Huberto rohden minhas vivências na palestina, no egito e na índia

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Huberto rohden minhas vivências na palestina, no egito e na índia

  1. 1. HUBERTO ROHDEN MINHAS VIVÊNCIASNA PALESTINA, NO EGITO E NA ÍNDIA UNIVERSALISMO
  2. 2. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização edispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  3. 3. PRELÚDIOEm 1969, fui visitar três continentes do globo: Europa, Ásia, África.Por quê?Em busca da verdade? À procura de homens diferentes dos nossos?Não! Os homens são fundamentalmente os mesmos, em toda parte.Enquanto viajava pelos mundos, dava ordem aos mundos para viajarematravés de mim, que me mostrassem o mesmo homem já conhecido emperspectivas várias.Nunca o homem se conhece tão bem a si mesmo como quando recebe oimpacto de homens alheios. A alteridade dos outros catalisa e intensifica emnós a identidade própria. Cristaliza o nosso autoconhecimento.Alemães, suíços, gregos, israelitas, árabes, egípcios, hindus, nepaleses eoutros povos que encontrei – que poderiam eles dizer-me de novo?Religiões cristãs de vários matizes, crenças hebréias e cultos maometanos,filosofias herméticas, mistérios helênicos, metafísicas brahmanes e místicasbudistas; templos, igrejas, mesquitas, pagodes – nada de novo me disseram,mas tornaram mais consciente em mim aquilo que eu já era e sabia.Nesses espelhos vi o que sem espelho não poderia ver: o meu própriosemblante refletido neles, atitude de minha alma, o caráter do meu Euindividual.Europa, Ásia, África – eu viajei através de vós, externamente – mas vósviajastes através de mim, internamente. Contemplei as vossas quantidades – evós me revelastes a minha qualidade.E alguns homens verticalizados, que em vós viveram, deixaram as suasmisteriosas auras, os seus fascinantes eflúvios em vosso ambiente histórico. ***Leitor amigo. Não esperes encontrar nas seguintes páginas algo como um guiade turismo, descrições de culturas alheias, visões panorâmicas dos países epovos que visitei.
  4. 4. Nada disto encontrarás neste livro. Direi apenas – mais a mim do que a ti – oque pessoas e povos me disseram, mais pelo seu ser do que pelo seu dizer,enquanto viajavam através de mim. Nada direi da sua onilateral totalidade –algo direi da sua unilateral parcialidade, no setor peculiar em que eles afinaremcom a frequência vibratória de minha alma.Certamente, não vi esses países e povos como eles são – mas tão-somenteassim como eu sou.E se tu, ignoto leitor, tiveres outras idéias desses mesmos países e povos,reconheço as tuas idéias, embora discordantes das minhas, como igualmenteverdadeiras. Diversidade de opinião não é hostilidade. Se não houvessemopiniões várias, seria este mundo uma insuportável monotonia.Se tudo fosse apenas UNO, não haveria Universo.Se tudo fosse apenas VERSO, não haveria Universo.Mas há Universo porque o Uno e o Verso, embora diferentes, não sãocontrários, mas harmonizados numa fascinante complementaridade: unidadena diversidade, Harmonia Cósmica.Viajei pelas diversidades de fora, para sentir mais intensamente a minhaunidade de dentro – unidade na diversidade, a identidade das alteridades – oUniverso em mim pelo Universo em si.
  5. 5. QUARENTA PAÍSES EM TORNO DE UM INSETONa tarde de 2 de agosto de 1969, no Aeroporto Internacional de Viracopos, emSão Paulo, o jato da “Lufthansa” levantava majestoso vôo.Depois de 40 minutos, pousou no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Aoanoitecer decolou rumo nordeste.Durante 9 horas sobrevoamos o Oceano Atlântico, enquanto os passageirosdormiam tranquilamente, a uns 10.000 metros de altitude, viajando com avelocidade de 9.300 quilômetros por hora.Amanhecemos em Lisboa; os nossos relógios marcavam apenas 2 horas danoite. O sol, que vinha ao nosso encontro, roubou-nos 4 horas de sono. Eram 6horas.Mais algumas horas e aterrissávamos em Zurique, na Suíça. Pouco depois, emFrankfurt e em Munique, na Alemanha.Nesta última cidade me associei a mais de 3.500 apicultores e cientistas,cidadãos de 40 países dos 5 continentes do globo. Os países representadoseram os seguintes:AfeganistãoAlemanhaArgéliaArgentinaAustráliaÁustriaBélgicaBrasilBulgáriaCanadáChile
  6. 6. ChipreDinamarcaEspanhaFinlândiaFrançaGréciaIrlandaHungriaÍndiaInglaterraIrãIrlandaIsraelIugosláviaKêniaLíbanoMarrocosNoruegaPolôniaPortugalRodésiaRomâniaRússiaSuéciaSuíçaTchecoslováquiaTurquia.
  7. 7. Por espaço de uma semana inteira, de 1 a 7 de agosto, estiveram mais de3.000 pessoas reunidas, na vasta área da Feira de Exposições, falando,estudando, discutindo – sobre quê?Sobre um inseto!Como? Um simples inseto?Sim, sobre um pequeno himenóptero, que a ciência denomina apis mellifera.Celebrava-se o 22.° Congresso Internacional da Apicultura. Os congressistaseram apicultores ou cientistas interessados em conhecimentos mais vastos eprofundos sobre esse fascinante inseto, em torno do qual se tem escritomilhares de livros em todas as línguas do mundo.O nosso Brasil estava representado por uns 15 apicultores.O que para mim havia de mais interessante não eram, propriamente, aseruditas conferências, mas sim o contato pessoal com homens de 40 países,cada um com suas experiências individuais. Conversei muito comescandinavos, russos, hindus, árabes, húngaros e alguns sul-americanos.Ofereci ao Congresso três presentes: Minha novela científico-popular sobre asabelhas, entitulada “Isis”; um vidro de mel do meu apiário perto de Jundiaí, SãoPaulo; e um “arranha-céu” de uns 50 cm de altura, composto de 30 andares,atravessados por um corredor central e munido de duas válvulas de ventilação,arranha-céu construído por vespas brasileiras do Estado de Goiás. ***Durante todo o Congresso não se falou na famigerada “abelha africana”,porque ela não existe na Europa. Como todos sabem, desde 1956, a adamsoniise tornou um problema sério no Brasil, e, ultimamente, em toda a América doSul. Algumas dezenas de rainhas africanas, foram introduzidas em nosso paíspor um cientista, com o fim de melhorar a nossa apicultura nacional. Enquantoelas estavam controladas, tudo corria bem; mas, quando, pela imprudência deum funcionário, foram soltas e invadiram São Paulo, o Brasil, e, por fim, toda aAmérica Meridional, alastrou-se o grande problema, uma vez que a ferocidadedessa abelha não é menor que a sua produtividade.Felizmente, hoje, mais de 20 anos depois, a abelha africana já está prestandobons serviços, suposto que o apicultor saiba entender-se com ela.A Europa, embora ligada à África através do Oriente Médio, nunca sofreudessa invasão – por que não? Até hoje ninguém soube dar-me respostasatisfatória a essa pergunta. Nem mesmo na Ásia, tão próxima da África, existea apis mellifera adamsonii, ao menos não em sua forma agressiva, como entrenós.
  8. 8. No meu livro “Isis” dei o motivo da ferocidade da abelha africana, que é apismellifera, como a chamada européia. ***Perguntei a umas dezenas de apicultores quanto mel produzia, na média, umacolmeia, por espaço de um ano; quase nenhum apicultor colhia anualmentemais de 10 quilos de mel, por colmeia; as abelhas só trabalham durante 5 ou 6meses, ou menos, porque, nos restantes meses não havia flores e atemperatura era imprópria.No Brasil, onde existe apicultura racional, podemos colher anualmente 20-50quilos de mel por colmeia, e as nossas abelhas trabalham 12 meses por ano. OBrasil seria o país ideal para apicultura – e, no entanto, é insignificante a nossaprodução de mel.Na Alemanha os apicultores têm de alimentar as suas abelhas durante o longoinverno e, além disto, abafar as colmeias a fim de manter calor suficiente nointerior. E, no entanto, é enorme o entusiasmo e o amor com que eles sededicam à apicultura, visando mais ao prazer do que ao lucro. Pois, não émesmo fascinante poder saborear um produto puro e sadio que, pouco antes,eram gotinhas de néctar no cálice das flores?Geralmente, o consumidor europeu gosta de saborear o mel quando em estadocristalizado – ao passo que muito brasileiro torce o nariz quando vê melaçucarado e desconfia que seja falsificado, uma vez que tantos vendedoresmisturam o mel com melado de engenho, glicose, ou outros ingredientes.Conheço apicultores que fervem o seu mel afim de evitar a cristalização,destruindo assim muitos dos elementos nutritivos. Não vejo nenhumanecessidade para esse procedimento. Sou apicultor há diversos decênios e seique é possível conservar o mel tal qual saiu dos favos, em perfeito estado deliquidez.
  9. 9. EM ISRAELTerminado o 2.º Congresso Internacional em Munique, retomei o avião e voeidiretamente, em pouco mais de três horas, por sobre os Alpes e o MarMediterrâneo, rumo a Tel-Aviv, Estado de Israel.No longo trajeto terrestre entre o aeroporto e a cidade de Tel-Aviv a Jerusalém,encontrei-me, no táxi, com um rabino judeu, que me contemplava silencioso epensativo. Por fim, me disse vagarosamente coisas bem estranhas sobre mimmesmo, mas que não posso consignar em letra de forma. Ia a Bang-kock, e daíao Vietnam, a fim de participar de um congresso político de pacificação nadesastrosa guerra entre Vietnam e os Estados Unidos.Não tardou que entrássemos em águas de profunda Filosofia Cósmica,atingindo, por vezes, as fímbrias da mística. E, como o rabino ia em caráter depacificador potencial entre povos beligerantes, falei-lhe de um homem que, háquase 2.000 anos, disse: “Bem-aventurados os pacificadores, porque elesserão chamados filhos de Deus”.O meu ouvinte se abespinhou um pouco ao saber que eu considerava oNazareno como o maior gênio espiritual da humanidade, quando ele punhaMoisés acima de tudo. Mas, no fim de quase meia hora de palestra filosófico-mística, parece que se convenceu tacitamente da verdade das minhasafirmações. Despediu-se de mim carinhosamente, prometendo envidar todosos esforços para aplainar os caminhos da paz entre os homens de boavontade, de cá e de lá. Ao despedir-se de mim, em Jerusalém, perguntou se euestaria disposto a lecionar Filosofia Cósmica na Universidade Hebraica deJerusalém. Respondi-lhe que aceitaria o convite se algum poder competenteme convidasse para esse cargo.Nada mais ouvi do rabino.Em 1969, havia apenas dois decênios que Israel, após quase 2.000 anos dedispersão pelo mundo inteiro, voltara a ser um Estado independente. E em doisdecênios conseguiu Israel realizar um autêntico milagre: transformou o antigodeserto árido num magnífico pomar e em vastos campos de agricultura.Máquinas gigantescas tiravam água das profundezas do solo e lançavamchuvas artificiais à grande distância, preparando a terra para o plantio. Vastoslaranjais exportam seus produtos para diversos países europeus.
  10. 10. Os kibutzim, ou cooperativas agrícolas, são maravilhas de organização deagricultura racional.Não encontrei um mendigo nem um desempregado em Israel; todos trabalhame têm com que viver. No tempo da genial Golda Meir o país foi cortado deestradas asfaltadas de ponta a ponta.Israel é um país cercado em parte de repúblicas árabes, que continuam na suapobreza tradicional. Os filhos de Agar, embora tenham por ascendente omesmo pai Abrahão, parecem não ter o espírito de iniciativa como os filhos daSarah.Durante a minha curta permanência em Israel, meditei muito sobre o estranhoenigma: por que é que os judeus, que não formam nem nunca formaram 1%(um por cento) da humanidade total, têm cerca de 50% (cinquenta por cento)dos grandes gênios em todos os ramos da cultura humana? Dizem uns queessa genialidade lhes vem dos seus terríveis sofrimentos: mais de quartoséculos escravizados pelos faraós do Egito; quase um século exilados naAssíria; quase outro século na Babilônia; desde o primeiro século da Era Cristãaté pouco, errando pelo mundo inteiro, sem pátria nem lar...Se o sofrimento fosse um despertador de genialidade, porque é que os povosafricanos, com milênios de sofrimento e escravização, não produziram grandesgênios, ao menos não nos tempos atuais?Temos de associar ao sofrimento outro fator: uma grande disciplina e auto-fidelidade. O israelita é brasileiro no Brasil, alemão na Alemanha, russo naRússia, etc. – mas não deixa de ser judeu de alma em qualquer parte domundo.Israel está rodeado de haréns nos países árabes, mas não existe um únicoharém em Israel. O espírito de família unida, a fidelidade conjugal fazem partedo caráter do judeu genuíno, tanto na antiga poligamia mosaica, como namonogamia atual. Parece que a disciplina sexual favorece a genialidadecerebral; que vigora uma secreta simbiose entre sexo e cérebro.
  11. 11. NOS RASTROS DO NAZARENOJerusalém, Belém, Nazaré, Tabor, Poço de Jacó, Betânia, Getsêmane, Gólgota– que estranhas reminiscências nos evoca cada uma destas palavras... Anossa alma associa coisas belas e beatíficas a estas palavras sagradas, queestamos habituados a ler e ouvir desde a nossa infância, no lar, na escola, naigreja, por toda a parte.Vagarosamente, meditativamente, andei saboreando e sofrendo cada umdestes lugares, que, decênios atrás, descrevi no meu livro “Jesus Nazareno”,mas sem os ter visto com os olhos do corpo.Tenho a impressão de que esses lugares sagrados viajam mais através de mimdo que eu através deles...E todos eles envoltos num ambiente paradoxal; pois a Terra Santa daPalestina, onde o Cristo, na forma humana de Jesus, viveu alguns decênios,não pertence aos cristãos – pertence hoje aos israelitas, que não reconhecemJesus como o Messias prometido; e pertenceu por muitos séculos aosmuçulmanos, que vêem em Jesus apenas um venerável profeta.Mas, apesar dos pesares, esses lugares estão sacralmente imantados erecebem anualmente a visita de milhares de cristãos de todos os países doglobo terrestre. Há, na Palestina, numerosas igrejas cristãs, conventos,mosteiros, ermidas de discípulos do Nazareno – coptos, ortodoxos, romanos,evangélicos – não importa o nome.Em Jerusalém, fiz a via-dolorosa, desde o Pretório da flagelação até aoCalvário da crucificação, lendo ou relembrando em cada etapa o que osevangelistas nos deixaram escrito sobre esses estranhos acontecimentos, esaboreando in loco o seu eterno conteúdo. Muitos dos estágios da via sacraestão assinalados com placas ou tabuletas comemorativas: primeira quedadebaixo da cruz, segunda queda, encontro com Verônica, com Simão deCirene, etc.No princípio da via crucis está a “Casa de Verônica”. É um pequeno recintomeio subterrâneo, que recebe luz só por uma grade de ferro ao nível da rua.Dentro do recinto há uns bancos toscos fixos nas paredes. Pedi permissão àsirmãs francesas, ao lado da “Casa de Verônica”, para poder fazer a minhameditação nesse recinto sagrado, que, durante quase 20 séculos, tem sidovisitado por pessoas sedentas de espiritualidade.
  12. 12. Entrei – e não tive mais vontade de sair. As auras ou vibrações místicasdeixadas por milhares de pessoas que aqui oraram e meditaram, se apoderamdo visitante e o permeiam e imantizam a tal ponto que todo o mundo externodesaparece e todos os pensamentos se diluem, permanecendo tão-somente aconsciência, ou seja, a alma isolada em total vacuidade do mundo material.Deixar a vida terrestre nesse recinto sagrado não seria morrer, mais viver maisintensamente em outras regiões.Com Maria e Marta e Lázaro estive em Betânia, na “Casa da Graça”... Nada vide Lázaro, nada ouvi de Marta – só me abismei no silêncio de Maria, porqueestava presente o Mestre – e que discípulo poderia falar na presença doMestre?... Não falei – calei-me... Quem falava era ele, só ele – e minha almaouvia em silêncio... Depois, quando o Mestre não estava mais, perguntei aMaria porque ela, Marta e Lázaro, tão amigos do Nazareno, não apareceramno Calvário nem na manhã da ressurreição, como os outros discípulos. Marianão falou; entregou-me em silêncio um rolo de pergaminho, parte dos livrossacros dos Essênios. Minha alma sintonizou com a alma de Maria, e cheguei asaber do porquê da ausência do trio de Betânia: eles, como Essêniosaltamente iniciados, não acreditavam em morte real. Também, como poderiahaver essa coisa absurda chamada “morte”, quando a Vida está onipresente?E que lugar teria a ausência da vida (morte) na onipresença da Vida? Ondeestaria a treva na plenitude da luz?... Aliás, lá estava Lázaro como prova vivada não-existência da morte. ***Um dia, a meio caminho do Mar Morto, a polícia de Israel me interceptou apassagem; tive de voltar sem ter visto as águas betuminosas desse lagoestranho, a centenas de metros abaixo do nível do Mediterrâneo. É que aviõesisraelenses estavam bombardeando as bases árabes do outro lado do MarMorto.A Terra Santa é, de fato, um constante campo de batalha desde a criação doEstado de Israel. Israel, ao que parece, está disposto a recuperar toda a áreada antiga “terra da promissão”, que foi de seus antepassados. Esta fé religiosa-nacional lhe dá irresistível entusiasmo e iniciativa. Acresce que Israel luta comas armas mais modernas e eficientes e possui ótimos chefes militares,sobretudo na aeronáutica, ao passo que os países árabes são desunidos, maldirigidos, sem disciplina, e não possuem o entusiasmo ou fanatismo espiritual-nacional dos israelitas. ***Numa dessas tardes, em Jerusalém, fui acompanhar um silencioso rabino, que,de barba preta, envolto na sua austera indumentária negra e com um chapéualto na cabeça, se dirigia ao histórico “muro das lamentações”, uma grande
  13. 13. muralha que se estende por detrás da mesquita de Omar, mesquita que, poucodepois da minha visita, foi incendiada. Há quase 2000 anos que os judeus,sobretudo seus chefes religiosos, fazem a sua lamentação diante deste muro.Entregaram-me um bonezinho de papel preto, que coloquei na cabeça, a fim depoder falar com Deus, no meio dos que invocam Yahveh para que mande oMessias e restabeleça as glórias de David e Salomão. Quando se vê nas ruasde Jerusalém um homem sério, silencioso, que não fala com ninguém, comduas trancinhas de cabelo encaracolado de cada lado da cabeça, então é certoque aí está um típico rabino, que vai ao muro das lamentações, para chorar epara mentalizar o Messias de Israel. Os lamentadores, os homens do ladoesquerdo, as mulheres do lado direito, estão em pé, a uns dois passos damuralha, muitos com um livrinho na mão, do qual recitam textos com vozchorosa e monótona, balançando ligeiramente e tocando, de vez em quando, omuro com a cabeça.Pergunto a mim mesmo se esses brados, quase bimilenares, não seriamcapazes de produzir o Messias que eles esperam... Acho possível que umavibração constante, altamente potencializada, acabe por se materializar. Não éque Moisés materializou mentalmente o Anjo Exterminador, que matou osprimogênitos dos egípcios?... ***Em Nazaré fui visitar a casa de Maria, onde “o Verbo se fez carne”. Comestranheza ouvi que a anunciação referida por Lucas se deu numa espécie degruta ou porão da casa, onde Maria estava em meditação (talvez em êxtase ousamadhi), de no meio de sacos de cereais e outros mantimentos. Por cimadessa gruta há um painel representado a visita do anjo Gabriel à Virgem. Pelaprimeira vez vi o anjo representado sem asas; é a figura de um jovem humano,de mãos erguidas, em atitude de dar algo a alguém. Do outro lado está Maria,com as mãos baixas e palmas voltadas para cima, em estado de receber aquiloque o jovem lhe dá. Entre o jovem doador e a jovem receptora paira o símboloradiante do Espírito Santo, o “poder do alto”, como que uma ponte de luz entreo doador e a recebedora.Contemplei longamente esse símbolo místico e lembrei-me do capítulo do meulivro “Setas na Encruzilhada”, onde fiz ver que José é o pai metafísico deJesus. Mateus e Lucas negam explicitamente a paternidade física de José,mas o fato de traçarem longas genealogias dos ascendentes de Jesus –Mateus desde Abraão, Lucas desde Adão – insinua que existe uma ligação realde paternidade entre José e Jesus; do contrário, essas genealogias não teriamsentido algum. Fiz ver, no citado livro, que existe essa paternidade metafísica –real, embora não material – e em Nazaré vi, pela primeira vez, representadaartisticamente, a minha concepção. O autor desse painel deve ter sido um
  14. 14. grande intuitivo, ao representar o Gabriel, isto é, o varão (gabri) de Deus (El) naforma de um jovem humano, e não de uma entidade angélica.Por via de regra, como explanei no citado livro, e melhor ainda no livro “A NovaHumanidade”, a concepção comum se faz via espermatozoide-óvulo; mas, emcasos excepcionais, é ela possível via verbo-óvulo. O radical de “verbo” e de“vibração” é o mesmo. Certa vibração, astral ou espiritual, pode causarfecundação, mesmo que na zona do consciente não haja eco desseacontecimento. ***Há um grande contraste entre a bela Galiléia e a árida Judéia. Tomei um banhogostoso no lago de Tiberíades [1], chamado também o “mar da Galiléia”. E bemmerece o nome de mar; dificilmente se vislumbra o outro litoral, da tão largoque é. Nunca vi tanto peixe como neste lago. Sendo que o nosso restaurante,onde nos serviram o “peixe de São Pedro”, ficava à beira do lago, jogávamosrestos de comida às águas – e logo enorme cardume de peixes se precipitavasobre o alimento. Devia mesmo ser gostoso ser pescador, como foram muitosdos discípulos de Jesus.--------------[1] Este belo lago, em cujos arredores se passou em grande parte a atividade pública de Jesus, fica 212m abaixo do nível do Mediterrâneo; mede 165 km2 de superfície, 21 km de comprimento, 13 km delargura e 49 m de profundidade em alguns lugares.Para lembrança levei umas pedras lisas e roliças do fundo do lago de Jesus ede seus primeiros discípulos. ***Atravessando a Samaria, cheguei ao histórico poço de Jacó, onde Jesus pediuágua à samaritana e lhe falou da “água viva”. Bem dizia a samaritana que “opoço é fundo”, pois tem nada menos de 45 metros. Relembrando o episódio doEvangelho, lancei o balde, preso a uma corda, às águas e bebi da mesma águaque Jesus bebeu, há quase vinte séculos. E levei comigo uma garrafa dessaágua, que é de sabor muito agradável.Não longe daí fica o Tabor, com o seu cume arredondado, onde o Mestre setransfigurou, entre Moisés e Elias. Fiz uma longa meditação, ou melhor,sintonização crística, e quase tive vontade de dizer com Pedro: “Que bom queé estarmos aqui!”Quando o Mestre desceu do Tabor, refere o Evangelho, encontrou ao sopé domonte muito povo e nove dos seus discípulos, tentando expulsar um vampiroobsessor, que maltratava um menino; mas não conseguiram nada. Jesus, emface de tamanha falta de fé, rompeu nestas palavras estranhas: “Ó geração
  15. 15. incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vossuportarei?”...São palavras de quem caiu do céu para dentro do inferno.Toda a vez que o homem regressa do mundo divino do êxtase da luz e recai aomundo humano das trevas, tem vontade de repetir estas palavras do Mestre.Depois duma hora de intensa sintonização espiritual, a gente, no princípio, nãocompreende mais o mundo dos homens – desses homens que se têm emconta de muito sensatos. A que vem toda essa palhaçada, essa ridículacomédia? Por que essa louca correria de norte ao sul, de leste a oeste? Porque toda essa desenfreada caça a dinheiro e prazeres? Por que toda essagritaria de energúmenos civilizados? Por que sempre ganhar e gastar – paradepois morrer, no marco zero? Que sentido tem a vida desses sonhadores desonhos e caçadores de sombras?“Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei?”... O homemregressando dos céus de Deus para os infernos dos homens e dos demônios,se sente desambientado, estranho nesta terra. ***No monte das bem-aventuranças, no dia 15-8-1969. Aqui sobre uma destasverdes colinas de Kurun Hattin, não longe do lago da Galiléia, foi promulgada,há quase vinte séculos, a Carta Magna do Reino de Deus sobre a face da terra,o chamado Sermão da Montanha.Dele disse Mahatma Gandhi: “Se todos os livros sacros da humanidade seperdessem e se salvasse tão-somente o Sermão da Montanha, nada estariaperdido”.Nele viu o libertador da Índia confirmado o seu conceito de ahimsa (não-violência) e sua satyagraha (apego à verdade) – e com estas duas armassecretas libertou Gandhi o seu país, sem derramar uma gota de sangue, fatoúnico na história da humanidade.Armas secretas?Não! Alma em lugar de arma. O ego humano considera a arma como símbolode força – mas o Eu divino no homem sabe que arma é sinal de fraqueza, ealma é sinônimo de força.Sentei-me sobre uma pedra, abri o Novo Testamento, Evangelho segundoMateus, e li vagarosamente, para mim mesmo:“Bem-aventurados os pobres pelo espírito – porque deles é o reino dos céus.Bem-aventurados os tristes – porque eles serão consolados.
  16. 16. Bem-aventurados os mansos – porque eles possuirão a terra.Bem-aventurados os que têm fome e sede da justiça – porque eles serãosaciados.Bem-aventurados os misericordiosos – porque eles alcançarão misericórdia.Bem-aventurados os puros de coração – porque eles verão a Deus.Bem-aventurados os pacificadores – porque eles serão chamados filhos deDeus.Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça – porquedeles é o reino dos céus.Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem ecaluniosamente disserem de vós todo o mal, por minha causa – alegrai-vos eexultai, porque grande é a vossa recompensa nos céus.”Fechei o livro, fechei os olhos, eclipsei o pensamento – e fiquei somente com aalma aberta e consciente... E ouvi no silêncio de minha alma o silêncio deDeus...Vi o Mestre sentado sobre uma das colinas de Kurun Hattin... Ao redor deleseus discípulos... Mais além, pelas fraldas das colinas, a variegada multidãodos outros ouvintes, “vindos da Galiléia, da Decápole e de Jerusalém”...Havia no ar matutino um quê de indizível sacralidade, como se fosse amadrugada virgem do mundo, aljofrada ainda do orvalho do Gênesis – fiat lux...Abismei-me em profunda meditação...Quando voltei a mim, olhei em derredor – mas o Mestre não estava mais. Descidas colinas e fui seguindo rumo ao litoral florido do lago de Tiberíades. Chegueia Mágdala (Migdála, dizem eles lá).À beira do caminho passei por um monumento rústico, em forma de torre;disseram-me que ali estivera a casa de Maria Magdalena, essa ardentediscípula do Nazareno, a quem foram perdoados os seus muitos pecadosporque muito amou... ***Ainda nesse mesmo dia, 15-8-1969, sentei-me sobre as ruínas da sinagoga deCafarnaum, lendo o capítulo 6 do Evangelho de João, sobre “o pão vivo quedesceu do céu”. Da sinagoga do tempo de Jesus restam poucas colunasredondas, uma em pé, outras no chão. Ao lado das ruínas há uma igreja nova.
  17. 17. Não há no Evangelho passagem mais enigmática do que este capítulo 6 doEvangelho de João. As igrejas dogmáticas entendem que Jesus prometeu, emais tarde, na santa ceia, realizou um processo misterioso, que os teólogoschamam “transubstanciação”. As igrejas evangélicas, em geral, acham que setrata apenas de um belo simbolismo, mas que não houve nenhumatransformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Jesus.Entretanto, as palavras do Nazareno não favorecem nem esta nem aquelaopinião. “As palavras que vos digo são espírito e são vida – a carne de nadavale”. “Isto vos é pedra de tropeço? E que direis quando virdes o Filho doHomem subir aonde estava antes?Estas últimas palavras dão a chave para a solução do mistério. Os ouvintesentendiam por “corpo” ou “carne” uma matéria física, uma facticidade materialde carne, sangue, osso, nervos, epiderme, etc.; Jesus, porém, não entendiapor “corpo” e “sangue” essas materialidades, mas sim a realidade do seucorpo, que não é material. Não existe nenhum corpo material, nem corpo astral,nem corpo etérico – só existe o corpo real. Ninguém pode ver e tanger o corporeal, que não é objeto de percepção sensorial, nem mesmo de análiseintelectual – o corpo real é objeto de intuição espiritual. O que, no dia daascensão, subiu às alturas, até se subtrair à visão dos expectadores, era ocorpo real de Jesus, que aos olhos de seus discípulos parecia ser material.Segundo a nossa ciência nuclear de hoje não existe matéria como matéria,nem existem os 92 elementos da química – existe tão-somente a Luz Cósmica,absolutamente invisível e intangível. Esta Luz é a única realidade física, aopasso que os elementos são apenas manifestações parciais, facticidadestransitórias dessa única realidade permanente. Todas as coisas do Universosão lucigênitas, e todas podem ser lucificadas.Jesus, em Cafarnaum, faz ver aos cépticos que a realidade do pão serátransformada na realidade do seu corpo – mas a materialidade (facticidade) dopão não será transformada na materialidade (facticidade) do seu corpo. Háuma transubstanciação real, mas não uma transubstanciação material.Aliás, que efeito produziu nos discípulos do Nazareno a ingestão do pão e dovinho consagrados? Se efeito houve, foi totalmente negativo: Judas, assim quedeglutiu o bocado de pão, consumou a planejada traição, e depois se suicidou[2]. Pedro nega três vezes seu mestre. E todos, à exceção de um só, fugiramcovardemente, no momento do perigo – belos neo-comungantes... Tristes neo-sacerdotes...--------------[2] O texto grego não diz que Judas se “enforcou”, mas sim que se “precipitou”, isto é, lançou-se de umpenhasco ao abismo, onde, diz o texto, “arrebentou ao meio e se difundiram todas as suas vísceras”.Como se explicaria isto se se tivesse enforcado?
  18. 18. Só mais tarde, no Pentecostes, é que eles comungaram em espírito e emverdade, não a materialidade de Jesus, mas a realidade do Cristo...“As palavras que vos digo são espírito e são vida”...Somente em nossos dias, em que a física se torna cada vez mais metafísica, épossível criar uma base para a compreensão das palavras que Jesus proferiuna sinagoga de Cafarnaum.Estes e outros pensamentos me invadiram, quando estava sentado sobre asruínas da sinagoga de Cafarnaum, onde o maior dos metafísicos-místicosproferiu verdades tais que uma humanidade de experiência primária não pôdeainda compreender. Somente na Universidade Cósmica do Cristo serãodevidamente compreendidas estas grandes revelações.Falar é bom – calar é melhor.Pensar é necessário – intuir é suficiente.Enquanto o homem é apenas ego-pensante está soletrando o abc na escolaprimária da sua pobre personalidade. Só quando for cosmo-pensado é queingressa na Universidade da sua individualidade espiritual. E quando, um dia,depois de ser ego-pensante e cosmo-pensado, for cosmo-pensante, entãocompreenderá plenamente o que o Cristo quis dizer com as misteriosaspalavras sobre o “pão vivo que desceu do céu”.
  19. 19. PALMILHANDO A ESTRADA JERUSALÉM-EMAÚSNum desses dias, em Jerusalém, fiz do passado o presente, e revivi o que foivivido 20 séculos atrás.Era o ano 33, dia 9 de abril, primeiro dia da semana pelas 4 horas da tarde.Dois homens vinham de Jerusalém e se dirigiam rumo oeste, em demandaduma aldeia por nome Emaús, distante da capital uns 12 quilômetros.Era na tarde da primeira Páscoa – mas na alma desses dois era aindaQuaresma, luto e tristeza. Havia uns três anos que os dois tinham vindo deEmaús a Jerusalém. Cheios de entusiasmo e expectativa, tinham seguido atrajetória de um profeta que viera de Nazaré da Galiléia. Esse homem falavacomo nunca ninguém falara, focalizando sempre “o reino de Deus”, que, comoele dizia, estava dentro de cada homem como tesouro oculto e devia sermanifestado.Os dois não faziam parte do círculo íntimo dos doze companheirospermanentes do profeta nazareno, mas eram do numero dos 70 que,frequentemente escutavam a estranha mensagem do Galileu.Mas agora, três anos depois... Agora, lá se fora o sonho dourado deles, queacabara em lúgubre pesadelo e tremenda decepção... O grande profeta fôramorto, condenado ao ignominioso suplício da crucificação, por exigência doschefes espirituais da sinagoga de Israel, que consideravam o Nazareno comofalso Messias...Pela manhã desse terceiro dia após a morte do profeta restava ainda um tênuevislumbre de esperança aos dois, porque ele prometera “ressuscitar”; e eleshaviam esperado, entre esperanças e dúvidas, esse incrível acontecimento.Mas agora ia terminar o terceiro dia – e nada de ressurreição. Apagou-se naalma dos dois a derradeira centelha de fé e de esperança no Nazareno; mas oseu amor sobrevivia ao naufrágio universal...Sim, os dois continuavam a amar o estranho profeta, e nunca deixariam deamá-lo. Com a alma cheia de amor e vazia de fé e esperança, regressavameles a seus lares. Apressadamente deixavam Jerusalém, cenário de tantasesperanças e de tanto desespero.
  20. 20. Já iam a meio caminho entre Jerusalém e Emaús, conversando em voz baixasobre os últimos acontecimentos relacionados com o profeta de Nazaré.Nisto ouviram passos de alguém que vinha de trás e seguia o mesmo caminho.Calaram-se os dois e retardaram o passo, para deixar passar de largo oviandante e continuarem depois a ruminar os seus dolorosos cismares.Quando estamos com a alma em chaga viva, sofridos de nós mesmos, nãogostamos de falar com estranhos, não queremos saber de ninguém que possaprofanar o sacrário do nosso sofrimento. Queremos solidão e silêncio...Mas o estranho que vinha de trás, em vez de passar adiante, como os doisesperavam, também retardou o passo e emparelhou com eles. E sem maisnem menos tentou invadir o santuário das dolências deles, perguntando:– Que conversas são essas que entretendes entre vós? E por que andais tãotristes?Os dois não responderam. Estavam intimamente revoltados com essa sem-cerimônia do desconhecido. Mas, como este insistisse com perguntas e queriasaber o porquê das suas tristezas, um dos dois, por nome Cleófas, quebrou osilêncio, perguntando:– Como? Será que tu és o único forasteiro em Jerusalém e ignoras o que láaconteceu?– Que foi que aconteceu? – perguntou o estranho.Os dois se viram obrigados a lhe dar explicação; do contrário, nunca mais severiam livres dele.– Aquilo, de Jesus de Nazaré – respondeu Lucas, ladeando a questão, semvontade de entrar em pormenores. “Aquilo” é uma palavrinha neutra,inofensiva, eufemística: mas está em lugar de algo muito amargo e doloroso.Está em lugar de “a morte trágica do profeta de Nazaré”. Quando estamosassim, intimamente chagados, evitamos instintivamente pôr o dedo na feridaaberta, mencionando diretamente o motivo da nossa tristeza; preferimos usarde circunlóquios vagos que não reabram a chaga...“Aquilo de Jesus de Nazaré”...Depois de longa pausa e em face da expectativa do estranho, Lucas se animafinalmente a dizer mais explicitamente:– Ele era um grande profeta, poderoso em palavras e em obras, perante Deuse todo o povo...
  21. 21. É esta a primeira e mais concisa biografia que temos de Jesus: era um profeta,um arauto de Deus; tudo que dizia e fazia revelava poder; e isto perante todo opovo...Mas o estranho insiste em querer saber mais a respeito desse Jesus deNazaré. Ao que Cleófas resolve narrar com mais detalhes a tragédia doGólgota. Mas o que ele diz, segundo o texto evangélico, é um verdadeiro cipoalde anacolutos, fragmentos de frases, reticências e lacunas, que são um retratofiel do estado psíquico em que se encontrava o narrador. Quando estamosassim, interiormente abalados, pensamos e sentimos tão intensamente que,não raro, nos esquecemos de verbalizar o que sentimos – como se os outrospudessem ver e ouvir os nossos pensamentos não exteriorizados...– Mas – prosseguiu o narrador – os nossos magistrados e sacerdotesentregaram o Nazareno à pena de morte.Calou-se. Aqui deve ter vindo uma longa pausa, durante a qual os trêsandavam em silêncio pela estrada Jerusalém-Emaús, enquanto as sombrasdos escuros e esguios ciprestes que margeavam o caminho alongavam cadavez mais as suas sombras, contribuindo para a melancolia geral.– Nós esperávamos – prosseguiu Lucas – que ele fosse o libertador de Israel...Nova pausa e reticência.– Mas, agora já é o terceiro dia...Não percebem que nada disto dá sentido lógico para uma pessoa nãodevidamente enfronhada no assunto. O narrador omite diversos fatosintermediários, sem os quais o resto não tem sentido. Deveria ter explicado aodesconhecido que o Nazareno prometera ressuscitar ao terceiro dia, e que istonão acontecera. Tudo isto é omitido, mas intensamente pensado – e sofrido.– É verdade – interveio o outro, também sem estabelecer concatenação entresequência dos acontecimentos. – Algumas mulheres do nosso meio foram aosepulcro, de madrugada, e disseram ter visto uns anjos, que diziam que elevivia; mas a ele mesmo não viram...Pouco a pouco, como se vê, os dois peregrinos falam com mais desembaraçoe fervor, desabafando a sua mágoa perante um ouvinte atento e interessado.As cinzas que cobriam ligeiramente a brasa viva do seu amor é soprada porestas palavras, e a fagulha está para romper em vívida chama...É tão dolorosamente suave recordar momentos felizes...O estranho já lhes era menos estranho... Quem participa das nossas mágoasnão é mais um estranho.
  22. 22. De repente, o desconhecido parou diante deles e os fez parar também;encarou-os bem de frente e disse:– Ó homens sem critério e tardos de coração!...Os dois estremeceram como se fossem arrancados subitamente de um sono.Que atrevido, esse desconhecido! Em vez de lhes dar condolências pelos seussofrimentos, os censura asperamente, taxando-os de homens sem critério evagarosos de coração, para compreenderem tudo que os profetas tinha dito doNazareno.– Não devia então o Cristo sofrer tudo isto e assim entrar na sua glória?Com este repentino trovão acabaram os dois de despertar totalmente. Sentiamem si algo como um renascer de esperanças... Algo como se a plantinhamurcha de sua alma erguesse a cabecinha ao cair de um orvalho refrigerante...Como? O Nazareno devia sofrer tudo que sofreu? E tudo isto fora predito?... Ofato de ter sido morto não era então um argumento contra a sua missão divina,mas antes uma prova a favor?... Se Moisés e os profetas predisseram tudoisto, ainda há esperanças... Não está tudo perdido...Em meditativo silêncio andaram os dois saboreando o ressurgimento das suasesperanças...Nisto chegou o trio a uma bifurcação do caminho. O estranho fez menção deenveredar por um atalho, despedindo-se dos dois. Estes, porém, o segurarampelo braço e o puxaram para seu caminho, dizendo:– Fica conosco, porque o dia declinou e já vai anoitecendo...No princípio não o queriam ver em sua companhia; mas agora não queremmais ficar sem ele. Quando alguém nos consola em nossas mágoas e nos dánovas esperanças, é amigo querido. Esperavam passar boa parte da noite comele, falando do profeta de Nazaré.O estranho não pôde senão aceitar o convite feito com tamanha veemência.E foi com eles a Emaús.Já era noite, quando lá chegaram. Em assa de Cleófas tomaram frugalrefeição, na varanda. O estranho foi convidado para ocupar a cabeceira damesa, e, na qualidade de hóspede querido, lhe competia “partir o pão” edistribui-lo aos companheiros.Neste momento, abriram-se-lhes os olhos da alma e eles o reconheceramcomo sendo o próprio Jesus, redivivo...E, neste mesmo momento, ele desapareceu.
  23. 23. Os dois se entreolharam, estupefatos, e disseram: Não nos ardia o coração nopeito, quando nos falava dos profetas?... Mas, os nossos olhos estavamtolhidos...Ainda nesta mesma noite, os dois regressaram a Jerusalém. Não levaram duashoras, como antes; mas voltaram de corrida, empolgados pela alegria e peloentusiasmo.Chegados a Jerusalém, se dirigiram imediatamente ao Cenáculo, onde osdemais discípulos do Nazareno estavam reunidos, e bradaram:– Vimos o Senhor, e eles nos disse isto e isto...– Nós também o vimos aqui! – exclamaram os outros.E fundiram-se duas grandes alegrias – nessa tarde da primeira Páscoa dacristandade...No dia 9 de abril do ano 33... ***Relembrei meditativamente tudo isto no dia 14 de agosto de 1969. Os meusolhos físicos não viram o Nazareno nem os dois discípulos dele, quando aQuaresma se lhes convertera subitamente em Páscoa.Mas eu vi os três, e os vejo ainda, quando se dissipam as barreiras fictícias detempo e espaço...No século passado, uma vidente na Alemanha, Ana Catarina Emmerich,acompanhava Jesus em todos os seus caminhos, sem sair da sua terra.Ainda há poucos anos, outra vidente, Teresa Neumann, de Konnersreuth,presenciava periodicamente todos os acontecimentos da vida, morte eressurreição do divino Mestre.Quando a nossa consciência ultrapassa o véu ilusório das facticidades, e entrana luz verdadeira da Realidade, nada é passado e futuro – tudo é presente;tudo é aqui e agora.Não foi há quase 2000 anos, em terras longínquas, que se deram estesepisódios; é aqui e agora que eles estão acontecendo...Quando sairemos deste mundo de facticidades ilusórias?Quando entraremos no mundo da Realidade verdadeira?Entrar? Não! Já estramos neste mundo – mas estamos neleinconscientemente. Quando conscientizarmos a Realidade, que agora nos é
  24. 24. inconsciente, então haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deusserá proclamado sobre a face da terra...
  25. 25. POR ENTRE OS ROCHEDOS DO LÍBANOEm Beirute fomos convidados por um eremita a passarmos com ele um dia emseu ashram – que não existe. O que existe naquelas montanhas secas erochosas, perto de Beirute, são umas pedras enormes, formando cavernasnaturais, abrigos rústicos, onde um eremita idoso, Mikhail Naimy costumapassar longos períodos de silêncio e solidão. Por entre esses rochedosescreveu ele o livro enigmático “Mirdad”, ultimamente publicado em português.Ali conversava ele com Khalil Gibran, autor de livros misteriosos como “Oprofeta”, “O Filho do Homem”, e outros.Combinamos – ele, eu e mais um companheiro de viagem – passarmos 12horas completas nessa selvática Tebaida. Infelizmente, no dia marcado para onosso Retiro, Naimy se viu impedido de nos acompanhar, porque tinha de ir aoencontro de uma pessoa de sua parentela. “Deixa os mortos enterrar os seusmortos”, pensava eu comigo; mas ele não pensava assim... Entretanto, teve agentileza de nos mandar levar, ao amanhecer, até à boca das cavernas, e lános deixou, prometendo vir buscar-nos ao anoitecer.Meu companheiro e eu subimos a pé, lentamente, cautelosamente, através deum mundo de espinhos e abrolhos, saltando de pedra em pedra, até atingirmosa zona dos grandes rochedos, alguns dos quais formavam espécie de casasque ofereciam suficiente abrigo contra o sol e a chuva. Chuvas, aliás, não hánessa zona, a não ser durante certos meses do ano.Cada um de nós levava consigo uma garrafa d’água, pão e uvas. Cada umescolheu a sua caverna e separamo-nos para o resto do dia.Ficamos 12 horas a sós conosco mesmos e com Deus, em pé, sentados oudeitados, na mais profunda solidão, interrompida apenas pelo chiar de umascigarras e os pios de uns passarinhos.Construímos, em São Paulo, um ashram. Fizemos o possível para dar conforto,sem confortismo. Mas, mesmo o conforto que proporcionamos aos quequiserem fazer o seu Retiro, coletivo ou individual, me dá sempre um tal ouqual remorso de consciência. Na antiga Tebaida do Egito, nos desertos daPalestina, nas florestas da Índia, nas cavernas do Himalaia, não havia 1% doconforto que nós estamos dando em nossos lugares de Retiro Espiritual.
  26. 26. Os rochedos do Líbano, onde passamos um dia, me pareciam ser o único lugardigno para entrar em comunhão com Deus. Não havia o menor vestígio decivilização humana. Nenhum turista jamais profanara esses santuários danatureza. As auras eram virgens e puríssimas, como no dia do Gênesis.O silêncio e a solidão são poderosos catalizadores espirituais. São tambémfatores catárticos, que purificam todas as impurezas do nosso ego. O ego viveno barulho e do barulho – e morre no silêncio. Quando falta ao homem-ego oseu querido barulho diário, começa ele a agonizar lentamente, e, se nãoencontra zonas barulhentas, acaba por morrer, afogado no Oceano Pacifico dosilêncio, como peixe fora da água, como ave fora do ar...E, depois da morte do ego, nasce o Eu divino, que ama o silêncio como opróprio Deus, que é eterno e infinito Silêncio.Nos meus livros “Escalando o Himalaia” e “A Voz do Silêncio”, escrevi diversoscapítulos sobre o silêncio. Goldsmith, no seu livro “A Arte de Curar peloEspírito”, menciona o silêncio como fator predisponente para curarenfermidades de toda espécie. Parece que existe até uma silêncio-terapia. Nãose trata, naturalmente, do simples fato objetivo do silêncio, mas duma atitudesubjetiva de silenciosidade. Trata-se do silêncio-presença, e não do silêncio-ausência. Do silêncio-plenitude, e não do silêncio-vacuidade.Anos atrás, quando eu fazia as minhas viagens semanais São Paulo-Rio, deônibus, a fim de dar aulas nessa última cidade, assisti uma vez, de ônibus, àconversa de um casalzinho, do outro lado do estreito corredor, falando 7 horase tanto, do início ao fim da longa jornada, falando, falando sem dizer nada.Falar me parece ser uma espécie de febre cerebral, ou uma comichão bucal;quanto mais a gente se coça mais coceira dá.Falar é o melhor modo para não ter pensamentos, ou, pelo menos, para nãodeixar crescer e desenvolver um único pensamento decente. Quem muito falapouco pensa. É como se alguém passasse constantemente a enxada pelochão, raspando, raspando, e cortando qualquer plantinha que, porventura,quisesse brotar. Nada terá tempo para brotar e crescer.Falar afugenta o pensamento.Pensar afugenta a intuição.Só quem não fala nem pensa, mas se conserva plenamente vígil, essereceberá intuição, inspiração, revelação.As grandes inspirações são filhas do silêncio verbal e mental.Compreendo porque Einstein andava quase sempre silencioso, e evitavaquanto possível fazer e receber visitas.
  27. 27. Quando o homem se habitua ao silêncio auscultativo, entra ele na “comunhãodos santos” e verifica que o Universo todo é um deserto povoado, umavacuidade sonora...Perguntaram ao grande Heráclito de Éfeso o que ele aprendera em tantosdecênios de filosofia; respondeu: “Aprendi a falar comigo mesmo”. Isto é, falarsem palavras, em espírito e em verdade.Por vezes, tenho de passar pelas ruas desta ruidosa Paulicéia, acompanhadode pessoas das minhas relações. Uma dessas pessoas, quando eu não falodurante um ou dois minutos, pergunta-me se estou zangado; se passo cincominutos em silêncio, pergunta se estou doente, e está disposta para me levarao médico.É esta a estranha filosofia do homem-ego: para ele, falar é saúde, calar édoença. Deus, que é infinito silêncio deve, estar mesmo muito doente.A arte da calar dinamicamente é tão grande que nenhum homem-ego aaprende.Quem nunca mergulhou profundamente no silêncio-plenitude só pode falarvacuidades, talvez brilhantes vacuidades, como bolhas de sabão. ***Um dia, no Sítio Nirvana, estava eu plantando umas estacas de astrapéias eoutros arbustos de flores melíferas, para o nosso apiário.Estava bem sozinho, e cosmo-pensado.E eis que uma voz de dentro me disse, em grande silêncio:Quando o homem fala, Deus se cala.Quando o homem se cala, Deus fala.E repetiu muitas vezes estas palavras sem som, enquanto eu continuava atrabalhar. O melhor tempo para ouvir a voz cósmica é quando faço algumtrabalho físico que não exige muito pensamento; assim, o campo está livre paraa invasão do além – do grande além de dentro.Por fim, a voz perguntou:Que é ser calado?Eu quis responder, por conta do meu ego, que estar calado é não falar, nempensar, nem querer nada; é fazer esse tríplice silêncio, como tenho dito nosmeus livros e nas minhas aulas de filosofia univérsica. Mas a voz inaudível meantecipou a resposta, com uma nova pergunta, também sem som:
  28. 28. Sabes o que é o calado de um navio?O calado de um navio? respondi, sem falar. O calado de um navio é a medidado seu afundamento na água; quanto mais carregado está o navio, mais caladotem, mais afunda na água...Por algum tempo, mergulhei num grande vácuo...Depois a voz cósmica, falando de dentro e sem som, me fez ver que calar querdizer afundar-se no Infinito, no Eterno, no imenso Oceano da Realidade, naDivindade. Só quando o homem está assim, afundado em Deus, é que ele estárealmente calado. E, para que o homem tenha esse calado de profundeza,deve ele estar devidamente carregado de espiritualidade. O homem não-espiritual é superficial, sem calado suficiente, flutuando e boiando na superfíciedas coisas ilusórias do ego...Assim dizia a voz silenciosa de dentro.E assim minha alma ouviu em silêncio, quando cosmo-pensada.Depois comecei a pensar, por minha conta, coisas como estas: Isto caloufundo... os soldados avançaram de baioneta calada... E verifiquei que calar quedizer abaixar, aprofundar.E perguntei a mim mesmo: Onde foram os portugueses buscar esta palavra:calar? Quando em latim não existe, mas é tacere?E lembrei-me de outras palavras portuguesas que não vêm do latim, comonada, que em sânscrito quer dizer Infinito; e desmaiar, que quer dizer perder anoção da maya, palavra sânscrita para natureza.E lembrei-me dos livros sacros, que dizem: Cala-te – e saberás que eu souDeus...E mergulhei nas profundezas do Oceano Pacífico da Divindade, unindo o meusilêncio humano ao silêncio de Deus... ***Ao entardecer, saímos das nossas cavernas rochosas e descemos a rampa domorro, ao caminho, onde, em breve, apareceu o carro, que nos ia levar de voltaa Bikfaia, parte montanhosa de Beirute, onde estávamos hospedados.Sentíamo-nos tão leves, tão puros, tão etéreos, e não tínhamos o menor desejode deixar o nosso divino nirvana, para voltarmos ao humano sansara.
  29. 29. NOS TÚMULOS DOS FARAÓSA impressão que tive ao sobrevoarmos o delta do Nilo rumo ao Cairo, foidesoladora. O Egito me parecia um imenso deserto de areia e de pedras,entremeados de alguns bosques de tamareiras.Perto da capital se estende o deserto de Gizeh, onde três grandes pirâmidesemergem do areal, guardadas pela enigmática esfinge, que com olhos vácuos,plenos de eternidade, contempla os desertos em derredor.Ninguém sabe dizer ao certo o que significam esses gigantescos monumentosde pedra. Quando, por quem e por que foram construídas as pirâmides? Amais alta mede quase 150 metros.E por que essas câmaras mortuárias em seu interior? E esses corredores,estreitos e escuros, que dão para as câmaras? Nessas câmaras jaziam,outrora, as múmias, que se acham agora no museu do Cairo, e alhures. Ascâmaras parecem irradiar, até hoje, algo equidistante de matéria e de espírito.Será que existe uma radioatividade astral?Pedi a meu companheiro que me deixasse sozinho numa dessas câmarasmortuárias, a fim de auscultar, através de 4.000 anos, algo da presença dosque aqui viveram e morreram. Se tempo e espaço fossem coisas reais, seriaabsurdo essa tentativa; mas nós sabemos que a Realidade é toda aqui eagora, embora as facticidades sejam distanciadas por tempo e espaço. Quemconsegue conscientizar devidamente a Realidade, transforma em propínquasimultaneidade as mais longínquas sucessividades. Assim como, numa rodagirante, todas as periferias sucessivas são simultâneas no centro imóvel doeixo, assim estão o passado e o futuro atomizados no eterno e imóvelpresente. Todos os Versos estão presentes no Uno do Universo.Não é necessário ver, ouvir, tanger, pensar – basta intuir e ser cosmo-pensado– e tudo que aconteceu milênios atrás está acontecendo aqui e agora.Estava eu com vontade de passar uma noite, sozinho, numa dessas câmarasmortuárias das pirâmides, como fez Paul Brunton; mas não sabia se estavadevidamente encouraçado com armas espirituais para resistir à possívelofensiva do mundo astral, que parece ser extremamente denso nesses recintosmilenares.
  30. 30. Essas câmaras parecem saturadas de energia astral, ou que outro nome tenha.O silêncio profundo e prolongado potencializa grandemente a nossasensibilidade. Quando todos os ruídos externos – materiais, mentais eemocionais – morrem, então o silêncio começa a falar. E do seio do silêncionasce uma voz cuja plenitude plenifica a nossa vacuidade. Se o homemcultivasse devidamente essa arte suprema do silêncio dinâmico, do silêncio-presença, chegaria a saber de coisas que nem pensamentos nem palavras lhepodem revelar...Os antigos egípcios sabiam, certamente, que o corpo astral dos seus reispermanecia ao redor do corpo material e podia, um dia, servir de ponte para arevivificação dele.Em princípios do nosso século, uma expedição britânica, após decênios detrabalhos infrutíferos, conseguiu localizar o túmulo do jovem faraó Tut-Ank-Hamon, filho de Akhenaton I e Nefertiti. Foi encontrado no Vale dos Reis, pertode Luxor, cidade distante, Nilo acima. Tut-Ank-Hamon, embora filho de umcasal monoteísta, foi educado pelos sacerdotes politeístas de Hamon; mas, emsua adolescência, começava a manifestar pendores monoteístas – e ospoderosos politeístas de Hamon o envenenaram, entre 18 e 19 anos de idade emandaram enterrá-lo onde ninguém pudesse descobrir-lhe o cadáver. Oscientistas britânicos que descobriram a múmia procuraram verificar a causamortis do faraó. Constataram o sinal de uma picada de inseto na face damúmia, que se acha agora no museu do Cairo, onde a contempleidemoradamente.Pouco depois, diversos dos membros da expedição morreram misteriosamente,e na face de cada um deles havia o mesmo vestígio de uma picada de inseto.Será que os sacerdotes magos de Hamon criaram um inseto astral que deuferroada mortífera a Tut-Ank-Hamon? E será possível que, cerca de 3.500 anosmais tarde, esse mesmo veneno astral ainda tenha produzido efeito nos quefizeram surgir à luz do dia um cadáver que, na intenção dos politeístas, deviaficar em eternas trevas de total esquecimento?Entrei no vasto recinto subterrâneo onde o corpo de Tut-Ank-Hamon repousoutrês milênios e meio. O efeito do veneno dos sacerdotes politeístas pareceagora extinto.Quem lê com atenção a descrição da “Arca da Aliança” de Moisés, no livro doÊxodo, acaba por se convencer de que esse santuário portátil era uma pilhaelétrica, construída segundo todos os requisitos da ciência, com pólos positivose negativos. Os egípcios sabiam algo da eletricidade, embora não soubessemutilizá-la ainda tecnicamente. Nem ignoravam radioatividade, de que seserviam para proteger os corpos de seus reis.
  31. 31. Diante das três grandes pirâmides de Keops, Mykerinos e Chefren há umgigantesco palco ao ar livre. Algumas vezes por semana se representa nesselocal o teatro “Som e Luz” espécie de drama histórico, falado alternadamenteem árabe, inglês, francês e alemão, entre 20 e 22 horas. Assisti à exibição emalemão. Os atores e as atrizes são todos invisíveis. Só se lhes ouve a voz, dasprofundezas da noite estrelada em pleno deserto, voz ampliada por potentesalto-falantes, enquanto gigantescos holofotes projetam luz em diversas coressobre as pirâmides e a esfinge. Quem fala são os faraós, as pirâmides, aesfinge, o próprio deserto, as trevas da noite e as águas do Nilo, que contam aepopéia de um povo estranho e único na face da terra.Há quem atribua a origem das pirâmides e da esfinge aos Atlantes, em épocaspré-históricas.A lendária Atlantis, ou Atlântida, sumiu, mas ao norte da África ficou o monteAtlas, e entre a Europa-África e a América se estende o Oceano Atlântico,reminiscência, talvez, de um continente desaparecido.No Cairo comprei efígies metálicas de Tut-Ank-Hamon e da linda Nefertiti; emLuxor adquiri um busto, em basalto preto, de Hat-shep-sut, talvez a misteriosa“filha do faraó”, que, segundo a Bíblia, foi a mãe adotiva de Moisés, mas,segundo uma mensagem psicografada, foi a mãe verdadeira do grandelegislador de Israel.O Egito está repleto de reminiscências de Hat-shep-sut. Existem até as ruínasde um tempo construído por ordem dela.É emocionante a lenda que envolve o nome dessa princesa. Escultora, ia ela,de vez em quando, ao atelier de Itamar, jovem escultor hebreu. E, enamoradadas esculturas do escravo hebreu, acabou por se enamorar também dofascinante escultor. Mas, como princesa egípcia, não podia jamais pensar emcasar com um escravo. O príncipe egípcio que, segundo as leis da corte, deviaser o futuro marido de Hat-shep-sut, suspeitou das simpatias da jovem paracom Itamar, e matou o hebreu. Tempos depois, a princesa deu à luz um filhodela com Itamar; camuflou jeitosamente a origem da criança escondendo-a noscanaviais do Nilo e, encontrando-a “casualmente”, numa manhã em quetomava o seu banho de natação no grande rio. Levou-a para casa, educou-a nopalácio real, “em toda a sabedoria dos egípcios”, e lhe deu o nome “Moshe”(Moisés ou Moshe), que quer dizer “filho” [3]. O sufixo “moses” ou “mes”aparece no nome de diversos faraós, e significa “filho”. Seria incompreensívelque a princesa tivesse educado e instruído com tanto carinho um escravohebreu que não fosse seu próprio filho. Aos 40 anos, segundo a lenda, chegouMoisés a saber que era filho verdadeiro da princesa, a qual, na hora da morte,lhe desvendou o segredo. Moisés quis saber quem era seu pai. E, ouvindo queseu pai hebreu fora assassinado por um príncipe egípcio, jurou vingança aoEgito inteiro. Matou um feitor egípcio, e teve de fugir do país. Foi para as
  32. 32. estepes da longínqua Arábia, onde passou 40 anos, como pastor dos rebanhosdo sheik Jetro, com cuja filha mais velha se casou. Durante esse longo períodoaperfeiçoou-se na magia egípcia, que aprendera de sua mãe, e aos 80 anos“ainda em plena juventude”, teve ordem divina de regressar ao Egito e libertar oseu povo da escravidão. Lançou nove pragas, que foram neutralizadas pelosmagos do faraó; mas na décima praga, a morte dos primogênitos, nãoencontrou rival entre os seus conterrâneos, e libertou o povo hebreu,conduzindo-o, por mais 40 anos, rumo à Terra da Promissão. Nas alturas domonte Nebo, fronteira a Canaan, Moisés desaparece misteriosamente, aos 120anos, “ainda em plena juventude”. Morreu? Desmaterializou-se? Astralizou-se?Ninguém sabe de que são capazes esses magos. Cerca de 1.500 anos maistarde, reaparece nas alturas do Tabor, ao lado de Jesus transfigurado – Moisésem corpo real, embora não-material, falando com Jesus “sobre a morte próximadele”. Mas que quer dizer “morte” para homens dessa natureza?...--------------[3] Provavelmente, Moisés não era filho material, embora real, da princesa egípcia, concebidoastralmente, por indução vital, como expliquei no meu livro “A Nova Humanidade”. Esse mistério de tele-concepção astral vai por todas as antigas literaturas; sempre de novo aparecem virgens-mães. Essaconcepção astral daria ao filho um corpo perfeito, isento de doenças e morte compulsória, como era ocorpo de Moisés, de Jesus e de alguns outros representantes da nova humanidade.Consta por mensagens esotéricas que o pai de Moisés era um escultor hebreu por nome Itamar, que, naausência material dele, atuou sobre a princesa, iniciando a formação do corpo de Moisés. Mas, como estatele-concepção astral não era compreensível aos profanos da corte do faraó, constou que ela haviaadotado um pequeno hebreu exposto entre os canaviais do Nilo.Se Moisés tivesse sido apenas filho adotivo da princesa egípcia, e não filho real, seria inexplicável ocarinho com que ela, durante 40 anos, o educa e instrui em toda a sabedoria dos egípcios. ***Quem contempla esses milhões de gigantescos blocos de pedra – uma daspirâmides tem três milhões desses blocos – que os nossos mais modernosguindastes não conseguiriam suspender; e quem examina a precisão com queeles foram colocados uns sobre os outros, sem deixar o menor interstício –pergunta a si mesmo: Como conseguiram os egípcios transportar e suspenderesses blocos enormes?Sei que há diversas hipóteses, mas nenhuma delas satisfaz.Foram encontradas inscrições hieroglíficas contendo fórmulas mágicas sobre a“desponderação” da matéria, bem como sobre a desintegração molecular damesma. Parece que os sacerdotes e magos do Egito conheciam o efeito decertos sons que neutralizavam a gravidade da matéria e dissolviam a suacoesão molecular. Os iniciados nesses mistérios aplicavam essa vibração a umbloco de matéria, e este perdia a sua gravidade, podendo ser suspendido às
  33. 33. alturas até por uma criança. Depois dessa “desponderação”, a matéria se“responderava” voltando a seu peso normal.Josué, sucessor de Moisés, herdara do grande mago esse segredo. Segundo aBíblia, fez desmoronar as muralhas da fortaleza de Jericó, produzindo certasvibrações aéreas por meio de instrumentos musicais, que culminaram namúsica do “hino do jubileu”, e reduziram a simples areia as muralhas dafortaleza.Que sabemos nós desses segredos da natureza e desse poder mental dohomem?
  34. 34. YOGA E OS EREMITAS CRISTÃOSQuando se fala em yoga e yoguis, logo se pensa na Índia. E, no entanto, oOcidente teve séculos de grandes yoguis – sobretudo na Tebaida do Egito.Visitei as cidades e ruínas de Luxor e Karnak, e a aldeia de Abu, Nilo acima, erememorei os tempos gloriosos em que todas as regiões circunvizinhas eramhabitadas por eremitas cristãos. Viviam em silêncio e solidão nas cavernas dosdesertos da Tebaida, não longe de Tebas, capital do Egito Superior. Haviamdesertado da corrupção do Império Romano, irremediavelmente votado aoextermínio, e viviam a sós com Deus e sua alma, preparando-se para uma vidafutura. Tomavam a sério, ao pé-da-letra, as palavras do divino Mestre: “Quemnão renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo”. Todos elespraticavam a mística – talvez o misticismo – que, desde tempos antigos,prevalecia na Índia, no Tibete, sobretudo nas montanhas do Himalaia,povoadas de mahatmas, maharishis e yoguis de toda a espécie. Esses super-homens, quer da Ásia, quer da África, procuravam realizar o seu Eu espiritual,esquecidos quase totalmente do seu ego humano. Se eram desertores eescapistas da vida terrestre, não deixavam de ser homens de imensa boavontade. Quando, hoje em dia, falamos de místicos e ascetas, muita gentetorce o nariz, com ares se superioridade, como se já tivessem superado essesperíodos de “fanatismo”, como muitos chamam o entusiasmo espiritual. Muitosdos nossos profanos se julgam homens cósmicos; acham que não abusam dosbens terrenos, e por isto não os precisam recusar, mas já sabem usá-loscorretamente. Quando ouço essas tiradas dos supostos homens cósmicos,logo desconfio da sua cosmicidade, e uma voz me segreda “eles são os maisprofanos dos profanos, mas ignoram a sua própria profanidade, e acham que jáultrapassaram a mística”.Eu, por mim, conheço um único homem realmente cósmico, que haviaultrapassado tanto o plano dos profanos como o dos místicos, pelo menos nosúltimos anos de sua vida terrestre. Mesmo João Batista era ainda do númerodos místicos e ascetas. Quem nunca passou pela mística não pode sercósmico – e onde estão os nossos místicos, os ascetas, os campeões darenúncia?Albert Schweitzer escreveu: “O Cristianismo é uma afirmação do mundo – quepassou pela negação do mundo”.
  35. 35. Mahatma Gandhi disse: “Homem, renuncia ao mundo, entrega-o a Deus – edepois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus”.E o próprio Cristo disse a seus seguidores: “Quem quiser ganhar a sua vidaperde-la-á – mas quem perder a sua vida por minha causa, ganha-la-á”.Todos os mestres espirituais da humanidade insistem na necessidade damística, da ascese; se algum deles atingiu as alturas da vivência cósmica,atingiu-as através da experiência mística e ascética. Despossuir-se de tudo –para o poder possuir; morrer – para viver corretamente; não ter nada – para sertudo... é este o caminho que todos os mestres da humanidade ensinam.Mas os nossos liberais de hoje se julgam tão superiores a todos os mestresque falam com desprezo desses “atrasados” que ainda não sabem usar semabusar, e por isto têm de recusar.Pobres analfabetos da espiritualidade! Ignoram a sua própria ignorância – e sejulgam sábios... Consideram sua doença como saúde – e zombam dosconvalescentes...Perlustrei esses lugares sagrados, agora desertos, e relembrei os nomes detanto eremitas e cenobitas, aliás uns poucos desses muitos que ali viviam, masquase todos desconhecidos à posteridade. Aqui meditava fulano... Ali viviasicrano em perpétua contemplação de Deus... Mais além, se mortificavabeltrano...Mais tarde, alguns desses eremitas solitários se reuniram em grupos, esurgiram os primeiros cenobitas, que viviam em mosteiros e comunidades.Escreveram-se muitos livros em torno da vida de alguns desses santosdesertores; mas, como quase todos eles viviam no anonimato, pouco sabemosdeles. Calavam-se diante dos homens e só falavam com Deus. O silêncio é alinguagem de Deus e dos homens espirituais – o barulho é a dos egosprofanos.Os trapistas de hoje são um eco desses eremitas silenciosos da Tebaida. Umdeles, Thomas Merton, ultimamente se tornou célebre sem querer, porqueescreveu livros maravilhosos, que correm mundo, alguns deles até vertidos emportuguês. Infelizmente, morreu em plena atividade, vítima de um acidente, naÍndia, onde visitava uns yoguis hindus e fazia meditação com eles.De algum desses eremitas da Tebaida se contam coisas estranhas, se nãohistoricamente verdadeiras, certamente verdadeiras como característicaespiritual deles.Um dia, o eremita A. disse ao eremita B., seu vizinho:– Sabes, irmão, que lá fora há guerra?
  36. 36. – Guerra? – replicou o outro. – Que é isto?– Bem... – retrucou o primeiro – guerra... guerra... é uma coisa muita feia, quenão se deve fazer.– Mas, afinal de contas, que é guerra?– Não sei explicar... Mas vamos brincar de guerra, para compreenderes o queé. Olha aqui, eu tenho um livro; tu não tens livro algum. Eu digo: Este livro émeu! Tu respondes: Não! Este livro é meu! Eu grito: Este livro é meu! Assimcomeça a guerra. Vamos brincar de guerra: Este livro é meu!...–?– Responde!– Responder, o quê?...– Grita: Este livro é meu!– Como? Se este livro é teu, então não é meu...– Ora, ora... Tu não tens vocação para guerra... Já acabaste com a guerraantes de começar... Os homens lá fora não fazem assim. Brigam sem fim, porcausa de coisas que não são nem de um nem de outro.– É verdade, nós não temos jeito para guerra...– Também não temos nada por que brigar...– Paciência... Não podemos sequer brincar de guerra...De Santo Antão da Tebaida se conta o seguinte: Um dia, alguém de fora lheofereceu um lindo cacho de uvas. O eremita ascético namorou a uva, cheirou-a, mas não comeu um baguinho sequer. Aliás, esses homens passavam diasinteiros sem comer nada. Alguns só comiam uma vez por semana. Eram todosvegetarianos absolutos. Achavam que a atividade estomacal não era bemcompatível com a atividade espiritual. Mahatma Gandhi, em nossos dias,parece ter pensado do mesmo modo. Orava e jejuava, e por isto conseguiatudo pelo poder da alma, sem o poder das armas. Mas, os profanos eanalfabetos da Verdade acham que poder é arma: canhão, metralhadoras,bomba atômica – assim pensam e assim agem precisamente porque sãoanalfabetos nas coisas da alma. Quem não conhece a alma tem de usar arma– quem conhece a alma não usa arma. E, ainda por cima, muitos dos que sãoformados na insipiência das armas e ignoram a sapiência da alma, têm asacrílega audácia de se dizerem discípulos do Cristo...Mas, voltemos a Santo Antão, que recebeu um lindo cacho de uvas e omandou a um eremita vizinho, na outra caverna. Diz a história que, ao
  37. 37. entardecer desse dia, o cacho de uvas, depois de fazer o rodízio todo pelavasta Tebaida, voltou a Santo Antão, intato. Nenhum dos monges quis deliciar-se com a sua ingestão, com medo de favorecer algo como gula, de que todosos egos são devotados amigos.Santo Antão ergueu as mãos ao céu e disse: Graças a Deus, que ainda háverdadeiros monges na face da terra... ***Se o homem praticasse concentração mental, ou até contemplação espiritual,verificaria que o maior poder reside precisamente no mundo mental e espiritual.Mas esse poder só se revela aos poucos, após longos períodos de focalizaçãointensamente consciente. Há homens entre nós que conseguem fazer umahora de focalização consciente, ou cosmo-consciente; outros, uns poucos, semantém por um dia, ou até por alguns dias, nesse ambiente da potênciacósmica, imaterial. Mas tudo isto não passa de abc de escola primária. Osgrandes universitários do verdadeiro poder espiritual, do poder creador,permanecem na zona desse poder durante 30 a 40 dias consecutivos. E, paraintensificar essa concentração, se abstêm, total ou quase totalmente, dealimentação, porque sabem que a atividade estomacal perturba a focalizaçãoespiritual.Moisés, Elias, Jesus, com 40 dias e noites de silêncio e solidão, no alto demontanhas ou no fundo de desertos, faziam jorrar de dentro de sua alma fontesde poderes tais que eclipsavam todas as forças físicas.Antigamente, não havia locais especiais para exercer essa concentraçãomental-espiritual; os eremitas e yoguis se recolhiam a qualquer deserto,montanha ou floresta; não necessitavam de cama nem cozinha, não tinham luzartificial nem água encanada. Quando o poder do espírito é máximo, asnecessidades materiais são mínimas.Nos últimos tempos, a elite da humanidade voltou a sentir a necessidade deTebaidas, Sinais, Himalaias, desertos, solidões; porém dotados de algumconforto, embora sem confortismo. Estamos oferecendo a esta humanidadealgumas Tebaidas e alguns Himalaias razoavelmente confortáveis. Nãopodemos crear homens idôneos; só podemos criar ambientes convidativos. Aidoneidade vem de outra região, vem do livre-arbítrio de cada um. Nem omelhor lugar garante concentração ao homem comodista, incapaz de esforçopessoal. A tendência da maior parte dos homens chamados “espiritualistas” éde simples turismo devocional. Muitas Tebaidas e os Himalaias de hojedegeneraram em clubes esportivos e centros sociais. Outros substituíram omagno problema da auto-realização por atividades filantrópicas, vestindo osnus e enchendo estômagos vazios, deslembrados do que o Mestre disse:
  38. 38. “Pobres sempre os tendes convosco, e lhes podeis fazer bem quandoquiserdes – a mim, porém, nem sempre me tendes”.Em face disto, tivemos de elaborar rigoroso regimento interno para os nossosashrams.Ashram, Tebaida, Himalaia, Sinai, não são apenas lugares de Retiro Espiritual,retirados da vida social urbana; devem ser verdadeiras metánoias, palavrausada pelo texto grego do Evangelho para “transmentalização”: um modo depensar e viver para além da mente da personalidade egocêntrica. Metánoia éconversão. Quando o homem está, por assim dizer, de costas voltadas para asuprema Realidade (Deus), e de rosto voltado para as coisas do mundo; está“avertido”; mas, quando dá meia volta, voltando o rosto conscientemente para aRealidade, então é um “convertido”. Passou da ilusão para a verdade. Não é“remendo novo em roupa velha”, como todo ego virtuoso continua a ser; oconvertido despojou-se do homem velho, revestiu-se do homem novo e fez-setotalmente “nova creatura em Cristo”. ***É deveras estranho, e mesmo trágico, que o lugar do antigo Egito onde esteve,durante séculos, a Tebaida cristã, não se encontre um vestígio do seu gloriosopassado. Os Himalaias continuam a ser o el-dorado dos yoguis – mas aTebaida deixou de ser espiritual. Os atuais habitantes são árabes,muçulmanos, maometanos, geralmente indolentes, só interessados nas coisasmais rasteiras do velho ego. Pouco sabem de meditação. Perderam até amagia mental de seus antepassados. Dinheiro, sexo e divertimentos – e nadamais, como a maioria dos chamados cristãos do ocidente. Parece que a lei domenor esforço impera tão despoticamente no plano mental como no mundomaterial. O grosso da humanidade, em qualquer continente, que apenas tornarmais agradável a vida do velho ego; pouquíssimos procuram superar ahorizontal por uma vertical. Impera o continuísmo comodista – quando nasceráum novo início? Quando surgirá uma nova vivência em lugar da vida velha?Regressei das regiões da antiga Tebaida cristã mais do que nunca convencidoda imperiosa necessidade duma intensa interiorização do homem – mesmo emproveito da verdadeira felicidade aqui na terra.Toda a Física, para ser agradável, necessita de um fundo de Metafísica.O gozo físico, sem um fundo de espírito metafísico, acaba, cedo ou tarde, noseu contrário – num tédio insuportável...
  39. 39. MINHA DECEPÇÃO EM ARUNÁCHALADo Cairo voei, durante a noite, para Bombay, uma das grandes cidades daÍndia Ocidental. Daí, cruzando toda a Índia, para Madras, no litoral oriental.Madras – por quê?Nada me interessava essa velha cidade indiana, onde os portugueses, dotempo de Vasco da Gama, deixaram tantos vestígios.O que muitíssimo me interessava era um lugarejo que não figura em nenhummapa geográfico da Índia – Arunáchala. Felizmente, levava eu na mala umexemplar da revista “The Mountain Path”, publicada em Tiruvannamalai,cidadezinha não longe de Arunáchala. Muitos brasileiros conhecem este nome,que se tornou quase sagrado, porque em Arunáchala viveu, nesses últimosdecênios, um dos maiores iniciados da Índia moderna – Bhagavan Ramana,chamado geralmente Maharishi, ou Maharshi, quer dizer, o “Grande Vidente”.Dois escritores contemporâneos, Mouni Sadhu e Paul Brunton, tornaramconhecido no mundo inteiro esse grande místico. Sobretudo o livro de MouniSadhu “Dias de Grande Paz”, escrito em inglês e traduzido em diversaslínguas, inclusive em português, imortalizou esse grande iluminado. [4]--------------[4] A recente edição deste livro é da Editora PENSAMENTO, de São Paulo, edição revista e anotada porHuberto Rohden. Consideramos este livro, “Dias de Grande Paz”, como um dos melhores canais paraauto-conhecimento e auto-realização, tanto mais porque reflete as experiências imediatas de um discípulodo grande iniciado.Estranhamente, em Madras ninguém sabia da existência de Ramana Maharshi,nem do lugarejo onde ele viveu mais de meio século. “Santo de casa não fazmilagre.”Finalmente, consegui saber que existia uma linha de ônibus paraTiruvannamalai (que os nativos pronunciam Trimalei, ou coisa parecida).E lá vou eu, durante diversas horas fatigantes, num ônibus primitivo, que medeixou em Tiruvannamalai. Ali aluguei uma carrocinha de duas rodas puxadapor um cavalinho magro, e consegui chegar a Arunáchala. Excetuando oashram e algumas casas vizinhas, Arunáchala tem aspecto de uma favela, comcasas de barro coberta de sapé ou folha de palmeira. Consta de uma única rua
  40. 40. comprida, sujíssima e cheia de mendigos, como quase todas as cidades daÍndia.Era intenção minha ficar aqui alguns dias, na esperança de fazer um RetiroEspiritual com alguns dos mestres, que cuidava encontrar. Mas RamanaMaharshi tinha morrido havia quase dois decênios, e seus supostos discípulosnão davam impressão de espiritualidade.Ao meio-dia tomei o meu almoço numa sala ladrilhada, sentado no chão, dianteduma folha de bananeira, sobre a qual o servente jogou um punhado de arrozque arrancou com a mão de uma panela; jogou-o com tanta força que parteespirrou para os lados e foi cair ao redor do prato, no chão poeirento; mas oservente teve a habilidade de catar o arroz disperso e recolocá-lo na folha debananeira, que me servia de prato. Depois veio outro servente com uma panelade feijão; com uma concha tirou do conteúdo e deitou sobre o arroz; depoisdisto, coroando tudo, um grande punhado de pimenta malagueta.Misturei tudo com os dedos – não há vestígio de talheres – e tentei introduzirna boca essa substância meio líquida. Operação difícil para o homemocidental! Olhei para meus comensais hindus e verifiquei que eles faziam dosquatro dedos uma espécie de colher e assim conseguiam introduzir na boca oalimento, sem muito derramamento. Aliás, também não havia perigo de elessujarem a roupa, porque a maior parte só veste uma tanga primitiva ou umcalção. Alguns deles usam uma espécie de camisola além da tanga.Fiquei com a boca em fogo, com a sobrecarga de pimenta vermelha. Pedi águapara apagar o incêndio e veio uma caneca de latão com água morna; pois nãoexiste geladeira no ashram e a Índia é um país tropical.O meu companheiro brasileiro se portou heroicamente, engolindo – emboracom esforço e caretas – o seu almoço.Esperávamos algumas frutas para a sobremesa, mas nada disto apareceu.Felizmente, eu trazia na mala algumas bananas, que salvaram a situação.Ao anoitecer nos mostraram a casa dos hóspedes. Havia no quarto uma velhacama de madeira com um colchão de capim meio podre e um lençol que, peloaspecto, já devia ter tido uso frequente por longa data. Joguei fora o lençol eme deitei sobre o colchão esfarelado. Meu companheiro se deitou no chão edormimos – tanto quanto as aranhas, baratas e mosquitos o permitiram.Numa dependência da casa havia um cômodo com uma espécie de fossa nochão, uma lata com água e uma caneca, para tomar banho. Como não haviatoalha, enxuguei-me com uma peça da minha roupa interna, usando outracomo fronha; pois não ousava deitar a cabaça diretamente sobre o capimpodre.
  41. 41. Esqueci-me de dizer que, ao anoitecer, assistira ao cântico dos Vedas, comflores e incenso. Este ritual se repete cada manhã e cada noite. Fiz o possívelpara me concentrar, mas nada consegui. Dois macacos travessos, durantetodo esse culto religioso, faziam as suas acrobacias no santuário, trepandopelas cortinas, pulando sobre o altar etc. À direita e à esquerda do altar haviaestátuas de pedra representando vacas e elefantes. Durante o ritual foramengrinaldados esses animais sagrados, incensados e besuntados de ghee(manteiga derretida).Na manhã seguinte, fui visitar a casinha ocupada, por algum tempo, por MouniSadhu, o autor do livro “Dias de Grande Paz”; vi também a de Paul Brunton,que, por algum tempo, foi discípulo imediato de Ramana Maharshi.Entretanto, a minha decepção e dissabores foram compensados pela longameditação que fiz, juntamente com meu colega, na salinha reservada onde osanto fazia as suas concentrações, ou melhor, a sua sintonização cósmica.Sentado no chão – pois não havia móveis – defronte ao canapé, perto dogrande retrato do místico, abismei-me no oceano do Infinito. Mergulheitotalmente nesse mar invisível... Senti-me empolgado pelos misteriosos fluidosque, mesmo agora, quase dois decênios depois da partida de Maharshi, aindaestão no ar e fluem de todos os objetos – do soalho, das paredes, do teto – ese apoderam das pessoas sintonizadas por essas auras...Mas, nesse mesmo dia tive mais uma grande decepção e consolidei-me navelha convicção de que a maior tragédia para um grande mestre é o fato de terdiscípulos após a morte. Levaram-me ao quartinho onde o grande Vidente tinhadado o último suspiro – ou, como dizem eles, onde entrou no mahasamadhi. Láestavam livros e manuscritos dele. Na parede havia um nicho, com algumasbananas, pedaços de coco e outras frutas. Em face da minha estranheza epergunta, explicaram-me que esses alimentos lá estavam, e eramconstantemente renovados, porque a alma dele poderia ter vontade de sealimentar... Coitado do Mestre tão mal compreendido por seus chamadosdiscípulos!... Quero crer, todavia, que haja outros discípulos de RamanaMaharshi, mesmo em Arunáchala, que estivessem mais sintonizados com oespírito dele. Nesse mesmo dia me encontrei com Arthur Osborne e suaesposa, ingleses, editores da mencionada revista “The Mountain Path”, que umamigo me manda regularmente de Arunáchala e cujo conteúdo é um retrato fieldo santo.No mesmo dia deixei Arunáchala e regressei para Madras.Tomei o avião da “Indian Airlines” e voei para Calcutá, capital do Estado deBengal. Daí por diante viajei sozinho, porque meu companheiro, decepcionado,se separou de mim.
  42. 42. Viajar sozinho por essas regiões desconhecidas pode parecer triste a muitagente social. Eu, porém, me sentia muito bem. Parece mesmo que souessencialmente eremita solitário que a vida na sociedade é apenas um malnecessário. Quando estou desacompanhado me sinto em ótima companhia,mas em sintonia com a alma do Universo.
  43. 43. COM OS YOGUIS DE SEVAYATANLevava comigo uma carta do meu antigo guru indiano, de Washington, SwamiPremananda, endereçada a Swami Satyananda, chefe do ashram deSevayatan, no Bengal ocidental. Em Calcutá, capital desse Estado, tomei otrem, que, em algumas horas, me deixou na estação ferroviária de Ihargram.Mas, daí para Sevayatan não havia condução regular, a não ser uns veículosparticulares que eu nunca vira: umas grandes bicicletas – aliás monociclos –ligados a uma pequena carruagem com dois assentos. O ciclista montavanessa roda e pedalava valentemente, movendo o veículo. Assim cheguei,dentro de meia hora, através de vastas planícies, a uma espécie de fazenda,que o povo denominava The School (a escola).Lá chegando, indaguei por Swami Satyananda e fui levado a uma casinhamodesta, em cujo interior encontrei um homem de uns 80 anos, sentado sobreuma cama simples, pois estava doente e se sentia muito fraco. Seu corpo erade cor cera e tão magro que me parecia transparente. Entreguei-lhe a carta deSwami Premananda e ele me tratou com extrema bondade, uma bondadesimples e benfazeja, embora sempre com aquela serena longinquidade que éprópria de homens que já vivem no mundo da pura espiritualidade e se ocupamcom este mundo apenas por conveniência para seus semelhantes. Não hánenhuma necessidade que esses homens falem ou façam alguma coisa – oseu simples e poderoso ser vale mil vezes mais do que qualquer dizer ou fazer.Pode a gente ficar na presença deles indefinidamente e sentir-se bem e cadavez melhor, esquecendo-se de todas as facticidades das circunstâncias e sóconsciente da realidade da substância.Conversamos longamente em absoluto silêncio...Silêncio é algo como música... Não atua pelo que diz, mas sim pelo que é... Amúsica é uma linguagem internacional, como o silêncio...Fiquei quase cinco dias nesse ashram, onde residiam numerosos monges,yoguis, swamis, alguns dos quais também eram professores de escolassecundárias e colégios do governo, na redondeza. Deram-me um quartopróprio, com cama e mesa e outros móveis, quase à moda ocidental. Nãocheguei a saber como os monges vivem entre si. Será que comem e dormemno chão, como em Arunáchala? Aqui há um conforto razoável, sem confortismonem confortite, que são a desgraça de muita gente do mundo ocidental. Falo
  44. 44. de experiência própria. Quando, há anos, loteei o meu antigo sítio, em SãoPaulo, e convidei alunos da ALVORADA para fazerem os seus bangalôs, pararesidência rural ou fim-de-semana, tive enorme decepção. Quase todosresolveram transportar para o campo um pedacinho da cidade, com todas assuas misérias civilizadas – rádio, televisão, jornais, revistas, visitas tagarelas etodas as consagradas sujeiras da nossa cidade. Quase todos eles são hojesitiados em vez de sitiantes, sitiados, em permanente “estado de sítio”... E, piorde tudo, adoram esse estado de sítio, essa idolatrada tirania do confortismomórbido e da confortite mortífera...Nada disto encontrei em Sevayatan. Encontrei um conforto razoável,equidistante do desconforto de Arunáchala e do confortismo de muita genteocidental. Todas as grandes nações da história morreram de confortite...Toda manhã, Swami Satyananda, sentado na cama, e eu num tamborete, aopé dele, fazíamos longa meditação. Ele, de olhos imóveis, largamente abertos,fazia lembrar a esfinge do Egito... Parecia uma estátua de mármore, semrespiração perceptível. Creio que a alma ou Eu dele não estava mais lá; só oinvólucro corpóreo estava presente, vazio, sem um sinal de vida... Só depois demuito tempo a realidade espiritual do Swami regressava de regiões longínquase reanimava aquela roupagem inerte. Ah! se esses homens pudessem falardas suas experiências cósmicas!... Mas... aqui o calar vale mais do que ofalar... Ditos indizíveis não podem ser ditos... O que se pode dizer, ou mesmopensar, não é a verdade... É como um fogo pintado numa tela, que não é fogovivo... O mais perfeito fogo pintado não ilumina nem aquece...Durante prolongado samadhi de Swami Satyananda, todo o recinto se enchiade um estranho magnetismo, que envolvia e permeava tudo. Eu não sentiamais meu próprio corpo nem o tamborete em que estava sentado. Tinha aimpressão de flutuar livremente no espaço, desmaterializado, astralizado, todocentrado na minha consciência Eu, alheio a todos as ilusões do ego periférico.Num dos últimos capítulos do meu livro “Entre Dois Mundos”, com o título “NosMistérios do LSD”, tentei descrever as experiências produzidas pelo ácidolisérgico. Mas o que experimentei em Sevayatan, na presença de SwamiSatyananda em samadhi, era bem diferente, por ser uma vivência natural e nãouma técnica artificialmente provocada por umas gotinhas de injeção material.Somente quando o yogui regressava das suas longínquas viagens cósmicas ereocupava o invólucro do seu corpo material, é que cessava o ambienteimantado do cubículo, e eu tornava a ter consciência do meu corpo. Mas nomeu consciente superior continuava a luz e forças captadas durante o samadhido iniciado, projetando ondas benéficas sobre minha vida. Posso afirmar queentre um samadhi artificialmente provocado e um samadhi real e naturalmedeia a mesma distância que há entre um fogo pintado numa tela e um fogo
  45. 45. real; com o melhor dos fogos artificiais não se pode iluminar e aquecer coisaalguma, ao passo que o menor dos fogos naturais irradia luz e calor.Aldous Huxley, no seu livro “Às Portas da Percepção – Céu e Inferno” faz veresta enorme diferença entre o samadhi natural e o pseudo-samadhi artificial. Éenorme a auto-decepção do êxtase artificial. J. W. Hauer, no livro monumental“Der Yoga”, faz ver que para a experiência do Eu central não conduz nenhumcaminho psico-técnico. E Einstein adverte que “do mundo dos fatos não conduznenhum caminho para o mundo dos valores, porque estes vêm de outraregião”.Não sei até que ponto a minha alma acompanhava a alma do yogui, nessasfantásticas jornadas cósmicas... O certo é que a presença do mestre auxiliavagrandemente o desprendimento do meu espírito – a “graça do mestre”, comodiz Mouni Sadhu –, deve ser essa evanescente aura ou vibração peculiar queirradia de um ser humano altamente realizado, se difunde pelo ambiente efunciona como um poderoso catalizador para as pessoas que se encontram noâmbito dessa irradiação e tenham suficiente receptividade para captar essaonda invisível. Um homem desses vale mais para a redenção do mundo do quelegiões de eruditos não-realizados. Isto me faz lembrar as palavras deMahatma Gandhi: Quando um único homem chega à plenitude do amor,neutraliza o ódio de muitos milhões.Essa comparação com emissor e receptor de ondas eletrônicas, que tenhousado nos meus livros e nas minhas aulas, é talvez o melhor símile ilustrativo,sobretudo na era eletrônica em que vivemos. A estação emissora do Infinitoestá sempre funcionando, lançando ao espaço músicas de vida, saúde efelicidade – mas o nosso receptor humano nem sempre está devidamentesintonizado para captar essa música. Sofremos e somos infelizes por causa danossa falta de sintonização...Cada dia, pelas 20 horas, havia uma reunião de culto, numa sala espaçosa doashram. Cantavam-se hinos sacros, liam-se os Vedas e a Bhagavad Gita. Naprimeira noite fui apresentado por Swami Satyananda, que a custo se arrastaraaté lá, e fui convidado a falar sobre as minhas experiências pessoais, nomundo da suprema Realidade. Falei cerca de meia hora sobre o Golden LotusTemple, em Washington, o templo do lótus de ouro, fundado há diversosdecênios por Swami Premananda, filho de Sevayatan e fundador do ashramlocal. A mãezinha dele, de 80 anos, estava presente, e vivia me pedindonotícias do filho, ausente há uns 30 anos. Tive pena da mãe do meu antigoguru, que chorava de saudades; mas eu nada pude fazer por ela, porque elanão entendia uma palavra de inglês, e eu nada sei da língua dela. Ela não tinhaidéia da distância entre o Brasil e os Estados Unidos, e pensava que eu tivessevindo diretamente de Washington e para lá voltaria e me encontraria com seuquerido filho, que nunca mais voltara a Índia.
  46. 46. Nesta primeira conferência contei aos 30 ou 40 ouvintes o que era o ashram deWashington e como eu tinha sido discípulo e, mais tarde, colaborador deSwami Premananda, fundador do ashram de Sevayatan.Numa das noites seguintes falei sobre os nossos centros de auto-realização,mantidas pela “Alvorada”, no Brasil. Creio que para muitos dos meus ouvintesfoi alta novidade saberem que nós, aqui no Brasil, possuímos santuários demeditação e auto-realização. Estranharam um tanto quando lhes disse que osnossos ashrams não tinham caráter residencial, como os da Índia, mas sãolugares onde pessoas idôneas se retiram temporariamente com o fim decarregarem a sua bateria espiritual, e depois voltam ao meio do mundo, paraseus afazeres profissionais, mantendo, porém, firme a orientação espiritualcolhida no silêncio e na meditação.Na última noite fui convidado por alguns dos professores para lhes falar de“Filosofia Cósmica” ou, como prefiro dizer, “Univérsica”, que eu mencionara naspalestras anteriores. Atendi ao convite e expus longamente o que os leitoresdos meus livros e alunos dos meus cursos já conhecem.Quando, nesta última conferência, afirmei que Matemática, Metafísica e Místicasão, no fundo, a mesma coisa, verifiquei grande estranheza e talvez ceticismono semblante de alguns ouvintes. Mas quando citei diversas palavras deEinstein em meu abono, creio que todos se convenceram da verdade do meuasserto, por sinal que alguns me pediram meu endereço no Brasil paraulteriores informações sobre “Filosofia Univérsica”. Infelizmente, não lhesposso mandar nenhum dos meus livros, porque a única língua estrangeira queeles entendem é o inglês. É, aliás, doloroso verificar, na Europa, na Ásia e naÁfrica, que o português é totalmente ignorado; um livro escrito em nossa línguaé um livro morto-nato para o resto do mundo. Inglês, francês, alemão,espanhol, italiano – são portas mais ou menos abertas para outra gente, mas oportuguês é invariavelmente porta fechada. E, no entanto, há mais de 100milhões de pessoas no mundo que falam o português. Por que é que somostão desconhecidos e ignorados?...Em Sevayatan estranhei uma coisa, aliás geral na Índia: que o ashram seachasse praticamente no meio do mato, isto é, numa capoeira desordenamenteheterogênea, quase sem vestígio de cultura, nos arredores, sem um pouco dejardim, nem de horta, nem de pomar. Da nossa divisa: “Realiza a mística deDeus, pela ética dos homens, na estética da natureza” falta, na Índia, a últimapalavra. Eles tratam da mística e da ética, mas se esquecem da estética danatureza.Voltei de Sevayatan para Calcutá com um mundo de cogitações em estado deincubação...
  47. 47. NO SILÊNCIO DAS NEVES DO HIMALAIADe regresso a Calcutá, tirei passagem na Royal Nepal Airlines e levantamosvôo rumo norte em demanda das mais altas montanhas do globo terrestre.Aterrissamos em Kathamandu, capital do reino do Nepal, situado nos primeiroscontrafortes da imensa cordilheira, a uns 2.000 metros de altitude. Nepal é umpaís maravilhoso, entre a Índia, a China e o Tibete, feito de montanhas e rios,cachoeiras e magníficas florestas.No dia seguinte, por meio duma empresa de turismo do governo, aluguei umtáxi e durante quase o dia inteiro fomos subindo, em vastos ziguezagues, rumoa um dos pontos mais pitorescos, nessa fascinante cordilheira dos Himalaias,uma das poucas nesgas de terra ainda não profanadas pela civilização.Chegamos ao “Everest Point”, em Daman, a uns 3.000 metros de altitude. Nãohavia turistas, graças a Deus. Eu era o único visitante, pois estávamos fora deestação. Deram-me um silencioso bangalô em plena mata, com uma lâmpadae querosene. Perto havia um pequeno restaurante, em forma de gigantescocogumelo (não era da bomba atômica!), em cujo refeitório redondo, cheio dejanelas de vidro, fui tomando as minhas refeições. Passei apenas uma noite equase dois dias nesse mundo de Deus, longe dos homens, cercado demontanhas cobertas de neves eternas. Para o leste se erguia o cume doSagarmatha, que os nossos atlas chamam Everest, com mais de 8.000 metrosde altitude. A fim de presenciar o nascer do sol, que nasce do lado direito dogigante, levantei-me antes das 5 horas, e, das 5 às 6 estive saboreando ograndioso espetáculo do sol nascente, no seio desse imenso anfiteatro decampos de neve e picos gelados, produzindo as mais variadas cores ecambiantes, sempre em mudança – azul, dourado, violáceo – conforme aincidência dos raios solares.Eu não tinha câmara fotográfica para fixar esses deslumbramentos, duranteessa hora solene; mas minha alma fotografou, em cosmocolor, os estupendospanoramas do Himalaia... Se eu, algum dia, voltar à Ásia, irei diretamente aoHimalaia, não para um dia e uma noite, mas para lá ficar semanas ou meses.Aqui tudo é grandioso e inaudito, e é necessário dar tempo à alma para realizarum processo de osmose e lenta infiltração. Não adianta ver, é necessáriosentir, viver e vivenciar o que o silêncio de Deus diz ao silêncio do Eu...Keyserling, no seu livro “Reisetagebuch eines Philosophen”, diz que o Himalaiaemite estranha radiação magnética, que nos torna fáceis o pensamento e a

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