HUBERTO ROHDENASSIM DIZIA O MESTRE      UNIVERSALISMO
ASSIM DIZIA O MESTREAssim Dizia o Mestre é o terceiro volume da coleção “Sabedoria doEvangelho”, da qual fazem parte Filos...
Verdadeiramente, são estas as palavras e a mensagem deste livro.
ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura...
PRELÚDIOA grande aceitação dos dois primeiros volumes desta série sobre a “Sabedoriado Evangelho” – 1 – Filosofia Cósmica ...
“NINGUÉM VAI AO PAI A NÃO SER POR MIM.”Nenhum judeu, nenhum muçulmano, nenhum chinês, nenhum persa estarádisposto a aceita...
eterno Lógos, o espírito de Deus de que fala o princípio do quarto Evangelho, oespírito eterno, absoluto, infinito, que se...
como a vida universal do cosmos se concretiza e visibiliza sem cessar emmilhares e milhões de organismos vivos individuais...
“ALEGRAI-VOS, PORQUE OS VOSSOS NOMES ESTÃO                  ESCRITOS NO LIVRO DA VIDA ETERNA.”Certo dia, regressaram os di...
no mundo dos objetos quantitativos, se no mundo do sujeito qualitativo nãoexistir um profundo ser.2 – O segundo perigo est...
Alguma vacuidade camuflada em plenitude, isto é, uma grande mentiraapresentada com sendo verdade?... Fogo pintado não dá l...
“DEUS É DEUS DOS VIVOS, E NÃO DOS MORTOS,                 PORQUE PARA ELE TODOS SÃO VIVOS.”Na memorável dissertação que Je...
Quer dizer que nascimento e morte não fazem parte da natureza humanaquando ela atingir a sua perfeição suprema, mas são fu...
Quando a matéria se desmaterializa, passa, primeiramente, pelo estado deenergia luminosa, ainda focalizada e, por isso, vi...
“AMARÁS O SENHOR, TEU DEUS, COM TODO O TEU CORAÇÃO,           COM TODA A TUA ALMA, COM TODA A TUA MENTE                   ...
e na Terra”, porquanto o verdadeiro amor é onipotente por sua próprianatureza.Quem tudo compreende tudo ama.Quem tudo ama ...
Como posso amar afetiva, intelectiva e até fisicamente um Ser que é puroespírito? Como podem o coração, a mente, o corpo a...
“QUEM NÃO RENUNCIAR A TUDO QUE TEM                    NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.”Ter – ou Ser?É a esses dois monossílabos...
intimamente ligado ao ser, o corpo físico. E assim acabou ele de “entrar em suaglória”.Pode parecer estranho e humanamente...
Será que a muitos desses chefes não caberiam as palavras veementes comque o Cristo fulminou os guias de Israel? “Guias ceg...
explorações, brigas, roubos, assassinatos, etc. “A cobiça é a raiz de todos osmales”, dizem os livros sacros.             ...
adquire e nada perde. O fluxo e refluxo incerto de lucros e perdas deixou deexistir para ele, e com isso foi eliminada a f...
“QUEM DE VÓS ME ARGUIRÁ DE UM PECADO?”O pecado só é possível na penumbra da egoconsciência, criada pelo intelecto.Não é po...
Somos distintos de Deus, é certo, porque Deus é transcendente a cada umadas suas creaturas.Mas não estamos separados de De...
“QUEM NÃO ODIAR A SUA PRÓPRIA VIDA                    NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.”“Quem não renunciar a tudo que tem não p...
mais alto e perfeito em sua natureza. A natureza tem “horror ao vácuo”. Não épossível realizarmos uma vacuidade de sentime...
perfeito. A perfeição ignora esses complexos de heroísmo e virtuosidade,porque é inteiramente natural e espontânea.A pleni...
“TENDE FÉ EM DEUS – E TENDE FÉ                             EM MIM TAMBÉM!”Há, nos livros sacros, duas palavras que, em nos...
O que nós, geralmente, entendemos por crer, ter fé, consiste em atos dointelecto e da vontade; mas o que Jesus e os gênios...
Coisa análoga poderíamos dizer do próximo estágio evolutivo desse inseto, alagarta, que, no plano existencial, não é nada ...
Por maiores que, de momento, sejam as diferenças existenciais entre mim e oCristo que apareceu em Jesus, entre essa minha ...
desperte a minha consciência cósmica, que afirma a minha essencialidentidade com Deus. Ora, para que essa consciência cósm...
“O REINO DOS CÉUS É SEMELHANTE                             A UM FERMENTO.”Desta vez foi o divino poeta-filósofo-profeta bu...
pode até sorrir calmamente em face duma tragédia que, outrora, o teria levadoao desespero. Esse homem já vive, aqui mesmo,...
mundo da intelectualidade. Poucos chegam à “castidade” do silêncio espiritual:a mente prostituída dificilmente aceita essa...
“SAIU O SEMEADOR A SEMEAR                            A SUA SEMENTE.”Certas parábolas de Jesus – como as do semeador e do j...
parábola parece desmentir semelhante postulado. Não parece ter havido,desde o início, terrenos de diferente receptividade?...
Voltando à parábola do semeador, não é provável que todos os terrenos nelamencionados fossem simples creação do livre-arbí...
Há homens que não produzem fruto espiritual, porque o seu terreno interior épor demais profano e devassado, como uma estra...
“UM HOMEM TINHA DOIS FILHOS...”A rainha das parábolas de Jesus, chamada, geralmente, a do filho pródigo, nãodevia ser foca...
personalidade, da autonomia do ego personal, que só se pode desenvolverplenamente no longínquo ateísmo de uma separação co...
sobrevém a grande fome de uma incompreendida insatisfação, não só com omundo, mas sobretudo consigo mesmo. Mas o homem não...
do egresso da casa paterna, faz o ingresso para dentro do próprio Eu,preparando o regresso para sua definitiva redenção. E...
O pai lhe fala no “irmão” dele; o despeitado, porém, só lhe chama “teu filho”. Enão tem ele razão? Já não existe afinidade...
“COMO ENTRASTE AQUI                      SEM TERES A VESTE NUPCIAL?”Em todos os livros sacros da humanidade, é a união da ...
Huberto Rohden  - Assim Dizia o Mestre
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Huberto Rohden - Assim Dizia o Mestre

  1. 1. HUBERTO ROHDENASSIM DIZIA O MESTRE UNIVERSALISMO
  2. 2. ASSIM DIZIA O MESTREAssim Dizia o Mestre é o terceiro volume da coleção “Sabedoria doEvangelho”, da qual fazem parte Filosofia Cósmica do Evangelho, O Sermãoda Montanha e O Triunfo da Vida sobre a Morte, todos de autoria do educadore filósofo, professor Huberto Rohden.São tentativas do autor para expor e explicar, numa linguagem filosófica e dosnossos tempos, os “ditos de Jesus”, originariamente compilados e escritospelos evangelistas do primeiro século – Mateus, Marcos, Lucas e João.As palavras do Mestre são, quase todas, alegóricas e simbólicas; paracompreendê-las devemos transcender a faculdade mental e atingir o nívelintuitivo da razão, ou Lógos, pois, a experiência do Evangelho representa amais estupenda verticalidade mística.Rohden faz ver que o cristianismo não é uma ideologia espiritualística. Oprofeta de Nazaré não ensinou uma doutrina “de fuga do mundo”. Ocristianismo não é ascético-espiritualista, nem epicureu-materialista. Ocristianismo é essencialmente cósmico, univérsico, afirmando a bipolaridade danatureza, fora e dentro do homem – a complementaridade das coisas materiaise espirituais. Aliás, como podemos observar, a própria vida do Cristo égenuinamente cósmica; o que lhe mereceu, por parte dos espiritualistasascéticos da época, a alcunha de “comilão e bebedor de vinho, amigo depublicanos e pecadores”.Explica Rohden: “Até ao presente dia é muito mais importante,pedagogicamente, proclamar o Evangelho do recusar do que o Evangelho dousar, porque o abusar é ainda o grande pecado original desta humanidadeprofana. É até perigoso recomendar a um abusador do mundo que use essemundo, porque ele confundirá fatalmente o uso correto com o abuso incorreto aque está habituado; o seu complacente egoísmo facilmente lhe fará crer que éum homem cósmico, quando não saiu ainda das baixadas do homem telúrico.Isto, todavia, não invalida a nossa tese de que o cristianismo é, em sua íntimaessência, a religião do uso, ou seja, da afirmação do mundo – naturalmentepara os que já se libertaram da velha escravidão do abuso das coisasmateriais.O homem cósmico ou crístico, tem que passar pela escola ascética dadisciplina espiritual, a fim de atingir a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.
  3. 3. Verdadeiramente, são estas as palavras e a mensagem deste livro.
  4. 4. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização edispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  5. 5. PRELÚDIOA grande aceitação dos dois primeiros volumes desta série sobre a “Sabedoriado Evangelho” – 1 – Filosofia Cósmica do Evangelho; 2 – O Sermão daMontanha – evidenciou a necessidade de encararmos a mensagem doNazareno sob o ponto de vista puramente espiritual, independente de qualquerteologia eclesiástica. A Era do Aquário em que acabamos de entrar exige umavisão universalista do Evangelho, cujo caráter é essencialmente cósmico.Dentro em breve, se Deus quiser, seguirá o quarto e último volume da série,sob o título O Triunfo da Vida sobre a Morte, abrangendo as palavrasproferidas pelo divino Mestre na última semana da sua vida mortal e no períodoapós a sua ressurreição.A grande dificuldade de compreendermos o espírito da Sabedoria doEvangelho está na falta de vivência do seu conteúdo. Ninguém sabe ecompreende, de fato, senão aquilo que vive intimamente, ou melhor, aquilo queele é nas últimas profundezas do seu ser. Saber é ser. Só quando o homem sedespoja de vez do “homem velho”, que anda ao sabor das suasconcupiscências, e se reveste do “homem novo, feito em verdade, justiça esantidade”, é que ele compreende realmente a alma do Evangelho. E, porquepoucos praticam esse misterioso “egocídio”, são muitos os chamados e poucosos escolhidos.Para que o homem cruze a invisível fronteira que medeia entre a simplesanálise mental e teológica do Evangelho e sua intuição espiritual e cósmica, énecessário que ele crie dentro de si um clima ético favorável, porque a vivênciaética é o preliminar indispensável para a experiência mística, sem a qual oEvangelho continua um “tesouro oculto”.Essa experiência íntima abrirá ao homem purificado as portas secretas paranovos mundos, nunca dantes sabidos nem saboreados.A “via purgativa” precede necessariamente a “via iluminativa”, e esta éprecursora da “via unitiva”. Ninguém sabe o que é Deus e o Cristo sem essetríplice processo ascensional da purificação, iluminação e união.“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais entrou em coraçãohumano o que Deus preparou àqueles que o amam”.
  6. 6. “NINGUÉM VAI AO PAI A NÃO SER POR MIM.”Nenhum judeu, nenhum muçulmano, nenhum chinês, nenhum persa estarádisposto a aceitar esta afirmação categórica de Jesus, no sentido em quecertos cristãos costumam tomá-la. A maioria da humanidade não pertence aocristianismo eclesiástico, organizado. Reconhecem como seus chefesespirituais a Moisés, Maomé, Krishna, Buda, Zaratustra e outros.Afirmação categórica como a que encima este capítulo, quando tomada nosentido costumeiro, desune a humanidade, criando ódios sectários e guerrasde religião.Entretanto, a culpa desses males não cabe ao inspirado autor destas palavras,mas à falsa interpretação dos que se dizem seus discípulos, sem possuírem oespírito do grande Iluminado.Todo o mal está na confusão de dois elementos distintos: Jesus e o Cristo.O Divino Logos, ou Verbo, se uniu inseparavelmente ao humano Jesus, masessa união não aniquilou a distinção entre os dois elementos, divino e humano.O eterno Logos, depois de se unir a Jesus, filho de Maria, chama-se o“Ungido”, ou, em grego, o “Christós”.Nenhum homem que não receba essa mesma unção (“chrisma”) do espírito deDeus pode ir ao Pai. Ninguém vai a Deus a não ser através da unção doespírito de Deus. A nossa natureza humana deve ser tão penetrada epermeada do espírito de Deus que possamos dizer com Jesus Cristo: “Eu e oPai somos um”.É nisso que consiste a verdadeira redenção e salvação do homem: narealização dessa suprema cristificação.Por espaço de diversos anos fui discípulo de um grande mestre espiritualoriental, e nunca ouvi de lábios cristãos maiores apoteoses ao Cristo do que daparte desse gentio. Nas aulas de filosofia e nas funções litúrgicas, esse hindusó falava no Cristo, e o volume de 101 orações por ele compostas só falavamdo Cristo como único caminho à comunhão com Deus. Nenhuma estranhezanos causava a nós, discípulos do brâmane hindu, essa sua atitudeessencialmente cristã, porque todos nós sabíamos que pela palavra “Cristo”não entendia ele algum indivíduo humano, fundador duma determinada religiãoou igreja: não entendia a Jesus de Nazaré, filho da Virgem Maria, mas sim o
  7. 7. eterno Lógos, o espírito de Deus de que fala o princípio do quarto Evangelho, oespírito eterno, absoluto, infinito, que se fez carne e habitou – e continua ahabitar – em nós: “Eu estou convosco todos os dias até à consumação dosséculos”, “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estou eu nomeio deles”.Em tempo algum da história da humanidade deixou o divino Logos de habitarem nós; mas nem sempre encontra veículos humanos assaz receptivos e purospara se manifestar com tamanho esplendor como fez na pessoa de Jesus deNazaré, “cheio de graça e verdade”.O divino Logos encarnou-se em Moisés, em Isaías, em Jó, em Krishna, emBuda, em Zaratustra, em Maomé, em Gandhi, e muitos outros veículoshumanos. Quando colocamos uma luz sob um recipiente opaco, nadapercebemos dessa luz, embora ela esteja presente. Se lhe dermos uminvólucro translúcido, percebemos a sua presença de um modo indireto. Masse essa mesma luz dermos um cristal transparente, a veremos em toda a suaclaridade.Em Jesus de Nazaré encontrou o divino Logos a mais perfeita expressão atéhoje conhecida aqui na Terra, e por isso nós cultuamos o Cristo em Jesuscomo o apogeu das revelações da Divindade.Grande parte da humanidade não consegue ainda compreender a verdade daimanência de Deus no mundo, e a imanência do Cristo no homem. É bem maisfácil, para o homem comum, compreender a transcendência de Deus e doCristo – o Deus para além do mundo, e o Cristo fora do homem – do que a suaimanência no mundo e no homem. Muitos transcendentalistas receiam oconceito da imanência porque lhes parece destruir a transcendência.Entretanto, laboram em erro! A afirmação da imanência não nega atranscendência: pelo contrário, esta inclui aquela, e aquela inclui esta. O Deusque está para além do mundo está também dentro do mundo e o Cristo queestava e está em Jesus está também em cada um de nós, uma vez que ele “éa luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo”. O Cristointerno é o Cristo externo, assim como o Deus imanente é o Deustranscendente.Mas a compreensão dessa verdade supõe notável maturidade espiritual, quenem todos os homens possuem ainda.As formas visíveis do invisível Logos sucedem-se, no tempo e no espaço,percorrendo diversos graus de perfeição ou imperfeição, consoante o maior oumenor grau de receptividade de seus veículos humanos temporários. Mas oeterno espírito de Deus, o Logos, paira acima dessas vicissitudes múltiplas emultiformes – assim como as ondas na superfície do mar se sucedem emformas várias sem que o oceano deixe de ser sempre um e o mesmo, assim
  8. 8. como a vida universal do cosmos se concretiza e visibiliza sem cessar emmilhares e milhões de organismos vivos individuais, sem aumentarem nemdiminuírem a Vida em si mesma. ***Em véspera de sua morte, dirigindo-se ao Pai eterno, diz Jesus: “Glorifica-me,ó Pai, com aquela glória que eu tinha em ti, antes que o mundo fosse feito!”Quem tinha essa glória antes da creação do mundo?Certamente não o Jesus humano, que não existia ainda, mas sim o Cristodivino, que estava com Deus, e encarnou no filho de Maria.“Ninguém vem ao Pai a não ser por mim.” Abraão, Moisés, Davi e muitosoutros foram ao Pai por meio do Cristo, muito antes que esse Cristo se tivesserevelado em Jesus. A redenção vem do Cristo. “Eu sei que meu redentor vive!”– exclama Jó, no meio dos seus sofrimentos, professando a fé no CristoRedentor, milênios antes do nascimento de Jesus. ***O nosso tradicional dualismo ocidental opõe barreira à evolução dessaconsciência do nosso Cristo interno, imanente. Para a maioria dos cristãos, oCristo é apenas aquele homem que, há quase dois mil anos, viveu em terraslongínquas, e no qual se deve crer, sem jamais poder experimentá-lovitalmente, aqui na Terra, assim como Paulo de Tarso o vivia quandoexclamava: “Já não vivo eu – o Cristo é que vive em mim!”Seria grotesco supor que Paulo acreditasse que a pessoa humana de Jesustivesse tomado posse dele, de maneira que nele houvesse uma duplicata depersonalidades, uma chamada Paulo e a outra chamada Jesus. O que oapóstolo quer dizer é que nele acordou o Cristo que nele estivera dormentetantos anos, o mesmo Cristo que em Jesus estava gloriosamente operante.É, pois, necessário que todo homem que queira ir ao Pai acorde em si o Cristoe o faça soberano da sua vida, porque a todos aqueles “que o recebem dá-lhesele o poder de se tornarem filhos de Deus”.“Ninguém vem ao Pai senão por mim.”Ninguém alcança a redenção, o reino dos céus, a não ser que nasça de novopelo espírito.
  9. 9. “ALEGRAI-VOS, PORQUE OS VOSSOS NOMES ESTÃO ESCRITOS NO LIVRO DA VIDA ETERNA.”Certo dia, regressaram os discípulos de Jesus de uma excursão apostólica ereferiram ao Mestre, cheios de jubiloso entusiasmo, que os próprios demônioslhes estavam sujeitos. O Mestre, porém, replicou calmamente: “Não vosalegreis pelo fato de que os demônios vos estejam sujeitos: alegrai-vos antesporque os vossos nomes estão escritos no livro da vida eterna.”Com outras palavras: o alvo principal do apostolado não está nos resultadosvisíveis da atividade externa, mas sim na invisível realidade da santidadeinterna. Ser é mais importante que fazer.Até os nossos dias, são bem mais numerosos os homens que põem maiorênfase nas atividades externas do que na atitude interna; dificilmentecompreendem que esta é mais importante do que aquelas.A atividade social não tem valor autônomo em si mesma, se não brotar daatitude mística do homem. Pouco importa, afinal de contas, o que o homemfaça ou diga – o que importa, e muitíssimo, é o que o homem é. Podem ostrabalhos de Marta ser bons e louváveis em si mesmos, mas se não forem onatural eflúvio e a manifestação espontânea da atitude interna de Maria, sãooutros tantos zeros, pequenos e grandes, cuja soma ou produto será sempreigual a zero. Somente o fator espiritual, o grande “1” vertical, é que podeconferir valor e plenitude a essas vacuidades horizontais: 1.000.000.Há nas atividades externas, quando dissociadas da realidade interna, doisgravíssimos perigos.1 – Essas atividades, facilmente, embalam seu autor numa falsa segurança,criando nele uma complacente auto-suficiência em face dos resultadoscolhidos, impedindo-o de passar para além daquilo que já realizou, ou julga terrealizado. Essa suava auto-ilusão e complacente suficiência são o maiordesastre espiritual para o homem externamente ativo e internamente passivo,porque o fazem entrar numa zona de estagnação espiritual. Ai do homemplenamente satisfeito com seus trabalhos externos! O único fator que podepreludiar a sua redenção é uma profunda insatisfação consigo mesmo.Incomparavelmente mais importante que os mais gloriosos trabalhos no planohorizontal é a intensificação do ser vertical. Pouco vale o fazer, o dizer e o ter
  10. 10. no mundo dos objetos quantitativos, se no mundo do sujeito qualitativo nãoexistir um profundo ser.2 – O segundo perigo está em que esse homem exteriorizado julgue influirsobre seus semelhantes com o que faz e diz – quando é impossível promover averdadeira conversão de outrem se eu mesmo não sou um genuíno e autênticoconvertido, isto é, um homem intimamente unido a Deus. Só o meu ser é quepode influir sobre o ser de outros; mas, se o meu ser é fraco, não poderá darforça aos fracos. Só um poderoso positivo é que pode atuar sobre os negativosem derredor; se eu mesmo não for 100% positivo, por uma intensa e profundaexperiência de Deus, não poderei exercer influência real sobre os outros,igualmente negativos. Podem os meus ouvintes ou leitores admirar-me, sim, eaplaudir-me; mas não se sentirão com forças para abandonar o mundo noturnodas suas misérias morais e entrar no mundo diurno da virtude e santidade,porque não veem esse mundo concretizado em minha pessoa. E mesmo nocaso favorável que julgassem esse mundo divino realizado em mim, não seconverteriam realmente a Deus, pois não são as aparências que atuam, massim a realidade, realidade essa que, nesse caso, estaria ausente de mim.Posso, sim, dizer mil vezes, com grande eloquência, que esse mundo doespírito é grandioso e belo, e os meus ouvintes ou leitores, na melhor dashipóteses, crerão nas minhas palavras – mas do crer ao ser vai distânciaenorme. Crer é uma teoria longínqua e vaga – ser é uma realidade propínqua eforte. É dificílima a transição do crer para o ser, e se ninguém vir esse serconcretizado numa pessoa humana, dificilmente passará a encarnar o seulongínquo crer num propínquo ser, isto é, não se converterá porque não me vêconvertido.O convertido é aquele que pode, em verdade, dizer: “Eu e o Pai somos um”.“Já não sou eu que vivo, o Cristo é que vive em mim.”As minhas palavras de não-convertido eloquente, possivelmente, darão muitaluz aos ouvintes ou leitores: mas falta força, que não vem das palavras, mas darealidade espiritual do indivíduo humano, no qual o “Verbo” se tenha feito carnee habite substancialmente, “cheio de graça e de verdade”.Pode ser que um determinado homem tenha a missão de pregar às multidões,escrever livros ou exercer outro trabalho social qualquer – e deve cumprir estasua missão do melhor modo possível.Mas ai dele se vir nessas atividades a principal tarefa da sua vida!Há outra coisa, infinitamente mais importante, do que qualquer trabalho externo– é o próprio homem, a sua plena realização crística, para o qual aquelestrabalhos estão como meios para um fim. Atividades externas nunca devem seroutra coisa a não ser um como que transbordamento espontâneo de umaplenitude interior. Se essa plenitude não existe – que é que pode transbordar?
  11. 11. Alguma vacuidade camuflada em plenitude, isto é, uma grande mentiraapresentada com sendo verdade?... Fogo pintado não dá luz nem calor – aopasso que a menor parcela de fogo real pode atear incêndios e iluminarmundos inteiros.Pouco importa o que o que o homem diga, faça ou tenha – tudo importa o queele é. O que ele é refere-se à qualidade do seu íntimo Eu – o que ele diz, fazou tem refere-se às quantidades do seu externo ego.Referem os Atos dos Apóstolos que, quando os chefes espirituais da primitivaigreja cristã perceberam que se iam dispersando em atividades externas etrabalhos sociais de organização, disseram: “Não convém que nós sirvamos asmesas; vamos nomear auxiliares idôneos para essa tarefa; nós, porém, vamosdedicar-nos à oração e à pregação da palavra do Senhor.”Sabiam esses discípulos do Cristo que o fator decisivo, em qualquer trabalhode caráter espiritual, é a espiritualidade de quem preside a esse trabalho,aquilo que ele é no seu íntimo ser, e não aquilo que ele realiza ou organiza noplano externo.A caridade social realiza grandes obras – mas só o Amor espiritual realiza ohomem.Onde quer que exista um homem plenamente realizado pelo Amor, ali serãorealizadas grandes coisas, e essas coisas serão fecundas e benéficas; masonde não há realização pelo Amor, senão apenas caridade, ali se realizarãoruidosos trabalhos externos, que, por melhores em si mesmo, correrão perigode colapso e desintegração, por falta de sacralidade interior.Pouco importa o que o homem realize no mundo externo dos objetos – tudoimporta o que ele realiza em si mesmo. Uma única auto-realização superatodas as alo-realizações.“Se um único homem chegar à plenitude do Amor, neutralizará o ódio demilhões” (Mahatma Gandhi).Ainda que todos os demônios da Terra, todo o mundo material e astral, meestivessem sujeitos, mas se o meu nome não estivesse escrito no livro da vidaeterna, não haveria redenção para mim.
  12. 12. “DEUS É DEUS DOS VIVOS, E NÃO DOS MORTOS, PORQUE PARA ELE TODOS SÃO VIVOS.”Na memorável dissertação que Jesus teve com os saduceus, que negavam aressurreição, profere ele palavras tão profundas que, por si sós, valem por umainteira filosofia cósmica.Em primeiro lugar, desmascara o erro dos seus tentadores, fazendo-os verque, na futura “eternidade” (em grego: aion, ciclo de longa duração), não secasa nem se dá em casamento, porque os que forem achados dignos dessafutura “eternidade” são como os anjos de Deus nos céus, por serem filhos daressurreição; quer dizer, revestidos de corpo imortal e incorruptível. E, por isso,não necessitam de casamento, porquanto já não há necessidade deprocriação, fim biológico do casamento. Num mundo onde cessou a destruiçãodo corpo pela morte não há razão para a construção de novos corpos, uma vezque a existência do corpo se acha definitivamente estabilizada e garantida pelaincorruptibilidade. Só há necessidade de multiplicação quantitativa de corposenquanto o corpo não houver atingido o seu estágio definitivo de perfeiçãoqualitativa.Quanto menos perfeito ou espiritual é um corpo, tanto maior é nele o instintosexual, que é a voz da mortalidade, a qual, sabendo serem os corpos dosgenitores mortais, procura criar outro corpo a fim de fugir à mortalidade. Ondenão há imortalidade individual reina a tendência de criar mortalidade racial; aimortalidade da espécie ou raça tem de suprir a falta de imortalidade doindivíduo. Mas onde esta se tornou gloriosa realidade, cessa a tendênciasexual da procriação de novos indivíduos. A grande vertical da imortalidadeindividual suplantou a extensa horizontal das individualidades mortais. Por isso,nos grandes gênios espirituais da história é mínimo ou nulo o instinto sexual; ahorizontal da espécie foi absorvida pela vertical do indivíduo. A místicasubstituiu a erótica, nesses “eunucos do reino de Deus”.Certas igrejas, seitas ou grupos religiosos compreenderam essa verdade; mas,como os seus adeptos não haviam atingido a necessária maturidade espiritualpara neutralizar a horizontal do sexo pela vertical do indivíduo, essassociedades legislaram sobre o assunto, criando artificialmente a “lei docelibato”, imposta a indivíduos espiritualmente imaturos, dando ensejo a umdoloroso dualismo de permanente hipocrisia: devem fazer o que fazer nãopodem.
  13. 13. Quer dizer que nascimento e morte não fazem parte da natureza humanaquando ela atingir a sua perfeição suprema, mas são funções temporárias docorpo humano em estado primitivo, material. Quem é “filho da ressurreição” écomo os “anjos de Deus nos céus”, isto é, realizou a transformação do seucorpo material, corruptível, num corpo imaterial, incorruptível. A “ressurreição”não é a revivência do corpo material, mas é a potencialização dinâmica docorpo material num corpo espiritual, como é o das inteligências sobre-humanasque comumente chamamos “anjos”, isto é, “emissários” [1].--------------[1] A palavra grega “ángelos”, em latim “angelus” (anjo), quer dizer literalmente “emissário”, “arauto”,“mensageiro”, designando entidades conscientes e livres revestidas de corpo imaterial e invisível. Quandoum ser desses de alta hierarquia cósmica se opõe a Deus chama-se “satã”, palavra hebraica para“adversário”, em grego “diábolos”, que quer dizer “opositor”. Quando essa entidade superior harmonizacom o espírito de Deus e lhe transmite a vontade aos planos inferiores do cosmos, chama-sesignificativamente “mensageiro” ou “ángelos” (anjo). Tanto anjo como diabo são “lúcifer”, mas, enquantoaquele é um “lúcifer” harmonizado com Deus, este é hostil a Deus.A nossa teologia fala na imortalidade da alma, ao passo que os livros sacrosconsideram imortal o homem todo; verdade é que o grosso da humanidade nãoalcançou ainda a imortalidade corpórea atual, o que não obsta a que essaimortalidade do corpo exista, agora mesmo, em estado potencial. O corpohumano, potencialmente imortal, pode tornar-se atualmente imortal; essatransição da potência para o ato depende da maturação espiritual da alma.Toda alma que tenha atingido, digamos, 100% da consciência espiritualconfere imortalidade atual a seu corpo. A alma imortal unida a um corpo imortalé o estado natural do homem completo, do homem cósmico ou crístico.O corpo espiritual é essencialmente idêntico ao corpo material; apenas o seumodo de ser é diferente. A identidade é perfeita. O homem não terá diversoscorpos, sucessivos, mas um só corpo, com diversos graus de perfeição,consoante o grau de consciência da alma. O corpo é um “templo em que habitao espírito de Deus”, na expressão de Paulo; e nunca deixará de habitar nessesantuário.Quando os discípulos de Jesus, vendo o Mestre redivivo, cuidaram ver umfantasma, apressou-se ele a provar-lhes a perfeita identidade do corpo doressuscitado com o corpo do crucificado, mostrando-lhes os sinais dos cravos eda lança.Ora, o que aconteceu com o corpo de Jesus acontecerá com os corpos detodos os homens quando estes tiverem alcançado suficiente grau decristificação. Elias e Moisés, consoante as Escrituras, não passaram pela mortefísica, mas transformaram os seus corpos materiais em corpos imateriais,desaparecendo assim dos olhos que apenas percebem objetos materiais.
  14. 14. Quando a matéria se desmaterializa, passa, primeiramente, pelo estado deenergia luminosa, ainda focalizada e, por isso, visível; depois, essa mesmaenergia luminosa se torna invisível, porque desfocalizada. Refere o texto que oprofeta Elias ascendeu às alturas arrebatado num “carro de fogo”; quer dizerque o seu corpo desmaterializado pela força da alma foi visto como umanuvem, luminosa, passando depois ao estado da luz cósmica, invisível. DeMoisés refere o texto que foi levado por Deus às alturas do monte Nebo e alidesapareceu misteriosamente, sem que jamais fosse encontrado vestígio docorpo dele. Houve, pois, uma desmaterialização instantânea do corpo deMoisés, de maneira que nem o estágio intermediário da energia luminosa foiverificado. Durante a transfiguração de Jesus, reaparecem, visibilizados, oscorpos imateriais de Elias e Moisés, ao lado do corpo de Jesus, também emestado de energia luminosa. Jesus, desde o início, possuía o poder dedesmaterializar e rematerializar o seu corpo, como mostrou diversas vezesdurante a sua vida mortal; afirma categoricamente: “Ninguém me tira a vida; eudeponho a minha vida (física) e retomo a minha vida quando quero; porqueeste poder me foi dado pelo meu Pai”. O que ele chama o “Pai” é o elementodivino dele: “O Pai está em mim e eu estou no Pai”.Há, sobretudo na Índia, diversos casos em que homens de alta espiritualidadetransformaram o seu corpo material em corpo imaterial, desaparecendo dazona do visível sem terem morrido, e reaparecendo periodicamente, duranteséculos.A ressurreição, ou transformação do corpo, é um ato do “poder de Deus”. Essepoder de Deus está dentro de cada homem em forma de sua alma, o “espíritode Deus que nele habita”, o nosso “Cristo interno”. Mas só quando a alma,superando o testemunho dos sentidos e da mente, alcançar plena consciênciada sua essencial identidade com Deus, e viver essa sua divina identidade peloamor universal, é que ela conquista o “poder de se tornar filho de Deus”, e essepoder divino, saturando todas as células do corpo, confere incorruptibilidade àmatéria corruptível. “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, porque paraele todos são vivos”...
  15. 15. “AMARÁS O SENHOR, TEU DEUS, COM TODO O TEU CORAÇÃO, COM TODA A TUA ALMA, COM TODA A TUA MENTE E COM TODAS AS TUAS FORÇAS.”Não há cristão, nem outro homem religioso, que não afirme amar a Deus domodo como vem expresso nestas luminosas palavras do divino Mestre.Entretanto, vai nisso, quase sempre, uma grande ilusão. Por quê?Porque é absolutamente impossível amar, real e intensamente, um Ser do qualnão se tenha experiência direta e imediata. A imensa maioria dos homensreligiosos apenas crê em Deus. Ora, o objeto da nossa crença ou fé nuncapode ser objeto de um verdadeiro amor. Ninguém pode amar uma doutrina, umdogma, um artigo de fé.O crente, quando muito, quer amar, mas não ama de fato. Querer amar é umato volitivo, uma prova de boa vontade, mas não é amar. O amor, assim comoJesus o descreve nas palavras acima, não é apenas um ato de boa vontade,mas é o resultado de uma profunda, misteriosa e fascinante experiência vital dohomem em toda a sua plenitude – alma, coração, mente e corpo. Ninguémpode amar um ser ausente, do qual ouviu falar e no qual crê apenasvolitivamente. O Deus da nossa crença é um Deus longínquo, transcendente –ao passo que o Deus do nosso amor é um Deus propínquo, imanente. Quemapenas crê num Deus distante, transcendente, pode, sim, querer amá-lo, masnão o pode amar de fato. O amor real é algo intensamente próximo, íntimo,ardente; é uma verdadeira fusão do amante e do amado – “eu e o Pai somosum”, “o Pai está em mim, e eu estou no Pai”.De maneira que, em última análise, há só uma classe de homens que, de fato,amam a Deus – são os verdadeiros místicos, os intuitivos, os videntes domundo da Divindade, os que têm de Deus uma experiência vital, imediata; sãoos que sabem o que é Deus em virtude de um contato direto, de uma vivênciaonipenetrante. São estes os únicos que amam a Deus de todo o coração, detoda a alma, de toda a mente e com todas as forças do seu corpo.Mas, como os verdadeiros místicos são raros, bem poucos são os homens querealmente amam a Deus de acordo com as palavras de Jesus. Talvez que, atéa presente data, um só homem tenha atingido as culminâncias desse amorintegral. E era precisamente esta a razão por que possuía “todo o poder no céu
  16. 16. e na Terra”, porquanto o verdadeiro amor é onipotente por sua próprianatureza.Quem tudo compreende tudo ama.Quem tudo ama tudo pode.Compreender, amar e poder – essas três coisas são na realidade uma só.Enquanto o homem ignora qualquer coisa não ama ainda integralmente,porque o seu amor está limitado àqueles seres que se acham dentro doluminoso círculo da sua compreensão, ao passo que os outros seres que ficamfora dessa zona de compreensão não são nem podem ser objetos do seuamor.Amor universal supõe compreensão universal.E uma vez que o homem tudo compreende e tudo ama – que limite poderiahaver ainda para o seu poder?Se sem limites é o seu compreender e o seu amor, sem limites tem de ser,necessariamente, o seu poder.Onicompreensão é oniamor e onipotência! ***O que no Evangelho de Jesus se chama “fé” é, de fato, uma experiência e umadireta vivência da Suprema Realidade, mas o que as nossas teologias,geralmente, entendem por “fé” não passa de um entender intelectivo ou de umquerer volitivo. E esse entender e esse querer, esse crer, ou esse querer-crer,não podem deixar de ser fracos e insatisfatórios; nada têm da força irresistívelde um profundo e fascinante compreender e viver.No momento em que o homem transpõe a fronteira do seu velho e débil “crer”,entrando na zona de um novo e forte “compreender”, sabe ele pela primeiravez o que Jesus quis dizer com as tão conhecidas e tão desconhecidaspalavras: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tuaalma, de toda a tua mente e com todas as tuas forças.”Alma, coração, mente, forças corpóreas – o homem integral!Compreendemos que o homem possa amar a Deus com a alma, o espírito,porque Deus é espírito.Mas o que, à primeira vista, nos parece estranho é que o homem possa amar aDeus também com o coração, com a mente e até com as forças do corpo.
  17. 17. Como posso amar afetiva, intelectiva e até fisicamente um Ser que é puroespírito? Como podem o coração, a mente, o corpo atingir esse objeto deamor?De fato, se Deus fosse apenas um Deus transcendente, puro espírito abstrato,só os puros espíritos o poderiam amar; mas, sendo Deus, além detranscendente às suas obras, também imanente em cada uma das suascreaturas, é possível que o amemos também com o coração, com a mente ecom o corpo.Deus é inconsciente no mineral.Deus é subconsciente no vegetal.Deus é semiconsciente no animal.Deus é egoconsciente no intelectual.Deus é pleniconsciente no espiritual.Deus é oniconsciente em si mesmo.Se Deus não fosse imanente em suas obras, ninguém o poderia amar com asfaculdades do coração, da mente e do corpo.Como Verdade, Deus é Transcendente.Como Beleza, Deus é Imanente.Quando a Verdade e a Beleza se fundem numa grandiosa sinfonia, surge aestupenda Poesia do Cosmos, síntese de Verdade e Beleza.A Verdade é infinitamente bela.A Beleza é profundamente verdadeira.Por isso, a Vida Eterna é necessariamente a eterna Beatitude, porque nasce doconsórcio do Verdadeiro e do Belo, que é Amor.Enquanto o “amar Deus” é apenas um preceito ético, um dever, um imperativocategórico da consciência moral, não despertou ainda a alma do amor; sóquando esse “amar a Deus” deixa de ser um compulsório dever e setransforma num espontâneo querer, numa luminosa compreensão, numirresistível entusiasmo – então é que o homem entra no “gozo do seu Senhor”.Então sabe ele que é amor.Sabe o que é o Cristo.E sabe o que é ele mesmo.
  18. 18. “QUEM NÃO RENUNCIAR A TUDO QUE TEM NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.”Ter – ou Ser?É a esses dois monossílabos que se reduz, em última análise, toda a filosofiado Evangelho e toda a sabedoria dos séculos.Ter – ou Ser?Duas atitudes eternamente incompatíveis.“Ninguém pode servir a dois senhores.”O homem que tem algo não pode ser alguém e vice-versa.O homem profano só conhece o ter, ou os teres, isto é, certo numero deobjetos quantitativos, que estão ao redor dele, no plano horizontal, e que eleconsidera ingenuamente como sendo seus bens. O profano total nada sabe doseu intimo ser, de algo que não é dele, mas que é ele mesmo. Pode alguémser milionário no plano horizontal dos seus teres, e ser ao mesmo tempomendigo indigente na zona vertical do seu ser. De tanto ter não chega a seralguém.Outros, mais avisados, resolvem renunciar a todos os seus teres e se isolamno puro ser, isto é, na divina essência do seu eterno Eu, sua alma, seu Cristointerno. E, de tão enamorados desse seu verdadeiro ser, desprezamsoberanamente todos os ilusórios teres dos profanos. São os ascetas, osmísticos, os iogues, os austeros desertores de todas as coisas periféricas, osimpávidos bandeirantes da verdade central. E, por mais tenebrosa que a outrospareça essa noite da renúncia absoluta e incondicional, ela é solene egrandiosa, porque possui a fascinante sacralidade das noites estreladas...É a estes que Jesus se refere nas palavras que encimam o presente capítulo:“Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo.”Quer dizer quer qualquer ter, ou posse de objetos externos, impede o homemde ser discípulo do Cristo, ele, que não tinha onde reclinar a cabeça – nadatinha porque tudo era; porque o seu ter descera ao ínfimo nadir, quando o seuser atingira o supremo zênite. Por fim, renunciou também ao ter mais
  19. 19. intimamente ligado ao ser, o corpo físico. E assim acabou ele de “entrar em suaglória”.Pode parecer estranho e humanamente inexequível esse inexorávelradicalismo do Mestre. E não faltou quem mobilizasse contra essa sangrentaverdade da renúncia absoluta e incondicional todas as legiões da dialéticamental, a ver se conseguia salvar do naufrágio ao menos alguns dos seusqueridos ídolos, a ver se conseguia passar pelo “fundo da agulha” pelo menoscom uma parte da bagagem que o profano costuma levar de reboque, nessajornada terrestre; habituado em todos os paraísos da Terra, tentam eles aplicaressa sua política e diplomacia também ao Evangelho do reino de Deus.Entretanto, as palavras do Mestre não admitem vestígio de dúvida; sãoinexoravelmente claras: “Quem não renunciar a tudo que tem não pode sermeu discípulo” – tudo, sem exceção de coisa alguma! O episódio trágico dojovem rico é uma ilustração clássica para essa verdade austera.Tudo quanto o homem possui em bens terrestres torna-o dependente eescravo; mas o reino dos céus é somente para as almas completamente livres.Enquanto o homem tem algo que o mundo lhe possa tirar, ou deseja algo que omundo lhe possa dar, não é definitivamente livre, e por isso discípulo do Cristo.Os nossos teres quantitativos nos excluem do reino dos céus – o nosso serqualitativo nos faz entrar no reino de Deus. Aproximamo-nos de Deus na razãodireta do que somos, e na razão inversa do que temos. O ter é nosso, o ser éde Deus.Mas, em que consiste esse ser?Consiste na consciência da verdade sobre nós mesmos. Se conhecermos averdade sobre nós mesmos, seremos livres. “Conhecereis a verdade, e averdade vos libertará. E, se o Filho do homem vos libertar, sereis realmentelivres.”Essa verdade libertadora sobre nós mesmos porém está na experiência íntimada nossa essencial identidade com Deus – “eu e o Pai somos um” – e nacompleta harmonia da nossa vivência cotidiana com essa verdade suprema. ***Mas... não é necessário que o homem, aqui no mundo, possua certas coisas?Poderá ele viver decentemente sem possuir nada? Bastará aqui na Terra osimples e puro ser? E não é um certo ter compatível com esse ser?É este, talvez, o ponto em que o cristianismo organizado falhou maisdeploravelmente, e, o que é pior, as próprias igrejas cristãs procuram justificaresse espírito de possessividade de seus filhos – tanto mais que os próprioschefes espirituais são, não raro, os maiores possuidores de bens materiais.
  20. 20. Será que a muitos desses chefes não caberiam as palavras veementes comque o Cristo fulminou os guias de Israel? “Guias cegos guiando outros cegos,mas se um cego guiar outro cego ambos acabarão por cair na cova! Ai de vósdoutores da lei! Roubastes a chave do conhecimento do reino de Deus! Vósnão entrais nem permitis que outros entrem!”Não há nada no Evangelho em que o divino Mestre insista com maior rigor efrequência do que no espírito de absoluta e total renúncia aos bens terrenos;por sinal que ele considera a posse desses bens como absolutamenteincompatível com o espírito do reino de Deus.À primeira vista, parece possível e até necessário esse consórcio entre o ser eo ter, razão por que os teólogos e moralistas cristãos de todos os tempos têmtentado realizar esse congraçamento. Entretanto, continua a ser verdadeinconcussa que “ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro”.Ter algo e ser alguém são duas antíteses tão inexoravelmente hostis quenenhum tratado de paz é possível entre essa duas potências, assim comoimpossível é um consórcio entre as trevas e a luz, entre o não e o sim, entre amorte e a vida.Entretanto, sem revogar o que acabamos de dizer, passaremos a explicar doistermos: possuir e administrar. É possível que o homem seja discípulo do Cristoe ao mesmo tempo administre parte dos bens de Deus em benefício dos outrosfilhos de Deus, seus irmãos. Deus é o único dono, proprietário e possuidor detodas as coisas que ele creou; nenhum homem é dono de coisa alguma e, seele se arroga o direito de ser proprietário disso ou daquilo, comete crime de“apropriação indébita”, roubando a Deus e aos filhos de Deus algo que lhe nãopertence. Por isso, nenhum genuíno discípulo do Cristo se considerapossuidor, dono ou proprietário do dinheiro ou de quaisquer bens materiaisque, casualmente, estejam sob a sua administração; considera-seinvariavelmente como simples administrador desses bens, de cujo empregoterá de dar estreitas contas ao legítimo senhor e proprietário.Lemos nos Atos dos Apóstolos que entre os primeiros discípulos do Cristo nãohavia propriedade particular, mas que todos os bens eram comuns. Não existianenhuma lei externa que obrigasse os cristãos a socializarem os seus bens,mas havia neles a lei interna do amor nascido da compreensão da grandeverdade de que todas as coisas do mundo são de Deus e que nenhum filho deDeus tem o direito de arrogar a posse exclusiva duma parte desses bens. Aadministração desses bens deve ser entregue a pessoas que tenham maiorcapacidade, e sobretudo maior espírito de desapego, mas o usufruto dos bensdeve reverter sempre em prol da humanidade como tal. Se os homens seconsiderassem administradores, em vez de possuidores dos bens materiais,seria proclamado o reino de Deus sobre a face da Terra; cessariam guerras,
  21. 21. explorações, brigas, roubos, assassinatos, etc. “A cobiça é a raiz de todos osmales”, dizem os livros sacros. ***Esse conceito de administração, em vez de propriedade, é um simples eespontâneo corolário da realização crística do homem. Em face do nascimentodo sol do ser empalidecem todas as estrelas noturnas do ter. O homem crísticosente intuitivamente a total incompatibilidade entre o “ser discípulo do Cristo” e“possuir bens terrenos”. Essa alternativa representa para ele um dilema delógica inexorável; ou isto – ou aquilo! Uma vez que ele conhece a sua sublimedignidade em Cristo Jesus, como poderia ainda degradar-se ao ponto decolocar a mão, pesadamente, sobre algum pedaço de matéria morta e declararenfaticamente: “Isto aqui é meu, e de mais ninguém!” Semelhante atitude lhepareceria tão incrivelmente ridícula e vergonhosa que ele não a perdoaria a simesmo. E se, pelas forças das circunstâncias, esse homem for obrigado aassinar em cartório, com firma reconhecida, algum documento de propriedade,tem ele plena constância de que esse instrumento de posse vigora apenas noplano horizontal das pobres relações humanas, mas que nada significa na zonavertical da sua atitude espiritual e ética perante Deus e seus irmãos humanos;esse homem sabe que a despeito do que ele assinou sobre as infalíveisestampilhas, testemunhas da humana desconfiança e inconfidência, continua anão ser dono e proprietário de coisa alguma.Também, como poderia um genuíno discípulo do Cristo declarar de boa fé“este objeto me pertence”, quando ele mesmo já não se pertence, uma vez quepertence a Deus e à humanidade? Como apropriar-se de um objeto, se ele jádesapropriou o próprio sujeito? Com o voluntário naufrágio do meu falso eu, doego personal, naufragaram também todos os bens que eu chamava falsamentemeus. A ideia do meu nasceu com a ideia do eu; quando esse eu morre,morrem necessariamente todas as ilusões relacionadas com o meu. O EUverdadeiro, divino, nada sabe de meus, porque o zênite do ser provoca o nadirdo ter; quem tudo é nada tem; a intensa luminosidade do ser aniquila todas astrevas do ter. Quem de fato é discípulo do Cristo nada tem nem quer ter, parasi mesmo, embora possa prestar-se para administrador duma parte dos bensde Deus em prol de seus irmãos.O que eu considero meu só tem função enquanto ainda vive em mim a noçãodo eu físico-mental; no momento em que o meu pequeno eu personal se afogarnas profundezas do TU divino e no vasto NÓS da humanidade, deixa esseconceito de meu ter razão de ser; é como um objeto suspenso no vácuo,depois que se lhe foi subtraído o sujeito de inerência que lhe servia de base esubstrato.Por isso, o homem que atingiu a plenitude do seu ser, pelo despontar daconsciência cósmica, perde toda a noção de posse e propriedade. Nada
  22. 22. adquire e nada perde. O fluxo e refluxo incerto de lucros e perdas deixou deexistir para ele, e com isso foi eliminada a fonte principal da inquietação queatormenta os profanos. Nada possui que o mundo lhe possa tirar, e nadadeseja possuir que o mundo lhe possa dar. Entretanto, se as circunstânciasterrenas o nomearam administrador do patrimônio de Deus e da humanidade,esse homem administra com a máxima solicitude esse patrimônio terrestreuniversal.Pela mesma razão, o homem que se despojou dos teres pela maturação do sernão experimenta a menor dificuldade nem tristeza em passar a outras mãos agestão dos negócios temporários que lhe foi confiada.O grande industrial norte-americano R. G. Le Tourneau, fabricante depossantes máquinas de terraplenagem, mandou colocar sobre a entrada deuma das suas fábricas o seguinte letreiro:“Não digas: Quanto do meu dinheiro eu dou a Deus?Dize antes: Quanto do dinheiro de Deus eu guardo para mim?”Esse homem descobriu que nós não temos dinheiro algum, mas que todas ascoisas do mundo são de Deus; entretanto, pode o administrador dos bens deDeus tirar para si uma pequena “comissão”. Le Tourneau, no princípio, tiravauma comissão de 90% para si, dando 10% a Deus, para fins de altruísmo ereligião; por fim inverteu as quotas, dando 90% a Deus e guardando 10% parasi. Entretanto, mesmo desses 10%, Le Tourneau não se consideravaproprietário, senão apenas administrador, porque também esse dinheiropertencia a Deus e à humanidade.“Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo.”
  23. 23. “QUEM DE VÓS ME ARGUIRÁ DE UM PECADO?”O pecado só é possível na penumbra da egoconsciência, criada pelo intelecto.Não é possível nas trevas da inconsciência, que envolve o mundo dos sentidosmateriais; nem é possível na luz meridiana da pleni-consciência, que ilumina asalturas espirituais da razão, do Logos, que, em sua forma encarnada, se chamao Cristo.Nem a inconsciência nem a pleni-consciência conhecem o pecado. O pecado éum fenômeno privativo da semi-consciência. Nem os sentidos nem a razãopodem pecar; nem o corpo nem a alma pecam – tão-somente a inteligência,esse lúcifer do ego mental.Ora, sendo o Cristo a Razão, o Logos, o Espírito divino – como poderia haverpecado na zona da impecabilidade?Deus é transcendente a tudo e imanente em tudo.Na sua essência, é Deus totalmente presente e imanente em todas as coisas –mas no plano da manifestação dessa sua essência há grandes diferenças.Deus, embora imanente em cada ser, não se manifesta do mesmo modo emtodos os seres. A sua essência é invariável, mas a sua manifestação é variável.Repetimos:Deus é inconsciente no mineral.Deus é subconsciente no vegetal.Deus é semiconsciente no animal.Deus é egoconsciente no intelectual.Deus é pleniconsciente no racional.Deus é oniconsciente em si mesmo.Só na zona penumbral da egoconsciência é que é possível o pecado.O pecado supõe consciência, porém uma consciência imperfeita.O pecado consiste na ilusão da nossa separação de Deus, ilusão essa creadapelo intelecto.
  24. 24. Somos distintos de Deus, é certo, porque Deus é transcendente a cada umadas suas creaturas.Mas não estamos separados de Deus, porque Deus está imanente em cadauma das suas creaturas.Não somos idênticos a Deus nem separados de Deus – mas somos distintosdele, porque somos iguais a Deus pela essência divina universal – e somosdesiguais dele pela existência humana individual.O dualista afirma a transcendência e nega a imanência.O panteísta nega a transcendência e afirma a imanência.O monoteísta absoluto, o monista ou universalista, afirma tanto atranscendência como a imanência, atingindo assim a verdade total.O intelecto separatista nos faz pecar – a razão unista nos redime do pecado.O intelecto é o precursor da razão – a razão integra em si o intelecto.Só nos pode redimir o que é remido.Só o impecável nos pode purificar do pecado.Ninguém vai ao Pai a não ser pelo Cristo – o Cristo, porém, como diz o quartoEvangelho, é o divino Logos, a Razão suprema, que fez carne e habitou entrenós.Habitou entre nós, historicamente, na pessoa de Jesus de Nazaré – e habitaem cada um de nós, permanentemente, na forma daquela “luz que ilumina atodo homem que vem a este mundo... e dá àqueles que a recebem o poder dese tornarem filhos de Deus”; porque esse mesmo Cristo do passado estápresente em cada um de nós, “eu estou convosco todos os dias até àconsumação dos séculos”.“Quem de vós me arguirá de pecado?” – assim poderá dizer todo homem noqual o Cristo interno tenha despertado plenamente, redimindo aegoconsciência pecadora de seu velho egoísmo e penetrando-a toda do amoruniversal.
  25. 25. “QUEM NÃO ODIAR A SUA PRÓPRIA VIDA NÃO PODE SER MEU DISCÍPULO.”“Quem não renunciar a tudo que tem não pode ser meu discípulo” – dura eraessa linguagem da renúncia aos bens externos – duríssima é a exigência deodiarmos a nossa própria vida.Há milhares de homens que fazem a sua meditação diária – entretanto,pouquíssimos são os que conseguem cruzar a misteriosa fronteira que medeiaentre a consciência telúrica do profano e a consciência cósmica do iniciado: ogrande “Pentecostes”, o “renascimento pelo espírito”, a entrada no “terceirocéu”.Por quê?Porque, para a maior parte das pessoas piedosas, a chamada meditação nãopassa de um dulçoroso devaneio, uma espécie de cochilo devocional, um tal ouqual namoro com o mundo espiritual, sem nenhum efeito radical decisivo sobrea vida.A verdadeira meditação, ou cosmo-meditação, porém, não é nada disso; é umtrabalho imensamente sério, doloroso e árduo, pelo menos no princípio, porqueé o rompimento duma barreira multissecular, ou, no dizer do divino Mestre, um“caminho estreito e uma porta apertada”. O cochilo devocional é uma descidapara o plano subconsciente, ao passo que a verdadeira meditação é umasubida ao plano superconsciente, uma entrada no misterioso mundo daDivindade. “O reino dos céus sofre violência, e os que usam de violência otomam de assalto.”Quem de fato entra em meditação ultrapassa não somente o mundo dosobjetos, físicos e mentais, sentimentos e pensamentos dos sentidos e dointelecto, mas transcende também o próprio sujeito personal, o seu ego físico-mental.Ora, é precisamente essa ultrapassagem do sujeito personal que éextremamente difícil, uma vez que esse ego personal se nos apresenta comosendo o nosso verdadeiro Eu individual, o nosso Cristo interno, o espírito deDeus em nós, a nossa alma.Enquanto o homem não descobrir o seu verdadeiro Eu, não pode abrir mão doseu pseudo-eu, seu ego personal, porque esse ego é, para ele, o que há de
  26. 26. mais alto e perfeito em sua natureza. A natureza tem “horror ao vácuo”. Não épossível realizarmos uma vacuidade de sentimentos e pensamentos, enquantonão tivermos uma plenitude maior que substitua essa vacuidade. A renúnciameramente negativa é impossível. É lei de psicologia que o homem não possarenunciar a um bem enquanto não conseguir outro bem maior. Só na presençade algo maior é que desaparece o menor. Ninguém pode perder a consciênciafísico-mental enquanto não adquirir a consciência espiritual. Ninguém, podeabandonar o 10 enquanto não tiver a certeza de alcançar 15 ou 20 ou mais. Arenúncia é um ato eminentemente positivo. O seu fim não é empobrecer, masenriquecer o renunciante. Pela renúncia o homem “morre”, é verdade, masmorre para o pouco a fim de viver para o muito; morre para uma vacuidade afim de viver para uma plenitude. Pela renúncia, o homem transcende o que eleé, a fim de ascender ao que pode vir a ser; ultrapassa uma colina a fim deatingir as alturas do Himalaia. Quem se agarra ao pouco não pode possuir omuito – por falta de renúncia creadora!Na verdade, não há nada mais positivo e creador do que a renúncia voluntária.A renúncia espontânea é o teste da força do homem. Só o forte não tem medode parecer fraco – renunciando.O fraco tem de aparentar força – não renunciando.Uma vez claramente visualizado um bem maior, pode o homem abandonartranquilamente o bem menor, na certeza de que esse abandono não significaempobrecimento, mas enriquecimento.Toda renúncia supõe, portanto, a compreensão e posse de algo maior e maisperfeito do que o objeto da renúncia.Ninguém pode razoavelmente sacrificar a sua vida física enquanto não houvercompreendido, com suficiente nitidez e firmeza, que existe uma vida maior emais abundante do que a do corpo, e que a perda desta não é uma perda real,uma vez que a pequena vida perdida está contida na grande vida recém-adquirida.Ninguém pode, por exemplo, renunciar ao impulso erótico enquanto não tiversaboreado as glórias da mística, como “eunuco do reino de Deus”. Depois deconhecer a mística por vivência própria, pode o homem abandonar a erótica,porque já não representa uma perda em face daquele lucro maior. O menorestá sempre contido no maior. O menor sacrificado por causa do maior é umaperda aparente, mas um lucro real, porque o menor integrado no maior adquiremaior realidade do que antes tinha, quando separado.A mística não é uma virtude, no sentido comum do termo; é uma experiência,uma sabedoria, a compreensão vital da Suprema Realidade. Enquanto ohomem ainda tem sentimentos de heroísmo e virtuosidade, por ser bom, não é
  27. 27. perfeito. A perfeição ignora esses complexos de heroísmo e virtuosidade,porque é inteiramente natural e espontânea.A plenitude do ser eclipsa todo o desejo de ter.Todos os pequenos teres estão contidos no grande ser.Renunciar aos teres do ego humano a fim de ser o grande EU crístico é lucro egrande riqueza.“Quem puder compreendê-lo, compreenda-o!”
  28. 28. “TENDE FÉ EM DEUS – E TENDE FÉ EM MIM TAMBÉM!”Há, nos livros sacros, duas palavras que, em nossos dias, são de uso e abusodiário, mas perderam o seu sentido primitivo, que foi substituído, através dosséculos, por outro, incomparavelmente inferior. Mas os que nada sabem dessapaulatina deturpação do sentido inicial continuam a usar essas palavras echegam a conclusões totalmente errôneas. Ficou o invólucro externo, mudou oconteúdo interno.Essas duas palavras são fé e caridade. No presente capítulo trataremosapenas do sentido da palavra “fé”.O que, geralmente, se entende por esta palavra, em nossos dias, é umsentimento intelectivo e volitivo, mais ou menos vago ou incerto, e umadeterminada doutrina, ou a confiança numa pessoa. Assim, por exemplo,quando alguém deixa de pertencer a este ou àquele grupo religioso – digamos,a certa igreja hierárquica – dizem os teólogos dessa igreja que fulano “perdeu afé”. Que foi que ele perdeu? Perdeu a crença numa determinada teologia ouexegese engendrada por um grupo de homens. Em geral, essa “perda de fé” éuma etapa necessária para a evolução do homem rumo à verdadeira fé.Entretanto, o egoísmo sectário não tolera facilmente que alguém ultrapasse oestágio evolutivo em que os adeptos dessa etapa se encontram. Para ossacerdotes da sinagoga de Israel, Jesus tinha renegado a fé, quando afirmouque o reino de Deus vinha de dentro do próprio homem, e não das mãos dosdoutores da Lei e sacerdotes.O que os teólogos, por via de regra, chamam crer, ter fé, está para a fé realassim como um fogo pintado está para o fogo real. Um fogo artificial, pintadona tela, embora com absoluta fidelidade e arte incomparável, não dá luz nemcalor; com ele não se pode atear fogo em matéria alguma, por maiscombustível – ao passo que um fogo real, embora pequenino como uma chamade fósforo, pode atear gigantescos incêndios, iluminar e acalentar o mundointeiro.O fogo real tem a propriedade dinâmica de produzir “reação em cadeia”,apoderando-se sucessivamente de todos os combustíveis ao seu alcance, aopasso que o fogo artificial é essencialmente estático e inerte e não tende acomunicar-se ao ambiente.
  29. 29. O que nós, geralmente, entendemos por crer, ter fé, consiste em atos dointelecto e da vontade; mas o que Jesus e os gênios espirituais da humanidadechamam fé é uma experiência direta e imediata do mundo espiritual, do mundoinvisível de Deus, é um contato vital com o Infinito, o Absoluto, o Eterno.A fé verdadeira, como aparece nas páginas dos livros sacros, não é adesão auma determinada doutrina, nem a lealdade a esta ou àquela pessoa querepresenta certa teologia; mas é uma experiência íntima, um compreender esaber intuitivo, uma invasão ou eclosão do mundo divino no homem, uma comoque linha vertical que vem de ignotas alturas e vai a misteriosas profundidades;a fé é um contato direto entre Deus e o homem, por mais inexplicável que sejaesse contato. Tudo que é anterior a essa fé e, por assim dizer, horizontal,humano: nesse plano preliminar é o homem que age e produz; mas, quando amisteriosa vertical corta a horizontal, é Deus mesmo que age e produz, supostoque o homem se tenha tornado receptivo para essa invasão do mundo divino.Tanto essa receptividade prévia como essa mesma experiência divina é que oslivros sacros chamam fé (em latim fides, em grego Pistis).Para concretizarmos essa grande verdade, seja-nos permitido usar umacomparação ingênua tirada da natureza orgânica.Debaixo duma folha verde se acha um ovinho de borboleta. Esse ovinho é umaborboleta?É – e não é.Atualmente não é borboleta – potencialmente, é. Em sua íntima essência, esseminúsculo ovinho é uma borboleta; em sua existência externa, não é. Querdizer que a íntima essência ou potência do ovinho e da borboleta são idênticas;a sua verdadeira natureza é uma só. Mas no plano evolutivo da existência ouatualidade, há uma grande diferença entre o ovo e a borboleta nele contidapotencialmente. O lepidóptero adulto possui um maravilhoso corpotrissegmentado, meia dúzia de perninhas duplamente articuladas; um par degrandes olhos hemisféricos, cada um com diversos milhares de facetas visuais;possui uma boca artística em forma de delicada espiral contrátil, com a qualsuga o néctar das flores; dispõe de dois pares de asas, que são obras-primasde resistência, leveza e estética – nada disso se encontra, aparentemente, noovinho, que consiste apenas numa casquinha de quitina sólida e num conteúdolíquido ou viscoso, sem nenhuma diferenciação visível.No plano externo da existência, é enorme a diferença entre o ovinho e aborboleta – mas no plano interno da essência não há diferença alguma; existeperfeita identidade; a natureza do ovinho é a natureza da borboleta. Demaneira que o ovinho, animado de uma “fé” biológica intuitiva, poderia afirmar:“Eu e a borboleta somos um”.
  30. 30. Coisa análoga poderíamos dizer do próximo estágio evolutivo desse inseto, alagarta, que, no plano existencial, não é nada parecida nem com o ovinho nemcom a borboleta, e, no entanto, lhes é idêntica no plano da essência.O mesmo acontece ainda com o terceiro estado, a crisálida, ou casulo. Quempoderia suspeitar que aquela bonequinha imóvel e aparentemente morta fosseidêntica à lagarta comilona ou à borboleta volúvel e multicor?Ora, que é que faz com que o ovo se transforme em lagarta, esta em crisálida,e esta em borboleta?É a fé na identidade da essência das quatro formas existencialmente tãodiferentes. Naturalmente, neste caso, é uma fé biológica, inconsciente ousubconsciente.Se o ovinho pudesse perder essa fé biológica na sua essencial identidade coma lagarta, a crisálida e a borboleta, nunca atingiria nenhum desses estadossuperiores. Se o ovinho não “cresse” intimamente que já é implicitamente, hojemesmo, o que pode vir a ser explicitamente amanhã, nunca se processariaessa metamorfose. A realidade interna produz as formas externas. A essênciacausa as existências. A causa invisível produz os efeitos visíveis. No momentoem que o ovinho, a lagarta ou a crisálida perdessem a sua fé biológica nafutura borboleta, estaria cortada a linha da continuidade vital, roto um elo, dacadeia ovo-lagarta-crisálida-borboleta, e este último elo, desligado dos outros,nunca apareceria como realidade definitiva. Estaria destruída a profundaharmonia essencial que vigora entre a alma do ovinho e a alma da borboleta, eseus intermediários, e, devido a essa falta de nexo e harmonia vital, nãohaveria transição de uma forma de existir para outra, porque o que tornapossível essa transição de estado a estado é a fé numa profunda identidadeessencial a permear todas as diferenças existenciais. A fé afirma uma unidadeinvisível no meio das diversidades visíveis. ***Eis aí o perfeito simbolismo do que acontece entre o homem imperfeito de hojee o homem perfeito de amanhã – suposto que haja o misterioso vínculo decontinuidade que chamamos fé. Os homens ao redor de nós se encontram emplanos vários de evolução – ovo, lagarta, crisálida; as nossas formasexistenciais são mais ou menos primitivas e imperfeitas; mas pouco importamessas imperfeições, contanto que através de todas elas o homem, em qualquerestágio evolutivo, mantenha firme a linha reta da sua fé essencial no seuestado perfeito de homem integral e crístico, “até que todos cheguem àunidade da fé, ao pleno conhecimento do filho de Deus, ao estado do homemperfeito, à medida da madureza da plenitude do Cristo” (Ef. 4,13).
  31. 31. Por maiores que, de momento, sejam as diferenças existenciais entre mim e oCristo que apareceu em Jesus, entre essa minha “lagarta” e a “borboleta” dele,eu sei que, no plano da essência, há um elemento de identidade entre mim e oCristo. Diferente é o grau de evolução, idêntico é o elemento básico. Eu possoser explicitamente o que Cristo em Jesus era e é, por que implicitamente já souo que ele é. “Vós fareis as mesmas obras que eu faço, e fareis obras maioresque estas”, disse ele a todos os seus seguidores. “Eu e o Pai somos um; o Paiestá em mim e eu estou no Pai; o Pai está em vós e vós estais no Pai”. “Nãosou eu que vivo – pode dizer cada um de nós –, o Cristo é que vive em mim”.Em Cristo Jesus estava e está, em plena evolução, a consciência da suaessencial identidade com o Pai – em mim está essa mesma consciência, masainda obscuramente, num estágio primitivo, embrionário, incompleto. ***Há para mim, e para todos os homens, dois grandes perigos nesse caminho deevolução rumo ao Cristo: 1) o dualismo; 2) o panteísmo. Quem, em vista dasdiferenças existenciais, não crê na sua identidade essencial com Deus nãopode chegar à “plena madureza com o Cristo”, porque cortou a linha vital da fé;quem, por outro lado, em face da sua identidade essencial com Deus, perde devista as suas diferenças existenciais, identificando-se simplesmente com Deus,esse não pode progredir rumo ao Cristo, porque já se julga temerariamente nofim da jornada.O dualista peca por deficiência da fé.O panteísta peca por excesso de crença.Mas tanto a deficiência de fé como o excesso de crença matam a verdadeirafé.Se um ovinho não crê que possa vir a ser borboleta, ou acha que já é borboletaatualizada – nunca virá a ser borboleta. É necessário crer tanto na identidadeda essência como na diversidade da existência, para que a alma daquelapossa vivificar o corpo desta.A fé verdadeira e genuína é, portanto, uma convicção íntima de que eu,essencialmente, sou idêntico a Deus (“Vós sois deuses”, disse Jesus), masque, existencialmente, sou infinitamente inferior a Deus. ***Que posso fazer para desenvolver em mim essa fé?Sendo que a minha consciência telúrica, baseada no testemunho dos sentidose do intelecto, só conhece diferença e distância entre mim e Deus, tenho deultrapassar essa experiência física co-mental e entrar numa zona onde
  32. 32. desperte a minha consciência cósmica, que afirma a minha essencialidentidade com Deus. Ora, para que essa consciência cósmica possa falar, énecessário que a consciência telúrica se cale, pelo menos de vez em quando,até que aquela adquira suficiente poder sobre esta. Tenho de estabelecer, pois,as minhas horas de contato direto com o mundo invisível, até que ele me tornetão real como o mundo visível, ou mais real ainda. Impor silêncio temporárioaos sentidos e ao intelecto é indispensável para ouvir a voz silenciosa da razãoou da alma, o Deus em mim.Além disso, tenho de estabelecer perfeita harmonia ética entre o mundo daminha fé e o mundo da minha vida cotidiana. Devo viver assim como se játivesse perfeita e definitiva experiência do mundo invisível. Essa vivência ética,em sintonia com a minha fé, consiste numa permanente solidariedade comtoda e qualquer vida do universo – solidariedade para cima, para os lados epara baixo, isto é, amor a Deus, aos homens e à natureza. Devo abranger nomeu amor, na minha caridade e na minha simpatia todo e qualquer ser vivo (enão há nenhum ser morto no universo); devo sentir pulsar em minhas artériasas pulsações da vida do cosmos, estabelecendo perfeita solidariedade entremim e tudo que vive fora de mim.Essa vivência ética, pela solidariedade cósmica, me conferirá a sapiênciadefinitiva e completa, revelar-me-á a única e universal paternidade de Deus,manifestada em universal fraternidade humana e simpatia infra-humana.Sentirei e amarei a minha vida na vida de todos os seres vivos, porque é a vidade Deus.Na experiência íntima dessa solidariedade cósmica, atingirá a minha fé a suaúltima e suprema perfeição, transformando-se em amor universal.O homem que chegou a essa plenitude da fé experiencial, e essa maturidadedo amor universal, é onipotente, e compreenderá o que o divino Mestre quisdizer com as palavras: “Se tiverdes fé, ainda que seja como um grão demostarda, e disserdes a este monte: sai daqui e lança-te ao mar, e se nãoduvidardes em vosso coração, crede que assim acontecerá; porque tudo épossível àquele que tem fé...”
  33. 33. “O REINO DOS CÉUS É SEMELHANTE A UM FERMENTO.”Desta vez foi o divino poeta-filósofo-profeta buscar a matéria-prima da suaparábola no ambiente doméstico da dona-de-casa, quando, normalmente, aencontra nos campos de lavoura do homem ou na via social. Entrou pela portada cozinha e viu uma mulher, talvez sua própria mãe, amassando a farinhapara o pão do dia seguinte, viu que tomou um pouco de fermento, previamentepreparado, e foi “escondê-lo”, como ele diz, em “três medidas” de farinha.Depois cobriu a tina ou gamela com um pano e foi-se embora. E, na manhãseguinte, a massa havia crescido grandemente, graças ao fermento nela“escondido”.Essa parábola frisa três aspectos característicos da ação do fermento do reinode Deus no homem: a ação silenciosa, constante e infalível.As “três medidas” da massa humana – isto é, alma, mente e corpo – têm de sertotalmente levedadas, permeadas e vitalizadas pelo misterioso agente.Os efeitos dessa fermentação interna são visíveis na vida ética do homemrenascido pelo espírito – mas a causa dessa transformação continua oculta.A fermentação física consiste na atividade de certos seres microscópicos,unicelulares, chamados fungos, que, quando encontram ambiente propício, semultiplicam rapidamente, produzem gases e arejam a massa compacta dafarinha, fazendo-a “crescer” e tornando-a leve, porosa e de grato sabor. Amassa, depois de fermentada, vai para o forno, e dá em resultado um pão fofoe arejado por milhares de pequeninos reservatórios de aberturas internasproduzidas pelos invisíveis agentes de fermentação.É este símbolo material o perfeito paralelo do simbolizado espiritual do reino deDeus no homem. O homem não deixa de ser o que é, mas o modo como ele éo que é passa por uma grande transformação. A vida desse homem, interna eexterna, uma vez penetrada pelo divino fermento da experiência do reino deDeus, perde o seu caráter duro e pesado, a sua compacta materialidade, eassume algo de leve e arejado, que é mais fácil sentir do que definir. O homemdivinamente levedado já não se abate e acabrunha em face de acontecimentosprovindos das adversidades da natureza ou das perversidades dos homens,porque tem o seu centro de gravitação em outras regiões, inacessíveis a essesagentes externos: considera todos os eventos com certa leveza e serenidade, e
  34. 34. pode até sorrir calmamente em face duma tragédia que, outrora, o teria levadoao desespero. Esse homem já vive, aqui mesmo, a vida eterna, porqueencontrou o seu “ponto de Arquimedes” onde aplicar a alavanca e suspendermundos pesados, como se fossem teias de aranha. A morte repentina de umparente próximo ou amigo querido repercute dolorosamente em seu egoemocional, é certo, mas deixa o seu Eu espiritual perfeitamente equilibrado einvulnerável, calmo e senhor de si e da situação. Uma falência econômica, umainjustiça moral ou social atingem apenas a superfície desse homem, mas asprofundezas do seu ser continuam em perfeita paz e tranquilidade, como osabismos do oceano quando a tormenta lhe revolve a superfície.As “três medidas” da natureza humana foram levedadas pelo poderosofermento crístico que nele estava “escondido”. Sim, “escondido”, oculto, umavez que ninguém pode ver o invisível agente dessa transformação do homem. ***A ação do fermento do reino de Deus no homem é silenciosa, como silenciosassão todas as coisas grandes e sublimes. O que é realmente grande nãonecessita de ruidosa publicidade para se manter e expandir, dispensadeslumbrantes cartazes multicores e altissonante propaganda. Ruído é indíciode fraqueza e pequenez. Quanto maior o silêncio, tanto melhor para agrandeza, porque a alma das coisas grandes está para além das categorias detempo e espaço, que não podem produzir nem destruir o que é eterno e infinito.O homem primitivo, dentro ou fora da mata virgem, necessita de barulhosmúltiplos e violentos, tambores e trombetas, espocar de foguetes, e bombas,gritaria selvagem e descompassada; só assim pode ele sentir suficientementea sua própria existência, que, sem isso como que se esvairia em tênue neblinade incerteza. O homem primitivo necessita desses barulhos, porque só assim,quando o seu sujeito se sente objetivado e refletido no espelho desses ruídosexternos, é que ele é capaz de sentir a sua própria existência. Daí a sua fomeinstintiva por barulhos violentos. Parafraseando o conhecido “cogito, ergo sum”(eu penso, logo existo), de Descartes, poderia o homem primitivo dizer: “Eufaço barulho, logo existo!”. Se não fizesse barulho, não teria suficiente certezada sua existência. De maneira que a plenitude de todo esse barulho externo éatestado da vacuidade interna de seu autor, porque o homem de plenitudeinterna não tem necessidade dessa compensação externa.O homem mais culto, intelectualmente erudito, necessita, geralmente, de outraespécie de ruído, necessita do ruído articulado de discursos, conversas,sermões, conferências, etc. O intelectual necessita de auditórios deintelectuais, e o veículo para transmitir o ruído mental dos seus pensamentos éo ruído verbal de discursos, que nos ouvintes se converte novamente em ruídomental dos pensamentos. Essa “luxúria” mental e verbal é característica no
  35. 35. mundo da intelectualidade. Poucos chegam à “castidade” do silêncio espiritual:a mente prostituída dificilmente aceita essa “virgindade”.Mas o homem, quando ultrapassa essas fronteiras evolutivas, entra na zona deum maravilhoso silêncio, que lhe diz muito mais do que todos os ruídosinarticulados e articulados, dos sentidos e da inteligência.E é nesse silêncio fecundo que o divino fermento começa a trabalharintensamente. ***O fermento espiritual atua constantemente, sem falhas nem intermitências. Ohomem espiritual não depende do bom ou mau tempo, do estado favorável oudesfavorável dos seus nervos, da plenitude ou vacuidade do estômago, doslouvores ou vitupérios de outros homens – a sua fermentação interna é umprocesso totalmente independente de fatores externos, porque esse homemproclamou a independência do seu sujeito sobre a tirania de todos os objetos.O seu ego físico-mental é servo de seu Eu espiritual. O Eu crístico conduz, e oego luciférico é conduzido. Mesmo quando o homem espiritual nada faz,quando descansa ou dorme, a ação do fermento do reino de Deus continuaininterruptamente a atuar no seu interior. A alma, sede desse processo, nãoconhece sono. ***Infalível é a ação do fermento divino no homem, porque é de ótima qualidade.Em si mesmo não poderá jamais ser corrompido. O único obstáculo externo àsua atuação pode ser a liberdade do homem que lhe obstrua os caminhos.Mas, quando deixado a si mesmo, em plena liberdade, o fermento da reino deDeus atua com infalível certeza e precisão.O homem intelectual julga poder traçar o itinerário da sua vida; o seu estreitoluciferismo se arroga à competência de poder dirigir a sua vida. Só depois demuitos sofrimentos e derrotas trágicas é que ele aprende, finalmente, que sóDeus pode traçar o itinerário da sua vida.E então começa o fermento a tomar conta das “três medidas” da naturezahumana – alma, mente e corpo...
  36. 36. “SAIU O SEMEADOR A SEMEAR A SUA SEMENTE.”Certas parábolas de Jesus – como as do semeador e do joio entre o trigo –atuam como terremotos sobre a nossa teologia tradicional.Afirma o Mestre que o semeador – isto é, ele mesmo, o Cristo encarnado – foisemear a boa semente da palavra de Deus – onde?Parte à beira da estrada, onde nem sequer germinou, mas foi calcada aos péspelos transeuntes e devorada pelos passarinhos. Parte caiu em terrenopedregoso, onde brotou, mas não tardou a morrer, por falta de umidade. Outraparte caiu no meio dos espinhos, onde brotou, cresceu precariamente, foisufocada pelos espinheiros, e não frutificou.Apenas pequena parte – talvez 25% – caiu em terreno bom, brotou, cresceu,floresceu e frutificou. Mas nem essa semente produziu toda o mesmo fruto;parte dessa sementeira deu trinta, outra parte sessenta e ainda outra cemgrãos por um.Mas, porque não escolheu o semeador somente terra boa? Por que desperdiçauns 75% da divina semente à beira do caminho, entre pedras e espinheiros?Não sabia ele, de antemão, que em nenhum desses terrenos ia a sementeproduzir fruto?Quer dizer, Deus não escolhe cuidadosamente o terreno propício paraconseguir uma colheita 100% satisfatória; espalha a semente do seu verbo emprofusão, a esmo, como se lhe fosse indiferente a frutificação ou aesterilização. E mesmo o terreno bom é vastamente heterogêneo, tanto assimque parte da semente aí lançada produz trinta grãos por um, outra sessenta eoutra cem.Verdade é que, na parábola, se trata do terreno consciente e livre da almahumana, e a dureza do caminho, o impróprio das pedras e a asfixia pelosespinheiros correm por conta e risco do uso ou abuso da liberdade humana –mas, mesmo assim, não parece bem estranho que o divino semeador não façanenhuma seleção de terreno, quando ele previa esses resultados negativos?...Segundo certas teorias nossas, Deus creou todas as almas iguais e deu atodos os homens a mesma possibilidade de evolução. Afirmamos afoitamenteque a diferença da frutificação vem unicamente do homem – mas o teor dessa
  37. 37. parábola parece desmentir semelhante postulado. Não parece ter havido,desde o início, terrenos de diferente receptividade? Efeito do uso ou abuso daliberdade humana? Mas por que é que alguns homens usam e outros abusamda sua liberdade, se, no princípio, todos eram perfeitamente iguais, com amesma facilidade de praticar o bem? Por que uns fizeram da sua alma terrenoestéril, outros semi-estéril e outros plenamente fecundo?...Essa teoria da perfeita igualdade inicial de todos os homens cabe, certamente,nas ideologias democráticas do nosso tempo – mas será Deus o “grandeDemocrata”? Não parece ele antes o “grande Aristocrata”? E não parece todo oseu Universo, desde o mineral até aos anjos, uma gigantesca hierarquia? Nãopredomina a ideia hierárquica da desigualdade em todos os departamentos danatureza, visível e invisível?Deveras, quem contempla sem prevenções a ordem do Universo não se podefurtar à impressão de que todo ele é uma imensa “Hierarquia Cósmica...” Nãohá dois seres iguais, e a desigualdade vem desde o princípio da sua existência.Nada é padronizado, nada feito pelo mesmo modelo ou chavão.Há quem descubra “injustiça” neste fato de haver Deus creado seres comdiversas possibilidades de evolução; acham que, para evitar “injustiça”, todosos seres deveriam ter a mesma possibilidade de aperfeiçoamento; que todosos minerais deveriam ter a potência de, um dia, passar a ser vegetais, estesdeveriam poder evolver para animais, estes para homens, e os homensdeveriam desenvolver-se em anjos, arcanjos, etc.O mundo de Deus, porém, a despeito das nossas mais belas teorias deigualdade democrática, não é nada democraticamente igual, ignora totalmenteessa decantada “igualdade de direitos”. Mas não há nisso injustiça alguma,como a nossa acanhada inteligência nos que fazer crer. Se Deus tivesseprometido a todos os minerais a evolvibilidade até à altura dos vegetais, e sedepois não cumprisse essa sua promessa (concretizada na potencialidade, dosminerais), então, sim, teríamos injustiça, porque “o prometido é devido”, masessa promessa tácita, ou potencialidade, não existe em todos os minerais. Sealguma substância mineral de fato evolve em organismo vegetal, ésimplesmente uma “graça” divina, e não um “direito”, que o mineral possareclamar.O mundo de Deus é baseado sobre o princípio hierárquico da diversidadegraciosa, e não da monotonia obrigatória. Deus nada deve a ninguém. Tudoque as creaturas são e recebem é inteiramente gratuito, seja pouco, seja muito.Nenhum mineral tem o direito de reclamar, dizendo “por que não me fizestevegetal, animal ou homem?” ***
  38. 38. Voltando à parábola do semeador, não é provável que todos os terrenos nelamencionados fossem simples creação do livre-arbítrio do homem. Todostinham, de início, graus diversos de facilidade ou dificuldade para fazer frutificara semente da palavra de Deus. Não há liberdade completa em nenhumacreatura; só o Creador é que é absolutamente livre. Liberdade é potência,plena liberdade é plena potência ou onipotência. Se o homem fosse totalmentelivre seria onipotente igual a Deus. Os diversos graus de liberdade são herançainicial de cada indivíduo, e essa herança, na primeira etapa, não corre porconta da liberdade dele; é dom gratuito de Deus, é graça divina. Deus dá acada homem o grau de liberdade que lhe apraz. O homem é suficientementelivre para ser responsável por seus atos conscientes, sendo por isso autorresponsável pelo bem e pelo mal que praticar; mas o grau de liberdade eresponsabilidade ética não é o mesmo em todos os homens.Há quem se arvore em advogado da Providência Divina, julgando de seu deverjustificar meticulosamente todos os atos do governo de Deus no Universo. Nofim de todas essas bem-intencionadas apologias, porém, resta sempre vastoresíduo de mistérios inexplicáveis, que formam pedra de tropeço para muitoscépticos e ateus. Partem de uma falsa premissa – de que todas as obras deDeus devam ser justificáveis à luz do intelecto – e depois se escandalizam porque o Deus no Universo não corresponde ao padrão do Deus das suas teoriasintelectualistas.Jesus nunca tentou “explicar” os mistérios de Deus. Tudo quanto se “explica”complica-se, destrói-se até. No fim de todas as “explicações” meramenteanalítico-intelectuais está o caos ou o nada. Saber explicar o explicável eadorar em silêncio o inexplicável – é grande sabedoria. ***Ai de nós se não houvesse mistérios inexplicáveis! Insuportável nos seria estemundo... Quem “explica” a Deus é ateu!...Na parábola dos “trabalhadores na vinha” reaparece esse mesmo mistério dadesigualdade.Em vez de tentarmos explicar o inexplicável e reduzir a fascinante Hierarquiade Deus a uma fastidiosa democracia dos homens, não seria melhor que cadaum de nós trabalhasse jubilosamente com os dotes que lhe couberem, a fim depreencher plenamente o lugar, humilde ou sublime, que ocupa nessa“Hierarquia Cósmica” de Deus?... ***A explicação que o próprio Jesus dá desta parábola não alude a esse aspectometafísico, que o auditório não comportava; limita-se a encarar o sentido éticoda parábola.
  39. 39. Há homens que não produzem fruto espiritual, porque o seu terreno interior épor demais profano e devassado, como uma estrada pública, onde a sementeda palavra de Deus é logo calcada aos pés dos transeuntes e devorada porentidades estranhas ao mundo espiritual. Nem sequer chega a brotar.Outra classe de ouvintes são almas puramente sentimentais; ouvem a palavrade Deus com gosto, ao ponto de verterem lágrimas de emoção; mas logo que arealização dessa palavra lhes custe sacrifício pessoal, desfalecem, por falta deprofundidade e experiência espiritual. Nessas pessoas, a semente divina brotarapidamente, mas não frutifica.Outros ainda, depois de receberem a palavra de Deus, sufocam-na sob umacervo de prazeres e solicitudes mundanas, de maneira que o sujeito do seuEu divino é asfixiado pelos objetos do seu ego humano, e não produzem fruto.Só uma pequena porcentagem de almas humanas oferece ao verbo de Deusterreno propício para brotar, florescer e frutificar. Mas, mesmo entre esses, hánotável diferença de fertilidade. O “terreno bom” dessas almas não é todo igual.Todos produzem, mas o resultado é variado, consoante a maior ou menorreceptividade de cada um. Essa receptividade, porém, é fruto da liberdadehumana.
  40. 40. “UM HOMEM TINHA DOIS FILHOS...”A rainha das parábolas de Jesus, chamada, geralmente, a do filho pródigo, nãodevia ser focalizada num capítulo como este, mas numa obra monumental;porque essa parábola representa um dos mais estupendos documentos dodrama multimilenar da evolução do homem rumo a Deus.O que, em geral, se diz desta parábola, nas igrejas e nos colégios, é apenas oaspecto moral da mesma – mas por debaixo dessa conhecida superfície seestende a incomensurável profundidade cósmica que só uma intensa intuiçãoespiritual pode atingir em silenciosa vivência.Quem é esse jovem inexperiente que deseja abandonar a casa paterna?Quem é esse pai que não tenta dissuadi-lo do seu intento com uma só palavra?E por que não aparece nenhuma mãe a chorar?E que significa essa “porção de substância” a que o filho mais jovem diz terdireito?Por que o pai não pede ao menos que o jovem aventureiro lhe deixe oendereço do seu paradeiro? Por que, durante a longa ausência, não lhe mandaum mensageiro para saber da sua situação?Nada disso acontece. A parábola do filho pródigo está envolta em mistério epermeada de enigmas. Tudo que a nossa inteligência analítica teria esperadoacontecesse não acontece – e nada daquilo que acontece teríamos esperado.É que essa parábola é, mais que outra qualquer, obra de gigante e de gênio.O perfeito paralelo dessa parábola se encontra nas primeiras páginas doGênesis – Moisés e o Cristo traçam o roteiro eterno da humanidade emevolução, esses dois intérpretes máximos do sub e do superconsciente dahumanidade. Dia Moisés, no Gênesis, que o homem do Éden transpôs afronteira dessa sua vida subconsciente e entrou na zona egoconsciente, graçasao despertar da “serpente” da inteligência. É a história da egoficação luciféricado homem, mais tarde completada por sua cristificação espiritual.É o drama telúrico-cósmico de Lúcifer e Logos, a trajetória da inteligência e darazão.Quando a inteligência desperta no homem, começa ele a afastar-se da “casapaterna”, inicia o seu movimento centrífugo, porque sente o despertar da sua
  41. 41. personalidade, da autonomia do ego personal, que só se pode desenvolverplenamente no longínquo ateísmo de uma separação consciente de seu centro.Nesse estágio evolutivo sente o homem a imperiosa necessidade de proclamarem cheio a sua independência, o seu afastamento da escravizante soberaniade Deus – falou a “serpente”, e o homem lhe escutou a voz sedutora. O homemabandona o Éden da casa paterna, na crescente consciência do seu egoluciférico, e ainda longe do seu Eu crístico.E começa o grande drama da evolução luciférico-crística, através do qualalguns conquistam o mais alto Evereste do Himalaia, ao passo que outros seenamoram das sedutoras esplanadas da montanha ou perecem nostenebrosos precipícios que a rodeiam...O “filho mais jovem” do pai reclama a “porção da substância” a que tem direito,diz a Vulgata latina; o texto grego do primeiro século diz que o jovem reclamouo “epibállon tés ousías”, literalmente: “o que convém à natureza”. Queconveniência é essa que o jovem reclama? É aquela parte da sua “ousia”(natureza) que exige evolução longe da casa paterna, isto é, o ego personal, oego separatista, o Lúcifer, dormente na natureza humana.E o pai entrega ao filho a parte da sua natureza, a porção da sua substância, oelemento personal para que vá e o desenvolva, segundo as eternas leis daConstituição Cósmica. O pai não protesta, não incrimina, não dissuade o filho,porque sabe que assim deve ser. Também, como poderia Deus protestarcontra suas próprias leis? Como poderia ele proibir o homem de cometer a felixculpa e o peccatum necessarium (como diz a liturgia da Páscoa) de abandonaro Éden da sua primitiva inconsciência, cair no meio dum campo de “espinhos ede abrolhos” e, por fim, “esmagar a cabeça da serpente” rastejante para serremido pela “serpente erguida às alturas”?...E o jovem aventureiro lá se vai, firme e confiante, em demanda de “um paísdesconhecido” – a zona incógnita da personalidade, da autonomia do ego. Queregião sedutora!...E com isso principia a “vida dissoluta” e o “esbanjamento da substância” quelevara da casa paterna. Esbanjar de fato essa substância não o consegue,geralmente, o homem; extinguir totalmente em si o elemento divino é difícil.Mas o homem, nas vias da evolução personal, se esquece complacentementeda sua verdadeira “ousia” (natureza) divina e se porta como simplespersonalidade humana, autônoma. O ego humano, porém, é formado de corpoe mente. O corpo exige satisfações carnais; a inteligência se identifica comseus pensamentos de orgulho.Passam-se longos anos no plano dessa evolução físico-mental. O homematinge o extremo limite das suas satisfações; esbanja tudo – e então lhe
  42. 42. sobrevém a grande fome de uma incompreendida insatisfação, não só com omundo, mas sobretudo consigo mesmo. Mas o homem não sabe ainda comque encher esse vácuo; já sente, e cada vez mais dolorosamente, ainsatisfação das coisas, dos sentidos e do intelecto, mas não encontrou ainda oobjeto de uma verdadeira satisfação e felicidade.Então tentou o jovem aventureiro em Terra estranha conquistar a felicidadeagarrando-se – o texto grego diz “aglutinando-se”, a Vulgata diz “aderindo” – aum cidadão daquela Terra flagelada por terrível carestia. Como um náufrago seagarra a uma prancha em pleno mar, assim se agarrou esse náufrago do ego àprimeira tábua semipodre que pôde apanhar. Esse cidadão a que o filhopródigo se agarrou era habitante antigo nessa Terra, algum inveterado egoísta,que já não tinha a possibilidade de sentir a sua infelicidade, e era por issohorrorosamente feliz em sua miséria...Mas esse velho cidadão satisfeito consigo mesmo, graças a sua obtusidadeespiritual, não pôde transferir a sua infeliz satisfação para o infeliz insatisfeitoque a ele se agarra; neste grande naufrágio, esse jovem não estava aindasuficientemente fossilizado no seu egoísmo para não sentir a sua profundainfelicidade. O velho egoísta satisfeito manda o jovem egoísta insatisfeito parasua granja, com a ordem de lhe guardar os porcos. Mas as vagens indigestasque os porcos comiam não eram alimento para a fome do jovem. Por algumtempo, sentado no meio da imunda manada, andou ele invejando o crepitanteapetite com que os suínos mastigavam o seu grosseiro repasto – e veio-lhe odesejo de pelo menos “encher a barriga” – implere ventrem suum, como dizcruamente o texto – já que não podia matar a fome com as vagens que davamplena satisfação aos irracionais. Talvez os porcos não fossem felizes, cismavao jovem, mas ao menos não eram infelizes como ele. Tenta então camuflarcom ilusões temporárias a sua infelicidade e narcotizar artificialmente uma vozinterna que não lhe dava sossego. Mas não havia quem lhe desse essasvagens dos irracionais. Ele, o ser humano, não podia involver, regredir ao planodos seres inconscientes, e gozar da infeliz felicidade que eles gozavam...E essa impossibilidade de involução animalesca foi para o jovem o maior dosbenefícios. Descer abaixo do nível do ego não lhe era possível; ficar nessenível lhe era insuportável tortura – resolveu então ultrapassar o seu próprioplano e evolver em vez de involver ou estagnar...Seria de esperar que aquele cidadão que o contratara lhe desse pelo menoscomo passadio as vagens que os porcos comiam, mas, diz o Mestreadmiravelmente, tal não aconteceu. Nem podia acontecer! Ninguém dá o quenão tem. Como podia aquele velho egoísta, autocomplacente e satisfeitoconsigo, dar satisfação ao jovem egoísta, insatisfeito com o que era?...E foi nesse transe doloroso, humilhante e angustiante, que aconteceu o maisglorioso dos prodígios: o jovem pastor de suínos “entrou em si mesmo”. Depois
  43. 43. do egresso da casa paterna, faz o ingresso para dentro do próprio Eu,preparando o regresso para sua definitiva redenção. Entre o egresso e oregresso está invariavelmente esse misterioso ingresso, esse “caminhoestreito”, essa “porta apertada”, esse “fundo de agulha”; quem conseguirpassar por esse desfiladeiro está salvo.“Entrou em si mesmo”, pela primeira vez na vida, porque até essa data tinhaele estado fora de si, andando num círculo vicioso ao redor de si, pelasperiferias do ego físico-mental. Depois de tantas evasões centrífugas, o joveminiciando realiza, finalmente, a feliz invasão centrípeta; ultrapassa o egohumano e encontra-se com seu Eu divino!...E terminou o ocaso em plena alvorada!...E logo despontou na sua alma a verdade sobre si mesmo. Desanuviaram-se oshorizontes... Dissiparam-se as trevas... Houve um grande fiat lux...E fez-se a luz... O jovem viu claramente que ele não era escravo daquele tiranoque o mandara guardar os porcos, nem era pastor de animais imundos; viu queisso não passava de funções temporárias e fictícias da sua humanapersonalidade, mas não era a verdadeira natureza da sua divinaindividualidade, do seu ser real... Verificou, com exultante surpresa, que aindanão esbanjara totalmente o “quinhão da sua natureza”, era ainda filho daquelepai que abandonara; a centelha divina, que tanto tempo dormia sob as cinzas,acabava de romper em vívida chama, ao sopro da tempestade...Conheceu a verdade sobre si mesmo – e a verdade o libertou...Terminado o período egressivo do seu ego luciférico – começa o períodoregressivo do seu Eu crístico...E a luz da verdade foi seguida de perto pela força da realização prática.Levantou-se, deixou os porcos e seu velho tirano – e foi em demanda de seupai. Este lhe corre ao encontro; por sinal que esperava o filho e tinha certezade seu regresso. Abraça-o, beija-o, manda vestir-lhe a preciosa túnica, põe-lheno dedo um anel e calçado nos pés – e segue-se grande solenidade, combanquete, música e bailados, isto é, todas as manifestações de alegria e júbilopela plena realização de um homem.Nisto chega do campo o filho mais velho e, sabendo do que se tratava, recusa-se a tomar parte nos festejos. Tenta o pai persuadi-lo da conveniência dasolenidade, mas o filho continua inflexível; nada compreende do lado positivodo acontecimento; enxerga apenas o aspecto negativo e lembra que ele, hátantos anos, serve ao pai em perfeita obediência, e este nunca lhe dera umcabrito para ele celebrar um banquete com seus amigos.
  44. 44. O pai lhe fala no “irmão” dele; o despeitado, porém, só lhe chama “teu filho”. Enão tem ele razão? Já não existe afinidade entre os dois, entre o profano e oiniciado, entre o homem que espera recompensa por ser bom e aquele que ébom por amor.Não basta cumprir os mandamentos do Pai, não basta evitar o mal e praticar obem – tudo isso é necessário, mas não é suficiente para a plena realização doEu – é necessário ser bom, que é incomparavelmente mais do que fazer obem. Fazer o bem é do plano moral, indispensável como preliminar; é ainda aética pré-mística sacrificial mercenária, que espera ser recompensada – oiniciado, porém, que é intimamente bom, não espera nada disto – amasimplesmente e é feliz nesse amor.E assim termina o Mestre a mais profunda das suas parábolas – a parábolasobre a auto-realização ou cristificação do homem, que percorreu todos osestágios da sua evolução e culminou no homem integral.
  45. 45. “COMO ENTRASTE AQUI SEM TERES A VESTE NUPCIAL?”Em todos os livros sacros da humanidade, é a união da alma com Deussimbolizada por uma festa nupcial. O amor entre esposo e esposa serve deilustração para o amor do Ser Infinito para com o ser finito.Eros tem de emprestar as suas vestes multicores para solenizar a luz incolorda experiência mística.Na erótica temos a integração do masculino no feminino; para realizar o“anthropos” completo na mística, temos a integração da creatura no Creador.Lá, o êxtase da carne – aqui, o êxtase do espírito.Era costume, por ocasião das festas nupciais no Oriente, que o chefe da casaentregasse a cada convidado uma preciosa veste.Aconteceu, porém, diz o Mestre, que aparecesse na sala do banquete umintruso, sem trajar a veste nupcial. E o pai de família disse a esse conviva:“Amigo, como entraste aqui sem teres a veste nupcial?”O interpelado emudeceu, porque não tinha palavras com que justificar a suaentrada ilegal. E o dono da casa deu ordem para que esse homem fosse atadode pés e mãos e lançado nas trevas de fora.Esse homem usurpara o inexorável dispositivo da Constituição Cósmica,segundo a qual nenhum profano (o de fora) pode entrar na zona dos iniciados(os de dentro). Esse homem era um exotérico que, de contrabando, se meterano meio dos esotéricos. Não estava interiormente maduro para participar dobanquete nupcial, porque não havia em sua alma a experiência de Deus, afusão do finito no Infinito, do individual no Universal.Como entrara esse homem na sala do banquete? Ele que, internamente, nãoestava onde externamente se achava? Ele, completamente fora do seuambiente evolutivo?Entrara, ou por conta própria, ou por proteção alheia.Mas ninguém pode entrar no reino dos céus nem pelas forças do ego personalnem em virtude de algum ritualismo externo; só a verdadeira e genuínamaturidade espiritual é que lhe pode dar o direito de tomar parte no banquete

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