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CÂNCER E TRABALHOtes permitidos de exposição para os riscosde carcinogênese.                                              ...
CÂNCER E TRABALHO                      confirmado por outros cientistas. Outro         Quadro 1                      exemp...
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CRISTIANE REIMBERG                                                                                                        ...
CÂNCER E TRABALHO                                                  MARCOS OLIVEIRA SABINOCRISTIANE REIMBERG               ...
FUNDACENTRO/ES   CÂNCER E TRABALHO                                                                DIVULGAÇÃO ATSOURCE     ...
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Materia revista proteçao

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  1. 1. BETO SOARES/ESTÚDIO BOOM CÂNCER E TRABALHO 34 REVISTA PROTEÇÃO 34 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  2. 2. PREVENIR SEMPRE O trabalho pode ser determinante para a ocorrência de câncer. Proteger a saúde humana até que se tenham informações seguras de que não há risco é o mais indicado. Reportagem de Cristiane Oliveira Reimberg Reportagem de Cristiane Oliveira Reimberg Ao folhear as páginas amareladas de um velho cader- sotelioma. Outros nomes são recordados. Sebastião Apa- no, *José Antonio Domingues, 72 anos, e *Eliezer João recido da Silva, ex-trabalhador da Brasilit, de São Caeta- de Souza, 69 anos, vão se lembrando dos amigos que no do Sul, teve câncer em um dos pulmões e asbestose no perderam. Ao ver a ficha de José Alves de Souza, Eliezer outro. Também morreu. Outros três amigos que se foram conta que esse amigo morreu de mesotelioma, câncer eram de São José dos Campos, ex-trabalhadores da diretamente relacionado ao amianto e que atinge a Avibras, dos quais dois tiveram mesotelioma. pleura, espécie de camada de revestimento do pulmão, O relatório traz nome, endereço e resultados de exa- ou ainda o pericárdio ou peritônio. Lembram-se de ou- mes médicos de trabalhadores do amianto e, junto com tras vítimas. Quatro eram diretores da Abrea (Associa- os dados, as memórias. Eles procuram os registros de José ção Brasileira dos Expostos ao Amianto). Desses, três Domingues, o sobrevivente. Para se livrar do tumor, tirou morreram por câncer. Valmir Felonta teve câncer de um pulmão em 2002. laringe. Aldo Vicentino e José Roncadin tiveram me- *foto na página seguinteMARÇO / 2011 REVISTA PROTEÇÃO 35 REVISTA PROTEÇÃO 35
  3. 3. CÂNCER E TRABALHO ARQUIVO PESSOAL DIVULGAÇÃO INCA A cirurgia de José Domingues foi reali- fiquei apavorado, pois eu zada às pressas no Instituto do Coração nunca tinha sido internado do Hospital das Clínicas de São Paulo, as- na vida”, relembra. Passa- sim que o câncer de pulmão foi diagnosti- do o período de adaptação, cado. “Fiquei sem um pulmão, mas fiquei esse baiano de nascimento, com a vida”, celebra o homem de 72 anos, que vivia em Osasco, aca- que confessa ainda ter medo de algo apa- bou mudando-se para o in- recer no pulmão que restou. Com o mes- terior de São Paulo, onde mo medo, convive Eliezer, que não teve poderia respirar um ar mais câncer, mas já fez cirurgia por causa de puro. placas pleurais. “Hoje estamos bem, mas de um dia para o outro pode aparecer al- COMPLEXIDADE guma coisa. A nossa luta agora é pela pre- Assim como José e Elie- Berenice: prevenção Ubirani: registros venção. Não queremos que as pessoas se zer desconheciam o risco da exposição, Já a Organização Mundial da Saúde contaminem. O amianto tem que ser bani- muitas pessoas não sabem que várias (OMS), em 2007, destacou que cerca de do para não continuar matando. Muitos substâncias carcinogênicas para os seres 200 mil pessoas morrem de câncer rela- amigos morreram contaminados. Pior é humanos estão presentes nos mais dife- cionado ao trabalho a cada ano. A preo- saber que muitos ainda vão morrer e que rentes ambientes de trabalho. “A Agên- cupação com a questão é tanta que neste outros se foram sem saber que o amianto cia Internacional de Pesquisa em Câncer mês, em Astúrias, na Espanha, será reali- é cancerígeno”, lamenta Eliezer, que pre- (IARC 2010) aponta pelo menos 64 agen- zada a “Conferência Internacional da OMS side a Abrea. tes ocupacionais e ambientais, grupos de sobre Determinantes Ambientais e Ocu- A história de Domingues com o amian- agentes, e misturas, como reconhecida- pacionais de Câncer - Intervenções para to começou em 6 de agosto de 1976. Nessa mente cancerígenos para seres humanos Prevenção Primária”. O objetivo é revisar data, foi admitido pela Eternit em Osasco/ – Grupo 1, dentre os 107 listados”, afirma políticas e incentivar ações para reduzir SP. Na empresa, ficou 15 anos, saindo a- a epidemiologista e gerente da Área de a exposição ambiental e ocupacional a a- penas em 1991. “Quando entrei não havia Vigilância do Câncer Relacionado ao Tra- gentes cancerígenos. comentários sobre os riscos, só soubemos balho e ao Ambiente do Instituto Nacio- “A prevenção primária, ou seja, evitar a quando a fábrica já estava para deixar nal do Câncer (INCA), Ubirani Otero. exposição é a abordagem mais importan- Osasco”, conta José. O seu primeiro rela- A relação entre câncer e trabalho tem te. Exames para diagnóstico são essenci- tório médico, arquivado na Abrea, data de um cenário complexo. O adoecimento, ais, para fins de tratamento - particular- 1997. Na época ele tinha 59 anos e foi de- quando acontece, aparece muito tempo mente a detecção precoce - e de compen- tectada uma limitação crônica ao fluxo depois da primeira exposição e nem sem- sação. Porém, não podem mudar o fato aéreo. A Associação funcionava como elo pre se faz o nexo ocupacional. Além disso, de que o trabalhador já tem câncer. Os de ligação entre os trabalhadores expos- a ocorrência do câncer depende de fatores tomadores de decisão em vários níveis de- tos, o Hospital das Clínicas e a Fundacen- genéticos, ambientais – que inclui ques- vem estar cientes de que o custo do cân- tro. Foi esse acompanhamento médico tões como o ar, a água, o local de trabalho cer em sofrimento humano é incomensu- que permitiu a descoberta do câncer em - e do estilo de vida. Uma estimativa da rável, e em termos econômicos, imenso. 2002. “O médico me disse, após a opera- OIT de 2000 apontou que de 2.256.335 É muito melhor e mais humano gastar em ção, que se eu não tivesse feito a cirurgia, mortes relacionadas ao trabalho, 634.984 prevenção do que em tratamento”, avalia não duraria 15 dias. Quando fui internado, foram causadas por neoplasias malignas. a higienista ocupacional, Berenice Goelzer.CRISTIANE REIMBERG ESTUDOS A discussão em torno do câncer relaci- onado ao trabalho, apesar de atual, tem longa data. Um clássico estudo de Percival Pott já descrevia no século XVIII a pre- sença de câncer de escroto em limpado- res de chaminés. Evidências clínicas e epidemiológicas que relacionam o amian- to com o câncer remontam ao início do século XX. Já em relação ao benzeno, na década de 30, foram identificados os pri- meiros casos de câncer. Mais recentemen- te, em 1998, especialistas reunidos pelo Programa Internacional de Segurança das Substâncias Químicas (IPCS) concluíram que a exposição ao asbesto crisotila acar- reta riscos aumentados para o câncer do José Domingues (D) e Eliezer Souza (E): resgatam dados dos trabalhadores expostos, alguns já falecidos pulmão e mesotelioma, não havendo limi- 36 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  4. 4. CÂNCER E TRABALHOtes permitidos de exposição para os riscosde carcinogênese. Cenário a desvendar “O trabalho pode se configurar determi-nante para a ocorrência do câncer, na me- Exposição e desconhecimento sobre os fatores de risco agravam a situaçãodida em que utiliza em seu processo agen- ANA MARIA TIBIRIÇÁtes, grupos de agentes e misturas reco-nhecidamente cancerígenas para os sereshumanos e quando é possível estabelecernexo causal entre exposição e doença.Tem como dificultador o período de latên-cia - tempo decorrido entre o início da ex-posição ao carcinógeno e a detecção clíni-ca do tumor, que para alguns tumores só-lidos pode superar 30 anos. A falta de re-gistro da exposição no histórico ocupacio-nal do trabalhador e o desconhecimentodas substâncias que manipulou ou a queesteve exposto dificultam a investigaçãoretrospectiva do risco”, explica a epide-miologista Ubirani Otero, do Inca. CAUSALIDADE O professor da Faculdade de Saúde Pú- Poeira de sílica: frequente em processos no setor cerâmicoblica da USP, Victor Wünsch, destaca ain-da que o câncer é uma doença complexa Nesse cenário complexo, amianto e ben- MAIS COMUNSem sua causalidade. Também há variação zeno não são os únicos agentes canceríge- Segundo documento produzido pelode pessoa para pessoa e depende da expo- nos presentes nos ambientes de trabalho. INCA (Instituto Nacional do Câncer), ossição. É possível a pessoa estar com o tu- Sílica, metais pesados como o níquel e o tipos mais frequentes de câncer relacio-mor e não ter sintomas, pois o câncer co- cromo, radiação ionizante e alguns agro- nado ao trabalho são o câncer de pulmão,meça antes das manifestações clínicas. tóxicos também trazem riscos. A Agência os mesoteliomas, o câncer de pele, o de “O problema é que nem sempre é fácil Internacional para Pesquisa em Câncer bexiga e as leucemias. Já os principais fa-o estabelecimento de nexo causal entre (IARC), órgão da OMS, conduz estudos tores de risco no trabalho são as poeirasexposição ocupacional e câncer. Muitas sobre as causas do câncer e os mecanis- (sílica e amianto), agrotóxicos, solventesvezes não restam dúvidas, por exemplo, mos da carcinogênese. Para tanto, produz (benzeno, tolueno e xileno), radiação ioni-angiosarcoma de fígado (um câncer raro) monografias listando os agentes. Uma no- zante e radiação solar. O material aindaque aparece em trabalhador exposto a va pesquisa - Monografia Volume 100, “U- estimou a ocorrência de 489.270 casos no-cloreto de vinila, ou mesotelioma, em tra- ma Revisão dos Cancerígenos Humanos” vos de câncer para 2010 no Brasil. No casobalhador exposto a amianto; porém, nem - está sendo produzida pela IARC e será do câncer de pulmão, a OMS reconhecesempre o nexo é evidente”, continua a hi- disponibilizada em breve pelo site da ins- que 10% das mortes estão diretamentegienista Berenice Goelzer. tituição. relacionadas aos riscos ocupacionais. Ou- “O câncer é uma doença multicausal. A classificação da Agência divide os a- tra estimativa da Organização é que os ca-Há fatores genéticos, hereditários e ambi- gentes como Grupo 1 - Cancerígeno para sos de câncer de origem ocupacional va-entais. Dentro dessa óptica, o câncer ocu- humanos; Grupo 2A - Provavelmente can- riem entre 5 e 25%. Um estudo clássicopacional não é uma doença ocupacional cerígeno para humanos; Grupo 2B - Possi- sobre a questão, realizado pelos epidemio-típica e sim relacionada ao trabalho. Utili- velmente cancerígeno para humanos; logistas ingleses Richard Doll e Richardzamos o conhecimento da lista de agentes Grupo 3 - Não classificáveis quanto à car- Peto em 1981, avaliou que 4% de todascancerígenos e fazemos a relação entre cinogenicidade em humanos; Grupo 4 - as mortes por câncer podem ter sido cau-trabalho e câncer. Podemos chegar ao ne- Provavelmente não cancerígeno para hu- sadas por carcinógenos de origem ocupa-xo causal, que não é cabal. Do ponto de manos. cional.vista epidemiológico, certos trabalhadores Dos mais de 100 agentes, substâncias e “Existem muitos agentes cancerígenostêm a incidência de determinados tipos misturas comprovadamente cancerígenas e vários deles podem encontrar-se em lo-de câncer. O longo período de latência difi- para humanos, mais de 30 são associadas cais de trabalho. É importante enfatizarculta. Quando você faz o histórico do tra- especificamente ao câncer ocupacional. que esta é uma área em que pesquisas ebalhador, ele não se lembra dos detalhes Até mesmo algumas ocupações, como a estudos geram continuamente novos co-das atividades que fazia há 30 ou 40 anos. de pintor, ambientes industriais como a nhecimentos. Tal foi o caso do cloreto deO médico, tendo experiência, pode ajudar indústria moveleira devido à poeira de ma- vinila, que era considerado moderada-o trabalhador a se lembrar”, aconselha o deira, e a indústria coureiro-calçadista mente tóxico até 1974, quando estudosmédico pneumologista da Fundacentro, com a poeira proveniente do couro, são de Maltoni associaram-no com angiosar-Eduardo Algranti. classificados no Grupo 1. coma do fígado, o que foi posteriormente38 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  5. 5. CÂNCER E TRABALHO confirmado por outros cientistas. Outro Quadro 1 exemplo é o formaldeído, considerado não cancerígeno, depois, classificado como CANCERÍGENOS um suspeito e, em 2004, confirmado como PARA HUMANOS cancerígeno. O amianto, reconhecida- Abaixo, alguns itens da IARC comprovadamente mente cancerígeno em todas as suas for- cancerígenos para humanos mas (actinolita, amosita, antofilita, criso- encontrados no ambiente de tila, crocidolita, tremolita), era considera- trabalho (Grupo1): do como causador de câncer do pulmão e mesotelioma; recentemente foi declara- do que pode causar também câncer da la- ringe e dos ovários”, relata a higienista ocupacional Berenice Goelzer. - Alcatrão da hulha SILÊNCIO - Amianto (todas as formas) A todas essas questões soma-se ainda - Certas aminas aromáticas (p.ex., orto-toluidina e ß-naftilamina) o desconhecimento do trabalhador. “O - 4-aminodifenil, maior fator de risco é a ignorância e a pior - Arsênico forma de ignorância é aquela alimentada - Benzeno, benzidina, benzo-o-pireno (um dos ( por interesses que não os do bem-estar e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos HPAs), da saúde das populações. Há muito mais - Berílio, conhecimento científico sobre riscos para - 1,3-butadieno, câncer em ambientes de trabalho do que - Cádmio, aquele que chega até os trabalhadores que - Cloreto de vinila, se expõem a esses riscos e para a socie- - Cromo VI e cromatos hexavalentes (como cromatos de dade em geral. O desconhecimento do ris- chumbo, cálcio, potássio e zinco; dicromato de amônia), co leva ao não reconhecimento da relação - Dioxina, entre doença e trabalho, o que gera sub- - Emissões de coquerias (benzeno, HPAs), diagnóstico e subnotificação, caracteri- - Éter bis-clorometílico, zando o chamado silêncio epidemiológi- - Formaldeído, co”, acredita Vera Salerno. - Fuligens (como as encontradas em limpadores de Para a médica, assim se desenvolve uma chaminés), fumaça de cigarro (fumante passivo), “lógica perversa”, na qual “a ausência de - Compostos de níquel, nitrodifenil, óleos minerais (não tratados ou pouco tratados), casos oficialmente notificados acaba ser- óleos de xisto, óxido de etileno, vindo como argumento para a manuten- - Poeira de couro, pós de madeiras duras (como ção da exposição de trabalhadores ao ris- carvalho), sílica livre e cristalina, co, uma vez que não há diagnósticos de - Materiais radioativos variados, radiação ionizantes (todos os tipos). câncer reconhecidamente relacionados ao trabalho notificados entre os trabalhado- res daquele ramo de atividade”. sem o mínimo de cuidados básicos. A cada Outros complicadores são as substân- dia 12 mil substâncias são registradas no cias químicas não analisadas, o desenvol- CAS [Chemical Abstracts Service]. Esta- vimento de novos agentes e das nanotec- mos submetidos a coisas desconhecidas nologias. “As partículas nanos são muito e o pior é que não conseguimos controlar pequenas e podem se translocar através a exposição nem do que já é conhecido”, das células. Não precisam da corrente continua a química. sanguínea. Ninguém sabe o que vai acon- “Com novas substâncias a cada ano você tecer. No caso do nanotubo de carbono já não tem uma aferição completa. A maioria há estudo mostrando relação com o cân- não é estudada suficientemente antes do cer”, alerta a química e pesquisadora da uso. Posteriormente se descobrem as evi- Fundacentro, Arline Arcuri. dências. Além disso, muitas exposições não Existem 56 milhões de substâncias, das provocam o aumento de câncer, mas pro- quais 248 mil são regulamentadas com po- vocam outras alterações relacionadas à fer- tencial para entrar no mercado. Desse uni- tilidade, qualidade de esperma, tireóide e verso, a IARC possui apenas 900 substân- a outros órgãos endócrinos. O câncer é cias químicas e físicas estudadas. “Hoje um aspecto, não o único’, conclui o médico os instrumentais de pesquisas são diferen- pneumologista e coordenador do Programa tes do passado. Não se justifica colocar de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio no mercado uma substância sem testar e Ambiente da Fiocruz, Sergio Koifman.40 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  6. 6. CÂNCER E TRABALHO VALDIR LOPESAmbientes diversosCancerígenos estão presentes na indústria, no campo e nos serviços A variedade de agentes cancerígenos des, que podem abranger fundições e si-faz com que diversos ambientes de traba- derúrgicas. O níquel e cádmio são outroslho possam influenciar no aparecimento elementos de risco.do câncer. É o caso da sílica que está pre- “Um dos produtos que combatemos foisente na indústria cerâmica, na mineração o amianto, que era usado para fazer freiode subsolo, em fundições, na construção de carro. Conseguimos a proibição no se-de fachada e assentamento de piso. Nes- tor, mas ainda temos casos de câncer por-ses ambientes, há o risco de silicose crôni- que a doença demora 30 anos para se mani-ca, que, por sua vez, aumenta o risco de festar. O uso descontrolado de óleos mine-câncer de pulmão. “Os casos de silicose rais para refrigerar ferramentas na usina-sempre têm histórico ocupacional. A me- gem pode gerar dermatites e depois cân-lhor prevenção para o câncer é prevenir cer de pele, mas não é tão comum”, afirmaa silicose controlando devidamente a ex- o diretor de Saúde, Segurança e Meio Am- Galvânicas: vias respiratórias são mais afetadasposição à sílica”, explica o médico pneu- biente do Sindimetal (Sindicato dos Meta- cretaria de Saúde e Meio Ambiente do Sin-mologista da Fundacentro Eduardo Al- lúrgicos de Osasco), Gilberto Almazan. dicato dos Químicos/SP, Lourival Batista.granti. O câncer também está entre as preocu- O sindicalista ainda destaca o uso do Outra área com risco de câncer de pul- pações dos químicos. “Na indústria quími- antioxidante químico banox para fabrica-mão é a galvanoplastia (foto), que tam- ca, há o manuseio de produtos desconhe- ção de pneus, o manuseio de amônia, obém pode ter relação com câncer sinusal cidos. Sempre ficamos sabendo de pes- uso do amianto e do benzeno. “Temos quee afetar todo o sistema respiratório. “O soas que morreram de câncer. A questão estancar essas fibras cancerígenas, dei-problema é sério em pequenas galvânicas. atinge o trabalhador no chão de fábrica, xando de produzi-las. Estamos no séculoO risco depende do agente usado e existe mas, também, o meio ambiente. No setor XXI e é possível, com as novas tecnologias,a partir do uso de névoas ácidas e cromo plástico é comum. Já vimos casos de cân- substituir esses produtos”, defende. Para6”, afirma o professor da Faculdade de cer em trabalhadores que lidavam com orientar os trabalhadores, o sindicato che-Saúde Pública da USP Victor Wünsch. O PVC. Nem sempre se faz o nexo com o gou a produzir uma cartilha com carátersetor metalúrgico também tem um histó- trabalho e se investiga a fundo. É uma educativo sobre o câncer no trabalho.rico de risco de câncer em outras ativida- morte lenta”, alerta o coordenador da Se- ABRANGÊNCIA Quadro 2 O problema do câncer relacionado ao trabalho, no entanto, não se restringe aos TIPO DE CÂNCER EXPOSIÇÃO COMO FATOR DE RISCO ambientes industriais. A agricultura tam- bém é atingida. Além do risco de câncer Frequentemente associado ao trabalho ao Câncer de Pele não Melanoma de pele devido à exposição à radiação ul- ar livre, exposição à radiação solar. travioleta, há o risco trazido por alguns Mesotelioma de Pleura , de tipos de agrotóxicos. É o caso dos pestici- Exposição ao Amianto. Peritônio e o de Pericárdio. das que contêm arsênio e derivados. O ris- co abrange tanto quem aplica o produto - Poeiras de sílica, amianto, carvão, madeira. - Radiação Ionizante. como aqueles que o produzem. - Metais como arsênico, cádmio, chumbo, cromo, manganês e níquel. “O arsênio leva a lesões da naso-faringe Câncer de Pulmão - Emissão de forno de coque, emissão de gases combustíveis, fumos químicos, e gases. e sinusais. Além dos pesticidas, ele está - Solventes orgânicos. na indústria da madeira e na manufatura - Hidrocarbonetos policíclicos aromáticos. de vidro. Ainda pode contaminar a água e Aminas aromáticas, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos, o alimento”, mostra o professor da USP Neoplasias azocorantes, benzeno, cromo/cromatos, exaustão de diesel, Victor Wünsch. de Bexiga fumo e poeira de metais, óleos, tintas e solventes. Existe a possibilidade dos agrotóxicos Neoplasias das Cavidades Poeira de madeira, poeira de couro, poeiras de cimento, óleo de contribuírem para vários tipos de câncer Nasais e Seios Paranasais corte e solventes. devido a uma ação sistêmica. “Os herbici- das, fungicidas e inseticidas são solúveis. Exaustão de motores, formaldeído, hidrocarbonetos policíclicos Cânceres da Cavidade Oral, aromáticos, níquel, poeiras da indústria têxtil, poeiras da indústria do Assim, a capacidade de penetração é mui- Faringe e Laringe, couro, poeira de madeira, sílica, solventes, solventes orgânicos. to grande. Entram na corrente sanguínea e se espalham”, explica a química Arline Ar- Exposição a campos eletromagnéticos, à radiação ionizante e a solventes. A Leucemias exposição ao benzeno e à Radiação Ionizante está fortemente relacionada ao curi. desenvolvimento de Leucemia Mielóide Aguda e Mielodisplasia. Ainda são fontes de preocupação as ra- Fonte: Revisão bibliográfica 1980 - 2010 Pubmed - palavras-chave: cancer, occupation e exposure diações ionizantes que podem estar pre-42 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  7. 7. CÂNCER E TRABALHOQuadro 3 mento de incidência. Já no caso das indús- trias de móveis, há casos de câncer dos TIPO DE CÂNCER SETORES/ATIVIDADES ASSOCIADOS seios nasais. O câncer de bexiga tem inci- dência baixa, mas é grave. Vemos relação Agricultura, construção civil, Câncer de Pele não Melanoma atividades ao ar livre. com atividades envolvendo aminas e aromáticos – pigmentação de tintas”, Mesotelioma de Pleura , de Indústrias de fibrocimento, isolamento complementa o professor da Faculdade Peritônio e o de Pericárdio. acústico e térmico. de Medicina da Bahia e coordenador do Departamento de Medicina Preventiva e Construção Civil, Fundição de Cobre, Ferro e Aço, Indústria da Borracha, Indústria de Cimento e Gesso, Indústria Gráfica e de Papel, Indústria Social, Marco Rêgo. Câncer de Pulmão Têxtil, Indústria Metalúrgica, Produção de Fertilizantes, Maquinaria e Por fim, existe o risco do câncer de pele, Transporte, Mineração, Trabalho Rural. presente entre os pescadores, agriculto- res e outros trabalhadores que atuam ao Indústria da Borracha e de Plásticos e Sintéticos, Indústria de Tinturas Neoplasias Corantes, Indústria do Couro, Indústria Gráfica, Indústria de Metais, ar livre, expostos à radiação ultravioleta, de Bexiga Indústria do Petróleo, Indústria Química e Farmacêutica, Indústria de como garis, guardas, carteiros e profissio- Sapatos, Indústria do Tabaco, Indústria Têxtil. nais da construção civil. Neoplasias das Cavidades Indústria da Madeira, Indústria do Couro, Indústria Têxtil, Indústria de Calçados, “É importante estudar a possibilidade Nasais e Seios Paranasais Indústria do Papel, Serrarias, trabalho em Salão de Beleza e Lavanderias. de ocorrência dos agentes cancerígenos em cada local de trabalho. Trabalhadores Cânceres da Cavidade Oral, Agricultura e Criação de Animais, Indústria Têxtil, Indústria do Couro, em ocupações das mais variadas podem Indústria Metalúrgica, Indústria do Papel, Indústria da Borracha, Faringe e Laringe, Construção Civil, trabalho em Salão de beleza e Lavanderias. estar expostos: na indústria química (co- rantes, tintas, borracha, plásticos, etc.) e Campos magnéticos – redes elétricas. farmacêutica; indústria do petróleo; in- Radiação ionizante, trabalhadores da área hospitalar, de atividades Leucemias nucleares, no beneficiamento de urânio e na mineração. dústria de ferro e aço; coquerias; agricul- Benzeno - petroquímicas, coquerias, siderurgias, postos de gasolina. tura; salões de beleza (cabeleireiros); hos- Fonte: Revisão bibliográfica 1980 - 2010 Pubmed - palavras-chave: cancer, occupation e exposure pitais (raios X, radioterapia, quimiotera- pia); usinas nucleares; laboratórios desentes em raio x, abrangendo trabalhado- Temos o risco, por exemplo, em atividades pesquisa; certas minas; marcenarias (con-res da área hospitalar, em atividades nu- de pintura envolvendo solvente e pintura forme a madeira); curtumes; produção decleares, no beneficiamento de urânio e na à pistola. Outras ocupações listadas são o alumínio; construção civil; qualquer traba-mineração. “A tireóide e a medula óssea beneficiamento de couro, na área de cur- lho com amianto; atividade em restauran-(leucemia) são particularmente sensíveis, tumes, pois há um emaranhado de subs- tes, bares e boates, se não for proibidomas estas radiações podem também cau- tâncias na atividade que levam a um au- fumar”, exemplifica Berenice.sar outros tipos de câncer como o de pul-mão e o de pele. Muito depende do tipode exposição e condições individuais”, ob-serva a higienista Berenice Goelzer. Alvos de discussões Já as radiações não ionizantes estão pre- Amianto e benzeno geram contestações cada vez mais pertinentessentes nos campos magnéticos das redeselétricas, havendo suspeita de relação Certamente uma das fibras canceríge- “Já existe substitutivo para ele e é viávelcom leucemia e câncer de cérebro. A pro- nas mais polêmicas no Brasil é o amianto. também do ponto de vista econômico”,dução de alumínio é reconhecida pela IARC O País conta com uma mina na cidade de defende Algranti. “Há vários países comocomo carcinogênica, e os campos magnéti- Minaçu/GO e utiliza a substância na fabri- a França em que o uso foi abolido. Não hácos são suspeitos de contribuir com o risco. cação de telhas, caixas d’água e na indús- justificativa para a sua continuidade nem Em certos ambientes de trabalho, como tria de cloro-soda. De um lado, estão os dúvida sobre a sua ação danosa”, comple-minas profundas, serviços de saúde e la- que defendem o banimento e do outro, ta o médico epidemiologista da Fiocruz,boratórios de pesquisa, há o risco do radô- os que querem o seu uso controlado. Sergio Koifman.nio. A Agência Norte-Americana de Pro- “Metade dos casos de câncer de pulmão Para o Instituto Brasileiro do Crisotilateção ao Meio Ambiente (US EPA) calcula relacionados ao trabalho são devido ao as- (IBC), o amianto crisotila é usado com rí-que o radônio é a segunda causa de morte besto. A outra metade devido ao arsênio, gidos padrões de segurança. A organiza-por câncer pulmonar nos Estados Unidos, ao cromo, ao berílio, ao cádmio, aos ácidos ção ressalta que atualmente o Brasil é oprecedido por tabagismo e seguido pela fortes, ao níquel e à sílica, entre outros. A terceiro maior produtor mundial desse mi-fumaça passiva. carcinogenicidade do amianto é muito neral. maior do que a da sílica”, afirma o pneumo- “Desde a década de 1980, não há regis- MAIS FREQUENTE logista da Fundacentro, Eduardo Algranti. tros de casos de doenças relacionadas ao “O câncer de pulmão entre todos os tu- O amianto tem relação direta com o me- amianto no Brasil. O País desenvolveu me-mores é o mais frequentemente vincula- sotelioma e alguns estudos apontam rela- didas para o controle da poeira nos locaisdo ao trabalho. O aparelho respiratório é ção com câncer de laringe e de ovário em de trabalho, resultado dos investimentosuma grande via de entrada para tóxicos. mulheres. contínuos em segurança. Em pesquisa44 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  8. 8. CRISTIANE REIMBERG DIVULGAÇÃOintitulada ‘Exposição Ambiental ao Asbes- firma o professor da USP,to – Avaliação do Risco e Efeitos na Saú- Victor Wünsch.de’, conduzida pelos professores MárioTerra Filho (USP), Ericson Bagatin (Uni- SEM LIMITEcamp) e Luiz Eduardo Nery (Unifesp), foi “Para os cânceres ocupa-concluído que não há riscos à saúde da cionais causados por agen-população que reside em casas cobertas tes como amianto e radia-com telhas de fibrocimento com amianto, ção ionizante não há limiteassim como aos trabalhadores da minera- seguro de exposição”, acre-ção que estão sujeitos a condições segu- dita Fernanda Giannasi. “Aras de trabalho”, garante a presidente do grande prevenção é o bani-IBC, Marina Júlia de Aquino. mento. Não há limite de to- As informações são questionadas pela lerância seguro para subs- Fernanda: período de latência Marina: seguroauditora fiscal da SRTE/SP Fernanda tância carcinogênica. No caso do amianto, “Como a indústria petroquímica não po-Giannasi, para quem mesmo os trabalha- defendo que não se deva trabalhar com de eliminar o agente, estamos discutindodores admitidos após os anos 80, que não ele”, diz o professor da UFBA, Marco Rêgo. boas práticas tecnológicas para evitar queadoeceram, ainda podem ficar doentes, Apenas no Cerest de Campinas/SP, de o trabalhador se exponha. São soluçõespois o período de latência varia de 25 a janeiro de 2008 a julho de 2009, foram de engenharia para evitar vazamentos e50 anos. O IBC rebate que o período varia identificados 13 casos de câncer relacio- controles médicos dos trabalhadores, háde 15 a 20 anos, citando o pesquisador nado ao trabalho. Eram situações como bombas herméticas, coletas de amostrasJacques Dunnigan, do Canadá, País que câncer de tireóide em trabalhadores ex- em sistemas fechados. Há um trabalho datem também uma mina de amianto. postos a múltiplas substâncias químicas Comissão Nacional. O Acordo tem 15 a- “O período de latência é variável. Alguns na fabricação de pesticidas; leucemias em nos, fora os 10 anos anteriores de mobili-estudos sobre tabagismo e tumores sóli- expostos a benzeno; câncer de pulmão e zação”, conta a química da Fundacentro.dos como câncer de pulmão apontam 20 pleura em trabalhadores expostos ao ami- O médico e auditor fiscal da SRTE/SP,anos, mas pode ser de 30, 40 e até 50 anos. anto. Nesse meio, há vítimas da região de Danilo Costa, explica que os tipos de cân-O período de latência é menor para a ex- Paulínia/SP, conhecida pela disputa entre ceres relacionados ao benzeno são os li-posição ao benzeno e a leucemia, varian- trabalhadores e as empresas Shell/Basf. gados ao sistema hematopoiético: leuce-do entre 10 e 15 anos. Mas, nem sempre “Os três casos de câncer de tireóide mia, linfoma e mieloma múltiplo. Pesqui-é possível detectar a primeira exposição, ocorreram em ex-trabalhadores da Shell. sas recentes apontam relação com cân-o que faz com que os estudos sofram, às O critério para o estabelecimento da rela- cer de mama e de cérebro. “A correlaçãovezes, alguma inconsistência. Outro pon- ção causal foi epidemiológico, além de se mais forte é com a leucemia e o linfoma.to é o período de indução que vai da expo- considerar a bibliografia médica. A douto- Hoje as concentrações tendem a diminuir,sição ao início do processo de carcinogê- ra June Rezende encontrou um risco 166 mas as doenças podem ocorrer mesmonese. Com diagnósticos mais avançados, vezes maior para a ocorrência de câncer com exposições em níveis mais baixos”,poderemos reduzir o período de latência de tireóide entre os ex-trabalhadores em afirma Costa.e aproximá-lo do período de indução”, a- relação à população masculina de Campi- nas, o que está detalhado na tese de (IN)FORMAÇÃO WILSON BESNOSIK doutoramento defendida por ela na Uni- Em São Paulo tem sido feito um traba- camp”, relata a médica sanitarista, Mirian lho para estimular a participação dos tra- Silvestre. balhadores na prevenção. O objetivo é que eles conheçam o risco para intervir. São PETROQUÍMICA cursos de formação que envolvem a CIPA Outra substância cancerígena que tem e encontros regionais. “Também acompa- sido alvo de discussões é o benzeno, que nhamos o que foi implantado da legisla- conta com comissões tripartites, tanto na- ção. Algumas empresas têm experiências cional quanto estaduais. No caso de sol- bem sucedidas. Naquelas em que há desa- ventes, a presença de benzeno por conta- justes, o MPT entra com ação civil pública minação pode ser de no máximo 0,1%. Já para que haja mudanças ambientais e de a ACGIH apresenta limite de 0,5 ppm. proteção”, diz o auditor. Mas, segundo a química Arline Arcuri e Ainda falta saber a situação real das do- Victor Wünsch, isso não significa que o enças. Poucos casos são mapeados. De trabalhador possa se expor ao benzeno 2004 a 2007, cinco casos de leucemia fo- sem risco. Na gasolina, a ANP (Agência ram relacionados ao benzeno no Estado Nacional de Petróleo) aceita presença de de São Paulo - três da Cosipa e dois da até 1% de benzeno na comum e 1,5% na Refinaria Presidente Bernardes Cubatão. especial. Por outro lado, já existem gru- “Certamente o número é muito maior. Al- pos estudando a presença de leucemia guns eventos sentinelas sinalizam situa-Nas refinarias: exposição deve ser reduzida entre frentistas. ções graves como casos de aplasia de me-MARÇO / 2011 REVISTA PROTEÇÃO 45
  9. 9. CÂNCER E TRABALHO MARCOS OLIVEIRA SABINOCRISTIANE REIMBERG cedidos 170 benefícios a tra- lhoria das instalações em relação à prote- balhadores do comércio va- ção dos trabalhadores, como novas tec- rejista de combustíveis para nologias para redução das emissões fugiti- veículos automotores vas e um plano específico de acompanha- (CNAE 47.3) por doenças mento da saúde de todos os funcionários enquadradas nos capítulos da Refinaria pelas áreas de Saúde e Higi- C e D da CID 10, onde estão ene Ocupacional. Os investimentos foram incluídas todas as formas de de 50 milhões de reais. neoplasia (benignas e malig- nas). Três desses casos es- CONTROLE tavam relacionados ao tra- A sílica, por sua vez, segundo o médico balho. Infelizmente, não te- Eduardo Algranti, requer o controle de e- Costa: eventos sentinelas Mirian: leucemia mos acesso ao banco de da- missão de poeira na fonte de produção, dula em trabalhadores de postos de gaso- dos da Previdência Social para que pos- sistemas de exaustão, umidificação e en- lina e voltamos a ter casos de leucemias”, samos detalhar melhor quais os tipos de clausuramento do processo. Por último, avalia Costa. câncer que têm atingido essa categoria de uso de proteção respiratória individual, “Como não existem níveis seguros para trabalhadores”, completa a médica do Ce- quando os outros métodos não são capa- exposição a substâncias cancerígenas, há rest, Mirian Silvestre. zes de evitar a exposição. maior risco de desenvolvimento de cân- Para o auditor, é possível diminuir o No caso da exposição à radiação ultra- cer, em particular, leucemia para os traba- benzeno da gasolina. Atualmente, a políti- violeta, recomenda-se o uso de protetor lhadores que se expõem à gasolina. Se- ca do benzeno prevê substituição quando solar, além de roupas e chapéu pensando gundo as estatísticas disponíveis no sítio possível. A substância também é gerada na proteção do trabalhador. No Rio de Ja- eletrônico da Previdência Social, entre ou- como subproduto na produção de coque neiro, por exemplo, houve alteração do tubro de 2008 e agosto de 2009 foram con- no caso da siderurgia. horário de trabalho para períodos com ex- posição solar menos intensa para traba- lhadores de Correios e da coleta de lixo Atenção à prevenção e ao controle domiciliar. Para a prevenção, Ubirani Otero, do Se substituir não é possível, vigilância e proteção são fundamentais INCA, destaca a importância de se substi- tuir os agentes cancerígenos por outros Quando se trata de produtos cancerí- as todas Unidades Operacionais que pro- não cancerígenos ou menos nocivos. O genos, a melhor prevenção é evitar a ex- duzem, transportam, armazenam, utilizam uso de tecnologias mais modernas no pro- posição. Ela pode ocorrer com a substi- e manipulam o benzeno ou suas misturas cesso de trabalho é outro aspecto impor- tuição do agente ou impedindo que o tra- líquidas contendo 1% ou mais em volume. tante, assim como a implementação de balhador seja exposto. Algumas medidas Já para as atividades operacionais em que medidas de controle e monitoramento pa- de controle são, por exemplo, o enclausu- o benzeno está presente em concentra- ra evitar exposição do trabalhador a agen- ramento bem vedado da operação, com ções inferiores a 1% em volume, a empre- tes cancerígenos. ventilação local exaustora incluindo cole- sa utiliza o Programa de Prevenção de Ris- Os trabalhadores devem ser informados tores de alta eficiência, no caso de con- cos Ambientais (PPRA). sobre os riscos. O número de potencial- taminantes atmosféricos. No caso da Refinaria Presidente Ber- mente expostos a cancerígenos deve ser “Temos medidas bem sucedidas no Es- nardes Cubatão – RPBC, foi assinado um diminuído, a duração da jornada limitada tado como o uso de bombas herméticas Termo de Compromisso com o Sindicato e os níveis de exposição monitorados ao para evitar vazamentos. Avançamos com dos Petroleiros do Litoral Paulista - Sin- mínimo compatível com a saúde. bombas magnéticas e de duplo selo. Anti- dipetro LP em 2005, com acompanhamen- A gestão de risco deve priorizar o moni- gamente era comum encontrarmos bom- to do Ministério Público do Trabalho. O toramento e a redução da exposição e não bas corroídas, sem conservação”, relata o objetivo foi estabelecer ações para a me- apenas o diagnóstico precoce do câncer. médico e auditor fiscal da SRTE/SP Danilo DIVULGAÇÃO INCA DIVISÃO DE AUDIOVISUAL/FUNDACENTRO PAULA BOSI Costa, sobre o benzeno em São Paulo. Com relação ao mesmo agente, o auditor ainda destaca o uso de teto flutuante e selagem de nitrogênio nos tanques, o uso de analisador de linha que permite a aná- lise interna do produto e diminui a neces- sidade de abrir a tubulação para coleta de amostras, além de medições de tanque com radar. A Petrobras, por sua vez, afirma desen- volver o Programa de Prevenção da Expo- sição Ocupacional ao Benzeno em todas Fátima: marcadores biológicos Algranti: na fonte Margarida: tolerância zero 46 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011
  10. 10. FUNDACENTRO/ES CÂNCER E TRABALHO DIVULGAÇÃO ATSOURCE toxicológicos existentes e as referências mais conceituadas. Assim, não permite um controle adequado da exposição dos trabalhadores. A própria ABHO produziu uma moção pedindo a revisão da Norma. “As empresas devem saber como reco- nhecer o risco de câncer ocupacional, isso deve ser feito pelo PPRA. O reconheci- mento envolve a consulta a referências confiáveis e dedicadas ao assunto. Além de envolver pesquisa à literatura de refe- rência de entidades ocupacionais impor- tantes como OMS, OIT, NIOSH. Existe a referência simplificada que é dada no li- Umidificação: reduz emissão de poeira Ventilação local exaustora: recomendada vreto da ACGIH, e o mais importante, as A CIPA também deve ser palco para a dis- (UERJ), Fátima Sueli Ribeiro. informações e referências dadas pelo cussão dos múltiplos fatores envolvidos Sobre os exames ocupacionais, a epide- IARC”, defende o higienista ocupacional, na carcinogênese. Já as áreas de trabalho miologista destaca que “na perspectiva do Mário Fantazzini, da ABHO. que podem, potencialmente, apresentar câncer, os marcadores biológicos de expo- risco de exposição devem ser delimitadas sição devem ser priorizados em relação HOJE e monitoradas. O fornecimento de EPIs e ao diagnóstico precoce”. Isso porque “a A complexidade do câncer relacionado EPCs deve ser adequado. identificação da exposição permite a im- ao trabalho exige das empresas uma pos- plementação de mudanças capazes de mi- tura pró-ativa. Uma das bases para isso é PRECAUÇÃO tigar o desfecho, ao passo que o diagnósti- o princípio da precaução, no qual as dúvi- O médico do Trabalho René Mendes, co é bastante tardio para qualquer medi- das em relação aos riscos do agente fazem por sua vez, destaca a importância de se da”. O médico deve estar atualizado sobre com que a exposição seja evitada. Outro planejar e implementar o PCMSO na lógi- as mudanças que se implementam no pro- ponto importante é a prevenção, que in- ca de um sistema de vigilância da saúde cesso de trabalho, e os exames devem se clui as medidas de Higiene Ocupacional e dos trabalhadores, articulado com um sis- cuidadosamente planejados. as que acabam com a exposição às subs- tema de vigilância das condições e ambi- tâncias cancerígenas. Também não se po- entes de trabalho. As interrelações e arti- AMBIENTE de esquecer o direito de saber do trabalha- culações entre o PCMSO (NR 7), o PPRA Já em relação ao PPRA, a higienista ocu- dor, que deve ser informado sobre os fato- (NR 9) e o PGR (NR 22) são estreitas e pacional Maria Margarida Lima, da ABHO res de risco. As descobertas científicas de- fortes. Os programas devem caminhar e da Fundacentro, aponta que a elabora- vem ser divulgadas de forma democráti- juntos. As avaliações ambientais, qualitati- ção deve visar à eliminação da exposição ca para a sociedade. Nesse cenário, o Bra- vas ou quantitativas, orientam o PCMSO, em curto prazo. As medidas de Higiene sil teve alguns avanços. como também devem ser concebidas, pla- Ocupacional vão depender dos agentes e Mas ainda há um longo caminho a ser nejadas e implementadas com finalidades das formas de exposição. percorrido. O amianto ou asbestos, proi- verificadoras no ciclo do PDCA (Plane- “A abordagem da questão do câncer re- bido em 63 países, é vedado em apenas jar, Fazer, Verificar e Ajustar). lacionado ao trabalho, como efeito de ex- quatro estados brasileiros. A proibição da “O PCMSO é uma regulamentação ne- posição a agentes químicos ou físicos, tem sílica livre cristalina em operações de ja- cessária e importante, mas insuficiente de ser realizada dentro dos princípios da teamento de areia e corte de pedras a seco para o controle do câncer. Faz-se necessá- Higiene Ocupacional, com maior ênfase nem sempre impede que as atividades rio mudar a legislação para focar indicado- ao reconhecimento do risco e do seu con- ocorram. O benzeno ainda é utilizado como res de exposição ambiental e, no caso dos trole em níveis de tolerância zero. A ava- solvente. No âmbito industrial, as coque- exames médicos, os indicadores biológi- liação dos ambientes de trabalho deve ser rias das siderúrgicas e o refino de petróleo cos de exposição. Posto que cada ambien- considerada já como avaliação das medi- ainda são fontes de exposição ocupacional te é singular no tocante aos seus riscos. das de controle aplicadas, e não restrita à e ambiental e já se percebe a ocorrência Além disso, a Saúde Ocupacional precisa caracterização apenas da exposição ou da de leucemia e aplasia de medula em traba- incorporar o “Princípio da Precaução” e insalubridade. Deve-se buscar sempre a lhadores de postos de gasolina. Os agrotó- assumir que para muitas situações não há possibilidade de eliminação do agente xicos, por sua vez, são usados de forma in- conhecimento científico disponível e, por- cancerígeno. Não sendo praticável, o con- discriminada, sendo o Brasil, o maior con- tanto, deve-se trabalhar com o máximo trole tem de ser o mais eficaz possível para sumidor mundial dessas substâncias, pre- de prevenção. Ou seja, proteger a saúde que a exposição seja nenhuma, uma vez sentes não só na agricultura, como também humana até que se tenham informações que a dose-resposta, na maioria dos casos, nos conservantes de madeira e produtos seguras de que não há risco em curto ou não é estabelecida”, explica Margarida domissanitários. O País ainda tem muito a longo prazo”, complementa a epidemiolo- Lima. fazer para evitar a exposição do trabalha- gista do INCA e professora adjunta da Uni- Outro ponto a ser considerado é a desa- dor, protegendo-o dos fatores de risco dos versidade do Estado do Rio de Janeiro tualização da NR 15 diante dos estudos temíveis agentes cancerígenos. 48 REVISTA PROTEÇÃO MARÇO / 2011

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