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Resumo       A imagem da Rede Globo no espelho televisivo é recebida nos lares brasileiroscom um fervor admirativo que qua...
Afundação Roberto Marinho                                                                  Roméro C. Machado.ÍNDICE      ...
Prefácio**Assunto de responsabilidade de Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável Geral pela Auditoria de todas asempresas d...
Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável pela Auditoria de todas as empresas das "OrganizaçõesGlobo"; a Nilo Sérgio de Almei...
Coloco o paletó nas costas da cadeira, cumprimento o pessoal da segunda sala e vou papearno salão da galera. Embora isto s...
Nilo retrucou: — Mas, Francisco... Só tem relatório bobo e ponto babaca. Para editar troçosem efeito é melhor não editar. ...
no ritmo, pega o maloteiro: — Aí, ô do malote! O que que leva dentro? Vende um sanduba proChips que o mal dele é fome. E e...
— Mas como? Nós temos tudo provado, constatado. . . Como? — Eu estava estarrecido.         Ele então esclareceu: — Quando ...
notícias off da Globo, e em transformar-se em mais um extrema direita. Era criador de fila brasileiro,dono do Canil Xambio...
— Tudo bem, Francisco. Minha filha, quando eu cheguei em casa da última vez perguntoupara a mãe: Mamãe, quem é esse moço? ...
trabalhamos com tempo contado. 3) Apresentou tudo certinho. O que, para mim, é gravíssimo.Nada é mais errado do que tudo c...
parasitas (diretores) do Rio não faziam nada e também eram sustentados pelas verbas que eleobtinha. Ou seja: ele, arrumava...
Como de hábito, chamei o Luiz Carlos para um cafezinho na cozinha. Eu não gostava deser visto segredando com o Luiz Carlos...
— Porra. . . Um museu? Você está de sacanagem, Chips. Eu estava aqui te elogiandodizendo que ia pedir uma ajuda sua pois v...
para fazer o serviço da Fundação. Tem coisa braba no ar, e como nosso papo vai ser longo paraorquestrarmos a operação, é m...
alguma profundidade, e assim, somente após sabermos do escopo gerai e da amplitude total doserviço, iríamos entrar nos det...
pagar a uma pessoa física (a-tor, por exemplo) e não se quisesse envolvimento (leia-se pagamento)de I. Renda, INPS, ISS, e...
Segundo, eu precisava parar de almoçar e jantar comidas exóticas com o Calazans e oMatsumi pois meu estômago estava acaban...
— Nada disso. 0 Magaldi é comunista e italiano. E como italiano é mafioso.        — Socorro... Policia... Enlouqueceu Cala...
que se possa contestar. Quando eu coloco um "ponto" no meu relatório, ele é incontestável edefinitivo. Se você quiser pega...
Foi assim, em meio a estes pensamentos, que resolvi fazer vários relatórios, com váriosenfoques e com vários níveis de abr...
Eu perguntei quem é que estava se coleteando, pois eu não havia entendido a piada. ATrespondeu que era o Pedrinho, e falou...
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Afundação roberto marinho

  1. 1. Afundação Roberto Marinho A série Denúncia da Editora Tchê!, com Afundação Roberto Marinho, de Roméro C.Machado, oferece, não só ao público tradicionalmente leitor, mas também ao julgamento de toda asociedade brasileira, talvez o título mais polêmico das últimas décadas. Num empreendimentoeditorial de enorme ousadia, um notável trabalho de investigação jornalística. Primeiro volume daTrilogia Global, este livro é um empreendimento corajoso que aborda tema considerado pormuitos mítico e inenarrável. De indiscutível credibilidade, quer pela fartura documental, quer pelaprivilegiada autoridade do autor (Roméro foi auditor da Rede Globo, contro-ller da Fundação eassessor da Vice-presidência de Operações da Rede), a obra enfoca a luta pelo poder, dentro efora da empresa, e as mais inimagináveis ilicitudes, desde a falsificação de concorrência até aobtenção ilegal de verbas, passando por transações em dólares não registradas (caixa-dois),compra de notas frias para prestação de contas com o MEC, e "operações" envolvendo JoséBonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Vice-presidente das Organizações Globo e responsávelpela vitória de Escrito nas Estrelas, música interpretada porTetê Espíndola, no Festival dosFestivais. O júri tinha escolhido Mira ira. Como um jurado não podia saber do voto docompanheiro, foi fácil para Boni falsificar o resultado. Na mais poderosa indústria televisiva do país,o poder fabrica outra espécie de indústria: a política do abuso. Incontáveis personagens — todoscom seu honrado nome de batismo declarado — envolvem-se em falcatruas que a argúcia e ahonestidade quase suicida do autor auscul-taram. De forma impiedosa e transparente, este inacre-ditável reino da safadeza acaba, finalmente, de ser retratado com fidelidade. Afundação RobertoMarinho é um dos livros mais denunciadores que a bibliografia brasileira já registrou. O Autor Roméro da Costa Machado nasceu a 11.09.48. Reside no Rio de Janeiro e foiaprovado para Agente Fiscal de Tributos entre os setenta primeiros lugares entre milharesde participantes. Foi auditor nas seguintes empresas: Auditor, Coopers IkLybrand, Bouci-nhas-Campos e Claro, Grupo Portland/Lone Star (Cimento Mauá) e, por último, RedeGlobo (holding). E controller: Grupo Portland/Lone Star e Fundação Roberto Marinho.Além disso, foi Assessor Especial do Vice-presidente da Rede Globo, José Bonifácio deOliveira Sobrinho, o Boni.
  2. 2. Resumo A imagem da Rede Globo no espelho televisivo é recebida nos lares brasileiroscom um fervor admirativo que quase não comporta críticas, e uma fidelidade de umpúblico responsável por altíssimos índices de audiência que torna o que seria um simpleslazer num autêntico costume nacional. Esta imagem, aparentemente irretocável, agoraposta à prova de forma inédita em Afundação Roberto Marinho, ameaça desfazer-se,ou melhor, adquirir seus verdadeiros contornos, sua face mais real, a que o vídeo éincapaz de captar. Em seu primeiro volume, a Trilogia Global, de Roméro C. Machado,investe impiedosamente contra um mundo que a televisão mais mascara do que revela.Aqui temos a devassa da Fundação, com os desmandos e estratagemas internos cujoúnico objetivo é acobertar a fabricação de fortunas pessoais e ações políticas quecertamente envergonhariam Maquiavel.Mais do que acender o rastilho da explosiva Trilogia, este livro de abertura oferece àsmais variadas faixas de leitores e a todos os profissionais de Comunicação um exemplonotável de coragem pessoal e honestidade de ofício. O autor, auditor durante anos napoderosa Rede e mais tarde controller na Fundação Roberto Marinho, "olhos e ouvidos dodono", além de assessor de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, vê-se justamentepela extensão de suas funções, frente a frente com as mais inimagináveis falcatruas.Acusar? Incriminar? Ou simplesmente registrar os infindáveis buracos negros do universodos corruptos cada vez mais em expansão? Dúvidas quase intransponíveis, cujosobstáculos morais, econômicos, sobretudo de autopreservaçâo (principalmente física)geralmente direcionam para uma desistência culposa ou, na maioria das vezes, para umanegociação indigna de interesses mútuos. Sem fazer vistas grossas ou sem aliar-se às quadrilhas de importantes executivos(todos com seu "santo nomezinho" devidamente apontado), o perigo é iminente, certo.Roméro corre todos os riscos, menos o de relapso em sua atividade; expõe-se à sanhamafiosa, menos à covarde cumplicidade de quem irresponsavelmente preferiria lavar asmãos. Mãos ousadas, astutas, que tão logo desligaram-se do imenso mar de lama Global,escreveram um dos livros mais denunciadores que a bibliografia brasileira já registrou.
  3. 3. Afundação Roberto Marinho Roméro C. Machado.ÍNDICE  A título de introdução  Prefácio  Explicação necessária  Antes da primeira auditoria  A primeira auditoria  São Paulo, aqui vou eu  A segunda auditoria  O primeiro confronto A Título de Introdução Este livro é o primeiro de uma trilogia, a ser complementada com outros dois; sendo umcomposto de uma história seqüencial e segmentada, Inside Globo, e outro com histórias isoladas.Atrás do Espelho. Como o Afundação Roberto Marinho está situado no interregno de duas fases de auditoria,deveria conter, por isso mesmo, toda a fase adestrita à Fundação Roberto Marinho. Entretanto, poruma questão de clima, o autor optou por reconstituir uma pequena fase pré-auditoria, bem comodar uma pequena seqüência à fase pós-auditoria, fazendo com que os inícios e fins de cada livrosejam irrelevantes, quer por não ficarem presos ao tempo, quer por não pretenderem encerrar umprincipio moral e pedagógico. Gostaria de ressalvar que todos os diálogos deste livro são rigorosamente verdadeiros em suaessência. Entretanto, como nem todos eles foram gravados, e a maioria foi reproduzida dememória e anotada à época, poderá ocorrer o uso de sinônimos para algumas palavras ditas, atémesmo uma ligeira distorção, principalmente em virtude da pontuação, do ritmo. Porém, não háqualquer modificação na essência e conteúdo dos mesmos. O Autor.
  4. 4. Prefácio**Assunto de responsabilidade de Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável Geral pela Auditoria de todas asempresas das Organizações Globo. Foi deixada uma página em branco, em sinal de silêncio, uma vez que zilhões de razõesque conheço, impedem Francisco Eduardo Ribeiro de utilizar este espaço para expor os seusmotivos e/ou justificar sua posição diante de todos os fatos de que ele é ciente. A despeito de eu haver alertado, durante anos, sobre a sua posição de cavalo em Arevolução dos Bichos, e de caixeiro-viajante em A Morte do Caixeiro-Viajante, e que de nadaadiantaria ele tentar se superar, trabalhando cada vez mais, pois o futuro seria inexorável, e nadadeteria a decretação do seu ostracismo, e até mesmo a implacável perseguição, tão logo o Dr.Roberto morresse ou delegasse a administração das empresas a inimigos seus. Ele, Francisco Eduardo, transformou-se em assistente de sua própria agonia e morte, em vida;amargando a ingratidão, mais uma vez, e pagando alto preço por não atentar para o que sedesenhava como óbvio. Explicação Necessária Tudo o que compõe estes livros foi objeto de relatórios internos e/ou relatos verbais a pessoastidas como responsáveis internos pelos assuntos aqui abordados. A minha promoção a Controller da Fundação não representou o esperado por mim, pois abrimão desta posição ao ver que se tornava inútil o meu trabalho e que nada mudaria dentro daquelainstituição, e não ser que a fizesse sangrar, indo tão fundo quanto achava que devesse ir. Poderia ter envelhecido ou me aposentado na confortável posição de Controller-Conivente,caso me dispusesse a aceitar coisas como elas estavam. Foram dadas (por mim) aos dirigentes da Fundação todas as oportunidades de recomeçar ehigienizar, a partir de um processo de lavar roupa suja dentro de casa. Neste sentido, foi tentadatoda a sorte de comunicação com o Secretário-Geral da Fundação. Mas a certeza da impunidadefez com que a alta direção da Fundação supusesse a minha acomodação e meu amedrontamentodiante de tão grandes e graves problemas, sentindo-se seguros pelo cinturão de fidelidade,apostando contra a minha obstinação ou, o mais infantil, contra a minha crença nos meusprincípios.0 mesmo aconteceu com o assunto-objeto dos dois outros livros, que a despeito de relatóriosformais, e até mesmo após um rompimento verbal decretado por mim, foi objeto de descaso,tratado como se destituído de aplicabilidade de prática. Assim como na Fundação, onde recomendei o afastamento de todos os diretores, o queera considerado hipótese absurda (consumando^e mais tarde), o mesmo aconteceu em relação aorestante das Organizações Globo, onde propus a higienização, eliminando-se contrabando,sonegação, desvios de recursos para o exterior e toda a sorte de falcatruas. Principalmente, a não-manipulação de homens públicos — defensores dos interesses da Globo. Assim como na Fundação, foi tentada toda a sorte de comunicação com as pessoasresponsáveis dentro das Organizações Globo, alertadas inclusive, e principalmente, para o fato deque seriam tornados públicos todos estes assuntos, caso eles não fossem resolvidos internamente. Esgotados todos os recursos de diálogo, após haver dado ciência, por carta e telegrama daintenção de edição destes livros, a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni vice-presidente das"Organizações Globo"; a João Carlos Magaldi, Diretor da "Central Globo de Comunicações"; a
  5. 5. Francisco Eduardo Ribeiro, Responsável pela Auditoria de todas as empresas das "OrganizaçõesGlobo"; a Nilo Sérgio de Almeida, Diretor Administrativo e Financeiro da Editora Globo, e havermostrado intenção de ceder prioridade de edição destes livros à própria Editora Globo — desdeque sanadas todas as irregularidades denunciadas; impondo, inclusive, sérias e pesadas multascaso não fossem editados tais livros —, vi-me obrigado e compelido a tornar público todos estesassuntos, através da publicação por uma editora ou editoras, que satisfizesse(m) aos meusinteresses enquanto autor. Não espero nenhum grande movimento em torno da apuração de responsabilidades dosdenunciados, até porque estamos no Brasil, um país de covardes e de corrupção institucionalizada.Mas o inverso, que eu seja alvo de investigação, denúncias, boatos, verdades fabricadas, e atémesmo, objeto de processo — hábito muito comum neste país colonizado por presos edegregados —, onde processa-se o acusador ao invés do acusado; e uma vez provada aacusação, não se toma nenhuma providência contra o acusado, e seus crimes considerados comoCotidiano brasileiro. Mas, ainda que demore séculos, ainda que ultrapasse o tempo da minhaexistência, ainda que o regime da republiqueta mude, ainda que se censure a obra, ela seráatemporal e subsistirá. Enquanto a verdade do dia anunciada pela televisão, se desfará qual bolhade sabão. E a história fará a sua parte. Antes da Primeira Auditoria Rua Jardim Botânico, 266. Para os funcionários existem: a Emissora (Rua Lopes Quintas eVon Martius), o 266 e o Teatro (Fênix). Lógico, a Globo não é só isto. Existem trocentos endereços em diversas casas diferentes. Masa base é esta: Emissora — 266 — Teatro. Mais um dia. Igual a tantos outros, igual a qualquer outro. Passo na portaria fingindo colocar ocrachá, para não ter que usá-lo, pois detesto este penduricalho. O segurança observa de longe, jásabendo que não vou colocá-lo. Às vezes, ele, o segurança, só de birra vem atrás de mim. Euaperto o passo e tento rapidamente chegar ao elevador. Ando bem rápido, ele também. Conto comque um dos elevadores esteja no hall. De passagem, vejo o elevador de serviços com a portafechada e um dos sociais quase fechando. Corro, seguro a porta, ela se abre. Fico de frente para osegurança. Olho para ele, de dentro do elevador. Ponho as mãos na cintura, e abrindo o paletódeixo que veja que estou sem o crachá. Rio com os olhos e fico absolutamente sério, ao mesmotempo em que o elevador fecha a porta e sobe rapidamente ao 79 andar. Eu gosto deste jogo de gato e rato com o segurança, principalmente porque isto é superimportante para ele e absolutamente desimportante para mim. E como tenho aversão à segurançatipo ordis é ordis, divirto-me sendo um equilibrista em cima do limite de legalidade e ilegalidade.Principalmente, pela atroz dúvida que o assalta diariamente: eu vou colocar o crachá ou não(Incrível ... isto é importante para ele). A minha implicância é que segurança só pára e incomodaquem não tem nada com a história. IMa Globo, por exemplo, já entrou uma velha maluca na salado Dr. Roberto, que ninguém sabe de onde veio. Tem dezenas de ambulantes vendendo tudo: deempadinha até tóxico e contrabando grosso. Mas o segurança só pára funcionário, a trabalho. Isto acontece diariamente, mais de uma vez, pois em minhas saídas esporádicas para oalmoço ou lanche a cena se repete. Às vezes com variações. Coloco o crachá na frente dosegurança e, logo em seguida, ao dar as costas, finjo tirar o crachá e aperto o passo para oelevador. Ele vem seco para cima de mim. No meio do ha// paro, mexo com alguém e viro-me parao segurança, exibindo o crachá. Ele quer morrer. Olha para mim. Finge que não houve nada e ficafazendo hora. Entro no elevador e à medida que o elevador ameaça fechar a porta eu tirolentamente o crachá, como num debochado streap-tease, e olho para o segurançainterrogativamente. Chego ao 7º andar e cumprimento os habitues que chegam cedo (no horário). No primeirosalão estão os administrativos e a galera (trainees, assistente, semi-seniores, etc). No segundosalão está a elite, setor fiscal, especiais, supervisores e assessores). Ao todo uns 30 funcionários.
  6. 6. Coloco o paletó nas costas da cadeira, cumprimento o pessoal da segunda sala e vou papearno salão da galera. Embora isto seja muito mal visto por alguns colegas elitizados, quedesconhecem o doce sabor da simplicidade e de se permitir a irresponsabilidade da vulgaridade. Brinco com a secretária (Norminha) e com o Azulão (Edson). Provoco a treinizada e inicio umbarata-voa de catarse. Sento-me à mesa coletiva e começo a puxar assunto com o March, que nãogosta de conversar antes de ler o jornal. E aí, para variar, e só para encher o saco, fico puxandoassunto com ele, até ele não agüentar mais e fechar o jornal. O March agüenta o quanto pode. Até que desiste e resolve se vingar: — O Azulão] (Azulão é oapelido do Edson, pois todo contínuo da Globo é obrigado a andar vestido de azul.) Vai buscar umcafé pro Chips para ver se ele para de encher. (March apelidou-me de Chips, pois na época eutinha uma moto com bagageiro. E com moto de bagageiro, terno, capacete e calculadora financeirapresa ao cinto da calça, eu era o próprio personagem do seriado Chips ).Todo mundo gozava todo mundo, observando-se uma certa hierarquia: trainee não fala, só diz:"Sim senhor!", "Não senhor!" e "Posso ir embora?" e a lei máxima: Pato novo não mergulha fundo. Respeitando-se esta hierarquia, o riso era livre. E as gozações gerais. Lógico, existiam ospreferidos: Pedrinho Bilé (puxa-saco oficial do Francisco, e cagüete contumaz); Fernando Chileno(também chamado de Que Pasa ou Repassa, pois ele não fazia o seu trabalho e semprerepassava para alguém). Gozava-se, também, os dotes físicos de cada um: March era o Velhinho;Nilo era o Careca; Alberto, o Garnizé; Luiz Carlos era o Baixinho. Todo mundo, praticamente, tinhaapelido. Até Francisco, quando a galera estava com bronca, virava Chico-Peste (sem ele saber).Mas o clima era o da mais perfeita união. Broncas pessoais à parte, o clima era sempre bom. Salvoquando Pedrinho chegava, pois ninguém gosta de cagüete, ou de empregado-patrão. Pareciacombinado. Ele chegava e todo mundo calava a boca, mas o riso continuava, contido. Luiz Carlos, um misto de profissional, competente e cinicamente consciente das coisasrealmente importantes, só chegava atrasado. E ele conseguia, religiosamente, chegar 5 a 10minutos antes do Francisco. Raras foram as vezes que Francisco conseguiu chegar cedo. Elesempre chegava depois das 11 horas, e nunca pegava Luiz Carlos chegando tarde. Houve mesmouma vez, em que o Francisco ligou de casa, umas 10 horas, e Luiz Carlos, raridade, tinha chegadocedo. Não sei porque cargas dágua, Francisco pediu para chamar o Luiz Carlos ao telefone, e,sem graça e sem assunto, começou a dar esculacho. No ato, Luiz Carlos saiu-se com uma tiradaseca: "Olha aqui... eu estou no trabalho e você em casa. Eu estou trabalhando desde as novehoras e você está acordando agora. Quer dar esporro? Venha até aqui. Não aceito bronca portelefone. Bronca só ao vivo e a cores". E desligou o telefone. Sério, para, logo em seguida,imaginar a cara estupefata do Francisco, e esboçar um riso cínico de pequeno triunfo pessoal. Uma hora mais tarde, Francisco entrava bufando pela porta, carregando, como sempre,duas malas de relatórios, que ele levava para tudo que era canto, e com o paletó solto nos ombros.Gritando: — Luiz Carlos, venha cá no meu escritório. Ele ia, meio rindo, meio sacana, mas com a certeza dos que estão certo. Bronca a portas fechadas, no inicio até que ouvíamos os berros. Mas logo sumiam. E meiahora após, Luiz Carlos, com a habilidade política habitual, conseguia fazer Francisco esquecer osproblemas momentâneos com os quais estava envolvido e lembrar-se dos grandes problemasenvolvendo todo o staff. Aí, era sagrado, Francisco puxava o follow-up e saía cobrando. Sobrava esporro para todomundo. Do boy ao último assessor. Numa dessas, a bronca já havia passado pelo boy, pelasecretária, pelos datilógrafos, pela galera, já entrara na sala da elite, começou a sobrar para o LuizCarlos que estava cheio de relatórios e não os liberava. Aí, a bronca foi em seqüência: FernandoChileno, que controlava e não controlava a parte administrativa; Nilo, que estava cheio derelatórios (sem efeito) e não os colocava para fora (não os editava). E, logo, a coisa ia chegandoem mim. Uma vez, entre raros momentos, vi Francisco ficar bravo com Nilo, pois Nilo era mais velhodo que Francisco, e já esteve, anteriormente, em cargo superior ao dele (quando éramos da Bouci-nhas, Campos, Coopers and Lybrand Auditores Independentes). E Nilo era uma espécie de ídolodo Francisco. Pois bem, naquela oportunidade, Francisco esbravejou: — Porra, Nilo! Não seiporque você está com estas merdas destes relatórios e não edita. . . (Não sei porque, mas ocoloquial do tratamento parece, às vezes, vulgar e infantil, ou infanto-juvenil. Mas, a despeito destetratamento, a postura era rigorosamente profissional.)
  7. 7. Nilo retrucou: — Mas, Francisco... Só tem relatório bobo e ponto babaca. Para editar troçosem efeito é melhor não editar. Você acha que eu vou mandar um Sumário Executivo pro RIM(Roberto Irineu Marinho) e RM (Roberto Marinho) sem efeito? Francisco: — Sem efeito é o cacete! Você é que está ficando velho e não quer levantar orabo da cadeira. Daí, fica serviço sendo feito nas coxas, sem supervisão. E vocês passam por cimados elefantes e não enxergam. O diálogo era duro, rasteiro, mas objetivo, eficiente e franco. Ninguém mandava ninguémàs fezes. Era à merda, mesmo. E nem esbravejava: — Caspite! — Era um bom e sonoro: — Porra! — Machado! (Meu nome de guerra), o que você está fazendo? Pronto! Sobrou pra mim.Retruquei: — Estou com um effective-ness para fazer. Tenho dois relatórios de serviços especiais.Estou preparando testes para candidatos, e tenho que preparar material para treinamento, além doserviço todo da parte fiscal. No duro, isto não era nada. Era o meu refresco quando não estava à mil por hora,envolvido em operação pega-ladrão e apaga-fogo. Francisco: — Pára com tudo isto e pegue um dos serviços do Nilo. O Luiz Carlos também.Chileninho também. Cada um pega um trabalho e eu quero ver isto pronto para ontem. Vamosdividir o serviço e vocês que se virem. Quero tudo pronto até o fim da semana. Para mim coube: — Fundação Roberto Marinho. Histórico da Fundação: trabalho feito há vários anos. Nunca teve problema. Tem auditoriainterna (da Globo) e externa. É fiscalizada pelo poder público. Tem tudo controlado. Nunca houveum ponto grave em relatório. Os relatórios dos anos anteriores eram de uma folha só. Ou seja,empresa sem problema nenhum. Nilo: — Machadinho, meu amigo (em tom de deboche), vais pegar um servicinho beleza.Nada para fazer. Nada para relatar. Falei pro Francisco: — Vou levar dois auditores da equipe especial. Tudo bem? Francisco: — Porra nenhuma! Programe a equipe especial para outro serviço. O serviço daFundação é babaca e você faz até sozinho em menos de 24 horas. — Faço em 5 minutos — retruquei. — É só copiar o relatório, de uma folha só, do Nilo.Agora, se você quer um troço direito, deixa eu fazer ele direito — disse, malcriadamente. Francisco: — Está bem! (O Francisco nunca teve muita paciência para discutir comigo.) Váaté lá e veja o que precisa. Mas se não der nada você vai compensar as horas perdidas com aequipe. — Tudo bem — falei. Já estava habituado, e compensar era trivial-simples, poistrabalhávamos em ritmo louco, quase sem tempo para almoçar. Na maioria das vezes sandubando,ou então comendo em cima da mesa de trabalho. Trabalhando até às 11 horas, meia-noite. E opior, declarando no Time-Sheet que só trabalhávamos 8 horas por dia (para dar exemplo e nãocriar contingências trabalhistas, justo dentro da auditoria). Saí da sala e ao atravessar o salão da galera, March, que vivia sentado à mesa coletiva,ironizou: — É, Chips, quero ver é agora. . . Fazer altos relatórios com a tua equipe especial eequipe fiscal é mole . . . Quero ver fazer altos relatórios num trabalho feijão com arroz.— O March, — retruquei — até parece que você quer nivelar por baixo. Você duvida que eu vá lá earranque mais do que num serviço especial ou apaga-fogo ou pega-ladrão? Isto é igual ao caso docara que era vendedor de sapatos e foi mandado para uma visita a uma tribo africana. Ele voltou edisse que era impossível vender sapatos, pois lá ninguém usava sapato. Todos andavamdescalços. Enquanto que um colega seu, com a mesma incumbência, mandou um telex deresposta: "Estou vendendo tudo que é sapato, pois aqui todos andavam descalços e eu estoucalçando todo mundo". E, em auditoria é assim: nunca vi empresa sem problema. E quando nãoaparece problema, é sinal que há encrenca braba. É uma questão de ponto de vista — completei.— A mesma coisa pode ser vista de mais de uma forma, É visão ou miopia. E sabe do quê mais,velhinho? Vá procurar sua turma. Vá arranjar um trabalho. Veja se sai daqui do escritório, que estenegócio de auditoria com o rabo sentado na cadeira nunca deu camisa a ninguém. E você estáficando com, craca no rabo de fazer auditoria da BEC e Starlight aqui no Brasil, sem nunca sabercomo são as coisas lá nos Estados Unidos. Nisto, vem entrando o entregador de malotes (Lessa), que traz sempre escondido, numasegunda sacola, vários tipos de sanduíches e salgadinhos para vender de sala em sala. E o March,
  8. 8. no ritmo, pega o maloteiro: — Aí, ô do malote! O que que leva dentro? Vende um sanduba proChips que o mal dele é fome. E eu tô aturando um papo de maluco aqui que não é mole. — Olha a brincadeira, seu March. — Disse, humildemente. — Dentro eu não levo nada,não senhor. Na sacola tem sanduíche de ovos mexidos, pasta de atum, bolinho de carne, eempadinhas. Vai querer? — Perguntou, olhando para mim e pro March. — Nem pensar — falei. — Sanduíche de ovos repugnantes, sardinha espremida commaionese, boi ralado e empada que sobrou do restaurante da Central. Prefiro ir "sandubar" napadaria — disse em tom de brincadeira. — Aí, Chips! Vamos comer, que teu mal é fome. Quem sabe, depois do almoço, vocêconsegue ir na Casa do Bispo (Sede da Fundação) e ficar tomando chazinho com biscoitinho como Jair Lento (Diretor Financeiro) e depois dizer: nada a comentar ... nada a relatar. Está tudo emordem. — Insistia o March, no firme propósito de provocar-me a todo custo. — O, March . . . Deixa eu sair. Eu vou almoçar decentemente no Hotel de Trânsito (daMarinha). Vou até a Fundação, e vou fazer um trabalho como você nunca viu. Vai ser tão bom quevocê até vai ter o que fazer: conferir a datilografia do meu relatório. Tchau e bença. — Encerrei,como quem não quer mais aquele tipo de conversa e está se preparando para encarar as coisascom a seriedade necessária. Embora possa parecer o contrário, mas nós tínhamos uma necessidade quase quemórbida de sermos e nos tratarmos de forma vulgar e coloquial, quando em nosso ambiente detrabalho, no escritório. Quando no desempenho das funções de autoditor - auditando empresas —éramos sérios, frios, formais, e absolutamente distantes e imparciais no trato com pessoas. Creioque isto era uma compensação, ou "válvula de escape" para a pressão a que éramos submetidos. A Primeira Auditoria A vida de auditores é sempre ingrata. Em geral você é odiado por onde passa. Todosdesejam muito mal a você. Ninguém gosta de um auditor. Com raras exceções, só suas mães lhessão caras (a alguns nem isto). Talvez por isso o auditor guarde um incomum e solitário senso dehumor, e excessivo instinto de auto-recreação; rindo, permanentemente, de sua própria desgraça,e fazendo piada de tudo que lhe seja adverso. Particularmente, eu tinha até um certo receio em ficar endurecido e "perder a ternura" E deque, anos e anos a fio fazendo quase que sempre a mesma coisa, tornasse-me automático einsensível. Eu sempre me policiei muito para não me distanciar da condição de ser humano. Ouseja, eu não queria que fosse normal e trivial descobrir a falcatrua, desvendar intrincados rombos etrambiques, e viver jogando pólo-diretor (esporte que se resume a bater em baixo e ver o diretorcair) ou como era comumente chamado: "pega-ladrão". Mas fazer auditoria, na Globo, e não pegarladrão era quase que impossível. E, às vezes, eu me perguntava: Para que tanta técnica? Paraque tanto estudo tributário? Para que refinado Management, Business and Administration, se naGlobo a coisa era policialesca e rastaqüera? Era como pescar num barril. (Bem parecido com umpaís chamado Brasil.) Eu questionava muito esta condição de auditor-policial, vez que toda técnicae estudo de auditoria eram violentamente desvirtuados para um imediatismo policialesco. E esta,positivamente, era uma condição que me incomodava muito, motivo de longas brigas minhas como Francisco. Lutar contra a maré?. Sempre! É difícil você colocar ordem no desordenamento institucionalizado. É como pregar nodeserto. Certas coisas são possíveis ou não em função de quem faz. Ou seja, a administração, naGlobo, é totalmente pessoal (o que contraria tudo que é norma ou técnica); uma determinada coisapode ou não ser aceita, unicamente, em função de quem pratica a ação. Dois exemplos clareiambem este assunto. 0 primeiro é o "caso do Jaboti" e o segundo, o da impunidade". Certa feita, após concluir brilhantemente um trabalho, um colega vem me prestar contas doserviço, que supúnhamos arrasador. Entretanto, frustrado, disse ele que a coisa dera em água.
  9. 9. — Mas como? Nós temos tudo provado, constatado. . . Como? — Eu estava estarrecido. Ele então esclareceu: — Quando eu falei com o diretor envolvido, ele me esclareceucalmamente: "O que você faria se visse um jaboti em cima da árvore?" Respondi: "Sei Ia, uai..." Eo diretor: "Não. Não é isso. Você deve dizer: Jaboti não sobe em árvore. Quem será que colocou oJaboti na árvore? Lembre-se: aqui na Globo é mais importante saber quem colocou o Jaboti naárvore, do que o fato do Jaboti estar trepado nela." Mais tarde pude constatar a religiosidade desta regra, na Globo.O segundo caso é de um outro auditor, que eu havia encarregado de uma revisão fiscal e quedeixou passar um "ponto" enorme, envolvendo uma fantástica contingência fiscal. Nota:Contingência, em auditoria, é algo sobre o qual pesa o risco de vir a ser pago um valor por umairregularidade. Fui igual a uma fera para cima dele: "Como? Mas como você não viu um troço destetamanho? Como você pode engolir uma mosca assim?" E ele, calmo como um monge: "Ué, nósnão estamos impunes!" "Impune é o cacete. Nós não estamos impunes e nem imunes. Eu não aceito este tipo debrincadeira", adverti seriamente. Ele, sem perder a calma: "Você é engraçado. Quer descobrir uma coisa errada, que nãoserá consertada, nem sequer levada em conta. Ou melhor; quer saber o quanto seria devido pelacontingência se nós fôssemos pagar o que nunca pagaremos. Não é melhor abandonarmos isto epegar desvios, roubos, falcatruas, etc, que dão mais ibope no relatório, e dão demissão?" A minhavontade diante do real era de chorar. Era duro constatar no que estávamos nos transformando. E,o pior, era real. Era duro ter que dar razão à retilinidade do raciocínio dele, e á cruel prostituição denossas funções. Respirar. Engolir. Respirar. Ir em frente. Minha vida não era muito diferente da dos demais mortais. E era o bastante. Vivia,profissionalmente, no mundo da televisão, mas com grande ojeriza pelo meio artístico. E em minhaprivacidade era cinófilo, ou "cachorreiro". Muito embora nada tenha a ver uma coisa com a outra, pude experimentar, de perto, aproximidade e a fusão destas vidas; e como a proximidade delas influir no meu comportamento. O Jornal Nacional noticiava uma "ilha de tranqüilidade", é não tocava nos assuntoscensurados e proibidos. Era fim de ditadura. Porém, a coisa estava na base do vira-não-vira, tem-golpe-não-vai-ter-golpe. É hoje. É amanhã. Os militares estão unidos e coesos. Correi. (Este era oclima.) Fora do campo profissional, minha vida particular tinha pouca variação: Não confiava emninguém, a não ser nos meus cães. (Um canil de fila brasileiro. Cães extremamente fiéis paracomigo e violentamente agressivos para com terceiros.) E justamente este hobby cinófilocomplementava um quadro bastante eclético e altamente bizarro. Permitia a tranqüila convivência,por exemplo, entre um torturador e um torturado; um terrorista de direita e um terrorista deesquerda. Neste brasileiríssimo ambiente surrealista convivia tranqüilamente no meuuniverso particular;— HNRB, ou Prof. Reis, ou Reis Júnior, ou Doutor Reis, ou o terrível Dr. Barreto. Matador frio,responsável pelo extermínio de dezenas, talvez centenas de "ladrões", "assassinos" e "inimigos doregime". Hoje, anistiado pela "anistia-recíproca", H. exerce, tranqüilamente, suas atividades"profissionais". É dono de uma personalidade incomum, capaz de apostar gratuitamente sua vidacontra a de um marginal, e de entrar na Rocinha ou Cidade de Deus debaixo de cerrado fogocruzado e avançar celeremente até arrancar, sozinho, o marginal de dentro de seu barraco. (Isto,para ele, é a glória.) Sua maior satisfação é a caçada humana, apostando sua própria pele nisto. De preferência,sozinho. Sua maior irritação é prender bandido e ter que dá-lo de presente a delegado high-societypara posar para fotografia do jornal do dia seguinte. Amigo fiel, prometia que, em nome desta amizade, caso o regime virasse novamente evoltasse à tortura, eu e Andréa teríamos um fim indolor. (Isto, para ele, era uma grande prova de"lealdade" e "amizade".) Chamava-me carinhosamente, de "guerreiro". (Pela minha "capacitação"ideológica e política, por eu ser pára-quedista militar, com curso de comando, guerrilha urbana ena selva, e por curso militar de sobrevivência.) Ele tentava a todo custo, e sem sucesso, saber das
  10. 10. notícias off da Globo, e em transformar-se em mais um extrema direita. Era criador de fila brasileiro,dono do Canil Xambioá (nome bastante sugestivo). — Andréa Blumen, ex-Déa Duarte. Terrorista. Trotskista. Militante torturada no Recife,trocou de identidade no Rio de Janeiro. Hoje chama-se Andréa Blumen. Era criadora e juíza de filabrasileiro, dona do Canil Curumaú. — Walter Jacarandá. Torturador, preso e identificado por suas vítimas. (Pouco discreto epouco prudente.) Criador de boxer, dono do Canil Morumbi. (Se fosse criador de fila, teria maissucesso; pelo menos como torturador.) — Chacal (Por motivos de segurança, prefiro não identificá-lo nominalmente, assim como aoutros exterminadores profissionais, cujos codinomes não quero citar.) Exterminador frio, agiasempre como agente infiltrado na esquerda. Junto com Reis Júnior des-montou vários aparelhos. Carrega um sem número de mortes nas costas. É handler de cães deluxo. — José Sales e Regina Rache. Membros ativos e Iíderes de extrema esquerda. SegundoDr. Barreto, agitadores profissionais e de altíssima periculosidade. Criavam fila e bulldog francês,eram donos do Canil Luxemburgo. — Marlize K. de Biase. Militante superativa de esquerda. Junto com José Sales e ReginaRache era, segundo Dr. Barreto, pessoa muito perigosa para a estabilidade do regime. Em caso degolpe, deveria ser neutralizada de imediato. Criadora de fila, dona do Canil Jiruá. — Comandante Paulo. Único da "curtíssima" lista que não morava em Jacarepaguá. Eracomandante do Forte, em Niterói. Sua única aparição pública foi na capa da Veja e Isto é, posandoao lado de Alexandre Baumgarten, na traineira Mirimi. Foi "transferido" para o Amazonas eafastado do centro das atenções do Caso Baumgarten. Criador de fila brasileiro. Conforme podem ver, tudo gente fina, da melhor qualidade. Não era à toa que o maior centro de tortura ficava situado em Jacarepaguá, na estrada doPau da Fome, mais precisamente no Sítio do Manoel Português. Local das maiores torturas doregime militar, de onde as pessoas saíam de barriga aberta (para não boiarem) para seremjogadas, de avião, em alto mar, próximo da restinga da Marambaia. Quer dizer: minha opção de vida era ótima. Ou Globo ou cinofilia. E a diferença era muitopouca. De certa forma, eu invejava àquelas pessoas comuns que trabalhavam normalmente,tinham amigos normais e ignoravam a luta do dia a dia do País. Pessoas que só conhecem ahistória oficial do Jornal Nacional. É bom que se diga que a lista de "notáveis" não parava aí. Ao contrário, é extensa. Sóestou citando alguns poucos "cachorreiros" de Jacarepagua cuja proximidade era inevitável, assimcomo o convívio, e pelo exótico, grotesco, e surrealista da questão: em que ficavam sentados,frente a frente, na mesma sala, na mesma casa, torturador e torturado. A ponto de eu imaginar: sóno Brasil. Um dizia, como quem vai à padaria: "Com licença que eu vou telefonar." A uns 5 ou 6metros conspirava. Outro disfarçava, e recebia visitas estranhíssimas de alcagüetes e entreguistas,e contra-conspirava. Tudo isso a pouquíssimos metros um do outro. Como a coisa ficava muito brasileiramente descarada, eu escrachava: "Bom, você já deusua conspiradinha, já armou seu cirquinho. Tudo bem. E você, que já telefonou para Brasília, jáinfor-mou aos órgãos de segurança, e já armou o desmantelamento da panfletagem e o incêndiodo jornal e das bancas, agora vamos conversar sobre coisa séria: Vamos falar sobre cachorro." (Aío papo rolava solto.) Eê, Brasil! De volta ao ambiente de trabalho, a coisa fluía como um colírio para os meus olhosirritados. Era aquele ambiente de descontração, ainda que houvesse pressão e muita marcação.Mas quanto maior fosse a carga, mais doce seria o deboche. (Era uma necessidade compulsiva deescracho.) — Miguel (Duarte) —, que estava fora por vários meses, ouvia o pedido do Francisco —preciso com urgência, desesperadamente, que você me faça mais este outro serviço fora. (Maisum mês fora, sem ver a mulher e a filha.)
  11. 11. — Tudo bem, Francisco. Minha filha, quando eu cheguei em casa da última vez perguntoupara a mãe: Mamãe, quem é esse moço? Agora eu chego em casa e digo para a minha mulherque vou passar mais um mês fora.. . ela vai querer se separar de mim. O Danilo, que vinha passando, interrompeu: — Pode deixar, Miguel (Duarte), eu assumo apaternidade e a patroa. Você não está dando assistência à comadre, mesmo. Deixa que eu tomoconta. Antes eu do que o Ricardão. — Tudo bem — retruca o Miguel (Duarte) —, pode tomar conta. . . Guardar mulher comvocê é como guardar dinheiro em banco suíço. . . Ninguém toca, principalmente você que étotalmente inofensivo. A galera se deliciava com o pingue-pongue rápido. O jogo de cintura era o trivial simples. Eisto é um tipo de "cultura" especial, chamada de "hora de esquina" e "tempo de janela" Apesar do ambiente relaxado, eu estava irritado. Tinha ido à Fundação e não haviaarrancado nada do Jair Lento. Ao contrário. Ele, com pouca habilidade, havia tentado me enrolar— o que me irritara profundamente. E, para irritar-me mais ainda, colocou duas outras barreiras:fez com que eu ficasse esperando uma infinidade de tempo (o que deu-me a oportunidade de fazer"auditoria de cafezinho" e bate-papo) e se posicionou como doutor Jair (que para ele era um belode um cartão de visita), e não como major Jair. — Francisco — falei.—, tem bronca braba no ar. — Lá vem você com suas teorias — retrucou o Francisco. — Mas é claro, cara. Veja bem. — Ele me fez esperar mais de uma hora. Jogou conversafora por mais outra hora; tentou me impressionar mostrando conhecimento do serviço dele e,principalmente, do meu. E, por fim, veio com tudo pronto. (Baseado no que o Nilo pedia sempre.)Resumindo: gastou 4 a 5 horas do meu tempo, para me dar, de mãos beijadas, um serviço pronto. — E daí, Machadinho? Quer dizer que só porque o cara se apresenta como doutor já ésinal de fraqueza de personalidade? Que o fato de ele ter feito você esperar, te irritou? E só porqueele tinha tudo organizado para atender ao seu pedido isto era suspeito? — Vamos por parte. Se apresentar como doutor já é um grave sintoma de desvio depersonalidade. É o primeiro sintoma de ocultação de fragilidades e inseguranças pessoais. Todosujeito que põe uma barreira e se recusa a conversar de igual para igual com quem quer que sejaé um portador de um caráter em desvio. — Você está sendo genérico e radical. Olha o "Doutor-patrão" — retrucou o Francisco.(Lembrando a figura do Doutor Roberto.) — Genérico, porra nenhuma. Quanto ao Dr. Roberto, eu não quero nem comentar para agente não brigar. Mas é óbvio que isto implica e envolve "trocentas" questões sociais epsicológicas. Envolve reis, príncipes, nobres, parlamentares, juizes, militares, ma-çons, imortaisiletrados e todo mundo que se fantasia. — Lá vem você e suas teorias inéditas. Não dá para a gente conversar só sobre auditoria? — Você é quem quis saber o porquê da minha observação. — Vamos lá. Direto ao ponto. Da forma que eu gosto. Sem rodeios! — Questionou-me. — Tudo bem! Você não quer entender, então tá! Eu não estou dizendo que todo doutor émaluco ou tarado. Eu estou dizendo é que todo cara que faz questão de se apresentar comodoutor, excelência ou qualquer título honorífico, ou se veste com paramentos, é um anormal. Vocêacharia normal você se apresentar como Doutor Francisco Eduardo, ao invés de, simplesmente,Francisco Eduardo, sem o doutor? Você se fantasiaria como um membro da academia brasileira deletras, cheio de paramentos? Já pensou você desfilando no chazinho das cinco: E agora DoutorFrancisco Eduardo, no seu novo modelito fardão-ave-do-paraíso. . . Existe troço mais escroto doque uma medalha no peito? Existe troço mais ridículo do que um cara de toga e cabeleira postiça?E esta merda de gravata que nós somos obrigados a usar? Tem paramento mais estúpido do queuma gravata? — Isto dá até teses de doutorado: A importância da gravata no desenvolvimento dasamebas na América Latina. — Peraí, Francisco. Quem quiser que assuma as suas anormalidades. Mas não mevenhas de borzeguim ao leito. Isto que eu estou explicando é bem diferente do que você, desacanagem, não quer entender. O ponto é: 1) Ele não é o Jair Lento. É o Doutor Jair. (Isto paramim é pior do que ficha suja de delegacia.) 2) Tentou gastar meu tempo, sabendo que nós
  12. 12. trabalhamos com tempo contado. 3) Apresentou tudo certinho. O que, para mim, é gravíssimo.Nada é mais errado do que tudo certo. 4) Aposto minha vida no meu faro. Meu feeling indicafortemente para uma grande falcatrua na Fundação. — Tá legal — disse o Francisco — e dai? O que você sugere? — Indagou, meio descrente. — Vou dar corda para ele se enforcar. — Disse, como quem arma algo cujo resultado jásabe. No dia seguinte fomos à Fundação, eu e minha equipe. Providenciei acomodações para opessoal, e fingi pouca importância no serviço, indo embora antes do almoço e deixando a equipeinstalada. Porém, não sem antes alertar aos auditores que eu não queria auditoria formal, e sim"auditoria de observação". E que, após o expediente da Fundação, eu os estaria esperando noescritório do 266 para reorientação geral sobre o que, como e onde auditar. Como que para corroborar integralmente com o que eu havia esplanado anteriormente, aequipe ratificou ponto por ponto o perfil que eu havia traçado do Jair Lento. E mais, mostrou outroserros mais contundentes. Ou seja: as "acomodações" foram retiradas, e a equipe foi colocada emduas mesas no corredor, com tudo devassado (pasta, papéis de trabalho, documentos, etc.), e foidada ordem expressa, pelo próprio Jair Lento, para que todo documento só fosse entregue àauditoria em xerox, e não em original. Com isto, ele pretendia constranger a equipe, colocar tudoque era empecilho, mostrar força, e desgastar, pela irritação, a todos. Pois cada vez que umauditor solicitava um documento, administrativo, contábil, ou fiscal, tinha que preencher umarequisição solicitando o documento, requisitar uma xerox, e, finalmente, no dia seguinte, a cópia detal documento estaria à disposição da auditoria. Quer dizer: o prazo que nós tínhamos iria estourar,e o fim do serviço iria para as "Calendas Gregas". — E agora, Francisco? Tenho ou não razão em ir fundo neste trabalho? Tenho ou nãorazão em achar que tem bronca braba no ar? — Indaguei, pedindo confirmação de minhassuspeitas. — É... tá certo, Machadinho. Vai fundo e peça o que for preciso. Eu nunca imaginei que ele(Jair Lento) fosse tão burro. Ele praticamente atraiu para si a auditoria. — Francisco.. ., o cara passou muito tempo envolvido com cavalos, ordem unida,autoritarismo, impunidade, etc.. . Não tem nenhum preparo para dirigir uma empresa. Que dirá umaFundação. (No duro, Jair Lento estava trombando com a única entidade que não se deve trombardentro da Globo.) — É..., concordo. . . — E agora? O que você pretende fazer, Machado? — Vou instruir e preparar a equipe, para que eles possam trabalhar sem se irritar, e vou aSão Paulo assuntar o resto, mas sozinho. — Mas você acha necessário ir a São Paulo sozinho? — Claro. Já que ele colocou este empecilho, vou botar todos os auditores para auditar porbate-papo aqui no Rio. Vou querer todo mundo conversando. Batendo papo com os diretores, coma telefonista, com os boys, com os seguranças, com as secretárias. Quero todo mundo sem lápis esem papel na mão. Quero conversa de almoço, de cafezinho. Enquanto isto, eu vou a São Paulo, epasso uma semana avaliando os dois maiores departamentos da Fundação: Educação e Televisão.Na volta eu te dou um retorno. As histórias da semana, no Rio, haviam sido hilariantes. O Jair não assimilou bem o golpee perdeu-se ante a postura da auditoria, a ponto de tontear e enfeixar todas as informações,centralizando tudo nele. Tentando evitar que seus funcionários dessem informaçõesdesencontradas. Enquanto isso, a equipe, previamente preparada, dava uma no cravo e outra naferradura. Levantou quem era quem, traçando o perfil de cada um. Quem fazia o quê. Quem nãose topava, e começou a montar a rede de informações, para que eu as negociasse da forma comoeles sabiam que eu fazia. Em São Paulo tudo havia corrido às mil maravilhas. Conversei com o Calazans Fernandes,diretor responsável pelo Departamento de Educação, que se prontificou a historiar a Fundaçãodesde os primórdios da Rio Gráfica Educação e Cultura, seus períodos de penúria, suas faltas deverba cíclicas, suas demissões e admissões temporárias, e suas dificuldades generalizadas. Calazans fez questão de deixar bem claro sua condição de fundador e "Provedor derecursos oficiais da Fundação", achando, inclusive, que não era justo que desse um duro danadopara arrancar suadas verbas no MEC, para manter a Fundação (São Paulo), enquanto que os
  13. 13. parasitas (diretores) do Rio não faziam nada e também eram sustentados pelas verbas que eleobtinha. Ou seja: ele, arrumava verbas para a Tele-Educação (São Paulo) e para as reuniões de"canapés e biscoitinhos" (Rio). Conversei com outras pessoas, e fiz várias entrevistas com os principais responsáveis peloDepto. de Educação. Conversei com o Nelson Santonieri (o executor técnico das idéias doCalazans). Fiz uma longa entrevista com a Sylvia Magaldi (a grande orquestradora e cérebro datele-educação e dos multimeios). Até mesmo tentei uma "ponta-de-lança" com a Sandra, que naépoca, era a Gerente Administrativa, e embora fosse radicada em São Paulo, funcionária do Rio deJaneiro. (Mais tarde, Sandra foi demitida pelo Jair Lento, por ter deixado vazar informações paramim.) Ainda naquela semana, aproveitando a estada em São Paulo, fui à Santana verificar ascondições do estúdio de televisão e fazer uma análise de escopo genérico no Departamento deTelevisão. O papo com o Diretor do Depto. de Televisão, Jorge Matsumi, foi bastante esclarecedor.Pude constatar as dificuldades de produção e as inventividades utilizadas para se levar a efeitouma gravação, em principio simples; mas que, segundo Matsumi, toda vez que queria fazer algumacoisa correta e dentro das normas, era incentivado exatamente para o lado oposto. — Veja bem, Machado, nós queremos contratar os funcionários de forma legal, com tudoque é direito; com as garantias sindicais e trabalhistas. Vem o Jair e manda a gente não registraros caras, para não ter contingência trabalhista e arranjar notas em substituição aos serviços demão-de-obra. Aqui é tudo ao contrário: o artista trabalha, mas quem recebe é uma loja de material.O material de cenário sai em nome de uma firma de prestação de serviços. E por aí vai. Não temnada certo. Quer ver um exemplo? Veja as instalações de Santana (Rua Francisca Júlia) e oestúdio de gravação. Se eu pedisse ao Jair, como eu pedi, ele negaria a verba (como negou). Mastem que gravar, tem que fazer o programa, tem que ter espaço para a produção, tem que ter milcoisas que ele não entende porque não conhece televisão. Aí, o que eu faço? Invento notas edespesas e faço o que eu quero. Está vendo as instalações? Eu construi e/ou reformei quase tudo.Se eu quisesse roubaria para mim como todo mundo faz. Eu não sou mais honesto do queninguém, mas a burrice da administração empurra a gente para o ilegal. Quer ver um exemplo? Eusugeri comprar uma câmera de gravação para pagar em quatro vezes. A câmera custava 100 e iaser pago em quatro parcelas de 25. Sabe o que o Jair fez? Negou. Daí, eu perguntei pro Jair: Ealugar pode? Ele respondeu: Pode! Daí, eu aluguei a câmera por 25 mensais, e ao fim de quatromeses a câmera estava paga. E, como o Jair disse que a Fundação não poderia ter ativo fixo, sóalugar, eu peguei a câmera para mim, pois estava sem dono, e continuei alugando esta mesmacâmera para a Fundação. Só que isto, eu não oculto de ninguém. Não tenho culpa de não havercontrole e administração na Fundação. Aqui é uma zona de desorganização, e o cara que deveriaentender disto é um militar imposto por um outro militar (Coronel Paiva Chaves. Aliás, apelidado dePaiva Chivas), que não entende nada de administração e finanças, que dirá de televisão. —Concluiu, zangadamente, Jorge Matsumi. Tive oportunidade, ainda, de discutir, com alguma profundidade, com o Gerente deProdução, Hugo Graff, e com dois outros diretores de televisão: Hugo Barreto e Carlos Justino(Carli-nhos). Voltei para o Rio, estupefato com a babel que era a Fundação, e espantado com oaltíssimo grau de desorganização. Aquela altura já me indagava se era um caos proposital econveniente, ou era uma burrice acidental. A sensação era, descrita anteriormente, do vendedor desapatos diante de uma tribo descalça. Ou seja: os dois maiores departamentos da Fundação,justamente o que providenciava os recursos e o que gastava, estavam virgens em termos deauditoria e na mais completa desorganização. Era inacreditável que isto estivesse ocorrendo, masera verdade. De volta ao Rio, segunda-feira, era dia de todos estarem no escritório para avaliação doserviço e novas redistribuições de tarefas. Era dia de injeção de ânimo, e uma catarsezinha deuma a duas horas, e de muita expectativa para mim. Quase não dei atenção aos colegas.Observava, de longe, as farras, as brincadeiras e as gozações, e quase não falava, como que paranão deixar transparecer o meu pensamento. Sim, pois, o caos da Fundação era muito superioràs minhas expectativas, e eu tinha medo de pensar no assunto e alguém ouvir meus pensamentos.
  14. 14. Como de hábito, chamei o Luiz Carlos para um cafezinho na cozinha. Eu não gostava deser visto segredando com o Luiz Carlos, pois logo os outros iriam achar que estávamos tramandoalgo, devido à nossa pecha de "politizados" e pela grande influência de amizade que tínhamoscom o Francisco. Era comum a minha confidencia com o Luiz Carlos, eu admirava bastante sua linha econduta profissional. Ele é um dos mais competentes e equilibrados auditores que conheci. Nestemeio, onde a acuidade, sagacidade e inteligência contam ponto, você só se faz respeitar e sórespeita outro profissional se ele for um ótimo técnico. E esta era a linha direta e meu canal deligação imediato com ele. Assim, antecipei ao Luiz o ocorrido, e ansiava pela chegada do Francisco, paradesmantelar alguns serviços bobos em andamento e requisitar uma grande equipe para aprevisível grande massa de informações que iríamos ter. Procurei saber, por alto, como havia sido o trabalho da equipe no Rio, mas não queriareorientar o serviço, de imediato, pois eu tinha mil planos na cabeça e não queria que vazassenada. Estava ansioso e não queria antecipar coisa alguma sem antes discutir com o Francisco.Mas, apesar disto, ria das brincadeiras do pessoal, principalmente do Danilo e Miguel (Duarte), quenasceram para gozar um do outro. (Era a baixaria fundamental.) O Miguel inventava mil histórias sobre o Danilo, e ambos rememoravam histórias doParaná da Foz do Iguaçu, das fazendas do Dr. Roberto no pantanal, e das bravatas de cada um.Pareciam colegiais em férias. Vê-los assim, difícil seria supor que por detrás de toda aquelaperaltice estavam escondidos profissionais da maior seriedade. O March, em seu canto de observação, não falava com ninguém. Olhavainterrogativamente para tudo aquilo e, numa das passagens de olhos por mim, notou algo errado: — Chips. O Chips. Vem cá. — Não quero papo — respondi. — É sério, preciso da tua ajuda. Venha cá. Não é brincadeira não.Ao aproximar-me, ele se tornou solene: — Acertou na mosca em São Paulo, não é? — Não quero papo, March. — Tudo bem. Tenho certeza que perdi a parada. Já vi pelo movimento da galera que otrabalho da Fundação vai estourar, e pelo teu silêncio, vejo que o negócio em São Paulo foi bom eque a coisa vai longe. Mas não é sobre isto que eu queria falar, não. O papo é outro. Eu quero umaidéia sua. Como você é um cara que vive dando idéias e tem uma cabeça ótima, eu queria umaidéia sua. — Qual é? É sacanagem...? — Perguntei — Não. Não é nada disso — falou —, é sério. Eu e o Pedrinho estamos com um problemacom um arquivo de fitas e a gente não sabe o que fazer com ele. Você poderia dar uma idéia doque fazer, ou de como abordar o ponto? — Para você e Pedrinho? — Perguntei. — É. Nós estamos fazendo um serviço juntos — ele completou. — Nem pensar. Eu quero que vocês se danem — respondi, já saindo (irritado). — Peraí, Chips, é para mim. — Ele reforçou. — Tudo bem. Qual é o caso? Mas é para você, heim! — É o seguinte: nós estamos fazendo um. . . — Nós? Você e o Pedro? — Peraí, Chips. É para o Pedro também, mas é principalmente para mim. Larga mão deser bobo e de implicar com ele. Você e o Luizinho vivem de guerra com ele. Pô. . ., refresca o cara.Esquece que ele está na jogada. Faz de conta que ele não está neste serviço. — Explicou o March. — Tudo bem. Mas o ponto é para você. Eu não vou dar nada de bandeja pro Pedro. — É o seguinte: há um arquivo de fitas. Imagine o CEDOC (Centro de Documentação). Oque você faria se fosse o dono e estivesse aquilo tudo parado? Você tem alguma sugestão decomo melhorar, aperfeiçoar ou criar algo em cima? — Eu faria um museu." Respondi, no ato,curto,seco e grosso.
  15. 15. — Porra. . . Um museu? Você está de sacanagem, Chips. Eu estava aqui te elogiandodizendo que ia pedir uma ajuda sua pois você é um cara com a cabeça a mil, sempre com idéiasincríveis, e você me vem com uma idéia de Museu? Você está de sacanagem comigo. . . — É o seguinte, March. Imagine o primeiro museu da televisão, mostrando como se faztelevisão. Mostrando a evolução da televisão no Brasil e no mundo. Mostrando as evoluções dosaparelhos de TV. Enfim, com tudo sobre televisão. E, haveriam vários displays, tipo daqueles quese usam em Shopping Centers, para você se localizar, e que seriam acoplados a vários micros,que dariam a você toda sorte de informações: por ano, por tipo de assunto; enfim, de todas asformas. E você poderia solicitar para assistir qualquer assunto em cabines especiais de vídeo. Porexemplo: Você poderia digitar o ano de 1966 e veria no"menu" do micro tudo aquilo que constassedaquele ano, e você escolheria o assunto. Ou então, você daria o assunto, por exemplo, o "Festivalda Canção", e veria no "menu" os vários anos para você escolher qual deles. E, assim por diante.Sendo que você poderia assistir lá no Museu, como numa fonte de consulta permanente, oupoderia comprar uma fita copiada pela Globovídeo, sobre qualquer assunto em arquivo no Museu.Já imaginou? O Dr. Roberto iria ficar super-vaidoso com o Museu. O arquivo passaria a ter umasituação prática. Daria emprego para muita gente. Seria auto-sustentável, e a Globovídeo faturariauma nota. . . — Pô, Chips, você é realmente incrível. Uma idéia dessas em um minuto. É realmente"du-cacete" esta idéia de Museu. — Tá legal, March, agora o ponto é seu. — Meu é o cacete, eu vou falar com o Francisco. Nisto vem entrando o Pedro, e March o chama à medida em que eu vou saindo. Meia horadepois, March me procura novamente, irritado, dizendo que o Pedro não havia gostado da idéia.Eu ri, e disse: "Não liga não, ele está certo". Esta idéia do Museu da Televisão foi levada por mim, mais tarde, pessoalmente, aoMagaldi e ao Boni, e foi recusada. E todas as recusas tiveram "sólidos" e "bons motivos". Pedro não topou porque a idéia não era dele. Magaldi não topou por estar "fora dos objetivos" da Fundação Roberto Marinho. Boni não topou por ser algo muito lucrativo para a Globo-vídeo, e ele não tinha nenhumaparticipação na Globovídeo. Pena não ter ninguém defendendo os interesses do dono. Francisco chegou, e a lista de interessados em falar com ele era grande, e todosdisputavam a preferência. Cada qual justificando a sua urgência. Uns tinham que viajar, outrostinham reuniões marcadas. Enfim, a disputa estava quase ombro a ombro. De cara entraram dois ao mesmo tempo para falar com o Francisco. E eu, esperava,pacientemente pela minha vez, já sabendo no que ia dar a minha reunião. Por causa disto, deixavaque cada qual se achasse com maior prioridade e avidez em ir na frente. Até como uma maneirade ir à forra mais tarde. Quando já havia entrado na sala dele o terceiro da lista, eu fiz, estudadamente, minhainterrupção. Entreabri a porta e, rapidamente, joguei a isca: "Preciso falar com você. É urgente." Já sabia, de antemão, que viria uma resposta áspera, mas era a resposta que eu queria,para fazer uma provocação maior e obrigá-lo a entrar no meu clima. Como um relógio, bastante previsível, ele retrucou: — Querer falar comigo não é novidade.Urgente, tem um monte de gente dizendo a mesma coisa. Você sabe: quem se desloca recebe,quem grita primeiro tem prioridade. Você vai ter que esperar. Tem gente aqui com coisa urgentetambém e que gritou primeiro. — Tudo bem. — Falei. — Eu não tenho nada para fazer até o almoço mesmo, eu possoesperar. Pena que você vai ter que desfazer toda a programação que você está fazendo, pois euvou requisitar duas equipes grandes. E, se a coisa for como eu suponho, eu vou requisitar metadedo escritório. Mas tudo bem. Escute quem você acha que tem que escutar e depois avalie vocêmesmo. Afinal, todo mundo acha que tem assunto urgente, e você é quem vai dizer o que éurgente ou não. — Disse de forma provocativa e sacana. — Tá legal, Machado. Entre e fale — Aquiesceu ele, com enfado. Nisto há uma revolta, por eu ter "furado fila". E, os que já haviam conversado com ele, seapressavam para sair rapidamente do escritório antes de eu terminar a reunião. Aí, deliberadamente, como numa vingança pelo frisson e corre-corre anterior, prepareioutra maldade. — Francisco, vou precisar de duas equipes grandes e gente de apoio no escritório
  16. 16. para fazer o serviço da Fundação. Tem coisa braba no ar, e como nosso papo vai ser longo paraorquestrarmos a operação, é melhor não deixar ninguém sair do escritório. Ato contínuo, até porque o Francisco sabe quando eu estou de brincadeira e deboche equando eu estou falando sério, ele se levantou, foi até a porta e anunciou: — Ninguém sai doescritório. (Grita geral. Inconformismo. Mil justificativas. Alguns até explicavam, quase implorando,que não podiam ficar e que tinham compromissos, reuniões fora, etc. . .) — Não quero saber. Ninguém sai do escritório — e virando-se para o Edson, pediu: —Edson, peça ao Bá para trazer água e café. — A minha eu quero com gás — completei, sem me virar da cadeira e sem voltar-me parao salão, (riso contido) pois eu já sabia da reação do pessoal. 2 De fato, trinta e poucos homens, de terno e pasta, espremidos num salão de uns 40m , erabarulhento, desconfortável e irritante. Até porque não tinham acomodações para que metadepudesse sentar-se. E, logo vieram as retaliações e ameaças (mas tudo de brincadeira), unsfingindo me bater, outros desejando que eu fosse pro inferno, e alguns até justificando que setivessem que comer "pizza" no escritório (algo muito comum nestes casos), iam cuspir nos meuspedaços. E chegavam a disputar: — Deixa que eu levo o pedaço do Machado para ele comer. Ao longe, meus olhos captavam, por entre várias cabeças e duas nesgas de porta, osorriso do Luiz Carlos, como que a dizer: — Você não tem remédio. Tudo tem que ser da formaque você quer. Logo chegou o Bá ou como ele gostava de se anunciar. (Falando bem rápido, igual a umametralhadora) "Edmilson Evangelista Calixto de Mesquita Bá." Cada hora, o nome dele mudava,aumentando ou diminuindo, mas em geral começava com Edmilson, e terminava com Bá. (No duro,o Bá não existe no nome dele, mas o incorporou por auto-recreação. A origem da expressão Bá éoriunda do chamamento: O do Bar — O Bar, veja um cafezinho aí. E, como ninguém chamava elepelo nome, virou "Bar" ou simplesmente Bá.) Eu o chamava de "lôrram", e ele ficava intrigado. Eu dizia que era em homenagem a umparente seu: Johann Sebastian Bach (estou certo que nunca entendeu). De fato, a reunião havia sido bastante longa, e eu pude relatar, para o Francisco, cadadetalhe do ocorrido, e consegui expor, minuciosamente, como eu achava que deveria serdeflagrada a operação. E, felizmente, como o Francisco é bastante acessível, desde que vocêexplique com clareza e sem rodeios, direto ao ponto, eu pude vender o meu peixe. Eu queria umaequipe de apoio e seleção de informações no escritório. Uma equipe razoável na Fundação/Rio euma equipe pequena em São Paulo, com ampla liberdade para transitar, dissimular e confundir osauditados, para que não soubessem como a coisa estava sendo coordenada, quem coordenava, e,principalmente onde começava e onde terminava a auditoria. Ele topou integralmente. E, já estávamos prestes a dar inicio às primeiras providências(quem comporia as equipes, providenciar passagens e hospedagens, etc), quando tocou o telefone.Era o Jair Lento dizendo que sabia da minha volta a São Paulo, e que seria melhor eleacompanhar-me nesta viagem, de maneira a poder me dar uma assistência mais eficiente. Opróprio Magaldi (Secretário Geral da Fundação) achava que ele —Jair Lento — deveria colaborar,de perto, com a auditoria. — Você segura essa? — Perguntou-me o Francisco, sem desligar o telefone. Eu ri,imaginando a possível conversa havida entre o Magaldi e o Jair Lento. — Tudo bem. Pode confirmar. Eu vou tocar um rebu tão grande longe de onde ele está,que vai querer ficar longe de mim. — Mas ele vai grudar no seu pé, Machado. — Disse o Francisco, contrariado. — Vai nada. Quando chegarmos em São Paulo, eu solto os "cachorrinhos" aqui no Rio, efaço eles chegarem bem perto do problema, para provocar a volta dele imediata. É só mandar oKebian, por exemplo, tocar de leve no que a gente já sabe que é problema, e dar uma prensa nocontador, que vive escondendo tudo; e em 24 horas, o Jair volta à jato. O Francisco, então, combinou com o Jair a nossa viagem a São Paulo. Como num jogo roubado ou numa cena com script decorado, a coisa se desenrolouexatamente como o previsto. O Jair ficou só dois dias em São Paulo e voltou correndo e apavoradopara o Rio deixando-me solto para fazer o serviço, com liberdade, da forma como eu queria fazer. Daí por diante, tudo se desenrolou encenadinho. A equipe do Rio fingia ignorância eevitava chegar perto dos problemas, para me dar tempo de levantar, por São Paulo, tudo com
  17. 17. alguma profundidade, e assim, somente após sabermos do escopo gerai e da amplitude total doserviço, iríamos entrar nos detalhes. Mas, aí, de forma irreversível, pois já saberíamos de tudo,restando tão somente comprovar de forma documental e irrefutável. O Calazans, a esta altura, inundava-me de informações e de certa forma, contagiava-mecom o seu ideário. Mostrava-me estatísticas, níveis de aproveitamento, artigos elogiosos àFundação, premiações ao Dr. Roberto em nome da Fundação, medalhas e troféus (inclusive osdados pelo "Chacrinha", que, de certa forma, para mim denegria, estragava, e desacreditava tudo oque havia sido dito antes. Mas, enfim . . .). Para efeito do que eu queria, não importava que as estatísticas fossem falsas, conformeafirmava o Diretor Cultural José Carlos Barbosa, ferrenho adversário do Calazans, e que não escondia sua opinião sobre o telecursoser o curso mais caro do mundo, pela relação verba/aproveitamento de aluno. Achava, ainda, JoséCarlos Barbosa que o telecurso era uma grande empulhação estelionatária e que um dia todos osdiretores acabariam presos como coniventes com o Calazans. Entretanto, a mim, não importavaque os níveis de aproveitamento fossem falsos e que os artigos elogiosos à Fundação fossemescritos sob encomenda (o Calazans já havia sido jornalista, e manejava bem a manipulação danotícia. Sabia "plantar" uma noticia, um boato, ou mesmo trabalhar um jornalista para, assim comoquem não quer nada, escrever rasgados elogios sobre coisas que não conhecia bem, e depois elemesmo mandava cópia do artigo para o Dr. Roberto). Nada disso importava. Tudo isto ficariaregistrado para uma análise futura, mais profunda e impiedosa. No momento, eu estavainteressado nos meus aspectos macro e nada me afastaria deste objetivo. Mais tarde eu voltariapara outro tipo de enfoque. Trabalhando mais diretamente o lado pessoal de cada um, fui abrindo e explorandoCalazans (Educação) e Matsumi (Televisão). Matsumi encurtou demais, e não fez um só rodeio. Foi franco e aberto. Pude ir fundo, cadavez mais, e em momento algum ele reagiu. Em pouquíssimo tempo estava tudo claro: Não haviaestrutura normativa, não havia controle administrativo, nem financeiro, e nem orçamentário. 0 meurelatório poderia ser feito em uma só folha (igual ao do Nilo) só com uma pequena diferença,bastaria uma só frase para relatar tudo: Estava tudo errado. A posição e clareza do Matsumi ajudaram muito. Era simples e transparente — Sou diretorde Televisão, e entendo disto. A zona que você está vendo aí e da qual não entendo e façoquestão de não entender é de responsabilidade do Diretor Administrativo e Financeiro. Afinal, aFundação tem um e que ganha muito bem. Vá cobrar dele. Juntando o que eu pude ver e ouvir nos Departamentos de Educação e Televisão, poderiasair um relatório preliminar simples, dizendo quase tudo, pois não havia organograma, nemdefinição hierárquica, nem atribuição de função, nem delegação de autoridade (para atribuir eimputar responsabilidades), nem formalização de procedimentos (ordens verbais eram regra gerale aceitas tranqüilamente). Ninguém queria assinar nada, e nem se comprometer com documentos.Não havia Normalização (normas, rotinas, procedimentos, formulários, contratos, etc), e nemSistema de Informações gerenciais (relatórios, demonstrativos, balancetes, orçamentos,prestações de contas, etc). Era difícil de acreditar, mas era verdade. Uma empresa como aFundação Roberto Marinho não possuía nada, e quando possuia era errado. A bem da verdadehavia uma única coisa feita: O relatório do MEC e Deus sabe como. Os exemplos de desorientação eram grotescos. Uma Editora, no relatório do MEC, eracontratada como secretária. A secretária era contratada como Assistente. E como elas não podemaparecer como empregadas, para efeitos fiscais na escrituração interna (só existiam fisicamente)recebiam por uma nota de compra de um produto qualquer como material de cenário, ou atémesmo por uma nota de prestação de serviços (comprada ao custo de 10% a 12%). Eu me arrepiava só de pensar o que aconteceria se nós fossemos um país evoluído ecivilizado, com Sindicatos fortes. E se o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos deDiversões agisse contra a Fundação? Mas infelizmente, o artista é um pedin-te, pobre miserável,obrigado a engolir a dignidade em troca da sobrevivência. . . Quanto ás notas fiscais compradas não havia novidade. Estávamos no Brasil e dentro daGlobo. E, por estarmos no Brasil, ainda havia o exótico da questão, pois havia uma divisão: Notasfiscais "frias de boa-fé", e Notas fiscais "frias de má-fé". Explique-se: Se, por exemplo, se quisesse
  18. 18. pagar a uma pessoa física (a-tor, por exemplo) e não se quisesse envolvimento (leia-se pagamento)de I. Renda, INPS, ISS, etc, comprava-se uma Nota fiscal (pagando de 10% a 12%). Ou seja:Dava-se o dinheiro ao ator e a per-centagem ao vendedor da Nota. Esta era a Nota fria de "boa-fé".Já a nota fria de "má-fé" era aquela que não se pagava nada a ninguém, a não ser a percentagemdo vendedor da nota, e o dinheiro ficava para o Gerente ou o Diretor que fazia o negócio. A grande surpresa é que isto não era exceção e sim a regra. 0 que rolava na Fundação eranota de PJ. (Pessoa Jurídica. E, Graças a Deus nota não fala. E depois de um tempo, até quepareciam honestas. Perguntado ao Matsumi sobre como ele distinguia uma nota de outra, ele respondeu: — Eunão distingo. Se a produção quiser roubar, rouba. Se os diretores quiserem roubar, roubam. Nãohá controle algum. E, todos, inclusive eu, são suspeitos e passíveis de desvios de toda sorte. E,uma vez que não há controle, tudo é possível. — A que se deve este estágio alarmante de descontrole? — Perguntei ao Matsumi. — A própria Globo, que institucionalizou a sacanagem. Veja bem, vem de lá a criação depagar uma pessoa física como PJ (Pessoa Jurídica). Isto ocorreu, inicialmente, por uma questãode mercado, depois virou zona. É o seguinte: Por uma questão de concorrência, a Globo conseguepagar mais aos seus artistas e diretores porque não os paga como pessoas físicas (que têm altosimpostos na fonte, e cujo valor líquido é baixo e raríssimas deduções são permitidas na declaraçãofinal de renda). Ao contrário, pagando a estas pessoas (artistas e diretores) como pessoasJurídicas (PJ), o valor bruto é alto e você só paga impostos se for burro pois a retenção na fontenão existe ou é insignificante, e você deduz tudo (qualquer despesa) como custo (até papelhigiênico). — Mas isto é uma puta sacanagem. Não que isto seja novidade. Até entendo que a Globoo faça, por estar politicamente impune. É compreensível. Mas, a Fundação é a vidraça do Dr.Roberto. . . É o passaporte dele pro céu. — Disse eu. — Machado. Aqui é igual à Globo. Quando você atinge uma faixa salarial alta ou um cargoelevado você deixa de ser pessoa física, para não pagar imposto e passa ser uma pessoa Jurídica.E aí começa a zona. Afinal, você não está na Suíça. Existe alguém neste país que ganhe muito epague imposto? Quem paga imposto no Brasil não é a classe média? Então? Aqui é igual. ÉFundação. É Globo. É Brasil. Pode ver que todos os diretores, todos sem exceção, recebem por PJ(Pessoa Jurídica), inclusive eu, Jorge Matsumi. A frieza e firmeza do Matsumi às vezes me assustava. Era tão franco que parecia cínico.Era frio diante do inevitável e absolutamente calmo e consciente em relação ao seu papel social. O"Japonês" (apelido do Matsumi) partia de uma lógica racional bem simples: "Sou só eu?" E, medesconcertava com sua retinilidade lógica: Ele tinha consciência de que não roubara nada. Não eraresponsável pela desorganização. O que havia de errado na Fundação era cópia da Globo. E aGlobo era o Brasil. Cabeça cheia. Eu tinha que me preparar para abrir o Calazans. Mas antes, tinha queselecionar a massa de informações que estava recebendo, e fazer um grande mergulho interiorpara buscar forças dentro de mim. Embora não fosse artista, e tivesse horror de pensar nestapossibilidade, valia-me de um recurso artístico: o laboratório. Nestas horas a "pilha" ia gastando (eu trabalhava 12 ou 14 horas, em média, por dia) ecostumava ir tornando-me diferente, calado, introspectivo. Era preciso me policiar. Eu tinha queestar alegre, feliz, despreocupado, para poder assimilar tudo sem sentir. Estar apto a ouvir o maiorabsurdo e não mover um músculo nem demonstrar o golpe. E, para isso tinha que me por emequilíbrio. As providências eram simples: Primeiro trocar de hotel. (Por causa do Jair eu acabei mehospedando num hotel tipo Shopping Center.) Eu detestava hotéis impessoais tipo ShoppingCenter e como eu vivi minha vida como auditor hospedando-me em hotel, eu era muito intolerantecom as más qualidades de um serviço. Queria um hotel fora do tumulto. Por isso escolhi o Eldorado — Higienópolis, pois o local éarborizado, silencioso, relaxante, e eu poderia ir andando até a Fundação (pela manhã), colocandotodos os meus pensamentos em ordem. (Era parte da higiene mental e tranqüilidade que euprecisava.)
  19. 19. Segundo, eu precisava parar de almoçar e jantar comidas exóticas com o Calazans e oMatsumi pois meu estômago estava acabando com o meu humor. (E tinha que preparar o meufígado.) Terceiro, eu precisava rir, ouvir bobagens e tirar o peso da carga de auditor. E, para isto,bastava sair à noite com a equipe e vagabundear sem nenhuma responsabilidade. Fiz um grande laboratório e um bom preparo a nível de estabilidade emocional. Parcialmente recuperado, comecei a preparar-me para o Calazans. Eu sentia que ele queria falar, e eu tinha que fazê-lo falar. Sabia que era alcoólatra, masnão queria convidá-lo abertamente para beber. Tinha que fazê-lo me convidar, de preferência ànoite, quando não teria maiores preocupações com o tempo. Como todo bom nordestino, gostava de prosa, e politizado como ele é, não foi difícil esticaro papo do escritório para o bar. Fomos a dois bares diferentes em duas noites diferentes. Numaestávamos eu, Claudinho e Calazans (na Taberna anexa ao Hotel Eldorado). Na outra, estávamossó eu e o Calazans (no David, na Oscar Freire). O papo era genérico. Falávamos de tudo. Principalmente de política. Falávamos daditadura, do sistema, das injustiças sociais, da falência e descrédito nas instituições. Eu curtia, decerta forma, uma admiração pelo Calazans. Não pelos seus métodos sujos. Não pelos seuspropósitos. Mas pela sua inteligência, e pelo seu bom gosto, (dentre outras coisas gostava deGoethe, Nietsche, Hermann Hesse, Monteiro Lobato, Voltaire e Aldous Huxley). Em meio a uma grande salada cultural, e com o Calazans no ponto, parti para aprovocação e para a abertura. Já sabendo, de antemão, que, por perfil o Calazans dirigiria suasbaterias contra Magaldi e cia., até porque Magaldi ocupava o cargo que ele almejava (SecretárioGeral), e, na retaliação valia tudo. Comecei pelo óbvio: Jair Lento. Por Jair Lento ser militar (major) já era motivo mais do que suficiente para Calazansdesancá-lo sem piedade. Atirei a "queima-roupa" — É verdade que você é sócio dos erros do Jair? — Doutor (vício nordestino que Calazans não perdia), é duro eu ir a Brasília, disputarpalmo a palmo, ombro a ombro as verbas. Arrancando, muitas vezes, estas verbas do esgoto.Tirando de verbas que deveriam ajudar o povo do nordeste, para chegar aqui em São Paulo esofrer o boicote vindo de ponte-aérea do Rio de Janeiro. — "Mas, Calazans, alguém tem que controlar estas verbas. Você não acha que o Jair faz oque deveria ser feito? — De forma alguma. Ele quer é tomar verba da Educação e Televisão para sobrar maispro sustento daqueles parasitas do Rio de Janeiro. No duro, eles querem é que eu morra, parasobrar mais verba para eles no chá com biscoito e queijinho. — Você não acha que é muita verba para chá com biscoito? — Ironizei. — Não. A verba acaba financiando tudo: chá, biscoito, os projetos falidos deles, e asacanagem da Casa do Bispo (Sede da Fundação). — É muito forte você atribuir tudo só ao Jair Lento. Não tem um exagero aí? — Provoquei. — Não. Aquilo lá é uma máfia. É tudo igual. Tanto faz: Jair, José Carlos, Magaldi. É tudoigual. São todos juntos contra mim. Mas não adianta, doutor. 0 mundo se acaba e o nordeste nãose rende. Eu sou um sobrevivente. — Máfia? Você falou em máfia por força de expressão ou você enlouqueceu de vez? Vocêestá com raiva dos caras e vem dizer que eles são mafiosos. . . peraí Calazans. . . Isso aí é muitoforte. — Fiz-me de desentendido, embora soubesse o que ele queria dizer. Eu já ouvira o boato,antes. — Olha, eu vou contar uma história para você entender, já que você pensa que eu estoumaluco. Sabe porque o cargo do Magaldi é Secretário Geral? É porque ele é comunista, e comocomunista ele idealizou uma Fundação capitalista com o cargo máximo do Soviet Supremo. Jáque ele não pode ser nada no Partido e ele não se assume como comunista, até porque o regimenão deixa, ele vem brincar de Secretário Geral" aqui na Fundação. — E daí... que que isto tem de mais? Você vai querer me convencer que ele comecriancinha na hora do almoço?
  20. 20. — Nada disso. 0 Magaldi é comunista e italiano. E como italiano é mafioso. — Socorro... Policia... Enlouqueceu Calazans? — Não. Vou te contar a história:Fui chamado ao Rio de Janeiro para uma reunião de diretoria. Eu não gosto de ir, mas fui. Mesmosabendo que eu ia encontrar o parasita do Galliano — que ninguém sabe o que ele faz naFundação — puxa-saco oficial do Magaldi. Mesmo sabendo que eu ia encontrar o milico do JairLento e o mau caráter do José Carlos Barbosa. De todos os diretores o único que presta é oNelson (Mello e Souza). — E daí, Calazans? — Daí que eu cheguei e perguntei pela pauta da reunião. Não tinha pauta. Era umareunião de acerto. Fui chamado para a reunião para fazer um pacto mafioso. Nós todosdeveríamos jurar fidelidade ao Magaldi, e ele seria o "Capo", protegendo a nós de tudo que fossealienígena ou atentasse à sobrevivência do Grupo. Era uma troca. Nós faríamos um Cinturão deFidelidade em torno do Magaldi e estaríamos protegidos "ad eternum" contra qualquer um queameaçasse um dos nossos cargos. Tomei um susto, gritei e ameacei sair, e Magaldi me chamounum canto e me pediu desculpas. Disse que ele não sabia de nada daquilo. Não concordava comaquela proposta absurda, e que estava envergonhado pelo que os amigos dele tinham tido acoragem de fazer. — A posição do Magaldi foi correta, ou não? Indaguei. — Correta nada, doutor. Eu não nasci ontem... Eles quiseram me iniciar, e como a coisa"melou", o Magaldi arranjou esta saída. Ele é mafioso sim. E, pior: é perigoso. — Você está delirando, Calazans? — Delirando porra nenhuma. Você quer ver como eles são mafiosos? Faz parte do pactodeles o uso da Fundação para benefício próprio e para especulação. Sabe o que eles estãofazendo? Estão usando chamadas de Televisão para especulação imobiliária. — Como assim, Calazans? — Perguntei curioso. — Eles compram terra em Parati, Angra dos Reis e Porto Seguro, depois lançamcampanhas institucionais para "preservar" o patrimônio histórico daqueles lugares. Daí, um tempodepois, eles vendem tudo com um lucro fabuloso. — E você tem prova disto? — Perguntei. — O que você chama de prova? Eu estou te contando o que aconteceu. Você se quiser,deve ir nos cartórios destes locais e verificar. Mas, lembre-se, eles podem estar fazendo aoperação em nome de terceiros, amigos, etc. — E como você descobriu isto? — Perguntei. — Tudo aconteceu por acidente. Numa conversa com o Humberto Pereira (Diretorresponsável pelo "Globo Rural"). O Humberto me falou que nestas andanças, Brasil afora, uma dasequipes do "Globo Rural" ao chegar em Porto Seguro, elogiou a beleza das praias nativas, quasevirgens. E ouviu, de moradores locais, que aquelas praias eram particulares. Foram compradas pordiretores da Globo e da Fundação Roberto Marinho. Daí, Humberto veio me gozar, achando queeu e o Magaldi havíamos comprado aquelas praias. — E você não comprou nem uma praiazinha? — Perguntei de deboche.Calazans finge que não escuta e continua... — Com cuidado e paciência eu acabei descobrindo que a patota do Magaldi haviacomprado aquelas praias. E logo percebi a relação entre os lugares e as campanhas institucionaisveiculadas pela Fundação, na Globo. Daí, para descobrir tudo foi um pulo. Afinal, eu não nasciontem, né doutor. Confirme com o Matsumi, pois uma equipe dele que estava no nordeste soubeda mesma coisa. Completou Calazans. — Mas isso aí, Calazans é muito difícil de provar. E, ainda que se prove, não há nadacontra se comprar terreno em Parati,Angra dos Reis e Porto Seguro. Não vai ser por isso que você vai derrubar a turma do Magaldi. —Arrisquei a constatação. — Pode até não ser por isso... Mas, afinal, que porra de auditor é você? Fica me fazendofalar. Eu falo. Dou todas as dicas de como você pode pegar aqueles parasitas e você não estáinteressado? — Disse ele, irritado.— Interessado eu até que estou. Mas eu não quero algodiscutível. Entenda, Calazans, quando eu faço um relatório, eu não coloco nada superficial. Nada
  21. 21. que se possa contestar. Quando eu coloco um "ponto" no meu relatório, ele é incontestável edefinitivo. Se você quiser pegar o Magaldi e a turma dele você vai ter que me dar algo maiscontundente. — Então tá, vou te contar outra história... — Eu não quero história. Quero fatos e provas — Interrompi bruscamente. — É o seguinte: Magaldi arquitetou um plano para envolver e comprometer o DoutorRoberto; para que nunca seja feito nada contra ele, Magaldi, e sua turma. — Como assim? — Perguntei. — O Magaldi age na cabeça do Dr. Roberto, lembrando ou fazendo sempre lembrar, que oDr. Roberto tem rabo preso na mão dele. E uma das formas que o Magaldi encontrou de subjugaro Dr. Roberto, é insinuando sempre que ele é homossexual, devasso, e que um fato obscuro,envolvendo um dos filhos do Dr. Roberto, que atirou num rapaz, amante do pai, foi resolvido eabafado por ele, Magaldi. O Dr. Roberto, com medo, permite ao Magaldi e à sua turma, todo tipode bandalheira aqui na Fundação. — Bela história. E o que isso prova? Que o Dr. Roberto é homossexual? O boato de que ovelho é homossexual corre no Brasil há anos. Até nos jornais isto sai descarado. O HélioFernandes, na "Tribuna" vive botando interrogação na palavra homem quando se refere ao Dr.Roberto. Você acha que o Dr. Roberto vai ficar na mão do Magaldi só porque ele sabe que o Dr.éhomossexual? — Concluí, fingindo irritação. — Não. Mas aí é que está. O Magaldi engendrou algo diabólico contra o Dr. Roberto.Sabendo que o "velho" não admite a morte, e que ele tem dois grandes pavores: o primeiro é omedo de morrer, e o segundo é não querer que a igreja o abandone no meio da estrada. Magaldijuntou todas as peças, e criou algo que coloca o velho contra a igreja, explorando exatamente, estelado devasso do Dr. Roberto." — Pô, Calazans. Lá vem você, de novo, com histórias. — Disse irritado. — Não. O caso é real. O Magaldi, na realidade não necessariamente ele, mas a máfia dele,em conjunto com o Pacote, que você deve conhecer da Televisão, usando de uma coleção dequadros de sacanagens e altamente libidinosos de outro homossexual, o Sérgio (Beto Carrero)Murad, montou um livro só de putaria, com a assinatura da Fundação Roberto Marinho, numaedição limitada. Mas, a grande intenção dele, não era editar o tal livro. Era, antes de tudo, que o Dr.Roberto soubesse da edição e entrasse em pânico, com medo que a igreja viesse a saber, ou queeste livro fosse a público envolvendo o nome da Fundação." — E esse livro foi editado, realmente? — Perguntei, como quem está com enfado de ouvirbesteiras. — Claro. Foram editados 3.500 exemplares numerados. Mas ficou tudo encaixotado. E, daí,quando o Dr. Roberto soube, mandou destruir tudo. O Magaldi, posando de bom moço, disse proDr. Roberto: "Claro. Imagine se isso vem a público. Imagine a manchete dos jornais contra aFundação. Imagine a reação da Igreja sabendo que a Fundação e o senhor, Dr. Roberto, seprestam a este tipo de coisa. É assim que o Magaldi age na cabeça do Dr. Roberto. É a mensagemsubliminar. Como publicitário ele sabe fazer isto bem. — Mas do que adianta isto, Calazans? Você vive me contando histórias cujas provas sãoquase impossíveis. De que me adianta saber disso, se os livros foram destruídos? — Disse, comoquem não quer nada, mas tentando "pescar" — Mas nem todos foram destruídos. Todos os diretores amigos do Magaldi possuem umexemplar e eu consegui salvar do incêndio três exemplares para mim. Vou dar dois exemplares avocê. Um para si e outro pro Francisco Eduardo. Ainda aturei muita conversa do Calazans naquela noite. Mas, confesso, estava indócil paradormir, acordar no dia seguinte e rezar para que ele não tivesse esquecido a conversa da noiteanterior. No dia seguinte deixei o pessoal da equipe, que ainda estava tomando café no hotel e saísozinho. A pé. Só. Tentando ordenar meus pensamentos. Eu já possuía, na minha cabeça, umrelatório técnico todo delineado e com um volume grande de informações. Informações estas, quenão poderiam e nem deveriam estar imiscuídas com dados técnicos. Eu começava a temer peloexcesso de informações, e estava preocupado em como fazer um relatório curto, seco e grosso,sem misturar coisas muito importantes, com outras importantes também, mas de efeito relativo oudiscutível. (Relatar tudo era impossível. Nem pensar.)
  22. 22. Foi assim, em meio a estes pensamentos, que resolvi fazer vários relatórios, com váriosenfoques e com vários níveis de abrangência. Era preciso voltar ao Rio. Era preciso amarrar as informações de São Paulo com osdocumentos do Rio. Informei ao Calazans que eu iria voltar ao Rio, e que iria fazer um relatório preliminar ao Dr.Roberto. Aproveitando a oportunidade perguntei se ele não tinha mais nenhum documento parame entregar. Para surpresa minha, ele entregou-me vários documentos, e dois exemplares do tal livro,objeto de nossa conversa da noite anterior. E, como que retomando nossa conversa disse: —Façabom uso, e espero que você e o Francisco saibam como utilizá-los. Era claro e nítido que o Calazans queria uma cartada definitiva com Magaldi e Jair Lento, eestava me usando para isto. De volta ao Rio, o clima era de grande expectativa. Como que sentindo que havia algo noar, os colegas de escritório olhavam-me com muita interrogação. E, alguns, sentindo que houveraêxito em São Paulo, tentavam alguma antecipação, quer por uma sondagem discreta, quer pelapergunta direta. Era segunda-feira, dia de todos estarem no escritório. Em tese, as brincadeiras eramquase sempre as mesmas, mas a graça se renovava a toda hora. Para variar, naquele dia, com oescritório repleto de homens, entrou uma menina, que trabalhava no CPD e que era muito bonita ebem feita de corpo, para conversar algo rápido com a Norminha. Foi o que bastou. Miguel (Duarte) que fora do serviço é um palhaço em tempo integral, quicou a bola. — Aí. . .(apontando com os olhos) Fazia? Um mais afoito se antecipa. — Frente, verso e autenticado. — Pareciam colegiaisprimários. A Norminha morria de vergonha, conhecia o pessoal, e sabia cada expressão nossa. Cadacódigo. Miguel, muito amigo da Norminha, sentindo o embaraço dela, tenta constrangê-la maisainda — 0 Norminha, apresenta a moça pro pessoal. "Garnizé", cumprimenta a moça, seu mal-educado. E sucedia-se uma enxurrada de gracinhas anônimas: — Aí, March, já pensou se você não fosse velho? — Quando chegar em casa eu vou matar minha mulher de porrada. — Bota tudo em meu nome. — Fica quieto, Júnior.Norminha, sentindo que não ia conseguir conversar, sai com a moça e excomunga: — Pôxa, atéparece que vocês não vêem mulher. . . — Ver até que a gente vê, mas não dessa qualidade. — Tem gente aqui que viaja tanto que nem lembra mais como é. Passado o incidente, o clima continua. Mudado o motivo, procura-se um novo. — Machado, comeu bem em São Paulo? — Não. A última vez que eu comi bem foi quando eu fui na sua casa. Na inocência e namaldade somos todos iguais. — É, depois que ele voltou de Curitiba e experimentou a comida do "Metrô", ele não comenoutro lugar. Nisto vem passando a Rosângela, auditora séria, que não gosta de brincadeira e davaesculacho no Miguel todo dia. Para variar, o Miguel perdia o amigo, mas não perdia a piada. — O Rosângela, você já andou de Metrô?(Nota: O Metrô é uma boate em Curitiba. Quando uma equipe ia auditar a TV Paranaense, erainevitável — toda noite o bando garantia a freqüência da boate, pois ninguém pagava a entrada,dava-se carteirada com o crachá da Globo, e a conta vinha sempre com um grande desconto. Odono, ou gerente, ficava feliz da vida com a nossa presença e com as nossas brincadeiras. Como o clima estava solto, até os que não costumavam entrar na brincadeira se atreviam: — Olha lá, Machado, quem está se coleteando... — O Chileno... que porra é essa de se coleteando? Aí o Chileno tinha que explicar o seu idioma para a gente. Coletear, segundo o Chileno, é aexpressão usada para designar a alegria que o cachorro demonstra abanando o rabo.
  23. 23. Eu perguntei quem é que estava se coleteando, pois eu não havia entendido a piada. ATrespondeu que era o Pedrinho, e falou — Repara só. Ninguém dá atenção pra ele e aí ele vai num,vai noutro, procura atenção, e fica se coleteando para ver se alguém faz festa para ele. Nisto, entra o Francisco e alguém grita — Sujou. Francisco amarra a cara e deixa claro que escutou o sujou. A figura é a da sempre: Óculos escuros para não se entregar pelos olhos, paletó nascostas, e duas pesadas malas de auditor (que parecem de propagandista de remédio). — A festa está boa né Luiz carlos? — Luiz era sempre o mais visado e o escalado prabronca inicial, tivesse ou não culpa. Aí ele abrandava um pouco — O Nilo, até você? Vira-se para mim — com você eu nem falo, senão vai querer responder e eu não querobrigar. Hoje eu estou calmo, satisfeito, estava brincando com a Vanessa (filha dele) até agora enão vai ser este bando de malucos que vai me tirar o humor. Eu mudava de assunto rápido, para a coisa não render — OIha... tenho mil novidades e umpresente incrível. — Eu sabia que depois de provocar a curiosidade, ele até podia fazer tipo, masnão ia atender ninguém antes de saber sobre S. Paulo e sobre o presente. Ainda de pé, antes de entrar na sala, ele perguntava para a Norminha sobre possíveisrecados, telefonemas etc. — Vamos lá, Machado — chamava. Era religiosamente sagrado, Pedrinho entrava junto, para ouvir, e arranjava um pretextoqualquer para permanecer na sala. Mas, como eu sou descaradamente mal-educado, calava aboca e esperava ficar aquele silêncio mortal. O Francisco ainda provocava. Perguntava sobre S. Paulo, e sobre a Fundação. Eu falavaum monte deabobrinhas, mas não falava nem sobre S. Paulo e nem sobre a Fundação. Percebendo a situação, Francisco procurava não esticar o jogo e gritava "cai fora Pedro". Aí, para deixar bem claro que a coisa era pessoal com o Pedro, eu dizia: "Pode chamar oNilo, o Chileno, o March, o Luiz Carlos. Chame quem você quiser. Não tem problema, não." — Pôxa, Machado, porque vocês fazem isso com o Pedro? — Nós já falamos para você. Você sabe. Que você não queira fazer nada, a gente atéentende. Agora, o que não dá, é você querer que a gente o aceite. — Francisco, aqui só tem técnico. Tudo profissional de altíssimo nível, tirando uma meiadúzia de Assistentes, o Staff é de Senior para cima. Aqui, você só é respeitado se for bomprofissional. Ninguém atura esse papo de capinar sentado e administração por time-sheet. Vocêsabe... se o cara que está em baixo sente que é melhor do que você, profissionalmente, te engoleou te faz comer grama. A nossa profissão é uma das raras que só se aprende fazendo, e só sobese for bom. Não dá para ter mamãezada e protecionismo. — Vamos lá... E São Paulo? — Pergunta, mudandoe encurtando o assunto. Expus-lhe o que havia sido levantado em S. Paulo, ao mesmo tempo em que entregava olivro que o Calazans havia enviado de presente. Disse que o relatório já estava todo escrito, naminha cabeça, e que iríamos gastar mais uma semana auditando a Fundação no Rio, e mais umasemana seria necessária para limpar alguns pontos e/ou colher um ou outro documento. Francisco estava surpreso e ainda meio desorientado quanto à forma correta deenfocarmos o assunto para o Dr. Roberto, até porque, o que para mim já fora objeto de reflexão,para ele ainda era assunto novo. E o volume de informações era muito grande. Acertamos então a estratégia e linhas gerais. Neste relatório só abordaríamos osDepartamentos de Educação e Televisão, deixando para o futuro os demais departamentos. Masnão abriríamos mão de ir fundo no trabalho da Fundação. Afinal, foram anos de normalidade, etínhamos de dar a volta por cima. Reuni a equipe do Rio. Orientei o pessoal que ia ficar no escritório, e dirigindo-nos para aFundação/Rio. Todos estavam avisados para não aceitar provocações, e deveriam aceitar a situação, pormais adversa que ela fosse, não importando os tropeços e as pedras. O objetivo era maisimportante. E, se alguém tivesse que bater de frente, eu iria usar a minha reputação. (Se oFrancisco trombasse, seria abuso de autoridade. Se um subalterno trombasse, seriainsubordinação. Se eu trombasse, seria medição de força.) Neste caso, o melhor era eu trombar. Estrategicamente, Jair fez funcionar o seu plano, usando o Contador como "agenteprovocador". Não dava recados telefônicos para os auditores, mesmo quando o escritório

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