Valongo rj (1)
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  • 1. capa MERCaDO DE EsCRavOs Na RUa DO valONGO, debret, aquareLa sobre papeL, C. 1816-1828. reprodução do Livro DEBRET E O BRasIl – OBRa COMPlETa, ed. Capivara, 2009 Ossos que falam escavações na zona portuária do rio de Janeiro revelam retrato pouco conhecido da escravidão carlos Haago Instituto Nacional de Criminalís- e submeter as evidências materiais aos analistas tica estabelece uma série de pro- nos laboratórios. É preciso superar a mera histo- cedimentos para se investigar um riografia documental ou a visão economicista que crime: o reconhecimento, que de- só vê o escravismo do ponto de vista dos modos limita a extensão da cena do crime de produção. A escravidão deve ser materializa-e a preserva; a documentação cuidadosa e a ob- da”, diz Tânia Andrade Lima, arqueóloga do Mu-servação científica do lugar; a procura de provas seu Nacional, no Rio, e coordenadora do projetoe evidências a serem coletadas; a análise cientí- de escavação do Cais do Valongo, porto por ondefica num laboratório das provas recolhidas pelo passaram, entre 1811 e 1831, 1 milhão de africanos.perito. É na junção dessas áreas que se encontra Foram as obras do Porto Maravilha, a revitaliza-a solução de, por exemplo, um assassinato. Seria ção da área portuária carioca iniciada neste anopossível usar os mesmos procedimentos para tendo em vista as Olimpíadas de 2016, que per-“desvendar” um crime cometido há vários sécu- mitiram aos arqueólogos reabrir a “cena do crime”los, com milhões de vítimas? Pesquisas recentes oculta desde 1843, quando foi recoberta com 60feitas em universidades brasileiras indicam que centímetros de pavimento e se transformou noa adoção da mesma interdisciplinaridade, reu- Cais da Imperatriz, lugar de recepção para Tere-nindo historiadores, arqueólogos, geneticistas sa Cristina, a futura mulher de Pedro II. “Havia(paleogenéticos) e patologistas, poderá, enfim, outros lugares, mas se optou pelo Valongo comodar conta de um dos maiores crimes já cometi- forma de apagamento das manchas passadas dados: a escravidão. escravidão”, diz Tânia. Essas cercavam todo o cais, “Para se entender a realidade da escravidão é formando o complexo do Valongo. Casas próxi-preciso devassar arquivos, desencavar o passado mas armazenavam e comercializavam os negros.24 | dezeMbro de 2011
  • 2. aNtropoLoGia arqueoLoGia uma das “casas deQuem ficava doente era levado ao lazareto vizinho, carne” do mercado do valongo na visão algoonde o tratamento se reduzia a “sangrias” feitas otimista de debretpor barbeiros negros. Os que não resistiam eram ao mostrar poucosenterrados, com total descaso, em valas comuns escravos vigiados peloa poucos metros do cais. Logo, o sítio é o sonho comerciantede qualquer arqueólogo, trazendo à luz, diaria-mente, pilhas de objetos pessoais e rituais doschamados “pretos novos”, cativos recém-chegadosda África: contas, búzios, cachimbos, brincos coma “meia-lua” islâmica, miçangas e até “pedras de Históriaassentamento de orixás”. Sacerdotes e especialis-tas na cultura e religião africanas ajudam a reco-nhecer e catalogar os achados. “O complexo do Valongo foi criado para ti-rar os negros do centro do Rio, pois eles eramvistos como ameaça à saúde, ‘carregadores dedoenças’ e um perigo à ordem pública”, explicao historiador Cláudio Honorato, autor do estudoValongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro(Universidade Federal Fluminense, UFF, 2008).“O Valongo era parte do projeto ‘civilização na-cional’, intensificado com a transformação do pesquisa Fapesp 190 | 25
  • 3. tem dois pés de profundidade. Levam o institUto pretos novos morto e o atiram no buraco como a um cão morto, põem um pouco de terra em cima e se alguma parte do corpo fica des- coberta, socam-no com tocos de madeiro, formando um mingau de terra, sangue e excrementos”, descreveu o viajante Carl Seidler em 1834. O lugar, porém, obede- cia à lógica e às regras que engendraram o complexo: “Os es- cravos que não forem vendidos não sairão do Valongo nem de- pois de mortos”. Estima-se que o ce- “os escravos que mitério abrigou mais de 20 mil corpos até não forem ser fechado em 1830, por causa de recla- vendidos não mações dos vizinhos, sairão do valongo temerosos dos “mias- mas” exalados pelos nem mortos”, cadáveres “à flor da terra”, bem como da escreveu lavradio suspensão do tráfico, não obstante sua con- tinuidade ilegal. O lu-foto tirada em 1996 na casa em que pedreiros encontraram ossadas gar caiu no esqueci- mento, vindo a ser co- aRio em sede do Império. Mas resultou pós 60 dias a bordo de um “tum- berto pela malha urbana que se expandiude um paradoxo: criar uma Corte ‘eu- beiro”, os africanos, exauridos e na região portuária em fins do século XIX.ropeia’ com multidões de negros soltos doentes, enfrentavam a falta de Só foi redescoberto em 1996 durante umapelas ruas. Pensou-se que a solução se- alimentação, de roupas e moradias apro- reforma numa casa, quando operáriosria usar os escravos para criar a cidade priadas. A combinação com os castigos abriram sondagens para alicerce e encon-à altura do rei. Esse movimento, porém, os deixava propensos a contrair vírus, traram milhares de dentes e fragmentosaumentou a demanda por mais escravos bacilos, bactérias e parasitas que flores- de ossos humanos. Como uma “cena doe, assim, a cidade não conseguia perder ciam na população densa do Rio. Mais de crime” era preciso saber quem eram asas ‘feições do atraso’. Era preciso dimi- 4% dos escravos morriam no primeiro vítimas. Determinar a origem geográfi-nuir um pouco daquela promiscuidade momento, entre o desembarque, a qua- ca dos 5 milhões de escravos forçados ae, assim, tirou-se o mercado escravista rentena e a exposição no mercado. Era vir ao Brasil é fundamental para váriasda região do Paço, levando-o para um preciso um lugar para enterrar tantos áreas do conhecimento, já que dá pistas dalugar distante e desabitado: o Valongo, mortos e assim criou-se nas proximi- constituição genética e cultural dos bra-um porto natural na Gamboa”, construí- dades o Cemitério dos Pretos Novos. “A sileiros, muito impactados pela mestiça-do por ordem do vice-rei, o Marquês de mortalidade alta justificaria lugar na ló- gem. “O tráfico negreiro provocou um dosLavradio. Em pouco tempo, o comércio gica de importação de mão de obra em maiores deslocamentos populacionais dade escravos atraiu a população e o local números crescentes, onde mais mortes humanidade. Entre os séculos XVI e XIXvirou um dos mais movimentados do significava trazer mais escravos. Nos seus mais de 12,5 milhões de africanos foramRio. Além do cais, o complexo do Va- últimos seis anos, o cemitério superou escravizados e levados para a América elongo abrigava 50 “casas de carne”, on- uma média anual de mil enterros”, afir- Europa. Desses, cerca de 10,7 milhões che-de os negros recém-chegados eram ne- ma o historiador Júlio César Pereira, da garam vivos ao fim da travessia”, afirma ogociados. “A primeira loja de carne em Fiocruz, autor de À flor da terra (Gara- historiador Manolo Florentino, da UFF,que entramos continha 300 crianças. O mond, 2007). A vinda da Corte aumentou autor de Em costas negras (Companhiamais velho podia ter 12 anos e o mais a chegada de cativos pelo porto do Rio: das Letras, 1997). “Os registros dos na-novo, não mais de 6. Os coitadinhos fica- se em 1807 entraram menos de 10 mil, vios negreiros não são confiáveis sobre avam agachados num armazém. O cheiro em 1828 foram 45 mil. O ano também origem dos africanos, porque o porto dee o calor da sala eram repugnantes. O marcou um recorde no cemitério com embarcação, registrado nos arquivos, nemtermômetro indicava 33ºC e estávamos o enterro de mais de 2 mil pretos no- sempre refletia a origem geográfica dosno inverno!”, escreveu o inglês Charles vos. “Sem esquife e sem a menor peça de negros, por vezes capturados no interior,Brand em 1822. roupa são atirados numa cova que nem a quilômetros do litoral”, observa.26 | dezeMbro de 2011
  • 4. Nessa tarefa os his-leo raMos toriadores recebem grandes contribui- ções dos geneticistas, como mostra a repor- tagem “A África nos genes do povo brasi- leiro” (Pesquisa FA- PESP, n o 134) sobre a pesquisa do gene- ticista Sérgio Danilo Pena, da Universida- de Federal de Minas Gerais (UFMG), que comparou o padrão de alterações genéti- cas compartilhado por africanos e brasileiros. Com isso, Pena ajudou a revisar a versão his- tórica de que a maior obelisco do Cais da imperatriz: a seta verde indica vestígios do cais de teresa Cristina e a vermelha o valongo recoberto parte dos escravos era r da região centro-ocidental africana, dei- egistros feitos pela igreja de San- da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fio- xando de lado a participação relevante de ta Rita, que administrava o lugar, cruz), concluída recentemente. Foi fei- negros vindos da África Ocidental. “Por permitem afirmar que 95% dos ta a análise da composição isotópica de isso a transdisciplinaridade é fundamental corpos são de pretos novos (os outros estrôncio de esmalte dentário presente para entender a escravidão. Cada enfoque 5% seriam de escravos “ladinos”). O sí- nas amostras colhidas em 1996, com a é limitado para dar conta das perguntas e tio privilegiado deu origem à pesquisa finalidade de determinar a origem geo- nenhum é suficiente. As pesquisas gené- bioarqueológica Por uma antropologia gráfica dos vestígios. “Os dentes são for- ticas são muito informativas, mas partem biológica do tráfico de escravos africa- mados na infância e não se remodelam, da análise de brasileiros que são descen- nos para o Brasil: análise das origens dos o que permite descobrir onde alguém dentes dos escravos”, diz Pena. Daí a im- remanescentes esqueletais do Cemité- viveu seus primeiros anos. O estrôncio portância do Cemitério dos Pretos Novos, rio dos Pretos Novos, coordenada pelo é como um DNA geoquímico e existe que abrigava primordialmente escravos bioantropólogo Ricardo Ventura Santos, como dois isótopos, de números 86 e 87. africanos recém-chegados ao Brasil. da Escola Nacional de Saúde Pública As proporções entre eles são assinatu- ras geoquímicas ligadas às característi- cas das rochas de uma região”, explica Sheila de Souza, integrante do projeto. rio de Janeiro em 1820 A pesquisa revelou uma grande diver- sidade de valores dessas proporções, o Costão de N. s. da saúde ilha das que indica (e confirma) que os escravos Cobras trazidos ao Rio vieram de múltiplas re- giões da África. Confirmou-se também rua do saco da cemitério valongo que se tratava de negros africanos, jovens Gamboa e recém-chegados. Para estabelecer essa delimitação fo- Cemitério dos ram detectadas “modificações intencio- pretos Novos nais dos dentes”, cortes feitos na arcada paço de motivação cultural, característicos de regiões africanas como Moçambique, o que, de certa forma, corrobora a tese de Pena. “Vimos também o polimento dos dentes, que geram ranhuras microscópi- rJ cas e são características da higiene bucal de grupos africanos, que usavam gravetos praia de nos dentes e mastigavam plantas como santa Luzia Contorno ‘pasta dental’. É uma prática restrita de da cidade pretos novos, pois, uma vez aqui, não atual Lapa havia como mantê-la. Dentes de ‘ladi- pesquisa Fapesp 190 | 27
  • 5. nos’ não têm essas marcas”, diz Sheila. e, entre 1760 e 1830, o Rio, revelam os re- institUto pretos novosA variabilidade de razões de estrôncio gistros, efetivamente recebeu negros deobservada contrasta com o encontrado muitas regiões africanas”, nota Florentino.em outros cemitérios de escravos das “Também se confirma um padrão do trá-Américas, sendo maior, por exemplo, fico, que agia da costa para o interior, emdo que a medida nos busca dos que haviamafricanos enterrados migrado do litoral.”no New York Burial É possível compro-Ground, cemitério de var até o caminho daescravos americanos ilegalidade, que nãoencontrado em Ma- rendeu documenta-nhattan em 1991. ção. Em 1815, Portu- “Na contramão da gal e Inglaterra as-América do Norte e o aumento sinaram um acordode outras regiões do que proibia a compraBrasil, o Rio recebia da demanda de e tráfico de escravosuma quantidade mais ao norte do equador.expressiva de cativos escravos para “As pesquisas de Pe- arcada dentária recuperada nocom uma maior diver- a corte deixou na e Santos demons- cemitério com os cortes rituais feitossidade étnica e genéti- tram, na prática, que, nos dentes pelosca”, afirma Santos. Po- poucas partes apesar da proibição, africanosde-se identificar que a os contrabandistasbase alimentar desses da áfrica livres atuavam na área. Di- escravizadas para o Brasil a partir deindivíduos na infância zendo navegar até meados do século XIX, porque eramnão continha itens de de traficantes Angola, desviavam mais “maleáveis” que os adultos e su-procedência marinha. para a Nigéria, onde portavam melhor as travessias. Nos es-“Faz todo o sentido. A pegavam escravos, tertores do tráfico, em especial no Rio,chegada da família real aumentou a de- que registravam como angolanos”, diz um em cada três escravos era criança.manda por escravos, culminando na fase o historiador. A análise sobre o cemi- “A elite escravocrata ao sentir que o fimáurea do tráfico, que acabou legitimando tério igualmente comprovou uma face- do tráfico estava próximo passou a bus-uma situação de fato: a Coroa não tinha ta pouco conhecida do tráfico: a baixa car mais mulheres, ou seja, mais úterosmais o monopólio, o que dava livre aces- faixa etária dos cativos. “Os vestígios para gerar escravos; e crianças, que tra-so ao comércio. Logo, poucas partes do são de negros muito jovens”, fala San- balhariam por mais tempo após o fimcontinente ficaram ilesas aos traficantes tos. Cerca de 780 mil crianças foram do tráfico”, explica Florentino.objetos encontrados no valongouma caixa contendo Cachimbos com pequeno brincopequenas miçangas imagem africana feminino de ourofoi achada na foram achados com a “meia-lua”escavação, com o em grande do islamismomesmo tipo de contas quantidadeachadas num crânioinfantil do cemitério anel de piaçava feito com grande delicadeza dados usados para jogos de azar, então proibidos naquela parte da cidade, Contas eram fonte de usadas em lazer para os colares para cativos proteção mágica Fotos leo raMos28 | dezeMbro de 2011
  • 6. n ovas escavações no cemitério cor-reinaldo tavares e CláUdio honorato roboram essa prática pela presen- ça de crânios e arcadas de jovens. As prospecções foram retomadas pela equipe de Tânia Lima, que, temerosa das consequências da especulação imobiliá- ria em torno do sítio, por causa do Por- to Maravilha, encarregou o arqueólogo Reinaldo Tavares, do Museu Nacional, da pesquisa O Cemitério dos Pretos No- vos: delimitação espacial, que até o final do ano traçará o mapa do cemitério. O seu tamanho é uma incógnita. Segundo relatos da época, teria 50 braças, algo co- mo um campo de futebol. O arqueólogo desconfia da medida, exígua demais para abrigar tantos corpos. Abrindo valas no entorno do sítio ele busca os seus limi- tes. “Não é preciso cavar mais do que 70 centímetros para deparar com restos de corpos”, diz. O lugar era uma vala comum ossos à flor da terra revelados nas novas escavações realizadas no cemitério onde os corpos eram jogados, após fica- rem dias amontoados num canto. Quando a fossa enchia, era reaberta e os vestígios boratório de Genética Molecular de Mi- Uma escavação em particular trouxe eram incinerados e destruídos para dar crorganismos da Fiocruz, que rastreia, revelações importantes. “Ossadas encon- lugar a novos corpos. “Encontramos tam- via DNA, as moléstias do Rio colonial. tradas na igreja Nossa Senhora do Car- bém lixo urbano misturado aos ossos: No cemitério de escravos da praça XV, mo, no Rio, de sepulturas do século XVII, comida, vidros, material de construção, por exemplo, verificou-se pelas ossadas destinadas a pessoas de ascendência eu- animais mortos, dejetos. A tese inicial que 7 em cada 10 cativos estavam infec- ropeia, apesar de muito degradadas, de- era que o cemitério fora transformado tados com protozoários ou helmintos. ram positivo para tuberculose em 7 das em ‘lixão’ da vizinhança após seu fecha- “Era resultado da péssima nutrição dos 10 costelas analisadas”, afirma Alena. No mento. As escavações apontam que ele escravos, aliada às condições impróprias local foram também encontradas ossadas ainda funcionava quando os detritos fo- de higiene em que viviam”, diz Alena. A de índios e negros. Na comparação dos ram jogados com os corpos.” descoberta genética comprova vários as- vestígios, a pesquisadora concluiu não só A genética só aumenta o peso simbólico pectos do estudo clássico da historiado- que a tuberculose já grassava na cidade no provocado por esse desprezo. “Os escra- ra americana Mary Karasch, A vida dos século XVII, mas que, na medida em que vos entravam no Brasil pelo Nordeste ou escravos no Rio de Janeiro (Companhia apenas os europeus deram positivo para pelo Rio. A própria proximidade geográfi- das Letras, 2000). Como a afirmação de tuberculose, foram os colonizadores os ca levou escravos da África Ocidental para que “as condições de vida dos escravos e responsáveis pela introdução da doença o Nordeste e os da África Central para o as doenças matavam mais do que a vio- no Rio. “Em estudos que fiz sobre material Rio. Desses, a grande maioria era de ban- lência física do cativeiro”. pré-colombiano, encontrei helmintíases tos”, diz Pena. Seriam, portanto, corpos intestinais e registros da doença de Cha- a desse grupo étnico que lotam o cemité- pesquisadora estudou o Cemité- gas. Concluímos que eram doenças que rio. Do cais e dos armazéns era possível rio dos Pretos Novos, onde en- não vieram com os europeus. No Brasil ver como os seus mortos eram tratados. controu traços de tuberculose, colonial, ao contrário, evidencia-se o papel “Para os bantos, o sepultamento indigno um total de 25% de amostras positivas. de europeus na introdução e disseminação impossibilita a reunião entre o morto e “As condições desumanas em que eram de doenças epidêmicas como a tubercu- seus antepassados, crença central da et- transportados faziam os escravos susce- lose.” Logo, os temores das “doenças dos nia. Pode-se imaginar que se sentiam con- tíveis a contrair, já na chegada, a doen- negros” que levaram à criação, exatos 200 denados a uma ‘segunda morte’, cientes ça, então difundida pela cidade.” Isso anos atrás, do Cais do Valongo, seriam in- de que se apagara da memória o lugar de também remete à pesquisa documental fundados. Não há crime perfeito quando seu repouso final”, observa Júlio César. Os da americana: “A mortalidade dos afri- os conhecimentos se reúnem. n vivos, porém, não tinham grandes chan- canos recém-chegados ao Valongo não ces: só um terço dos pretos novos viveria se relacionava apenas às condições terrí- como escravo mais do que 16 anos. veis dos ‘tumbeiros’. Mesmo sobreviven- artigo científico A causa dessas precocidades dos óbi- do à travessia, no cais eles enfrentavam JAEGER, L. H. et al. Mycobacterium tos eram as muitas doenças com que con- um desafio maior: adaptar-se às novas, tuberculosis complex detection in human remains: tuberculosis spread since the 17th viviam, como comprovam as pesquisas e péssimas, condições de vida para não century in Rio de Janeiro, Brazil. Infection, paleogenéticas de Alena Mayo, do La- sucumbir, de cara, às doenças do Rio”. Genetics and Evolution. No prelo. pesquisa Fapesp 190 | 29