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Huberto rohden   novos rumos para a educação
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  • 1. HUBERTO ROHDENNOVOS RUMOS PARA A EDUCAÇÃO UNIVERSALISMO
  • 2. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização edispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  • 3. PREFÁCIO DO EDITOR PARA A QUARTA EDIÇÃONo início do primeiro capítulo deste livro, o autor faz esta corajosa afirmação:“O problema máximo da época é, sem dúvida, o da educação da infância, dajuventude – e também de adultos”.Embora esse dramático brado de alerta tenha sido proferido há quase quatrodécadas, o problema ainda não foi solucionado. Embora tenha havidosignificativos avanços, o problema da educação, em todos os seus níveis,continua aguardando solução.Este é um dos motivos que nos levaram a relançar Novos Rumos para aEducação – O caso de uma ideologia decrépita – Alvorada de uma filosofiadinâmica –, de autoria do filósofo e educador, professor Huberto Rohden. Hávários anos esgotada, a editora tem recebido cobrança editorial, por muitosdaqueles que tiveram, de uma ou de outra maneira, contato com esta poderosamensagem educacional.Atendendo a pedido de educadores, pedagogos, professores de todos osgraus, críticos e leitores, estamos relançando, em 4- edição, esta pequenaobra-prima da literatura pedagógica.A origem da obra é uma série de conferências que o autor deu em 1958, noauditório do Ministério da Educação, do Rio de Janeiro, sobre Educação eCosmocracia Mundial.Rohden não apresenta um programa de educação construído nos modelostradicionais. Seu enfoque é mais dirigido à educação individual do ser humano.Sua abordagem está centrada no conceito de autoconhecimento e auto-realização. Ele faz esta advertência: “Este livro trata de assuntos um tantoremotos e ignotos – focaliza um novo tipo de educação e um novo regimesocial. É, pois, óbvio que não se trata de um livro de leitura fácil e rápida, massim de um estudo que exige compreensão e penetração”.Novos Rumos para a Educação é obra gêmea de outro livro de Rohden –Educação do Homem Integral, escrito em 1972, e publicado, em váriasedições, por esta editora.Huberto Rohden, como filósofo e educador, com larga experiência educacionalem universidades internacionais e brasileiras, conhecia profundamente o
  • 4. problema da educação mundial. Aliás, toda a sua obra como escritor e mestreespiritual está voltada para a educação do ser humano.No final deste livro, como texto complementar, publicamos a última entrevistapública que o professor Huberto Rohden concedeu ao jornalista José ÍtaloStelle, e posteriormente impressa na revista Visão de 9 de fevereiro de 1981,cujo assunto e título – Educação da Consciência – são altamente convergentescom a mensagem deste livro. O Editor.
  • 5. PERSPECTIVASDurante o ano de 1958 realizei uma série de conferências, no auditório doMinistério da Educação, do Rio de Janeiro, sobre o tema “Novos Rumos para aEducação”. No ano subsequente discorri largamente, no mesmo local, sobre oproblema “Cosmocracia Mundial”. Fiz ver, nessas duas séries de elucidaçõesético-filosóficas, que o Brasil, como o mundo em geral, se acha na linhadivisória entre duas eras evolutivas de grandes consequências, e que osmentores das futuras gerações devem preparar-se devidamente para a missãode orientarem com segurança os homens de amanhã.Essa nova forma de democracia – que costumo denominar “cosmocracia” –não será o produto de uma revolução externa, mas sim de uma evoluçãointerna; não serão as armas, mas as almas que decidirão sobre os novosrumos que o Brasil e a humanidade vão tomar. Necessitamos não de uma novaciência social, mas sim de uma nova consciência individual, que projete osseus efeitos sobre o plano da sociedade.É matematicamente impossível que a sociedade seja melhor do que a somatotal dos indivíduos que a compõem, porque aquela não é senão o compostodestes componentes. É uma utopia pueril querer reformar a sociedade semregenerar os indivíduos.A nova forma de democracia que está para vir, a cosmocracia, é impossívelsem um novo conceito de educação.Mas é precisamente aqui que surge o grande problema...Como realizar essa nova educação? Será suficiente elaborar e promulgar umnovo programa educacional – feito, possivelmente, por uma comissão detécnicos nomeada ad hoc? Programa com tantos artigos e tantos parágrafos?Será suficiente dotar a sociedade de novo estatuto jurídico, social, moral?Muitos dentre nós julgam, de fato, que o mal esteja na deficiência de estatutose programas, e que, se estes fossem melhorados, teríamos um Brasil melhor,um mundo mais feliz.Longe de querermos negar a necessidade de melhores programas e técnicaseducacionais, confessamos explicitamente que disto temos urgentenecessidade... Negamos, todavia, e com toda a veemência, que isto resolva oproblema central. O melhor dos programas não funciona quando entregue a um
  • 6. homem, ou a um grupo de homens, que não sejam internamente bons,profundamente verdadeiros, realmente “desegoficados” e genuinamentecrísticos. A sociedade será tão boa ou tão má como os melhores ou pioresindivíduos que a constituírem.Ser bom não que dizer possuir um verniz de honestidade legal ou umareputação cívica imaculada. É possível que um homem seja um cidadão 100%honesto, perante a lei, e, apesar disto, 0% bom, perante Deus e a consciência.Ser internamente mau e externamente bom são coisas perfeitamentecompatíveis em face da nossa decantada “civilização cristã ocidental”.De intimis non curat praetor, diziam os antigos romanos – com as coisasinternas não se preocupa o magistrado. Quando um funcionário público cumpreas obrigações do seu ofício, é ele considerado honesto, quer dizer, legal ejuridicamente inatacável – mas é possível que seja humanamente mau. O foroexterno não coincide, necessariamente, com o foro interno. A lei cogitadaquele – mas a educação tem que ver com este.E é aqui que se bifurcam os caminhos entre simples instrução e verdadeiraeducação.O que, hoje em dia, se chama educação é, quase sempre, mera instrução.A instrução se refere aos objetos.A educação visa o sujeito.É, certamente, necessário que o homem seja instruído – mas não é suficiente.Para ser instruído, basta colher certa soma de conhecimentos exatos sobrediversos objetos que o homem possui ou procura possuir – mas, para sereducado, é necessário que, dentro de seu próprio sujeito, realize as qualidadesque perfazem o seu verdadeiro Eu.A ciência – escreve Einstein, no seu livro Aus meinen spaeten Jahren –descobre os fatos objetivos da natureza (das was ist, aquilo que é) – mas afilosofia realiza valores dentro do próprio homem (das was sein soll, aquilo quedeve ser). O descobrimento de fatos externos torna o homem erudito – mas arealização de valores internos torna o homem bom, e o homem realmente bomé um homem feliz.Descobrir fatos fora de nós é instrução – realizar valores dentro de nós éeducação.É chegado o tempo para darmos à educação um caráter genuinamentehumano, realizando valores ou qualidades dentro do próprio homem.
  • 7. Não basta conhecermos objetos, por mais necessário que isto seja – énecessário que realizemos valores internos, despertando potências dormentesnas profundezas da natureza humana. ***Embora, à primeira vista, essa distinção entre objetos e sujeito pareça simplesjogo de palavras, ela marca, na realidade, a linha divisória entre dois mundos,entre o mundo horizontal do ter e o mundo vertical do ser; entre aquilo que ohomem tem ou pode ter, fora de si – e aquilo que o homem é ou deve ser,dentro de si. Todos os meus cursos de Filosofia Universal e Filosofia doEvangelho, aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro, e alhures, bem como quasetodos os meus livros giram, direta ou indiretamente, em torno dessemomentoso problema do “ser” e do “ter”, daquilo que o homem é ou deve ser, edaquilo que o homem apenas tem ou deseja ter. O homem comum só seinteressa pelo “ter”, pelas quantidades – ao passo que o homem maisavançado se entusiasma pelo “ser”, pelas qualidades. Pode-se mesmo afirmarque tanto mais educado e culto é um homem quanto mais faz prevalecer, emsua vida, o mundo qualitativo do “ser” sobre o mundo quantitativo do “ter”.O verdadeiro educador deve ser um homem altamente “realizado”; deve terrealizado em si os seus mais profundos valores humanos; só assim poderáservir de guia e mentor a outros, não tanto pelo que diz ou faz, mas sobretudopelo que é. Deve ser plenamente educado, para que possa educar.Ser educado não que dizer apenas ter bons modos sociais; quer dizer (comoinsinua a própria etimologia da palavra) que o bom educador deve terdespertado em si os verdadeiros valores da natureza humana. “Educar” vem doverbo latino educare, derivado de educere, que quer dizer “eduzir”, conduzirpara fora, ou seja, despertar no homem aqueles elementos positivos que nelese achavam dormentes, como sejam, verdade, justiça, amor benevolência,solidariedade, etc. O educador é um “edutor”, alguém que “eduz” do seueducando o que nele dormita de melhor e mais puro. Educar não é injetar,impingir, mas sim eduzir e desenvolver o que já existe na alma do educando,assim como a luz solar desperta e desenvolve na semente a planta que nelaexiste potencialmente.Mas, como poderia alguém despertar em outrem os bons elementos, se nodespertador não estivessem esses elementos, plenamente despertados?Para que alguém possa “eduzir” o que há de bom em seu educando, deve elemesmo achar-se firmemente consolidado nesse plano do bem, ao qual querelevar seu pupilo. Quem tenta “empurrar” em vez de “atrair” não é educador,não “eduz”, porque ele mesmo não está “eduzido”, fora do abismo. Só um“eduzido” pode “eduzir” os outros. Por isto, o educador deve ir na vanguarda do
  • 8. ser bom, e não ficar na retaguarda do ser mau, tentando empurrar o seueducando para a vanguarda das alturas, onde ele mesmo não está.Em última análise, todo esse problema educacional se resume numa questãode verdade integral e de absoluta sinceridade que o educador deve ter paraconsigo mesmo; quem não é 100% aquilo que ele diz aos outros não pode sereducador; não pode “eduzir”, conduzir para fora da zona negativa do mal,porque ele mesmo não se acha fora dessa zona.Ser educador equivale a um tremendo desafio para ser integralmenteverdadeiro e honesto consigo mesmo. Quem não está disposto a aceitar essedesafio para uma veracidade integral e absoluta, não se exponha a essaperigosa e gloriosa aventura de querer educar os outros.De maneira que o problema da educação culmina, logicamente, no problemacentral da auto-realização do homem. Para que alguém seja um verdadeiroeducador não basta estudar essa psicologia periférica e superficial que vemexposta na maior parte dos nossos compêndios – é necessário que desça àpsicologia abismal de seu próprio Eu, aos mais profundos abismos da suacentralidade, entrando em contato direto com o alicerce cósmico da suanatureza humana, daquilo que ele “é”, e não apenas daquilo que ele “tem”.A educação total exige a realização do homem integral.Mas quem nos dará esses homens integrais?Não há governo no mundo que possa criar ou decretar – é necessário que oindivíduo desenvolva dentro de si mesmo esse homem integral.E isto é possível, felizmente, porque dentro de cada um de nós existe algomaior e melhor do que aquilo que existe fora de nós. O homem é muito maisaquilo que pode vir a ser e deseja ser do que aquilo que é no plano histórico dasua vida. O homem é a sua permanente e silenciosa atitude interna, e não osseus ruidosos atos externos e transitórios. O homem é a sua eternapotencialidade, e não apenas a sua atualidade temporal.Homem, procura ser no teu externo existir aquilo que és no seu interno ser!Homem, existencializa humanamente a tua divina essência – e serás ótimoeducador, por seres plenamente educado!
  • 9. ADVERTÊNCIA E ORIENTAÇÃOEste livro trata de assuntos um tanto remotos e ignotos – focaliza um novo tipode educação e um novo regime social. É, pois, óbvio que não se trata de umlivro de leitura fácil e rápida, mas sim de um estudo que exige compreensão epenetração.Por isto, nos vimos obrigados a repetir, de modos vários, certos problemascentrais da vida, para que lentamente calem e se infiltrem na alma do leitor. Ohomem de paladar doentio exige cada dia iguarias novas e esquisitas – aopasso que ao homem de saúde normal apetecem-lhe, durante anos edecênios, os mesmos manjares cotidianos, com pouca variação, porque elecome para viver, e não vive para comer.Esperamos que os nossos leitores possuam saúde normal e não se aborreçamcom o fato de encontrarem repetidos, em diversos capítulos deste livro,pensamentos similares, cuja assimilação eficiente só é possível deste modo.Escusado é dizermos que não consideramos o conteúdo destas páginas comoa última palavra sobre o assunto nem é intenção nossa dizer algo de inédito edefinitivo. Apontamos tão-somente a direção certa, à guisa daquelas setas nasencruzilhadas dos caminhos, para que o viandante saiba em que direção deveir; se parasse diante da seta falharia o sentido da mesma.Julgamos certa a direção geral indicada, e deixamos a outros a elaboração deprogramas técnicos pormenorizados sobre o magno problema de uma novaeducação individual e de um novo regime social. Em última análise, tanto estecomo aquela dependem da evolução interna do homem – e essa evolução éalgo tão misterioso e imponderável que não pode ser, propriamente, objeto deum livro, mas sim o fruto de uma experiência interna, silenciosa e anônima.Se algum leitor achar certos capítulos deste livro traumatizantes e demolidores,convença-se de que só destruímos para construir algo melhor. Em vez de seinsurgir contra o autor, pondere, calma e serenamente, os prós e os contras, afim de conhecer a verdade – “a verdade libertadora”.
  • 10. PRIMEIRA PARTEEDUCAÇÃO INDIVIDUAL
  • 11. EDUCAÇÃO – PROBLEMA VITAL DA ATUALIDADEO problema máximo da época é, sem dúvida, o da educação da infância, dajuventude – e também dos adultos.É alarmante o vertiginoso aumento da criminalidade, sobretudo entre jovens de14 a 18 anos. As autoridades estão desorientadas. O povo vive num ambientede terrorismo permanente. Cogita-se introduzir na legislação brasileira a penade morte, a fim de coibir ou diminuir essa onda de delinquência. Acreditammuitos que punir o criminoso seja medida eficaz para opor um dique àperversidade dos delinquentes potenciais.Por mais necessárias que sejam certas medidas punitivas e repressivas, deordem legal e policial, é erro gravíssimo supor que essas medidas possamproduzir mudança ponderável no plano da criminalidade. Em última análise,esses expedientes legais e policiais, embora necessários, são uma repressãode sintomas externos do mal, e não uma cura da raiz interna do mesmo;atingem os efeitos, mas não a causa da criminalidade. Quem reprime apenassintomas, e não cura a raiz do mal, é charlatão, e não médico.É de candente necessidade que tratemos seriamente da cura da raiz do mal –e, nesse setor, quase nada se está fazendo.Os supostos remédios de que lançamos mão primam por sua ineficiência e seuobsoletismo. Possivelmente, esses remédios tenham sido eficazes em séculosidos, na Idade Média, no seio de uma humanidade diferente da nossa; mas, emnossos dias, são quase totalmente ineficientes, porque a nossa humanidadenão está vivendo no século XIII. Os últimos séculos modificaramprofundamente a estrutura mental e moral do homem. A humanidade saiu dasua infância, e, em grande parte, também começa a ultrapassar suaadolescência, para entrar na idade madura. O que era bom e ótimo paraséculos passados, prova-se nulo ou fraco para o século XX. É justo que umacriança cumpra cegamente a ordem de seus pais, sem compreender o porquêdessas ordens; tem de fechar os olhos e obedecer, na certeza de que seuspais sabem o que seja melhor para o verdadeiro bem do filho.De fato, a humanidade Ocidental viveu, longos séculos nesse clima de infânciamental e moral, tanto no plano civil como religioso; de olhos fechados, aceitavae acatava qualquer ordem de cima, fosse da autoridade civil, fosse da
  • 12. hierarquia religiosa. Não culpamos esses tempos. A infância é um períodonatural e necessário para a vida de cada homem, como também dahumanidade.Mas infância não significa infantalismo. Aquela é um estado natural e sadio;este seria um fenômeno desnatural e mórbido.Com o ocaso da Idade Média e a alvorada da Renascença, a humanidadecristã do Ocidente, ou pelo menos a sua parte pensante, deixou a infância eentrou na adolescência. E não pode voltar atrás. Por outro lado, também nãopode parar nesse plano de intelectualismo, próprio da adolescência. Ninguémpode devolver às suas nascentes o Amazonas, nem ninguém pode opor-lhe umdique no seu vasto estuário. As suas massas líquidas têm de desaguar nooceano.As leis da evolução são inexoráveis. Não dependem de nós. A humanidade deontem foi boa por ignorância, a humanidade de hoje é má por inteligência – ahumanidade de amanhã tem de ser boa por sapiência.Da ignorância à sapiência vai um caminho longuíssimo, margeado deprecipícios, eriçado de empecilhos – e nós estamos trilhando este caminho.Muitos suspiram, saudosos, pelos “bons tempos” da fé medieval e acham que asolução está no regresso a essa infância da humanidade. Outros apregoam aintensificação da ciência e da técnica, por meio do intelecto, e esperammelhores dias das nossas conquistas científicas, rumo aos átomos ou rumoaos astros.Entretanto, a solução definitiva dos nossos mais dolorosos problemas não estáneste nem naquele plano. Temos de ultrapassar tanto a ignorância infantil deontem como a inteligência juvenil de hoje e entrar na zona da sapiência dohomem maduro de amanhã.Mas esse “amanhã” pode ser iniciado hoje mesmo.O infante de ontem e o adolescente de hoje são o homem maduro de amanhã.Por isto, necessitamos de novos rumos para a nossa educação, que estámarcando passo em terrenos que não correspondem às necessidades dohomem de hoje e de amanhã.
  • 13. A FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO LEIGA E DA EDUCAÇÃO RELIGIOSATemos no Brasil dois tipos de educação: leiga e religiosa. Ambos falharam ouestão falhando. A primeira é superficial; a segunda tem caráter póstumo.No setor da educação leiga, ou cívica, ministrada nos estabelecimentospúblicos, inculca-se ao educando a necessidade de ser honesto, de não mentir,não matar, não roubar, não defraudar, etc., porque há uma lei que proíbe taiscoisas; o transgressor será punido com cadeia ou multa. Espera-se que oeducando seja honesto e bom para não transgredir a lei civil e sofrer suassanções.Ora, quem não vê que semelhante sanção é totalmente ineficiente? Eficiente,talvez, para alguns atrasados e menos inteligentes, porém ineficiente para osmais adiantados e perspicazes. Quem comete um crime imperfeito sofrerá asconsequências legais e policiais da sua transgressão – mas quem for assazinteligente para cometer um crime perfeito, esse não corre perigo de ser presoou multado. Temos vasta literatura e numerosas películas cinematográficasque ensinam aos jovens, e aos adultos também, a arte de cometerem crimesperfeitos. Nas exibições públicas, é verdade, há censura prévia, em virtude daqual o transgressor da lei tem de acabar punido para que a lei saia triunfante esoberana. Mas os candidatos à delinquência sentem maiores simpatias pelocriminoso punido do que pelas autoridades que punem, e lamentamsecretamente que o herói não tenha sido assaz inteligente e jeitoso para burlara lei, e resolvem ser mais astutos do que os seus heróis cinematográficos,cometendo crime perfeito.Não há lei humana, por mais bem elaborada, que possa manter dentro dassuas malhas um criminoso inteligente. Pode um homem ser um cidadãolegalmente honesto, honestíssimo – e ser ao mesmo tempo uma ruína moral.Pode ser uma negação total no plano ético e , não obstante, ocupar altospostos públicos, com imaculada decência legal. Na realidade, a perfeita lisuralegal é compatível com a absoluta ausência de ética. Pode um homem ser100% “civilizado” e 0 % “educado”, porque a civilização se refere a seucomportamento legal, externo, e a educação a seu caráter moral interno. ***De resto, que é que pretende a chamada educação leiga ou cívica?
  • 14. Pretende, antes de tudo, colocar nas mãos do educando a ferramentanecessária para vencer na vida, para conquistar posição social e econômica,para acumular a maior quantidade possível de “matéria morta”, mesmoexplorando seus semelhantes, contanto que essa exploração seja praticadadentro do âmbito da lei – e isto é possível em vasta escala. Um cidadãoperfeitamente legalizado pode ser um homem nada moralizado; como, porém,a moralização é a verdadeira educação, pode um cidadão 100% legal ser umhomem 100% amoral. A amoralidade, porém, é o prelúdio para a imoralidade,isto é, para a criminalidade.Quer dizer que a chamada educação leiga ou cívica não é educação alguma; éapenas um processo de instrução horizontal, um sistema de aparelhamentoque visa o mundo dos objetos fora do educando, e nada tem que ver com omundo do sujeito dentro dele. A verdadeira educação, porém, tem por fimplasmar o caráter do educando, torná-lo melhor como ser humano, e nãoapenas mais hábil como conquistador de objetos impessoais em torno dele.Pode a instrução adestrar o homem na velha política e diplomacia de acumular“matéria morta” ao redor de si – mas a educação ensina ao homem a nobrefilosofia de criar valores vivos dentro dele mesmo.No seu livro Aus meinem spaeten Jahren, como já mencionamos, diz o grandematemático Albert Einstein que a ciência ensina ao homem a descobrir os fatosreais da natureza objetiva (das was ist, aquilo que é), mas que a filosofia lheensina a criar valores subjetivos dentro de si mesmo (das was seira soll, aquiloque deve ser). A ciência, descobrindo fatos, torna o homem erudito, mas afilosofia, realizando valores, torna o homem bom e feliz.A instrução é científica e desenvolve a inteligência do homem – a educação ésapiente e molda a alma do homem. Nenhum homem deixa de ser mau por serinteligente, mas todo homem diminui a sua maldade na razão direta queaumenta a sua sapiência, porque sapiência é bondade e espiritualidade.O velho slogan de que “abrir uma escola é fechar uma cadeia” é peça demuseu. Está desmentido pelos fatos. Quase todos os grandes criminosos dahistória da humanidade eram homens inteligentes, alguns deles de grandeerudição – o que não os impediu de serem grandes malfeitores. Se “escola”fosse sinônimo de “educação”, nada teríamos que objetar; mas, por via deregra, não é o que acontece. Ensinar a alguém o ABC e a tabuada não é omesmo que educá-lo. A verdadeira educação opera numa dimensão totalmentediferente do plano da simples instrução. ***Até aqui devem os educadores leigos estar insatisfeitos comigo, e satisfeitos oseducadores religiosos. Infelizmente, não estou em condições de manter nessesúltimos a satisfação que até aqui experimentavam. Nos institutos educacionais
  • 15. particulares existe a educação religiosa, orientada por esta ou aquela igreja ougrupo espiritual. Seria de esperar que pelo menos esse tipo de educação fossemais eficiente e desse a seus adeptos base mais sólida de ética individual esocial. Entretanto, as estatísticas oficiais dos países não acusam a menordiferença, quanto à criminalidade, entre os delinquentes leigos e osdelinquentes religiosos. Prova isto que a educação religiosa, ou melhoreclesiástica, não afeta a vida ética do homem, é algo justaposto à vida, comoelemento estranho e heterogêneo, e não organicamente entrelaçado com avida, como algo homogêneo à mesma. Há, naturalmente, exceções individuais,sobretudo naquelas pessoas que ultrapassaram a simples crença dogmática eentraram na zona da experiência íntima de Deus e da sua própria alma. Mas osgrupos religiosos como tais não provam que a educação religiosa, como elaestá sendo ministrada oficialmente, tenha exercido impacto ponderável sobre avida ética dos que pertencem a esses grupos.Salvo honrosas exceções, a religião organizada, em seu setor oficial, não visaà vida presente do homem, aqui na terra, mas tem que ver com uma vidafutura, em outras regiões do universo. Ela é, por assim dizer, além-nista efuturista. Ela é, visceralmente, póstuma.Os seus argumentos giram em torno do céu e inferno, palavras clássicas comque as teologias entendem determinados lugares, futuros e distantes, que ohomem só descobrirá depois da morte. Os que na terra forem bons serãopremiados no céu, e os que forem maus serão punidos no inferno.Aparentemente, deveriam esses argumentos moralizar o homem, aqui na terra,afastá-lo do mal e aproximá-lo do bem – e, de fato, assim acontecia em temposantigos. Se o homem do século XX ainda tivesse em si aquela fé ingênua dosseus antepassados do século XIII, exerceriam esses argumentos de céu einferno plena influência sobre a vida ética do homem, porque ninguém gosta desofrer, e todos querem gozar.Mas em nossos tempos, esses argumentos, um dia eficientes, são ineficientes,pelo menos para a elite pensante da humanidade. Segundo os teólogos, céu einferno são lugares que não existem na vida e no mundo presente, mas sim emoutras partes do universo e serão descobertos após a morte. Quer dizer que,na vida presente, aqui na terra, tem o homem de ser bom por causa de algoque lhe vai acontecer, daqui a 20, 40, 60, anos, em regiões ignotas e distantes,de cuja localização ninguém pode ter certeza.O apelo dos teólogos para essa sanção póstuma não exerce influência decisivasobre o homem moderno em geral. Somente os mais atrasados ou os que têmproibição de pensar livremente, ainda se impressionam com esses argumentos;os mais adiantados e emancipados não são por eles atingidos.
  • 16. E isto por razões muito óbvias; uns não creem na existência real de céu einferno, como lugares geográficos ou astronômicos, uma vez que a ciênciaprovou, e vai provar cada vez mais, que não existe, em recanto algum docosmos, um lugar onde Deus esteja sentado em seu trono, rodeado de seusanjos e santos – nem existe, debaixo ou dentro da terra, uma fogueira onde odiabo com seus demônios e condenados estejam residindo.Outros, que talvez creiam ainda em céu e inferno, acham que é muito cedopara se preocuparem com isto. Um jovem pecador de 20 anos espera viverpelo menos mais 40 anos, e depois disto, em idade avançada, começará apensar em como evitar o inferno e entrar no céu. E isto não lhe será difícil; asteologias e igrejas lhe garantem que um ato de conversão – seja pela confissãoou extrema-unção, seja pela fé no sangue do Cristo Redentor – cancelarátodas as suas maldades pretéritas. E assim, calcula o pecador, entrará ele nocéu de Deus, depois de ter gozado aqui todos os céus dos homens; esperalograr a Deus do mesmo modo que sempre logrou os homens...As igrejas organizadas envidam ingentes esforços para manter os seus filhosdentro do seu sistema teológico medieval, proibindo-lhes qualquer liberdade depensamento, que os emanciparia da igreja. Umas exigem aceitaçãoincondicional de uma autoridade eclesiástica infalível, lugar-tenente de Deus;outros impõe a seus filhos a crença em um livro infalível, mensagem direta deDeus à humanidade. Os que, graças ao sacrifício da lógica, conseguem umasujeição incondicional a uma autoridade externa, viva ou morta, humana oupapirácea, têm a vantagem de possuir pelo menos uma norma certa para avida ética, para si e seus rebanhos.Mas esses crentes de olhos fechados vão rareando cada vez mais, ao passoque os crentes de olhos abertos (que são os sapientes) se tornam cada vezmais numerosos, graças a Deus. Infelizmente, muitos daqueles crentes deolhos fechados que não conseguem tornar-se crentes de olhos abertos,acabam por engrossar a turbamulta dos descrentes, também de olhosfechados.Não podemos construir o edifício da educação das futuras gerações sobre aareia movediça de uma teologia medieval, cujo corpo persiste, mas cuja almamorreu. Temos de dar-lhes uma educação construída sobre a rocha viva deuma filosofia racional, perfeitamente lógica, e de acordo com o estado atual daevolução humana.Céu e inferno existem, mas não como lugares, fora de nós, como veremosmais tarde. Não é necessário que rejeitemos essa fé quase duas vezesmilenar; trata-se de compreender melhor o conteúdo dessa mesma fé do que ocompreenderam os nossos antepassados.
  • 17. O autor destas linhas crê mais firmemente na realidade do céu e inferno do quetalvez a maior parte de seus leitores. Crê, não apenas dogmática eteologicamente, mas sabe experiencialmente que há céu e há inferno, nãocomo lugares astronômicos, mas como estados da alma e atitudes daconsciência.E sobre esta profunda experiência podemos erguer o edifício sólido de umanova educação.
  • 18. A DELINQUÊNCIA JUVENIL, FRUTO DE UMA FALSA EDUCAÇÃOConsta, pela estatística oficial, que, nos Estados Unidos, são cometidosanualmente (1958), 2.500.000 crimes que chegam ao conhecimento dasautoridades. Cada 12 segundos se comete, nesse país, um crime. Desde que oleitor iniciou a leitura deste capítulo já foram perpetrados diversos crimes, e,quando o terminar, o número atingirá a diversas centenas.Entre nós, no Brasil, também é alarmante a crescente onda de criminalidade,sobretudo entre jovens de 14 a 18 anos. O mesmo acontece em diverso outrospaíses, sobretudo aquém do Atlântico.A Suíça celebrou, há pouco, o 25- aniversário do último homicídio cometido,nesse país, por um de seus cidadãos. Entre nós nem podemos celebrar o“diário”, muito menos o “aniversário” do último crime de morte. Cada dia osjornais estão repletos de notícias de crimes de toda espécie – e o que aimprensa registra não corresponde sequer a 10% do que realmente aconteceunessas 24 horas.Também não consta que haja qualquer diferença, no tocante à delinquência,entre pessoas pertencentes a um grupo religioso e outras sem religiãodeterminada. Da mesma forma, não se pode responsabilizar esta ou aquelaforma de governo, nem esta ou aquela raça pela maior ou menor criminalidade;nem procede a recente alegação de que o fato de existir pena de morte numpaís diminua os crimes. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há pena de morte,são povos da mesma raça – e o fato é que o coeficiente da criminalidade énotavelmente menor entre os ingleses do que entre os americanos. Forma degoverno, forma de religião, raça – nada disto é decisivo.Decisivo é um determinado espírito de educação que dê ao homem elevadaideia do valor da vida humana, e, em geral, dos deveres do indivíduo em faceda coletividade. ***Tenho diante de mim o livro Daemon-Stadt (Cidade-Demônio) do Dr. KurtGauger, médico, psiquiatra e filósofo germânico, obra em que o autor, à luz deabundantes fatos recentes, estuda o alarmante problema da criminalidadejuvenil, e até infantil, na Alemanha e em outros países, no período que seguiuàs duas guerras mundiais. Chega à conclusão de que a presente geração,
  • 19. produto de gerações anteriores e herdeira de ideologias funestas, perdeu anoção da responsabilidade ética, porque perdeu a noção de ser parteintegrante do grande TODO, seja o TODO imediato da humanidade, seja oTODO longínquo do Universo como tal. Uma criança de 12 anos mata seu paicom um tiro de revólver; interrogada pelo motivo do crime, respondecinicamente: “Matei porque quis”. Não tem o menor remorso do seu ato, diz,porque toda pessoa tem o direito de fazer aquilo que acha interessante.Em última análise, quem perde a visão de um TODO maior de quem ele fazparte e que tem de respeitar, perde necessariamente a noção da ética, daobrigação, do dever moral, porque a noção da ética se baseia na consciênciade que eu sou parte de um TODO, e que esta parte tem certas obrigaçõesnaturais e indeclináveis para com o TODO, que tem direitos reais sobre mim.Como se vê, o problema da criminalidade afeta o problema da ética, e esteradica no problema da metafísica, a questão da íntima natureza humana. “Queé o homem? de onde vem? para onde vai? por que está aqui na terra?” – não épossível dar base sólida à ética sem responder, satisfatoriamente, a essasperguntas fundamentais da vida.Necessitamos, não só de professores eruditos para instruir os seus alunos –necessitamos, sobretudo, de mestres de caráter que, com a sua própria vida evivência, deem a seus discípulos o exemplo da dignidade do homem.No citado livro Daemon-Stadt, págs. 122-124, reproduz o Dr. Kurt Gauger aimpressionante carta de um jovem delinquente que, à sombra da penitenciária,escreve uma espécie de exame de consciência para os “homens honestos” domundo. Diz o jovem delinquente:“Por que vós sois fracos no bem, por isto nos destes o nome de fortes no mal –e com isto condenais uma geração contra a qual pecastes – porque sois fracos.Nós vos concedemos dois decênios para nos fazerdes fortes – fortes no amor,fortes na boa vontade – vós, porém, nos fizestes fortes no mal, porque soisfracos no bem.Não nos indicastes caminho algum que tivesse sentido, porque vós mesmosignorais esse caminho e vos descuidastes de procurá-lo – porque sois fracos.Vosso vacilante „não‟ assumia atitude incerta diante das coisas proibidas; nósdemos uns gritos – e vós retirastes o vosso „não‟ e dissestes „sim‟, a fim depoupardes os vossos nervos fracos. E a isto chamastes „amor‟.Porque sois fracos, por isto comprastes de nós o vosso sossego. – Quando nóséramos pequenos, nos dáveis dinheiro para irmos ao cinema ou comprarmossorvete; com isto prestastes um serviço não a nós, mas sim à vossacomodidade – porque sois fracos. Fracos no amor, fracos na paciência, fracosna esperança, fracos na fé.
  • 20. Nós somos fortes no mau – mas as nossas almas têm apenas metade danossa idade.Nós fazemos barulho para que não tenhamos de chorar por todas aquelascoisas que deixastes de nos ensinar. Sabemos ler e contar; sabemos quantosestamos há nesta ou naquela flor, sabemos como vivem as raposas econhecemos as estrutura de um pé de capim – aprendemos a ficar quietos nosbancos de escola e apontar o dedo, a fim de contarmos coisas sobre raposas erosas silvestres – mas não nos ensinastes como enfrentarmos a vida.Estaríamos até dispostos a crer em Deus, num Deus infinitamente forte quetudo compreendesse e de nós esperasse que fôssemos bons – mas não nosmostrastes um só homem que fosse bom pelo fato de crer em Deus.Ganhastes muito dinheiro com serviços religiosos e murmurastes oraçõessegundo a velha rotina.Sr. Policial põe de parte o teu cassetete e tua pistola! Dize-nos antes o que nosinteressa saber: é verdade que amas a ordem pública a que serves? ou nãoserá que amas o direito que tens ao teu ordenado e à tua aposentadoria?Sr. Ministro! Mostra-nos se é forte como homem! quantas obras boas praticastu, como cristão, às ocultas?Será que nós não somos as caricaturas da vossa existência toda feita dementiras?Nós somos desordeiros públicos e fazemos muito barulho – vós, porém, lutaisàs ocultas, um contra o outro; estrangulai-vos comercialmente e armais intrigaspara conquistardes posições mais rendosas.Em vez de nos ameaçardes com bastões de borracha, colocai-nos face a facecom homens de verdade, que nos mostrem qual é o caminho certo, não compalavras, mas com a sua vida.Mas ai! que vós sois fracos no bem! os que são fortes no bem vão para a matavirgem e curam os negros da África – porque eles vos desprezam, assim comonós vos desprezamos. Porque vós sois fracos no bem – e nós somos fracos nomal.Mamãe, vamos rezar! porque esses homens fracos estão armados de pistolas!Como invalidar esse tremendo exame de consciência que um criminoso instituicom os „homens honestos‟ da sociedade, os que são „fracos no bem‟?Certamente não com velhas teorias papiráceas, mas com uma nova realidadevital...”
  • 21. O FLAGELO DO PARASITISMO E SUA CURAÉ de conhecimento público, universalmente admitido e provado com inúmerosfatos que, sobretudo nos últimos cinquenta anos, o Brasil degenerou no paísclássico do funcionamento parasitário. Centenas de milhares de pessoas vivemà custa dos impostos do povo, sem prestarem ao país os serviçoscorrespondentes aos seus vencimentos. É uma clamorosa injustiça, umaroubalheira impune e, não raro, favorecida pelas autoridades públicas.Conheço pessoas que têm cinco empregos públicos bem remunerados, masnão comparecem a nenhum deles; outros se dão ao “trabalho” de “assinar oponto”, depois vão passear ou trabalhar em outra parte, e retiram, no fim domês, as importâncias correspondentes a serviços não prestados, explorando aboa-fé do povo que lhes paga com seus impostos.É só aparecer numa cidade um funcionário público de alto coturno e logoenxameiam os parasitos, parentes, amigos, afilhados, os partidários políticos,as amantes, e cada um deles é nomeado para um cargo, muitas vezesinexistente; o principal é que conste no papel, uma vez que estamos na épocada papirocracia onipotente.Esse cancro do parasitismo explorador é, hoje em dia, considerado, quaseuniversalmente, como situação normal e inevitável.Conforme o Diário de São Paulo de 22-8-1958, o presidente JuscelinoKubitschek declarou à imprensa: “Não é possível governar de uma cidade (Riode Janeiro) onde residem 220 mil dos 300 mil servidores federais do Brasiltodo. Três quartas partes desses funcionários vegetam na capital atual,atrapalhando, e nada mais, a administração central. Quem nada faz estorva.Além do mais, contou o chefe da Nação que os presidentes dos Institutos dePrevidência podem mais do que o da República. Criam cargos, nomeiam quementendem, e nem são obrigados a publicar as nomeações no Diário Oficial.Penso com os meus botões em mais de uma barbaridade do estapafúrdiocalamitoso regime, que desgraçou a nação durante quinze anos e mais cinco”.Se três quartas partes dos 300 mil funcionários federais apenas vegetam, semfazer nada, estorvando ainda a administração, então temos, só nofuncionalismo federal, 23,5 mil parasitos ou ladrões que são mensalmentepagos com os impostos do povo, cometendo assim clamorosa injustiça,durante anos e decênios.
  • 22. E que dizer de outras categorias de funcionários que não funcionam?A ideia calamitosa de que os impostos do povo têm por finalidade precípua amanutenção de um exército de funcionários que apenas “vegetam e nadafazem”, passou a fazer parte integrante da nossa política e diplomacia pseudodemocrática. Se o povo soubesse o que se passa por detrás dos bastidores ecomo são malbaratados os dinheiros tão arduamente ganhos por ele, e setivesse meios para prevalecer contra os responsáveis por esses crimes,ensanguentaria o país com uma guerra civil...Excusado é dizer que não incluímos nessa censura os funcionários honestos ecorretos, que, felizmente, ainda existem no Brasil, embora em minoria – 25%entre os funcionários federais, segundo a declaração do Sr. JuscelinoKubitschek. Mas não é calamitoso que 75% sejam ladrões e exploradores daseconomias do povo?... ***Essa praga do parasitismo não pode ser erradicada eficientemente pornenhuma medida legislativa ou coercitiva, embora essas medidas sejamnecessárias para evitar maiores males. O grande mal está na falência dasconsciências. A desenfreada adoração do “deus-dinheiro” derrotou todas asconsiderações de ordem moral. Bom é aquilo que dá dinheiro; ótimo é aquiloque dá rios de dinheiro sem trabalho algum – é esta infeliz mentalidade quetomou conta do país.Enquanto o homem não passar por uma profunda reforma interior, as reformasexternas, embora necessárias, são precárias e ineficientes.A reforma interior, porém, supõe algo que não está em nossos códigos nem seleciona nas Faculdades de Direito. Supõe um conhecimento de si mesmo euma inexorável fidelidade a esse Eu superior e divino do homem, porque esseEU divino no homem, o seu Cristo interno, exige imperiosamente equivalênciaentre a remuneração pecuniária e o serviço prestado. Quem recebe umordenado mensal e não presta ao povo e ao país o serviço correspondente aessa importância, é ladrão, é explorador, é réu de uma injustiça, seja qual for oseu posto – presidente, governador, prefeito, juiz, senador, deputado, vereador,professor, ou simples funcionário de uma autarquia ou varredor de ruas.Mesmo no caso que o direito humano absolva esse réu, perante a justiça douniverso continua ele culpado.Ora, cada injustiça cometida é uma degradação do individuo que a comete,quer a lei humana a aprove, quer desaprove. O indivíduo que comete injustiçavai perdendo parcela do seu valor, acabando, dentro de alguns anos oudecênios, em completa falência moral, embora se tenha talvez enriquecido,materialmente, com o produto dos seus roubos. Naturalmente, se esse ladrão é
  • 23. analfabeto em matéria de conhecimento próprio e auto-realização, seráimpossível fazer-lhe compreender o seu triste estado; se tornou milionário àcusta do suor do povo, quem lhe provará que é um desgraçado?Entretanto, essa impossibilidade de provar-lhe esse fato e colocar-lhe diantedos olhos o autêntico retrato da sua fealdade não invalida o fato dessa suafealdade.Esse homem vai acumulando dentro de si um karma cada vez maior, um débitomoral que tem de ser neutralizado, consoante a inexorável justiça daConstituição Cósmica. Mas a neutralização desse débito acumulado em 10, 20,50 anos de abusos acarretará sofrimentos inevitáveis, seja no mundo presente,seja em existências futuras. Ninguém sairá do cárcere enquanto não houverpago o último vintém, segundo as palavras do maior dos mestres dahumanidade. A Constituição Cósmica é um fato, e não uma fantasia. Ninguémpode derrubar o Himalaia com a cabeça! ninguém pode prevaricarimpunemente contra as leis eternas da verdade e da justiça!...O funcionário parasito e explorador só tem um caminho para se redimir: serconsciencioso e prestar ao povo os serviços pelos quais é pago, e restituir-lheo produto dos roubos anteriores, conforme o exemplo de um grande exploradorde que nos fala o Evangelho, Zaqueu de Jericó, que, reconhecendo o seu tristeestado, declarou ao Nazareno: “Se defraudei alguém, restituo quatro vezesmais, e, ainda por cima, dou aos pobres metade da minha fortuna”. E disse odivino Mestre a esse ex-explorador: “Hoje entrou a salvação nesta casa!” ***Os livros sacros de todos os povos apelidam de “insensato” ou “tolo” o homeminjusto e pecador – e não têm eles razão? Não é tolice e insensatez entrar emconflito com as leis eternas? onerar-se de enormes desvantagens remotas porcausa de umas pequenas vantagens imediatas? A mentira, a fraude, ainjustiça, qualquer pecado ou crime, proporcionam, quase sempre, determinadavantagem imediata, e é precisamente por causa dessa vantagem que odelinquente pratica o mal. Se o pecador, burlando a lei eterna e auferindo daícerta vantagem imediata, pudesse passar impune para sempre,definitivamente; se, depois de embolsar o fruto do seu roubo, nenhum mal lheacontecesse, nenhum sofrimento o aguardasse, por parte de um SupremoTribunal extra-humano – então – seria ótimo negócio ser mau, injusto,desonesto, explorador, ganhar muito sem trabalhar nada. Mas, queiramos ounão queiramos, o universo é um “cosmos”, um sistema de ordem e harmonia, enão um “caos” de desordem e confusão. A Constituição Cósmica do Universoexige imperiosamente a prática da Verdade, da Justiça, do Amor, daSolidariedade, da Honestidade. Pode, certamente, a criatura livre violar essalei, mas as consequências dessa infração se voltam infalivelmente contra oinfrator, em forma de sofrimento de qualquer espécie. O sofrimento é o eco
  • 24. automático a qualquer violação da lei cósmica. E ninguém sabe quantos anos,decênios ou séculos correspondem a cada violação. O certo é que essadolorosa sanção existe – tão certo como é certo que o Universo é um Cosmos.Ora, é evidente estupidez provocar enormes sofrimentos, embora talvezremotos, para gozar de uma pequena vantagem imediata. E, por outro lado, éreal sabedoria renunciar a uma vantagem de momento e, assim, não provocarsofrimento futuros.Ninguém pode fugir à lei férrea de causa e efeito; uma vez posta a causa,segue-se o efeito com inelutável necessidade. O universo se reequilibraautomaticamente – mas esse reequilíbrio é doloroso para o delinquente. Nãoseria melhor não tentar desequilibrar o equilíbrio da justiça cósmica?O educador deve fazer ver a seu educando esse fato, o qual, admitindo ou não,continua a vigorar.Ser bom, justo, honesto, verdadeiro, é, não raro, doloroso, na vida presente,por causa do falso ambiente geral da vida humana, criado por nossapseudocivilização. Mas, em qualquer hipótese, ser bom, justo, honesto,verdadeiro, é, em última análise, ser feliz, embora essa felicidade íntima seja,por ora, circundada de sofrimentos. Fundamentalmente, ser bom é ser feliz, eser mau é ser infeliz. Podemos enganar os homens – mas ninguém podeenganar a lei eterna e sua própria consciência.Só quem aplaina a seu educando os caminhos para essa compreensão daverdade suprema é que o glorioso nome de educador.
  • 25. BASES PARA UMA NOVA EDUCAÇÃOVerificamos que tanto a educação leiga como religiosa se revelaramineficientes para dar ao homem do presente século uma base sólida da vidaética. Ambos esses tipos educacionais apelam para motivos externos, situadosfora do homem, para darem ao seu sistema ético uma sanção eficaz. Emtempos idos, exerciam esses motivos externos – lei, polícia, céu, inferno –impacto suficiente sobre o caráter humano, e ainda em nossos dias têm elescerta eficácia sobre pessoas de pouca anatomia intelectual e espiritual. Mas,para a elite da humanidade, deixaram esses argumentos de oferecer basesuficiente à vida ética. A verdade em si é absoluta, não há dúvida, mas o modocomo o homem a apreende é relativo – e é precisamente esse relativismo emface da verdade absoluta que decide sobre a sua maior ou menor eficácia navida, porquanto “o conhecido está no cognoscente segundo o modo docognoscente”.E, com isto, enfrentamos um problema aparentemente insolúvel; vemo-noscomo que à beira de um abismo fatal.Que outro motivo poderia o homem ter para ser bom e deixar de ser mau? Senão tem que temer os castigos dos homens nem de Deus, por que não praticaro mal, quando o mal dá, quase sempre, uma vantagem imediata, ao passo quea prática do bem acarreta, não raro, desvantagens imediatas?Confessamos que a nossa situação é difícil, não por causa de si mesma, maspor causa do ambiente em que a humanidade, sobretudo a humanidade cristãdo Ocidente, vive e foi educada, há quase dois milênios. Neutralizar umaideologia multissecular – quem o ousaria tentar?... Com que substituiríamos osmotivos tradicionais, externos, que davam ao homem de ontem certasegurança e estabilidade? Se o homem deixa de sentir o impacto dos velhosargumentos, que novo argumento lhe podemos oferecer?O ponto de referência, a norma central para a nova educação deve ser algointerno, algo dentro do próprio homem. Temos de passar da transcendênciapara a imanência educacional – e é precisamente aqui que começa a grandeescuridão...Que ponto de referência, que novo centro de gravitação é esse?
  • 26. É a dignidade, o valor intrínseco do próprio homem; o homem deve, livre eespontaneamente, evitar o mal e praticar o bem, não por causa de um punidorfora dele – humano ou divino –, mas para não ofender a sua própria pureza esantidade, para não profanar a sua nobreza e sacralidade, para nãodesvalorizar o seu grande e imenso valor humano. O homem deve ter de simesmo uma reverência e um respeito tão grande que prefira sofrer qualquerinjustiça da parte de outros a cometer uma injustiça ele mesmo – e por isto nãopor motivos de ética dualista e tradicional, mas por causa dessa misteriosametafísica e mística centralizadas no mais profundo reduto da sua próprianatureza humana.Mas, para que o homem possa ter de si tão grande ideia, deve ele ter noçãoexata e nítida da sua verdadeira natureza – e é precisamente aqui que começaa grande dificuldade! A noção que quase todos nós temos de nós mesmos, eque nos foi incutida desde a infância, é tão infeliz que, logo de início, parecefrustrar qualquer tentativa de modificação radical.Foi-nos dito, e redito, pelas mais poderosas organizações que navegam sob abandeira do cristianismo, que somos essencialmente maus, pecadores desde onascimento, mesmo desde o momento da nossa concepção.Tão profundamente arraigada na consciência cristã do Ocidente se acha essaidéia de que em pecado fomos concebidos, em pecado nascemos e pecadoressomos por nossa íntima natureza humana – que o fato de ter aparecido sobre aface da terra uma pessoa de “imaculada concepção” mereceu as honras de umdogma religioso de vasta repercussão. Dizer a um cristão ocidental quetambém ele foi concebido sem pecado, que todos os seres humanos entraramna existência puros como a luz – isto é considerado como abominável heresiae blasfêmia, porque as teologias de quase vinte séculos são contrárias a essaverdade.Outros, menos dogmáticos, estariam dispostos a aceitar essa verdade daimaculada conceição de todos os homens se, no parecer deles, semelhanteideologia não alimentasse e hipertrofiasse perigosamente o egoísmo e apresunção do homem, como eles dizem.Felizmente, temos a nosso favor o maior mestre espiritual da humanidade, queproclama explicitamente a pureza natural de todo homem, que não conhecenenhum pecado herdado, mas tão-somente pecados cometidos pelo própriohomem adulto.Quanto ao receio de que essa ideologia favoreça o orgulho do homem,veremos mais tarde de que essa ideia é filha da ilusão e de uma deplorávelfalta de conhecimento da verdadeira natureza do homem.
  • 27. Uma coisa é certa: que nenhuma educação eficiente é possível enquanto ohomem viver na convicção de que ele é um ser essencialmente mau e que sópode ser feito bom por obra e mercê de terceiros.Pedimos ao leitor que preste atenção, muita atenção, ao tremendo ilogismoque vai neste conceito: eu sou essencialmente mau e pecador, em virtude daminha íntima natureza humana; sendo isso verdade, como poderei deixar deser mau? Só deixando de ser o que sou e tornando-me o que não sou. Devodeixar de ser verdadeiro homem – que é intrinsecamente mau – e tornar-meum ser totalmente diferente do que sou por natureza; isto é, tenho de medesnaturar a fim de poder ser bom. De maneira que o meu subsequentehomem bom, que serei, não é idêntico ao primitivo homem mau, que sou; essehomem bom não é o mesmo que foi concebido e nasceu como sendo eu; poisesse primitivo eu, essencialmente mau, deixou de existir, cedendo o lugar a umoutro eu, que é bom. Quer dizer que me tornei bom à custa de uma radicalabolição, ou total apostasia, do meu verdadeiro eu. Tive de me falsificar 100%a fim de poder ser bom, pois o meu primitivo eu era 100% mau, e 100% demaldade nunca poderá converter-se em 100% de bondade. Quer dizer queesse subsequente eu bom é um pseudo-eu, e somente graças a esse “pseudo”(palavra grega para “mentira”) é que eu sou bom; a mentira a mim mesmo mefez bom; a infidelidade à minha própria natureza humana fez com que eu metornasse um homem bom. Se eu ficasse fiel a mim mesmo, seria mau; mas,como cometi infidelidade contra mim mesmo, consegui tornar-me bom.Que admira que, em face de tão monstruosa falta de lógica e de bom senso, ohomem espiritual seja considerado por muitos como um pseudo-homem, umhomem desnatural, um homem falsificado? E que admira que muitos prefiramser “naturalmente maus” a serem “desnaturalmente bons”?Felizmente, esse ilogismo é apenas da teologia de certos cristãos, e não doEvangelho do Cristo; à luz do Evangelho pode o homem ser “naturalmentebom”, e, se não o for, é “desnaturalmente mau”. O maior mestre dahumanidade não conhece espiritualidade anti-humana nem humanidade anti-espiritual; para ele, o homem plenamente humano é plenamente espiritual,bom, divino; e, se o homem não é espiritual, bom, divino, é porque não ésuficientemente humano e natural. O “filho do homem” é o “filho de Deus”.Sobre a base estritamente unitária do Evangelho do Cristo, é possível erigir oedifício da nova educação – mas sobre a base dualista das nossa teologiaseclesiásticas não é possível construir algo de sólido. Fora da lógica não hásalvação, porque a lógica é o próprio Deus, ele, o divino “Lógos”, como diz oquarto Evangelho.Felizmente, não é verdade que o homem seja essencialmente mau. A suamaldade é periférica, a sua bondade é central. E, precisamente por serperiférica, a maldade do homem é amplamente conhecida, ao passo que a sua
  • 28. bondade, por ser central, é ainda profundamente desconhecida. O elementobom no homem é como a energia nuclear recatada no âmago do átomo e queexige grande esforço para ser extraída e manifestada.Aliás, todos os grandes mestres espirituais da humanidade reconhecem aintrínseca bondade do homem. ***Aqui é que enfrentamos uma das mais importantes distinções da verdadeirafilosofia perene, o conceito do potencial e do atual. O homem é potencialmentebom, embora possa ser atualmente mau. A potencialidade do seu ser é a suaíntima natureza. Todo homem é muito mais aquilo que é potencialmente do queaquilo que é atualmente. Todo homem é antes a sua atitude permanente doque os seus atos intermitentes. Uma semente é potencialmente a planta quedela vai brotar, embora não seja ainda atualmente essa planta. A verdadeiranatureza de uma semente de palmeira é a palmeira que dela nascerá. A“natura” é a coisa “na(sci)tura”, isto é, aquela coisa que vai nascer.A potencialidade é, pois, a íntima natureza de um ser, a sua verdadeira naturaou natureza.A íntima natureza do homem não é o seu corpo, revelado pelos sentidos, nemé o intelecto, manifestado pelos pensamentos; a íntima natureza do homem é asua razão (alma), que se revela pela intuição espiritual, porque essa razão é asuprema potencialidade do homem, aquilo que ele é intrinsecamente, emboranão o tenha revelado ainda extrinsecamente.Sendo, pois, que a razão intuitiva, ou alma, é a própria essência do homem, eessa essência é boa, pura, divina, segue-se que a íntima natureza do homem éboa, que o homem é essencialmente bom, porque a alma humana é Deus nohomem, “o reino de Deus no homem” (Jesus), “o espírito de Deus que habitano homem” (São Paulo), “participação da natureza divina” (São Pedro), “a luzverdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo” (São JoãoEvangelista), “a alma humana é crística por sua própria natureza” (Tertuliano),“a voz silenciosa” (Gandhi), “a luz interna” (os místicos).Razão, alma, consciência, espírito, voz, luz de dentro – todas essas palavrassignificam a mesma realidade, o último e mais profundo centro do homem, emtorno do qual giram todas as periferias da sua vida externa.Essa essência central do homem é idêntica à essência do próprio Universo. Aalma humana (razão, consciência) é o ponto de contato em que o microcosmoindividual se encontra com o macrocosmo universal; e a lei que rege este regetambém aquele – lei de absoluta e incondicional solidariedade.
  • 29. Quando o homem individual permite que a mesma lei que rege o Universo foradele seja vitoriosa também no Universo dentro dele, então o homem é bom.Ser bom é sintonizar o grande Além-de-dentro pela harmonia do grande Além-de-fora. O homem bom é essencialmente um homem cósmico.O homem é bom quando estabelece e mantém perfeita sintonia entre o seumodo de ser e agir e o espírito da Constituição Cósmica, entre a suaconsciência individual e a Consciência Universal, entre a sua alma humana e aalma do Cosmos.A verdadeira ética (agir) é o reflexo fiel da mística (ser). O homem bom age deconformidade com o que ele é; é fiel a si mesmo. O homem mau age de ummodo diferente daquilo que ele é, é infiel a si mesmo, porque nunca descobriua sua natureza divina.O homem bom essencializa a sua existência. A sua essência é divina, a suaexistência é humana. Esse homem diviniza a sua humanidade. Faz a suaexistência humana à imagem e semelhança da sua essência divina.Poderá um homem desses ser egoísta? vaidoso? orgulhoso? Se o que nele háde bom e puro é da essência divina, e não da existência humana, comopoderia o homem orgulhar-se de algo que é de Deus?Orgulhar-se de elementos da existência humana é pecado.Orgulhar-se do espírito da essência divina é redenção.O pecado vem da ignorância – a redenção vem da sapiência.“Homem! conhece-te a ti mesmo – e serás bom!”“Sede perfeitos – assim como perfeito é vosso Pai que está nos céus.”
  • 30. ENTRE LÚCIFER E LÓGOSVimos que, para iniciar novos rumos para a educação, é indispensável que oeducador tenha noção exata da natureza humana, saiba distinguir as periferiasexistenciais do educando, do centro essencial do mesmo; e, acima de tudo,requer-se que o educador, além de versado na teoria, também vivapraticamente essa verdade.Não é possível realizar uma educação eficiente sem ter uma visão unitária dohomem. O ser humano é uma unidade harmoniosa, mas que, na suasuperfície, aparece, quase sempre, desarmonizada.Quem é que estabelece divergência e infidelidade entre o interno ser e oexterno agir do homem, frustrando assim a grande obra da educação?Esta pergunta nos põe no início da grande encruzilhada, onde se bifurcam oscaminhos da velha teologia eclesiástica e da nova filosofia cósmica. Nova?Não, essa filosofia cósmica é a filosofia perene de todos os séculos e milênios,tão antiga como a própria humanidade; mas essa filosofia é privilégio de unspoucos iniciados, ao passo que a turbamulta dos profanos segue os dogmas deuma teologia dualista e dispersiva, que não permite uma educação eficiente eracional. O que a velha teologia consegue é impor-se ao homem, assim como oditador se impõe a seus súditos. A verdadeira educação, porém, não é nempode ser um regime ditatorial; e cada vez menos é possível considerar oeducando um autômato cujo único dever seja cumprir ordens emanadas deuma autoridade suprema, externa. O homem de hoje não quer apenas cumprirordens, quer saber das últimas razões por que deve fazer isto e deixar de fazeraquilo. Não quer agir em virtude de uma compulsão externa, mas sim emvirtude de uma compreensão interna.A divisão usual do homem é entre corpo e alma. A palavra corpo é tomadacomo idêntica à matéria, e sobre o vocábulo alma existem tantas sentençasquantas cabeças.É doutrina quase geral que é a alma que peca (uns chegam ao absurdo deatribuir pecabilidade até ao corpo); acham que é a alma que se torna má eantidivina, e que, se não se converter, vai ser eternamente condenada aosofrimento. E o ilogismo culmina no absurdo de que, um dia, o próprio corpo,esse corpo-matéria, ressuscitará e participará do eterno sofrimento da alma, eque Deus, esse Deus-Amor, se deliciará eternamente com os sofrimentos demilhões e milhões de filhos seus.
  • 31. Há, nessa concepção, tantos erros quantas palavras. Excusado é dizer quesobre alicerce tão incerto não se pode erigir uma educação sólida que resistaao impacto de um pensamento racional e espiritual.A verdade é que nem o corpo nem a alma pecam. Quem peca no homem é oseu intelecto, o seu lúcifer, a sua serpente, e não a sua alma, que é o “espíritode Deus que habita no homem”.O intelecto, ou inteligência, revela-se pelo ego, ou pessoa (persona) dohomem. Esse ego-persona é o homem físico-mental-emocional.A razão ou alma manifesta-se pelo EU, que é o indivíduo ou a individualidadehumana.As palavras latinas “persona” e “indivíduo” dizem admiravelmente o quesignificam. “Persona”, em latim, quer dizer “máscara”. A “persona” (de per esonare, soar ou falar através) era a máscara que, no tempo do império romano,usavam os atores no palco e através de cuja boca aberta falavam. Por detrásdessa “persona” estava o “indivíduo”, ou seja, o homem que desempenhava opapel representado pela máscara.“Indivíduo” quer dizer “indiviso”, não-dividido, não-separado. A individualidadedo homem é aquilo que o faz um ser indivisível em si mesmo (em grego,átomos) e também indivisível ou inseparável do grande Todo, da Alma doUniverso. Por ser indivíduo, o homem é um ser estritamente uno e unitário, epor isto mesmo parte integrante do Universo.O homem não está separado do grande Todo, nem é idêntico a esse TODO,mas é dele distinto. O dualista separa o homem do grande Todo; o panteísta oidentifica com ele; mas o verdadeiro universalista (que modernamente,segundo o filosofo germânico Krause, se chama pan-en-teíta) sabe que ohomem não pode jamais estar separado do grande TODO, nem pode seridêntico a ele. A separação equivaleria a um suicídio violento, uma vez quenenhum efeito pode subsistir sem a causa-prima; a identificação seria umaespécie de suave eutanásia, em que o finito se diluiria totalmente no Infinito,nirvanizando o seu existir individual no Ser Universal. Tanto nesta comonaquela hipótese, o indivíduo humano deixaria de existir como indivíduo,aniquilando-se, ou no Nada ou no TODO.O que une o homem ao TODO é a sua essência, que é a própria essência doTODO; o que distingue o homem do TODO é a sua existência. Se o homemfosse apenas essência universal (divina) seria ele o próprio Deus, o Universal;se fosse apenas existência individual (humana), sem nenhum fundo deessência universal, seria um puríssimo Nada, o Irreal, o Vácuo, porquenenhuma existência individual tem realidade em si mesma, se não estiver unidaà essência universal. Assim, por analogia, um indivíduo vivo não seria vivo se
  • 32. não estivesse unido à Vida Universal. A única razão por que uma existência éviva é porque participa da essência da Vida Universal.A essência universal é o Real; as existências individuais são os realizados. Oprofano e insipiente considera os objetos existentes como sendo reais, auto-reais, reais em si mesmos; mas a realidade do mundo objetivo não tem caráterautônomo, senão apenas heterônomo; os objetos não possuem realidadeabsoluta, original, senão apenas realidade relativa, derivada, assim como anossa terra possui luz emprestada pelo sol, ou assim como uma figura refletidano espelho possui realidade derivada do objeto, em sentido oposto, e se refleteno espelho. Nenhum objeto existencial é auto-real, todos são alo-reais, ourealizados.Afirmar que os objetos sejam irreais, puros nadas e simples ilusões, comoafirmam certos sistemas metafísicos, antigos e modernos, é falta de lógica; osobjetos não são reais nem irreais – são realizados, isto é, possuem umarealidade derivada, heterônoma, assim como reflexos num espelho, quedesaparecem no mesmo instante em que a coisa refletente deixa de se refletir.Donde se segue que nenhum indivíduo pode existir por um instante sequer, senão estiver unido ao Universal da essência.A inteligência humana, porém, em virtude da sua relativa imperfeição, cria ailusão de poder existir independentemente do Ser Absoluto; pode mesmodesejar essa existência autônoma, ou pseudo-autônoma, porque a inteligênciaé uma faculdade visceralmente separatista ou egocêntrica; julga possívelestabelecer um reino à parte e ser soberana autônoma nesse reino. Ainteligência é, por sua natureza, centrífuga, rebelde, dispersiva, vivendo nailusão de poder existir e agir separada da Essência Cósmica – como se umaonda do mar pudesse existir sem o mar, como se a luz colorida pudesse existirsem a luz incolor que lhe deu origem e dá continuação.A inteligência é profundamente “narcisista”, auto-adorante – e é precisamentenessa tendência “narcisista” que se baseia a ideia do pecado. Quem peca nohomem é a inteligência, revelada pelo ego, ou persona. Pecado não é possívelsem ilusão, e a ilusão nasce da ignorância. Sendo que a inteligência é semi-ignorante e semiciente, espécie de penumbra ou sem luz, é-lhe possível criar emanter essa atitude separatista, embora a separação real seja impossível semo aniquilamento. Objetivamente, todo o indivíduo está unido ao Universal; massubjetivamente pode o indivíduo sentir-se separado do Universal, que é ogrande TODO, ou Deus.Essa tendência separatista da inteligência relativamente ao TODO Universalrevela-se, cotidianamente, no pendor separatista do ego intelectual comrelação aos outros egos, seus semelhantes. Uma vez que o ego julga poderseparar-se de Deus, e até opor-se a ele, julga-se também autorizado a separar-
  • 33. se dos homens, ou opor-se aos mesmos. Separatismo na vertical geraseparatismo na horizontal. Falta de senso místico cria falta de senso ético.Quem não se sente harmonizado com o grande TODO, não sente harmoniaentre si e as outras partes desse TODO. Perdido o senso de união com aspartes relativas, que são os outros seres humanos, e até os seres infra-humanos da natureza. A apostasia da mística vertical produz, cedo ou tarde, aapostasia da ética horizontal. Ou, na linguagem do mestre de Nazaré, quemnão ama a Deus com toda a alma, com todo o coração, com toda a mente ecom todas as forças, também não pode amar o próximo como a si mesmo,porque ninguém pode fazer o “segundo” sem fazer o “primeiro”.Por isto, é profundamente ilusório todo e qualquer sistema de educação quetente ser puramente social ou ético, prescindindo do elemento místico.A princípio, todo educador tem a impressão de que educação nada tenha quever com metafísica e mística, que parecem ser ocupação abstrata e longínqua,sem nexo real com a vida humana de cada dia. Enquanto o educador alimentaressa ilusão, não tem base real e sólida para uma educação eficiente.O educador de hoje tem de ser um filósofo, um metafísico, um místico...Para que o educador possa dizer, com segurança, 10% aos outros, deve elepossuir em si mesmo 100% de sabedoria experiencial. Tem de saber muitopara poder dizer pouco. Tem de ter em si um grande capital de reservaexperiencial (90%) para que possa pôr em circulação uma pequena parcela domesmo (10%). Só quem sabe muito, por experiência íntima, é que pode falarcom poder e autoridade, e dizer devidamente o pouco que a prudência lhepermita dizer.O que o educador diz deve ser como que um transbordamento espontâneodaquilo que ele é. O “ser” é a fonte e base do “dizer”.
  • 34. ESSENCIALIZANDO A EXISTÊNCIAQuase todo o Ocidente vive na ideia de que filosofia tenha que ver com omundo em derredor. Há pouco, quis assistir a um congresso de filosofiareunido numa das nossas grandes capitais; mas não fui, porque verifiquei peloprograma publicado que, nesse congresso de filosofia, se trataria de tudo –menos de filosofia.A filosofia tem por objeto o homem, e não o mundo.Também a religião focaliza o homem, mas fá-lo de outro modo que a filosofia,porque manda que o homem creia numa realidade invisível, a fim de ter aexperiência da mesma após-morte; lida, pois, com argumentos póstumos.A verdadeira filosofia, porém, trata do homem total, no espaço, do homem-razão, do homem-intelecto e do homem-corpo, do homem aqui na terra e emqualquer outro ambiente do universo. O céu ou o inferno do homem podem sercriados agora e aqui mesmo, e são produtos do próprio homem, e nãocreações de Deus.Todo homem bom cria o seu céu agora e aqui, como também para sempre epor toda parte.Todo homem, como já dissemos, é bom em virtude de sua essência divina (oEU), que também se chama alma, consciência ou razão intuitiva. Mas essaessência divina da alma, essa “luz do mundo” pode ser ofuscada pelaexistência humana (o ego). Quer dizer que o homem essencialmente bom podeser existencialmente mau – como também pode ser existencialmente bom. Ogrande erro de muitos teólogos está em confundirem o homemexistencialmente mau com o homem essencialmente mau, aduzindo atépalavras de Jesus para comprovar o seu erro: “Vós, que sois maus...” O divinoMestre fala, nessa ocasião, de homens adultos que, pelo abuso da sualiberdade, se haviam feito existencialmente maus, e não de homensessencialmente maus, que ele ignora totalmente.Toda a verdadeira educação consiste em que o homem faça a sua existência àimagem e semelhança da sua essência; que essencialize a sua existência; queverticalize as suas horizontalidades; que divinize a sua humanidade; que faça oseu externo agir tão bom e puro como é o seu interno ser. Deve o homem fazera sua vivência ética tão boa como é a sua experiência mística.
  • 35. O principal é que o homem creia em si mesmo, que seja fiel a si mesmo. Énecessário, antes de tudo, que o homem tenha a firme convicção de que hánele um elemento bom, puro, divino, sobre o qual ele possa – e pode –assentar os alicerces do seu edifício ético. Nenhum arquiteto sensato constróium edifício sobre pântano ou areia movediça.Infelizmente, repetimos, a nossa teologia ocidental nega ao educando, etambém ao educador, esse fundamento firme, porque ensina, há séculos, queo homem é essencialmente mau, pecador, negativo, antes mesmo de nascer.Confunde o ego periférico do homem com o seu EU central, cometendo omesmo erro que Tomas Hobbes e outros filósofos empíricos costumamcometer, afirmando que o homem é egoísta por natureza, e egoísta sempreserá; que ninguém o pode “desegoficar”; que todo o chamado “altruísta” nãopassa de um egoísta disfarçado, de um detestável hipócrita, e que os governostêm a única função de manter o inextirpável egoísmo dos indivíduos dentro decertos limites toleráveis, para que possa haver uma relativa paz social. Quem,como esses filósofos, identifica a íntima natureza humana com o seu egoperiférico – físico-mental-emocional – não pode, naturalmente, admitir que hajano homem algo realmente bom, puro e divino.Nós, porém, sabemos, de acordo com todos os grandes mestres dahumanidade, que o homem, na sua íntima essência é bom, uma vez que aíntima essência dele é “ a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem aeste mundo”, e brilha em todo ser que sai das mãos do Criador. “A luz brilhanas trevas, mas as trevas não a prenderam” – a luz da essência divina brilhaem todas as trevas das existências humanas, e também infra-humanas; masnenhuma dessa trevas das existências criadas consegue “prender”, ofuscar,extinguir a luz da essência divina que nelas está.Se o homem fosse essencialmente mau, não haveria nenhuma possibilidadede o tornar realmente bom – nem mesmo o mais divino e poderoso dosredentores o poderia redimir da sua intrínseca maldade e conferir-lhe bondadereal, porque essa “redenção” ou “conversão” equivaleria a uma verdadeira etotal destruição do próprio ser humano, substituindo a sua “essência má” poruma “essência boa”.Ora, à luz da psicologia do Ocidente, da filosofia do Oriente, e à luz do próprioEvangelho de Jesus Cristo, não há nenhuma substituição do homem mau pelohomem bom; há uma conversão do homem existencialmente mau no homemexistencialmente bom, e este processo de conversão é possível unicamentesobre a base do homem essencialmente bom; porquanto, ninguém se podetornar explicitamente o que não é implicitamente, nenhuma semente se podetornar atualmente uma palmeira se potencialmente ela não é palmeira;nenhuma semente se pode tornar atualmente viva se ela não é potencialmenteviva. A transição do estado potencial (implícito) para o estado atual (explícito)
  • 36. não é uma transição do não-ser para o ser, mas é a transição de um estado deser imanifesto para um estado de ser manifesto; não é uma criação ex nihilo,mas uma revelação de algo, de algo que já existia encoberto, e agora passou aser descoberto. Se o homem pode tornar-se manifestamente bom é prova deque ele, antes dessa manifestação, já era ocultamente bom. Ninguém se tornao que não é!O homem existencialmente bom realiza o feito máximo da sua vida, permeandoa sua vivência humana com a sua essência divina, assim como uma luz internapermeia totalmente de si um límpido cristal colocado diante dela. Secolocarmos uma luz por detrás duma parede opaca, haverá sombra do ladooposto – é o símbolo do homem existencialmente mau que não deixoupenetrar-se pela luz da essência divina que nele está; a sua opacidade é o seugrande pecado, porque ele podia fazer com que essa opacidade profana fossetransparência sagrada. “A luz verdadeira ilumina a todo homem que vem a estemundo – e os que recebem essa luz se tornam filhos de Deus”. A luz divinaestá em todo homem, mas nem todos a “recebem”, nem todos se tornamreceptivos, nem todos fazem-na permear-na e penetrar a sua vida, e por istoficam na sombra da sua culpável maldade.Os nossos teólogos eclesiásticos negam a realidade da luz divina no homem –e isto a despeito das declarações reiteradas e explícitas do divino Mestre e dosseus grandes discípulos. “Vós sois a luz do mundo”, declara Jesus, depois dehaver afirmado “Eu sou a luz do mundo”. Declara que seus discípulos são, nasua essência, a mesma luz divina que ele é. E João Evangelista declara queessa “luz verdadeira”, do divino Lógos (o Verbo) ilumina a todo e qualquerhomem que vem a este mundo.Se não reside no homem nenhum elemento bom, não pode haver verdadeiraeducação, porque “educação”, repetimos, quer dizer “edução”. Educar é eduzir,isto é, conduzir para fora. Só se pode eduzir o que está dentro. Na opinião dosteólogos ocidentais, há indução em vez de edução; o elemento bom deve serinduzido, introduzido, injetado ou impingido ao homem, de fora para dentro,como algo externo e alheio à sua natureza, como um aditamento posterior ouuma substituição. Neste caso, o homem educado se torna bom graças a umainfidelidade a si mesmo; despoja-se do que é dele e recebe o que não é dele,porque, nessa suposição, o elemento bom não existe nele, mas vem-lhe defora, de uma fonte alheia e heterogênea. Assim, como já foi dito, a educação(ou antes, inducação) seria uma adulteração do educando; o homem falsificadoé que seria o homem bom. ***Acham os defensores do homem essencialmente mau que, se admitirmos ohomem essencialmente bom, criamos nele um complexo de orgulho ouautocomplacência, fazendo dele um enfatuado egocentrista, um pelagiano ou
  • 37. um homem que espera redenção de si mesmo, auto-redenção, em vez de teo-redenção ou cristo-redenção.Cuidado com essa confusão de idéias!Cuidado com essa falsa lógica!Que é auto-redenção?Pode ser uma de duas coisas: ou redenção pelo EGO HUMANO, isto é, pelapersona do ego físico-mental-emocional – ou pode ser redenção do homempelo EU DIVINO nele, por seu Cristo interno, pelo espírito de Deus que nelehabita, redenção por sua alma crística. Neste último caso, auto-redenção é teo-redenção, cristo-redenção. E é precisamente nesse sentido que entendemosauto-redenção, a redenção do homem pelo elemento divino nele existente,embora em estado dormente e embrionário. Despertar no homem esseelemento divino é redimi-lo e é educá-lo. É este o único caminho certo parauma verdadeira educação: despertar, desenvolver e eduzir do homem essa luze essa força divina até que ela penetre todas as trevas do ego humano.É visceralmente falsa e funesta a psicologia e pedagogia que procuram dar aoeducando uma ideia baixa de si mesmo, um auto desprezo, na intenção de olevar à humildade e ao desejo de ser remido por Deus. Humildade não édesprezo de si mesmo. Humildade é a verdade sobre si mesmo. Redenção defora é impossível quando por dentro não existe um elemento redimível. Com omelhor adubo do mundo o calor solar mais propício não se pode fazer brotaruma semente se dentro dela não existe um princípio vital. Só se podevitalizar o que é vivo. Ninguém pode criar vida, só podemos despertar a vida jáexistente em estado de dormência.Quem não supõe bondade dormente no educando não o pode tornar bom,porque ninguém se torna explicitamente o que não é implicitamente. “Se o olhonão fosse solar”, diz Goethe, “jamais poderia contemplar o sol”. Da mesmaforma, se a alma humana não fosse crística por sua natureza, ninguém opoderia cristificar; se ela não fosse divina por natureza, jamais poderia serdivinizada; se ela não fosse espiritualmente viva, ninguém a poderia vitalizarem espírito; se a alma não tivesse dentro de si um princípio de santidade,ninguém a poderia santificar.Educar é, pois, eduzir de dentro do educando e desenvolver uma bondade, umser-bom, que nele existe, embora ainda em estado latente e embrionário.Dizer que esse despertamento da bondade dormente no ser humano favoreceo orgulho dele é não saber distinguir o ego periférico (persona, intelecto) e oEU central (indivíduo, razão) do homem. A alma não pode ser orgulhosa,egoísta, porque ela é Deus no homem; só o lúcifer do intelecto é que ésusceptível de orgulho, egoísmo e qualquer outro pecado. Quem ultrapassa o
  • 38. seu ego personal ultrapassa a sua pecabilidade e entra na zona daimpecabilidade.“As obras que eu faço não sou eu (meu ego humano) que as faço, mas é o Pai(meu EU divino) que as faz em mim” (jesus).Quando Pedro curou aquele paralítico à porta do templo de Jerusalém, comoreferem os Atos dos Apóstolos, o povo o encarava, estupefato; o apóstolo,porém, longe de atribuir a seu ego humano esse prodígio, fez ver ao povo queo autor dessa cura era o espírito do Cristo que dele se servira como simplesveículo.Quem sente orgulho ou vanglória em face de algum ato bom prova que aindavive na ignorância de si mesmo, que ainda não é bom, mas apenas faz o bem.O maior dos ateus pode fazer o bem, apesar de não ser bom; pode fazer umbem material com o que tem, mas não um bem espiritual com o que é.É, pois, necessário que o educador conheça, antes de tudo, a si mesmo, a fimde poder contribuir para dar a seu educando a verdadeira noção do mesmo.Para ser bom educador, é necessário que o homem seja “educado”, isto é, quetenha “eduzido” de si mesmo o elemento bom que em todos existe.
  • 39. A SABEDORIA DOS GRANDES EDUCADORESEscreve o insigne Albert Schweitzer que nossa teologia cristã criou umaespécie de soro que, uma vez injetado ao homem, o imuniza contra o espíritodo Cristo; de tão saturado de cristianismo (do “nosso” cristianismo), julgasupérfluo o Cristo.Mahatma Gandhi fez idênticas experiências com os missionários cristãos quetentavam convertê-lo ao nosso cristianismo; a todos eles respondia o grandelíder político e espiritual da Índia: “Aceito integralmente o Cristo e seuEvangelho, mas não aceito vosso cristianismo”.Sobretudo no setor educacional se verifica essa substituição do Cristo pelocristianismo, do Evangelho pela teologia.O Evangelho do Cristo, vivido em sua verdade e pureza, oferece a melhor basepara a educação. Antes de tudo, revela Jesus uma profunda reverência pelanatureza humana. Para ele, não existe criança concebida em pecado; todohomem é essencialmente bom e puro, a princípio; só mais tarde se torna maupelo abuso da sua liberdade. Não encontramos nas páginas do Evangelho umaúnica palavra de Jesus que justifique a ideia teológica do “pecado original”.Essa ideologia nasceu fora do Evangelho e foi, mais tarde, introduzida nelepelos teólogos cristãos. Já aparece nos últimos quatro séculos do AntigoTestamento, no seio da sinagoga de Israel decadente. Pelo ano 400 antes daera cristã, faleceu Malaquias, o último dos profetas de Israel, e nos quatroséculos subsequentes os sacerdotes hebreus tomaram a direção espiritual dopovo. Mas a orientação sacerdotal era visceralmente legalista; segundo eles, asalvação vinha da aceitação e aplicação de certas fórmulas rituais; era a letrada lei que salvava o homem, e não o seu espírito.Durante esse período de decadência surgiu na sinagoga a doutrina de que ohomem é mau e pecador por natureza e que só a lei o pode libertar do pecado.Foi divinizada a Lei, e, para que a Lei tivesse o máximo de prestígio e poder, foio homem reduzido ao mínimo, declarado pecador em virtude de sua próprianatureza; e assim o nadir da natureza humana elevava ao zênite a força da Lei.Mais tarde, no início da era cristã, foi a Lei substituída pelo Cristo, mas oparalelismo continuou: para que o Cristo tivesse o máximo de valor, foi o
  • 40. homem reduzido ao mínimo do desvalor – surgiu a paradoxal ideologiateológica do “homem pecador”, a teoria do “pecado original”.Jesus não aceita essa doutrina. Para ele, o reino de Deus está dentro dohomem, e só dentro é que ele pode vir e manifestar-se na vida humana. “Oreino de Deus não vem com observâncias (externas, rituais), nem se podedizer: ei-lo aqui! ei-lo acolá! – o reino de Deus está dentro de vós”. Com estaspalavras categóricas reafirma o Nazareno a verdade antiquíssima, mas no seutemplo obliterada, de que o homem é remido pelo elemento divino que neleexiste em virtude da sua própria natureza.Bem cedo, porém, já no primeiro século, penetrou no corpo do cristianismoprimitivo o elemento judaico sobre a essencial pecaminosidade do homem, fatoque se explica pela circunstância de terem os primeiros líderes da igreja cristãvindo do judaísmo, introduzindo inconscientemente no cristianismo nascentecertas ideologias da sinagoga. A ideia da essencial maldade do homem deu aocristianismo primevo, e posterior, um colorido dualista e pessimista, influindoprofundamente no conceito do processo da redenção.Jesus, porém, não sucumbiu a essa ideologia, razão porque seincompatibilizou com os chefes da sinagoga ao ponto de o levarem à cruz.Um dia, refere o Evangelho, estavam os discípulos do Nazareno discutindosobre quem deles era o maior no reino de Deus; e cada um deles fazia valer osseus pretensos títulos e direitos a essa primazia. Ao que o Mestre chamou umacriança, colocou-a no meio dos litigantes ambiciosos e disse-lhes: “Se não vosconverterdes e tornardes como esta criança, não entrareis no reino dos céus”.É evidente que Jesus considera essa criança como habitante do reino de Deus;pois seria absurdo supor que ele propusesse um modelo impuro aos impuros.Essa criança, porém, não fora “purificada” por nenhum rito legal ousacramental, que não existia; era pura assim como nascera e fora concebida;nunca tivera impureza alguma. Exige Jesus que seus discípulos, feitos impurospor culpa própria, se tornem puros por esforço próprio, assim como aquelacriança era pura por sua própria natureza.Em outra ocasião ameaça Jesus com terrível castigo àqueles que levarem apecado um daqueles pequeninos que creem nele, porque os seus anjoscontemplam sem cessar a face do Pai dos céus. Ora, nenhuma dessascrianças hebréias “cria” em Jesus mediante ato consciente de fé; ninguém oconhecia; o Nazareno era para elas apenas um bom rabi judeu, e nada mais. O“crer” dessas crianças não era um ato, mas uma atitude interna, um modo deser em harmonia com Deus – o que prova que essas almas eram boas e puras,e não pecadoras e inimigas de Deus. Também seria absurdo supor que osanjos de Deus tanto se desvanecessem pela proteção de um bando de
  • 41. pequenos pecadores. E como podiam os pecadores adultos levar ao pecadoessa crianças se elas já estivessem em pecado?..Por esta mesma razão também não mandou Jesus batizar crianças, e o próprioJoão só batizava adultos. O batismo de João, a que Jesus alude, só visavapecados pessoais, e não algum pecado original que os batizandos tivessemherdado de seus antepassados, como a teologia de hoje ensina.Sobre esta base positiva do Evangelho de jesus Cristo é possível erguer oedifício de uma educação sólida – ao passo que a teologia eclesiásticacorrente, quer desta, quer daquela igreja, é totalmente inapta para oferecerbase conveniente.O descalabro da nossa educação tem suas raízes em séculos anteriores. Aquino Brasil começou em 1500, mas em outras partes começou muito mais cedo,talvez em 313, quando, pelo edito de Milão, o imperador pseudo cristão,Constantino Magno, deu início à substituição do Evangelho do Cristo pelateologia dos cristãos.Se não voltarmos decididamente ao espírito crístico do Evangelho, nãoteremos base eficiente para uma nova educação. Teremos a coragem derealizar tão arrojada aventura? E teremos do nosso lado as autoridadespúblicas, que em geral, não se interessam pela qualidade do cristianismo, massim pela quantidade dos eleitores que lhes garantam poder e prestígio social epolítico?Necessitamos de um pugilo de heróis para realizar o grande ideal de uma novaeducação.
  • 42. OS MALES DA EDUCAÇÃO ESCATOLÓGICAUma das principais razões por que a nossa educação chamada religiosa setornou eticamente ineficiente é o seu caráter escatológico, quer dizer, a falsaconcepção do homem após-morte. É sobretudo neste ponto que estamosnavegando em águas tipicamente medievais, quando bem poderíamos ter davida futura concepção menos infantil e inadequada.Um dos setores da teologia eclesiástica do Ocidente, o mais conhecido entrenós, ensina que, após a morte física do homem, vai sua alma (não ele!) paraum de dois lugares definitivos que existem no “outro mundo”: céu ou inferno; ouentão para o purgatório, lugar provisório onde a alma deve expiar os pecadosveniais, como também as penas temporais dos pecados mortais, cuja culpa epena eterna já foram canceladas antes da morte.O outro setor da teologia eclesiástica ensina o mesmo quanto a céu e inferno,negando apenas a existência de um lugar provisório de purificação.Tomando por fundo qualquer uma dessas concepções teológicas, torna-seassás difícil a tarefa da educação. O único elemento razoável que existenessas ideologias é o do purgatório – mas, por infelicidade, é precisamenteesse fator que foi abolido pelo protestantismo, e é relegado a segundo planopela teologia romana. Nenhuma dessas teologias se guia por um espírito deverdadeira e genuína “catolicidade”, palavra grega para “universalidade”.Neste particular, o espiritismo cristão deu um grande passo para frente, nãoensinando pecado herdado de terceiros, mas pecado herdado do própriopecador e cometido em existência anterior. Embora não consideremos oespiritismo como sendo simplesmente como idêntico ao cristianismo do Cristo(o qual, aliás, é inorganizável, porque toda organização é filha do egoísmo!),admitimos, contudo, que ele contribuiu e com preciosos elementos para aevolução espiritual do Evangelho do Cristo. A sua doutrina escatológica é bemmais aceitável e fornece melhor base educacional do que os dois tipos decristianismo acima mencionados. Deixando de parte a tendência sectária edogmatizante que invadiu vastas camadas do espiritismo brasileiro, achamosque esse movimento, no seu plano superior, asectário, poderá prestar notáveisserviços à cristificação do nosso tradicional cristianismo.
  • 43. Nem a razão humana nem a revelação divina admitem a idéia de que ohomem, com a perda de seu corpo material, entre num estado definitivo. Tantoos fatos históricos milenares como também a psicologia abismal dos nossosdias provam o contrário. A evolução do homem não termina com 50, 80 ou 100anos de vida terrestre. Mesmo não admitindo a teoria da reencarnaçãomaterial, somos obrigados a aceitar que “há muitas moradas na casa do Paiceleste”, isto é, muitos estados nos quais o ser humano possa fixar morada oupermanência temporária, na sua longa jornada rumo a Deus. E como “cada umcolherá o que semeou”, é evidente que o homem colherá cada vez, naexistência subsequente, o que semeou na existência antecedente. A lei básicade “causa e efeito” (karma) abrange todos os setores do universo individual. AConstituição Cósmica não permite que o homem, após-morte, perca a sua linhade continuidade com a vida presente, que deixe de haver homogeneidade entreessa fases várias de existência única. Não há “outra vida”, há uma vida únicaem diversas fases de evolução – assim como acontece em outros setores danatureza; a vida da borboleta é essencialmente a mesma que a vida dacrisálida, da lagarta e do ovo; apenas os graus de vitalidade e as formas demanifestação dessa única vida são vários. Também a vida da planta éessencialmente idêntica à vida da semente que lhe deu origem, ou ainda dasemente produzida por essa planta.Essa lei da continuidade da vida em diversas fases é de suma importância parao problema da educação.Segundo as teologias eclesiásticas, pode um homem levar 50 anos de vida empecados e crimes, aqui na terra, e logo após a morte física estar isento detodos os efeitos dos seus atos – seja em virtude de uma absolviçãosacramental, seja em consequência de um momentâneo ato de fé no sangueredentor de Jesus.Ora, é evidente que, neste caso, não existe proporção alguma entre causa eefeito, entre a gravidade da culpa, por um lado, e a função da absolviçãosacramental ou da fé fiducial, por outro. E essa flagrante desproporção entre odébito e o seu cancelamento gera nos que adotam essas teologias um estadode indiferença ou leviandade relativamente ao verdadeiro caráter do pecado oudelito; pois, se tão fácil é a libertação do débito moral contraído, por que deixarde o contrair, quando, em geral, a criação desse débito da culpa se acha ligadaa um gozo de maior ou menor intensidade? Se posso roubar, matar, mentir,defraudar, e gozar das vantagens imediatas desses pecados, porque nãopraticar esses atos e gozar das suas vantagens, se, na fração de um minuto,poderei libertar-me, mais tarde, dos efeitos ingratos que decorrem dessascausas? Se tão fácil é o rompimento dos elos da cadeia kármica dos meus atosnegativos, porque ainda envidar ingentes esforços por evitar a criação dessacadeia, resistindo à tentação de roubar, matar, mentir, defraudar, etc. ? Não meaconselha a “lei do menor esforço” escolher o mais fácil, que, neste caso, é
  • 44. cometer o pecado e libertar-me das suas consequências por meio de ummomentâneo ato de arrependimento posterior – tanto mais que a resistência aomal é, não raro, tão tremendamente difícil e doloroso? Porque não corrigir omal por um ato fácil de arrependimento, em vez de o prevenir por uma atitudedifícil de não-cometimento?No plano biológico, quase todas as pessoas, sobretudo aqui no Brasil, adotamessa política de corrigir os males físicos, em vez de se guiarem pela filosofia deos evitar. Todos os meios de publicidade – imprensa, rádio, televisão –apregoam sem cessar esse charlatanismo barato do corrigir em vez deprevenir. Você está com dor de cabeça? Tome um comprimido “A”. Está comazia de estômago ou má digestão? Ingira a droga “B”! Sofre de inapetência? Váa drogaria da esquina e compre o aperitivo “C”! É vítima de astenia sexual?Tome a injeção “D”!Não é esta a política doentia de suprimir sintomas que quase todo o mundopratica, em vez de seguir a filosofia sadia de prevenir as causas dos males?Infelizmente, as nossas organizações religiosas cometem o mesmocharlatanismo moral ou imoral, ensinando a seus adeptos o modo de selibertarem dos efeitos dos seus pecados, em vez de lhes mostrar comoevitarem as causas desses efeitos, o que seria cura do mal, e não apenas curade sintomas do mal.Esse caráter deletério e antimoral adere, sobretudo, à prática rotineira daconfissão sacramental. Suponhamos um jovem de 20 anos, tentado de cometerpecado de homossexualismo, ou pessoa casada tentada de adultério; pode serdificílima a resistência ao pecado. Mas, se a pessoa sabe que, depois decometido o pecado, pode libertar-se dele confessando-se rapidamente, edepois continuar a viver como se nada tivesse acontecido – quem nãoescolheria esse caminho mais fácil, em vez de criar dentro de si uma altavoltagem de resistência moral?Esse infeliz costume de dizermos aos pecadores que, depois de perdoado opecado – seja pela confissão, seja por um ato de fé –, eles se tornaram tãopuros como antes, esse costume, além de envolver grande mentira, é umdesastre psicológico e educacional. Não é verdade que, depois de um simplesato de arrependimento, o pecado seja totalmente cancelado, como se não foracometido. De cada ato mau permanecem resíduos venenosos nas profundezasda alma, facilitando novas quedas e colocando o pecador habitual numperigoso plano inclinado, onde futuras recaídas se tornam cada vez maisfáceis, e futuras resistências se tornam cada vez mais difíceis. A palavra “vício”vem de “vez” (vezo!); “vício” é uma atitude negativa, permanente, que resultoude muitas “vezes” de atos repetidos. Um jovem que cedeu 100 vezes aopecado de luxúria, e 100 vezes se confessou e arrependeu desse pecado, nãoestá puro como no princípio; está gravemente contaminado, pelo menos nas
  • 45. subconscientes profundezas de seu ser; é um viciado, uma vítima passiva equase indefesa. A verdadeira educação não está em lhe mostrar apenas comose arrepender do pecado, mas sim em lhe ministrar motivos eficientes para nãorecair no pecado.E que motivos seriam esses? Em última análise, já o dissemos, não podem sermotivos externos, como o medo do inferno, uma vez que esse inferno já estáevitado pelo arrependimento ou confissão; o motivo real e eficiente só pode sero respeito à sua própria dignidade, ao santuário da sua natureza humana, aoseu EU divino que, de forma alguma, deve ser profanado, porque no respeito àsacralidade desse divino EU é que reside todo o valor, toda a alegria e toda afelicidade da vida humana.Assim como, no plano biológico, a ingestão habitual de remédios diminuigradualmente a resistência interna do organismo, tornando-o cada vez maisalérgico a novos ataques mórbidos – da mesma forma é o pecador debilitadomoralmente pela aplicação de paliativos externos sem uma sólida resistênciainterna. Se um corpo humano possuía, digamos, 10 graus de resistência ao seratacado por algum mal, se não recebe auxílio de fora em forma de algumadroga ou injeção, vê-se obrigado a apelar para as latentes reservas internas eaumentar a sua resistência biológica de 10 a 11, a 12, a 15, a 20, a fim de fazerfrente ao inimigo; mas, se recebe reforços de fora, em forma de remédio fácil,deixa de intensificar a sua resistência interna, sabedor de que vai receberauxílio de fora, assim, em vez de aumentar sua natural resistência e criarimunidade contra a crença, diminui a sua energia vital, baixando de 10 a 9, a 8,etc., consoante a frequência e rapidez com que recebe os auxílios artificiais defora; habitua-se o corpo a obedecer à “lei do menor esforço”, esperandoreceber de fora o que poderia criar de dentro – e está estabelecido o perigoso evicioso estado de alergia permanente.É exatamente este o caso, no terreno da ética e da educação, quando ohomem confia em auxílios automáticos de fora, em vez de criar resistência vitalde dento. E o mal da nossa educação escatológica, que induz o homem aremediar, de preferência, os efeitos de seus atos, em vez de prevenir ascausas dos mesmos. Esse charlatanismo moral, ou imoral domina vastossetores do nosso sistema educacional, tanto civil como religioso. Necessitamosde médicos que nos mostrem como prevenir os males em sua própria causaprofunda, e não de curandeiros que nos ensinem como corrigir ou camuflar ossintomas superficiais do mal.Quer dizer que não devemos apelar para motivos religiosos, no terreno daeducação?Devemos, sim, e muito mais energicamente do que temos feito até hoje. Ogrande psicólogo e psiquiatra da atualidade, Carl Gustav Jung, afirma emquase todos os seus livros que no fundo de todas as curas verdadeiras está o
  • 46. fator religioso, ou seja, a experiência do Infinito, do grande TODO, de algo quetranscende as estreitas barreiras do pequeno ego. A estreiteza causa adoença, a largueza produz a saúde.Entretanto, não vamos confundir Religião (no singular e com inicial maiúscula)com religiões, ou formas específicas de religião, credos, dogmas, seitas,igrejas. Não raro, as religiões são as piores inimigas da Religião. Jesus era umhomem profundamente religioso – mas não professava determinada forma dereligião. Dois dos grandes homens do nosso século, Albert Schweitzer eMahatma Gandhi, são, certamente, homens profundamente religiosos, masnenhum deles é adepto de uma certa igreja ou seita. Eles têm Religião, masnão professam religiões ou credos.Se o educador consegue despertar no seu educando a corda profunda daReligião – idêntica ao que nós chamamos Filosofia Univérsica, ou FilosofiaCósmica – tem nas mãos a mais poderosa alavanca educacional, porqueatingiu o último centro da natureza humana. ***Em face do exposto, há quem apele para o exemplo do “bom ladrão” na cruz,cujos pecados – culpa e pena – foram cancelados num instante – “ainda hojeestarás comigo no paraíso”; logo, há uma extinção momentânea do pecado esuas consequências.Mas convém notar que aqui se trata de uma verdadeira e radical “conversão”ou, como diz tão maravilhosamente, o texto grego, em casos análogos, uma“metanoia”, vocábulo que significa literalmente uma “transmentalização”(metánous). Quem consegue transpor a sua antiga mentalidade “ego” e entrana nova zona do “EU”, converte-se, faz do seu “homem velho” um “homemnovo”, uma “nova criatura em Cristo”, um “homem cósmico”. Não se trata aquide um simples arrependimento, mas de uma verdadeira conversão; Judastambém se arrependeu, mas não se converteu. O arrependimento é algonegativo, uma detestação do mal cometido; a conversão é algo positivo, aprática sincera do bem.O ladrão na cruz, além de se arrepender, também se converteu, professandofirme convicção na existência de um grandioso mundo divino: “Jesus, lembra-tede mim quando entrares no teu reino”.A nossa educação tradicional tem de abandonar as superfícies periféricas dohomem e descer aos abismos do seu verdadeiro centro, onde brotam as fonteseternas da vida, saúde e felicidade.
  • 47. ADORAÇÃO, SERVIÇO E SOFRIMENTOO homem espiritualmente adulto é o único homem capaz de ser um verdadeiroeducador, porque só ele é plenamente educado.Como conseguir essa adultez espiritual?Três coisas são necessárias e suficientes – adoração, serviço e sofrimento.Da parte do educador, vêm os dois primeiros elementos, que são completadospelo terceiro, que vem dos outros ou do ambiente.A adoração se dirige a Deus, o serviço visa os homens.Adoração é a mais alta forma de amor místico, que o homem alcança medianteuma intensa e diuturna meditação ou contemplação do seu centro divino, esubsequente sintonização da sua vida com essa experiência.Não raro, depois de entrar em contato com o seu centro divino, sente o homema vontade de se isolar da sociedade humana e retirar-se a algum recantosilencioso, a sós com sua alma e com Deus. E convém mesmo que se isole,temporariamente, do mundo, a fim de intensificar a sua união com Deus. Maistarde, porém, quando devidamente consolidado nessa mística adoração deDeus, ponha a sua experiência divina a serviço dos homens. O homem que, defato, entrou na zona da divindade, deixa de ser água contaminável e torna-se“luz do mundo”, incontaminável; pode voltar ao meio dos profanos sem setornar profano, conviver com os impuros sem se tornar impuro.Daí por diante, sirva, espontânea e jubilosamente, aos homens, porque esseserviço desinteressado é a melhor medicina profilática para se preservar dosperigos da mística solitária. Só pode ser solidário com os homens quem souberser solitário com Deus. A mística solitária, quando prolongada e procuradacomo fim em si mesma, tem algo de inebriante e sedutor; é uma fascinantetorre de marfim onde o homem antecipa o reino dos céus, como Simão Pedrono Tabor, e sente vontade de “armar aqui a sua tenda”; mas essa mesmadelícia pode levar a uma perigosa infecção de luxúria espiritual.A fim de se premunir contra essa infecção e adquirir definitiva imunidade, deveo místico pôr a sua suave experiência com Deus a serviço da amargaconvivência com os homens; se conseguir realizar na vida prática 10% dos 100da sua visão mística, está de parabéns! E esses 10% de mística dinâmica que
  • 48. passaram o teste da vida prática valem mais que os 100 de mística puramenteestática que não passaram por essa prova de fogo.Disse-me um jovem entusiasta que iria procurar toda a espécie de sofrimentosa fim de se realizar em Cristo; respondi-lhe que era desnecessário ir em buscade sofrimentos, porque os outros homens se encarregariam disto com muitoprazer. Ninguém serve impunemente! Basta que alguém sirvadesinteressadamente a seus semelhantes para que estes façam cair sobre eleum dilúvio de sofrimentos, sobretudo os que forem mais beneficiados pelosserviços dele.Esse serviço voluntário e desinteressado da parte do educador, completadopelos sofrimentos por parte dos outros homens, é como o sol e a chuva deverão, que fazem brotar, florir e frutificar as plantas.Educador que não pratique a mística de uma intensa adoração de Deus e aética de um vasto e jubiloso serviço à humanidade não cria ambiente para umsofrimento fecundo e redentor – e sem esse sofrimento à luz da adoração e doserviço não há possibilidade para uma educação eficiente, porque faltam aoeducador as auras imponderáveis das quais depende, em última análise, todoo efeito da educação. Não interessa ao educando o que o educador sabe, dizou faz – interessa unicamente o que ele é, embora o educando não tenhaconsciência nítida desse elemento decisivo em seu educador. O que, em últimaanálise, prepara o ambiente na alma do educando é o “ser imponderável” darealidade central do educador, e não o “dizer ponderável” das suas aparênciasperiféricas. Por isto, nenhum governo do mundo pode criar educadores – essatarefa sublime está reservada à própria alma do educador. Só ele pode fazerda sua alma uma corda sonora, cujas vibrações despertem em outra alma asmesmas notas de experiência dormentes.“Ser bom” é a única possibilidade de contribuir para que outros sejam bons.Adoração!...Serviço!...Sofrimento!...
  • 49. PARA EDUCAR – SER EDUCADOO principal requisito para poder educar é ser educado. Ser educado significa,na linguagem comum, ter bons modos, boas maneiras sociais. Mas não é esteo sentido real e último de ser educado; a própria filosofia o desmente. “Educar”,como já lembramos, quer dizer “eduzir”, isto é, “conduzir para fora” (exducere,educere).Eduzir o quê?Eduzir das profundezas da natureza humana algo que nela esteja contido e seache ainda em estado latente ou dormente; despertar na alma do educandoelementos positivos e bons e entregar a esses elementos o governo da vida.Pois deve o educador saber que todo ser humano é um “universo”, isto é, umaunidade (uni-) que se desdobra em diversidade (-verso). Existem na naturezahumana numerosas camadas ou potencialidades, desde as mais baixas até asmais altas. Todo homem é um “microcosmo”, um pequeno cosmos, umuniverso em miniatura. Todo ser humano, desde o momento da suaconcepção, é uma síntese condensada de toda essa epopéia multimilenar dahistória da humanidade que a precedeu. Dentro de cada homem ecoam asvozes de milhares e milhares de gerações humanas, e também infra-humanas,que precederam o estado atual e da sua evolução.Entretanto, seria erro gravíssimo supor que essas vozes sejam apenas bradosdo subconsciente animal, vegetal e mineral do seu ego físico; também os ecosdo mundo superconsciente, fonte primária do subconsciente pré-histórico e doconsciente histórico, repercutem débeis ou fortes, através da natureza humana.Todo homem é uma imensa mescla de luz e trevas, de elementos positivos enegativos; nele cantam os anjos das alturas e gemem os demônios dasprofundezas. Compete o educador eduzir e reforçar os elementos positivos ereduzir e reprimir os elementos negativos.O homem, filho da luz divina, é como o nosso planeta Terra, filho da luz solar.A superfície da nossa terra é escura e fria; mas, com cada 30 metros deprofundidade, o calor aumenta por 1 grau. Na profundidade de 50 quilômetros,a terra é incandescente; a 200 quilômetros, ela é luz solar radiante, semnenhuma consistência sólida.Por fora, o homem é corpo material, sem nenhuma consciência divina.Mas para dentro, na zona mental-emocional, há certo calor e um pouco de luz.
  • 50. No centro espiritual, na alma, o homem é luz da Luz, luz divina em formahumana. Se ele consegue lucificar, pela força da luz central, a semiluz ouescuridão periféricas, terá realizado o seu grande destino, e será intensamentefeliz.Na camada externa da sua natureza, todo homem é egoísta, dominado peloinstinto do egocentrismo biológico, como qualquer planta e animal (para nãofalar do mineral, que também é egoísta a seu modo). É a lei fundamental detodos os indivíduos, o grito da “conservação do indivíduo”, em virtude do qualtoda criatura procura afirmar a sua vida individual, mesmo à custa de todas asoutras vidas, se necessário for. É o egoísmo inconsciente de toda naturezainfra-humana.No plano menos externo, o da inteligência, aparece esse egoísmo na formamais nítida e violenta de um egocentrismo consciente, dominado pelo intelecto.Nessa zona calcula o homem os meios mais eficientes para afirmar a suaexistência individual e dar-lhe a maior expansão e garantia possível (der Willezur Macht, de Nietzche, a vontade do poder), que é uma potencialização da“vontade de viver” (der Wille zum Leben) de Schopenhauer. A humanidade dehoje se acha em grau avançado nesse plano do egoísmo intelectual.De vez em quando surge, do seio dessa imensa massa de egoístas mentaisalgum homem que se diz altruísta, e uns pouquíssimos dos que assim seapelidam são realmente altruístas, enquanto a turbamulta dos outros secontenta com hastear na fachada do edifício da sua vida a bandeira doaltruísmo, e à sombra da mesma continua a cultivar o seu velho egoísmo; sãoos egoístas disfarçados, piores que os egoístas manifestos. Palavras como“caridade” e “filantropia” são, hoje em dia, bandeiras clássicas para camuflarvastas zonas de egoísmo. O altruísta pratica “ética”, em que ele vê o ápice daperfeição humana, ao ponto de incluir o próprio Deus no rol dos seres éticos,amigo dos seus amigos e inimigo dos seus inimigos.Para além do altruísmo ético se alarga o campo quase ignoto do misticismoespiritual. Os habitantes dessa zona ultrapassaram a concepção ética eentraram no setor propriamente espiritual. Transcenderam o plano horizontalda mente e invadiram afoitamente o universo vertical do espírito. Oespiritualista místico é essencialmente transcendente e dualista; traça nítidalinha divisória entre espírito e matéria, entre Deus e o homem; vê Deus comoalgo totaliter aliter (totalmente diferente) de tudo que há no mundo; para ele,Deus deixou de ser um super-homem, como ainda é para o éticoantropomorfista. É esta a zona clássica da fé (fé em sentido teológico). Oshebreus da antiguidade, sob a chefia de Moisés, e os muçulmanos daatualidade, sob o signo do islam (que quer dizer submissão), são formas típicasdesse espírito transcendente da fé num Deus distante, supremo ditador do
  • 51. homem e do mundo. Também as teologias eclesiásticas do Ocidente, romana eprotestante, professam o mesmo credo.Pode o homem ultrapassar essa zona do misticismo espiritual?A maior parte dos nossos místicos e espiritualistas não consegue transpor ainvisível fronteira; a sua espiritualidade é algo fora do mundo; para eles, o Deusdo mundo é eternamente incompatível com o mundo de Deus. De vez emquando, porém, aparece um homem, raríssimo embora, que ultrapassa afronteira da espiritualidade mística e entra no campo da consciência cósmica,onde a longínqua transcendência do Deus ausente se funde com a propínquaimanência do Deus presente. Para esse pioneiro do Infinito no finito, do finitono Infinito, Deus é a Lei, Luz, Vida, Inteligência, Razão, Espírito, Amor, aGrande Presença; Deus é a alma de todo o Universo e de cada uma das suasunidades individuais, porque tudo penetra e permeia como a íntima e únicaessência de todas as coisas, sem se identificar com nenhuma delas.O homem, nessas alturas da evolução, se sente como uma onda do grandeOceano, como um raio do grande Sol, como uma vibração da grande Vida,como um pensamento do grande Pensador, como um eco da grande Voz, queé Deus, o Deus transcendente a tudo e imanente em tudo. Não se senteseparado do grande TODO, nem idêntico ao grande TODO; sente-seintimamente unido, porém perfeitamente distinto desse TODO Universal. Viveem si mesmo as pulsações da Vida Cósmica, e a Alma do Universo vibra emcada átomo do seu ego individual. ***Quando o homem atinge as alturas dessa experiência cósmica, é ele realmente“educado”, porque “eduziu” das eternas profundezas da sua natureza humanao que nela havia de mais real e dinâmico. Esse homem é um “auto-realizado”,um “homem cósmico”, ou, no dizer de Paulo de Tarso, uma “nova criatura emCristo”.E só daqui por diante é que ele pode funcionar como verdadeiro “educador” ou“edutor”.De que modo poderá ele comunicar a seus educandos a sua própriaexperiência cósmica?De forma alguma! Se o pudesse e fizesse, cometeria o maior contrabando douniverso, um pecado anticósmico, impingindo o reino dos céus àqueles quenão estão maduros para o receberem; seria o mesmo que introduzir para ointerior da “sala nupcial” uma daquelas cinco virgens tolas do Evangelho quenão estavam com suas lâmpadas acesas, por falta de óleo. Felizmente, não épossível semelhante transferência. O professor transfere suas ideias a seus
  • 52. alunos, mas nenhum mestre espiritual pode transferir a sua experiência a seusdiscípulos.Para que serve, então, essa experiência cósmica do mestre?Serve para preparar um ambiente propício dentro do qual o educando possa tera sua experiência individual. A experiência vem de dentro de cada um, assimcomo a planta brota da semente viva; mas essa experiência não desperta senão houver ambiente propício, assim com a semente viva não chega a brotarem planta se não houver umidade terrestre e calor solar.A tarefa do educador é, pois, a que seu nome indica, um “edutor”, um criadorde ambiente favorável para seus educandos. É, porém, da íntima naturezadessa tarefa que ela só possa ser cumprida por alguém que possua dento de sio ambiente que deseja criar em seus educandos. “Da abundância do coração éque os lábios falam”. Não são as palavras do educador em si, mesmoperfeitíssimas, que preparam o ambiente na alma do educando; mas são asauras imponderáveis, os invisíveis fluidos cósmicos que acompanham aspalavras – são eles os criadores do ambiente favorável na alma dos outros.Mas essas auras e esses fluidos não existem na alma do homem que nãotenha experiência própria da alma do Universo.Diz o provérbio oriental “quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”;também se pode inverter o ditado e afirmar que, quando o mestre está pronto,o discípulo aparece. Onde quer que haja um verdadeiro mestre aí aparecemdiscípulos, porque a experiência cósmica cria em torno do mestre um “campomagnético” que não conhece fronteiras, e todas as agulhas libertas deimpedimentos começam a oscilar rumo ao polo magnético que alguresapareça. Basta que haja alguém com suficiente experiência espiritual, e osdiscípulos aparecerão, mesmo que o mestre nunca os chegue a conhecerfisicamente, nem funde igreja, escola ou sociedade iniciática – o heliotropismodas almas sensíveis não está condicionado a esses primitivos veículos.Numa palavra: para que alguém possa ser um educador verdadeiro e eficientetem de ser, ele mesmo, plenamente educado, ecoando a Voz do Infinito,refletindo a Luz do Universo em sua própria pessoa.Só um homem plenamente auto-realizado é que pode ser um verdadeiroeducador.
  • 53. PASSANDO DA CONSCIÊNCIA EXTERNA PARA A CONSCIÊNCIA INTERNAAs raízes do mal que o Brasil está sofrendo remontam ao ano 1500, entre nós,e aos inícios do século IV, na Europa. O mal está no fato de quererem oseducadores do povo manter, em plena Era Atômica, um sistema ético epedagógico flagrantemente inadequado para os tempos atuais. Queremmanter, como ponto de referência, uma espécie de “consciência externa”,heterônoma, baseada numa instituição hierárquica ou num livro. Obedecer aessa instituição ou a esse livro é considerado bom, desobedecer é tachado demau.Essa consciência exocrática, representada por uma hierarquia ou por um livro,tinha a sua eficiência em tempos idos, quando a humanidade cristã via nessainstituição ou nas páginas desse livro o eco da vontade de Deus, isto é,verdade absoluta, sagrada, infalível. Deus falara à humanidade através de umlocutor plenipotenciário ou através de um livro infalível, em cujas páginasfalavam dezenas de embaixadores plenipotenciários da Divindade – e tudoquanto esses ministros de Deus ordenavam ou proibiam era o próprio Deusque o ordenava ou proibia.Como era fácil, nesses tempos remotos, ser bom e encontrar o caminho dasalvação! Era só fechar os olhos e eclipsar a razão – e executar ordens...Durante vários séculos funcionou sofrivelmente esse sistema de locutores deDeus, em forma de um magistério infalível ou de um livro infalível. Funcionava,porque a humanidade era espiritualmente infantil, não comera ainda do “frutoda árvore do conhecimento”. O homem era incapaz de julgar por si mesmo, epor isto aceitava, sem protesto nem dificuldade, essas mensagens de Deus àhumanidade, em que se sentia perfeitamente seguro.Não é intenção nossa rejeitarmos esse estado de coisas como errado em simesmo – assim como não acusamos de errada a infância onde esse regimeprevalece e é normal. A criança não pode julgar por si mesma; deve confiar nocritério dos pais. Necessita, sobretudo, de segurança, e esta lhe vem de umaobediência incondicional à autoridade paterna. Uma criança normal não sentepruridos de liberdade e emancipação; a única coisa de que necessita para asua vida frágil é proteção e segurança.
  • 54. O que rejeitamos é o fato de serem esses processos antigos aplicadosmecanicamente a uma humanidade que, internamente, ultrapassou aquelaideologia, e tem o mesmo direito de se guiar por normas novas que a IdadeMédia tinha de obedecer a métodos antigos. Querer que um homem pensantedo século 20 aceite, de olhos fechados e razão eclipsada, tudo quanto umhierarca eclesiástico ou um livro papiráceo diga aos homens como sendo apuríssima revelação de Deus, é tão absurdo como querer obrigar a um homemadulto a nunca sair da casa paterna e nunca pensar e agir por conta própria,mas tão-somente cumprir ordens de pai e mãe. A independência do homemadulto é tão natural e necessária como natural e necessária foi a dependênciada criança.Essa falsa ideologia nasce de uma falsa concepção da natureza humana.Como se apenas uns poucos homens – o hierarca eclesiástico e os autores deum livro – tivessem a possibilidade de entrarem em contato direto com Deus esaberem, sem autoridade externa, a suprema verdade divina! Nós sabemosque essa mesma faculdade é inalienável patrimônio de toda e qualquer criaturahumana.Neste sentido escreve Mahatma Gandhi, nas páginas da sua auto-biografiaMinhas Experiências com a Verdade: “O único tirano que eu admito é asilenciosa voz do meu interior” (still small voice), isto é, a consciência, que é oeco da voz de Deus dentro do homem.Nenhuma mensagem de Deus é recebida por um simples ser humano sem queela sofra diminuição em sua verdade e pureza, porquanto “o recebido está norecipiente segundo o modo do recipiente”. O recipiente humano, porém é, porvia de regra, imperfeito, e por isto a revelação de Deus, por mais perfeita epura em si mesma, é recebida imperfeitamente e mesclada de impurezas.Nenhum profeta, nenhum vidente que não seja 100% perfeito e puro podereceber com 100% de pureza e perfeição a puríssima revelação de Deus; ohumano contenedor impuro contamina a pureza do conteúdo divino.Acrescem outros fatores de contaminação. Sendo a inspiração divina umfenômeno que se realiza no plano estritamente espiritual, é inevitável que a suamanifestação verbal e mesmo a sua concepção mental sejam degradadas.Toda e qualquer inspiração divina, antes de chegar ao conhecimento dahumanidade, já sofreu pelo menos duas deturpações: a deturpação mental e adeturpação verbal dos seus veículos humanos. Analisar mentalmente eexprimir verbalmente – oralmente ou por escrito – é deturpar inevitavelmente averdade e pureza da revelação divina – e isto sem a menor má-fé da parte dorecipiente humano, mas devido simplesmente à sua incapacidade físico-mental.E mesmo no caso que o recipiente da revelação divina seja de extraordináriapureza e perfeição, como no caso de Jesus Cristo, quem garante a seus
  • 55. discípulos a capacidade de atingirem a verdade e pureza total das palavras doMestre? E através de quantos outros canais chegaram até nós essas palavrasdos grandes avatares? ***Quer dizer que não temos nenhuma possibilidade e certeza de recebermos averdade em estado puro e genuíno?Temos, sim, ou, pelo menos, podemos diminuir grandemente as probabilidadesda deturpação.Existe dentro de cada um de nós uma “centelha divina” (por menos exata queseja essa metáfora poética), uma faculdade ou corda viva que responde à vozdivina e lhe faz eco fiel – eco direto, silencioso, sem análise mental nemexpressão verbal. Esse eco de Deus no homem é a sua “consciência”. Não é ohomem-ego, o homem-persona, mas é Deus no homem. A consciência éprecisamente o que seu nome diz, uma “ciência com”, um saber-em-companhia, uma noção em conjunto entre o finito do homem e o Infinito deDeus. Das coisas humanas o homem tem apenas “ciência”, conhecimentounilateral; das coisas divinas tem o homem “consciência”, conhecimentobilateral. Quando a voz de Deus fala ao homem, e o homem faz eco a essavoz, então surge a “consciência”, que é “a voz mais eco”, “chamamento eresposta”, “raio solar e reflexo”.Se a consciência fosse apenas a voz do ego humano, da persona, nunca seriacontrária aos nossos interesses humanos. Entretanto, é experiência geral que aconsciência pode opor-se diametralmente aos mais queridos ídolos e fetichesdo homem-ego; pode até exigir o que o homem tem de mais caro, a sua vidafísica. O mártir sacrificando a vida para obedecer à consciência prova que aconsciência não é a voz da personalidade humana. ***A voz da consciência é o supremo tribunal na vida humana; é o último ponto dereferência e centro de gravitação do pensar, falar e agir do homem. Para alémdessa fronteira não há outra. E o Absoluto, a zero-dimensão – é Deus nohomem.É chegado o tempo para ultrapassarmos todas as normas de conduta fora denós e guiarmo-nos pela suprema e última norma de dentro.Persiste sempre, nos inexperientes, a dúvida se essa voz da consciência émenos falível que as normas externas, a hierarquia eclesiástica e os livrosinspirados; pois, não são cometidos tantos crimes “em nome daconsciência”?...
  • 56. A consciência é ponto último e seguro de referência só no caso em que ohomem não vise nenhum interesse pessoal, utilitário, nem para si nem paraseu grupo, em atender aos ditames da consciência.Aqui se faz mister uma sinceridade conosco mesmos, sinceridade muito difícil,porém possível.Deve o homem robustecer cada vez mais, em si mesmo, essa voz silenciosa,escutando-a diariamente, em profundo silêncio físico-mental, e acatarcarinhosamente a sua orientação. Quem não pratica regularmente essacarinhosa e silenciosa auscultação da voz de Deus na alma não a perceberá,no meio dos ruídos da vida, e não terá norma segura e suprema para os seusatos.Com a frequente e intensa auscultação da voz divina da consciência adquire ohomem crescente facilidade, e até amoroso entusiasmo, em ouvir e seguir essaamiga invisível, evita o que reconhece como mau e pratica o que sabe ser bom– e isto não com medo de algum castigo ou esperança de um prêmio, da partedos homens ou de Deus, mas unicamente porque sabe e sente que essaobediência à voz de Deus nele é a suprema realização do seu próprio EUeterno. A consciência não é outra coisa senão a própria Constituição Cósmicado Universo, enquanto refletida ou ecoada na alma humana. Assim, o homemsintonizando a sua vida individual com as vibrações da consciência, sintoniza-se com a vida do Universo inteiro – e isto é ser bom e ser feliz.Uma vez descoberta e saboreada essa fonte de suprema felicidade em um serbom, o homem nunca mais pode ser mau, porque ser mau equivaleria a perderessa grande felicidade.Destarte, cria o homem um centro de gravitação interno, que resiste vitorioso atodos os embates de fora. ***Objeta-se que essa sintonização do indivíduo com o Universo é dolorosa eexige enormes sacrifícios, antes de se realizar. É verdade. Mas é precisamenteesse sacrifício e esse sofrimento preliminar que confere à felicidade a suasuprema sagração e final beatitude. A felicidade atinge o seu zênite de gozodepois de passar pelo nadir do sofrimento.É neste sentido que o educador deve educar a si mesmo para que possaapontar a seus educandos esse mesmo caminho – passando da consciênciaexterna do profano para a consciência interna do iniciado.
  • 57. DO CONSCIENTE FINITO PARA O INCONSCIENTE INFINITOA zona conhecida da nossa vida é o plano do consciente; mas, por detrás delese alargam, incomensuráveis, as profundezas do inconsciente, que melhorchamaríamos o Incógnito. O consciente, ou Cógnito, assemelha-se à superfícieiluminada do mar, ao passo que o inconsciente ou incógnito é como o própriooceano nas suas misteriosas profundezas. O consciente é o pequeno “finito”,menos de 1% do TODO – o inconsciente é o grande “Infinito”, mais de 99% danossa realidade.Nos ignotos abismos do Inconsciente estamos em contato permanente com ogrande TODO do Universo; é a nossa vastíssima “zona cósmica”. E dessesabismos misteriosos emergem, sem cessar, as grandes forças da nossa vida,forças tanto negativas como positivas.É opinião geral dos inexperientes que o consciente seja o perfeito, o positivo, oluminoso em nós, ao passo que o inconsciente seja o imperfeito, o negativo, otenebroso. Há também quem identifique o inconsciente com o mundo inferiordos instintos cegos, ou então com os resíduos de um consciente que passou aser ex-consciente; acham que o inconsciente seja aquilo que, um dia, foiconsciente e depois desceu dessa superfície iluminada do ego para astenebrosas profundezas do sub-ego. Freud é, em grande parte, responsávelpor esse erro, que, desde os primórdios do século passado, alastrou pelahumanidade.Na realidade, porém, o chamado inconsciente, ou incógnito, é muito mais doque a zona do instinto ou a “lata de lixo” do ex-consciente. É o grande TODO, oimenso Oceano da Realidade que não foi atingido pela luz do nossoconsciente.Quer dizer que o Inconsciente é treva, enquanto o Consciente é luz?Se treva e luz fossem algo absoluto, seria fácil responder a essa pergunta; mastreva e luz são conceitos relativos, e o ponto de referência é o homem. O quepara nós é luz, para outros pode ser treva, e vice-versa. O que a nossa retinavisual abrange normalmente é o pequenino segmento de vibrações que vão dovermelho ao violeta. Para além do vermelho há o infravermelho, e para além dovioleta há o ultravioleta – e esses dois tipos de vibrações são, para nós, treva,porque não afetam a nossa retina, e por isto não temos consciência da sua
  • 58. realidade e dos mundos existentes nessas dimensões. Real é, para nós,somente aquilo que exerce impacto sobre os nossos nervos e, deste modo,afeta o nosso consciente; o que não atinge o nosso consciente é, para nósinexistente, embora para outros seres, de constituição diferente, seja existente,real, enquanto o nosso “real” é para eles “irreal”. O “real” que nós conhecemosnão é o “real absoluto”, mas é “real relativo”.A ciência provou, por exemplo, que, para além do violeta, que é a extremafronteira de nossa perceptibilidade, existem ainda mais de 20 trilhões de outrasvibrações que a nossa retina não percebe, por serem demasiadamenteintensas. São treva – por excesso de luz! Quer dizer que pode haver treva porduas razões: ou por falta ou por excesso de vibrações. Uma luz negativa é,para nossa retina, treva; luz semipositiva é luz perceptível, e luz plenipositivatambém é treva. Quem fitasse em cheio o globo solar não veria luz alguma,mas teria a impressão de estar diante de uma grande escuridão; mas quando ohomem contempla luz solar menos forte, dispersa e difusa, tem a impressão deluz, porque sua retina não sucumbe à intensidade das vibrações. Uma avenoturna, voando em pleno meio-dia, não enxerga nada, mas de noite enxergaperfeitamente.O chamado Inconsciente pode tanto corresponder ao infra-vermelho (baixavibração) como também ao ultravioleta (alta-vibração). O inconsciente é, defato, o infinito abaixo e o infinito acima de nós; aquilo que representa um menose aquilo que representa um mais, considerado do ponto de vista da nossaatitude humana; pode ser um subconsciente e pode ser também umsuperconsciente. ***Ora, na zona do nosso pequeno Consciente vigoram os motivos de agir por nósconhecidos e acima especificados: somos bons e deixamos de ser maus, commedo de certas sanções – lei, polícia, cadeia, multa; céu, inferno – mas, sepenetrássemos no grande inconsciente do Universo, que está tanto dentrocomo fora de nós, descobriríamos uma Constituição Cósmica cujos imperativostêm caráter absoluto, eterno, universal. Nessa zona, não somos bons pelaesperança de algum prêmio fora de nós, nem deixamos de ser maus commedo de algum castigo vindo de fora de nós. Nessa zona começa o homem aser bom pelo fato de ser esta a sua verdadeira natureza, e a natureza dopróprio Universo; aqui, o homem é bom por ser esta a voz da HarmoniaUniversal. Encontra a razão última de ser bom dentro si mesmo. Ele é bom porser esta a voz da sua natureza ou consciência, e, ainda que não houvesse leinem polícia, nem céu nem inferno, esse homem continuaria a ser bom damesma forma, uma vez que o motivo de ele ser bom não é algo fora dele, algoheterônomo e heterogêneo à sua íntima natureza – é ele mesmo, o seu divinoEU SOU.
  • 59. O homem que atinge essas alturas da bondade imanente entra no regime da“cosmocracia”, isto é, ele é governado pelas mesmas leis eternas que regem ocosmos de fora. O seu cosmos de dentro se chama “consciência”, que é o ecofiel do cosmos de fora chamado “Universo”.O homem cosmocrático não aboliu a autoridade – transferiu a autoridade defora para dentro; passou da exocracia (governo de fora) para a endocracia(governo de dentro), e por isto pode dispensar qualquer governo de fora.O homem cosmocrático é um homem “anárquico”, não no sentido comum dotermo, de não aceitar governo algum, mas no sentido de não necessitar de umgoverno externo, por ter criado um governo interno mil vezes melhor do quetodos os governos externos. Seria um “anarquista cósmico”, e não um“anarquista caótico”. Mas... tão grande verdade só serve aos esotéricos.O educador que se educou a si mesmo para essa cosmocracia é o únicohomem capaz de ser educador para outros. O homem cosmocrático cujaconsciência entrou em perfeita sintonia com o supremo imperativo do Universoé um homem remido, um homem integral, um homem cósmico – e podeapontar o caminho certo a seus semelhantes.
  • 60. FAZER GRANDEMENTE AS COISAS PEQUENASQuem teve a paciência e intrepidez de nos seguir até aqui deve ter percebidoque o educador genuíno deve ser um verdadeiro iniciado. Só um verdadeiroiniciado é que pode ser um educador genuíno.Vivemos numa época em que, graças à invasão da filosofia Oriental em vastaszonas do Ocidente, milhares de pessoas desejam ser iniciadas, e milhares setêm em conta de iniciadas – quando, na realidade, são pouquíssimos osverdadeiros iniciados.Quase todos entendem que a iniciação consista num determinado ritoesotérico, cuja aplicação transfira o profano, automaticamente, para dentro deum novo mundo, fazendo dele um iniciado, da noite para o dia. Confundemcertas técnicas externas com a realidade interna. ***Certo dia, foram ter com Mahatma Gandhi dois homens e lhe pediram que osiniciasse. O grande mestre da Índia aceitou-os no seu asham, e logo osencarregou de varrerem o pátio coberto de folhas secas. Depois disto mandoua um dos dois candidatos à iniciação descascar batatas para o almoço,enquanto o outro teve ordem de rachar lenha para acender o fogo. Depois domeio-dia enviou os dois para uma aldeia vizinha fazer limpeza nas instalaçõessanitárias.E assim por diversos dias.Os dois iniciados esperavam a cada momento que Gandhi os convidasse,finalmente, para a suspirada cerimônia de iniciação espiritual; esperavam,talvez, que se fechasse com eles numa salinha misteriosamente iluminada,com o ambiente impregnado de perfume de incenso e, ao som de melodiassacras e fórmulas mágicas, lhes conferisse poderes extraordinários. Nadadisto, porém, aconteceu.Finalmente, os dois iniciados perderam a paciência e perguntaram ao MahatmaGandhi quando começaria o rito sagrado da iniciação.– Já começou – respondeu Gandhi –, falta apenas uma coisa.
  • 61. – Que é que falta? – perguntou um dos dois, cheios de esperança de verchegado o momento solene. O Mahatma, porém, lhes respondeu calmamente:– Falta apenas que os senhores façam com espontânea alegria e entusiasmo oque até agora fizeram a contragosto e compulsoriamente. Nada mais falta...No mesmo dia, os dois abandonaram o ashram, decepcionados, e,provavelmente, foram contar aos amigos, lá fora, que Gandhi nada entendia deiniciação espiritual, tanto assim que os mandou varrer lixo, descascar batatas,rachar lenha, limpar privadas, etc. ***Educar é eduzir, conduzir para fora da alma do educando, despertar edesenvolver o que nele existe de positivo e de bom, e não eduzir nemdespertar o que nele há de negativo e mau.O educador, repetimos, é um “edutor”. Realizar essa “edução” dos elementospositivos e bons é a mais difícil e sublime de todas as ciências e artes. Anatureza humana é um misto de luz e trevas, de grandeza e miséria; todohomem é um anjo e um diabo em potência. É arte delicadíssima saber exprimiro que no educando há de bom, e reprimir o que nele há de mau.E, como toda arte consiste numa síntese de técnicas e de inspiração, assimtambém a arte suprema da educação. O grande escultor francês AugusteRodin disse, um dia, a seus alunos, num atelier de Paris: “Apoderai-vos dastécnicas da vossa arte; e depois esquecei-as todas e cedei à inspiração!” Astécnicas são o corpo, a inspiração é a alma da arte; esta se exprime atravésdaquele.Não basta que o educado reconheça as técnicas educacionais, porque essastécnicas são apenas o corpo – e um corpo sem alma é um cadáver. Énecessário que ele também tenha inspiração, que nele haja o espírito (inspirarquer dizer: estar no espírito), a alma da educação. Essa alma, porém, é a almado próprio educador, que deve animar as técnicas, assim como a alma humanaanima o corpo e lhe dá vida e vigor.As técnicas se referem ao que o educador tem – a inspiração reflete aquilo queele mesmo é.Todo educador deseja fazer coisa grande. Mas o fato é que todas as coisasgrandes consistem em coisas pequenas, por vezes pequeninas epequeníssimas. Quem espera realizar coisas grandes em sua vida, talvezespera a vida inteira sem nada descobrir de grande para realizar, e assim, detanto esperar pelas coisas grandes e extraordinárias, deixa de realizar ascoisas pequenas e ordinárias – e sua vida é uma falência...
  • 62. Na realidade, nada de grande existe no mundo objetivo, das quantidades.Coisa grande só existe no mundo subjetivo, da qualidade. Fazer grandementeas coisas pequenas de cada dia, é a única possibilidade de realizar coisagrande, porque o objeto reveste o colorido do sujeito que o realiza. Todo objetoem si é neutro, incolor, amorfo; não é bom nem mau, eticamente; não épequeno nem grande, porque essa designação é bitolada do ponto de vista dohomem.Toda grandeza ou pequenez é um produto do sujeito que pratica os respectivosatos. A grandeza ou pequenez está na atitude, na intenção, na qualidadeinterna de quem pratica o ato. Varrer as ruas ou rachar lenha não é, de per si,coisa menor do que governar um país ou cristianizar um povo.Quem faz com grandeza de alma uma coisa qualquer é grande; quem faz compequenez de alma essa mesma coisa é pequeno.Quando os dois iniciados da Índia fizeram a contragosto as coisas corriqueirasde que Gandhi os incumbiu, fizeram coisa pequena; se tivessem feito comamor e entusiasmo essas mesmas coisas, teriam feito coisa grande.Se o educador é grande na sua atitude interna, grande será a sua obraeducacional; do contrário será pequena.Educar-se a si mesmo para a verdadeira grandeza, que é amor e benevolência,é o requisito número um para o verdadeiro educador.Ser ele mesmo, plenamente, assim como ele desejaria ver o seu educando –isto vale mais que todas as técnicas e valoriza essas próprias técnicas.
  • 63. DA PEDAGOGIA À FILOSOFIAJá deve o leitor ter percebido que, neste estudo sobre novos rumos para aeducação, estamos ultrapassando a moldura habitual de um tratado depedagogia educacional e invadindo afoitamente os domínios da filosofia e damais remontada metafísica. E nenhuma educação real é possível sem queatinjamos as últimas raízes da natureza humana.Podemos, sim, persuadir o educando a que faça isto ou deixe de fazer aquilo –mas persuasão não é convicção, e sem verdadeira convicção não háverdadeira educação.Verdade é que o educador não pode nem deve transmitir ao educando todasas grandes verdades sobre a natureza humana – mas o certo é que ele mesmodeve possuir pleno conhecimento e profunda experiência das basesmetafísicas e místicas da pedagogia educacional. Para que o mestre possatransmitir eficazmente 10% ao discípulo, deve ele mesmo possuir 100% deconhecimentos e, sobretudo, de experiência própria; os restantes 90% nãotransmissíveis atuam como “capital de reserva” para garantir os 10% postos emcirculação. Quem possui apenas os 10% que tem de transmitir, corre riscoiminente de “falência”, porque dentro em breve se sentirá esgotado. “Quem émestre no reino de Deus”, disse Jesus, “tira do tesouro do seu coração coisasnovas e coisas velhas”.Quando o Nazareno falava, dizia o povo, assombrado: “Esse homem fala comonunca ninguém falou; fala com poder e autoridade, e não como nossosescribas e sacerdotes”. Que é que o povo quer dizer com essa expressão“poder e autoridade”? Humanamente falando, Jesus não tinha “poder” algum,nem militar, nem político, nem financeiro; qual, pois, o alicerce da sua“autoridade”?A impressão de “poder e autoridade” que os ouvintes sentiam irresistivelmenteprovinha da profunda e vasta experiência do divino Mestre. Ele sabia esaboreava, por experiência íntima e vivência integral, o que dizia ao povo. Aspalavras não lhe vinham da flor dos lábios nem de simples especulaçõescerebrais. O pouco que o Nazareno dizia ao povo, por dizível, era como queum eco longínquo do muito que não lhe podia dizer, por indizível; era comoumas gotas lançadas à praia do oceano imenso da sua sabedoria experiencial.O mar profundo e vasto do seu “ser” era a garantia dessas pequenas gotas doseu “dizer”. O povo ouvia o pouco que ele externava em palavras, e adivinhavao muito que recatava nas profundezas de sua alma. E era precisamente esse
  • 64. “muito”, esse “indizível” que cingia o “pouco”, o “dizível”, como de um halo demistério, de “poder e autoridade”.Porquanto, a verdade é esta: não impressionamos os homens pelo quedizemos ou fazemos, mas sim pelo que somos. Esse “somos” se refere aonosso contato vital com o Infinito, o Eterno, o grande TODO, Deus. Esse “seralguém” satura de poder e autoridade o nosso “fazer algo”. Não basta fazeralgo, por muito que seja esse “algo”, quando não somos “alguém”. Mas homemalgum é “alguém” sem uma profunda experiência mística revelada em vastavivência ética. Essa profunda vertical da experiência mística revelada na vastahorizontal da vivência ética perfaz o “homem cósmico”, ou o “homem crístico”em toda a sua plenitude.E só um homem cósmico ou crístico é que pode ser um educador genuíno eautêntico, porque só ele pode falar das profundezas do seu ser; e essaplenitude do seu grande “ser” é que acorda poderosos ecos nas profundezasdas alma que o ouvem e o veem. O homem que é alguém, graças a seucontato com o Infinito, não necessita de falar muito nem de fazer muito; o seupróprio “ser”, embora totalmente silencioso e anônimo, é que produz grandesefeitos, porque põe em vibração as cordas íntimas do “ser” que existem nasprofundezas das outras almas.De maneira que o educador, para dar peso e impacto certeiro às suas palavras,tem de criar e manter por detrás desses símbolos verbais o grande simbolizadoreal, que consiste no seu contato com a Vida Universal do Cosmos, a Alma doUniverso, o Espírito invisível que permeia todas as coisas visíveis.Sem essa experiência cósmica, ultramística, não pode haver educadoreficiente; porque, em última análise, não interessa a nenhum dos meuseducandos o que eu sei, mas tão-somente o que eu sou. (O verdadeiro saber éidêntico ao ser, mas, na linguagem comum, saber é apenas um conhecerintelectual, e é neste sentido que negamos a eficácia do saber, do saberpuramente intelectual, analítico, horizontal).Nenhum educador, nenhum homem que não se tenha identificado vitalmentecom a vida do Universo pode falar com poder e autoridade, porque só essecontato é que dá às suas palavras o peso e o impacto decisivos. O resto éruído vazio, deslumbrante vacuidade, fogo de artifício, teatro de fantoches.Com efeito, o educador comum, sem essa experiência, é um fantoche, umboneco de engonços a agitar-se no palco, manipulado por cordéis alheios aseu próprio ser. Pode ser divertido contemplar esse teatro de fantoches, masninguém está disposto a fazer sacrifícios e abrir mão de certos ídolos e fetichesqueridos por amor a esses bonecos.
  • 65. PRECISA-SE DE UM EDUCADOR!O problema máximo e mais doloroso, no setor educacional, não é o educando,mas sim o educador. Não temos educadores educados no espírito da verdadelibertadora. E os poucos educadores verdadeiros que existem não têmprojeção pública, porque as suas idéias, por demais avançadas, seriamconsideradas obsoletas e retrógradas. É que a evolução caminha com passosmínimos em espaços máximos.Antes de tudo, o educador comum considera o seu trabalho como umaprofissão, como outra qualquer, quando devia ser um puro ideal, um sagradoapostolado.Entretanto, o maior dos males é este: não temos educadores que possuamsuficiente experiência própria para poderem servir de diretores aos outros. Nãobasta ter lido ou ouvido a verdade; não basta professar teorias certas sobre averdade. Quem não viveu e sofreu e saboreou a Verdade, em toda a suaplenitude, amplitude e profundidade, esse não pode ser educador eficiente,porque não é suficientemente educado.Só pode conduzir os homens quem é conduzido por Deus.Quem não é conduzido por Deus é condutor cego conduzindo outros cegos.Pouco ou nada interessa ao educando quanto o educador leu, ouviu, estudouou decorou. Nada disto exerce impacto real sobre ele. O educando só éatingido e movido interiormente por algo imponderável, porém intensamentereal e dinâmico, algo que o educador tenha experimentado, dolorosa ejubilosamente, dentro de si mesmo, algo pelo qual ele possa vivergloriosamente e morrer tranquilamente.Quem nunca esteve sofrido de Deus e sofrido de si mesmo não é educadoridôneo. A educação tem que ver muito mais com o que o educador é do quecom aquilo que ele faz ou diz.O educador não é um simples professor que transmita ideias a seus alunos – éum verdadeiro mestre que vive tão intensamente a verdade que seusdiscípulos se sintam irresistivelmente contagiados por essas poderosas auras.Pode o professor fazer algo para seus alunos – mas só o mestre é que é muitopara seus discípulos.
  • 66. O íntimo ser é incomparavelmente mais poderoso do que todo o externo fazer.Quem é realmente bom, pelo contato direto com o Infinito, nunca deixará defazer muito pelos outros, embora não diga muito daquilo que viveu e sofreunesse caminho de ser bom. ***E com isto chegamos à conclusão de que o verdadeiro educador deve ser ummestre na experiencial verdade sobre si mesmo e na vivência integral dessaverdade.A experiência mística da verdade revelada em vivência ética é, em últimaanálise, o programa total do educador. Ser bom é o único meio eficaz parafazer bem.Por onde se vê que que o problema educacional não é, a bem dizer, umproblema do governo, mas um problema de evolução individual e de algumaorganização sagrada que crie ambiente favorável para essa evolução interna.Nenhum governo do mundo pode decretar que eu seja bom.Nenhuma banca examinadora pode verificar e atestar se eu sou bom educador,porque não tem ingresso no meu foro íntimo.O educador deve fazer de si mesmo um homem plenamente “realizado”, deveser um pleni-homem, um homem cósmico.A pedagogia educacional tem raízes na mais profunda metafísica do homem esua afinidade com o Infinito.Onde estão esses homens cósmicos? esses homens plenamente realizados?...
  • 67. NINGUÉM SERVE IMPUNEMENTEEducar é, antes de tudo, uma atitude de servir. Mas, como o nosso velho egosó quer ser servido e tem horror ao servir, é indispensável que o educadorultrapasse esse velho ego e descubra o novo EU.Certo dia, refere o Evangelho, estavam os discípulos de Jesus discutindo entresi sobre quem deles era o maior no reino dos céus; e cada um fazia valer osseus pretensos direitos à primeira grandeza. Então lhes disse o divino Mestre:“Os reis e príncipes deste mundo dominam sobre seus súditos e por isto sãochamados grandes; convosco, porém, não há de ser assim, mas, aquele dentrevós que quiser ser grande seja o servidor de todos”.É esta a nova filosofia crística da grandeza pelo servir, suplantando a velhapolítica luciférica da grandeza por ser servido. Para o nosso ego profano, serviré inferioridade, ao passo que ser servido é superioridade. Os grandes mestresda humanidade, porém, são unânimes em proclamar a sabedoria cósmica deque a verdadeira grandeza consiste em servir, espontânea e jubilosamente,sem nenhuma esperança de retribuição, gratidão ou reconhecimentos da partedos homens.Ninguém pode ser verdadeiro educador se não criar dentro de si um climapermanente de querer servir.Entretanto, não se esqueça ele de que essa permanente atitude de quererservir, voluntária e gratuitamente, cria infalivelmente o pólo contrário dosofrimento. Por mais estranho e paradoxal que pareça, a grande verdade éesta: NINGUÉM SERVE IMPUNEMENTE!Serviço produz sofrimento.Benefício produz ingratidão!Isto é psicologicamente explicável. O beneficiado cedo ou tarde, se sentiráhumilhado pelo benfeitor; sente algo como inferioridade em si, e algo comosuperioridade no outro. E esse senso de humilhação e inferioridade se revela,algum dia, em forma de ingratidão e de revolta.O mesmo acontece com o serviço espontâneo: produz sofrimento.Mas esse sofrimento é a melhor medicina profilática para manter o servidornuma permanente atitude de humildade e pureza e preservá-lo do orgulho e davanglória, de que sofria aquele fariseu no templo de Jerusalém que agradecia a
  • 68. Deus por não ser “como o resto dos homens, ladrões, injustos, e adúlteros”, eleque “jejuava duas vezes por semana e dava o dízimo de todos os seushaveres”.Homem! no dia e na hora em que conseguires libertar-te do derradeiroresquício do desejo impuro da gratidão ou dos resultados externos dos teustrabalhos – nesse dia e nessa hora serás livre e liberto de toda a escravidão, esentirás em ti uma alegria tão grande, uma beatitude tão profunda que, em facede tamanha felicidade, se eclipsarão as mais deslumbrantes glórias e as maisfascinantes alegrias que o mundo oferece a seus servidores.E então, e só então, compreenderás o que é ser educador, redentor de sereshumanos que necessitam de redenção.E serás realmente feliz – porque só procuraste a felicidade dos outros.Quem quiser ganhar a felicidade perdê-la-á – mas quem perder a suafelicidade por causa da felicidade dos outros, esse a ganhará!É justo que o servidor sofra, e, como o maior dos serviços é o da educação, énatural que o educador sofra muito.Ninguém serve impunemente!Ninguém educa impunemente!É esta a sabedoria dos séculos e milênios:Educador, educadora! Presta a teus semelhantes todos os serviços de que éscapaz, gratuitamente, espontaneamente, jubilosamente – mas não esperesgratidão, aplausos, reconhecimento, nem jamais permitas que em ti nasça osentimento de seres um herói, uma pessoa virtuosa, qualquer espécie de elite,de exceção ou de “super”. “Quando tiveres feito tudo que devias fazer, dize:Sou servo inútil; cumpri apenas a minha obrigação; nenhuma recompensamereço por isto” (Jesus, o Cristo).Se em ti conseguires criar e manter essa atmosfera de perfeita despretensão,serás ótimo educador, maravilhosa educadora – mas não te delicies nisto! Abeleza só é verdadeiramente bela quando totalmente ignorada; no momentoem que ela é contemplada complacentemente perdeu o mais delicado dos seusencantos...Liberta-se definitivamente do desejo impuro da justiça, da gratidão, doreconhecimento. No dia e na hora em que fizeres algo com o secreto desejo deseres admirado ou aplaudido, estás perdido! Porque nesse momento és vítimado egoísmo – do pior dos egoísmos, que é aquele que aparece em roupagensdo altruísmo.
  • 69. Trabalha intensamente, mas renuncia a cada momento aos frutos do teutrabalho! No dia e na hora em que esperares resultados palpáveis dos teustrabalhos, ou te entristeceres por falta desses resultados, estás perdido, porquecedeste ao egoísmo!Seja o único motivo dos teus trabalhos o amor, a alegria, o entusiasmo, apuríssima e divinal consciência de seres cooperador de Deus na construção domundo e na redenção da humanidade. Não te preocupes jamais com osresultados palpáveis dos teus trabalhos, porque esses mesmos trabalhosrealizados com o máximo de perfeição e alegria são o verdadeiro resultado;esperar prêmio posterior, fora do próprio trabalho, é espírito mercenário eanalfabetismo espiritual. És cooperador de Deus na criação do mundo e naredenção do homem – não será isto recompensa suficiente? Para quenecessitas tu de uma recompensa adicional, extemporânea, alheia ao própriotrabalho prestado? Deixa de ser tão pueril e torna-te, finalmente, adulto!
  • 70. SEGUNDA PARTEEDUCAÇÃO SOCIAL
  • 71. RUMO À COSMOCRACIA MUNDIALAs democracias do século XX, salvo raras exceções, estão agonizantes. Quasetodas ainda sobrevivem graças a constantes injeções. Perderam a suavitalidade interna, e isto não por causa dos maus democratas que constituemessas democracias, como certos “médicos” diagnosticam, mas em virtude deum mal intrínseco, inseparável desses regimes. É de praxe dizer que ademocracia em si é boa, mas que os homens são maus; se os democratasfossem tão bons como as democracias, dizem, tudo iria às mil maravilhas.Não é exato. O próprio conceito da democracia envolve um germe dedissolução. E por isto não bastam remédios e injeções, paliativos ecataplasmas de espécie alguma para evitar a sucessiva decadência dasdemocracias – é necessário abandonar o próprio conceito da democracia eabraçar uma concepção totalmente diversa, que, na sequência destas linhas,chamaremos “cosmocracia”. Não basta medicar os efeitos da doença – énecessário ir à própria causa do mal. Aquilo é charlatanismo superficial, isto écura radical...Cometemos o erro de querer perpetuar o velho conceito democrático, quando ahumanidade dos nossos dias, pelo menos a humanidade-elite, já ultrapassou oestágio evolutivo que preconizava o regime democrático como ideal e definitivo.Esse obsoleto anacronismo cria no homem do século XX uma tensão e umaatmosfera de insegurança e mal-estar; por um lado, quer ele crer no podersalvífico da democracia, que se lhe tornou palavra sagrada – por outro lado,despertou nele uma nova consciência que lhe segreda, com crescente nitidez einsistência, que existe um regime ultra-democrático e que os melhores dentrenós estão maduros para compreender e viver esse novo regime adaptável aoestado atual da natureza do indivíduo humano.A nossa Constituição proíbe abolir o regime vigente por meios violentos – enós, obedientes à lei, não pregamos revolução destruidora –, proclamamos,porém, uma evolução construtora, e, para que possamos construir, algo tem deser destruído, não por violência física, mas por compreensão metafísica. Nãohá maior poder que o do pensamento, quando baseado na verdade. MahatmaGandhi libertou a Índia da prepotência do império britânico, mas não derramounem permitiu a seus patrícios que derramassem uma única gota de sanguehumano; com meio século de ofensiva espiritual, Mahatma derrubou a
  • 72. defensiva material do Commonwealth e libertou mais de 400 milhões deindianos – fato único e inédito na história da humanidade.É necessário vitalizar o organismo decrépito da democracia com o novoespírito da cosmocracia.
  • 73. MONOCRACIATodo indivíduo humano, graças à sua própria natureza, é, no princípio,monocrático, quer dizer, governado por um indivíduo fora dele. Essamonocracia é, portanto, uma “alocracia” ou “exocracia”, um governo de outrem,um regime de fora. Toda criança é alocrática, porque governado por umindivíduo distinto dela, que são, geralmente, os pais. Essa monocraciaalocrática é natural para a criança. No princípio, o governado e o governantesão pessoas diferentes, porque o governado não está ainda em condições dese governar a si mesmo, não pode ser ainda um auto-governado, por isto temde ser um alo-governado. Para o ser humano infantil o único regime certo éalocracia, não autocracia. A autonomia da criança é mínima ou nula, por isto asua heteronomia tem de ser máxima ou total. O lema do Estado de São Pauloduco, non ducor (conduzo, não sou conduzido) não serve para a criança, quesó pode adotar a legenda ducor, nun duco.Essa heteronomia infantil, que exige alocracia, lhe garante a necessáriasegurança, ambiente indispensável para a infância. Nenhuma criança normalreclama liberdade, sente-se bem numa atmosfera de segurança, o maisimperioso elemento vital da sua existência. A liberdade é autocrática, asegurança é alocrática. Nesse período da vida, são incompatíveis a liberdade ea segurança, porque a liberdade gera insegurança, e a segurança é adversa àliberdade. Por ora, o problema é “ou – ou”, ou segurança sem liberdade, ouliberdade sem segurança. E, como o elemento fundamental da vida incipiente ésegurança, a criança sente instintivamente que a autoridade paterna e maternalhe garante esse elemento, e aceita espontaneamente essa autoridade.Nenhuma criança normal se sente escravizada pelo fato de ter de obedecer aordens vindas de fora. Essa alocracia lhe é algo inteiramente natural; umaautocracia prematura poria em perigo a sua segurança e sua própriaexistência. ***O que acontece no plano individual tem o seu perfeito paralelo no plano social.Os povos primitivos são naturalmente alocráticos, ou seja exocráticos,governado por outrem, de fora, porque a sua vida social é algo infantil, incapazde autocracia ou endocracia. Em cada tribo existe sempre uma pessoa de maisexperiência e critério, a qual, por direito natural, é considerada como “governo”;geralmente, é o homem mais idoso da tribo ou do clã, o “pai dos pais” ou“patriarca”, por vezes também a “matriarca”, a “mãe das mães”.
  • 74. O patriarcado ou matriarcado representam a monocracia em sua forma maissimples e primitiva. A segurança da tribo repousa na voluntária obediência dossúditos ao superior.Fenômeno análogo se dá no plano espiritual dos povos. Os povos deespiritualidade primitiva professam monocracia alocrática, ou seja exocraciaheterônoma. Uma pessoa considerada como excepcionalmente espiritual éreconhecida como chefe religioso da comunidade, e suas palavras sãoacatadas como ecos da divindade; por vezes essa pessoa chega a seridentificada com a própria divindade, ou é considerada embaixadorplenipotenciário e único de Deus, tão infalível como este mesmo. O dogma dainfalibilidade doutrinária do chefe espiritual é a última palavra em matéria deheteronomia religiosa e garante aos crentes o máximo de segurança espiritual.Uma vez que o homem se convença de que o chefe espiritual da sua igreja éinfalível, está solucionado o problema central da segurança e tranqüilidademetafísica, cuja ausência tanto atormenta os outros. A dificuldade está apenasem adquirir essa convicção integral, essa fé cega e incondicional nainfalibilidade do chefe; uma vez superada essa dificuldade e imposto silêncio atodos os protestos e dúvidas em contrário, o resto vem automaticamente, comoa conclusão decorre logicamente das premissas. Por isto, é recomendável queesse homem pense pouco e creia muito; o pensamento é a voz da liberdade,que gera insegurança; a fé é a voz da obediência, que gera segurança.O mundo espiritual é imensamente misterioso e incerto; raríssimos são oshomens capazes de se orientar com segurança nessa noite. Aqui, o duco éimpossível para a maior parte, enquanto o ducor é de imperiosa necessidade.Entre um milhão de homens dificilmente haverá um que seja capaz de seorientar por si mesmo nas regiões do mundo espiritual; por isto, necessita dealguém que tenha mais experiência do que ele e no qual ele tenha confiançaincondicional. Fechar os olhos, não pensar, crer e confiar – é esta a atitudecapaz de dar segurança e tranquilidade espiritual à maioria dos homens donosso tempo. Milhares e milhões daqueles que alegam não necessitar dessaheteronomia e heterocracia iludem-se a si mesmos, ou por não terem aindaatingido a misteriosa fronteira do universo espiritual, ou pelo fato de criaremuma segurança ilusória em lugar de uma certeza real.No mundo espiritual, quase todo homem é exocrático, à exceção de unspoucos místicos; necessita de um indivíduo humano que o conduza por essasveredas incertas e lhes dê segurança no meio da insegurança. Em partealguma é tão necessária a confiança como no terreno espiritual.Por isto, a exocracia é regra geral entre os homens religiosos; são exocráticosmesmo os que não reconhecem uma pessoa humana como chefe, mas umlivro como norma de crer e agir, porque também eles buscam a segurança numfator externo. Apenas uns poucos místicos verdadeiros, raríssimos, podem
  • 75. prescindir desse fator externo; eles ultrapassaram tanto a monocraciaalocrática como também a democracia egocrática – e entraram na zonadefinitiva da cosmocracia.
  • 76. DEMOCRACIAAté o fim da Idade Média, a quase totalidade da humanidade européia eramonocrática, tanto no terreno civil como religioso. A monocracia erarepresentada pelas monarquias – reinos e impérios – no terreno civil, e pelomagistério eclesiástico, ou papa, no campo religioso.Lá pelo fim do século XV chegou o tempo em que boa parte da humanidadecristã devia cruzar a fronteira da infância para a adolescência. A longa etranqüila segurança foi perturbada pelos clamores da liberdade. O homem pós-medieval, o homem da Renascença e da Reforma, sentiu em si o despertar dasua personalidade, do seu ego intelectual e revolucionário. Esse ego via natradicional obediência a uma autoridade externa uma escravidão, uma injustiça,uma usurpação, uma tirania. Procurou não somente corrigir os inegáveisabusos da autoridade civil e religiosa, mas resolveu destruir a própriaautoridade como tal. Nenhuma exocracia, nenhuma heteronomia era tolerada!E começou a grande luta contra trono e altar, campanha da qual a RevoluçãoFrancesa não foi senão o símbolo externo, aurora sanguinolenta de uma novaera evolutiva. Ruíram as monarquias, reinos e impérios. Os poucos monarcasque permaneceram nos tronos da Europa passaram a simples figurasdecorativas, espécie de saudosas relíquias colocadas em lindos nichos, massem influência decisiva na vida real dos povos.No plano religioso, foi o mundo abalado pela “Reforma”, que substituiu aheterocracia de um homem vivo e infalível pela heterocracia de um livro morto,igualmente infalível. Não houve mudança radical no regime. A autoridadeespiritual continuou do lado de fora do homem. Um livro, morto e mudo, aceitasem réplica qualquer interpretação individual, analítica, intelectual, carecendo,por isto mesmo, de uma autoridade unificante. A transição da heteronomiapapal para a heteronomia bíblica não representa modificação fundamental,porque, se eu e cada um dos crentes temos o mesmo direito de interpretar otexto sacro a nosso gosto e talante, como a liberdade democrática exige,embora esse novo regime pareça autocrático, ele é, na realidade, alocrático,não menos alocrático que a exocracia papal. Pela Reforma, a exocracia papalparecia ter sido transferida de fora para dentro, de uma autoridade externa ealheia para uma autoridade interna e própria – mas essa endocracia pessoal égrandemente ilusória; ela é pseudo-endocrática, ou, quando muito, semi-endocrática, porque é visceralmente egocrática. A Reforma prometeraestabelecer o governo da consciência individual em lugar da autoridade papal;
  • 77. mas o que fez, de fato, e continua a fazer, foi proclamar como supremo árbitroespiritual a ciência pessoal, isto é, a análise intelectual, egocrática, do textobíblico, em vez da consciência espiritual, a intuição cósmica do espírito daBíblia.O regime exocrático da Idade Média passou a ser, no tempo da Reforma, semi-endocrático, mas não atingiu as alturas e profundezas da verdadeiraendocracia, que seria a cosmocracia, o governo do espírito, da alma, da razãodivina, da consciência cósmica no homem.Como, porém, o ego intelectual é, por sua natureza, dispersivo e divergente,era inevitável que a introdução da egocracia na vida espiritual do homem daRenascença e da Reforma degenerasse, em breve, num pavoroso caos dedissensões e controvérsias religiosas, de onde surgiram centenas de seitasdiversas. ***No plano civil, foi menos caótica a transição do regime monocrático para oregime democrático. Os reis e imperadores foram substituídos pelo povo. Jánão havia soberano “por mercê de Deus” – os chefes democráticos eramchefes “por mercê do povo”, do “povo soberano”, que lhes conferia e tirava opoder, conforme as conveniências do momento. Foi proclamada, após aRevolução Francesa, essa maravilha paradoxal, ainda tinta de sangue ebanhada em lágrimas, do “governo do povo, pelo povo e para o povo”. Essastrês palavrinhas “do”, “pelo” e “para”, aparentemente tão inocentes,representam a alvorada de algo que parecia estabelecer a definitiva paz efelicidade dos povos sobre a face da terra – mas marcou o início de um períodode caos e desordem de que não conseguimos ainda libertar-nos.Por quê?Porque a democracia nasceu com o funesto “pecado original”, que nenhumbatismo foi capaz de cancelar; brotou de um pavoroso ilogismo, de cujasconsequências não conseguiu libertar-se. O homem democrático daRenascença e Reforma rejeitou afoitamente a heteronomia medieval, nacerteza de que todo homem nasceu livre e tem o direito de se governar a simesmo, segundo o seu próprio critério. Até o presente dia estão os nossoshinos democráticos repletos desse ingênuo ilogismo, de que o homem possa edeva governar-se a si mesmo e que isto é ser livre. E ai de quem não concordecom essa apoteose da chamada liberdade!Toda essa confusão deriva de uma falsa noção da verdadeira natureza doindivíduo humano – e uma premissa falsa invalida todas as conclusões nelabaseadas. Quando o homem comum diz “eu” – que é que ele quer dizer? quesignifica esse eu? Significa quase sempre o seu ego físico-mental-emocional,
  • 78. que ele identifica ingenuamente com o seu verdadeiro “EU”. Eu estou doente,eu sou inteligente, eu fui ofendido – em todos esses casos, e milhares deoutros congêneres, identifica-se ele com o seu corpo, com a sua mente ou coma sua psique, que são apenas três aspectos periféricos do seu EU central; sãoo seu tríplice “ego”, a sua “máscara” ou “persona” (a palavra latina “persona”,de que derivamos “pessoa” e “personalidade”, quer dizer literalmente“máscara”, invólucro ilusório).A democracia foi proclamada pelo ego e continua ser governada pelo ego; querdizer, por um fator periférico da natureza humana, falsamente identificado coma realidade central do homem, que é o “EU”. O homem não é corpo, mente,psique – ele é sua alma, também chamada razão ou consciência.Eu sou a alma.Eu tenho corpo, mente, psique.O corpo, a mente, a psique são órgãos, faculdades ou funções do meu “EU”,que deles se serve para entrar em contato com diversas zonas de mundos ouvibrações.Eu sou o EU.EU tenho o ego.EU é central.O ego é periférico.EU é puro altruísmo.O ego é impuro egoísmo.A democracia, fundada e mantida pelo ego, não representa uma verdadeiraendocracia, um governo de dentro, um regime central, porque o ego não écentral, interior. A egocracia é apanas semi-endocrática.Ora, toda a zona da semi-endocracia democrática é essencialmente egoísta,dominada pelo ego da personalidade; e por isto não pode jamais estabelecerverdadeira unidade e harmonia dentro do homem, e, como a segurança vem daunidade, e a insegurança vem da falta de unidade, é inevitável que a falta deelemento unitário inerente à democracia dê origem a esse caos, lutas edesordens.No plano horizontal do ego são absolutamente incompatíveis a segurança e aliberdade, porque se acham em polos opostos, adversativos. A segurançanasce da autoridade, a insegurança é filha da liberdade. Como, porém,autoridade e liberdade são inconciliáveis, no plano horizontal, como luz e
  • 79. trevas, como fogo e água, é inevitável que a democracia, filha da liberdade,destrua a segurança, filha da autoridade.É logicamente impossível que numa democracia haja autoridade, porque, parahaver autoridade, deve haver distância entre governante e governado, entresuperior e inferior, e quanto maior for essa distância tanto maior será apossibilidade de uma autoridade eficiente. Na democracia, porém, aconteceesse tremendo ilogismo: o governante e o governado são o mesmo, isto é, opovo. Dizer que é o presidente que governa é abolir a quintessência dademocracia, que, como todos sabem, é o governo do povo pelo povo e para opovo. O presidente, eleito pelo povo é, de fato, o povo personificado em fulanoou sicrano; o presidente de uma democracia sou eu, o cidadão democrata, opresidente são meus vizinhos, A, B, C, etc. O governo somos nós, osgovernados – que também somos os governantes. O povo-mandante é povo-mandado. O ego-governante é o ego-governado.Quem não vê nisto um círculo vicioso? espécie de “façanha do barão deMünchhausen” que, um dia, atolado no brejo, se agarrou pela cabeleira e sepuxou para fora, ele mesmo...Como poderia haver autoridade onde não há distância entre o superior quegoverna e o interior que é governado? Entre o legislador e o legislado? Como épossível mover uma turbina com a água de um lago sem queda, sem diferençade nível entre o movente e o movido?Todo o impacto da força vem da diferença de nível, de uma alta-tensão, deuma voltagem, da desigualdade entre o polo positivo e o polo negativo. Noconceito democrático, o ego governado pelo ego governante é um grandepseudos, uma funesta mentira ou ilusão, uma vez que semelhante processo éintrinsecamente impossível, porque contraditório.Esse círculo vicioso, essa pseudocracia, é responsável por todas as fraquezase desordens das democracias. Por isto, é absurdo dizer que a democracia éboa, mas os democratas são maus; o contrário é que é verdade; há muitosdemocratas melhores do que a democracia em que vivem, e, graças a retidãodesses democratas, as democracias ainda são até certo ponto toleráveis. Se ohomem não fosse, no último reduto da sua natureza, cosmocrático, não haveriaesperança para as democracias; mas essa esperança de redençãodemocratica existe, porque todo homem é cosmocrático por sua íntimanatureza, embora essa cosmocracia latente no homem não se tenha aindarevelado explicitamente. Onde quer que sobreviva uma democracia ordeira, aí,é certo, vivem numerosos democratas melhores do que a democracia,democratas que, conservando o rótulo externo, são internamentecosmocráticos. Graças a esse espírito cosmocrático de certos democratassinceros, as democracias têm esperança de sobrevivência e de regeneração.
  • 80. Quando o homem-ego descobre o homem-EU – então nasce a cosmocracia.
  • 81. COSMOCRACIAA monocracia dava ao homem segurança, mas privava-o da liberdade. Ademocracia prometeu dar ao homem liberdade, mas perdeu a segurança – eter-lhe-á dado a verdadeira liberdade?...À primeira vista, parece que o homem se acha em face de um terrível dilema:ou segurança sem liberdade – ou liberdade sem segurança.E assim é, de fato, no plano horizontal.Mas assim não é, no plano vertical, ou melhor, na zona universal, onde seencontram os dois planos, vertical e horizontal. É possível uma perfeitasegurança com perfeita liberdade, e uma perfeita liberdade com perfeitasegurança, o que equivale a dizer que o homem pode obedecer a umaautoridade e ser ao mesmo tempo livre.O que, à primeira vista, parece paradoxal e contraditório, é, na realidade, amaior das verdades e mais gloriosa conquista do homem, naturalmente dohomem cósmico, plenamente realizado.O homem deve possuir perfeita segurança com perfeita liberdade. E por istodeve ultrapassar a monocracia e a democracia e entrar na cosmocracia.Que é cosmocracia?É o que a palavra diz: o governo do homem pelas leis do cosmos. AConstituição do Universo de fora é a mesma que a Constituição do Universo dedentro. As mesmas leis que regem o grande Além sideral devem reger tambémo grande Além humano.Enquanto o homem é monocrático, governado por um indivíduo de fora; ouenquanto é democrático, governado por um elemento semi-interno, não podeele fruir de segurança e liberdade ao mesmo tempo; só pode ter esta ouaquela, separadamente.Mas, quando o homem ultrapassa a monocracia e a democracia e entra naverdadeira cosmocracia, então se torna ele um homem integral, cósmico, umhomem seguramente livre e livremente seguro – um cidadão da grandecosmocracia.Quem é que governa, nesse regime cosmocrático?
  • 82. O EU central do homem, que é a consciência, a razão, a alma, o Cristo interno,o “espírito de Deus que habita no homem”, no dizer de São Paulo. E quem é ogovernado?O ego, a personalidade físico-mental-emocional do homem.Nesse novo e glorioso regime, há distância imensa entre o EU governante e oego governado, de maneira que aquele pode exercer veemente impacto deautoridade sobre este – e com isto existe a possibilidade e a realidade de umasegurança máxima na vida do homem. Por outro lado, essa autoridade do EUque governa faz parte do mesmo homem, e não é algum elemento estranho eadventício, heterogêneo, e com isto não há possibilidade de escravização dohomem e destruição da sua liberdade.Diz tão sabidamente a filosofia oriental: “O EU é o maior amigo do ego.Mas o ego é o pior inimigo do EU”.O governo do EU sobre o ego, e a obediência do ego do EU – eis o reflexo daordem cósmica no homem, o triunfo das leis do grande Cosmos do Universo nopequeno Cosmos do Homem!Há uma Constituição Cósmica, não escrita em livro algum, mas gravada naíntima natureza de todos os seres do universo, desde o átomo e o astro até ohomem e o anjo – é a grande lei da interdependência de todas as coisas, a leido amor, do equilíbrio e da solidariedade recíproca de todas as criaturas.No homem se manifesta essa Constituição Cósmica pela consciência, razão,alma, Cristo interno. Quando o homem sintoniza a sua consciência individualcom a Constituição Universal, então atinge ele as culminâncias do seu poder eda sua felicidade. Verdade, Justiça, Bondade, Amor, Sinceridade,Benevolência, Solidariedade – são esses os sinais externos que revelam aatitude interna do homem cosmocrático.Para que o homem passe da democracia do pequeno ego para a cosmocraciado grande EU, necessita ele de passar da ignorância para a sapiência, do erropara a verdade sobre si mesmo. Deve conhecer-se a si mesmo. Enquanto ohomem se desconhece a si mesmo e se identifica com alguma das suasperiferias – corpo, mente ou emoção – não pode entrar na zona dacosmocracia, porque é ainda insipiente e egoísta. Nesta zona obscura,costuma ele chamar “liberdade” o que é escravidão e capricho do ego, e poristo não tem segurança, um vez que pseudo-liberdade não dá verdadeirasegurança.Somente depois de entrar na zona luminosa do seu verdadeiro EU é que ohomem conquista a verdadeira liberdade, a “gloriosa liberdade dos filhos deDeus”, conhece a verdade “e a verdade o liberta”. E à luz dessa verdade
  • 83. libertadora é o homem integralmente seguro, e essa segurança lhe dá umatranquilidade profunda, uma serenidade imperturbável, uma felicidadeindestrutível.O supremo tribunal da autoridade foi transferido de fora para dentro do homem,e por isto a autoridade não destrói a liberdade, como nos planos inferiores. Nãoé mais o ego que escolhe o seu “presidente” e lhe delega os seus poderes,como na democracia; mas o ego descobre o fato de que, acima dele , oudentro dele, existe esse “presidente” um soberano legítimo por “obra e mercêde Deus”, e esse Deus imanente no homem é o seu eterno EU, legítimodetentor do trono central da natureza humana. Obedecer a esse Deus internodo EU é liberdade, ordem, segurança, harmonia, paz, felicidade.
  • 84. EDUCAÇÃO COSMOCRÁTICAÉ necessário que saiamos da velha ilusão de que possa haver melhoramentosocial sem que haja conversão individual. O estado social da humanidade énecessariamente o eco do estado individual dos homens que compõem asociedade.É claro que os governos podem criar técnicas educacionais que facilitem aeducação – mas, em caso algum, podem essas técnicas substituir a própriaeducação. A educação em si não é da alçada dos governos, nem de poderexterno algum. A educação obedece a leis internas de evolução individual. Eessas leis culminam no fato do autoconhecimento e na subsequente auto-realização do homem. O homem que não se conhece a si mesmo não poderealizar o seu verdadeiro EU interno. Auto-realização depende deautoconhecimento.Autoconhecimento, porém, não é apenas um processo mental nem umasimples psicanálise. O verdadeiro autoconhecimento é algo intuitivo, é umavisão ou revelação da profunda realidade do ser humano, um contato diretocom a última raiz do EU humano, daquilo que fica para além de todas aspalavras e para além de todos os pensamentos daquilo que jaz nos silenciososabismos da Verdade Absoluta.Essa visão intuitiva do EU não é o produto de um simples esforço consciente,intelectual – embora esse esforço deva preceder. E, em última análise, umarevelação, um carisma, uma graça, um dom de Deus ao homem. Mas essedom supremo, embora seja gratuito, não é arbitrário. O homem recebe essagraça do autoconhecimento, não como merecimento ou pagamento – pois, seassim fosse, seria produto do ego, e não seria coisa grande. Não o podemerecer, produzir, causar. Isto, todavia, não quer dizer que a graça doautoconhecimento seja algo meramente arbitrário. Ela é dada a todo homemque se tornar receptivo para a receber. Essa receptividade é uma condiçãoprévia indispensável para o recebimento do divino carisma doautoconhecimento; mas não é causa do mesmo. A lei de causa e efeito vigoraem todos os planos do finito, opera de finito a finito, mas não existe na relaçãode finito a Infinito, do homem a Deus. O homem não pode merecer algo deDeus, porque merecer é causar. Se o homem merecesse um dom divino, eleteria direito ao mesmo e Deus teria obrigação em face do homem – o que éabsurdo. Deus nunca pode ter obrigação para com criatura alguma, e jamaispode alguma criatura ter um direito em face de Deus.
  • 85. A atitude receptiva do homem condiciona o carisma divino, mas não o causa.Quando abro uma janela, entra a luz solar na sala – mas seria absurdo afirmarque o fato de eu abrir a janela fosse causa da iluminação da sala; a causa é osol, o efeito é a iluminação da sala, e a condição dessa iluminação é oabrimento da janela.O que, nesta comparação, é o abrimento da janela, isto é, no caso doautoconhecimento, a receptividade criada pelo homem. Essa receptividade éuma espécie de canal livre, de veículo idôneo. Quando uma estação emissoralança ao espaço uma onda eletrônica, é necessário que eu sintonize o meureceptor para captar essa onda; do contrário, a onda passa despercebida,presente em si, mas ausente para mim. As “ondas” de Deus enchem semcessar todo o universo e permeiam sempre a humanidade, mas, se não houverreceptor devidamente afinado e sintonizado, as ondas presentes objetivamentesão subjetivamente ausentes, inexistentes. Não é o receptor que produz oucausa as ondas eletrônicas, mas ele é a condição da sua captação.Essa receptividade ou disposição propícia da alma humana se chama, noslivros sacros, fé. Naturalmente, não uma fé meramente teórica, mas uma féprática e plenamente vivida. Essa fé vivida pela ética prepara o ambiente parao carisma do auto-conhecimento, o qual, uma vez completo, produz a auto-realização do homem, isto é, a realização ou despertamento do seu verdadeiroEU divino.Somente uma educação dessa natureza desperta no homem aquilo que poderátransformar a democracia agonizante numa cosmocracia triunfante e cheia devitalidade.
  • 86. EPÍLOGO DESORIENTAÇÃO DAS AUTORIDADES RELIGIOSAS EM FACE DO PROBLEMA EDUCACIONALAcabávamos de terminar este livro, quando nos caiu nas mãos um artigoentitulado “Causas e remédios para delinquência juvenil”, da autoridade FultonSheen, bispo auxiliar de Nova York, artigo divulgado pela imprensa dosEstados Unidos e reproduzido, em vernáculo, por um dos grandes jornais deSão Paulo.Esse documento é uma brilhante confirmação do que expusemos num dosprimeiros capítulos deste livro sobre a “falência da educação religiosa”.Pedimos vênia para reproduzir, na íntegra, o referido artigo: Causas e remédios para a delinquência juvenil FULTON SHEEN, BISPO DE NOVA YORK Entre as causas há as seguintes:1 – Pais que não reconhecem nenhuma autoridade acima de si mesmos têmfilhos que não reconhecem sua autoridade. Numa máquina, quando asengrenagens maiores deixam de funcionar, as pequenas se desarranjam. OQuarto Mandamento sobre a obediência dos filhos aos pais se relaciona com oPrimeiro sobre a obediência a Deus. Os jovens não sabem traduzir suarebelião em ideias, mas instintivamente se revoltam contra a atribuição deautoridade a quem não reconhecem nenhuma autoridade. Se não há Deusacima de seus pais, então porque devem estes estar acima deles? O agricultorque não obedece às leis da natureza com respeito às estações não deveespantar-se por ter más colheitas.2 – A negação de responsabilidade pessoal, pela atribuição do mal aoambiente. Por exemplo, crescer na pobreza ou em favelas, beber leite desegunda, ou não ter suficientes clubes de dança. Diz-se que isso fazdelinquentes. Mas por que é que muitas crianças vivendo no mesmíssimoambiente se tornam bons cidadãos? Nosso Senhor uma vez falou de duas
  • 87. mulheres que moíam num moinho e de dois homens que trabalhavam numcampo. Um deles salvou-se; o outo perdeu-se. Ambos cuidavam do mesmoengenho ou do mesmo campo; o mesmo sol brilhava sobre ambos; vestiam domesmo modo, recebiam os mesmos salários – mas a diferença estava nointerior. Não é o que entra em contato externo com o homem que o faz, mas oque sai do seu coração. A negação da responsabilidade pessoal traz comoconsequência a benevolência para com os delinquentes nos tribunais, pois nãopoderá um juiz condenar um delinquente do qual se diz ser o que é porqueviveu numa vizinhança com latas de lixo à soleira da porta.3 – A terceira causa da delinquência juvenil é uma consequência da segunda,isto é, a sociedade é que deve ser culpada – culpada porque externa umaatitude “vingativa” quando pune um transgressor; culpada porque os mestrescom seu conhecimento superior dão aos jovens um "complexo deinferioridade”; culpada porque os exames e a publicação de boletins provocamcomparações invejosas, tornando assim os jovens revoltados; culpada porqueo amor excessivo ou deficiente da parte dos pais lhes dão uma “compulsão”para roubar ou matar. Algumas sugestões sobre a delinquência1 – Toque de recolher – a ocasião deve ser estabelecida pela lei civil. Filadélfiapôs em prática um sistema de toque de recolher, que estatui multas tanto paraos jovens como para os pais, que funciona de verdade. Dizer-se que issoconstitui uma injustiça para com os bons elementos da juventude é esquecerque: a) uma vez que vivemos em sociedade, alguns membros devem mostrar-se dispostos a fazer sacrifícios para o bem do todo; b) os jovens bons estão emcasa à hora de recolher de qualquer modo. O rio é que deve purificar o esgoto,e não este que deve poluir aquele.2 – Criação de uma comissão permanente de cidadãos responsáveis, em vezdos juízes de menores e dos chamados “peritos”, para decidir sobre aorientação, punição e tratamento dos delinquentes.3 – Para os contraventores reincidentes e os culpados de assassinato,violação, assalto e outros crimes graves, a criação de Campos de PreservaçãoJuvenil com as seguintes características:– Esses campos devem ser não só educativos como também reformativos.– Tanto a educação como a disciplina dos delinquentes devem ficar a cargo doExército ou da Marinha.– Para os contraventores mais difíceis, depois do estágio no CPJ., seriam elesengajados no Exército.
  • 88. – Enquanto trabalhassem em estradas, florestas , etc., receberiam um pequenosalário. Parte desse salário seria retida, rendendo juros, até que deixassem oCJJ. Os delinquentes que causassem dano ao patrimônio teriam que pagarplenamente; aqueles que tivessem tirado uma vida seriam obrigados a pagar àfamília do jovem assassinado uma certa porcentagem do seu salário durantesua vida dentro ou fora do campo.Isso é duro, poder-se-á dizer, mas é mais duro para vinte mães e paischorarem o assassino de vinte filhos. As Forças Armadas farão homens dessesdelinquentes; muito provavelmente farão mais do que isso – farão bonssoldados deles. ***Vamos tecer uns comentários elucidativos sobre esse importante documento.Como é possível que uma autoridade eclesiástica de grande projeção, escritor,conferencista, locutor de rádio e televisão, orientando milhões de almas, dentroe fora de seu país, ignore as causas mais profundas da delinquência juvenil eaconselhe remédios tão superficiais, e até flagrantemente anticristãos?Na primeira parte de seu artigo, sobre as “causas” da delinquência, afirmaFulton Sheen que uma dessas causas é a falta de autoridade dos pais, e queestes não tem autoridade sobre os filhos porque eles mesmos não reconhecemacima de si autoridade superior, divina.Em parte concordamos com o ilustre escritos; mas perguntamos por que é queexistem ateus só no Ocidente cristão? Por mais estranho que pareça, o“fenômeno ateísmo” é totalmente desconhecido em outras partes do mundo; éum produto tipicamente cristão, isto é, resultado de uma teologia pseudocristãque impera nas igrejas do Ocidente. Recordo-me das palavras do meu exímiomestre hindu, Swami Premananda, de Washington, sobre este particular:quando ele, uns decênios atrás, veio da Índia para os Estados Unidos e ouviuda existência de ateus, não o quis acreditar, porque nunca tinha visto um únicoateu entre seus patrícios gentios do Oriente.De onde vem o ateísmo?Nasce de uma falsa concepção de Deus, que é impingida às crianças decatecismo ou escola dominical, um Deus com todos os seus atributoshumanos, embora potencializados – um Deus irado, vingador, ciumento,militarista, (o “Deus dos exércitos”), nacionalista, que luta em favor de umpequeno povo eleito contra todos os outros povos do globo – um Deus sempredistante, longínquo, cujo maior prazer parece consistir em apanhar em faltauma pobre criatura humana e condená-la sadicamente a tormentos eternos,sem lhe dar a possibilidade do arrependimento, após-morte. No seu livro Anhistorian´s approach to religion diz o grande historiador-filósofo britânico Arnold
  • 89. Toynbee que se o Deus da teologia cristã existe, então é ele o maior monstrodo universo. Felizmente, esse Deus não existe, nem pode existir. Perguntarama Voltaire porque ele era ateu; ele, educado num ambiente religioso,eclesiástico, respondeu patriarca da descrença: “Se alguém me mostrar umDeus que eu possa amar hei de crer nele; mas até hoje ninguém me mostrouesse Deus”.Esse deus-monstro é ensinado às crianças, e elas, ingênuas, o aceitam,obedientes, de olhos fechados; um dia, porém, quando adultas, abrem os olhose não conseguem harmonizar esse pseudo-deus da teologia com o Deusverdadeiro da sua consciência do Universo – e passam por ateus.Muitos dos maiores santos e místicos de todos os tempos e países foram“ateus” neste sentido – “ateus” por serem excessivamente sinceros consigomesmo.Fulton Sheen acusa os pais dos delinquentes juvenis de não crerem em Deus.Perguntamos: quem é o culpado remoto desse “ateísmo”?Medice, cura teipsum!Passando das causas para os “remédios” da delinquência juvenil, o autor éainda mais infeliz. Insiste em que a educação dos delinquentes fique a cargodas forças armadas, do Exército e da Marinha. Mas será possível que um bispocristão veja nessas instituições militaristas a quintessência da arteeducacional? quando todo o militarismo é, em última análise, um produto donosso egoísmo? Será possível que Fulton Sheen ignore que “quem com ferrofere com ferro será ferido”?E, para coroar a sua obra, termina o bispo auxiliar de Nova York por dizer que“as forças armadas farão homens desses delinquentes, e, muitoprovavelmente, farão mais do que isto – farão bons soldados deles”.Quer dizer que, na opinião desse líder espiritual de milhões de cristãos, umbom soldado vale mais que um homem honesto! quem aprendeu nos quartéis aarte de matar com perícia e técnica – com canhões, metralhadoras, e bombasatômicas – esse vale mais do que o melhor dos homens que procura salvarvidas! E as forças armadas educarão o delinquente nesse sentido!Realmente, é a apoteose do militarismo anticristão!Ó Schweitzer! Porque escreveste um livro intitulado Reverência pela vida? Porque não te matriculaste na escola do bispo Fulton Sheen para saber comodestruir vidas em massa?!Ó Gandhi! por que lutaste a vida inteira pela não-violência (ahimsa) e por elamorreste mártir? não sabias tu, pobre pagão, que nos Estados Unidos vive um
  • 90. cristão que vê a salvação na violência?... que atrasado discípulo do Cristo éstu, pobre hindu, que ainda te guias por essas ideias obsoletas do Sermão daMontanha?...
  • 91. TEXTO COMPLEMENTARA EDUCAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
  • 92. “A instrução ensina o homem a descobrir as leis da natureza, isto é, a ciência; mas a educação leva o homem a criar valores dentro de si mesmo”, diz o filósofo brasileiro Huberto Rohden nesta entrevista a VISÃO.“Não existe crise de educação no Brasil, nem em qualquer parte do globo. Oque existe é uma deplorável ausência de verdadeira educação”. Esta é aopinião do filósofo brasileiro Huberto Rohden a respeito da chamada crise daeducação moderna. Rohden explica: “Não estou usando a palavra „educação‟no sentido popular, referindo-me a graus de instrução. Uso a palavra „educar‟no sentido rigorosamente etimológico e verdadeiro „eduzir‟, indicando que oeducador deve eduzir, desenvolver e manifestar o que já existe na natureza doeducando”. É esta razão que, no modo de ver do professor Rohden, “umafilosofia ou uma teologia que admita de antemão que o homem seja mau pornatureza não pode falar em eduzir; só poderia tratar de impingir ao educandoalgo alheio à sua natureza. Mas isso é o contrário à educação”.Como Sócrates, Platão, e os Estoicos, Rohden acredita que a boa ordem socialnão pode ser criada com estratagemas políticos. A boa ordem social não temorigem na política, mas na ética que ordena a consciência dos cidadãos e doslíderes da sociedade: ela se projeta na sociedade, mas está radicada noindivíduo.Nascido em Tubarão, Estado de Santa Catarina, Rohden formou-se emCiências, Filosofia e Teologia nas Universidades de Innsbruck (Áustria),Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). De 1945 a 1946, teve uma bolsa deestudos para o desenvolvimento de pesquisas científicas na Universidade dePrinceton, Estados Unidos, onde teve a oportunidade de conviver com AlbertEinstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito internacional daFilosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana aconstituição do próprio universo.Em 1952, fundou em São Paulo o Centro de Auto-Realização Alvorada, quemantém cursos permanentes sobre Filosofia Univérsica e Filosofia doEvangelho. É autor de mais de 60 livros, entre os quais estão Por queSofremos, O Caminho da Felicidade, Mahatma Gandhi, Lúcifer e Logos, OHomem, Einstein – O Enigma do Universo e Educação do Homem Integral.Alto, cabelos brancos, roupas simples, mente aguçada, o professor Rohdenconcedeu a VISÃO a seguinte entrevista na sede do Centro de Auto-Realização Alvorada, na Rua Alegrete, 72, Sumaré, São Paulo.
  • 93. VISÃO – O senhor tem dedicado boa parte do seu tempo aqui na Alvorada,enfatizando a diferença entre a instrução e a educação.HUBERTO ROHDEN – Não, não é bem isso. Tenho falado unicamente sobreautoconhecimento e auto-realização da natureza humana. Isso inclui tudo e vaimuito além da educação. Nós temos de nos realizar. Somos embrionários;“sementes” humanas. Falando simbolicamente, temos de realizar a nossa“semente” humana em forma de uma perfeita “planta” humana. Portanto, noCentro Auto-Realização Alvorada, cuidamos do autoconhecimento da naturezahumana e sua auto-realização na vida prática. Temos de saber o que somos etemos de viver de acordo com aquilo que somos. O homem deve realizar-se.Ele não é realizado; é apenas realizável. Da auto-realização fazem partes duascoisas: tanto a instrução na ciência como a educação da consciência. OGoverno só pode instruir na ciência; não pode educar na consciência. Aeducação da consciência é do foro íntimo do indivíduo. Temos um Ministério daInstrução; não temos um Ministério da Educação. Não existe nenhum ministérioda educação em nenhum país; nem pode existir. Não devemos confundirinstrução com educação. A educação é muito mais profunda do que ainstrução. A instrução é da inteligência; a educação é da consciência. Ainstrução faz o homem erudito; a educação faz o homem bom. Ambas sãonecessárias, mas a mais importante é a educação da consciência.VISÃO – Então, ao contrário do que se supõe hoje em dia, a educação é umaatividade individual?ROHDEN – É eminentemente individual. Não pode ser uma atividade social.Ela se reflete na sociedade, mas está radicada no indivíduo. Só existe auto-educação; não existe alo-educação (educação de fora para dentro). Ou ohomem se educa ou não se educa. Outros não podem educar-me; só podemmostrar-me o caminho pelo qual eu me possa educar.VISÃO – Essa é, então, a função do mestre – mostrar?ROHDEN – Sim. O mestre é um guia. O educador pode mostrar ao educando ocaminho por onde o educando se pode auto-educar. Há muita confusão hojeem dia sobre a educação. Entre centenas de livros sobre a educação, malencontrei um que possa aprovar integralmente. Alguns têm coisas boas, masnão frisam a coisa essencial que é a auto-educação.VISÃO – Falou-se recentemente que o sistema educacional brasileiro estavaem crise. O senhor concorda que esteja?ROHDEN – Crise supõe uma presença. Não existe nenhuma crise; o queexiste é uma deplorável ausência de verdadeira educação.VISÃO – De onde surgiu essa ausência de educação?
  • 94. ROHDEN – Ela resulta do fato histórico de que a nossa evolução humana nomundo inteiro não está na altura. Não estamos na era da incerteza, da qualfalou o economista John Kenneth Galbraith; estamos, sim, em estadopermanente de incerteza, porque a humanidade está marcando passo nainteligência e não atingiu ainda o nível da razão, da consciência. Falta-nos umadisciplina ética avançada. Albert Einstein, que era um grande luminar, disse: “Odescobrimento das leis da natureza – a ciência – torna o homem erudito; masnão torna o homem bom. O homem bom é aquele que realiza os valores queestão dentro de sua consciência. Do mundo dos fatos, que é a ciência, nãoconduz nenhum caminho para o mundo dos valores, que é a consciência.Fatos não produzem valores, porque os valores vêm de outra região”. Teilhardde Chardin disse: “O homem veio da biosfera. Está na noosfera (noos querdizer inteligência, em grego) e age em função da noosfera. Viemos da biosfera,isto é, da esfera da vida. Nós nos intelectualizamos há milhares de anos;viemos da biosfera para a noosfera. Passamos da vida para a esfera dainteligência – e cá estamos. Acima da noosfera está a logosfera, a esfera daconsciência; mas ainda não estamos lá”.VISÃO – Não há alguns indivíduos que estão acima do grosso da humanidade?ROHDEN – É claro. Há indivíduos isolados, esporádicos, que estão na esferada educação da consciência. Mas a maioria não está lá. É uma questão deevolução da humanidade. A culpa não é do Brasil, nem de ninguém. É da faltade evolução superior da humanidade. Na esfera em que estamos não podemoster educação; só podemos fazer instrução. Todos os crimes e terrorismos vêmdaí. A ciência não pode abolir o terrorismo; só a consciência pode fazê-lo. Jáse foi o tempo em que se dizia ingenuamente: “Abrir uma escola é fechar umacadeia”. A experiência prova que os grandes malfeitores da humanidade nãoforam analfabetos, mas, sim, homens que não educaram a consciência.VISÃO – E as Igrejas não favorecem a educação? Não é, essa, parte da suarazão de ser?ROHDEN – A teologia da Igreja ensina que melhor que viver corretamente émorrer corretamente. Se um homem vive cinquenta anos matando, roubando,defraudando e, nos últimos cinco minutos, se confessa e se converte, vai paraa vida eterna. Isso é um convite antipedagógico, um convite tácito para umavida má, contanto que haja morte boa. As teologias são tacitamente contráriasà educação da consciência. É uma denúncia que eu faço em base real.Simples moralidade não é educação.VISÃO – Mas as Igrejas não pregam a ética do Evangelho?ROHDEN – Não. Substituíram o Evangelho pela teologia. O Evangelho exigeuma vida honesta do princípio ao fim. Mas as Igrejas pregam que basta
  • 95. converter-se na última hora. E tentam consertar seu erro com uma falsainterpretação das palavras de Jesus ao ladrão na cruz.VISÃO – Além da teologia, há, na sua opinião, outras filosofias contrárias àeducação operando nos chamados meios educacionais.ROHDEN – Os “meios educacionais” estão cheios dessas filosofias. Veja obehaviorismo de B.F. Skinner. Ele diz: “A liberdade é um mito. O livre-arbítrionão existe”. É uma filosofia que diz que somos autômatos, que somoscondicionados pelo meio ambiente. Ora, se não há livre-arbítrio, então não hábase para a educação. O homem tem a alternativa de ser bom ou mau; isto é,a possibilidade de auto-educação. Mas se o homem é obrigado pelascircunstâncias a ser mau, ou ser bom, então acabou-se toda a base para aeducação. Não negamos que as circunstâncias possam dificultar o exercício dolivre-arbítrio; negamos que o homem normal possa ser obrigado palascircunstâncias a ser bom ou mau.VISÃO – O vazio moral, a angústia existencial que muitos parecem sentir hojeem dia e que é constantemente representada na arte moderna – pintura, teatro,literatura, cinema, televisão, etc. – de onde vêm?ROHDEN – Vêm da falta de autoconhecimento e da falta de verdadeiraeducação. Esses fatores sociais – rádio, teatro, televisão, etc. – não podemeducar porque, como já foi dito, a educação é um processo eminentementeindividual. O que os citados fatores sociais poderiam e deveriam fazer éremover ou diminuir os obstáculos à verdadeira educação. Infelizmente, porém,quase todos os programas de cinema, rádio, televisão são flagrantementeantieducativos. E isso acaba num vácuo ou numa frustração existencial, comorepetirmos sem cessar em nossos cursos da Alvorada e em nossos livros.VISÃO – Qual a relação entre a natureza humana e a auto-educação?ROHDEN – A auto-educação é a perfeita evolução da natureza integral dohomem. Não é algo alheio introduzido nela; é o conteúdo interno da próprianatureza, eduzido e manifestado na vida externa, individual e social. O homemprofano, sem auto-compreensão, abusa de tudo, inclusive de si mesmo, a fimde ter momentos de prazer superficial. Por outro lado, o homem místicoisolacionista se recusa a usar qualquer objeto; simplesmente recusa tudo. Maso homem cósmico, o auto-educado e auto-realizado, usa de tudo sem abusarde nada. E isto é a verdadeira educação.O educador deve mostrar ao educando que ser fiel à sua própria natureza é serfeliz, embora essa felicidade nem sempre esteja livre de sofrimento. Enquantoo educando confundir felicidade com gozo, ou infelicidade com sofrimento, nãotem o caminho aberto para a verdadeira educação. O homem auto-educandopode ser feliz no meio de sofrimentos e pode também ser infeliz no meio de
  • 96. gozos. A base da auto-educação é autoconhecimento, como já diziam osfilósofos gregos: “Conhece-te a ti mesmo”.VISÃO – Haverá no mundo moderno movimento de auto-educação?ROHDEN – Felizmente há, em todos os países, pequenos grupos que levam asério a auto-educação. Conheço de convivência o movimento neugeist (NovoEspírito), nos países germânicos; bem como a Selfrealization (Auto-Realização), nos países anglo-saxônicos, que, na Inglaterra, também éconhecida como The New Outlook (A Nova Perspectiva). Esses movimentossão representados no Brasil pelo Centro de Auto-Realização Alvorada.São iniciativas particulares de pequenas elites que tomam a sério a sua auto-realização, baseada no autoconhecimento da natureza humana e manifestadana vivência ética da vida diária, individual e social. Felizmente, o maior doseducadores disse, há quase 2.000 anos: “O Reino dos Céus está dentro devós, mas é ainda um tesouro oculto, que deveis descobrir”. Com isso oNazareno afirma a presença de um elemento bom no homem e a necessidadeque ele tem de revelar na vida diária esse tesouro oculto.Isto é pura auto-educação.
  • 97. ÍNDICEEDUCAÇÃO – PROBLEMA VITAL DA ATUALIDADEA FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO LEIGA E DA EDUCAÇÃO RELIGIOSAA DELINQÜÊNCIA JUVENIL, FRUTO DE UMA FALSA EDUCAÇÃOO FLAGELO DO PARASITISMO E SUA CURABASES PARA UMA NOVA EDUCAÇÃOENTRE LÚCIFER E LOGOSESSENCIALIZANDO A EXISTÊNCIAA SABEDORIA DOS GRANDES EDUCADORESOS MALES DA EDUCAÇÃO ESCATOLÓGICAADORAÇÃO, SERVIÇO E SOFRIMENTOPARA EDUCAR – SER EDUCADOPASSANDO DA CONSCIÊNCIA EXTERNA PARA A CONSCIÊNCIA INTERNADO CONSCIENTE FINITO PARA O INCONSCIENTE INFINITOFAZER GRANDEMENTE AS COISAS PEQUENASDA PEDAGOGIA À FILOSOFIAPRECISA-SE DE UM EDUCADOR!NINGUÉM SERVE IMPUNEMENTERUMO À COSMOCRACIA MUNDIALMONOCRACIACOSMOCRACIAEDUCAÇÃO COSMOCRÁTICAEPÍLOGO: DESORIENTAÇÃO DAS AUTORIDADES RELIGIOSAS EM FACEDO PROBLEMA EDUCACIONAL
  • 98. A EDUCAÇÃO DA CONSCIÊNCIA
  • 99. HUBERTO ROHDEN VIDA E OBRANasceu na antiga região de Tubarão, hoje São Ludgero, Santa Catarina, Brasilem 1893. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Ciências, Filosofiae Teologia em universidades da Europa – Innsbruck (Áustria), Valkenburg(Holanda) e Nápoles (Itália).De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor.Publicou mais de 65 obras sobre ciência, filosofia e religião, entre as quaisvárias foram traduzidas para outras línguas, inclusive para o esperanto;algumas existem em braile, para institutos de cegos.Rohden não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou edirigiu o movimento filosófico e espiritual Alvorada.De 1945 a 1946 teve uma bolsa de estudos para pesquisas científicas, naUniversidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu comAlbert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito mundial daFilosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana aconstituição do próprio Universo, evidenciando a afinidade entre Matemática,Metafísica e Mística.Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, deWashington, D.C., para reger as cátedras de Filosofia Universal e de ReligiõesComparadas, cargo esse que exerceu durante cinco anos.
  • 100. Durante a última Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-AmericanAffairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notícias deguerra, do inglês para o português. Ainda na American University, deWashington, fundou o Brazilian Center, centro cultural brasileiro, com o fim demanter intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos.Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante três anos, oGolden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya Yôga por SwamiPremananda, diretor hindu desse ashram.Ao fim de sua permanência nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidadopara fazer parte do corpo docente da nova International Christian University(ICU), de Metaka, Japão, a fim de reger as cátedras de Filosofia Universal eReligiões Comparadas; mas, por causa da guerra na Coréia, a universidadejaponesa não foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em São Paulo foinomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual nãotomou posse.Em 1952, fundou em São Paulo a Instituição Cultural e Beneficente Alvorada,onde mantinha cursos permanentes em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia,sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho, e dirigia Casas de RetiroEspiritual (ashrams) em diversos Estados do Brasil.Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experiênciaespiritual pela Palestina, Egito, Índia e Nepal, realizando diversas conferênciascom grupos de yoguis na Índia.Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferências sobreautoconhecimento e auto-realização. Em Lisboa fundou um setor do Centro deAuto-Realização Alvorada.Nos últimos anos, Rohden residia na capital de São Paulo, onde permaneciaalguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textosdefinitivos. Costumava passar três dias da semana no ashram, em contato coma natureza, plantando árvores, flores ou trabalhando no seu apiário-modelo.Quando estava na capital, Rohden frequentava periodicamente a editoraresponsável pela publicação de seus livros, dando-lhe orientação cultural einspiração.À zero hora do dia 8 de outubro de 1981, após longa internação em uma clínicanaturista de São Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu destemundo e do convívio de seus amigos e discípulos. Suas últimas palavras emestado consciente foram: “Eu vim para servir à Humanidade”.Rohden deixa, para as gerações futuras, um legado cultural e um exemplo defé e trabalho, somente comparados aos dos grandes homens do século XX.
  • 101. RELAÇÃO DE OBRAS DO PROF. HUBERTO ROHDENCOLEÇÃO FILOSOFIA UNIVERSAL:O PENSAMENTO FILOSÓFICO DA ANTIGUIDADEA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEAO ESPÍRITO DA FILOSOFIA ORIENTALCOLEÇÃO FILOSOFIA DO EVANGELHO:FILOSOFIA CÓSMICA DO EVANGELHOO SERMÃO DA MONTANHAASSIM DIZIA O MESTREO TRIUNFO DA VIDA SOBRE A MORTEO NOSSO MESTRECOLEÇÃO FILOSOFIA DA VIDA:DE ALMA PARA ALMAÍDOLOS OU IDEAL?ESCALANDO O HIMALAIAO CAMINHO DA FELICIDADEDEUSEM ESPÍRITO E VERDADEEM COMUNHÃO COM DEUS
  • 102. COSMORAMAPORQUE SOFREMOSLÚCIFER E LÓGOSA GRANDE LIBERTAÇÃOBHAGAVAD GITA (TRADUÇÃO)SETAS PARA O INFINITOENTRE DOIS MUNDOSMINHAS VIVÊNCIAS NA PALESTINA, EGITO E ÍNDIAFILOSOFIA DA ARTEA ARTE DE CURAR PELO ESPÍRITO. AUTOR: JOEL GOLDSMITH(TRADUÇÃO)ORIENTANDO“QUE VOS PARECE DO CRISTO?”EDUCAÇÃO DO HOMEM INTEGRALDIAS DE GRANDE PAZ (TRADUÇÃO)O DRAMA MILENAR DO CRISTO E DO ANTICRISTOLUZES E SOMBRAS DA ALVORADAROTEIRO CÓSMICOA METAFÍSICA DO CRISTIANISMOA VOZ DO SILÊNCIOTAO TE CHING DE LAO-TSÉ (TRADUÇÃO)SABEDORIA DAS PARÁBOLASO QUINTO EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ (TRADUÇÃO)A NOVA HUMANIDADEA MENSAGEM VIVA DO CRISTO (OS QUATRO EVANGELHOS TRADUÇÃO)RUMO À CONSCIÊNCIA CÓSMICAO HOMEM
  • 103. ESTRATÉGIAS DE LÚCIFERO HOMEM E O UNIVERSOIMPERATIVOS DA VIDAPROFANOS E INICIADOSNOVO TESTAMENTOLAMPEJOS EVANGÉLICOSO CRISTO CÓSMICO E OS ESSÊNIOSA EXPERIÊNCIA CÓSMICACOLEÇÃO MISTÉRIOS DA NATUREZA:MARAVILHAS DO UNIVERSOALEGORIASÍSISPOR MUNDOS IGNOTOSCOLEÇÃO BIOGRAFIAS:PAULO DE TARSOAGOSTINHOPOR UM IDEAL – 2 VOLS. AUTOBIOGRAFIAMAHATMA GANDHIJESUS NAZARENOEINSTEIN – O ENIGMA DO UNIVERSOPASCALMYRIAMCOLEÇÃO OPÚSCULOS:SAÚDE E FELICIDADE PELA COSMO-MEDITAÇÃO
  • 104. CATECISMO DA FILOSOFIAASSIM DIZIA MAHATMA GANDHI (100 PENSAMENTOS)ACONTECEU ENTRE 2000 E 3000CIÊNCIA, MILAGRE E ORAÇÃO SÃO COMPATÍVEIS?CENTROS DE AUTO-REALIZAÇÃO

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