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Perfil psico e comportamental de agressores sexuais de crianas (1)

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    Perfil psico e comportamental de agressores sexuais de crianas (1) Perfil psico e comportamental de agressores sexuais de crianas (1) Document Transcript

    • Revisão da Literatura Perfil psicológico e comportamental de agressores sexuais de crianças Psychological and behavioral profile of sexual abusers of children antonio de Pádua seraFiM1, Fabiana saFFi1, sérGio Paulo riGonatti1, ilana Casoy2, daniel Martins de barros1 1 Núcleo de Psiquiatria e Psicologia Forense (Nufor), Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). 2 Escritora e pesquisadora sobre crimes seriais. Recebido: 18/12/2008 – Aceito: 26/3/2009 Resumo Contexto: A prática de abuso sexual contra crianças é um fenômeno universal. Ela ocorre em todos os tempos e lugares e atinge todas as classes socioeconômicas. Enquanto a maioria dos estudos investiga as vítimas, os poucos estudos sobre agressores se concentram principalmente em dados demográficos. Objetivo: Apresentar revisão da literatura quanto à classificação de molestadores sexuais de crianças, de acordo com o perfil psicológico e comporta- mental. Métodos: Revisão da literatura e discussão do material utilizado. Resultados: Apresentação das principais classificações dos criminosos sexuais contra crianças, identificando as tipologias mais utilizadas com suas possíveis contribuições à psiquiatria e à psicologia forense. Conclusão: A utilização do perfil psicológico em crimes sexuais é de fundamental relevância no contexto médico-legal, mas ainda carece de bases científicas mais sólidas. Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):105-11 Palavras-chave: Abuso sexual, perfil psicológico, violência sexual, ciências forenses. Abstract Background: Sexual violence against children is a universal problem, occurring since ever, everywhere and regard- less the socio-economic status. Whist most studies have been dedicated to the victim of such crime, there is little information regarding their perpetrators, which is largely limited to the description of demographic data. Objective: Review the literature regarding children sexual aggressors according to psychological and behavioral profile. Meth- ods: Literature review and discussion. Results: Presentation of the major classifications of offenders, pointing out the most widely used ones and the implications to forensic psychiatry and psychology. Conclusion: The psychological and behavioral profile use is very important for medico-legal practice, but still needs better scientific validation. Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):105-11 Keywords: Sexual abuse, psychological profile, sexual violence, forensic sciences. Introdução As experiências de violência ou abuso sexual na infância correlacionam-se a perturbações psicológicas A violência sexual vem sendo perpetrada desde a antigui- e comportamentais na vida adulta, especificamente dade em todos os lugares do mundo, em todas as classes sendo identificada a associação entre o abuso sexual de socioeconômicas, sendo fenômeno complexo, com crianças e os distúrbios psiquiátricos como transtorno multiplicidade tanto de causas quanto de consequências de estresse pós-traumático, transtornos do humor e para a vítima1-5. transtornos psicóticos6-12. Endereço para correspondência: Antonio de Pádua Serafim, Rua Dr. Ovídeo Pires de Campos, 785, 1º andar, Ala Sul, Nufor, Cerqueira César – 05403-010 – São Paulo, SP. E-mail: apserafim@hcnet.usp.br
    • 106 Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):101-11 Segundo os dados do Departamento de Justiça dos Apresentação e discussão do material obtido Estados Unidos, criminosos sexuais são indivíduos que podem pertencer a qualquer classe socioeconômica, Os resultados, de maneira geral, demonstraram que o raça, grupo étnico ou religião. A grande maioria não termo “perfil psicológico de abusadores sexuais infantis” tem comportamento criminal específico. Tipicamente, não é consenso na literatura especializada, embora se seu grau de escolaridade é de ensino fundamental ou publique. Entretanto, quando se reporta à publicação médio, está empregado e apenas 4% sofrem de doença nacional, esta é inexistente. Observa-se, ainda, tendência mental severa13. a englobar a violência sexual contra crianças no contexto Os crimes sexuais não acontecem simplesmente, geral da pedofilia, e não da criminalidade, como será pois somente pequeno número de molestadores de visto nas discussões por tópicos. crianças age sem planejamento ou premeditação. Para a maioria desses criminosos o planejamento se inicia Caracterização da pedofilia: abusadores versus molestadores horas, dias ou até meses antes da ação. Apesar de com- preenderem que estão agindo fora da lei, racionalizam Embora o termo pedofilia seja largamente associado à seu comportamento, convencendo-se de que não estão violência sexual infantil, trata-se mais precisamente de cometendo nenhum crime e de que seu comportamento transtorno parafílico (e, para a maioria desses autores, é aceitável14-17. não implica necessariamente atos criminosos – na ver- O molestador de crianças convence a si mesmo de dade, na maioria dos casos não há ocorrência de atos que a criança quer se relacionar sexualmente com ele, ilícitos). É consenso que os portadores de pedofilia projetando nela os pensamentos e sentimentos que ele podem manter seus desejos em segredo durante toda a quer que ela tenha sobre ele. Ele interpreta a reação vida sem nunca compartilhá-los ou torná-los atos reais; humana da vítima aos seus atos preparatórios e manipu- podem casar-se com mulheres que já tenham filhos ou latórios como resposta positiva aos seus desejos sexuais atuar em profissões que os mantenham com fácil acesso e se convence de que seu comportamento abusivo não a crianças, mas raramente causam algum mal20-22. causa estragos nem é prejudicial18,19. Por outro lado, os molestadores de crianças, em sua O objetivo do presente trabalho é apresentar uma maioria, apresentam motivações variadas para os seus revisão da literatura concernente à classificação de crimes, que raramente têm origem em transtornos molestadores sexuais de crianças de acordo com o perfil formais da preferência sexual18,19,23-27. psicológico e comportamental. Acredita-se que a passagem da fantasia para a ação no caso dos pedófilos ocorre com maior frequência quando Métodos o indivíduo é exposto a estresse intenso, situações nas quais haja grande pressão psíquica, como discussão con- Para a elaboração do presente trabalho, os seguintes jugal importante, demissão, aposentadoria compulsória procedimentos foram adotados etc. Nesse caso, quando envolvidos com atos ilícitos, a Foi realizada busca on-line nas bases de dados expressão do comportamento criminoso dos pedófilos MedLine-PubMed e SciELO, considerando a literatura permite diferenciá-los em dois tipos: os abusadores e os dos últimos 20 anos. Os textos foram pesquisados por molestadores. Os abusadores caracterizam-se principal- área de interesse: psiquiatria forense, psicologia foren- mente por atitudes mais sutis e discretas no abuso sexual, se e medicina legal. Para a base de dados MedLine- geralmente se utilizando de carícias, visto que em muitas PubMed, foram utilizados os seguintes termos: child situações a vítima não se vê violentada. Já os molestado- sexual abuse, child molesters, sex of fender, forensic res são mais invasivos, menos discretos e geralmente examination psychological profile. Para a base dados consumam o ato sexual contra a criança20-23,25. SciELO, foram utilizados os seguintes descritores: Há, ainda, autores que classificam os pedófilos pedofilia, abusador, molestador, ofensa sexual, perfil baseados na preferência de gênero – homossexual, he- psicológico, totalizando 39 artigos que preencheram terossexual ou bissexual –, enquanto outros preferem os critérios para este estudo. diferenciá-los por faixa etária – adolescentes, de meia- Foram também consultados livros-textos e periódi- idade ou idosos27. cos disponíveis nas bibliotecas do Instituto de Psiquia- tria da Faculdade de Medicina da Universidade de São a) Pedófilo abusador Paulo (FMUSP), do Instituto de Psicologia da USP e do Instituto Oscar Freire da FMUSP, uma vez verificada a O tipo mais comum de pedófilo abusador é o indivíduo ausência de trabalhos nacionais referentes ao tema perfil imaturo. Em algum ponto da vida ele descobre que pode psicológico de abusadores sexuais. Foram adicionados obter com crianças níveis de satisfação sexual que não ainda nesta pesquisa dados do Department of Justice consegue alcançar de outra maneira. Trata-se de tipo (US) – Session Sexual Assault of Young Children as solitário, e a falta de habilidade social acaba levando-o a reported to Law Enforcement (www.missingkids.com/ mergulhos cada vez mais profundos e fantasiosos na pe- en-US/publication /NC70.pdf). dofilia. Seu comportamento é expresso de forma menos
    • Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):105-11 107 invasiva (usam de carícias discretas) e dificilmente age problemas com a baixa auto-estima, que provavelmente com violência, o que na maioria das vezes dificulta que o acometem, e mantém várias vítimas seduzidas em a criança e as pessoas ao seu redor notem o fato. Tende estágios diferentes, esperando sua ação19,24. a se envolver com pornografia infantil, pela internet ou A internet é um meio de busca de alvos bastante utilizando fotografias diferentes dos molestadores16-19. comum para esse tipo de agressor, cujo comportamento sexual é composto de sexo oral e vaginal. O uso de por- b) Pedófilo molestador nografia infantil melhora seu desempenho e a conquista da vítima. É frequente esse tipo de molestador infantil Como dito, a característica marcante do pedófilo mo- colecionar filmes caseiros e/ou fotografias das crianças lestador é o padrão de comportamento invasivo com que foram suas vítimas16,19. utilização frequente de violência. Esse tipo também pode ser dividido em dois grupos: molestadores situacionais b.1.2) Molestador situacional inescrupuloso e preferenciais16-19,24. (moral ou sexual) Esse agressor abusa de quem está disponível para b.1) Molestador situacional (pseudopedófilo) satisfazer suas necessidades sexuais e o fato de atacar crianças faz parte desse contexto, não sendo a sua priori- Para esse indivíduo a criança não é especialmente o dade. Molestar uma criança é parte do padrão de abuso objeto central de sua fantasia, logo não pode ser diag- geral em sua vida, pois tem como hábito usar e abusar nosticado como pedófilo, na acepção estrita do termo. das pessoas. Esse indivíduo mente, trapaceia, furta e Alguma circunstância contingente o impele a obter não vê motivo para não molestar crianças. Usa força, gratificação sexual através da criança, o que ocorre sedução ou manipulação para conquistar sua vítima. muito mais pela fragilidade dela e pela dificuldade de É um indivíduo charmoso, considerado agradável pelas ser descoberto do que pelo fato de ser pré-púbere – daí pessoas e crianças à sua volta. Se for casado, é o tipo de a denominação “situacional”16-19. homem que troca de mulher a toda hora16,18. Esse tipo de molestador frequentemente é casado e O incesto é comum para esse molestador, que não vive com a família, mas, se alguma situação de estresse hesita em envolver seus filhos ou enteados na realização acontece, ele é levado a sentir-se mais confortável com de seus desejos. Não é raro esse agressor fazer parte de crianças. Na maioria das vezes ataca meninas. Se a pre- grupos de pornografia infantil, mas escolhe uma faixa ferência for por meninos, é provável que, nesse caso, o etária definida de vítimas ao atacar crianças16-18. agressor seja homossexual17. A maioria dos agressores desse tipo pertence às clas- b.1.3) Molestador situacional inadequado ses socioeconômicas mais baixas e é menos inteligente. Seu comportamento sexual está a serviço das suas ne- Alguns autores17,19,24 enfatizam a possibilidade de que cessidades básicas sexuais (excitação e desejo) ou não esse tipo de molestador sofra de alguma forma de sexuais (poder e raiva). São oportunistas e impulsivos, transtorno mental (retardo mental, senilidade etc.) que o focalizam as características gerais da vítima (idade, impossibilita de perceber a diferença entre certo e erra- raça, gênero) e os primeiros critérios para a escolha do em suas práticas sexuais, ou seja, o caráter delituoso dela são a disponibilidade e a oportunidade. Entre os de seus atos. Em geral, não manifesta comportamento molestadores de criança situacionais existem três perfis agressivo, isto é, não machuca a criança fisicamente, diferentes de indivíduos: o regredido, o inescrupuloso pois suas práticas sexuais envolvem abraçar, acariciar, e o inadequado17,18. lamber ou outros atos libidinosos que raramente incluem a relação sexual. Quando mantém relação sexual com a criança, esta tende a ser anal ou oral. b.1.1) Molestador situacional regredido A tabela 1 expressa a síntese das principais caracte- Segundo alguns autores16-18, o indivíduo com esse perfil, rísticas do molestador de crianças situacional. em razão de vivências intensas de estresse, regride a es- tágios anteriores do desenvolvimento e, para sentir-se se- b.2) Pedófilo molestador preferencial guro e à vontade, passa a interagir melhor com pessoas tão fragilizadas quanto ele naquele momento. Por esse Para o molestador desse grupo, a gratificação sexual só motivo, não ataca apenas crianças. Para satisfazer seus será alcançada se a vítima for uma criança. Na realidade desejos sexuais, utiliza-se de qualquer grupo vulnerável, americana os agressores desse grupo tendem a ser mais como idosos e deficientes físicos ou mentais. inteligentes que a média da população e pertencem Esse tipo de molestador apresenta estilo de vida a classes sociais mais elevadas. Seu comportamento estável, financeira e geograficamente. Deve estar em- sexual está a serviço de suas parafilias e é persistente e pregado, mas no seu histórico podem constar alguns compulsivo, orientado por suas fantasias. Focaliza sua problemas relativos a abuso de substâncias alcoólicas. ação em vítimas específicas, no seu relacionamento Tem prazer imenso em seduzir, diminuindo, assim, seus com elas ou no cenário dos fatos. Alguns colocam em
    • 108 Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):101-11 Tabela 1. Características psicológicas e comportamentais dos molestadores de crianças situacionais Molestadores de crianças situacionais Elemento Regredido Inescrupuloso moral Inescrupuloso sexual Inadequado Traços básicos Pouca habilidade em Usa pessoas disponíveis Experimentador sexual Desajustado lidar com problemas socialmente Motivação Substituição “Por que não?” Enfado, tédio Insegurança e curiosidade Critério – escolha Disponibilidade Vulnerabilidade, Novo e diferente Sem risco da vítima oportunidade Comportamento Coerção Sedução, força ou Envolve em atividade Aproveita-se da (modo operante) manipulação existente vantagem de tamanho Coleção Possível Sadomasoquista/revistas Altamente provável Provável pornográfica policiais Adaptada de Holmes e Holmes16. prática com a criança as fantasias que têm vergonha de O crime é premeditado e ritualizado, sendo resultado executar com um parceiro adulto. O número de vítimas de elaborado plano de ataque. Ele não conhece a criança desse tipo de molestador de crianças é altíssimo e ele que ataca e não a seduz: utiliza-se de truques para tirá-la costuma atacar mais meninos do que meninas16-19. dos pais ou de armas para amedrontá-la ou simplesmente A característica marcante desse tipo de molestador a leva a parquinhos, shopping centers e escolas19. é a violência extrema, que chega até o homicídio. Ele A maioria dos molestadores desse tipo é do sexo pode ser do tipo: sedutor, sádico e introvertido16. masculino, tem personalidade antissocial, trabalha em empregos temporários e muda frequentemente de ende- reço ou de cidade. Antecedentes criminais envolvendo b.2.1) Pedófilo molestador preferencial sedutor atos violentos, como estupro ou assalto, são comuns. Os De acordo com Holmes e Holmes16, esse perfil represen- meninos se caracterizam como a principal vítima desse ta um dos grupos mais perigosos, visto ser difícil para a molestador, que prefere o sexo anal. Machuca a crian- criança escapar das suas mãos. Geralmente ele corteja, ça de forma fatal, e a prática do canibalismo pode ser presenteia e seduz seus alvos e é capaz de percorrer frequente. Castração de meninos, brutalização da área qualquer distância para alcançá-los. Em princípio, esse genital feminina e decapitação fazem parte do repertório ofensor não quer machucar a criança. Fica íntimo dela de mutilações desse criminoso16-19. antes de molestá-la e insinua gradativa e indiretamente assuntos sexuais, usando pornografia infantil e parafer- b.2.3) Pedófilo molestador preferencial introvertido nália sexual. Esse material tem como objetivo diminuir É um indivíduo que prefere crianças, mas não tem ha- as inibições da vítima e criar a possibilidade de ela bilidade pessoal para seduzi-las. Tipicamente, mantém manter sexo com um adulto. Normalmente é solteiro, mínima comunicação verbal com a criança que escolhe. tem mais de 30 anos e estilo de vida e comportamento Em geral, ela é desconhecida e muito pequena para en- infantilizados. tender o que está acontecendo. Sua área de ação envolve Para que esse tipo de molestador infantil possa os parques infantis ou locais com grande concentração estar em constante contato com seus alvos, deixando de crianças, onde observa e/ou tem breves encontros crianças em vários estágios de sedução, é necessário sexuais19. Telefonemas obscenos e exibicionismo tam- que o contato seja legítimo. Sendo assim, as profissões bém são ofensas comuns. Para realmente se relacionar escolhidas por esse tipo de agressor serão aquelas da sexualmente utiliza prostituição infantil, turismo sexual, qual as crianças são parte inquestionável, como funcio- internet ou se casa com a mãe das crianças que deseja nários de escolas, monitores de acampamento, técnicos para ter acesso legítimo e seguro e com a frequência esportivos, motoristas de ônibus escolar, fotógrafos, que necessita19. padres etc.16-19. A tabela 2 apresenta as características entre moles- tadores situacionais e preferenciais. b.2.2) Pedófilo molestador preferencial sádico Pedofilia, psicopatia e violência sexual Esses agressores pretendem molestar crianças com o expresso desejo de machucá-las. Seu excitamento Um importante aspecto associado aos molestadores de sexual é diretamente proporcional à violência, que pode crianças é a psicopatia28-32. A presença de psicopatia em ser fatal16,19. pedófilos colabora para a expressão de insensibilidade
    • Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):105-11 109 Tabela 2. Características de molestadores situacionais e Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de preferenciais Transtornos Mentais37, a prática do abuso pode ser Molestador situacional Molestador preferencial caracterizada como o comportamento desviante deno- minado parafilia (do grego para → ao lado de, oposição Inteligência inferior Inteligência superior + philos = amante, atraído por) se for motivada por trans- Baixa classe socioeconômica Alta classe socioeconômica torno da preferência sexual. Notadamente, as parafilias Transtornos de personalidade Parafilias do são caracterizadas por impulsos sexuais intensos e do tipo: tipo: recorrentes, modulados por fantasias e manifestação • Antissocial/Psicopática • Pedofilia de comportamentos não convencionais, como ocorre • Narcisista • Voyeurismo no fetichismo, travestismo fetichista, exibicionismo, • Esquizoide • Sadismo voyeurismo, necrofilia e pedofilia37. Comportamento criminal Comportamento criminal Alguns autores ressaltam que o fato de uma pessoa variado focado apresentar preferências por determinadas partes do Pornografia violenta Pornografia temática corpo, objetos e acessórios não representa necessaria- mente parafilia e, em muitos casos, não há riscos para Impulsivo Compulsivo condutas sexuais criminosas. De acordo com esses Considera riscos Considera necessidade autores, para que esse funcionamento preencha critérios Erros cometidos por Erros cometidos por para a parafilia, deve-se considerar no seu portador os negligência necessidade seguintes aspectos: 1) caráter opressor do desejo, com perda de liberdade de opções e alternativas, isto é, o Orientado intelectualmente Orientado pela fantasia parafílico não consegue deixar de atuar dessa maneira; Espontâneo ou planejado Script 2) caráter rígido, significando que a excitação sexual • Disponibilidade • Auditivo só se consegue em determinadas situações e circuns- • Oportunidade • Repetitivo tâncias estabelecidas pelo padrão da conduta parafílica; • Ferramentas • Com acessórios • Aprendizado • Crítico e 3) caráter compulsivo, que se reflete na necessidade imperiosa de repetição da experiência15,20,21. Padrões de Padrões de A dificuldade no controle da compulsão se apresenta comportamento – MO comportamento – Ritual como o fator de maior vulnerabilidade para a ocorrência • Praticidade • Necessidade • Flexibilidade • Rigidez de condutas criminosas com implicação médico-legal27. Altos níveis de testosterona, incapacidade em manter MO: modus operandi. Adaptada de Holmes e Holmes16. relação conjugal estável, traumatismo cranioencefálico, retardo mental, psicoses, abuso de álcool e substâncias psicoativas, reincidência de crimes sexuais e transtor- afetiva, diminuição da capacidade empática e elevado nos da personalidade são outros fatores conhecidos de comportamento antissocial. Vários estudos têm demons- vulnerabilidade para as condutas sexuais criminosas38-42. trado que criminosos psicopatas apresentam histórico Ressalta-se que no Brasil há grande escassez de material de violência gratuita, com atos extremos de violência, de pesquisa sobre a violência sexual infantil1. como sadismo, crueldade e brutalidade33-36. Outro padrão psicológico e comportamental obser- O termo psicopatia descreve o indivíduo que apresen- vado em molestadores refere-se a aspecto obsessivo. ta padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos Gacono et al.28 ressaltaram que o construto obsessivo dos outros e pobreza geral nas reações afetivas – estima- nos molestadores psicopatas se inicia bem antes da se que entre 25% e um terço dos indivíduos com trans- primeira expressão de conduta sexual delituosa. torno de personalidade antissocial apresentam critério para psicopatia29. O que vai caracterizar o pedófilo ou Características demográficas e molestador com psicopatia é a manifestação de evidente comportamentais dos agressores crueldade na conduta sexual, centrada e modulada pela postura de indiferença à ideia do mal que comete, não Molestadores sexuais dificilmente modificam seus as- expressando emoções quanto ao desvio nem ao fato de pectos psicológicos, culturais ou sexuais, mesmo que que o seu comportamento produz sofrimento. Sugere-se corram risco de eles serem identificados. Para alguns que esse tipo de agressor sexual experimenta o prazer autores19,27, a realização da investigação fenomenológica não mais com o sexo, e sim com o sofrimento de sua víti- é a chave para a identificação do agressor. ma. Em geral, reduz a vítima ao nível de objeto, passível O modus operandi (MO) – expressão repetitiva do de toda manipulação, degradação e descarte34. O crime comportamento criminoso em questão – assegura o por prazer é produto de extremo sadismo, e a vítima é sucesso do crime, protege a identidade do criminoso assassinada e mutilada com o propósito de provocar e garante sua fuga. O MO é dinâmico e maleável, na gratificação ao criminoso, sendo o prazer dele adquirido medida em que o infrator ganha experiência e confiança. pela violência, e não pelo ato sexual36. O ritual, por sua vez, é comportamento que excede o
    • 110 Serafim AP, et al. / Rev Psiq Clín. 2009;36(3):101-11 necessário para a execução do crime, sendo construído como os crimes sexuais, uma vez que o comportamento com base nas necessidades psicossexuais do agressor, e de agressores sexuais não apresenta uma causa única, este aspecto é crítico para a satisfação dos seus desejos tem origem sabidamente multifatorial e envolve o com- e impulsos16-19,24. plexo imbricamento de vários fatores. Só assim haverá, Lanning18 ressalta que, se o MO é repetido frequen- de fato, possibilidades para uma contribuição de forma temente durante a atividade sexual, alguns de seus técnica tanto para a possível identificação do ofensor aspectos podem, por comportamento condicionado, como para o planejamento de tratamentos individualiza- transformar-se em ritual e seus comportamentos subse- dos, auxiliando na definição de qual intervenção é mais quentes são determinados pelas imagens eróticas e abas- efetiva e para quem. tecidos pela fantasia e podem ter natureza bizarra. O típico agressor é homem, começa a molestar por Referências volta dos 15 anos, se engaja em vários comportamentos pervertidos e molesta uma média de 117 jovens, cuja 1. Aded NL, Dalcin BLGS, et al. Abuso sexual em crianças e adolescentes: maioria não dá queixa. Cerca de 30% são menores de revisão de 10 anos da literatura. Rev Psiquiatr Clín. 2006;33(4):204-13. 2. Arboleda-Florez J, Wade TJ. Childhood and adult victimization as risk 35 anos. Por volta de 80% têm inteligência normal ou factor for major depression. Int J Law Psychiatry. 2001;24:357-70. acima da média16,18. 3. Deblinger E, Mcleer SV, Henry D. Cognitive behavioral treatment for Lanning19 e Salfati e Canter25 ressaltam que 50% dos sexually abused children suffering post-traumatic stress: Preliminary abusos infantis envolvem o uso de força física e que mo- findings. J Am Acad Child and Adolesc Psychiatry. 1990;29:747-52. 4. Rivera B, Widom CS. Childhood victimization and violent offending. lestadores de crianças produzem o mesmo percentual Violence Vict. 1990;5(1):19-35. de ferimentos na vítima que os estupradores 5. Maxfield MG, Widom CS. The cycle of violence. Revisited 6 years later. Mais da metade dos criminosos sexuais condenados Arch Pediatr Adolesc Med. 1996;150(4):390-5. que acabam de cumprir pena voltam para a penitenciária 6. Widom CS, Ames MA. Criminal consequences of childhood sexual victimization. Child Abuse Negl. 1994;8(4):303-18. antes de um ano. Em dois anos esse percentual sobe 7. Ross CA, Miller SD, Bjornson L, Reagor P, Fraser GA, Anderson G. Abuse para 77,9%. A taxa de reincidência varia entre 18% e 45%. histories in 102 cases of multiple personality disorder. Can J Psychiatry. Quanto mais violento o crime, maior a probabilidade do 1991;36(2):97-101. criminoso repeti-lo30. 8. Nagata T, Kiriike N, Iketani T, Kawarada Y, Tanaka H. History of childhood sexual or physical abuse in Japanese patients with eating disorders: relationship with dissociation and impulsive behaviours. Psychol Med. Considerações finais 1999;29(4):935-42. 9. Garno JL, Goldberg JF, Ritzler BA. Impact of childhood abuse on the clin- Analisado com minúcia, o crime sexual contra menores ical course of bipolar disorder. British J Psychiatry. 2005;186:121-5. 10. Hammersley P, Dias A, Todd G. Childhood trauma and hallucinations in vem se mostrando complexo e variado, com diferentes bipolar affective disorder: preliminary investigation. Br J Psychiatry. perfis de criminosos se engajando nessa prática, por 2003;182:543-7. diferentes motivos. O perfil psicológico para identificar 11. Meyerson LA, Long P, Miranda Jr R, Marx BP. The influence of child- criminosos sexuais, embora utilizado por alguns pesqui- hood sexual abuse, physical abuse, family environment, and gender on the psychological adjustment of adolescents. Abuse and Neglect. sadores, ainda requer melhor validação científica, visto 2002;25(7):387-405. que seus procedimentos são em sua maioria decorrentes 12. Osofsky JD. The effects of exposure to violence on young children. Am de pesquisas empíricas43. Psychol. 1995;50(9):782-8. Diante do quadro exposto, todavia, tal prática é 13. D’Amora D. Presentation during the training program. In: Defense of the community: effective community-based responses to sex offenders. muitas vezes necessária na esfera da psiquiatria e da New York, Westchester County, Silver Spring; 1999. psicologia forense, não só como forma de ampliação 14. Fernandez YM, Marshall WL, Lightbody S, O’Sullivan C. The child mo- do conhecimento da dinâmica do indivíduo agressor, lester empathy measure: description and examination of its reliability mas também contribuindo para a determinação da sua and validity. Sexual abuse. J Res Treat. 1999;11(1):17-31. 15. Murray JB. Psychological profile of pedophiles and child molesters. J capacidade de entendimento e autocontrole. Psychol. 2000;134(2):211-24. Reforça-se que estabelecer sólidas bases para a clas- 16. Holmes RM, Holmes ST. Profiling violent crimes: an investigative tool. sificação de criminosos sexuais de acordo com compor- New Delhi: US; 2002. tamento, tipo de vítima, motivação e risco de reincidên- 17. Kocsis RN, Cooksey RW, Irwin HJ. 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