Annie Besant - O Poder do Pensamento

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Annie Besant - O Poder do Pensamento

  1. 1. ANNIE BESANTO PODER DOPENSAMENTO SEU CONTROLE E CULTIVO UNIVERSALISMO
  2. 2. ÍNDICEPREFÁCIOINTRODUÇÃO1. A NATUREZA DO PENSAMENTOA cadeia do conhecedor, do cognoscível e do conhecido.2. O CRIADOR DA ILUSÃOO corpo mental e o manas. – A construção e a evolução do corpo mental.3. A TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO4. AS ORIGENS DO PENSAMENTORelação entre sensação e pensamento.5. A MEMÓRIAA natureza da memória. – A má memória. – Memória e antecipação.6. O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTOA observação e seu valor. – A evolução das faculdades mentais. – A educaçãoda mente. – A associação com superiores.7. A CONCENTRAÇÃOA consciência está onde quer que haja um objeto ao qual responda. – Como seconcentrar.8. OBSTÁCULOS À CONCENTRAÇÃOAs mentes erradias. – Os perigos da concentração. – Meditação.9. MODO DE SE FORTALECER O PODER DO PENSAMENTOPreocupação: seu significado e extirpação. O segredo da paz de espírito.10. COMO AJUDAR OS OUTROS POR MEIO DO PENSAMENTOComo ajudar os chamados mortos. – Trabalho do pensamento fora do corpo. –O poder do pensamento combinado.
  3. 3. PREFÁCIOEste pequeno livro pretende ajudar o estudante a examinar sua próprianatureza no que diz espeito ao seu aspecto intelectual. Se conseguir dominaros princípios nele contidos, estará no caminho certo para cooperar com aNatureza em sua própria evolução e para aumentar sua estatura mental maisrapidamente do que seria possível se continuasse a ignorar as condições deseu crescimento.A Introdução pode oferecer algumas dificuldades ao leitor leigo, que poderápassar por alto numa primeira leitura. Contudo, ela é necessária como basepara todos os que desejam compreender a relação do intelecto com as demaispartes de sua natureza e com o mundo exterior. E aqueles que quiseremobedecer à máxima “Conhece-te a ti mesmo” não se devem esquivar de umpequeno esforço mental, nem tampouco esperar que o alimento espiritual caiapronto do céu numa boca preguiçosamente aberta.Se este pequeno livro ajudar mesmo que seja uns poucos estudantes aplicadose esclarecer algumas dificuldades do caminho, seu objetivo terá sidoalcançado. Annie Besant
  4. 4. INTRODUÇÃOProva-se o valor do conhecimento pelo seu poder purificador e enobrecedor davida. Todo estudante ardoroso deseja aplicar o conhecimento teórico, adquiridono estudo da Sabedoria Divina, à evolução do seu próprio caráter e ao auxíliode seu próximo. É para tais estudantes que se escreve esta obra, com aesperança de que uma melhor compreensão de sua própria naturezaintelectual os induza a cultivar determinadamente o que haja de bom nela e aextirpar o que ali haja de mau.A emoção que nos impele a levar uma vida nobre só se aproveita pela metade,se a clara luz da inteligência não nos ilumina a senda da conduta. Assim comoo cego sai do caminho sem o saber, até cair numa fossa, assim também, pelaignorância, a pessoa se aparta do caminho da vida reta, até vir a cair noabismo do mau agir. Verdadeiramente, avídya1 é privação de conhecimento, oprimeiro passo que leva da unidade à separação; só à medida que desapareceavídya diminui a separação, até que o seu completo desaparecimento restitui aPaz Eterna.1. Termo sânscrito: ignorância (N. T.).O EU2 COMO CONHECEDORAo estudar a natureza do homem, separamos o Homem3 dos veículos queusa; o Eu vivente, das vestimentas com que está envolto. O Eu é uno, porvariadas que sejam suas modalidades de manifestação ao funcionar atravésdas diferentes classes de matéria.2. Eu-consciência, e não eu mental (N. T.).3. O ser imortal, o Ego ou Eu Superior, que tanto pode estar encarnado num corpo físicomasculino como num feminino (N. T.).É, por certo, verdade que só existe um Eu; que assim como os raios do Sol, osEus que constituem os Homens verdadeiros não passam de raios do Eusupremo, e cada Eu pode murmurar: “Eu sou Ele”. Mas para o nosso objetivoem vista, considerando um só raio, podemos também afirmar sua própriaunidade inerente, ainda quando esteja oculto sob suas formas.
  5. 5. A Consciência é uma unidade, e as divisões que fazemos nela, ou são feitascom propósito de estudo, ou são ilusões devidas às limitações de nosso poderde percepção, causadas pelos órgãos por cujo meio ela funciona nos mundosinferiores. O fato de as atividades do Eu procederem separadamente de seustrês aspectos de querer, sentir e conhecer, não nos deve cegar a respeito dooutro fato de que não existe separação de substancia: todo o Eu quer, todo oEu sente, todo o Eu conhece. Nem tampouco as funções são totalmenteseparadas; quando quer, também sente e conhece; quando conhece, tambémquer e sente. Uma função é sempre predominante e, algumas vezes, a talponto que encobre por completo as outras duas; mas até na concentração maisintensa do Conhecedor – a mais separada das três funções – sempre estãopresentes um sentir e um querer, latentes mas discerníveis como presentes,por uma atenta análise.Não é fácil esclarecer o conceito fundamental do Eu, mais do que o faz seusimples nome. O Eu é esse Uno consciente, senciente e sempre existente, queem cada qual de nós se reconhece como um ser. Nenhum homem pode pensarde si mesmo como não-existente ou formular-se a si mesmo como “Eu nãosou”. Segundo o expressa Bhagavan Das: “O Eu é a primeira baseindispensável da vida...” segundo as palavras de Vashaspati-Mishra, em seucomentário (o Bhamati) sobre o Sharriraka Bhashya de Sankaracharya:“Ninguém duvida; Eu sou ou não sou?”4 a afirmação de si mesmo como “Eusou” apresenta-se antes de que qualquer outra coisa, acha-se acima e fora detodo argumento. Nenhuma prova pode dar-lhe mais força, nenhuma refutaçãopode debilita-lo. Tanto a prova como a refutação se encontram em “Eu sou”.4. The Science of the Emotion, p. 20.Quando observamos este “Eu sou”, vemos que ele se expressa de três modosdiferentes: a) – lançando energia, a VONTADE, a qual é inerente à ação; b) – aresposta interna, por meio do prazer ou dor, ao choque externo – oSENTIMENTO, a raiz da emoção; c) – o reflexo interno dum Não-Eu, oCONHECIMENTO, a raiz do pensamento. “Eu quero”, “Eu sinto”, “Eu sei” sãoas três afirmações do Eu indivisível, do “Eu sou”.Sob um ou outro destes títulos se podem classificar todas as atividades; emnosso mundo o Eu só se manifesta destes três modos. Assim como todas ascores se originam das três primárias, assim as inumeráveis atividades do Eu seoriginam todas da Vontade, do Sentir e do Conhecer.O Eu como o que quer, o Eu como o que sente, o Eu como o que conhece: eleé o Uno na Eternidade e também a raiz da individualidade no Tempo e noEspaço. Mas o que vamos estudar é o Eu em seu terceiro aspecto, o Eu comoConhecedor.
  6. 6. O NÃO-EU COMO O COGNOSCÍVELO Eu, cuja “natureza é conhecimento”, vê refletido em si mesmo um grandenúmero de formas, e aprende, por experiência, que não pode querer, sentir,nem conhecer em e por meio delas. Descobre que estas formas não sesujeitam ao seu domínio, como o está a primeira forma de que teve consciênciae que ele aprende (erroneamente) a identificar consigo mesmo. Ele quer, enelas não percebe movimento algum em resposta; ele sente, e não mostramsinal algum; ele conhece, e não compartilham do conhecimento. Ele não podedizer nelas “Eu quero”, “Eu sinto”, “Eu conheço”; e finalmente as reconhececomo outros eus nas formas minerais, vegetais, animais, humanas e super-humanas,5 e as generaliza todas sobre um termo compreensível – o Não-Eu –isto é, aquilo em que ele, como Eu separado, não está, em que ele não quer,nem sente, nem conhece. Durante muito tempo responderá deste modo àpergunta:5. Metafisicamente, o aspecto Conhecedor do Eu, ou da Consciência, é a mente, que atuacomo espelho ou refletor do Não-Eu, ou da Matéria, não passando, pois, dum reflexo ouimagem da Matéria e de suas relações, na Consciência. (N. T.)“Que é o Não-Eu?”“Tudo aquilo em que não quero, nem sinto, nem conheço.”E ainda que, verdadeiramente, faça uma análise final, encontrará que tambémseus veículos, exceto a película mais sutil que faz dele um Eu, são partes doNão-Eu, são objetos de conhecimento, são o Cognoscível, não o Conhecedor.Para todo o objetivo prático, sua resposta é exata.O CONHECERA fim de que o Eu possa ser o Conhecedor e o Não-Eu o Cognoscível, tem quese estabelecer entre eles uma relação definida. O Não-Eu tem que afetar o Eu,e o Eu, por sua vez, tem que afetar o Não-Eu. O Conhecer é uma relação entreo Eu e o não-Eu, e a natureza desta relação deve ser a primeira coisa atratarmos, mas convém compreender antes, com clareza, o fato de que oconhecer é uma relação. Implica dualidade; a consciência de um Eu e oreconhecimento de um Não-Eu; a presença de ambos, em contraposição umcom o outro, é necessária ao conhecimento.O Conhecedor, o Cognoscível e o Conhecer são os três em um, que devem sercompreendidos, se se tiver de dirigir o poder do pensamento para o seuobjetivo próprio, que é auxiliar o mundo. Segundo a terminologia ocidental, a
  7. 7. Mente é o Sujeito que conhece; o Objeto é o Cognoscível; a relação entreambos é Conhecimento. Devemos compreender a natureza do Conhecedor, anatureza do Cognoscível e a natureza da relação estabelecida entre ambos, ede que modo se origina tal relação. Uma vez compreendido isto, teremos, emverdade, dado um passo para esse conhecimento de si mesmo, que ésabedoria. Então, verdadeiramente, poderemos ajudar o mundo que nosrodeia, convertendo-nos em seus auxiliares e salvadores; pois este é overdadeiro fim da sabedoria, que havendo acendido em si o fogo do amor,pode tirar o mundo da desgraça, dando-lhe o conhecimento no qual cessa parasempre toda dor.Tal é o objetivo de nosso estudo, pois com razão se diz nos livros da Índia, anação que possui a psicologia mais antiga, e contudo, a mais profunda e sutil,que o objetivo da filosofia é dar fim à dor. Para isso o Conhecedor pensa, paraisso se busca constantemente o Conhecimento. Fazer cessar a dor é a razãofinal da filosofia, e não é verdadeira a sabedoria que não conduza a encontrar aPaz.
  8. 8. CAPÍTULO 1 A NATUREZA DO PENSAMENTOA natureza do pensamento pode ser estudada sob dois pontos de vista: do ladoda consciência, que é conhecimento, ou do lado da forma, por cujo meio seobtém o conhecimento e cuja suscetibilidade às modificações torna possível talobtenção.Em filosofia existem dois extremos que devemos evitar, porque cada um delesignora um lado da vida manifestada. Um considera tudo como consciência,ignorando a essencialidade da forma para condicionar a consciência, paratorná-la possível. E o outro considera tudo como forma, ignorando o fato deque a forma só pode existir em virtude da vida que a anima.A forma e a vida, a matéria e o espírito, o veículo e a consciência sãoinseparáveis na manifestação, e são aspectos indivisíveis d’AQUILO6 ao qualsão inerentes; AQUILO que não é consciência nem o seu veículo, mas a raizde ambos. Uma filosofia que trate de explicar tudo por meio da forma,ignorando a vida, encontrará problemas que lhe será impossível resolver. Umafilosofia que trate de explicar tudo por meio da vida, ignorando as formas,deparará com muros espessos que não poderá transpor. A última palavra nistoé que a consciência e seus veículos, vida e forma, matéria e espírito, são asexpressões temporais dos dois aspectos da Existência não-condicionada. Estasó é conhecida quando se manifesta como a Raiz do Espírito (chamada peloshindus Pratyagatman), o Ser abstrato, o Logos abstrato donde provêm todos osEus individuais, e a Raiz da Matéria (Mulaprakriti) donde provêm todas asformas. Sempre que tem lugar a manifestação, a Raiz do Espírito dánascimento a uma tripla consciência, e a Raiz da Matéria, a uma tripla matéria;debaixo destas está a Realidade Una, porém sempre incognoscível para aconsciência condicionada. A flor jamais vê a raiz donde cresce, por mais quesua vida toda saia dela e sem ela não possa existir.6. AQUILO: o Todo absoluto, o Eterno absoluto, fora do qual nada existe, do qual tudo procedee no qual tudo se resolve; a causa instrumental e material, ao mesmo tempo, do universo; asubstância e essência de que o universo está formado. O Espaço e o Tempo sãosimplesmente formas d’AQUILO (A Doutrina Secreta) (N.T.).O Eu como Conhecedor tem como função característica o reflexo do Não-Eudentro de si mesmo. Assim como uma placa sensível recebe os raios refletidosdos objetos, e esses raios causam modificações na matéria sobre a qual
  9. 9. incidem, de sorte que possam obter imagens dos objetos, assim sucede com oEu em seu aspecto de conhecimento, com referência a todo o externo. Seuveículo é uma esfera onde o Eu recebe do Não-Eu os raios refletidos do EuUno, fazendo aparecer dentro de si imagens que são os reflexos daquilo quenão é ele mesmo. O Conhecedor não conhece as coisas em si, nas primeirasetapas da sua consciência. Só conhece as imagens produzidas dentro delepela ação do Não-Eu em seu ser respondente, as fotografias do mundoexterno. Daí que a mente, veículo do Eu como Conhecedor, tenha sidocomparada a um espelho, em que se vêem as imagens dos objetos colocadosdiante dele.Nós não conhecemos as coisas em si, mas tão-só o efeito que elas produzemem nossa consciência; não os objetos, mas as imagens dos objetos, tal é o quevemos na mente. O mesmo sucede com o espelho: parece que tem os objetosdentro de si; mas esses objetos aparentes são só imagens, ilusões causadaspelos objetos, não os próprios objetos. O mesmo sucede com a mente: em seuconhecimento do universo externo só conhece as imagens ilusórias e não ascoisas em si mesmas.Mas, poderia perguntar-se: “Sucederá o mesmo sempre? Não conheceremosnunca as coisas em si mesmas?” Isto nos conduz a distinção vital entre aconsciência e a matéria em que a consciência funciona, e por seu meiopoderemos encontrar uma resposta a essa pergunta natural da mente humana.Quando a consciência, a fim de uma longa evolução, desenvolve o poder deproduzir dentro de si mesma tudo o que existe fora, então a envoltura dematéria, na qual tem estado funcionando, desprende-se, e a consciência, que éconhecimento, identifica seu Eu com todos os demais Eus, em meio dos quaistem estado se desenvolvendo, e vê como Não-Eu só a matéria relacionadaigualmente com todos os Eus separados. Este é o “um em nós”,7 a união queconstitui o triunfo da evolução em que a consciência se conhece a si mesma eàs demais, e conhece as demais como sendo ela mesma. Por identidade denatureza se alcança o conhecimento perfeito; e o Eu realiza esse estadomaravilhoso em que a identidade não perece e a memória não se perde, porémem que termina a separação, e o Conhecedor, o Conhecer e o Conhecimentose converte em um.7. S. João, 17, 21 (N.T.).É esta a maravilhosa natureza do Eu, que se desenvolve atualmente em nóspor meio do conhecimento, a que temos de estudar a fim de compreendermosa natureza do pensamento; e é necessário vermos claramente o lado ilusório, afim de podermos utilizar a ilusão para transcendê-la. Assim, pois, estudemosagora como se estabelece o Conhecer (a relação entre o Conhecedor e o
  10. 10. Cognoscível) e isto nos conduzirá a perceber mais claramente a natureza dopensamento.A CADEIA DO CONHECEDOR, DO COGNOSCÍVELE DO CONHECERHá uma palavra – vibração – que cada dia que passa se converte mais e maisna nota fundamental da Ciência do Ocidente, assim como desde há muitotempo o tem sido da do Oriente. O movimento é raiz de tudo. A vida émovimento; a consciência é movimento.O movimento, ao afetar a matéria, é vibração. Pensemos no Uno, no Todo,como imutável, sem movimento, pois que no Uno não pode existir omovimento. Só quando há diferenciação ou partes, podemos pensar nomovimento, por se o movimento mudança de lugar na sucessão do tempo.Quando o Uno se converte nos muitos, então surge o movimento, e este é vidae consciência quando é rítmico e regular, e é morte e inconsciência quando éirregular e carece de ritmo. Porque a vida e a morte são irmãs gêmeas,igualmente nascidas do movimento, que é manifestação.O movimento tem que surgir quando o Uno se converte nos muitos, pois que,quando o Uno provoca a separação das partículas, o movimento infinito temque representar a onipresença, ou dito doutro modo, tem que ser o Seu reflexoou imagem na matéria. A essência da matéria é a separatividade, assim comoa do espírito é a unidade, e quando ambos surgem do Uno, como a nata doleite, o reflexo da onipresença desse Uno na multiplicidade da matéria émovimento incessante e infinito. Movimento absoluto (a presença de cadaunidade em movimento em todos os pontos do espaço em cada momento detempo) é idêntico ao repouso, embora repouso sobre outro ponto de vista, sobo da matéria, em lugar do ponto de vista do Espírito.Este movimento regular dá movimentos correspondentes a vibrações namatéria que o envolve, pois cada Jiva, ou unidade separada de consciência,está isolado de todos os demais Jivas por um revestimento de matéria.8 esterevestimento, ao vibrar, comunica suas vibrações à matéria que o rodeia, aqual se converte no meio condutor das vibrações, e este meio comunica, porsua vez, o impulso da vibração à matéria que encerra outro Jiva, fazendo vibraresta unidade de consciência do mesmo modo que a primeira. Nesta série deprivações (que principiam numa consciência, no corpo que as transmite a outrocorpo e por este segundo corpo à consciência que ele encerra) temos a cadeiade vibrações por cujo meio um conhece o outro.
  11. 11. 8. Não existe, em inglês, uma palavra conveniente que traduza a expressão “uma unidadeseparada da consciência”, pois spirit (espírito) e soul (alma) conotam várias peculiaridades emdiferentes escolas de pensamento. Por isso aventuro-me a usar a palavra Jiva, em lugar dadesajeitada expressão, “uma unidade separada da consciência”.O segundo conhece o primeiro, porque reproduz o primeiro em si mesmo eexperimenta assim o que ele experimenta. Há, contudo, uma diferença, poisnosso segundo Jiva estava já em vibração, e seu estado de movimento, depoisde receber o impulso do primeiro, não é uma simples repetição daqueleimpulso, mas uma combinação de seu próprio movimento original com o que selhe impôs de fora e, portanto, não é uma reprodução perfeita: obtém-sesemelhança cada vez mais aproximada, mas a identidade sempre nos escapa.Esta sequência de atos vibratórios se vê amiúde na natureza. Uma chama éum centro de atividade vibratória no éter, por nós chamado calor; estasvibrações ou ondas caloríficas convertem o éter circundante em ondassimilares; suas partículas vibram sob tal impulso, e deste modo o ferro seaquece e se converte por seu turno numa fonte de calor. Assim é que umaserie de vibrações passa dum Jiva para outro, e todos os seres estão inter-relacionados por esta rede de consciência.De igual modo, também na natureza física assinalamos diferentes graus devibrações com nomes diferentes. A uma série se chama luz, à outra calor, oueletricidade, ou som, e assim sucessivamente; todavia, todas são da mesmanatureza, todas são modalidades de movimento do éter,9 e só diferem emgraus de velocidade, correspondentes a diferenças de densidade no éter.9. O som é também, primordialmente, uma vibração etérica.A Vontade, o Sentimento e o Pensamento são da mesma natureza, e diferemem seus fenômenos só pela diferença em seu grau de velocidade respectiva, esutileza relativa do meio. A diferença específica do Pensamento consiste emque suas ondas formam imagens (como sucede com as ondas luminosas aquiembaixo), e não deixa de ter significado que a mesma palavra “reflexo” sejaigualmente empregada nos resultados do movimento de ondas de pensamentoe do da luz. Há uma serie de vibrações numa classe especial de matéria edentro de certo grau de velocidade a que damos o nome de vibrações dopensamento. Estes nomes definem certos fatos da natureza. Existe certacategoria de éter posto em vibração, e suas vibrações afetam nossos olhos; aeste movimento chamamos luz. Existe outro éter muito mais sútil, cujasvibrações são percebidas, isto é, são respondidas pela mente; a estemovimento chamamos pensamento.Estamos rodeados de matéria de diferentes densidades, e aos movimentos quenela se produzem damos o nome segundo nos afetem, segundo sejam
  12. 12. respondidos pelos diferentes órgãos de nossos corpos grosseiros ou sutis.Chamamos “luz” a certos movimentos que nos afetam os olhos; chamamos“pensamento” a certos movimentos que afetam outro órgão, a mente. O “ver”ocorre quando a luz do éter ondula dum objeto para nossos olhos; o “pensar”ocorre quando o éter do pensamento se move em ondas dum objeto paranossa mente. Um não é mais nem menos misterioso que o outro.Ao tratar da mente, veremos que as modificações na disposição de seuscomponentes são causadas pelo contato de ondas de pensamento, e que nopensar concreto experimentamos novamente os choques originais de fora. OConhecedor tem sua atividade nestas vibrações, e tudo aquilo a que elaspodem responder ou tudo que elas podem reproduzir, é Conhecimento. Opensamento é uma reprodução dentro da mente do Conhecedor, daquilo quenão é o Conhecedor, que não é o Eu; é uma pintura causada por umacombinação de movimentos, de ondas, literalmente uma imagem. Uma partedo Não-Eu vibra, e ao vibrar em resposta ao Conhecedor, esta parte seconverte no Cognoscível; a matéria que vibra entre eles torna possível oConhecer, pondo-os em mútuo contato. Deste modo se estabelece e mantém acadeia do Conhecedor, do Cognoscível e do Conhecer.
  13. 13. CAPÍTULO 2 O CRIADOR DA ILUSÃO“Uma vez que tenha chegado a permanecer indiferente aos objetos depercepção, deve o discípulo buscar o Rajá dos Sentidos, o produtor doPensamento, aquilo que desperta a ilusão... A Mente é o grande assassino doReal.” Assim está escrito num dos fragmentos10 traduzidos por H. P. Blavatskydo Livro dos Preceitos Áureos, esse famoso poema em prosa, que é uma desuas mais seletas dádivas ao mundo. E não há título mais significativo para amente que o de “Criador da Ilusão”.10. Preceitos do livrinho A Voz do Silêncio.A mente não é o Conhecedor e dele deve ser distinguida cuidadosamente.Muitas das confusões e dificuldades que enchem de perplexidade o estudantese originam de não se lembrar ele de fazer a distinção entre o Conhecedor e amente, a qual é um instrumento para obter Conhecimento. É como se oescultor estivesse perfeitamente identificado com o cinzel.A mente é fundamentalmente dual e material, estando constituída pelo CorpoCausal e Manas, a Mente abstrata, e pelo Corpo Mental e Manas, a menteconcreta. O próprio Manas é um reflexo na matéria atômica daquele aspecto doEu, que é conhecimento. Esta mente limita o Jiva, o qual, à medida queaumenta a sua consciência, se encontra impedido por ela por todos os lados.Assim como um homem que, para executar determinada coisa, use um par deluvas grossas, nota que suas mãos perdem muito do seu poder de sensação,sua delicadeza de tato, sua habilidade para recolher objetos pequenos, sendosó capazes de agarrar objetos grandes e de sentir fortes contatos, assimsucede com o Conhecedor quando se reveste da mente. A mão está ali tantoquanto as luvas, mas suas faculdades minguaram grandemente; o Conhecedorestá ali, tanto quanto a mente, mas seus poderes se acham muito limitados emsua expressão.Nos parágrafos que seguem, limitaremos o termo Manas à mente concreta, ocorpo mental.A mente é o resultado do pensar passado, e modifica-se constantemente pelopensar presente; é uma coisa precisa e definida, com certos poderes eincapacidades, força e debilidade, que são as resultantes de atividades em
  14. 14. vidas anteriores. É tal como a temos feito; não podemos variá-la senãolentamente; não podemos transcendê-la por um esforço da vontade; nãopodemos deixá-la de lado, nem tirar-lhe instantaneamente suas imperfeições.Tal como é, pertence-nos; é uma parte do Não-Eu, apropriada e amoldada paranosso próprio uso, e só por meio dela podemos conhecer.Todos os resultados de nosso pensar passado estão presentes em nós, comomente, e cada mente tem seu grau próprio de vibração, sua esfera própria devibração, e acha-se em estado de perpétuo movimento, oferecendo séries depinturas sempre cambiantes. Todas as impressões que nos vêm de fora sãofeitas nessa esfera já ativa, e a massa das vibrações existentes modifica e émodificada pela nova recepção. A resultante não é, portanto, uma reproduçãoexata da nova vibração, mas uma combinação dela com as vibrações que jáestão atuando.Formando outro exemplo da luz, diremos que se colocarmos um pedaço decristal encarnado diante de nossos olhos e olharmos objetos verdes, estes nosparecerão pretos. As vibrações que nos dão a sensação do encarnado sãocortadas pelas que nos dão a sensação do verde, e o olho se engana vendoum objeto como preto. O mesmo sucederá se olharmos um objeto azul por umcristal amarelo; vê-lo-emos como preto. Em cada caso, um meio de corcausará uma impressão de cor diferente da do objeto observado a olho nu.Mesmo olhando as coisas a olho nu, vemos as coisas um tanto distintas, pois opróprio olho modifica as vibrações que recebe, e mais do que a gente imagina.A influência da mente, como meio pelo qual o Conhecedor vê o mundo,assemelha-se muito à do cristal colorido em relação às cores dos objetos vistosatravés dele. E o Conhecedor se acha tão inconsciente dessa influência comoum homem que, por ter sempre olhado por meio de cristais encarnados ouamarelos, o estaria das mudanças operadas por tais cristais nas cores dumapaisagem. Neste sentido, tão claramente quanto superficial, é que se denominaa mente “O Criador da Ilusão”.Ela nos apresenta só imagens desnaturalizadas, uma combinação de si mesmacom os objetos externos. Neste sentido muito mais profundo, ela é,verdadeiramente, “O Criador da Ilusão”, porquanto até estas imagensdesnaturalizadas são apenas imagens de aparência, não de realidades;sombras de sombras é tudo o que nos apresentam. Mas para nosso presenteobjetivo nos basta considerar as ilusões causadas por sua própria natureza.Bem diferentes seriam nossas idéias do mundo, se pudéssemos conhecê-lo talqual é, mesmo em seu aspecto fenomenal, em lugar de por meio das vibraçõesmodificadas pela mente. E isto não é de modo algum impossível, embora sópossa ser feito por aqueles que conseguiram grandes progressos no domínio
  15. 15. da mente. As vibrações da mente podem ser paralisadas, retirando-se aconsciência dela; um choque de fora formará, então, uma imagem quecorresponderá exatamente a ela própria, porque as vibrações serão idênticasem qualidade e quantidade, sem mesclas com as vibrações pertencentes aoobservador. Ou também a consciência pode exteriorizar-se, animar como almao objeto observado e experimentar assim, diretamente, suas vibrações. Emambos os casos se obtém um verdadeiro conhecimento da forma. Igualmentese pode conhecer a idéia, no mundo dos números, da qual a forma exprime oaspecto fenomenal. Mas isto só pode ser feito pela consciência funcionando noCorpo Causal, o Karana Sharira, sem os empecilhos da mente concreta dosveículos inferiores.A verdade de que só conhecemos nossas impressões das coisas e não ascoisas em si, exceto como se acabou de explicar antes, é de vital interessequando aplicada na vida prática. Ensina a humildade e a precaução, assimcomo o desejo de prestar atenção às idéias novas. Perdemos nossa certezainstintiva, de que temos razão em nossas observações, e aprendemos aanalisar-nos antes de nos decidirmos a condenar outros.Um exemplo pode servir para tornar isto mais claro: encontro uma pessoa cujaatividade vibratória se expressa dum modo complementar ao meu. Quando nosencontramos, extinguimo-nos mutuamente; ainda que não nos agrademos umao outro, não vemos nada um no outro e cada um se surpreende de queFulano repute o outro tão inteligente quando mutuamente nos achamosestúpidos. Pois bem: se eu adquiri algum conhecimento de mim mesma, estasurpresa não terá lugar no que a mim concerne. Em lugar de crer que o outro éestúpido, me perguntarei a mim mesma: Que é que falta em mim, que nãoposso responder as suas vibrações? Ambos vibramos, e se eu não possocompreender a sua vida e pensamento, é por que não posso reproduzir assuas vibrações. Por que haveria eu de julgá-lo, desde o momento que nemsequer posso conhecê-lo enquanto não me modificar o bastante para poderrecebê-lo? Nós não podemos modificar muito os demais, porém podemosmodificar-nos muito a nós mesmos, e deveríamos estar constantementetratando de ampliar nossa capacidade receptiva. Devemos chegar a ser comoa luz branca, na qual todas as cores estão presentes, que não desnaturalizanenhuma porque não recusa nenhuma, em si mesma tem o poder deresponder a todas. Podemos medir nossa proximidade da brancura por nossopoder de responder aos caracteres mais diversos.
  16. 16. O CORPO MENTAL E O MANASAgora podemos nos ocupar da composição da mente, como órgão daconsciência em seu aspecto de Conhecedor, e ver como é esta composição,como formamos a mente no passado e como podemos modificá-la no presente.A mente, pelo lado da vida, é manas, e manas é o reflexo na matéria atômicado terceiro Plano, o Plano Mental, do aspecto cognoscitivo do Eu: do Eu comoConhecedor.Pelo lado da forma, apresenta dois aspectos11 que condicionamseparadamente a atitude de manas, a consciência que funciona no PlanoMental. Estes aspectos são devidos às agregações da matéria do Plano atraídaao redor do centro atômico vibratório. A esta matéria, por sua natureza e uso,lhe damos o nome de substância mental ou substância de pensamento.Constitui uma grande região do universo, que penetra a matéria astral e afísica, e existe em sete subdivisões, como sucede com os estados de matériano Plano físico. Só responde as vibrações que vêm do aspecto cognoscitivo doEu, e este peculiar aspecto lhe impõe o seu caráter específico.11. Aos leigos neste assunto, convém esclarecer que, segundo a Doutrina Secreta, nossouniverso se compõe de sete planos de manifestação da Vida Divina, nos quais a humanidadefaz a sua evolução: Plano Divino, Plano Monádico, Plano Espiritual, Plano Intuicional, PlanoMental (subdividido em abstrato e concreto), Plano Emocional ou Astral e Plano Físico. Cadaum desses planos se compõe de sete subplanos, correspondentes aos sete estados de matériafísica: sólido, líquido, gasoso, etérico, superetérico, subatômico e atômico. O Eu-Consciênciaem evolução se reveste duma forma constituída do material ou átomos e suas complexascombinações, extraídos de cada plano, para a sua manifestação e desenvolvimento nos seteplanos. A mente, objeto deste estudo, se compõe de átomos e moléculas extraídos e atraídosdas duas amplas divisões (a abstrata e a concreta) do Plano Mental, dependendo o seu tipo dapredominância, em sua constituição, do material duma ou outra dessas divisões. O PlanoMental é o terceiro, a contar do Plano Físico (N. T.).O primeiro e mais elevado aspecto da mente ao lado da forma é o que sechama o Corpo Causal ou Karana Sharira. Compõe-se da matéria das quinta esexta subdivisões do Plano Mental, correspondentes aos éteres mais sutis doPlano Físico. Este Corpo Causal está muito pouco desenvolvido na maioria dahumanidade, no seu atual estado evolutivo, por não ser afetado pelasatividades mentais dirigidas quase que só para os objetos externos e, portanto,podemos deixá-lo de lado, pelo menos por agora. É, numa palavra, o órgãopara o pensamento abstrato.O segundo aspecto é chamado o Corpo Mental, e compõe-se de matéria depensamento pertencente às quatro subdivisões inferiores do Plano Mental,correspondentes aos quatro estados etéricos inferiores, ao gasoso, líquido esólido da matéria no Plano Físico. Poderia, com efeito, ser chamado o Corpo
  17. 17. Mental denso. Os corpos mentais mostram sete tipos fundamentais, cada umdos quais inclui as formas em todos os graus de desenvolvimento, e todosevoluem sob as mesmas leis. Compreender e aplicar essas leis é mudar aevolução lenta da natureza no rápido crescimento efetuado pela inteligênciaque se determina. Daí a grande importância de seu estudo.A CONSTRUÇÃO E A EVOLUÇÃODO CORPO MENTALO método pelo qual a consciência constrói o seu veículo é daqueles que sedevem compreender com toda a clareza, porque cada dia e hora de nossa vidanos apresentam oportunidades para aplicá-lo em fins elevados. Despertos oudormindo, estamos sempre edificando nossos corpos mentais, pois quando aconsciência vibra, afeta a substância mental que a rodeia, e cada vibração daconsciência, ainda que oriunda dum só pensamento fugaz, atrai para o corpomental algumas partículas de matéria mental, ao passo que expele outras. Amatéria circundante também ondula, servindo assim de meio para afetar outrasconsciências.Ora, o delicado ou grosseiro da matéria que é apropriada deste modo dependeda qualidade das vibrações que a consciência põe em ação. Pensamentospuros e elevados estão compostos de vibrações rápidas, e só podem afetar osgraus sutis da mateira mental. Os graus grosseiros permanecem insensíveis,porque não podem vibrar com a rapidez necessária. Quando um pensamentoassim faz vibrar o corpo mental, expelem-se deste partículas da matéria maisgrosseira, as quais são substituídas pelas partículas de graus mais sutis; edeste modo se formam melhores materiais no corpo mental. De idêntico modo,os pensamentos baixos e maus atraem para dentro do corpo mental osmateriais mais grosseiros, próprios para a sua expressão, e esses materiaisrepelem e lançam fora os de qualidade mais delicada.Dessa maneira as vibrações da consciência estão expelindo uma categoria dematéria e atraindo outra. E disso se segue, como consequência necessáriaque, segundo a categoria de matéria com que tenhamos construído nossoscorpos mentais no passado, assim será a nossa atual faculdade pararesponder as pensamentos que nos chegam de fora. Se nossos corposmentais estão compostos de matéria sutil, os pensamentos grosseiros e mausnão terão resposta e, portanto, não podem causar-nos dano algum; ao passoque, se estão formados de materiais grosseiros, serão afetados por todopensamento passageiro mau, permanecendo insensíveis aos bons e nãorecebendo deles nenhum auxílio.
  18. 18. Quando nos pomos em contato com alguém cujos pensamentos são elevados,suas vibrações mentais, atuando em nós, despertam na matéria de nossoscorpos mentais vibrações de acordo com sua capacidade de resposta, e essasvibrações perturbam e até expelem alguma daquela matéria demasiadogrosseira para vibrar nesse alto grau de atividade. O benefício, pois, querecebemos desse alguém depende em grande parte de nosso próprio modo depensar anterior, e nossa “compreensão” dele, nossa faculdade de responder,está condicionada por essas vibrações. Não podemos pensar um pelo outro;cada qual só pode pensar por seus próprios pensamentos, causando, assim,as vibrações correspondentes na matéria mental circundante, a qual atua emnós, despertando em nossos corpos mentais vibrações simpáticas. Estasafetam a consciência, despertando estas vibrações no corpo mental.Mas nem sempre se segue uma compreensão imediata à a produção de taisvibrações, provocadas de fora. Algumas vezes o efeito se assemelha ao do sol,chuva e terra sobre a semente enterrada no solo. No princípio não há respostavisível às vibrações que atuam sobre as sementes, mas ali dentro existe umpequeníssimo estremecimento da vida que a anima, e este estremecimento setornará cada dia mais forte, até que a vida em evolução rompa a casca dasemente e deite pequenas raízes e brotos logo que se desenvolva.Assim sucede com a mente. A consciência vibra debilmente dentro de simesma, antes de poder dar uma resposta externa aos choques que recebe, equando não somos ainda capazes de compreender um nobre pensador, há,contudo, dentro de nós, uma vibração inconsciente, que é predecessora daresposta consciente. Quando nos aproximamos duma grande Presença,encontramo-nos um pouco mais próximos da elevada vida pensante que daliflui, e em nós se terá apressado o desenvolvimento de germes de pensamento,ao passo que nossas mentes terão sido auxiliadas em sua evolução.Assim, pois, algo se pode fazer de fora para contribuir para a formação eevolução de nossas mentes; mas a maior parte tem de provir das atividades denossa própria consciência. E se quisermos ter corpos mentais fortes, bemvitalizados, ativos, que possam compreender os pensamentos mais elevadosque se nos apresentem, devemos então trabalhar com firmeza em pensar bem,pois somos nossos próprios construtores e os modeladores de nossas mentes.Muitas pessoas são grandes leitores. No entanto, a leitura não forma a mente;ela é construída pelo pensamento. A leitura só é valiosa no sentido deproporcionar material para pensar. Um homem pode ler muito, mas seudesenvolvimento mental estará na proporção da quantidade de pensamentoque empregar na leitura. O valor para si do pensamento que lê depende do usoque faz dele. Se não assimilar o pensamento e não trabalhar com ele, seu valorlhe será insignificante e passageiro. “A leitura completa o homem”, disse Lord
  19. 19. Bacon, e com a mente sucede o mesmo que com o corpo. O comer enche oestômago; mas assim como o alimento é inútil para o corpo se este não odigere e assimila, o mesmo pode ocorrer com a leitura. A menos que hajapensamento, não há assimilação do que se lê, e a mente não se desenvolvecom isso; é possível mesmo que sofra por estar sobrecarregada, e que mais sedebilite do que se fortaleça debaixo do peso de idéias não assimiladas.Devemos ler menos e pensar mais, se quisermos que nossas mentes cresçame que nossa inteligência se desenvolva. Se temos verdadeiro interesse emcultivar nossas mentes, devemos empregar diariamente uma hora no estudodum livro sério e transcendental, e para cada cinco minutos de leitura, pensardez, e assim durante toda a hora. O modo usual é ler rapidamente durante otempo todo, e depois pôr o livro de lado até que chegue outra vez a hora deleitura. Daí a gente desenvolve pouco o poder do pensamento.Uma das coisas mais marcantes no movimento teosófico é o desenvolvimentomental que se observa ano após ano em seus indivíduos. Deve-se isto, emgrande parte, ao fato de que lhes é ensinada a natureza do pensamento;principiam a compreender um pouco suas funções, e dedicam-se a construirseus corpos mentais em lugar de os deixar se desenvolverem pelo processonatural, sem ajuda. O estudante ansioso por crescimento deve determinar-se anão deixar passar um só dia sem ler pelo menos cinco minutos e dedicar dez apensar com todo o interesse no quer leu. No começo achará o esforço pesadoe trabalhoso, e descobrirá a debilidade do seu poder pensante. Estedescobrimento assinalará o seu primeiro passo, pois já é muito descobrir aprópria impotência para pensar consecutivamente e com afinco.As pessoas que não podem pensar, mas que imaginam o contrário, não fazemgrandes progressos. É melhor conhecer a própria debilidade do que seimaginar forte quando se é débil. Gradualmente, o poder do pensamentocresce, chega-se a dominá-lo e a fazê-lo dirigir-se para fins definidos. Semesse pensar, o corpo mental continuará formado com frouxidão e semorganização, e enquanto não se adquirir concentração, ou a faculdade de fixaro pensamento num ponto definido, não se exercerá nenhum poder mental.
  20. 20. CAPÍTULO 3 TRANSMISSÃO DO PENSAMENTOTodo o mundo, hoje em dia, desejaria praticar a transmissão do pensamento, echega mesmo a sonhar com o prazer de se comunicar com algum amigoausente, sem a ajuda do correio ou do telégrafo. Muitos crêem que podemconsegui-lo com pouco esforço, e surpreendem-se extraordinariamente quandofracassam por completo em suas tentativas. Contudo, é coisa clara que senecessita poder pensar antes de poder transferir o pensamento, e que hánecessidade de possuir algum poder de pensar com fixidez a fim de lograrenviar uma corrente de pensamento através do espaço. Os pensamentosdébeis e vacilantes da maior parte das pessoas só causam trêmulas vibraçõesna atmosfera do pensamento, por estarem dotados da mais íntima vitalidade, eaparecerem e desaparecerem a cada instante sem construir formas definidas.Uma forma de pensamento tem que ser claramente modelada e bem vitalizada,para poder ser enviada em determinada direção, e forte o bastante paraproduzir, ao chegar ao seu destino, uma reprodução de si mesma.Há dois métodos de transmissão de pensamento: um que poderia serdistinguido como físico e outro como psíquico; o primeiro como pertencente aocérebro, tanto quanto à mente, e o segundo só a esta última. Um pensamentopode ser gerado pela consciência, causar vibrações no corpo mental, depois noastral, e fazer surgir ondas no etérico e afinal nas moléculas densas do corpofísico. Estas vibrações cerebrais afetam o éter físico, cujas vidas semovimentam até chegar ao outro cérebro, em cujas partes densa e etéricadespertam vibrações. Este cérebro receptor causa vibrações no corpo astral, ea seguir no mental com ele ligado; e as vibrações no corpo mental despertam oestremecimento responsivo da consciência.Tais são as muitas estações do arco que percorrem o pensamento. Mas não éindispensável este itinerário do arco; a consciência pode, ao provocarvibrações no corpo mental, lançá-las diretamente ao corpo mental daconsciência receptora, evitando, assim, a curva acima descrita.Vejamos o que sucede no primeiro caso.Há no cérebro um pequeno órgão, a glândula pineal, cujas funções sãodesconhecidas pelos psicólogos ocidentais, e do qual estes não se ocupam. Éum órgão rudimentar na maioria dos indivíduos, porém em evolução, não
  21. 21. retrogradando, sendo possível apressar a sua evolução até chegar ao estadoem que possa exercer a função que lhe é própria e que no futuro será exercidaem todos os indivíduos. É o órgão para a transmissão do pensamento, tantocomo o são os olhos para a visão e o ouvido para a audição.Se alguém pensa intensamente numa só idéia, com sustida concentração eatenção, chegará a sentir um ligeiro estremecimento ou sensação deformigamento na glândula pineal. O estremecimento tem lugar no éter quepenetra a glândula, e origina uma ligeira corrente magnética que causa asensação de formigamento nas moléculas densas da glândula. Se opensamento é bastante forte para provocar a corrente, então o pensador sabeque conseguiu fazer chegar seu pensamento a um ponto de penetração eforça, que possibilita a sua transmissão.A vibração do éter na glândula pineal ocasiona ondas no éter circundante,semelhantes a ondas de luz, só que muito menores e mais rápidas. Estasondas se transmitem em todas as direções, pondo o éter em movimento; eestas ondas etéricas, por sua vez, produzem ondulações no éter da glândulapineal de outro cérebro, do qual são transmitidas, sucessivamente, aos corposastral e mental, chegando deste modo à consciência. Se esta segundaglândula pineal não pode reproduzir tais ondulações, então o pensamentopassará despercebido, sem fazer impressão, do mesmo modo que as ondas daluz não impressionam o olho duma pessoa cega.No segundo método de transmissão do pensamento, o pensador, após criaruma forma-pensamento em seu próprio plano, não o faz descer ao cérebro,mas dirige-o imediatamente a outro pensador pelo Plano Mental. A faculdadede conseguir isto de maneira deliberada implica uma evolução mental muitomais elevada do que a do método físico de transmissão, pois o emissor precisater consciência própria no Plano Mental, a fim de poder praticar à vontade estepoder.Todavia, esse poder é exercitado constantemente por todos nós, dum modoindireto e inconsciente, já que todos os nossos pensamentos provocamvibrações no corpo mental, as quais, dada a natureza das coisas, têm que sepropagar através de substância mental circundante. E não há razão para limitaro termo pensamento à transmissão consciente e deliberada dum pensamentoparticular, duma pessoa a outra. Todos nós estamos nos afetando, contínua ereciprocamente, por estas ondas de pensamento, postas em ação semintenção definida, e o que chama opinião pública é, em grande parte, criadaassim. A maioria das pessoas pensa em determinado sentido, não porque hajapensado cuidadosamente num assunto e chegado a uma conclusão, senãoporque grande número de pessoas pensa assim e arrasta as demais. Opotente pensamento dum grande pensador passa para o mundo do
  22. 22. pensamento, e é recolhido por mentes receptivas e responsivas. Estasreproduzem suas vibrações, e deste modo fortalecem a onda de pensamento,afetando outros que haviam permanecido sem responder às ondulaçõesoriginais. Estas, respondendo por sua vez, aumentam ainda mais a força dasondas, as quais, assim acrescidas, afetam enormes massas humanas.A opinião pública, uma vez formada, exerce predomínio sobre as mentes dagrande maioria, chocando-se incessantemente contra todos os cérebros edespertando neles ondulações correspondentes.Existem também certas maneiras nacionais de pensar, canais indefinidos eprofundos que resultam da contínua reprodução durante séculos depensamentos semelhantes, que provêm da história, das lutas e dos costumesduma nação. Tais canais modificam e dão colorido especial a todas as mentesnascidas na nação, e tudo o que vem de fora da mesma é mudado por aquelegrau de vibração nacional. Todos os pensamentos que nos chegam do mundoexterno são modificados por nossos corpos mentais, e quando os recebemospercebemos suas vibrações e, somando-se às nossas próprias vibraçõesnormais, dão origem a uma resultante. O mesmo sucede com as nações; aoreceberem impressões de outros países, modificam-nas igualmente por seupróprio grau de vibração nacional. Daí os ingleses, franceses e bôeres veremos mesmos fatos, acrescentando-lhe a sua própria preocupação, e com toda aboa fé se acusarem mutuamente de falsificar os fatos e de praticar umaconduta imprópria. Se fossem reconhecidas esta verdade e a sua existênciainevitável, muitas contendas internacionais se suavizariam mais facilmente doque sucede agora; evitar-se-iam muitas guerras e as que se travassemterminariam mais prontamente. Então cada nação reconheceria o que sechama às vezes “a equação pessoal”, em lugar de censurar à outra a suadiferença de opinião, cada um buscaria o termo médio da contrária, sem insistirdemasiado na sua própria opinião.A questão perfeitamente prática para o indivíduo que encare o conhecimentoda contínua e geral transmissão do pensamento é: “Quanto de bom possoganhar e de mau evitar, visto que tenho de viver numa atmosfera misturada,onde ondas de pensamentos bons e maus estão em atividade, chocando-secontra o meu cérebro? Como preservar-me das transmissões de pensamentosdanosos, e como aproveitar-me das benéficas?” é de vital importância oconhecimento do modo como age o poder de seleção.Cada ser humano é que mais constantemente afeta o seu próprio corpomental. Outros o afetam ocasionalmente, mas ele o faz sempre. O orador a queouve, o escritor cuja obra lê, afetam o seu corpo mental. Mas todos eles sãoincidentes em sua vida, ao passo que ele é o fator principal. Sua própriainfluência na composição do corpo mental é muito mais potente que a de
  23. 23. qualquer outro, e ele mesmo fixa o grau de vibração normal de sua mente. Ospensamentos que não se sintonizam com esse grau são repelidos quandotocam a mente. Se alguém pensa com veracidade, uma mentira não se aninhaem sua mente; se pensa amorosamente, o ódio não pode turvá-lo; se pensa nasabedoria, a ignorância não pode desviá-lo. Só nisto está a salvação, o poderverdadeiro. Não se deve permitir que a mente permaneça um terreno lavradovazio, porque então qualquer semente de pensamento pode arraigar-se nela;não se lhe deve permitir que vibre como quiser, porque isso significa queresponderá a qualquer vibração que passe.Nisto consiste a lição prática. O indivíduo que a leve a cabo notará logo o seuvalor, e descobrirá que, pelo pensar, a vida pode tornar-se mais nobre e feliz, eque é uma verdade que pela sabedoria se dará fim à dor.
  24. 24. CAPÍTULO 4 AS ORIGENS DO PENSAMENTOFora do círculo de estudantes de psicologia, poucos são os que se têmpreocupado muito a respeito da questão: “Como se origina o pensamento?”.Quando vimos ao mundo, encontramo-nos de posse de uma grande massa depensamento já formada, de um grande acúmulo das chamadas “idéias inatas”.São concepções que conosco trazemos ao mundo, resultados condensados ouresumidos de nossas experiências em vidas anteriores à presente. Com esteacúmulo mental de que dispomos, principiamos nossas transações nesta vida,e o psicólogo nunca pode estudar, pela observação direta, os princípios dopensamento.Pode-se aprender algo observando a criança, pois assim como o novo corpofísico recorre na vida pré-natal à longa trajetória da evolução física do passado,assim o novo corpo mental atravessa rapidamente os degraus de seu longodesenvolvimento. Se se observar atentamente uma criança, ver-se-á que suassensações (resposta aos estímulos pelos sentimentos de prazer ou dor, eprimitivamente pelas próprias sensações) precedem todo sinal de inteligência.Antes de seu nascimento, a criança foi mantida pelas forças vitais que fluíamatravés do corpo materno, e que são excluídas ao entrar ela numa existênciaindependente. A vida se esvai do corpo e já não se renova; à medida quediminuem as forças vitais, sente-se a necessidade, e esta necessidade é dor. Asatisfação de tal necessidade proporciona quietude e prazer, e a criança volta acair na inconsciência. Dentro de pouco tempo a vista e o som despertamsensações, mas ainda não se apresenta nenhum sinal de inteligência. Oprimeiro sinal que aparece é quando a presença ou a voz da mãe ou ama serelaciona com a satisfação da sempre reincidente necessidade ante o prazerproporcionado pelo alimento. O enlace dum objeto externo com a sensaçãocausada pelo mesmo é a primeira impressão da inteligência, o primeiropensamento; tecnicamente, uma percepção. A essência disto é oestabelecimento duma relação entre uma consciência, um Jiva e um objeto, e,onde quer que se estabeleça essa relação, o pensamento existe.Este fato simples e sempre comprovável pode servir como um exemplo geraldo princípio do pensamento num Eu separado. Em tal Eu separado assensações precedem os pensamentos, a atenção do Eu se desperta pelaimpressão que se faz nele, e a que responde com um sentimento. Osentimento maciço da necessidade, devido à diminuição da energia vital, não
  25. 25. desperta por si mesmo o pensamento; mas essa necessidade é satisfeita pelocontato do leite que causa uma impressão local definida, seguida dumsentimento de prazer.Depois de repetido isto muitas vezes, o Eu assoma ao exterior, vagamente, aostateios; ao exterior por causa da direção da impressão que veio de fora. Aenergia vital flui deste modo ao corpo mental e o vivifica, de sorte que reflete(no princípio debilmente) o objeto que, ao pôr-se em contato com o corpo, temcausado a sensação. Esta modificação no corpo mental, repetida uma e outravez, estimula o Eu em seu aspecto de conhecer e vibra em correspondência.Ele sentiu a necessidade, o contato, o prazer, e com o contato uma imagem seapresenta, sendo afetada tanto a vista como os lábios, duas impressões dossentidos que se misturam. Sua própria natureza inerente enlaça e une os três:a necessidade, a imagem do contato e o prazer, e esse enlace é pensamento.Enquanto não responder assim, não existe ali nenhum pensamento; é o Eu quepercebe, e nenhum outro inferior.Esta percepção particulariza o desejo, que cessa de ser vago anelo por algo ese converte num desejo definido por uma coisa especial: o leite. Mas apercepção necessita da revisão, pois o Conhecedor associou três coisas, euma delas tem que ser separada: a necessidade. É significativo que numaetapa primitiva a vista da ama desperte a necessidade; é o Conhecedor adespertar a necessidade quando aparece a imagem com aquela associada. Acriança, ao ter fome, chorará pelo peito ao ver a mãe; mais tarde se quebraesta errônea relação, e a ama é associada com o prazer como causa, e vistacomo objeto de prazer. Estabelece-se, deste modo, o desejo pela mãe, e logose converte em outro estímulo do pensamento.RELAÇÃO ENTRE SENSAÇÃO E PENSAMENTOEm muitos livros de psicologia, tanto orientais como ocidentais, se especificaclaramente que todo pensamento tem sua raiz na sensação, e que enquantonão se houver acumulado grande número de sensações, não pode existir opensar. Diz H. P. Blavatsky: “A mente, tal qual a conhecemos, pode-se resolverem estados de consciência de variável duração, intensidade, etc., baseando-setudo, em último termo, na sensação”.12 alguns escritores têm ido mais longe,declarando que não são apenas as sensações o material com que seconstroem os pensamentos, mas os pensamentos são produzidos pelassensações, negando deste modo o Pensador e o Conhecedor. Outros, extremooposto, consideram o pensamento como resultado da atividade do pensador,iniciado em seu interior em vez de receber seu primeiro impulso de fora, sendoas sensações os materiais sobre os quais emprega a sua capacidade inerente,específica e própria, mas não uma condição necessária de sua atividade.
  26. 26. 12. A Doutrina Secreta, vol. I.Cada uma destas opiniões (de que o pensamento é puramente produzido dassensações e de que o pensamento é apenas produto do Conhecedor) é emparte verdadeira; mas a verdade inteira se encontra entre as duas. É realmentenecessário, para o despertar do Conhecedor, que as sensações atuem sobreele de fora, e é fato que o primeiro pensamento se produz em consequência deimpulsos do sentimento, servindo-lhe as sensações de seu antecedentenatural. Todavia, se não houvesse no Eu uma capacidade inerente paraenlaçar as coisas, ou o Eu não fosse conhecimento em sua própria natureza,as sensações poderiam se lhe apresentar constantemente sem lhe produzirnunca um só pensamento. Só é meia-verdade que os pensamentos tenhamseu princípio nas sensações; tem que existir o poder de organizá-las e deestabelecer, entre umas e outros, laços de união, relações, assim como,também, entre elas e o mundo externo. O Pensador é o pai, o Sentimento amãe, o Pensamento o filho.Se os pensamentos têm seu princípio nas sensações, e estas são causadaspor choques externos, então é da maior importância que quando surgirem assensações do Eu como consciente, a natureza e a extensão destas sensaçõessejam exatamente observadas pelo Eu como Conhecedor. A primeira funçãodo Conhecedor é observar; se não houvesse nada que observar, permaneceriasempre adormecido; mas quando se lhe apresenta um objeto, quando comopreceptor tem consciência dum choque, então, como observador, observa. Daexatidão do seu poder de observar depende o pensamento que tem de formarde todas essas observações unidas. Se observa erroneamente, estabelece-seuma relação equivocada entre o objeto ocasionador do choque e ele próprio,como observador do choque; então, em consequência deste erro, sobrevirá emsua própria obra um número de erros subsequentes, que nada poderá corrigirsenão retrocedendo precisamente ao princípio.Vejamos agora como é que funcionam a sensação e a percepção num casoespecial. Suponhamos que sinto um choque na mão: o contato causasensação; o reconhecimento do que causou a sensação é um pensamento.Quando sinto um contato, percebo uma sensação, e não há necessidade deacrescentar nada ao que se refere puramente a esta sensação; mas quando dosentimento passo para o objeto que o causou, percebo o objeto e tal percepçãoé um pensamento. Esta percepção significa que, como conhecedor, reconheçouma relação entre mim mesma e esse objeto, porquanto ocasionou certasensação em meu Eu. Isto, no entanto, não é tudo o que sucede, pois tambémexperimento outras sensações de cor, de suavidade, de calor, de contextura,etc. estas me são igualmente transmitidas como conhecedor, e ajudada pelamemória de impressões semelhantes, recebidas outras vezes (ou seja,
  27. 27. comparando imagens passadas com a imagem do objeto que toca em minhamão), decido a respeito da espécie do objeto que a tocou.Na percepção das coisas que nos fazem sentir está o princípio do pensamento;ou, pondo isto nos termos metafísicos comuns, diremos: a percepção do Não-Eu é o principio da cognição. Por si só, o sentimento não poderia dar aconsciência do Não-Eu; só haveria no Eu o sentimento do prazer ou dor, umaconsciência interna de expansão e contração. Não seria possível uma evoluçãosuperior, se o homem não pudesse fazer mais do que sentir, pois é só quandoreconhece os objetos como causas que principia a sua educação humana. Doestabelecimento de uma relação consciente entre o Eu e o Não-Eu dependetoda a evolução futura, e esta evolução consistirá, em grande parte, em sejamestas relações mais e mais numerosas, mais e mais complicadas, mais e maisexatas da parte do conhecedor. O conhecedor principia o seu desenvolvimentoexterno quando desperta a consciência, sentindo prazer ou dor, volta sua vistapara o mundo externo e diz: “Este objeto me causa prazer; aquele outro mecausa dor.”Antes de poder responder externamente a tudo, o Eu tem que experimentargrande número de sensações. Logo vem um tateio trôpego e confuso peloprazer, devido a um desejo no Eu senciente de experimentar uma repetiçãodaquele. E este é um bom exemplo do fato mencionado antes, de que nãoexiste somente o sentimento, nem puramente o pensamento; pois o desejopela repetição dum prazer “implica que a imagem do prazer permanece, pormais debilmente que seja, na consciência, e isto é memória, que pertence aopensamento”.Durante longo tempo, o Eu mediano vaga duma coisa para outra, chocando-secontra o Não-Eu dum modo acidental, sem que a consciência imprima umadireção determinada a estes movimentos, experimentando ora o prazer ora ador, sem lhe perceber a causa. Só quando se tenha experimentado isto durantelongo tempo é que é possível a percepção antes mencionada e o princípio darelação entre o conhecedor e o cognoscível.
  28. 28. CAPÍTULO 5 A MEMÓRIAA NATUREZA DA MEMÓRIAQuando se estabelece uma relação entre o prazer e um objeto determinado,surge o desejo definido de obter de novo esse objeto e repetir o prazer. Ocorpo mental, estimulado, repete prontamente a imagem do objeto. Isto porque,devido à lei geral de que a energia flui em direção à resistência menor, amatéria do corpo mental se amolda mui facilmente à forma que com frequênciajá formou. Esta tendência a repetir as vibrações principais, quando nelas atua aenergia, é devida a Tamas,13 à inercia da matéria, e é o germe da Memória.13. Uma das três gunas (atributos, qualidades ou modalidades da matéria), de que, segundo osVedas, participa a natureza de todo indivíduo. São: Sattva (harmonia, equilíbrio, prazer), Rajas(movimento, paixão, dor), e Tamas (ignorância, trevas, resistência). O conjunto desses trêsatributos ativados é o Universo manifestado ou existência condicionada. Para maioresdetalhes, veja-se o livro Bhagavad Gita, capítulos XIV, XV e XVIII.As moléculas da matéria que se tenham agrupado separam-se lentamente pelaatuação de outras energias, mas retêm durante tempo considerável atendência a assumir de novo a sua mútua relação. Se recebem um impulsopróprio para agrupá-las, voltam imediatamente a assumir sua posição anterior.Além disso, quando o conhecedor tenha vibrado dum modo particular, essepoder vibratório permanece nele, e no caso do objeto ocasionador do prazer, odesejo por esse objeto libera tal poder, impele-o para fora, por assim dizer,proporcionando, deste modo, o estímulo necessário ao corpo mental.A imagem que destarte se produz é reconhecida pelo conhecedor, e a atraçãopelo prazer o faz reproduzir também a imagem desse prazer. O objeto e oprazer são relacionados pela experiência, e quando se forma a série devibrações componentes da imagem, surge também a série de vibraçõesconstituintes do prazer, que assim se volta a provar na ausência do objeto. Istoé a memória em sua forma mais simples: uma vibração, por si mesma iniciada,de igual natureza que a causada pelo prazer e que a este produz.Estas imagens são menos passivas, e portanto menos vívidas para oconhecedor parcialmente desenvolvido, que as causadas pelo contato com umobjeto externo. As pesadas vibrações físicas emprestam muita energia àsimagens mentais e de desejos, mas fundamentalmente as vibrações são
  29. 29. idênticas, e a memória é a reprodução na matéria mental, pelo Conhecedor, deobjetos que anteriormente foram experimentados. Este reflexo pode repetir-se,e repete-se, uma e outra vez, em matéria cada vez mais sutil, sem relação comnenhum Conhecedor separado, e em sua totalidade são o conteúdo parcial damemória de Ishvara.1414. Em sânscrito: o Espírito Divino que mora no homem, Bhagavad Gita, cap. XVIII: 61.Essas imagens de imagens podem ser alcançadas por qualquer Conhecedorseparado, em proporção ao que tiver desenvolvido em si mesmo do “podervibratório” antes mencionado. Assim como na telegrafia sem fio, uma série devibrações, que constitui uma mensagem, pode ser captada por um receptorapropriado, isto é, por um receptor capaz de as reproduzir, assim também umapotência vibratória latente num Conhecedor pode ser ativada por uma vibraçãoque lhe seja semelhante, dentre aquelas imagens cósmicas. Estas, no planoakáshico,15 formam os “anais akáshicos” de que amiúde se fala na literaturateosófica, e perduram durante toda a vida do Sistema Universal.15. Sinônimo do Éter dos gregos. É a substância plástica primordial, sutilíssima, da qualevolucionou o Cosmos. Tal substância constitui os “anais akáshicos”, o registro kármico emque ficam eternamente gravados todos os atos e pensamentos. Para mais detalhes, veja-se aobra Clarividência (Anais Akáshicos), de C. W. Leadbeater.A MÁ MEMÓRIAA fim de poder compreender claramente qual a causa da “má memória”,precisamos examinar o processo mental que constrói o que chamamosmemória. Ainda que em muitos livros psicológicos se fale da memória comosendo uma faculdade mental, não existe realmente uma faculdade a que sepossa dar tal nome. A persistência duma imagem mental não é devida afaculdade especial alguma, mas pertence à qualidade geral da mente; umamente débil é tão débil em persistência como tudo o mais. Do mesmo modoque uma substância demasiadamente fluida não retém a forma do molde emque tenha sido vertida, assim perde a imagem a forma que assumiu. Quando ocorpo mental está pouco organizado, não passando de um agregado demoléculas de matéria mental, uma massa dum feitio de uma nuvem sem muitacoesão, a memória será retamente débil. Mas esta debilidade é geral, nãoespecial; é comum a toda gente, é devida ao seu estágio inferior de evolução.À proporção que o corpo mental se organiza e nele funcionam os poderes doEu, vemos amiúde, todavia, o que se chama “uma má memória”. Mas seobservarmos esta “má memória”, veremos que não é deficiente em todos osaspectos, pois há algumas coisas que se recordam bem e que a mente retémsem esforço. Se, a seguir, examinarmos as coisas que se recordam, veremos
  30. 30. que são as que atraem com força a mente, e que se não esquecem as de quemuito se gosta. Conheci uma senhora que se queixava de sua má memória arespeito de estudos, ao passo que lhe observei sua memória muito retentiva dedetalhes de um vestido que adquirira. A seu corpo mental não faltava o poderretentivo e suficiente, e quando observava algo cuidadosa e atentamente,produzindo uma imagem mental clara, esta tinha vida prolongada.Nisto temos a chave da “má memória”. É devida à falta de atenção, à falta deobservação exata, e, portanto, a um pensamento confuso. O pensamentoconfuso é a impressão de borrão causada pela observação descuidada edesatenta, ao passo que o pensamento claro é a impressão bem marcada,oriunda da atenção concentrada e da observação cuidadosa e exata. Não nosrecordamos das coisas a que prestamos pouca atenção, mas recordamo-nosbem das que nos interessam muito.Como se deve, pois, tratar uma “má memória”? Primeiramente se devemobservar as coisas em relação às quais é má, e aquelas para as quais é boa, afim de calcular a qualidade geral da adesividade. Depois é mister examinar seas coisas para as quais é má valem a pena ser recordadas, ou se carecem deimportância. Se as acharmos sem importância, porém sentirmos que nosdevem interessar nos melhores momentos, então nos cabe dizer conoscomesmos: “Vou fixar-me nelas cuidadosa e detidamente”. Fazendo isto, vemosque nossa memória melhora, pois, como já se disse, a memória dependerealmente da atenção, da observação exata e do pensamento claro. Um objetoque nos atraia é valioso para fixação de atenção; se o mesmo não estiverpresente, deveremos substituí-lo por meio da vontade.Nisto, como em tudo o mais, um pequeno exercício, repetido diariamente, é demuito mais efeito que o de um grande esforço seguido de um período deinação. Devemos impor-nos a pequena tarefa diária de observar uma coisacuidadosamente, imaginando-a com todos os seus detalhes, e mantendo amente fixa nela durante um pouco de tempo, tal qual se faz com o olho físiconum objeto. No dia seguinte devemos evocar a imagem, reproduzindo-a com amaior exatidão possível, e depois compará-la com o objeto para observar asinexatidões. Se dedicarmos cinco minutos diários a este exercício, observandoalternadamente um objeto, imaginando-o depois na mente, e no dia seguinte,evocando a imagem e comparando-a com o objeto, “melhoraremos a nossamemória” muito rapidamente. Com essa prática aperfeiçoaremos realmentenossos poderes de observação, de atenção, imaginação e concentração; numapalavra: estaremos organizando o corpo mental e, muito mais rapidamente queo faria a natureza sem ajuda, tornando-o próprio para desempenhar suasfunções dum modo efetivo e útil.
  31. 31. Ninguém pode empreender um exercício como este sem lhe sentir o efeito; elogo terá o indivíduo a satisfação de constatar que seus poderes aumentaram ese acham muito mais sujeitos ao domínio de sua vontade.Os meios artificiais para melhorar a memória apresentam as coisas à menteem forma atrativa, ou associam com essa forma as coisas que se têm derecordar. Se uma pessoa tem fácil percepção pode ajudar a má memóriaformando uma imagem e relacionando as coisas que quer recordar comdeterminados pontos dessa imagem. Outras pessoas, nas quais domina afaculdade auditiva, se recordam por meio dum ritmo ou retintim, e, porexemplo, constroem, com uma série de datas e outros fatos pouco atraentes,versos que se “agarram à mente”. Mas muito melhor que tais métodos é oracional que acabamos de descrever, cujo uso melhora a organização do corpomental, tornando-o mais coerente com os seus materiais.MEMÓRIA E ANTECIPAÇÃOTornemos ao nosso Conhecedor não-desenvolvido.Quando a memória começa a funcionar, segue-se-lhe logo a antecipação, poisessa não é mais que a memória projetada para diante. Quando a memória fazvoltar a provar um prazer experimentado anteriormente, o desejo busca tornara apanhar o objeto causador do prazer, e quando se pensa neste gozo como oresultado de encontrar tal objeto no mundo externo e fruir dele, aí temos aantecipação. O Conhecedor detém seu pensamento na imagem do objeto e naimagem do prazer, relacionando-as entre si. Se a essa contemplação seacresce o elemento tempo, do passado e do futuro, dão-se-lhe então doisnomes: a contemplação mais a idéia do passado é memória; a contemplaçãomais a idéia do futuro é antecipação.À medida que estudamos estas imagens, principiamos a compreender toda aforça do aforismo de Patanjali, de que para a prática do Yoga deve o homemsuspender as “modificações do princípio pensante”. Considerado sob esteponto de vista da ciência oculta, cada contato com o Não-Eu modifica o corpomental. Parte da matéria de que este corpo está composto se combina comoum quadro ou imagem do objeto externo. Quando se estabelecem relaçõesentre estas imagens, é o pensamento considerado sob o aspecto da forma;correspondendo com este, existem vibrações no próprio Conhecedor, e estasvibrações dentro dele são o pensamento no próprio Conhecedor, e estasvibrações dentro dele são o pensamento considerado sob o aspecto da vida.Não se deve esquecer que a função especial do Conhecedor é estabelecerestas relações: o que ele acresce às imagens e que este acréscimo muda as
  32. 32. imagens em pensamentos. As imagens no corpo mental se parecem muito, emseu caráter, com as impressões que numa placa sensível fazem as ondasetéricas que se acham fora da luz do espectro. Atuam quimicamente nos saisde prata e voltam a combinar a matéria sobre a placa sensível, de sorte que seformam nela imagens dos objetos a que tenha sido exposta. Tal é o quesucede na placa sensível por nós chamada corpo mental: os materiais setornam a combinar como uma imagem dos objetos com que se tenha posto emcontato.O Conhecedor percebe estas imagens por meio de suas próprias vibraçõesrespondentes; estuda-as e, depois de certo tempo, principia a dispô-las emodificá-las pelas vibrações que de seu íntimo projeta sobre elas. De acordocom a lei a que nos temos referido, de que a energia segue a linha de menorresistência, reforma uma e outra vez as mesmas imagens; e na concretizaçãodesta simples reprodução, com a adição do elemento tempo, teremos, como jáfoi dito, a memória e a antecipação.O pensar concreto é, depois de tudo, só uma repetição, em matéria mais sutil,das experiências diárias, com a diferença de que o Conhecedor pode deter emudar a sua sequência, repeti-las, apressá-las ou fazê-las mais lentas,segundo queira. Pode deter-se numa imagem, envolvê-la, manter-se nela, eassim obter, mercê de repetido exame das experiências, muito do que nãopercebeu ao passar por elas, sujeito ao incessante movimento da roda dotempo. Dentro de seus próprios domínios, pode dispor de seu tempo, noconcernente à sua medida, como o faz Ishvara, Deus ou Logos, para seusmundos. Só não pode escapar à condição do tempo até poder alcançar aConsciência Divina, libertando-se então dos laços da matéria do mundo.
  33. 33. CAPÍTULO 6 O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTOA OBSERVAÇÃO E SEU VALORO primeiro requisito para o pensar eficaz é uma observação atenta e exata. OEu, como Conhecedor, deve observar o Não-Eu com atenção e exatidão, seeste tem de se converter no conhecido e fundir-se assim no Eu.O segundo requisito é a receptividade e tenacidade no corpo mental, afaculdade de ceder incontinenti às impressões e retê-las uma vez feitas.Em proporção à atenção e exatidão da observação do Conhecedor e dareceptividade e tenacidade de seu corpo mental, se acharão a rapidez de suaevolução e a celeridade com que seus poderes latentes se convertem empoderes ativos.Se o Conhecedor não observou com exatidão a imagem de pensamento, ou seo corpo mental, não-desenvolvido, só tem sido sensível às vibrações maisfortes de um objeto externo e, por conseguinte, só tem refletido umareprodução imperfeita, o material para o pensamento é impróprio e errôneo. Sóse tem obtido, no começo, o esboço geral, com os pormenores apagados e atéfalhos. À medida que desenvolvemos nossas faculdades, à medida queintroduzimos uma matéria mais sutil no corpo mental, vemos que podemosreceber do mesmo objeto externo muito mais do que recebíamos nos temposde menor desenvolvimento, encontrando assim muito mais num objeto do queo podíamos antes.Coloquemos dois homens em um campo, em presença de um esplêndido pôr-do-sol. Suponhamos ser um deles um camponês pouco desenvolvido, que nãotem o costume de observar a Natureza senão no que concerne às suascolheitas; que só tem contemplado o céu para saber se promete chuva ou sol,sem nada lhe importar seu aspecto a não ser no referente ao seu modo deganhar a vida. Suponhamos ser o outro um artista, cheio de amor pelo formosoe educado para ver e gozar da cada matiz ou tom de cor. Os corpos físico,astral e mental do camponês estão todos em presença deste brilhante pôr-do-sol, e todas as vibrações que lhe produz atuam sobre os veículos de suaconsciência; vê diferentes cores no céu e observa que há muita promessa deum formoso tempo para o dia seguinte, bom ou mau para a sua colheita,
  34. 34. segundo o caso. Eis tudo o que tira disso. Os corpos físico, astral e mental dopintor estão todos expostos exatamente às mesmas pulsações que os docamponês; mas quão diferente é o resultado! O material mais sutil de seuscorpos reproduz um milhão de vibrações demasiado rápidas e sutis, que nãoimpressionam o material mais grosseiro do outro. Por conseguinte, a suaimagem do pôr-do-sol é muito diferente da imagem produzida no camponês.Os tons delicados de cor, o matiz que desvanece noutro matiz, o azul e rosatransparentes, e o verde-marinho pálido iluminado de reflexos dourados comfranjas de púrpura real, todos são usufruídos com detido prazer, com êxtase degozo senciente. Despertam-se delicadas emoções, o amor e a admiraçãomudam-se em reverência e alegria de existirem tais coisas. Surgem as idéiasde natureza mais inspirada, à medida que o corpo mental se modifica sob asvibrações atuantes nele, no plano mental, e do aspecto mental do pôr-do-sol. Adiferença das imagens não se deve a uma causa externa, mas a umareceptividade interna. Não depende do externo, mas da capacidade responsivade cada observador. Não está no Não-Eu, mas no Eu e suas envolturas.Segundo estas diferenças, tal é o resultado que se produz. Quão pouco flui nocamponês! Quão mais no pintor!Vemos aqui, com surpreendente evidência, o significado da evolução doConhecedor. Ao nosso redor pode haver um universo de formosura; suasondas atuam em nós de todos os lados e, no entanto, podem ser como se nãoexistissem. Tudo que está na mente de Ishvara, Deus, o Logos de nossoSistema Solar, está atuando em nós e em nossos corpos agora. O que dissepodemos receber marca o grau de nossa evolução. O de que carece nossodesenvolvimento, não é uma mudança fora de nós, mas uma mudança dentrode nós. Foi-nos dado tudo, mas precisamos desenvolver a capacidade pararecebê-lo.Pelo que já foi exposto, compreender-se-á que a observação exata é umelemento necessário para pensar-se com clareza. É no plano físico, onde nospomos em contato com o Não-Eu, que temos de começar nosso trabalho.Caminhamos para cima; toda a evolução principia no plano inferior e seencaminha para o superior; no inferior tocamos, como primeiro marco, nomundo externo, e deste passam as vibrações para cima, ou para dentro,fazendo surgir os poderes internos.A exata observação é, pois, uma faculdade que se deve cultivardefinitivamente. A maioria das pessoas vai para o mundo com os olhos meiofechados, e isto pode ser comprovado por qualquer que se pergunte a simesmo acerca do que tiver observado, ao andar pela rua. Podemos perguntar-nos: Que observei ao andar pela rua? Muita gente quase nada observou; nãoformou nenhuma imagem clara. Outros terão, talvez, observado umas poucascoisas; alguns, quiçá, muitas. Conta-se que o pai de Houdini o educou na
  35. 35. observação dos artigos expostos nas vendas diante das quais passavam nasruas de Londres, até que o menino chegou a poder dar conta de tudo quantocontinha a frente de uma venda, com um simples olhar.A criança normal e o selvagem são observadores, e segundo seja a suacapacidade de observação, assim será a medida de sua inteligência. Ocostume de observar de modo claro e rápido tem seu fundamento, e no homemde inteligência mediana, no pensar com clareza. Os que pensam muitoconfusamente são, em geral, os que observam com menos exatidão, excetoquando a inteligência está altamente desenvolvida e habitualmente voltadapara dentro de si mesma.Mas a resposta à pergunta anterior pode ser: “Eu estava pensando noutracoisa, e por isso não observei”. Será muito cabível, se o que responde estavapensando em algo mais importante do que a educação do corpo mental e a dopoder da atenção por meio da observação cuidadosa; mas se só estavasonhando, vagando o seu pensamento de modo indeterminado, então perdeuseu tempo, muito mais do que se houvesse dirigido sua energia para fora.Deve-se considerar esta distinção como limitando as observações anteriores,pois um homem profundamente submerso em seus pensamentos nãoobservará os objetos passageiros, porque estará fixo em seu interior, e não noexterior. Os altamente desenvolvidos e os que o estão só parcialmente,necessitam de uma educação diferente.Mas quantos, dentre os que não observam, estão de fato “profundamentesubmersos em seus pensamentos”? Na mente da maioria das pessoas, tudo oque se passa é um vago olhar de qualquer imagem de pensamento que se lhespossa apresentar: uma contemplação, sem objetivo determinado, do conteúdode seu porta-joias ou de seus armários. Isto não é pensar, pois que pensarsignifica, como vimos, estabelecer relações, acrescer algo que não estivessepreviamente presente. Ao pensar, a atenção do Conhecedor se dirigedeliberadamente para imagens de pensamento, e com elas trabalhaativamente.Portanto, o desenvolvimento do hábito de observação constitui uma parte daeducação mental, e os que a praticarem notarão que a mente se esclarece,aumenta em poder e se torna mais facilmente manejável. De sorte que podemdirigi-la a um objeto dado, muito melhor do que podiam fazê-lo antes. Bem:este poder de observação, uma vez definitivamente estabelecido, ageautomaticamente, e o corpo mental registra as imagens, das quais poderáutilizar-se depois, se delas necessitar sem exigir a atenção de seu dono.
  36. 36. Um caso desta espécie, muito trivial mas significativo, posso apresentar comoexperiência minha. Viajando eu pela América, surgiu, durante a viagem, umapergunta acerca do número da locomotiva do trem em que estávamos, e onúmero se apresentou incontinenti em minha mente. Não foi de modo algumum caso de clarividência; é que, sem nenhuma ação consciente de minhaparte, minha mente havia observado e registrado o número da locomotiva aoentrar o trem na estação, e quando se precisou conhecê-lo, a imagem mentaldo trem entrando com o número na frente da locomotiva se me apresentou emseguida. Esta faculdade, uma vez estabelecida, é muito útil, pois significa quequando em torno de alguém ocorrem coisas, mesmo se naquele momentodesviar a atenção, podem, depois, ser recordadas olhando-se o registro que ocorpo mental fizera delas por sua própria conta.Esta atividade automática do corpo mental fora da atividade consciente do Euexerce sobre todos nós um efeito mais considerável do que se poderia supor.Tem-se constatado que quando uma pessoa é hipnotizada refere muitospequenos sucessos que lhe aconteceram sem lhe despertar a atenção. Taisimpressões chegam ao corpo mental por meio do cérebro, e imprimem-se tantoneste como naquele.Deste modo se gravam no corpo mental muitas impressões insuficientementefortes para penetrar na consciência, não porque esta não as pode conhecer,mas porque não está suficientemente desperta, a não ser para registrar asimpressões mais fortes. No estado hipnótico, no delírio, nos sonos físicosquando o Jiva não está presente, o cérebro expele de si estas impressões, quegeralmente se achavam dominadas pelas impressões muito mais fortes,produzidas ou recebidas pelo próprio Jiva. Mas se a mente é educada emobservar e registrar, então o Jiva pode depois absorver dela as impressõesgravadas deste modo.Assim, se dois indivíduos passam por uma rua, sendo um educado naobservação e o outro não, podem ambos receber um número de impressões,sem que nenhum deles perceba as mesmas naquele momento; mas, depois,somente o observador educado poderá recordar as imagens. Como este poderdepende do pensar com clareza, os que desejarem cultivar e dominar o poderdo pensamento farão bem em não se descuidarem de cultivar o hábito daobservação, sacrificando o mero prazer de vagar por onde quer que os possalevar a corrente da fantasia.
  37. 37. A EVOLUÇÃO DAS FACULDADES MENTAISÀ medida que se acumulam imagens, o trabalho do Conhecedor se torna maiscomplicado, e seu trabalho com elas faz surgir um poder após outro, inerentesà sua natureza divina. Já não aceita o mundo externo apenas em sua simplesrelação consigo, como contendo objetos que lhe são causa de prazer ou dedor, porém, dispõe ao lado umas das outras as imagens desses objetos;estuda-as em seus diversos aspectos, revolve-as e volta a considerá-las.Também principia a coordenar suas próprias observações, e atenta para aordem de sucessão das imagens. Quando umas dão lugar a outras; quandouma segunda imagem se seguiu a uma primeira muitas vezes, principia abuscar a segunda ao se lhe apresentar a primeira, e deste modo as enlaça.Este é o primeiro passo para o raciocínio e neste ponto também temos aexteriorização de uma faculdade inerente. Argúi que A e B apareceram sempresucessivamente, e que, portanto, quando A aparecer, B também aparecerá.Essa previsão, a comprovar-se constantemente, o faz enlaçá-las como “causa”e “efeito”, e muitos de seus primeiros erros se devem ao estabelecimentodemasiado precipitado desta relação. Por outro lado, pondo as imagens umaao lado da outra, observa-lhes as semelhanças ou dessemelhanças, edesenvolve a faculdade de comparar. Escolhe uma ou outra como produtora deprazer, e movimenta seu corpo no mundo externo em busca delas,desenvolvendo seu juízo por estas seleções e suas consequências.Desenvolve um sentido das proporções em relação com as semelhanças oudessemelhanças, e agrupa os objetos segundo sua maior igualdade, ou ossepara segundo sua maior diferença. Nisto também comete muitos erros, por oinduzirem facilmente a eles as semelhanças superficiais, que logo porémcorrige por observações posteriores.Deste modo, a observação, a distinção, a razão, a comparação, o juízo,crescem um após outro. São faculdades que se desenvolvem com a prática, eassim este aspecto do Eu como Conhecedor se robustece por meio daatividade dos pensamentos, pela ação e reação, constantemente repetidas eentrelaçadas entre o Eu e o Não-Eu.Para apressar a evolução dessas faculdades, devemos exercitá-las deliberadae conscientemente, utilizando as circunstâncias da vida diária comooportunidade para desenvolvê-las. Do mesmo modo que, segundo já temosvisto, se pode educar o poder da observação na vida diária, também podemosacostumar-nos a ver os pontos semelhantes ou dessemelhantes nos objetosque nos rodeiam; nós podemos compará-los e julgá-los, e tudo istoconscientemente e com determinado objetivo. O poder do pensamento crescerapidamente com este exercício deliberado, e converte-se em uma coisa quese maneja constantemente, porque se sente como uma possessão definida.
  38. 38. A EDUCAÇÃO DA MENTEEducar a mente em qualquer sentido é educá-la integralmente, em certo grau,pois qualquer espécie definida de educação organiza a matéria de que estácomposto o corpo mental, e além disso exterioriza alguns dos poderes doConhecedor. Uma mente educada se pode aplicar de um modo que seriaimpossível à não-educada; tal é a utilidade da educação.Entretanto, nunca se deve esquecer que a educação da mente não consisteem sobrecarregá-la de fatos, mas em lhe desenvolver os poderes. Não sedesenvolve a mente enchendo-a de pensamentos alheios, mas exercitando-lheos próprios poderes.Dos grandes Mestres que ocupam a dianteira da humanidade se diz queconhecem tudo quanto existe no Sistema Solar. Isto não significa que todos osfatos circunscritos ao Sistema estejam sempre presentes em sua consciênciae, sim, que desenvolveram de tal modo em si o aspecto cognoscitivo, quesempre que dirigem sua atenção para algo, conhecem o objeto em que ativerem fixado. Isto é algo muito mais maravilhoso do que o acúmulo na mentede qualquer número de fatos, assim como é muito mais maravilhoso ver-se umobjeto no qual se fixe a vista, do que se ser cego e conhecê-lo só peladescrição feita por outrem. A evolução da mente se mede, não pelas imagensque ela contém, mas pelo desenvolvimento da natureza chamadaconhecimento, ou poder de se reproduzir nela tudo quanto se lhe apresente.Isto é tão útil neste universo como em qualquer outro, e uma vez obtido énosso para empregarmos onde quer que estejamos.A ASSOCIAÇÃO COM SUPERIORESEste trabalho de educação mental pode ser muito auxiliado pondo-nos emcontato com aqueles que estão mais altamente desenvolvidos do que nós. Umpensador de maior poder mental que o nosso pode ajudar-nos materialmente,porque emite vibrações duma ordem superior às que podemos criar. Umpedaço de ferro não pode por si só emitir vibrações de calor, mas, se se achaperto do fogo, pode responder às vibrações deste e esquentar-se. Quando nosencontramos ao lado de um potente pensador, suas vibrações atuam em nossocorpo mental e lhe despertam vibrações responsivas, de sorte que vibramosem simpatia com ele. Durante aquele tempo sentimos que nosso poder mentalaumentou e que podemos aprender conceitos que normalmente se nosescapam; mas quando de novo nos achamos sós, vemos que estes mesmosconceitos se tornaram apagados e confusos.
  39. 39. Muitas vezes sucede que a gente ouve um discurso e o segue inteligentementedurante todo o tempo. Os ouvintes saem logo muito satisfeitos, com asensação de que obtiveram algo valioso em matéria de conhecimento. Mas nodia seguinte, ao quererem comunicar a um amigo o que obtiveram, notam, commortificação, que não podem reproduzir os conceitos que tão claros eluminosos lhe pareceram; então, exclamam: “Estou certo de que o sei; aqui otenho, só me falta agarrá-lo.” Este sentimento provém da memória, dasvibrações que, tanto o corpo mental como o Eu, experimentaram; existem aconsciência de haver compreendido os conceitos, a memória das formastomadas e o sentimento de que, havendo-as produzido, sua reproduçãodeveria ser fácil. É que no dia anterior foram as vibrações superiores queproduziram as formas colhidas pelo corpo mental, e estas foram modeladas defora e não de dentro. A impotência experimentada ao se tratar de reproduzi-lassignifica que se tem de repetir algumas vezes este modelamento, antes que setenha força suficiente para reproduzir estas formas por vibrações propriamentesuas.O Conhecedor tem que vibrar deste modo superior várias vezes, antes depoder reproduzir as vibrações à vontade. Em virtude de sua própria naturezainerente, pode desenvolver o poder dentro de si para reproduzi-las, uma vezque o tenha feito responder várias vezes à impressão de fora. O poder emambos os Conhecedores é o mesmo; mas um o desenvolveu, ao passo que ooutro o tem latente. É reduzido desta latência pelo contato direto com um podersemelhante, já em atividade, e deste modo o mais poderoso apressa aevolução do mais débil.Nisto consiste uma das utilidades de nossa associação com pessoas maisavançadas que nós. Aproveitamo-nos de seu contato e nos desenvolvemossob a sua influência estimuladora. Um verdadeiro Mestre ajuda deste modoseus discípulos, muito mais mantendo-os ao seu lado do que pela simplespalavra.Para esta influência, o trato pessoal direto proporciona o contato mais afetivo.Mas na falta disto ou da associação com o Mestre, muito se pode tambémobter dos livros, se sabiamente escolhidos. Ao ler uma obra de um verdadeiroescritor, devemos, durante a leitura, tratar de colocar-nos numa atitude passivaou receptiva, de maneira a recebermos o maior número possível de suasvibrações mentais. Depois, devemos tratar de sentir o pensamento que apenasparcialmente expressam, e tratar de extrair dele todas as suas ocultasrelações. Nossa atenção deve concentrar-se de modo a penetrar na mente doescritor através do véu das palavras. Semelhante leitura nos serve deeducação e faz progredir nossa evolução mental.
  40. 40. Uma leitura com menos esforço pode servir-nos de passatempo, pode encher-nos a mente com fatos valiosos e assim aumentar a nossa utilidade. Mas aleitura que acabamos de descrever significa um estímulo à nossa evolução, enão deve ser descuidada pelos que buscam desenvolver-se com o fim deservir.
  41. 41. CAPÍTULO 7 A CONCENTRAÇÃOPoucas coisas há tão difíceis para o estudioso que principia a educar a suamente como a concentração. Nas primeiras etapas da atividade da mente, oprogresso depende de seus velozes movimentos, de sua vivacidade, de suadisposição para receber os choques de sensações após sensações, volvendosua atenção prontamente de uma para outra. Nesta etapa a versatilidade éuma qualidade valiosíssima, pois é essencial ao progresso a direção constanteda atenção para o exterior.Enquanto a mente estiver reunindo materiais para pensar, é uma vantagem asua extrema mobilidade, e durante muitas, muitíssimas vidas, ela sedesenvolve por meio desta mobilidade, que aumenta com a prática. Ainterrupção deste costume de se exteriorizar em todas as direções, a imposiçãoda fixidez da atenção num só ponto, representam uma mudança que causauma sacudidela, um choque, e a mente se precipita aloucada, tal qual o cavalonão domado, ao sentir o freio pela primeira vez.Temos visto que o corpo mental se amolda às imagens dos objetos a que sedirige a atenção. Patanjali fala da interrupção das modificações do princípiopensante, isto é, a interrupção dessas constantes reproduções do mundoexterno. A detenção das constantes modificações do corpo mental e amanutenção deste fixamente amoldado a uma imagem mental sãoconcentração no tocante à forma; e dirigir a atenção com fixidez para estaforma, a fim de reproduzi-la perfeitamente dentro de si, é concentração notocante ao Conhecedor.Na concentração, a consciência está fixa numa só imagem; toda a atenção doConhecedor está dirigida para um só ponto, sem flutuações nem desvios. Amente (que discorre continuamente de uma coisa para outra, atraída pelosobjetos externos e amoldando-se a cada um em veloz sucessão) é enfreada,mantida e obrigada por meio da vontade a permanecer numa forma, amoldadaa uma imagem, sem atender a nenhuma outra impressão.Bem: quando se mantém a mente deste modo, amoldada a uma imagem, e sea emprega fixamente, obtém-se do objeto um conhecimento muitíssimo maiordo que o que poderia proporcionar qualquer descrição verbal do mesmo. Nossaidéia dum quadro, duma paisagem é muito mais completa quando o vemos do
  42. 42. que quando só o lemos ou dele ouvimos falar. E se nos concentramos em taldescrição, o quadro toma forma no corpo mental, e obtemos um conhecimentomuito mais completo do que o que se obtém pela mera leitura de palavras. Aspalavras são símbolos das coisas, e a concentração no esboço de uma coisaproduzida pela palavra descritiva acrescenta mais e mais detalhes, por secolocar a consciência mais em contato com a coisa descrita.No princípio da prática da concentração tem-se que lutar com duasdificuldades. Primeira, o desatender às impressões que continuamente serecebem. Tem-se que impedir que o corpo mental responda a esses contatos,que resistir à sua tendência em responder às impressões externas; mas istorequer dirigir-se parcialmente a atenção para essa resistência, e quando setiver vencido sua tendência em responder, a própria resistência tem de cessar.É necessário o equilíbrio perfeito; nem resistência nem não-resistência, masuma firme quietude, tão poderosa que as ondas externas não produzamnenhum resultado, nem sequer o resultado secundário de se ter consciência dealgo a que se haja de resistir. Segunda, durante o tempo que for, a mente devemanter como única imagem o objeto da concentração; não só deve resistir aser modificada em resposta aos choques externos, mas também deve cessarcom sua própria atividade interna, a qual está sempre baralhando o seuconteúdo, pensando nele, estabelecendo novas relações, descobrindosemelhanças e dessemelhanças ocultas.Esta imposição de quietude interna é ainda mais difícil do que permanecerignorante dos choques externos, por se referir à sua própria vida íntima ecompleta. É mais fácil voltar as costas ao mundo externo do que aquietar ointerno, porque este mundo interno está mais identificado com o Eu e, numapalavra, para a maioria das pessoas no atual grau evolutivo representa o “eu”(pessoal).16 Contudo, a própria tentativa de aquietar a mente deste modoproduz logo um avanço na evolução da consciência, porque imediatamentesentimos que o governante e o governado não podem ser um só, einstintivamente nos identificamos com o primeiro. “Eu aquieto minha mente” é aexpressão da consciência, e sente-se a mente como pertencendo ao “Eu”,como uma propriedade sua.16. Convém assinalar bem a diferença entre o Eu (superior) e o eu (inferior). O primeiro é oEspírito imortal, a Consciência eterna; o segundo é a Personalidade mortal (N.T.).Esta distinção cresce inconscientemente, e o estudante percebe que estáadquirindo a consciência duma dualidade, de algo que domina e de algo que édominado. A mente concreta inferior é apartada e o “Eu” se sente como umpoder maior, como uma visão mais clara; e desenvolve-se um sentimento deque este “Eu” não depende nem do corpo nem da mente.

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