Seu pequeno sapatinho vermelho
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Seu pequeno sapatinho vermelho

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Seu pequeno sapatinho vermelho Document Transcript

  • 1. Seu pequeno sapatinho vermelhoA xícara de café estava na mesa. O aroma tomavaconta da sala. Mesmo com a porta escancarada, afumaça quente e aconchegante formava um belodueto com a luz. Em cima de minha mesa eudeixava uma foto do meu pai. Getulio. O herói dosquadrinhos de minha vida. Um herói que deixoucomo herança para seu filho sua pequena loja desapatos. Ele concertava, fazia e seus pisantesenfeitavam a maioria dos bailes de gala da cidade.Meu sonho era ser alfaiate, mas a vida apenas mepermitiu um pouco abaixo. Segui o rumo de meupai, que veio a falecer quando eu ainda nem tinhadado a minha primeira costurada em um sapatoqualquer.Foi um dia de chuva. Ele havia saído para comprarpão. Fiquei em casa cuidando de minha mãe quehavia operado o baço. Senti-me entre a cruz e aespada pois a padaria ficava longe e meu paiestava ruim das cadeiras, lento como um cágado.
  • 2. A noite se esvaiu e a vermelhidão da madrugadatomou conta dos céus. Ele não havia chegado. Achuva torrencial como nunca. O telefone tocou.Era da policia. Meu pai havia sido encontradoestirado ao chão com o pescoço deslocado apósum motoqueiro o atropelar e não dar socorro. Foium tiro no meu coração de nuvem. Mas comohavia prometido à ele: segui sua profissão e tenteimanter a fama do seu Bazar.Doze anos depois um primo que morava na capitalfez uma visita. Ricardo era o filho mais rico dafamília. Sua humildade era tão de ouro quanto suaherança. Ainda bem. Ele acabou por patrocinarminha pequena loja e fez a marca crescer comoum feijão no algodão. Passamos a ter clientes maisassíduos. As vendas eram tão constantes que malentregávamos um pedido e outros três já estavamem nossa bancada. Tive de contratar empregados.Antes era apenas um pequeno cubículoenturmado em todos os cantos pelos sapatos.Precisaríamos de ao menos um prédio de doisandares. Providenciamos. Precisávamos tambémde uma modelo para nossos produtos. Pedi a umamigo editor gráfico para fazer um cartazchamativo para colar na porta do estabelecimento.
  • 3. Queria que minha sala ficasse na entrada. Adoravaa receptividade e entregar meu sorriso aosclientes. Não me desfiz da mesa que meu paiarquitetou junto de meu avô. Era madeira cara.Nunca me falou de onde. Quando perguntava eleresmungava e mandava eu parar com frescuras.Montei tudo como antigamente. A foto do meuvelhinho na quina, principalmente. Abrimos a novaloja em Março. Em Abril já éramos estouro devendas. Incrivelmente. Mas nada de encontrarmosa modelo.Um dia fiquei até mais tarde para terminar oserviço de uma madame da Vila Berline. Elapagaria caro, o que fez com que engordasse meusolhos com os zeros no cheque que ela deixou. Jáera tarde da noite. As nuvens já estavam rosadas eo céu azul poluía-se em negro. Estava de cabeçabaixa. Namorava o vai e vem da linha preta decostura. Meu silêncio apaixonante foiinterrompido por uma mulher. Ela já chegoudespejando um par de sapatos vermelhos emminha mesa. Nem se deu a honraria de seapresentar. Ela tinha um rosto inexpressivo. Seuolhar parecia descolorido, os sentimentospareciam ter saído a passeio. Suas roupas eramlargadas. Assim como seu cabelo, que diga-se de
  • 4. passagem parecia uma cachoeira de lisos e negrosfios que faziam ponte para olhos cor de jabuticaba.Mas eram jabuticabas sem brilho. Sem contar umpingente estacionado entre as montanhas dosseus seios. A moça interrompeu o meu devaneio.- Quanto fica para arrumar esses sapatos?- O que está acontecendo com eles?- Ele descosturou em boas partes e queria dar umarefinada no seu brilho e na tonalidade.- A uma primeira analise eu apenas te cobraria quese assentasse.- Obrigada, odeio ficar em pé. – disse assentando-se de uma forma não muito elegante.- Que mal lhe pergunte, moça que não sei o nome,você trabalha com o quê?- Atualmente eu só estudo, alias, finjo, está tudomuito chato. Os livros são meu travesseiro. E apropósito: meu nome é Renata, moço que não seio nome.- Daniel, prazer. – disse esticando a mão paracumprimentá-la. – Você chegou a ler o anuncioque estava ali na porta?
  • 5. - Sobre vocês estarem procurando por umamodelo?- Esse mesmo.- Sim. Por acaso você está achando que eu tenhocapacidade para isso? Eu acho que não.- Quando você entrou eu imaginei que era para secandidatar. Por mim o cargo é seu. Estamos háquase dois meses procurando e sem sucesso.Precisamos agilizar o serviço. A agência de modaque fechou conosco quer ver logo nossos sapatosem suas estampas e nas próximas revistas.- Estou muito indecisa ultimamente. Não sei seaceito esse trabalho. Porém por outro lado euacho que seria uma boa. Não tenho saído comminhas amigas, a minha vida está um porre.- Garanto que se aceitar nossa oferta o que não vaifaltar é agitação em sua vida.- Mas vai ser assim? Eu chego e já ganho o cargo?E se outras mulheres mais lindas que euaparecerem?- Se te escolhi, é porque valorizei sua beleza.Mesmo com esse olhar sem vibração. Precisamos
  • 6. de alguém o quanto antes. Estamos fechadosentão, Renata?- Fechados. – disse apertando minha mão e semnem ter piscado um segundo durante a entrevista.Imaginei que ela pudesse estar acesa demais ouentão muito atenta ao que dizia.Preferi entregar a caneta e o contrato para que elaassinasse. Ela teria que vir diariamente à loja paraque fizéssemos as medidas e analisássemos qualseria o tom de sapato que mesclasse com seucorpo cor de chocolate.O que mais me entristecia era o cheiro dedesanimo que Renata exalava. Ela parecia não terconhecimento da sua má vontade, mesmo issosoando como um paradoxo. Aliás, ela era umparadoxo. Não conseguia decifrá-la em nossaconvivência. Mas o que me chamava atenção erasua simplicidade e sorriso fácil. Aquela paredebranca que refletia luz entre seus lábios carnudosestremecia minhas pernas. Como chefe, tinha deme manter autêntico e ético. Não poderia flertarcom aquele pequeno bombom dentro das nossascondições de trabalho, mesmo tendo ciência dolongo tempo sem ser apertado por um abraçofeito uma camisa de força. Minha boca parecia
  • 7. uma caverna dominada por teias de aranha. Sentiasaudades de ter alguém para mim. Ter lábios paravasculhar e degustar nos momentos que sentissefome de amor.Renata salientou sobre seus sapatos vermelhosque enrolava para concertar. Me cobrava diretopor eles pois de alguma forma eles representavammuito para ela. O fiz em pouco tempo parasatisfazer a Cinderela. Mas cobrei que algum diasentássemos para tomar um café e ela mecontasse a história daquele sapato.Com o passar dos dias Renata se mostrava maispresa a idéia de ser nossa modelo, entretanto euobservava que ela não saía. Ela se isolava domundo. A beleza dela ficava escondida nosescombros dos sapatos. Talvez o plano dela mecontar sua história seria tão complicado quantoum Cubo de Rubik. Houve uma sexta-feira em queela ficou na loja até mais tarde escorada numcanto abraçada aos joelhos e balançando seusapato vermelho. Os olhos pareciam em outradimensão, em outro mundo que ela parecia querervisitar sem sair do lugar. Mas sem sucesso. Eviteiretirá-la do seu momento e apenas encostei minhacabeça na parede e a apreciei de longe. Havia
  • 8. alguma história tão forte quanto suas pálpebrasque custavam se fechar. Eu precisava saber sobreaquilo. Pensei em pedi-la para chegar mais cedosem avisar que seria para conversarmos. Qualquerpresença dos outros funcionários poderia acanhá-la e as verdades ficariam presas naquelereservatório misterioso.Na manhã de uma quinta-feira, onde o dia estavatão cinza quanto os olhos de Renata, cheguei maiscedo e aguardei por ela. Ela demorou chegar,assim como fez em toda semana abusando dosatrasos. Relevei.- Que estranho, a loja está abandonada hoje. Bomdia, Daniel.- Bom dia, Renata. Sim, está abandonada porqueeu pedi aos rapazes para chegarem mais tarde equeria que você chegasse mais cedo. Precisamosconversar. Assente-se.- Já sei, estou demitida? Eu já imaginava. – disse selevantando e praticamente não dando a mínima enão demonstrando ressentimento qualquer.- Não, de maneira alguma. Eu fiquei curioso parasaber a história desse sapato vermelho que vocênão larga de jeito nenhum.
  • 9. - Que história? Ah, sim, a história. Olha, não sei.Talvez seja tediosa demais. Você não vai querersaber. Deixa para lá.- Se esquematizei essa manhã só para isso, euimagino que meu interesse seja enorme. Conte-me. Estou a ouvidos.- Ajeite-se porque a história é um pouco longa.“Em minha casa moram eu, minhas duas irmãs emeu pai. Minha mãe faleceu quando esteveprestes a ter minha 3ª irmã. Não suportou o partodias após a difícil cirurgia. Idem para o pequenoanjo que nem conheceu as cores do mundo.Crescemos sendo donas de nossasresponsabilidades. Minha irmã mais velha diz queo coração de meu pai era tão macio quanto umamaria-mole, mas depois da morte de minha mãeaquele pequeno doce se petrificou. Era difícil vê-losorrir. Ele tinha minha mãe como um abajur parailuminar em horas escuras. Nos momentos em queele fugia de si e deixava a raiva imperar por ter deespantar os namoricos de minha irmã, minha mãese responsabilizava por ser o amaciante daquelevelho ciumento. Acabou que crescemos em meio adepressão de meu pai e sem termos o pedestal deforça para guiarmos nossas vidas.“
  • 10. “Por sorte minhas irmãs mais velhas eram sóbriascom o mundo e souberam lidar com o fato de quea morte de minha mãe não significava oextermínio de nossos futuros. Betânia, a maisvelha, completou o ensino médio e tentou umconcurso público na prefeitura da cidade.Conseguiu. Mas era pouco tanto para sustentá-laquanto para sustentar a todos nós. Principalmentemeu pai que já adormecia nos braços dadepressão. Betânia felizmente nasceu com umavoz maravilhosa e foi convidada para fazer partede um grupo de cantores que se apresentavam àsterças e quintas por toda a cidade e retiravam umbom dinheiro com os espetáculos. Elapraticamente não vivia em casa, mas era umsacrifício ponderável. Poliana, a irmã do meio, eratão preguiçosa quanto um pingo de chuvaescorrendo da ponta até a raiz de uma sequoia. Aúnica coisa que se importava era em cuidar domeu pai, praticar seu boliche e vender produtoscosméticos na porta de nossa casa. Por ainda sernova ela não podia concorrer no mercado detrabalho. Mas o pouco que retirava mensalmentejá era suficiente para bons sacos de arroz.”“Mas o problema que persistiu em minha famíliafoi de minhas irmãs terem encontrado o outro
  • 11. pedaço de suas laranjas e de certa forma teremme abandonado inexperiente em minha vida. Euacabei crescendo isolada e sem ninguém paradizer no canto de meus ouvidos o que era certo eo que era errado. Passei a ser uma espectadora domeu pai deitado em sua cama o dia todoencarando o infinito branco do teto com os olhosparalisados. A escuridão do quarto lambia meuspesadelos e fazia eu me sentir mais presa àvontade de não viver. Isso se intensificou aindamais quando Betânia agarrou as malas e se mudoupara Joinville com seu marido sem deixar nenhumcartão postal. Porém Poliana encontrou seu potede ouro no fim do arco-íris. Por ser uma ótimajogadora de boliche, ela encantou os olhos detreinadores da cidade e foi convidada para umevento internacional. Lá ela foi bronze, mas voltoucom o ouro que se chama George. Dono de umparque aquático e de uma creche que atendeapenas a crianças portadoras de necessidadesespeciais. Ele era o seu parceiro de time eacabaram se apaixonando quando George deixouo ultimo pino para Poliana realizar o strike, tudoisso numa visão mais romântica da coisa. Masfelizmente ela ficou na cidade. Não abandonou suairmã e seu pai. Sabia que precisávamos uns dos
  • 12. outros. George passou a nos ajudarfinanceiramente.”“Com o passar dos anos Poliana teve sua primeirafilha e eu ainda nem havia estreado meu primeironamoro. Convivi durante muitos anos com asolidão e não consegui desatar nossa aliança.Busquei refúgio no meu esporte favorito: tirarfotos. Meus olhos detalhistas me fizeram ser dascoisas que o mundo ignora. Não saía e nem meentregava aos braços de ninguém. Me isolava noaconchego de meus flashs. Minha rotina eraestudar de manhã, ajudar minha irmã no almoço ealimentar meu pai que já respirava com ajuda deaparelhos e tinha o corpo sucumbido peloderrame. À tarde eu dava uma escapulida e iavisitar meu lugar favorito na cidade. Fica numbairro isolado num morro inclinado e desgastanteaos pés. Lá fica um vasto campo povoado por umabelíssima vista que acampava minha alma solitária.Às vezes apareciam alguns bichinhos para colorir oespaço e eu não perdia tempo e os eternizava emminhas fotos. Mas minhas visitas se tornaram tãorotineiras, que num dia percebi o que parecia seruma pequena corda brilhante indo em direção aomato. Decidi pegá-la.”
  • 13. “A corda estava agarrada a alguma coisa um poucopesada. Puxei mais forte. Para minha surpresa,veio junto dela uma caixa. Abri. Lá dentro haviaum par de sapatos vermelhos. Dentro de um deleshavia um bilhete. “Aceita sair comigo e usar esseslindos sapatos?”, dizia. Na hora me assustei. Olheiao redor. Não havia ninguém. Quando fiz omovimento para colocar a caixa no chão, uma vozbem calma sussurrou em minhas costas.- O que achou do meu presente?- Me desculpa, mas quem é você?- Digamos que sou o cara que lhe deu umsapatinho vermelho.- Você está me assustando.- Calma, princesa. Para falar a verdade eu trabalhoali ao lado. Sou jardineiro e amigo dessasflorzinhas e desse gramado. Vi que a senhoritafrequenta esse lugar diariamente. Queria conhecera mais nova amiga de minhas amigas.- Pra falar a verdade aqui é meu santuário de paz.Mas eu nunca o vi por aqui.
  • 14. - Eu sempre estive aqui. Talvez seja porque vocêama o que faz e se isola do mundo ao redor.- É mais ou menos isso. – disse olhando para ohorizonte.- Mas você não respondeu a pergunta do meubilhete, querida fotógrafa.- Talvez num outro dia eu te responda. E no diaque responder eu talvez leve essa caixa, gosteidesses sapatos e parecem caros. – disse saindo eentregando para o rapaz que nem procurei saber onome.Fiquei intrigada e ao mesmo tempo assustada.Parecia que ele era algum tipo de perseguidor eestava esperando alguma oportunidade para dar obote. Surgiu do nada oferecendo sapatosvermelhos e ainda de quebra me chamou parasair. Bizarro. Mas para minha surpresa não havianada de bizarro ali. Depois daquele dia ele passoua conversar mais comigo. Colhia algumas plantas eflores e me entregava. Citava músicas com letrasde agarrar na mente. Sem contar que transmitia aótima imagem de ser um cara bem romântico, sóque não muito clichê. Acabou que num dia eu
  • 15. perguntei pela caixa e a levei para casa. Aceitei oconvite.”“Não sentia vontade de sair, mas Juliano prometeume levar a um lugar surpreendente e eu não podiarecusar. Combinamos de nos encontrar numdomingo à tarde. Ele me pediu para que esperassena estação de trem que dali iríamos até onde haviaprometido. Ele não remediou em se vestir bem.Nem parecia aquele Juliano todo abarrotado deterra e com cheirinho de grama molhada. Disseque amava camisa xadrez e nesse dia usava umacom azul, preto e branco embaralhados. Quem ovisse pensaria que ele me acompanhava até umaquadrilha. Juliano pediu permissão para pegar emminha mão e me guiar até o lugar até entãomisterioso. Para minha surpresa era ali ondecombinamos de nos encontrar. Juliano deu trêsbatidas na porta da estação de trem e um senhor aabriu. Lá dentro parecíamos estar visitandoalguma estação de Londres. Cores mais cinzas, otrem estacionado e bem encerado em suascamadas pintadas de vermelho. No saguão umjovem rapaz nos esperava. Ele se vestia mais oumenos como Charles Chaplin, mas sem amaquiagem no rosto e ele falava. E como falava.Pediu para que assentássemos num pequeno
  • 16. banco e acompanhássemos sua apresentação. Foiuma das coisas mais lindas que pude acompanhar.Ele e mais duas moças que surgiram de trás dosvagões apresentaram uma peça romântica e leramalgumas poesias para nós. Há tempos não ria esentia tanta felicidade em minha vida. Até sugeri aJuliano que congelasse aquele momento para todaeternidade. Depois que se apresentaram, saímosda estação e Juliano me levou até meu santuáriode paz. Ainda não entendia o motivo, mas quandochegamos lá ele novamente retirou uma caixa domeio dos arbustos. Pediu para que eu a abrisse. Ládentro havia um coração feito de cartolinavermelha mas cortado exatamente no centro odividindo em duas partes. Juliano pegou uma edisse:- Renata, aceita ser minha outra parte?Engoli em seco e esbocei pequenas lágrimas, masnão fraquejei na resposta.- Sim, eu aceito. – disse pegando a outra parte,colando junto à dele e lhe dando um beijo.Depois daquela noite iniciamos um romanceintenso. Juliano passou a ser o reflexo de luz naescuridão de minha alma. Nosso amor vencia a
  • 17. intensidade da difícil rotina e amassava como sefosse uma folha de papel qualquer tipo dedecepção. Foram longos três anos seguindo essamaré que nos guiava até os céus. Eu vivia numplaneta da felicidade e queria que destruíssem anave que pudesse me levar de volta àquela terraque vivia. Mas nunca na minha vida eu imaginariaque um ditado pudesse fazer tanto sentido: “nemtudo na vida são flores”. Juliano desapareceu seminformar para a família, os amigos eprincipalmente para mim. Acabei me perdendo demim mesma e qualquer navalha que aparecesseeu já queria espetá-la em meu coração de balão.As minhas lágrimas salgavam meu rosto e oscantos de minha casa eram minha moradia. Aúnica coisa que me importava era saber quando ecomo Juliano reapareceria. Eu frequentava todosos dias meu santuário de paz para ver se eleaparecia. Mas nunca o fazia. Sete meses depois eume rendi ao golpe massacrante da vida e já nãoaguentava olhar mais para aqueles sapatosvermelhos. Numa histeria os peguei e lancei fortecontra a parede. Chutei como se fosse uma bolade futebol americano. Arremessei contra o fogãoaceso e o mordi feito um osso. Quando mecontrolei, vi que nada daquilo valia a pena. Nadadaquilo traria Juliano de volta. E aquele pequeno
  • 18. sapato era a única parte dele que ainda restavacomigo.“Por isso vim até aqui para concertá-lo. Concertarum pedaço do meu coração. Concertar a pequenamemória e pequena parte que ainda resta deJuliano em mim.”Uma história que criou uma barragem no rio dasminhas palavras. A partir daquele momento eucomecei a entender um pouquinho daquele lindovaso vazio que era Renata. Mas por incrível quepareça, depois de toda uma forte história ela nãochorou e não mostrou sentimento. Fechou umpouco as pálpebras e perguntou se poderia ir paraseu recinto experimentar alguns modelitos novos.Ainda que me faltasse alguma reação ou algo paraconfortá-la, decidi que era melhor deixá-la ir.Todavia eu precisava reanimar aquele coraçãomurcho. Escolhi sugerir que a levasse em casa. Nocaminho poderíamos conversar e quem sabe euver de perto todo esse cenário fúnebre que elacontou.A casa de Renata não ficava muito longe. Segundome descreveu, ela tinha uma bela fachada na portade entrada. Flores lindas plantadas por Juliano.Dois pequenos pés de coqueiros davam o ar de
  • 19. praia na entrada. E também havia uma escadainfestada de cristais brancos e brilhantes. Nãoseria difícil reconhecê-la. Durante boa parte docaminho Renata encarava o chão e preferia osilêncio. Eu também. Mas decidi iniciar a conversa.- Eu queria mesmo era saber algo que pudessepreencher esse vazio que há em você, Renata.- Não adianta, esse vazio já tomou conta de mim.- Imagino então que você precise de outra coisapara tomar conta de você.- Que outra coisa?- Um alguém. Sei que nessa vida é difícilesquecermos quem já amamos, mas sóconseguimos seguir em frente substituindo opassado.- Que nada. Não tenho capacidade para isso.- Se teve capacidade para enfrentar toda essadificuldade, encontrar um novo amor será a coisamais fácil desse mundo.- Aos olhos dos homens sim, aos meus não.
  • 20. - Desde quando começamos a trabalhar eu já teentendia como um grande desafio, sabia, Renata?- Eu? Um desafio? Como assim?- Você parece uma colcha de retalhos dedecepções que nunca encontrou alguém paratentar recosturá-la.- Para falar a verdade eu acho que convivi demaiscom o meu pai e absorvi o medo da perda. Poderiaencontrar um amor, mas perdê-lo e ficar como elenão é lá o melhor plano de vida.- O medo da perda só nos tira as chances de serfelizes. Você deveria tentar ser mais feliz. Procuraruma razão para levantar e sentir o prazer de ver avida pelos olhos do seu amor.- Eu já me cansei. Eu não quero saber de maisnada. Eu sou isso: uma confusão de pensamentose sentimentos. - disse enquanto parava paraapontar sua casa. – É ali, ó.Quando chegamos vi que ela errou bruscamentena descrição. Não tinha nada a ver com a casa queela havia me detalhado. Era um casebre simples.Telhas de amianto e sem jardim na entrada.Parecia ter no máximo dois cômodos.
  • 21. - Tem certeza que é essa, Renata?- Tenho. Vamos.Ao chegar à porta, Renata subiu no passeio e meencarou com aqueles olhos sem brio. Minhasespinhas se congelaram pois ela parecia precederalguma ação desvairada, sem pensamento ourazão do que estava fazendo. Ela me abraçouforte. Disse no canto de meus ouvidos queadorava o jeito que eu a fazia bem e dizia palavrasque a confortavam. Logo depois ela segurou forteno meu rosto e me deu um beijo prolongado. Masatrás de mim ouvi fortes passos na rua emovimentos bruscos que pareciam uma calça emmovimento furioso. Um rapaz com os olhos tãonegros quanto o céu à noite e um semblanteassustador de fúria partiu para cima de mim.Tentou me acertar com um soco e felizmente euconsegui desviar.- O que você está fazendo com a minhanamorada? – disse ele.Era Juliano. Até então sumido e que por puraironia e safadeza do destino apareceu bem noímpeto de uma ação impensada de Renata.Minhas pernas tremiam. Minha pele ficou branca
  • 22. como neve. Meus lábios se secaram e eu meengasgava com palavras que não saiam. Por sortealgumas conseguiram pular de minha bocaestarrecida.- Mas você não havia sumido? Por que apareceuassim do nada? Aqui? E agora?- Eu? Sumido? Do que você está falando, seubabaca?- Renata me contou sobre o romance de vocês esobre como você havia sumido sem dar notícias edesapareceu há mais de um ano.- Eu nunca sumi. Sempre estive aqui. Essasdesculpas não vão me fazer não encher sua carade porrada. – disse vindo em minha direçãobabando como um cão enraivecido.Sem entender nada e vítima de uma grande cilada,pensei em sair correndo e entregar meu destino àDeus. Mas no início da rua apareceu uma mulherbufando. Havia subido correndo até ondeestávamos. Ela gritou o nome de Renata. EraPoliana. Ela interrompeu nossa discussão.- Calma, rapazes. Eu sei o que está acontecendoaqui. Não precisa brigar. O que todo mundo não
  • 23. sabe é que na verdade minha irmã sofre de umadoença. Ela é esquizofrênica.Boquiabertos, eu e Juliano dividimos a incríveldescoberta com um diálogo silencioso entrenossos olhares.- Há tempos eu já desconfiava disso, só não tinhamuita certeza. Tive de contratar um psicólogo etambém detetive para analisar o comportamentode minha irmã. Recomendei que ele tentasse umemprego em sua loja e começasse a análise.- Como ele se chama? – disse com os olhosarregalados.- Rogério.- Sim, o Rogério. O rapaz que trabalhava comoalfaiate de Renata. Por isso ele nunca desgrudavade perto dela. – disse em tom de Sherlock Holmes,mas nem tanto.- Uma hora o estágio dela iria piorar. A gente sóestava esperando que ela tomasse uma atitudegrave provida pela doença. Ainda bem que chegueia tempo aqui.
  • 24. - Então quer dizer que toda a história que ela mecontou do romance com Juliano não existiu? –disse tentando livrar minha barra com ele.- Não sei o que ela contou, mas imagino que não.Essa casa aqui era onde morávamos antes de meupai morrer. Nos mudamos há alguns anos. ERenata conheceu Juliano quando nos mudamospara nossa nova casa e ele era um de nossosvizinhos.Imaginei que essa poderia ser a casa que Renatame descreveu no início. Mas precisava saber dequem era aquela que estávamos perto.- De quem é essa casa então, Poliana?- De minha mãe. Deve estar deitada pois ela sofreude um derrame gravíssimo há alguns meses.Torcendo para ela não ter acordado com todo essenosso falatório.Depois dessa informação parecia que haviampregado uma bomba-relógio em minha mente eela estivesse prestes a explodir. Mas o que maisme chamou atenção foi como que Renatadesconectou todos os fatos que vivia em sua vida.O quadro dela era realmente preocupante. Nãoobstante a história do romance entre Juliano e ela
  • 25. ainda era um mistério. Ele, ainda em fúria, saiu emdisparada e não quis ouvir nossas conversas.Evitando a fadiga, deixei para investigar os fatosrestantes no outro dia. Antes de ir para casa tomeium copo de água com açúcar gentilmenteoferecido por Poliana. Minhas mãos ainda estavamtrêmulas e agitavam o copo sem necessidade decolher. Me despedi das meninas. Pedi a Polianaque cuidasse bem de Renata e entreguei meucartão a ela para que me ligasse dando notíciasquando ela melhorasse. Renata estava totalmenteentregue ao mundo em seu subconsciente. Nemrespondia a nossas perguntas direito. Dei tchaumesmo assim.No outro dia procurei pelo número de Rogério emminha agenda. Queria pedir a ele o endereço dacasa de Renata. Por sorte ele atendeu e meconcedeu sem problemas, mesmo ainda estandoem divida comigo pois teria de arrumar um novoalfaiate. Terminei meus afazeres e fechei a loja.Tomei rumo à casa de Renata.Ela era exatamente como Renata havia medescrevido. Linda aos olhos de quem via de fora. Epara minha surpresa, bem em frente à casa ficavao gramado que ela citava com bastante ênfase.
  • 26. Mas ainda sim faltava algo que deixasse bemesclarecido o romance entre os dois. A pazdaquele lugar era tão contagiante que acabei meassentando no gramado verde e encarei a tarde serendendo ao poder da noite. Quando desviei meuolhar para alguns arbustos, vi o que parecia seruma pequena caixa jogada. Não pensei em outracoisa a não ser ir até lá e ver o que tambémpoderia ser mais uma evidência da história deRenata. Peguei. Abri. Dentro dela havia umbilhete: “Aceita sair comigo e usar esse lindopingente?”.Pingente? Me perguntei na hora. Mas não eram ossapatos vermelhos? Abaixo do bilhete encontrei ocoração de cartolina vermelha. Não estava cortadoao meio como ela havia me dito. O virei e nelehavia um recado escrito: “É da cor de meussapatos, mas pelo menos com esse você pode ficar.Beijos de sua maior admiradora. Renata. Daniel<3”. Minha boca se congelou aberta. O pulso nomeu coração seguiu o ritmo de uma escola desamba. Mas sabia que aquilo apenas era meupassaporte para a zona da amizade. Escuteialguém bater à porta da casa de Renata. EraJuliano. Poliana atendeu. Me escondi e observei.Juliano retirou algo da mochila que carregava. Era
  • 27. uma caixa. A abriu. O objeto estava dentro de umplástico. Eram os sapatos vermelhos. As únicaspalavras que consegui ouvir de Juliano eram:- Está aqui os sapatos. Peguei na loja que Renataestava trabalhando, – provavelmente ele foi emuma hora que eu não estava –, esconda. Não deixeque a Renata o use. E não deixe que ela tentenovamente fingir e assumir ser a antiga donadeles. A esquizofrenia poderá não servir mais dedesculpa.”Quando ele se retirou andei em direção à rua detrevas. Por pouco um amor platônico não mecegou ao que parecia ser a prova de um trágicoacontecimento do passado e nem me fez partedaquilo tudo. Tiago Peçanha.