolão ou apenas observavam, demonstrando, com isso, que a participação nãoocorreu apenas na atividade física em si, mas, também, na fruição e na contem-plação. O não fazer nada, contrariando inúmeras correntes vinculadas ao ócio,também demonstrou a possibilidade de estimulação do desenvolvimento huma-no, a partir da comunicação estabelecida entre os sons e ecos provenientes domeio ambiente e da integração homem-natureza. A adrenalina e o medo foram as sensações mais destacadas. A primeira pareceter forte relação com a popularização do termo, desencadeada pela mídia, pois,para alguns dos sujeitos, seu significado parece estar ligado a um certo sensaci-onalismo e, ainda, para outros, ser simplesmente desconhecido. O medo, por sua vez, parece ser o principal componente dosador do estímuloou do desestímulo em relação à prática. A percepção de maior contato e maior integração com a e na natureza tam-bém foi bastante comentada, ratificando a interferência do espaço e do localescolhido para a prática, como facilitadores ou inibidores das diferentes sensibi-lidades e intensidades das percepções humanas. Nesse mesma perspectiva, aliberdade também foi destacada, como tendo relação estreita com a experiênciainédita para uma significativa parte dos alunos. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • A partir desses dados, é possível concordar com Marinho (2001a) ao afirmarque, no turismo de aventura, as atividades as quais requerem os elementos natu-rais para o seu desenvolvimento, de formas distintas e específicas, parecemrealmente estar despertando maiores sensibilidades, em diferentes níveis. Asintensas manifestações corporais, nessas práticas, permitem que as experiênciasna relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconhecimento do meioambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, um reconhecimentodos seres humanos como parte desse meio. Quanto à sensação de vitória apontada, cabe esclarecer que muitos são osadeptos de tais atividades e que não fazem dessa sensação um fim em si mesmo.Ser vitorioso, para eles, parece ser uma decorrência natural da superação doslimites que a própria atividade lhes impõe e com as quais, deliberada-mente,”brincam”, pois o risco é controlado. Esse mesmo risco, evidenciadopelos alunos, parece afetar diferentemente as pessoas, inibindo-as ou estimu-lando-as à prática. Outras sensações, como satisfação, alívio, relaxamento e bem-estar, dentreoutras, foram pouco registradas, possibilitando inferir que esses tipos de sensa-ções parecem ser mais rotineiras e monótonas, diferentemente do que propiciamessas atividades, nas quais se busca uma exposição a situações-problema inusi-tadas e a superação de limites ou barreiras físicas e pessoais. Ainda em relação às sensações e percepções, vale enfatizar que, para aquelesque vivenciavam a prática pela primeira vez, essa experiência pedagógica pare-ce tê-los aproximado de emoções e sentimentos até então desconhecidos poreles mesmos, reiterando a necessidade e a importância dessas iniciativas juntoaos cursos de formação na área do Turismo e cursos afins.CONSIDERAÇÕES FINAIS A transformação qualitativa pretendida para a educação do século XXI, visan-do a contemplar a universalização da cidadania, perpassa por profundas mudan-ças axiológicas referentes à formação dos profissionais, as quais terão papeldecisivo na manutenção ou alteração do contexto sociocultural, refletindo emsuas práticas. Considerando as demandas da sociedade atual, novos olhares têm se voltadoao ofício de ensinar, às condições e motivos pelos quais se ensina, para quê seensina e ao perfil do profissional que se pretende formar. Esses novos olharessão capazes de mudar, inclusive, o foco do que se entende por ensinar, aprendere ter como profissão.40 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Nesse contexto, parece inevitável considerar que o salto qualitativo começa etermina no seu agente, o educador, a partir de posturas éticas que assume para si,enquanto profissional formador de formadores. A ética, conjunto de princípios que regem e sustentam o exercício de umaprofissão, legitimada e regulamentada pela sociedade, é a possibilidade concre-ta da humanização do homem e da sociedade para a vida e, inclusive, para asrelações com o meio ambiente. Os cursos de formação, segundo esse pressuposto, não podem mais estaratrelados à concepção de uma educação que se viabiliza apenas nos espaçosformais da instituição, requisitando uma ampliação dos horizontes da açãoeducativa para além de seus muros e para além dos aspectos predominantemen-te cognitivos. Faz-se, premente, então, ousar e extrapolar na organização deestratégias pedagógicas que se utilizem dos espaços informais, de modo com-plementar, com objetivo de focar o sujeito aprendiz por inteiro, ou seja, nãoapenas no cognitivo mas também nos seus elementos afetivos e emocionais. Assim, um profissional competente deve estar sintonizado com outros indica-dores de aprendizagem, de natureza emocional, igualmente importantes no pro-cesso de aprender a aprender. As atividades de aventura junto à natureza, como a experiência relatada, mos-tram-se bastante eficazes para exemplificar as idéias anteriormente expostas,das quais se extraem sinais de dupla ruptura com os modelos e práticas pedagó-gicas presentes na realidade educacional. A primeira se refere à quebra dasbarreiras físicas da instituição, conjugando os espaços formais aos informais e,a segunda concerne à tentativa de demonstrar que o modelo de profissionalpode reforçar o modelo do aprendiz e do futuro profissional. Por sua vez, o turismo de aventura ao conquistar mais espaços, a cada dia,como campo de trabalho, exige um novo perfil de profissional que, vencendo osdesafios das diversas demandas sociais, reitere a validade dessa proposta comouma estratégia criativa e lúdica, facilitadora do reencontro e da simbiose dosseres humanos com a natureza. Dessa forma, apontamos para a necessidade daexistência de uma pedagogia capaz de incorporar aspectos lúdicos,potencializados por meio de uma educação para o lazer e a recreação. A partir dessa pedagogia, a percepção do ambiente natural pode vir a seraltamente estimulada. A mensagem não se limitaria apenas aos interesses inte-lectuais e todos os sentidos contribuiriam para a aquisição de conhecimentos.Para além da mudança de locus de ensino, pretende-se, em um sentido maisamplo, estimular diferentes percepções com relação às condições de vida naTerra (SERRANO, 2000). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Cabe destacar que, nessa proposta (como em outras do gênero), o ambientenatural, ao se tornar favorável à prática de certas atividades, implica na neces-sidade de uma conservação ambiental, bem como de um processo educativo, noqual se exercite o conhecimento como instrumento de compreensão das rela-ções estabelecidas. Nessa perspectiva, compartilhamos com Marinho & Schwartz (2001) a neces-sidade de serem promovidas novas alternativas para o lazer de indivíduos inte-ressados no turismo de aventura. Tais alternativas, por sua vez, devem gerar,fomentar e gerenciar a qualidade da acessibilidade a esse tipo de turismo, impli-cando decisivamente para o sucesso da multiplicação das idéias conservacionistase sensibilizadoras do aprimoramento da qualidade de vida. Por fim, ratificamos que a busca pelos elementos naturais, durante o lazer e/ou atividades escolares, seja com o objetivo de contemplar, de aventurar-sepelas matas ou simplesmente de não fazer nada, implica no conhecimento deuma ética ambiental, permeada por comportamentos de compreensão e respeitopara com o meio natural (MARINHO, 2001b). Portanto, a partir da viagem apresentada, eixo norteador para a discussão,alertamos para a necessidade de as atividades de aventura, propostas comoconteúdo disciplinar, terem laços estreitos com a Educação; pois, somente as-sim ambas venceriam alguns desafios e viriam a conquistar, juntas, novos espa-ços ainda carentes de reflexões e aprofundamentos.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]Notas1. Este estudo foi apresentado, sob forma de comunicação oral, no VI CEPFE - “Congresso Estadual Paulistasobre formação de educadores” em Águas de Lindóia (MG), 2001; sofreu algumas alterações, para se adaptara formatação exigida pela Revista.2. De acordo com Serrano (2000), o turismo de aventura se enquadra na polissemia do termo e da multiplicidade das atividades de ecoturismo (considerado como uma “idéia guarda-chuva” porque engloba inúmeras ativi- dades como o trekking, as escaladas, rappel, espeleologia, mergulho, cavalgadas, vôo livre, estudos do meio, safári fotográfico, observação da fauna e da flora, pesca, turismo esotérico e turismo rural, entre os mais comuns).3. Descida em cachoeira por meio da técnica do rappel (descida por cordas).4. Descida por corredeiras de rios em botes infláveis.5. Descida por corredeiras de rios em bóias.6. Pesquisa SESC Gallup (1993).42 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: monografia (T.C.C.)Formato da contribuição: texto resumidoFonte: “O Movimento na Natureza: o papel da Educação Física na EducaçãoAmbiental. São Carlos, DEFMH, UFSCar, 2003.”E-mail do(s) autor(es): cae_jah@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Licenciado em Educação Física pela UFSCar,Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação daUFSCar.O Movimento na Natureza Interfacesentre Educação Física e educaçãoAmbiental no Ensino InfantilCae RodriguesMey van Munster No contexto contemporâneo do cotidiano urbano observa-se uma sériede eventos espaciais e temporais que dificultam cada vez mais a integraçãoda população em geral com a natureza1. O pouco tempo disponível para olazer, o distanciamento dos grandes centros urbanos das áreas de convíviocom a natureza (o que ocasiona dificuldades temporais e financeiras parauma possível interação) e a construção de uma cultura voltada para o lazerurbano são fatores relevantes que interferem no processo que busca aidentidade do ser humano com a natureza, em relações que possam sercriadas ou mantidas nesse ambiente. Essa falta de contato com a naturezapode gerar também uma falta de identificação da população residente nascidades com o meio natural. [...] é porque perdemos nossa identificação com o mundo natural que somos capazes de abusar dele. Através do restabelecimento do contato com o mundo natural, por meio de uma educação que conscientemente promova essa reconciliação transformadora, podemos reverter a rota de destruição em que nos encontramos atualmente e recuperar da Terra os princípios de orientação para a sustentabilidade ecológica. (BARROS, 2000:92) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ensina-se que a natureza deve ser respeitada e preservada, mas esse ensinamentofica muito vulnerável frente aos costumes vivenciados no dia-a-dia das grandescidades. O indivíduo vive uma cultura consumidora, sedentária, adaptada ao luxo,produtora de lixo e de poluição, totalmente contraditória aos ensinamentos depreservação encontrados, por exemplo, nas apostilas escolares, fortalecendo umaeducação passiva que ensina a respeitar algo que a grande maioria da populaçãodesconhece, por nunca ter tido a oportunidade de vivenciar. “As experiências diretassão necessárias para desenvolver sentimentos de amor e preocupação pela terra;caso contrário, as pessoas passarão a conhecê-la de modo superficial e teórico, semnunca serem tocadas profundamente”, destaca o naturalista Cornell (1995:38). A proposta da Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilizaçãointegradas à natureza conduz a criança a aprender sobre si mesma e sobre omeio que a cerca, conseqüentemente favorecendo também o meio, à medida quese constrói a consciência da preservação ambiental. Cornell (1995:13) escrevesobre o surgimento dessa consciência de preservação dizendo que: Se quisermos cultivar uma atitude de reverência para com a vida, em primeiro lugar precisamos desenvolver a percepção, que, por sua vez, pode se transformar em amor e empatia. À medida que começamos a sentir uma comunhão com os seres vivos que nos rodeiam, nossas atitudes tornam-se mais harmoniosas e fluem com naturalidade, e, por conseguinte, passamos a nos preocupar com as necessidades e o bem estar de todas as criaturas. O presente trabalho objetiva verificar a criação de afinidades da populaçãourbana com o meio natural, pelo contato direcionado à natureza e através deatividades de sensibilização integradas ao meio, para uma conseqüente educaçãode preservação. Bruhns (citada por Munster e Almeida, 2001:21), destaca a impor-tância da “experiência sensível” conseqüente da aproximação do homem com anatureza, o que promove uma certa consciência de que pertencemos a um mesmocosmo, causando uma relação de respeito, e não de dominação, pelo meio. Para a realização desse trabalho elaborou-se uma proposta de atividades desensibilização visando a conscientização ambiental com adequação às necessi-dades de crianças (4 a 6 anos) para um conseqüente estudo das possíveis rela-ções entre Educação Física e Educação Ambiental no ensino infantil. A metodologiaempregada foi baseada na combinação entre pesquisa bibliográfica e de campo,tendo como instrumento de coleta de dados a observação sistemática direta daspráticas e de registros fotográficos e de filmagem dessas atividades. A pesquisa bibliográfica foi baseada no levantamento de referências acerca dealguns termos como “Educação Física”, “Ensino Infantil”, “Movimento” e “Edu-cação Ambiental”. A pesquisa de campo foi realizada a partir da elaboração deuma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza e a aplica-44 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • ção da proposta a um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do ColégioMundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP. A proposta foi finalizada com arealização de uma excursão (estudo do meio) acompanhada pelo pesquisadordesse estudo, pelo professor de Educação Física da escola e por um monitorvoluntário de Educação Ambiental. A avaliação da proposta foi realizada a partirda análise dos dados coletados por meio da observação sistemática direta e umadiscussão aberta (reflexão da prática) com os alunos participantes.O CONTATO COM A NATUREZA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Paralelamente ao desenvolvimento das vias de transporte e de comunicaçãocresce o interesse do homem em conhecer novas e inexploradas localidades.Explode mundialmente a febre do Turismo. Essa explosão teve uma significativa implicância no movimento ambientalista ena Educação Ambiental (EA), uma vez que o acesso ao meio natural se torna maisdisponível. As práticas de contato com a natureza se tornaram bem mais popularese ainda hoje apresentam um grande crescimento, sejam simples visitas de contem-plação, atividades que envolvam transporte de equipamento para pernoite(excursionismo) ou de caráter esportivista. Isso se torna importante para a EA, umavez que os indivíduos envolvidos nessas práticas progressivamente incorporamuma ética voltada à conservação dos ambientes que gostam de freqüentar (Barrose Dines, 2000:54). Os autores vão além, e destacam que quanto mais as pessoasfreqüentam essas áreas naturais, maior seu grau de conscientização ambiental.Isso ocorre pela crescente segurança, conseqüente do crescente bem estar, que oindivíduo sente conforme vivencia o meio natural, crescendo também o interesseem se informar sobre os ambientes que visita (id. ibid:56). Mas a simples inclusão do homem no ambiente natural não é o suficiente parajustificar uma mudança de comportamento perante as questões ambientais, umavez que este indivíduo ainda carrega os valores construídos numa sociedadeconsumista e desenvolvimentista, praticamente desarticulada da conservação edo manejo adequado das atividades no ambiente onde as pessoas vivem. Serrano(2000:17) adverte que quando visitamos a natureza não devemos esquecer denosso cotidiano, mas sim refletir sobre ele e sobre a relação homem-natureza,marcada pelas transformações conseqüentes da tradição judaico-cristã, agra-vada pela modernidade e o capitalismo, a ponto de não reconhecermos nossopertencimento ao mundo natural. Nas viagens ao meio natural observa-se um consenso em torno do caráter depreservação e da busca de uma consciência ambientalista. Serrano (2000:8)destaca, por uma perspectiva conceitual, o caráter intrinsecamente educativo eo compromisso com a modificação de comportamentos e com a construção deuma consciência ambientalista nas atividades em contato com a natureza. Essa Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • marcante característica, juntamente com a grande popularidade dessas práticas,as tornam fortes aliadas do movimento ambientalista. Barros (2000:91) argu-menta que as atividades na natureza se tornaram tão populares que hoje sãoconsideradas, por muitos conservacionistas, como uma solução para os proble-mas ambientais e uma boa oportunidade para o desenvolvimento de EA, princi-palmente por razões econômicas. Mas assim como o movimento ambientalista necessita de um instrumento parapassar seus valores à população (a EA), o mesmo pode ser dito das atividades emcontato com a natureza, uma vez que a simples inclusão do homem ao meionatural não é, na maioria das vezes, suficiente para a solidificação de umaconsciência ambientalista. O homem “urbano” há muito tempo perdeu o contatoíntimo com seus sentidos, e até mesmo com o ato de “sentir”. A rapidez com quetudo acontece em nosso cotidiano muitas vezes impedem reflexões sobre osacontecimentos vivenciados, restringindo não só a capacidade de sentir, comoa de avaliar. Segundo Bruhns (2000:31), falta “às pessoas, nas sociedades urba-nas atuais, o envolvimento suave, inconsciente com o mundo físico, num ritmomais lento, do qual as crianças desfrutam.” Vivemos cada vez mais protegidos do mundo natural. O homem só se molhaquando toma banho; o único cheiro agradável ainda presente em nosso cotidia-no é aquele do cafezinho ou da comida, que na maioria das vezes já chega prontaa nossa mesa; o toque (seja ele pessoal, como o abraço e o beijo, ou com omundo natural, como o simples andar descalço) é cada vez menos encorajadodesde a infância; o dom da audição foi praticamente abandonado, pois estamos,na maior parte do tempo, rodeados de poluição sonora; o que nos resta é orecurso da visão, que tem que estar sempre atenta aos velozes veículos e àspessoas apressadas nas ruas e calçadas. Limitar nosso sentir apenas a esserecurso, o visual, limita também nossa capacidade de ser, de pensar, de viver.Platão (1972:55) já sabia disso quatrocentos anos antes de Cristo, quando diziaque “a visão do pensamento começa a enxergar com agudeza quando a dosolhos tende a perder sua força.” Cornell (1996) afirma que quando o homem se protege das intempéries danatureza ele perde a vitalidade e a sensação de bem estar que provém do fato deestar em harmonia com o meio natural. Cornell (citado por Mendonça, 2000:136)também ressalta que visitamos a natureza impregnados de nossos valoresdominadores e comsumidores, provindos de nossa cultura urbana, o que dificultaa potencialização dos nossos sentidos e sentimentos. Dessa forma, o primeiropasso a ser dado é colocar esse indivíduo em contato com o meio natural. O homem constitui uma importante função dentro do mundo natural, porém,como destaca DeMoor (citado por Barros, 2000:92), abusamos do mundo naturalpor que perdemos nossa identificação com ele. Se conseguirmos restabeleceruma aproximação com a natureza, juntamente com uma orientação pedagógica46 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • que promova uma reconciliação transformadora, poderemos reverter esse pro-cesso de destruição no qual se encontra o planeta atualmente. A partir da aproximação do homem do meio natural, surge a necessidade deeducá-lo a se portar em tal ambiente, ou seja, as condutas devem tornar-sevalorizadas pela ética ambiental. Surge, mais do que isso, uma excelente oportu-nidade para uma proposta diferenciada de educação: a EA em contato diretocom a natureza. Ferreira e Coutinho (2000:187) destacam a importância da valo-rização da EA nas práticas em contato com a natureza, uma vez que o visitantebem orientado para compreender o ambiente a ser visitado provavelmente res-peitará a cultura, a organização social local e a capacidade de suporte desseslocais. É nesse sentido que se pode afirmar que, na maioria das vezes, é necessá-rio mais do que o simples contato com a natureza para solidificar uma concretaproposta de Educação Ambiental nessas visitas ao meio natural. Segundo MarcelProust (citado por Oliveira, 2000:111), “a verdadeira viagem de descoberta nãoconsiste em sair à procura de novas paisagens, mas de possuir novos olhos”.EDUCAÇÃO FÍSICA NA INFÂNCIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL Na análise dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), encontra-se a Educa-ção Ambiental dentro da proposta dos Temas Transversais. Esses temas sãoconsiderados muito complexos para serem abordados isoladamente por umaárea, e assim atravessam os diferentes campos de conhecimento. Os conteúdospropostos para o desenvolvimento da EA na escola são divididos em três blocosgerais: “ciclos da natureza” (compreensão dos processos da natureza), “socie-dade e meio ambiente” (relação do homem com o seu ambiente) e “manejo econservação ambiental” (conhecer e compreender a importância da preserva-ção e conservação ambiental). A responsabilidade de desenvolvimento dessesconteúdos segue o caráter multidisciplinar tão presente na Educação Ambiental.A questão é, qual o papel da Educação Física nesse processo de sensibilizaçãoambiental na infância? A Educação Física, independente da questão curricular, está sempre presentenas aulas do ensino infantil, pela natural necessidade das crianças de se movi-mentarem. Segundo Risco (1968:8) a criança pensa, sente e age por meio domovimento. Familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, explorar as possi-bilidades de gestos e ritmos corporais por meio de brincadeiras e demais situa-ções de interação, desenvolver atitudes de confiança nas próprias capacidadesmotoras por meio do deslocamento no espaço – esses são alguns dos objetivosda Educação Física para crianças de zero a três anos. A partir dos quatro (até osseis) anos, esses objetivos devem ser aprofundados e ampliados, para que acriança seja capaz de ampliar as expressões do próprio movimento, conhecen-do, assim, suas potencialidades e limitações até que consiga controlar e utilizaresses movimentos para realizar tarefas desejadas. Apropriando-se gradativamente Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • da imagem global de seu corpo, a criança buscará sua autonomia e construiráuma consciência de cuidado com o próprio corpo. Essas são as recomendações do documento “Presença do movimento na Edu-cação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998). As crianças, já nessaidade, começam a se apropriar do repertório da cultura corporal na qual estãoinseridas quando brincam, jogam, imitam e criam ritmos e movimentos. Portanto,surge a necessidade de colocar essa criança em contato com ambientes ricos edesafiadores, ambientes que ampliem seus conhecimentos acerca de si mesmas,dos outros e do meio em que vivem (id. ibid:16). Desta forma, o contato com anatureza já se torna importante. A criança começa a construir uma imagem do próprio corpo, das pessoas e domeio ao seu redor; começa a buscar uma independência corporal explorandogestos e ritmos corporais; começa a se deslocar e a explorar novos movimentos;ou seja, a criança começa a construir uma “cultura corporal”2, uma identidade quea diferenciará das demais crianças. Esses primeiros “blocos” de construção corpo-ral representam segurança e conforto para a criança, o que torna o contato com anatureza de essencial importância. Se a criança se familiarizar e sentir segurançano meio natural desde cedo, isso facilitará todo o processo de construção de umaafinidade pelo meio e, conseqüentemente, uma consciência voltada aos princípiosda EA. Nesse sentido, Cornell (citado por Mendonça, 2000:138) afirma que a expan-são de uma consciência conservacionista depende da relação afetiva provinda dacultura do homem, que precisa sentir a necessidade da natureza em sua vida. Bruhns (2000:32) destaca que “a criança, por não preocupar-se com códigosde regras definidas sobre beleza, recebe as sensações da natureza diretamente,sem censuras”. Essa característica da criança, juntamente com a curiosidade e apré-disposição para brincar, são importantes aliados da educação, mas na gran-de maioria das vezes são considerados como elementos que dificultam a disci-plina e o controle e, conseqüentemente, o processo educacional. No âmbito daeducação escolar, os professores muitas vezes ignoram a necessidade da crian-ça de se movimentar e julgam a contenção motora como fator essencial para adisciplina, uma vez que a criança estática é muito mais fácil de controlar. Omovimento é encorajado apenas em reservados espaços de tempo, no qual acriança é requisitada a se movimentar para gastar energia, prática eficaz para“manter a ordem” e que também limita as possibilidades de expressão e deconduta própria desta criança. Essa visão transforma o movimento em um empe-cilho à concentração do aluno e à aprendizagem como um todo, visão quecontrapõe o consenso que o movimento é essencial para o desenvolvimento dapercepção e da construção de uma cultura corporal da criança. A educação infantil representa uma transição do ambiente familiar para oambiente escolar (Machado, 1986:13), e deve suprir as necessidades fisiológi-cas, afetivas e relativas à segurança das crianças (id. ibid:17). Isso só será possí-48 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • vel por meio da educação pelo movimento, princípio pedagógico que parte dasnecessidades e interesses da própria criança, estimulando o desenvolvimento dacriatividade e da conquista de sua autonomia (id. ibid:26). A criança nessa idade passa pela “fase lúdica”, na qual o brincar é o que maisinteressa a ela.(Rodrigues, 1987:20). Mas o brincar é mais do que simples diver-timento é um meio de compreensão e relacionamento com o ambiente (Macha-do, 1986:27). Através do brincar a criança desenvolve suas capacidades mentaise, por meio de seus sentidos, chega ao conhecimento do mundo exterior, obtémcontrole dos próprios movimentos (desenvolvendo seu sentido de confiança esegurança) e aprende a expressar e comunicar suas idéias pela fala (id. ibid:29). É nesse sentido que as propostas de métodos pedagógicos em contato com anatureza podem ser eficazes. O meio natural representa um espaço onde a criançapode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelente oportunida-de de educação corporal e de conscientização ecológica por meio da orientação,e não proibição, do movimento. Mas, para instruir, os educadores têm que ser beminstruídos. Muitas vezes o que ocorre nessas viagens ao meio natural reflete aquiloque ocorre no âmbito da educação escolar. O professor restringe os movimentosdas crianças à suas ordens, impondo uma hierarquia que pode comprometer aproposta de um instrumento pedagógico diferenciado. Outro grave problema podeser a conduta desse professor no meio natural. A criança com seus sentidosperceptivos em alerta, dá significado as condutas do professor pela observação,assimilando-as, na maior parte das vezes, como atitudes corretas. Quando o pro-fessor, imbuído de boas intenções, tira uma semente de uma árvore para colocá-la em seu relatório ou tira uma flor de um arbusto para presentear a um outroprofessor ele indica ao aluno que é correto agir dessa maneira. O professor deve ser também instruído a trabalhar com os recursos que anatureza lhe oferece. Além de representar um rico e amplo espaço para se traba-lhar os objetivos da Educação Física, o meio natural ainda apresenta um outroaspecto que pode ser transformado em um importante instrumento nas ativida-des em contato com a natureza, sua imprevisibilidade. O fato da criança estar emum ambiente desconhecido torna todos os elementos que a rodeiam em possí-veis “perigos”, como os animais silvestres, a desordem das árvores, a escuridãoda noite, a chuva, o vento, o calor, ou o simples espaço aberto. Essa sensação demedo e de insegurança inicial, se trabalhadas corretamente, podem gerar umaboa oportunidade de aprendizagem, uma vez que os sentidos estão todos emalerta, tornando a observação e a percepção muito mais ativas. Essa aprendizagem por meio da observação proporciona uma compreensãoinigualável dos processos naturais, uma vez que a criança não só vê os fenôme-nos naturais que estudou em sala de aula, mas sente diversas reações ligadas aoobservado. Ler sobre a metamorfose de uma borboleta é uma coisa, mas assistira essa transformação e sentir a liberdade da borboleta ao abrir suas asas pela Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • primeira vez é algo extraordinário. Nesse exemplo citamos um fenômeno depequena proporção em área, no qual o fato observado é um pequeno casulo, nãodesmerecendo a grandeza do fenômeno, mas ainda existem os espetáculos danatureza em grandes extensões, como a visão do mar ou de um mar de morrosavistado do pico de uma montanha, que inspiram sentimentos únicos, principal-mente para a criança, que vê grandiosidade em tudo. Cabe lembrar que osensinamentos em ambos casos desenvolvem-se no conhecimento de relaçõesque dependem da conservação do meio, e o seu estado deve fornecer elementospara a aprendizagem, essencialmente na relação homem/natureza. Entretanto, como destaca Barros (2000:91), a concretização dessas oportuni-dades tem apresentado um grande desafio para os organizadores de viagens emcontato com a natureza e para os educadores ambientais, uma vez que osorganizadores dessas atividades muitas vezes desperdiçam essa oportunidadepor falta de integração e planejamento, e os educadores ambientais desperdiçama grande oportunidade de ampliar o público alvo e os locais de aplicação dosvalores da EA geradas pelas crescentes atividades em contato com a natureza. As atividades de sensibilização na natureza surgem como uma possível solu-ção para esses problemas, integradas às práticas de estudo do meio. Essas prá-ticas revelam um modo de conhecer o ambiente via informações do corpo,surgindo então a oportunidade de trabalhar os valores da EA a partir dos sentidose sentimentos provocados por essas experiências (Bruhns, 2000:45). A criatividade,a pré-disposição ao brincar e a natural habilidade de percepção das crianças sãocaracterísticas indispensáveis para essa proposta pedagógica. “Enquanto parti-cipamos das brincadeiras, representamos nossos papéis de modo dinâmico, esentimos diretamente os ciclos e processos espontâneos da natureza” (Cornell,1996:5). No entanto, são necessárias metodologias específicas que direcionemessas características para que possam ser usadas como potencializadoras dossentidos de percepção da criança. O naturalista Joseph Cornell apresenta uma série de atividades integradas à natu-reza que aproximam as pessoas ao meio natural. As atividades, de caráter educativo,levam as pessoas a criarem uma afinidade pelo meio natural através do método de“aprendizado sequencial”. Trata-se de um conjunto de princípios que descrevecomo usar as atividades de conscientização integradas à natureza de formagradativa e direcionada. O método é composto por quatro estágios: Despertar oentusiasmo; concentrar a atenção; dirigir a experiência; compartilhar a inspiração. O objetivo do primeiro estágio é estimular a aproximação entre as pessoas,criando um ambiente de vivacidade e entusiasmo, sobre o qual pode-se conduzirum aprendizado mais sutil e significativo. No segundo estágio deve-se aprovei-tar a alegria provinda do primeiro estágio e conduzir jogos que deixem o grupomais atento, ou seja, mais receptivo ao meio. As atividades do terceiro estágiointensificam os sentidos para um contato mais direto com a natureza, possibili-50 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • tando ao indivíduo penetrar completamente no espírito do mundo natural. Oúltimo estágio é inteiramente dedicado à reflexão das experiências vivenciadase ao compartilhamento das experiências individuais com o coletivo do grupo, oque aproxima os integrantes do grupo e reforça a capacidade de admiração daspessoas envolvidas (Cornell, 1995:28). As atividades propostas são muito sim-ples e acessíveis a qualquer população, além de, segundo o autor, serem muitoeficientes no propósito de criar uma afinidade do homem pela natureza. A proposta da criação de um elo entre o homem e a natureza forma a base dametodologia de Cornell. Assim, o homem será cativado pelo meio natural, e,enxergando a necessidade desse meio em sua vida, lutará pelos princípios da EA.Saint-Exupéry (1986:68), em seu conhecido livro “O Pequeno Príncipe”, destacaa importância de “criar laços” contando a história do encontro entre o pequenopríncipe e uma raposa: - Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita. - Sou uma raposa, disse a raposa. - Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste... - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. - Ah! Desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acres- centou: Que quer dizer cativar? ... - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa ‘criar laços...’ - Criar ‘laços’? - Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo”. É em busca desse “laço” que Cornell desenvolve suas atividades, para quea natureza cative e se torne única para o indivíduo, e que esse sinta a neces-sidade dela. Podemos citar como um exemplo das atividades propostas por Cornell o “cami-nhar descalço” (atividade do segundo estágio - concentrar a atenção) (1995:89).Como o indivíduo tem que prestar atenção onde pisa, ele concentra muito mais suaatenção, o que, no caso de crianças, ajuda também a reduzir a agitação. Como ocaminhar é mais calmo e silencioso aumentam as probabilidades de se avistaralgum animal silvestre, o que proporciona ao grupo a experiência maravilhosa deobservar de perto animais silvestres em seu meio natural. Segundo Cornell, “quan- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • do os observamos nessas condições, desenvolvemos sentimentos de afinidadecom o mundo animal” (id. ibid:90). O autor também destaca a possibilidade deensinar diferentes maneiras de caminhar, como, por exemplo, o caminhar indígena.A ansiedade da pessoa em colocar sua nova habilidade em prática torna a idéia detirar os sapatos e caminhar descalça perfeitamente natural. Outras atividades que chamam a atenção são aquelas desenvolvidas com osolhos vendados. Segundo Cornell (citado por Mendonça, 2000:146), essas práti-cas possibilitam que a criança fique mais atenta às informações recebidas dosoutros sentidos, permitindo um sentir do ambiente de uma forma diferente quepermite penetrar completamente no espírito do mundo natural do qual faz parte.Nas palavras de Bach, em seu inspirador livro Fernão Capelo Gaivota, “não creiano que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com oentendimento, descubra o que você já sabe e verá como voar” (1974:146). Algumas estratégias facilitam o processo de adaptação ao meio natural.Cornell (1996:95) destaca a importância do primeiro contato, ressaltando queas primeiras experiências com a natureza devem ser surpreendentes e fasci-nantes, eliminando a sensação de angústia provinda pelo egocentrismo queimpede nossa identificação com o mundo natural. Para tanto, deve-se tomarcuidado com o excesso de informação nesse primeiro momento, assim evitan-do uma possível situação de hierarquia e de distanciamento entre a criança e omediador da prática, o que definirá todo o resto da experiência (Cornell, citadopor Mendonça, 2000:140), mesmo porque “a natureza existe em si, além dasnossas explicações. Ela vai muito além das possibilidades oferecidas por nossalinguagem.” (id. ibid:139) Aliás, deve-se sempre tomar um certo cuidado quanto à apresentação deexplicações e de novas informações, uma vez que a criança pode e deve chegara conclusões próprias pela prática da observação. Na maioria das vezes, a rea-ção da criança frente ao observado é mais importante que explicações científi-cas, que poderão ser incluídas posteriormente a essa observação. Emoção, agitação, medo, susto, perplexidade, maravilhamento, são fenômenos tão importantes quanto o pulsar de sangue nas asas transparentes de uma libélula, o bater das asas de um beija- flor, a dança das sementes aladas ao sabor do vento, a beleza de uma orquídea, a riqueza de uma bromélia, a vida social dos bugi- os, o encanto de um cervo, a tranquilidade de uma preguiça etc. As explicações devem vir após o desfrute total do que está sendo observado. (id. ibid:141). Desta forma, o conhecimento teórico, ainda que absolutamente necessário nãoé suficiente para efetivar transformações no relacionamento da criança com omundo natural. É necessária uma união entre a razão e o sentimento (id. ibid:137).52 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O trabalho de EA com crianças também tem se mostrado como um importan-te instrumento na divulgação do pensamento ecológico na sociedade em ge-ral. Isso ocorre pelo fato da maioria dos pais dessas crianças desconheceremas atuais tendências da EA, mas, uma vez que esses valores são incorporadospelas crianças, estes são passados também para a comunidade adulta. O en-canto do mundo imaginário da criança é contagiante, a ponto de levar adultosa conversarem com árvores e explorarem o leito de um riacho em busca domonstro que deixou suas pegadas pelas margens. Nas palavras de Júlio Maran(citado por Campelo, 1995:47), “ajuda a criança a conhecer e amar a flora, afauna e todas as formas vivas e estarás assim promovendo os valores ecológi-cos”. Dessa forma, é importante incentivar a população adulta a desenvolveratividades junto às crianças, o que poderá gerar uma situação mútua de apren-dizado na qual o adulto ensina e aprende com a criança, além das descobertasque poderão efetuar juntos. A falta de tempo e o distanciamento entre os centros urbanos e as áreasnaturais são apenas dois dos vários motivos que afastam a população urbanada natureza. È importante sabermos que atividades de integração ao meionatural podem ser realizadas também aos arredores da cidade, em parques,jardins zoológicos, bosques, hortos e até mesmo praças. Podemos inclusiveaproveitar os arredores urbanos para conscientizarmos as crianças sobre apoluição (inclusive a sonora) e outros fatores nocivos à natureza. Também éimportante ressaltar para os indivíduos que voltam de um final de semana juntoao meio natural que os valores da EA não devem ser deixados lá, mas simtrazidos e aplicados também na cidade. A descoberta do movimento é uma das mais belas e significativas realizaçõesdo ser humano. A Educação Física tem o importante papel de orientar a criançanessa descoberta, traçando um caminho pelo maravilhoso mundo da curiosida-de. Russel (citado por Sagan, 1974:51) dizia, em 1928, que “deveríamos ter von-tade de descobrir em vez de vontade de acreditar, que é o exato oposto”. É combase nessa afirmação que propomos essa nova união entre a Educação Física ea Educação Ambiental, para que as futuras gerações tenham a vontade deexperienciar a inigualável viagem pelo mundo da descoberta.O ESTUDO DO MEIO E A CRIAÇÃO DA IDENTIDADE Como apresentado na introdução, a proposta do presente trabalho é verificara criação de afinidades da população urbana com o meio natural, pelo contatodirecionado à natureza e através de atividades de sensibilização integradas aomeio, para uma conseqüente educação de preservação. Para a sua realização foielaborada uma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza eaplicadas a um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do ColégioMundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • O desenvolvimento deste estudo junto às crianças que se encontram na faixaetária de 4 a 6 anos e cursando o ensino infantil justifica-se pela necessidade daconstrução de uma afinidade pelo meio natural e da construção de uma consciênciade preservação o mais cedo possível, assim minimizando seu impacto negativo nanatureza. A importância desse trabalho já nessa faixa etária reflete nas fases seguin-tes do processo educativo. Os estudos do meio não devem ser apresentados apenascomo “um alívio temporário às tensões intrínsecas ao espaço e forma da escola,permitindo que ela continue a negar a necessidade de uma revisão radical em suatradição de domesticação de corpos, padronização de mentes e reprodução dasrelações sociais” (Serrano, 2000:12). Para tanto, os alunos devem se habituar aosestudos do meio desde cedo, e incluir essas atividades em seu cotidiano. Previamente à seleção das atividades a serem desenvolvidas nessa propostafoi realizada uma visita à escola para conhecer o corpo docente e as criançasque fariam parte das atividades. Considerando a importância da familiarizaçãocom práticas de EA, e aproveitando a energia que as crianças demonstraram e apronta cooperação do corpo docente durante nossa visita, decidiu-se, em acor-do com a diretora da escola, pela realização de um programa composto porquatro atividades, adaptadas de propostas do primeiro estágio do método deaprendizado seqüencial proposto por Cornell (1995:179), o “despertar o entusi-asmo”. As atividades foram divididas e desenvolvidas no espaço da escola emdois encontros na semana que antecedeu a excursão. A proposta foi finalizada com a realização de uma excursão à UFSCar (Univer-sidade Federal de São Carlos), acompanhada pelo pesquisador (que exerceu afunção de mediador da prática), pelo professor de Educação Física da escola epor um monitor voluntário de Educação Ambiental. A presença do professor deEducação Física foi importante, pois as crianças estavam em um meio estranhoe a presença de alguém conhecido lhes trouxe maior segurança. A presença dealguém que conhecia profundamente o meio, ou seja, o monitor de EducaçãoAmbiental, também trouxe maior segurança às crianças, além de uma boa fontede informações e conhecimentos sobre o meio. O mediador, principal responsá-vel pelo planejamento da excursão, exerce a importante função de coordenartoda a prática, imprimindo um bom ritmo de caminhada e execução das ativida-des, definindo metodologias e estando sempre atento às respostas das criançasaos estímulos encontrados durante a excursão. Assim, o programa de atividades apresentou a descrição e o desenvolvimentode dez atividades, quatro desenvolvidas na escola, em semanas que antecede-ram a excursão e seis desenvolvidas durante a excursão. O programa foi desen-volvido com base nas atividades propostas nos livros do naturalista Cornell(1995, 1996) e nos princípios pedagógicos da “aprendizagem seqüencial”. As atividades desenvolvidas na UFSCar foram realizadas nas áreas de cerradoe de mata ciliar de um riacho próximo ao cerrado (áreas que possuem trilhas e54 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • locais especificamente preparados para estudos do meio), e em um pinheiral.Essa diversificação de áreas foi muito importante para a compreensão das dife-renças de vegetação e ambientes. Com base nesse conhecimento, e consideran-do nosso tempo de excursão já delimitado, planejamos o desenvolvimento deatividades com melhor adaptação a esses locais específicos e coerentes com otempo disponível e com nossos objetivos. A avaliação da proposta foi realizada a partir da análise dos dados coletadospor meio da observação sistemática direta (da prática em si e de registros foto-gráficos e de filmagem da prática) e uma discussão aberta (reflexão da prática),com os alunos realizada em dois momentos posteriores à excursão: 1) logo apósao encerramento (realizada em pequenos grupos ainda na UFSCar e dentro doônibus) e 2) na semana posterior, de volta ao espaço da escola (realizada comtodo o grupo reunido). Uma das principais críticas apresentadas nesse trabalho é a passividade da EAescolar. A criança aprende na escola que deve preservar e conservar uma natu-reza distante, e que deve lutar contra valores intrínsecos socialmente construídospor uma sociedade consumidora, adaptada ao luxo, sedentária, produtora delixo e de poluição. Sobrinho, citado por Campelo (1995), escreve poeticamenteque “ [...] muitas coisas não se aprendem nos livros e sim em contato com anatureza. Ela é o grande livro aberto aos que sabem ler nele”. Um programa de EAmais ativa implica em um maior contato do homem com o meio natural e mudan-ças que envolvam todo seu cotidiano, e não simplesmente dentro da sala de aula.Sorrentino et al., citados por Barros (2000:93), destacam que as açõestransformadoras do cotidiano devem incluir os valores da EA, assim gerandomudanças de atitudes e sentimentos que ajudem a construir posturas mais afetivas,solidárias e cooperativas entre os homens e em sua relação com a natureza. A proposta de uma EA mais ativa, um trabalho que envolva visitas orientadasao meio natural objetivando uma ética ambiental que resulte numa melhor con-duta em relação à natureza e ao cotidiano urbano, será uma contribuição nãosomente para aquele indivíduo, mas para toda a sociedade a que ele pertence. Neste aspecto, uma ética ambiental deve ser o item mais importan- te que os visitantes devem incorporar em suas visitas, assim como a lição mais valiosa que podem trazer de volta para casa e para o seu cotidiano. Um comportamento adequado advém da compreen- são e respeito pela natureza, formando um conjunto que passa a pertencer ao indivíduo e à sociedade. (Barros e Dines, 2000:72) Por outro lado, não se pode ignorar a importância do trabalho desenvolvidono âmbito escolar. Assim, uma combinação entre as atividades realizadas dentroe fora da sala de aula seria ideal. A criança deve se familiarizar às práticasrelacionadas à Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilização Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • desenvolvidas dentro da sala de aula, para que o impacto negativo na naturezaseja minimizado. É importante que essas atividades sejam dinâmicas (para des-pertar o interesse do aluno) e que envolvam conceitos que possam ser trabalha-dos também nos estudos do meio, criando assim uma relação entre a teoria e aprática e um propósito de aprender aquilo dentro da sala de aula. Como destacao naturalista Cornell (1996:5), “as crianças entendem e gravam mais na memóriaos conceitos quando aprendem por meio da experiência direta e pessoal”. Éimportante que as atividades também despertem certa curiosidade e entusiasmopara um encontro com o meio natural, uma vez que “a curiosidade é o ponto departida para a aprendizagem” (Herman et al., 1992:3). Após a familiarização com as práticas de EA por meio de atividades específi-cas desenvolvidas na escola, a criança deve ter a oportunidade de entrar emcontato com o meio natural, assim tendo a oportunidade de atingir os objetivosde sensibilização propostos neste trabalho. Sobre a combinação entre ativida-des desenvolvidas dentro da sala de aula e nos estudos do meio, Ferreira eCoutinho (2000:174) ressaltam que até os dias atuais a escola trabalha com osistema tradicional de ensino, que repassa em sala de aula experiências distintasvivenciadas por pessoas desconhecidas e, posteriormente, por meio de avalia-ções, cobram a absorção desse conteúdo pedindo que a criança reproduza-opara o papel. Na proposta educacional desenvolvida a partir da compreensãodos conceitos dentro da sala de aula e posteriormente vivenciadas nos estudosdo meio, a criança cria suas próprias experiências, o que contribui para umarelação afetiva com o meio, para a construção de uma cultura corporal e para odesenvolvimento da autonomia e criatividade da criança. Após as atividades desenvolvidas em contato com o meio natural, é de funda-mental importância a reflexão sobre a prática, tanto no local da atividade (aindaem contato com a natureza) quanto no retorno ao espaço familiar da sala deaula. Barros (2000:99) afirma que o aprendizado experiencial só é efetivo pormeio de uma reflexão que integre a nova experiência às experiências vivenciadasno passado, justificando tal afirmativa pela necessidade de “dar um tempo” paraque as pessoas reflitam sobre o que viram, sentiram e pensaram durante o even-to. No desenvolvimento do estudo do meio na UFSCar, a viagem de volta foiaproveitada para conversar com as crianças em pequenos grupos isolados, mo-mento no qual foram formuladas perguntas sobre os acontecimentos do dia. Oentusiasmo com o qual as crianças discursavam sobre as diferentes experiênciasdo dia enchia de valor o tempo investido na preparação e na realização desseprojeto. Nas palavras de Johannes Kepler (citado por Alves, 1993), “os caminhosque conduzem o homem ao saber são tão maravilhosos quanto o próprio saber”. Porém, há algumas críticas a serem consideradas em relação ao presentetrabalho. A interação prévia a prática, entre os educadores que atuam no “Colé-gio Mundinho Nosso” e o mediador do estudo do meio deveria ter sido maior, oque possivelmente poderia ter evitado alguns imprevistos.56 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Pode-se citar como exemplo a realização precoce da atividade abrace umaárvore, que estava programada para um outro momento e que tomou algumtempo não programado (o que talvez tenha impossibilitado a execução da ativi-dade câmera fotográfica). Deve-se deixar claro que a crítica não se refere arealização da atividade naquele momento (pois a atividade foi muito bem suce-dida), mas na falha no planejamento, a qual poderia ter sido evitada se a profes-sora de filosofia soubesse que tal atividade seria realizada em outro momento(deve-se também deixar claro que a falha não foi da professora, e sim na falta decomunicação entre ela e o mediador previamente à prática). Uma conversaprévia possivelmente poderia também ter evitado o incidente no qual as profes-soras ingenuamente retiraram algumas amostras de sementes na frente das cri-anças para colocar no relatório de campo, e também o controle excessivo(principalmente de movimento) das professoras sobre as crianças durante todoo estudo do meio, fatos ocorridos pela falta de experiência nessas práticas. A escolha da trilha cega, na qual as crianças precisavam permanecer com osolhos fechados, como primeira atividade também pode ser questionada. O obje-tivo era acalmar um pouco a euforia da chegada ao cerrado, mas talvez umaatividade que não exigisse que eles fechassem os olhos seria mais apropriadapara um primeiro momento. As crianças estavam curiosas sobre esse novo am-biente, principalmente no primeiro contato, o que comprometeu um pouco aatividade. A escolha de voltar na trilha que as crianças percorreram de olhosfechados já desenvolvendo a atividade uma trilha de surpresas, na qual as crian-ças deveriam achar objetos que não pertenciam ao meio e que foram proposital-mente colocados na trilha, (escolha feita em função do tempo limitado pararealizar seis atividades) também foi questionada. O primeiro contato visual como meio deveria ser agradável, livre de poluição. Conclui-se que diminuindo onúmero de seis atividades poder-se-ia investir mais tempo na realização e refle-xão de três ou quatro atividades. Mas, apesar dessas críticas, a realização doestudo do meio, em geral, foi bastante satisfatória, acreditando-se que os prin-cipais objetivos desse trabalho foram atingidos.CONSIDERAÇÕES FINAIS Muitos acreditam que os resultados do processo educacional só podem sernotados em longo prazo. Mas aquele que acredita, aquele que se importa, aqueleque realmente se envolve com os maravilhosos caminhos da educação conse-gue enxergar as mudanças acontecendo nos olhos do curioso aprendiz. A natu-reza oferece uma oportunidade de aprendizado a cada instante. O poeta ameri-cano Ralph Waldo Emerson (citado por Sagan, 1974:15) dizia que “nada é ricoalém da infinita riqueza da natureza. Ela nos mostra sua superfície, mas escondemilhões de destinos em suas profundidades. O único fato que pode impedir ohomem de descobrir esses destinos é o próprio homem. O que nos resta é investirna educação, na voz do intelecto, pois, como afirma Freud (citado por Sagan, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • 1983:142), “a voz do intelecto é suave, mas não descansa até ter ganho umouvinte. Em última análise, após inumeráveis derrotas, ela vence. Este é um dospoucos pontos em relação aos quais podemos ser otimistas no tocante ao futuroda humanidade”. Analisando o processo educativo como uma majestosa pirâmide, construídapelos grandes pensadores numa época na qual a sabedoria era super valorizada,e o pensar era a prática dos nobres, pode-se pensar no educador como a basedessa pirâmide, sustentando o peso de intermináveis responsabilidades. Mastambém sustenta, no topo dessa pirâmide, a luz de um aprendiz. A criança tem como princípios naturais correr, brincar, viajar, sonhar. Paramuitas dessas viagens ela precisa de asas, e não é papel do educador cortar essasasas, mas sim ensiná-la a usá-las. O meio natural representa um espaço onde acriança pode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelenteoportunidade de educação corporal e de conscientização ecológica por meio daorientação, e não proibição, do movimento. “O que temos que fazer é instruir enão proibir” recomendava Sócrates (citado por Alves, 1993) a seus pupilos qua-trocentos anos antes de Cristo, recomendação que podemos seguir como exem-plo até os dias atuais. Ao Chegar ao final desse estudo, nada mais natural do que se perguntar asrazões que nos levaram a começar tudo isso. Uma das perguntas mais comunsque as pessoas se fazem quando confrontam um problema global (como, porexemplo, a conservação do meio ambiente) é –”que diferença uma pessoa podefazer?”. Pois foi exatamente a diferença que uma pessoa pode fazer que inspirouesse trabalho, e será exatamente a diferença que cada pessoa irá fazer que, nofinal, fará a diferença. Certa vez, fomos confrontados com a seguinte pergunta: – “se você pudesseescolher, quem você seria: um sonhador sem coragem de mudar ou um revoluci-onário sem coragem de sonhar?”. Pois acreditamos em uma terceira escolha:seremos um sonhador revolucionário![As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]NOTAS3 O conceito de “natureza” adotado para esse projeto é caracterizado pelos elementos naturais não construídos pelo ser humano (vegetação, clima, etc.), apesar de entender que o homem, e as transformações que ele promove, também fazem parte da natureza.2 A expressão “cultura corporal” será utilizada para denominar a ampla cultura que abrange a produção de práticas expressivas e comunicativas externalizadas pelo movimento, em concordância com o documento “Presença do movimento na Educação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998)..58 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: anais de congressoFormato da contribuição: texto resumidoFonte: Pipa, pião e 5 marias: brinquedos de ontem, hoje e de sempre,Anais de congresso. CBTUR 2003E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista emLazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel emTurismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e SérgioHenrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e AtividadeFísica para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica doParaná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pelaUniversidade Católica de Pernambuco - UNICAP.Brinquedos, brincadeiras, recreação,arte e cultura popular:alternativas para um museu interativoGustavo de Lira SantosSérgio Henrique Verçosa Xavier Com a crescente demanda, no mercado, de jogos e equipamentos eletrônicos,percebe-se em meio às crianças o descaso por brinquedos que outrora fizeram aalegria e o lazer de jovens de décadas passadas, inclusive a nossa. Com intuito denão deixar este passado tão rico em experiências se apagar na memória dapopulação, o Museu do Homem do Nordeste, localizado no bairro de Casa Fortena cidade do Recife em Pernambuco, em parceria com Caravana Viagens e Turis-mo e o SEBRAE – Paraíba, desenvolveram a VI Semana do Folclore com o tema:“A importância do patrimônio lúdico na formação infantil”. Proporcionando visitas à exposição permanente do Museu, adicionou à suarotina uma feirinha de brinquedos populares e guloseimas, oficinas de frevo,maracatu, caboclinho, bumba-meu-boi e capoeira junto com a exposição debrinquedos populares da colecionadora Macao Goes. Tendo como objetivo a implantação de atividades recreativas e lúdicas emmuseus, que são considerados espaços conservadores e monótonos, destinados a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • perpetuar antiguidades, tornado-o locais de visitação e lazer para todas as idades.Visto que são desenvolvidas atividades culturais, no qual a criança, receptora,participa apenas psicologicamente das mesmas. Procuramos com este trabalhofazer a intersecção do lazer passivo com o ativo, no qual a criança participa físicae psicologicamente, colocando em prática aquilo que viu e aprendeu.METODOLOGIA Com o intento de entender melhor os anseios das crianças ao visitarem omuseu, durante a Semana do Folclore, elaboramos um questionário composto de8 (oito) perguntas fechadas. Num universo total de 2427 crianças que visitaram oMuseu, apenas 1414 estavam enquadradas no nosso plano de pesquisa. Estetinha como objetivo entrevistar crianças de ambos os sexos, com idade mínimade 6 anos e máxima de 17 anos, de escolas públicas e privadas, do ensino Funda-mental I e II. Sem precisar identificar-se seriam abordadas após usufruírem detodas as atividades oferecidas pelo museu. Como alvo inicial queríamos coletar 400 (quatrocentos) questionários válidos,100 (cem) a cada dia, 50 (cinqüenta) por turno. Com a ajuda de alguns voluntári-os, colegas dos cursos de Turismo, Hotelaria, Geografia e Educação Física dasUniversidades Católica (UNICAP), Federal (UFPE) e de Pernambuco (UPE), senti-mos que alcançaríamos esse objetivo e até bem mais. Ao final captamos 500(quinhentos) questionários válidos. O questionário pretendia saber o motivopelo qual a criança foi ao museu; o que ela achava que iria encontrar; a atividadeque ela mais gostou; e quais os 5 brinquedos que ela mais brinca.O BRINQUEDO POPULAR Antes do surgimento das fábricas e indústrias modernas, os móveis, objetos,calçados, utensílios, brinquedos, entre outros, eram confeccionados de formaartesanal. No lugar de máquinas o trabalhador utilizava apenas algumas ferramen-tas como: martelos, tesouras, facas, serrotes, etc. Com isso podemos perceber adiferença entre o brinquedo popular e o industrial, pois nele tudo é feito manual-mente, pelo artesão, que usa materiais e ferramentas simples e muita criatividade. O fazer tradicional do brinquedo popular é transmitido pelo artesão de gera-ção em geração com formas simples, coloridas e muito engenhosas. Por seremproduzidos em pequena escala, diferentemente dos industriais, que são produzi-dos em grandes escalas e dispõem de máquinas que confeccionam o produto empoucos minutos, os grupos de artesãos passam a encontrar obstáculos difíceisde serem ultrapassados o que leva a uma falta de interesse dos mesmos emproduzir, e do consumidor em adquirir um material artesanal, já que, nas lojaseles encontram similares com mais atrativos e a custos mais baixos.60 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • No Brasil, os principais centros produtores de brinquedos artesanais nasdécadas de 60 e 70 estavam no Nordeste, Centro-Oeste e na região Sudeste.Ainda hoje estes continuam sendo os locais de produção e ainda são encontra-dos na periferia dos grandes centros urbanos, trazidos com a cultura do migrantenordestino. No Nordeste brasileiro a produção é criativa e engenhosa. São bruxas de panodas mais simples, com vestidos de trapos e sacos de plástico às mais sofisticadasde rosto modelado, anéis e pulseiras. O mobiliário de madeira pintada, cerâmica,lata, jogos de sala, de quarto, de cozinha, miniaturizando o cotidiano adulto. Aindahá meios de transportes, roda gigante, carrossel e balanço que fazem parte dosbrinquedos com movimento e muitos deles são cópias dos modelos originais. No vasto universo lúdico artesanal, ainda temos brinquedos de habilidades quesão os piões, badoques, pipas entre outros; os acústicos, como os diversosinstrumentos musicais; e os brinquedos indígenas.O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente.Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar ecriar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU,1987: 14)”. Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela secoloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri-nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com asbonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnandonitidamente o personagem que a brincadeira exigiu. Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outraparalela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-seque o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincantenecessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universoela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura,astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz deconta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elasreproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14). Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o “novo”vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desaparecimento des-tas manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão as antigasbrincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedos industrializa- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • dos e pelo mundo da informática e mesmo esta última, restrita a determinadascamadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação cultural pela própriacriança, por uma produção cultural para a criança”. (Marcelino, 1996: 42). Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin-quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Estabrincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. Apreservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidadesque a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzircultura e não apenas aceitar mercadorias.RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduoscom as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa-zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen-tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindoa postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra-das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetosartesanais, danças típicas e etc. A recreação cultural informativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen-to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem-plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri-cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém algumas delas apenas emdatas comemorativas. Grupos folclóricos, apresentações teatrais e teatro debonecos, algumas das atividades que mais prendem a atenção da criança, pode-riam ser apresentados freqüentemente À forma como é repassado o significadodas peças, que ficam em exposições, poderia ser com uma linguagem mais sim-ples e didática, talvez, até, através de brincadeiras. A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente,aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta-ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades deprodução como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira emuitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo-sição do Museu.PRINCIPAIS RESULTADOS O quadro de numero 1 se relaciona com a seguinte pergunta: Por que você veiopara este passeio?62 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Quadro 1: Motivo do Passeio RESPOSTAS Nº %1) Não respondeu o motivo 013 2,62) Queria aprender coisas novas 094 18,83) Para me divertir 043 8,64) Para não ter que assistir aula 001 0,25) Para conseguir uma nota mais fácil com o relatório 046 9,26) Porque minha turma veio 013 2,67) Por curiosidade ou interesse 150 30,08) Porque meus pais me induziram 007 1,49) Por que a escola ou a professor me induziram 045 9,010) Porque já tinha vindo uma vez e quis vir novamente 015 3,011) Porque já tinha feito um passeio pela agência e quis vir de novo 002 0,412) Outros * 071 14,2TOTAL 500 100% Podemos observar que a curiosidade ou interesse das crianças, com 30 %,ainda é o principal motivo da visita ao museu; em segundo lugar tivemos aaprendizagem, onde estes indivíduos, que somam 18,8 %, estão em pleno desen-volvimento mental e toda informação e de grande importância. Mas não pode-mos deixar de falar na questão da aquisição de nota, onde 9,2%, dos entrevista-dos tocam no assunto de provas e relatórios visto que esta ainda é uma dasformas de avaliação escolar. O que nos chamou a atenção foi o baixo número decrianças que foram ao museu porque não queriam assistir aula, com apenas 0,2 %. A segunda questão descrita, no quadro 2, tem a seguinte pergunta : O que vocêachava que iria encontrar no MH-NE?Quadro 2: O que esperava encontrar no MH-NE RESPOSTAS Nº %1) Coisas velhas, antigas e históricas 111 22,22) Coisas para adultos 005 1,03) Quadros, estátuas, esculturas e similares 059 11,8]) Brinquedo, apresentação, jogos, musicas, arte, dança, trabalho 184 36,8manuais e curiosidades5) Outros 141 28,2TOTAL 5]] 1]]% Já que em muitos colégios foi comunicado para as crianças o que elas iriamencontrar de festivo durante a semana do folclore, muitas crianças responderamaquilo que realmente encontrava-se, num total de 36,8%. Outras como era espe-rado continuam a ter a idéia tradicional sobre museu, 35,6%. O quadro 3 tem como objetivo saber o que elas mais apreciaram com a seguin-te pergunta : Qual a atividade que você mais gostou? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Quadro 3: Atividade que mais gostou RESPOSTAS Nº % 1) Feirinha de artesanato e guloseimas 032 6,4 2) Oficinas de frevo 113 22,6 3) Visita a parte de dentro do museu 158 31,6 4) Exposição de brinquedos populares 037 7,4 5) Oficina de capoeira 122 24,4 6) Apresentação das escolas 019 3,8 7) Outros 019 3,8 TOTAL 500 100% Foi grande a nossa surpresa quando e resposta mais votada (31,6%) foi a visitaa parte de dentro do museu, mas facilmente explicável porque quem ministrava aapresentação do museu era uma equipe de recreadores . Logo após, a oficina decapoeira (24,4%) e a oficina de frevo (22,6%), respectivamente. Também pode-mos explicar este fato: As crianças participavam ativamente destas oficinas. Por fim, tínhamos a dúvida da interação do brinquedo moderno com o popular.Com a seguinte pergunta: Quais são os brinquedos com os quais você mais brinca?Quadro 4.1: Brinquedos mais utilizados BRINQUEDOS MODERNOS / INDUSTRIALIZADOS CATEGORIA Nº 1) Videogame; Bicicleta; Computador; carrinhos / lanchas / aviões elétricos ou de 0921 fricção; Bonecos(as) de lojas; Jogos de Tabuleiros*. 2) Ferrorama / Autorama; brinquedos de montar; armas; patins / patinete / skate; 0091 instrumentos musicais; mini-game; tamagoche; massa de modelar; jogos de elaboração**. 3) Outros (Maquiagem, Jogos de mesa***, Skate de dedo, Revista em quadrinhos; 0034 Fogãozinho; Panelinha; Casinha de pano; Karaokê) 4) Geleca. 0000 TOTAL 1]]6* War; Jogo da Vida; Imagem e ação; Banco Imobiliário; Xadrez; Dama; Ludo e etc.** Sorveteria da Eliana; Chocolateria da estrela; Tricô da estrela e etc.*** Ping-Pong; Sinuca; Dominó; Baralho.Quadro 4.2: Brinquedos mais utilizados BRINQUEDOS POPULARES/ ARTESANAIS CATEGORIAS Nº 1) Bola; Pipa; Pião; Corda; Elástico; Bola de Gude; 0852 2) Carrinho de rolimã; Telefone sem fio; Bambolê; Peteca; Pega vareta; Vai e Vem; Bonecas 0156 e bonecos de pano; Brinquedos feitos pela criança; Carrinhos de lata e madeira. 3) Badoque; Casinha; Escolinha; Brincadeiras*; Brinquedos de escolas**; Fantoche, 0162 Bolinha de sabão; Argila; Gestos com a mão; Brincar com a imaginação; Cantar; Cabeleireiro; Livros; Iô-iô; Cantigas de rodas. 4) Pirocoptero. 0000 TOTAL 1170* Pega - pega; Pega - Congelo; Pega - macaco: Amarelinha; Pula - carniça; Esconde-esconde, Barra – Bandeira, Cabra-sega; Chuta a Garrafa (Pique e late), Pisa-pé; ** Escorrego; Balanço; Gangorra; Roda e etc.64 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • CONCLUSÃO Através desta pesquisa, feita com crianças de escolas privadas, e neste meiodescobrimos as escolas particulares de baixa renda, e pública, percebemos queneste universo os brinquedos não foram totalmente retirados do cotidiano. Estemotivo pode ser atribuído pelo fato de que os bairros em que elas moram sejamcalmos e próximo às escolas, que em geral, são de médio e pequeno porte. Contudo torna-se necessário o incentivo por parte de diversas instituições, dafamília e da escola, para que os mesmos não se tornem apenas “peças de museus”.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2003 Publicação original: inéditoFormato da contribuição: artigoFonte: “no prelo”E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista emLazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel emTurismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e SérgioHenrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e AtividadeFísica para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica doParaná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pelaUniversidade Católica de Pernambuco - UNICAP.Equilibrando desenvolvimentocom meio ambiente: Garantindo lazer,ecologia e turismo no centro urbano.Estudo de caso do projeto parque do recifeGustavo de Lira SantosSérgio Henrique Verçosa XavierDESENVOLVIMENTO DESORDENADO Crescimento da cidade do Recife O crescimento desordenado da população na cidade do Recife exige maioratenção para questões como planejamento sustentável municipal. Prevê-se queem 2020 a população mundial ultrapasse a marca de 8 bilhões de habitantes,sendo 65% desse total vivendo em áreas litorâneas. É o que vem acontecendo noRecife, em 1991 a população era de 1.298.229, em 1996 passou para 1.346.045 eem 2000 já estava em 1.422.905 habitantes (Fonte: IBGE, Base de InformaçõesMunicipais). A cidade em rápido crescimento, caso mal administrada, deparar-se-á comproblemas ambientais gravíssimos. As cidades vêm se deteriorando e se“enfeando” com os avanços tecnológicos, pois as populações crescem bem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • mais que a infra-estrutura necessária para comportá-las, as inovações ou reno-vações vem tardias, tendo, sempre, que sacrificar algo já existente em nomedesse avanço. Os fatores humanos são elementos fundamentais na formulação de políticasabrangentes para o desenvolvimento sustentável. Essas políticas devem atentarpara as tendências e fatores demográficos, ao planejamento de tecnologias ade-quadas e ao desenvolvimento. Há também a necessidade de se pensar em estraté-gias para suavizar o impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente evice-versa. É preciso também identificar áreas para ação e desenvolvimento des-sas estratégias e analisar uma perspectiva mais ampla de meio ambiente e desen-volvimento baseada num estudo interdisciplinar e unir a teoria à prática. Percebendo assim que fatores demográficos exercem uma influência críticasobre os padrões de consumo, produção, estilo de vida e sustentabilidade emlongo prazo.CRESCIMENTO DO BAIRRO DE BOA VIAGEM Até o início do século passado, Boa Viagem era praticamente desabitada, aponto de se praticar a caça de animais silvestres. A povoação da Boa Viagem temseu início no século XVII, devido à existência de algumas vendas que serviam delocal de descanso dos viajantes que por ali transitavam vindos do caminho do sulda Capitania de Pernambuco. Em 6 de junho de 1707, Baltazar da Costa Passos e sua mulher Ana de Araújo,fizeram uma doação ao padre Leandro Camelo, de cem braças de terra para aliconstruir uma capela, patrimônio acrescido de outras doações sucessivas. Em1743 já estava a capela construída onde figura o nicho dourado e pintado com aimagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos navegantes e viajantes.A capela de Boa Viagem, portanto, deu o nome não só à bela praia, como tambéma todo o bairro de Boa Viagem. Sua construção é de estilo barroco, seu interiorpassou, com o tempo, por várias reformas, encontrando-se por esse motivobastante descaracterizado. A povoação da Boa Viagem vem ganhar novo impulso em 1858, quando foiinaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro Recife-São Francisco, cujahavia parada na estação situada no final da atual Rua Barão de Souza Leão.Inicialmente um trole e depois um bonde de burros fez a ligação da Praça de BoaViagem à estação ferroviária. O bairro cresceu mais e tomou jeito de nobreza com o impulso dado pelobonde elétrico da Pernambuco Tramways, que inicialmente trafegou até o Pina,68 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • antiga ilha do Nogueira, chegando depois até a Igreja Nossa Senhora de BoaViagem. Foi, porém, a abertura da avenida Boa Viagem que a integrou na vida dorecifense, a partir de 1924, no governo de Sérgio Lorêto. Nos anos 80 e 90 foram erguidos vários edifícios, inclusive surgindo inúmerasfavelas, perdendo assim seu ar de nobreza. Pelos dados da Secretaria de Plane-jamento da cidade do Recife, Boa Viagem hoje é o Bairro de maior população,com aproximadamente 101 mil habitantes em seus 717 hectares de área. Antesdesse super povoamento, o bairro era coberto por manguezais e para a constru-ção das edificações ou em nome do progresso mais de 80% desse mangue foiaterrado, hoje ainda resta uma área com 419 ha de mangue que sobrevive emmeio ao desenvolvimento descontrolado. O que já foi sinônimo de status, hoje morar em Boa Viagem não passa de umaquestão de não ter outra opção. Uma pequena consulta aos moradores da regiãofeita pela AMABV, no mês de maio/2002, surpreendeu com o resultado da inda-gação, constou, nas 500 consultas que 60% das pessoas questionadas, responde-ram que se pudessem mudariam o mais rápido possível. Os motivos mais citadosforam: violência, prostituição, trânsito caótico, sujeira e bagunça, além doRecifolia1 (Carnaval fora de época do Recife).LAZER NA CIDADE De acordo com MARCELLINNO (2000; pág 25), “o espaço para o lazer é oespaço urbano”. No século XXI, o ócio será essencial para as sociedades pós-industriais. Asbarreiras entre trabalho e lazer diminuirão cada vez mais, tempos sociais surgi-rão em que a prioridade das pessoas será seu bem estar, sua família e seu diver-timento e não mais o trabalho, assim sendo o Lazer assumirá posição de maiordestaque. O mercado criado pela globalização fez surgir um novo setor na economia,que é definido, por alguns estudiosos da área, como quarto setor. A busca denovos negócios para investimentos, na criação de novas profissões e espaçosalternativos, trouxe para a população novas opções de lazer, tendo desde asgratuitas até as mais sofisticadas. Como o tempo gasto no trânsito é cada dia maior, devido ao aumento dasdistâncias e o aumento da frota de carros, logo causando os longos e demoradosengarrafamentos uma alternativa para o lazer seria contemplar os espaços urba-nos. WILHEIM nos diz que “percorrer a cidade pode ser enfadonho e desgastanteou, pelo contrário, revelar-se uma experiência altamente informativa e agradá- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • vel para os sentidos”, daí a importância de se preservar também os parques epraças públicas. Segundo CASTROGIOVANNI (2000, pág 02): “As cidades, ao mesmo tempo em que sintetizam as tensões soci- ais existentes, são espaços privilegiados de atrações, serviços, simbolismos e produções culturais. O papel que assumem na eta- pa pós-industrial e da globalização econômica tem possibilitado incrementar estruturas, equipamentos, serviços e revitalizar áre- as adormecidas, mas com grande expressividade na formação histórica do lugar”. É nos centros urbanos que a população encontra os equipamentos de lazermais variados e de fáceis acessos, sejam eles específicos ou não. Não específi-cos são aqueles que não foram construídos com fim de proporcionar lazer, masacabam por fazê-lo, a casa, que é o principal da maioria da população, principal-mente a de baixa renda, o bar e a rua, que se transformam em ponto de encontroe local de festas, especialmente em datas comemorativas. Além de encontrartambém os equipamentos denominados específicos teatros, cinemas, shoppings,mais procurados devidos a segurança e centro comunitários de cultura ou lazere ginásio de esportes.TURISMO PEDAGÓGICO Atualmente a escola é vista como centro de educação sistemática e cabe a elaoferecer aos alunos situações que lhes permitam desenvolver suas potencialidadesde acordo com a fase evolutiva. A educação é vista como fator de mudanças,renovação e progresso, sendo ela um processo de vida e não uma preparaçãopara a vida futura. O Turismo Escolar ganha força neste final de século, quando há uma série dereflexões sobre o papel da escola, sua função social, o significado das experiên-cias escolares e extra-classe. O Turismo Pedagógico apresenta-se como umaconcepção de posturas pedagógicas e não meramente como uma técnica deensino mais atrativa para os alunos. É um trabalho capaz de fazer a escola ir alémdos seus muros e criar pontos entre os conteúdos estudados e o meio físico esocial proporcionando melhor compreensão. Tem como função tornar a aprendizagem ativa, interessante, significativa, reale atrativa para o aluno, conseguindo isso à medida que o aluno passa a vivenciar“in loco” o que foi visto em sala de aula. Dentro dessas perspectivas, os conteú-dos disciplinares, antes teóricos e abstratos deixam de ser um fim em si mesmo70 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • e passam a ser meios para ampliar a formação dos alunos e sua interação com arealidade, de forma crítica e dinâmica. Nos últimos anos houve uma vertiginosa aceleração no que se refere a turismocom estudantes, este deixou de ser turismo com e passou a ser para o estudante.TURISMO DE NATUREZA Dentre as várias segmentações do turismo, existe uma (de percepção recente,porém há muito já praticado, mesmo que de forma indiferente ao turismo) quemerece destaque devido a sua crescente demanda nos últimos tempos, é o“ecoturismo”. Contudo, o ecoturismo abrange muito mais do que o simples desejo de estarem contato com o ecossistema, existe a grande possibilidade de um desenvolvi-mento sustentável numa localidade que desenvolve este segmento do setorturístico, embora alguns não tenham a noção dos benefícios que o ecoturismoacarreta. Daí percebe-se a capacidade do ecoturismo em desenvolver uma atividadesustentável no local de seu processamento, porém seria uma hipótese totalmen-te utópica, pensar que o ecoturismo, de forma alguma, traga danos ao meioambiente. Quando realizado de maneira desproporcional, sem o conhecimentoda sociedade sobre problemas relativos ao ecossistema, ou mesmo quando exis-te algum setor que deseja tirar proveitos econômicos induzindo a um desenvol-vimento desregrado da atividade. É como observa SWARBROOKE (2000: pág 56): As vantagens do ecoturismo para as organizações de turismo e para as destinações turísticas podem conduzir ao desenvolvi- mento de formas de um “pretenso” turismo que se dá em larga escala e de maneira espoliativa, de modo oposto aos princípios do ecoturismo. Esta é a origem de grande parte da confusão que ronda o ecoturismo, ou seja, a lacuna entre a teoria e a prática, entre as concepções dos turistas e o lado provedor do turismo.MANGUEZAL O que é mangue? Etimologicamente, a palavra Mangue advém de um termo em inglês(MONGROVE). A expressão Mangue tanto significa a vegetação própria dosalagadiços salgados como os mesmos alagadiços. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Os Mangues correspondem a um complexo sistema ecológico, situando-se emRegiões Estuarinas, que sofrem influência das marés. É um ecossistema constituídopor uma vegetação lenhosa, arbórea, que coloniza solos lodosos, pouco consoli-dados, rico em matéria orgânica e com baixo teor de oxigênio. Apresenta umagrande variedade de micro-organismos, macro-algas, crustáceos e moluscos, adap-tados às constantes variações de salinidade e fluxo das marés. É local favorável àproteção, alimentação, reprodução e desova de muitos animais. Localiza-se nasregiões costeiras tropicais e subtropicais do planeta, isto porque todas as espéciesde mangue são sensíveis ao frio. É o cordão umbilical entre a terra e o mar. No Brasil, os manguezais são encontrados em quase todo litoral, desde oOiapoque, no Amapá, até laguna em Santa Catarina, sendo o país que possui amais extensa reserva de manguezal do mundo. A área ocupada por mangue emPernambuco é de aproximadamente 25 mil hectares, vegetando nela cinco espé-cies: Manso, Vermelho, Siriuba, Botão e Preto.IMPORTÂNCIA DOS MANGUEZAIS Pelo menos 2/3 das espécies de peixes explorados economicamente depen-dem desse ecossistema para a sua existência. O manguezal é um dos ecossistemasmais importantes do planeta. A grande quantidade de detrito vegetal, produzida por esse ecossistema cons-titui-se de alimento para à fauna estuarina e marinha, uma vez que, durante oprocesso de decomposição são colonizados por microorganismos. Assim, for-mam a base para diversas cadeias alimentares. Além da produção de matéria orgânica, a estrutura das raízes de mangue,formando emaranhados, oferece proteção para espécies da fauna marinha. Estu-dos mostram que há uma relação entre a produtividade da pesca nas regiõeslitorâneas e a conservação desses ecossistemas. Produzem ainda vários serviços indiretos, que passam despercebidos. Osmanguezais protegem a linha de costa e as margens dos estuários contra erosão.São importantes retentores de metais pesados e grande seqüestrador de carbono.IMPACTOS AMBIENTAIS Aterro corte, expansão urbana, marinas, portos, estradas, agricultura,carcinocultura, industriais, derramamento de petróleo, lançamento de esgoto,lixo, poluentes industriais e agrotóxicos, são as principais formas encontradaspelo homem para destruir um berçário de vida; o manguezal. A destruição desses72 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • ecossistemas gera grandes prejuízos, seja direta ou indiretamente, visto que sãoperdidas importantes funções ecológicas. Outro problema grave observado é a pesca predatória, onde é muito comum acaptura de crustáceos, fora da época ideal. E principalmente a pesca com petre-chos inadequados, bombas e demais artifícios usados pelos que não respeitam averdadeira arte da pesca. É preciso conhecer e respeitar os ciclos naturais dosmanguezais para que o uso sustentado de seus recursos sejam estabelecidosLEIS QUE PROTEGEM OS MANGUEZAIS A Constituição do Brasil, em 1988, no Capítulo VI (do Meio Ambiente), Art. 225, dizque “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de usocomum do povo essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público eà coletividade, o dever de defendê-lo e de preservá-lo para as presentes e futurasgerações”. O manguezal dispõe de diplomas legais para sua proteção, tanto a nívelfederal como, estadual e ou municipal. Os manguezais são Áreas protegidas ou dePreservação Permanente ou Reservas Ecológicas, conforme o Código Florestal, Lein. 4.771, Art. 2, de 15/09/1965, Art. 18 da Lei n 6.938, de 31/08/1981, Decreto n 89336,de 31 de abril de 1984 e resolução n 4 do CONAMA, de 18/09/1985. ECOLOGIA E TRÂNSITO O Recife se moderniza e novas obras são inauguradas ou projetadas paramelhorar a qualidade de vida, ampliar a oferta de áreas de lazer, facilitar o fluxodo trânsito. Um projeto que é discutido há 15 anos e ganhou força na gestão de1992-96 e continua a ser debatido é o da chamada Linha Verde, que prometedesafogar a ligação terrestre entre Boa Viagem e o centro da cidade. Serão quasesete quilômetros e além de desafogar o trânsito na área, a idéia tem a vantagemde antecipar-se a invasões, que já ocorrem, e complementar outro projeto, o doParque dos Manguezais, que visa à preservação ambiental e o lazer. Preservação ambiental. Este é um dos aspectos que, segundo consta, vemmerecendo a devida atenção tanto por parte dos moradores quanto pela Prefei-tura do Recife. Houve época, até meados dos anos 70, em que quase toda a áreahoje densamente povoada e ocupada do Bairro de Boa Viagem constituía umimenso espaço de manguezais. O aterro feito de forma inadequada na maiorparte desse espaço - que, diga-se de passagem, foi ocupado como umadeterminante do próprio crescimento urbano do Recife - é hoje um dos respon-sáveis pelas enchentes em Boa Viagem. O projeto prevê o aterro de algumasáreas, porém, novamente a Prefeitura assegura que todos os estudos necessári- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • os para dimensionar o impacto das obras sobre o meio ambiente referendam aimplantação da Linha Verde serão feitos. Não há dúvida de que é preciso evitar que o trânsito do Recife atinja um grau desaturação insuportável. Também ninguém contesta a necessidade de preservar oque ainda sobra dos manguezais. Como já ficou abundantemente comprovadonão serão apenas obras viárias, túneis, viadutos, ampliação de avenidas, que vãoresolver o primeiro desses dois problemas. É claro que, sem essas obras, simples-mente não haveria por onde circular a frota de veículos automotivos, que semultiplica há décadas. Mas elas sozinhas não resolvem o problema. Para se chegar à qualidade de vida que merecemos todos, é indispensável queas autoridades proporcionem, à população um transporte público decente. So-mente assim, o ônibus e o metrô, voltarão a ser utilizados pela maioria dapopulação, e mesmo por quem possui automóvel particular.O PARQUE DO RECIFE O parque faz limites como os Bairros da Imbiribeira, Boa Viagem, Pina, Cabangae Afogados, locais de intenso movimento. Apesar de toda sua grande extensão oparque está correndo o risco de desaparecer, até 1994 a área se encontravasobre proteção da Marinha que mantinha em funcionamento a sua Estação deRádio, construída durante a II Guerra Mundial. Atualmente, desativado, e empoder da união, toda essa área requer a sua utilização racional em favor dapopulação antes que desapareça. Descobrimos este imenso tesouro ecológico casualmente, enquanto trabalhá-vamos. Então resolvemos fazer uma pequena pesquisa entre os moradores dosbairros com os quais o Parque faz fronteira, guias de turismo, agentes de viagense professores de geografia, ciências, biologia, história e estudos sociais, numtotal de 200 entrevistados. Apenas 12% já ouviram falar do Parque dos Manguezaise só 6%, realmente, conhecem e já foram visitá-lo. Em seguida conversamos como líder do grupo de proteção ao Parque dos Manguezais, o engenheiro José deBritto. Que nos explicou a diferença do Projeto Parque dos Manguezais para o doParque do Recife, esta seria que no Projeto Parque do Recife entraria as Lagoasdo Encanta Moça e do Pina, os rios Jordão e Pina, o Manguezal da Beira do Rio ebacias adjacentes mais os 35ha de vegetação rasteira, pois a preocupação nãoseria, apenas, preservar o Mangue, mas todo o Ecossistema. O Parque passariade 212ha para 419ha, tornando-se bem superior ao Ibirapuera e seis vezes maiorque o Parque da Jaqueira, o maior Parque na cidade. Apesar de está hoje bastante degradado, principalmente, pelo despejo daCompesa de toneladas de esgoto inatura no Rio Jordão, inúmeros viveiros de74 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • camarão com licença ambiental do CPRH e também pela invasão de favelas,aterros clandestinos e construções de prédios no entorno do mangue. O Parque dos Manguezais tem grande importância para toda cidade do Recife,além de abrigar várias espécies animais é de grande potencial sócio-econômico-ambiental, irá oferecer aos visitantes a oportunidade de desfrutar de uma infra-estrutura natural no meio urbano, dando-lhes chance de fugir do caos de cidadegrande sem precisar fazer qualquer viagem, e ainda impedindo que toda essa áreavenha a ser extinta com a passagem da “Linha Verde” ou invadida pela especula-ção imobiliária.POSSIBILIDADES PARA O PARQUE O projeto prevê a preservação e recuperação do Mangue e da repovoação dasáreas das lagoas e rios para que os pescadores, da comunidade local, possamvoltar a tirar seu sustento. Na área de lazer, criar-se-ia no espaço da vegetação rasteira, campo de fute-bol e de vôlei, área de pic-nic, quiosques de lanchonete e artesanatos, pista deCooper, bicicleta, patins e half-pipe2, tudo respeitando o meio ambiente parahaver o mínimo de degradação possível. Ter-se-ia ainda bases de apoios para as universidades, empresa ou organiza-ções com fins ecoturísticos e biológicos que desejassem fazer pesquisas decunho cientifico. E para desenvolvimento do Turismo Pedagógico. As constru-ções já existentes tornar-se-iam uma biblioteca, salão para palestra sobre MeioAmbiente, Educação Ecoturística, e de outros temas, com intuito de conscientizara população, tendo ainda um Museu da Marinha, Posto Policial e do Ibama. Nos rios e lagoas, faria-se um mini-pólo náutico com: Pedalinhos, Caíque, Barcosa Remo e Catamarã, os quais poder-se-ia fazer passeios por todos os limites doparque. Construindo-se ainda trilhas ecológicas, de madeiras, suspensas por dentrodos manguezais, proporcionando aos visitantes maior contato com a natureza, emalguns pontos seriam construídos também mirantes e/ou pontos de observação. A fim de evitar o impacto ambiental, não seria permitido o trânsito de veículos, sóbicicletas, skates, patins, podendo vir a contar com carrinhos elétricos, ou tendo,ainda, a opção de entrar pelo Rio Jordão, não sendo permitido a navegação deembarcações de grandes portes, visto que a Maré mínima é de 1m e a máxima de 9m. Com relação a construções, o Código Florestal do Recife proíbe a construçãode edificações a menos de 50 metros da lagoa e entre 51m a 300m de distânciaedificações de no máximo 2o andar. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Feito o Relatório de Impactos Ambientais (EIA & RIMA), a partir da implantaçãodo Parque dos Manguezais, constatou-se que o projeto é viável, causando danoquase 0 (zero) ao Meio Ambiente.CONCLUSÃO O objetivo primordial é não deixar um Ecossistema como esse ser destruídoem troca do progresso. A área é de uma riqueza, única, que nós recifenses epernambucanos temos: uma floresta ambiental dentro de um centro urbano.Temos que torná-lo organizado e capaz de receber visitação pública, e assim ofazendo conhecido, conseguindo mais pessoas dispostas a mantê-lo preservadopara as gerações seguintes, poder público, privado ou alguma empresa que qui-sesse adotá-lo. Destruir um Ecossistema Estuarino, desse porte significa destruirum nascedouro de vida aquático e oportunidade de sustento pra muitas famílias. Além de que asseguramos a importância cada vez maior do lazer para ohomem globalizado, sabendo ainda que o mesmo dispõe cada dia de menostempo e dinheiro para usufruir deste lazer, não podemos permitir que uma grandee inovadora opção igual ao Parque do Recife seja trocado por mais um produtodo mundo alienante em que vivemos.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]Notas3 Carnaval Fora de época do recife. Acontece no último final de semana do mês de Outubro na Av. Boa Viagem, varando toda a madrugada. Motivo de muitas brigas entre moradores e organizadores.5 Local específico para manobras de skate em forma de U.76 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: anais de congressoFormato da contribuição: resumoFonte: ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP.Anais do XV Encontro Nacional de Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003.E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista emLazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel emTurismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e SérgioHenrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e AtividadeFísica para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica doParaná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pelaUniversidade Católica de Pernambuco - UNICAP.Clube de máscara Galo da Madrugada:o maior bloco de carnaval do mundo,vivendo a cultura pernambucanaGustavo de Lira SantosSérgio Henrique Verçosa Xavier Eram os ecos dos risos dos carnavais públicos que repercutiam dentro dos muros dos mosteiros, universidades e colégios. Mikhail Bakhtin O nosso carnaval tem suas origens na Idade Média, contudo continuamosmantendo muitas de suas características básicas até os dias de hoje, principal-mente no que diz respeito ao comportamento do homem e da sociedade duranteesse período. O carnaval era a festa da carne, era um festival em comemoração à colheita eao Deus Pan (Grécia) ou Lupercus (Roma), chegando a durar até três meses.Nesse período as hierarquias eram quebradas e todo mundo se tornava igual,independente do seu trabalho ou do dinheiro que tivesse, “rompendo o cotidianoda vida social diária e mostrando-se como um tempo que privilegiava o contatopessoal e espontâneo, liberando-se de status sócia” (ARAÚJO - 1996; pág 30).Constituía-se de um tempo em que o homem não era privado de nada e tinha Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • carne e bebida em abundância e era totalmente livre, não existindo leis a não seras suas próprias. O carnaval era também uma forma de se opor à cultura erudita, as normas daigreja, já que esta considerava a diversão, inclusive o riso, “coisas do demônio”, enele existia não apenas o riso individual, mas também o coletivo, o grupal, aqueleque representava todo o ‘bem estar’ de um povo. Segundo BAKHTIN (1993: pág 09): O indivíduo parecia dotado de uma segunda vida que lhe permitia estabelecer relações novas, verdadeiramente humanas, com os seus semelhantes. A alienação sumia provisoriamente. O homem tornava-se a si mesmo e sentia-se um ser humano entre seus semelhantes. Essa segunda vida era criada e incorporada, representada e vivida pelo homemdurante o período do carnaval. Depois ele retornava à sua vida normal. A mesmaainda manifesta-se nos festejos de Momo dos dias atuais e é bem representadano trecho da música de Chico Buarque, ‘Vai Passar’: (...) Seus Filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval(...). Para compreender o carnaval não é possível estudá-lo apenas como um obje-to único, é necessário percebê-lo em conjunto. A noção de festa compreendidapor HEERS (1987; pág 222) é que “ela está indissociavelmente ligada ao seucontexto histórico e social”. A festa, concordando com o ponto de vista deCANCLINI (1983; pág 54): (...) sintetiza a totalidade da vida de cada comunidade, a sua organização econômica e suas estruturas culturais, as suas rela- ções políticas e suas propostas de mudanças. Isso é notado no nosso carnaval pelas fantasias, as pessoas fazem sempre alusão a alguém ou a algo que está no auge e sendo bastante comentado(a). Não se sabe ao certo quando o carnaval chegou a Pernambuco, só se encon-tram registros do ano de 1555, mas acredita-se que chegou um pouco antesdesse período. O carnaval entrou no nosso estado trazido pelos Portugueses e selimitava aos Entrudos, que vem do latim, “intróito” e que quer dizer introdução,referindo-se ao período que introduz a Quaresma. A brincadeira ocorria nos trêsdias que precediam a quaresma e constava basicamente em molhar as pessoascom água e sujá-las com farinha e pó.78 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Em 1901, oficiais do exército criaram o “Clube de Alegorias e Críticas Cara-Dura”. Saindo às ruas em carros puxados por cavalos, onde haviam sido instala-dos palcos para os músicos, um protótipo do que viria a ser os trios elétricos dosdias de hoje, e neles ficavam tocando marchas e músicas de carnaval, acompa-nhados sempre por multidões. Daí para frente o Carnaval Pernambucano foi sedesenvolvendo cada vez mais, criando novos ritmos e danças e ficando a cadaano o mais peculiar dos carnavais. “Pernambuco tem todos os Carnavais do Brasil”, foi o slogan que o governodo estado usou para vender o nosso Carnaval durante alguns anos em campanhaspublicitárias. A origem desta expressão é a diversidade de “carnavais” existentesem Pernambuco: temos o carnaval de Salvador, na Av. Boa Viagem, na semanapré-carnavalesca e no Bloco da Parceria (de iniciativa privada). No centro dorecife acontece o desfile das Escolas de Samba, simples e com nuances caracte-rísticos da cultura local, diferente do glamour dos desfiles de Rio e São Paulo,mas que mexe com o coração dos participantes e torcedores. Os carnavais dascidades históricas de Minas Gerais estão representados em Olinda. Resistindo aotempo ainda encontramos os famosos Bailes de clubes, com concursos de más-caras, fantasias, reis Momos e rainhas. Partindo para o interior do estado aindaencontramos manifestações em Nazaré da Mata (maractus rurais), Bezerros(papangus) e Triunfo (Caretas). Segundo SILVA (1998:pág 217): O carnaval de Pernambuco é do povo. Do Recife a Olinda, de Petrolina, no sertão, a Vitória de Santo Antão, na zona da mata, a festa toma conta de todos. Não importa se a fantasia é de rei, rainha ou de escravo, o importante, durante os quatro dias de festa, é manter a tradição de um dos mais belos carnavais do planeta. Se existe um Carnaval que possa ser batizado de plural e democrático, este é oCarnaval de Pernambuco, onde guitarras, tambores e clarins fazem uma multidãopular durante os quatro dias e ainda gritar que “acha é pouco”1. Em Olinda astroças e fantasias inusitadas continuam fazendo da cidade a detentora do Carna-val mais criativo do estado. Nos pólos de animação espalhados pelo Recife, asatrações vão de música armorial de Antônio Carlos Nóbrega até o Cocô de DonaSelma, passando pelos sons dos caboclinhos e dos maracatus, sem esquecer orock, atração do projeto Mangue Beat2. Para completar, muito frevo, símbolomaior da nossa folia, que tem em Nascimento do Passo seu maior ícone. Por isso,seja qual for o ritmo ou estilo musical, a ordem é cair na folia e só parar quandoo corpo reclamar. Por toda essa mistura de ritmos, fantasias, sons e cores e também, por namaioria de suas atrações carnavalescas não haver divisão de classe, Pernambuco Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • simboliza nos dias de Carnaval uma grande manifestação de democracia e pos-sibilidade de igualdade social. INÍCIO DO DESFILE (Principais Manifestações do Carnaval) Embora a cultura pernambucana se manifeste em inúmeras atrações, os dias decarnaval são marcados principalmente pelo Maracatu e pelo Frevo, que aindatrazem em seus rituais algumas formas de apresentação:MARACATU Trago ritmo e arte. Na Zabumba e no Gonguê sou espetáculo à parte contagi-ando, quem vê. Sou cortejo africano, sou raiz da nossa gente. Marília Branco Os Maracatus encantam o carnaval de Pernambuco por seu toque e suas cores.A palavra maracatu era usada, até o século XIX, para designar qualquer ajunta-mento de negros. Pouco a pouco passou a ser empregada para os cortejos de reisafricanos. Existem dois tipos de Maracatu: O Nação e o Rural. • Maracatu Nação ou de Baque Virado: Tem sua origem com antigos negrosescravos. Chefes tribais africanos trazidos para o Brasil reproduziam gestos danobreza européia para mostrar a sua força e seu poder, apesar da escravidão. Aboneca usada nos cortejos chama-se Calunga e encarna a divindade dos orixás,recebendo em sua cabeça os axés e a veneração do grupo. A música vocaldenomina-se toadas e inclui versos com procedência africana. Seu início e fimsão determinados pelo som de um apito. O tirador de loas3 é o cantador dastoadas. O instrumental, cuja execução se denomina toque, é constituído pelogonguê, tarol, caixa de guerra e zabumbas. É formado pelas seguintes figuras: rei,rainha, dama-de-honra da rainha, dama-de-honra do rei, príncipe, princesa, mi-nistro, embaixador, duque, duquesa, conde, condessa, vassalos, damas-de-paço(que portam as calungas durante o desfile do maracatu), porta-estandarte, es-cravo sustentando a umbrela ou pálio (chapéu-de-sol que protege o casal real eque esta sempre em movimento), figuras de animais, guarda-coroa, corneteiro,baliza, secretário, lanceiros, brasabundo (uma espécie de guarda costa do gru-po), batuqueiros (percurssionistas), caboclos de pena e baianas. • Maracatu de Baque Solto ou Rural: Tem suas origens na segunda metade doséculo XIX e deve ser uma transfiguração dos grupos chamados Cambindas (brin-cadeira masculina, homens travestidos de mulher). São uma espécie de fusão deelementos dos vários folguedos populares, que vêm às ruas das cidades próxi-mas aos engenhos de açúcar, durante o carnaval, com características e coloridopróprio. O cortejo do Baque Solto diferencia-se primeiramente do maracatutradicional, pela ausência do rei e da rainha. Um ritmo rápido de chocalhos,80 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • percussão uni sonora e acelerada do surdo, acompanhada da marcação do tarol,do ronco da cuíca, da batida cadenciada do gonguê, do barulho característicodos ganzás, um solo de trombone, e outros instrumentos de sopro que, juntos,dão ao conjunto características musicais próprias. O maracatu desfila num cír-culo compacto, tendo ao centro o estandarte, rodeado por baianas, damas-de-buquê com ramos de flores de goma, boneca (calunga) de pano ou plástico ecaboclos de pena. Rodeando este primeiro círculo vem os caboclos de lança, quese encarregam de abrir espaço na multidão, com seus saltos e malabarismos,com as compridas lanças, como a proteger o grupo.FREVO Sou passista e Pierrô, Arlequim ou Colombina. Da fantasia só sai quando a foliatermina. Marília Branco O carnaval recifense possui uma música e uma dança carnavalesca própria eoriginal, nascida do povo. De origem urbana, surgiu nas ruas do Recife entre ofinal do século XIX e começo do século XX. O frevo nasceu das marchas, maxixese dobrados; as bandas militares do século passado teriam dado sua contribuiçãona formação do frevo, bem como as quadrilhas de origem européia. Deduz-seque a música apoiou-se desde o início nas fanfarras constituídas por instrumen-tos de metal. A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, dando origem à palavrafrevo, que passou a designar: “Efervecência, agitação, confusão, rebuliço;apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direçõesopostas como pelo Carnaval”, de acordo com o Vocabulário Pernambucano dePereira da Costa. Vários elementos complementares básicos compõe toda dança, em especial nofrevo, os instrumentos musicais serviam como arma quando se chocavamagremiações rivais. As origens dos passistas são os capoeiras que vinham à frentedas bandas, exibindo-se e praticando a capoeira no intuito de intimidar os gruposinimigos. Os golpes da luta viraram passos de dança. Outro elemento complemen-tar da dança é a sombrinha, o passista à conduz como símbolo do frevo e comoauxílio em suas acrobacias. A sombrinha em sua origem não passava de um guar-da-chuva conduzido pelos capoeiristas pela necessidade de ter na mão comoarma para ataque e defesa, já que a prática da capoeira estava proibida. Pode-se afirmar que o frevo é uma criação feita para o carnaval, uma vez queos músicos pensaram em dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval.O povo queria música barulhenta e animada, que desse espaço para extravasaralegria dentro daquele improviso. No decorrer do tempo a música ganha carac- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • terísticas próprias acompanhada por um bailado inconfundível de passos soltose acrobáticos. Nas suas origens o frevo sofreu várias influências ao longo dotempo, produzindo variedades. A década de trinta serve de base para a divisão dofrevo em: Frevo-de-Rua, Frevo-Canção e Frevo-de-Bloco. • Frevo-de-rua: é o mais comumente identificado como simplesmente frevo,cujas características não se assemelham com nenhuma outra música brasileira,nem de outro país. O frevo-de-rua se diferencia dos outros tipos de frevo pelaausência completa de letra, pois é feito unicamente para ser dançado. • Frevo-canção: apareceu no fim do século XIX quando surgiram melodias boni-tas, tais como A Marcha n° 1, atualmente convertido no Hino do Carnaval Recifense,capaz de animar qualquer reunião e enlouquecer o passista. O frevo-canção oumarcha-canção tem vários aspectos semelhantes à marchinha carioca. • Frevo-de-bloco: deve ter se originado de serenatas preparadas por agrupa-mentos de rapazes animados, que participavam dos carnavais de rua da época,possivelmente, no início do século passado. Sua orquestra é composta de Pau eCorda: violões, banjos, cavaquinhos, etc. Nas últimas três décadas observou-sea introdução de clarinete, seguida da parte coral integrado por mulheres.ACORDA POVO! (O Clube de Máscaras Galo da Madrugada) Pernambuco é carnaval, dança do frevo até balé. Galo atração divinal põe o Recife de pé. O baile se inicia e transborda a demo- cracia no bairro de São José. (Marília Branco) O Clube de Máscaras Galo da Madrugada foi fundado oficialmente no dia 24 deJaneiro de 1978, dando prosseguimento a uma reunião de família realizada nomês de dezembro de 1977, na casa de Enéas Freire. Foi assim batizado porquedeveria sair no sábado de carnaval, bem cedinho, antes mesmo que o comércioabrisse, para carregar todos os foliões. Segundo Enéas Freire, presidente perpétuo da agremiação, a idéia inicial foi dese formar um clube de frevo.O assunto primordial era a diferença entre os carna-vais antigos e o atual (daquela época). A idéia de formar um bloco e colocá-lo narua durante o carnaval surgiu devido ao predomínio, na época, dos bailes carna-valescos nos clubes da cidade. O seu principal objetivo é reviver as verdadeirasorigens e tradições do carnaval de rua. Para isso, O Galo convoca e congregatodos os seus foliões em um grandioso e sensacional desfile, através das mani-festações mais espontâneas e populares, unindo clubes de frevo e grupos demascarados, nessa grandiosa festa que se realiza todos os anos com êxito.82 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Em 1979 os foliões do Galo da Madrugada começaram a cantar seu Hino, deautoria do Professor José Mário Chaves. O Hino do Galo se transformou ao longo dosanos em uma das músicas mais tocadas do carnaval pernambucano. Aos primeirosacordes, o povo cai no frevo e o canta numa enorme explosão de alegria: Ei pessoal, vem moçada Carnaval começa no Galo da Madrugada Ei pessoal, vem moçada Carnaval começa no Galo da Madrugada A manhã já vem surgindo, O sol clareia a cidade com seus raios de cristal E o Galo da madrugada, já está na rua, saldando o Carnaval Ei pessoal... As donzelas estão dormindo As cores recebendo o orvalho matinal E o Galo da Madrugada Já está na rua, saldando o Carnaval Ei pessoal... O Galo também é de briga, as esporas afiadas E a crista é coral E o Galo da Madrugada, já está na rua Saldando o Carnaval Ei pessoal... O desfile do Galo da Madrugada vem sendo realizado todos os anos na manhãdo sábado de Zé Pereira. Por tradição, O Galo começa a concentração deste dia,a partir das 5:30 da madrugada, com toques de clarins anunciando a alvorada docarnaval pernambucano, além de uma batalha de confetes, serpentinas e umasalva de fogos. O Galo desfila pelos bairros de São José e Santo Antônio, reve-renciando o frevo, juntamente com milhares de foliões. O ponto alto da festa éa chegada à Avenida Guararapes. “Nesse momento, ninguém segura o frevo. Émuito emocionante”, descreve o maestro Eraldo Santos da Frevioca4, trio quevem logo após os carros alegóricos e o estandarte do Galo, num total de trinta. A fantasia oficial do primeiro desfile do bloco foi a “alma”. Entre outras, jáapresentou o Negro do Mississipi, Pirata, Espanhol, Príncipe, Árabe, Cigano eMandarim. Este ano o galo completou 25 anos e recebeu adereços pela primeiravez, saiu fantasiado de palhaço. O circo foi o tema da agremiação no carnaval2003. “Estamos sempre inovando e, desta vez, queremos um colorido especial”,descreveu Enéas. Na decoração, assinada pelos artistas locais Ari Nóbrega, CidCavalcante e Roberto Oliveira, predominam as cores azul, branco e vermelho.Além do abre-alas, houve um carro dos bichos, onde atores se vestiram deelefantes, girafas, macacos e leões. Para homenagear os números perigosos dopicadeiro, o terceiro carro teve um trapézio e globo da morte, com circensesrealizando performances. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • O DESFILE PEGA FOGO (O Galo no Guiness Book) O sábado atualmente não é mais o de Zé Pereira. É o dia mais quente do ano, na Veneza Brasileira. Diante dos fatos me calo. Hoje o sábado é do Galo diz a multidão. (Marília Branco) Desde a sua fundação o Galo é um defensor incondicional da músicaPernambucana, sendo puxado principalmente pelo frevo. Mesmo após 25 carna-vais, conserva sua tradição musical, em seus desfiles e bailes, só se ouve músicaautenticamente pernambucana, isto é, frevo, frevo canção, frevo estilizado emarchas, além de Maracatu e Caboclinhos. Os dirigentes pretendem perpetuar asraízes do carnaval do estado, divulgando sua música para várias gerações. O Galo é um bloco democrático, um Carnaval participação, pois não há fron-teiras nem cordões de separações, foliões fantasiados, diretores, povão e pes-soas de todas as classes se transformar numa massa humana, em mar e ruas degente, é o que os diretores dele chamam de “Carnaval do Povo”. O bloco tem a honra de ter sido o criador de um novo tipo de carnaval querespeitando o passado e a tradição, adaptou-se ao presente. Percebendo que asorquestras a pé, não atingiam a grande massa de foliões, lançou a partir de 1983,as orquestras em trios elétricos, sem fugir a sua identidade: só tocar frevo. Acredita-se que estes três fatores agregados seja o diferencial do Galo paraconseguir arrastar uma multidão tão fiel durante todos esses anos. No primeiroano foram 75 foliões, no segundo 300 e daí por diante não parou mais de crescer.No sábado de Zé Pereira o centro do Recife transforma-se num mar colorido,com milhares de foliões fantasiados, carros alegóricos e orquestras que nãoparam de tocar o contagiante frevo pernambucano, arrastando, atualmente,mais de um milhão e meio de pessoas, transformou-se na maior concentraçãopopular promovida por um só bloco de carnaval. Não é à toa que o Galo daMadrugada está presente, desde 1995, no livro de recordes, Guiness Book, como“O Maior Bloco Carnavalesco do Planeta”. Vários blocos se aliam à grandiosa festa, na véspera da saída do Galo. OBloco Azulão, realiza um Acorda Povo5 na noite de sexta-feira para a madru-gada de Zé Pereira. Outros blocos e grupos aderem ao cortejo no final dodesfile do Galo como o Rabo do Galo, que insiste em não deixar o Galo acabarantes do fim do dia. E por último, o mais famoso deles todos, a Galinhad´água, criado pela Secretaria de Turismo do Recife, com o objetivo de reve-renciar o Bloco. A Galinha d’água promove um evento simultâneo usando abacia do Rio Capibaribe como concentração, em frente à ponte Duarte Coe-lho, deste ponto um desfile de barcos transforma-se em um verdadeiro car-naval aquático.84 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A RESSACA (Conclusões) A nossa vida é um Carnaval, a gente brinca escondendo a dor! (Capiba) É de fazer chorar. Quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar. Oh! Quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra con- trariar. Quem é de fato um Pernambucano espera o ano pra cair na brincadeira, esquece tudo quando cai no frevo e no melhor da festa vem a quarta-feira. (Luis Bandeira) A música de Luís Bandeira nos passa uma boa impressão do que é o Carnaval,não só para Pernambucano, mas para todos os povos que tem essa festa em suacultura, um momento de fuga, de extravasar todas as tensões do dia-a-dia. Sãoquatro dias para o folião vestir a fantasia e ser quem ele quiser, repondo asenergias para voltar a sua vida real. E é no Galo da Madrugada onde ele consegue transparecer de melhor forma,pois é uma festa para todos, sem distinção de cor, raça ou classe social, ondetodo o homem torna-se igual, um folião anônimo. Mostrando, principalmente, para as gerações mais novas, que temos cultura eritmos capazes de serem tocados em trios elétricos ou na nossa frevioca edeixar qualquer um “frevendo” e pedindo mais. Mantendo assim viva a nossa raizcultural e sem perder seu espaço com isso, pelo contrário, conseguindo a cadaano aumentá-lo.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]NOTAS6 Acho é pouco era o bloco que encerrava, oficialmente, o carnaval de Olinda na quarta-feira de cinzas, sai depois do Bacalhau do Batata. Atualmente quem faz o encerramento é o Bloco Maluco Beleza de Alceu Valença, que se concentra em frente a sua casa para escutar o cantor.2 Mangue Beat: Movimento que busca valorizar a Cultura Popular Pernambucana interligado com as novas tendências mundiais.3 Loas: Toadas cantadas para reverenciar seus mortos, na qual inclui versos de procedência africana.4 Frevioca: Transporte adaptado que leva uma orquestra de frevo, parecido com um trio elétrico, porém menos potente. Inventado em 1979, por Pedro Martins e Leonardo Dantas, sendo o pioneiro um caminhão com alguns bancos e alto falantes na carroceria.5 Acorda povo!: Grupo de foliões que saem pelas ruas no sábado, junto com o amanhecer do dia, acordando a cidade para mais um carnaval. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2003 Publicação original: revistaFormato da contribuição: artigo (texto completo)Fonte: BRUHNS, Heloisa T.; MARINHO, Alcyane. Lazer e meio ambiente: multiplicidadede atuações. Licere. Belo Horizonte: CELAR – UFMG, v.6, n. 2, 2003.E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com, luabola@uol.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação peloDepartamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado eDoutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), naÁrea de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMPe em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia daEducação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos doLazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP.Lazer e meio ambiente:multiplicidade de atuaçõesHeloisa Turini BruhnsAlcyane Marinho Novas sensibilidades relacionadas às questões ambientais têm possibilitadoabertura para novas mentalidades, engendrando uma diversidade de práticas;dentre elas, destacamos as viagens à natureza e as práticas esportivas atreladasàs mesmas. A associação de práticas esportivas à natureza não é nova, porém asformas mais recorrentes e sensíveis como tais atividades têm ocorrido estãodespertando, cada vez mais, novos olhares. Preocupadas em compreender os movimentos ambientalistas em seus des-dobramentos, sejam preservacionistas, exploratórios ou modismos, busca-mos uma aproximação, no sentido de um olhar curioso e indagador, nãopretendemos desvendar grandes verdades (referentes a grandes descober-tas), mesmo porque estas talvez nunca tenham existido. Portanto, o objetivopretendido neste artigo enfocará questões relacionadas ao ecoturismo, comoessas práticas esportivas, nas quais se manifestam várias contradições, bemcomo algumas ações referentes ao movimento ambientalista, envolvendonovos conceitos sobre cidadania. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Não mais estruturada a partir de pólos unificados, a vida social se alimenta nosmodos e costumes contemporâneos, confrontando-se com a heterogeneidadesob suas diversas formas e aspectos contraditórios. Mais que a presença de umpoder, presencia-se uma “potência da socialidade”, emprestando o termo deMaffesoli (1998:5), para o qual esta pode se manifestar, subvertendo a ordemestabelecida na forma do silêncio, da astúcia, da luta, da passividade, do humor oudo escárnio, resistindo à imposição do poder. Portanto, o insignificante faz senti-do, uma vez enfrentando instituições macroscópicas e dominantes. Revela-se umadimensão crítica no movimento contemporâneo, não negando aqui suas ambigüi-dades, e, portanto, não dispensando a necessidade de discernimento e superação1. A perspectiva ecológica revela-se como uma das formas de contemplação, aolado da estética, de uma “política” diferenciada 2, das diferentes formas do modode cuidar de si e dos diversos cultos do corpo. A presença de uma “ética dasimpatia” fortalecendo a ligação social, através da comunhão com a natureza,permite compreender situações de fusão e momentos de êxtase, caracterizadoresdo clima contemporâneo. Novos vínculos sociais são formados, surgidos a partirda emoção compartilhada ou do sentimento coletivo, estabelecendo conexõesentre a ética e a estética (Maffesoli, 1996;1998). Tomando como base essas reflexões, vamos explorar os objetivos inicialmen-te propostos.VIAGENS E PRÁTICAS ESPORTIVAS No panorama contemporâneo ocorrem algumas viagens, nas quais a naturezaé utilizada como denominador comum, identificadas sob vários rótulos, comoecoturismo3, turismo de aventura, turismo verde, turismo rural ou agroturismo,turismo sustentável, dentre outras4 , agregando novas práticas esportivas, taiscomo: trekking, rafting, canyoning, escalada, exploração de cavernas, etc. Na crescente expansão de um público alvo constituído por estudantes decursos técnicos e de especialização; bem como numa frente ampla de mercadode trabalho, este tema desponta denotando grande relevância para a área daEducação Física, abordado em várias dissertações de mestrado e teses de dou-torado tanto na área quanto fora dela. Uma das mais recentes produções refere-se a uma coletânea organizada focalizando as interfaces entre o lazer, o turismoe a natureza, a partir do diálogo com profissionais de diferentes áreas de atua-ção (Marinho & Bruhns, 2003). Estes representam alguns dos avanços da temática em questão, nos últimosanos, a qual constitui-se numa exceção nas universidades, como mostrado empublicações recentes (Marinho & Seabra, 2002). Tal panorama exige, portanto,88 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • investigações mais direcionadas e especialização correspondente, com o intui-to de suprir uma grande demanda em emergência. As “novas” atividades esportivas respondem a concepções de vida, inspiradasno “ecologismo”, apoiados em ideologias ambientalistas e/ou místico-religio-sas, incluindo modalidades alternativas de baixo investimento de capital fixo,porém com alto retorno financeiro (Ribeiro e Barros, 1997:30). Essas concepções vinculadas ao ecoturismo, embora considerando vários aspec-tos, como os problemas oriundos do choque cultural, a problemática questão doretorno parcial da renda obtida pela atividade para a população receptora e outras,parecem permanecer com suas questões perversas geradoras de mudanças e resul-tados inesperados e indesejáveis, além de diversos tipos de dependências (idem). Tais práticas necessitam reflexão e discussão, pois se refugiam sob a adjetivaçãodo ecológico, na medida em que este representa “uma relativização dos sentidosdessas mesmas práticas, que já estariam então ‘dados’ pelo próprio funciona-mento da sociedade” (Silva, 1997:145). Presencia-se, portanto, uma legitimaçãodessas práticas, revestidas por um adjetivo, o qual por si só torna-se suficientepara execução de qualquer proposta dessa espécie, mesmo esta não estandocomprometida com nenhum vínculo educativo, valorizando e difundindo as di-versidades cultural e biológica. Nessa mesma direção, embora argumentando sobre a utilização do adjetivoambiental, Sorrentino (2002:91) alerta como a expressão “educação ambiental”tem sido percebida por distintos setores da sociedade, constituindo-se numaatraente chave para a abertura das mais diferentes portas. Uma chave de múlti-plos usos, no primeiro momento, aproximando-nos de tudo e de todos, mas, emseguida, tornando-se um chavão difícil de carregar, em função das expectativascriadas em torno das soluções almejadas. Mais que apontar a grande complexidade de relações nas quais a educaçãoambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, asnecessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autorsupracitado mostra a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além deum adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa-cional mais amplo, ainda que possua suas especificidades. Compartilhamos com Lima (1999) sobre a ausência de sentido na tentativa derelacionar educação ao meio ambiente, superdimencionando o poder da educa-ção na transformação dos problemas ambientais e tratando-a como uma novapanacéia para todos os problemas no contexto social contemporâneo. Mesmoreconhecendo a importância da educação na mudança social, é preciso tratá-lacomo uma entre outras práticas capazes de compor uma estratégia integrada de Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • transformações sociais e não de forma isolada no processo de transformaçãodas relações de poder na sociedade. Retomando a discussão, o discurso sobre a afirmação da natureza como umdireito de todos (“a natureza é de todos”5), não vem para responsabilizar oturista, como mostra Silva (op. cit.:148), mas para este se colocar “em igualdadede direitos com as populações dos diversos locais”. A autora citada (op.cit.:149) discute sobre uma dupla destituição das comuni-dades tradicionais ocorrer no funcionamento desse discurso ecológico, referen-te aos aspectos jurídico e econômico. Quanto ao primeiro, “pela afirmaçãogeneralizada dos direitos sobre a natureza, com a qual, nos lugares determina-dos, turistas e comunidades tradicionais, que não têm o mesmo vínculo, possamter os mesmos direitos”. Quanto ao segundo, “na afirmação da sua pobreza, oque significa que a riqueza natural desses lugares, não é a riqueza para as popu-lações, mas para o turista”. A existência de certos lugares ocorre pelas palavras que os evocam, “não-lugares”, no sentido desenvolvido por Augé (1994:88), ou seja, “lugares imaginá-rios, utopias banais, clichês”. Tomamos aqui, como ilustração o folheto infor-mativo da Venturas & Aventuras Viagens e Turismo, onde numa coluna, com otítulo “Brotas - a antiga cidade fantasma abriga o espírito de aventura”, passa-gens podem ser destacadas: “Renasceu nos meados dos anos 80, graças ao espírito de aventu- ra. E hoje é a capital dos esportes radicais do Estado (...). A ex- cidade fantasma se tornou o éden do turismo de aventura (...). Para quem, como eu, gosta de aventura, adrenalina e um fim-de- semana longe de São Paulo, junto a uma galera muito legal (...). Enfrentar corredeiras, num rafting animal...” Exemplos como este ilustram o distanciamento para criar o espetáculo, numasérie de visões “instantâneas”, as quais ganham mais realidade no regresso daviagem, quando voltarmos a vê-las através de fotos ou filmagens. A evolução do número de adeptos a essas experiências de aventura na nature-za têm crescido de forma assoberbada, trazendo uma questão interessante so-bre a prática do ecoturismo e das atividades relacionadas ao mesmo, as quaisnão têm sido promovidas por federações, associações, nem sequer entidadesadministrativas governamentais, senão por agências de viagem, oferecendomúltiplas possibilidades ao gosto e possibilidades financeiras do consumidor,sendo uma das opções de lazer mais sólidas, dentre as surgidas nas duas últimasdécadas6.90 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O município de Brotas é um bom exemplo para evidenciar essa grande deman-da, embora sem a precisão do número de adeptos. Uma pacata cidade no interiordo Estado de São Paulo, situada a 247 km da capital, com 18.000 habitantes,tornou-se um ícone do ecoturismo e dos esportes de aventura, devendo o turistaenfrentar longas filas em finais de semana ou feriados. Teve seu auge de desenvolvimento no início do século com a cultura do café emfazendas que estão lá até hoje, com dedicação à criação de gado de corte e deleite, plantio de laranja, eucalipto, cana-de-açúcar e, mais recentemente (poucomais de cinco anos), abrindo as possibilidades para o turismo. Portanto, a práticados esportes de aventura ocorre, atualmente, nessas propriedades particulares. Em 1994, a Coordenadoria de Turismo da Prefeitura Municipal elaborou um“Pré-projeto para o desenvolvimento turístico de Brotas”, destacando sobre umgrupo de brotenses, formado por integrantes da organização não-governamen-tal “Movimento Vivo” e da Secretaria do Meio Ambiente, além de outros mem-bros da sociedade civil, apoiados pela Prefeitura Municipal, ter realizado, a partirde 1993, “expedições” às cachoeiras do município, tendo como objetivo, alémde conhecer as potencialidades naturais, avaliar e documentar a possibilidade deexploração do turismo ecológico. Esta proposta surgiu da necessidade de sebuscar uma alternativa econômica que pudesse desenvolver o município e aomesmo tempo conservar uma das maiores riquezas que Brotas possui, ou seja:suas águas limpas e belezas naturais. Segundo o documento, simultaneamente a esse trabalho, a Secretaria de Es-portes e Turismo do Estado de São Paulo (SET), organizou e lançou um projeto deregionalização e interiorização do turismo, no qual os municípios do Estadoforam agrupados em 14 núcleos, cinco dos quais já tinham sido implantados em1994. Brotas, por decisão da própria SET, havia sido incluída no sexto, no Núcleodas Serras. Essas questões vêem ao encontro do destacado por Graziano da Silva e outros(1998:29), sobre o turismo em áreas rurais (uma vez que as cachoeiras locali-zam-se em fazendas e pequenas propriedades rurais) estar sendo pensado maisrecentemente no Brasil como “uma fonte adicional de geração de emprego erenda para famílias residentes no campo, à medida que vem decaindo a ocupa-ção e as rendas provenientes das atividades agropecuárias tradicionais”. Destaforma, podem ser criados tipos de trabalho com reduzidos volumes de investi-mento7, advindo daí a possibilidade de estabelecer-se em áreas as quais nãodispõem de recursos turísticos extraordinários, tendo como conseqüência afacilidade de estender-se para amplas regiões do território. A partir dessas pers-pectivas uma outra surge, destacando o ecoturismo como um fator importantena gestão do território, dada sua capacidade de desenvolvimento daspotencialidades endógenas de determinado local. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • De certa forma, o ecoturismo se destaca como um empreendimento sem rela-ção com a dinâmica da agropecuária da região e, dessa forma, diferencia-seconceitualmente do turismo rural, o qual agrega atividades de lazer, as quais seassociam à recuperação de um estilo de vida dos moradores do campo8. Deve seranalisado, segundo os autores supracitados (ibid.:15), dentro da ótica das “no-vas funções” adquiridas pelo meio rural paralelas às funções tradicionais daagropecuária, as quais, além desse lazer, promovem a conservação doecossistema e dos recursos naturais, educação ambiental9, proteção da paisa-gem, manutenção do território10, etc. Por outro lado, as atividades, nas quais a pretensão de cunho ecológico émanifestada, têm-se restringido a fatores físico-bióticos do meio ambiente, re-legando a planos de menor importância os aspectos socioculturais e político-econômicos característicos das populações locais. Portanto, a redefinição dosmodelos de desenvolvimento pautados nos “critérios ecológicos”, tem aconte-cido, como discutem Ribeiro e Barros (op.cit.:39), “muito mais no sentido de umaadequação à idéia de ‘equilíbrio com o meio natural’ do que em relação à dejustiça social, ao reconhecimento das populações humanas como os verdadei-ros sujeitos do meio ambiente”. Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas no ecoturismo,acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, osmovimentos sociais e o respeito pela alteridade, corre-se o risco da apelaçãopor uma política sectária e estreita, na qual o respeito pelos outros pode seperder numa competição por entre os fragmentos11. Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariaise políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável,desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes,expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser-vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos-tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística enos benefícios advindos da mesma.AS NOVAS CIDADANIAS Se a edificação da ciência realizou-se graças à objetivação do natural, evacu-ando-o da esfera social, atualmente percebemos uma inversão, constituindo-seo componente natural como “penhor da performatividade”, a natureza permitin-do uma espécie de “enraizamento dinâmico”. Uma mentalidade ambientalista manifesta-se na atualidade, resgatando a ne-cessidade erótica de manter aceso o desejo de viver, como coloca Cascino92 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • (1998:269), estando implícito um pensamento complexo, abrangente, “multi-centrado, abarcando inúmeros aspectos da vida contemporânea, permeandooutras conjunturas e necessidades humanas, redesenhando a arquitetura do de-sejo humano de viver bem, ampliando o discurso sobre o meio, sobre as exigên-cias e condições de qualidade de vida”. Nesse cenário, conforme o autor (idem:266), surge uma noção deambientalismo, na qual está embutida não apenas a preservação, de maneiraisolada e estanque, mas integrando uma infinidade de conteúdos, decomplexificação do conhecimento, articulando uma visão diferenciada sobre osacontecimentos naturais, socioculturais, político-econômicos, num entendimentodo ser humano como elemento de co-responsabilidade, fundamental, em tudo oque ocorre no que se refere à sobrevivência física do planeta e da própria quali-dade de vida em um sentido amplo, renovado e diferenciado. Nessa direção,prossegue o autor, “as novas configurações do expressar a política, o fazer reivindi- cações, o agir sobre os temas de interesses e importância na defesa de territórios existenciais coletivos e individuais, se re- veste de inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até en- tão intocados da expressão humana, rompendo com velhas men- sagens, envelhecidas cores de expressão dos desejos”. A cidadania seria compreendida como algo em contínua construção, constitu-indo-se à medida que dá significado de pertencimento dos indivíduos a umasociedade, conforme cada fase histórica (Loureiro, 2002). Observamos ações diversas, as quais provavelmente não seriam realizadas háalgumas décadas (ou talvez seriam consideradas sem propósitos), como observarabutres na Croácia ou baleias nas Ilhas Canárias, contar a população de morcegos“raposa voadora” na Índia, salvar macacos na África do Sul ou acompanhar onascimento de tartarugas no Brasil - conceitos da nova cidadania mundial. Voluntários específicos oriundos de diversas partes do planeta chegam a de-sembolsar quantias consideráveis (US$1,8 mil) em viagens para participar emprogramas dessa espécie, onde 77% do valor pago é destinado ao programa,conforme a reportagem “ONG ecológica recruta voluntários pelo mundo”. Denominados “ecovoluntários”, viajam para trabalhar, podendo observar ba-leias-piloto nas Ilhas Canárias, durante duas semanas, por US$325, com direito ahospedagem e refeição, mapeando a população de baleias, até poucos anos alvode matanças. Policiam o ecoturismo marinho e instruem a população sobre aimportância da preservação. Também preparam a comida e ajudam na limpezado barco, onde ficam hospedados. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Nem todos os programas ecológicos são sinônimos de pouca estrutura, como omapeamento das populações de baleia-azul no Canadá, onde a hospedagem ocor-re em hotel, janta-se em bons restaurantes da região de Gasperie, próxima a Mon-treal e paga-se caro, como indicado na reportagem - US$1.840 por uma semana. Alertando sobre o respeito à cultura local ser primordial, a representante doPrograma Ecovoluntário afirma sobre essa ONG orientar os participantes sobreregras de conduta na tentativa de evitar conflitos. Constata-se, no movimento contemporâneo, um crescente fascínio pelo “estarem relação”, como expõe Sant’Anna (1993:261), atrelado ao aumento vertiginosodas tecnologias prometendo acesso rápido, tanto ao mundo exterior quanto aonosso mundo interno, - “um corpo informatizado, relacional, em comunicação,dispersado e literalmente ligado”. Paralelamente cresce o “receio de não saber ondepairam, onde pisam, onde moram nossos corpos (...) como se os lugares que ocupa-mos, os solos sobre os quais caminhamos e habitamos não cessassem de partir”. As novas tecnologias convidam para “estarmos em comunicação” com o mundo.No mesmo sentido, esclarece a autora (idem), “tem-se uma ampliação da per-cepção e da freqüência em que cada indivíduo se coloca em relação com opróprio corpo e com os demais corpos, mesmo pela via virtual”. Conectar-se, igualmente, tornou-se sinônimo de cidadania aponta a reporta-gem “Ecologistas usam e-mail e sites para fazer campanhas”, apontando como aInternet constituiu-se no meio e no ambiente propício aos ecologistas, os quaisaproveitam a rede para divulgar suas propostas e realizar campanhas virtuais,principalmente abaixo-assinados eletrônicos12, bem como angariar doações. Os temas são variados: Angra 2, alimentos transgênicos, geladeiras ecológi-cas, preservação das baleias, dentre outros. A campanha “Proteja os Parques do Brasil” enviou ao Congresso Nacional e-mails assinados por participantes internautas, solicitando a aprovação imediatado Sistema Nacional de Unidades de Conservação, cuja carta foi lida por 39parlamentares. A Rede Nacional Contra o Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) criou um sitepermanente de fiscalização. Os conectados podem fazer denúncias pela página ouaté mesmo relatar suspeitas. A RENCTAS os encaminha à Polícia Federal e a outrosórgãos responsáveis e ainda promovem campanhas de preservação da fauna. Retomando Loureiro (op.cit.), na contemporaneidade, o conceito de cidada-nia envolve complexos conjuntos de direitos e responsabilidades sociais, nãomais limitados aos padrões tradicionalmente estabelecidos, mas sim pensados,94 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • produzidos e reproduzidos em um sentido global. Desta forma, os exemplosacima citados são apenas alguns diante das muitas ações existentes, na busca demecanismos efetivos de participação e poder de decisão em movimentos sociaisque fazem parte da sociedade civil nos âmbitos nacional e internacional, confor-me a compreensão de seus participantes. O discurso ambiental, conforme Ferreira (1999), não representa somente odiscurso voltado ao ambiente, abarcando também o processo social, por meiodo qual ele é construído e transmitido. Assim, as inúmeras tentativas de aproxi-mação da natureza podem representar possibilidades de compreensão do mo-mento atual, bem como o discernimento de nosso papel como sujeitos ativos noprocesso de construção de uma “cidadania ecológica”, utilizando a expressãode Loureiro (op.cit.). Por expressar o comportamento de uma época, concluímos que o ecoturismo,o qual está atrelado ao movimento ambientalista, desenvolve uma lógicacontextual integrando vários elementos da realidade social, expressando valo-res, comportamentos, idéias, manifestados na atualidade, justificando a impor-tância e a relevância pela sua compreensão. Sua complexidade ultrapassa, dessaforma, a frivolidade da aparência para se constituir em um campo fértil de inves-tigação social, não suportando uniformidades em uma pretensa homogeneização,mas o entendimento de sua manifestação em situações peculiares e específicas.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]Notas13 Em dois textos produzidos anteriormente, “Lazer, cultura e tecnologia: discussões envolvendo aspectos da globalização” e “Lazer e Tempo: buscando compreensões no processo de globalização”, procurou-se desen- volver uma crítica relacionada a aspectos como o desemprego, a espetacularização da vida atrelada a uma artificialização e a questão da compulsividade do tempo, dentre outras.2 Mafessoli (op. cit.) discute como estamos vivendo em um quadro de desengajamento político, onde a satu- ração dos grandes ideais longínquos e a fraqueza de uma moral universal podem representar o fim de uma determinada concepção de vida, nascida sobre o domínio dos indivíduos e da natureza; porém, por outro lado, isso também pode mostrar que uma nova cultura pode estar surgindo.3 De acordo com Ceballos-Lascurian (citado em Pellegrini Filho, 1993:138), o ecoturismo consiste em “viagens por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o objetivo específico de estudar, admirar e fruir a paisagem e suas plantas e animais, tanto quanto manifestações culturais (do passado e do presente) encon- tradas nessas áreas. Nesses termos, o turismo orientado para a natureza implica uma colocação científica, estética ou filosófica (...). O ponto principal é que a pessoa que pratica ecoturismo tem a oportunidade de mergulhar na natureza de uma maneira normalmente não possível no meio ambiente urbano”.4 Essas questões foram tratadas no capítulo “Visitando a natureza, experimentando intensidades”.5 Obviamente este discurso encobre o fato de que, embora a natureza seja de todos, nem todos são verdadei- ramente iguais, num sistema em que as trocas são bastante desiguais.6 De acordo com o documento “Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo” (Embratur/Ibama, 1994:12) o ecoturismo “é um segmento que tem crescido a um ritmo considerável ao longo dos anos...”. Há um con- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • senso entre os empresários “de que este é um mercado em franca expansão, sendo estimado o seu crescimento em cerca de 20% ao ano, conforme resultados obtidos em entrevistas realizadas junto a operadores turísticos especializados e peritos e na observação do crescimento de agências operadoras de ecoturismo”.7 Os autores destacam como a Espanha tem se valido em larga escala dessa estratégia.8 Com exemplo, podem ser citados os pesque-pagues, as fazendas de caça, as cavalgadas, os hotéis-fazenda, os restaurantes típicos, os artesanatos, as industrializações caseiras. São atividades internas à propriedade gerando ocupações complementares às atividades agrícolas.9 Algumas fazendas estão desenvolvendo projetos de estudo do meio para escolas, baseados na história de sua própria produção (café, algodão, etc.).10 Em um depoimento um dos proprietários das fazendas locais expressa sua indignação pelo lixo acumulado em sua propriedade, obrigando-o a retirar duas carretas de garrafas de plástico e outros dejetos, somente do estacionamento de carros, antes da descida da trilha para as cachoeiras. Esse fato, associado ao apelo da Prefeitura para abrir a propriedade ao ecoturismo, conduziu-o a criar infraestrutura para coleta de lixo, bem como orientação para os usuários, no sentido de não depredarem o ambiente (Artigo “Brotas garante diversão com ecoturismo” - Folha de São Paulo, 21/6/1999).11 Graziano da Silva e outros (op. cit.:17) discutem como as rendas geradas pelo ecoturismo em geral pouco estão beneficiando as populações locais, onde este ocorre, permanecendo concentrada nos agentes intermediários oriundos dos centros urbanos, bem como em empreendimentos externos.12 A reportagem relata como o Greenpeace do Brasil conseguiu 12 mil assinaturas por e-mails em uma campanha pedindo a proteção das baleias do Atlântico Sul..96 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: anais de congressoFormato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas)Fonte: I Congresso Maranhense de Turismo, Hotel Vila Rica - 27 a 29 de março de 2002.E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federalde Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciênciasda Saúde; Mestre em Ciência da Informação.A formação técnica e oseu papel no mercado turísticoLeopoldo Gil Dulcio Vaz Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de-senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida-de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega maispessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil.O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais erepresenta cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula acriação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte-sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou-tras atividades. O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui-ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine-quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu-rismo no Brasil, através: • do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo; • da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de sua origem e interesses; • da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e cul- turais; • da elaboração de diagnósticos realizados com base nos dados levantados sobre as diversas regiões e municípios; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • da capacitação dos prestadores de serviços; • da educação para o turismo; • do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino; • da sinalização, informação e programação visual das cidades; • das ações de preservação e restauração; e • ao acompanhamento e avaliação, Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria-ção de novos negócios e consequentemente • a geração de novos postos de trabalho, e • contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam servi- ços para o turismo, visando qualidade e produtividade; As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suasrelações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas considera-ções básicas: • a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois olazer é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz partedo mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o daprestação de serviços; • essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmenteno setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreasabrangidas pelo lazer); • Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias,principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo comcaracterísticas muito particulares, havendo um grande crescimento no setorterciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimentode novos postos no setor de serviços; • O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nasáreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (oque exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco-lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, alémde habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e culturageral, que não necessariamente apreendidos numa escola).98 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Essa nova realidade da economia é evidente nos países desenvolvidos. Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, aindaapresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. Aestrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveisabertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos epráticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos: • O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil; • Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para obom funcionamento de serviços aos clientes; • Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo; • Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formaçãoem turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer; • Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimascondições de operar na área; • Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, eassim não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, for-mação e reciclagem de mão-de-obra especializada; • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer éum direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, otransporte e a educação. (TRIGO, 1995) A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutorade desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen-to de novas atividades econômicas. O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interfacedos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizemo turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional. Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação erequalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para oMaranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo dedesenvolvimento do turismo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Além disso, os cursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam umavisão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves-timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen-volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo deforma sustentável e consciente.CENÁRIO EM QUE SE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápidoretorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligaçãocom os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribuipara o desenvolvimento de diversos países. Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de formaorganizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e otem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi-mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação doturismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasilestá muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformaçãodo potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado doMaranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará eTocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu-indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estadosdo Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 ,que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca-liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu-ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridezdo Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia: Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandesatrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos deEcoturismo e Turismo Cultural. Os principais setores produtivos do Maranhão são: • a agropecuária, • indústria e comércio, e • turismo. O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho erenda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse,por homogeneidade e proximidade dos atrativos:100 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • Zona de Patrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís,Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reconhe-cida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara, tomba-da pelo Patrimônio Histórico Nacional. • Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas,Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo deecoturismo onde se encontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, comuma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o Deltado Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de igarapés,mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território maranhense. • Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú,Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseridosno Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal. • Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Ria-cho, Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maioresáreas preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador,com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e florada região. • Zona dos Lagos O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas,sendo que na do Turismo apresenta-se: • Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços dehotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com aproteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas,Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro; • Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos princi-pais pólos de ecoturismo do Estado; • Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamare Morros.O QUE DETERMINA ESTE QUADRO O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem,alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • organização de eventos, entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio-nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando aatividade complexa e de difícil mensuração. No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo. O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade deacesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandesdificuldades a serem superadas no turismo.OPORTUNIDADES Investimento na formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formaçãoprofissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos CursosTécnicos na área de Turismo. Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários,técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera-ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social. Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismopropõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor deaceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais.OS CURSOS TÉCNICOS DE TURISMO TÊM COM OBJETIVOS: • Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitamprioritariamente uma atuação na área de turismo; • Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parquesde lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos voltadospara um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro poliesportivoem geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis de lazer; resorts;colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadual e nacional, quandotêm unidades de hospedagem, camping, acampamentos; pousadas em locais reti-rados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousadas em cidades turísticas. • Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas; • Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional;102 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • Considerar interesses do aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo.DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL: TURISMO Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, daAssociação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo –ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seumaior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340,conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun-do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto aindamais significativo, chegando a 10.000 em 1996. Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da-dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a suavariedade e diversificação, além da falta de critérios estatísticos que possibili-tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação deprogramas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção,apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo daABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor-nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantesestrangeiros do setor. Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi-dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial. A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa-rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida-des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (ReuniõesTécnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares,1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo,1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991). Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área,entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, suainternacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais. Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de: • ampliação considerável de possibilidades; • maiores exigências de: • mobilidade, • disponibilidade, • polivalência, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • adaptabilidade, • capacidade de comunicação, • integração em equipe, • animação. O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação deprodutos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviçosturísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís-tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici-pantes e públicos locais). Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventose de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores,hotéis e outros meios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, decultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades sãorealizadas na forma de trabalho autônomo. Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun-ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão. Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas nageração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais doprocesso e no resultado final para o cliente/usuário. • Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulaçãodo agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, eda promoção de eventos e de lazer. • Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi-ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu-des e expectativas das clientelas efetiva e potencial. • Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itineráriose de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação comprestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de apoio. • Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e acomercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer. • Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi-ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento eoperacionalização da política comercial.104 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • Subfunção 2.2. Comercialização de produtos e serviços turísticos e delazer, com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva epotencial. • Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo deexecução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção deeventos e de lazer. • Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dosnúcleos de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, ecom supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento comqualidade. • Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtose na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pelaprevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de rela-cionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, formaçãoe desenvolvimento do pessoal. • Subfunção 3.3. Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen-to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos emeios informatizados de informação, comunicação e gestão. • Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro-dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visãomercadológica prospectiva e inovadora. • Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidadedos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente. Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi-ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, quecondicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções.A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos daaprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas.CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definidaem 750 (setecentos e cinqüenta) horas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • TURISMO - PROCESSO DE PRODUÇÃO FUNÇÕES PLANEJAMENTO SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização. SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários. PROMOÇÃO E VENDA SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, eidentificação e captação de clientes. SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços GESTÃO SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos detrabalho. SF 3.2 - Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e naprestação dos serviços SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento SF 3.5 - Acompanhamento pós-execuçãoFunção 1 – PLANEJAMENTO SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO. COMPETÊNCIAS • Interpretar legislação pertinente • Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos. • Identificar e avaliar: • os meios e recursos disponíveis • informações sobre as clientelas efetiva e potencial • as oportunidades de mercado • sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos quantitativos e qualitativos das clientelas • identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela106 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • identificar, avaliar e selecionar informações geográficas, históricas, artísti- cas, esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas, artesanais, gastronômicas, religiosas, etc.• identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, res- taurantes• identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes, recreação, artes, cultura, espetáculos• programar os produtos e serviços a serem oferecidos• avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços• organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços programados• elaborar orçamentos• definir estrutura organizacional• definir a política comercialHABILIDADES• utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos• referenciar o estudo de viabilidade com a execução• adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das cliente- las• conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos• estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura organizacional• controlar orçamentos• elaborar quadro de pessoal• supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços• articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de produtos• aplicar “softs” específicos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos • leitura e elaboração de estudo de viabilidade • organização de roteiros e itinerários • elaboração e redação de normas e manuais • leitura e elaboração de orçamentos • descrição de cargos/funções e salários • comunicação e relações interpessoais e grupais • interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação aplicável à área (federal, estadual e municipal) • tipologia e classificação de: • meios de transporte • de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol. SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS, ROTEIROS E ITINERÁRIOS. COMPETÊNCIAS • identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospeda- gem, transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entre- tenimento e animação sócio-cultural • identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou serviço • identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios de apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios, decoração) • elaborar e interpretar orçamentos • interpretar contratos108 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • selecionar e coordenar a contratação de fornecedores de programas, rotei- ros, itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e prove- dores de infraestrutura e de meios de apoio HABILIDADES • controlar os orçamentos • controlar a execução dos contratos • efetivar os meios para produção da oferta • contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, rotei- ros, itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio • organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de serviços • supervisionar serviços de terceiros BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de elaboração de roteiros e itinerários • técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables” • técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos • técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos • técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e proce- dimentos específicos da área • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanholFunção 2 - PROMOÇÃO E VENDA SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS PRODU- TOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES. COMPETÊNCIAS • interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • identificar e avaliar: • informações sobre as clientelas efetiva e potencial Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • as oportunidades de mercado • sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis • identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese • planejar a política comercial • organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e institucionais • identificar fatores que influem na atração do cliente. HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas • efetivar os meios para produção da oferta • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários • articular-se e negociar com organizações públicas e privadas e com demais segmentos do “trade” turístico • organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contra- tantes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos, organizações de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empre- sariais, profissionais e comunitárias • estabelecer e negociar ações de publicidade • operacionalizar a política comercial BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos • de comunicação e relações interpessoais e grupais • “marketing” e de venda • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol • características sócio-econômicas e culturais do cliente110 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • SUBFUNÇÃO 2.2 – COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS COMPETÊNCIAS • direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas • organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente • estimar custos e preços • elaborar orçamento • calcular e fixar preços HABILIDADES • atender o cliente • zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente • preparar e conduzir a equipe de trabalho • negociar e contratar a venda • controlar orçamento BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de leitura e elaboração de orçamentos • cálculo de custos • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • de “marketing” e de venda • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanholFunção 3 – GESTÃO SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E ADMINISTRATIVO DOS NÚCLEOS DE TRABALHO COMPETÊNCIAS • ler e interpretar: • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • informações referentes ao turismo • balanços, relatórios e documentos de controle interno • supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno,médio e grande porte • analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa • coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, osuprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxili-ares e de apoio • avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento HABILIDADES • acompanhar dados e interpretação de: • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • balanços, relatórios e documentos de controle interno • organizar e articular os setores internos • fazer cumprir a normas e manuais de procedimento • articular-se com parceiros e outros profissionais • negociar a contratação de terceiros • contatar e atender o cliente • preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados • articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento • coordenar os serviços terceirizados • receber, orientar, informar e conduzir turistas • controlar os contratos • supervisionar os serviços de terceiros • supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien- tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação112 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de:• comunicação e relações interpessoais e grupais• leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos• organização de empresas de turismo• elaboração e redação de normas e manuais• leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços• elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de contro- le interno• suprimento/compras e armazenamento/ conservação• segurança pessoal e patrimonial e seguros• técnicas, regras e procedimentos de:• reserva, venda e emissão de passagens• reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões, ingressos, etc.• orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens;• guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informações;• organização e realização de eventos• organização e realização de programas e atividades de lazer• normas de defesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá- veis à área• atendimento e encaminhamento de emergência• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanholSUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOSPRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOSCOMPETÊNCIAS• definir a política de recursos humanos• organizar os setores internos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • organizar e harmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros parceiros e terceirizados • desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida- des, promovendo sua capacitação contínua • Interpretar as normas de proteção do trabalho • Interpretar contratos • avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em rela- ção a eles HABILIDADES • motivar e liderar pessoas e grupos • treinar e aperfeiçoar o pessoal • aplicar as normas de segurança do trabalho • controlar contratos • organizar e articular os setores internos • fazer cumprir as normas e manuais de procedimento • articular as relações e o trabalho com terceiros • coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho individual e o trabalho em equipe BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • interpretação de leis e outras normas jurídicas • interpretação e elaboração de contratos • elaboração e redação de normas e manuais • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho • relações com o público • organização de empresa114 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃO DOS MEIOS TECNOLÓGICOSCOMPETÊNCIAS• identificar máquinas e equipamentos• dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação, comunicação e gestãoHABILIDADES• identificar as necessidades e soluções adequadas• identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções especializados• controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada• controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos• promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal• utilizar meios de comunicação eletrônica• operar equipamentos de escritórioBASES TECNOLÓGICAS• técnicas de:• utilização de meios informatizados• utilização de equipamentos eletro-eletrônicos• interpretação e elaboração de contratos• motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho• relações com o público• vocabulário técnico em português e inglêsSUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTOCOMPETÊNCIAS• identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter os produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes• captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e potencial Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • manter a viabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento e dos seus produtos e serviços • desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para inovações e mudanças de objetivos e de ofertas • avaliar a viabilidade de inovações e mudanças • Interpretar informações referentes ao turismo HABILIDADES • atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos • utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • “marketing” e de venda • comunicação e relações interpessoais e grupais • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços • elaboração de descrição de cargos/funções e salários • elaboração e redação de normas e manuais • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO COMPETÊNCIAS • avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos • criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • analisar e avaliar as manifestações dos clientes116 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • desenvolver no pessoal a atenção para a satisfação do cliente • avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral e meio ambiente HABILIDADES • aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifes- tações expontâneas e motivadas • relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial • promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao cliente BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho • relações com o público Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através doParecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a EducaçãoProfissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan-do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos-pitalidade, com as seguintes características: A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades,interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser-viços turísticos e de hospitalidade. • Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, apromoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentestipos e portes. • Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação. • Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colôniasde férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas,escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigospara grupos especiais. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • Os serviços de alimentação são prestados em restaurantes, bares e outrosmeios, como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em servi-ços de bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas. Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, apromoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências geraisdos técnicos da área, são apresentadas: • conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospita-lidade adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela • organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades delazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços eprovedores de infraestrutura e apoio • organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seusambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas • operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica,identificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços • operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e dehospitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas • avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados • executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo dosnúcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os recursos • executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dosprodutos e na prestação dos serviços • executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio-nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados • realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviçosadequando-os às variações da demanda • comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma decomum entendimento Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pelaescola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusãoda habilitação. A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas. Para concluir, apresentaremos um pequeno exercício de futurologia, de auto-ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação de118 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • notas, informações, notícias sobre os vários setores do turismo, publicado emjornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos. De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo porsetor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessaforma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos,Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen-tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo. (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm)NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO • Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas degestão da qualidade nas empresas; • Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Pointsserão muito requisitados por hotéis e restaurantes; • Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para adivulgação de destinos e equipamentos; • Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sitespara cidades e empresas turísticas; • Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e su-plementos de viagens e turismo; • As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas dosetor em busca de informações fidedignas de demanda; • Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento dasnecessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, seguran-ça, recreação); • Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão-de-obra especializada para o setor. • Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfren-te desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptaçãoa outras culturais, disponibilidade para troca de sede.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2003 Publicação original: livroFormato da contribuição: texto completoFonte: Planejamento e gestão em turismo. Trabalhos técnico-científicosapresentados no Congresso Brasileiros de Turismo 2002, realizado na cidade deFoz do Iguaçu (PR), de 14 a 18 de maio de 2002. BEZERRA, Deise Maria Fernandes,(org.) - São Paulo: Roca, 2003.E-mail do(s) autor(es): lillian@fase-se.edu.brTítulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Desenvolvimento e MeioAmbiente - Universidade Federal de Sergipe; Especialista em Turismo:planejamento, gestão e marketing, pela Universidade Católica de Brasília eBacharel em Turismo, Universidade Tiradentes.Política de turismo e desenvolvimentolocal: um binômio necessário.Lillian Maria de Mesquita Alexandre1 As atividades e os esforços relacionados à gestão sustentável de recursosnaturais, bem como a valorização e preservação da identidade cultural de popu-lações das localidades, têm se demonstrado como assuntos de excepcionalrelevância neste mundo desenvolvimentista e globalizado. Na realidade brasileira, é possível perceber que juntamente com as mudançasprovenientes da globalização, o impulso gerado pela atividade turística no paísmostrou que esse setor pode ser estrategicamente utilizado como mitigadorpara os problemas da desigualdade social e a falta de emprego, tão presentes emnosso contexto. Ao encontro destas perspectivas e necessidades, observa-se o desenvolvi-mento dinâmico da atividade turística, dentre o setor catalisador mundial nageração de empregos e movimentação de recursos, ao mesmo tempo em quese fortalece como importante aliado na gestão sustentável dos patrimôniosnatural e cultural, dependente que é, destes patrimônios, como elementosformadores do produto turístico e, consequentemente, mantenedores de suaprópria sobrevivência. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • A influência desse setor na economia de um determinado local, faz com queseja gerada uma certa expectativa quanto a sua chegada. Neste momento, éprimordial que sejam avaliados vários fatores, como por exemplo, a situação emque a localidade encontra-se com relação a sua economia e os impactos gera-dos no meio ambiente pelo turismo. Buscar o desenvolvimento local a partir dessa atividade, é uma estratégia quedeve ser pensada (e por que não dizer, executada) pelos governos estaduais emunicipais, traçando políticas públicas de turismo eficientes. Neste contexto, é preciso mostrar que através de políticas precisas e eficien-tes, deve ocorrer o processo de mudanças em favor do desenvolvimento sociale econômico nacional, mantendo visível a importância na necessidade da con-servação ambiental, bem como o respeito à cultura e os modos de ser e agir dosdiferentes grupos humanos que fazem parte deste universo. (VIEIRA, 2000) Por tanto, é através da consolidação das políticas de turismo numa localida-de, que o setor passará a ser tratado de forma organizada e dinâmica, onde oplanejamento possa ser coeso, levando-se em consideração, a realidade e ascaracterísticas próprias de cada região, constituindo desta forma, os fatoresrelevantes e imprescindíveis para que seja possível desenvolver a localidade apartir do turismo.SOBRE DESENVOLVIMENTO Falar sobre desenvolvimento é remeter a vários significados que se direcionampara o ser, o crescer, o descobrir, enfim, a mudança. É mudar de estágio, éalcançar uma maturação, pois o termo desenvolvimento é utilizado com váriasconcepções, residindo aí, a dificuldade em defini-lo. (VARGAS, 1999) Graças a seu caráter fluido e a seus objetivos humanistas, Becker, descreveo tema desenvolvimento como sendo “uma assimilação da conotação positi-va, de pré-julgamento favorável: ele seria em si um bem, pois desenvolver-seseria forçosamente seguir em uma direção ascendente, rumo ao mais e aomelhor”. (1999, p. 18) Mas perceber que o desenvolvimento é um processo natural, que só precisaser deixado livre para evoluir, é crescer no entendimento do conceito. É enten-der que a noção de desenvolvimento não se impõe somente como evidente, mastambém como universal, onde devem ser rompidos, ultrapassados os esquemasnão só econômicos, mas também civilizacionais e culturais, que pretendem fixaro seu sentido e as suas normas. Nenhum desenvolvimento é adquirido para sem-pre. (BECKER, 1999, p. 19; CAIDEN; CARAVANTES, 1988, p. 26)122 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Para alcançar tal estágio, faz-se necessário perceber que o desenvolvimentoé uma finalidade, mas deve deixar de ser uma finalidade-terminus. A finalidade dodesenvolvimento está, ela própria, sujeita a outras finalidades. Viver verdadeira-mente e melhor. Viver com compreensão, solidariedade e compaixão. Viver semser explorado, insultado e desprezado. Benevides menciona que: [...] existem vários envolvidos com o processo por meio do qual uma sociedade utiliza crescente, cumulativa e auto- sustentadamente a sua capacidade produtiva – expressa na sua ampla dotação dos fatores de produção – no sentido de canalizar essa capacidade para aumentar em quantidade e em qualidade os bens e serviços disponíveis, pode ser uma saída, mas ao mesmo tempo, não se pode excluir a inter-relação que ele tem com a questão ambiental. ( 1996, p. 164) Segundo Sachs, “[...] o ambiente é, na realidade, uma dimensão do desenvolvi-mento, deve, pois, ser internalizado em todos os níveis de decisão” (1986, p. 10) A percepção dada por Caiden e Caravantes para desenvolvimento com umoutro olhar sobre o assunto: O desenvolvimento nunca será, nem pode ser definido de maneira a agradar a todos. Refere-se ele, falando-se em termos gerais, ao desejável progresso social e econômico, e as pessoas sempre terão opiniões diferentes sobre aquilo que é desejável. É certo que desenvolvimento tem que significar a melhoria das condi- ções de vida, para qual são essenciais o crescimento econômico e a industrialização. Se não se der, porém, atenção à qualidade do crescimento e à mudança social, não se poderá falar em desen- volvimento [...] (1988, p. 30)A INFLUÊNCIA DO TURISMO PARA A ECONOMIA A atividade turística é um fator importante para qualquer economia local,regional ou nacional, pois o movimento constante de novas pessoas aumenta oconsumo, incrementa as necessidades de maior produção de bens, serviços eempregos e, consequentemente, a geração de maiores lucros, que levam o au-mento de riquezas pela produção da terra, pela utilização dos equipamentos dehospedagem e transporte, e pelo consumo ou aquisição de objetos diversos, dealimentação e de prestação dos mais variados serviços. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ela é uma grande produtora de riquezas e aparece, em todo o mundo, como umdos mais importantes segmentos geradores de empregos e postos de trabalho,uma vez que se coloca entre um dos principais itens geradores de receitas e dedivisas na economia mundial. A importância do turismo numa economia depende, basicamente, de suaspré-condições naturais e econômicas (existência do atrativo turístico, infra-estrutura urbana, equipamentos turísticos e acessibilidade ao mercado con-sumidor), das características do município, e em função de suas alternati-vas, do papel reservado a esse setor em sua estratégia de desenvolvimentoeconômico. Para o autor Roberto Bustos Cara: Desde diferentes puntos de vista el turismo representa una actividad en expansión no solo en las cifras ligadas a la evaluación económica sino además en relación a los requerimientos propios de la sociedad moderna en plena transformación. (1996, p. 86) A percepção de que o turismo é uma ferramenta poderosa para gerar empregose renda, deve ser entendido por todos os setores que trabalham com essa ativi-dade de forma que venham utilizar a localidade conscientemente a fim de pro-mover sua auto sustentabilidade e gerando dessa forma, um bom relacionamen-to entre comunidade, governo e meio ambiente. O processo de globalização, segundo Rodrigues (1997), unifica os mercados,definindo subespaços hierarquizados ou não, que vão dos centros às periferias,determinando relações de dominação e de subordinação – “verticalidades”. Carminda Cavaco afirma que, em síntese: [...] o crescimento econômico, identificado com o aumento global de produção e de riqueza, importa o desenvolvimento, que é simultaneamente econômico, social e também territorial, e que envolve processos de mudança estrutural, produção social significativa, redistribuição mais equilibrada da riqueza, melhoria dos rendimentos, das condições de vida das expectativas, sobretudo dos grupos sociais menos favo- recidos. (1996, p. 98)124 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A IMPORTÂNCIA DO TURISMO PARA O DESENVOLVIMENTO DA LOCALIDADE A interpretação dada por Beni, nos remete a uma visão de que: O desenvolvimento do turismo provoca o desenvolvimento intersetorial, em função do efeito multiplicador do investimento e dos fortes crescimentos da demanda interna e receptiva. É ati- vidade excelente para obtenção de melhores resultados no de- senvolvimento e planejamento regional ou territorial. Por efeito do aumento da oferta turística (alojamentos, estabelecimentos de alimentação, indústrias complementares e outros), eleva a demanda de emprego, repercutindo na diminuição da mão-de- obra subutilizada ou desempregada. (2001, p. 65). O turismo, como qualquer outra atividade econômica, deve ter o seu desen-volvimento racionalmente pré-determinado, para que as necessidades epotencialidades sejam gerenciadas e se transformem em estratégias que condu-zam à inserção do patrimônio natural, histórico e cultural no circuito econômi-co, evidentemente através do uso não predatório dos mesmos. Municípios com um grau de desenvolvimento avançado reservam ao turismoum papel destacado em sua estratégia de desenvolvimento, dado que se consti-tui, na maioria deles, numa de suas atividades motrizes, interligados com outrossetores importantes, geradores de empregos e de divisas, onde isto gera umarevitalização e diversificação da economia, capaz de envolver a populaçãolocal, valorizando-a de forma a envolvê-la no processo de desenvolvimentolocal. Roberto Bustos Cara percebe que, do ponto de vista territorial: [...] el turismo es gran consumidor de espacios, pero es además productor y transformador de primeira magnitud. Es al mismo tiempo consumidor de territorio, es decir, utilizador no solo del espacio sino de las condiciones sociales que le dan sentido y es sobre esse territorio organizado y con sentido que impacta. Es una actividad creadora de imágenes y representaciones que impregnan no solo a los agentes y la sociedad de que forman parte los usuarios (es decir el mercado), sino también a las soci- edades receptoras. (1996, p. 86) Neste momento, torna-se imprescindível que haja o planejamento dessa ativi-dade, uma vez que é preciso o conhecimento prévio do meio físico, suas apti-dões e limitações naturais, dos fenômenos culturais e sociais, dos aspectoseconômicos da região e a análise da inserção do turismo nesse contexto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • No turismo, o plano de desenvolvimento constitui o instrumento fundamentalna determinação e seleção das prioridades para a evolução harmoniosa da ativi-dade, determinando suas dimensões ideais, para que, a partir daí, possa-se esti-mar, regular ou restringir sua evolução. O maior problema na ausência do planejamento em localida- des turísticas reside no seu crescimento descontrolado, que leva à descaracterização e à perda da originalidade das destinações que motiva o fluxo dos turistas, e o empreendi- mento de ações isoladas, esporádicas, eleitoreiras e desvinculadas de uma visão ampla do fenômeno turístico. (RUSCHMANN, 1997, p. 164). O desenvolvimento econômico do turismo pode ser viável e constitui oobjetivo da maioria dos planos em nível local, regional e nacional, porémseus impactos sociais e ambientais são praticamente inevitáveis. Por isso,torna-se necessário empreender planos de desenvolvimento do turismoque estabeleçam à capacidade de carga das destinações, considerando oequilíbrio entre os efeitos econômicos, sociais e culturais e o equilíbriodos recursos naturais da atividade. Apenas um planejamento de longo prazo determinará medidas quantitativas,que conduzirão à qualidade ideal do produto turístico, que interessa tanto àpopulação residente como aos turistas. O desenvolvimento turístico só deve ocorrer como conseqüên- cia de uma política de planejamento cuidadosa, não calcada ape- nas na balança de pagamentos dos países em desenvolvimento ou na relação de custos e benefícios. Ele deve estruturar-se sobre idéias e princípios de bem-estar e da felicidade das pessoas. Os problemas sociais dos países não poderão ser solucionados sem uma economia forte e em crescimento e o turismo pode contri- buir para criá-la. (RUSCHMANN, 1997, p. 164) Essa visão, mais responsável e consciente com a própria natureza da atividadeturística, incorpora na relação homem x natureza, turismo x turismo, uma sintonianecessária para o aproveitamento dessa atividade, tomando o visitante atualnum parceiro para o desenvolvimento turístico da localidade. Por isso é que as diversas comunidades buscam explorar o turismo comoforma de melhoria da qualidade de vida de seus integrantes, o que ultrapassa asimples utilização de bons serviços pelo visitante ou mesmo na simpleseconomicidade dos efeitos da maior presença de consumidores no destino.126 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • POLÍTICAS PÚBLICAS DE INTERVENÇÃO NO TURISMO A ausência de uma diretriz nacional, segundo Beni (2001) e falta de uma açãointersetorial entre os órgãos públicos de turismo no Brasil, estão a determinar ocrescimento isolado do setor e a elaboração de planos e programas inapropriadose desassociados da realidade cultural, política, econômica e social do País. Apesar do crescimento do turismo nos últimos anos, é possível observar que omesmo se deu em decorrência de programas e iniciativas isoladas do que a umaatuação coordenada que refletisse claramente seus benefícios socioeconômicos,culturais e humanos. Por isso, é preciso que as ações sejam congregadas com ointuito de propor estratégias, com objetivos claros e concisos da esfera doplanejamento global, integrando-o efetivamente às demais atividades produti-vas da economia. Dessa forma, é que poderão definir políticas coerentes e realistas, consideran-do as condicionantes geoeconômicas e geoestratégicas de localidades, bemcomo investigando e contemplando os múltiplos aspectos que compõem o fe-nômeno turístico. Observa-se, ainda, que grandes investimentos em complexos turísticosconstruídos pela iniciativa privada, a maioria dos quais estimulados e incentiva-dos por governos estaduais, não obedecem aos preceitos da política estratégicade desenvolvimento regional e do planejamento sustentável do turismo. Tais empreendimentos não contribuem para a correção dos desníveis eco-nômicos e sociais da região onde se implantam, não geram emprego e traba-lho para a população residente no entorno, e permanecem fechados ou in-sensíveis a uma adaptação de preços e, portanto, de competitividade emrelação à demanda da maioria da população real e potencial do turismonacional e até do internacional, a que a maior parte se destina em seusequipamentos e objetiva conquistar. A partir do I Plano Nacional de Desenvolvimento, formulado pela SUDENEem 1971, é que vão iniciar as ações institucionais voltadas ao turismo e apercepção da necessidade em se traçarem estratégias políticas setoriais,como as políticas de turismo, a fim de que haja um desenvolvimento melhorconduzido. O governo nacional, estadual e municipal assumem, diante dessarealidade, papel fundamental para minimizar os efeitos causados pelo turis-mo, definindo planos, programas e ações bem concretos e claros, nos dife-rentes itens do planejamento, no intuito de conduzir as coletividades a umnível de capacidade possível de enquadrarem-se às novas condições do mun-do, sem perda de sua identidade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • CONCLUSÃO O turismo no Brasil ainda não é considerado pelo Governo, como atividadeeconômica e social de relevância e que tenha participação efetiva no desenvol-vimento global do País. A consolidação de políticas voltadas ao setor, deve ser a manifestação pri-meira de uma conscientização governamental para a importância do turismocomo instrumento de crescimento econômico, geração de renda e melhoria daqualidade de vida da população. Para Pereira: Nessa perspectiva, são identificadas algumas razões para se pro- duzir políticas públicas de turismo, a partir da necessidade de se estabelecer normas e regras para definição do papel, tanto do Poder Público, quanto dos diversos atores privados relacionados ao setor. A variedade de segmentos, atividades e interesses en- volvidos no turismo e seu vínculo cada vez mais estreito com os recursos naturais, econômicos, culturais e históricos, evidencia de um lado, que a forma do governo tratá-lo deve levar em conta essas fortes interfaces e, por outro, é fundamental que haja maior interação entre as atividades dos diversos grupos e setores da sociedade envolvidos com o turismo. (1999, p. 2) Quando se fala na elaboração de políticas públicas no turismo, é inevitável pensarnos grupos de interesse, nos valores particulares em jogo e no poder de direcionamentodo desenvolvimento da atividade, conforme as forças vão se relacionando ao longodo tempo. Algumas decisões que afetam a política da atividade turística, a naturezado envolvimento do governo no setor, a estrutura do departamento de turismo, otipo de desenvolvimento do setor e a consciência e participação da comunidade noplanejamento e política da atividade surgem do processo político. Para que o turismo se desenvolva de forma coesa em localidades, o arranjoinstitucional do setor se apresenta como de suma importância, com todos osagentes contemplados conforme seu poder de interferência. Apesar disto, não háuma regra para a criação e manipulação das instituições relacionadas à atividadeturística, variando significativamente entre municípios, regiões e estados. Hall(2001) entende que “estas diferenças afetam como o conflito político é expresso,que estratégias individuais e grupos irão tentar influenciar na política, e que pesoos políticos irão atribuir aos interesses sociais e econômicos particulares”. O arranjo institucional é um dos elementos fundamentais para uma polí-tica pública bem sucedida do turismo, pelo seu poder de afetar tanto na128 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • decisão da implementação das estratégias, quanto no pessoal envolvido noprocesso. Segundo Cruz: Uma política pública de turismo pode ser entendida como um con- junto de intenções, diretrizes e estratégias estabelecidas e/ou ações deliberadas, no âmbito do poder público, em virtude do objetivo geral de alcançar e/ou das continuidades ao pleno desenvolvimen- to da atividade turística num dado território. (2000, p. 40) Não há uma padronização da estrutura turística oficial (ministério, departa-mento, comissão, diretoria, conselho, instituto, corporação, entre outras). Cadapaís se organiza a partir de sua própria realidade e do grau de importância dosetor para o governo. A estrutura do órgão oficial de turismo varia de acordocom a forma constitucional de governo. Quando um organismo nacional deturismo adota a forma de entidade oficial, esta pode ser através de um organis-mo centralizado ou estatal, criado pelo próprio Estado dentro de sua estruturaadministrativa, podendo ocupar posições e hierarquias na estruturaorganizacional. Estes também se organizam sob a forma de organismos descentralizados oumistos, constituídos pelo Estado através de lei com personalidade jurídica, auto-nomia técnica e administrativa, embora mantenham vínculos de subordinação aum ministério ou secretaria de estado. E ainda através de organismos privadosou não-governamentais, sem fins lucrativos, na forma de uma associação oufundação organizadas em todos os níveis (nacional, regional e local). Estes tiposde organismos são nitidamente operacionais e executam as políticas de turismoadotadas pelo Estado através do órgão competente. Pereira analisou que: A existência de um órgão central de turismo e de organizações periféricas em diferentes regiões ou localidades e conselhos ou comitês interministeriais, deve servir para que um suplemente e ajude o outro e não para que eles se sobreponham. O desenvolvi- mento do turismo demanda interfaces com outras políticas re- correntes e complementares, tornando-se necessário um intenso trabalho de coordenação com outros setores. Portanto, as polí- ticas de turismo devem estar coordenadas com as demais políti- cas setoriais afins do país. (1999, p. 5). Todavia, o poder público pode desestimular a iniciativa privada ao criar ins-trumentos legais sem captar a fundo a essência da atividade turística. Estes Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • instrumentos, face à sua multiplicidade, podem criar dificuldades operacionaispara as empresas que atuam no turismo. Sendo um setor novo e dinâmico, oturismo precisa ser constantemente analisado e avaliado para reformulação desuas políticas públicas.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]NOTAS1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Pós-graduada em Turismo: Planejamento, gestão e MKT. Co- ordenadora do Curso de Turismo e Professora da Faculdade de Sergipe130 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: anais eletrônicosFormato da contribuição: texto completoFonte: “Hotéis de selva no Amazonas: ecodesign, meio ambiente esustentabilidade. Paraná: VII ENTBL, 2003.E-mail do(s) autor(es): luindia@vixax.com.br; luindia@uol.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: Luíndia Azevedo - Doutora em CiênciasSócio-ambiental- NAEA/UFPA; e Luiza Elayne - Jornalista, docente do DECOM-Universidade Federal do Amazonas-UfamHotéis de selva no amazonas:Ecodesign, meio ambiente esustentabilidade?Luiza Elayne Luíndia Azevedo Os hotéis de selva ou lodges no Amazonas, aproximadamente em número de40 e com sua maioria localizada cerca da Estação Ecológica de Anavilhanas e dacidade de Manaus são um meio de alojamento alternativo, principalmente, paraestrangeiros. Estes empreendimentos mesmo com um alto custo de instalação,têm se relevado rentáveis, existindo uma demanda considerável para produto“confortável e ambientalmente correto”. Tal perspectiva tem aumentado subs-tancialmente a oferta, iniciada em 1979, com a construção do Amazon Lodge e,recentemente do Tiwá, localizado na margem direita do rio Negro. O presente artigo corresponde a uma versão revisada de trabalho publicadocom o mesmo título no VIII Encontro Nacional de Turismo com Base Local-ENTBL, Paraná, 2004. Anais eletrônicos: www.entbl.tur.brgt05turismomeioambienteesustentabilidade. A Lei Federal no 6.505, de 13 de dezembro de 1977 regulamentou os tipos de Meiode Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico (Lodges) e, de acordo com oConselho Nacional de Turismo, que seis anos depois emitiu o presente Regulamentoe a Matriz de Classificação desse tipo de hospedagem, especifica a saber: Art. 2 – Considerando-se Meios de Hospedagem Ambiental e Ecológico (Lodges)os empreendimentos que atendam cumulativamente às seguintes condições: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • I – estejam localizados em áreas de selva densa ou de outras belezas naturaispreservadas; II – estejam totalmente integrados à paisagem local, sem qualquer interferên-cia ao meio ambiente; III – situem-se em regiões distantes de centros urbanos, com ausência oudificuldades de acesso regular e de serviços públicos básicos; IV – ofereçam aos usuários instalações, equipamentos e serviços simplifica-dos, próprios ou contratados, destinados ao transporte para o local, hospeda-gem, alimentação e programas voltados à integração com o meio ambiente e oseu aproveitamento turístico. Ainda, segundo o regulamento dos meios de Hospedagem de turismo da deli-beração Normativa nÚ 364, de 6 de agosto de 1996, da Embratur, deve também“facilitar a circulação de portadores de deficiência, prezar pela saúde e higienedo ambiente, garantir a iluminação natural e ventilação adequada, ter um sistemade abastecimento, tratamento e filtragem de água, além do tratamento de resí-duos e outras exigências.” Em termos de legislação, o Brasil se encontra entre os mais avançados paísesdo mundo ao criarem a maior jurisprudência para controle e preservação dosrecursos naturais. Entretanto, as leis criadas não foram acompanhadas de meca-nismos eficientes para garantirem meio ambiente saudável. Portanto, a lei sobreos Meios de Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico não assegura proje-tos dedicados à conservação e proteção do meio ambiente, visto os exemplosdesenvolvidos no Brasil. Estas experiências localizadas em zonas costeiras, flu-viais, urbanas e áreas situadas ou próximas de Unidades de Conservação reivin-dicam a condição de ecoturísticas. Em relação aos aspectos ecológicos, a maioria das experiências não dispõe detecnologias limpas apropriadas para o tratamento do lixo e esgoto e geração deenergia e, muitos deles, rompem com a arquitetura regional. O artigo avalia oshotéis de selva do Amazonas dentro das perspectivas de ecodesign, respeito aomeio ambiente e promoção de sustentabilidade. Propõe-se a verificar se oshotéis funcionam com base no tripé: 1 veículos de aprendizado e compreensãopara os ecoturistas; 2 fomento à geração de empregos; 3 contribuição na melhoriade qualidade de vida das populações residentes. A pesquisa foi estruturada apartir de revisão bibliográfica, visitas, observação participante e entrevistascom os gerentes e turistas.132 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • HOTÉIS DE SELVA (LODGES) E MERCADO Os hotéis de selva ou lodges, palavra de origem inglesa, têm como significado“casa do guarda”, denominação dada aos pequenos alojamentos para fornecerabrigo a número reduzido de turistas nos parques nacionais do Kenia. Atualmente, segundo Peréz de las Heras (1998), esses lodges têm passado a sechamar ecolodges, término de todos os alojamentos dedicados especificamenteao ecoturismo. Desde os primeiros lodges construídos pelos colonizadores in-gleses, tendo como base a arquitetura das cabanas dos nativos, até os dias dehoje, a gama de alojamentos para ecoturismo tem se ampliado de tal forma, quese torna impossível falar de características de ecolodge em geral. Contudo, taisalojamentos têm evoluído para desde hotéis de cinco estrelas, a exemplo dosecoresort à beira mar, localizados no Brasil (Bahia), Costa Rica e Belize, a acam-pamentos com tendas e cabanas no Peru, Equador e Brasil, especificamente noAmazonas e no Pantanal. No geral os lodges são confortáveis, construídos em madeira e palha, ofere-cendo passeios etnobotânicos, visitas às comunidades, observação de aves eanimais, fotografias, pesca e venda de artesanato. Os serviços cobrem habita-ções com banheiro privado, uso de eletroeletrônicos, bebidas geladas, cozi-nha de padrão internacional, botes equipados com motores de alta potência,traslado desde o aeroporto, guias bilíngües e, até heliportos (Ariau Towers-Am). No Amazonas, os hotéis de selva são na maioria de madeira e teto depalha, localizados em ambientes isolados, com atrativos e roteiros similaresaos demais, porém, tendo como diferencial, a observação do singular “encon-tro das águas” formado pelos rios Negro e Solimões. O preço dos pacotes variaentre USD$ 180/USD$ 480 (2d/1n, solteiro), com transporte, acomodações ealimentação, exceto bebidas. Tanto no Brasil como no exterior, os hotéis de selva atendem a um segmentode mercado muito próspero. Na ótica da WWF o referido nicho de mercadocorresponde ao perfil de pessoas interessadas em viagens na natureza em ambi-entes frágeis. Esse tipo de turista, geralmente, gasta mais do que o turista padrão,embora esse gasto adicional seja em áreas com alta evasão de recursos, aexemplo de Belize. Conforme Sorensen (apud Mc Kercher, 2002) os turistas deste mercado sãoindependentes, experientes, têm alto poder aquisitivo, viajam sozinhos ou emdupla e a maioria é do sexo feminino. Em grande parte, são motivados poraventuras e/ou algo novo no mercado. Estima-se o crescimento deste mercadoentre 10% a 30% ano no mundo. No Brasil, pesquisas da Fundação Getúlio Vargas(FGV) estipulam o crescimento de 6% ao ano. Ressalta-se, contudo, a dificuldadede saber com exatidão a grandeza desse mercado. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Em relação ao perfil destes consumidores, se destacam dois tipos: o soft(apreciadores da natureza, sem muito esforço físico) e o hard (profissionaisespecializados, apreciadores de esforços físicos). Grande parte dos lodges aten-de ao perfil soft, consumidores interessados em um ambiente privado, com rela-tivo conforto e certa acessibilidade, mas rodeado de “verde” e de animais.FLUXO Nos anos 90 houve um crescimento do número de turistas de natureza. Confor-me Epler-Wood (2002) as taxas de visitação para destinos baseados na naturezade 1990 a 1999 cresceram significativamente na África do Sul (486%), Costa Rica(136%), Indonésia (116%), Belize (78%) e Equador (41%). Para a América Latina, a atividade se reveste de extrema importância para osesforços nacionais de promoção do desenvolvimento econômico e social. No Brasil,o adequado aproveitamento dos variados ecossistemas existentes, ainda poucoexplorados, propiciará a abertura de novas alternativas econômicas e a conseqüen-te melhoria das condições de vida das populações diretamente envolvidas, além dereduzir alguns impactos negativos causados pelo turismo tradicional, devido aoperfil e às expectativas dos visitantes que normalmente viajam em pequenos gruposem comparação com o turismo de massa (EMBRATUR/IBAMA, 1994). De acordo com a WWF (2003), para americanos e canadenses, o Brasil era, em1998, o terceiro destino de preferência, segundo dados sobre turismo na AméricaLatina, e suas principais fontes de pesquisa para o planejamento da viagem foraminformações prestadas por amigos (60%), agências de viagem (57%), Internet (47%)guias turísticos (36%). Conforme a Embratur (2000) são as Unidades de Conserva-ção os primeiros destinos ecoturísticos procurado pelos fluxos internacionais. Ataxa de visitação do país de 2001 foi de 4 milhões turistas, em 2002, um pouco maisde 3milhões visitantes. Em 2003, aproximadamente 4,1milhões de turistas estran-geiros, um aumento de 8,52% em relação a 2002. (ANUÁRIOS: 2001, 2002, 2003). Apesar do otimismo, segundo a WWF recentemente, o Brasil tem recebidopoucos estrangeiros, principalmente, norte-americanos e canadenses, em virtu-de, do marketing de visibilidade desenvolvido por empresas privadas e governa-mentais em torno de Costa Rica.AMAZÔNIA E POLÍTICAS PÚBLICAS Na Amazônia, a partir de 1997 foi instituída oficialmente a Política de Ecoturismoda Amazônia, responsável pelo delineamento dos primeiro passos à implantaçãodo Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo da Amazônia Legal (PROECOTUR),134 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • tendo como estados beneficiários Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Acre,Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Seu objetivo é transformar osrecursos naturais da Amazônia em produto de forma a garantir-lhe desenvolvi-mento sustentável, criar condições para o setor privado investir com segurançae formatar produtos e roteiros competitivos internacionalmente. A coordenação do programa explica que a Amazônia, ainda não é um produtoturístico acabado, porque as infra-estruturas das regiões são desproporcionaisaos potenciais turísticos. O programa quer atrair a classe empresarial e tambémmelhorar a qualidade de vida da população local. O Amazonas foi o primeiroestado a dispor de hotéis de selva, possui inúmeras ilhas, várias unidades deconservação e conta com uma sociobiodiversidade bastante promissora e atra-ente para incrementar o fluxo de turistas. Para a Embratur, órgãos e empresas deturismos, o Mato Grosso do Sul e o Amazonas são considerados ecodestinoscom vastíssimo potencial hoteleiro dentro da perspectiva de biodiversidade ehotéis de selva. Ressalta-se que os modelos de desenvolvimento regional preconizados peloPlano de Desenvolvimento da Amazônia-PDA (1992-1995), Plano de Turismo daAmazônia SUDAM/PNUD (1992) e pelo PROECOTOUR (1997) apresentam o turis-mo ecológico como sendo a atividade que naturalmente se presta à efetivaçãodo processo de desenvolvimento da Amazônia. A partir destas visões, o turismoecológico é vendido como uma atividade que não causaria graves conflitossociais e ambientais provocados pelas atividades econômicas, anteriormente,incentivadas na região. Contudo, a maioria das experiências na Amazônia e, especificamente no Ama-zonas, não possuem características de sustentabilidade econômica, ambiental esociocultural para os ecossistemas e populações locais. Destacam-se três pro-jetos: Pousada Aldeia dos Lagos (Silves- AM), Mamirauá (Tefé - AM) e Guaporé(Costa Marques -RO).O AMAZONAS, ECOTURISMO E AUSÊNCIA DE POLÍTICAS REGIONAIS Em 1996, através do Ministério do Meio Ambiente, o Amazonas recebeu otítulo como Estado de Referência para o Ecoturismo. Desde 1996 até hoje, oestado não possui um Plano Estratégico visando a estabelecer Diagnósticos,Ações, Programas e Regulamentações destinados ao desenvolvimento de práti-cas mais sustentáveis dos hotéis de selva da região. O Plano deve ser voltado àformação e capacitação, não só do setor público, mas principalmente, do setorprivado (proprietários dos hotéis de selva) para uma necessária mudança dosíndices de desempenho através de processos de certificação e da significativamelhoria dos padrões de atendimento e qualidade dos produtos ecológicos jáexistentes e dos futuros. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Assim, este processo implica em mecanismos de certificação, fiscalização,estratégias de marketing, oferta de produtos e serviços qualificados e diferenci-ais, preservação dos ambientes e capacitação e melhoria na qualidade de vidados locais. Na ausência deste plano, os hotéis de selva vêm apresentando diminuiçãoconsiderável de visitantes. Indicadores da Empresa Estadual de Turismo(Amazonastur) apresentam os seguintes dados: em 2001, 36.635; em 2002, 25.413;em 2003, 16.452; em 2004, 17.872. Apesar do relativo crescimento em 2004 emrelação ao ano anterior, percebe-se um decréscimo significativo no fluxo. Conforme os especialistas os maiores empecilhos para a expansão dessa ati-vidade tanto no Amazonas quanto no Mato Grosso do Sul são os custos daspassagens aéreas, a ausência de vôos diretos, custos estes nem sempre propor-cionais à qualidade e ao conforto dos equipamentos e serviços.ECODESING x HOTÉIS DE SELVA Andersen (1990) em relação às instalações adequadas ao ecoturismo faz umacomparação da instalação ecoturística com “janelas para o mundo natural”.Dentro desta perspectiva, acrescenta ser necessária certa “sensibilidade” dosresponsáveis como arquitetos, construtores e gestores objetivando conseguirinstalações compatíveis com os frágeis limites da natureza. Declara, ainda, (id.:202) serem necessários códigos de ética ambiental e de critérios gerais paraprojetos em ecoturismo, pois estes são passos positivos para garantir que essasensibilização esteja de fato, presente. Endossamos a proposta acima e a utilizamos para fazer um paralelo entrealojamentos com baixo impacto ecológico e a dimensão de ecodesign, entendi-da, a partir da concepção de Fiksel (1996) ao salientar que o projeto deve terespeito aos objetivos ambientais, de saúde e segurança, ao longo de todo ciclode vida de um produto ou processo, tornando-os ecoeficientes. Segundo Fiksel (1996) o ecodesign possui duas vertentes: a ecoeficiência e aecocidadania. A ecoeficiência objetiva promover um sentido de melhoria eco-nômica das empresas ao eliminarem resíduos e ao usar os recursos de formamais coerente. As empresas ecoeficientes reduzem custos, mais competitivas,obtêm vantagens em novos mercados, utiliza tecnologias limpas e segue con-ceito do “ciclo de vida” do produto de maneira ecologicamente correta donascimento ao descarte. A segunda vertente, a ecocidadania diz respeito ao uso do design de objetos nna utilização de resíduos ou materiais recicláveis ou de exploração sustentável,136 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • para compor peças com identidade regional. O ecodesign significa uma mudançade mentalidade, representando desse modo, a materialização de uma estratégiade início de processo. Portanto, concebe-se um produto não somente como umconjunto de elementos tangíveis, mas também com um agregado de serviços queajudarão ao consumidor na satisfação de suas necessidades e desejos. Verificamos que ecoeficiência e a ecocidadania estão interligadas aos princí-pios do ecoturismo, pois ambos visam proporcionar o envolvimento das comu-nidades e melhoria da qualidade de vida local, reduzindo os impactos ambientais.O ecodesign quando aplicado às instalações ecoturísticas pode contribuir muitopara criar um cenário propício e favorável aos objetivos de conservação egeração de qualidade de vida tanto para o turista quanto para o residente.CRITÉRIOS PARA ESTABELECER ECOEFICIÊNCIA E ECOCIDADANIA 1 Uso de zoneamento econômico ecológico: aplicação de modelos planeja-mento e gestão de localidades; de controle de visitação; zoneamento de contro-le das áreas naturais; limites no acesso a determinadas áreas no período dereprodução das espécies; distância mínima à observação de animais; capacidadede carga com instalação de pontos de acesso e recepções para o controle donúmero de visitantes. Deve, também, induzir a construção de instalações comcaminhos sinalizados e uso de passarelas; 2 Instalações de alojamentos adequados à localidade: a arquitetura seguirá arealidade regional, utilizará materiais e mão-de-obra locais. Uso de madeiralocal e/ou de madeira certificada, pesquisa de ocorrência de enchentes, as con-dições climáticas, das condições adequadas de solo e sua capacidade de supor-tar edificações. Criação de passarelas para visitantes que reduzam os impactosfísicos, além de torres e postos de observação de animais; 3 Usos de técnicas de gestão de consumo de água e produção de esgotosadequados ao meio ambiente: os filtros podem ser sistemas alternativos parareduzir o escoamento de sedimentos e entulhos. As fontes potenciais de som oumau odor devem ser examinados; deve-se utilizar reciclagem e reutilização detoalhas e lençóis para reduzir o consumo de água, sabão e energia. 4 Usos de formas renováveis de energia: utilização de formas renováveis deenergias (solar, bio e hídrica) e aplicação de instrumentos de contenção deenergia. A iluminação externa do local deve ser limitada e controlada a fim de seevitar interferência nos ritmos dos animais; 5 Desenvolvimentos de sistemas de transporte mais ecológicos: os transpor-tes devem respeitar os ambientes, proporcionar soluções alternativas para a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • redução de emissão de gases e de ruídos; estimulação do uso de transportepúblico e a construção de ciclovias e passarelas; 6 Utilização de trilhas e caminhos existentes a prática de trekking: a constru-ção de trilhas deverá considerar a excessiva destruição da vegetação, incluircurvas para torná-las mais atrativas, com extensão regular e com construçãocircular, para que os turistas regressem ao ponto de partida por outra área e nãopassem duas vezes pelo mesmo sítio; 7 Envolvimento das comunidades locais: o nível de participação/gerenciamentoas comunidades deve acompanhar tanto a fase de planejamento quanto de ges-tão. Para tal, o conhecimento das necessidades e dos interesses dos moradoresvai favorecer um melhor desempenho compartilhado.CONCLUSÕES A arquitetura, em geral, rompe com a ecologia e opta por recintos fechados àpaisagem e pelo uso de mobílias industrializadas. Geradores barulhentos movi-mentam os eletroeletrônicos e a iluminação noturna. O desmatamento da mataciliar no entorno, o assoreamento e poluição de rios através de refugos demons-tram a ausência de tratamento adequado aos detritos. Uma minoria dos hotéis segue o formato redondo, de madeira e cobertura depalha, como as malocas dos indígenas. A maioria utiliza o formato quadrado, demadeira e telha de amianto. Poucos utilizam passarelas elevadas. As madeirasutilizadas não têm selo verde, com exceção da Pousada Aldeia dos Lagos. Rarosmantiveram áreas vegetais adjacentes e edificações esparsas para facilitar oacesso e a passagem de animais. As dimensões ultrapassam 20 habitações. Osbanhos não foram colocados longe das cabanas para se assegurar que as águasservidas não entrem nos rios ou quebradas. As comunidades já habitavam as localidades e, raramente, envolvida, o únicoauxilio é na venda de artesanato. Com a exploração do turismo iniciada apósconstrução de hotéis de selva, alguns comunitários passaram a se dedicar mais àfabricação de artesanato para serem comercializados aos turistas. Apesar daintrodução de uma nova fonte de renda não houve mudanças significativas namelhoria da qualidade de vida da população em relação ao acesso à educação,à saúde, à capacitação e à cidadania. Dos hotéis pesquisados, a Pousada Ecológica Aldeia dos Lagos, em Silvesdestaca-se pelo viés da sustentabilidade. Na maioria, constatou-se: arquiteturanociva à ecologia, ausência de infraestrutura adequada, não-oferta de serviçosde qualidade, mínima capacitação de recursos humanos, alto custo dos pacotes,138 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • roteiros ‘iguais’, pouca divulgação, subempregos para os locais, ausência dezoneamento econômico ecológico e de um estudo dos impactos socioculturais,falta de tratamento dos detritos e não efetiva participação das populações.Esses elementos reforçam a noção de que a natureza é mercantilizada, apenas,como um “meio” que dá oportunidade de uma minoria ter uma relativa experiên-cia com as culturas e povos diferentes, sem que o referido processo traga efeti-vamente benefícios para as populações receptoras.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2003 Publicação original: anaisFormato da contribuição: artigoFonte: Ecoturismo: Do natural ao Cultural (e vice-versa). In: ENCONTRO NACIONALDE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP. Anais do XV Encontro Nacionalde Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003.E-mail do(s) autor(es): rogeriosantosp@pop.com.br; srsilva@ufv.brTítulos acadêmicos principais atuais: Rogério Santos Pereira - Acadêmico deEducação Física da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo eSociedade. Bolsista PIBIC/CNPQSilvio Ricardo da Silva - Professor Doutor do Departamento de Educação Físicada UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade e do GPL/FACEF/UNIMEPSamuel Gonçalves Pinto - Acadêmico de Educação Física da UFV. Membro doGrupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade. Bolsista PIBIC/CNPQEliane de Souza Resende - Acadêmica de Educação Física da UFVEcoturismo: do naturalao cultural (e vice-versa)Rogério Santos Pereira,Silvio Ricardo da SilvaSamuel Gonçalves PintoEliane de Souza Resende O meio ambiente, como algo significativo, se faz no contato do ser hu-mano com a natureza. Esse contato pode beneficiar todos aqueles queestão inseridos nesse processo (turistas, população receptora, profissio-nais da área, natureza). Aproximar o ser humano com o natural são oportu-nidades valiosas para uma experiência com possibilidades educacionaisque se mostre associada a princípios do desenvolvimento sustentável. Aomesmo tempo em que a conscientização das pessoas para as questõesambientais torna-se indispensável para um reequilíbrio ecológico, os espa-ços ligados à natureza oferecem amplas possibilidades para a vivência dolazer e para a sustentação econômica de diversas regiões fundamentadaem princípios do desenvolvimento sustentável. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • A NATUREZA É CULTURAL As relações do ser humano com a natureza, dentro do contexto da sociedadeurbana atual, são permeadas por uma troca. Ao mesmo tempo em que aconscientização das pessoas para as questões ambientais torna-se indispensá-vel para um reequilíbrio ecológico, os espaços ligados à natureza oferecemamplas possibilidades para a vivência do lazer e para a sustentação econômicade diversas regiões. Entender as possibilidades que uma atividade ligada à natureza pode englobarnecessita de uma breve reflexão sobre questões que envolvem o lazer, o turismoe o meio ambiente. È importante ressaltar que esses pontos para reflexão não seapresentam dissociados e estanques. Pelo contrário: interagem, dialogam concei-tos e objetivos, enriquecem a atividade com uma visão crítica a respeito do serhumano e sua relação com o mundo que o cerca e que é transformado por ele. Villaverde (2002) associa a experiência do lazer à vivência, produção ereelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado pelos sujeitos às im-posições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena, especialmente emsuas expressões de liberdade e ludicidade. Assim, o lazer afasta-se do sensocomum que o incorpora como mero descanso ou divertimento e apresenta pos-sibilidades de fruição, crítica e transformação da realidade. As atividades turísticas, marcadas pela quebra da rotina temporal e espacial,pela busca de novas paisagens, de novas pessoas e costumes (MARCELLINO,2000), relacionam-se diretamente com o lazer: É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo no qual se inclui a atividade turística, como campo de experiênci- as humanas privilegiadas junto aos processos de constituição de subjetividades, já que (...) oferece uma rica possibilidade de exer- citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementos do planeta. (VILLAVERDE, 2002) Pensar em turismo não permite uma visão reducionista ligada somente à busca por conhecer novos lugares e paisagens. Por outro lado, o turismo também não pode ser visto e valorizado apenas pelo retorno financeiro que ele pode gerar às regiões que se tornam pontos turísticos. Assim, A atividade turística, entendida não somente como atividade eco- nômica, mas como prática social complexa e multifacetada, im- plica essencialmente o deslocamento de pessoas e a relação des-142 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • sas pessoas entre si, com a comunidade e com o lugar visitado. Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviços inerentes à atividade turística (viagens, transportes, hospedagem, gastronomia, publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a dimensão das relações humanas com as quais se constitui o fazer turístico. (VILLAVERDE, 2002) A relação do ser humano com o meio ambiente é marcada pela pouca valorizaçãoao mundo natural. No entanto, apresenta-se como um agravante a idéia de que oespaço natural a ser visitado é inato, virgem, intocado. O meio ambiente, como algosignificativo, se faz no contato do ser humano com a natureza, com as pessoas, coma cultura e costumes, com conhecimentos sobre a região, fauna, flora, relevo, histó-ria, população. Um contato com a natureza é travado despertando sentimentos eexercitando todos os sentidos. Para BONTEMPO (s.d.), ver e compreender a naturezacomo o resultado de inúmeras relações de causa e efeito pode contribuir para umareligação, um novo despertar para a valorização do todo: As relações no lazer dos homens com eles próprios e com a natureza, também precisam de olhares sensíveis, pois, são nos momentos de aventura, de desafios que os homens demonstram as suas intenções, solidárias ou não. E nesse momento de desgas- te da natureza ela precisa de sensibilidade para o seu reequilíbrio ecológico a partir da ecologia humana que se dá pela solidarieda- de. (BEZERRA, 2002) Excursões que aproximam o ser humano com o natural são oportunidadesvaliosas para uma abordagem, inclusive com possibilidades educacionais, queinclua esses valores. Para RIBEIRO (1997, p. 36), a ruptura do cotidiano, odescotidianizar, permite, em maior ou menor grau, sair da reprodução massiva,ossificada nas rotinas obrigatórias e previsíveis, tornando-se tanto um ângulopotencialmente revelador de aspectos desconhecidos da realidade quanto umaposição diferenciadora dos indivíduos. O ecoturismo é motivado pelo desejo dever ecossistemas em seu estado natural, sua vida selvagem, assim como suapopulação nativa, sua cultura: O ecoturismo, ou turismo ecológico, é a modalidade de turismo mais falada dos últimos tempos. Consiste em promover viagens por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o obje- tivo específico de estudar, admirar e desfrutar da paisagem e de suas plantas, admirar a beleza da fauna e também as manifesta- ções culturais – passadas e presentes – encontradas nessas áreas. (FARAH NETO, SILVA e CAPELLA, 2000) O Brasil apresenta amplas possibilidades para a ampliação do ecoturismo comouma atividade atrativa e economicamente viável. Para FUCKS (2002), as Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • especificidades regionais e locais que caracterizam o vasto território brasileiro- relacionadas aos aspectos geográficos, climáticos, étnicos e sócio-culturais(arquitetura, gastronomia, folclore, religião) do lugar onde a atividade turísticase desenvolve - são recursos que podem ser empregados como importantescomponentes da oferta turística, na formatação de um produto turístico rural dequalidade e de características singulares. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente1 o ecoturismo já representa5% do turismo mundial. Provavelmente alcançará 10% nesta década que se inicia.Para a Organização Mundial do Turismo, enquanto o turismo convencional re-gistra um crescimento de 7,5% ao ano, o ecoturismo ultrapassa 20%. Quandofalamos no desenvolvimento do turismo e obviamente estamos falando em açõesplanejadas, devemos levar em conta critérios de sustentabilidade que atendam aanseios e demandas Esta sustentabilidade depende de como a atividade é plane-jada e executada, considerando os aspectos do meio ambiente da área visitada,sua economia e os fatores sociais.ECOTURISMO SUSTENTÁVEL O conceito de desenvolvimento sustentado2 tem três vertentes principais:crescimento econômico, eqüidade social e equilíbrio ecológico, induzindo um“espírito de responsabilidade comum” como processo de mudança no qual aexploração de recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas dedesenvolvimento tecnológico deverão adquirir sentido harmonioso. Significauma experiência ou prática bem sucedida, que tem como pressuposto o usoadequado dos recursos ambientais, de tal modo e em ritmos tais que o recursoseja capaz de se recuperar, que a prática resulte em benefícios sociais comequidade e seja economicamente viável, resultando numa melhor qualidade devida para as gerações presentes e futuras. PIGRAN, citado por UVINHA (2002), ressalta a sustentabilidade como uma pos-sibilidade real a partir da implantação do turismo: O turismo está assumindo um crescente e promissor lugar na economia global e, com isto, a expectativa é de que o estabele- cimento do mesmo será desenvolvido e administrado visando o mais alto grau da excelência ambiental. Assim, o turismo não deveria ser visto como uma ameaça para o ambiente, mas sim um instrumento de positiva mudança ambiental. A busca de formas sustentáveis de turismo pode servir como um poderoso incentivo visando proteção e intensificação da base de reservas biofísicas de uma região, junto a um maior cuidado e preocupação para a cultura e patrimônio da localidade”144 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Os benefícios que o ecoturismo possibilita não estão restritos somente aosturistas que, inserindo tal atividade no seu tempo de lazer, vivenciam a quebratemporal e espacial da suas rotinas. Pensar em um ecoturismo sustentável insereatores até então esquecidos nesta cena: a população receptora, que tem noturismo uma das soluções econômicas para a região em que vive: As atividades de turismo e lazer no meio rural têm assumindo destacado papel junto à sociedade, pois surgem como uma alter- nativa ou meio através do qual podem ser gerados benefícios tanto à população urbana (visitantes e turistas) - que pode vivenciar experiências autênticas em contato com a natureza e os valores histórico-culturais do meio rural - como à população receptora (comunidade, família empreendedora) que, ocupando-se da pres- tação de serviços turísticos (hospedagem, alimentação e lazer), pode adquirir condições (renda, auto-estima, ocupação/traba- lho, cultura/conhecimento) para melhorar sua situação de vida no campo. O ecoturismo, dentro da sua característica de manter em contato os sereshumanos com o meio ambiente e com outras culturas, aproxima-se do conceitode desenvolvimento sustentável. Encontrar o equilíbrio entre os interesses eco-nômicos que o turismo estimula e um desenvolvimento da atividade que preserveo meio ambiente não é tarefa fácil, principalmente porque seu controle dependede critérios e valores subjetivos e de uma política ambiental e turística adequada.Para GOULART3 (2003), O desenvolvimento sustentável do turismo deve considerar a ges- tão de todos os ambientes, os recursos e as comunidades receptoras, de modo a atender às necessidades econômicas, so- ciais, vivenciais e estéticas, enquanto a integridade cultural, os processos ecológicos essenciais e a diversidade biológica dos meios humano e ambiental são mantidos através dos tempos. A concretização e realização do ecoturismo sustentável deve ter como umdos eixos a Educação Ambiental, buscando assim contribuir para a formação decidadãos conscientes e aptos a atuarem na construção de um modelo ecologi-camente equilibrado. As atividades devem ser acompanhadas de uma educaçãobaseada no (re)conhecimento e desejo de preservação dos espaços com osquais se interagiu durante a atividade ecoturística. Acreditamos, com vista no referencial levantado, se possível realizar umaatividade ecoturística que possa contribuir para a construção de uma realidademais harmoniosa. Para isso, a atenção deve estar centrada para o estabeleci-mento de uma educação ambiental que aborde aspectos primordiais relaciona- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • dos ao desenvolvimento e ao meio ambiente, tais como população, saúde, paz,direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e fauna, estimulandoa solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se deestratégias democráticas e da interação entre as culturas4. Dessa forma, enten-demos que a educação ambiental deve tratar as questões globais críticas, suascausas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social ehistórico.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]NOTAS5 Informações obtidas no site do MMA: www.mma.org.br2 Em 1983, a Assembléia das Nações Unidas encomendou um relatório à comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. O relatório desta comissão, publicado em abril de 1987 e posteriormente denominado “Nosso Futuro Comum”, vem difundindo o conceito de desenvolvimento sustentado.3 GOULART, Ézio Dornela. Ecoturismo e Desenvolvimento Sustentável (www.ecoviagem.com.br/ecoartigos)4 A Educação Ambiental é caracterizada aqui tendo como referência os Princípios da Educação para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (www.mma.gov.br/port/sdi/ea/tratea.cfm)146 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: capítulo de livroFormato da contribuição: texto resumidoFonte: Livro intitulado “Turismo, Lazer e Natureza”, organizado por AlcyaneMarinho e Heloisa Turini Bruhns, publicado pela Editora Manole (Barueri - SP)em 2003.E-mail do(s) autor(es): sandovalvillaverde@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Mestre e Doutor em Educação Física/Estudosdo Lazer (UNICAMP), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Nortee membro do GTT Recreação/Lazer do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.Refletindo sobre lazer/turismo nanatureza, ética e relações de amizadeSandoval Villaverde Monteiro Minha intenção neste escrito é partilhar algumas idéias sobre os temas indica-dos em seu título. Busco desenvolver aqui algumas reflexões sobre lazer e turis-mo, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais, pre-tendendo uma aproximação ao debate sobre ética, subjetividade e formas con-temporâneas de sociabilidade, em especial as relações de amizade. Num primeiro momento, a discussão é feita em torno de algumas considera-ções gerais sobre lazer e a atividade turística, tendo-as como experiências hu-manas de grande complexidade e de crescente inserção na vida das sociedades.O lazer, universo no qual se insere a atividade turística, é discutido como campofértil de práticas sociais que mobilizam processos renovados de constituição desubjetividades, pois, assim como outras experiências humanas, oferece possibi-lidades especiais para o exercício e intensificação de uma relação diferenciadaconsigo próprio, com o outro e com a vida no mundo. Neste sentido, a atividadeturística é pensada em dimensões que transcendem seu tratamento como meraatividade comercial e de consumo que, aliás, ocupa cada vez mais espaço nosetor denominado “de serviços”, buscando seu entendimento como campo he-terogêneo de relações humanas e de relação das pessoas com os lugares e coma cultura. No âmbito dessa abordagem, é problematizado especialmente o seg-mento do turismo conhecido genericamente como “ecoturismo”, cuja ênfaserecai na vivência turística em ambientes naturais e paisagísticos, e onde sepretende implícita a idéia de preservação da natureza. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Num segundo momento, a intenção é direcionar a discussão para algumasvivências corporais geralmente praticadas em ambientes naturais, as quais têmsido associadas às expressões “esportes radicais”, “turismo ou esporte de aven-tura”, etc., discutindo aspectos de sua expansão e a incorporação pelo mercadoturístico e esportivo. Mesmo considerando as contradições e paradoxos dalógica que motiva tal incorporação, o esforço é o de problematizar aspotencialidades da vivência de tais práticas corporais para o exercício de umarelação humana diferenciada com o corpo e com a natureza, o qual possibiliteabrir caminhos para processos renovados de subjetivação. Tal problematizaçãonos aproxima do debate contemporâneo sobre subjetividade, ética e formas desociabilidade, sugerindo a criação e recriação de formas alternativas de relaci-onamentos voltados para o mundo, onde a pessoa humana seja respeitada emsua pluralidade e singularidade.CONSIDERAÇÕES SOBRE LAZER/TURISMO E A TEMÁTICA AMBIENTAL O debate sobre lazer e turismo, assim como suas relações com a problemáticaambiental, têm merecido larga atenção em diversos setores da vida social e daprodução acadêmica, o que demonstra sua atualidade e relevância, ao mesmotempo em que exige análises multi-referenciadas e cada vez mais rigorosas embusca de sua compreensão e crítica. A atividade turística, entendida não somente como atividade econômica, mascomo prática social complexa e multifacetada, implica essencialmente o deslo-camento de pessoas e a relação dessas pessoas entre si, com a comunidade ecom o lugar visitado. Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviçosinerentes à atividade turística (viagens, transportes, hospedagem, gastronomia,publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a dimensão das relações huma-nas com as quais se constitui o fazer turístico. Parece razoável admitir que a atividade turística está implicada num universomais amplo, o do lazer, o que torna imprescindível discuti-los conjuntamente.Acredito que somente é possível apreender o significado de lazer no seio dacultura onde este é construído, e, conseqüentemente, penso ser de pouca utili-dade estar preso a hermetismos conceptuais, especialmente quando eles aspi-ram ruidosamente à generalização e à condição de universalidade. No entanto, considero ser necessário pensar o lazer contemporâneo comouma prática social engendrada pelas transformações no mundo do trabalho, pelacomplexificação das sociedades e pelo advento da urbanização, entre outrosfenômenos situados na história. Mais que isto, não se deve perder de vista que aexperiência do lazer1 diz respeito, em minha opinião, a uma experiência humanade grande complexidade, sendo marcada pela fruição subjetiva, lúdica2 e inten-cional do mundo. O aspecto da intencionalidade me parece importante de ser148 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • lembrado, pois permite enfatizar tal experiência na esfera da subjetividade, aqual não somente é produzida no caldo da sócio-cultura (Guattari & Rolnik,1986), mas também vivencia, reflete, produz, reelabora e ressignifica essa mes-ma cultura e o mundo. Dessa forma, associo a experiência do lazer à vivência,produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado3 pelossujeitos às imposições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena,especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade. É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo no qual seinclui a atividade turística, como campo de experiências humanas privilegiadasjunto aos processos de constituição de subjetividades, já que, ao potencializaros aspectos anteriormente destacados, oferece uma rica possibilidade de exer-citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e coma alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementosdo planeta. A possibilidade de uma intensificação da relação consigo próprio e com omundo na vivência do lazer, assim como em qualquer outra dimensão da vidahumana, não aponta, necessária ou essencialmente, para uma finalidade ou devir“positivo”, “desejável” ou mesmo “correto”, segundo esta ou aquela visão demundo ou corrente de pensamento. Mas pode apontar, pelo menos, para a pos-sibilidade de uma forma diferente de existência, num mundo de relações incrivel-mente heterogêneas. Pode apontar para um devir criativo, onde o cuidado con-sigo próprio, com o outro e com o mundo seja uma constante, sobretudo sob aégide das intensidades4. É pressupondo esta concepção de lazer que me interessa discutir a atividadeturística, seja explorando suas dimensões mais visíveis e factuais, evidenciandocontradições e possibilidades, seja assumindo o esforço de pensar tal atividadeem seus aspectos éticos e teleológicos. Essa espécie de “dever-ser” turísticopressupõe, ao meu ver, uma esmerada discussão sobre o papel que a atividadeturística assume ou seja chamada a assumir, especialmente enquanto campo deações humanas que oportuniza um rico e complexo locus de relaçõesinterpessoais, de vivência/produção de cultura e de relações com o mundo/natureza. Campo de ações humanas esse que, aliás, oferece um rico cenário parao exercício do que tenho chamado de ética relacional: uma ética onde importenão somente a relação do sujeito consigo próprio, “mas também a relação comoutras pessoas, consideradas em sua pluralidade5, e ainda com outros seres eelementos existentes no mundo, considerados em sua diversidade” (Villaverde,2001, p. 120). Tal ética relacional, aproxima-se das formulações de Sant’Anna (2000), à me-dida que esta autora discute condutas éticas onde, no lugar da dominação, sãoexercidas composições entre seres humanos e não humanos, as quais não selimitam a adequações harmoniosas fadadas a tornar os seres similares uns aos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • outros, mas que garantam até o fim a preservação das diferenças e singularida-des. Trata-se de realçar tais diferenças e singularidades, sem com isso degradarqualquer uma delas em proveito da outra. Com estas considerações iniciais sobre lazer e turismo, problematizemos umpouco mais algumas dimensões da atividade turística, setor que a cada dia seexpande, se transforma e ganha importância no cenário contemporâneo. Essaexpansão pode ser vislumbrada ao lembrarmos alguns números do turismo: são204 milhões de pessoas no mundo, empregadas pelo turismo, o que representa10, 6% da força de trabalho global. O turismo é o setor que mais contribui para aeconomia mundial, produzindo cerca de 10, 2% do produto nacional bruto mun-dial, além de ser o maior gerador de receitas de impostos, no valor de 655 bilhõesde dólares (Naisbittt, citado por Trigo, 1999). De acordo com Trigo (1999), as expectativas do crescimento global do turis-mo são de 6, 1% ao ano, o que representa 23% a mais do que o crescimento daeconomia mundial, podendo-se estimar que até o ano 2005 o turismo gerarácerca de 144 milhões de empregos em todo o mundo. Mesmo que tais projeçõespossam merecer uma revisão mais atualizada, estes dados, ao evidenciar a mag-nitude econômica da atividade turística, apontam pelo menos para dois aspec-tos: cada vez mais segmentos da sociedade estarão envolvidos com o turismo,o que requer uma atenção especial quanto aos impactos socioambientais e aosbalizamentos éticos deste setor de serviços em franco crescimento; a atividadeturística necessita de um amplo planejamento, pesquisa e reflexão constante,especialmente visando a atenuação de seus aspectos negativos concomitante àbusca do incremento de suas potencialidades positivas. É importante ressaltar, sobre a expansão da “indústria turística”, que as maio-res taxas de crescimento ficam por conta do segmento turístico conhecidogenericamente sob a expressão “ecoturismo”, o qual se refere a uma multiplicidadede práticas vivenciadas em ambientes naturais, em torno das quais privilegiareiminhas análises. Como observa Serrano (1997), o crescimento dessas modalida-des, vinculado à aspiração de uma espécie de “retorno à natureza”, afirma aindamais sua importância como fenômeno social ao ser considerado em conjuntocom outros sinais de busca dessa natureza, também associados ao mesmo uni-verso mental das práticas do ecoturismo: expansão das medicinas alternativas,dos esportes praticados em ambientes naturais, da alimentação natural e doambientalismo, somente para citar alguns. A autora chama atenção também paraa necessidade de não negligenciar os impactos sociais e naturais decorrentes dodesenvolvimento do ecoturismo, mesmo considerando a retórica do “baixo im-pacto”, centrada na imagem veiculada pelo seu marketing de “indústria limpa”. A expansão do ecoturismo parece seguir o sucesso das fórmulas “eco”, asso-ciando-se ao discurso do propalado “desenvolvimento sustentável”. Para Silva(1996), o paradigma de suporte desses discursos constitui-se em termos150 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • lingüísticos. Trata-se de um mecanismo de adjetivação: turismo ecológico ouecoturismo, gestão racional, zoneamento geo-ambiental, entre outros. Taladjetivação, segundo a autora, serve não somente para “legislar” acerca dedeterminadas práticas, mas também para representá-las como aprioristicamenteisentas de serem questionadas, tendo em vista estarem de acordo com a legali-dade ambiental. De acordo com Silva (1997), falar “do lugar” da ecologia, isto é, mostrar-seatuando em concordância com uma postura ecológica, significa hoje estar secolocando num espaço de significação do político. O discurso ecológico consti-tui-se assim num discurso político, buscando legitimar as práticas a ele vinculadas,isentando-as de questionamentos, na medida em que, por um recurso lingüísticode adjetivação, possibilita uma relativização dos sentidos dessas mesmas práticas. O discurso do desenvolvimento sustentável está explícito na própria definiçãooficial do ecoturismo pela Embratur, que o considera como “um segmento daatividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cul-tural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciênciaambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estardas populações envolvidas” (Brasil, 1994, p. 19). O conceito de desenvolvimento sustentável, atrelado à noção deecodesenvolvimento, tem sua referência principal no relatório Nosso FuturoComum, o qual foi elaborado pela Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente eDesenvolvimento em 1987. O “turismo sustentável”, outra denominação quetraduz a noção de ecoturismo, teria seu apoio nos princípios do uso sustentáveldos recursos naturais, da preservação da diversidade natural e cultural, do bene-fício e integração das comunidades locais, etc. Para Luchiari (2000), a partir do referido relatório e de seus ideários, os fatoressocioculturais e ecológicos foram incorporados às políticas econômicas, soci-alizados no imaginário coletivo e incorporados ao próprio mercado, o qualpassou a comercializar produtos ecológicos, assim como distintivos de identi-dade cultural. Nesta lógica, o conceito de desenvolvimento sustentável, apesarde cientificamente legítimo, é antes de mais nada um instrumento político, eportanto funciona como uma panacéia que pretende garantir a exploração eco-nômica ao longo do tempo e em escala planetária. Uma outra análise bastante instigante sobre os equívocos e paradoxos ligadosà noção de ecoturismo pode ser vista em Yázigi (1999), o qual discute, inclusive,a inadequação semântica do próprio conceito, especialmente do prefixo “eco”.Em sua opinião, tal prefixo pretende ter um efeito moralizante, pois ao entrar nadenominação de parques6, arquitetura, alimentação ou artesanias, estabeleceuma espécie de distinção entre o bem e o mal, no qual as pessoas têm a oportu-nidade de se exorcizar. O autor argumenta que a Ecologia é uma criação cientí- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • fica, uma disciplina que estuda não um ser isoladamente, mas suas relações comos mais diferentes meios vivos ou não. Neste sentido, o que se considera é,essencialmente, a relação que, quer percebamos ou não, existe em tudo, dondese pode concluir que tudo é ecológico. Portanto, “deduz-se então, não ter muitosentido falar em ‘ecoturismo’ ou ‘casa ecológica’; todo turismo ou casa sãoecológicos, na medida em que o observador os relaciona com o meio. Fica entãoflagrante que o ‘ecoturismo’, como qualquer ‘eco’ vulgar perde sentido científi-co. A falta de entendimento da matéria conduz a práticas alheias ao verdadeirosentido da preservação” (Yázigi, 1999, p. 117). Ainda segundo o autor, aquilo que tem sido chamado ecoturismo teria de serreconsiderado, no sentido de situar-se adequadamente tanto no plano semânti-co como em seu conteúdo. Como a palavra já se encontra consagrada pelo uso,o autor propõe utilizá-la entre aspas ou mesmo adotar uma denominação maisadequada: turismo preservacionista. Tal expressão estaria mais de acordo comuma possível associação com a busca de preservação e recuperação dosecossistemas. Um primeiro problema, apresentado pelo autor, é a dificuldade emse definir o que são situações de equilíbrio dos ecossistemas, aí incluídos aespécie humana e suas obras, especialmente considerando o contexto de umcomplexo mundo em constantes e aceleradas mudanças. Aqui passamos a esmiuçar as idéias centrais que articulam as práticas etiquetadascomo ecoturísticas. Nesta linha de problematização, Luchiari (2000) argumentaque grande parte das políticas e diretrizes para o setor turístico, inclusive aprópria Organização Mundial do Turismo (OMT), recorreram à idéia de um limitede crescimento da atividade turística, utilizando-se dos conceitos de impacto,de capacidade de carga e de sustentabilidade. Mas, questiona a autora, Como definir o limite suportável de um meio, quando o estamos relacionando a uma prática social e a formas distintas de territorialidade? Se estamos analisando grupos sociais extrema- mente diversos, como medir o limite do impacto cultural, econô- mico, político, ambiental e tecnológico, sem considerar a dife- renciação do meio e a relatividade social no tempo e no espaço? Como saber quando a pressão turística não só traz novas formas para a reorganização do lugar, mas deforma o meio e a sociedade local? A idéia de impacto pressupõe que um lugar possua uma resistência-limite, mas, do ponto de vista do meio e da população local, como é possível prever esse limite utilizando variáveis quan- titativas (freqüentação, fluxo, número de leitos, etc.), como faz a maioria das análises de impacto, de ciclo ou capacidade de car- ga?” (Luchiari, 2000, p. 117). Todos esses modelos de controle, como observa a autora, tomam os lugaresturísticos como se fossem sistemas fechados, totalmente passíveis de terem152 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • seus fluxos controlados, valendo-se de modelos advindos da ecologia, da biolo-gia e da física, de forma a garantir precisão e legitimidade científica. No entanto,a atitude de tomar a sociedade como sujeito da construção dos lugares turísti-cos deve aceitar a existência de inúmeras variáveis subjetivas, não passíveis dequantificação, além de variadas combinações possíveis e imprevisíveis. Resulta evidente a complexidade da discussão sobre turismo e preservação danatureza, uma vez que tais práticas sociais podem, dependendo do contexto(político e sócio-econômico) em que ocorrem e das diretrizes éticas que asnorteiam, seguir em direções opostas. De qualquer modo, convém ressaltar, osproblemas ambientais hoje existentes exigem muito mais do que uma atividadeturística responsável. Na opinião de Yázigi (1999), a qual me parece coerente, osproblemas ambientais realmente sérios, do quais os outros derivam, são basica-mente três: os modos de produção (aí incluída a tecnologia adotada), os padrõesde consumo e as taxas populacionais em expansão. Uma atividade turística compreocupações ambientais verdadeiras há que considerar esses problemas em seuconjunto, além de fomentar uma postura preservacionista que não somentecontemple o espaço-tempo de lazer e turismo, mas que se estenda para a vidacomo um todo. A proposta de usar uma outra expressão, em alternativa ao termo “ecoturismo”,para denominar uma atividade turística realmente comprometida com uma pos-tura ética de preservação socioambiental, me parece bastante válida. Além daapropriação política indevida do termo “ecoturismo” pelos discursos oficiaisdos segmentos públicos e privados ligados ao turismo, e de sua inadequaçãosemântica, muitas das atividades com a estampa “eco”, desgastada pela lógicado mercado e pela irresponsabilidade de pretensos “ecoturistas”, parece ter-sedesviado bastante de suas intenções originais implícitas. É obvio que mudar a expressão para se referir às mesmas práticas nada garanteem termos de mudança, mas esta não é exatamente a questão. Falar, por exem-plo, em um turismo preservacionista, ou outro conceito a ser melhor amadureci-do, é assumir uma postura crítica e demarcar um posicionamento ético-políticode diferenciação em relação ao turismo de massa ou às práticas turísticas pre-tensiosamente rotuladas de ecológicas, mas sem maiores compromissos com aqualidade das relações humanas e com o fomento de novas e responsáveisformas de relação do humano com o mundo. Uma outra idéia que me parece bastante fértil é o compromisso de assumirpara a vida como um todo uma postura preservacionista, não a restringindo àsexperiências de lazer e turismo. Mesmo considerando as potencialidades doexercício de uma tal postura ético-política a partir da experiência de lazer/turismo e da relação com os outros, esta deve ser permanentemente ampliada atodas as dimensões da vida, constituindo os indivíduos em seus processos desubjetivação e singularidade7. Retornarei mais adiante a este ponto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Por enquanto, somente relembremos o aspecto relativo e paradoxal da ativi-dade turística. Este procedimento é importante no sentido de evitar análisespolarizadas e/ou reducionistas. Como lembra Luchiari (2000), é inegável o as-pecto contraditório e emblemático do turismo, o qual acentua a produção delugares de consumo e o consumo de lugares. Contudo, a autora alerta sobre oequívoco de tomar a atividade turística apenas do ponto de vista negativo, comoum vilão desarticulador de antigas formas e funções sociais que destrói o velhosubstituindo-o pelo novo, através de um processo linear. O turismo, ao empre-ender a mediação entre o global e o local, possibilita que se tome o lugar e omundo em sua unidade, permitindo ainda trazer à luz novas formas de sociabili-dade, articuladas especialmente em função do processo contemporâneo derevalorização das paisagens para o lazer. Esse movimento, ao invés de contra-por o lugar ao mundo, o natural ao artificial, tende a impulsionar a reestruturaçãodas relações do lugar com o mundo e a formação de organizações socioespaciaiscada vez mais híbridas, misturando lógicas antigas e novas, dando origem aoutras composições. São as potencialidades de possíveis novas composições, relacionando a ativi-dade turística e o lazer em ambientes naturais, as quais interessa passar a explo-rar. Quero me referir especialmente às práticas corporais lúdicas, vivenciadascomo lazer e/ou esporte em ambientes naturais, as quais são paulatinamenteincorporadas e dinamizadas pelo universo turístico.PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA:EXPERIMENTANDO CONDUTAS ÉTICAS E NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE Essas práticas irão receber diversas denominações em seu desenvolvimento(“esportes de aventura”, “esportes radicais”, “atividades físicas de aventura nanatureza”, etc.), e têm sido fortemente incorporadas pelo mercado turístico, espe-cialmente em sua versão “ecológica” ou “de aventura”, passando assim, a despei-to do discurso ecológico que a sustentam, a reproduzir acriticamente a lógica doconsumo de massas, característica do modelo de acumulação capitalista. Convém ter em mente que à esta lógica corresponde o engendramento dedeterminadas formas de produção de subjetividade8, as quais, também por visa-rem a reprodução do modelo e de seus variados interesses, perdem sua capaci-dade crítica em relação aos agenciamentos sócio-políticos que visam normatizaras ações humanas e definir um certo tipo de sujeito. No entanto, a existência dasdiversas contradições e paradoxos vinculados a essas novas práticas em suaincorporação pelo mercado, seja ele turístico ou esportivo, não deve invalidar oesforço de tentar perceber o que elas trazem de renovado e potencialmentetransformador na relação do indivíduo consigo próprio e com a alteridade. Numapalavra: em suas condutas éticas.154 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Entretanto, antes de adentrar a problematização de tais potencialidades,convém discutir alguns aspectos sócio-históricos da expansão de tais prá-ticas corporais, assim como algumas questões de ordem conceptual a elasrelacionadas. Javier Olivera Betrán é um dos autores contemporâneos que discute essaspráticas corporais e, por sua reconhecida contribuição, vem paulatinamente setornando uma referência teórica sobre essa temática, o que torna pertinente ainterlocução com suas reflexões. De acordo com Betrán (1995), é em meados dadécada de setenta que surge e se propaga, especialmente nos países economica-mente mais avançados, uma nova realidade lúdica no universo das práticas cor-porais cujo enfoque é a vivência de aventura na natureza. Para o autor, estas“novas” atividades emergem como um conjunto de práticas recreativas, conso-lidando-se na década atual ao sabor dos novos hábitos, gostos e valores dasociedade pós-industrial ou pós-moderna. Ao discorrer sobre as “atividades físicas de aventura na natureza”, Betrán(1995) argumenta sobre estas práticas de lazer e turismo serem animadas, entreoutras coisas, Por uma série de valores e conceitos que pertencem às novas tendências culturais características da sociedade pós-industrial e supõem uma sólida oferta no marco das práticas corporais como modelo hedonista [...] Na atualidade, as práticas corporais de ca- ráter recreativo têm-se constituído como a principal forma de utilização do lazer ativo das pessoas pertencentes aos países economicamente avançados do ocidente. Esta realidade lúdica forma parte importante da denominada indústria do lazer, a qual tem uma incidência crescente no produto interno bruto e na cri- ação de postos de trabalho, concentrando-se por sua vez num alto nível de demandas sociais de transcendência política, social e cultural (p. 6). Como é possível perceber nestas breves considerações, o autor atribui a taispráticas um caráter peculiar sintonizado com os padrões culturais, sociais, éti-cos e estéticos emergentes no mundo contemporâneo, identificando-o comopós-industrial ou pós-moderno. Como são taxativos Betrán e Betrán (1995), as“atividades físicas de aventura na natureza” representam “os novos valoressociais acordes com a ideologia desta época: consumismo, proximidade à natu-reza, individualismo, hedonismo e corpo informacional” (p. 108)9. Com as muta-ções paradigmáticas e o surgimento de novos valores e demandas sociais queseriam peculiares a este novo momento da história, esse conjunto de práticascorporais, segundo os autores, têm-se consolidado nos últimos vinte anos combastante evidência e solidez no âmbito dessa “nova” cultura corporal. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Bétran (1995), evita usar o termo esporte para se referir a essas práticas cor-porais, entendendo-as como pertencentes a outra época, além de tratar-se deconcepções diferentes do esporte moderno, tanto no que se refere às motiva-ções e condições de sua prática, como nos fins a atingir e no meio onde sedesenvolvem. Embora reconheça seu caráter provisório, o autor adota a expres-são atividades físicas de aventura na natureza (AFAN) como composto semânti-co pertinente e discriminatório capaz de responder à concepção de seus estudossobre a temática. Essas “atividades físicas” são por ele consideradas como “prá-ticas individualizadas que se fundamentam, geralmente, em condutas motrizescomo o deslizar-se sobre superfícies naturais, onde o equilíbrio para evitar aqueda e a velocidade de deslocamento aproveitando as energias livres da natu-reza constituem os diversos níveis de risco controlado no qual se baseia aaventura” (Betrán, 1995, p. 6). Embora possam não dar conta da totalidade de suas reflexões, as idéias aquiexpostas são representativas de alguns desenvolvimentos teóricos de JavierBetrán sobre o tema, a partir das quais gostaria de fazer algumas considerações.Me parece inegável uma intensificação relativamente recente das transforma-ções tanto materiais como culturais da vida humana, o que torna pertinenteadmitir o momento contemporâneo como um palco de inusitados cenários (VideHarvey (1998), Featherstone (1995) e (1997), além de outros autores). Diferente-mente de Betrán (1995), prefiro tratar o presente momento histórico simples-mente como contemporaneidade, pois, além de evitar o desgastado debatemodernidade/pós-modernidade, ainda desconfio da validade teórico-filosóficadesta última categoria, visto que os desdobramentos últimos da modernidadenão apontam propriamente uma ruptura, legitimando o prefixo “pós”, mas umaintensa problematização e crise dos valores e ideais modernos, onde se inseremas variadas mutações nas relações sociais, na relação da pessoa humana comseu corpo, com os incrementos técnicos e com os diversos seres e elementos domundo natural. Outro ponto a ser considerado diz respeito à expressão “atividades físicas deaventura na natureza”, proposto por Betrán (1995) como núcleo semântico ca-paz de articular tais práticas corporais. Como o autor, considero inadequada autilização do termo esporte para se referir a tais práticas, não propriamente porpertencerem a outra época, como ele argumenta, mas por se tratar de caracte-rísticas, concepções e finalidades diferenciadas em relação ao esporte moder-no, mesmo levando em conta o processo de ampla “esportivização” de muitasdessas práticas corporais na atualidade. Embora muitas delas estejam sendopaulatinamente incorporadas ao espetáculo esportivizado (vide corridas de aven-tura e orientação, competições de rafting, escalada esportiva in door, etc.),reservo o termo esporte para me referir a “um sistema institucionalizado depráticas competitivas, predominantemente físicas, delimitadas, decodificadas,regradas convencionalmente, cujo objetivo reconhecido é, sobre a base de umacomparação de performances, de proezas, de demonstrações físicas, designar o156 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • melhor concorrente (o campeão) ou registrar a melhor performance (o recor-de)” (Brohm, citado por Cavalcanti, 1984, p. 42). Por outro lado, pensemos a expressão “atividades físicas”. Tal expressão, caraà Educação Física, particularmente ao segmento que prioriza a discussão sobre“atividade física e saúde”, não me parece atender satisfatoriamente às exigênci-as semânticas desejáveis e reclamadas. O termo atividade, combinado ao adje-tivo “física”, parece inadequado e limitado, pois, além de não garantir exatidãoem sua especificidade, parece não exprimir a riqueza das ações motoras huma-nas presentes no repertório da cultura corporal. Uma rápida análise do vocábulo“física” nos dicionários, aponta a possibilidade de variadas coisas poderem serchamadas atividades físicas, pois Física é a denominação da ciência que estudaas propriedades gerais da matéria, assim como as leis que tendem a modificar-lhe o estado ou movimento, sem alteração de sua composição química. “Físico”,relativo à Física, é um adjetivo também sinônimo de material, corpóreo10, o quepermite admitir que a atividade física é uma possibilidade inerente não somenteà pessoa humana, mas a outros seres do mundo natural e elementos da matéria. Também de forma provisória, prefiro usar a expressão práticas corporais deaventura na natureza. Práticas corporais, pois a expressão “prática”, conjugadaao adjetivo “corporais”, diz respeito diretamente à noção de uma ação intenci-onal, idéia ou projeto em realização, na qual encontra-se expressa a dimensãocorporal e motriz da pessoa humana nele envolvida. O acréscimo “de aventurana natureza11” qualifica essas práticas corporais quanto a uma de suas caracte-rísticas mais latentes, o sentido de aventura e risco, e também o espaço prepon-derante onde em geral elas ocorrem, isto é, os ambientes naturais e seus elemen-tos, como a água, as matas, a montanha, o ar, etc. Uma observação a mais, também digna de ser considerada, diz respeito àtendência de conceber essas vivências corporais como práticas individualiza-das, e que se fundamentam preponderantemente no deslizar-se sobre superfíciesnaturais (Betrán, 1995), enfatizando o deslizar-se em superfícies lisas, fluidas eonduladas (Coelho dos Santos, 1997). Em primeiro lugar, não creio que, apenaspelo fato de serem em geral praticadas em pequenos grupos e sua disseminaçãonão tenha o alcance dos “esportes de massa”, por exemplo, tais vivências cor-porais possam ser consideradas individualizadas ou individualizantes. A experiência de coletivo pode ser vivida tanto numa prática corporal como acaminhada por trilhas (trekking) ou rafting, cujo número de pessoas vivendo emgrupo a mesma situação pode ser bem expressivo, ou numa prática como aescalada em rocha, na qual esse número é bem mais reduzido, mas onde a formade sociabilidade exercitada é bastante intensa e qualificada12. Por outro lado, parece de pouca utilidade colocar o deslizamento em superfí-cies lisas, fluidas e onduladas como característica fundante e geral dessas práti- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • cas corporais de aventura na natureza, pois vivências como a caminhada e aescalada, para citar somente duas, não se enquadram nesta caracterização. Asuperfície onde se pratica a escalada é quase sempre rugosa e não é fluida comouma onda, corredeira de rio ou coluna de ar. A noção de meio fluido, indomávele inconsistente, associado a essas “novas” práticas de forma geral e vinculado àdiferença entre superfícies rugosas e lisas (Coelho dos Santos, 1997), perdem umpouco de sua aplicação quando pensamos, por exemplo, na escalada em rocha. Nesta prática corporal, especialmente sendo ela vivenciada como lazer, o queestá em jogo é uma composição, de preferência suave e criativa, do praticantecom os obstáculos da gravidade, com as possibilidades oferecidas ao corpo pelaconsistente e quase sempre rugosa rocha (em suas agarras, fendas, fissuras,etc.), com os equipamentos utilizados (cordas, fitas, mosquetões, etc.) e comquem o acompanha nesta aventura em sentido vertical. Como parece perceptível, a vivência dessas práticas de forma geral denotamuma relação no mínimo diferenciada com a dimensão corpórea e com o ambien-te natural, pelo menos se as comparamos às modalidades do esporte modernoinstitucionalizado. Conforme discuti de forma mais detalhada em outra ocasião(Villaverde, 2001), parece haver, na dinâmica de realização de tais práticas,evidências de algumas mutações na relação da pessoa humana com o própriocorpo e com a natureza. No lugar de uma relação energética (Coelho dos Santos,1997), comum às modalidades do esporte moderno (às quais correspondem no-ções como destreza muscular, força, potência, busca de resultados eperformances, recordes, etc.), o que parece evidenciar-se na vivência das práti-cas corporais de aventura é uma relação estética com o corpo e com os elemen-tos da natureza, os quais interagem no plano das ressonâncias, do estilo, daludicidade, das composições e negociações. Tais mudanças, apontando uma relação mais de contrato do que de controle emrelação à natureza, são, ao meu ver, bastante significativas, e podem ser conside-radas como uma manifestação importante de mutações mais amplas na lógica darelação do ser humano consigo próprio e com o mundo onde vive, donde se podevislumbrar uma de suas potencialidades: elas apresentam, exatamente pelo quetrazem de novo na relação com o corpo e com a natureza, a possibilidade deexercitar uma nova relação consigo próprio, de vivenciar de maneira diferente omundo e de experimentar formas renovadas de sociabilidade e subjetividade. Experimentação, sentimentos, estilo, intensidade, composição, negociação. Eisnoções que se relacionam com essas vivências corporais, e que tornam possíveluma aproximação à discussão contemporânea sobre subjetividade, ética e socia-bilidade, especialmente considerando as reflexões de pensadores como Foucault,Derrida, Levinas, Arendt, Deleuze, Guattari, entre outros. As formas que assumem adinâmica das práticas corporais vividas coletivamente no espaço natural, sob aégide da intensidade e das composições interindividuais, parecem oferecer um158 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • cenário propício para o exercício de novas formas de sociabilidade, em especial asrelações de amizade, entendida como forma de subjetivação coletiva. Trata-se de buscar nessas práticas corporais as possibilidades de novos exer-cícios vinculatórios, não pautados simplesmente em adequações harmoniosasque neutralizam as diferenças, nem cedendo a apelos identitários oucomunitaristas, os quais, ao comprometer a afirmação das singularidades, ten-dem a empobrecer suas tensões e seu potencial criativo. Deve-se, ao contrário,esforçar-se em garantir até o final o realce das diferenças envolvidas em cadarelação, permitindo assim a eclosão de liames sociais menos burocratizados,vividos numa relação renovada e intensa com o mundo. É claro que os desafios e obstáculos encontrados na construção de tais for-mas de relacionamento são consideráveis, inclusive quando pensamos nessaspráticas corporais como parte do universo das atividades turísticas. A lógicautilitarista e mercantil de instrumentalização da natureza e das próprias práticas,comum ao trade turístico que as promovem e as comercializa, e a facilidade comque ela aparece disseminada nos indivíduos e grupos que participam dessespacotes “esverdeados”, parecem minar ainda mais suas potencialidades críticase criativas. Neste sentido é preciso, sobre este e outros temas, independente dascondições que a paixão por uma dada temática possa permitir, tentar esquivar-se de qualquer atitude reificante sobre ela. No entanto, o compromisso ético-político de descortinar transformaçõessocioculturais qualitativas e ampliar eventuais demonstrações de resistências àslógicas e à subjetividade dominantes, inclusive no contexto da atividade turística,deve, em minha opinião, ser assumido. Mesmo havendo uma notável incorporaçãodessas práticas corporais pela lógica mercadológica turística ou esportiva, talincorporação nunca é total, assim como nunca é total o esquadrinhamento dasubjetividade pelo poderes subjetivantes, tal como têm demonstrado Foucault,Deleuze e Guattari13, devendo-se ir em busca de “resistências moleculares”, depequenas “brechas”, de “linhas de fuga” subjacentes a essas experiências humanas. E por que a preocupação em desconfiar dos apelos identitários oucomunitaristas? Como discuti em outro momento 14, apoiado em Paiva (2000),prender-se ao universo da identidade, por um lado, levanta questões sobre oesquadrinhamento e domesticação dos processos de singularização15 pelos po-deres normatizantes que tendem a neutralizar seu potencial disruptivo, vide, porexemplo o culto californiano do eu, onde a identidade é decifrada pelos saberescientíficos e, assim como certos movimentos de minorias com forte matrizidentitária, esboça um esteticismo bastante afeito à lógica do mercado, o quereduz consideravelmente o conteúdo político de suas reivindicações. Por outro lado, o apelo ao comunitarismo, dentro do qual o eu somente pode-ria ter expressão a partir do pano de fundo dado pela matriz comunitária, levanta Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • grandes desconfianças em relação à questão da administração dos grupos, assimcomo aos mecanismos de inclusão/exclusão presentes na comunidade e, inclu-sive, nos vários neotribalismos quaisquer que sejam suas matizes. A originalida-de do pensamento foucaultiano estaria exatamente na indagação de como po-deríamos pensar a produção da subjetividade para além da individualização e dapessoalidade, recusando tanto a obsessiva reivindicação de identidades quantoas significações partilhadas, as quais implicariam quase inexoravelmente nummovimento de aderência e conservadorismo. Discutindo sobre subjetividade em tempos de globalização, Suely Rolnik afir-ma que não é a defesa de identidades locais contra identidades globais, nemainda a identidade em geral contra a pulverização, mas é a própria referênciaidentitária que deve ser combatida, não pelo fascínio niilista pelo caos ou sim-plesmente em nome da pulverização, mas para dar lugar aos espaços de criaçãoexistencial, aos processos de subjetivação singulares. Isto implica abrir mão dovício em identidades e não tentar “domesticar” as forças de instabilização, o quetenderia a brecar os processos de singularização (Rolnik, 1997a). O desafio, segundo a autora, é aliar-se com as “forças da processualidade”:“Esta aliança depende – mais do que qualquer outro tipo de aprendizado- deestar à escuta do mal-estar mobilizado pela desestabilização em nós mesmos,da capacidade de suportá-lo e de improvisar formas que dêem sentido e valoràquilo que essa incômoda sensação nos sopra. Aqui não se trata de alucinar umdentro para sempre feliz, mas, sim, de criar condições para realizar a conquistade uma certa serenidade no sempre devir outro” (Rolnik, 1997b, p. 32-33). Por-tanto, é dentro de um projeto político de resistência aos diversos “kits de subje-tividades-clones” desses tempos de globalização, bem como de recusa às “iden-tidades prêt-à-porter”, essas figuras glamourizadas fartamente oferecidas pelamídia, onde se pode visualizar a potencial criação de singularidades disruptoras,de tipos renovados de sociabilidade. A procura de novas formas de subjetividade e sociabilidade, inclusive no âmbitodo lazer e do turismo, pressupõe a constituição do sujeito não como um exercíciosolitário, mas como uma ação compartilhada com outros sujeitos. A questão daintersubjetividade, isto é, a presença do outro na constituição do sujeito, especi-almente enquanto sujeito ético, merece destaque. Como observa Renaut (1998, p.100), a idéia do sujeito, na medida em que não a reduzimos à do indivíduo, namedida em que ela implica, em sentido contrário, uma transcendência da individu-alidade do Eu, comporta nela mesma a intersubjetividade, e assim a comunicaçãoem torno de uma esfera comum: “Na medida em que a idéia de sujeito correspondenão ao valor (individualista) da independência, mas ao da autonomia (humanista),nela está incluída, por definição, a relação com o outro”. A subjetividade, de acordo com Emmanuel Lévinas, citado por Ortega (1999),nasce na dimensão intersubjetiva do encontro com o outro, sendo a ética e a160 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • sociabilidade originadas na desdobra da relação primária do face-a-face. A filo-sofia de Lévinas aponta para a primazia da relação com o outro no estabeleci-mento da relação consigo mesmo, situando a intersubjetividade no centro daconstituição do sujeito. Como faz em relação a Lévinas, Ortega (2000), aproxima ao pensamentofoucaultiano os desenvolvimentos teóricos de Hannah Arendt. Segundo ele, em-bora existam diferenças entre as “estéticas da existência”16 foucaultianas earendtianas, tanto em Foucault como em Arendt as formas de subjetivação pensa-das pressupõe sua realização no espaço público e, portanto, são de caráter tantoético quanto político. Além disso, tanto numa como noutra abordagem, há umarecusa em aceitar um eu da interioridade e uma visão essencialista da subjetivida-de. Para Foucault, a subjetividade aparece como um processo, como uma relaçãoconsigo e com o outro, algo distante da noção de auto-consciência, e daí elepreferir falar de um “sujeito-forma” ao invés de um “sujeito-substância”. Quando Arendt (2000, p. 19) magistralmente problematiza a condição humanaem sua existência, essa condição humana não tem o mesmo sentido de “nature-za humana” ou “essência humana”. Seus argumentos vão no sentido de que nadanos autoriza a presumir que o humano tenha uma natureza, assim como as outrascoisas as têm, pois é bastante improvável que nós, que temos o poder de conhe-cer, determinar ou definir a essência natural de todas as coisas que não somos eque nos rodeiam, venhamos a ter esta mesma capacidade em relação a nósmesmos. Isso seria como pular a própria sombra. Por outro lado, ressalta aautora, “as condições da existência humana – a própria vida, a natalidade e amortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra – jamais podem‘explicar’ o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simplesrazão de que jamais nos condicionam de modo absoluto”. Tanto na fenomenologia arendtiana como na genealogia foucaultiana, obser-va Ortega (2000, p. 39), as formas retóricas não argumentativas ocupam o lugarda fundamentação argumentativa. Dessa forma, não há “nenhum critério objeti-vo e de validade universal, justificável logicamente ou fundamentável de formaargumentativa, que leve a privilegiar ou a universalizar suas posições, sejam paraencorajar a vontade de agir (Arendt) ou animar a experimentação com novasformas de sociabilidade(Foucault)”. Esta ação, em Arendt (2000, p. 15), é entendida como a única capacidadehumana “que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisasou da matéria” O agir, capacidade inerente ao humano, é dado segundo o pres-suposto de que os homens existem em pluralidade, e que estes se definem pelasua singularidade. A ação (o agir político, a participação nos assuntos humanos)está relacionada intimamente com a condição humana fundamental da natalida-de, do gozo e da alegria de um novo começar, do início de algo novo. A natali-dade, ou seja o nascimento, pressuposto ontológico da existência do agir, so- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • mente se realiza no confronto com o novo, o aberto, o contigente, e isso exigesair da esfera da segurança, aceitando o desafio do encontro e o convívio comnovas pessoas e novas situações. Em consonância com a opinião de Ortega (2000), é somente com o desenvol-vimento de novas formas de amor mundi, no sentido arendtiano, que se podeconceber alternativas para a criação e recriação de formas alternativas de rela-cionamentos voltados para o mundo, para o espaço público, sejam elas a amiza-de, a cortesia, a solidariedade, a hospitalidade e o respeito. Estas noções, a meu ver, deveriam compor o quadro referencial de qualquerforma de vida e prática social humana, em especial o lazer e a atividade turística.Mas as potencialidades das experiências de lazer e turismo cujas pistas procureiapontar, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais,não buscam formas de sociabilidade baseadas na fusão identitária com o outro, naexcessiva intimidade antropofágica, no consenso absoluto. Penso antes numaforma de amizade que, ao ter presente as contradições e tensões da condiçãohumana, possibilite ação e movimento à própria vida, através da incitação recípro-ca, oferecendo a possibilidade de auto-transformação. Trata-se da criação com-partilhada de algo novo, onde sejam respeitadas a singularidade e a pluralidade dooutro como condição possível para um mundo compartilhado e livre.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]NOTAS17 Utilizo o termo experiência no sentido dado por Tuan (1983, p. 9), como abrangendo “as diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade”. Experienciar é aprender, pois a experiência, constituída de sentimento e pensamento, implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência.2 Estou entendendo lúdico ou ludicidade como característica humana que pode expressar-se nas várias dimen- sões da vida, como o lazer, o trabalho, as relações afetivas, etc. O lúdico, sendo um dos aspectos inerentes à vida humana, tem, em minha opinião, o sentido do brinquedo, da brincadeira. O jogo, tanto no sentido dado por Callois (1958) como por Huizinga (1993), pressupõe, ao meu ver, a dimensão lúdica, da qual é expressão.3 A expressão tempo conquistado me parece mais apropriada, pois “tempo livre” remete à idéia de uma liberdade plena dos sujeitos sociais, a qual, por enquanto, está ainda por ser conquistada. Por outro lado, a expressão “tempo disponível” sugere uma certa passividade do tempo “sobrante” disponibilizado pelo senhor, pelo patrão ou opressor, visando vantagens sobre este tempo. Falar em tempo conquistado me parece mais revo- lucionário, pois nos referimos à conquista dos sujeitos sociais e de grupos, visando a expressão da ludicidade e liberdade mais plena, respectivamente característica e anseio da existência humana na história.4 “Pensar a intensidade ou pensar intensamente é uma forma de pensar o aberto, o acontecimento, esses momentos excepcionais, nos quais se interrompe a regularidade e a necessidade, mesmo por um instante. A intensidade somente pode ser pensada de forma intempestiva, fugaz e provisória, semelhante a pinceladas impressionistas que revelem alguns momentos, percebidos por um brilho peculiar, ou seja, pela sua intensi- dade” (Ortega, 1998, p. 7-8).5Aqui penso em pluralidade no sentido que lhe dá Hannah Arendt. A pluralidade é a condição da ação humana,a qual juntamente com o labor e o trabalho, configuram as três atividades humanas fundamentais designadaspela expressão vita activa. E a pluralidade é condição da ação humana “pelo fato de sermos todos os mesmos,162 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir” (Arendt, 2000, p. 16).6 Sobre esta discussão no âmbito de parques públicos urbanos denominados “ecológicos”, remeto a Villaverde (1998) e (1999).7 Guattarri faz importantes ponderações sobre subjetividade, individualidade e singularidade: “Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado [...] A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro do social. [...] O modo pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 31-33).8 A forma como Guattari trata a “produção de subjetividade” merece destaque, especialmente quando pensa- mos no recorrente antagonismo entre infra-estrutura e superestrutura, presente em boa parte das abordagens teóricas existentes. Nas palavras de Paiva (2000), “Guattari vai localizar a construção da subjetividade no mesmo nível da produção, considerando-a [...] como ‘matéria-prima de toda e qualquer produção’. Quer nos parecer que tal leitura nos faculta uma posição revolucionária de abordagem e crítica da subjetividade contem- porânea, uma vez que, ao abandonar a oposição micro x macropolítico, se está sensível à consideração das interpenetrações de tais campos” (p. 35).9 Miranda (1995), apoiando-se em Pociello, aproxima-se do pensamento de Betrán neste aspecto, afirmando ser o corpo que vivencia essas práticas um corpo informacional, isto é, concebido como receptor e emissor de informações e não como instrumento de ação e coação. Porém, sendo ainda mais perspicaz, Miranda chama atenção para um novo simbolismo dessas práticas, cujo caráter quase iniciático não deixa de configurá-las como “criadoras de amizades” e formadoras de grupos.10 MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.11 Como é preciso lembrar, natureza é um conceito que “exprime, uma totalidade, em princípio abstrata, que os homens concretizam na medida em que o preenchem com suas visões de mundo” (Carvalho, 1994, p. 26). Para efeito da presente discussão, uso esta expressão para me referir simplesmente ao ambiente natural, em seus elementos e seres animais e vegetais, do qual faz parte a espécie humana. Quando falo em práticas corporais de aventura na natureza, refiro-me àquelas vivenciadas em ambientes naturais como o mar, os rios e corredeiras, as matas e florestas, a montanha, o ar, etc.12 Minha vivência com escaladores, possibilitada pelos trabalhos de doutorado, e minha própria relação com a prática da escalada a partir desses trabalhos, permitem considerá-la bastante qualificada em termos de estreitamento de laços interpessoais. A relação que se estabelece entre guia (escalador que se coloca à frente no trajeto a ser feito na rocha) e participante (escalador ou escaladores que seguem o mesmo trajeto feito pelo guia após a chegada deste num determinado lugar da parede de rocha) precisa ser de confiança, comunicação, incitação recíproca e entendimento mútuos, a fim de minimizar o risco de acidentes e preservar a própria vida. Trata-se de cuidar de si e do outro na emoção de uma aventura compartilhada, onde os movimentos de troca do corpo com o ambiente são, a um só tempo, suaves e intensos.13 “De acordo com Paiva (2000, p. 37), tal entendimento nos afasta do fantasma frankfurtiano da “colonização” total do mundo da vida: “Com Deleuze e Guattari, assim como com Foucault, veremos a pouca utilidade de pensar naqueles termos, uma vez que há um permanente entrelaçamento móvel das forças de desterrritorialização (enquanto tendência de sistema) com as de desterritorialização (forças de criação, de inventividade), sendo que uma jamais esgota a outra: ambas se escalonam, trabalham, reconfiguram uma relação a outra”.14 Refiro-me ao artigo intitulado Sobre Corpo, Lazer e Amizade: Problematizações Ético-políticas na Subjetivida- de, publicado atualmente no Caderno de Programação Científica e Resumos (p. 192) do XII Congresso Brasi- leiro de Ciências do Esporte e em vias de publicação na íntegra em cd-room do evento.15 Guattari identifica os processos de singularização como “uma maneira de recusar todos esses modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para cons- truir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 17).16 As incursões de Foucault (1998, p. 15) à antiga estética da existência levam-no à revalorizar e procurar a reabilitação da práxis ascética da Antigüidade. Vejamos como ele se refere a essas “artes da existência”, essas “técnicas de si”: “Deve-se entender com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas ‘artes da existência’, essas ‘técnicas de si’, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua impor- tância e de sua autonomia quando, com o cristianismo, foram integradas no exercício de um poder pastoral e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou psicológico”164 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: livroFormato da contribuição: resumoFonte: MAGRO, T.C. Percepções do Uso Público em UCs de Proteção Integral. In:BAGER, A. , ed. Áreas Protegidas: Conservação no Âmbito do Cone Sul. Pelotas:Alex Bager, 2003.E-mail do(s) autor(es): tecmagro@esalq.sup.brTítulos acadêmicos principais atuais: Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental.Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo.Percepções do uso público em UCsde Proteção IntegralTeresa Magro A coexistência dos valores associados às áreas naturais poderá ser a próximagrande questão no manejo de unidades de conservação de proteção integral.Valores ecológicos, recreacionais, estéticos e espirituais sempre estiveram rela-cionados a estas áreas, com atribuição de pesos diferentes, dependendo da fasehistórica e econômica do país. Ao inserir a valoração econômica, agregada àrecreação como função da área protegida, pode haver uma reorientação, dafunção principal destas áreas. No momento em que acreditarmos que nossasáreas protegidas de proteção integral devam ser rentáveis estaremos iniciandoum processo de desvio de função com possíveis perdas ambientais. Este posicionando não significa uma recusa de todos os benefícios relaciona-dos ao desenvolvimento de atividades recreacionais nas UCs de proteção inte-gral e no seu entorno. O reconhecimento do valor que estas áreas desempenhamno desenvolvimento econômico regional tem sido um dos fatores de suportepara a manutenção e criação de novas áreas protegidas. Nos últimos dez anos,com algumas exceções, passamos para uma situação onde moradores e propri-etários de áreas limítrofes às UCs vêem oportunidades e não somente restriçõesassociadas aos seus anteriormente “indesejáveis vizinhos”. A situação anterior, onde valores científicos eram privilegiados, com situa-ções onde as funções ligadas ao uso público não eram contempladas de formaadequada , também não é desejável. O importante, é que agora que o turismo esuas variações ligadas ao ambiente natural e cultural, tem-se direcionado com Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • grande potencial para as áreas protegidas, tenhamos instrumentos eficientespara administrar e redirecionar fluxos e o uso nestas áreas. As UCs, como incentivadoras do processo do desenvolvimento regional nãodevem concorrer com as iniciativas locais ligadas ao desenvolvimento de proje-tos de turismo com base na natureza. Deve considerar as opções e parcerias noplanejamento das atividades que sejam adequadas às funções de conservaçãodos recursos naturais. Esta abordagem busca o balanço entre conservação e usoe a manutenção de opções futuras de ambientes que mantenham suas caracterís-ticas o mais primitivas possível. Nossa corrida por uma parte do mercado do ecoturismo e até mesmo doturismo de aventura, com abordagens desviadas do seu elo principal, podedescaracterizar ambientes primitivos e diminuir sua função ambiental e valorestético. Nesta discussão, onde se planeja o uso público com base na qualidadedo ambiente e da experiência do visitante, é importante destacar que ações quelevem a uma grande alteração do ambiente natural podem ter um alto custo deimplantação com resultados nem sempre favoráveis. O retorno destas áreas àcondição anterior de primitivismo poderá representar um alto custo econômico. Apesar do enfoque dado às atividades mais ativas, desenvolvidas em ambien-tes naturais, observa-se também o crescimento das viagens em busca de novosdestinos que ofereçam a oportunidade de isolamento e da sensação de experi-mentar o primitivo. Opções futuras de ambientes primitivos devem ser assegura-das pois vão de encontro aos principais objetivos da conservação. Neste contexto, estaremos colocando para reflexão o redirecionamento dafunção “recreativa” das UCs de proteção integral nos tempos atuais.CONTEMPLAÇÃO E ADRENALINA A edição 1811 da revista Veja (Editora Globo, 2003) retrata uma tendência queverificamos nos últimos anos do aumento das atividades que envolvem os es-portes radicais. De acordo com a revista, a análise comparativa das atividadesdesenvolvidas durante a semana profissionalmente, carregadas de uma grandecarga de stress, justifica esta tendência comportamental de finais de semanacom certa “dosagem” de adrenalina. Sem aprofundamentos sobre a naturezahumana, aparentemente mais primitiva, o que nos chama a atenção é o fato damatéria sugerir que tais atividades têm a combinação do alto risco com a baixaincidência de acidentes. Esta possibilidade, divulgada pelas agências de turismoe revistas especializadas, impulsiona uma crescente motivação de busca poráreas naturais. Pelo contrário, o fato de existir um risco real é um dos fatores queagregam valor para atividades em áreas mais primitivas. Há portanto a necessi-166 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • dade de planejamento e zoneamento específico para que estas atividades pos-sam ser desenvolvidas com maior segurança, tanto para os praticantes comopara assegurar a qualidade ambiental. Não se questiona o potencial modificador dos esportes radicais com base nanatureza sobre o espírito humano. Existem muitas possibilidades de reencontropessoal e de valorização do ambiente natural nestas atividades. Em muitos casossão oportunidades de desenvolvimento regional e da reativação da economialigada à comercialização de equipamentos e veículos esportivos. Quando a motivação principal se refere à natureza e o uso de equipamentossegue considerações previamente estabelecidas no zoneamento das áreas pro-tegidas, os novos planos de manejo e de uso público das UCs de proteção integralpoderiam atender estas novas demandas. Se pensarmos nos casos onde a natu-reza é um mero coadjuvante ou mesmo parte do cenário para o desenvolvimentodestas atividades, o balanço entre os efeitos do uso e o cumprimento dos obje-tivos da unidade não estará sendo favorável. Nesta discussão é importante observar que as unidades de conservação temsido um dos destinos mais procurados pelo público que busca paisagens espeta-culares. Isso ocorre em parte devido ao fato de que estas área foram protegidasprioritariamente com o objetivo de proteger grandes belezas cênicas, mas tam-bém por que em muitos locais somente as unidades de conservação resistiram aoprocesso de ocupação da terra para urbanização e para a prática de cultivosagrícolas e pastagens. No Brasil podemos observar que nas regiões sul e sudestesão poucas as áreas, além daquelas protegidas por lei, que são cobertas porvegetação natural. Nestes locais a pressão de uso poderá ser mais acentuadonos próximos anos. Mesmo que o uso público e o turismo tenham sido consideradas atividadesque “deram certo” nas unidades de conservação brasileiras, pode ser queprecisemos refletir sobre a possiblidade de usar modelos de uso público maissimples, que valorizem o ambiente e a experiência humana. A ansiedade emtornar as unidades de conservação em áreas rentáveis através do turismo,pode levar à perda dos valores que a interpretação e a educação ambientalbuscam através de seus programas. Como a maioria das UCs de proteçãointegral não tiveram seus programas de uso público valorizados e implanta-dos de maneira efetiva existe ainda uma lacuna na histórica do uso público deUCs no país. Se tivéssemos uma base sólida neste campo, com trilhas bemimplantadas e centros interpretativos funcionais, as atividades de uso recre-ativo inovadoras, poderiam ser agora explorada como novas oportunidades.Assim, além da expectativa que estas novas oportunidades representem, existeuma certa dose de “frustração” pelos objetivos não alcançados ligados aouso público das áreas protegidas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • MELHORIA DA EXPERIÊNCIA DO VISITANTE OU AUMENTO DO CONFORTO? O processo de concessão de uso no Parque Nacional do Iguaçu tem sido citadocomo exemplo de sucesso numa seqüência que se espera que seja crescente nopaís. Ao analisar a nova distribuição dos usuários no parque, se percebe que osistema está ficando mais eficiente no que se refere ao ordenamento do uso. Issoé extremamente necessário nas áreas com visitação intensa e onde medidas derestrição do uso são inviáveis. Novos ônibus circulam em intervalos curtos,banheiros limpos e em número adequado, áreas amplas para alimentação, lojascom produtos de boa qualidade, estão disponíveis para o público visitante. Noentanto, se insere uma indagação: -além do conforto, o que mais foi agregado àexperiência de quem visita o Parque Nacional do Iguaçu? A disponibilidade de situações onde o visitante possa vivenciar o contatodireto com o ambiente natural, com percepções dependentes do primitivismo,não aumentou. O sistema de trilhas do parque continua o mesmo, apesar de quea implantação do projeto da concessionária objetive, entre outras coisas, au-mentar a permanência do visitante no Parque. Permanência esta que irá garantira sustentabilidade econômica do empreendimento. Estamos em fase de revigoramento dos parques nacionais, e isso nos faz voltar notempo, quando foram instaladas grandes estruturas nos primeiros parques do país,como os Parques Nacionais do Itatiaia, Serra dos Órgãos e mesmo no de Iguaçu. Ahistória viva nos apresenta uma situação onde algumas estruturas foram instaladasem locais inadequados e com dimensões que dificultam manutenção dos mesmos. Omanejo deveria estar baseado mais em atividades do que em estruturas.O VISLUMBRE DA SUSTENTABILIDADE ECONÔMICA Dos benefícios atribuídos atualmente ás áreas naturais podemos destacar oturismo como tendo maior destaque nos programas ligados ao uso das UCs deproteção integral. É importante revermos outros valores associados à proteçãode áreas naturais para comparar custo e benefício na argumentação da existên-cia destas áreas (Tabela 1). Para a recreação e turismo existe a possibilidade deatribuição de valor monetário, mas a irreversibilidade é também uma das carac-terísticas associada à este benefício. Segundo DIXON & SHERMANN (1991) todadecisão de manejo, uma vez implementada, é irreversível. No contexto das áreasprotegidas, com grande freqüência os efeitos são permanentes e potencialmentesignificativos. Às vezes tomamos uma decisão de menor relevância e apesar delatambém ser irreversível, quando se verifica que foi uma opção errada podem serfeitos ajustes com efeitos insignificantes e de curto prazo. De acordo com oautor, no caso das áreas protegidas, pode não ser possível fazer tais ajustes. Dequalquer maneira, a nova condição ambiental de áreas recuperadas nunca vai serigual a original, daí a consideração direta da irreversibilidade.168 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Tabela 1. Características dos benefícios da proteção das áreas Fonte: DIXON &SHERMANN (1991) Efeitos Previsão de Estimativa Não Não " enefíc"o fora do perda de valor rival excludente sítio irreversível econômicoRecreação/turismo XC P P SBacia hidrográfica controle de erosão X X X S diminuição de inundação local X X X EProcessos ecológicosfixação e ciclagerm de nutrientes X X Sformação do solo X X S purificação do ar e da água X X X SBiodiversidaderecursos genéticos X P X P EEducação X P X X EPesquisa X P X X EEstética X X X P SEspiritual X X X X EHistórico/cultural X X X X EValor de opção X X X X EValor de existêMcia X X X X ESuporte de vida X X X P E Fonte: DIXON & SHERMANN (1991) C = congestionável P = possível S = difícil E = extremamente difícil X = o atributo está presente O valor de existência, atribuído às áreas naturais para justificar a sua perma- nência, tem sido pouco comentado atualmente. O fato de que alguns parques estejam se tornando um misto de conservação e de atrativo turístico com motivações mais esportivas que contemplativas refletem esta situação. De qualquer forma, as atividades turísticas são vistas como uma grande opor- tunidade para a sustentabilidade econômica das UCs brasileiras. Por outro lado, se reconhece também que tanto o turismo como o ecoturismo podem ser uma ameaça para a preservação do meio ambiente quando não forem bem conduzidas (DOUROJEANNI & PÁDUA, 2001). Considerando todos os fatores envolvidos no desenvolvimento de atividades de uso público (inclusive o turismo) relacionados à sustentabilidade ecológica e social das áreas protegidas, a sustentabilidade econônica pode não ser alcançada. Mas isso não deveria, sob nenhuma hipótese, representar um desconforto para os administradores se reportarem aos representantes dos órgãos ambientais oficiais. A sustentabilidade econômica deveria estar embasada na sustentabilidade Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • política para a manutenção das áreas protegidas, com designação adequada deaporte financeiro. O suporte político, que garante a manutenção das UCs jáexistentes e a criação de novas áreas se origina da aprovação popular de açõesbem tomadas e da apreciação da natureza. Manning (2002) aponta fatos que acabam focando a abordagem anterior aomencionar que a crescente popularidade dos parques nacionais nos Estados Uni-dos oferece tanto uma oportunidade como um desafio. A oportunidade se refereao desempenho da missão dos parques nacionais de “prover oportunidade dousufruto das pessoas”. O desafio associado, naturalmente, é o cumprimento docomponente complementar da missão dos parques nacionais de “conservar apaisagem e os recursos naturais e históricos”. Isto pode ser difícil com a condiçãode intensa visitação. Mais ainda, a qualidade da experiência do visitante tambémestá implícita nesta dupla missão. De acordo com o autor o resultado final de todaesta questão é que visitantes que têm uma experiência de alta qualidade são maispropensos a desenvolver o reconhecimento e o patrocício público. Os UCs devem incentivar iniciativas que levem a sustentabilida do turismo nasáreas de entorno e não “concorrer” na oferta das mesmas. Os objetivos devemser diferenciados para que não haja o desvio da função principal de conservaçãode recursos ambientais e histórico/culturais. De certa forma, avanços positivosvêm ocorrendo na revisão dos Planos de Manejo existentes e na elaboração denovos, onde o entorno das UCs recebe atenção especial nas iniciativas ligadasao desenvolvimento regional.CONSIDERAÇÕES FINAIS Além dos exemplos nos quais o turismo intensivo destruiu o valor de muitasáreas naturais, FAGENCE (1990) observou que na prática, nas situações onde osobjetivos das partes interessadas são conflitantes, os acordos de cooperaçãomútua assumidos no planejamento e manejo tendem a valorizar as consideraçõesde estética, inspiração, educação, história e ciência, em favor das demandas turís-ticas para os centros de serviços, resorts, complexos recreacionais, recreaçãoartificial e usos comerciais. Nestes locais, principalmente nos de uso comercial,existe a tendência de produzir um ambiente modificado. O autor destaca queapesar da acusação de que a degradação ambiental seja ocasionada pelo interessecomercial, a responsabilidade irrevogável cai sobre as agências encarregadas ecom o poder de tomar decisões relacionadas a questões ambientais, sociais eeconômicas para o ‘interesse público’. Contudo, pode-se afirmar que são as imper-feições do planejamento comercial e do processo de manejo que mais contribuemcom os inevitáveis acordos de comprometimento e ganho mútuo. As áreas naturais devem ser manejadas de maneira a serem conservadas e decerta maneira protegidas contra o seu uso crescente. É necessário então mane-170 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • jar e influenciar o uso humano de modo que os processos naturais permaneçamintactos (CUTLER, 1980). Os slogans desenvolvidos na América do Norte na déca-da de 70 e mais recentemente introduzidos no Brasil são muitos: “impacto míni-mo”, “ética ecológica” , “caminhe suave no solo”, “tire somente fotos - deixesomente pegadas” e “camping sem sinais”. Todos eles têm o mesmo propósito deeducar e encorajar os usuários das áreas naturais a causarem o menor impactopossível na paisagem (HART, 1980). A experiência de outros países também ilustra a tendência de examinar osconflitos entre recreação e conservação, processo este iniciado recentementeno Brasil. A pesquisa em ecologia de recreação tem se concentrado nos impac-tos das atividades recreativas (BAYFIELD & BARROW, 1983) e algumas atividadesde manejo tem sido propostas de maneira a resolver os problemas criados(BAYFIELD & AITKEN, 1992; COLE, 1989). Da mesma maneira conferências foramorganizadas (TOURISM, RECREATION AND CONSERVATION, 1985; USDA, 1995;ARNBERGER.A., BRANDENBURG, C. & MUHAR, A, 2002) com o objetivo de discutir opapel e implicações do uso público e do turismo nas áreas naturais. Embora a opinião dos dois extremos, (pessoas com ponto de vista biocêntricoem oposição àquelas com ponto de vista antropocêntrico) de que as áreassilvestres devem ser manejadas somente por um princípio: conservação ou re-creação, não podemos fugir do fato de que o público tem direito ao acesso aalguns sítios das unidades de conservação. As unidades de conservação que permitem o uso público, sempre tiveramalgum tipo de uso, fosse ele voltado para a recreação, pesquisa científica oucontemplação. O que preocupa muitos técnicos e administradores é o fato dainserção destas áreas nos destinos turísticos das agências de viagens, nas revis-tas especializadas, trazendo de forma rápida um grande fluxo de pessoas emdatas específicas. O exemplo dos destinos turísticos tradicionais, sejam elescom base em recursos naturais ou históricos culturais, não deixa que se vislum-bre nada animador. Aliado a isso, temos áreas que muitas vezes não possuem umdocumento de planejamento atualizado. No entanto, sabemos que o uso público, seja ele ligado à Educação Ambientalou com objetivos recreacionais, é um uso legítimo, desenvolvido em diferentesníveis para a seguintes categorias de manejo: Reserva Biológica e Estação Eco-lógica, Parque Nacional, Monumento Natural, Refúgio da Vida Silvestre, FlorestaNacional, Reserva de Fauna, Reserva Extrativista, Reserva de DesenvolvimentoSustentável, Área de Proteção Ambiental, Área de Proteção Ambiental e ReservaParticular do Patrimônio Natural. Assim, algum grau de impacto sempre será aceito na implantação das ativida-des de uso público. Até mesmo a pesquisa científica, tão benéfica para aumentaro conhecimento sobre os recursos da área, traz efeitos indesejáveis para o Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • ambiente. Exemplos são a abertura de transectos para o estudo da vegetação edos animais, que na verdade são um complexo de trilhas abertas para atenderdelineamentos estatísticos ou a perda de alguns indivíduos da fauna silvestredevido ao caráter da pesquisa, por acidente ou mesmo por imperícia. Nesta discussão entre uso e conservação esperamos uma melhoria nas opor-tunidades de uso público e um avanço no entendimento e restabelecimento dasrelações do homem com o ambiente natural.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]172 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: Artigo de periódicoFormato da contribuição: texto integralFonte: FIEP BULLETIN, v.73, Special edition.E-mail do(s) autor(es): valdovieira@yahoo.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: Valdo Vieira: Doutorando em PsicologiaSocial (UERJ), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (UCB/RJ), Licenciadoem Educação Física (UERJ), Bacharel em Estatística (UERJ); Manoel José GomesTubino: Presidente da Fédération Internationale d’Education Physique, Doutorem Educação Física pela Université Libre de Bruxelles, Doutor em Educação(UFRJ) e Bernardo de Miranda Villano: Licenciado em Educação Física (UERJ).Impacto ambiental nascompetições de trekking de regularidadesegundo os seus praticantesValdo VieiraBernardo de Miranda VillanoManoel J. G. Tubino A Humanidade vem passando por profundas transformações, sobretudo a par-tir do século XX quando muitas conquistas foram efetivadas em todas as áreas davida humana. Pode-se citar o aumento da expectativa de vida, conquistas namedicina genética, a internet facilitando o acesso a informações, novos apare-lhos e equipamentos que trouxeram conforto ao homem, como a televisão, otelefone celular, o ar condicionado e o automóvel, entre muitos outros. Contras-tando com os avanços obtidos, muitos problemas surgiram. Esse modelo domi-nante de produção e consumo está alterando o clima, degradando a biosfera,esgotando os recursos naturais, causando a extinção de espécies e deteriorandoos sistemas sociais, comprometendo significativamente a qualidade de vida noplaneta. O buraco na camada de ozônio da atmosfera e o efeito estufa tiveram reper-cussão mundial pois colocam em risco a própria existência humana. Estes fatosfizeram o Homem refletir sobre o modelo de desenvolvimento adotado e arepensar a sua relação com a natureza. Até então o ser humano não se conside-rava parte da natureza, sendo este entendimento fruto do cartesianismo que vem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • vigorando nas sociedades ocidentais desde o século XVI, sendo a base da Revo-lução Científica Moderna. Bissio (1991) ressalta que a degradação ambiental ehumana produzida pelas sociedades industrializadas modernas exigia soluçõesque não podiam ser nacionais nem regionais, mas de escala mundial. Em 1992 foirealizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambi-ente e o Desenvolvimento em que estiveram representados os governos de 182países além de representantes da sociedade civil. Foi aprovado consensualmenteum documento intitulado Agenda 21, na verdade um plano de ação com a finali-dade de harmonizar o crescimento econômico com a preservação do meioambiente e a igualdade social. A Agenda 21, composta de 40 capítulos e 27princípios gerais, destaca as responsabilidades individuais e coletivas que todosos setores da atuação humana precisam ter com a conservação do planeta. O Homem começou a entender que é parte integrante da natureza e que omundo é um todo, integrado, inter-relacionado e interdependente. Embora sejaevidente que o modelo de desenvolvimento trouxe também a fome, a miséria e adegradação ambiental, a tentativa de buscar um novo caminho para o futuro doplaneta esbarra em posições antagônicas, pois o capital possui um papel centralna economia mundial. Soffiati (2002) cita três posições distintas em relação àcrise ambiental: A compatibilista, que pretende conciliar os sistemas atuais dedesenvolvimento com a proteção a natureza; a exponencialista, que acreditaque os recursos da natureza são inesgotáveis e estão à disposição do homem; eos conservacionistas, que desejam um aproveitamento racional e sensato dosrecursos naturais. Em face das divergências pouco se avançou na implementaçãode medidas atenuadoras do processo de degradação ambiental.O ESPORTE NO CONTEXTO AMBIENTAL O esporte se tornou um dos fenômenos socioculturais mais importantes daatualidade (TUBINO, 1999). Nas últimas décadas surgiram novas modalidadese movimentos esportivos, entre eles os esportes da natureza. Esses esportesse caracterizam por serem praticados em espaços naturais permeados pelasnoções de aventura, risco calculado, adrenalina e prazer (MARINHO, 2001).De acordo com Costa e Tubino (1999), essas práticas esportivas surgiram nofinal da década de 70 com os esportes californianos, como o surfe, vôo livre,windsurfe e o hobbie-cat. Podemos citar alguns esportes da natureza que sãorealizados no Brasil, como lazer e/ou como competição: arborismo,balonismo, bodyboard, bóia-cross, bungee jump, canoagem, canyoning,cascading, caving, corrida de orientação, escalada, golfe, jet ski, mergulho,motocross, mountain bike, natação, outrigger, parapente, pesca, rafting,enduros eqüestres, rapel, regatas oceânicas, sandboard, ski aquático, skysurf, surf, surf de peito, trekking e o vôo livre.174 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Mas Tubino (1992) nos traz um alerta sobre a exaustão nos ambientes ondeesses esportes são praticados. Por terem um contato direto com a naturezapodem vir a causar algum dano nos meios físico, biológico e/ou sociocultural,sendo fundamental conhecer as ações provocadas por estes esportes no meioambiente, para que, no mínimo, haja uma redução dos impactos ambientais. O objetivo deste trabalho foi identificar junto aos praticantes da Copa Riode Trekking suas opiniões, percepções, comportamentos e conhecimentossobre o meio ambiente e os impactos ambientais que o Trekking pode provo-car na natureza.O TREKKING DE REGULARIDADE O Trekking de Regularidade é um esporte que surgiu no Brasil nos anos 90. Oobjetivo é percorrer as trilhas no tempo exato, vencendo os obstáculos naturaiscomo matas, montanhas, vales e rios. A trilha é apresentada em uma planilhacom todas as informações necessárias para a interpretação do caminho a serseguido, contendo as distâncias, descrição do ambiente, direções e velocidademédia em cada trecho. Os equipamentos necessários para cada equipe são:bússola, caneta, relógio e calculadora. Os competidores devem seguir as indicações contidas na planilha para quepossam atingir o tempo ideal de passagem nos Postos de Controle (PC’s). Asequipes são compostas de 3 a 6 pessoas, sendo que cada uma delas possui umafunção específica, e será a integração das diferentes funções desenvolvidas porcada integrante da equipe que a levará ao sucesso. A avaliação é feita pelaregularidade com que as equipes passam pelos PC’s, os quais são colocadosestrategicamente em vários locais do percurso. A velocidade média de cadatrecho é determinada de acordo com as peculiaridades do local, mas sempredefinida para que as equipes caminhem. A velocidade média costuma variar de 15m/min a 90 m/min. Portanto, o que importa não é a intensidade ou o melhorpreparo físico, mas sim a integração de sua equipe e a regularidade ao longo dopercurso dentro das regras definidas no regulamento. Isso faz com que esteesporte possa ser praticado em iguais condições por pessoas de várias faixasetárias e níveis de condicionamento físico.RESULTADOS Após a realização de uma pesquisa-piloto, organizou-se como instrumentode coleta de dados um questionário semi-estruturado, distribuído ao final deuma competição. A amostra, caracterizada como não-probabilística intencio-nal, foi composta por 68 sujeitos, sendo 52 homens e 16 mulheres. Embora não Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • tenha havido intencionalidade em distribuir ponderalmente os questionáriosentre os dois sexos, o resultado reflete a predominância do sexo masculinoneste esporte, fato observado em todos os campeonatos disputados no Brasil.As idades dos respondentes variaram entre 15 e 46 anos, com média de 29,9anos e desvio-padrão de 7,5 anos. A Tabela 1 mostra um bom nível de Escola-ridade declarada pelos competidores, onde 92,7 % estão cursando ou já con-cluíram o Ensino Superior.Tabela 1 - Escolaridade dos competidores (%) Escolaridad^ Masculino F^minino Total (%) (%) (%) Até o Ensino Médio 9,6 0,0 7,4 Sup^rior Incompl^to 28,9 56,3 35,3 Sup^rior Compl^to ou Pós- 61,5 43,7 57,3 Graduação Total 100,0 100,0 100,0 A Tabela 2 mostra os principais motivos apontados pelos competidores parapraticar o Trekking. Neste item do questionário o respondente poderia marcar nomáximo duas respostas. Analisando os dados percebe-se que embora estejamparticipando de uma competição, os praticantes do Trekking parecem estar àprocura de aventura e contato com a natureza. A obtenção de resultados nãoparece ser o fator motivacional principal, sendo apontado por apenas 5,9 % dosrespondentes. Entre os que marcaram “outros”, os principais motivos indicadosforam: poder estar com os amigos e buscar diversão.Tabela 2 - Principais motivos assinaladospelos competidores para praticar o Trekking " o"ivos p"r" " "rá"i"" " "s"ulino F"minino "o""l Bus""r "v"n"ur" 26 05 31 En"r"r "m "on"""o "om " n""ur""" 26 03 29 Bus""r m"is s"ú"" " qu"li"""" "" vi"" 19 05 24 " """r r"sul"""os "xpr"ssivos n" "omp""ição 03 01 04 " u"ros 03 08 11 Outra pergunta formulada foi se ocorreram mudanças pessoais, em relação ahábitos e concepções relativas à natureza, após o início da prática do trekking.Responderam positivamente 55,9 % do total de praticantes, sendo 59,6 % doshomens e 43,8% das mulheres. Na Tabela 3 estão relacionadas as mudançaspessoais apontadas. Neste item o respondente não precisava se limitar a umaúnica resposta. Essas respostas mostram que o esporte pode ser um caminhopara uma convivência harmoniosa com a natureza. Mas o que surpreendeu foi o176 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • número expressivo de competidores que passaram a realizar atividade físicaregularmente após o início da prática do Trekking de Regularidade. Isso sugereque propiciar a prática junto à natureza pode ser um fator determinante deadesão à prática esportiva.Tabela 3 - Mudanças pessoais em relação aos hábitose concepções relativas à natureza Mudanças P^ssoais Masculino F^minino TotalPassou a gostar mais da convivência com a natur^za 18 05 23Aum^ntou a pr^ocupação com a qu^stão ambi^ntal 17 06 23T^m lido mais ou procurado na mídia artigos ou 15 03 18programas sobr^ assuntos r^lacionados à natur^zaPassou a r^alizar atividad^ física r^gularm^nt^ 16 01 17Votou na última ^l^ição ^m candidato(s) ligados à 03 01 04prot^ção da natur^zaPassou a participar d^ manif^staçõ^s ^m prol da 02 00 02natur^zaFiliou-s^ a alguma ^ntidad^ ou organização d^ 01 00 01prot^ção ambi^ntal Os esportes em contato com a natureza podem ocasionar algum impacto aoambiente onde são realizados. Para 86,8 % dos respondentes, tanto osorganizadores como os competidores são os principais responsáveis pela pre-servação da natureza nas competições de trekking. A Tabela 4 mostra comclareza o percentual de praticantes que acreditam que essa competição ocasio-ne algum dano ao meio ambiente. Em seguida, na Tabela 5, a relação dos danosapontados pelos respondentes. Os resultados mostram que as indicações dosdanos provocados pelo Trekking de Regularidade referem-se basicamente aosmeios físicos e biológicos, não havendo uma única indicação de impactosambientais no meio social.Tabela 4 - Praticantes apontam se o Trekking causa dano ao meio ambiente (%) " "s"ulino F"minino "o""l " "r"kkin" ""us" "l"um ""no? (%) (%) (%) "im 30,8 56,3 36,8 "ão 69,2 43,7 63,2 "o""l 100,0 100,0 100,0 Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Tabela 5 - Danos apontados pelos praticantes ocasionadospelo Trekking de Regularidade D^sgast^ das trilhas, ^rosão do solo 15 D^struição da v^g^tação 11 Lixo largado p^los ^nvolvidos na comp^tição 04 Espéci^ ^m rios 01 Fauna 01 As Tabelas 6 mostra como os praticantes avaliam o seu nível de informaçãosobre o meio ambiente. Em seguida, e mostrado na tabela 7, pede-se para marcarnuma lista os itens que fazem parte do meio ambiente. A apreciação dos resulta-dos revela que 75,0 % se avaliam “muito bem informados” ou “bem informados”sobre meio ambiente. Entretanto, 64,7% não consideram as favelas e/ou as cida-des integrantes do meio ambiente. E entre todos os respondentes, 25,5 % nãoconsideram o ser humano como integrante do meio ambiente.Tabela 6 - Nível de informação sobre o meio ambiente (%) Nível de informação Masculino Feminino Total (%) (%) (%) Muito bem informado 13,6 25,0 16,2 Bem informado 61,5 50,0 58,8 Mais ou menos informado 21,1 18,8 20,6 Mal informado 1,9 6,2 2,9 Muito mal informado 1,9 0,0 1,5 Total 100,0 100,0 100,0Tabela 7 - Itens que fazem parte do meio ambiente segundo os praticantes Constituint^s do m^io ambi^nt^ Masculino* F^minino** Matas 51 15 Rios 51 15 Animais 46 14 S^r^s humanos 38 11 Água 50 14 Ar 49 15 endios 26 07 Solo 49 15 Min^rais 38 13 Cidad^s 19 06 Fav^las 15 06 Mar^s 47 14*51 respostas possíveis em cada item **15 respostas possíveis em cada item178 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • CONCLUSÕES O destino que a humanidade tomou está colocando em risco a própria existên-cia humana. Todas as áreas do conhecimento, incluindo a Educação Física, temo dever de zelar pela conservação do planeta. As pessoas estão chegando ànatureza pelo esporte, sendo de fundamental importância conhecer as ações eos impactos que esses esportes provocam na natureza. Para isso devemos co-nhecer as opiniões, os conhecimentos e comportamentos de todos os envolvi-dos neste processo. Os resultados deste estudo sugerem que os competidores deTrekking possuem pouco conhecimento em relação ao meio ambiente e pare-cem não possuir a dimensão dos impactos ambientais que o Trekking poderiaocasionar nos meios físicos, biológicos e antrópicos. Entretanto a prática doTrekking pode trazer mudanças positivas, parecendo ser importante à participa-ção nas competições para o aumento da preocupação e conhecimento com asquestões ambientais.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2003 Publicação original: dissertaçãoFormato da contribuição: resumo da dissertaçãoFonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúbados Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal:UFRN, Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003.E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.brTítulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, ProfessorAssistente UERNSítios geológicos e geomorfológicosdos municípios de Acari,Carnaúba dos Dantas e Currais Novos,região Seridó do Rio Grande do NorteWendson Dantas de Araújo MedeirosRESUMO Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos Municípios de Acari, Carnaúba dosDantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte, trata-se de umestudo sobre as características geológicas, geomorfológicas, mineralógicas,paleontológicas e arqueológicas da área de estudo, visando à identificação desítios que apresentem relevante importância científica, cultural, paisagística,histórica, econômica e ecológica e que mereçam receber proteção especial paraa sua manutenção para as presentes e futuras gerações. Foi desenvolvido combase nos métodos adotados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos ePaleontológicos – SIGEP/UNESCO e pela Iniciativa de Sofia para a Preservação daDiversidade Mineral do Planeta, objetivando a descrição dos principais sítios,sua problemática ambiental e a proposição de medidas protecionistas. Foramidentificados um total de 7 sítios com características e feições típicas que mere-cem ser alvo de proteção. No município de Acari, foram identificados três sítios:sítio geológico-geomorfológico-arqueológico Barra da Carnaúba; sitio geológi-co-geomorfológico do Gargalheiras; e sítio geológico-geomorfológico Bico daArara. Em Carnaúba dos Dantas, o complexo geomorfológico Riacho do Bojo quepossui canyons e gargantas profundas, com registros rupestres das três grandes Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • tradições de pinturas rupestres do nordeste: Nordeste – Sub-tradição Seridó,Agreste e Itaquatiara. No município de Currais Novos, também foram identifica-dos 3 sítios: sito geomorfológico Canyon dos Apertados; complexogeomorfológico-arqueológico-paleontológico do Totoró; e, sítio geológico-mineralógico Brejuí. A partir da problemática ambiental que envolve cada um dossítios identificados, propõe-se, como garantia de proteção a estes sítios, o seuaproveitamento econômico com a atividade ecogeoturística, que visa à integraçãoda comunidade em programas de educação ambiental entre outros, além deproporcionar a geração de emprego e renda para os municípios. Por fim, sugere-se uma série de medidas que visam à efetivação da atividade e à proteção dossítios que podem ser classificados como patrimônio natural, de acordo com adenominação da UNESCO, em seu programa Patrimônio Natural da Humanidade.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]182 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: dissertaçãoFormato da contribuição: texto resumido da dissertaçãoFonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúbados Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal: UFRN,Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003.E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.brTítulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, ProfessorAssistente UERNEcogeoturismo e geoconservação de sítiosgeológicos e geomorfológicos no SeridóOriental do Rio Grande do NorteWendson Dantas de Araújo Medeiros O presente trabalho trata-se de um levantamento geoambiental de sítios geo-lógicos, geomorfológicos, arqueológicos, paleontológicos e mineralógicos si-tuados nos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, RegiãoSeridó do Rio Grande do Norte, visando identificar as potencialidades dessessítios para o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e de projetos degeoconservação, bem como a problemática ambiental que os coloca em risco. Os sítios geológicos são recursos concretos dotados de formas e feiçõestípicas ou estruturas com características marcantes que possuam importânciafundamentada em sua multifinalidade para pesquisa científica; difusão do conhecimento científico na área das Ciências da Terra; atividades educacionais e recreativas; cria- ção e fortalecimento de uma consciência conservacionista; referenciais em guias turísticos, estimulando, através do eco-turis- mo [ecogeoturismo], a participação e desenvolvimento sócio-eco- nômico das comunidades locais (SIGEP, 2002) [grifo nosso]. A problemática conservacionista que envolve estes sítios, que constituem,de modo geral, a geodiversidade do planeta, deriva do fato de não possuírem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • proteção legal, ao contrário do que ocorre com a biodiversidade. Nestesentido, a partir da década de 90, as comunidades geocientíficas do mundointeiro passaram a se preocupar com o desaparecimento deste patrimônionatural, tendo como marco referencial as propostas elaboradas pelo grupoGilges (Global Indicative List of Geolocical Sites), de modificações nas dire-trizes existentes até então para World Heritage Sites (Sítios do PatrimônioMundial) da Unesco, inserindo as propriedades geológicas afetadas comoobjeto daquele projeto. Surgem, conseqüentemente, os primeiros projetos de geoconservação, inicia-dos na Europa, onde o objetivo principal é promover a preservação dageodiversidade para as presentes e futuras gerações. Exemplo dessa iniciativa éa atuação da Unesco, que financiou e incentivou a realização de inventários dospatrimônios geológicos de diversos países do mundo, com destaque para ospaíses europeus. Posteriormente, em 1994, o Gilges viria a estabelecer novos conceitos emetodologias referentes aos projetos de geoconservação. Destarte, em 1996, aInternational Union of Geological Sciences – IUGS (União Internacional de Ciên-cias Geológicas), juntamente com a Unesco, através do World Natural Heritage(Patrimônio Natural da Humanidade), desenvolveram um método para ageoconservação denominado Geosites, o qual consiste num inventário dos prin-cipais sítios geológicos merecedores de receber proteção legal face às suaspeculiaridades e características intrínsecas, e principalmente devido ao fato deconstituírem um patrimônio que uma vez deteriorados não poderiam ser recupe-rados. Este fato provocaria um impacto de grande magnitude, uma vez queestava sendo apagado um capítulo da história evolutiva da Terra. Dentre os projetos pioneiros desenvolvidos na Europa, pode-se citar aqui oimplantado pela Associação Européia para a Conservação do Patrimônio Geoló-gico – ProGEO, que, fundamentado nos conceitos do Gilges e Geosites, tempromovido projetos de geoconservação em estágios notáveis por grande partedos países europeus. Seguindo o exemplo dos países da Europa, vários outros países, como a Áfricado Sul, através da Sociedade Geológica Sul-Africana, também passaram a desen-volver projetos nesse sentido e a reivindicar a adoção de leis que venham aproteger o patrimônio nacional (Reimold, 1999). Em outros países, como no Brasil, por exemplo, apesar da existência de inúme-ras leis de proteção ao meio ambiente, referentes aos recursos naturais, princi-palmente os orgânicos, e culturais (Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),resta ainda uma lacuna no que se refere à preservação e conservação dos sítiosgeológicos.184 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Apesar disso, a Lei n°. 9.985 de 18 de julho de 2000, instituiu o Sistema Nacionalde Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, garantindo, com isso, certaproteção aos sítios geológicos, a qual pode ser confirmada com a criação dasunidades de conservação denominadas Parque Nacional, Estação Ecológica, eem especial, Monumento Natural. Este último trata-se da única modalidade emque se pode inserir isoladamente o patrimônio geológico. Em se tratando, ainda, de Brasil, país signatário do Patrimônio Mundial daUnesco, Convenção Internacional para a Proteção de Sítios Culturais e Naturais,foi criada no final da década de 90, uma comissão científica constituída degeocientistas de todo o país, objetivando inventariar, de acordo com os princí-pios do Geosites, o seu patrimônio nacional. Esta comissão, denominada Comis-são Brasileira de Sítios Geológicos e Paleontológicos – SIGEP, após reuniãorealizada nos dias 26 e 27 de março de 1997, definiu as ações para a catalogaçãodos sítios brasileiros, que resultou na publicação de um livro bilíngue, com os 100principais Sítios Geológicos do Brasil, com o mesmo intuito aqui discutido, ga-rantindo a sua proteção legal a partir de uma proposta como Sítios do PatrimônioMundial da Humanidade à Unesco, visando a sua conservação e preservação insitu (SIGEP, 2002). Atualmente, a SIGEP está desenvolvendo ações para a publica-ção do segundo livro. Baseando-se nesses princípios é que se fundamenta este trabalho. Porém,propõe-se, como aliada aos projetos de geoconservação, a implementação doecogeoturismo, que trata-se de uma modalidade de turismo, desenvolvido embases geocientíficas e apoiada nos princípios da atividade ecoturística, que visaao aproveitamento econômico dos sítios geológicos, como forma de fortalecera sua proteção, a partir da participação das comunidades locais inseridas nasáreas dos sítios, da promoção da educação ambiental e de incentivos à pesquisacientífica (Medeiros, 2003). Ao longo desta pesquisa, realizada no Programa de Pós-Graduação em Geociênciasda Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no período entre 2001 e 2003, foramidentificados 7 sítios geológicos-geomorfológicos, sendo 3 no município de Acari, 3no município de Currais Novos e um complexo de sítios no município de Carnaúbados Dantas. Contudo, apresentar-se-ão, aqui, apenas os principais sítios referentes acada um dos municípios, conforme se percebe a seguir.SÍTIO GEOLÓGICO-GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO BARRA DA CARNAÚBA Situado no município de Acari, na comunidade de Barra de Carnaúba, no leitodo rio Carnaúba, distante cerca de 18 km do centro da cidade, o sítio se caracte-riza pelo afloramento de rochas graníticas, de idades em torno de 600 Ma (Sou-za, 1996), textura predominante porfiroblástica e coloração acinzentada, ondese encontram grandes cristais, bem preservados e orientados, os quais podem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • indicar a direção do pólo magnético da Terra no período de sua cristalização,uma vez que há uma relação semelhante entre a fábrica magmática e a magnéti-ca, conforme observou Archanjo (1993). Neste sítio, pode-se observar a atuação de eventos tectono-metamórficos emambientes pretéritos, sendo evidenciados pela presença de inúmeros diquespegmatíticos que intruindo as rochas, apresentando-se ora homogêneos, compredomínio de K-feldspatos, ora heterogêneos, com mineralizações de turmalinanegra (schorlita) e berilo, que podem ser vistas a olho nu. Em toda sua extensão, as formas predominantes no sítio decorrem de proces-sos de dissecação do relevo, em virtude do entalhamento da drenagem do rioCarnaúba, que foi o principal responsável, juntamente com os processosintempéricos, pela sua esculturação atual. Constituem-se de pequenos serrotesalongados no sentido W-E, de composição granítica predominante, com cristassob a forma de domos bastante dissecados. Nestes, destaca-se um grande núme-ro de marmitas e formações curiosas, com profundidades consideráveis, che-gando a mais de 4 metros em alguns pontos do rio (Figura 1), proporcionado umcenário de grande beleza cênica, e assemelhando-se à paisagem lunar. Estas, porsua vez, tiveram sua origem relacionada a movimentos turbilhonares decorren-tes da alta energia fluvial durante épocas de intensa pluviosidade, alternando-sea períodos de escassez pluviométrica, que determinaram os regimes energéticose deposicionais dos rios da região.Figura 1. Marmitas do Rio Carnaúba. (Fonte: acervo do autor)186 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Apesar de sua importância geológica e geomorfológica, verificada em funçãode seus constituintes e morfologias variadas, este sítio também possui grandeimportância histórico-cultural e didático-científica, uma vez que são encontra-dos em algumas marmitas, registros pré-históricos sob a forma de inscriçõesrupestres realizadas pelos nômades da Tradição Itaquatiara, que, segundo dadoscronológicos, habitaram a Região Seridó há cerca de 2.500 anos (Martin, 1999).Tudo isso, aliado ao seu potencial didático-científico, constitui forte potencialpara o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e justifica a necessidadede projetos de geoconservação.SÍTIOS GEOMORFOLÓGICOS DO MUNICÍPIO DE CARNAÚBA DOS DANTAS Os sítios geomorfológicos do município de Carnaúba dos Dantas se encontramintegrados em uma grande área, denominada Complexo Geomorfológico Riachodo Bojo. Esta denominação se deve ao fato de ao longo deste riacho, afluente dorio Carnaúba, ocorrer vários sítios arqueológicos inseridos em feiçõesgeomorfológicas de grande beleza cênica e paisagística, constituídas por canyonse gargantas profundas. A litologia dominante – quartzitos da Formação Equador – ao longo do riachodo Bojo permitiu o desenvolvimento de um modelado marcado pela presença decanyons, gargantas, grutas e marmitas profundas, que asseguraram ao homempré-histórico condições de sobrevivência, e dotaram a região de uma grande ediversa beleza cênica de elevado potencial turístico e ecogeoturístico, pelo seucaráter didático e científico. Essas formações são decorrentes de intensos processos erosivos eintempéricos, iniciados com o processo de rebaixamento do relevo no Cretáceo,pela forte atuação da drenagem, que era marcada por intensa energia hidráulicados rios nesse período determinado, e que obedecia a um rígido controle estru-tural, de sentido predominante NE-SW. Dentre as formações típicas desse processo encontradas ao longo do riachodo Bojo, tem-se o Canyon dos Fundões, ou Grota Funda; o Canyon da cachoeirado Bojo; o pequeno Canyon da passagem, e o abrigo Casa Santa. No afluente damargem esquerda do rio Carnaúba – o riacho do Ermo, formações como a Serrado Xique-Xique e a Pedra do Alexandre também apresentam particularidades e,por isso, serão discutidas a seguir. O Canyon dos Fundões possui elevada profundidade e declividades com in-clinações de 70-90°, e no seu leito encontram-se blocos rochosos que, depoisde erodidos, foram transportados pelo rio na sua juventude, registrando a suaalta energia hidráulica em épocas passadas e a existência de um clima mais Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • ameno e mais chuvoso naquela região semi-árida. Também se verifica sedi-mentos grosseiros, tipo areia, que registram um período de calmaria do rio,onde o seu potencial de transporte diminuiu e aumentou a sua função de depo-sição, indicando um período de modificação climática assemelhando-se aoclima atual dominante, onde as chuvas são escassas e os rios secam durante amaior parte do ano. Neste sítio geomorfológico, pode-se observar gravuras rupestres, as quaissão atribuídas à Tradição Itaquatiara, formando o sítio arqueológico dosFundões ou Grota Funda. Também nesse sítio, que possui subdivisões (FundõesI,II,III e IV), observa-se inscrições da Tradição Agreste, no local conhecidopor Pedra da Macambira, tendo recebido esse nome pela abundância dessaespécie vegetal na área. As inscrições, embora de difícil interpretação, podem indicar processos decontagem realizados pelas tribos, bem como o desenho de astros ou início deuma tradição que tinha no geometrismo sua forma de representação, bem comorepresentações possivelmente relacionadas ao uso de substâncias alucinógenas(Pessis, 1992; Martin, 1999). Como se pode observar, possuem características que possibilitaram o abrigode tribos indígenas pré-históricas, como as marmitas na Pedra da Macambira,que acumulavam água na época chuvosa e esta permanecia armazenada durantea estação seca, e as grutas do Fundões, que serviam de abrigo e proteção àque-las tribos. Vale ressaltar, que este abrigo deveria ser mais profundo na época deocupação deste povo, há cerca de 2.500 anos, haja vista que a quantidade desedimentos inconsolidados presentes na área indica que houve um processo deassoreamento, diminuindo, portanto, a profundidade da referida gruta. Tal fatopossibilita o desenvolvimento de estudos arqueológicos mais aprofundados nestaárea, uma vez que é possível a realização de escavações com o intuito de seencontrar elementos materiais que auxiliem no estudo evolutivo dessa tradição. Seguindo, ainda, o percurso rumo à nascente desse riacho, observa-se aformação de pequenos canyons como o escavado pela cachoeira do Bojo.Nesse canyon, ainda jovem, é possível identificar a sinuosidade do rio duran-te o seu processo erosivo, e nele pode-se observar a existência de água emprofundidade mesmo na época de estiagem. Esse local recebe o nome decachoeira do Bojo, e devido ao fato de não secar, conforme afirmações deantigos moradores daquela região, habitam no imaginário popular crendicesa respeito de encantos e mitos que vivem nas suas águas. Embora seja umlugar de difícil acesso, antigamente havia naquelas imediações várias fazen-das de gado, e suas comunidades usavam o local para prática de lazer, sendohoje restrita aos aventureiros e caçadores que rondam constantemente aárea. Aí também se percebem registros da passagem humana na antiguidade,como as gravuras da Tradição Itaquatiara.188 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Continuando a trilha pelo afluente da margem direita do riacho do Bojo,atravessando obstáculos como canyons e paredões, toma-se o acesso paraum dos mais representativos sítios arqueológicos do Nordeste: a Casa Santa(Martin, 1999). Trata-se de um abrigo sob rocha, onde um grande painel encon-tra-se pintado com registros das tradições Nordeste e Agreste e, em menornúmero, da Itaquatiara. Ao longo desse percurso, observam-se formações semelhantes, esculpidas emrochas quartzíticas, como o Canyon da Passagem, que demonstra claramente oseu controle estrutural pelo seu aspecto retilíneo. As formas da Casa Santa permitem identificar a atuação predominante deprocessos intempéricos provocando a desagregação da rocha, facilitando o seutransporte pelo rio, que se encontra muito próximo de sua nascente. Os painéis apresentam figuras de fácil identificação, como cenas clássicasde caça, dança e luta. Observam-se desenhos de pirogas com remos, comoum indicativo da existência de rios caudalosos na época em que essa triboocupou a região. Estas, no entanto, têm gerado hipóteses diversas, algumasconsideradas até fantasiosas. Entre elas, está a que defende uma possívelrelação com os povos fenícios, os quais poderiam ter chegado à regiãoatravés desse meio de transporte. Estudado desde a década de 80, este abrigo não possui condições que permi-tam o habitat das tribos, tendo sido usado apenas para abrigos temporários,para rituais ou como ponto de observação, devido à sua situação em pontoselevados (Martin, 1999). Além destes sítios, ao longo do riacho do Bojo, têm-se outros sítios de mesmaimportância que são encontrados na Serra do Xique-Xique e às margens doriacho do Ermo, também afluente do rio Carnaúba, que são, respectivamente, ossítios arqueológicos Xique-Xique I e Pedra do Alexandre. No caso do Sítio Arqueológico Xique-Xique I, pode-se verificar registrosrupestres dotados de cenas clássicas, como dança ao redor de uma espécie defitomorfa; representação de zoomorfos, como uma ema deitada no ninho comovos, ameaçada por um caçador; cenas de sexo e de estupro (Pessis, 1992; Vidal,1996, Macedo, 2001a), que se encontram apagadas em função da deterioraçãonatural, derivado dos processos intempéricos, e da atuação antrópica no sítio,que é bastante vsitado, dado as facilidades de acesso. Já o Sítio Pedra do Alexandre, caracterizado pela atuação de processos erosivosdiferenciais, consiste de um micaxisto da Formação Seridó que sofreu profundasalterações decorrentes da intrusão do Maciço Acari, há aproximadamente 600 Ma. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ele possui uma particularidade em especial: o caso de ter sido utilizado comocemitério indígena e como lugar para prática de rituais funerários. Escavaçõesrealizadas aí permitiram a identificação de 28 esqueletos humanos, os quais havi-am sido enterrados junto com adornos como colares e apitos. Nestes corpos,foram encontrados restos de carvão que poderiam ter sido utilizados em fogueirasrealizadas nos rituais para enterramentos secundários. As datações realizadasneste carvão revelaram idades de 9.400 anos AP (Martin, 1999; Macedo, 2001b). Todo esse complexo se vê constantemente ameaçado em detrimento da prá-tica de garimpagem de minerais como tantalita e columbita, abundantes nessaárea, que ocorre sem nenhum tipo de controle, de forma rudimentar, provocandosérios impactos ambientais e desrespeitando os patrimônios naturais e culturaisaí identificados.COMPLEXO GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO-PALEONTOLÓGICO DO TOTORÓ A Região do Totoró está localizada no município de Currais Novos, a cerca de12 km da sede municipal, em sua porção norte, sendo reconhecida, historica-mente, como a base do início do processo de colonização da cidade. Foi nelaonde se estabeleceram os primeiros currais para a criação de gado, atividadefundamental para a ocupação do território e fundação do município. O Complexo Totoró encontra-se assentado sobre um embasamento cristalinognáissico-migmatítico que não chega a aflorar na área, tendo como sequênciasupracrustal, rochas granitóides de idade brasiliana, correlacionadas ao MaciçoAcari-Totoró. Também sobrepostas ao embasamento ocorrem sequências metassedimentaresvulcânicas e formações sedimentares recentes, do Quaternário, como os sedi-mentos da Formação Tanques ou Cacimbas, onde se encontram vestígios de umamegafauna pretérita. Esta constituição litológica proporciona a esculturação de formas típicas nomodelado da área, muitas vezes assemelhando-se a materiais e objetos presentesno cotidiano da região. Tais feições decorrem de processos erosivos e intempéricosque atuam na região há milhares de anos, e estes produziram um modelado marca-do por serras elevadas e íngremes, geralmente de composição granítica. No processo de morfogênese da área, a rede de drenagem controlada porfalhamentos nas estruturas geológicas propiciou um arrasamento do relevo,reduzindo-o a altitudes modestas, em torno de 600 metros. A principal alimen-tação dessa rede deriva das vertentes da Serra de Santana, que fica a norte daárea do Totoró.190 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Em função desses processos, a região abriga feições típicas, de aspectos curiosose que cultivam o imaginário popular, que podem ser identificados como sítiosgeomorfológicos, tanto por apresentar certa beleza cênica, como por permitir umestudo sobre o seu processo evolutivo ao longo de milhares de anos. Nesse caso,possui um importante potencial didático-científico e ecogeoturístico, necessitando,portanto, de proteção legal com vistas à sua preservação para as futuras gerações. Um dos casos que vem caracterizar o sítio geomorfológico é o da Pedra doCaju (Figura 2). Esta feição, típica de regiões graníticas, tem seu processo deorigem ligado à atuação de agentes intempéricos e da erosão diferencial. Isto é,a ação desses processos, de forma conjunta e simultânea, propiciou a fragmen-tação da rocha, obedecendo aos seus planos de fratura, e foi desgastando aspartes mais frágeis, que foram carreadas pela ação dos ventos e das águas,propiciando a formação atual. O que se observa é uma cena natural de equilíbrio, onde uma rocha, aparentementesolta, se equilibra de forma muito estável. Tal situação influencia o imaginário popu-lar, que não raro, atribui à formação uma origem divina ou até mesmo extraterrena.Figura 2. Pedra do Caju. (Fonte: acervo do autor) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ainda em relação ao patrimônio geomorfológico, pode-se citar um outroexemplo semelhante: a Pedra do Letreiro, que possui, também, relevância histó-rico-cultural, haja vista a existência de registros rupestres da Tradição Agresteque caracterizam o sítio arqueológico que originou o topônimo. Em virtudedisso, faz-se necessário a adoção de medidas urgentes de proteção a essessítios, uma vez que o desaparecimento desses registros teria um profundo im-pacto negativo na busca da evolução histórica e ocupacional do homem pré-histórico naquela região. Complementando o sítio geomorfológico e arqueológico, pode-se citar o casoda Pedra Furada, que recebeu esse nome em função da existência de um orifícioquase no centro dela, decorrente da atuação dos processos intempéricos e erosivos. Destes processos, merecem destaque a atuação do intemperismo químico e aerosão diferencial, que propiciaram uma espécie de abrigo, erodindo a rochainternamente. Nesse abrigo, observa-se a existência de registros rupestres daTradição Agreste, onde se observam, inclusive, antropomorfos. Nesse sítio ar-queológico, porém, verificou-se a necessidade urgente de adoção de medidas deproteção, uma vez que o mesmo encontra-se degradado por pichações realiza-das pela ação antrópica. Complementando o contexto geral da área, a importância histórica e geológi-ca é fortalecida pela existência de um sítio paleontológico denominado Lagoado Santo. Nele, já foram retirados, desde a década de 70, inúmeros registros defósseis de mamíferos gigantes, como preguiças, mastodontes e outros, regis-trando a passagem desses animais constituintes da megafauna pleistocênica –megatérios – nessa localidade (Porpino e Santos, 1997; Santos, 2001). O sítio paleontológico Lagoa do Santo caracteriza-se por sedimentos consti-tuintes da Formação Tanques ou Cacimbas, de idade quaternária, que se limitaestruturalmente com granitóides pré-cambrianos. Os fósseis retirados encon-tram-se espalhados por vários lugares como no Museu Câmara Cascudo, emNatal; no Colégio Camilo Toscano e na Associação Amigos do Seridó, em CurraisNovos; e em coleções particulares. Constitui-se, portanto, de um importante registro da existência de megafaunapretérita, o que permite a realização de estudos científicos que podem vir a possi-bilitar a identificação de paleoambientes climáticos, conforme sugere Prado eAlberdini (1999), em seu estudo sobre a importância dos fósseis na região dosPampas argentinos, os quais haviam favorecido a existência dessa abundante fauna. Ainda na área da Lagoa do Santo, cujo topônimo deriva, segundo conta ahistória popular, do fato de há cerca de 300 anos ter sido encontrada umaimagem de um santo (São Sebastião) soterrada na lagoa, e que hoje, existe uma192 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • particularidade que chama a atenção de todos que visitam a área. Trata-se deuma rocha, de composição granítica, partida no meio, que emite o som de umsino a partir de qualquer pancada que venha a receber, de um instrumento metá-lico ou uma outra rocha. A esta rocha denominou-se Pedra do Sino.PROBLEMÁTICA AMBIENTAL A problemática ambiental que envolve estes sítios decorre da degradaçãopaisagística já existente, a qual é mais perceptível no âmbito da vegetação, emfunção do desmatamento excessivo ocorrido para suprir a demanda de lenha nascerâmicas da região. Somando-se a isto, pode-se citar o desenvolvimento da atividade mineira,principalmente, com a prática de garimpos irregulares visando tanto à extraçãode minerais e gemas semipreciosas, quanto à extração de rochas ornamentais,neste caso, tem nos granitos sua principal matéria-prima. Esta atividade, daforma como vem ocorrendo, sem nenhum controle ou planejamento, coloca emrisco a existência do patrimônio geológico e cultural da região. Ela é responsá-vel pela destruição de belos exemplares e afloramentos geológicos, por altera-ções drásticas no relevo, pelo desaparecimento de sítios arqueológicos, só paracitar alguns dos diversos impactos que causa.CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da problemática ambiental que envolve os sítios identificados, junta-mente com sua potencialidade ecogeoturística ainda inexplorada, aliada à au-sência de leis que visem proteger esse patrimônio, propõe-se algumas medidasde proteção, calcadas em projetos de geoconservação e ecogeoturismo, comoforma de garantir a preservação do patrimônio natural objeto deste estudo.Destarte, objetivam preservar a história do planeta e da evolução da vida naTerra para as presentes e futuras gerações, uma vez que, quando deterioradosestes sítios, que possuem idades na escala de bilhões e milhares de anos, jamaispodem ser recuperados, desaparecendo por completo da face da Terra. Seria,analogamente, como se arrancasse uma página do único livro que conta a histó-ria evolutiva do nosso planeta, e essa página não pudesse mais ser re-escrita. Dentre essas medidas, sugere-se aqui algumas específicas que podem seradotadas à proteção do sítio, como as que seguem abaixo: • reconhecer os sítios geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, arqueo- lógicos e paleontológicos identificados como patrimônios naturais, ou cul- turais, ou ainda, monumentos naturais e/ou culturais; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • elaborar leis no âmbito municipal e/ou estadual que garantam a sua proteção; • criar unidades de conservação, tais como áreas de proteção ambiental, par- ques temáticos e/ou geoparques com o intuito de proteger estes patrimôni- os; • elaborar plano de gestão para a implantação do ecogeoturismo, envolvendo as comunidades locais num processo participativo; • disciplinar a visitação e as atividades desenvolvidas nas áreas destas unidades ou dos sítios, a partir da elaboração de planos de manejo destas unidades; • promover a educação ambiental nas comunidades circunvizinhas; • divulgar o potencial histórico-natural dos sítios, promovendo campanhas de conscientização e educação ambiental para a população.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]194 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2003 Publicação original: anais de congressoFormato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas)Fonte: I CONGRESSO MARANHENSE DE TURISMO, Hotel Vila Rica - 27 a 29 demarço de 2002.E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federalde Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciênciasda Saúde; Mestre em Ciência da Informação.A Formação Técnica e o seu Papel noMercado TurísticoLeopoldo Gil Dulcio Vaz Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de-senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida-de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega maispessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil.O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais erepresenta cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula acriação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte-sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou-tras atividades. O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui-ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine-quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu-rismo no Brasil, através:• do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo;• da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de sua origem e interesses;• da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e culturais; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • da elaboração de diagnósticos realizados com base nos dados levantados sobre as diversas regiões e municípios;• da capacitação dos prestadores de serviços;• da educação para o turismo;• do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino;• da sinalização, informação e programação visual das cidades;• das ações de preservação e restauração; e• ao acompanhamento e avaliação, Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria-ção de novos negócios e consequentemente• a geração de novos postos de trabalho, e• contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam serviços para o turismo, visando qualidade e produtividade; As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suasrelações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas consideraçõesbásicas:• a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois o lazer é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz parte do mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o da pres- tação de serviços;• essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmente no setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreas abrangidas pelo lazer);• Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias, principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo com características muito particulares, havendo um grande crescimento no setor terciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimento de novos postos no setor de serviços;• O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nas áreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (o que exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco- lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, além de habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e cul- tura geral, que não necessariamente apreendidos numa escola).196 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Essa nova realidade da economia é evidente nos países desenvolvidos. Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, aindaapresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. Aestrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveisabertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos epráticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos:• O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil;• Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para o bom funcionamento de serviços aos clientes;• Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo;• Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formação em turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer;• Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimas condições de operar na área;• Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, e assim não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, formação e reciclagem de mão-de-obra especializada; • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer éum direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, otransporte e a educação. (TRIGO, 1995) A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutorade desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen-to de novas atividades econômicas. O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interfacedos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizemo turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional. Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação erequalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para oMaranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo dedesenvolvimento do turismo. Além disso, os cursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam umavisão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves-timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen-volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo deforma sustentável e consciente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • CENÁRIO EM QUE SE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápidoretorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligaçãocom os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribuipara o desenvolvimento de diversos países. Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de formaorganizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e otem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi-mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação doturismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasilestá muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformaçãodo potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado doMaranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará eTocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu-indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estadosdo Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 ,que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca-liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu-ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridezdo Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia: Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandesatrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos deEcoturismo e Turismo Cultural. Os principais setores produtivos do Maranhão são: • a agropecuária, • indústria e comércio, e • turismo. O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho erenda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse,por homogeneidade e proximidade dos atrativos:· Zona de Patrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís, Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reco- nhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional.• Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas, Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo de198 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • ecoturismo onde se encontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com uma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o Delta do Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de igarapés, mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território maranhense.• Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú, Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseri- dos no Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal.• Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Riacho, Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maiores áreas preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador, com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e flora da região.• Zona dos Lagos O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas,sendo que na do Turismo apresenta-se:• Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços de hotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com a proteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas, Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro;• Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos principais pólos de ecoturismo do Estado;• Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamar e Morros. O que determina este quadro O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem,alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos,organização de eventos, entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio-nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando aatividade complexa e de difícil mensuração. No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo. O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade deacesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandesdificuldades a serem superadas no turismo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Oportunidades Investimento na formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formaçãoprofissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos CursosTécnicos na área de Turismo. Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários,técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera-ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social. Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismopropõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor deaceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais. Os Cursos Técnicos de Turismo têm com objetivos:• Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitam prioritariamente uma atuação na área de turismo;• Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parques de lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos volta- dos para um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro poliesportivo em geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis de lazer; resorts; colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadu- al e nacional, quando têm unidades de hospedagem, camping, acampamentos; pousadas em locais retirados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousa- das em cidades turísticas.• Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas;• Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional;• Considerar interesses do aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo.DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL : TURISMO Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, daAssociação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo –ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seumaior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340,conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun-do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto aindamais significativo, chegando a 10.000 em 1996. Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da-dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a sua200 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • variedade e diversificação, além da falta de critérios estatísticos que possibili-tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação deprogramas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção,apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo daABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor-nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantesestrangeiros do setor. Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi-dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial. A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa-rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida-des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (ReuniõesTécnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares,1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo,1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991). Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área,entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, suainternacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais. Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de:• ampliação considerável de possibilidades;• maiores exigências de: - mobilidade, - disponibilidade, - polivalência, - adaptabilidade, - capacidade de comunicação, - integração em equipe, - animação. O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação deprodutos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviçosturísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís-tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici-pantes e públicos locais). Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventose de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • hotéis e outros meios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, decultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades sãorealizadas na forma de trabalho autônomo. Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun-ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão. Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas nageração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais doprocesso e no resultado final para o cliente/usuário.• Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulação do agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, e da promoção de eventos e de lazer. - Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi- ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu- des e expectativas das clientelas efetiva e potencial. - Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários e de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação com prestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de apoio.• Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e a comercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer. - Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi- ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento e operacionalização da política comercial. - Subfunção 2.2. Comercialização de produtos e serviços turísticos e de lazer, com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva e potencial.• Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo de execução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção de eventos e de lazer. - Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcle- os de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, e com supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento com qualidade. - Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pela prevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de relacionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, for- mação e desenvolvimento do pessoal.202 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • - Subfunção 3.3. Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen- to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados de informação, comunicação e gestão. - Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro- dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visão mercadológica prospectiva e inovadora. - Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidade dos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente. Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi-ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, quecondicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções.A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos daaprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas.CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definidaem 750 (setecentos e cinqüenta) horas.TURISMO - PROCESSO DE PRODUÇÃO FUNÇÕES PLANEJAMENTO SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização. SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários. PROMOÇÃO E VENDA SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, eidentificação e captação de clientes. SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços GESTÃO SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos detrabalho. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • SF 3.2 - Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e naprestação dos serviços SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento SF 3.5 - Acompanhamento pós-execuçãoFunção 1 – PLANEJAMENTO SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO. COMPETÊNCIAS• Interpretar legislação pertinente• Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos.• Identificar e avaliar:• os meios e recursos disponíveis• informações sobre as clientelas efetiva e potencial• as oportunidades de mercado• sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos quantitativos e qualitativos das clientelas• identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela• identificar, avaliar e selecionar informações geográficas, históricas, artísticas, esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas, artesanais, gastronômicas, religiosas, etc.• identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, restau- rantes• identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes, recreação, artes, cultura, espetáculos• programar os produtos e serviços a serem oferecidos• avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços• organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços programados204 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • elaborar orçamentos• definir estrutura organizacional• definir a política comercialHABILIDADES• utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos• referenciar o estudo de viabilidade com a execução• adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas• conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos• estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura organizacional• controlar orçamentos• elaborar quadro de pessoal• supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços• articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de produtos• aplicar “softs” específicosBASES TECNOLÓGICAS• técnicas de:• leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos• leitura e elaboração de estudo de viabilidade• organização de roteiros e itinerários• elaboração e redação de normas e manuais• leitura e elaboração de orçamentos• descrição de cargos/funções e salários• comunicação e relações interpessoais e grupais• interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação aplicável à área (federal, estadual e municipal) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • tipologia e classificação de: - meios de transporte - de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol.SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS, ROTEIROS EITINERÁRIOS. COMPETÊNCIAS• identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospedagem, transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entretenimen- to e animação sócio-cultural• identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou serviço• identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios de apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios, decora- ção)• elaborar e interpretar orçamentos• interpretar contratos• selecionar e coordenar a contratação de fornecedores de programas, roteiros, itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio HABILIDADES• controlar os orçamentos• controlar a execução dos contratos• efetivar os meios para produção da oferta• contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, roteiros, itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio• organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de serviços• supervisionar serviços de terceiros206 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de elaboração de roteiros e itinerários• técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables”• técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos• técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos• técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e procedi- mentos específicos da área• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanholFunção 2 - PROMOÇÃO E VENDA SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS PRODUTOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES. COMPETÊNCIAS• interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos• identificar e avaliar:• informações sobre as clientelas efetiva e potencial• as oportunidades de mercado• sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis• identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese• planejar a política comercial• organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e institucionais• identificar fatores que influem na atração do cliente. HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas • efetivar os meios para produção da oferta • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • articular-se e negociar com organizações públicas e privadas e com demais segmentos do “trade” turístico• organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contratan- tes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos, organiza- ções de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empresariais, pro- fissionais e comunitárias• estabelecer e negociar ações de publicidade• operacionalizar a política comercial BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de: - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - de comunicação e relações interpessoais e grupais - “marketing” e de venda - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol - características sócio-econômicas e culturais do cliente SUBFUNÇÃO 2.2 – COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS COMPETÊNCIAS• direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas• organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente• estimar custos e preços• elaborar orçamento• calcular e fixar preços HABILIDADES• atender o cliente• zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente• preparar e conduzir a equipe de trabalho• negociar e contratar a venda• controlar orçamento208 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de leitura e elaboração de orçamentos• cálculo de custos• técnicas de:• comunicação e relações interpessoais e grupais• de “marketing” e de venda• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanholFunção 3 – GESTÃO SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E ADMINISTRATIVO DOS NÚCLEOS DE TRABALHO COMPETÊNCIAS• ler e interpretar:• pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos• informações referentes ao turismo• balanços, relatórios e documentos de controle interno• supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno, médio e grande porte• analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa• coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, o suprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxi- liares e de apoio• avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento HABILIDADES• acompanhar dados e interpretação de: - pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos - informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento - balanços, relatórios e documentos de controle interno - organizar e articular os setores internos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • - fazer cumprir a normas e manuais de procedimento - articular-se com parceiros e outros profissionais - negociar a contratação de terceiros - contatar e atender o cliente - preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados - articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento - coordenar os serviços terceirizados - receber, orientar, informar e conduzir turistas - controlar os contratos - supervisionar os serviços de terceiros - supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien- tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de: - comunicação e relações interpessoais e grupais - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - organização de empresas de turismo - elaboração e redação de normas e manuais - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços - elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de controle interno - suprimento/compras e armazenamento/ conservação - segurança pessoal e patrimonial e seguros• técnicas, regras e procedimentos de: - reserva, venda e emissão de passagens - reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões, ingressos, etc. - orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens; - guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informa- ções; - organização e realização de eventos - organização e realização de programas e atividades de lazer210 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • - normas de defesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá- veis à área - atendimento e encaminhamento de emergência - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOS PRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS COMPETÊNCIAS• definir a política de recursos humanos• organizar os setores internos• organizar e harmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros parceiros e terceirizados• desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida- des, promovendo sua capacitação contínua• Interpretar as normas de proteção do trabalho• Interpretar contratos• avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em relação a eles HABILIDADES• motivar e liderar pessoas e grupos• treinar e aperfeiçoar o pessoal• aplicar as normas de segurança do trabalho• controlar contratos• organizar e articular os setores internos• fazer cumprir as normas e manuais de procedimento• articular as relações e o trabalho com terceiros• coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho individual e o trabalho em equipe BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de: - comunicação e relações interpessoais e grupais - interpretação de leis e outras normas jurídicas - interpretação e elaboração de contratos - elaboração e redação de normas e manuais - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • - relações com o público - organização de empresa SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃO DOS MEIOS TECNOLÓGICOS COMPETÊNCIAS• identificar máquinas e equipamentos• dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação, co- municação e gestão HABILIDADES• identificar as necessidades e soluções adequadas• identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções especializados• controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada• controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos• promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal• utilizar meios de comunicação eletrônica• operar equipamentos de escritório BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de: - utilização de meios informatizados - utilização de equipamentos eletro-eletrônicos - interpretação e elaboração de contratos - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho - relações com o público - vocabulário técnico em português e inglês SUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTO COMPETÊNCIAS• identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter os produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes• captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e potencial212 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • manter a viabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento e dos seus produtos e serviços• desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para inovações e mudanças de objetivos e de ofertas• avaliar a viabilidade de inovações e mudanças• Interpretar informações referentes ao turismo HABILIDADES• atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos• utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de: - “marketing” e de venda - comunicação e relações interpessoais e grupais - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços - elaboração de descrição de cargos/funções e salários - elaboração e redação de normas e manuais - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO COMPETÊNCIAS• avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos• criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente• analisar e avaliar as manifestações dos clientes• desenvolver no pessoal a atenção para a satisfação do cliente• avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral e Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • meio ambiente HABILIDADES• aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente• utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifesta- ções expontâneas e motivadas• relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial• promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao cliente BASES TECNOLÓGICAS• técnicas de:- comunicação e relações interpessoais e grupais- leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião- motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho- relações com o público Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através doParecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a EducaçãoProfissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan-do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos-pitalidade, com as seguintes características: A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades,interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser-viços turísticos e de hospitalidade.• Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, a promoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentes tipos e portes.• Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação.• Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colônias de férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas, escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigos para grupos especiais.214 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • • Os serviços de alimentação são prestados em restaurantes, bares e outros meios, como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em serviços de bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas. Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, apromoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências geraisdos técnicos da área, são apresentadas:• conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospitalida- de adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela• organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades de lazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e apoio• organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seus ambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas• operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica, iden- tificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços• operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e de hos- pitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas• avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados• executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os recursos• executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços• executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio- nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados• realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviços ade- quando-os às variações da demanda• comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma de co- mum entendimento Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pelaescola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusãoda habilitação. A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Para concluir, apresentaremos um pequeno exercício de futurologia, de auto-ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação denotas, informações, notícias sobre os vários setores do turismo, publicado emjornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos. De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo porsetor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessaforma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos,Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen-tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo. (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm)NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO• Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO 14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas de gestão da qualidade nas empresas;• Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Points serão muito requisitados por hotéis e restaurantes;• Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para a divulgação de destinos e equipamentos;• Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sites para cidades e empresas turísticas;• Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e suple- mentos de viagens e turismo;• As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas do setor em busca de informações fidedignas de demanda;• Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento das necessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, segu- rança, recreação);• Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão- de-obra especializada para o setor.• Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfrente desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptação a outras culturais, disponibilidade para troca de sede.216 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonteoriginal] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ano: 2004 Publicação original: livroFormato da contribuição: texto resumo de capítulo de livroFonte: MARINHO, Alcyane. Atividades na natureza, lazer e educação ambiental:refletindo sobre algumas possibilidades. Motrivivência - Revista de EducaçãoFísica, Esporte e Lazer. Florianópolis (SC): Núcleo de Estudos Pedagógicos emEducação Física, ano XVI, n. 22, p. 47-69, jun, 2004, (ISSN: 010341-11).E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de EducaçãoFísica da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade deEducação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer.Atividades na Natureza, Lazer eEducação Ambiental: Refletindo SobreAlgumas PossibilidadesAlcyane Marinho A minha maior motivação para escrever este artigo foi o fato de me sentirmuito à vontade, desde o início, para organizar algumas idéias sobre o lazer, aeducação ambiental e as atividades na natureza, as quais têm me acompanhadojá há algum tempo, ao longo de minha vida, tanto acadêmica quanto pessoal.Sinto-me feliz por esta oportunidade, permitindo-me dividir algumas reflexões einquietações, as quais, embora estejam aqui de forma muito sintetizada,potencializam-me a permanecer curiosa e interessada pelo tema. Destaco que as discussões apresentadas são frutos de leituras, discussões eparticipações diversas em grupos de pesquisa, palestras, congressos, cursos,tanto quanto meu envolvimento pessoal e afetivo como praticante em diversasatividades na natureza. Não vou seguir determinado rigor metodológico e vou me permitir utilizar aprimeira pessoa para esta nossa “conversa”, assim como também me valerei deuma construção textual simples, porém indagadora. No meu entender, a educação ambiental e o lazer parecem sofrer, de certa Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • forma, os mesmos “preconceitos”. Como requerer e pensar nessas duas esferasquando estamos tratando, especificamente, de realidades vividas em um país quesequer superou seus problemas básicos de moradia, alimentação e saúde? Neste contexto, como pensar em um desenvolvimento com bases mais susten-táveis, capaz de promover, recuperar e melhorar o meio ambiente 1 e a qualidadede vida humana na terra? A afetividade e o amor das e pelas pessoas devem ser a base para a construçãode sociedades sustentáveis, juntamente com um efetivo diálogo e comprometi-mento entre todas as esferas - política, econômica, sociocultural, educativa, etc. Desta forma, não perdendo de vista o foco nas atividades na natureza, preten-do, neste artigo, apontar algumas pistas que enfatizem o lazer e a educaçãoambiental como espaços privilegiados nesse processo de mudança para melho-res condições de vida. Não isoladamente, mas em estreita relação com outroscampos de atuação e formação, potencializando a participação e o engajamentocrítico e criativo dos sujeitos. Para situar o espaço/tempo desta discussão, reporto-me, primeiramente, a al-gumas questões que delineiam o lazer. Para tanto, creio ser interessante começarapresentando algumas características de nossa contemporaneidade, as quais evi-denciam uma época completamente diferente daquela de quando não se conse-guia fazer distinções, por exemplo, entre as expressões lazer, ócio e trabalho;afetando, portanto, os modos de comportamento e as dinâmicas das sociedades. Vivemos, hoje, um tempo de intensidades, um tempo cronometrado, medido,comprado, estimado, manipulado, calculado. Vivemos um tempo compulsivonão só no trabalho, mas, por inúmeras vezes, acabamos reproduzindo a mesmacompulsividade nos momentos de lazer - quando eles existem, é claro! O mundo atual é vivido sob o signo da velocidade, da aceleração, como jáapontado por vários autores (VIRILIO, 1998; SEVCENKO, 2001 e SANTOS, 2001). Oimpério da técnica, a competitividade, a instantaneidade na transmissão e recep-ção de imagens, sons e palavras contribuem para que o fascínio pelo termo velozse torne cada vez mais intenso. Santos (2001, p.40-41), com toda propriedade,afirma: “ser atual e eficaz, diante da ordem vigente, potencializa a velocidadecomo uma necessidade e a pressa como uma virtude”. Contudo, nem todos têm acesso a essa velocidade - solução para todos osproblemas da vida cotidiana! A velocidade apenas está ao alcance de um númerolimitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possibilidades de cada um, asdistâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio nãopermite igual economia de tempo. A grande maioria é arrastada e participa in-220 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • completamente da produção histórica desse tempo. Nesse espaço/tempo, Featherstone (2000) relata que começamos a habitaruma cultura tecnológica, ou seja, a cultura tem sido cada vez mais produzida porintermédio da tecnologia. Assim, por meio dela, novos direcionamentos sãodados à indústria de entretenimento, fornecendo muito mais que diversão; for-necendo porções rigorosamente quantificadas de fantasia, desejo e euforia paraas pessoas. Essa indústria, como enfatiza Debord (1997), esforça-se por tentarcompensar o extremo empobrecimento da vida social, cultural e emocional,conduzindo os indivíduos a uma celebração contínua das mercadorias, rotuladascomo belas imagens, como novidades, como um espetáculo propriamente dito 2. Contudo, neste mesmo contexto - consumista, alienado, ausente de diálogose reflexões - podemos pensar em saídas estratégicas e é exatamente o que nosmove e nos faz acreditar no amanhã! Neste sentido, acredito que o lazer e a educação ambiental podem surgir comopossibilidades de mudança, como espaço de pausa para respirar, tomar fôlego,refletir e discernir. Portanto, como já afirmei em outro momento (MARINHO, 2003), é preciso quesejamos capazes de perceber as potencialidades das práticas de lazer diante dasmudanças sociais e culturais contemporâneas, traduzidas em movimentos com-plexos, associados aos novos padrões de competitividade e à aceleraçãotecnológica, por um lado, e, por outro, capazes de estabelecer uma configura-ção inovadora por todas as esferas humanas e, por conseqüência, nos significa-dos do lazer e da própria natureza. Assim como a educação ambiental, o lazer também, muitas vezes, é entendidono singular, como uma possibilidade unidimensional. Para dar sentido a ambasdimensões, é preciso entendê-las em um contexto múltiplo de possibilidades einteresses, como parte de uma teia complexa de relações, influenciando e sendoinfluenciadas, não devendo ser responsabilizadas isoladamente por qualquermudança pretendida, como tão bem alerta Sorrentino (2002), ao se referir, par-ticularmente, à educação ambiental. Sob essa ótica, como mostra Marcellino (2002), corroborando os estudos deDumazedier (1979, 1980), o lazer, como expressão da cultura, pode se constituirtanto em um elemento de conformismo, passividade, quanto em um elemento deresistência e negação à ordem social vigente; não devendo por isso receber otratamento simplista de modismo, alienação ou simples consumo. Não pretendo me aprofundar nas interessantes e questionadoras obras sobrelazer de importantes autores e suas diferentes concepções, apenas saliento que Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • são inúmeros os conceitos e abordagens, os quais dão representatividade dacomplexidade e magnitude deste tema. Porém, ainda assim, vale ressaltar que minha compreensão de lazer, ora estabelecida,extrapola idéias e conceitos fechados, os quais comumente vemos sendo veicula-dos por algumas literaturas e por diversos outros meios de comunicação. Acredito que, mais que considerar o lazer como direito social explícito naconstituição, precisamos entendê-lo como possibilidade de produção de cultu-ra, como elemento integrador do exercício da cidadania, como campo privilegi-ado para a manifestação do elemento lúdico, da liberdade e do prazer, e, ainda,como potente instrumento de mudanças pessoal e social; seja qual for a concep-ção que mais nos familiarizemos e adotemos [lazer relacionado ao tempo, àatitude, ao espaço, ao estado de espírito, etc. (DE GRAZIA, 1969; MARCELLINO,1997; WERNECK, 2000, dentre vários outros autores)].AS ATIVIDADES NA NATUREZA:DELINEANDO CARACTERÍSTICAS, ESPAÇOS DE AÇÃO E INTERVENÇÃO “Atividades na natureza” foi o termo, por mim escolhido, para designar asdiversas práticas manifestadas, nos mais diferentes locais naturais (terra, águaou ar), cujas características se diferenciam dos esportes tradicionais, tais comoas condições de prática, os objetivos, a própria motivação e os meios utilizadospara o seu desenvolvimento, além da necessidade de inovadores equipamentostecnológicos possibilitando uma fluidez entre os praticantes e o meio ambiente. De antemão, é importante mencionar a existência de uma infinidade de termosque pretendem designar e caracterizar estas práticas, tais como: esportes deaventura, atividades outdoor, esportes radicais, atividades físicas de aventura,esportes selvagens, dentre tantos outros. Talvez essa própria falta de consensosobre a terminologia contribua para uma interpretação superficial do que real-mente venham a representar tais práticas. Somente para apontar alguns dos equívocos manifestados em tais expressões,as palavras “esporte” e “radical”, por exemplo, tendem a reduzir as práticas emquestão a fenômenos que, muitas vezes, nada têm de esportivos (quando sepensa na burocratização e institucionalização das regras, dos espaços e dosobjetivos) ou de radical (uma caminhada por um bosque pode ser simplesmentebranda e tranqüila). Por sua vez, o adjetivo “física” atrelado à palavra atividadede aventura parece ser, ao mesmo tempo, redundante e dicotômico. Contudo, não é pretensão, neste artigo, aprofundar-me nesta questão, uma222 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • vez que outros aspectos, relativos ao envolvimento com a e na natureza, mos-tram-se muito mais carentes de intervenções e investigações e, uma vezaprofundados, poderão, posteriormente, contribuir para esta discussãoterminológica. Portanto, a opção pela terminologia “atividades na natureza” se deve justa-mente à amplitude de compreensões e sentidos que a expressão pode abarcar.Desta forma, sem pretender reduzir e engessar o conceito, apenas delineio algu-mas características para melhor visualização do tema 3. Estou entendendo-as como práticas cercadas por riscos e perigos, na medidado possível, calculados, não ocorrendo treinamentos intensivos prévios (comono caso dos esportes tradicionais e de práticas corporais como a ginástica e amusculação). A experimentação acontece de maneira mais direta, havendo umafastamento de rendimentos planejados. A identidade diferenciada desses tipos de atividades de aventura provémde aspectos práticos ou materiais e, também, de sua dimensão imaginária ousimbólica, na qual a aventura aparece como uma cenografia e as ações sãosubordinadas às percepções e riscos - reais e imaginários (FEIXA, 1995).Durante essas situações de aventura, o corpo passa a ser um campoinformacional, concebido como receptor e emissor de informação e nãocomo mero instrumento de ação ou coação. Os corpos chegam a enfrentardeterminadas regras de realização constantemente revisáveis e sempre sub-metidas à apreciação dos praticantes. As informações devem ser precisas e, em certas circunstâncias, as tomadas dedecisão devem ser rápidas. O mergulho, a vertigem, a velocidade, os desequilíbriose as quedas são características presentes nessas práticas, possíveis a quaisquerpessoas, pois o desenvolvimento e aprimoramento tecnológicos proporcionam,a qualquer um, o deslizar-se no ar, na água e na superfície terrestre, concretizan-do, como aponta Betrán (1995), alguns sonhos de aventura. Há um consenso, por parte de estudiosos do tema (POCIELLO, 1995; BETRÁN,1995 e outros) no que se refere aos anos 70 como marco das atividades nanatureza, principalmente nos países economicamente avançados. Dentre outras,a principal atividade difundida neste período foi o surfe, caracterizada pela uti-lização de prancha e pelo domínio corporal na tentativa de desbravar ondas. Tais atividades foram se desenvolvendo, ao longo dos anos 80 e, até nossosdias, conforme níveis de organização e controle acerca dos perigos inerentes àprática, tendo como respaldo significativo o avanço tecnológico voltado aosequipamentos esportivos específicos, os diversos recursos empregados e osmeios de comunicação. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Essas atividades requerem os elementos naturais para o seu desenvolvimento,de formas distintas e específicas, despertando novas sensibilidades, em diferen-tes níveis. As intensas manifestações corporais, aí vividas, permitem que asexperiências na relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconheci-mento do meio ambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, umreconhecimento dos seres humanos como parte desse meio (MARINHO, 2001). Bruhns (1997) salienta que a experimentação dessas novas emoções e sensibi-lidades poderá conduzir os seres humanos a diferentes formas de percepção e decomunicação com o meio em que vivem. Tal consideração salienta a necessida-de de compreensão sobre os diferentes significados que a relação dos sereshumanos junto à natureza tem assumido. Nesta perspectiva, parece que a busca por estas atividades desponta, a cada diamais, impulsionada pelo desejo de experimentar algo novo, emoções prazerosas,utilizando-se da tecnologia infiltrada na esfera da recreação e do lazer. O que mais as atividades na natureza representam? Como elas têm se configu-rado no lazer das pessoas, na nossa sociedade contemporânea? Os “aventureiros” envolvidos em tais práticas parecem estar fortalecendo umnovo estilo de vida, em busca de práticas mais “excitantes” que brincam com orisco e com o perigo em um jogo no qual os parceiros e os equipamentostecnológicos compõem a dinâmica a ser vivida. Continuando a delinear as características das atividades na natureza, vale apena lembrar que duas principais e diferentes vertentes manifestam-se: uma maisatrelada à competição e outra mais vinculada à expressão lúdica. Muito emboraa mídia, de certa forma, priorize a apresentação das atividades na naturezavoltadas, prioritariamente, a um caráter competitivo (como é o caso das corri-das de aventura, competições de escalada indoor, de rafting, etc.), conduzindotais práticas a um processo de esportivização; acredito que ainda são muitas asatividades que são imbuídas de características genuinamente lúdicas, carregadasde emoções, denotando singulares e expressivas formas de brincar com o risco.Também é importante destacar que, nestas atividades, não existe um rigor sepa-rando a competição da não-competição; ambas podem existir em uma mesmaprática, com diferentes nuances; no entanto, as eleitas para esta discussão estãomais atreladas à experimentação lúdica que competitiva em si. Muitas vezes, a satisfação trazida pelas atividades na natureza, de cunhocompetitivo, relaciona-se a uma espécie de (pseudo) aventura, produzindo umadefinição bastante reduzida da natureza, a qual passa a ser encarada como ummero local de atividades, cujo propósito é limitado a servir às necessidades dopraticante que procura por satisfação e prazer. A natureza, levada, então, a um224 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • segundo plano é redefinida como um ambiente coincidentemente útil e agradá-vel, atrativo e conveniente para as atividades esportivas. O conhecimento e aproteção ambiental, neste contexto, parecem ser irrelevantes. Por exemplo, nascorridas de aventura, grupos de executivos, de atletas e de outros tipos deinteressados envolvem-se em um jogo de representação de sobrevivência,redefinindo a natureza como um teatro no qual os indivíduos agem fora dohabitual contexto cotidiano. A natureza, aparentemente, é reduzida a um cená-rio teatral, a um espetáculo no qual os protagonistas se empurram para além deseus limites físicos 4. Acredito, igualmente, que o aspecto cooperativo não deve ser esquecido. Asatividades na natureza, em sua maioria, ocorrem em grupos ou, no mínimo, emdois participantes; ou seja, há a dependência de um parceiro para que a práticaaconteça de forma mais segura e, até mesmo, prazerosa. Igualmente, atitudes deconfiança e respeito são observadas, não só com os companheiros, mas tambémcom a natureza. Ainda que existam pessoas que, muitas vezes, por falta de conhe-cimento e instrução, tenham atitudes de desrespeito para com o meio ambiente,esta tem sido uma preocupação evidente nas propostas de agências, grupos esco-lares, empresariais, etc. e muitas têm sido as formas de intervenção educativa 5. As atividades na natureza também requerem prudência e bom-senso no que serefere aos procedimentos de segurança, uma vez que, muitas delas, exigemconhecimentos e familiaridade com alguns equipamentos tecnológicos. Saberos limites próprios, os dos outros, respeitando as imprevisibilidades da naturezaé pré-requisito para a prática de tais atividades. Uma outra característica marcante nestas práticas é que elas são agenciadaspor empresas e não por profissionais especializados. Não há, ainda, relaçõesinstitucionais mais intensas com estruturas acadêmicas; talvez por isso as uni-versidades, de certo modo, ainda não aceitem a força desse movimento; jáconsolidado de uma certa forma. Vale ainda mencionar que, mesmo que nãoestivessem consolidadas e fossem apenas um modismo (como muitos encaramtais práticas), elas também precisariam ser estudadas e também deveriam sercompreendidas para situar uma época, uma geração, etc. Todas estas características salientam a emergência de uma nova inquietaçãoreferente à necessidade de aprendizados específicos, no que se refere à adminis-tração e à participação em algumas atividades, tais como: educação e preserva-ção ambientais; técnicas de resgate e sobrevivência na natureza; conhecimentode equipamentos específicos, técnicas apropriadas para algumas modalidades;entre tantas outras, as quais podem ter interferência vital nesse processo. Ou seja, as atividades na natureza requerem um repensar sobre o meio ambien-te a partir de três principais aspectos interdependentes: a prática; a conservação Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • ambiental e o processo educativo. Atualmente, ainda que de forma tímida, algumas áreas têm se envolvido comesta temática, no sentido de aprimorar seus estudos e redimensionar as perspec-tivas atuais, como é o caso da Educação Física, do Turismo, da Biologia, entreoutras áreas, nas quais são apontados alguns estudos referentes àinterdisciplinaridade nas questões pertinentes à natureza. A Educação Física, particularmente, pode, por meio da experiência na natureza(ou seja, fora das quadras de cimento, dos ginásios poliesportivos, das piscinas, doscampos de futebol, etc.), potencializar suas estratégias de ação para desenvolver,nos alunos, suas habilidades motoras, capacidades físicas e, até mesmo, muitosfundamentos esportivos específicos. As corridas de orientação, por exemplo, assimcomo a escalada, a caminhada, a canoagem e outras atividades, podem ser utiliza-das para satisfazer uma variedade de objetivos educacionais, oportunizando dife-rentes níveis de desenvolvimento: ×Coletivo: habilidades cooperativas e de comuni-cação; ×Pessoal: auto-estima; Cognitivo: tomadas de decisão; resolução de proble-mas; Físico: aptidão e desenvolvimento de habilidades motoras. Podendo, da mesmaforma, serem utilizadas como atividades de lazer, com fim nelas mesmas. Portanto, é preciso que os conteúdos dos cursos de formação, em que as ativida-des na natureza possam ser inseridas, sejam repensados e reformulados, privilegian-do esta nova demanda relacionada ao lazer e à natureza. O ideal seria que o conteú-do das atividades na natureza (envolvendo tanto questões técnicas quanto questõescom diferentes vertentes: filosófica, sociológica, fisiológica, psicológica, etc.) per-passasse por todas as disciplinas, evidenciando a relação entre elas. Ou seja, as atividades na natureza não deveriam ser “recortadas” em cursos oumódulos específicos, mas sim abordadas nas diversas disciplinas, a partir daespecificidade de cada uma delas e suas contribuições para as mesmas, assimcomo qualquer outra modalidade esportiva, no caso da Educação Física. Destaforma, o estudo das atividades na natureza não seria apenas uma forma deoportunizar uma mudança de “locus”, com fins de entretenimento (o que tam-bém é muito válido), mas, muito mais que isso: seria uma forma de valorizar umatemática em emergência e de extrema importância para diferentes profissionais,demarcando novas possibilidades no mercado de trabalho e, mais ainda, eviden-ciando tais práticas como valiosas oportunidades para mudanças de comporta-mentos, atitudes e valores. O profissional que virá a trabalhar com as atividades na natureza deve saber aspossibilidades que estas atividades oferecem como parte integrante dos conteú-dos do ensino na graduação. Por exemplo, seria interessante entender e explicar,por meio da Fisiologia do Exercício, quais variáveis fisiológicas interferem emuma caminhada em uma trilha ou em uma corrida de orientação; quais músculos226 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • são mais exigidos nas remadas do rafting ou da canoagem, por intermédio daeletromiografia, nos estudos relacionados à Biomecânica do Movimento; comoas relações sociais se estabelecem entre escaladores, partindo do embasamentodos Estudos do Lazer e da Recreação e da Sociologia, entre tantos outros exem-plos que poderiam ser aqui elencados. Vários espaços (tais como acampamentos; colônias de férias; hotéis - fazen-da; de convenção -; ruas de lazer; academias; shoppings; escolas; empresas;dentre vários outros) abrem-se como possibilidades para atuação do profissio-nal capaz de lidar com as atividades na natureza. Portanto, esta crescente demanda, vislumbrando estes diferentes espaços deatuação, exige uma nova postura profissional; capaz de corresponder, de formaqualitativa, ao interesse dos envolvidos, dando vigor à potencialidade das ativi-dades na natureza. Um bom começo parece ser a efetivação de intercâmbios deconhecimentos entre os profissionais de diferentes áreas, com o intuito de des-cobrirem as melhores (e menos degradativas) formas de manutenção dos sereshumanos junto à natureza (da qual todos somos parte). Como apontado anteriormente, ainda que de forma lenta, porém significativa,alguns cursos de graduação em Educação Física e em Turismo, espalhados portodo o Brasil, têm começado a implantar em seus cursos conteúdos referentes àsatividades na natureza. Devido à falta de incentivo para implantação destesconteúdos na grade curricular, entre outros motivos, uma alternativa que temsido tomada, por muitas faculdades, é a abertura de cursos de extensão à comu-nidade, com o intuito de permitir a experimentação de tais práticas. Com esteobjetivo, o Curso de Extensão Universitária, intitulado “Vivências em Atividadesde Aventura”, oferecido pelo Laboratório de Estudos do Lazer, do Departamentode Educação Física, da UNESP de Rio Claro (SP) foi um dos pioneiros no interiorde São Paulo. A Universidade Federal de São Carlos (SP) e algumas outras facul-dades privadas de São Paulo também começaram a suprir a crescente demandapelas atividades na natureza, ora com cursos de extensão, ora com disciplinasoptativas na grade curricular. É importante mencionar, também, que as atividades na natureza conquistaramum espaço de maior visibilidade em eventos científicos da área e também foradela, tais como: ENAREL (Encontro Nacional de Recreação e Lazer); CONBRACE(Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) - especialmente no Grupo Temático“Lazer e Recreação”; CBTUR (Congresso Brasileiro de Turismo); SBS (SociedadeBrasileira de Sociologia) - particularmente no Grupo Temático “Sociologia doLazer e do Esporte”; ANPOCS (Associação Nacional de Pesquisa em CiênciasSociais), em especial o Grupo Temático “Turismo” e, também, ANPPAS (Associa-ção Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade). Valelembrar o número significativo de publicações de trabalhos completos e deresumos nos anais destes eventos, contribuindo, sobremaneira, para a produção Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • do conhecimento na área. Em alguns periódicos científicos também é possível perceber a crescente pu-blicação sobre o tema, tais como as Revistas: Conexões (FEF - UNICAMP); Licere(CELAR - UFMG); Turismo em Análise (ECA - USP); Movimento (UFRGS); Turismo:Visão e Ação (Universidade do Vale do Itajaí); Apunts de Educação Física (INEF -Barcelona); Body and Society (SAGE Publications, USA), entre outras. Eu nãopoderia deixar de mencionar a valiosa contribuição deste número temático daRevista Motrivivência (UFSC), incentivando e colaborando para a produção ci-entífica acerca do assunto. Alguns periódicos digitais também têm publicado trabalhos relativos à temáticadas atividades na natureza, são eles: Lecturas: Educación Física y Deportes (BuenosAires) e Boletim Brasileiro de Educação Física (Brasília), dentre outras possibili-dades na área do Turismo. Diante desta crescente expansão do público alvo constituído, principalmente,por estudantes de cursos técnicos e de especialização; bem como numa frenteampla de mercado de trabalho, este tema tem despontado denotando granderelevância para diversas áreas do conhecimento, como já exposto anteriormen-te. Vale mencionar que o assunto tem sido abordado em várias dissertações demestrado e teses de doutorado de diversas faculdades e universidades brasilei-ras. Uma recente produção refere-se a uma coletânea organizada, focalizandoas interfaces das atividades na natureza com o lazer e o turismo, a partir dodiálogo com profissionais de diferentes áreas de atuação (MARINHO e BRUHNS,2003), cujo segundo volume está na fase final para publicação (MARINHO eBRUHNS, no prelo). Igualmente, aumentam os números de laboratórios e grupos de estudos epesquisas voltados a temática das atividades na natureza. Alguns deles podemser mencionados: LEL: Laboratório de Estudos do Lazer, Unesp de Rio Claro (SP);GLEC: Grupo de Estudos Lazer e Cultura da UNICAMP, Campinas (SP); NIEL: Núcleointerdisciplinar de Estudos do Lazer, UFPE; dentre outros em São Carlos, Natal,Florianópolis, etc. São bastante inovadores, também, alguns trabalhos que têm sido realizadosao longo dos últimos anos, cujas publicações são recentes, tais como: ativida-des na natureza e portadores de necessidades especiais (MUNSTER, 2004); ativi-dades na natureza e empresários (MACHADO, 2004); atividades na natureza eterceira idade (DIAS e SCHWARTZ, 2004); atividades na natureza e dependentesde drogas (GIMENO et al., 2003), dentre outros. Desta forma, no exposto até o momento, pretendi, de forma bastante sinteti-zada, apresentar algumas características das atividades na natureza, seus possí-228 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • veis espaços de atuação, os profissionais especializados em emergência, bemcomo os principais focos de estudos e produção científica da área. Tive vontade de permanecer delineando tais características, com o intuito deme aprofundar sobre cada questão, porém como o espaço para este texto nãome permite, darei prioridade para apresentar algumas idéias sobre a EducaçãoAmbiental, tão necessária e importante não só para o assunto em questão, maspara todas as demais discussões que se possa fazer sobre os seres humanos emnosso Planeta Terra. NOTAS SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL De antemão, ressalto que compartilho da definição de Educação Ambientalproposta por Reigota (1994), entendendo-a como educação política, pois prepa-ra cidadãos para reivindicar justiça social, cidadania e ética nas relações sociaise com a natureza. Sorrentino (1997), em seus estudos, utiliza alguns atributos apresentados naliteratura, entendidos como básicos e necessários para uma formação acerca daquestão ambiental, dos quais, mediante pequenas modificações, iremos nos apro-priar: São eles: instigar o indivíduo a analisar e participar na resolução dosproblemas ambientais; estimular uma visão global e crítica das questõessocioambientais; estimular um enfoque interdisciplinar que resgate e construasaberes; possibilitar um conhecimento interativo por intermédio de pontos devista; e propiciar um autoconhecimento que contribua para o desenvolvimentode valores, atitudes, comportamentos e habilidades. Em uma outra publicação, Sorrentino (2002, p.91) alerta que a: “Educação Ambiental” tem sido percebida por distintos setores da sociedade como uma atraente chave para a abertura das mais dife- rentes portas. Uma chave de múltiplos usos que, no primeiro mo- mento, nos aproxima de tudo e de todos, mas que em seguida vai se tornando um chavão difícil de carregar, em função das expectati- vas criadas em torno das soluções que se deseja encontrar. Mais que procurar mostrar a complexidade de relações nas quais a educaçãoambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, asnecessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autorsupracitado alerta a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além deum adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • cional mais amplo, ainda que possua suas especificidades. Nessa mesma direção, Ferreira (1999) também acredita que o discurso ambientalnão representa somente o discurso voltado ao ambiente, abarcando também oprocesso social, por meio do qual ele é construído e transmitido. É exatamente nesse processo de construção coletiva com diferentes esferashumanas, campos de atuação e áreas do saber que podemos dialogar comSorrentino (2002a) a respeito do papel que cada um de nós pode e deve ter. Nesse processo coletivo, o compromisso individual é essencial e insubstituívelpara as mudanças bruscas que a atualidade requer. Todos, mulheres, negros,idosos, crianças, homossexuais, o interior, a periferia, etc., no contexto de suasparticularidades, devem ser ouvidos e potencializados a expressar suas necessi-dades e vontades. Contudo, como alerta Sorrentino (2002a), para que isso ocor-ra, todos devem perceber que vale à pena falar. É preciso explicitar como seconcretiza o compromisso com a viabilidade dessa participação. Se o objetivo é que todos decidam sobre os mais diversos problemas acercadas questões socioambientais, é preciso fornecer-lhes informações; criar ouapontar os espaços de locução e troca efetiva e afetiva de olhares e saberes;definir mecanismos claros de tomada de decisão e possibilitar-lhes condiçõesobjetivas na participação (SORRENTINO, 2002a). Além dessas necessidades, Sorrentino também alerta a urgência de trabalhar-mos o nosso interior, propiciando aos sujeitos envolvidos a realização desseexercício de uma nova sensibilidade (tal como: ouvir nossa intuição, nossocorpo, o outro, os elementos naturais, pensar e ser simples na complexidade ecríticos e questionadores diante do óbvio), possibilitando uma participação quesupere a presença física, capaz de se manifestar em atitudes e comportamentoscotidianos de “compromisso com a vida”. Como mostra Sorrentino, na tentativa de promoção da cidadania planetáriaque tenha como meta decodificar e enfrentar os fatores que ameaçam nossaexistência na terra, além do incentivo e apoio a ações locais, inovadoras ecriativas que visem a superar a miséria, a pobreza, o desemprego, o niilismo euso de drogas, entre tantos outros aspectos referentes à luta cotidiana pelasobrevivência e melhor qualidade de vida, é preciso despertar, em todos e emcada um, o sentido de “pertencimento”, participação e responsabilidade na bus-ca de respostas locais e globais. Todas essas questões perpassam, segundo Sorrentino (2002a, p.21), pelo com-promisso das políticas públicas com a inclusão da diversidade e com oquestionamento dos valores da sociedade de consumo; pela estimulação dosgrupos e sujeitos ao debate, diante da busca pela qualidade de vida e “felicidadematerial, física e espiritual”.230 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Afinal de contas, como ressalta Layargues (2002), a educação ambiental não éneutra, mas ideológica. Ela representa um ato político que tem por base valoresvisando à transformação social.ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE LAZER,EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AMOR Compartilho com Touraine (1989) que não devemos, em hipótese alguma,adaptarmo-nos passivamente a uma sociedade e a uma cultura de massa queescondem forças dominadoras, as quais, na verdade, devem ser banalizadas ecombatidas. O que está em jogo não é a defesa da ordem passada nem a aceita-ção da desordem presente; mas a concepção e a construção de novas formas,coletivas e individuais, de vida. Partindo dessas idéias, acredito que lazer e educação ambiental trazem, emsua práxis, potentes possibilidades de saída. Refiro-me à necessidade de recuperar o lazer como “licere”, lícito, poder terdireito. O lazer, entendido como espaço privilegiado para manifestação e produçãoculturais vai além da mera transmissão de informações referentes aos conteúdosculturais. Não se trata, como já apontou Marcellino (2002), da consideração deum instrumento leve e eficaz, facilitador do processo de ensino-aprendizagem,para a adequação conformista de sujeitos a uma inquestionável sociedadeestabelecida. É, na verdade, uma questão de participação cultural efetiva - usu-fruir e criar cultura - uma das bases do exercício da cidadania, visando à autono-mia dos sujeitos. Por sua vez, a educação ambiental traz, em sua raiz, importantes princípiosque nos conduzem ao mesmo caminho, como foi possível salientar anteriormen-te, por meio das idéias de Sorrentino (2002a, 2002, 1997). Dentre os desafios na realização da educação ambiental, relativos àsensibilização e à mobilização do grupo para enfrentar e solucionar problemas;estão aqueles referentes à construção de situações/jogos/simulações que per-mita o exercício da capacidade de trabalho interdisciplinar e intersaberes, com oobjetivo de construir conhecimentos e procedimentos capazes de preparar ossujeitos para tomadas de decisão sobre grandes impasses com os quais nosdeparamos, a cada momento (SORRENTINO, 2002). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Assim como a educação ambiental, a educação para o lazer 6 exige tomada deconsciência referente às contradições de nossa contemporaneidade e àhumanização das relações fundadas na ética, mantendo interfaces extremamen-te preciosas com a educação para a cidadania. As emergências são outras: não se pretende mais visualizar uma educaçãoambiental movida por oficinas repetitivas esvaziadas de conteúdos e desconectasde um processo educacional como um todo; também não se quer mais fugir dosproblemas cotidianos, simplesmente divertindo-se ou descansando. O que sealmeja é a busca por uma melhor qualidade de vida, em um espaço/tempo em quepossamos ser críticos, criativos e sonhadores. Nessa “luta”, todos temos nossasparcelas de direitos e deveres. Neste sentido, tanto a educação ambiental quanto o lazer se constituem ematos políticos. Por enquanto, como alerta Santos (2000), é, sobretudo, políticadas empresas, da lógica excludente do capital. Contudo, é possível perceber oatrevimento de grupos e instituições que procuram estimular a produção de lazer(e também de consciência ecológica) mais próximo da sensibilidade popular, dacultura, e não simplesmente só do mercado. Essas iniciativas podem ser estimu-ladas e multiplicadas de inúmeras formas, podendo (e devendo) obedecer a umprojeto político mais amplo, transgressor, coerente e inovador. Permanecendo com as idéias de Santos (2000, p.36): trata-se, no fundo, de uma questão de civilização. O problema não é, apenas, proteger recursos e lugares, mas valorizar a essên- cia do homem. Além de cuidar da biodiversidade, trata-se de sal- vaguardar e potencializar a sociodiversidade, que acompanha e qualifica a diversidade dos lugares, dos quais constitui, ao mesmo tempo, atributo e riqueza. Trata-se, a partir disso, da construção de um novo mundo, com a busca da plenitude, onde a vida seja vivida como troca e onde o qualitativo seja dominante, permitin- do que se instale no planeta o homem integral. Gostaria de encerrar este artigo refletindo um pouco sobre os valores quedeveriam estar embutidos nesses “direitos, deveres e sonhos”. Um deles, impres-cindível, em meu entender, é o amor. Maturana (1998, p.22), ao se remeter às emoções, defende que não há açãohumana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível comoato. Nesse sentido, o amor pode ser entendido como a emoção fundadora, sema qual a convivência se tornaria impossível. Nas palavras do autor: “o amor é aemoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentescom o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência”.232 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • As interações recorrentes no amor, como explicita Maturana, tendem a ampli-ar e estabilizar a convivência; porém, por outro lado, as interações recorrentesna agressão interferem e rompem a possibilidade de conviver. Nessa direção, alinguagem, como domínio de coordenações consensuais de conduta, não podeter sido originada na agressão, pois esta restringe a convivência. Infelizmente, pode-se constatar que a palavra amor tem sido bastante altera-da; a emoção por ela encerrada perdeu sua vitalidade, provavelmente devido àsconotações complexas, especiais e difíceis a ela relacionados. O amor é constitutivo da vida, mas não é nada especial. O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro (...) sem a aceitação do outro na convivência não há fenômeno social (MATURANA, 1988, p.23). Como mostra o autor, ainda somos animais colheitadores, compartilhadores,ainda somos animais que vivemos na coordenação consensual de ações, aindasomos animais cujos machos participam dos cuidados com os bebês, somosanimais que vivemos em pequenos grupos, ainda somos animais sensuais quevivem espontaneamente no tocar e acariciar mútuos. Porém, preliminarmente,somos ainda animais dependentes do amor. Este, por sua vez, é a emoção centralna história evolutiva humana desde o início; é a condição necessária para odesenvolvimento físico, comportamental, psíquico, social e espiritual das crian-ças, bem como para a conservação de todas essas esferas na vida adulta. O amor não pode ser entendido como um fenômeno biológico eventual nemespecial; ele deve ser compreendido como um fenômeno biológico cotidiano,básico e diário no humano. Isso pode ser constatado por meio da forma como,freqüentemente, ele é negado culturalmente, criando limites na legitimidade daconvivência, em função de outras emoções (MATURANA, 1988). Conforme Maturana (1988), na medida em que diferentes emoções constituemdomínios de ações distintas, haverá diferentes tipos de relações humanas, de-pendendo da emoção que as sustente e será necessário observar as emoçõespara distinguir os diferentes tipos de relações humanas, já que estas as definem. Mesmo que em um outro contexto, Warat (1989) também se aproxima dasidéias acima expostas. É preciso resgatar a ética da preservação da existênciabaseada no amor e na solidariedade. Pensar o amor como dimensões simbólicae emancipatória potencializa a preservação da condição humana pela preserva-ção dos desejos. Warat (1989), sutilmente, lembra que: se sabemos como amar,também sabemos como viver. E, por sua vez, só é criado um espaço de transfor- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • mação social e de emancipação se, previamente, cria-se um espaço de desejo,de afeto entre as pessoas. Daí a necessidade de um “amor de gigantes”: Os amores de gigantes constituem, entre os parceiros, espaços de afetividade que se convertem em um depositário dos enigmas da vida. Uma disposição afetiva que permite a percepção de que, sem a plenitude dos sentimentos, não existem forças suficientes para a transformação da vida. É impossível pretender uma troca nos sistemas de valores e necessidades sociais sem construir espaços de ternura entre as pessoas (WARAT, 1989, p.22). Contribuindo para a discussão, também são bem-vindas as idéias sobre o “sa-ber da experiência”, apresentadas por Bondía (2002), ao se referir à necessidadede as reflexões sobre educação estarem, diretamente, ligadas ao par “experiên-cia/sentido”, uma vez que a verdadeira experiência está cada vez mais rara porexcesso de informações e de trabalho e por falta de tempo. Por sua vez, mencionar e almejar trabalhos educativos qualitativos e comple-mentares, transmissores de experiência, clama pelo conceito amor, muito poucolembrado, nessas ocasiões. Cabe mencionar, então, que, para Bondía (2002, p.20-28), a experiência repre-senta: um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova (...). O sujeito da experiência tem algo desse ser fasci- nante (o pirata) que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião (...). A experiência é a passa- gem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente (...). A expe- riência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, de- morar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.234 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Portanto, a educação que se sonha, seja ela para o lazer ou para o ambiente,formal ou informal, precisa valorizar mais a lentidão, precisa rever sua ética,suas práticas/experiências e seus valores. O empenho pela ética, pelo respeito às diferentes formas de vida, o incentivopela autonomia, pela solidariedade e pela democracia são algumas das metascultivadas e almejadas tanto pelo lazer quanto pela educação ambiental. Infeliz-mente, a educação formal deixa suas funções a desejar uma vez que parece seater apenas a um ensino teórico massivo ou a práticas esvaziadas de conteúdose, nesse processo, com o sentido de superação, a educação para o lazer e aeducação ambiental têm ambas como finalidade a formação de sujeitos consci-entes, sensíveis e críticos no que se refere ao tempo livre e à natureza. Deixo, portanto, um último “recado”: trabalhar com as atividades na naturezaexige de nós mais que familiaridade com questões socioambientais e com con-ceitos sobre lazer; exige um envolvimento dinâmico, intenso, inovador e muitoresponsável. Somente assim, as atividades na natureza se consumarão comooportunidades não apenas para se tomar decisões (momentâneas) sobre deter-minada prática, mas, principalmente, para o desenvolvimento de uma sensibili-dade mais profunda. Ou seja, as experiências na natureza podem, efetivamente,contribuir para o despertar de uma sensibilidade e de uma responsabilidadeambiental coletiva, contribuindo, até mesmo, para impulsionar o estabelecimen-to de políticas em níveis local e global.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonteoriginal]NOTAS1 Meio ambiente está sendo, neste texto, entendido como “um lugar determinado e/ou percebido onde estão em relações dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essas relações acarretam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e políticos de transformação da natureza e da sociedade” (REIGOTA, 1998, p.21). Por sua vez, a palavra natureza está sendo tratada como um conceito que, de acordo com Carvalho (1994, p.26), “exprime uma totalidade, em princípio abstrata, que os homens concretizam na medida em que a preenchem com suas visões de mundo”.2 Tive a oportunidade de explorar melhor estas idéias no capítulo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada: corpos aventureiros como possibilidades de resistência” (MARINHO, 2003).3 Aproveito, este momento, para compartilhar que minha pesquisa de doutorado visa, entre outras questões, a investigar a idéia de “aventura” existente nas atividades na natureza. Futuramente, será um grande prazer poder dividir dados e informações sobre minha pesquisa, a qual está sendo desenvolvida no Programa de Pós- graduação da Faculdade de Educação Física da Unicamp, no Departamento de Estudos do Lazer.4 Desenvolvi este assunto nos artigos: “Do Bambi ao Rambo ou vice-versa? As relações humanas com a (e na) natureza” (MARINHO, 1999) e “Lazer, natureza e aventura: compartilhando emoções e compromissos” (MA- RINHO, 2001). Aos interessados por uma discussão mais profunda sobre as corridas de aventura, a sugestão de leitura da dissertação de mestrado de Ferreira (2003) é muito pertinente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • 5 “Férias vivas” é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo promover a segurança em atividades de turismo e lazer no Brasil. Tal entidade ilustra o interesse e a preocupação com práticas na natureza mais conscientes. Como parte de seus projetos, a entidade elaborou um guia contendo diversas explicações sobre algumas atividades na natureza, dentre várias outras dicas. Informações interessantes podem ser obtidas no site: www.feriasvivas.org.br6 “Educação para o lazer” é uma expressão que tem sido utilizada por diversos estudiosos no sentido de refletir e questionar o lazer não apenas como veículo de transmissão de educação (“educação pelo lazer”), comumente utilizado em escolas e outras instituições. “Educar para o lazer” significa possibilitar que as pessoas se tornem capazes de desfrutar qualitativamente de seus momentos de “tempo livre”, podendo conhecer as diversas possibilidades para poder optar. Como nos lembra Camargo (1998), sempre fomos educados para o trabalho - sendo este, até então, o valor mais importante da vida humana - fazendo-se necessário, contudo, que também sejamos educados para o lazer com o mesmo afinco, pois somos exigidos por inúmeras características da vida contemporânea (como discutido ao longo deste artigo).236 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: verbete de dicionárioFormato da contribuição: artigoFonte: BRUHNS, Heloisa T. In: GOMES, Christiane L. (org.). Dicionário crítico dolazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.E-mail do(s) autor(es): luabola@uol.com.brTítulos acadêmicos principais atuais: BRUHNS, H. T. graduada em Economia pelaUNICAMP e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora emFilosofia da Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento deEstudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP.Meio AmbienteHeloísa Turini Bruhns Tentarei aqui desenvolver questões em torno do conceito do vocábulo “meioambiente”, desde já alertando os leitores sobre a impossibilidade e a improce-dência da tentativa de fechamento nas discussões que serão apreendidas, poiselas representam um olhar entre muitos outros, sobre o fenômeno a ser explora-do. Portanto, mais do que estabelecer definições, desejo ampliar e contribuirpara a construção do conceito. Em oposição a um sujeito-observador, o qual situa-se fora do tempo históri-co, perseguindo os sentidos verdadeiros, real, permanente e inequívoco, prefirome aproximar de um sujeito-intérprete me posicionando diante de um mundo-texto, imerso na polissemia e na aventura de produzir sentidos a partir de umpanorama histórico (Carvalho:2001) Inicio expondo um dentre os muitos conceitos estabelecidos, não no sentidode tomar partido do mesmo, mas para utilizá-lo como possibilidade de iniciar umdiálogo sobre a compreensão do mesmo. De forma bem geral, poderíamos pensar o meio ambiente como o modo peloqual os organismos vivos (e aqui incluo os seres humanos) interagem com oconjunto de condições naturais, através de influências mútuas estabelecidasentre os mesmos, envolvendo um campo complexo das relações entre a nature-za e a sociedade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • De modo a contribuir com o debate, busco Reigota (1998:21), o qual definemeio ambiente como “um lugar determinado ou percebido onde estão em rela-ções dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essasrelações acarretam processos de criação cultural e tecnológica e processoshistóricos e políticos de transformação da natureza e da sociedade”. Assim, a compreensão ultrapassa a idéia do meio que circunda espécies epopulações biológicas, situando o ambiente como categoria sociológica (nãobiológica), relacionada a uma racionalidade social, onde estariam envolvidoscomportamentos, valores e saberes, bem como novos potenciais produtivos(Leff:2000) A racionalidade instrumental utilitarista numa ética baseada em benefíciosimediatos regeu por um tempo considerável (se é que podemos afirmar o seudesaparecimento) a economia e o processo de acumulação, buscando atingir ocrescimento econômico. Nesse processo os recursos naturais sofreram umadeterioração e devastação comprometendo a vida no planeta, provocando de-sigualdades sociais e um entendimento equivocado de conservação ambientaltraduzida como nichos isolados. Esse quadro provocou uma crise e uma reaçãocontrária, impulsionando uma nova racionalidade social diferente da racionalidadecientífica prevalecente. Nesse aspecto podemos visualizar a crise ambiental não somente como criseecológica, mas como crise da razão, onde os problemas ambientais situam-secomo problemas do conhecimento. Trazendo Leff (2000:217), “apreender acomplexidade ambiental não constitui um problema de aprendizagem do meio, esim de compreensão do conhecimento sobre o meio”. Podemos pensar essas questões engatilhadas a partir da década de 60, nosmovimentos contraculturais, constituindo e desembocando em crises deflagradasno âmbito das instituições (família, ensino, igreja dentre outras), bem comocontestando instrumentos sócio-culturais e político-econômicos de organiza-ção das sociedades, questionando teorias e práticas em torno da luta pelo poder. Surge uma noção de ambientalismo, conforme Cascino (1998:266) na qual estáembutida não apenas a preservação, de maneira isolada e estanque, mas inte-grando uma infinidade de conteúdos, de complexificação do conhecimento,articulando uma visão diferenciada sobre os acontecimentos naturais, sócio-culturais, político-econômicos, num entendimento do ser humano como ele-mento co-responsável, fundamental, em tudo o que ocorre no âmbito da sobre-vivência física do planeta e da própria qualidade de vida em um sentido amplo,renovado e diferenciado”. Nessa direção, prossegue o autor, “as novas configu-rações do expressar a política, o fazer reivindicações, o agir sobre os temas deinteresses e importância na defesa de territórios existenciais coletivos e indivi-238 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • duais, se reveste de inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até entãointocados da expressão humana, rompendo com velhas mensagens, envelhecidascores de expressão dos desejos”. Um novo ambientalismo, em contraposição à concepção de “proteção à natu-reza” presente em instituições provindas do século XIX (sociedades de proteçãoda natureza, da vida selvagem, dos animais etc.) procede, como mostra Diegues(1996:39), desse movimento ativista crítico da sociedade tecnológico-industrial(tanto capitalista quanto socialista), cerceadora das liberdades individuais,homogeneizadora das culturas e, sobretudo, destruidora da natureza. Movimento ambientalista constituindo-se em alvo de censuras, pois represen-tava um modelo importado dos países industrializados, nascido com a opulênciada riqueza rejeitando o industrialismo e os valores consumistas), não refletindoaspirações e conceitos sobre a relação homem/natureza dos países subdesen-volvidos, pois muito raramente incluíam o problema da pobreza e, principalmen-te, a má distribuição de renda. Os movimentos ambientalistas nos países subde-senvolvidos estão diretamente relacionados com as condições de produção e desatisfação das necessidades básicas da população, portanto implicam em quali-dade de vida. Entretanto, nos anos 80, coloca Diegues (ibid.:38), “ficou maisdifícil a defesa do ambientalismo primeiro-mundista, por causa da grave recessãoque gerou altas taxas de desemprego”. As contrapropostas ambientalistas direcionaram-se para uma sociedadelibertária, constituída de pequenas comunidades auto-suficientes, utilizando umaciência, um trabalho e uma tecnologia não alienante e a afirmação da sociedadecivil em contraposição a um Estado centralizador. Uma utopia simplista manifestou-se nesse movimento de ruralização e pro-posta de volta às comunidades rurais, qual seja, o retorno aos modelos de con-vívio dos pequenos povoados e vilas. Trazendo temas de grande alcance político em seu bojo (energia nuclear,autonomia local, crescimento econômico), desencadearam um afastamento emrelação ao poder instituído, concomitantemente colocando-se como força po-lítica, conquistando espaços (partidos, ministérios, organizações não-governa-mentais) Surgiu um âmbito propício para o desenvolvimento de abordagens, temas eproblemas até então considerados irrelevantes para a investigação social. Nãomais se atendo à narrativa das conquistas dos “grandes homens”, esses temasexpandiram-se para aspectos da vida cotidiana, examinando modos de amar,trabalhar, divertir-se, práticas e representações corporais. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Algumas práticas de lazer tendo como pano de fundo o ambientalismo en-quanto movimento crítico-social surgem nessa época, muito próximas às pere-grinações do movimento hippie ou aos seus propósitos de volta ao campo, ondea busca pela natureza representava uma contestação de valores em relação àprodução e ao consumo. A natureza como território da experiência passa aoperar um reencantamento do mundo. Assim, as visitas à natureza traduzidas nasformas de acampamento, caminhadas, exploração de cavernas, montanhismo,tornam-se cada vez mais freqüentes, desencadeando posteriormente uma sériede atividades na natureza como o rafting, canyoning, bóia-cross, cascading,tirolesa e outros. Atividades estas desenvolvidas através de aprimoramentostecnológicos os quais promoveram tanto o acesso a lugares antes inacessíveis(como por exemplo o Everest no Himalaia ou as cavernas do PETAR no Brasil),quanto a possibilidade da prática com segurança. O ecoturismo, denominaçãoposteriormente atribuída a essas viagens, ganha destaque como uma atividadede lazer, incorporando os conflitos e contradições geradas no próprioambientalismo. Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas,acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, osmovimentos sociais, o respeito pela alteridade, o ecoturismo corre o risco daapelação por uma política sectária e estreita, onde o respeito pelos outros podese perder numa competição por entre os fragmentos. Por outro lado, as atividades, onde a pretensão do cunho ecológico é manifesta-da, restringem-se a fatores físico-bióticos do meio ambiente, relegando a planos demenor importância os aspectos socioculturais e político-econômicos característi-cos das populações locais. Portanto, a redefinição dos modelos de desenvolvimentopautada nos “critérios ecológicos”, tem acontecido, como discutem Ribeiro e Barros(1997:39), “muito mais no sentido de uma adequação à idéia de ‘ equilíbrio com omeio natural’ do que em relação à de justiça social, ao reconhecimento das popula-ções humanas como os verdadeiros sujeitos do meio ambiente”. Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariaise políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável,desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes,expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser-vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos-tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística enos benefícios advindos da própria. O ecoturismo privilegia áreas naturais apelativas do ponto de vista estético,“segundo valores ocidentais”, como florestas, cachoeiras, rios extensos,canyons,ocorrendo uma discriminação por áreas naturais “menos nobres”, comopântanos, brejos, cerrados, etc., mesmo reconhecendo que esses ambientes sãoessenciais para o funcionamento dos ecossistemas (Diegues:1996).Essa propos-ta responde a concepções de vida, inspiradas no ambientalismo, apoiados emideologias ambientalistas e/ou místico-religiosas.240 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O movimento ambientalista desencadeou vários enfoques, muitos deles con-traditórios, gerando conflitos a partir de posicionamentos opostos. Dois grandesenfoques podem ser detectados na análise da relação homem/natureza: o“ecocêntrico” e o “antropocêntrico”. O primeiro visualiza o mundo natural nasua totalidade, o qual possui um valor independente da utilidade que venha a terpara o ser humano. O segundo incorpora a dicotomia homem/natureza, onde ohomem tem direitos de posse e controle sobre o mundo natural, sobretudoatravés da ciência e da tecnologia. A natureza representa uma reserva de “recur-sos naturais” disponíveis para exploração (Diegues:1996). Torna-se importante na compreensão do “mundo natural selvagem”, verificara posição de algumas linhas de pensamento envolvidas nessa questão. Aprovei-tando os estudos de Diegues (1996), vou me deter em três delas: a ecologiaprofunda, a ecologia social e o eco-socialismo. A ecologia profunda é uma vertente ecocêntrica, possuindo influênciaespiritualista (cristã, religiões orientais e outras), pregando quase uma adoraçãodo mundo natural. Atribui grande importância aos princípios éticos que deveriamser adotados para reger as relações homem/natureza. Recebeu muitas críticaspois chegou a propor ao ser humano “pensar como montanha”. O homem temcaracterísticas humanas e racionará segundo as mesmas, por mais solidário queseja em relação à natureza e por mais crítico que se coloque frente ao racionalismoantropocêntrico. Um “ecofascismo” manifesta-se nessa posição, na qual a sociedade humana,em sua organização, deveria adotar como modelo as características do mundonatural (homeostase, diversidade biológica, dentre outras).A justificação da or-dem social pelas leis da natureza serviu ao totalitarismo, exemplificado aquicom o nazismo, o qual se prevaleceu da seleção natural. A ecologia social justifica ao lado dos marxistas, a degradação ambiental comoproduto da ação capitalista. Afirma ser a sociedade humana constituída de gruposdiferenciados como pobres e ricos, brancos e negros, jovens e velhos e critica opoder baseado na noção de Estado, propondo uma sociedade democrática, descen-tralizada, baseada na propriedade comunitária de produção. Aproxima-se dos anar-quistas e assim sendo, afasta-se dos marxistas clássicos. Possui uma vertente utópi-ca pois prega a busca por uma comunidade orgânica, a qual se constituiria numanova sociedade, onde a tecnologia estaria sempre a serviço do homem. O eco-socialismo surge a partir de uma crítica ao marxismo clássico nas suasconsiderações sobre o mundo natural, alegando sobre ele manter uma visão denatureza estática, uma vez considerando-a apenas via ação transformadora dohomem, por meio do processo de trabalho, resultando na satisfação das neces-sidades. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Afirma dentre outros argumentos, ser necessário incorporar na contradiçãobásica da sociedade capitalista a contradição existente entre as forças produti-vas históricas e as forças produtivas da natureza, pois na impossibilidade destasúltimas operarem, instaura-se um impasse na própria reprodução da sociedade. Esta corrente propõe uma revisão do tradicional naturalismo o qual incorpo-rava uma aversão pela sociedade e pela cultura, tratando o homem como puranatureza.Esse naturalismo negava o culturalismo para o qual a sociedade teriatodas as qualidades e a natureza, todos os defeitos, esforçando-se para distan-ciar o homem em relação à natureza. O “novo naturalismo” estabeleceria a passagem tanto de uma reação contra anatureza para uma posição reconciliatória ativa, como de uma visão ingênuapara uma nova afirmação da relação homem/natureza. Baseia-se em três idéias: a) O homem é produtor e produto de seu meio, e os problemas conseqüentesreferem-se, não ao fato , mas à maneira dessa intervenção. A natureza pura, nãotransformada, representa um museu, uma reserva e um artifício de cultura. b) A natureza faz parte da história, não cabendo voltar atrás para reestabeleceruma harmonia perdida, mas sim restabelecer uma relação com o estado da natu-reza conforme a situação histórica. c) A relação com a natureza não se opera de forma individual, mas coletiva. Asociedade é produto do mundo natural por um trabalho de invenção constante.Uma série de distorções surgiu a partir do culturalismo (sociedade contra anatureza), o qual justificava a necessidade de acumulação como refúgio frente apossibilidade de escassez, gerando proibições e interdições (sexuais, alimenta-res), provocando a divisão entre os homens , bem como desigualdades sociais. Esse “novo naturalismo” propõe uma sociedade onde a natureza representauma possibilidade concomitante de desenvolvimento humano quanto de partici-pação no desenvolvimento. Nesse enfoque o fechamento da natureza em parques, como já comprovado,acelera a destruição da mesma (degeneração genética), não estabelecendo umarelação harmoniosa entre a sociedade e o meio ambiente. A questão ambiental requer novos conhecimentos teóricos e práticos para suacompreensão e resolução, com alterações na própria ciência, num novo olharsobre a sociedade, induzindo transformações teóricas e um desenvolvimentodiferenciado de conhecimento nas diversas áreas do conhecimento. Ela gerounovas problemáticas sociais abrindo espaços temáticos para a pesquisa242 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • interdisciplinar, a qual mais do que articulação de ciências, colaboração deespecialistas de diversas áreas e integração de recortes selecionados da realida-de, significa a transformação ambiental do conhecimento produzindo um pro-cesso de reconstrução social (Leff:2000). Está presente aqui uma noção de ciên-cia não pautada sobre fundamentos seguros, aberta para um processo de revisãoe autocrítica permanente, privilegiando o jogo das percepções criativas em de-trimento da manipulação dogmática de fórmulas fechadas. Busca mais uma rela-ção de conjunto e menos a busca precisa de fragmentos; mais a preocupaçãopelo sentido das ações não se prendendo num enrijecimento racionalista. O saber ambiental não é homogêneo nem unitário, constituindo-se num pro-cesso de relação com o objeto e o campo temático de cada ciência, o qual vaiabrindo espaços para a articulação interdisciplinar, gerando novas teorias, disci-plinas e técnicas.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonteoriginal] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • 244 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: anaisFormato da contribuição: resumo expandidoFonte: “Atividade de geoturismo no litoral de Icapuí/CE (NE do Brasil) e anecessidade de promover a preservação do patrimônio geológico”, Recife/PE,XXI Simpósio de Geologia do Nordeste, 2004.E-mail do(s) autor(es): debora@geologia.ufrn.br; marcos@geologia.ufrn.brTítulos acadêmicos principais atuais: Débora C. de Souza: Doutora em Geodinâmicae Marcos Antonio Leite do Nascimento: Doutor e Mestre em Geodinâmica,geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente doCurso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.Atividade de Geoturismo no Litoral deIcapuí/CE (Ne Do Brasil) e a Necessidadede Promover a Preservação do PatrimônioGeológicoDébora do Carmo SouzaMarco Antonio L. do Nascimento Embora o segmento sol e praia definam o produto turístico básico do Ceará (etambém do Nordeste), não se deve usar este segmento apenas para tomar banhode sol e/ou fazer caminhadas na praia. O litoral cearense apresenta uma grandegeodiversidade, com destaque para dunas, falésias e arrecifes, onde é possívelpraticar um novo segmento turístico – o geoturismo, que utiliza feições geoló-gicas como atrativos turísticos. É através desta geodiversidade que as praias de Icapuí se destacam no cenáriodo turismo cearense. Assim, apresenta-se aqui uma panorâmica de todo o poten-cial geoturístico dessas praias, possibilitando nas mesmas a utilização de umnovo segmento de turismo no Ceará, hoje em dia praticamente desconhecido. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • O MUNICÍPIO DE ICAPUÍ Icapuí é o último município do litoral Leste do Ceará, na divisa com o Estado doRio Grande do Norte. Ele faz parte da Costa do Sol Nascente e é famoso pelabeleza das praias e a culinária, baseada em peixes e crustáceos. O acesso àcidade se dá partindo de Fortaleza através da CE-040 até Aracati e então pega aBR-304 até a CE-261, que dá acesso direto a Icapuí. O acesso pode ser feito aindaatravés da BR-116, indo até o Boqueirão do Cesário, tomando a BR-304 atéchegar a Aracati, entrando no acesso a Icapuí pela CE-261. Dunas, falésias, tranqüilidade e um mar manso são algumas das atrações natu-rais das 14 praias distribuídas em seus 64 Km. As mais freqüentadas são Tremembés,Manibu, Retiro Grande, Redonda e Ponta Grossa.TURISMO DE NATUREZA: ECO E GEOTURISMO O ecoturismo promove o turismo sustentável em áreas naturais, beneficiandoo meio ambiente e as comunidades visitadas, promovendo assim aprendizado,respeito e sensibilização sobre aspectos ambientais. Este segmento do turismode natureza tem como principal atrativo os aspectos relacionados ao meiobiótico – fauna e flora. Embora os aspectos associados ao meio abiótico, espe-cialmente o relevo e as rochas, também sejam atrativos para o ecoturismo, nãoexiste uma abordagem específica para estes patrimônios naturais. Com isso, pessoas preocupadas na valorização e preservação dos patrimôniosnaturais associados ao meio abiótico existente no mundo, vêm nos últimos anospromovendo a divulgação de um outro segmento de turismo de natureza, oGeoturismo (Hose 1996). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativoturístico, buscando sempre assegurar a conservação e a sustentabilidade dolocal visitado. O geoturismo procura também divulgar a geodiversidade que é a variedade deambientes, fenômenos e processos geológicos, geradores de paisagens, rochas,minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra (Stanley 2000). A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém ações quecontribuem para a conservação da natureza estão preocupadas basicamentecom a fauna e a flora. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcidadaqueles que trabalham com a natureza e da problemática associada à sua con-servação. Enquanto se continuar a esquecer a importância da vertente geológicanunca se poderá programar ações eficazes de conservação da natureza. Parauma ação mais ampla e completa em favor da conservação de qualquer patrimônionatural não faz qualquer sentido algum individualizar a Geo da Bio diversidade.246 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • ATIVIDADES DE ECO E GEOTURISMO EM ICAPUÍ O Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil promovido peloGoverno Federal em parceria com os Governos Estaduais permitiu a criação dediferentes regiões turísticas em todo o Brasil (mais detalhes em http://www.turismo.gov.br/regionalizacao/). No caso do Estado do Ceará foram individualizadas seis grandes regiões turísticas,a saber: Araripe/Cariri, Serras Úmidas/Baturité, Sertão Central, Fortaleza/Metropoli-tana, Litoral Oeste/Ibiapaba e Litoral Leste/Apodi. Nas três últimas há uma interaçãoentre atrativos litorâneos e aqueles encontrados no interior; enquanto que os demaisenvolvem atrações exclusivamente situadas em municípios do interior. É na região turística do Litoral Leste/Apodi que está inserido o Município deIcapuí. A vocação turística deste revela-se em sua variedade de paisagens natu-rais, tais como dunas, falésias, areias monazíticas, fontes, lagoas, rios, manguese matas de tabuleiros, além da cultura e da história. Em virtude desse potencial,a Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Ceará, criou o Pólo de Ecoturismodo Litoral Leste envolvendo os atrativos ecoturísticos encontrados nos municí-pios de Icapuí, Aracati e Fortim. Porém, como dito anteriormente, faz-se necessário aproveitar não somente abio, mas também toda a geodiversidade da região. Para uma melhor compreen-são dessa geodiversidade em ações de conservação da natureza é importante:(a) utilizar, de forma sustentável, os recursos geológicos; (b) introduzir o conhe-cimento geológico nos instrumentos de ordenamento das áreas protegidas; (c)levantar os locais de interesse geológico, geomorfológico e paleontológico queocorram nas áreas protegidas; e (d) criar projetos de educação ambiental emmatéria de conservação da natureza, a nível Federal, Estadual e Municipal. A seguir serão apresentados os principais atrativos geoturísticos da região deIcapuí, principalmente àqueles encontrados nas praias de Mutamba, Barreiras,Picos, Peroba, Redonda, Ponta Grossa e Retiro Grande.GEOLOGIA DA REGIÃO A área que contemplam as praias citadas acima possui uma geologia ímpar(Sousa 2003). Ela está inserida no extremo oeste da Bacia Potiguar, enquadradageologicamente no contexto da Plataforma de Aracati e geograficamente situa-da entre as praias de Mutamba e Retiro Grande (Fig. 1). Nesta área, as rochas que afloram podem ser individualizadas em dois grandesgrupos (Fig. 2): i) uma unidade carbonática (calcários e margas) correlacionada Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • a Formação Jandaíra. Esta ocorre de forma restrita, sob a forma de lajedos, nabase das falésias; e (ii) unidades siliciclásticas (arenitos, siltitos, argilitos e arei-as) correlacionadas às formações Barreiras e Potengi, que predominam lateral everticalmente, ao longo das falésias. O cenário de ocorrência destes dois grupospode ser observado na figura 3.Figura 1. Mapa geológico da região trabalhada (Sousa 2003).Figura 2. Esquema do cenário geológico ao longo das falésias costeiras (Sousa2003).248 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Figura 3. Feições gerais da geodiversidade da região de Icapuí. (a) Lajedo decalcário na base da falésia; (b) Formação Barreiras com acamamento basculado;(c, d) Falésias e dunas nas praias da Peroba e Picos.Lajedos de Calcário Os calcários e margas afloram na base das falésias mostrando aspecto maciçoe exibindo localmente macrofósseis (miliolídeos, gastrópodas, ostracodes e al-gas verdes). Ocorrem sob a forma de pequenos lajedos ao nível da praia atual(Fig. 3a), estando parcialmente recobertas pelas areias da praia, em algumasépocas do ano. Esta unidade denominada de Formação Jandaíra possui idadeentre 80 e 90 milhões de anos.Falésias É uma escarpa costeira abrupta que se localiza na linha de contato entre aterra e o mar. Quando a falésia encontra-se sob processo de erosão (principal-mente devido a ação do mar) ela é chamada de Falésia Ativa (ou Viva), enquantoque a Falésia Inativa representa aquela cujo processo erosivo já cessou. Na região, elas são formadas por arenitos, siltitos e argilitos dominando asexposições e dispondo-se no topo das rochas carbonáticas (Fig. 3a). Esta unida-de denominada de Formação Barreiras ocorre em dois contextos distintos, sob aforma de camadas horizontais e não deformadas, a situação mais usual, ou Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • como camadas basculadas (Fig. 3b) e afetadas por deformação de forte magni-tude, em um trecho mais restrito do litoral entre Icapuí e Retiro Grande (Sousa2003). Essas rochas possuem idades inferiores a 10 milhões de anos. Em ambosos locais observam-se litotipos de textura mais fina (arenitos finos a síltico-argilosos) com coloração variando de amarelo, cinza, roxo e vermelho, úteispara a confecção das tradicionais garrafinhas de areias coloridas. Vale salientarque entrando no Município de Aracati, mais precisamente entre as praias deRetirinho e Lagoa do Mato, as falésias são formadas também por arenitos esiltitos da Formação Tibau.PALEODUNAS E DUNAS Representa a acumulação de areia depositada pela ação do vento dominante,ocorrendo normalmente nas praias ou nos desertos, podendo ser fixas ou móveis. Na região elas ocorrem sobre as falésias e são formadas por areias exibindocoloração branca, amarela e vermelha, relacionadas a uma sedimentação eólica(paleodunas) (Fig. 3c). A discordância na base desta unidade torna-se nítidaquando os estratos sotopostos encontram-se basculados. Finalmente, observam-se ainda ao longo da área, sedimentos de dunas, mó-veis e fixas, e aqueles ligados à dinâmica costeira atual (cordões de praia, planí-cies de maré e praias), todos nitidamente mais recentes do que as rochassedimentares anteriormente descritas.DISCUSSÕES FINAIS O enorme potencial geoturístico aqui apresentado mostra a necessidade daassociação entre as atividades de ecoturismo com as de geoturismo, unindoassim bio a geodiversidade. Acredita-se que a atividade geoturística, se bemorientada, pode contribuir para a proteção do patrimônio natural, e conseqüentepreservação deste, por meio da sensibilização do turista. Vale salientar que os atrativos naturais, incluindo aqueles trabalhados nogeoturismo, são um dos principais segmentos de sucesso para o turismo noCeará na avaliação dos próprios turistas (Teles 2002). É importante ressaltar que o potencial geoturístico do litoral de Icapuí é ape-nas uma pequena amostra do que pode ser trabalhado. Diante desse panorama,ressalta-se a importância de um planejamento prévio para o desenvolvimentodesta atividade para que ela se perpetue como uma fonte de emprego e de renda250 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • para os municípios e comunidades envolvidas. Porém, tal planejamento deve seorientar em bases preservacionistas, haja vista que o patrimônio geoturísticopossui a particularidade de ser único e irrecuperável, pois uma vez deterioradoestará perdido para sempre; e com ele, as perspectivas de um futuro melhor paraas comunidades. As falésias encontradas nesta região são tão importantes e mostram uma belezaincomparável (Fig. 3d) que são paradas obrigatórias nos pacotes turísticos vendi-dos pelas empresas de ecoturismo do Ceará e do Rio Grande do Norte, todavia,muitas vezes essas empresas não possuem o menor conhecimento geológico acerca desta geodiversidade. O conhecimento dos guias de turismo a respeito dageodiversidade da área possibilitaria ao turista um maior aprendizado e conse-qüentemente um aproveitamento maior do passeio, sem falar da importância queos mesmos dariam para a preservação do patrimônio geológico. Além disso, vale salientar que foi criada em 17/02/98, através da Lei Municipaln° 002/98, com 558,67 ha, a Área de Proteção Ambiental da Praia de PontaGrossa, com finalidade de preservar a região em si. Contudo, sugere-se que sejadada a mesma atenção que foi dada a região de Beberibe, onde nesta foi criada,através de Lei Estadual nº 27461/04, com 31,29 ha, o Monumento das Falésiasde Beberibe, com a necessidade de proteger e conservar as formações naturaisde notório valor paisagístico, representadas pelas falésias e dunas, que se reves-tem de grande importância ecológica e acentuada fragilidade natural.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonteoriginal] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • 252 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: livroFormato da contribuição: resumo de capítulo de livroFonte: MARINHO, Alcyane. Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividadesna natureza. In: SCHWARTZ, Gisele M. (Org.). Dinâmica lúdica: novos olhares.São Paulo: Manole, 2004.E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação peloDepartamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado eDoutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), naÁrea de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/LEL da UNESP/Rio Claro.Repensando o lúdico na vida cotidiana:atividades na naturezaAlcyane Marinho É possível tornar o mundo pior do que ele está; contudo, também é possível fazermos exatamen- te o oposto (Marcuse apud Santos, 1997:22). A história é caracterizada por uma sucessão ininterrupta de épocas, nas quaisas idéias de mudança e de movimento devem ser entendidas como inerentes àevolução dos seres humanos. Contudo, ainda assim, os processos de mudança ea dinamicidade das coisas, na velocidade com que têm ocorrido, nem sempre sãoaceitos ou adequadamente interpretados. É possível destacar os mais variados aspectos positivos e negativos ao longodos processos evolutivos, no que se refere à economia, à religião, à política, àeducação e a todas as esferas da vida humana. Nesse sentido, este texto pretende discutir, a partir do contexto da vidacotidiana, direta e indiretamente, um elemento muitas vezes inexistente,outras vezes esquecido e, na maioria das vezes, o mais sonhado e deseja-do: o lúdico. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Movidas por culturas tecnológicas, as pessoas, na vida cotidiana, estão cadavez mais sendo dominadas pela velocidade e pela mobilidade, não somente porinformações, mas, igualmente, por sensações e imagens enquanto andam oudirigem pelas ruas das cidades, rumo a seus mais variados destinos; ou, atémesmo, quando estão em casa, munidas de seus computadores, televisores,aparelhos de fax etc. A intenção de refletir sobre o lúdico, manifestado em atividades na natureza,no contexto da vida cotidiana, não é tarefa fácil e se justifica quando se reco-nhece que o cotidiano se relaciona aos fatos que acontecem no decorrer detodos os dias e, diferentemente do que se acredita, podem haver situaçõesextremamente lúdicas entre a seqüência das rotinas, carregadas de sentidos esentimentos intensos. Com isso, a pretensão é mostrar que o lúdico pode ser visualizado como umimportante elemento da cultura, capaz de contribuir em diversos momentos paraas mais variadas necessidades. Nesse contexto, o elemento lúdico poderá oraser percebido como contraponto à seriedade e à produtividade, ora vivido deforma extraordinária e, ambiguamente, simples, produzindo muito mais que sen-sações de prazer e alegria, podendo ser interpretado como componente porta-dor de grande potencial transformador. Quem sabe assim, a partir de tais com-preensões, seja possível concordar com o pensamento introdutório de Marcuse(apud Santos, 1997), contribuindo para tornar o mundo melhor do que ele está.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]254 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: monografia (T.C.C.)Formato da contribuição: texto resumidoFonte: O Museu como Espaço de Lazer; aproveitando o turismo para mostrar epreservar a cultura local.E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.comTítulos acadêmicos principais atuais: Especialista em Lazer pela UniversidadeFederal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católicade Pernambuco – UNICAP.O museu como espaço de lazer:atrativo turístico e local de preservaçãoda cultura de uma sociedadeGustavo de Lira Santos Muita gente acha que o Museu é um lugar de guardar coisas velhas. E istoacontece principalmente em relação ao museus históricos. Mas se ao visitarmosuma museu, procuramos fazer relações entre aqueles objetos de um outro tem-po, que ali estão expostos e a nossa própria época, muita coisa vai começar aganhar sentido. Vamos começar a perceber que aqueles objetos que nós consi-derávamos apenas como coisas velhas, achando que não tinha nada a verconosco, servem, na verdade, para compreendermos uma porção de coisas queacontecem todos os dias em nossas casa, em nossa cidade, em nosso país e atémesmo no mundo. Os museus têm como tarefa colecionar, proteger, interpretar e comunicar osbens materiais do passado. Eles são guardiões do patrimônio, os atores profissi-onais encarregados de proteger todo o objeto considerado como essencial parauma comunidade. O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória.Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu-nhas oculares, documentos, textos, etc. ou quando de defronta com as imagensque habitam um museu. Isso não quer dizer que o museu é um caminho emdireção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • e futuro. Um abrigo do velho e do novo. Ele tem um papel cultural importante:além de abrigar os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimentoe da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Ramirez nos diz que: “Todas as organizações devem enfrentar mudanças ao seuredor e vigiar cuidadosamente tanto as ameaças como as oportunidades. Os mu-seus estão topando com múltiplos problemas relacionados com as condições emmudança. Um deles deriva da atual situação financeira, caracterizado pelo cresci-mento incessante dos custos operacionais e o estancamento do valor dos ingres-sos. Uma segunda questão passa pela crescente diversidade de atividades para, ummaior, aproveitamento, do cada vez menor, tempo livre. E um terceiro problemasurge quando as missões dos museus chocam com as forças de mercado.” Nessa guerra pelo tempo livre os museus deparam-se com comportamentosrelacionados ao lazer doméstico (ver televisão, ler livro, escutar música, entreoutros) e a outros lazeres (teatro, cinema, praia, clubes, compras, viagens, entreoutros). Os museus devem criar projetos que atraiam novos visitantes (especial-mente estudantes, aposentados e turistas) e preserve o público já existente,oferecendo não só as exposições mas outras ofertas de qualidade.BREVE HISTÓRICO DOS MUSEUS: A origem dos museus começou na antiga Grécia, muito antes da era cristã,onde eram centros religiosos, espirituais, criativos e com um número reduzidode participantes e totalmente distanciados da realidade cotidiana. A palavramuseus vem do grego mouseion, o templo das musas (na mitologia grega, deusasda inspiração e do aprendizado e protetora das artes). Um dos primeiros museus foi construído na Alexandria, Egito no século III A.C.por Tolomeo II Filadelfo. Alexandria transformou-se desta forma na cidade maispreeminente do conhecimento na área mediterrânea, e o museu toleimaco de-sempenhou funções de biblioteca acadêmica, centro de investigações e retirocontemplativo. Guarnieri (In Bruno) diz que “o holandês Quiccheberg, em Munique, em 1565,ao elaborar a primeira tentativa de uma teoria das coleções de museu, talvez nãopudesse avaliar o pioneirismo de sua contribuição numa área totalmente novaou que seria seguido, posteriormente, por Major, no século XVII, afirmando ocaráter disciplinar da Museologia; por Neickelius, em 1727; por Diderot, 1765,com seu ensaio sobre a organização racional do Louvre, por Lafont Saint Yenne,durante a Revolução Francesa postulando em panfletos por “museus para opovo”; por Goethe e seus lúcidos textos sobre Fato Museal, que dizia que era arelação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da256 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • realidade à qual o Homem também pertence e sobre o qual tem o poder de agir,relação está que se processa num cenário institucionalizado, o museu”. Instituição pública, acessível a todos os tipos de público, é um fenômenorecente; no entanto, as suas origens remontam à civilização grega. É a partir da2.ª Guerra Mundial que esta instituição passa a considerar-se ao serviço dacomunidade, deixando, progressivamente, a sua tradição elitista e minoritária.Estas mudanças redefinem o seu papel na ação educativa, Mendes completa; “Apartir da década de 60, a educação nos museus converte-se numa matéria dereflexão e de estudo. Passa-se de uma política museística, centrada no objeto,na sua aquisição e na conservação, para uma política centrada nos sujeitos quedele podem usufruir. São as mudanças sociais que colocam o problema do aces-so dos públicos à arte e à cultura”. Segundo Chagas, “nos anos 60 e 70 do século XX alguns setores da vanguardaintelectual e cultural do ocidente anunciaram a morte do museu. Esse anúncio,normalmente acompanhado de um discurso generalista e totalizante, colocavaem movimentos críticas severas ao caráter aristocrático, autoritário, conserva-dor e inibidor dessa instituição de memória, considerada como uma espécie emextinção e por isso mesmo chamada de -dinossauro- e -elefante branco-”. Trintaanos depois, o que se verifica é que os museus não apenas não morreram, comose multiplicaram e ganharam destaque na cena cultural e na vida social do mundocontemporâneo. O museu hoje é um fenômeno muito mais complexo do que se imaginava nosanos 60 para compreendê-lo criticamente não é mais suficiente reduzi-lo aopapel de legitimador dos interesses das classes dominantes, ainda que esse papelcontinue sendo desenvolvido por muitas instituições. O fato é que ao lado dosmuseus de grandes narrativas, desejosos de grande sínteses, constituíram-semuseus de narrativas modestas, mas nem por isso menos atuantes e inovadores.Narrativas modestas, mas com potência discursiva e capacidade de promovernovas possibilidades de identificação. Oliveira nos lembra que “A partir da década de 80 a instituição museus passoua enxergar o homem em seu contexto histórico-cultural, tecendo consideraçõessobre a cidadania, à autonomia do homem enquanto agente ativo da produçãohistórica, do sujeito comum e não mais do grande personagem da história”. Na década de 90 a imagem dos museus sobressaiu ainda mais da caixa denaftalina, pois passou a ser mais ativo na busca de novos objetos, utilizando-sede pesquisas, com espaços mais abertos e mais acessíveis, aprimorando a visãoentre sistema e ambiente, de uma maneira total, abarcando o artificial e o natu-ral, ou seja: a história e a natureza, respectivamente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Ao diversificar o seu próprio espaço o Museu deixou para trás os adjetivos de“casa das múmias” das “coisas velhas” do “almoxarifado da burguesia” e outrosque faziam apenas lembrar que era o lugar de guardar coisas velhas e da aristo-cracia. Adams (in Ramirez) abordou a problemática dos museus desde uma perspecti-va que anos atrás se considerava um tabu: “na realidade os museus estão acompetir pelo tempo livre e o dinheiro das pessoas, e neste sentido competemnum campo que vai desde os vídeos cassetes e os centros de entretenimentodoméstico até o melhor que possa oferecer parques, viagens e outras grandesfirmas do lazer”. Adams levantou um ponte importante: os museus estão brigando pelo tempolivre das pessoas, mas ainda não entraram nessa mercado com força total, inves-tindo em Marketing, Propaganda e Relações Públicas, e com isso continuamcompetindo em menor escala com os Parques Temáticos, Shoppings, Cinemas,entre outras firmas comercias de entretenimento, que realmente tem um traba-lho de marketing e propaganda agressivos para atrair o público.PARAMUSEUS Segundo Pomian (In Bruno) “as sociedades humanas têm o hábito de eleger,selecionar, reunir e guardar objetos no cotidiano dos homens e o lugar de desta-que que ocuparam as famosas coleções, ao longo da história, na tentativa desuperar os limites de transitoriedade humana” se hoje pode-se afirmar ainquestionável importância dos objetos, é porque, ao lado do exercício humanode elaborar um artefato, sempre existiu alguma idéia de preservação, portantocabe enfatizar que os museus herdaram essa atitude e são responsáveis pela suaperpetuação, ao lado de outros modelos institucionais (Zoológicos, centros decultura, arquivos, bibliotecas, memoriais, fazendas históricas, parques temáticos,parques safári) conhecidos como os paramuseus. Os Paramuseus surgiram, com essa visão, na década de 90, e fizeram com quea palavra museus adquirisse novo significado, “não o museus no sentido estreitode um prédio ou uma instituição em particular, mas como uma metáfora potentee com um meio por onde as sociedades representam as suas relações com suaprópria história e desta com outras culturas.”(MENCH) Apesar da importância dos paramuseus os estudos para descobrir o perfil dassociedades se inicia a partir das análises dos objetos que produziram. De qual-quer forma a evidência material da cultura é um elemento de fundamental impor-tância para estas análises e os museus estão entre as principais instituições queguardam esses indicadores da dimensão cultural da sociedade (BRUNO).258 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A IMPORTÂNCIA DOS MUSEUS PARA AS SOCIEDADES O museu é uma instituição a serviço da sociedade, “da qual é parte integrantee que possui nele mesmo os elementos que lhe permitem participar na formaçãoda consciência das comunidades que ele serve; que ele pode contribuir para oengajamento destas comunidades na acção, situando suas actividades em umquadro histórico que permita esclarecer os problemas atuais, isto é, ligando opassado ao presente, engajando-se nas mudanças de estrutura em curso e pro-vocando outras mudanças no interior de suas respectivas realidades nacionais”(MESA REDONDA DE SANTIAGO DO CHILE). A sua importância é levada em conta a partir das seguintes considerações: “Que os museus são instituições a serviço da sociedade, que adquire, comunica e, notadamente, expõe, para fins de estudo, educação e cultura, os testemunhos representativos da evolução da natureza e do homem; Que, especialmente nos países latino-americanos, eles devem responder às necessidades das grandes massas populares, ansio- sas por atingir uma vida mais próspera e mais feliz, através do conhecimento de seu património natural e cultural, o que obriga frequentemente os museus a assumir funções que, em países mais desenvolvidos, cabem a outros organismos; Que os museus e os museólogos latino-americanos, com raras excepções, sofrem dificuldades de comunicação em razão das gran- des distâncias que os separam um do outro, e do resto do mundo; Que a importância dos museus e as possibilidades que eles ofere- cerem à comunidade ainda não são plenamente reconhecidas por todas as autoridades, nem por todos os sectores do público; Que durante a oitava e a nona conferência geral do ICOM, que ocorreram, respectivamente, em Munique em 1968, e em Grenoble em 1971, os museólogos latino americanos que estiveram pre- sentes indicaram a necessidade de criação de um organismo regi- onal.” (Mesa-Redonda sobre o papel dos museus da América La- tina de hoje, em Santiago do Chile, 1972). E ainda completando com a Declaração de Caracas: “Que o museu como um meio de comunicação transmite mensa- gens através da linguagem específica das exposições, na articu- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • lação de objectos-signos, de significados, idéias e emoções, pro- duzindo discursos sobre a cultura, a vida e a natureza; que esta linguagem não é verbal, mas ampla e total, mais próxima da per- cepção da realidade e das capacidades perceptivas de todos os indivíduos; que como signos da linguagem museológica, os obje- tos não têm valor em si mesmos, mas representam valores e significados nas diferentes linguagens culturais em que se encon- tram imersos; Que o museu deve refletir as diferentes linguagens culturais em sua ação comunicadora, permitindo a emissão e a recepção de mensagens com base nos códigos comuns entre a instituições e seu público, acessíveis e reconhecíveis pela maioria; Que o processo de comunicação não é unidirecional, mas um processo interativo, um diálogo permanente entre emissores e receptores, que contribui para o desenvolvimento e o enriqueci- mento mútuo, e evita a possibilidade de manipulação ou imposi- ção de valores e sistemas de qualquer tipo.”FUNÇÃO EDUCATIVA DO MUSEU A educação, vista em seu sentido mais amplo, é o “processo de desenvolvi-mento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano emgeral, visando a sua melhor integração individual e social”. É hoje admitido queos museus, devido ao seu grande potencial educativo, devem ser consideradosinstituições de educação, embora desempenhem também outras funções, “o museu é um importante instrumento no processo de educação permanente do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento de sua inteligência e capacidades crítica e cognitiva, assim como para o desenvolvimento da comunidade, fortalecendo sua identi- dade, consciência crítica e auto-estima, e enriquecendo a quali- dade de vida individual e coletiva” (Declaração de Caracas - 1992) Mendes nos fala das três tendências que a instituição museologica foi vistapela sociedade: a primeira delas, no início do século XX, era restrito a, simples-mente, salvaguardar o patrimônio, pouco depois um local de visitação dessepatrimônio e por último a função educativa do museu. Em 1976 no I Encontro de Dirigentes de Museus, realizado no Recife PE, foiapontada “a necessidade de chamar atenção, da parte dos responsáveis poratividades educacionais nos Museus para o fato de que a educação é um proces-260 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • so contínuo e ininterrupto que, além de instrumentar o indivíduo para uma fun-ção na sociedade, constitui também um processo de socialização e que entre osobjetivos fundamentais dos Museus a educação precede a todos os demais”. Os museus servem como fontes para as escolas, ao providenciarem educaçãoàs crianças, num momento extra-classe. Criando a oportunidade da criança apren-derem in-loco com o manuseio dos objetos ou da experiência, ainda que sejamréplicas, pois levará o aluno sair do, simples, universo da escola e dos livros, quemuitas vezes torna a educação abstrata. No mesmo sentido vai a opinião deSagues, ao afirmar: “O museu é uma instituição cultural intrinsecamente educativa,o que não significa que tudo o que realiza seja expressamente pedagógico […].Assim, o museu converte-se num instrumento de aprendizagem, em benefíciodos alunos, cujo maior ou menor grau de êxito dependerá fundamentalmente domuseu e dos professores”. A necessidade de os museus captarem um número cada vez mais elevado devisitantes, e a importância desse público para os museus nos fez sair de umaépoca em que, como já se disse, só uma elite se dirigia aos museus, e chegou-sea uma em que o público-alvo principal é o escolar, “e esse público é, e continuaráa ser, de importância crucial para os museus, como estes o devem ser para osestudantes.”(MENDES) Estas e outras questões exigem que, não só na concepção e montagem de expo-sições (permanentes ou temporárias) como nas múltiplas atividades desenvolvidasnos museus, se considerem, entre outros, os seguintes aspectos: Que oportunidadesde aprendizagem devem ser oferecidas ao visitante? Que mensagem se deseja fazerpassar e através de que meios? Como avaliar se os objetivos almejados foram ou nãoatingidos? De que tipo de aprendizagem se trata: conteúdos e/ou conceitos? Atitu-des, comportamentos, procedimentos, princípios, valores?EDUCAÇÃO PATRIMONIAL O Brasil, em toda sua imensa extensão, é uma nação pluricultural principal-mente pelas diversas etnias que o formaram. Nossa cultura vem sendo transmiti-da através das gerações se renovando e recriando, propiciando a nos a possibi-lidade de construirmos nossa identidade. E a manifestação dessa identidade serevela través do nosso patrimônio, que segundo QUEIROZ não se restringe ape-nas “aos bens culturais móveis e imóveis, representantes de nossa memória, sefazendo presente em outras tantas formas de expressão cultural de nossa soci-edade. Essa herança imaterial se manifesta na interação de nossa gente com oambiente, com a natureza e com as condições de sua existência. É a alma denosso país expressa através dos saberes, celebrações e formas de expressão denosso povo, “materializados”no artesanato, nas maneiras e modos do fazercotidiano de nossas comunidade, na culinária nas danças e músicas, rituais e Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • festas religiosos e populares, nas relações sociais de uma família ou de umacomunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cênicas e lúdicas, nos espa-ços públicos, populares e coletivos. A educação patrimonial, interpretada por HORTA como um processo perma-nente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Culturalcomo fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo,torna-se um poderoso instrumento no processo de reencontro do indivíduoconsigo mesmo. Segundo Horta ainda, o “conhecimento crítico e a apropriaçãoconsciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis noprocesso de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimen-to dos sentimentos de identidade e cidadania”. A Educação Patrimonial torna-se, assim, um processo constante de ensino/aprendizagem que tem por objetivo central o foco de ações o Patrimônio. Ënesse tópico que se encontra a fonte primária de atuação que vem enriquecer efortalecer o conhecimento individual e coletivo de uma nação sobre sua cultu-ral, memória e identidade.TURISMO CULTURAL O turismo cultural é motivado pela busca de informações, de novos conheci-mentos, de interação com outras pessoas, comunidades e lugares, da curiosida-de cultural, dos costumes, da tradição e da identidade cultural. Esta atividadeturística tem como fundamento o elo entre o passado e o presente, o contato ea convivência com o legado cultural, com tradições que foram influenciadaspela dinâmica do tempo, mas que permaneceram; com as formas expressivasreveladoras do ser e fazer de cada comunidade. O turismo cultural abre perspec-tivas para a valorização e revitalização do patrimônio, do revigoramento dastradições, da redescoberta de bens culturais materiais e imateriais, muitas vezesabafadas pela concepção moderna. A experiência humana e todas suas manifestações se constituem em fator cultu-ral, mas, a respeito de sua finalidade e expressão turismo cultural segundo Andrade: “Turismo cultural refere-se as atividades que se efetuam através de deslocamentos para a satisfação de objetivos de encontro com emoções artísticas, cientificas, de formação e de informa- ção nos diversos ramos existentes, em decorrência das próprias riquezas da inteligência e criatividade humanas”. As características básicas do turismo cultural não se expressam pela viagemem si, mas por motivações, cujos alicerces se situam na disposição e no esfor-262 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • ço de conhecer, pesquisar e analisar dados , obras ou fatos, em suas variadasmanifestações. A motivação para esse tipo de turismo depende mais dos turistas do que dacultura dos receptivos locais que eles visitam, pois a simples oportunidade deconstatação de realidades estranhas, pode ser insuficientes para que elas setornem, de fato, conhecidas. Além disso, os baixos níveis cultural, intelectual oumesmo mental se constituem em elementos impedientes de formação derepertorio lógico, por causa das dificuldades e das impossibilidades da transfor-mação de estímulos e de realidades em idéias coerentes e convenientes. A simples presença física e o despreparo intelectual de visitantes inaptos po-dem tornar-se motivos de ameaça ao sentido cultural do núcleo que os recebe,principalmente se este não for muito conhecido em sua importância, pois ainfluência de visitantes e turistas despreparados e incultos pode transformar asoportunidades de conhecimento em ocasiões de destruições ou, pelo menos, deriscos ao patrimônio. O estado de conservação e os cuidados dispensados amaioria das cidades históricas Brasileiras confirmam a oportunidade de registroe das preocupações expressas não por suspeitas, mas por constatações. Assim pensando, a atividade turística passa necessariamente pela questão dacultura local e regional. Reforça a necessidade em compreender as suas peculi-aridades, admirar a complexidade e estimular a participação da comunidade. Os locais de turismo, por sua vez, criam possibilidades para a revitalização daidentidade cultural, da preservação dos bens culturais e das mais ricas tradições.Em suma, as atividades turísticas geram mecanismos de sustentabilidade e espa-ços propícios às expressões culturaisMUSEUS E GLOBALIZAÇÃO O mundo é o palco da história e isso nos traz novos dilemas, impasses eperspectivas. Estamos passando por uma ruptura histórica, a semelhança deoutras que ocorreram: a expansão do Império Romano, o período das grandesnavegações, a Revolução Industrial e a Francesa. Segundo IANNI: “A sociedade global é uma sociedade nova, novas relações, pro- cessos e estruturas estão se concebendo. E um conceito novo está surgindo, o da desterritorialização das coisas, das idéias, dos indivíduos”. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Mas, globalização é um processo primordialmente econômico e tem em seu bojo ocapitalismo – modo de produção e processo civilizatório. São formas subalternas docapitalismo e momentos do processo de globalização o Mercantilismo, o Colonialismo,o Imperialismo e a Globalização como entendemos hoje. O neoliberalismo, expressãoeconômica do globalismo, entende a sociedade global como um sistema global. Temuma visão sistêmica do mundo presente em seu discurso ideológico e nas corporaçõestransnacionais que não são, necessariamente, corporações financeiras.” Analisando o pensamento de Ianni concorda-se que os Museus precisam trans-formarem-se, para adaptarem-se ao mundo globalizado, porém sem perder seufoco principal que é a preservação da cultura e da memória de um povo. Jshdjfhjfjhd, cita como resposta a globalização no Brasil os carnavais do Rio ede Salvador e lembra que os mesmos tiveram que se adaptar, mantendo algunsaspectos e inovando em outros para poder atingir o patamar de visibilidademundial. E conclui com a seguinte afirmação: “culturas que nunca estiveram cristalizadas, sempre estiveram em transformação, sendo que a tomada de consciência sobre a transculturação é a única arma contra a uniformização ou perda de valores. Os museus sempre foram instituições importantes para se discutir transformação cultural, memória e identidade a partir do patrimônio cultural. Esse papel não está perdido, pelo contrá- rio, faz-se tão ou mais importante, por estarmos em ruptura e porque queremos participar de uma ação histórica.” A globalização trouxe para os museus os softwares e a Internet, fazendo comque seus acervos fiquem mais acessíveis. A chegada dessas novas tecnologiasnão vem para substituir o museu convencional pelo virtual, seu intento é colocarum instrumento de interesse e informação e da comunicação a serviço do traba-lho em museus e do público em geral no encurtamento do tempo-espaço, ondeo observador pode ter acesso a algumas informações e visualização do objetode uma forma mais prática e rápida. A extensão desse acervo, com trabalhos de linha pedagógica, artística e soci-al, com grupos diferenciados, como pessoas marginalizadas, especiais, gruposde idosos e da área do turismo, propiciaram a disseminação da idéia do museuaberto, na concepção de causas sócias com a comunidade.MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória.Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu-264 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • nhas oculares, documentos, textos, etc. Ou quando se defronta com as imagenshabitam um museu. Com isso, não queremos dizer que o museu é um caminho emdireção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presentee futuro. Um abrigo do velho e do novo. Mais do que uma instituição destinada àsfestinhas de vernissagens, ele tem um papel cultural importante: além de abrigaros registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento e da informaçãoque contribui para o desenvolvimento da sociedade. Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço quaseque insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com-prometeram o funcionamento das instituições culturais. A cidade precisa detecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acima detudo, precisa de uma tradição cultural e do exercício da cidadania, para que elaprópria signifique. A vida moderna junto à tecnologia moderna vem tornando obsoletos,inoperantes ou economicamente inviável uma variedade muito grande de teste-munhos materiais que nos sirvam como pontos constantes de partida para areflexão e análise de pequenos objetos a edifícios inteiros, passando por máqui-nas das mais diversas, nosso universo se renova com espantosa velocidade etudo é trocado em nome da rentabilidade, da facilidade, da simplicidade. Essestestemunhos passam, então, por fase de completo abandono. Um museu guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social,uma situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural. Tudoque nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a memória ea reflexão. Sua programação não deveria ser dedicada por patrocinadores quetêm por objetivo final vender produtos muitas vezes até desnecessários a circu-lar uma imagem de que estão contribuindo para o “desenvolvimento cultural”. Um museu deve ser um centro de informação e reflexão, onde o homem sereencontra com o belo, a história e memória. Mas sem um projeto cultural quevalorize seu próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles setransformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um lugarque atrai olhares dispersos, sem interesses culturais. Sem recursos financeiros edepois que a responsabilidade cultural foi transferida para a iniciativa privada, osmuseus vêm se transformando em instituições de entretenimentos para atrair umgrande público consumidor da marca que patrocinou os seus eventos. Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o“novo” vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desapareci-mento das manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão asantigas brincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedosindustrializados e pelo mundo da informática e mesmo esta última, restrita adeterminadas camadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • cultural pela própria criança, por uma produção cultural para a criança”.(Marcelino, 1996: 42). Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin-quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Estabrincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. Apreservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidadesque a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzircultura e não apenas aceitar mercadorias.O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente.Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar ecriar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU,1987: 14)”. Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela secoloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri-nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com asbonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnandonitidamente o personagem que a brincadeira exigiu. Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outraparalela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-seque o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincantenecessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universoela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura,astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz deconta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elasreproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14).RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduoscom as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa-zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen-tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindoa postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra-das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetosartesanais, danças típicas e etc.266 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A recreação cultural informativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen-to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem-plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri-cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém apenas em datas come-morativas. A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente,aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta-ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades deprodução como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira emuitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo-sição do Museu. Algumas dessas atividades poderiam ter durante todo o ano, ao menos, asapresentações de grupos folclóricos, teatrais e de fantoches, pois são essas quemais prendem a atenção das crianças. À forma como é repassado o significado das exposições peças, que ficam emexposições, poderia ser com uma linguagem mais simples e didática, talvez, até,através de brincadeiras, pois seria um modo da criança se sentir mais pensante eparticipativa, mais ativa na atividade, e não apenas passando, olhando e escutando.CONLUSÃO Desde quando a política e a economia reservaram ao lazer um espaço quaseque insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com-prometeram o funcionamento das instituições que o promovem. A cidade preci-sa de tecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acimade tudo, precisa de uma tradição cultural, de lazer e do exercício da cidadania,para que ela própria signifique. Sucede com os museus o que se verifica em diversos outros ramos de ativida-des. O respectivo desenvolvimento e especialização induzem a procura de no-vas respostas, mais eficientes e adequadas às realidades emergentes. A rápida evolução verificada (no discurso expositivo e na conservação, inclusi-ve preventiva, nas condições de apresentação e comunicação, na promoção e nomarketing, nas teorias da aprendizagem e nas características, necessidades e exi-gências dos públicos) aconselha a que se recorra a diversos tipos de profissionais. As sinergias daí resultantes contribuirão para que os museus prestem melhoresserviços, também do ponto de vista da educação que, se transformou numa missãocrucial de toda a instituição museológica, atualizada e receptiva à inovação. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • O potencial educativo dos museus e de todo o conjunto do patrimônio histó-rico, artístico e ambiental no Brasil vem sendo minimamente utilizado por educa-dores e educandos, quer pela falta de interesse e de conhecimento, quer pelafalta de divulgação por parte dos museus e dos veículos de comunicação. O desafio é despertar o interesse não só de turistas, mas principalmente devisitantes da própria cidade e crianças, para que os mesmos aprendam desdecedo a História da sociedade na qual estão inseridos, através de exposições quetranscendam os limites dos registros escritos. E tendo como foco de interessemostrar a maneira peculiar dos nossos costumes. Sabemos que os museus possuem imenso potencial como espaço pedagógicopor sua diversidade cultural e histórica. Entretanto para poder-se utilizar plena-mente todos os recursos que uma coleção ou exposição permanente pode ofe-recer aos professores é necessário que estes estejam dotados dos conhecimen-tos e das técnicas especificas para tal. Os Museus atuais, apesar de todas as dificuldades de diversas naturezas queinibem uma atuação mais constante, buscam transformar-se em verdadeiroscentros de estudo, onde passado e presente se unem, tentando entender o pre-sente e antever o futuro. Com essa perspectiva os Museus poderiam promoverrotineiramente uma série de programas educativos, exposições temporárias ecursos práticos voltados para estudantes, especialistas e o público em geral. É possível enfatizar, lembrando GUARNIERI (In Bruno) que a ação museologicaaproxima objetos e homens, “a preservação proporciona a construção de uma memória que permite o reconhecimento de características próprias, ou seja, a identificação. E a identidade cultural é algo extremamente ligado à auto-definição, à soberania, ao fortalecimento de uma consci- ência histórica”.[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]268 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: capítulo de livroFormato da contribuição: texto integralFonte: Análises Regionais e Globais do Turismo Brasileiro. Editora: RocaE-mail do(s) autor(es): jmeirelles@peabiru.org.brTítulos acadêmicos principais atuais: administrador de empresas - Escola deAdministração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. Ecoturismo & Amazônia – biodiversidade, etnodiversidade e diversidade cultural Troque seu bifinho por uma passagem para a amazônia João Meireles Filho “Dentro de alguns centos de anos, outro viajante, tão desesperado coo eu, neste mesmo lugar, cho- rará o desaparecimento daquilo que eu teria podi- do ver e que não aprendi” Claude Levi-StraussA SITUAÇÃO ATUAL Você é responsável pelo que acontece na Amazônia? Se você acha que sim,continue lendo, se você acredita que não, desista do ecoturismo! Se você, que éuma pessoa interessada no ecoturismo, não conhecer a Amazônia para valer,quem poderá se dedicar a seus caboclos, índios, florestas, águas e cultura? Qual é o seu compromisso com a Amazônia? Efetivo, autêntico, compromissode vida? Você é responsável pelo que acontece na Amazônia. Sim, é a suadecisão de consumo que determina o que acontece na última grande floresta doplaneta. Cada vez que você come um pedaço de carne bovina é muito provávelque você esteja engolindo um pedaço da Amazônia. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • “Você já foi ao exterior?” “Você já visitou a Amazônia?” – Reiteradamentecostumo fazer estas duas perguntas quando falo em público. Na maior parte dasvezes, mais pessoas foram ao exterior do que à Amazônia. O Brasil não conhecea Amazônia. Pior, a Amazônia não conhece a Amazônia. Por quê? O brasileirotem vergonha da Amazônia? Tem medo de enfrentar a sua ignorância? De nãosaber tratar o mais diversificado ambiente natural do globo? A situação da Amazônia é dramática, tomada pela lógica da destruição e dosofrimento. Não se trata de palavras fúteis, fáceis e imprecisas – a Amazônia émal tratada todos os dias, durante todo o dia, por todos nós brasileiros. Em 500anos extinguimos 95% dos povos indígenas e jogamos a maior parte de seushabitantes na miséria. Em trinta anos conseguimos destruir 20% da maior florestatropical do planeta – uma área superior a 800 mil km2 (equivalente a toda aregião Sul do país mais o estado de São Paulo). Se não bastasse, pelo menos 1%da floresta é abatida anualmente (área equivalente ao estado de Sergipe – 23.750mil km2 em 2002/2003). As queimadas são cada vez maiores, o roubo de madei-ra, a caça e a pesca excessivas, a biopirataria, a invasão de terras, tanto porgrileiros como por famílias em busca de um pedaço de chão para trabalhar. Ocaos está instalado. Nada de novo. A ocupação da Amazônia repete o que ocorreu com os outrosbiomas brasileiros. A Mata Atlântica perdeu 93% de sua cobertura vegetal originale apesar da grande atenção pública e do papel dos órgãos fiscalizadores e dasorganizações ambientalistas continua a diminuir drasticamente. Sobre seus es-combros vivem mais de 110 milhões de brasileiros. O Cerrado perdeu 70% de sua cobertura vegetal em menos de meio século. Aexpansão da pecuária bovina e da agricultura deverão modificar, para sempremais de 90% da região. Da mesma forma, a Caatinga, já perdeu mais de 80% de suaárea original e continua a ser alterada. A Conservation International considera aMata Atlântica e o Cerrado como duas das vinte e cinco áreas de grandebiodiversidade planetária, prioritárias para a conservação da vida na Terra. Por que este caos? Por que tratamos do sintoma da doença e não do doente.Tratamos da febre – o desmatamento, a queimada – e não das causas que promo-ve o desmatamento e a dilapidação dos recursos naturais. Mais de 80% dodesmatamento é devido à plantação de pasto para boi. O boi ocupa a Amazôniaporque há gente interessada em comer carne bovina. O principal motor da des-truição da Amazônia é a pecuária bovina extensiva. Não se trata de apontar os pecuaristas como únicos responsáveis pela destrui-ção da Amazônia e o caos social vigente, com altíssima concentração de rendae poder. Se o são, e quanto a isto não há dúvidas, não estão sozinhos; o consu-midor representa parte importante deste processo, pois aceita esta situação,pactua a cada naco de carne que coloca em seu estômago.270 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ademais, não são apenas os grandes pecuaristas, aquelas 23 mil propriedadesrurais da Amazônia os únicos possuidores do rebanho. Há mais de 150 mil peque-nos proprietários envolvidos na pecuária bovina extensiva; até porque se lhesapresentam poucas opções econômicas para a sobrevivência. Dedicam-se àpecuária pois a maior parte dos produtos e serviços que os ambientes naturaispropiciam não encontram consumidor, não têm preço atraente, são de difícilescoamento, possuem restrições sanitárias não resolvidas, não apresentamtecnologia apropriada e, principalmente, os produtores rurais não estão qualifi-cados para conviver harmoniosamente com a complexidade amazônica. O resultado: 65 milhões de cabeças de gado ocupam a Amazônia. Três boispara cada habitante! Este número cresce rapidamente e deve chegar aos 100milhões de cabeças até o fim da década! Por quê? Primeiro, porque mais e mais gente quer comer carne. A principalrazão do crescimento da pecuária está no aumento do consumo de carne em SãoPaulo, Rio de Janeiro e em todo o Sul e Sudeste do país, sem contar no ingressoda Amazônia no mercado exportador de carne. Segundo, porque é mais barato produzir carne na Amazônia do que no restantedo Brasil, e incomparavelmente menos custoso que outros países. O cumprimen-to da legislação ambiental é menos vigiado, a cada bifinho vendido a um barzi-nho em São Paulo, toneladas de solo, milhões de invertebrados, milhares deplantas e dezenas de mamíferos são comidos. Mais grave: poucos se beneficiam com esta bovinaria. A mão de obra é malpaga, a maioria dos 120 mil pessoas empregadas na atividade não possui registroem carteira. Sem falar na insignificância da pecuária como geradora de emprego:são necessários 8 milhões de empregos na região. Economicamente a pecuária éinsignificante, gera pífios 0,04% do PIB brasileiro e apresenta índices de produti-vidade diminutos. O pecuarista aufere baixíssimos resultados financeiros. Seriamelhor que aplicasse seus recursos na caderneta de poupança. Por que entãoinsistir na pecuária?A PECUÁRIA X O ECOTURISMO Você deve se perguntar: afinal, eu, interessado no ecoturismo, por que precisosaber tudo isto? Porque o pecuarista só é pecuarista por falta de opção, porquenão teve a oportunidade de aprender outras profissões, porque o mercado dascentenas de alternativas econômicas que poderiam tratar com respeito o ambi-ente e a população local é desprezado pela iniciativa pública e, principalmente,pelo próprio consumidor. Porque delegamos aos representantes do poder públi-co de plantão a iniciativa de resolverem este assunto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • A resposta é clara: sim, há total correlação: se o ecoturismo der certo opecuarista bandeia imediatamente para o lado do ecoturismo. Dá mais lucro,mais emprego, mais estabilidade, mais felicidade, mais saúde, mais liberdade,mais cultura, mais dignidade. Eu sou filho de pecuarista, conheço os dois lados da cerca. Em Bonito, MatoGrosso do Sul, acompanhei, por mais de trinta anos, o Cerrado e a Mata Atlânticasendo comidos para dar espaço para boi. Nos últimos dez anos ocorreu umamudança radical de comportamento. Os sintomas: as queimadas diminuíram dras-ticamente, o desmatamento passou a ser insignificante, a caça caiu a níveisdesprezíveis. Por quê? Porque o ecoturismo passou a ser levado a sério, ainda que os órgãos públicospouco tenham se dedicado à questão. Quem realizou esta mudança radical foi opróprio consumidor. Um conta para o outro: olha, ali, há uma cachoeira incrível.Aquela dona cozinha muito bom. Seu fulano tem cavalo bom. E se nós mergu-lharmos de máscara neste rio? E se sairmos flutuando neste “corguinho”? O resultado: a pecuária já não é o principal empregador de Bonito e logo maisdeixará de ser a principal fonte econômica. Enquanto uma fazenda com 2 milhectares e mil bois emprega dois peões, um atrativo turístico com 50 hectares,de pequeno porte, emprega diretamente pelo menos três a quatro pessoas. Emduas horas um turista deixa a mesma renda de um mês de aluguel de pasto paraum boi. A revolução é antes de tudo, econômica.PLANEJAMENTO E COMPROMISSO ECONÔMICO Voltemos à Amazônia. Se não houver um compromisso econômico efetivo nãohá ecoturismo. Trabalho com planejamento de ecoturismo há mais de quinze anos.Sem um plano de negócios – um estudo efetivo da viabilidade do empreendimentoecoturístico – as suas chances de darem certo diminuem muitas vezes. Pode darcerto, mas o “achismo” e o “chutometro”, arte praticada pela imensa maioria dosempresários de ecoturismo, não são socialmente justos, são concentradores derenda e na maior parte, trazem grandes prejuízos ao meio ambiente. Planejamento turístico é fundamental. Se as palavras: retorno sobre o capital,ponto de equilíbrio, fluxo de caixa descontado, LAIR, balanço, demonstração delucros e perdas, plano de contas não fazem sentido para você, o ecoturismo tempoucas chances de acontecer na Amazônia. A maior parte dos empreendimentos de ecoturismo na Amazônia foi feita porimitação. Um copiou o outro, que por sua vez viu nos Estados Unidos, ou noNordeste algo parecido, tirou algumas fotos, chamou o carpinteiro para copiar,272 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • e assim por diante. Poucos são os que convocaram especialistas para realizardiagnósticos ambientais, sociais e econômicos, estudos de demanda, projetosarquitetônicos, estudos sobre o destino turístico e os atrativos. Como sair desta situação na Amazônia? Certamente a capacitação dos empre-endedores é fundamental – empreendedorismo ecoturístico.O BIOMA AMAZÔNICO O bioma amazônico é o maior conjunto contínuo de florestas tropicais doplaneta. Com mais de sete milhões de km2, ocupa 50% da América do Sul, espa-lhando-se por nove paises – Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana france-sa, Peru, Suriname, Venezuela e Brasil. O Brasil possui mais de metade da Amazô-nia continental, sendo o país com mais de 1/3 do que resta de florestas tropicaisao planeta. A Amazônia brasileira corresponde a 4,4 milhões de km2, metade doterritório nacional, mais da metade do território nacional.A AMAZÔNIA NO MERCADO DE ECOTURISMO Não é difícil perceber a pequena presença da Amazônia no cenário turísticointernacional. Quando se folheia quaisquer revistas internacionais de turismo degrande circulação, a Amazônia aparece de forma insignificante. Quando esta apa-rece, a maior parte das referências é para a Amazônia peruana, equatoriana,venezuelana ou das guianas. A Amazônia brasileira, com a exceção de algunspoucos lodges no entorno de Manaus, pouco participa do mercado internacional. Sabe-se que com seu rápido crescimento nas duas últimas décadas, o mercadointernacional de ecoturismo se tornou cada vez mais exigente e segmentado.Não basta dizer que o número de observador de pássaros é de milhões de pesso-as na Europa ou nos Estados Unidos. É preciso aprofundar em termos geográfi-cos, de interesses das espécies procuradas, das exigências relacionadas à idadee origem das pessoas. Não é exagerado dizer que o Brasil está praticamente fora do mercado interna-cional de ecoturismo. No Brasil, o ecoturismo atende principalmente o mercadointerno. Mesmo internamente, o ecoturismo representa menos de 3% do movi-mento turístico. A Amazônia deve participar com menos de 10% deste mercado.Mesmo atendendo menos de 1% da população brasileira, ele já movimenta maisde 2 milhões de viagens/ano, emprega mais de 50 mil pessoas e consegue contri-buir visivelmente para a economia e a conservação ambiental de regiões ondeoutras atividades econômicas não são viáveis ou apresentam baixa rentabilida-de, como Fernando de Noronha (PE), Lençóis Maranhenses (MA), e Chapada Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Diamantina (BA). Em outras regiões, como Bonito (MS) e Brotas (SP) o ecoturismojá conseguiu desbancar atividades tradicionais como a pecuária extensiva. OPantanal, que antes recebia milhares de clientes para uma pesca esportiva semgrandes critérios, está hoje se voltando ao ecoturismo, muito mais compatívelcom a sua conservação ambiental. Na Amazônia o turismo representa cifras desprezíveis no Produto Interno Bru-to (PIB), e o ecoturismo uma parcela ainda insignificante. Dificilmente alcança1%. A maior parte das viagens é de turismo de negócios e de eventos. No Brasil oturismo representa menos de 3% do PIB, bem abaixo da média mundial próxima de8%. Na maior parte dos países europeus o turismo está acima de 11% do PIB. Para o público estrangeiro, a Amazônia não é uma prioridade, mesmo conside-rando que a região está presente no imaginário coletivo da Humanidade. Porque? Uma das mais difíceis razões de aceitar é que o mercado internacional tempouca confiança no produto brasileiro. Pode-se afirmar que menos de 0,16% dos 30 milhões de ecoturistas estrangeiros(aqueles que vão de um país a outro) escolhem a Amazônia brasileira como desti-no. Se considerarmos a Amazônia como um todo, menos de 1% do mercado mun-dial prefere a Amazônia (considerando aí o Peru, a Bolívia, o Equador, a Venezuelae as Guianas). Isto num cenário mundial de mais de 650 milhões de turistas.A INICIATIVA PÚBLICA Nenhum estado da Amazônia tem no ecoturismo prioridade de governo. Ne-nhum estado ou município da Amazônia investe no ecoturismo mais de 1% de seuorçamento. Ou seja, o ecoturismo não existe na Amazônia do ponto de vista dainiciativa pública. Na Amazônia, todas as iniciativas públicas para alavancar o ecoturismo comoum efetivo instrumento de desenvolvimento sustentável até o momento foramde pequeno porte e de muito baixo impacto. Basta observar o que representa oturismo na agenda pública da federação, dos governos estaduais e dos poucosmunicípios que se interessam pelo assunto. Apesar do PROECOTUR, lançado pelo governo federal há algum tempo, os seusresultados pouco afetam o mercado. Da mesma forma, as linhas de crédito doBanco da Amazônia, do FNO (Fundo Constitucional do Norte) pouco atraeminvestidores. Praticamente não há tomadores de empréstimos para o ecoturismona Amazônia. Os investimentos são realizados com recursos próprios ou parce-rias empresariais.274 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • AFINAL, PARA QUE SERVE O ECOTURISMO? O ecoturismo é “o reencontro do homem e da Natureza”. A reconciliação, opresente da Natureza ao homem, para que ele perceba seu verdadeiro lugar noPlaneta, no Brasil, no dia-a-dia em que nos envolvemos. Para gerar emprego e renda às populações locais, valorizar sua cultura, aomesmo tempo em que conserva o meio ambiente, diminui a pressão sobre osrecursos naturais, incentiva a pesquisa científica e a busca da harmonização doHomem com a Natureza. O ecoturismo é o melhor instrumento econômico para a promoção da diversi-dade – a biodiversidade, a etnodiversidade, a diversidade cultural. Nenhum outronegócio interfere em tantos ramos da economia e da sociedade, revolvendosuas raízes mais profundas. Nenhum outro negócio é capaz, em tão curto espaçode tempo, provocar mudanças. E no caso da Amazônia, com o boi capeta solto, comendo e churrasqueando afloresta, nós precisamos de mudanças radicais em curto prazo. Mudanças pri-meiro no comportamento do consumidor: você leitor, venha para a Amazônia,faça já sua reserva. A epígrafe de Claude Levi-Strauss na abertura deste texto éprovocadora. Volte, relei-a, memorize-a. Ela dói, dói como a marca de ferro embrasa no couro do boi. Em segundo lugar é preciso que o eleitor force mudanças radicais na posturado poder público – menos discurso e mais ação, menos stands bonitos em even-tos de turismo e mais produtos turísticos, menos salamaleques e mais capacitaçãodos profissionais do trade ecoturístico.CRITÉRIOS PARA SABER SE É ECOTURISMO OU ENGANAÇÃO O ecoturismo não é uma modalidade de turismo. É um novo turismo, veio parasubstituir o que o turismo não conseguiu realizar. O CBTS – Conselho Brasileiropara o Turismo Sustentável apresenta diversos critérios para qualificar o que éecoturismo. Para um rápido diagnóstico proponho oito pontos para saber se oque temos diante de nós é ecoturismo (não há uma ordem específica de impor-tância dos itens abaixo): I. O ecoturismo provoca mudanças incríveis em quem o realiza – Você já tomou uma chuva numa tempestade amazônica? Já observou o fenô- meno da Pororoca (acabo de retornar desta experiência e surfar em suas ondas explosivas, destruidoras e barrentas). Ou seja, o ecoturismo é de foro íntimo. Provoca mudanças permanentes, alegres e felizes. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Segundo Rita Mendonça e Zysman Neiman “a grande maravilha, a ver- dadeira mina de ouro, é a experiência pessoal que se tem no contato com a Natureza. Essa experiência não é transferível. Ela é de uma am- plitude tal que não pode ser traduzida em palavras”. Assim, “numa via- gem de ecoturismo podemos questionar sobre o que é de fato necessi- dade, segurança, conforto. Um viajante aplicado pode surpreender-se com suas próprias respostas”. II. O ecoturismo é um ótimo negócio para a economia local, gerando empre- go e renda – A comunidade local só abraçará o ecoturismo quando “a árvore em pé valer mais que a árvore no chão”. Estamos falando de verda- deira participação das comunidades envolvidas, dos proprietários rurais, guias, barqueiros, produtores de artesanato, fornecedores de alimentos, etc. A imensa maioria das empresas que opera ecoturismo na Amazônia fica com a maior parte do bolo, cedendo migalhas para a participação local. Há muitos casos em que as comunidades locais não são sequer consultadas e nada recebem em troca. Eu tenho vergonha de uma empresa de ecoturismo que paga quantias ínfimas para um show folclórico fajuto e deprimente, ou que contrata caboclos para se vestirem de índios, ou leva turistas para pescarem piranhas em áreas de abastecimento das comunida- des. Estas empresas praticam a roubo e não o ecoturismo. Enfim, o ecoturismo só acontece quando cria riqueza local, quando respeita os ritmos e as ordens sociais, quando organiza a economia, gera empregos permanentes, fixos, especialmente para os jovens; gera dignidade, ajudan- do a controlar a migração rural e agregando valor aos produtos regionais (alimentos, artesanato, serviços etc.). III. O ecoturismo respeita a Natureza – Parece óbvio, mas não é. Impossível realizar uma caminhada na mata com mais de 15 pessoas, inconcebível desrespeitar os ciclos naturais de vida de plantas e animais, destruir a Natu- reza para praticar o ecoturismo. O ecoturismo só acontece quando se reco- nhecem os limites da Natureza, sua capacidade de carga é devidamente estudada e monitorada, quando a biodiversidade respeitada. Fundamental reconhecer a força das estações climáticas, dos ventos, da umidade, das marés, das chuvas e tornar isto um atrativo per se. Na tentativa de controlar tudo dizemos: “foi ótimo, mas choveu!” Isto numa região que chove mais de 200 dias por ano e em algumas áreas mais de 3.500 mm. IV. O ecoturismo controla a biopirataria – Aquela arara, tucano ou preguiça que você acha bonitinha na entrada do hotel “de selva” é um estímulo à biopirataria. Lugar de bicho é no mato, ou em centros de pesquisa muito bem monitorados. Eu tenho vergonha de um projeto de ecoturismo que compra animais silvestres e os expõem como troféus. da natureza ao alcance dos turistas. Ademais, retirar jacarés da água não me parece uma atitude digna de um empreendedor de ecoturismo.276 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • V. O ecoturismo gera negócios sustentáveis - O verdadeiro ecoturismo permi- te cria diversos negócios em seu redor – produção de artesanato, alimento, geração de energia, etc. que diminuem consideravelmente a pressão sobre os recursos naturais, colaborando no controle do desmatamento, das quei- madas, da coleta ilegal de madeiras, da sobrepesca, do garimpo, da caça, e assim por diante. VI. O ecoturismo desperta em cada um a consciência ambientalista. Para o sempre. O ecoturista está sempre preocupado com a saúde do Planeta e a relação entre sua saúde e a dos seres vivos. Não se trata do ecoturista de férias, que retorna para casa e se torna um selvagem cidadão urbano, subin- do nas calçadas com sua possante camionete 4 x 4. VII. O ecoturismo valoriza a cultura – o verdadeiro ecoturismo é motivo de orgulho para a comunidade local. Valoriza, resgata e promove tradições, procura compreender a cultura do outro, sem impor a sua. Ecoturismo não é só ver passarinho ou golfinhos; é, principalmente participar do dia-a-dia das comunidades tradicionais no cuidar da Terra. O ecoturismo não substitui a cultura local. O verdadeiro ecoturista não quer ver um ambiente “preparado” para ele. Quem tem que se “preparar” para a nova experiência é o visitante. VIII. O ecoturismo promove o desenvolvimento social – ecoturismo é sinôni- mo de respeito, dignidade, saúde, educação, estabilidade de emprego, cui- dado com minorias, idosos, crianças. No ecoturismo não há crianças traba- lhando, não há pedintes, não há crianças vendendo artesanato aos turistas, em trajes locais, com olhos de bovina suplicância. Não é difícil perceber as dimensões amazônicas do desafio de transformar oecoturismo em algo sério e competente para o desenvolvimento regional.EMPRESÁRIOS RESPONSÁVEIS Se há uma única ação a realizar é formar empresários responsáveis para admi-nistrar o ecoturismo da Amazônia. É preciso tomar muito cuidado com aquelesque enxergam no ecoturismo apenas uma chance de rápida acumulação de capi-tal. Auferir bons lucros da atividade bem feita é mais do que justo e merecido. Responsabilidade social é a palavra chave. Combater a informalidade, o impro-viso, a falta de compromisso social e ambiental é o primeiro passo. O empresárioque tem um negócio legalizado não faz mais que a obrigação. O que preocupa é ainformalidade do ecoturismo. Muitos se aproveitam deste amadorismo e se utili-zam do ecoturismo para responder a outros interesses. Combater a concentraçãode renda é vital. Ecoturismo se faz com transparência e negociação, à exaustão. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Neste Brasil de legislações que “não pegam”, principalmente na área social eambiental, há questões que são legais mas não éticas. Uma delas é o desmatamento.O IBAMA emite uma autorização para desmatar. É legal, está dentro da lei, masnão é ético. A ética planetária não admite um único metro quadrado dedesmatamento da última grande floresta tropical do Planeta. De que lado está oecoturismo? Da lei ou da ética? Da ética planetária ou da lei feita pelos interes-ses de plantão? Muitos empreendimentos que se apresentam como de ecoturismo são atéimorais – exploram a mão de obra local. O que os mantêm abertos é a própriatolerância do visitante, de seus parceiros econômicos, das autoridades, de seusvizinhos, enfim, a tolerância do mercado. Como tolerar, por exemplo, uma pou-sada que não tem seus empregados registrados? Que paga valores de esmolapara eventos folclóricos locais ou pelo artesanato “autêntico” e os revende apreços exorbitantes? Que não protege seus mananciais, ou não trata seus esgo-tos? Que não possui um sistema adequado de disposição do lixo? Neste cenário há diversas iniciativas bem intencionadas, empreendedores sé-rios, que querem acertar, que respeitam as regras básicas do negócio e da ética,que merecem grande atenção. É preciso destacar as iniciativas de turismo sus-tentável de Mamirauá (Tefé, AM), Aldeia dos Lagos (Silves, AM) e de PedrasNegras (Costa Marques, RO).PROMOÇÃO DA AMAZÔNIA Num cenário nacional e internacional altamente competitivo não é possívelpromover a Amazônia com os poucos recursos humanos e financeiros disponí-veis. Pior: se adotados os padrões usuais de promoção turística o que se podealcançar a curto e médio prazo é muito pouco. Não podemos contar com os mesmos canais de promoção turística para aAmazônia que existem hoje. A melhor promoção que podemos realizar para a Amazônia é dar a oportuni-dade para que os visitantes falem dela. No web-site oficial, oferecer espaço parablogs, artigos, manifestos, realizar pesquisas. O diretor de turismo da Costa Rica, Alberto Salas, em 2003, informou-me que oprincipal vetor de divulgação do país é o boca-a-boca e os muitos livros que osturistas escreviam sobre sua experiência. A Costa Rica recebe 1 milhão de turis-tas, mais de 80% para o ecoturismo, gerando US$ 1.1 bilhão (o primeiro produtodo país) porque, entre outras razões, 86 pessoas escreveram livros, diários, guiassobre sua maravilhosa visita ao país.278 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A Amazônia merece mais criatividade. É preciso abordar a questão do consu-mo consciente quando se fala de Amazônia. Chamar para o sentido de brasilidadeque há em visitar a região e no caso do turista internacional, de seu compromissoplanetário. Na década de 1990 deparei-me com uma pesquisa alemã que informa-va que 36% dos alemães e austríacos sonhavam em, um dia, conhecer a Amazô-nia! Digamos que isto seja exagerado e que apenas 5% dos norte-americanos,japoneses e europeus queiram, um dia em suas vidas, visitar a Amazônia. Seráque não poderíamos substituir a pata do boi pela sandália do ecoturista? Para aquele casal de aposentados de Kioto, Japão, não importa se ele irá paraLetícia na Colômbia, para Iquitos, noPeru, para um parque no Beni, na Bolívia oupara Belém, no Pará. Ele irá para a Amazônia. Ademais, o ecoturismo pode unir aAmazônia continental. Ao invés de continuarmos de costas para o Peru, a Bolí-via, o Equador e os demais países, por que não oferecer ao mundo uma experiên-cia única onde o visitante conhece, em uma só viagem, Machu Pichu, o encontrodas águas do Negro e o Solimões e a pororoca? É uma falta de visão absurda a promoção da Amazônia de forma isolada, sejafatiada em estados, seja esquartejada em países. Os países onde há a culturamaia já perceberam a importância de tratar da questão pelo viés cultural e nãopelas fronteiras nacionais. Se eu quero conhecer a cultura maia, pouco me im-porta se hoje este território está na Guatemala, em Belize, em Honduras ou noMéxico. Claro que, uma vez em um destes países há muito que aprender e desfru-tar, porém, o principal gancho que me levou a conhecer esta região, e que me fezpoupar para visitá-la, é a cultura maia. No caso da Amazônia estamos perdendo tempo tentando diferenciar o que oestado do Amazonas tem de melhor de Mato Grosso, que o Pará é o portal daAmazônia, etc. e etc. Ninguém ganha neste processo, somente os outros desti-nos ecoturísticos mais bem estruturados. Também é louvável contar com os esforços de governos estaduais promo-vendo a Amazônia em outras partes do país e do mundo. No entanto, se oestado pretende optar pelo ecoturismo terá que efetivamente adota-lo comoum eixo de desenvolvimento. Nenhum governo é sério se não adotar açõesconcretas para desestimular as atividades predatórias. Como pode um estadopromover a soja e a pecuária bovina extensiva ao mesmo tempo em que queratrair ecoturistas? Como pode um fazendeiro querer o ecoturismo em sua propriedade rural secontinua a desmatar, a bloquear riachos para fazer represas artificiais, a cavarvalos para a drenagem de água, a promover a caça e a pesca de maneiraindiscriminada? A cortar árvores que não precisariam ser cortadas, somente parafazer a cabana para o turista? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • OS VERDADEIROS VALORES QUE FUNDAMENTAM O ECOTURISMO Palavras de Rita Mendonça e Zysman Neiman: “Que seria de nós se não ativéssemos perto ou longe, para nos dar a esperança de um dia nos tornarmosdignos de nossa rica experiência humana? A floresta simboliza o próprio proces-so de aprendizado da vida. Ela dá sentido às atividades humanas. Ou melhor, elanos faz questionar o sentido do que fazemos”, e continua: “Quando entramos emuma área natural quase sempre nos sentimos bem, percebemos que alguma coisamuda. Quanto mais nos aprofundamos nessa relação, nessa intimidade com oselementos naturais, percebemos que ali há uma grande escola que nos proporci-ona uma das raras oportunidades que temos para realmente evoluir.” O ecoturismo só ocorrerá se houver uma mudança radical. Esta se inicia pornós mesmos, novas posturas de vida, novas visões. Sem concessões. O filósofoalemão Hans Magnus Enzenberger afirma que o “o tempo, a autonomia, o espa-ço, a tranqüilidade, o silêncio e o ambiente ecologicamente saudável” estãocada vez mais escassos na sociedade. O ecoturismo propõe respostas concretasa estas questões, de uma maneira criativa e que se renova a cada dia. Não é umproduto pasteurizado, em série, para contentar grandes massas. De maneiradiversa, permite a cada ser uma experiência relevante, enquanto habilita a repar-tir, com seu pequeno grupo, esta oportunidade única. O ecoturismo não se apresenta apenas como mais um segmento do turismotradicional, um simples ganha-pão, um bom negócio. Os empreendedores, guias,barqueiros e profissionais de ecoturismo que não mostrarem os olhos brilhando,marejados de paixão, não merecem ser os abre-alas e os porta-estandartes daNatureza. E só haverá ecoturismo na Amazônia se o desmatamento e a queimada diminuí-rem, se nos comprometermos a mudar. A opinião pública mundial costuma bombar-dear o Brasil pela sua forma irresponsável de tratar a Amazônia. Não será a hora deassumir esta triste realidade? Não será este o momento de chamarmos os formado-res de opinião mundial a nos auxiliarem no processo de mudança de comer a Ama-zônia? Ao invés de “comer”carne, soja, ouro de garimpo, madeira roubada vamos“comer” ecoturismo, castanha-da-Amazônia (o que chamamos de castanha-do-pará), sabonete de muru-muru, perfume de priprioca, artesanato de gurumã, etc.VOCÊ, PROFISSIONAL DE ECOTURISMO Se há uma profissão que depende de um profundo envolvimento, preparo, com-promisso com as pessoas e a Natureza, paixão, esta é o ecoturismo. O visitanteque economizou anos a fio para conhecer a maior floresta tropical do Planeta,reino da biodiversidade por excelência, não merece um guia mediano ou sofrível,um dono de pousada ou de restaurante que apenas o vê com cifrões na língua.280 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O ecoturismo utiliza binóculos que enxergam riquezas onde as atividadestradicionais (a agropecuária, mineração etc.) apenas vêem “área sem utilidade”:é o barulhinho do riachinho, a cachoeira de pedras escorregadias, a revoada depássaros no fim de tarde, os cipós entrelaçados na árvore, a sofreguidão de umbicho-preguiça, desmaiado de alegria, a podridão da árvore servindo de ninho aopica-pau, os rios transparentes, cantarolando... A intenção não é dar utilidade epreço a tudo o que aparece pela frente – ao selvagem, ao vento, ao Sol – e simprotegê-los, cuidar para que a ganância e a cobiça não os explorem. O ecoturista quer mais do que ver macaco e árvore, quer participar da vidacotidiana dos comunitários, sentir o cheiro da tempestade tropical, sair para omato pra coletar borracha, quebrar castanha, ir para a espera, ver se o matapiestá cheio, acompanhar a vazante, atracar-se num caldo de peixe com farinha,ralar mandioca, passar a mandioca no tipiti, secar a mandioca, seguir de monta-ria para a vila, sorver o tacacá apertando o jambu nos dentes, sentir o cheiro dasqueixadas no mato, ver menino subir na palmeira açaí para cortar o cacho, tirara espinha da apaiari... A força do ecoturismo está nesta capacidade, a de abrir os olhos, permitirque se fareje, sinta, respire, ouça a Natureza. Mais que aeroportos, lanchasrápidas, equipamentos de última geração, o ecoturismo exige pessoas sensí-veis, interessadas no destino das comunidades tradicionais e na mãe Natureza,capazes de reconhecê-los e reverenciá-los a cada passo. Mais que investir eminfra-estrutura é preciso investir em bons guias e monitores, prepará-los paraserem os abre-alas da Natureza, despertando neles o que depois ele despertaráem seus clientes. Mais que os nomes científicos e as datas históricas, a interaçãodo homem e da Natureza, a compreensão dos ciclos vitais que tornam a Ama-zônia única e una.OS ESTUDOS DO MEIO Se há uma modalidade de ecoturismo que merece imediata atenção é o estudodo meio – levar ao campo o que se trata nas salas de aula das escolas formais –da pré-escola à universidade. Nós do trade ecoturístico precisamos empreenderuma campanha para incluir a Amazônia no currículo escola brasileiro – os “Estu-dos Amazônicos”, somente assim teremos um público interessado em conhecera região. Nunca é demais mencionar que só se preserva o que se conhece, só sequer visitar o que se conhece. É muito imaginar que cada estudante universitário brasileiro, ao menos umavez, durante seu período de formação, visite a Amazônia? Seja para conhecer oseu próprio país como cidadão, seja para participar da definição dos destinos damaior floresta tropical do Planeta? É muito solicitar que cada escola tenha umcanto em sua biblioteca e videoteca denominado “Canto da Amazônia”? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • Além disto, será que não há pais neste Brasil interessados em verem seus filhosconscientes e conhecedores da realidade deste país? Será que não é o momentode oferecer como rito de passagem pelos seus 15 anos, uma viagem à Amazônia?Que melhor presente os pais podem dar do que a educação integral a seus filhos?Eu tive esta oportunidade e por isto estou aqui escrevendo estas palavras. Aviagem que mais me marcou em minha vida, foi uma expedição à Amazônia commeu irmão Renato, ele aos 15, eu aos 16 anos.DESPEDIDA “Trata-se de salvar, enquanto é tempo, toda uma fonte prodigio- sa de vida para que, ao florescer amanhã, faça da Amazônia o grande jardim terrenal que os homens do futuro desejarão ver, cheirar, sentir, admirar.” Darcy Ribeiro O que os empresários, gestores públicos e demais profissionais de ecoturismonecessitam é, primeiramente, aceitar o que é o ecoturismo, reconhecerem-secomo ecoturistas, comprometerem-se com a causa. Ecoturismo além de umbom negócio é uma causa, uma razão de ser. Assumir a vocação. Em nosso casoespecífico, a vocação pela Amazônia. Sem concessões. Está mais do que provado que é possível substituir as atividades predatóriasem uma geração. Em 30 anos podemos transformar radicalmente a Amazônia. Sefomos capazes de destruí-las em 30 anos certamente seremos capazes de barrara destruição e reergue-la, com dignidade e paixão. A Amazônia conheceu cinco séculos de depredação, matança de populaçõesnativas, sacrifícios sociais e ambientais, que estão entre os maiores da históriahumana. Está na hora de optar por um caminho econômico, pela trilha doecoturismo, que envolve os caboclos, a floresta, as tradições, os nossos própri-os encantos e sonhos. Os ocupantes do poder público precisam meditar seriamente sobre o papel doecoturismo para a sustentabilidade econômica e social da Amazônia. Não bastaabsorver o discurso ambientalista das organizações do terceiro setor, é precisoadotar medidas reais, representativas, que signifiquem mudanças. A primeira medida é a capacitação. Investir em cursos, seminários, visitas decampo, publicações, programas de rádio, tv, conteúdo de internet. Sem acesso àeducação para o ecoturismo nada se alcançará. O ecoturismo permitirá ao Brasil inserir a Amazônia em agendas internacionaiscom respostas positivas, em substituição à pecuária e a outras atividades destrutivas.282 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • No entanto, tudo se inicia com a sua visita à Amazônia. A verdadeira visita, decompleta integração com seus representantes, árvores, águas e animais. Visitara verdadeira Amazônia é uma experiência marcante e indelével. Tudo que éautêntico e genuíno é bom, é positivo. O ecoturismo só busca o autêntico egenuíno, não há lugar na Amazônia para parques temáticos. Não fique aí parado, pensando, pensando. Aja. Pegue, ou compre a sua rede evenha visitar a verdadeira Amazônia, sentir a extrema simpatia e cordialidade deseu povo, experimentar sua música, culinária, sentir seus cheiros, passear pelosambientes naturais. Como dizem os paraenses, venha tomar o açaí e se encantarpela Amazônia.WEB-SITES DE INTERESSE: Locais de turismo comunitário no Brasil:- Instituto de Desenvolvimentio Sustentável Mamirauá, organização da socieda-de civil que atua na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé,Amazonas, onde opera a Pousada Flutuante Uacari – http://www.mamiraua.org.br;-ASPAC - Associação de Silves para Preservação Ambiental e Cultural, de Silves,Amazonas, que opera a pousada Aldeia dos Lagos – http://www.viverde.com.br/aldeia.html;- Parceria entre a Organização dos Seringueiros de Rondônia, Associação dosSeringueiros do Vale do Guaporé e da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), queoperam a Pousada Pedras Negras, na Reserva Extrativista de Pedras Negras eCurralinho, Rondônia, http://www.pedrasnegras.com/index_english.htm;- A empresa Bananal Ecotour, do Instituto Ecológica, organização sem fins lu-crativos, de Tocantins, opera o ecoturismo no Araguaia, Jalapão e outros desti-nos - www.bananalecotour.com.br;- Mesmo fora da Amazônia, vale a pena verificar o exemplo do Ceará – a Prainhado Canto Verde – experiência de ecoturismo comunitário - http://www.fortalnet.com.br/~fishnet/efolder_pcv3.htm; Organizações ambientalistas de dedicadas ao tema, no Brasil: - Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável – www.cbts.org.br - reunião dasprincipais organizações do país para a definição de condições básicas para aoperação do turismo sustentável no país;- Ecobrasil – uma das mais antigas organizações do setor – www.ecobrasil.org.br Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • - Fundação O Boticário – www.fundacaooboticario.org.br- Instituto de Hospitalidade – Programa de Certificação em Turismo Sustentável– PCTS - www.pcts.org.br - o único programa de certificação em curso no país;- Instituto Physis Cultura & Ambiente – www.physis.org.br - dirigido pelo autor dediversos livros sobre o tema, Zysman Neyman- Instituto de Ecoturismo do Brasil – www.ecoturismo.org.br - organizaçãoassociativa de caráter nacional, da qual o autor foi presidente por oito anos;- Instituto Peabiru – www.peabiru.org.br - que realiza trabalhos de planejamentode ecoturismo para propriedades privadas, onde trabalha o autor;- IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza – www.iucn.org- The Nature Conservancy – www.tnc.org.br;- World Wildlife Fund –http://www.wwf.org.br/projetos/siteturismo_principal.htm- que apoia alguns dos programas acima mencionados; Para quem lê em espanhol:- CCAD - Comissión Centro Americana de Ambiente y Desarollo PROARCA – Pro-grama Ambiental Regional para Centroamerica – ver página de Turismo Sostenibley Ecoturismo - www.proarca.org/p_apm5.html Para quem lê em inglês:- Conservation International – www.conservation.org- Rain Forest Alliance - http://www.rainforest-alliance.org- Sharing Nature Foundation – www.sharingnature.com - a organização criadapor Joseph Cornell, que conta no Brasil com o Instituto Romã, dirigido por RitaMendonça, como seu representante;- The Iternational Ecotourism Society – www.ecotourism.org - organizaçãointernacional com mais de 1700 associados de mais de 70 países;- The Nature Conservancy – www.nature.org/ecotourism - uma das principaisorganizações ambientalistas do planeta, dedica diversos esforços ao ecoturismo;[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]284 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Ano: 2004 Publicação original: dissertaçãoFormato da contribuição: texto resumido do 1o capítuloFonte: Atividades Físicas de Aventura na Natureza: uma leitura sociológica apartir dos “Jogos Mundiais da Natureza”. Curitiba, 2004. Dissertação deMestrado, Universidade Federal do Paraná.E-mail do(s) autor(es): kbmarchi@ufpr.brTítulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Educação Física, Centro depesquisa em esporte, lazer e sociedade - CEPELS, Centro de Educação Física eDesportos - CED - UFPR.Possibilidades de leitura sobre osesportes da natureza: o casodos Jogos Mundiais da Natureza (1997)Kátia Bortolotti Marchi Com a entrada de uma nova administração governamental, em 1995, o Estadodo Paraná, através do Governador Jaime Lerner, fez uma parceria com o consór-cio GFE (Associats Consultors, Barcelona) da Espanha, os quais propuseram aelaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes-te”. O principal objetivo com a execução dos JMN era de modificar o perfileconômico da região Costa Oeste do Paraná, através do Turismo. Os Jogos Mundiais da Natureza foram realizados em uma região que compre-ende as cidades de Foz do Iguaçú – onde se encontra uma belíssima obra danatureza: as Cataratas do Iguaçú1 – a Guaíra. São 1.400 Km de orla formada peloLago de Itaipú2 . Com uma localização geográfica privilegiada, situada no cora-ção do Mercosul, um dos grandes mercados do mundo, a região tem um grandepotencial para se tornar um pólo turístico incluindo atividades esportivas, recre-ativas e culturais. Este evento teve caráter esportivo e participação internacional, colocandoem evidência a relação entre o homem, o esporte e a natureza. A finalidade doprojeto dos JMN, como destacado acima, foi promover o lançamento internaci-onal das possibilidades de desenvolvimento da região, especialmente as turísti- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • cas-esportivas-recreativas, onde as pessoas pudessem ocupar seu tempo livrecom atividades esportivas e a busca de novas emoções. As características principais que definiram os esportes incluídos nos JogosMundiais da Natureza foram esportes praticados em contato com a natureza,onde as possibilidades naturais (rios, cataratas) foram características funda-mentais. O que se procurava era promover uma parceria entre o homem e anatureza, através do esporte. E havia outro objetivo: organizar a competição emesportes que, depois de encerrados os jogos, pudessem ser praticados na regiãopor pessoas comuns, durante todo o ano. O lançamento dos JMN ressaltou o conceito de Esportes de Translação, o qualintegra o homem à natureza, definindo cenários de grandes dimensões sem agres-são. Como exemplo de esportes de translação podemos citar a vela, que teveinício na cidade de Guaíra e a chegada em Foz do Iguaçú, durante os sete dias decompetição e manteve um caráter inovador e de aventura. As modalidades esportivas praticadas em contato com a natureza foram utili-zadas como alavanca para o desenvolvimento turístico e econômico da região,mas como elas não fazem parte da rotina das pessoas da região, deveriam serassimiladas aos poucos para que o objetivo do projeto fosse atingido. Mesmoassim, será que qualquer pessoa pode praticar? As modalidades esportivas dos JMN tiveram caráter competitivo e foram pra-ticadas por atletas de alto nível, para que as pessoas pudessem conhecer essesesportes e com o final dos jogos oportunizar a prática dessas modalidades naregião Costa-Oeste, com o objetivo de lazer para a população local e os turistas.A maioria dessas modalidades não exige muito tempo de treinamento. Pode-sepraticar Rafting, rapel e outra modalidade num mesmo fim de semana, depois deinstruções básicas. A organização dos Jogos exigiu um trabalho árduo e inédito, onde as compe-tições foram atípicas e desenvolvidas em locais diferentes. Os Jogos Mundiais daNatureza deveriam ser realizados a cada quatro anos, sempre na “Costa Oeste”do Estado do Paraná. Eles deixaram de ser um evento pontual, de marketing paralançar um plano de turismo, e passou a ter estatutos (semelhantes aos de umaOlimpíada) que permitem sua continuidade a cada quatro anos. Da idéia atingiu-se a realização, o evento fez parte do calendário oficial do COI (Comitê OlímpicoInternacional), mas, ficou na sua 1ª e única edição. Tendo em vista o atual momento de mundialização das práticas culturais e ainserção e afirmação deste novo fenômeno social esportivo, ou seja, os esportesenvolvidos com a natureza, entendemos ser relevante a perspectiva da realizaçãode estudos sociológicos voltados para a descrição, a identificação e o entendi-286 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • mento das possíveis relações e interdependências que se estabelecem naestruturação deste cenário esportivo. Dito de outra forma, a análise e a discussãoda tríade esporte, homem e natureza, verificada através dos JMN, justificam-se porconta da sua pertinência e representatividade na sociedade contemporânea. Podemos verificar em uma reportagem da revista Veja3 que os “esportes deaventura”4 tornaram-se promissores no Brasil, devido aos 55.000 quilômetros derios, extensas chapadas, cachoeiras por toda parte, 3.400 cavernas, 8.000 quilô-metros de costa, a maior floresta tropical do planeta e montanhas de até 3.000metros de altitude. No ano passado, 20.000 pessoas procuraram por pacotes deaventura nas quatro maiores empresas especializadas no ramo. Uma pesquisafeita pela Embratur numa feira anual de aventura – Adventure Sports Fair – querecebeu 82.000 pessoas na última edição, revelou que quase metade dos visitan-tes praticava esportes radicais e que 90% intencionavam praticar. Com base nesses dados e conhecendo a Costa-Oeste, percebemos que elatem potencial para se transformar num pólo de esportes de aventura pratica-dos na natureza. Diante destes aspectos preliminares, nosso estudo teve por objetivo geralorganizar empiricamente a memória dos Jogos Mundiais da Natureza através doresgate das informações obtidas nas fontes primárias e na experiência de quemvivenciou a efetivação do projeto e, como objetivos específicos, delimitar aproposta original dos JMN a partir dos estudos de Pierre Parlebás e Norbert Eliase indicar possibilidades de análise do evento. Neste sentido, poderemos contribuir com a construção e o registro da históriade um evento de amplitude mundial, realizado no Brasil, especificamente, naCosta Oeste do Estado do Paraná. Alguns autores têm direcionado seu foco teórico para analisar determinadosaspectos ou categorias, as quais podem ser levadas em consideração no nossoestudo. Norbert Elias apresentou uma discussão sobre o mimetismo social e ocontrole das emoções existente nas configurações e interdependências que sãoestabelecidas na sociedade. Pierre Parlebás trata o indivíduo como “o ser que semove”, e faz uma classificação dos esportes por meio de características práxicas. Neste sentido, metodologicamente fizemos uma descrição detalhada de todadocumentação sobre os JMN e definimos como referencial de análise, os pressu-postos teóricos da Sociologia Configuracional de Norbert Elias e a tipologia daação motriz de Pierre Parlebás. Nesta lógica, estaremos nos aprofundando nos autores acima citados e, con-juntamente, estruturamos a análise e a pesquisa empírica das modalidades inclu- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • ídas nos JMN através de informações obtidas em fontes primárias, livros, revistasespecializadas, depoimentos, eventos, sites, entrevistas, programas televisivose demais possibilidades que envolveram os JMN. Iniciando nosso estudo, temos que o consórcio BCA, GFE e MB&A5 propôs aelaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes-te”, um plano de desenvolvimento econômico, político, social e um plano estra-tégico de turismo. O governo do Estado do Paraná teve como objetivo o desenvolvimento eco-nômico, social e cultural da região situada no extremo oeste do Estado, onde fazfronteira com o Paraguai através de um grande lago formado a partir da constru-ção da Hidrelétrica de Itaipú, cujo perímetro é de 1.400 Km, e praticamente nãopossui nenhum equipamento voltado para o turismo e a recreação; somente osconhecidos pontos de atração turística, como as Cataratas do Iguaçú, o ParqueNacional do Iguaçú, o arquipélago de Ilha Grande em Guaíra e a Hidrelétrica deItaipú. O imenso território do lago de Itaipú possui capacidade para recebermuitas atividades esportivas, recreativas, turísticas e culturais. Para isso, o governo do Estado do Paraná promoveu uma ampla operação deplanificação que se estrutura em três níveis:1. Plano Master – plano diretor de desenvolvimento econômico, político e soci- al, estruturado sobre as vocações naturais da região, devidamente identificadas enquanto a vocação propriamente dita e o potencial econômico que pode ser colocado em cada uma delas.2. Plano Estratégico de Turismo – aproveitar a atividade lúdica da região, onde o desenvolvimento econômico será pela utilização do tempo livre, através da valorização da natureza e a organização do turismo.3. Plano de Acontecimento Excepcional – um plano de desenvolvimento da re- gião, para final de 1997, que permita pôr em evidência as potencialidades da região e mostrar para o maior número possível de pessoas, meios de comuni- cação e países.6 O objetivo deste trabalho seria definir seu programa, verificar a parte econô-mica necessária para sua realização e o calendário de funcionamento para ga-rantir seu êxito. Deveria ser de caráter esportivo, ter participação internacionale colocar em evidência a relação entre o esporte e a natureza. Ao mesmo tempo, este conjunto de iniciativas teria por objetivo promover econsolidar diversos equipamentos esportivos e serviços de caráter permanente,bem como formar núcleos residenciais, turísticos e recreativos.288 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • O nome provisório que foi dado a este acontecimento foi “JOGOS DA NATURE-ZA DO IGUAÇÚ”, cujas finalidades básicas seriam: • Promover o lançamento internacional das possibilidades de desenvolvimentoda região, especialmente as turísticas, esportivas e recreativas, relacionadascom a paisagem. • Conseguir investimento necessário para oferecer outras atividades turísticasdiferentes do que simplesmente tomar sol na praia. • Estruturar o território com a implantação de núcleos turísticos-residenciais coma finalidade de atender um número maior de pessoas que pudessem permanecer maistempo na região e não simplesmente “passar” para conhecer. Deve-se utilizar crité-rios urbanísticos que permitam um crescimento e possuir padrão de qualidade paraimpulsionar a mudança do nível sócio-econômico do turismo que se pretende atrair. • Organizar um evento excepcional, próprio para a região, que demonstre acapacidade organizacional do Estado, da região e das empresas em promover odesenvolvimento da região. Este acontecimento deve ser referência internacio-nal, realizado a cada quatro anos, para situar a região do Iguaçú tanto dentro doâmbito esportivo como em atividades turísticas-recreativas. • Promover o desenvolvimento de outras atividades e projetos para cada nú-cleo turístico e, através dos “Jogos da Natureza do Iguaçú”, ampliar e fixar essesnúcleos para aumentar o número de turistas que permaneçam no local e possamocupar melhor seu tempo livre.7 Segundo os idealizadores do projeto: BCA – Engenharia & Consultoria, SãoPaulo e GFE – Associats Consultors, Barcelona, que surgiu após a Olimpíada deBarcelona, onde a maioria de seus integrantes foi composta de técnicos queparticiparam da organização dos jogos olímpicos de 1992 quando ocupavamcargos de responsabilidade na prefeitura da cidade. Trata-se de um consórcioprivado, organizado como uma rede de empresas, e cada uma delas especializa-da em um aspecto diferente: esporte, marketing, desenvolvimento urbano, orga-nização de eventos complexos. MB&A – Millet. Biosca I Associats, Barcelona, osesportes que foram eleitos para integrar o programa dos Jogos da Natureza doIguaçú deveriam manter coerência com a idéia geral. Não deveriam ser esportes“urbanos” (realizados em espaço delimitado e regulamentado), não deveriam teresportes olímpicos para não entrar em concorrência com o acontecimento es-portivo mais importante do mundo e nem utilizar locais fechados para não detur-par por completo a idéia de natureza. As características que definiram os esportes que foram incluídos no programados Jogos foram as seguintes: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • Características topológicas: a relação entre o esporte com o lugar é imprescindí-vel e, possivelmente, a característica diferenciadora de qualquer outro aconteci-mento esportivo. Deve-se escolher esportes que tenham relevância com relação aolugar, sua grandiosidade e beleza. O esporte pode ser praticado em outros lugares,mas nenhum terá as características específicas do entorno do lago de Itaipú. Serãoesportes “desenhados” para acentuar o contato com a natureza, onde a relaçãoentre esporte e paisagem seja a característica fundamental. É imprescindível que arelação esporte-lugar não seja estática; que o esportista e o espectador possamperceber a mudança da paisagem. Esportes de “translação”, para definir cenários degrandes dimensões, são fundamentais para definir o programa dos Jogos. • Características visuais: o esporte deve ser o pretexto que permita uma obser-vação privilegiada da paisagem. Os esportes de translação devem ser cuidadosa-mente desenhados para que haja mudança na visão. O espetáculo oferecido peloesporte deve ser relevante, tanto na observação direta como na filmagem eretransmissão pela televisão. • Características econômicas: como o espaço de tempo é pequeno para aorganização dos Jogos, os esportes não devem exigir muita infra-estrutura; so-mente casos em que o “cenário” possa converter-se em elemento rentável por simesmo através de uma exploração posterior, serão justificadas mudanças maisimportantes. Por outro lado, realizar excessivas construções entraria em con-tradição com o conceito de natureza. Os esportes eleitos devem propiciar odesenvolvimento de atividades produtivas, no que diz respeito ao turismo, bemcomo fixar um conjunto de atividades industriais relacionadas com o esporte. • Características culturais: o esporte está ligado à cultura e à educação; porisso, deve-se incluir esportes que tenham relação com o desenvolvimentotecnológico, científico, que preservem o meio ambiente, etc. O esporte terámera função compensatória e isolada, se não estiver integrado com um amploconjunto de atividades turísticas, recreativas, educativas e culturais, vinculadodentro das ocupações do tempo livre. • Outra característica que deve ser destacada é a beleza plástica do esporte edos lugares onde serão criadas bases de apoio. A arquitetura das novas edificaçõesprecisará de uma sensibilidade especial e uma interpretação instruída do entorno. • Características temporais: como o tempo é escasso para a preparação detodas as infra-estruturas necessárias, os esportes escolhidos não devem reque-rer infra-estrutura pesada e um programa de competição muito complexa queexija muito tempo de preparação. • Características urbanísticas: os esportes devem proporcionar a consolidaçãode itinerários e caminhos, e a criação de pequenos núcleos que devem ser está-290 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • veis e possuir equipamentos consolidados que não depredem a paisagem e nãodeixem nenhum resto, uma vez finalizado o acontecimento. • Características esportivas: o esporte deveria ter um caráter inovador e deaventura e, ao mesmo tempo, um nível de aceitação e difusão popular muitoampla. As dificuldades técnicas dos esportes propostos deveriam ser altas,mas deve-se fugir do “esporte-circo”, apto somente para profissionais emsua especialidade.8 Para conseguir uma ampla difusão televisiva dos distintos esportes, devem serespetaculares, difíceis e apresentar um certo caráter épico e, pelo contrário,todos os esportes propostos devem ser praticados por qualquer pessoa, reduzin-do seu caráter competitivo, a extensão, a duração da prova e os condicionantestécnicos, exclusivamente válidos para uma competição de alto nível. Em maio de 1996 o Comitê dos Jogos foi instituído e foi apresentada uma novadocumentação que foi o Projeto Executivo dos Jogos Mundiais da Natureza deIguaçú que foi estruturado em quatro volumes:1 - Os Jogos – são definidos o conceito dos Jogos, as características gerais, o calendário, regulamentos e instruções específicas para cada um dos esportes incluídos no programa.2 - Operações – todos os recursos necessários para a celebração dos Jogos.3 - Locações – descrição do território e as bases de apoio onde serão realizados os acontecimentos esportivos.4 - Organização – detalhes de tudo que deverá ser realizado para o sucesso dos Jogos.9 A organização financiou o transporte dos atletas desde seu local de origem,assim como seu alojamento e manutenção, desde o dia do seu registro até um diadepois do encerramento da competição, totalizando sete dias. Os atletas foramconvidados pelo Comitê Organizador. O critério utilizado foi um ranking mundialem seus respectivos esportes e, na medida do possível, representantes dos cincocontinentes em todos os esportes. O programa esportivo foi determinado peloComitê Organizador. Após duas propostas, ficou definido que a nomenclatura do evento seria “JO-GOS MUNDIAIS DA NATUREZA” (JMN). Os esportes integrantes da primeira edição dos Jogos foram os seguintes: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • • Esportes do ar: Balonismo, Pára-quedismo; • Esportes da água: Canoagem de Travessia, Rafting, Canoagem de Slalom,Pesca, Vela; • Esportes de Terra: Orientação com Arco, Escalada, Ciclismo, Golfe, Hipis-mo, Triatlon. O regulamento de cada modalidade esportiva foi criado e adaptado para osJogos e foram aprovados pelo Comitê Organizador. Foram baseados nos regula-mentos das Federações Internacionais de cada esporte com o sistema de pontu-ação, classificação e prêmios. A escolha das modalidades esportivas do programa dos JMN responde àintenção de acentuar o caráter de aventura e inovação, inerente a determi-nados esportes. Dia 11 de setembro, em Lousane – Suíça, o Governador do Estado do Paraná,Jaime Lerner, o Secretário do Estado de Esportes Turismo, Osvaldo Luis Maga-lhães dos Santos e o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos ArthurNusmann, fizeram uma apresentação sobre os JMN para o Presidente do ComitêOlímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch, que colocou a próxima ediçãodos JMN - 2001 no calendário do COI. No dia 23 de Setembro chegaram os primeiros atletas da modalidade de hipis-mo, o belga Cristian Van Sant; as holandesas Mevrouv Dingemans e Janeth VanWijk e a sueca Ingrid Bostron. Dia 27 de setembro de 1997 foram iniciados os 1º JOGOS MUNDIAIS DA NATU-REZA em Foz do Iguaçú, Paraná, Brasil. A cerimônia de abertura foi no Parque Nacional do Iguaçú com vistas para asCataratas do Iguaçú e contou com a presença do Presidente do Brasil - FernandoHenrique Cardoso, o Presidente do Paraguai – Juan Carlos Wasmosy, o MinistroExtraordinário dos Esportes – Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e demaispolíticos e esportistas. “BEM-VINDOS AOS JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA!” BALONISMO10 A “unidade” que participa de um evento competitivo de balonismo é umaequipe de quatro pessoas, que podem ser de várias nacionalidades, juntandoamigos ou voluntários locais e são comandadas por um piloto.292 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • A competição de balonismo não foi homologada pela CIA (Comissão Inter-nacional de Aerostação), pois o balonismo no sentido de competição, exigeresistência física e mental e um evento que envolve 3.000 Km de estrada parauma prova de primeira categoria dificilmente seria homologada; mas tivemosa participação de várias pessoas desta comissão como juízes, oficiais ecompetidores. A idéia de fazer competição pela manhã e vôos fiesta na parte da tarde com omesmo grupo de equipes, não funcionou, complicou a parte logística e exauriufisicamente os competidores. O clima prejudicou muito o Balonismo, pois o programa previa sete dias decompetição, dos quais tivemos apenas três, e treze vôos fiesta, dos quais apenascinco foram possíveis. Participaram da prova 30 balões (120 pessoas). PARAQUEDISMO11 Em reuniões no Comitê, foi levantada a hipótese de realização de uma compe-tição de paraquedismo nos Jogos, um maior estudo da competição de Skysurfinge da demonstração de abertura dos Jogos. Ficou definido que haveria uma competição de Skysurfing durante os JogosMundiais da Natureza e que a regulamentação deveria seguir as regras das Fede-rações Internacionais (FAI). A Competição de Paraquedismo, modalidade Skysurfing, disputada entre osdias 29 de Setembro e 3 de Outubro próximos na cidade de São Miguel do Iguaçú,na Costa Oeste paranaense, teve caráter internacional, estando presentes osmelhores atletas do mundo neste esporte. O Skysurfing é hoje um dos mais modernos esportes do mundo, é praticadoem queda livre, em altas velocidades, e por poucas pessoas; causa também,grande curiosidade para o público em geral e para os amantes dos esportesradicais em particular. Um time de Skysurfing é composto por um “Skysurfer” propriamente dito,que é o atleta que salta com uma prancha presa aos pés efetuando evolu-ções acrobáticas em queda livre, tendo suas façanhas rigorosamenteregistradas em vídeo pelo segundo atleta, o “Cameraflyer”. Tais evoluçõessão levadas a julgamento pelos árbitros. Por isso o conceito “time”, embo-ra com tarefas completamente distintas, onde a performance de um depen-de totalmente da do outro. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • No dia 27 de setembro foi realizada a exibição, ou seja, a demonstração naabertura dos Jogos com o lançamento de 76 pára-quedistas em duas passagensdo avião C-130. Iniciado no dia 30 de Setembro e encerrado dia 3 de Outubro, aconteceuprovavelmente, o mais perfeito e técnico torneio de Skysurfing que jamais serealizou no mundo; segundo os próprios competidores, muito embora as condi-ções climáticas não tenham ajudado. A competição foi realizada em São Miguel do Iguaçú. Foram convidados paraparticipar da competição 12 duplas, mas, uma dupla não compareceu por proble-mas de saúde. CANOAGEM DE TRAVESSIA12 A competição foi disputada em quatro etapas de travessia e dois circuitos. Asprovas foram entre Guaíra e Três Lagoas, no Lago de Itaipú. Os percursos diáriosvão de 23,5 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de quatro horas -a 35,2 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de seis horas. As embar-cações utilizadas foram de dois tipos diferentes - K-1 e K-2 - sendo a primeiraindividual e a segunda para duplas. Durante a maior parte da prova os canoístas ficaram remando ao longo doeixo principal do Lago em águas abertas, em alguns trechos, porém, entraram embraços da represa ou atravessaram canais. Nas etapas de circuito tiveram o que denominamos “portagens”, ou seja, quan-do os atletas saem da água e têm que carregar os caiaques por terra, através deum percurso determinado, e entrar na água novamente. A classificação final foi estabelecida pela soma dos tempos parciais de cadaembarcação e o Comitê Organizador forneceu as embarcações para os atletasque foram entregues através de sorteio. Atletas previstos: 30 K1s (30 atletas) e 20 K2s (40 atletas), total de 70 atletas. Atletas participantes: 27 K1s (27 atletas) e 17 K2s (34 atletas), total de 63 atletas. Atletas que terminaram a prova: 14 K1s (14 atletas) e 11 K2s (22 atletas), totalde 36 atletas. Atletas que não compareceram: 3 K1s (3 atletas) e 3 K2s (6 atletas), total de9 atletas.294 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Atletas que desistiram durante a competição: 13 K1s (13 atletas) e 6 K2s (12atletas), total de 25 atletas. RAFTING13 O projeto inicial previa a realização das provas no Parque da Barragem, masdevido a uma série de contratempos não foi possível sua realização neste local.Infelizmente o canal não ficou pronto e a notícia foi comunicada um mês e meioantes do evento, o que provocou uma série de transtornos e dificuldades para arealização das provas desportivas. Como única alternativa restou-nos o rio Iguaçú, no trecho logo abaixo da“Garganta do Diabo”, sendo uma ótima opção pela qualidade técnica e belezacircundante. As características do rio Iguaçú nos obrigaram a modificar totalmente a com-petição, devendo fazer novo “Anúncio de Competição” e modificar totalmente oregulamento do Rafting. Isto teve uma relação direta com a montagem da pista,obrigando a começar os trabalhos num prazo demasiadamente curto. Montar apista de Slalom em um rio com mais de 100 metros de largura em tão poucotempo, apresentou naturalmente alto grau de dificuldade. Na Cerimônia de Abertura foi realizada uma demonstração de Rafting nas Cata-ratas do Iguaçú. O Comitê Organizador forneceu os botes para os competidores e o coletesalva-vidas. A Competição teve a participação de 10 balsas com 6 tripulantes, econsistiu em duas provas: · Descida: Foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas onde a largada foi na altura daIlha de San Martin. A prova aconteceu em baterias de 4 botes e a classificação,de acordo com a ordem de chegada e com as chaves que foram escolhidas porsorteio. · Habilidade: A prova foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas com largada na altura daIlha de San Martin. A prova se deu em uma descida onde os botes percorreram apista no menor tempo possível, passando pelas portas de Slalom e realizandotarefas como virar e desvirar o bote, resgatando pessoas com utilização decordas próprias para tal. Estas tarefas valiam pontos que foram somados napontuação final. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • CANOAGEM DE SLALOM14 O projeto original previa uma prova no Parque da Barragem com aproximada-mente 4,5 Km de extensão, até 49 portas normais de Slalom e 16 setores dejulgamento, pontuação por tempo e faltas. Devido a mudança de local e a dificul-dade de montagem de portas, a nova pista ficou em torno de 1,5 Km de extensão,9 portas bem mais largas (3 m) que as normais. Foram realizadas corridas elimi-natórias em que os atletas eram obrigados a passar por entre as balizas dasportas, sem penalização por toques. Atletas participantes: Categoria: Caiaque Feminino K1W 15 Caiaque Masculino K1M 30 Canoa Simples Masc. C1M 20 Canoa Dupla Masc. C2M 10 (20 canoístas) PESCA 15 A Competição foi realizada no Centro Náutico na cidade de Guaíra e teve duasetapas, cada uma com 8 horas de prova nos dias 03 e 04 de outubro. Participaramda competição 50 duplas. A pesca deveria ser somente do Dourado, mas foramintroduzidas outras espécies de peixes valendo 1 ponto e o Dourado 2 pontos. VELA16 A competição de Vela desenvolveu-se em 7 etapas, sendo 5 percursos e 2 circui-tos. As provas foram iguais para ambas as classes no tocante a percursos e circuitos.Todas as etapas foram cumpridas dentro de rígidos critérios técnicos. A classe HobieCat 16 cumpriu todos os percursos sem encurtamento, deixou de cumprir o 1o circui-to por avarias nos lemes da maioria das embarcações. A classe Laser teve o primeiroe quinto percursos encurtados, devido a grande distância entre as bases de 3 Lagoase Itaipulândia e, principalmente, entre Porto Mendes e Guaíra. As condições do tempo ajudaram, pois, ventou em todos os dias da competição,favorecendo o alto índice técnico alcançado pelos atletas. Felizmente não tivemosnenhuma situação crítica (ventos muito fortes), onde temíamos pela salvatagem. O Comitê Organizador forneceu todos os barcos da classe Hobie Cat 16 e daClasse Laser para os atletas, que foram entregues através de sorteio.ORIENTAÇÃO COM ARCO17 A Competição de Orientação com Arco foi realizada em 3 etapas, sendo 2circuitos por dia para cada atleta. As distâncias percorridas foram suficientespara que os arqueiros realizassem uma prova muito difícil.296 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Foram convidados 50 arqueiros, mas somente 46 compareceram, representan-do 25 países. Todo o material esportivo foi fornecido pelo Comitê.ESCALADA18 Foi realizada uma demonstração no dia da abertura dos Jogos Mundiais daNatureza e uma segunda, realizada no espaço cultural Espaço das Américas,onde houve a liberação do muro de escalada para o público que participou doinício ao fim do evento.CICLISMO19 A competição teve as mesmas características de uma prova de ciclismo deestrada, porém sendo disputada em mountain bikes e em “estradas de chão”quase o tempo todo. A compra das bicicletas pelo Comitê Organizador foi uma idéia impraticável, pois,além do alto custo, as mesmas são confeccionadas sob medida para cada atleta. Dia 29 de Maio foi realizada uma Prova Seletiva nas dependências do SantaMônica Clube de Campo com 60 participantes. Estava prevista a participação de50 ciclistas, mas, participaram do evento apenas 39. A prova disputada em 7(sete) etapas, como segue a tabela abaixo. Um dado a ser destacado na modalidade foi o atraso no convite dos atletaseuropeus, por conta da consultoria espanhola e da participação dos mesmos noTour de France. Cabe a essa constatação, excetuar os atletas sul-americanos,que foram devidamente convidados no período determinado. HIPISMO20 A competição de Enduro Eqüestre foi realizada entre os dias 29 de Setembro e4 de Outubro com percursos diários de aproximadamente 45 (quarenta e cinco)e 50 (cinqüenta) Km. Foi um Raid com classificação individual e sem distinção decategorias entre homens e mulheres. A prova foi realizada de acordo com oregulamento de Raid da FEI (Federação Eqüestre Internacional), além de algumasinstruções de competição, aliadas ao regulamento veterinário e as instruçõesdas etapas que complementaram o Regulamento Oficial. Diante de qualquer Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • discordância prevaleciam sempre as normas estabelecidas pelo RegulamentoOficial da competição. Os cavalos utilizados na competição foram todos da raça manga-larga, sendo“emprestados” pela ABCCRM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalos daRaça manga-larga) ao Comitê Organizador, que, por sua vez, os cedeu aos com-petidores participantes. A distribuição dos cavalos aos atletas foi feita através de sorteio. Cada cava-leiro teve dois cavalos durante a celebração dos jogos, podendo usar somenteum durante uma mesma etapa. Foram emprestados 100 cavalos, sendo 80 cavalos destinados para o sorteioda competição e os restantes ficando para reserva, podendo ser utilizados, casoos animais selecionados para a prova tivessem alguma lesão. No início do projeto estava prevista a participação de 50 atletas, porém, houveuma redução para 40, o que implicou também na redução do número de cavalospara a prova. Somente 25 atletas terminaram a competição. Observação: A 4ª Etapa foi cancelada por conta de um temporal na cidade deItaipulândia, que destruiu parte das baias e lesionou vários animais. GOLFE21 Como a competição de Golfe é profissional, o investimento com os atletasseria muito grande, então, optou-se por uma etapa do campeonato sul-ame-ricano. A competição foi realizada no Yguaçú Golfe Clube e Resort, em Fozdo Iguaçu, durante quatro dias. Participaram 103 atletas sendo: 29 brasilei-ros, 57 da América do Sul e 17 de outros países. Os atletas participaram deuma fase de qualificação nos dois primeiros dias e nos dois dias finais foramselecionados os 50 melhores para a decisão utilizando o sistema StrockePlay 18 tacadas. TRIATHLON22 A prova teve início no Terminal Turístico Alvorada de Itaipú (Parque de SantaTerezinha), onde foi realizada a largada da etapa de natação com 1600 metros.O ciclismo iniciou-se no Parque de Santa Terezinha e o seu percurso se estendeuaté o Parque Nacional do Iguaçú, totalizando 48 Km aproximadamente e 12 Km decorrida que teve o seu final ao lado das Cataratas do Iguaçú. O Triatlon foirealizado no dia 28 de Setembro com duas largadas distintas. A elite femininacom a participação de 20 atletas largou em primeiro, às 08h30min, e a elitemasculina com a participação de 26 atletas em segundo, às 09h10min.298 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • Da idéia, atingiu-se a realização, com a implantação do evento no calendáriooficial do COI (Comitê Olímpico Internacional), o projeto deveria ter seqüência.O material adquirido para as competições deveria ser utilizado nas bases náuti-cas para iniciantes e futuros atletas. Também prevemos a importância de se realizarem competições seletivas regi-onais, com vistas à preparação para a 2ª edição dos JOGOS MUNDIAIS DA NATU-REZA em 2001. Como o objetivo do projeto dos JMN era o de incentivar o turismo na região,em 1998 foram implantados os Centros de Esportes da Natureza – em algumasbases náuticas utilizadas para a realização dos jogos – com a finalidade deincrementar a prática esportiva de algumas modalidades disputadas nos Jogospara a população local. Após a realização dos Jogos, foram realizados alguns eventos esportivos parapromover a região como uma etapa da Copa do Mundo de Canoagem Velocida-de, o Campeonato Paranaense e o Brasileiro da mesma modalidade em Entre Riosdo Oeste. O Ministério do Esporte lançou o Projeto Navegar em 1999 com as seguintesmodalidades: vela, canoagem e remo. No Paraná houve a implantação do projetoem Paranaguá, Ribeirão Claro, Foz do Iguaçú e Santa Helena; sendo que as duasúltimas cidades fizeram parte dos JMN. O Comitê dos JMN foi reativado em junho de 1999 para dar início à organizaçãoda 2ª edição dos Jogos que seriam realizados em setembro de 2001. Foram feitasreformulações e foi desenvolvido um novo projeto para dar