Huberto Rohden - Que vos Parece do Cristo

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Huberto Rohden - Que vos Parece do Cristo

  1. 1. HUBERTO ROHDEN“QUE VOS PARECE DO CRISTO?” UNIVERSALISMO
  2. 2. “QUE VOS PARECE DO CRISTO?”Este livro do filósofo e educador contemporâneo, professor HUBERTOROHDEN, totalmente reescrito e acrescido, é um dos mais importantes textosna extensa bibliografia do autor. A força de seu conteúdo nos atinge como oimpacto de um pentecostes.A obra é centrada numa das mais enigmáticas perguntas jamais feita nesteplaneta Terra: “Que Vos Parece do Cristo?”, formulada por ele mesmo aosseus discípulos.A partir da sua formulação, há quase dois mil anos, a resposta definitiva euniversal ainda não nos fora dada.Teólogos de diversas épocas têm tentado dar uma explicação a estainterrogação inquietante, mas a maioria das vezes as respostas não atingem onível metafísico da sua verdadeira significação.ROHDEN, conhecedor dos textos gregos – os mais próximos do original – , eapoiado na sua imensa cultura e conhecimento dos escritos sobre a vida doCristo, mergulha analítica e intuitivamente na gênese da pergunta até a suaresposta clara e definitiva.A linguagem da obra é concentrada, una, simples, nítida e apresentadalinearmente. Ao folhearmos a última página, uma saciedade metafísica decerteza e transbordamento nos aquieta e conforta. Sentimo-nos imensamenteenriquecidos. Agora sabemos a “saída para o futuro”.ROHDEN alerta a seus leitores: “As páginas deste livro são dedicadas àcristicidade individual de alguns, e não ao cristianismo social de muitos. Osmuitos condenarão este livro como heresia, e têm razão; mas é precisamenteeste caráter herético a maior prova da sua autenticidade crística.A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade damensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas éuma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, comodizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza.É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro.Feliz daquele que ler este livro.
  3. 3. E mais feliz ainda é aquele que puder viver e vivenciar esta experiênciacrística.“Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do queestas”. Eis aí implicitamente a resposta suficiente e total. Sim, nós estamosnele e ele está em nós. Tudo é possível.Cristo – o Caminho, a Verdade e a Vida.
  4. 4. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo modernocriar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetizaçãoe dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  5. 5. CRISTIANISMO – CRISTICIDADEAntes de tudo, prevenimos o leitor que este livro não pretende justificar algunsdos numerosos tipos de cristianismo que, há diversos séculos, existem nospaíses ocidentais daquém e dalém-mar.Damos plena razão a Nietzsche que, no princípio deste século, escreveu: “Se oCristo voltasse ao mundo em nossos dias, a primeira declaração que faria aomundo cristão seria esta: Povos cristãos, sabei que eu não sou cristão”.Mahatma Gandhi respondia a todos os missionários cristãos que o queriamconverter: “Aceito o Cristo e seu Evangelho, não aceito o vosso cristianismo”.Albert Schweitzer, teólogo cristão e filho de um ministro evangélico, escreveu:“Nós injetamos nos homens o soro da nossa teologia, e quem é vacinado como nosso cristianismo está imunizado contra o espírito do Cristo.Abraham Lincoln, um dos maiores presidentes dos Estados Unidos, nunca sefiliou a nenhuma das muitas igrejas cristãs que há nesse país, porque estava àespera da igreja do Cristo.Por que esta discrepância entre Cristo e cristianismo, da parte de pessoasespirituais e sinceras?Porque é impossível identificar o Cristo com alguma organização religiosa;qualquer tentativa destas é necessariamente uma deturpação e uma falência.Toda a organização é produto do ego, e esse ego é, por sua natureza,egocêntrico, e por isso anti-crístico.A única coisa que pode haver é uma experiência crística individual, masnunca uma organização cristã social. Diversas pessoas têm tido e têmexperiência crística; e onde há muita plenitude há necessariamente umtransbordamento. Se houvesse muitos homens individuais com genuínaexperiência crística, o mundo social seria grandemente beneficiado por essaplenitude individual.A cristicidade de muitos produziria, por via indireta, uma espécie decristianismo social por indução.Mas o que é impossível e contraproducente é que o espírito do Cristo sejaexpresso por uma organização qualquer, como o ocidente tem tentadoinutilmente.
  6. 6. Disto sabia o Cristo quando preveniu os seus conterrâneos, dizendo: “O reinodos céus não vem com observâncias, nem se pode dizer ei-lo aqui, ei-lo acolá!O reino dos céus está dentro de vós”.Existem no Brasil três tipos principais de cristianismo: católico, protestante eespírita. Será que alguma dessas organizações certamente sinceras, pode seridentificada com a genuína mensagem do Cristo? Teria o Cristo feito consistir agrandiosa mensagem cósmica do seu Evangelho em confissão, comunhão emissa? Ou em ler a Bíblia de capa a capa e crer no sangue redentor de Jesus?Ou ainda em caridade e crença em sucessivas reencarnações? Se assimfosse, seria Jesus um hábil codificador de preceitos e proibições, mas nuncaesse gênio cósmico que foi o Cristo Real da história.Radha Krishnan, antigo presidente da Índia, escreveu: “A religião dahumanidade do futuro será a mística”.A mística é uma experiência estritamente individual, que, quando organizadasocialmente, deixa de existir, assim como vida encaixotada não é vida, luzengarrafada não é luz. É da íntima essência da experiência mística serindividual, o que todavia não impede que essa verticalidade individual sedesdobre em horizontalidade social; mas esse desdobramento outransbordamento só acontece quando a experiência vertical atinge o zênite dasua plenitude.O nosso mundo conturbado não pode ser sanado por nenhuma novaorganização, religiosa ou civil; somente a experiência mística de muitos podebeneficiar realmente a humanidade.Toda a mística verdadeira e plena é irresistívelmente transbordante e difusora;se não for isto, não passa de misticismo, mas não é uma mística dinâmica.O Cristo nunca organizou nada, nem no âmbito religioso da Sinagoga de Israel,nem no setor civil da política do Império Romano. A sua atuação foiexclusivamente indireta, por espontâneo transbordamento da sua própriaplenitude, porque, como diz Paulo de Tarso, nele habitava corporalmente todaa plenitude da Divindade.Durante quase três séculos, do ano 33 até 313, a cristandade das catacumbasvivia dessa cristicidade mística, sem nenhuma organização social. E foi este operíodo mais glorioso do mundo cristão, o período da verticalidade mística dascatacumbas, cuja única saída era para o martírio no Coliseu.Sabemos que no ano 33, foi Jesus entregue à morte pelo beijo de um de seusdiscípulos – mas muitos ignoram que o mesmo Cristo, no ano 313, foiassassinado pelo beijo de outro discípulo dele, o primeiro imperador cristãoConstantino Magno. O beijo de Judas matou o corpo de Jesus – o beijo deConstantino matou o espírito do Cristo.
  7. 7. Judas versus Jesus.Constantino versus Cristo.O beijo com que Constantino Magno traiu o Cristo foi o Edito de Milão, do ano313, que pôs termo a três séculos de perseguição – mas com este benefício dediscípulo preludiou séculos de malefícios de traidor: convidou os discípulos doCristo a se integrarem na organização do Império Romano; fez do cristianismoa religião oficial do Estado, uma religião estatal, defendida mediante armas,política e dinheiro – armas para matar os inimigos, política para enganar osamigos, dinheiro para comprar e vender consciências.O Edito de Milão foi o fim de três séculos de cristicidade – e o princípio demuitos séculos de cristianismo, social, político, militar.O cristianismo de Constantino continua até hoje no mundo oficial, das igrejas ede alguns governos.Paralelamente, à sombra das catacumbas do silêncio e da solidão, continua emalgumas almas a cristicidade dos místicos, cujos nomes não constam e cujasestátuas não figuram em praças e salões. ***As páginas deste livro são dedicadas à cristicidade individual de alguns, e nãoao cristianismo social de muitos. Os muitos condenarão este livro comoheresia, e têm razão; mas é precisamente este caráter herético a maior provada sua autenticidade crística.É sabido que a Europa moderna, sobretudo França, Alemanha, Inglaterra,abandonou praticamente o cristianismo tradicional das igrejas. Por isto osteólogos e missionários se voltam para os povos subdesenvolvidos e semi-analfabetos da América Latina, onde ainda é possível a aceitação docristianismo teológico, como no tempo do Império Romano, quando essecristianismo surgiu. Os países do Oriente não aceitarão jamais o nossocristianismo em sua forma eclesiástica, porque a cultura filosófica milenar doOriente é incompatível com as nossas teologias; até hoje, após séculos deesforços missionários, não há 1% (um por cento) de cristãos nos paísesasiáticos.A verdadeira mensagem do Cristo é perfeitamente compatível com a mais altaevolução cultural da humanidade – mas não com as nossas teologias cristãs.A única chance de cristificar a humanidade é voltarmos à cristicidade damensagem real do Cristo, que não está condicionada a tempo e espaço, mas éuma mensagem tipicamente extra-temporal e extra-espacial, porque, comodizia Tertuliano, toda a alma humana é crística por sua própria natureza.
  8. 8. É neste sentido crístico que lançamos as páginas deste livro. ***Com isto não condenamos as organizações eclesiásticas ou religiosas queaparecem com o nome de cristianismo. Sabemos que um grupo numeroso depessoas necessita de uma religião padronizada, que eles passam encamparcomo norma moral. Essa religião padronizada pode ser considerada como umaespécie de corpo, mas não como a alma do cristianismo, que é o próprioEvangelho do Cristo.Sendo a maioria das organizações religiosas constituídas de massas de poucaevolução, devem os membros delas crer o que podem crer, sabendo, porém,que a verdadeira mensagem do Cristo é algo infinitamente mais sublime,consistindo na realização do Reino de Deus na vida diária.Enquanto as crenças e práticas externas não impedirem a realização do Reinode Deus, podem elas ser toleradas; mas, se alguém identificar com elas a almada mensagem do Cristo, constituem impedimento para a realização do Reinode Deus sobre a face da terra.
  9. 9. O MISTÉRIO DA ETERNA FASCINAÇÃO DO CRISTOLivros sem conta se têm escrito sobre o Cristo.Amor sem medida se tem jurado ao Cristo.E, no entanto, eternamente enigmático é o motivo dessa fascinação do Cristo.Tentaremos desvendar cautelosamente o porquê desse fascínio.Todo o homem é inconscientemente o que o Cristo é conscientemente – e oque nós somos potencialmente.A fascinação que sentimos em face do Cristo é a visão do nosso próprio Eu, sefosse plenamente realizado.Esse Eu do Cristo interno, sempre realizável e sempre realizando, e jamaisrealizado...Fascina-nos o próprio ego humano na visão longínqua do Eu crístico.Fascina-nos a planta dormente na semente.Sentimos o doloroso anseio de sermos explicitamente o que somos apenasimplicitamente.Contemplamos o nosso “sopro divino” embrionário na adultez da “imagem esemelhança de Deus”.Vislumbramos o que poderíamos ser – e ainda não somos.“Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maiores do queestas.”Como nos fascinam estas palavras!Soam como sinos a tanger em praias longínquas.Como convites para uma solenidade transcendental.Como enlevos de amor mesclados de dor.Como uma alvorada de luz num ocaso de trevas.O nosso Cristo-amor é um auto-amor em outra dimensão.
  10. 10. É amar o nosso Cristo interno no Cristo eterno.Todo o auto-amor, que parece alo-amor, é um Teo-amor.Se nunca ninguém se realizara plenamente, como poderíamos nós ansiar pornossa auto-realização?Agora vislumbramos em espelho e enigma o que esperamos contemplar face aface.Toda a fascinação do Cristo é uma auto-fascinação em ínfima potência.É uma resposta à eterna pergunta: Que é o homem?
  11. 11. QUE É O CRISTO?A pergunta que serve de título a este livro foi feita, há quase 2000 anos, porJesus aos chefes da Sinagoga de Israel. E eles responderam que o Cristo erafilho de David, isto é, um descendente do rei de Israel, pai de Salomão.Jesus não aceita a resposta, porque, de fato, o Cristo não é filho de David.Esta confusão entre Cristo e Jesus é, pois, antiquíssima, e continua até hoje.Que é o Cristo, o Ungido, que os antigos hebreus chamavam Messias, oEnviado?O quarto Evangelho designa o Cristo com a palavra Logos, começando o textocom estas palavras:“No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”.A palavra grega Logos é muito anterior à Era Cristã. Os filósofos antigos deAlexandria e de Atenas, sobretudo, Heráclito de Éfeso, designavam com Logoso espírito de Deus, manifestado no Universo. Logos seria, pois, o Deusimanente, em oposição à Divindade transcendente, que não é objeto de nossoconhecimento.A Vulgata Latina traduz Logos por Verbo: “No princípio era o Verbo...”.Logos, Verbo, Cristo são idênticos e designam a atuação da DivindadeCreadora, a manifestação individual da Divindade universal.Neste sentido, o Cristo é Deus, mas, não é a Divindade. E neste sentido diz eleaos HOMENS: “Vós sois deuses”; os homens são manifestações individuais daDivindade Universal. A primeira e mais perfeita das manifestações daDivindade Universal, no Universo, é o Cristo, o Verbo, o Logos, que Paulo deTarso chama acertadamente “o primogênito de todas as creaturas” doUniverso.O Cristo é anterior à creação do mundo material. Ele é, “o Primogênito de todasas creaturas”. O Cristo não é creatura humana, mas a mais antigaindividualidade cósmica, que, antes do princípio do mundo, emanou daDivindade Universal.O Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que Jesus designa com o nome Pai:“Eu e o pai somos um, mas o Pai é maior do que eu”.
  12. 12. Deus, na linguagem de Jesus significa uma emanação individual da Divindadeuniversal.A confusão tradicional entre Deus e Divindade tem dado ensejo a intermináveiscontrovérsias entre os teólogos. Mas o texto do Evangelho é claro: O Cristoafirmou ser Deus, mas nunca afirmou ser ele a própria Divindade.O Gênesis de Moisés principia com as palavras: “No princípio crearam osElohim o céu e a terra”.O quarto Evangelho, de João, abre com palavras semelhantes: “No princípioera o Logos... por ele foram feitas todas as coisas”.Parece, pois, que as Potências Creadoras (em hebráico Elohim) são idênticasao Logos, pelo qual foram creadas todas as coisas.Elohim, Logos, Verbo, Cristo – são nomes vários que designam a creaturacósmica que, antes do mundo material, emanou da Divindade transcendental.A filosofia oriental chama a Divindade universal Brahman, e dá o nome deBrahma à mais antiga individuação da Divindade.Brahma seria igual a Deus, Cristo, Logos, Verbo.Não existe em todo o Universo uma única creatura definitivamente realizada eincapaz de se realizar ulteriormente. Toda e qualquer creatura, mesmoBrahma, ou Cristo, são creaturas altamente realizadas, mas semprerealizáveis; são, por assim dizer, sinfonias inacabadas. Toda e qualquercreatura, mesmo a mais perfeita creatura cósmica, é ulteriormente evolvível ourealizável. A vida eterna não é uma chegada, uma parada, uma meta final – éuma incessante jornada ou evolução rumo ao Infinito, sem jamais coincidir como Infinito. Todo o finito, diz a matemática, em demanda do Infinito, está semprea uma distância infinita.Panta rhei, tudo flui, diziam os filósofos antigos; tudo é relativo, escreveEinstein em nosso século.A Divindade, o Infinito, o Absoluto, não é objeto de nosso conhecimento. Tudoque sabemos se refere ao Relativo, ao Fluídico, ao Evolvível, que está emincessante evolução.Referem os livros sacros que Cristo, a mais antiga creatura cósmica, seencarnou na pessoa humana de Jesus.Sendo que esta descida do Cristo cósmico às baixadas do planeta terra, é umfenômeno incompreensível, têm os homens feito inúmeras conjeturas sobre oporquê dessa encarnação do Cristo. E ele mesmo, na pessoa de Jesus, nuncadisse claramente da finalidade da sua homificação.
  13. 13. Entretanto, sendo o Cristo o maior dos avatares do Universo conhecido,podemos interpretar a encarnação dele pelas normas dos outros avatares, deque passaremos a ocupar-nos num dos capítulos deste livro.
  14. 14. A ANTIDROMIA PARADOXAL DOS AVATARESA palavra sânscrita avatara quer dizer “descido”, e designa uma entidade deelevada evolução que resolveu descer da sua altura às baixadas de regiõesinferiores.Esta descida voluntária do avatar faz parte do drama da sua evoluçãoascensional.Esta contra-corrida, ou antidromia, representa um elo na longa cadeia da suaauto-realização, como diríamos em termos modernos. Quando um avatar atinge grande nível de evolução e libertação, tem ele odesejo de descer externamente às baixadas a fim de realizar a subida amaiores alturas, na escala da sua incessante auto-realização.Todos os avatares sabem, pela voz da sua consciência, que não há evoluçãosem resistência, sem luta, sem sofrimento. E, como nas regiões superiores doespírito não há suficiente resistência e sofrimento, resolve o avatar descer aregiões inferiores da matéria em busca da necessária resistência.Esta antidromia parece ao inexperiente uma espécie de masoquismo. Maspara o avatar o sofrimento não é um fim, mas sim um meio para um fim maissublime. O avatar procura resistência e sofrimento a fim de prosseguir na linhaascensional da sua evolução indefinida.Este desejo de ulterior evolução parece egoísmo aos ignorantes, mas é oimperativo duma realização superior para o avatar, que já superou todos osestágios do egoísmo ilusório e trata exclusivamente da sua auto-realização,que é a lei de todo o Universo. As leis cósmicas não conhecem estagnação,nem involução; mas incessante evolução.Auto-realização é santidade, é auto-afirmação, é amor divino na creaturaevolvível.Quanto mais liberto se sente o avatar tanto mais desejo tem ele de seescravizar voluntariamente por amor.Por amor de que?Muitos pensam que o amor do avatar vise os seres inferiores no meio dosquais ele encarna. Mas a verdade é que o amor do avatar visa sobretudo opróprio avatar e sua evolução superior. Como já dissemos, não há nenhum
  15. 15. resquício de egoísmo nesse auto-amor, que é supremo imperativo cósmico edivino: sede perfeitos, como perfeito é vosso pai.Entretanto, apesar de o amor do avatar ser um auto-amor, indiretamente é eletambém um alo-amor, porque redunda em benefício dos seres inferiores quelhe causam resistência e sofrimento. Segundo leis eternas, toda a plenitudetransborda infalivelmente. Quanto mais o avatar se auto-plenifica, tanto mais asua plenitude transborda em beneficio de outros seres.“Da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça,” diz o texto sacrocom referência ao maior dos avatares.Esses seres superiores que realizam a sua própria plenitude são os benfeitoresignotos de outros seres. Não é possível ser realmente bom sem fazer bem aoutros seres devidamente receptivos.É esta a maravilhosa simbiose do Universo.
  16. 16. O QUE PAULO DE TARSO PENSAVA DO CRISTOPaulo de Tarso tem sido acusado de ter introduzido no cristianismo um Cristodiferente de Jesus dos Evangelhos. De fato, ele fala mais do “Cristo, Reiimortal dos séculos” do que do Jesus, o carpinteiro de Nazaré, que ele não viuem carne. Ele se gloria de ser apóstolo, não do “Jesus carnal”, mas do Cristoimortal, que lhe apareceu às portas de Damasco, e o transformou totalmente.Dizem alguns teólogos que Paulo transformou o humilde Jesus da Galiléia numherói e redentor do mundo, à maneira dos super-homens dos escritoresgregos.Sobretudo nas Epístolas aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses, exaltaPaulo as glórias do Cristo cósmico, que bem pouca semelhança tem com osingelo Jesus dos evangelistas. “No Cristo converge como na cabeça tudoquanto existe no céu e na terra”. O Cristo é “superior a todos os principados,potestades, virtudes e dominações, e que outro nome haja, não só nestemundo, mas também no outro – ele, que de tudo enche o Universo inteiro”.Estas palavras lembram o início da Epístola aos Filipenses, em que Paulocanta o Cristo cósmico, que estava na glória de Deus, e não julgou deveraferrar-se a essa divina igualdade, mas esvaziou-se dos esplendores divinos erevestiu-se da natureza humana, tornando-se homem, servo, vítima,crucificado. E por isto Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome queestá acima de todos os nomes, de maneira que, em nome do Cristo, se dobramtodos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres, e todosconfessam que ele é o Senhor. Nestas palavras, como já dissemos, Paulo descreve a passagem do Cristopré-humano para um super-Cristo pós-humano, tornando-se maior depois daencarnação do que era antes. A Vulgata Latina diz que Deus o exaltou, mas ooriginal grego de Paulo diz enfaticamente que Deus o super-exaltou, ou oexaltou soberanamente, tornando-se ele maior do que fora. Os teólogosdogmáticos não admitem uma evolução no Cristo, porque identificam o Cristocom a própria Divindade, em que não há evolução; mas, se o Cristo é o“primogênito de todas as creaturas”, na expressão de Paulo, é possível umaevolução. Aos colossenses, que identificavam o Cristo com os anjos superiores, escrevePaulo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de todas as creaturas,porque nele foram creadas todas as coisas, no céu e na terra, visíveis e
  17. 17. invisíveis – tudo foi creado por ele e para ele. Ele é anterior ao Universo, e neleo Universo subsiste. Ele ocupa a primazia em todas as coisas, e nele aprouveresidir toda a plenitude”. A plenitude (pléroma) é, para Paulo, a Divindade, emoposição à vacuidade (kénoma). Para Paulo, o Cristo é a primeira e maisperfeita emanação individual da Divindade Universal, anterior a qualquer outracreatura, sendo ele a primeira de todas as creaturas cósmicas, o Alfa eÔmega, no dizer de Teilhard de Chardin, o princípio e o fim, na linguagem doApocalipse.O Cristo, é, segundo João, o “Unigênito do Pai”, a creação única da Divindade,o único Teo-gênito, ao passo que nós e todas as outras creaturas somosCristo-gênitos, creados pelo Cristo, como diz o autor do quarto Evangelho:“Por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito foi feito sem ele”.A confusão que certos teólogos fazem entre Deus e Divindade, tem dado azoa controvérsias seculares e milenares. Segundo os livros sacros, sobretudo navisão de João e de Paulo, o Cristo é Deus, mas não é a Divindade, que elechama “Pai”, que está no Cristo e no qual o Cristo está, mas “o Pai é maior doque eu”. Deus, à luz dos livros sacros é a mais alta emanação individual daDivindade Universal, portanto creatura da Divindade, o “Primogênito de todasas creaturas”.Em face disto, compreende-se que Pedro, numa das suas epístolas previna oscristãos daquele tempo, dizendo que, nos escritos do irmão Paulo, há certaspassagens difíceis que os ignorantes pervertem para sua própria perdição. Defato, para Pedro e os outros pescadores galileus, deve ter sido difícil ter umavisão exata do Cristo cósmico do erudito ex-rabino e iluminado vidente doCristo-Logos. Uma intuição cósmica nunca é exprimível em termos de análiseintelectual. Tanto em nossos dias como naquele tempo persiste esta mesmadificuldade. Ainda hoje há filósofos e teólogos que consideram Paulo de Tarsocomo um falsificador dos Evangelhos, como um contrabandista que tenhaintroduzido no cristianismo um Cristo Cósmico ao lado do singelo Jesusnazareno. Entretanto, o Cristo de Paulo é o mesmo Nazareno descrito pelosEvangelistas, mas visualizado da excelsa perspectiva do Logos pré-histórico,que também João, o místico, descreve no início do seu Evangelho: “Noprincípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”.O Cristo cósmico, pré-humano, e o Jesus cosmificado pelo Cristo, pós-humano– é esta a grandiosa síntese de Paulo de Tarso, o Alfa e Ômega da suavivência e de todas as suas epístolas.
  18. 18. O CRISTO À LUZ DO QUINTO EVANGELHOO Quinto Evangelho, do Apóstolo Tomé, recentemente descoberto no Egito,não é uma biografia de Jesus, como os outros Evangelhos; refere apenas 114aforismos do Mestre.Esses aforismos giram, quase todos, em torno da idéia central do Reino deDeus, que está no homem e que deve manifestar-se fora dele, na sociedade eno mundo inteiro. Há entre esses pequenos capítulos do Quinto Evangelho, alguns tãoprofundamente místicos que não podem ser analisados intelectualmente, massim intuídos espiritualmente. Os aforismos 13 e 13-A referem o seguinte:“Disse Jesus a seus discípulos: Comparai-me e dizei-me com quem me pareçoeu.Respondeu Simão Pedro: Tu és semelhante a um anjo justo.Disse Mateus: Tu és semelhante e um homem sábio e compreensivo.Respondeu Tomé: Mestre, minha boca é incapaz de dizer a quem tu éssemelhante.Replicou-lhe Jesus: Eu não sou teu Mestre, porque tu bebeste da fonteborbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.Então levou Jesus Tomé à parte e afastou-se com ele; e falou com ele trêspalavras. E, quando Tomé voltou a ter com seus companheiros, esses lheperguntaram: que foi que Jesus te disse? Tomé lhes respondeu: Se eu vosdissesse uma só das palavras que ele me disse, vós havíeis de apedrejar-me –e das pedras romperia fogo para vos incendiar”.O sentido profundo destas palavras não pode ser falado, mas tão-somentecalado. E é por esta razão que Tomé preferiu o silêncio, quando o Mestre lhepediu opinião sobre ele.O profundo silêncio de Tomé é a mais eloquente declaração da grandezaindizível do Cristo; abriu os canais para o influxo da intuição espiritual.A última verdade sobre o Cristo não pode ser dita nem pensada. O que sepode pensar, já está adulterado; e, se o pensado for falado, há uma segunda
  19. 19. deturpação; e se esse pensado e falado for escrito, completa-se a terceirafalsificação da verdade.As grandes verdades só podem ser recebidas em total silêncio, mensagem daprópria alma do Universo. Por isto, Tomé preferiu calar-se duas vezes: nãodeu sua opinião sobre o Cristo, nem revelou aos outros o que o Mestre lhedisse quando o levou à parte e lhe falou a sós. Quem quer saber realmente o que o Cristo é, deve calar-se em tão profundosilêncio receptivo que a cosmo-plenitude possa plenificar a sua ego-vacuidade.Podemos apenas soletrar o abc sobre o Cristo, mas, para saber e saborearrealmente o que ele é, temos de entrar na Universalidade Cósmica do silêncio.O que há de mais estranho nessa passagem são as palavras que Jesus dissea Tomé: “Eu não sou teu Mestre”, porque já ultrapassaste o Jesus humano eentraste na visão do Cristo divino; bebeste do cálice da sabedoria suprema, epor isto preferiste calar-te.Depois disto, o Mestre levou Tomé à parte e lhe revelou silenciosamente aplenitude do Cristo, revelação tão transcendental que Tomé não se atreveu acomunicá-la a seus colegas, que o teriam considerado louco e o teriamapedrejado como blasfemador; mas das próprias pedras teria saído fogo emtestemunho da verdade.Esta revelação anônima e inefável que o Mestre fez a Tomé é um dos pontosculminantes do Evangelho. À pergunta “que vos parece do Cristo?” opõe Toméo silencio absoluto, que é a melhor resposta.
  20. 20. “CRISTO, O PRIMOGÊNITO DE TODAS AS CREATURAS”Com estas palavras declara Paulo de Tarso que o Cristo cósmico, o Verbo, oLogos, é creatura – mas não nega que ele é Deus. Ele é a primeira de todas ascreaturas – cósmicas, mão humanas – que emanaram da eterna Divindade. Elenão é essa Divindade, tanto assim que o próprio Cristo afirma que a Divindade,que ele chama “Pai”, é maior do que ele.Há quase 2000 anos que filósofos e teólogos discutem se o Cristo é Deus ounão. E não chegaram a um acordo.Por que não?Porque confundem Deus com Divindade.Os concílios definiram que o Cristo é Deus e excomungaram a todos os que onegam; mas não estabeleceram diferença nítida entre Deus e a Divindade,tentando evitar o politeísmo mediante o recurso à “Trindade”, do qual o Cristoseria a segunda pessoa.O enigma não existe na realidade, e os livros sacros estabelecemcompatibilidade entre Deus e creatura. O Cristo é Deus e é creatura. Nem oCristo e seus discípulos afirmaram que o Cristo era a Divindade. O Cristo negaexplicitamente a sua identidade com o “Pai” (Divindade): “Eu e o Pai somosum, o Pai está em mim, e eu estou no Pai, mas o Pai é maior do que eu”.Se ele não tivesse dito o Pai é maior do que eu, poderíamos pensar que elese tivesse igualado à Divindade. Mas ele nega expressamente a sua identidadecom a Divindade, apesar de se dizer Deus.Façamos uma comparação ilustrativa: um ser vivo pode dizer; eu estou na vidae a vida está em mim, mas eu não sou a vida, sou apenas um vivo; a vida éinfinitamente maior do que eu.Deus é uma emanação da Divindade, mas não é a Divindade.A dificuldade dos teólogos nasce do fato de eles professaram o monoteísmomosaico, ao passo que o Cristo fala em termos de monismo cósmico. OEvangelho é essencialmente monista, como, aliás, são todos os grandesgênios e místicos; todos os finitos estão no Infinito, mas nenhum finito, nemmesmo a soma total dos finitos, é o Infinito. No monismo não há cabimentopara uma Divindade pessoal, porque toda a personalidade é necessariamentefinita, ao passo que e Divindade é infinita e impessoal. Por isto, ela é
  21. 21. infinitamente além de qualquer personalidade. Um Deus pessoal não pode sera Divindade Infinita.A lógica dos livros sacros é absoluta, ao passo que os teólogos sofrem de umdeplorável ilogismo, base de todas as confusões sobre o Cristo.Toda a cristologia dos livros inspirados se torna compreensível, quando se faznítida distinção entre Deus e Divindade.Há milênios que a sapiência da filosofia oriental faz essa distinção: Brahman éa Divindade, ao passo que Brahma, Vishnu e Shiva são Deus, emanaçõesindividuais da Divindade Universal.Quando Jesus, citando uma passagem da Bíblia do Antigo Testamento, diz aosJudeus: “Vóis sois deuses”, toma ele a palavra Deus no sentido de creatura.O Cristo, segundo João, é o “Unigênito do Pai” (da Divindade); é o Deus-creatura, o Deus-gênito. Segundo Paulo de Tarso, é o Cristo o Primogênito detodas as creaturas, o primeiro Deus ou emanação oriunda da Divindade. OCristo-Lógos é o único “gênito”, ou filho, emanação da eterna Divindade. Asoutras creaturas, inclusive os homens, são Cristo-gênitas, mas não diretamenteTeo-gênitas; o Teo-gênito é um só, os Cristo-gênitos são muitos.O texto grego do quarto Evangelho favorece esta explicação, quando diz: “Noprincípio era o Logos (Cristo, Verbo) e o Logos estava com a Divindade, e oLogos era Deus”. Quando o grego usa “Theós” sem artigo, devemos entender,um Deus, quando usa “ho-Theós”, com artigo definido, “devemos entender aúnica Divindade”.
  22. 22. É O CRISTO O FILHO UNIGÊNITO DO PAI?Toda a cristandade está habituada, há milhares de anos, a dizer e repetir que oCristo é o “Filho Unigênito do Pai”, como diz João.Acima de tudo, devemos lembrar, que a palavra pai equivale a “Divindade”, quenada tem que ver com uma pessoa, como é usado na língua tradicional.Podemos dizer que o Cristo, o Verbo, o Logos, era “Filho” da Divindade?A palavra “Filho”, no sentido comum, supõe um Pai e uma Mãe; ninguém é filhosó de um pai, ou só de uma mãe. A bipolaridade Universal da natureza viva sóconhece filho como produto de um pai e de uma mãe.Mas, na Divindade não há pai nem mãe, nem doador nem receptora, nemdativo nem receptivo, nem positivo nem negativo. A Divindade é absolutamenteneutra, embora esse neutro contenha implicitamente o pólo positivo e o pólonegativo, o doador e o receptor.A expressão “filho” é um termo antropomórfico derivado do costume de nós sóconhecermos filho como produto sintético de pai e mãe.Nesse sentido, o Cristo não é filho. Na Divindade não há nem gerador nemgeradora, não há pai nem mãe.Quando o Uno da Essência se manifesta no Verso da Existência, temos umaemanação, um eflúvio, um efluxo, isto é, uma manifestação parcial, finita, daDivindade total, Infinita.Se dermos ao Uno da Divindade o nome de Essência, então o Verso dacreaturidade é uma Existência, uma ex-sistência, algo colocado para fora, ourevelado, manifestado. Em caso algum, pode essa existência ser umarevelação total da Essência, nem mesmo uma divisão ou desmembramento daEssência. A Essência, como pura qualidade, se manifesta pela Existênciaquantitativa, sem nada perder da sua Essência qualitativa. A soma total do verso emanado do Uno em nada afeta a inteireza outotalidade do Uno.Quando um pensador emite pensamentos, esses não diminuem o pensador,nem a soma total dos pensamentos emitidos é o pensador emissor – istosuposto que o emissor seja um finito em sua essência.
  23. 23. Quando uma quantidade emite quantidades, ela é diminuída – assim comouma fogueira é diminuída na razão direta das centelhas emitidas. Mas, quandoa Essência qualitativa emana ou emite existências quantitativas, ela não éafetada por essas emanações quantitativas.O Cristo cósmico, de que fala o quarto Evangelho, é a primeira e mais perfeitaemanação da Divindade, a mais perfeita existência emanada da Essência.Isto, todavia, não significa que o Cristo seja infinitamente e absolutamenteperfeito, porque nenhuma existência pode ser de absoluta perfeição; se assimfosse a existência emitida seria idêntica à Essência emissora. Uma creaturaabsolutamente perfeita é um conceito intrinsecamente contraditório, como umcírculo quadrado.Quando Paulo de Tarso diz que o Cristo é o primogênito de todas as creaturas,supõe ele que o Cristo seja creatura e não o Creador, e toda a creatura éevolvível, de perfeição elástica, aumentável. Nenhuma creatura pode coincidircom o Creador.Crear é a manifestação parcial da Essência em forma de uma existência – aopasso que criar seria a transição de uma existência em outra existência.De Creador à creatura só existe uma relação de crear.De creatura à creatura existe uma relação da criação, ou seja, de evolução.Crear é receber da Essência uma existência – a creação vem do Todo, daEssência, ainda que do Nada da Existência. Pela creação, o Nada daExistência passa a ser o algo da existência.A creação não aumenta a Realidade – manifesta apenas a Realidade emfacticidades.Por outro lado, a des-creação, ou aniquilamento da existência, não implica emnenhuma diminuição da Realidade, que é sempre Infinita, com ou semfacticidades.Salomão diz que a sabedoria de Deus brinca todos os dias, brincando sobretoda a redondeza da terra.E a filosofia oriental afirma que Brahman, a Divindade, faz lila, ou bailado, commaya, a natureza.A creação é pois uma espécie de brinquedo, ou bailado, que a EssênciaInfinita faz com as existências finitas. Brincar, bailar, parecem indicar leveza,espontaneidade, serenidade. A creação é um ato livre da Divindade. Mas, naDivindade, livre e necessário não são atos contrários, e sim complementares,
  24. 24. de maneira que poderíamos dizer que a Divindade crea livremente enecessariamente as creaturas.No infinito coincidem todas as linhas paralelas finitas num ponto indivisível. NoInfinito da Divindade há uma liberdade necessária, e uma necessidade livre.Aqui termina toda a nossa análise mental, e começa a intuição cósmica. Aintuição cósmica vê perfeita logicidade na liberdade necessária e nanecessidade livre, como já dizia, no século XVII o exímio intuitivo Spinoza.O Cristo é a mais perfeita emanação da Divindade – uma perfeiçãoindefinidamente perfectível, como faz ver Paulo de Tarso, na Epístola aosFilipenses.Segundo o quarto Evangelho, o mundo material é uma creação do Cristo, etambém esta creação se acha em permanente estado de evolução. A indefinidaevolvibilidade de todas as creaturas, telúricas ou cósmicas, faz lembrar o fluxoperpétuo de Heráclito de Éfeso – ou a teoria da relatividade de Einstein. Todosos finitos, todas as creaturas, são antes um devir do que um ser, antes umprocesso do que um estado. O Uno do Ser, manifestado no Verso do dervir, éque se chama Universo, a unidade na diversidade, o Infinito revelado comofinito.A mais alta emanação da Divindade Infinita é o Cristo finito e evolvível.Na Era Eletrônica e Atômica em que vivemos, é mister usar na metafísica amesma acribia que a ciência usa na física. A clareza do pensamento semanifesta na exatidão das palavras.Hoje em dia, deveríamos dizer que o Cristo é a primeira e mais perfeitaemanação da Divindade Universal em forma de creatura individual. Estaemanação cósmica se tornou materialmente perceptível na pessoa humana deJesus de Nazaré.Embora o Cristo e Jesus estejam inseparavelmente unidos para sempre, não élógico identificar simplesmente Jesus com o Cristo.Quando o homem, em horas de profunda cosmo-consciência, intue aRealidade para além de todas as facticidades, então tem ele a revelação exata,embora impensável e indizível, do Universo, da Essência Uma revelada emexistências várias – do Cristo cósmico humanado – e do Jesus humanocosmificado.
  25. 25. É O CRISTO O CREADOR DO MUNDO?Falando do Verbo, do Cristo-Logos, diz o quarto Evangelho que “por ele foramfeitas todas as coisas, e nada do que foi feito, foi feito sem ele ”.Com isto declara o evangelista João que o Cristo é o Creador do Universo.Na última ceia, despede-se Jesus dos seus discípulos e se dirige ao Pai,dizendo: “Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha em ti, antes que omundo fosse feito”.Com isto, ao que parece, refere-se ele à sua existência cósmica anterior àcreação do Universo material, realizada por ele. Parece, dizem alguns, que acreação do mundo material diminuiu a glória do Creador Cristo, e ele reentraagora no esplendor da sua glória pré-mundial.A creação dos mundos, diz a filosofia oriental, é o “sacrifício cósmico” deBrahman. Brahman, em sânscrito, corresponde à Divindade Universal,absoluta, ao passo que Brahma, corresponde ao Deus individual, ao Cristocreador. Brahman como tal é a Divindade neutra, a grande Tese, ainda nãobipolarizada nas antíteses positiva e negativa. Com a creação material principiaa bipolaridade, base de toda a evolução do Universo.Segundo a filosofia oriental, o Creador é Brahma, Deus, mas não Brahman, aDivindade. A Divindade é o Ser, Deus é Agir.No Gênesis de Moisés, aparecem os Elohim, as Potências Creadoras, comoautores do Universo: “No princípio crearam os Elohim o céu e a terra”.Brahma, Logos, Elohim, podem ser identificados, designando o princípio doAgir, enquanto Brahman, a Divindade, Yahveh, designam o princípio do SER.A palavra Elohim, que aparece nos primeiros capítulos do Gênesis hebraico,em vez de Yahveh, pode ser etimologicamente identificado com Logos, palavragrega para “Verbo” ou Cristo.Brahma, Lógos, Elohim significam, pois, o Deus-Agir concreto, a imanência daessência na existência, o aspecto concreto da Divindade abstrata do puro Ser.A Divindade transcendente no seu Ser não é objeto do nosso conhecer.O Uno da Divindade Universal abstrata como Ser revela-se pelo Deus concretodo Agir, e assim é por nós cognoscível.
  26. 26. O Cristo, é, pois, o “Teo-gênito, o filho da Divindade”, ao passo que nós e omundo somos Cristo-gênitos, e não diretamente Teo-gênitos. Em últimaanálise, é claro, tudo é Teo-gênito, nascido da Divindade. Do Uno do Absoluto,do Infinito, nasce todo o Verso dos relativos, dos finitos. O Uni-verso é oCreador e as creaturas.O Evangelho, depois de dizer que o Cristo-Logos é o Creador do mundoprossegue:“Nele estava a vida,E a vida é a luz dos homens,A luz brilha nas trevas,E as trevas não a prenderam” Aqui, a filosofia cósmica de João atinge o clímax da estética literária, onde aseguinte linha começa com a deixa da precedente:................................................................................................. vida,Vida ........................................................................................... luz.Luz ........................................................................................ trevas,Trevas ..............................................................................................A quintessência do mundo creado, do Verso, é Vida, que é a fonte e base detudo, do mundo mineral, vegetal, animal.Esta vida, porém, atingiu no mundo hominal a perfeição da luz, isto é, da vidaconsciente. E as trevas do mundo inconsciente não prenderam a luz doconsciente; as trevas inconscientes não extinguiram a luz do consciente.Com estas palavras sintetiza o quarto Evangelho os dois pólos de todo oUniverso creado: creação e evolução. A creação é a existência finita emanadada Essência infinita, ao passo que a evolução é o processo ascensional deuma existência rumo a outra existência. A Creação é, pois, o princípio dasexistências finitas emanadas da Essência Infinita. O algo existente não veio donada, do inexistente; o algo veio do Todo. Esse algo veio, sim, do nada doalgo (do não-algo) mas veio também do Todo, do Infinito, da Essência. Todo oVerso finito vem do Uno Infinito.A creação não é algo separado do Infinito, assim como uma centelha que saltada fogueira. A creação é comparável ao processo do pensamento em relaçãoao pensador. O pensamento que o pensador pensa não é algo separado dopensador, mas é o próprio pensador enquanto pensante. O pensamento é umamanifestação parcial e imanente do próprio pensador.
  27. 27. Assim, a creatura está no Creador, é uma manifestação parcial e imanente noCreador, é uma existêncialização finita da Essência infinita.É esta a última palavra da filosofia perene: o monismo cósmico, equidistantedo monoteísmo dualista e do panteísmo ilógico. O Uno do Infinito presente emtodo o Verso dos Finitos é idêntico na Essência, mas diferente nas existências.Para melhor compreensão, Brahman pode ser comparado com um lagotranquilo, ao passo que Brahma é como uma torrente que flui desse lago e selança morro abaixo. O estado neutro do lago se manifesta em forma positiva enegativa na torrente. No decurso da torrente, Brahma, a filosofia oriental vêVishnu, o continuador de Brahma, e finalmente Shiva, o consumador dos dois.Em Vishnu ainda vemos as antíteses, ao passo que em Shiva aparece asíntese.O amor em Brahman é bondade; mas em Brahma essa bondade passiva seconverte em amor ativo; o ser-bom estático passa a ser um amar dinâmico; abrasa tranquila deflagra em chama vivificante.
  28. 28. O CRISTO INTERNOAté ao Concílio Vaticano II, a teologia quase só falava do Cristo externo,identificando-o com a pessoa humana de Jesus de Nazaré.Hoje em dia, já se fala no Cristo interno no homem. Aliás, esse Cristo interno jáaparece nos evangelhos, sobretudo na parábola da videira e seus ramos: amesma seiva divina que circula no tronco da videira circula também nos ramosdela, isto é, o espírito divino, que é o Cristo em Jesus, é Idêntico ao espíritodivino que existe em todos os seres humanos. Jesus afirma que a presença deDeus é uma realidade em todo o ser humano- “o Pai está em mim, o Paitambém está em vós” – mas a consciência e atuação do espírito divino, variade pessoa à pessoa. A presença de Deus é a mesma em todo o homem, mas oque cristifica o homem é a consciência e a vivência dessa presença divina. Dizo Mestre!“Aquele que em mim está, mas não produzir fruto, será cortado e jogado aofogo e destruído; mas aquele que em mim está e produzir fruto, será podado(purificado) para que produza fruto ainda mais abundante”.Com estas palavras, afirma o Mestre a presença real do Cristo divino em toda acreatura humana, ao passo que a atuação subjetiva desse Cristo internodepende da consciência do Homem. A despeito da presença objetiva do Cristono homem, pode o homem perecer espiritualmente, o que acontecerá se ohomem não viver de acordo com esse espírito. Mas, se a presença objetiva doCristo no homem produzir uma vivência subjetiva em harmonia com esseespírito, então esse ramo humano da videira divina será podado, ou purificado,a fim de produzir fruto mais abundante. A poda dos ramos da videira se faz noinício da primavera, para que a seiva se concentre em pequeno espaço, erompa com maior força, produzindo fruto vigoroso. Essa poda equivale a umaespécie de sofrimento da planta; a videira “chora”, diz o povo, porque doferimento do ramo caem pingos de seiva vital e umedecem o solo. Quem vivede acordo com o espírito do Cristo passa por uma “sofrimento-crédito” para setornar ainda mais espiritual. A espiritualidade não preserva o homem dosofrimento, como se vê pela vida do homem justo Job, e pela própria vida deJesus; o sofrimento-crédito acompanha a evolução espiritual do homem. Noprincípio, esse sofrimento é compulsório, como mostra a vida de pessoasespirituais; só mais tarde passa esse sofrimento a ser um sofrimento voluntário,como aconteceu a Jesus, que aceitou espontaneamente o sofrimento causadopelo processo da sua cristificação: “Ninguém me tira a vida; eu deponho a
  29. 29. minha vida quando eu quero, e retomo a minha vida quando eu quero”. Não háevolução sem resistência. A dor, o sofrimento é uma resistência, provocadapela atuação do Eu superior sobre o ego inferior. Até na pessoa humana deJesus houve um resto dessa resistência evolutiva, Jesus pede que o sofrimentopasse dele; mas ao mesmo tempo o seu Cristo aceita livremente o sofrimento“para assim entrar em sua glória”.Os avatares procuram espontaneamente essa resistência evolutiva dosofrimento a fim de promover a sua espiritualização ulterior. Paulo de Tarso, naepístola aos filipenses, atribui essa antidromia ao próprio Cristo, que, dasalturas dos esplendores divinos, desceu às dolorosas baixadas humanas, e foi,por meio disto, “soberanamente exaltado”.O despertamento e a vivência de acordo com o Cristo interno marcam o roteiroda evolução ascensional, da cristificação do homem.Também as palavras do Cristo “eu sou a luz do mundo – vós sois a luz domundo” exprimem a mesma identidade da luz do Cristo em Jesus e em outroshomens. Mas essa identidade da luz tem muitos graus de intensidade emanifestação; em muitos homens, a luz está sob o velador opaco do ego, aopasso que em Jesus estava ela no alto do candelabro da sua consciênciacrística.O evangelho do Cristo é rigorosamente monista, admitindo uma única essênciamanifestada em muitas existências.
  30. 30. É O CRISTO A SEGUNDA PESSOA DA TRINDADE?Em Deus não há pessoa, nem uma, nem duas, nem três pessoas.A idéia de pessoa persona é invólucro, máscara, que compete somente àscreaturas.No princípio do quarto século, sob os auspícios do Imperador romanoConstantino Magno, tiveram os cristãos perseguidos a permissão de sair dascatacumbas, onde viviam como adeptos de uma religião proibida. Com odespontar da liberdade começaram os cristãos a organizar-se e a analisarintelectualmente a sua grande experiência intuitiva.A filosofia cristã era o neo-platonismo, com sede em Alexandria.Mas as escolas neo-platônicas foram fechadas por ordem do Imperador,porque esta filosofia, essencialmente intuitiva-mística, não favorecia aconstituição de uma poderosa hierarquia eclesiástica que unificasse asdezenas de igrejas cristãs, que se digladiavam.O platonismo intuitivo foi sucedido pelo aristotelismo analítico, que desdeentão, presidiu à formação da hierarquia e deu cunho à teologia eclesiástica,até atingir a sua culminância no século treze, pelo prestígio de Tomás deAquino.Nesses séculos aristotélicos elaborou-se a idéia de um Deus uno em suanatureza e trino nas personalidades. Tomás de Aquino, em consequência deuma visão ou experiência mística, revogou toda a sua teologia analítica,declarando que tudo não passava de “palha”.Mas as doutrinas aristotélico-tomistas continuam até hoje como teologia oficialda igreja.Sendo a Divindade a própria Realidade ou Essência, nenhuma distinção depersonalidade tem cabimento. A teologia, porém, não admite esse monismoimpersonal, mas organizou um monoteísmo personal, dando personalidadea Deus e distinguindo nele três pessoas.O monoteísmo personalista é incompatível com a mensagem do Cristo – “Eu eo Pai somos um, o Pai está em mim, e eu estou no Pai... O Pai também estáem vós e vós estais no Pai”.
  31. 31. A visão de Jesus é inteiramente monista, e não monoteísta; para ele, há umaúnica Essência, que ele chama de Pai, a qual se manifesta em muitasexistências, ou creaturas. Depois de afirmar “Eu e o Pai somos um”, acrescentaele “mas o Pai é maior do que eu”, como se dissesse: Eu, o Cristo, estou naDivindade, mas eu não sou a Divindade, a Divindade é infinitamente maior doque eu. Ou então, em terminologia filosófica: Eu, a existência individual, souuma manifestação da Essência Universal, que é maior que qualquer existência;vós também, meus discípulos, sois existências individuais,, manifestações daEssência única da Divindade.A manifestação individual da Divindade Universal é por ele chamada Deus.Quando foi acusado de se dizer Deus, não o negou, e acrescentou quetambém os homens eram Deus, isto é, manifestações individuais da DivindadeUniversal: “Vós também sois deuses”.Quando o Cristo se diz Deus, afirma ele que é uma manifestação individual daDivindade, mas não faz de si uma parcela ou pessoa da Divindade, como nãofaz dos homens parcelas ou pessoas da Divindade. Nenhuma creatura éparcela ou centelha, da Divindade, como querem os poetas; se a Divindade separcelasse, ela se diminuiria na razão direta do seu parcelamento.As creaturas são apenas manifestações da Divindade, ou existencializaçõesmúltiplas da Essência una e única.O Universo é o melhor símbolo da Essência Única (Uno) manifestado emexistências várias (verso).Podemos simbolizar a Divindade por um pensador, e as creaturas como seuspensamentos. O pensamento é uma manifestação parcial do pensador, masnão pode ser considerado como uma parcela componente e destacada dopensador.Quando a Infinita qualidade se manifesta em quantidades finitas, a qualidadenão se parcela, não se divide, mas, continuando íntegra e imutável, manifestaexternamente a sua realidade de interna.O Cristo não é a segunda pessoa da Trindade – assim como o Espírito Santonão é a terceira pessoa – como constitutivos da própria Divindade, que não écomposta, mas infinitamente simples.A doutrina de um Deus Trino, nascida no princípio da Teologia eclesiástica, éuma prova frisante de que a Divindade não pode ser analisada, porque toda aanálise supõe decomposição de um composto. A própria palavra gregaanalysis quer dizer dissolução. Quem analisa Deus é ateu.
  32. 32. A suprema Divindade, só pode ser conhecida por intuição, experiência ouvivência íntima. Tudo que se pode analisar, pensar, falar, é finito. O Infinito nãoé analisável, pensável, dizível.A certeza de Deus não vem da análise, do pensamento – a certeza de Deusacontece ao homem quando ele se torna interiormente aberto e receptivo parareceber a revelação do Infinito. “Quando o discípulo está pronto, então oMestre aparece”.Desde o princípio do quarto século até o século 20 foi a igreja dominada peloaristotelismo analítico, sobretudo de Tomás de Aquino; ultimamente há umacrescente prevalência do neoplatonismo intuitivo, que, como dissemos, era afilosofia dos luminares do cristianismo nos primeiros séculos.A filosofia oriental também admite três pessoas na Divindade suprema deBrahman, a saber: Brahma, Vishnu e Shiva. Mas essas três pessoas não sãoindivíduos, e sim funções da Divindade, que se revela como Brahma, oCreador; como Vishnu o Continuador, e como Shiva, o Consumador.Neste mesmo sentido monista, podem ser aceitas três pessoas como funçõesda Divindade: A Essência Una se manifesta incessantemente como existênciainiciadora, continuadora e consumadora.O monoteísmo teológico se está aproximando cada vez mais do monismofilosófico; já admite, além da Divindade transcendente, o Deus imanente.Monismo não é panteísmo (tudo é Deus), mas pode ser chamado Panenteísmo(tudo em Deus). Como também admite Teilhard de Chardin: A Divindadetranscendente é incognoscível; revelada como o Deus imanente, é cognoscível.O Cristo, segundo o Evangelho, é a primeira e mais alta emanação daDivindade, o “Unigênito do Pai”, segundo João; o “Primogênito de todas ascreaturas”, segundo Paulo de Tarso.O Cristo é Deus, mas não é a Divindade.
  33. 33. PORQUE O VERBO SE FEZ CARNEDentro de poucos decênios, a humanidade celebrará o ano 2000 depois donascimento de Jesus. A humanidade inteira, cristã e não cristã, conta a suacronologia pelo nascimento de um pobre carpinteiro – e até hoje não sabemosbem porquê...É oportuno perguntar: Por que o Cristo cósmico, o Logos, o Verbo, se tornoupessoa humana?A resposta que os teólogos cristãos costumam dar a esta pergunta éconhecida: para salvar a humanidade.Entretanto, o próprio Jesus nada sabe dessa suposta salvação; ele mesmonunca afirmou que viera ao mundo para este fim.Quando, na primeira páscoa, os discípulos de Emaús lamentavam a morte doNazareno, perguntou-lhes ele, que incógnito os acompanhava: “Não deviaentão o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?”Nenhuma palavra sobre a suposta salvação da humanidade.Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve:“Ele (o Cristo), que estava na glória de Deus, não julgou necessário aferrar-sea esta divina igualdade; mas esvaziou-se dos esplendores da Divindade e setornou homem, servo, vítima, crucificado. Por isto, Deus o exaltousoberanamente e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, demaneira que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes,dos terrestres e dos infra-terrestres, e todos confessam que ele é o Senhor”.Nenhuma palavra sobre o intuito de salvar a humanidade. Veladamente, Paulofaz ver que o Cristo, pela encarnação, se tornou maior do que era, que setornou, por assim dizer, um super-Cristo, a tal ponto que todas as creaturas doUniverso, celestes, terrestres e infra-terrestres, proclamem a sua supremagrandeza.E aqui voltamos à antidromia incompreensível dos avatares, de que falamosem outro capítulo. Todo o avatar se desapega dos esplendores da suagrandeza e desce à pequenez de mundos inferiores – para quê?Não primeiramente, como já dissemos, para redimir os habitantes destesmundos, mas para realizar a sua própria evolução ulterior.
  34. 34. Para compreender essa estranha contra-corrida dos seres superiores, énecessário lembrar novamente que a lei suprema do Universo é evolução.Nenhuma creatura, por mais avançada, se acha no termo final da suaevolução. Esse termo, de fato, não existe; toda a creatura está numapermanente jornada para o além.Quanto mais liberto se sente um avatar, tanto maior é o seu desejo de seescravizar, porque a voz cósmica da sua consciência lhe diz que estaespontânea escravização é o único caminho para uma libertação ulterior.Quanto é pouco liberto não tem desejo de se escravizar – mas quem é muitoliberto se escraviza voluntariamente.Não se trata aqui de uma “reencarnação”, no sentido tradicional, que seriacompulsória. Trata-se de uma descida por amor, por excesso de liberdade.O amor que impele o avatar a realizar a sua descida é um auto-amor, o amor auma auto-realização maior. O avatar, para “entrar em sua glória”, saiexternamente dessa glória, como Paulo diz do Cristo, e desce à inglória daescravidão voluntária, da humilhação, do sofrimento, da morte, por ser este oúnico caminho de subir a regiões superiores, conforme exigem as leis cósmicasinexoráveis.Os horrores que Jesus sofreu no fim da sua vida terrestre são totalmenteincompreensíveis senão à luz dessa gloriosa antidromia. Para que elepudesse dizer, na cruz, a sua última e mais gloriosa palavra “está consumado”,quis ele humilhar-se até o ínfimo nadir da servidão, do vilipêndio, da infamaçãovoluntária. No fim da sua vida terrestre, como se estivesse com pressa, reúneJesus tudo que se possa imaginar de horrível e infamante. E, como se ossofrimentos físicos não lhe fossem suficientes, acrescentou sofrimentosmetafísicos.No alto do Calvário, os chefes da sinagoga o desafiam solenemente para que,em prova da sua missão divina, desça da cruz: “Se tu és o Cristo, desce dacruz, e nós teremos fé em ti”.Provavelmente, muitos dos chefes da sinagoga receavam secretamente queJesus atendesse ao desafio e descesse, glorioso, da cruz, que seria a derrotamáxima da sinagoga.Jesus, porém, não desceu da cruz, não deu esta prova suprema da suamessianidade, tomando sobre si o opróbrio de ser um falso Messias, deenganar o povo com três anos de imposturas e magia negra.E, para cúmulo de humilhação, em vez de descer da cruz e assim provar a suamissão divina, fez exatamente o contrário: bradou em alta voz: “Meu Deus,meu Deus, por que me abandonaste?”.
  35. 35. Os inimigos de Jesus devem ter soltado uma gargalhada de escárnio e detriunfo, ao ouvirem estas palavras. Ouvistes? – perguntou Caifaz, - o que eledisse? Que foi abandonado por Deus, que é um pseudo-Cristo... Razãotínhamos nós em dizer que ele era um falso Cristo, um aliado de satanás...Agora, no momento supremo, confessou a verdade – Deus o abandonou...É difícil conceber maior auto-difamação do que esta. Na sua corrida rumo aonadir da voluntária humilhação, Jesus não poupa nenhuma oportunidade paraarrazar a sua grandeza. Com este grito, entregou ele a seus inimigos o melhorpunhal contra si mesmo.E seus discípulos e amigos, que ouviram este grito de abandono, que deviameles pensar? Sua mãe, seu discípulo amado João, sua ardente discípulaMadalena, todos eles ouviram que seu querido Mestre se confessouabandonado por Deus... E como podiam eles continuar a amá-lo e seguí-lo seo próprio Deus o havia abandonado?...Esta crudelíssima decepção dos seus devotados amigos e discípulos deve tersido o derradeiro passo, nessa marcha acelerada rumo à auto-difamação e aoego-esvaziamento.Estava terminada a corrida rumo ao nadir.Jesus, vendo, através dum véu de sangue, sua mãe e seu discípulo, ao pé dacruz, disse à mãe: “Eis aí teu filho”, e disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe”.Depois de se desfazer desses últimos tesouros que ainda tinha na terra, estavaele totalmente liberto de tudo e de todos, e seu Cristo podia dizer: “Estáconsumado”. E por fim: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.É este o drama tragicamente glorioso da encarnação do Verbo.
  36. 36. FOI JESUS UM LIBERTADOR?Nos últimos tempos apareceram diversos livros sobre a idéia do Cristolibertador. Alguns acham que o Nazareno era um revolucionário, umsubversivo, que tentasse libertar Israel do domínio romano.À luz dos Evangelhos e de outras fontes históricas, é sem esperança quererprovar essa hipótese, tanto mais que ele mesmo declarou explicitamenteperante o governador romano Pilatos que o seu reino não era deste mundo.Ultimamente, um grupo de jesuítas publicou mais um livro sobre este tema,mostrando a inanidade dessas tendências políticas e revolucionárias de Jesus.Mas, quando os autores deste livro chegam à pergunta positiva “de que noslibertou Jesus?” recaem à rotina das teologias tradicionais: ele nos libertou dosnossos pecados pelo seu sangue. Quer dizer que os piedosos autores desselivro substituem uma pseudo-libertação por outra pseudo-libertação; substituemuma suposta alo-libertação política por uma alo-libertação moral. Ninguémpode ser liberto, se ele mesmo não se liberta. Ninguém pode receber depresente uma libertação; quem confia em alo-libertação, e não realizou a suaauto-libertação, não é realmente liberto. A liberdade verdadeira e única não nospode ser dada como presente de berço ou por favor alheio; a verdadeiraliberdade é a mais alta conquista da nossa consciência, ou seja, a genuínaevolução ascensional do homem; é esta a sua grande e única tarefa aqui naterra e em qualquer outra existência extra-terrestre: libertar-se.Todos os que atribuem a Jesus intenções de libertação política ou socialdesconhecem radicalmente o caráter fundamental dele. Mesmo os teólogoscristãos que lhe atribuem a libertação coletiva da humanidade da escravidãodos pecados não fazem jus ao verdadeiro Cristo libertador.Bem sabia Jesus que nenhuma libertação – seja política, social ou moral – épossível sem a libertação individual; e ele sempre falou desta libertação, queele mesmo possuía no mais alto grau. Qualquer outra libertação periférica erapara ele uma pseudo-libertação, pela qual nunca se entusiasmou com grandedecepção de seus conterrâneos e discípulos. Perante o governador romano,como já mencionamos, poucas horas antes da sua condenação à morte,afirmou o Nazareno: “Eu sou rei, mas o meu reino não é deste mundo”.Para os inexperientes é impossível compreender a que espécie de reino e derealeza ele se referia.
  37. 37. Para Jesus a liberdade e libertação é um processo essencialmente individual.Desde a sua origem, é o homem escravo de si mesmo, se não se libertaindividualmente dessa escravidão – e esta auto-libertação é a maior glóriaexistencial da sua vida. O pólo negativo da natureza humana, o chamado ego,que o Gênesis simboliza pela serpente, oprime o pólo positivo do Eu, ochamado sopro de Deus.A tarefa fundamental e única da existência humana é precisamente a libertaçãodessa escravidão e a declaração da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Paraeste fim lhe foi dado o livre arbítrio.Sendo que Jesus possuía em grau supremo esta liberdade, não podia eleinteressar-se por nenhuma liberdade ou libertação que não fosse aemancipação do homem da tirania da sua velha egocracia e a proclamação dagloriosa Cristocracia.Neste sentido resumiu ele toda a sua política e filosofia, sobretudo nas palavraslapidares “conhecereis a verdade – e a verdade vos libertará”. Para ele, comopara todos os verdadeiros iniciados, a liberdade é o produto do conhecimentodo homem sobre si mesmo, um auto-conhecimento vivido como auto-realização. Verdade, liberdade, felicidade – esta trilogia é o centro da suavivência individual e o cerne da mensagem do Cristo à humanidade.E, por ser tão radicalmente feliz, podia Jesus permitir qualquer sofrimento,porque nenhum sofrimento, nem a própria morte podem destruir a verdadeirafelicidade baseada no conhecimento e na vivência do Eu divino.Jesus, o Cristo, é o maior libertador que a humanidade conhece.
  38. 38. É O CRISTO NOSSO REDENTOR?É esta a idéia geral do povo e dos teólogos: o Cristo é o redentor ou salvadorda humanidade. No alto do Corcovado está a gigantesca estátua do CristoRedentor.Quer dizer que o Cristo é nosso redentor?Segundo os teólogos, quer dizer que o homem, desde o princípio, por obra desatanás, caiu no pecado, herdado depois por todos os homens; a humanidadetoda é pecadora desde o nascimento, e cada homem se torna cada vez maispecador por pecados pessoais.Quer dizer que o homem é um grande devedor, por herança e por atospróprios, e Deus é o grande credor. E, como o devedor é totalmenteinsolvente, incapaz de pagar a Deus os seus débitos, a humanidade estáradicalmente falida perante a justiça divina, isto é, vítima de eternacondenação. Deus exige imperiosamente o pagamento da dívida que ahumanidade contraiu, Deus se sente ofendido com os pecados da humanidadee exige satisfação. A dívida da humanidade é de infinita gravidade, como ouvino catecismo e no curso de teologia – mas como a humanidade, falida einsolvente, poderia pagar a Deus um débito infinito?Deus, porém, não é somente justo, mas também misericordioso, e, sendomisericordioso, teve pena da humanidade e resolveu mandar à terra seu filhounigênito para pagar o débito dos homens. O Filho de Deus, o Cristo, de fezhomem para poder, em nome dele, pagar o débito da humanidade, mascontinua a ser Deus para que o seu ato de mediador tenha um valor Infinito.Estranhamento, o modo de pagar a Deus a dívida da humanidade foi osofrimento e a morte do redentor; “o seu sangue nos purifica de todo pecado”.E assim, graças à morte de Jesus, nós somos salvos, libertos de toda a dívidade nossos pecados, reconciliados com Deus.É esta, mais ou menos, a ideologia que preside as nossas teologias sobrepecado e redenção. E há quase 2000 anos, essa tradição se cristalizou emverdade dogmática, passivamente aceita pela cristandade.Segundo a nossa lógica humana, parece razoável essa ideologia, quando, narealidade, é inaceitável, e até monstruosa, ao ponto de Arnold Toynbee ter
  39. 39. escrito: “Se o Deus da nossa teologia existe, é ele o maior monstro doUniverso”.Antes de tudo, é absurdo supor que uma creatura finita possa cometer umafalta de gravidade infinita.É inaceitável supor que o Deus soberano se possa sentir ofendido, quando osenso de ofensa e a ofendibilidade é atributo de um ego mesquinho.É repugnante a idéia que Deus seja vingativo e não queira perdoar a supostaofensa de pobres creaturas.É revoltante admitir que Deus tenha exigido do único homem inocente opagamento pelos delitos dos culpados.É monstruoso pensar que Deus tenha decretado o requinte das crueldades euma morte atroz de seus Filho Unigênito, para se dar por quite da dívida dahumanidade pecadora. ***Então, o Cristo não é nosso redentor?É, sim, mas em outro sentido, nobre e digno e perfeitamente aceitável.De que modo?Acima de tudo, que é que se entende por pecado e por redenção?Pecado é a vitória do nosso ego luciférico e a derrota do nosso Eu crístico,como já vem simbolizado desde o Gênesis, que fala do sibilo da serpentederrotando o sopro de Deus. Quando no primeiro homem a serpente do egoderrotou o sopro divino do Eu, cometeu o homem o primeiro pecado, porque asimutáveis leis cósmicas exigem a vitória do Eu superior sobre o ego inferior.O pecado é, pois, uma voluntária inversão das leis eternas. Essa inversão sóse pode dar pela ilusão do ego. Mas, quando a verdade do Eu supera a ilusãodo ego, então surge a redenção do homem.Pecado e redenção são, pois, atributos da própria natureza humana; o homemé derrotado pelo seu ego, e é vitorioso pelo seu Eu, e, graças a seu livrearbítrio, o homem é responsável tanto por sua derrota ou pecado, como porsua vitória ou redenção. Tanto o lúcifer como o Logos, tanto o diabo daperdição como o Cristo da redenção, estão dentro do homem, e compete aohomem fazer triunfar o seu Eu Crístico sobre seu Ego luciférico. O lúciferinterno e o Cristo interno do próprio homem são os fatores do pecado e daredenção, e o homem é autor tanto disto como daquilo. Não há nenhum Deusofendido e vingativo que exija dum inocente o sofrimento pelo pecador. O egopecador deve sofrer pela inversão das leis divinas em sua natureza humana;
  40. 40. deve integrar-se voluntariamente no Eu Divino, e, como toda a integração doego no Eu equivale a uma desintegração do ego, não pode o homem redimir-sesem essa morte do ego, sem esse “egocídio” – “se o grão do trigo (ego) nãomorrer, ficará estéril; mas, se morrer, produzirá muito fruto (Eu)”.Na pessoa humana de Jesus havia plena vitória do Eu crístico sobre o egohumano – “quem de vós me arguirá de um pecado?” – nunca o seu egohumano derrotou seu Eu divino, embora tentasse por diversas vezes, como nastrevas do Getsêmane e nos ardores do Gólgota.Por isto, Cristo é a realização do homem feito à imagem e semelhança deDeus, porque “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. E eleafirma que ele é, para nós, o Caminho, a Verdade e a Vida. Nele residia aplenitude do homem perfeito, e como toda a plenitude transbordanecessariamente, “da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça”.Sendo que essa integração do inferior no superior equivale a umadesintegração daquele, e como toda a desintegração do ego é sofrimento,mostrou Jesus, nas últimas 15 horas da sua vida terrestre, que o homem deveestar disposto a tomar sobre si todo e qualquer sofrimento para realizar essaintegração do seu ego humano no seu Eu divino.A Cristo-redenção, em que as teologias vêm uma alo-redenção, é uma genuínaauto-redenção, uma redenção do homem pelo Cristo interno do seu Eu divino.Sem resistência não há evolução, e sem integração do menor no maior não hávitória.Todo o processo dos sofrimentos e da morte de Jesus equivale a um grandiososímbolo e a um insistente convite para o discípulo fazer o que o Mestre fez.O Cristo é o redentor da humanidade de um modo muito mais verdadeiro eglorioso do que imaginam as teologias tradicionais. Redimiu plenamente o seuJesus humano pelo poder do seu Cristo divino – “não devia então o Cristosofrer tudo isto para assim entrar em sua glória” – divinizou e cristificou a suanatureza humana individual, mostrando a todos o roteiro a seguir, a redençãoda natureza humana de cada um e sua plena cristificação ou auto-realização. Jesus, pela sua cristificação, através do seu sofrimento voluntário e vitorioso,mostra a todo o homem que ele pode entrar na sua glória pelo mesmo caminho– “exemplo vos dei pra que façais o que eu fiz”.
  41. 41. PORQUE JESUS SOFREU E MORREU...O nosso cristianismo tradicional acha evidente o motivo da morte de Jesus: elemorreu para pagar os nossos pecados.Entretanto, o cristianismo do primeiro século não achava isto tão evidente; paraos primeiros cristãos, a paixão e morte de Jesus eram um tenebroso enigma,como Frei Leonardo Boff, faz ver no seu livro “Jesus Cristo Libertador” (EditoraVozes). Era-lhes incompreensível porque Jesus, que, durante 33 anos,desafiara vitoriosamente as ciladas dos seus inimigos, se entregasse, nosúltimos dias, à sanha deles, dizendo: “Esta é a vossa hora e o poder dastrevas”. E se deixou prender voluntariamente.Mesmo Paulo de Tarso, após a sua dramática conversão às portas deDamasco, estava perplexo em face do porquê da morte voluntária de Jesus, e,para solver o enigma, se retirou para os desertos da Arábia, e durante trêslongos anos meditou sobre esse mistério. Por fim, julgou haver encontrado umasolução plausível: associou a morte de Jesus à ideologia milenar da Sinagogade Israel, que matava anualmente o “bode expiatório”, julgando que com amorte deste animal inocente, morriam os pecados de Israel. Paulo julgou terdescoberto que Jesus se entregou à morte para pagar com o seu sangue adívida da humanidade perante um Deus ofendido.Mas, mesmo assim, não foi geralmente aceita pelo cristianismo primitivo estasolução. O próprio Jesus, que diversas vezes predisse a sua morte eressureição, nunca afirmou que ia sofrer e morrer pelos pecados dahumanidade. Muitos cristãos viam na morte do Nazareno a continuação dasorte de quase todos os profetas antigos: o justo não é tolerado pelospecadores, no meio dos quais vive, e sofrer morte violenta. A idéia de umamorte expiatória não era opinião geral no primeiro século, e não deve ser“absolutizada”, como frisa o referido livro.A essa aceitação obstava também a idéia de que Deus se possa sentirofendido pelos pecados e fizesse sofrer e morrer o único homem sem pecadopara se dar por pago pelas culpas dos pecadores.Só muitos anos depois generalizou-se a idéia de que, como diz Paulo, “osangue de Jesus nos purifica de todos os pecados”.A idéia duma alo-redenção, duma morte expiatória, como se vê, teve origem nojudaísmo, e não no cristianismo. Nem Jesus nem os quatro evangelistas se
  42. 42. referem a essa idéia de que Jesus tivesse morrido para pagar os pecados dahumanidade – tanto mais que, segundo os teólogos cristãos, todo homem,ainda hoje, nasce outra vez em pecado. Nem o Quinto Evangelho, do ApóstoloTomé, recentemente descoberto no Egito, se refere com uma só palavra àmorte de Jesus por causa dos pecadores.Quando os discípulos de Emaús, na tarde da primeira Páscoa, se achavamdecepcionados com a morte cruel de um inocente, não lhes respondeu Jesus,que os acompanhava incógnito, que era para pagar os pecados dahumanidade, como teria dito qualquer teólogo de nossos dias; mas dissesimplesmente: “Não devia o Cristo sofrer tudo isto para assim entrar em suaglória?”.Com estas palavras insinua Jesus a verdadeira pista: sofreu e morreuvoluntariamente para realizar-se a si mesmo, para entrar numa glória aindamaior.Esta idéia de auto-realização ulterior é incompreensível para muitos teólogosde hoje, porque acham que um homem como Jesus não era ulteriormenterealizável. Na realidade porém ele mesmo insinuou essa realização ulterior.Toda a creatura, por mais evolvida, pode evolver ainda mais, porque aevolução é um processo indefinido e jamais definidamente terminado. O Cristo,segundo João, era o “Unigênito do Pai”, e, segundo Paulo, era o “Primogênitode todas as creaturas”; isto é, era “gênito”, creatura, e toda a creatura, mesmoteo-gênita ou primogênita, é finita e pode realizar ulteriormente a sua evolução,pode entrar numa glória maior. Jesus, apesar de tão altamente evolvido já aoentrar na vida terrestre, podia evolver ulteriormente, sob os auspícios do Cristodivino, como ele mesmo dá a entender no Gólgota. Quando diz “estáconsumado” dá por terminada a sua evolução terrestre, porque entrou em suaglória.Jesus sofreu e morreu voluntariamente a fim de completar a sua realizaçãoterrestre.E, sendo que toda a plenitude transborda necessariamente – “da a plenitudetodos nós recebemos, graça e mais graça”, como escreveu o discípulo amado– o transbordamento dessa plenitude do Cristo reverte em benefício de toda ahumanidade. Todos nós fomos beneficiados pela plenitude da auto-realizaçãode Jesus. Mas, repetimos, o motivo central da sua morte voluntária não foi aredenção da humanidade, mas sim a plenitude da auto-realização do próprioCristo, como ele mesmo faz ver aos discípulos de Emaús.Todo o avatar, quando altamente evolvido e liberto do seu ego, sente anecessidade de servir voluntariamente “às creaturas inferiores”; e todo oserviço do maior aos menores, se revela num sofrimento voluntário.
  43. 43. A verdadeira compreensão da natureza de Jesus torna compreensível o motivodo seu sofrimento e da sua morte voluntária. A entrada em sua glória é a suaevolução superior, a plenitude da sua auto-realização, da sua cristificação;porque em Jesus, como escreve Paulo de Tarso, “habita corporalmente toda aplenitude de Deus”, e, para realizar essa plenitude divina é que ele integroutodo o ego humano do seu Jesus no Eu divino do seu Cristo, desintegrando oseu corpo.Quando compreenderá a cristandade o Cristo verdadeiro?
  44. 44. DE GLÓRIA EM GLÓRIA – PELA INGLÓRIAA verdadeira vida terrestre de Jesus só pode ser devidamente compreendidaatravés das suas próprias palavras.Refere o Evangelho de João que, depois da última ceia, véspera da sua morte,levantou-se Jesus e assim falou:“Pai, é chegada a hora. Glorifica-me agora com aquela glória que eu tinha emti, antes que o mundo fosse feito”.Poucos dias depois, no domingo da ressureição, falando com os discípulos deEmaús, novamente se refere à sua glória:“Não devia então o Cristo sofrer tudo isto para entrar em sua glória?”Antes da creação do mundo, e antes da encarnação do Verbo estava o Cristona glória divina, como escreve Paulo de Tarso: “Ele, que estava na glória deDeus...”Depois da sua ressureição voltou para sua glória.Entre esses dois estados de glória, o de antes da encarnação e o depois daressurreição, medeia um período de cerca de 33 anos, que, humanamenteconsiderado, foi um período de inglória, sobretudo nos últimos dias da sua vidamortal.Entre a glória de ontem e a glória de amanhã jaz a inglória de hoje.Na última ceia, pede Jesus ao Pai que lhe restitua a glória que ele tinha emDeus; e aos discípulos de Emaús declara ele que entrou novamente em suaglória, pela voluntária inglória do sofrimento e da morte.Paulo de Tarso escreve aos cristãos de Filipes que o Cristo, graças a essavoluntária inglória, foi “super-exaltado” a uma glória maior do que tivera antes.É esta a estranha antidromia dos avatares: descer para subir, humilhar-separa ser exaltado. O céu do avatar não é só um céu gozado, mas um céusofrido voluntariamente. A felicidade do avatar não é uma vida estática, masuma vivência dinâmica, uma sinfonia sempre inacabada, movendo-se entre ogozo gozado e o sofrimento sofrido por amor.Por amor de quê?
  45. 45. Por amor de uma evolução ainda maior, de uma glória superior à glóriaanterior, através da inglória voluntária. Do zênite da glória e do gozo desce oavatar ao nadir da inglória e do sofrimento, sob o imperativo duma auto-realização cada vez maior. Pois, todo o finito em demanda do Infinito estásempre a uma distância infinita. Mas o imperativo cósmico da evoluçãoascensional o convida a subir a alturas cada vez maiores, indefinidamente, portoda a eternidade.Esse incessante subir, e subir mais, de glória em glória, de amor em amor, debeatitude em beatitude, é que é a vida eterna do avatar.O avatar nada sabe de estagnação passiva, tudo sabe de evolução ativa.E, como não há evolução sem resistência, o avatar tem fome e sede deresistência, de luta, de sofrimento. E, se na zona excelsa da sua vivência nãoencontra essa resistência necessária, desce a regiões inferiores, em busca domeio necessário para sua evolução ulterior.Quando uma entidade de alta evolução entra num ambiente de baixa evolução,ingressa numa zona de resistência, de oposição, de sofrimento, de crucifixão.Entre a glória e a glória maior jaz a inglória – a gloriosa inglória dos grandesavatares.Neste signo de glória pela inglória decorre todo o plano Cristo-cósmico daencarnação e da ressureição, necessários para a plenitude dele e do Universo,na culminância do ponto ômega, como diria Teilhard de Chardin.O carácter das leis cósmicas é nitidamente evolutivo; nada de estagnaçãoestática, tudo é evolução dinâmica. Entre o finito e o Infinito não existenenhuma chegada, impera uma incessante jornada.Quem considera a vida de Jesus apenas à luz dos pecados da humanidade,não faz jus à excelcitude Cristo-cósmico.
  46. 46. ONDE PASSOU JESUS A SUA JUVENTUDE?Existem numerosos livros que afirmam que Jesus passou a sua juventude,entre 12 e 30 anos, em países estrangeiros, no Egito, na Índia, no Tibet.Entretanto, as fontes históricas do primeiro século ignoram totalmente umaausência de Jesus. Nem mesmo mencionam a sua presença entre osessênios, à margem do Mar Morto, onde provavelmente esteve com JoãoBatista.Os Nazarenos, seus conterrâneos, estranham quando o jovem carpinteiro, aostrinta anos, aparece em público como profeta. Nem sequer frequentou escola,dizem eles. Os Nazarenos o conheciam como filho do carpinteiro José, quetodos os dias trabalhava na oficina. Se Jesus tivesse estado ausente 18 anos,não teriam os seus conterrâneos alegado essa ausência em países longínquos,para explicar o mistério da sua grande sabedoria? Nem uma única palavra.Além disto, os cinco historiadores do primeiro século, Mateus, Marcos, Lucas,João e Paulo de Tarso, contemporâneos, e alguns deles conterrâneos deJesus, nada sabem de uma ausência dele. Nem mesmo Paulo, homem viajadoe erudito; nem Lucas, o médico grego, que diz no prefácio do seu Evangelhoque investigou cuidadosamente, desde sua origem, todos os fatos referentes àvida de Jesus – ninguém menciona uma ausência do Nazareno. A narração daanunciação, que somente Lucas refere, faz crer que ele tenha estadopessoalmente com Maria, mãe de Jesus, que, entre o ano 58 e 60, ainda viviaem Jerusalém – e não teria Lucas, o meticuloso historiador, tido notícia dessaausência de Jesus?Se Jesus tivesse passado longos anos no Egito, na Índia, no Tibet - essespaíses clássicos de iniciação esotérica – não teria ele, durante a sua vidapública, iniciado os seus discípulos, segundo o costume desses países, ondeteria encontrado os seus mestres? Mas, nunca nenhum dos evangelistasmenciona que Jesus tenha iniciado um só dos seus discípulos, nem mesmoPedro, Tiago ou João, seus discípulos prediletos. O Mestre dá orientação aseus discípulos, mostrando o caminho por onde eles mesmos podiam iniciar-senos mistérios do Reino de Deus, mas ele mesmo não os iniciou. Até ao fim davida terrestre de Jesus, os discípulos dele continuam tão profanos como antes:alguns pedem licença para chamar fogo do céu para matar os samaritanos,que lhes negaram pousada; outros, ambiciosos, querem sentar-se um à direitae outro à esquerda do Mestre, no reino da sua glória. Todos entendiam peloReino de Deus a restauração da independência nacional de Israel; e ainda no
  47. 47. último dia da vida terrestre do Mestre, na Ascensão, perguntam: “É agora quevais restabelecer o reino de Israel?”Nenhum vestígio de iniciação espiritual.Verdade é que, na gloriosa manhã de Pentecostes, 120 pessoas, homens emulheres, se iniciaram nos mistérios do Reino de Deus – mas foi uma auto-iniciação, e não uma alo-iniciação; depois de 9 dias de silêncio e meditação,eclodiu neles a luz divina. E esse dia – provavelmente 30 de maio do ano 33 –foi o nascimento do verdadeiro cristianismo sobre a face da terra.Em face desse silêncio total, não podemos admitir como provável que Jesustenha estado no Egito, na Índia, no Tibet, ou em outro país longínquo, nemcomo Mestre, nem mesmo como discípulo.E, contudo, o Nazareno foi o maior dos iniciados; passou pela auto-iniciação.Ele mesmo, nesses 18 anos de solidão relativa, nas montanhas da Galiléia, seiniciou no Reino dos Céus. As suas viagens de auto-iniciação não demandarampaíses alheios neste planeta terra, mas o próprio Universo, as “muitas moradasem casa do Pai Celeste”.Já aos 12 anos, após três dias de silêncio e interiorização, em algum recantode Jerusalém, revela Jesus uma sabedoria tão surpreendente que encheu deestupefação os chefes espirituais de Israel.Depois dessa eclosão inicial, continuou ele o itinerário espiritual durante 18anos, até culminar, aos 30 anos, quando começou a falar ao povo, emparábolas sobre os mistérios do Reino de Deus, que ele mesmo viveraintensamente durante esses anos.Lucas, o consciencioso historiador, liquida com uma única frase esses 18 anosde auto-iniciação, dizendo: “E Jesus foi crescendo em graça e sabedoria,perante Deus e os homens”.Como podiam os historiadores humanos saber desses mistérios esotéricos?Ninguém acompanhou o adolescente nas suas vastas experiências pelosreinos ignotos do Pai.Essas viagens cósmicas do jovem carpinteiro não foram realizadasnecessariamente pelas regiões do cosmo de fora, mas sim pelo cosmos dedentro, porquanto “o Reino de Deus está dentro de vós”.Por isto, os evangelistas fazem bem em silenciar totalmente o período entre 12e os 30 anos de Jesus
  48. 48. O BODE EXPIATÓRIO NO JUDAÍSMO E NO CRISTIANISMOPor espaço de cerca de 2000 anos, desde Abraão, ou, pelo menos, desdeMoisés, praticou Israel a cerimônia do bode expiatório. Cada ano reunia-se opovo de Israel na esplanada do templo de Jerusalém. O sumo sacerdotecolocava as mãos sobre a cabeça de um cabrito, transferindo para esse animalos pecados do povo. Depois, esse “bode expiatório” era tocado para o desertoe precipitado por um barranco abaixo, onde morria. E com ele morriam todosos pecados de Israel, como era crença geral. Um mensageiro voltava, agitandouma bandeira branca e exclamando: “Deus extinguiu os pecados de seu povo,aleluia! aleluia!” E havia grande alegria em Israel, porque todos se sentiamcomo carta branca – e podiam carregar de novo o carro de lixo para o próximoano.Israel não celebra mais o ritual do bode expiatório. Com a destruição do templode Jerusalém, no ano 70, e a dispersão dos Judeus por todos os quadrantes doImpério Romano, terminou também a cerimônia do bode expiatório. O novoEstado de Israel, criado há poucos decênios não voltou a praticar essesimbolismo.Infelizmente, porém, a idéia do bode expiatório, que morreu para o judaísmo,continua no cristianismo, com a diferença de que agora o bode expiatório não émais um animal inocente, que, morrendo, extinga os pecados humanos, massim o único homem sem pecado que, segundo a teologia, paga com sua morteos pecados da humanidade.Esta ideologia se baseia em diversos equívocos. Supõe que Deus possa serofendido por suas creaturas – quando até homens avançados como MahatmaGandhi, atingem uma completa inofendibilidade. Quem não se sente ofendidonão precisa vingar-se nem perdoar; mas, quem se sente ofendido, pode vingar-se da ofensa, ou então perdoá-la. Deus, porém, o Deus da teologia, ofendidopelos homens, não se vinga, nem perdoa, mas exige satisfação pela ofensa.Mas, como o homem é pecador é insolvente, incapaz de saldar o seu débito,Deus exige que um homem não pecador pague o débito dos devedores. E,como o único homem sem pecado é Jesus, é ele considerado como únicopagador capaz de extinguir os pecados da humanidade. E o pagamento sópode ser feito com sangue, com o sangue inocente do único homem sempecado. O bode expiatório Jesus tem de morrer, derramando o seu sangue,para que o Divino Credor ofendido se dê por satisfeito. Tomás de Aquino,considerando o maior teólogo cristão, diz, num dos seus poemas espirituais,
  49. 49. que uma única gota do sangue de Jesus seria suficiente para pagar todos osdébitos da humanidade, mas que Jesus, por excessiva bondade, quis derramaraté a última gota do seu sangue para pagar os pecados da humanidade.Depois desse pagamento dos pecados da humanidade pelo sangue de Jesus,era de esperar que o homem estivesse quite com a justiça divina; mas osteólogos ensinam que todo o homem nasce de novo em estado de pecado,vive e morre cheio de pecados – não se sabe em virtude de que lógica...Outro equívoco dos teólogos é a idéia de que um não-pecador alheio possapagar os pecados de outro pecador. Na realidade, porém, cada pecador tem depagar por seus próprios pecados. O que alguém semeou, isto colherá.Ninguém pode encarregar outra pessoa como procurador de agir em lugar doculpado. Não vigora semelhante política no Reino de Deus. Ninguém podesalvar alguém; cada um deve salvar-se a si mesmo.Mas, como pode um pecador absolver-se dos seus pecados? Não é isto umcírculo vicioso?Assim seria se o homem fosse apenas o seu ego pecador, insolvente; mastodo o homem é também o seu Eu redentor; apesar de ser pecador na suaperiferia humana, continua a ser sem pecado no seu divino; a imagem esemelhança de Deus mão se apagou com o pecado. Quem peca é o egoperiférico – quem redime é o Eu central, o “Pai em nós”, o “Cristo interno”.Enquanto o ego pecador não conscientizar e vivenciar o seu Eu crístico,continua ele pecador; mas, se despertar em si a consciência da sua Divindadee viver de acordo com ela, redime-se dos seus pecados; os seus muitospecados lhe serão perdoados, porque muito amou; e esse “muito amou” é odespertamento do Eu redentor.Nenhum bode expiatório alheio me pode libertar dos meus pecados – eumesmo, no meu Eu divino, devo libertar-me dos pecados do meu ego humano.Somente a consciência e vivência da minha essência divina me pode libertardos pecados da minha existência humana. “Conhecereis a verdade, e averdade vos libertará”, conhecereis a verdade sobre vós mesmos, e estaverdade conscientizada e vivida, vos libertará do pecado, que temos, mas quenão somos. Nós somos o Eu divino, e temos o ego humano.Toda a redenção é uma auto-redenção, mas não uma ego-redenção. O autós,ou Eu do homem é o seu Cristo interno. Auto-conhecimento transbordando emauto-realização é auto-redenção.Quando o nosso cristianismo teológico culminar em cristicidade divina, entãodesaparecerá esse equívoco da alo-redenção, e nascerá a verdade da auto-redenção, da redenção pelo Cristo interno, sem nenhum bode expiatório alheio.
  50. 50. FUNDOU JESUS UMA IGREJA?Sim – e não.Depende do que se entende por igreja.A palavra grega ekklesia, e o vocabulário no ecclesia, ocorrem repetidasvezes nos Evangelhos.A tradução portuguesa é igreja.Mas o que, hoje em dia, se entende por igreja é algo totalmente diferente dosentido primitivo desta palavra. Igreja é, para nós, uma organização social ehierárquica, com seu chefe humano e com sua constituição jurídica. Tomás deAquino defende a igreja como uma sociedade perfeita, dotada de poderexecutivo, poder legislativo e poder judiciário. A igreja, segundo este conceitoteológico, desenvolvido desde o quarto século, é uma organização estatal, cujofuncionamento obedece às mesmas normas de qualquer outro governo.Este é o aspecto jurídico-legal da igreja.No Evangelho, porém, a palavra igreja nada tem que ver com este conceito.Todo o Evangelho do Cristo gravita em torno do conceito central do “reino deDeus”, ou “reino dos céus” – e esse reino coincide exatamente com o que oEvangelho entende por igreja.Sendo que Jesus falava constantemente do “reino”, perguntaram-lhes osdiscípulos: “Mestre, onde está o reino de Deus?”. Respondeu Jesus: “O reinode Deus não vem com observâncias, nem se pode dizer: ei-lo aqui ei-lo acolá –o reino de Deus está dentro de vós... mas é como um tesouro oculto, comouma luz debaixo do velador, como uma pérola no fundo do mar”.O quinto evangelho, do apóstolo Tomé, encontrado recentemente no Egito, e játraduzida em todas as línguas, também, em português, trata explicitamentedeste reino de Deus, no mundo e no homem, dessa igreja verdadeira, interna,real, invisível.O Mestre nega explicitamente que o reino de Deus possa ser descoberto pormeio de observação; que ele tenha localização geográfica, e possa apontá-lo adedo, dizendo: aqui está o reino, acolá está o reino.Depois, resumindo tudo, termina ele: O reino de Deus está dentro de vós.
  51. 51. A tradução “está entre vós”, como se fosse um fenômeno apenas social, éfalsa; tanto o texto grego do primeiro século como o texto latino posterior dizem“está dentro de vós”, isto é, no interior da alma humana. Com isto nega oMestre que se trate de uma organização social, com sua constituição, seus trêspoderes: executivo, legislativo e judiciário.Na sexta-feira santa, no pretório romano de Jerusalém, Pôncio Pilatos,governador romano da Judéia, perguntou a Jesus se ele era rei, e o acusadorespondeu que sim, mas que o seu reino não era deste mundo.O reino de Deus existe potencialmente em toda a creatura humana, e o homemtem de conscientizar e desenvolver este reino.Hoje em dia, o movimento mundial de auto-conhecimento e auto-realizaçãonão visa outra coisa senão a conscientização do reino de Deus no homem e avivência de acordo com ele.A verdadeira igreja do Cristo nada tem que ver com organização social oujurídico-legal.Por que então foi fundada a igreja visível?A igreja visível foi fundada pelos homens, pelos teólogos, e pode coexistir coma igreja invisível, assim como o corpo é o aspecto material da alma espiritual.Mas seria absurdo dizer que a alma tem cabeça, pernas, braços, etc.A alma ou essência da igreja é o reino interno em cada indivíduo; o corpo ou aexistência da igreja pode ser uma sociedade visível, contanto que esta nãoprocure suplantar aquela, mas viva em perfeita harmonia como manifestaçãovisível da igreja invisível. Em caso de conflito entre o corpo da igreja e a almada igreja devemos abandonar o corpo e afirmar somente a alma.A alma invisível do reino de Deus pode manifestar-se através de vários corposvisíveis – contanto que não haja identificação entre a alma e o corpo, entre oreino interno e a organização externa.Sendo que o grosso da humanidade é e sempre foi infantil e espiritualmenteimaturo, apareceu a mensagem metafísica do Cristo em forma de pedagogiainfantil, como é toda a teologia. Essa interpretação pedagógica da mensagemcósmica do Cristo é um mal necessário, porque a maior parte da humanidadenão está, nem nunca esteve, em condições de compreender e assimilar oespírito do reino invisível – e é melhor que as massas primitivas tenham umadisciplina pedagógica do que nada.Já no primeiro século escrevia Paulo de Tarso aos cristãos: “Aos que, entrevós, são infantes em Cristo, dei-lhes leite para beber – mas aos que sãoadultos em Cristo, dei-lhes comida sólida”.
  52. 52. Vinte séculos não foram suficientes para que muitas dessas crianças setornassem adultas em espírito. A evolução vai com passos mínimos emespaços máximos.Infelizmente, muitos chefes cristãos têm interesse – social, político e financeiroe financeiro – em manter a cristandade no seu estágio infantil de obediênciacega, porque nenhum chefe pode governar homens espiritualmente adultos. Aadultez espiritual é autônoma e auto-determinante, e não obedece servilmentea ordens heterônomas. Se toda a cristandade estivesse espiritualmente adulta,não haveria necessidade da existência de uma igreja visível, porque a igreja éessencialmente invisível, o reino de Deus dentro do homem. Na razão diretaque crescer a Cristocracia, decrescerá a clerocracia. E, quando a Cristocraciativer atingido 100, a clerocracia descerá a 0.Parece que João, no Apocalipse, previu esta Cristocracia triunfante, quandoescrevia: “Haverá um novo céu e uma nova terra, e o reino de Deus seráproclamado sobre a face da terra.”.Os chefes espirituais podem e devem ser orientadores do povo, setasindicadoras ao longo do caminho, mas não intermediários entre o homem eDeus. Mas, para ser orientador e guia para outros, deve o homem ter realizadoem si mesmo o reino de Deus. Do contrário, será um “guia cego guiando outroscegos”.Não basta dizer e fazer – é necessário ser, em espírito e verdade, aquilo querecomendamos aos outros.

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