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  • 1. HUBERTO ROHDENESTRATÉGIAS DE LÚCIFERSUAS VITÓRIAS E DERROTAS NO CAMPO DE BATALHA DA HUMANIDADE UNIVERSALISMO
  • 2. ESTRATÉGIAS DE LÚCIFER“A luta é inevitável porque faz parte das Leis Cósmicas; evitável é a derrota doEu crístico pelo ego luciférico do homem.”“As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró oucontra Deus.”“Se o homem permitir ser derrotado por seu Lúcifer, a culpa é dele, e não deDeus.”Estas concisas afirmações constituem o núcleo central e a essência deste novolivro de Rohden. A obra é uma complementação de outros trabalhos seus,notadamente, Lúcifer e Lógos e A Nova Humanidade.Partindo de uma palavra – Lúcifer – complexa, e de conteúdo dialético, Rohdenconvida o leitor a desfazer-se de preconceitos e a abandonar certasconcepções teológicas, tragicamente ensinadas ao longo de nossa história.Desenvolvendo sua linha de pensamento univérsico sobre a bipolaridade danatureza humana e de todo o universo, ele nos conduz ao centro de nósmesmos, colocando-nos diante da verdadeira perspectiva para nossa própriaauto-realização. E enfatiza: sem essa perspectiva cósmica, é impossível o serhumano estabelecer, em si, completa harmonia e felicidade.Para Rohden, Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agirnaturalmente como fator de retaguarda – embora esse fator negativo tenha atendência de usurpar o pólo positivo da vanguarda, desequilibrando, assim, aharmonia do microcosmo humano. Por isso, explica ele, nos livros sacros, aordem que o pólo positivo da vanguarda (Cristo) dá ao pólo negativo daretaguarda (Satã) é invariavelmente: “Vai à retaguarda (vade retro)”.“Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólosevolutivos que regem todo o Universo: o Uno da Essência Absoluta, que rege oVerso, das Existências Relativas.”“As Leis Cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólosda antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja peloPoder Supremo, como no mundo infra-hominal; seja pelo livre-arbítrio, comodeve ser no mundo das creaturas livres”.Este livro conta o drama cósmico de Lúcifer-Lógos no campo de batalha dahumanidade. Indica o caminho para o homem atualizar o seu equilíbrio
  • 3. meramente potencial, realizando assim a sua natureza integral. Proclama oplano cósmico da eugenia humana, ou auto-realização.
  • 4. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização edispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  • 5. PREFÁCIORecentemente, publiquei um livro intitulado “A Nova Humanidade” cujo iníciofocaliza a luta entre o sopro de Deus e o sibilo da serpente, na humanidadefeita à imagem e semelhança de Deus e ainda sujeita ao poder das trevas.No presente livro limito-me a mostrar a estratégia e os estratagemas dessepoder negativo, que, segundo Cristo, tem poder sobre os homens.Essa estratégia luciférica vai por altos e baixos, por vitórias e derrotas,consoante o grau de resistência que ela encontra no livre-arbítrio humano.As vitórias e derrotas de Lúcifer correm paralelas à força ou fraqueza daevolução de cada homem.O livre-arbítrio humano é uma creatividade tanto positiva como negativa, oraaliada ao poder da luz, ora aliada ao poder das trevas. O homem é, aqui naterra, a única creatura que se pode crear melhor ou pior do que foi creado. Ohomem é o único ser auto-creador, enquanto os outros seres são apenas alo-creados.Por isto o destino do homem está, em grande parte, nas mãos dele.Na creação do homem creador, o Creador abdicou, por assim dizer, de umaparcela da sua jurisdição divina a favor da liberdade humana; o Deusmonocrático da natureza se tornou, por assim dizer, um Deus cosmocrático nahumanidade, fazendo uma creatura partícipe do poder creador.Com o advento do homem despontou uma nova fase cósmica, apareceu umfenômeno inédito sobre a face da terra.Pela creatividade, positiva ou negativa, do livre-arbítrio pode o homem integrar-se no Todo da universalidade – e pode também desintegrar-se no Nada da suaindividualidade.A estratégia de Lúcifer é necessária para testar o homem em evolução, porquesem resistência não há evolução rumo ao Lógos.Lúcifer e Lógos são os dois pólos do Universo, sobre os quais gira toda aevolução da creatura humana. Sem a atuação desses dois pólos, seria ohomem um simples autômato estático, mas não um realizador dinâmico do seudestino. A grandeza do homem, diz um pensador moderno, está napossibilidade de sua auto-parturição, ou seja, auto-realização. Realização
  • 6. existencial ou frustração existencial – é esta a gloriosa e perigosa alternativa dohomem. Um único homem que se auto-realize é infinitamente maior do quetodas as grandezas do cosmos alo-realizadas.É este o drama paradoxal que preside à luta evolutiva que Lúcifer e Lógostravam no campo de batalha da humanidade.
  • 7. NOSSA VIZINHANÇA CÓSMICAO homem antigo considerava a terra como o centro do Universo, e a nossahumanidade como a única.Há muito tempo, sabemos que o planeta terra é uma parcela mínima docosmos total, que abrange milhões de sistemas solares, estelares e galáxias,iguais ou maiores que o sistema solar a que pertencemos.Esta astronomia física nos sugere uma filosofia metafísica: é possível, emesmo provável, que haja muitas humanidades, iguais, inferiores ousuperiores, à humanidade terrestre.As creaturas conscientes e livres mais evolvidas [1] que nós, são chamadaspelos livros sacros os celestes, as menos evolvidas são as infra-terrestres, ouos ínferos, e nós somos os terrestres.--------------[1] Note o leitor que, em todos os nossos livros, usamos a palavra corretamente latina evolver e involver,e não o hibridismo francês evoluir e involuir, que, infelizmente, tomaram conta da língua portuguesa,sobretudo no Brasil. Evolver é desenvolver, involver é o contrário. Ninguém diz desenvoluir em vez dedesenvolver, nem devoluir ou revoluir, em vez de devolver ou revolver. O português não é derivado dofrancês, mas do latim.Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve que, em nome do Cristo,se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres.As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró oucontra Deus, se por Deus entendemos a alma do Universo, ou o Creador.Em virtude dessa consciência e liberdade, a parte creatural do Universo sebifurca em dois pólos: positivo e negativo.Essa bifurcação bipolar é necessária para a evolução do Universo consciente elivre, porque sem resistência não há evolução. Em linguagem comum, asentidades do pólo positivo são chamadas os bons, e as do pólo negativo são osmaus – ou seja, anjos e diabos, em se tratando do mundo invisível. Anjo (dogrego angelos) quer dizer mensageiro; diabo (em grego diábolos) significaadversário.Os mensageiros pró-Deus e os adversários contra-Deus constituem o mundodas creaturas conscientes e livres, que têm a possibilidade de realizar a suaevolução autônoma, como também a sua involução.
  • 8. O livro do Apocalipse diz que houve uma grande luta no céu, isto é, entre ascreaturas superiores à nossa humanidade: algumas se revoltaram contra Deus,enquanto outras aderiram a Deus. Os revoltados foram lançados à terra, ondecontinuam a sua tarefa de servirem de peças de resistência às creaturasterráqueas em evolução.Se houve uma luta no céu, então o céu não é esse ridículo museu de múmiasfossilizadas eternamente no bem, que a nossa teologia infantil nos impingiu;nem o inferno é um museu de seres petrificados no mal. Céu e inferno são doiscampos em vias de evolução habitados por seres dotados de livre-arbítrio. NoUniverso das creaturas, tudo é fluxo incessante, nada é estagnação definitiva.Os livros sacros enumeram nove hierarquias de mensageiros celestes,chamados: anjos, arcanjos, serafins, querubins, tronos, dominações,principados, virtudes e potestades.Na Epístola aos Efésios 6,12, Paulo de Tarso enumera três dessas hierarquiascomo adversários de Deus e ativos na terra dos homens: principados,potestades e dominações; diz que a nossa luta não é contra carne e sangue,mas contra este mundo tenebroso dos espíritos malignos.No livro de Job, aparece um desses adversários (satan, em hebraico) no meiodos emissários de Deus, ou anjos. Esse satan arruinou completamente aprosperidade material desse grande fazendeiro de Hus, matou os dez filhosdele e cobriu o corpo de Job com chagas purulentas.Nem os mensageiros nem os adversários, têm poder sobre a consciência e olivre-arbítrio do homem, mas podem, em certas circunstâncias, afetar, benéficaou maleficamente, a vida do homem.Quase toda a literatura humana, tanto do oriente como do ocidente, estárepleta de referências a essas entidades invisíveis, que afetam a evolução dohomem, consoante a atitude, positiva ou negativa, que o homem assume emface delas.No presente livro, descrevemos algumas atividades desses poderes invisíveis,as estratégias do adversário, que, em hebráico, se chama satan, e em gregodiábolos.Preferimos todavia usar o nome Lúcifer para designar esse poder adverso.Lúcifer quer dizer literalmente porta-luz, simbolizando a luz matutina (estrelad’alva, Vênus), que precede o nascer do sol, como é usado na Bíblia. MasLúcifer pode também simbolizar a luz da inteligência que precede a luz darazão (espírito). Nos livros sacros não ocorre a palavra Lúcifer no sentidonegativo de satanás ou diabo; mas na linguagem popular de todos os países,Lúcifer é usado como o poder anti-espiritual, sentido esse em que oempregamos no presente livro. Os povos têm certa razão em identificar Lúcifer
  • 9. com satanás, porque a inteligência humana, quando atua em seu próprionome, sem o controle da razão espiritual, degenera invariavelmente emsatanidade anti-espiritual.O nosso mundo moderno, altamente intelectualizado, é grandemente contrárioao espírito.Na cena da tentação de Jesus, o tentador quer ser servido e adorado peloCristo, e como recompensa lhe oferece todos os reinos do mundo e sua glória– lucefirismo esse que caracteriza adequadamente grande parte da nossacivilização moderna.Por esta razão disse o Mestre a seus discípulos: “O príncipe deste mundo, queé o poder das trevas, tem poder sobre vós; sobre mim ele não tem poder,porque eu venci o mundo”.Descrevemos neste livro a estratégia característica de Lúcifer, por vezesvitoriosa, por vezes derrotada.Os leitores que conhecem o meu livro “A Nova Humanidade” têm a vantagemde compreender melhor as seguintes páginas sobre a tática do adversário –tática essa que faz parte do plano cósmico da evolução entre as creaturasconscientes e livres. Se o leitor assumir uma atitude cosmorâmica em face doUniverso, compreenderá o Uno do Creador e o Verso das creaturas.
  • 10. LÚCIFERComo caíste do céu, Lúcifer, estrela d’alva! Tu, que dizias em tua mente:subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus, para alémdas mais altas nuvens – serei semelhante ao Altíssimo!“E agora, foste lançado ao inferno, às ínfimas profundezas da terra”. (Isaias,14,12-15).No texto acima, escrito durante o exílio babilônico, 600 anos antes da EraCristã, pelo maior dos profetas hebreus, Lúcifer é chamado estrela d’alva (emgrego: eosfóros, portador da aurora), talvez por ter sido a mais deslumbrantedas entidades angélicas.O Apocalipse de João diz que o “dragão”, quando foi expulso do céu, arrastouconsigo um terço das estrelas celestes rebeladas contra Deus.O céu, como se vê, não é um lugar definitivo, e as creaturas dotadas de livre-arbítrio não se acham numa meta estática e definitiva de evolução; podemassumir atitude pró ou contra Deus.Lúcifer, que, daí por diante, é chamado satan (adversário) ou diábolos(opositor), foi lançado das regiões superiores (céu) para as regiões inferiores(inferno), onde ele domina as profundezas da terra, como o tentador afirma, ecomo o Cristo confirma: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas,tem poder sobre vós”.O mundo das creaturas dotadas de consciência e livre-arbítrio, tanto celestescomo terrestres, não é um mundo de robôs, padronizados, mas de entidadesem evolução, responsáveis por seus atos.Não há nenhum museu celeste nem infernal.A mais deslumbrante mentalidade celeste quis ser semelhante ao Altíssimopelo poder da sua inteligência, e por isso foi lançada às regiões inferiores.Houve uma grande luta no céu, escreve João, no Apocalipse, e o campeão dasfalanges fieis a Deus derrotou Lúcifer e seus adeptos com o brado: “Quem-como-Deus?” (em hebraico: Mi-cha-el).Um terço das falanges celestes foi lançado às regiões inferiores da terra, ondecontinuam a sua luta, tentando revoltar os habitantes terrestres contra Deus.Entretanto, uma creatura dotada de livre-arbítrio não pode ser forçada pornenhuma outra, que apenas lhe pode dificultar a evolução ascensional.
  • 11. Segundo as leis cósmicas, essa oposição luciférica faz parte da evoluçãohumana, porque sem resistência não há evolução.Acima dessa antítese de dois poderes em luta, existe a Tese do Poder Único eAbsoluto da Divindade. No mundo infra-hominal (natureza), as antítesesevolutivas são sintetizadas automaticamente pelo Poder Supremo, ao passoque, no mundo hominal, devem as antíteses sintetizar-se pela liberdade daprópria creatura. Tanto a “luz do mundo” como o “poder das trevas” estão aserviço do Poder Supremo e Único da Divindade. O destino cósmico eindestrutível e infalível, ao passo que o destino humano depende da creaturalivre, oscilando entre a felicidade e infelicidade dela.Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agir naturalmente comofator de retaguarda – mas ele tem a tendência de usurpar o pólo positivo davanguarda, desequilibrando assim a harmonia do microcosmo humano(pecado). Por isto nos livros sacros, a ordem que o pólo positivo da vanguarda(Cristo) dá ao pólo negativo da retaguarda é invariavelmente: “Vai àretaguarda” (vade retro).Concorda com isto a sabedoria milenar da Bhagavad Gita, como dissemos,quando afirma que o ego (negativo, retaguarda) é o pior inimigo do Eu(positivo, vanguarda), mas que o Eu é o melhor amigo do ego. E acrescenta:“O ego é um péssimo senhor da nossa vida, mas é um ótimo servidor”.Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólosevolutivos, que regem todo o Universo: O Uno da Essência Absoluta, que regeo Verso, das Existências Relativas.As leis cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólosda antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja peloPoder Supremo, como no mundo infra-hominal, seja pelo livre-arbítrio, comodeve ser no mundo das creaturas livres.No mundo hominal do Universo, o Verso das antíteses complementares éreduzido à síntese do Uno pela consciência creadora do livre-arbítrio.O grande tratado de paz, a harmonia entre a antítese dos póloscomplementares da natureza humana, só pode ser obtido pela soberania do Eusobre o ego, ou seja, pela voluntária integração do ego inferior no Eu superiordo homem.É esta a perfeição e felicidade do homem.
  • 12. O PLANO CÓSMICO DA EUGENIA HUMANAFalamos, no capítulo precedente, dos dois pólos complementares do Universoe do homem.No Universo macrocósmico, essas duas antíteses estão automaticamentesintonizadas pela própria Potência Creadora do cosmos; a atração éequilibrada pela repulsão; o próton do átomo é harmonizado por seus elétrons;o pólo positivo da eletricidade é equilibrado pelo pólo negativo, etc.Mas, não é isto que acontece no Universo microcósmico do homem, porqueaqui aparece um fenômeno inédito, inexistente no Universo sideral: acreatividade do livre-arbítrio. No homem existe uma harmonia apenas potencialentre os dois pólos, que pode equilibrar esses pólos, mas pode tambémdesequilibrá-los. É esta a essência do livre-arbítrio, que não é ausência decausalidade, mas uma causalidade auto-causante, em vez da causalidade alo-causada. O homem pode atualizar o seu equilíbrio meramente potencial,realizando assim a sua natureza integral.Todo o drama milenar do homem gravita em torno do livre-arbítrio, usado ouabusado. Neste sentido, disse um pensador moderno: “Deus creou o homem omenos possível, para que o homem se possa crear o mais possível”. Essemenos possível representa a potencialidade; o mais possível indica aatualização da harmonia dos dois pólos. Só por esse processo de creatividadeé que o homem realiza a sua evolução tipicamente humana.O plano cósmico referente ao fenômeno “homem” é essa realização livre dasua existência, que poderíamos denominar eugenia humana, ou auto-realização.Essa realização existencial depende da íntima essência do homem, asubstância central do seu Eu. As circunstâncias periféricas, relacionadas com oseu ego, podem facilitar ou dificultar essa realização existencial, mas não apodem impedir, enquanto se trata de um homem normal.No homem, como se vê, os dois pólos da sua natureza são elásticos eevolvíveis, tanto para o lado da realização como também da frustraçãoexistencial. Depende do homem fortalecer ou enfraquecer o poder da suasubstância central.
  • 13. Através de toda a história humana vai essa luta constante, pró ou contra asubstância, pró ou contra as circunstâncias.No centro desse campo de batalha está o mistério do livre-arbítrio, dacreatividade, positiva ou negativa, que pode ser considerada como um reflexodo próprio Creador, com a diferença de que, no homem, esse poder é relativo enão absoluto. Se há no homem uma “imagem e semelhança” com Deus, comodiz o Gênesis, então é essa creatividade do seu livre-arbítrio.Na história multimilenar da humanidade aparecem constantemente a ação e areação dos dois pólos antitéticos em demanda duma sintetização.Convém saber que as Potências que os livros sacros chamam o “poder dastrevas” e a “luz do mundo” – ou seja Lúcifer e Lógos – existem tanto notranscendente impessoal como também no imanente pessoal. Existe umapotência positiva e uma potência negativa no Verso do Universo sideral, comotambém no Verso do Universo hominal.O poder Único é somente da Essência, do Uno, da Tese – em todo o âmbito daExistência, do Verso, das Antíteses, esse Poder Único aparece bifurcado emdois poderes, aparentemente antagônicos, realmente complementares.Os livros sacros, bem como as filosofias, mencionam frequentemente essa lutado homem entre dois poderes, que têm o seu reflexo dentro da próprianatureza humana. E, como já lembramos, esses dois poderes parecem, àprimeira vista, antagônicos e irreconciliáveis. O poder negativo aparececomumente com a conotação pejorativa de “poder das trevas”, “adversário”,“opositor”, ou, em hebráico e grego, satan e diábolos.Os grandes iniciados da humanidade sabem que esses poderes não sãorealmente antagônicos, mas complementares, razão por que esses iniciadoscolocam o pólo positivo na vanguarda, e o pólo negativo na retaguarda, comoconsta nitidamente da filosofia milenar da Bhagavad Gita e da Sabedoria doEvangelho. Krishna afirma que o ego (poder negativo) é o pior inimigo do Eu(poder positivo), mas que este é o melhor amigo daquele. O ego é um péssimosenhor, mas um ótimo servidor da vida. O Cristo-Lógos do Evangelho mandaLúcifer para a retaguarda do servir, enquanto ele mesmo está na vanguarda domandar.Por toda a parte, aparece a sabedoria cósmica de complementaridade positivae negativa do Eu e do ego humanos.Numa grandiosa cosmo-visão, o Salmista celebra a grandeza do homem,exclamando: “Que é o homem, Senhor, que o contemples? E o Filho doHomem que o visites? Pouco abaixo dos anjos o colocaste e o constituístesobre as obras das tuas mãos”. Estas palavras focalizam a grandeza dohomem, quando plenamente realizado.
  • 14. Alguns autores, como Alexis Carrel, dizem que o homem é um “Desconhecido”,referindo-se ao seu Eu realizável, porém não realizado.Outros, como Blaise Pascal, preferem dizer que o homem é um “misto degrandeza e de miséria”, referindo-se ao seu ego, que é miséria, e ao seu Eu,que é grandeza.Teilhard de Chardin acha que o homem é um “fenômeno” colocado no marcoinicial alfa em demanda da meta longínqua do Ômega.O erro funesto das teologias tem sido o fato de considerarem o homem doGênesis como um homem divinamente realizado, quando, na verdade, éapenas um homem humanamente realizável, e que teve ordem de se realizar.Mas, como toda a evolução vai com passos mínimos em espaços máximos, ogrosso da humanidade não se realizou, achando-se ainda no marco primitivodo homem-alfa. Só de longe aparecem, como que meteoros em plena noite,homens de avançada evolução, rumo ao ponto ômega.A perfeita eugenia humana existe em todos potencialmente, mas atualmenteem pouquíssimos, porquanto muitos são os vocados, e poucos os evocados. Ovocado, ou chamado é todo o homem em sua potencialidade creativa; osevocados são os poucos que atenderam ao chamamento da vocação e orealizaram na evocação. O evocado é o homem que tem a consciência e avivência da sua vocação hominal, o homem que realizou as suaspotencialidades creadoras.Logo no início da creação do homem, já aparecem essas duas potências emluta pelo homem. Sendo que o homem não era uma creatura realizada, masapenas realizável, era necessário esse duelo entre Lúcifer e Lógos, para aevolução do homem, porque, como dizem os corifeus atômicos no livro “AGnose de Princeton”: “Sem resistência não há evolução”. Evolver, oudesenvolver, quer dizer desdobrar o que está dobrado. Evolver é atualizar apotencialidade, tornar realizado o realizável.A eugenia humana é um marco avançado na evolução ascensional do homem.Quando essa eugenia atinge grande altura, o homem é chamado “Filho doHomem”; enquanto ele está longe do ideal, é chamado “filho de mulher”.No início da humanidade, quando o “sopro divino” acabava de ser insufladonum organismo infra-humano, como era natural, a animalidade prevaleceusobre a hominalidade. E, quando o espírito se manifesta no primeiro estágio deinteligência, é natural que o instinto animal se manifeste em forma deintelectualidade.Mas, é lógico e matematicamente certo que um instinto animal ainda nãoespiritualizado, mas apenas intelectualizado, degrade o homem,temporariamente, abaixo do nível do animal. O instinto age automaticamente,
  • 15. com infalível certeza, porque é controlado pelas Potências Creadoras doUniverso. Mas, quando o instinto é ligeiramente intelectualizado, isto é, libertodo seu automatismo instintivo, então perde ele a sua segurança e faz dohomem um animal perigosamente intelectualizado.Instinto é segurança sem liberdade.Inteligência é liberdade sem segurança.Razão é liberdade com segurança.Mas, até hoje, a humanidade como tal não evolveu até a esse terceiro estágio,que os cientistas denominam logosfera; o homem se debate na noosfera dointelecto, nesse caos de semi-segurança e semi-liberdade.Este estágio de homificação vem descrito no Gênesis de Moisés. O “frutoproibido” não era o uso do sexo, mas a perversão do instinto sexualengendrada pela inteligência ainda não espiritualizada.Quanto mais a liberdade intelectual cresce, tanto mais decresce a segurançainstintiva. Somente com o despertar do espírito (Lógos), são integralmentecompatíveis, em perfeito equilíbrio, a liberdade e a segurança.O homem de hoje perdeu a segurança instintiva, porque em parte adquiriuliberdade intelectual. Comeu do “fruto proibido”, mas não comeu ainda do “frutoda árvore da vida”, que seria perfeita segurança com perfeita liberdade, que sóé possível sob o regime do “sopro de Deus”, e não do “sibilo da serpente”.Já aqui, no início da humanidade, aparece no campo de batalha os devas doespírito e os kurus do intelecto, do intelecto unilateralmente evolvido, e doespírito ainda dormente. Esse trágico desequilíbrio entre espírito e intelecto é,por muitos, considerado uma “queda” do homem, quando, na realidade, é umestado preliminar da sua evolução.Se, segundo as citadas palavras do inspirado Salmista, o homem foiconstituído sobre as obras de Deus, aqui na terra; se, segundo as palavrasproféticas do Apocalipse, o reino dos céus será proclamado sobre a face daterra; e se, segundo a afirmação do Lógos e a confirmação do próprio Lúcifer,todos os reinos do mundo são, atualmente, do “poder das trevas” – então élógico que Lúcifer se defenda com todas as forças contra a perda desta suasoberania terrestre e hostilize o “intruso homem”, que lhe poderia usurpar osreinos da terra e sua glória.Algum dia, segundo as profecias dos videntes, o homem deve ser o dominadordo planeta terra, não pelo poder da inteligência (que não é domínio estável)mas pelo poder do espírito. Mas esse domínio não será Teo-dado e sim auto-realizado. E, para mostrar ao homem o que ele pode e deve vir a ser, o Cristo
  • 16. cósmico encarnou na natureza humana, convidando o homem a segui-lolivremente.Os planos cósmicos não falham, mas serão realizados pela única creaturacreadora da terra – o que não significa que todos os indivíduos humanosrealizarão esses planos, mas sim que eles serão realizados pela naturezahumana representada pelos indivíduos que, livremente, os queiram realizar.“Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear omais possível”.
  • 17. ESTRATAGEMA VITORIOSO DE LÚCIFERLúcifer foi chamado pelo Lógos o “príncipe deste mundo”, que tem pode sobreos homens. E Lúcifer confirma esse título, dizendo que ele é o dono de “todosos reinos deste mundo e sua glória” e os dá a quem ele quer.Quando apareceram nesta terra duas creaturas diferentes das outras, achouLúcifer que devia sondar essa novidade, que, possivelmente, seria um perigopara seu reino – tanto mais que um dos dois havia recebido o sopro dosElohim. Escolheu Lúcifer para sua sondagem a mulher, que lhe parecia, maisacessível aos seus planos e suas sugestões. Aproximou-se dela a sós, naausência do homem, e lhe fez a pergunta provocante: “Por que vos proibiramos Elohim comerdes de todos os frutos do paraíso?A mulher respondeu prontamente: “Nós comemos de todos os frutos doparaíso, exceto um; que não podemos comer, nem mesmo tocar, do contráriomorreremos”.Ao que Lúcifer replicou, jogando perversamente com a sabedoria dos própriosElohim, dizendo: “De modo algum morrereis; os Elohim sabem que, se dessefruto comerdes, abrir-se-vos-ão os olhos e sereis semelhantes a eles,conhecedores do bem e do mal”.Veladamente, fez ver à mulher que os Elohim agiam por inveja ou ciúme: nãoqueriam que os homens fossem iguais a eles.Que estratagema melhor poderia Lúcifer ter usado senão este?Quando a mulher percebeu a suposta camuflagem dos Elohim, ardia deimpaciência por comer do fruto proibido. Estas palavras enigmáticas aguçarama curiosidade dela: abrir-se-vos-ão os olhos e conhecereis o bem e o mal...Que era isto?E começou a observar atentamente o fruto proibido, que era bom para comer,delicioso para olhar, e era a hora certa para ser provado, como dizenfaticamente a Septuaginta grega.Tomou do fruto, primeiro sozinha; pois estava só; depois foi ter com seu maridoe lhe deu do fruto, e ele comeu.Neste momento, abriram-se-lhes os olhos e verificaram que estavam nus.
  • 18. É este o momento em que o instinto inconsciente do animal passa para ainteligência consciente do homem.O fruto proibido, como já dissemos, não era o uso do sexo, porquanto osElohim haviam dado ordem para se multiplicarem. Mas o uso do sexo nãoobedeceu ao instinto inconsciente, e sim à inteligência consciente: usaram osexo, não como meio para a procriação, mas com o fim de gozarem de umprazer libidinoso. Adulteraram a sua natureza; já eram animais inocentes, eramseres humanos culpados.O intelecto é ótimo servidor, mas é péssimo senhor da vida. Agiram sob osauspícios do intelecto, e não do espírito nem do instinto inocente.A libido sexual arvorada em fim degradou os homens ao nível infra-animal. Emvez de subirem a um nível supra-animal, desceram a uma baixada infra-animal,a uma involução que lhe dificultava a evolução.Era precisamente esse o estratagema de Lúcifer, obstruir o caminho evolutivo aessas creaturas suspeitas de, um dia, usurparem o reino de Lúcifer eemanciparem-se do poder dele.Era necessário fossilizar o homem no domínio luciférico da inteligência.Depois desta primeira vitória de Lúcifer sobre a humanidade inicial, lançaramas Potências Creadoras três maldições terríveis, uma contra a serpente dainteligência luciférica, outra sobre a mulher, e a terceira sobre o homem. Aserpente é condenada a rastejar e nutrir-se das coisas materiais da terra; amulher sofrerá muito com a gravidez e o parto e estará sob o domínio dohomem; a terra toda estará maldita por causa do homem, que comerá do seupão no suor do seu rosto.A veemência dessas três maldições é incompreensível, se se tratasse apenasduma imoralidade de agir, como pensam os intérpretes tradicionais. Moisés,porém, e os Elohim sabiam que aqui está em jogo a própria verdade do ser detoda a futura humanidade, e em jogo esta o próprio destino do homem, quedevia tornar-se a coroa da creação.O próprio Cristo afirma que Lúcifer se arvorou em príncipe deste mundo e tempoder sobre os homens, porque estes apostataram da soberania do espíritodivino e se submeteram à tirania da inteligência luciférica.Através de todos os tempos da humanidade, as grandes catástrofes – como odilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra – são consideradas pelos livrossacros como o eco dessas maldições.A humanidade trocou o reto-agir do sopro divino pelo falso-agir do sibilo daserpente, subvertendo assim a ordem cósmica e arvorando o prazer sexual
  • 19. como fim autônomo da existência, quando devia ser apenas um meio paraoutro fim.Em face disto se compreende a insólita veemência das maldições dos Elohim.Trata-se da realização existencial – ou da frustração existencial do gênerohumano.Em nossos dias, esta subversão das leis cósmicas atingiu o clímax da suagravidade: a serpente da inteligência luciférica inventou uma pílula queproporciona ao homem e à mulher o gozo ilimitado da libido erótica semnenhuma outra finalidade.Em face disto se compreende a agravação de todos os males da humanidade ea ameaça de uma tragédia universal, que pode comprometer a própriaexistência do homem sobre a face da terra.As maldições das Potências Creadoras, em vez de serem neutralizadas, estãosendo cada vez mais agravadas.É esta sem dúvida, a vitória máxima da estratégia de Lúcifer, a cujo poder ohomem se entregou.“O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”.Quando Lúcifer levou a mulher a um ego-agir, realizou ele a maior façanha dasua estratégia anti-cósmica: desviou o trilho do reto-agir para um falso-agir.Verdade é que esse desvio era mínimo, quase imperceptível; mas, quando umtrilho que devia ir ao norte, é desviado um milímetro para o leste ou oeste, essemilímetro se torna, aos poucos, um centímetro, depois um metro, mais tarde,um quilômetro – e o homem não atinge a meta do seu destino.A erótica não é proibida quando funciona como um meio, como um fenômenoconcomitante do reto-agir; mas é proibida quando substitui o reto-agir do Eupelo falso-agir do ego.Para compreender essa estratégia perversa de Lúcifer, é necessário saber quea libido é a mais alta afirmação do ego, chamada eufemisticamente “amor”. OEu verdadeiro não age em nome da libido erótica, mas em nome do amorhumano, rumo à grande vertical do seu destino. Quando a libido eróticafunciona como um fim autônomo, então o homem funciona como egomasculino e ego feminino; funciona em nome e por amor à sua máscarailusória, e não em nome do seu Eu verdadeiro.Em quase 2000 anos de cristianismo a cristandade não conseguiu neutralizaressa estratégia sutil de Lúcifer; pelo contrário, essa estratégia foi fortalecidaatravés dos séculos e milênios, até culminar, no século XX, na prática da pílula
  • 20. anti-concepcional, onde o ego é 100%, e o Eu 0%. Por esta razão, os grandesvidentes profetizam o fim da humanidade para as vésperas do terceiro milênio.Nesta primeira investida saiu Lúcifer plenamente vitorioso: derrotou a únicacreatura terrestre que representava um perigo para o seu reino.Lúcifer se serve do homem intelectual mas teme o homem espiritual.Os Elohim fulminaram terrível maldição à inteligência luciférica, condenando-aa rastejar nas baixadas materiais dos sentidos, nutrindo-se das coisasterrestres, incapaz de saborear as coisas celestes.Dessa mesma inteligência rastejante escreveu Paulo de Tarso: “O homemintelectual não compreende as coisas do espírito, que lhe parecem estultícia,nem as pode compreender, porque as coisas do espírito devem sercompreendidas espiritualmente”.E o sábio rei Salomão declara: “Num corpo viciado não entra sabedoria”. ***Logo após essa vitória, porém, teve Lúcifer de ouvir palavras estranhas e demau agouro. Os Elohim declararam que poriam inimizade entre ele e a mulher,entre o descendente dele e o descendente dela, o qual esmagaria, um dia, acabeça de Lúcifer.Contudo, Lúcifer continuaria a sua estratégia, armando ciladas ao calcanhar dovencedor.Esse certame de Lúcifer versus Lógos, de trevas contra luz, faz parte dosplanos cósmicos que regem todo o Universo, até à plenitude dos tempos. Entrealtos e baixos, por entre luzes e trevas, se projeta a estrada da evolução; o joionão será exterminado do meio do trigo enquanto este não atingir a plenitude dasua maturidade. Iguais em sua evolução externa são o joio e o trigo –desiguais, porém, em seu destino interno. O positivo se perpetua rumo ao Todo– o negativo vai rumo ao Nada.Todas as coisas finitas são como linhas curvas que, cedo ou tarde, terminamonde começaram – ao passo que o Infinito é semelhante a uma linha reta, cujotérmino transcende o seu princípio.Nos planos cósmicos, o bem e o mal do homem estão a serviço do Todo,embora um dê felicidade, e outro infelicidade.
  • 21. LÚCIFER PERDE UMA APOSTA COM DEUSO livro de “Job”, da Bíblia do Antigo Testamento, é uma obra-prima de literaturade psicologia. Se, nesse tempo, tivesse havido “Prêmio Nobel”, deveria serconferido ao livro de Job.Trata-se de um riquíssimo fazendeiro agropecuário, gentio, na terra de Hus, lápelas bandas da Mesopotâmia.Job tinha 10 filhos, sendo 7 homens e 3 mulheres. Possuía 7.000 ovelhas,3.000 camelos, 500 bois de tração e 500 mulas. Era mais rico que outrohomem qualquer do oriente. Das plantações de Job não se fala; mas deviamser imensas para poder alimentar esses 11.000 animais herbívoros.Esse riquíssimo fazendeiro era ao mesmo tempo profundamente espiritual.Certo dia, refere o texto, estavam reunidos os Filhos de Deus, e no meio delesapareceu Lúcifer – um kuru no meio dos devas. E a terra de Hus se converteunum novo Kurukshetra, um campo de batalha entre o bem e o mal.– Donde vieste? – perguntou Deus a Lúcifer.– Vim da terra – respondeu Lúcifer como quem diz que veio da sua casa, dosseus reinos e sua glória.– Viste meu servo Job? – perguntou Deus.– Vi, sim – respondeu secamente Lúcifer, que devia ter uma lembrança amargadessa visita a Job, porque era um subversivo no meio do seu reino.– Que tal? – perguntou Deus – não é um servo meu altamente espiritual?– Ora, ora – replicou cinicamente Lúcifer – é muito fácil ser espiritual, porque ofizeste nadar em prosperidade.Deus, porém, respondeu a Lúcifer que Job não era espiritual porque erapróspero em bens materiais; ele seria espiritual mesmo que fosse pobre.Nesta altura, Lúcifer propõe um jogo de aposta: quer apostar com Deus queJob deixaria de ser espiritual, se perdesse toda a sua fortuna. Deus aceita aaposta: dá licença a Lúcifer para arruinar toda a fortuna do rico fazendeiro.
  • 22. Mais que depressa, Lúcifer volta à terra e manda os seus comparsas humanosinvadirem a fazenda de Job, roubar todo o gado dele e arrasar as plantações.Depois disto, Lúcifer volta à presença de Deus.– Então? – pergunta Deus – arruinaste a fortuna de meu servo Job?– Arruinei tudo – replicou Lúcifer.– E Job me maldisse?– Não, ele disse: Deus o deu, Deus o tirou, seja bendito o nome de Deus.Lúcifer, porém, apesar de ter perdido o primeiro ponto de aposta com Deus,não se deu por derrotado. Respondeu sarcasticamente:– Pele por pele! Até agora só toquei na fortuna dele, mas não na família e napessoa de Job.Segue-se nova aposta. Deus permite a Lúcifer arruinar também a família e asaúde de Job, poupando, porém, a vida dele. Lúcifer põe mãos à obra.Aproveita a oportunidade em que todos os filhos de Job estão reunidos numafesta – e faz desabar sobre eles a casa, matando todos, com exceção única damulher, que era contra Job e a favor de Lúcifer. Possivelmente, Lúcifer selembrava daquela mulher, no Éden, que sucumbira à investida dele.Logo depois da morte de todos os filhos, Lúcifer cobre de chagas purulentastodo o corpo de Job. Não tinha licença para matá-lo. Reduzido a uma chagaviva, senta-se Job num monturo, e, com um caco, único resto da sua fortuna,raspa o pus das chagas, murmurando: Deus o deu, Deus o tirou – seja benditoo nome de Deus.Aparece então a mulher, única sobrevivente da família, e diz ao marido: De quete serviu toda a tua espiritualidade? Maldize a Deus e morre de uma vez.Replica Job;– Qual mulher insensata falaste. Se Deus nos deu tudo, por que não poderiatirar tudo?Lúcifer, depois de perder todas as suas apostas com Deus, não tem a coragemde voltar à presença dele, nem à presença de Job. Vergonhosamentederrotado em sua estratégia manda três dos seus comparsas, três filósofosorientais, cujos nomes são Elifas, Baldad e Sofar. Esses tinham ouvido dasdesgraças do amigo e foram vê-lo e consolá-lo dos seus sofrimentos.Estupefatos à vista do estado trágico do amigo, não se atrevem aproximar-sedele. Sentam-se no chão, à segura distância, (para não serem contaminados) ecomeçam a falar.
  • 23. A consolação que entre os três filósofos têm a dar ao amigo é digna do seuchefe Lúcifer: todos os três tentam provar, um após outro, que Job é um grandepecador – bela consolação: – porque Deus é justo e não castiga os justos mastão somente os pecadores.Job protesta a sua inocência; não tem consciência de pecado algum. Mas ostrês filósofos inventam subterfúgios para não se darem por vencidos: se Jobnão tem consciência do seu pecado, daí não se segue que seja isento depecados; pode ter débitos inconscientes, talvez de uma vida passada, débitosque tem de pagar na vida presente.Job continua a protestar a sua inocência e a louvar a justiça de Deus, que podedar tudo e tirar tudo, sem cometer injustiça.Após essa derrota total dos três comparsas de Lúcifer, aparece finalmente opróprio Deus que reprova a filosofia dos três desastrados consoladores,dizendo:– Que estais a falsificar com a vossa filosofia os planos da minha sabedoria?– Os três filósofos emudecem, reprovados em filosofia pelo próprio Deus. EDeus continua:– Job não sofre por pecado algum, não tem débito; eu o fiz sofrer paraaumentar o seu crédito, para ele se tornar ainda mais espiritual do que era. Porventura não tem o oleiro o direito de dar a seu barro o destino que quer? Fazerdele vasos preciosos ou vasos para fins humildes?Com isto faz Deus ver aos três filósofos que ele não faz as coisas por seremjustas, mas que as coisas são justas porque ele as faz.Depois dessa derrota de Lúcifer e dessa vitória de Job, termina o drama deluzes e trevas, e Job é reintegrado em todos os seus bens super-abundantemente.Lúcifer, embora derrotado, cumpriu a sua missão específica: servir de peça deresistência para que o homem bom se torne ainda melhor. De acordo com oseternos planos evolutivos das Potências Creadoras, também o poder dastrevas é servidor delas, mesmo à sua revelia.Lúcifer, após esta derrota, desaparece do cenário, cogitando novos planos parasabotar a sabedoria de Deus.
  • 24. UM ESTRATAGEMA MALOGRADOEsperançado com a vitória sobre a primeira mulher, no Éden, aventurou-seLúcifer a assediar um homem; não num jardim florido mas num deserto áridoda Judéia.Esse homem era um mistério. Jejuara e meditara durante 40 dias consecutivos.Desta vez, mudou Lúcifer de tática. Um homem austero como este,naturalmente, não podia ser tentado com um primitivo engodo sensual. Poroutro lado, recordava-se Lúcifer da sua derrota na terra de Hus, onde perdera aaposta com Deus sobre um rico fazendeiro, espiritualmente firme como umobelisco de granito.Será que este eremita do deserto seria tão inexpugnável como aquele ricaço?Lúcifer foi sondando cautelosamente o terreno. Apanhou duas pedras dodeserto, e apresentando-as ao misterioso eremita, disse:– Se tu és um filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão.O estranho jejuador devia estar com vontade de comer.Mas a sugestão foi repelida com as palavras enérgicas:– Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca deDeus.Esta resposta dava uma boa pista a Lúcifer. Esse homem era um “filho deDeus”, diferente dos outros homens. Devia ter ilimitada confiança num mundoinvisível. Seria um grande mago, mestre e líder em energia astral?Num ápice, o tentador levou o homem ao alto da torre do Templo deJerusalém, mais de 40 quilômetros de viagem aérea. Se o levou fisicamente,ou mentalmente, não consta. Mas o teste era válido. Lúcifer sugeriu umaexibição de faquirismo, dizendo:– Lança-te daqui abaixo, porque Deus deu aos seus anjos para tesuspenderem nas mãos, para que não firas os pés numa pedra.E esperava que o suposto mago desponderasse o seu corpo e o fizesse descersuavemente à terra, incólume.
  • 25. Mas, em vez desta exibição de magia mental, o austero jejuador replicouenergicamente:– Está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus.Após esta segunda derrota, excogitou Lúcifer um estratagema arrojado. Jogariaa sua última cartada. Levou o estranho eremita a um monte elevado;descortinou diante dele, num deslumbrante cosmorama, todos os reinos domundo e sua glória, e disse:– Tudo isto eu te darei, porque é meu, e eu o dou a quem eu quero... Calou-sepor uns momentos, observando o semblante imutável do homem e ponderandoa condição que lhe faria; daria, sim, todos os reinos do mundo e sua glória –mas não de graça. Ia exigir um teste de incondicional vassalagem a essepossível primeiro-ministro do seu reino. Com firmeza e solenidade ordenou:– Prostra-te em terra e adora-me.Mas o austero eremita se conservou em pé. Em vez de obedecer a Lúcifer,exigiu dele absoluta obediência e adoração, dizendo:– A Deus adorarás e só a ele prestarás culto.Derrota tamanha não havia Lúcifer sofrido ainda. Em vez de ser adorado, é eleconvidado a adorar aquele a quem hostilizava.E por fim, o estranho eremita teve a audácia de lhe fazer ver que o lugar deleera na retaguarda paras servir, e não na vanguarda para ser servido e adorado:– Vai à minha retaguarda!Depois dessa derrota no deserto, começou Lúcifer a temer pela segurança dosseus reinos na terra. Se existia um homem que não se considerava vassalodele, mas se arvorava em soberano, então estava em perigo a segurança dosseus domínios terrestres. No Éden oferecera Lúcifer apenas um prazerlibidinoso a uma mulher, e ela caíra como uma folha seca. Recordava-se ele daprofecia enigmática dos Elohim sobre o descendente daquela mulher queesmagaria a cabeça dele – será que era este o homem perigoso aos reinosdele? E não dizia esse homem que o seu reino não era deste mundo? A queoutro mundo aludia ele?...Lúcifer não aceitou o convite do jejuador de se pôr na retaguarda dele. Ele, o“poderoso”, não ia servir a um outro senhor que se considerava como o “maispoderoso”.Em vez disto, desapareceu, cheio de vergonha e repleto de cólera.Retirou-se apenas temporariamente, diz o texto, a fim de reapareceroportunamente, e tentar nova sabotagem.
  • 26. De uma coisa tinha ele plena e dolorosa certeza: que o planeta terra, seusdomínios, estava sendo invadido por um ser estranho sobre o qual ele nãotinha poder.Que fazer?Lúcifer, sendo o mais astuto dos seres vivos da terra, como haviam dito osElohim, ia excogitar um estratagema de inaudita audácia: ia mobilizar umaquinta-coluna dentro da própria fortaleza desse homem perigoso. E sua vitóriaseria certa desta vez.
  • 27. LÚCIFER MOBILIZA UM QUINTA-COLUNADepois de derrotado fragorosamente no deserto da Judéia, resolvera Lúcifervoltar oportunamente para tentar aquele perigoso eremita.Essa oportunidade se lhe apresentou três anos mais tarde. Durante essetriênio, tivera o “poder das trevas” tempo para mudar de tática a ver sederrotava aquele que dizia ser a “luz do mundo”. Ia valer-se do auxílio de umdos seus íntimos discípulos.Prontamente, mobilizou um quinta-coluna para seu serviço.Quinta-coluna é sinônimo de traidor, nome usado desde a guerra civil daEspanha. Durante essa guerra, um dos chefes estava assediando umafortaleza à frente de quatro colunas de forças armadas. Perguntou-lhe alguémse, com estas quatro colunas tinha esperança de tomar a fortaleza. Ao que ochefe revolucionário respondeu calmamente:– O quinta-coluna está dentro da fortaleza a nosso serviço.Havia traidores secretos dentro da própria fortaleza.De igual estratagema se ia servir Lúcifer, após a sua derrota no deserto daJudéia. Conseguiu um aliado dentro da própria fortaleza daquele homemperigoso. Conseguiu fazer de um dos 12 confidentes íntimos do Nazareno oagente secreto da sua política.De longa data vinha Lúcifer preparando o traidor, no princípio com falta de fénas palavras do seu Mestre. Mais tarde, essa falta de fé levou Judas a negociarcom os chefes da Sinagoga a entrega do Mestre.Por espaço de três anos havia Iscariotes esperado a inauguração do Reino deDeus sobre a terra, de que falava diariamente o Nazareno. Nesse reino seriaele, que sempre levava a bolsa do dinheiro, um dos primeiros-ministros. Mas oreino de que o Mestre falava não era deste mundo – e Judas só acreditavanum reino deste mundo. Era um homem realista, prático e não acreditava emreinos utópicos, nas nuvens. No fim do terceiro ano de espera inútil,convenceu-se Judas de que nada tinha a esperar do Nazareno; mas queriafazer um negócio rendoso com as suas relações de discípulo do rabi daGaliléia. Verdade é que não tencionava matá-lo, mas servir de intermediário da
  • 28. sua prisão, na certeza de que o Mestre se tornaria invisível diante de seusinimigos. O pagamento, naturalmente, seria adiantado.Havia tempo que os chefes da Sinagoga tentavam prender o profeta daGaliléia, que entusiasmava o povo simples, mas destoava das idéias dele.Jesus porém, sempre lhes fugia das mãos.Então se ofereceu Iscariotes para fazer negócio com os sacerdotes. Quanto mequereis pagar? Perguntou ele, se eu vô-lo entregar? Trinta moedas de prata,responderam eles.– De acordo – replicou Judas. Recebeu o pagamento adiantado e especulavapor uma ocasião para entregar o seu Mestre sem alarmar o povo, sobretudo osbons galileus, sempre amigos de Jesus.Aliás, Judas era o único judeu entre os 12 discípulos; os outros eram galileus,gente simples, ainda não pervertidos pela inteligência luciférica. Por isto seriafácil o estratagema de Lúcifer para mobilizar Judas a seu favor.Em vésperas da Páscoa judaica, estava Jesus com os 12 discípulos numa salapara celebrar a tradicional cerimônia do cordeiro pascal, em comemoração dalibertação de Israel da longa escravidão do Egito. Judas estava presente. Sabiatambém que, depois desse ritual, ia Jesus com os seus discípulos aoGetsêmane para orar. Era ensejo oportuno para o entregar às mãos de seusinimigos.Havia, porém, uma dificuldade: Jesus devia ser preso pelos soldados romanos,que estavam a serviço da Sinagoga; mas estes não o conheciam, e, estandoele no meio dos seus discípulos, era difícil identificá-lo à sombra das oliveirasdo Getsêmane.Judas, porém, achou saída fácil. Fez ver ao chefe da Sinagoga que ele mesmoestaria presente e daria a senha da identificação do Mestre: aquele a quem eubeijar, disse, esse é o tal; prendei-o.Na hora marcada, após o rito do cordeiro pascal dirigiu-se Jesus ao horto dasoliveiras com seus discípulos. Judas chegou à frente dos soldados. Avançoupara o Mestre, abraçou-o e beijou-o na face, dizendo:– Salve, Mestre!– Jesus, para mostrar que não era vítima de uma cilada imprevista, mas sabiado plano de Judas, disse:– Amigo, a que vieste? Com um beijo tu atraiçoas o Filho do Homem?Depois, voltando-se aos soldados, perguntou:– A quem procurais?
  • 29. – A Jesus de Nazaré – responderam eles.– Sou eu – disse Jesus. E, no mesmo instante, todos os agressores caíram decostas no chão. Jesus, em vez de fugir, como teria sido fácil, deu ordem que selevantassem, e disse-lhes num tom singularmente solene e misterioso:– Esta é a vossa hora e o poder das trevas.E entregou-se a eles sem resistência. A partir deste momento, desistiu ele dequalquer resistência ou evasão, ao contrário do que fizera nos três anosanteriores da sua vida pública. E assim continuaria até ao último suspiro no diaseguinte. Fisicamente se entregaria ao poder das trevas, parecendo serderrotado por Lúcifer.Os evangelistas descrevem detalhadamente o que aconteceu depois destanoite até às três horas da tarde seguinte: os homens a serviço do poder dastrevas ludibriaram dele de todos os modos imagináveis. É esta a política do egoinferior contra o Eu superior: desabafar a sua cólera e vingança de pigmeus emface de um gigante que não se defende. Prisão, flagelação, coroação deespinhos, bofetadas e escarros na face, ludíbrios com um manto de púrpura eum cetro real de uma cana de taquara – tudo isto foi mobilizado peloscomparsas de Lúcifer aparentemente vitorioso. Tudo isto faz parte daestratégia do poder das trevas que se vinga da intrusão da luz do mundo nosseus domínios.Certos teólogos cristãos, há quase 2.000 anos, ensinam que todos essessofrimentos e ludíbrios foram mandados por Deus para que Jesus com elespagasse os pecados da humanidade.Finalmente, Jesus pôs termo final à vitória do poder das trevas dizendo:– Está consumado...E consumada estava a maior vitória do Lógos, que mediante essa voluntáriaderrota, derrotara o Lúcifer pseudo-vitorioso.
  • 30. “O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO”Era em Jerusalém, dia 7 de abril do ano 33, numa sexta-feira, às 9 horas damanhã, como o Evangelho frisa com insistência. Achava-se Jesus na áreapavimentada do “Pretório Romano”, que os gregos chamavam Lithóstrotos, eos hebreus GÁBBATA.Neste lugar e nesta hora, o governador romano Pôncio Pilatos e seu réu Jesusde Nazaré iam discorrer sobre os dois reinos que se digladiam no Universo: oreino das trevas e da ilusão, e o reino da luz e da verdade. Os dois homenseram embaixadores plenipotenciários dos respectivos reinos.Perguntou Pilatos a Jesus:– Tu és rei?É que Jesus fora acusado de pretender a realeza da Judéia, que, havia meioséculo, era uma província do Império dos Césares, senhores da Europa, daÁsia e da África.– Sim, eu sou rei – respondeu o homem no banco dos réus, e, para evitarqualquer equívoco, logo acrescentou com firmeza:– Mas o meu reino não é deste mundo.Cheio de estranheza e espanto, olhou Pilatos para essa ruína humana diantedele e perguntou:– Donde és tu?Se esse homem era rei, onde estava o reino dele? Na Europa, Ásia, na África?Não; porque esses países eram do Império Romano. Vagamente se lembravaPilatos de certas fábulas da mitologia que falavam de reis divinos vindos àterra. Seria o Nazareno um desses reis extra-terráqueos?Respondeu o réu, com toda a clareza e decisão:– Eu nasci para isto e vim à terra para isto: para dar testemunho à verdade.Implicitamente, declarava o réu que o Império Romano, representado porPilatos, não era o reino da verdade. E, como uma advertência a seu juiz,acrescentou:
  • 31. – E todo aquele que é filho da verdade, atende à minha voz.E acrescentou significativamente, reforçando o caráter extra-terrestre do seureino:– Se deste mundo fosse o meu reino, os meus amigos lutariam para que eunão fosse entregue a meus inimigos; mas o meu reino não é daqui.No reino desse rei não se lutava com armas físicas, matando uns aos outros;lutava-se com as armas metafísicas da verdade.Quando Pilatos ouviu duas vezes a insistente palavra: verdade, verdade,encolheu os ombros, com cético desdém, e murmurou:– Que é a verdade?Nesta memorável manhã de 7 de abril, às 9 horas, foi demarcada nitidamente alinha divisória entre os dois poderes que se digladiam no Universo: o reino dailusão e o reino da verdade. E aqui estão os dois embaixadoresplenipotenciários dos dois reinos: um deles, no banco dos réus, representandoo reino da luz e da verdade – o outro, sentado na cátedra de juiz,personificando o reino das trevas e da ilusão.Se Lúcifer ouviu estas derradeiras palavras do Lógos, deve ter ficadoapavorado e indignado: esse Nazareno, aparentemente derrotado, se atreve adeclarar que o reino de Lúcifer é um reino de ilusão e de trevas, que, um dia,será derrotado pelo reino da luz e da verdade – evidentemente, um subversivoaudacioso, um intruso nos domínios do dominador deste mundo. Desde quinta-feira da noite, quando Judas traiu o Mestre com um beijo de amizade fictícia,julgava-se Lúcifer vitorioso – e agora esse farrapo de homem, que inspiravacompaixão até ao juiz, diz que para vencer não é necessário lutar com asarmas do ódio, mas somente com as armas da verdade – que pretensão!Pilatos, depois de ter ouvido dos lábios do seu réu, que ele era rei de um reinoque não era deste mundo, se convenceu definitivamente que estava lidandocom um visionário místico que sofria de megalomania de realeza. Perante asleis do Império Romano, era ele inocente, e o governador romano o podiaabsolver como inofensivo.Por isso, em vez de ouvir a resposta à pergunta “que é a verdade?” voltou ascostas ao réu e tornou a declarar ao povo e aos chefes da Sinagoga, lá fora:– Não encontro culpa neste homem.De súbito, aparece um mensageiro com um recado urgente; vinha por ordemda esposa do governador. O recado enviado pela mulher era este: “Nadatenhas que ver com esse homem justo, porque, nesta noite, sofri muito emsonhos por causa dele”.
  • 32. É um corisco minaz que rompe as nuvens sombrias da consciência de Pilatos...Esse réu é um justo, um santo, e uma voz noturna avisou a mulher que Pilatosabrisse mão desse processo.Cláudia Prócola, a esposa, não tem a coragem de dizer ao marido “absolve-o!”prefere aconselhar neutralidade evasiva e tergiversar covardemente: abre mãodo processo contra esse homem justo!Pilatos, perante a gritaria dos chefes da Sinagoga e da plebe por elesassanhada, não teve tempo para refletir. Como típico romano, primava pelaclareza do seu senso jurídico; percebia nitidamente a inanidade de todas asacusações contra Jesus. Mas os chefes da Sinagoga conheciam o caráter dogovernador humanamente frágil. Por isto, abandonaram o terreno jurídicoobjetivo e assentaram as suas baterias contra os interesses subjetivos dePilatos, bradando:– Se soltares esse homem, não serás amigo de César!Ameaçavam com uma denúncia em Roma contra o governador. E, comoPilatos havia cometido graves injustiças não conhecidas na capital do Império,receava ele perder a sua posição de governador da Judéia, se a Sinagogaprovasse os crimes que cometera. Confessando a sua fraqueza pessoal,ensaiou uma comédia ridícula: Lavou as mãos em público, declarando:– Sou inocente do sangue deste justo; vós lá vos avindes com ele. – E ocondenou à morte na cruz.Lúcifer exultou. Judas e Pilatos eram ótimos auxiliares dele. Era plenamentevitoriosa a política do poder das trevas, dominador deste mundo.Não sabia ele que esta maior vitória das trevas era o triunfo da luz.
  • 33. LÚCIFER TENTA UMA CAMUFLAGEM RIDÍCULACom sua derrota voluntária, havia o Lógos proclamado sua maior vitória sobreLúcifer, sobretudo com sua inexplicável ressurreição no terceiro dia.O poder das trevas não aceitaria impassível essa derrota. Instruiu os seusveículos humanos que negassem de todos os modos essa notícia daressurreição, que desmoralizaria toda a estratégia luciférica.A camuflagem que Lúcifer inventou na manhã da ressurreição é tão ridícula edá prova de tamanha mediocridade intelectual que dificilmente podia seratribuída a um ser chamado o mais astuto entre todas as creaturas da terra; asua mediocridade devia ser antes atribuída aos veículos humanos que foramcolhidos de improviso e perderam o mais rudimentar bom-senso e lógica,quando os soldados romanos vieram com a notícia alarmante da ressurreição.Se isto fosse verdade, a Sinagoga estaria perdida.Por isto, era indispensável sabotar por todos os meios o fato da ressurreição.Quando, na madrugada do terceiro dia, os soldados romanos encarregados daguarda do sepulcro lacrado, comunicaram aos chefes da Sinagoga osfenômenos estranhos ocorridos e que o sepulcro do crucificado estava vazio,ficaram os sacerdotes tão atarantados que perderam o derradeiro vestígio delógica e sensatez. Se o rabi da Galiléia tivesse realmente ressuscitado, estariaperdido o prestígio da Sinagoga. Por isto, era necessário negar de qualquermodo o fato.Mas como?Os chefes da Sinagoga chamaram os soldados romanos e lhes deram a ordemseguinte:– Dizei ao povo que, enquanto nós dormíamos, vieram os discípulos doNazareno e roubaram o corpo – disto nós somos testemunhas.Através destas palavras aparece toda a perplexidade e desorientação dossacerdotes. Os guardas do sepulcro devem afirmar corajosamente três coisas: 1 – que eles, os guardas, dormiram em vez de vigiarem,
  • 34. 2 – que, mesmo dormindo, viram nitidamente que alguns discípulos de Jesus se aproximavam e roubaram o corpo do crucificado, 3 – que, dormindo e vendo tudo, não impediram este roubo, como era da sua obrigação.Quando os soldados romanos tiveram ordem da Sinagoga de espalhar umboato tão flagrantemente absurdo, fizeram valer o seu bom-senso, e nãoobedeceram, alegando ainda que Pilatos os castigaria, se eles confessassemter dormido em vez de vigiarem, como era seu dever.Mas os sacerdotes prometeram defendê-los perante o governador para quenão fossem punidos – tão grande era o prestígio do clero de Israel perante oGoverno Romano...Mas, mesmo assim, os soldados não se renderam.Então os chefes da Sinagoga apelaram para o último e decisivo argumento: odinheiro. Diz o texto que encheram de dinheiro os bolsos dos soldadosromanos para que tivessem a coragem de propalar um boato três vezesabsurdo. E os soldados venderam a inteligência pelo estômago e espalharam anotícia de que os discípulos do Nazareno haviam roubado o corpo docrucificado, enquanto eles, os guardas, dormiam.Lúcifer deve ter ficado envergonhado da mediocridade mental dos seusveículos humanos, responsáveis por este contra-senso. Desta vez, oestratagema sofreu frustração total.Também, como poderia um cego ver a sua própria cegueira? Como poderia opoder das trevas enxergar suas próprias trevas?O dinheiro de Iscariotes continuava a render juros; as trinta moedas de pratapassaram a encher os bolsos dos soldados romanos. Judas se havia suicidado,desesperado, mas os outros comparsas de Lúcifer continuavam a vivercontentes.Diziam os antigos romanos: “Quos Jupiter perdere vult, prius dementat”. –Quando Júpiter quer perder alguém, em primeiro lugar lhe tira o juízo.Na presente tentativa de camuflagem luciférica, tudo prima por sua insensatez;não só o tríplice absurdo impingido aos guardas do sepulcro, como tambémtodo o resto.Suponhamos que os discípulos tivessem roubado o cadáver do Mestre, empresença dos guardas dormentes, teria sido fácil descobrir o paradeiro docorpo; bastaria que a Sinagoga pedisse ao governador romano que desse umabusca nas casas dos amigos e discípulos do Nazareno – e Jerusalém não erauma metrópole de milhões. Encontrando o corpo morto de Jesus, os
  • 35. sacerdotes o exporiam à entrada do Templo e convidariam todo o povo paraverificar se estava vivo ou morto. Teria sido o triunfo máximo da Sinagogasobre o rabi da Galiléia.De resto, que interesse teriam os discípulos em roubar e esconder o corpo deseu Mestre, se eles mesmos não acreditavam na ressurreição? De que modofariam crer aos outros o que eles mesmos não criam?Na manhã do terceiro dia, Maria Madalena e duas outras discípulas vão aosepulcro para embalsamarem o corpo do Mestre, naturalmente não um corpovivo. Logo depois, aparecem Pedro e João, viram o túmulo vazio, menearam acabeça, mas não acreditaram na ressurreição. Pela tarde do mesmo dia Jesusaparece, no cenáculo, aos discípulos reunidos, que se apavoraram e julgavamver um fantasma. Mesmo depois de o apalparem e comerem com ele,duvidavam que fosse ele.Alguns escritores fantasiosos nos querem fazer crer que a ardente fé naressurreição tenha substituído o fato – mas essa suposta fé não existia emnenhum dos discípulos do Nazareno. Se, durante os 40 dias subsequentes,eles acabaram por se convencer da realidade da ressurreição, foi à força deprovas irrefragáveis.Paulo de Tarso escreve: “Se temos fé apenas no Jesus crucificado, e não noCristo ressuscitado, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé – e somos as maisdeploráveis de todas as creaturas”.Quando alguém está a caminho da perdição, primeiro de tudo perde o juízo.
  • 36. LÚCIFER PERDE SEUS UTENSÍLIOS E SUAS ARMASCerta vez, acabava Jesus de expulsar um demônio. Quando disto souberam oschefes da Sinagoga, observaram:– É por Belzebu, chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios.Não negam o fato, mas atribuem-no ao poder de Belzebu, nome jocoso, quesignifica literalmente “rei do lixo”, ou “rei das moscas”, que os judeus davam aoadversário.Responde-lhes Jesus, com uma lógica irrefutável, mostrando que, se satanás econtra satanás, não pode subsistir o seu reino. Mas, se Jesus expulsa osdemônios pelo poder de Deus, então se revelou na terra o reino dos céus.Depois disto, confirma suas palavras com a seguinte ilustração:– Quando o forte guarda os seus utensílios, está em segurança tudo quanto elepossui; mas, quando lhe sobrevém outro, mais forte do que ele, liga o forte e odespoja das armas em que confiava.O forte é satanás; o mais forte é Jesus que ligou satanás e lhe tirou seusutensílios e suas armas. Pelo contexto, os utensílios (skeue) e as armas, ou aarmadura total (panoplia) são os demônios.Jesus não expulsou satanás, nem o identificava com os demônios, que sãoapenas utensílios e armas de que ele se serve para seus fins. Mas a perdadesses utensílios e armas enfraquece o poder do forte, ligado pelo mais forte.Anos atrás, quando se exibia o filme “O Exorcista”, recrudesceu na imprensa avelha controvérsia sobre a identidade ou não-identidade de diabo e demônio.Na linguagem popular, e mesmo na de muitos eruditos, demônio é homônimode diabo. Essa identificação é quase geral em toda a literatura. Os Evangelhos,que narram a vida e doutrina de Jesus, são, a meu ver, o único livro que nãoidentifica demônio com diabo. Nem uma única vez afirmam os evangelistas queJesus tenha expulsado um diabo, ou satanás; referem exclusivamenteexpulsões de demônios, ou espíritos impuros. Estes últimos são entidades denatureza inferior, talvez do mundo elemental ou do baixo astral, que, em certasocasiões, se apoderam do corpo humano, em que encontram vantagens parasua vivência. “Quando o mau espírito – diz Jesus – sai do homem, anda porlugares desertos em busca de repouso, mas, não o encontrando, diz: voltarei
  • 37. para minha casa donde saí. E leva consigo 7 espíritos piores do que ele queentram na casa, e torna-se o último estado desse homem pior do que oprimeiro”.Aqui não aparece nenhum convite e nenhuma culpabilidade do homem, comono caso de Pedro e de Judas, onde se fala de satanás, e não de demônios.Toda a atitude e linguagem dos demônios revelam que são seres inermes efracos; à aproximação do mais forte, gemem e suplicam: “Se nos mandaressair daqui, não nos mande para o abismo; permite que entremos nos porcos” e,depois de entrar nos porcos, nem têm o poder de conservarem vivos essesseus veículos animais.Nunca nenhum desses seres elementais se arvora em senhor de todos osreinos do mundo e sua glória; nunca nenhum deles exige do Cristo que oadore, como fez satanás.O Evangelho nunca fala em satanás ou diabo no plural, como nos demônios;usa sempre o singular, porque se trata duma mentalidade anti-espiritual;quando os demônios são entidades da natureza. Por isso Pedro e Judas, sãochamados satanás e diabo porque, por vontade própria, crearam umamentalidade hostil ao espírito de Deus.Satanás ou diabo são creações da mente humana, ou extra-hominais,contrárias ao espírito Divino; mas, depois de mente-creadas, podem tambémfuncionar em veículos objetivos, como entidades próprias. Paulo de Tarso,escreve aos Efésios que a nossa luta não é contra a carne e sangue, mas simcontra os príncipes e as potestades invisíveis dos espaços. Qualquer creaturadotada de consciência e livre-arbítrio, humana ou não humana, é responsávelpelos seus atos; Deus não a obriga ser boa ou má, nem expulsa dessacreatura uma entidade que ela mesma creou ou dela se apoderou. Jesus nãoexpulsou satanás do seu discípulo Pedro, como dissemos, nem o expulsou deJudas, nos quais entraram ou foram creadas por eles mesmos. Deus nãoarranca o joio, não contraria o livre-arbítrio do homem; o próprio homem éresponsável pela entrada e saída de satanás.O endemoninhado de Gêrasa, possesso de uma legião de demônios, eravítima dessa obsessão, que não o tornara moralmente mau, tanto assim que,logo após o exorcismo, o recém-liberto pediu a Jesus que o aceitasse comoseu discípulo, e Jesus o aceitou, recomendando-lhe que fosse discípulo deleem sua terra natal. A obsessão demoníaca não afeta necessariamente o moralda vítima – quando satanás só pode entrar no homem por culpa deste. Por estarazão, Jesus expulsa demônio, mas não diabo. Paulo de Tarso, na epístola aosFilipenses, diz que em nome do Cristo se dobrem todos os joelhos, doshabitantes do céu, da terra e do inferno. O Credo Apostólico, que data dosinícios do cristianismo, diz que, depois da sua morte, Jesus desceu aos
  • 38. infernos. Inferno ou ínferos, parece designar uma zona onde vivem entidadesprimitivas, semi-conscientes, de baixa evolução mental-espiritual. Dizem algunssensitivos que essas entidades elementais necessitam de fosfato para suaevolução, razão porque se apoderam do corpo humano, sobretudo do cérebro,fonte de fosfato.A palavra Lúcifer, como já dissemos, não ocorre nos livros sacros comosinônimo de satanás ou diabo; Lúcifer quer dizer luzeiro, ou porta-luz, quer domundo físico (estrela d’alva ou lúcifer matutino), ou mesmo um luzeiroespiritual. Um lúcifer mental pode ser amigo de Deus, e pode ser tambéminimigo, consoante o uso ou abuso do seu livre-arbítrio. Na linguagemtradicional os povos, como dissemos, lúcifer designa uma mentalidade hostil aoespírito.Tem-se alegado que as palavras de Jesus “eu vi satanás cair do céu como umraio” provam a identidade de satanás e demônio. Acabavam os discípulos deregressar da sua primeira excursão apostólica, e, cheios de entusiasmo,contaram ao Mestre que, em nome dele, até os demônios lhes estavamsujeitos e saiam das suas vítimas. Ao que o Mestre profere as palavras acima.Se os demônios são os utensílios e as armas de satanás, que admira que estacaia da alturas do seu poder, quando os discípulos do mais forte solapam osustentáculo do forte?O homem, quando amigo do mais forte, não corre perigo de ser dominado peloforte e de seus utensílios e suas armas.Segundo o Evangelho, os demônios são os utensílios e armas de Lúcifer, masnão são ele mesmo.
  • 39. LÚCIFER OFERECE TRÊS PRESENTES GREGOSApenas havia a “luz do mundo” regressado à sua pátria cósmica, quando o“poder das trevas” começou a intensificar a sua estratégia contra os discípulosdo Nazareno.Insuflou a um rabi da Sinagoga que mandasse apedrejar Estevam, um doschefes dos cristãos.Mas, desta vez Lúcifer se saiu mal, porque, pouco depois, o próprio Saulo deTarso, que matara Estevam, se transformara no maior defensor do Cristo, queele proclama, durante três decênios, na Ásia e na Europa, como o “rei imortaldos séculos”.“O poder das trevas” excogitou nova sabotagem: mobilizou a Sinagoga empeso contra os discípulos de Jesus.Depois da destruição de Jerusalém, Lúcifer mobilizou o maior Império mundialda época contra os discípulos do Nazareno: exilou-os aos subterrâneos dascatacumbas sombrias, donde só havia uma saída – para o martírio do Coliseu.Durante quase três séculos, lutou o “poder das trevas” contra o reino da “luz domundo”.Mas, o sangue dos mártires era semente para novos cristãos, e um dosauxiliares de Lúcifer, que apostatara do Lógos, bradou ao morrer: “Venceste,Galileu!”.E, na escuridão das catacumbas, os discípulos do Cristo, perseguidos emassacrados, intensificavam cada vez mais a luz do mundo, morrendosorridentes e felizes, dilacerados pelas feras do anfiteatro. “O poder das trevas”verificou seu erro: a perseguição era contra-producente.Era necessário voltar à estratégia do beijo de Judas.No ano 313, encontrou Lúcifer um segundo Iscariotes, incomparavelmentemais poderoso do que o primeiro: o Imperador Romano Constantino Magno,nominalmente cristão, realmente luciférico.Constantino decretou o fim das perseguições e deu liberdade aos discípulos doNazareno. Convidou os recém-libertos a ocuparem altos postos no governo doImpério, e, para esse fim, lhes ofereceu três presentes gregos: armas, política,
  • 40. dinheiro – armas para matar seus inimigos, política para enganar os amigos, edinheiro para comprar e vender consciências.“Salve, Mestre!... prendei-o!”...O estratagema estava tão bem excogitado que os discípulos da luz do mundosucumbiram à estratégia do poder das trevas, porquanto “os filhos destemundo são mais astutos no trato com seus semelhantes do que os filhos daluz”. A liberdade e a glória se provaram mais nefastas do que o exílio e omartírio.Desde o início do quarto século, até hoje, funcionam os três presentes fatídicosque Lúcifer ofereceu aos discípulos do Nazareno, através do seu comparsaConstantino Magno: armas, política, dinheiro.Prevenira o Nazareno os seus discípulos contra essa estratégia: “o meu reinonão é deste mundo... se deste mundo fosse o meu reino, meus amigos lutariampara que eu não fosse entregue aos meus inimigos, mas o meu reino não édaqui... cuidado com o fermento dos fariseus... não podereis servir a doissenhores, a Deus e ao dinheiro”. Os discípulos, porém, se esqueceram doalerta do Mestre.As armas de Pilatos, a política de Caifaz e o dinheiro de Judas foram usadospelo poder das trevas para eclipsar a luz do mundo.O Evangelho, segundo Judas Iscariotes, suplantou os outros Evangelhos...A bandeira do Cristo foi hasteada sobre o quartel-general do anti-cristo...O Cristo dos salões adulterou o Cristo na cruz... Os judeus mataram o corpo deJesus – mas os cristãos mataram o espírito do Cristo, através dos séculos...Mais audacioso do que nunca proclamou Lúcifer a sua antiga plataforma: “eu tedarei todos os reinos do mundo e sua glória, porque são meus, e eu os dou aquem eu quero – prostra-se em terra e adora-me!”O Cristo ficou em pé – mas os cristãos se prostraram em terra e adoraram oanti-cristo, pela idolatria das armas, pela idolatria da política, pela idolatria dodinheiro.A bandeira do Lógos continua hasteada sobre o quartel-general de Lúcifer –que rica seara produziu o beijo de Judas! “Aquele a quem eu beijar, esse é o tal– prendei-o!... Salve, Mestre!”...E agora que a estratégia de Lúcifer atingiu a culminância da sua astúcia, queresta a fazer?Milênios antes, triunfara Lúcifer pela luxúria, enganando uma mulher.
  • 41. Depois triunfou pelo luxo, enganando um discípulo do Cristo pelo dinheiro.Agora, quase no ocaso do segundo milênio, a luxúria e o luxo culminaram nolixo dos programas de cinema, de rádio, de televisão – essas conquistasmáximas da inteligência humana estão a serviço do poder das trevas.O grosso da humanidade cristã perdeu a cristicidade. Não hostilizaabertamente o Cristo, continua a beijá-lo e a saudá-lo como Mestre – paraentregá-lo a seus inimigos, para fazê-lo cair da sua altura cósmica e reduzi-lo àmediocridade do homem telúrico, do homem luciférico, do homem animal...Em vez de subirmos até ele, achamos mais cômodo fazê-lo descer até nós...O Sermão da Montanha está aposentado...O Evangelho foi revogado ou adulterado... aquele a quem eu beijar – prendei-o... crucificai-o.O suicídio do primeiro traidor está levando ao suicídio coletivo o cristianismo-traidor.“Aparecerão falsos cristos, e dirão: sou eu! Farão prodígios e fenômenosespantosos para enganar até os eleitos... Eis que vos pus de sobreaviso!”...............................................................................................................................E os três presentes gregos de Lúcifer continuam a dominar os cristãos...Armas para matar os inimigos...Política para enganar os amigos...Dinheiro para comprar e vender consciências..................................................................................................................................Mas, após o ocaso da velha humanidade, amanhecerá a alvorada de uma novahumanidade – e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.
  • 42. AS SERPENTES E OS QUERUBINS DO ESPAÇOEm todos os tempos da história humana houve intercâmbio entre as entidadessupra-terrestres, terrestres e infra-terrestres do Universo.Por vezes, esse intercâmbio é meramente mental, e mesmo inconsciente; porvezes se torna material e consciente.As antigas mitologias personificavam as entidades cósmicas, dando-lhesdeterminados nomes.Ultimamente, sobretudo desde o início da Era Atômica e nuclear da nossahumanidade, esse intercâmbio se tornou mais intenso e concreto. Oschamados “discos voadores” representam uma fase visível desse intercâmbiocósmico. As entidades que dirigem esses aparelhos são habitantes do espaçointer-sideral. Os seus corpos e seus veículos são de substância astral, ouenergética, que se materializam ao penetrarem na atmosfera terrestre, e sedesmaterializam ao deixá-la.Essas entidades astrais são dotadas de consciência e livre-arbítrio como nós,podendo por isto, ser emissários de luz ou de trevas, benéficos ou maléficosaos habitantes terrestres. O que os livros sacros dizem das hierarquias do beme do mal pode ser aplicado a essas mentalidades do espaço.Há quem chame esses seres serpentes e querubins, com alusão ao que o textodo Genêsis diz do guarda da árvore do conhecimento e da árvore da vida.Qual a finalidade dessas entidades cósmicas, ao visitarem o planeta terra?Onde imperam consciência e livre-arbítrio não pode falar em finalidade, nosingular. O livre-arbítrio é essencialmente bilateral, e sempre imprevisível.Tanto os emissários a luz como os das trevas fazem parte dos visitantesespaciais. Alguns querem a nossa realização; outros, a nossa destruição.A nossa terra, como se vê, é um kurukshetra entre os devas e os kurus, comodiria a Bhagavad Gita.Os querubins astrais conhecem o perigo que o nosso Lúcifer mental creou paraa sobrevivência da humanidade do planeta terra. Se as nossas experiênciasatômicas e nucleares perderem o controle sobre a “reação em cadeia” quedesencadeamos – adeus, humanidade!... Adeus vida da terra!...
  • 43. O insistente apelo que Albert Schweitzer, nos últimos anos de sua vida, dirigiua todos os governos do mundo, era um alerta inspirado pelos querubinsbenéficos do espaço. As nossas centrais nucleares e atômicas atraem osvisitantes astrais, interessados, em saber do estado da nossa fissão atômica,de que depende o futuro da humanidade e da terra.É bem possível que as serpentes do espaço promovam o nosso conhecimentointelectual a fim de interferirem no destino do homem adâmico, como aserpente do Éden tentou no princípio.Não estamos sós...Cada vez mais depende o destino da humanidade terrestre da interferência deentidades extra-terrestres. A humanidade cósmica prevalece cada vez maissobre a humanidade telúrica.Ninguém sabe se a estratégia da serpente do espaço vai acabar em vitória ouderrota.Para certas mentalidades espaciais é a nossa humanidade terrestre apenasuma fauna primitiva, própria para experiências de laboratório; os visitanteslevam daqui material e pessoal como cobaias de suas pesquisas. Para eles, seacha a nossa ciência e técnica num plano elementar. Que atraso o dos nossosaparelhos aéreos, que usam como combustível gasolina ou querosene, –quando eles se servem das correntes magnéticas do espaço para movimentarseus veículos, com estupenda velocidade e em perfeito silencio...Que diria o divo Platão sobre a nossa Atlântida (terra)? Repetiria o que, hámais de 2000 anos, escreveu sobre a mentalidade luciférica dos antigosatlantes? Será que o nóos humano não está em vias de suicídio coletivo, pornão se integrar no Lógos cósmico? Será que o poder das trevas não impede avitória das potestades da luz?No meu livro antigo “Luzes e Sombras da Alvorada”, escrevi um capítulointitulado: “Eu e os Discos Voadores”, em que focalizei a minha atitude em facedesses estranhos fenômenos.Se é verdade, como diz a filosofia oriental, que a nossa humanidade estáatravessando o kali-yuga, (era tenebrosa), não é de recear que o poder dastrevas envolva a nossa humanidade terrestre?Os livros sacros nos dão a esperança longínqua de que uma pequena elitesobreviverá ao suicídio coletivo da humanidade-massa; e que essa elite será asemente para uma nova humanidade. O ferro vira ferrugem, mas a ferrugemnão tornará a ser ferro. Entretanto, se sobrarem uns átomos de ferro, reagirãoao impacto magnético do ímã – e do cataclismo universal anunciado pelos
  • 44. videntes sobrará uma elite não corroída – e então haverá um novo céu e umanova terra, e o Reino dos Céus será proclamado sobre a face da terra.
  • 45. LÚCIFER É PRESO POR MIL ANOSA segunda parte do Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento,descreve a enorme devastação que o “dragão, a antiga serpente, satanás”, fezno planeta terra, depois de ser derrotado e expulso do céu pelo campeão damilícia divina, cujo nome simbólico é Mi-cha-el, o que quer dizer “Quem-como-Deus?”Lúcifer, o luzeiro da inteligência angélica, declarou a Deus “não te servirei”, efoi expulso do céu com seus partidários.Na terra, como refere Moisés no Gênesis, a mesma entidade, o mais inteligentedos seres vivos da terra, continuou a rebeldia contra o sopro de Deus.Houve uma grande luta no céu, diz o texto; naturalmente não num local, masno espaço cósmico das entidades superiores em evolução, onde impera o livre-arbítrio.Houve uma luta no céu... Os livros sacros nada sabem de um museu celesteengendrado pela teologia clerical, onde as múmias beatíficas estejameternamente congeladas na imóvel contemplação de Deus; o céu verdadeiro éuma humanidade em incessante evolução, como diz Paulo de Tarso: iremos deconhecimento em conhecimento, de glória em glória, de beatitude embeatitude.Não é a vida terrestre que, segundo o clero, determina o destino eterno dohomem, mas sim o momento da morte: se o moribundo consegue ser absolvidopor um padre, entra no museu celeste; do contrário, cai no museu infernal. Eambos os museus são a fossilização do livre-arbítrio, que, segundo a teologia,só existe na vida presente, mas perece na hora da morte; uma alma sem corpofísico é eternamente congelada no bem ou no mal – é esta a teologia infelizque nos foi impingida na infância, e que muitos não conseguem superar naadultez.Céu e inferno são creações da creatura livre, e durarão enquanto quer aconsciência da creatura.Naquela zona superior do Universo, chamada céu, já não havia ambiente parao rebelde, e foi lançado a uma zona inferior de evolução, cujos habitantes seachavam ainda numa mentalidade caótica entre o bem e o mal, na zonapenumbral entre luz e as trevas, que é a nossa humanidade terrestre.
  • 46. Nesse lusco-fusco telúrico encontrou Lúcifer campo propício para suasatividades.Diz o texto do Apocalipse que os dons do dragão intelectual foram conferidos auma animal que tinha sete cabeças, e dez chifres em cada uma, e em cadachifre havia uma coroa. Os chifres simbolizam a força, as coroas designam asoberania da inteligência do dragão.Mal recebera o animal os dons do dragão, quando começou a blasfemar contraDeus e a guerrear todos os povos. O animal-animal não blasfema nemguerreia, mas o animal-homem, quando apenas intelectualizado e ainda nãoespiritualizado, blasfema para cima e guerreia para todos os lados. O egohumano é anti-divino e anti-humano. A sua tarefa é destruir – e por isto étambém auto-destruidor.João o discípulo amado, vislumbrou o conteúdo do seu Apocalipse nasilenciosa solidão da ilha de Patmos, no mar Egeu, para onde fora desterradopelo Imperador Trajano, quando tinha quase 100 anos de idade. Nessa imensasolidão perdeu João todo o centrifuguismo do mundo externo e focalizou-seexclusivamente no centripetismo do seu mundo interior. Despojou-se de todasas sucessividades ilusórias do passado e do futuro e revestiu-se dasimultaneidade real do eterno presente, e assim, fora de tempo e espaço,ensimesmou-se no aqui e agora.E então contemplou ele o Universo no foco do Uno, sem as periferias do Verso.E todas antíteses da luta evolutiva do Devir se sintetizaram na grande realidadedo Ser.Por isto, a luta no céu não lhe pareceu um paradoxo, porque compreendeu asíntese das antíteses à luz da eterna TESE.Aliás, essa visão cosmorâmica de João já se revelara no cenáculo, depois daúltima ceia. Quando o Mestre lhe revelou o segredo do traidor, João não serevoltou contra Judas; pois, se o Mestre sabia de tudo e não o impedia, porquedevia o discípulo impedir a traição? Todas as antíteses culminam em síntese àluz da TESE.Na solidão de Patmos remontou João a mais longínqua transcendência, porqueentrou na perfeita imanência. Para ele, a luta entre Lúcifer e Lógos era umaspecto necessário da evolução ascensional da creatura creadora. Amisteriosa Apokatástasis, que dois séculos mais tarde, foi escrita por Orígenesde Alexandria, não lhe devia parecer nenhum paradoxo, como parece a nós,que soletramos o abc da sabedoria de Deus na escola primária da humanidadeterrestre.O Apocalipse faz um jogo do paralelismo entre a velha Babilônia e a novaJerusalém. A antiga torre de Babel era o símbolo do orgulho luciférico do
  • 47. homem, bem como da sua subsequente confusão e derrota. João apresentaBabilônia como a sede da luxúria e da idolatria, onde Lúcifer erigiu o seu tronoe hasteou sua bandeira de rebeldia. Diz o texto que o animal que recebeu osdons do dragão era um misto de pantera, leão e urso. Mas, apesar da suaforça, foi derrotado pelo Cordeiro, símbolo da não-violência.O dragão de fogo que está à espreita do filho duma mulher vestida de luz solar;e assim que ela deu à luz, o dragão quis devorar o filho dela, o qual foiarrebatado ao trono de Deus, enquanto a mulher voava em asas de águia parao deserto. Lúcifer devia estar lembrado das palavras dos Elohim, que haviamprometido pôr inimizade entre a serpente e o descendente da mulher; e deviaestar apavorado com a visão de que o descendente da mulher esmagaria acabeça da serpente.Quando a inteligência luciférica julga ter derrotado o seu adversário, verificaque foi derrotada pelo espírito dele. Lúcifer cumpre a sua missão opondo-se aoLógos, porque esta resistência é necessária para a evolução das humanidades;mas esta missão não isenta Lúcifer da sua maldade.As creaturas dotadas de livre-arbítrio são indefinidamente realizáveis; a suatarefa suprema é realizarem-se cada vez mais pela luta contra os obstáculos.Toda a creatura, queira ou não queira realizar os planos cósmicos, se realiza,ou então desrealiza a si mesma. O Creador está para além do bem e do maldas creaturas. A creatura pode derrotar-se a si mesma, mas não pode derrotaro Creador. Convém à creatura que realize os planos do Creador, realizando asua própria felicidade. Mas ela é livre nesse pró ou contra.Os mil anos de prisão do dragão, de que fala o Apocalipse, e o triunfo doCordeiro parecem insinuar que o poder do dragão será enfraquecido aqui naterra e que o Lógos estabelecerá o seu Reino entre os homens, durante esselongo período.Depois deste período, porém, o dragão será solto novamente, mas já não teráo mesmo poder de antes sobre os terrestres.Diz a sabedoria da Bhagavad Gita que o ego é o pior inimigo do Eu, mas queeste é o melhor amigo daquele.Embora Lúcifer deva, por sua própria natureza, ser a antítese do Lógos, estecontudo sendo de suprema sabedoria, pode levar Lúcifer a uma síntese de paz,a uma integração voluntária nos planos do Eu cósmico. O joio tem de ser joiono meio do trigo, enquanto este necessita da resistência daquele: “Nãoarranqueis o joio”. Mas, quando o trigo atingir elevado grau de maturidade, nãonecessita mais do joio: “Este será queimado”. O Apocalipse termina com umavisão gloriosa do Cordeiro: não haverá mais lágrimas nem sofrimentos, nem
  • 48. maldades – e o Reino de Deus será proclamado sobre a face da terra; haveráum novo céu para o Eu, e uma nova terra para o ego.Este triunfo final não é um céu estático e passivo, é um céu dinâmico e ativo,uma incessante jornada evolutiva do homem, já não desviável da linha reta doseu destino.Esta linha reta sem desvios nem zigue-zagues, é a fase avançada da NovaHumanidade, cuja jornada não coincidirá jamais com uma chegada, mas queeternamente se aproximará do Infinito – e esta jornada em linha reta é a vidaeterna, que, segundo os livros sacros, terá por cenário também o planeta terra,que será o habitáculo da nova humanidade. A celeste Jerusalém será a nossaterra expurgada das profanações da velha humanidade, e onde se realizaráaquilo que os Elohim haviam deslumbrado no princípio. ***Concretizando graficamente todo este drama multimilenar da evoluçãohumana, poderíamos servi-nos do diagrama seguinte:
  • 49. Na parte inferior do desenho onde impera o ego adâmico do velho homem,toda a evolução é um labirinto de zigue-zagues, de desvios para a direita epara a esquerda, um caótico círculo vicioso. O príncipe deste mundo ainda tempoder sobre os homens, embora não lhes possa destruir o livre-arbítrio.Na medida que a evolução avança, diminuem os zigue-zagues; o ego adâmicodecresce, e o Eu crístico cresce. Por fim terminam todos os desvios para adireita e para a esquerda, e a evolução humana entra numa linha reta dedecisiva verticalidade, rumo ao seu destino.Esta verticalidade e retitude simbolizam a vida eterna, a reques aeterna, afelicidade dos auto-realizados, sempre ulteriormente realizáveis.A massa primitiva e seus guias cegos identificam a vida eterna e o eternorepouso com uma total passividade contemplativa, com uma espécie deaposentadoria celeste, em que o homem seria recompensado eternamente poruns cinquenta ou mais anos de vida terrestre.Como já lembramos, a vida eterna não é eterna passividade e inérciacontemplativa – que seria antes morte eterna. A vida eterna é a ausência dezigue-zagues, de dúvidas, de incerteza, de vicissitudes desconcertantes – e é apresença da segurança, da certeza e serenidade dinâmica, nascidas daconsciência do caminho certo.O ser em evolução é perfeitamente feliz quando tem a certeza absoluta da suadireção retilínea rumo ao Infinito, e não necessita de nenhuma chegada, denenhuma coincidência do seu finito com o Infinito. Esta certeza da retitude dedireção nada tem que ver com um Além; é a quintessência do próprio Aquém,quando este superou os fatigantes zigue-zagues do ego adâmico e entrou narepousante linha reta do Eu crístico.Esse início na linha reta do Eu crístico principia com a iniciação, e continuaincessantemente na auto-realização, sempre ulteriormente realizável, numagloriosa jornada sem fim, que está sempre no fim, por ser uma jornada emdireção certa – e o viajor tem plena certeza dessa retitude, que é o seu eternorepouso e sua felicidade eterna.Projeção vertical da linha reta do gráfico acima indica uma auto-realizaçãoilimitada da creatura creadora. Todas as antíteses da evolução culminam nestasíntese – rumo à grande TESE.
  • 50. LÚCIFER ENCONTRA-SE COM UM AVATARNas suas extensas divagações pelos mundos, encontrou-se Lúcifer, um dia,com um ser estranho. Aproximou-se dele e perguntou-lhe:– Quem és tu?Respondeu-lhe o desconhecido:– Eu não sou ninguém. Não tenho nome. Sou um anônimo.– Que estás fazendo aqui, anônimo?O estranho olhou longamente, em total silêncio, para Lúcifer. Finalmente, dissecom certa solenidade:– Estou em demanda da plenitude.– Da plenitude?– Sim, da minha plenitude.– Ah! tu és um avatar...– Assim me chamam alguns.– A plenitude é o céu, não é?– Sim, o céu dentro de mim. Esse céu sempre propínquo e sempre longínquo...Dizendo isto, o avatar olhou para o horizonte distante onde um sol douradomergulhava nas trevas.– E tu não estás no céu da tua plenitude?– Sim, estou no céu – e por isto o procuro cada vez mais.– Estranha filosofia – murmurou Lúcifer, sem ser ouvido. Depois perguntou emvoz alta:– Se estás no céu, por que não gozas o teu céu? Se estás na plenitude, porque não bebes a tua doçura?
  • 51. – Eu estou no céu do meu gozo gozado, mas vou descer ao céu de um gozosofrido...– Gozo gozado, gozo sofrido?– Sim, eu não estou na plenitude plena, mas plenificável. Não estou no termoda viagem, estou em plena jornada.– Não estás então na vida eterna?– Estou num viver sem fim, numa libertação indefinida, e por isso devo servir,descendo voluntariamente...– E por que queres descer?– Para me libertar ainda mais.– Sofrer, por quê?– Sofrer por amor.– Por amor de quem?– Por amor de mim mesmo.– E por que não sofrer por amor dos outros?– Quem não sofre por amor de si não pode sofrer por amor dos outros.– Mas isto não é amor-próprio?– É sim. Ninguém pode ter amor-alheio sem ter amor-próprio. Ninguém podefazer bem aos outros sem ser bom em si mesmo.– Estranha filosofia...– A minha plenitude transborda em benefício dos outros. Se eu não for plenoem mim, não posso transbordar em benefício dos outros.– Para onde vais descer?– Vou descer ao nadir do Universo a fim de chegar ao zênite de mim mesmo.– Quer dizer que vais encarnar como um avatar por amor aos outros?– Por amor de mim, pelo bem dos outros.– Mas isto não é egoísmo?– Isto é auto-afirmação, auto-amor, auto-realização. Estou em demanda daminha plenitude.
  • 52. – Vais descer para te realizar?– Desço às baixadas para subir às alturas. Quanto mais desço por amor, tantomais subo rumo à plenitude.Lúcifer permaneceu calado por muito tempo, pensando nessa paradoxalantidromia do avatar. E lembrava-se dos tempos longínquos em que ele foraexpulso dos céus por ter bradado a Deus: “Não te servirei!”... E esse Ninguém,esse Anônimo, quer servir voluntariamente por amor. E a plenitude desse amora si mesmo transbordará em benefício dos outros – que estranha filosofia!...Quando Lúcifer voltou a si das cogitações longínquas, não viu mais ninguém. Oestranho anônimo descera às baixadas do Universo a fim de se realizarulteriormente, o que ele chamava o céu sofrido. Foi prestar os mais humildesserviços as creaturas inferiores, sem esperar recompensa nem louvores nemadmiração. Somente por amor.Por longo tempo andou Lúcifer pensando nesse misterioso amor-próprio, quenão era egoísmo. Mas não conseguiu solver o enigma: amar a si mesmo poramor aos outros.Depois de terminar as suas divagações pelo cosmos, Lúcifer voltou ao planetaterra, que era o seu campo de atividade.Na terra encontrou milhões de creaturas que procuravam realizar o seu céugozando os seus gozos. Ninguém entendia a estranha filosofia do avatar quequeria plenificar-se por amor esvaziando-se voluntariamente dos gozos eplenificando-se de sofrimentos – por amor... Só uma única vez, em plena selva,encontrou um grupo de seres humanos que compreendiam e viviam a filosofiado Anônimo, do estranho Ninguém, que encontrara em outros mundos.Olhando atentamente para os componentes desse grupo, identificou Lúcifer osemblante do avatar, que varria o pátio da casinha modesta, e foi descascar epreparar legumes para a refeição dos colegas.Pouco a pouco, Lúcifer começou a sentir-se mal, a cada vez pior, nesseambiente. Sentia-se como que asfixiado, com falta de ar... A frequênciavibratória irradiada pelos habitantes desse lugar era insuportável para o poderdas trevas. Quando essa sensação da mal-estar atingiu o clímax, Lúcifer fugiudesse inferno. Uma ventania violenta o arrojava para fora, e ele julgou ouvirnos uivos da ventania o grito estridente: não quero servir... não quero servir poramor... quero ser servido... quero ser adorado...Depois se fez profundo silêncio...E tudo em derredor estava envolto em trevas noturnas...
  • 53. UMA DERROTA EM PLENA VITÓRIANo início da Era Cristã, celebrou Lúcifer algumas das suas vitórias maisestupendas. Conseguiu que seu inimigo número um fosse condenado a umamorte vergonhosa pelas autoridades, civil e religiosa, e que esta condenaçãofosse forjada por um dos discípulos dele que com ele vivera três anos.Tanto mais gloriosa foi esta vitória porque, três anos antes, no deserto daJudéia, o Nazareno lhe dera ordem categórica de se pôr na retaguarda e servire adorar em vez de ser servido e adorado. Mas o príncipe deste mundoconseguiu que seu inimigo número um fosse entregue à morte por ordem dorepresentante do maior império do mundo, à insistência da mais poderosaorganização religiosa da época.Na cidade da Tarso, capital da província romana da Cilícia, na Ásia Menor,vivia, um jovem judeu, da seita dos fariseus, que acompanharapreocupadamente as vitórias do profeta de Nazaré, que tinha o desplante dedizer ao povo da Palestina, referindo-se a Moisés: “Foi dito aos antigos – euporém vos digo”... Sobrepunha a sua autoridade à do grande legislador deIsrael.Esse jovem judeu de Tarso, chamado Saulo, ardia de impaciência por ir àJudéia e combater a arrogância do Nazareno – quando, um dia, ouviu que oarrogante profeta fora condenado à morte de Crucifixão.Saulo exultou de júbilo.Breve, porém, foi o seu júbilo, porque de Jerusalém lhe vinham rumores de queos discípulos do crucificado continuavam fanaticamente à rebeldia anti-mosáicado Mestre.Saulo partiu para Jerusalém a fim de debelar a arrogância dos discípulos doNazareno.Chegado a Jerusalém, soube que o chefe dos nazarenos revoltosos era um talEstevam. Com a aprovação dos chefes da Sinagoga, resolveu Saulo mandarapedrejar Estevam como blasfemo, segundo preceituava a lei de Moisés.Depois do apedrejamento de Estevam, ouviu Saulo que, em Damasco, capitalda Síria, viviam numerosos adeptos do profeta de Nazaré, que divulgavamentusiasticamente a doutrina dele.
  • 54. Com a aprovação da Sinagoga, pôs-se ele a caminho de Damasco para trazerpresos a Jerusalém todos os adeptos do Nazareno.Já se aproximava de Damasco, em pleno meio-dia, quando, subitamente, foifulminado por uma luz deslumbrante, que o prostrou por terra, completamentecego. Estendido por terra, Saulo ouviu uma voz, que clamava: “Saulo, Saulo,por que me persegues?”Saulo e seus companheiros ouviram esta voz misteriosa, mas não viramninguém.Saulo animou-se a perguntar à voz enigmática: “Quem és tu a quem eupersigo?” e a voz lhe respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues”. E,depois de alguns momentos, a mesma voz acrescentou essas palavrasestranhas: “Duro te é recalcitrar contra o aguilhão...”Calou-se Saulo, pensando nas palavras “duro te é recalcitrar contra oaguilhão”. E lembrou-se de que, desde a morte de Estevem, ele sentia naconsciência esse doloroso aguilhão, contra o qual lutava.“Que queres que eu faça?” – perguntou Saulo ao invisível perseguidor. E a vozdo alto lhe respondeu: “Levanta-te e vai a Damasco, à casa de um tal Judas,na rua Direita; e lá te será dito o que deves fazer”.Saulo ergueu-se, cambaleante, e, ainda cego, estendeu as mãos para que umdos seus companheiros o conduzisse a Damasco, ao endereço indicado.Em Damasco entrou na casa do tal Judas, morador à rua Direita, que ohospedou. Ainda cego, pôs-se em oração, tentando desvendar esse mistério.Depois de algum tempo, apareceu na casa de Judas um discípulo de Jesus,por nome Ananias, dizendo: “Irmão Saulo, aquele Jesus que te apareceu naestrada me deu ordem para visitar-te...”E, neste momento, desapareceu a cegueira de Saulo. Ananias o levou consigo,explicando-lhe a mensagem que recebera do Além.Cheio de coragem e entusiasmo, foi Saulo ter à Sinagoga de Damasco, ondeestavam reunidos diversos discípulos de Moisés e de Jesus. Narrou-lhes o quelhe acontecera na estrada. Os discípulos de Moisés se revoltaram chamandoSaulo de traidor, por ter traído a mensagem recebida da Sinagoga; e osdiscípulos de Jesus o consideravam um perigoso embusteiro, que armava umestratagema astuto.Saulo viu que ainda não chegara o tempo para proclamar corajosamente amensagem do seu novo Mestre. E retirou-se para as estepes desertas daArábia, onde ficou sozinho, três longos anos, em meditação e estudos tentandoconciliar os fatos estranhos dos últimos dias.
  • 55. Depois desses três anos de solidão, pôs-se a percorrer os países da Ásiaocidental e do Sul da Europa, proclamando a mensagem do Cristo a pagãos ejudeus.Maior não podia ser a derrota de Lúcifer: o maior perseguidor do Nazareno setornou seu maior defensor e apóstolo.Saulo confessa em suas cartas que foi esbofeteado por satanás, masperseverou firme e fiel até o fim. Nenhuma das estratégias de Lúciferconseguiu demovê-lo do seu caminho. Finalmente foi degolado por terproclamado o nome do Cristo.
  • 56. O LÚCIFER ANTI-EVOLUTIVOTeilhard de Chardin faz o homem passar por diversos estágios evolutivos, entreeles o da biosfera, da noosfera, rumo à logosfera. O homem superou a biosferada simples vida animal e se acha atualmente na noosfera, no estágio dainteligência; segundo o roteiro evolutivo normal, deve o homem passar danoosfera para a logosfera, o triunfo da racionalidade.Se o homem fosse um animal rationalis, como pensava Aristóteles, não seriaesta terra um cenário de crimes e terrorismos; o homem racional não teria atendência de destruir as belezas da natureza e abrir desertos monótonos emlugar delas.Infelizmente, porém, o homem chegou apenas a ser um animal intellectualis,intelectualizado do pescoço para cima.E este desvio do sopro de Deus para o sibilo da serpente – como Moisés osimboliza – já começou no Gênesis.Estranhamente, a inteligência tem a tendência inata de destruir tanto a ordemnatural da biosfera, como também a ordem racional da logosfera. A inteligêncialuta em duas frentes, para baixo e para cima, para conservar a sua hegemonia.Parece que preside ao microcosmo hominal a mesma lei que fez do caos domacrocosmo sideral um maravilhoso cosmos. Será que o homem está em viasde cosmificação, ou estagnará no caos?Já a sabedoria milenar da Bhagavad Gita dissera que “o ego é o pior inimigo doEu”, e Paulo de Tarso escreveu aos cristãos de Corinto que “o homemintelectual não compreende as coisas do espírito, que lhe parecem estultice,nem as pode compreender, porque as coisas do espírito tem de sercompreendidas espiritualmente”.O Lúcifer do ego intelectual não permite a evolução do ego rumo ao Eu, mastenta manter o homem na horizontal do ego; se o homem intelectual seracionalizar (espiritualizar), perderá o ego a sua soberania ditatorial sobre avida do homem, e terá que abdicar dela a favor de um poder superior. Mas opróprio Cristo já nos advertiu que “o príncipe deste mundo, que é o poder dastrevas tem poder sobre nós”. E o próprio Lúcifer, na cena da tentação, confirmaas palavras do Lógos, dizendo: “Eu te darei todos os reinos do mundo e suaglória, porque são meus”.
  • 57. O homem intelectual é necessariamente egoísta; não se interessa pelaevolução do homem integral, mas quer perpetuar o homem parcial; quer dizer,que se opõe frontalmente às leis cósmicas, que querem a evoluçãoascensional do homem. Para conseguir este seu fim anti-evolutivo, o egoluciférico se serve de duas armas poderosas: a do sexo e a da propriedade. Ouso normal do sexo e da propriedade não é anti-evolutivo; mas a inteligênciaperverte esse uso normal e substitui a libido normal pela luxúria anormal, esubstitui o uso normal dos bens materiais pelo abuso deles, chamadoganância.Os livros sacros, tanto do Antigo como do Novo Testamento, culminaramterríveis anátemas à luxúria e à ganância. No Gênesis, os Elohim haviamvedado ao homem comer do “fruto proibido” da luxúria, e, depois da rebeldiadele, condenaram o primeiro casal a uma vida de dores: “maldita seja a terrapor tua causa”.No Evangelho, Jesus quase não fala da luxúria, mas lança veementesmaldições à ganância: “Mais fácil é passar um camelo pelo fundo de umaagulha do que um rico entrar no Reino dos Céus... Não podeis servir a Deus eàs riquezas”.Tanto o abuso do sexo como o abuso da propriedade impedem a evolução eeugenia natural do homem, porque luxúria e ganância são opostas às leis danatureza, e tudo que é desnatural é anti-evolutivo. A evolução ascensional só épossível em harmonia com as leis da natureza. Não é o uso do sexo e dosbens materiais que impedem a evolução, mas sim o seu abuso.E o Lúcifer do ego intelectual faz o possível para levar o homem a esse abuso.Mas disfarça jeitosamente esse abuso, fazendo crer que é o uso normal dasenergias.O homem da noosfera é constantemente narcotizado e dopado pelo Lúciferintelectual. E, como a inteligência produziu as maiores maravilhas da culturahumana, a inteligência faz uma hábil camuflagem, fazendo crer ao homem queesses abusos do sexo e da propriedade são a apoteose da cultura humana.O homem que não permite a invasão da razão superior na sua vida, nãopercebe essa camuflagem perversa da inteligência.É essa precisamente a situação da humanidade atual, vítima de luxúria eganância, glorificadas como sendo a apoteose da evolução humana.Dizem os videntes, antigos e modernos, inclusive o Cristo, que esta culpauniversal da humanidade provocará uma reação violenta da parte das leiscósmicas contra o homem. Tudo leva a crer que a nossa humanidade está noinício dos horrores vaticinados pelos videntes. E as maiores conquistas da
  • 58. inteligência humana – imprensa, rádio, televisão, cinema – se encarregam deuniversalizar esses males.Quem pode, deve; e quem pode e deve e não faz, cria débito – e todo débitogera sofrimento: é esta a quintessência das leis cósmicas.A culpabilidade e abuso das leis naturais chega a um ponto culminante, onde,praticamente, não há regresso – e então começa a funcionar a pena, que é areação das leis naturais contra o culpado.De bons conselhos está calçado o caminho do inferno; mas o grosso dahumanidade não se converte com bons conselhos. E então se desencadeiauma tempestade de sofrimento universal. As leis cósmicas são inexoráveis eimutáveis.Onde há culpa, há sofrimento.É esta a voz da razão (Lógos), que a inteligência (nóos) não quer aceitar.A humanidade se está suicidando em prestações...É este o triunfo máximo de Lúcifer.
  • 59. OFENSIVA TOTAL: CIÊNCIA CONTRA CONSCIÊNCIAGraças à ciência e técnica, pode o homem moderno ouvir a voz de outrohomem a qualquer distância.Graças às descobertas da ciência e técnica, pode o homem ver outro homem aqualquer distância, mesmo na lua ou em algum planeta.Graças às creações da inteligência pode o homem projetar numa tela, em salaescura, qualquer acontecimento da vida passada e distante, como se fossepresente aqui.Nestas estupendas conquistas da inteligência humana baseou o Lúcifer do egomental a mais estupenda vitória da sua estratégia.Sendo que a ciência do ego avança rapidamente, ao passo que a consciênciado Eu é vagarosa, a ciência derrota necessariamente a consciência, como jáconsta das páginas do Gênesis, e como repete a sabedoria milenar daBhagavad Gita, dizendo que “o ego é o pior inimigo do Eu”.No 6.° século antes da Era Cristã escreveu o grande iniciado chinês Lao-Tseno seu Tao.“Quem é iluminado por dentro,Parece escuro aos olhos do mundo.Quem progride interiormente,Parece um ser retrógrado.Quem é auto-realizado,Parece um homem imprestável.Quem segue a luz interna,Parece uma negação para o mundo.Quem se conserva puro,Parece um bobo e simplório.Quem é paciente e tolerante,
  • 60. Parece um sujeito sem caráter.Quem vive de acordo com seu Eu espiritual,Passa por um homem enigmático”.Embora esta ofensiva do ego luciférico contra o Eu crístico seja tradicional,contudo, em nosso século, assumiu ela um aspecto mais do que nuncaagressivo. Hoje em dia, a luta da ciência do ego contra a consciência do Euassumiu proporções de uma ofensiva total em todas as frentes – e isto emnome da mais avançada cultura humana.O que atualmente domina toda a vida humana são três estupendas conquistasda ciência: cinema, rádio e televisão, sobretudo a televisão cujos espectadoresnão são milhares, como no cinema, mas muitos milhões. A estatística calculaem 45 milhões de pessoas, que habitualmente usam televisão, no Brasil.E esse meio de comunicação está pelo menos 90% a serviço da destruição dafelicidade humana, embora seja um meio de gozo e prazer. O ego perifériconada sabe de felicidade; só quer gozo e prazer, quase sempre contrários àfelicidade do Eu.E assim esses meios de comunicação em massa aumentam e agravam osproblemas e a dolorosa problemática da vida humana.Na Europa os programas de televisão são feitos pelos governos e visam aeducação e cultura do povo; mas entre nós, como nos Estados Unidos, essasmaravilhas da ciência e técnica são dirigidas pelo comércio, que deles faz fontede dinheiro, seja pelo bem, seja pelo mal do povo. Verdade é que nenhumatelevisão recomenda aos telespectadores que roubem, matem e explorem osoutros, mas, indiretamente, quase todos os programas favorecem as maldadesda vida humana. Como são esses programas de bagaços e frivolidades, queexploram os baixos instintos do público, parece mesmo que tanto melhor é umprograma quanto mais dinheiro dá ao comércio. Entretanto, já dizia o maior dosmestres: “Não podeis servir a Deus a ao dinheiro”.E a igreja não poderia remediar esses males?Não pode, nem quer, porquanto a teologia da igreja dá mais importância aomorrer-bem do que ao viver-corretamente, porque o morrer-bem depende daconfissão, que está nas mãos do clero; segundo as teologias pode o homemem 5 minutos salvar-se para a felicidade celeste depois de viver 50 anos empecados e crimes – e quem não acharia melhor garantir em 5 minutos deconfissão a vida eterna do que em 50 anos de sacrifícios e vida honesta?Para a teologia da igreja, a vida verdadeira começa depois da morte, e estavida futura depende do clero.
  • 61. Assim, o papel educativo da igreja é praticamente nulo – e Lúcifer conseguiuhastear a bandeira do seu reino na fachada do quartel-general do Cristo.Que fazer em face disto?Felizmente já existem em diversos países pequenos grupos que procurameducar a consciência independentemente dos poderes públicos e da igreja.Nos países germânicos vai à frente da educação da consciência um movimentochamado Neugeist (Novo Espírito); nos países anglo-saxônicos é conhecido omovimento educacional da Self-Realization (Auto-Realização), ou The NewOut-Look (A Nova Perspectiva). Entre nós, no Brasil, existe desde de 1952 omovimento de projeção nacional chamado Alvorada, com sede na capital deSão Paulo e ramificações por todos os estados do Brasil e Portugal.Por ora, esses grupos abrangem apenas uma pequena elite; mas, como umpouco de fermento vivo pode levedar uma imensa massa morta, é de esperarque esses pequenos grupos sejam uma nova vanguarda da educação daconsciência a projetar-se sobre a sociedade.Em todos esses grupos predomina o mesmo espírito de auto-conhecimento eauto-realização; o homem que conhece a verdade sobre si mesmo, vive deacordo com esta verdade e esta harmonia, favorece a verdadeira filosofia daeducação.A forma lapidar em que o Cristo exprime este espírito da educação daconsciência são as seguintes palavras do evangelho: “Conhecereis a verdade,e a verdade vos libertará... O Reino dos Céus está dentro de vós, mas é umtesouro oculto, que deve ser descoberto; é uma luz debaixo do velador, quedeve ser colocado no alto do candelabro; é uma pérola preciosa no fundo domar, que deve ser trazida à tona”.
  • 62. LÚCIFER – DERROTADO POR SUAS PRÓPRIAS ARMASNo século 20, Lúcifer celebrou uma das suas maiores vitórias – e sofreu umadas suas maiores derrotas. E, por ironia da sorte, essa derrota lhe foi infligidapor sua arma predileta – a inteligência humana.A Rússia Soviética proclama como sua plataforma oficial, dois itensgenuinamente luciféricos: 1 – materialismo dialético, 2 – ateísmo militante.No mesmo século, porém, surgiu um grande cientista, o maior matemático doséculo, e quiçá de todos os tempos: Albert Einstein.E Einstein declara, em nome da ciência, que a matéria não existe como umarealidade autônoma, mas apenas como um fenômeno da energia. Matéria éenergia congelada; descongelando a matéria, ela deixa de existir como tal.E o materialismo dialético está ajoelhado ao pé de um altar donde fugiu adeusa matéria, e quem a expulsou foi a própria ciência. Lúcifer versus Lúcifer...Mais ainda, no seu livro “Aus meinen spaeten Jahren” Einstein declara que nãoprofessa nenhuma religião determinada, nem judaica nem cristã, mas que seconsidera um homem profundamente religioso, porque vê um Poder Supremoem todas as coisas do Universo. Ele proclama a Divindade, não um Deuspessoa, como os teólogos ensinam, mas um Poder Supremo, que Spinozachamava a “alma do Universo”, e que Einstein identifica com a Lei Universalque tudo rege. O ateísmo militante derrotado pelo maior cientista do século.Quando, há pouco, o mundo inteiro celebrou o primeiro centenário donascimento de Einstein, a Rússia Soviética se colocou à margem dos festejos,porque o maior matemático do século derrubou do trono os dois ídolosmáximos do comunismo soviético.É esta aliás a ironia de todas as coisas da ciência: a ação contra-producentedas conquistas da inteligência. Na antiga Índia, todo o finito, sobretudointelectual, era representado por uma linha curva, que sempre volta sobre simesma, ou ainda por uma serpente a morder a sua própria cauda. Quer dizer,a inteligência finita sempre destrói o que construiu. O Infinito é simbolizado poruma linha reta, que nunca volta sobre si mesma.A Rússia Soviética é hoje a campeã da psicologia e parapsicologia. Parece quequer construir a torre de Babel até furar o céu – mas é inevitável a confusão,
  • 63. porque a inteligência só pode construir para destruir; a serpente irá sempredevorar-se a si mesma, começando pela cauda.Parece que esse triunfo da ciência soviética tem por fim preparar uma quedasem precedentes, porque quanto mais elevada for a construção tanto maisprofunda e desastrosa será a sua destruição.Enquanto o nóos não for integrado no Lógos, continua a construção da torre deBabel rumo à sua destruição.E quando o nóos permitirá a sua integração no Lógos?Não é à força de bons conselhos, mas sim em virtude de uma catástrofeuniversal provocada pela própria inteligência. A destruição da humanidade nãonecessita de nenhum Deus nem diabo – ela se basta a si mesma comopotência auto-destruidora.
  • 64. LÚCIFER – NOSSO INIMIGO NECESSÁRIOAtravés de todas as páginas deste livro temos focalizado as estratégias deLúcifer, suas vitórias e suas derrotas.Muitos leitores devem ter estranhado que Deus tenha creado tão poderosoadversário da humanidade, e achariam melhor que não existisse.Isto, porém, é um equívoco funesto.Já no terceiro século da nossa Era, um dos maiores gênios, Orígenes deAlexandria, escreveu um livro sobre este tema intitulado “Apokatástasis”.Sendo que o homem é uma creatura em incessante evolução (ou involução), énecessário que haja em sua vida uma resistência, uma luta, um adversário. Docontrário, a evolução do homem degeneraria numa estagnação passiva,contrária às leis cósmicas.Os que consideram o céu como uma espécie de aposentadoria definitiva nãopoderão compreender essa evolução indefinida rumo ao Infinito.Na realidade, porém, o céu, a vida eterna, é uma jornada em linha reta, umasinfonia inacabada.E, para que possível seja essa evolução indefinida, é necessário que hajapólos, positivo e negativo; que haja uma antítese, não contrária, mascomplementar, onde os pólos complementares possam evolver rumo a umagrande síntese.É este o jogo maravilhoso do poder creador do livre-arbítrio.Se Lúcifer derrota o Cristo dentro do homem, é culpa do homem. Em Jesus elenão conseguiu derrotar o Cristo, porque esse Jesus já tinha plena consciênciada vivência do Cristo interno.Quando o homem chega ao máximo da sua cristificação, então haverá semprea vitória do Cristo e sempre a derrota de Lúcifer – mas a luta continuaindefinidamente, porque indefinidamente continua a evolução do homem.A luta é inevitável porque faz parte das leis cósmicas; evitável é a derrota doEu crístico pelo ego luciférico do homem.
  • 65. Aliás, toda a razão-de-ser da existência humana é essa luta de vitória emvitória.Já mencionamos a obra monumental de Orígenes de Alexandria, um livrosobre esse fenômeno evolutivo. Infelizmente, por ordem da hierarquiaeclesiástica foi queimado este livro “herético”; dele temos apenas fragmentosbaseados nos escritos de alguns dos discípulos do grande pensador. Orígenesconsidera esse intercâmbio Lúcifer-Lógos como a expressão das leis cósmicasque regem o Universo, também o microcosmo hominal. A “heresia” deOrígenes não consistia na falsidade de uma afirmação, mas sim na suainoportunidade. Não se pode dizer a massas de evolução infantil o que se podedizer a uma elite de evolução adulta – e Orígenes era mestre de catecúmenose neófitos de Alexandria, isto é, dos candidatos pagãos ao cristianismo e doscristãos recém-convertidos (neo-fito quer dizer em grego recém-plantado).Toda a vez que o Cristo no Evangelho se encontra com o Anti-Cristo (Lúcifer),ele o manda retro, isto é, à retaguarda, como servidor, enquanto na vanguardaestá ele, como senhor.A nossa humanidade atual está numa das suas baixadas mais profundas deinvolução, ou luciferismo, em que culminaram os dois fatores involutivosluxúria-ganância. Apesar disto o Apocalipse nos garante que, algum dia, “oreino dos céus será proclamado sobre a face da terra e haverá um novo céu euma nova terra”.Os planos cósmicos da Divindade se cumprirão infalivelmente, mas felicidadeou infelicidade do homem é obra dele, do uso ou abuso do seu livre-arbítrio.Nenhuma creatura pode frustrar os planos do Creador, mas a creatura livrepode realizar ou frustrar o seu destino individual. Lúcifer e Lógos estão aserviço dessa evolução, ou involução, desta realização existencial oufrustração existencial do homem.É tendência constante do ego luciférico do homem colocar-se na vanguarda davida para mandar – mas é o dever do homem colocar Lúcifer na retaguarda,como servidor, e o Cristo na vanguarda como Senhor.Um homem auto-realizado não é um homem estagnado e fossilizado numaquietação inerte e passiva; a tarefa do homem autêntico é um progredir ouevolver constante, rumo ao Infinito. Mas, sendo que, segundo a matemática,todo o finito em demanda do Infinito está sempre a uma distância infinita, aevolução do homem, por mais avançada que seja, é sempre ulteriormenteevolvível. A vida eterna não é uma chegada imóvel, mas uma jornada em plenomovimento.Na Epístola aos Filipenses, Paulo de Tarso atribui esta evolução ascensionalao próprio Cristo, que, depois da sua encarnação e morte, se tornou um super-
  • 66. Cristo, ou, como diz Paulo, foi super-exaltado. Infelizmente a Vulgata Latinaomitiu esse prefixo “super”, “hiper”, que está no texto grego de Paulo.Essa evolução incessante do Cristo é possível, porque, segundo Paulo, ele é o“primogênito de todas as creaturas”, e toda a creatura é evolvível. Segundo oslivros sacros, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade; ele é a mais perfeitaindividuação da Divindade Universal: “Eu e o Pai (Divindade) somos um, mas oPai é maior do que Eu”.A felicidade do homem, a sua vida eterna, não consiste numa chegada, masnuma constante jornada em direção certa. Esta consciência da direção certa éque é a eterna felicidade do homem. Não existe nenhum céu estático, só existeum céu dinâmico. O céu não é um estado de ser, mas um processo de devir.O Lúcifer do nosso ego é o inimigo necessário do homem em evolução; semele, não haveria evolução. Se o homem permitir ser derrotado por seu Lúcifer,a culpa é dele, e não de Deus.Aliás, a natureza inteira está baseada neste princípio de bipolaridade, ouantítese complementar. Sem ele, não haveria átomos nem astros, não haveriaeletricidade nem vida orgânica. A vida, em todos os setores do Universo, é umprocesso de sintetização de duas antíteses complementares. Na natureza nãoexiste antítese contrária – que não poderia realizar a síntese – todas asantíteses da natureza são complementares, onde um pólo completa outro pólo.Na natureza infra-humana, essa complementaridade das antíteses é regida edirigida por um fator cósmico infalível, ao passo que, no homem, essaharmonização das antíteses depende do fator humano do livre-arbítrio.Um único homem auto-realizado é maior maravilha do que todas as grandezasdo Universo alo-realizadas.Sendo que, segundo a sabedoria milenar da Bhagavad Gita, o Eu (crístico) dohomem é o maior amigo do seu ego (luciférico), é possível esse tratado de pazentre os dois pólos da natureza humana. Mas esse tratado de paz em plenocampo de batalha só é possível no caso que o homem conscientizeintensamente o seu Eu central, ao ponto de permear e lucificar todos ossetores do seu ego periférico.Esta lucificação do seu ego opaco pelo seu Eu luminoso é a suprema tarefa dohomem, aqui na terra, e em todas as existências extra-terrestres.O nosso ego é, no princípio comparável a uma tábua opaca, que pode seriluminada unilateralmente pela luz, mas projeta sombras do lado oposto,porque não é permeável pela luz. Mas, quando esse ego opaco se transformarnum cristal transparente, então não projeta mais sombras, porque é totalmentediafanizado pela luz. E é até possível que a luz incolor, que entrou no cristal,
  • 67. saia dele em forma de luz multicor, polarizando magnificamente todos osobjetos por ela iluminados.A verdade da luz incolor pode aparecer na poesia da luz multicor – é este opoder mágico do livre-arbítrio, quando plenamente desenvolvido. “A verdade –escreveu Mahatma Gandhi – é dura como diamante, mas também é delicadacomo flor de pessegueiro”.É este o drama cósmico de Lúcifer-Lógos no campo de batalha humana –suposto que o homem realize plenamente o seu grande destino.
  • 68. ÍNDICEPREFÁCIONOSSA VIZINHANÇA CÓSMICALÚCIFERO PLANO CÓSMICO DA EUGENIA HUMANAESTRATAGEMA VITORIOSO DE LÚCIFERLÚCIFER PERDE UMA APOSTA COM DEUSUM ESTRATAGEMA MALOGRADOLÚCIFER MOBILIZA UM QUINTA-COLUNA“O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO”LÚCIFER TENTA UMA CAMUFLAGEM RIDÍCULALÚCIFER PERDE SEUS UTENSÍLIOS E SUAS ARMASLÚCIFER OFERECE TRÊS PRESENTES GREGOSAS SERPENTES E OS QUERUBINS DO ESPAÇOLÚCIFER É PRESO POR MIL ANOSLÚCIFER ENCONTRA-SE COM UM AVATARUMA DERROTA EM PLENA VITÓRIAO LÚCIFER ANTI-EVOLUTIVOOFENSIVA TOTAL: CIÊNCIA CONTRA CONSCIÊNCIALÚCIFER – DERROTADO POR SUAS PRÓPRIAS ARMASLÚCIFER – NOSSO INIMIGO NECESSÁRIO
  • 69. HUBERTO ROHDEN VIDA E OBRANasceu na antiga região de Tubarão, hoje São Ludgero, Santa Catarina, Brasilem 1893. Fez estudos no Rio Grande do Sul. Formou-se em Ciências, Filosofiae Teologia em universidades da Europa – Innsbruck (Áustria), Valkenburg(Holanda) e Nápoles (Itália).De regresso ao Brasil, trabalhou como professor, conferencista e escritor.Publicou mais de 65 obras sobre ciência, filosofia e religião, entre as quaisvárias foram traduzidas para outras línguas, inclusive para o esperanto;algumas existem em braile, para institutos de cegos.Rohden não está filiado a nenhuma igreja, seita ou partido político. Fundou edirigiu o movimento filosófico e espiritual Alvorada.De 1945 a 1946 teve uma bolsa de estudos para pesquisas científicas, naUniversidade de Princeton, New Jersey (Estados Unidos), onde conviveu comAlbert Einstein e lançou os alicerces para o movimento de âmbito mundial daFilosofia Univérsica, tomando por base do pensamento e da vida humana aconstituição do próprio Universo, evidenciando a afinidade entre Matemática,Metafísica e Mística.Em 1946, Huberto Rohden foi convidado pela American University, deWashington, D.C., para reger as cátedras de Filosofia Universal e de ReligiõesComparadas, cargo esse que exerceu durante cinco anos.
  • 70. Durante a última Guerra Mundial foi convidado pelo Bureau of lnter-AmericanAffairs, de Washington, para fazer parte do corpo de tradutores das notícias deguerra, do inglês para o português. Ainda na American University, deWashington, fundou o Brazilian Center, centro cultural brasileiro, com o fim demanter intercâmbio cultural entre o Brasil e os Estados Unidos.Na capital dos Estados Unidos, Rohden frequentou, durante três anos, oGolden Lotus Temple, onde foi iniciado em Kriya Yôga por SwamiPremananda, diretor hindu desse ashram.Ao fim de sua permanência nos Estados Unidos, Huberto Rohden foi convidadopara fazer parte do corpo docente da nova International Christian University(ICU), de Metaka, Japão, a fim de reger as cátedras de Filosofia Universal eReligiões Comparadas; mas, por causa da guerra na Coréia, a universidadejaponesa não foi inaugurada, e Rohden regressou ao Brasil. Em São Paulo foinomeado professor de Filosofia na Universidade Mackenzie, cargo do qual nãotomou posse.Em 1952, fundou em São Paulo a Instituição Cultural e Beneficente Alvorada,onde mantinha cursos permanentes em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia,sobre Filosofia Univérsica e Filosofia do Evangelho, e dirigia Casas de RetiroEspiritual (ashrams) em diversos Estados do Brasil.Em 1969, Huberto Rohden empreendeu viagens de estudo e experiênciaespiritual pela Palestina, Egito, Índia e Nepal, realizando diversas conferênciascom grupos de yoguis na Índia.Em 1976, Rohden foi chamado a Portugal para fazer conferências sobreautoconhecimento e auto-realização. Em Lisboa fundou um setor do Centro deAuto-Realização Alvorada.Nos últimos anos, Rohden residia na capital de São Paulo, onde permaneciaalguns dias da semana escrevendo e reescrevendo seus livros, nos textosdefinitivos. Costumava passar três dias da semana no ashram, em contato coma natureza, plantando árvores, flores ou trabalhando no seu apiário-modelo.Quando estava na capital, Rohden frequentava periodicamente a editoraresponsável pela publicação de seus livros, dando-lhe orientação cultural einspiração.À zero hora do dia 8 de outubro de 1981, após longa internação em uma clínicanaturista de São Paulo, aos 87 anos, o professor Huberto Rohden partiu destemundo e do convívio de seus amigos e discípulos. Suas últimas palavras emestado consciente foram: “Eu vim para servir à Humanidade”.Rohden deixa, para as gerações futuras, um legado cultural e um exemplo defé e trabalho, somente comparados aos dos grandes homens do século XX
  • 71. RELAÇÃO DE OBRAS DO PROF. HUBERTO ROHDENCOLEÇÃO FILOSOFIA UNIVERSAL:O PENSAMENTO FILOSÓFICO DA ANTIGUIDADEA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEAO ESPÍRITO DA FILOSOFIA ORIENTALCOLEÇÃO FILOSOFIA DO EVANGELHO:FILOSOFIA CÓSMICA DO EVANGELHOO SERMÃO DA MONTANHAASSIM DIZIA O MESTREO TRIUNFO DA VIDA SOBRE A MORTEO NOSSO MESTRECOLEÇÃO FILOSOFIA DA VIDA:DE ALMA PARA ALMAÍDOLOS OU IDEAL?ESCALANDO O HIMALAIAO CAMINHO DA FELICIDADEDEUSEM ESPÍRITO E VERDADEEM COMUNHÃO COM DEUS
  • 72. COSMORAMAPORQUE SOFREMOSLÚCIFER E LÓGOSA GRANDE LIBERTAÇÃOBHAGAVAD GITA (TRADUÇÃO)SETAS PARA O INFINITOENTRE DOIS MUNDOSMINHAS VIVÊNCIAS NA PALESTINA, EGITO E ÍNDIAFILOSOFIA DA ARTEA ARTE DE CURAR PELO ESPÍRITO. AUTOR: JOEL GOLDSMITH(TRADUÇÃO)ORIENTANDO“QUE VOS PARECE DO CRISTO?”EDUCAÇÃO DO HOMEM INTEGRALDIAS DE GRANDE PAZ (TRADUÇÃO)O DRAMA MILENAR DO CRISTO E DO ANTICRISTOLUZES E SOMBRAS DA ALVORADAROTEIRO CÓSMICOA METAFÍSICA DO CRISTIANISMOA VOZ DO SILÊNCIOTAO TE CHING DE LAO-TSÉ (TRADUÇÃO)SABEDORIA DAS PARÁBOLASO QUINTO EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ (TRADUÇÃO)A NOVA HUMANIDADEA MENSAGEM VIVA DO CRISTO (OS QUATRO EVANGELHOS TRADUÇÃO)RUMO À CONSCIÊNCIA CÓSMICAO HOMEM
  • 73. ESTRATÉGIAS DE LÚCIFERO HOMEM E O UNIVERSOIMPERATIVOS DA VIDAPROFANOS E INICIADOSNOVO TESTAMENTOLAMPEJOS EVANGÉLICOSO CRISTO CÓSMICO E OS ESSÊNIOSA EXPERIÊNCIA CÓSMICACOLEÇÃO MISTÉRIOS DA NATUREZA:MARAVILHAS DO UNIVERSOALEGORIASÍSISPOR MUNDOS IGNOTOSCOLEÇÃO BIOGRAFIAS:PAULO DE TARSOAGOSTINHOPOR UM IDEAL – 2 VOLS. AUTOBIOGRAFIAMAHATMA GANDHIJESUS NAZARENOEINSTEIN – O ENIGMA DO UNIVERSOPASCALMYRIAMCOLEÇÃO OPÚSCULOS:SAÚDE E FELICIDADE PELA COSMO-MEDITAÇÃO
  • 74. CATECISMO DA FILOSOFIAASSIM DIZIA MAHATMA GANDHI (100 PENSAMENTOS)ACONTECEU ENTRE 2000 E 3000CIÊNCIA, MILAGRE E ORAÇÃO SÃO COMPATÍVEIS?CENTROS DE AUTO-REALIZAÇÃO