PERCURSOS DE RAZÃO E DE AFETOS
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PERCURSOS DE RAZÃO E DE AFETOS PERCURSOS DE RAZÃO E DE AFETOS Document Transcript

  • PERCURSOS DE RAZÃO E AFETOS Homenagem aos Professores Maria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues Coimbra • 2011
  • TítuloPERCURSOS DE RAZÃO E AFETOSHomenagem aos Professores Maria da Assunção Carquejae Adriano Vasco RodriguesAutores – VáriosCoordenação – Adília FernandesCapa – Isabel Caldeira (Arquiteta)Fotografias cedidas por:Adriano Vasco Rodrigues, Alcides Amaral, Ana Subtil Roque, ArnaldoSilva – Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior – Torre deMoncorvo, Carlos Seixas, Jorge Trabulo Marques© Adília Fernandes – 2011Co-ediçãoCEPIHS – Centro de Estudos e Promoção da Investigação Histórica eSocial – Torre de MoncorvoPalimageDireitos reservados por Terra Ocre – unip. lda.Apartado 100323031-601 Coimbrapalimage@palimage.ptwww.palimage.ptData de edição – outubro 2011ISBN: 978-989-703-025-3Depósito Legal n.º 334705/11Impressão – Publito – Estúdio de Artes Gráficas, Lda. – BragaApoio – Câmara Municipal de Torre de Moncorvo Palimage é uma marca editorial da Terra Ocre - edições
  • PERCURSOS DE RAZÃO E AFETOS Homenagem aos Professores Maria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues Coordenação Adília Fernandes A Imagem e A Palavra
  • Percursos de razão e afetos NOTA DE APRESENTAÇÃO É com muita alegria e a maior honra que, emnome do CEPIHS – Centro de Estudos e Promoçãoda Investigação Histórica e Social –, apresentamos esteregisto de manifestação pública de louvor a Maria daAssunção Carqueja Rodrigues e a Adriano Vasco da FonsecaRodrigues. Justo preito de homenagem resultante de umsentir comum de amizade, reconhecimento e gratidão porduas personalidades ímpares, de vida profissional e cívicaintensa e modelar. Eles são a referência de valores essenciaisincontestáveis, o guia precioso de sucessivas gerações, odespertar do apreço pelo património, local e nacional, aconsciência da cidadania útil e do bem comum. Evoca-se, aqui, passo a passo, em tocantes depoimentos,esse percurso brilhante e rico de importantes realizações,ressaltando-se o lugar privilegiado que a nossa regiãoocupa nele. Paralelamente, entretecem-se com aquelesque testemunham uma convivência com afetos, cortesia esentido do outro, dádivas que são, igualmente, seu timbre. Face às distintas visões que os contemplam, fica-nos aconvicção, que não reivindicamos como inédita, que fluemsob uma indiscutível coerência – todas os moldam como 7
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesincontornáveis referências intelectuais e humanas. Defacto, se a constatação de que o seu importante labor – oumissão – nos transporta para um conhecimento amplo dasnossas terras e das nossas gentes, não esbate a perceção deestarmos perante dois seres humanos de excelência. Esta é, sobretudo, uma homenagem do coração.Ele pulsa porque a Professora Maria da Assunção é umainestimável filha da nossa terra e porque o Professor AdrianoVasco Rodrigues a adotou, orgulhosa e generosamente,como sua também. O entusiasmo que esta iniciativagerou, alargado à autarquia, a instituições particulares,aos inúmeros admiradores e amigos, é bem prova disso.É prova, ainda, que apesar deste tributo pecar por tardionão perdeu a sua pertinência nem a vontade de traduzir eassinalar, hoje e sempre, a dívida de toda uma coletividadea Maria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues,porque, diligente e persistentemente, a beneficiarame, profundamente, a engrandeceram. Em boa hora secongregaram vontades da parte da Câmara Municipal e doCEPHIS para a sua organização. Desejamos todos, Senhores Professores, que prossigamna senda a que nos habituaram, com a distinção e a sabedoriaque lhes é peculiar. Uma senda que se cruza, agora, com oCentro de Estudos Transmontanos e Alto Durienses, comsede em Torre de Moncorvo, superiormente prestigiadocom a presença de ambos e que conta com o Senhor 8
  • Percursos de razão e afetosProfessor Adriano Moreira como patrono. Esta iniciativa,cuja criação tanto lhes deve, simboliza, sem dúvida, o amorà região e ao seu estudo e a determinação em continuarema trilhar e darem a trilhar caminhos proveitosos e atuantes. Terminamos, recorrendo a uns versos de Miguel Torga,não só porque a poesia é constante nesta homenagem,emprestando-lhe elegância e beleza, mas porque nosremetem para os homenageados – figuras, intelectualmente,combativas por ideais e princípios ligados a uma exemplarvisão do mundo e da vida. De seguro Posso apenas dizer que havia um muro E que foi contra ele que arremeti A vida inteira Miguel Torga Pel’ A Direção do CEPIHS, Adília Fernandes 9
  • Percursos de razão e afetos HOMENAGEM DO MUNICÍPIO DE TORRE DE MONCORVO AOS SENHORES PROFESSORES MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA E ADRIANO VASCO RODRIGUES Serei considerado obviamente suspeito, porque, tendotido sempre o apoio dos Senhores Professores Maria daAssunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues tornar-se-ialinear que, oportunamente, o viesse a retribuir. Tal apoio foi-me dispensado desde cedo, era, ainda,um jovem liceal, amigo do seu filho Jorge. Interpreto essegesto como uma tendência inata para compreendereme estimularem gerações mais novas, confiando nas suascapacidades, postura que há 30/25 anos não era habitualnas relações entre os mais velhos e os mais novos. Posturaque, sem dúvida, está no cerne do seu sucesso educativo. Não sou eu, concerteza, que enveredei pela engenhariae pela vida política local, a pessoa mais habilitada parareferir as suas qualidades como historiadores e pessoas deletras. 11
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Porém, não posso deixar de recordar a atenção públicacom que foi seguida a experiência educativa inovadora doLiceu Garcia de Orta, no Porto, de que o Professor AdrianoVasco Rodrigues foi o obreiro como seu primeiro Reitor,alguns anos antes do 25 de Abril. Posteriormente a esta data, registo a sua carreirapolítica como deputado e como Governador Civil. Bastante mais tarde, já Presidente da Câmara, lembroo encontro com ambos, em Antuérpia. Foi nesse encontro que surgiu a ideia da geminaçãode Moncorvo com Mol, de cuja Escola Europeia eram, àépoca, Professores e o Dr. Adriano seu Diretor. Essa ideiachegou a ter seguimento com a vinda, a Moncorvo, deuma deputação belga, contudo, não veio a verificar-se a suaconcretização. Regressados a Portugal tive, então, várias oportunida-des de privar com os agora homenageados, quer ematividades culturais quer em encontros meramente sociais. Nuns e noutros pude apreciar a grandeza de espírito,a lhaneza de trato e a profundidade intelectual, traçosmarcantes da sua personalidade. Por estas razões, é-me particularmente gratificanteque, ainda como Presidente da Câmara, possa participarnesta singela, justa e devida homenagem e que, em nomedo Município, possa dizer: Senhores Professores Mariada Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues, muito 12
  • Percursos de razão e afetosobrigado pelos inúmeros benefícios com que enriqueceram,cultural e humanamente, a nossa – e vossa – região! O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Aires Ferreira 13
  • Percursos de razão e afetos HOMENAGEM AOS PROFESSORES ADRIANO VASCO RODRIGUES E ASSUNÇÃO CARQUEJA Adriano Moreira* Gostaria de poder dar maior assistência ao Centro deEstudos, criado em hora grave para Portugal, mas o tempocorre para cada um de nós, e as agendas da velhice ativaaumentam o peso de exigência. Mas não posso deixar departicipar nos testemunhos de admiração aos ProfessoresAdrianoVasco Rodrigues e Assunção Carqueja, em primeirolugar, por alinharem na fileira dos que não consentem queo globalismo, que ninguém governa, afete as identidades,como a da nossa gente e terra, e porque não confundemaquele com a especificidade cultural e com a identidade dasregiões e comunidades.* Presidente da Academia das Ciências de Lisboa. 15
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Esta riqueza europeia é a defesa primeira contramovimentos de unidade politica que esquecem que opatrimónio imaterial da Humanidade é composto destasunidades que se articulam mas não se deixam absorver. Ambos são merecedores da gratidão dos que os viramservir o bem comum uma vida inteira, enriquecendo olegado que fica para cada nova geração. 16
  • Percursos de razão e afetos PELO MUNDO DA ARTE Agostinho Cordeiro* Não me foi difícil escolher o tema para poder participardeste livro de homenagem, concebido e tecido em torno defiguras maiores de historiadores, de cidadãos e, sobretudo,de grandes e perenes Amigos – Maria da Assunção Carquejae Adriano Vasco Rodrigues. Naturalmente que escolhi o caminho mais previsívele imediato – o mundo da arte –, porque capta a evidênciaprofunda de outra das facetas dos Senhores Professores eporque, fundamentalmente, me toca por ser o meu mundo. Para ensaiar uma abordagem, despretensiosa massentida, que justifique a minha presença neste variadoconjunto de testemunhos que desenham a sua ricapersonalidade, basta começar por referir a cedência dascoleções que permitiram que o País passasse a contar commais dois museus: o Museu Judaico, em Belmonte (cujavariedade e riqueza de peças estimulou a criação do Centro* Proprietário das Galerias Cordeiro. 17
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues), e o de ArteAfricana, em Almeida. Entre outros gestos neste domínio,o altruísmo e a sobrevivência do seu legado, que adquiriudimensão institucional e se converteu em patrimóniopúblico, torna-os detentores de significação nacional. Não dissocio, de tais gestos, a sensibilidade estética quepreside à formação das suas coleções, uma sensibilidade queme é dado observar aquando das visitas de Adriano VascoRodrigues à minha Galeria, ou às exposições que organizo.Se o artista idealiza, manipula materiais e comunica,também propicia situações imaginárias, visuais e cognitivas.A criação artística é um relato mil vezes contado, mil vezesdiferente, flexível e comprometido com o seu autor e a suaépoca. E o Professor descodifica, em toda a sua extensãoe alcance, essa imensa quantidade de informação que umaboa imagem formula. Em cada visita, experimentamosuma considerável e sempre renovada satisfação face àsobras de arte que nos rodeiam, pela sua rica argumentaçãoe comunicação fácil, traço que lhe é tão característico eapreciado. Só me resta declarar o quanto me apraz que, finalmente,Moncorvo denuncie o apreço pelo inesgotável saber deMaria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues ea gratidão pelos benefícios que, ao longo de décadas, essesaber lhe tem aportado. 18
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES Alcides Amaral* Parafraseando Junqueiro – “O melro, eu conheci-o…”– poderia começar do mesmo modo. Mas, em vez deO Adriano, eu conheci-o… prefiro dizer – O Adriano, euconheço-o. Felizmente que assim é, pois tenho a sorte de conhecere conviver com um Homem, com H maiúsculo, que podeser exemplo para todos. Estudioso indefetível, profissional irrepreensível ecompetente nos diversos campos do Ensino/Educação/Investigação que integrou, Historiador e Académicocompetente, independente, algo rebelde, Marido e Paiextremoso e dedicado e, acima de tudo, um AMIGO, comosó ele sabe ser. O Adriano Vasco da Fonseca Rodrigues, é naturaldo distrito da Guarda, onde nasceu a 4 de maio de1928, frequentou o ensino primário, como aluno do Pai.* Inspetor do Ensino (aposentado). 19
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesTerminado este, rumou para a capital onde, como alunodo Instituto do Professorado Primário – O Palheiro, nomecarinhoso, para os antigos alunos – iniciou os estudossecundários no Liceu Gil Vicente, então no Mosteiro deS. Vicente, ali à Feira da Ladra. Foi aquele espírito de independência e rebeldia que fezcom que, não aceitando uma atitude da direção do Institutopara com ele, o levou a, com pouco mais de 12 anos, coma anuência de um tio, residente em Lisboa, pedir licença aossapatos e pôr-se a mexer para a Guarda onde, no liceu local,terminou o ano letivo e fez o resto do ensino liceal. Apesarde curta, essa sua passagem pelo Instituto foi suficientepara contrair a doença que, a todos os que por lá passámos,nos atingiu e se chama a AMIZADE que une as geraçõesque o frequentaram. Uma vez no Porto, local para onde o Pai viera lecionar,por razões económicas fez o curso do Magistério Primário,dando aulas numa das escolas da cidade. O seu espírito deir mais além, leva-o a aceitar o convite do então Secretáriode Estado da Educação –, Veiga de Macedo – para integrara equipa da Campanha Nacional de Educação de Adultos,em Coimbra o que lhe possibilitaria a frequência daUniversidade. E, se hoje, as promessas nada valem, naquele tempotambém assim era! O governante esqueceu o convitepessoal que fez, e nomeou outro. Convencido que estava de ocupar o lugar que nãopedira e lhe fora oferecido, não concorreu a nenhuma 20
  • Percursos de razão e afetosescola, nem do Porto, nem de Coimbra e, no outubroseguinte, encontrou-se no desemprego… Dado que estava matriculado na Faculdade que queriafrequentar, sem disponibilidades económicas, a únicamaneira que achou para resolver a situação, seria a deacampar no campus da universidade… Deve ter sido dosprimeiros ocupas… Fruto da sua independência e sã rebeldia, se bem opensou, melhor o fez, de forma que, uma manhã, Coimbraacorda com mais uma moradia na parte alta da cidade,habitação que acolheu o Adriano, até o Magnífico Reitorlhe dar ordem de despejo, vindo a acolher-se depois, jácom o provento do trabalho que entretanto arranjou, numarepública amiga. Nestes anos passados na Lusa Atenas conhece, eenamora-se, de uma colega com quem veio a casar, a Dra.Maria da Assunção Carqueja, que o tem acompanhado atéagora, casamento de que resultaram quatro filhos. Colocado como Professor, no Liceu que frequentara,o da Guarda, por prepotência do Reitor, em função dasua posição de defesa dos alunos, aquando da visita deHumberto Delgado à cidade, foi dele corrido no ano letivoseguinte não sendo reconduzido. Ruma, seguidamente, a Angola onde vai organizar aInspeção Provincial de Educação, a implementação doCiclo Preparatório do Ensino Secundário e a Formação deProfessores, atividades que desempenhou com competênciae mérito. 21
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Simultaneamente, faz o gosto ao dedo e, de 1965 a 1969,integrado no Instituto de Investigação Cientifica de Angola,agora já com a Esposa, responsável pela criação da Seçãode Pré-História e Arqueologia, trabalha em escavaçõesarqueológicas em todo o vasto território do país, que relatanos saborosos livros que publicou sobre essa atividade.Nessa altura elaborou a Primeira Carta de Pré-História deAngola. Durante esse trabalho pôde, também, reunir umacervo importantíssimo sobre Arte Negra que expôs, como título Divulgação da Arte Negra, em: 1982 – Fundação Engenheiro António de Almeida, noPorto; 1984 – Museu Regional da Guarda; 1990 e 1995 – Schola Europaea, em Mol, Bélgica; 1997 – Potsdam, Alemanha; 1998 – Universidade Portucalense, no Porto; 2004 – Instituto Superior da Maia; 2005 – Academia José Moreira da Silva, Porto; 2006 – Junta de Freguesia de Lavra, Matosinhos e,presentemente, no Museu de Arte Primitiva de Almeidadepositário do espólio. Aliás, esta atividade arqueológica tinha sido iniciada naGuarda, onde procedeu a escavações relacionadas com oslusitanos, trabalho que se estendeu até Espanha, na zona deCáceres. Também por desinteligências com o secretárioprovincial da educação de Angola, a quem não vergou 22
  • Percursos de razão e afetosa cerviz, regressa a Portugal, trabalhando em alguns dosliceus do Porto. O último, o Garcia da Orta, em experiênciapedagógica, foi o primeiro Reitor onde tomou, sempre, adefesa dos alunos. São estes, a melhor testemunha (comouma vez o testemunhei) de arriscar o seu lugar enfrentandoa polícia e a PIDE, antes do 25 de Abril. A seguir à Revolução dos Cravos, a nível concelhio,continua a ocupar lugares relacionados com a política ea cultura, acabando por ser eleito para a Assembleia daRepública. Abandonou a Assembleia e depois de ter sidoDiretor-Geral do Ensino Particular e Cooperativo, foiocupar o lugar de Governador Civil da Guarda. Com a integração na CEE, por concurso internacionalcom base no mérito pessoal, foi nomeado Diretor da ScholaEuropaea, de Mol, Bélgica, lugar que brilhantemente,desempenhou de 1989 a 1996. O que foi esse desempenho,tivemos ocasião de o verificar, quando, em excursão, umgrupo de vinte e tal amigos, aí se deslocou, numa visita porele organizada. Regressado a Portugal, é dos grandes animadores nacriação de uma cooperativa de ensino, de que nasceu aUniversidade Portucalense, cuja docência integrou comoProfessor Associado de História da Arte. Igualmente fez parte do grupo que criou a AcademiaJosé Moreira da Silva no Porto donde surge o InstitutoSuperior Joaquim Oliveira Guedes – Cooperativa deEstudos de Economia Social, a cujo Conselho Científicopreside, e posteriormente, a Escola Profissional de Eco-nomia Social. 23
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues No campo do Ensino/Educação, como costumo dizer,ao Adriano apenas faltou ser ministro, para ocupar todosos lugares relacionados com o assunto. Foi Professor doEnsino Primário, foi Professor do Ensino Secundário, foiReitor de Liceu, foi membro da Comissão de Educaçãoda Assembleia da República e foi Diretor-Geral do EnsinoParticular e Cooperativo… Estudioso das questões judaicas – está farto de quererconvencer-me de que, pelo meu nariz, sou judeu – é ele queestá na origem da criação do Museu Judaico de Belmonte. Tudo isto é o que qualquer biógrafo, muito melhor doque eu, poderá dizer a respeito do Adriano. A mim mais doque ele foi, ou não foi, mais do que os lugares que ocupou,o que me importa é o que o Adriano é. Não fomos contemporâneos no Palheiro. Mesmo que otivéssemos sido, a meia dúzia de anos que nos separa, era,na altura, mais que suficiente para que o puto Alcides sepusesse em sentido para falar com um grande… Daí que, o meu conhecimento do Adriano, identificadopor Vasco Rodrigues, fosse simplesmente de ouvido, comreferências às suas qualidades intelectuais, pessoais eoratórias, de tal maneira grandes que, em meu entender, secorrespondessem só a metade, já eram muitas. Ainda bem que tive a sorte de integrar a tal excursãoa Mol, uma vez que ela me permitiu ver a justeza dasapreciações que lhe eram feitas, patenteadas pela lhanezacom que nos recebeu, pelos conhecimentos que nostransmitiu, pela maneira como nos mostrou dirigir a Schola 24
  • Percursos de razão e afetosEurpeae, que integrava alunos de todas as raças, como emcasa dele, nos fez sentir como estando em nossa casa. O Adriano é, por tudo isto, uma Pessoa com a qual sepode contar incondicionalmente.Teimoso, às vezes no café,quando, ao tomarmos uma atitude (o outro nome do caféou de uma cerveja que bebemos), puxa dos seus galões deidade e avoca a ação de pagar… Senhor de uma cultura invulgar, bem patente em todasas suas conversas, Humanista convicto, sofre as dificuldadesdos outros, preocupando-se com o Social. Sempre prontoa acompanhar e a responder às necessidades dos outros,sempre com uma palavra e um conselho amigo (eu que odiga, por causa dos cigarros) que até canta bem, quando aisso se dispõe, um conversador e contador incansável quese adora ouvir. É deste Adriano de que eu gosto, é este Adriano queeu admiro, é a este Adriano a quem eu agradeço a sorte deser meu AMIGO. 25
  • Percursos de razão e afetos HOJE COMO ONTEM Ana da Encarnação Subtil Roque* Creio que a amizade é a mais bela e pura expressão doamor. É como um sacramento que todos desejamos porqueDeus para a amizade nos criou. A minha amizade com a Maria da Assunção começouna Faculdade de Letras, em 1950. Vinda dos Açores,matriculei-me no curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Quase todos os dias, depois das aulas, ia do Lar dosCoutinhos, que ficava próximo da Sé Velha, até à Rua daMatemática onde a Assunção residia. Foram quatro anos deestudo em conjunto no seu quarto de estudante. O convívioprolongava-se nos jardins e cafés de Coimbra, para aliviara cabeça e encontrar a malta... Passados alguns anos, veio anossa Queima das Fitas de quaternistas. A Assunção fez-meuns versos, para colocar na minha plaquete, que diziam:* Colega de Faculdade de Maria da Assunção Carqueja. 27
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues “São lindas as minhas fitas” Repete a Ana contente... E com jeito, docemente, Beija as fitas tão bonitas. Pergunto cá para mim Ao lembrar-me disto tudo; Se as fitas beijou assim O que fará ao “canudo”? O 5.º ano do curso constava de um trabalho deinvestigação para se obter a licenciatura na defesa da tesedo tema escolhido em Filosofo ou História. Dos alunos que iniciaram a sua vida universitária, em1950, licenciaram-se seis, em 1955: a Maria da Assunção,a Teresa Pinto Mendes, a Maria do Céu Cavalheiro, o RuiPrado Leitão, a Rosa Alice e eu,Ana Roque. No ano seguinte,foi a vez da Maria Clara Constantino, Cruz Pontes, Mariade Lurdes Costa e Maria de Lurdes Lopes Porto. Os trêsprimeiros eram voluntários. A Lopes porto quis preparar adefesa da tese em dois anos. Partilhámos com alegria a festade licenciatura de cada um de nós. Mas a amizade entretodos não existiu, apenas, durante estes cinco ou seis anos,continuámos amigos, muito amigos... A Maria do Céu Cavalheiro e eu organizávamos, de vezem quando, reuniões de curso para matarmos saudades esabermos como ia a vida de todos os colegas. Dialogávamosno decurso do almoço que tinha lugar num sítio romântico.Eram autênticas tertúlias. Antes, participávamos de uma 28
  • Percursos de razão e afetosMissa na Capela da Universidade, rezada pelos Professorese Colegas já falecidos. Apresentávamos os cumprimentosao Magnífico Reitor e tirávamos a tradicional fotografiana escadaria do Pátio da Universidade. Foram belos estesencontros... São tantas as fotografias e os nomes na lista departicipantes com as respetivas moradas! Prolonguei o sacramento da amizade através de umaverdadeira aventura para a época – pus-me, sozinha,a caminho da Bélgica, para passar uns dias com a minhaamiga. Na altura, a Assunção encontrava-se com o marido,em serviço de grande prestígio e responsabilidade, naquelepaís. Foram uns dias muito agradáveis, passados comalegria e ar puro, numa frondosa floresta, em Mol, onde osmeus amigos viviam. A Assunção fazia parte da ComissãoEuropeia de Filosofia e o Vasco exercia as funções de Reitorda Escola Europeia. Não vou falar em detalhe do que aquivivi, do que com eles aprendi, de alguns dos seus familiarespresentes, dos muitos amigos e admiradores, da suadedicação a uma exigente tarefa desempenhada num paisestrangeiro. Mas não posso deixar de mencionar os passeioscom tantos desses amigos, um deles a Antuérpia, dasconversas íntimas aos serões, dos deliciosos chocolates namesinha de cabeceira, da verdura da paisagem que avistavamal abria a janela do quarto pela manhã, dos esquilos asaltitar, das piscinas de água doce que ondulavam... Sobretudo, devo frisar a homenagem grandiosa que foiprestada ao Vasco pelos seus brilhantes serviços e à qual tiveo privilégio de assistir. 29
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues É incontestável que a sua vida académica e familiar,marcada, sempre, pelo amor e respeito pelo outro epor todos, justifica a merecida homenagem a ambos,inseparáveis companheiros numa vida rica de afetos e derealizações. A profunda amizade pela Maria da Assunção, comoqualquer amizade deste teor, mantém viva, para além detempos e de espaços, caminhos andados, palavras e gestostrocados. Este sentir, que me traz aqui e agora, tem-sealimentado de saborosas conversas telefónicas. E nãoperdemos a oportunidade de nos encontrarmos, comoaconteceu aquando da festa dos meus 80 anos, pretextoque permitiu juntar familiares, amigos e colegas de curso. A Universidade trouxe-nos conhecimento e, também,amigos que permanecem na nossa vida. Hoje, entre eles, épara a Assunção que envio o abraço mais terno, o abraço desempre, da Ana, Anita ou Aninhas / Por qualquer do nome dá... 30
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES O HOMEM QUE, HOJE E SEMPRE, INVESTIGA, PENSA E SONHA MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJAA MULHER QUE AO SEU LADO INVESTIGA, PENSA E SONHA EM POESIA António Alberto Barbosa Areosa* É incomensurável o valor e o mérito que julgo deversublinhar do Homem vertical e de cariz humanista quefacilmente vislumbro do que dele fui conhecendo, nãosomente da vasta obra publicada, mas, ainda, dos cargosque tão bem soube dignificar desde cedo. Acrescemas entrelinhas das entrevistas lidas em que revejo noHomem a dignidade de um caráter notável, inteiramentededicado à investigação e ao conhecimento de valorexpresso nas inúmeras cerimónias e homenagens que lheforam, merecidamente, dedicadas. E nessas palavras há aautenticidade e a humildade de quem é grande e talvezmaior que o comum dos mortais, num mundo ondeprolifera a incompetência e arrogância.* Diretor do Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo. 31
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Natural da Guarda, Adriano Vasco Rodrigues deucedo a conhecer o seu interesse pela arqueologia e históriadesse distrito, tendo promovido vários trabalhos decampo refletidos numa vasta bibliografia que se reparteentre o Paleolítico e a Idade Média. Com vida dedicada erepartida entre a investigação e a docência, nomeadamenteem Portugal, Angola e Bélgica, onde dirigiu a ScholaEuropaea, foram valiosos e sobejamente conhecidos osseus serviços na orientação do trabalho dos professores,no aperfeiçoamento da avaliação dos alunos e respetivacontextualização dos conhecimentos, particularmenteno que à Língua Portuguesa dizem respeito. Todo o seupercurso profissional é, desta forma, exemplo para asgerações contemporâneas, atendendo às característicasde perfil que o notabilizam nesta área. Dessas subscrevoa inteligência, o já antes sublinhado humanismo, o sentidopedagógico, o enaltecimento patriótico e, sobretudo, anobreza de caráter. Mais recentemente, este investigador e docente,que desempenhou, para além de deputado, as funções deGovernador Civil do Distrito da Guarda e dirigiu, durantelargos anos, a revista Altitude, foi justamente agraciado coma Medalha de Ouro desta cidade. Pormenor que passariaindelével não fosse o seu grande apego cultural às múltiplase diversas temáticas que mais interesse nele despertarame a continuidade de uma curiosidade pelo conhecimento,que emerge de uma sensibilidade entusiástica e vitalidadee que impressiona enquanto detentor de uma permanênciaintelectual rara. 32
  • Percursos de razão e afetos Adriano Vasco Rodrigues é assim o Homem que afirmaocupar atualmente o seu tempo a investigar, a ler e, algumasvezes, a pensar. Mas também a sonhar! E se o “Sonhocomanda a vida”, tal como o afirma António Gedeão, saberque tão notável ser humano possui a capacidade do sonho,grandiosa se revela a obra que nos lega e o perfil humanoque, gravado na pedra da cidade altaneira da Guarda, seabre num sorriso de mestre sempre que é interpelado,nada mais nele havendo que a claridade e a luminosidadede quem é eterno aprendente da vida e do mundo que oacolhe. De acordo com o próprio Adriano Vasco Rodrigues,em conjunto com a Mulher, sua esposa e companheira, Dra.Maria da Assunção Carqueja, esta proveniente da freguesiado Felgar, do concelho de Torre de Moncorvo, possuemvasta biblioteca, 35 a 40 mil volumes, muitos diapositivose fotografias e, também, documentação que se repartepelas várias áreas da História, desde a Arte à Política,pela Etnografia, Arqueologia, Religião, Civilizações,Monografias e obras centradas nos estudos e HistóriaJudaica, entre outras que foram motivo de interesse da Dra.Assunção, como sejam a Filosofia, a Pedagogia e a Didática.Dela, diz ainda Adriano Vasco Rodrigues, em entrevista aA Guarda, que foi Metodóloga, trabalhou a nível europeuda União na área da formação em Filosofia e pertence àAssociação Internacional dos Professores de Filosofia. Do espólio documental de ambos a bibliografia é vasta,sendo que aqui daria relevo à História Geral da Civilização(2 volumes com 8 edições), publicada e divulgada entre 33
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues1962 e 1975, à Retrospectiva Histórica dos Concelhos de Meda,Longroiva e Marialva (1976) e, mais recentemente, ao livrointitulado “De Cabinda ao Namibe”, cujo lançamento decorreuno Porto, na Biblioteca Almeida Garrett, posteriormentena Guarda e, de seguida, mais precisamente em 7 de maio,do ano em curso, no auditório da Biblioteca de Torre deMoncorvo. No livro, o autor revisita terras de Angola,percorrendo todo o território como inspetor escolar,registando à sua passagem aspetos significativos da História,Arqueologia e da Antropologia Angolanas. É, ainda desselivro, que salienta o papel de esperança e humanismodas Missões Católicas e Protestantes, a par de uma visãocrítica que aí desponta na apreciação de um processo deindependência de algum modo distorcido, quase doloroso, edo qual a História vindoura se encarregará de o corroborar. Contudo, devemos realçar o mérito daquela que setornou mulher e companheira do pedagogo. Autora de várias obras específicas de investigaçãoda sua área de estudos, foi autora de alguns trabalhos deinvestigação, em parceria com Adriano Vasco Rodrigues, asaber, O estudo das ferrarias do concelho de Torre de Moncorvo(1962). Tendo anteriormente dado conta da sua atividadeprofissional, da sua obra publicada destaco “Subsídios parauma monografia da Vila de Torre de Moncorvo” (Coimbra,1955), revista e publicada sob o título “Documentos Medievaisde Torre de Moncorvo” (editada com o apoio e patrocínio daCâmara Municipal de Torre de Moncorvo em 2007), “Versosdo meu Diário” (sob o pseudónimo de Miriam) com algunspoemas dedicados à freguesia do Felgar e a Trás-os-Montes, 34
  • Percursos de razão e afetospublicada em 1978 e por último “Jardim da Alma”, publicadoem dezembro de 2008. E é por se tratar de uma obra de expressão poéticaque Jardim de Alma concilia as palavras de que são feitas asemoções e os afetos com a inerente e já esperada reflexãometafísica. Laivos de vivências de infância, ruralidade ememórias desvanecidas nos tempos, mas nelas retomandoe abraçando a sua condição de Mulher – Menina semdescurar o seu perfil de Mulher inquieta e reflexiva faceao tempo e ao mundo em devir e que partilha do Sonhode que inicialmente nos dava conta o seu marido, AdrianoVasco Rodrigues. Diria, com a certeza do que foi permitido delesconhecer, que quer em Adriano Vasco Rodrigues quer nasua mulher Maria da Assunção Carqueja se revêem traçosde um caráter determinado, ávido de conhecimento epartilha, a humildade de uma sabedoria gritante, que sóalguns possuem, e a busca eterna aliada à curiosidade dosseres humanos de eleição. 35
  • Percursos de razão e afetos OS LIVROS FORAM FEITOS PARA SEREM LIDOS António José Ramos de Oliveira* Após a formação obtida na Universidade de Coimbra,em Ciências Documentais, variante de Biblioteca eDocumentação, impunha-se procurar um local paradesempenhar a minha profissão. Embora nada me ligasseà Guarda, cidade onde nunca tinha estado e, como tal, nãoconhecia, surgiu, entre outras possibilidades, a hipótesede, mediante concurso público, aqui desempenhar o cargode Técnico Superior de Biblioteca e Documentação, oubibliotecário. Precisamente por não ser natural da Guarda, nemconhecer a sua região, a primeira preocupação, na altura, foia de tomar conhecimento da sua realidade, nomeadamentea História, ciência à qual me encontro também ligado poruma licenciatura e pela paixão. Aliás, antes de ter ingressadonesse curso, ainda vacilei pela carreira de arqueologia,* Técnico Superior de Biblioteca e Documentação da Biblioteca Munici-pal Eduardo Lourenço, Guarda. 37
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguescomo é sabido, um tema muito caro ao Professor AdrianoVasco Rodrigues O primeiro livro lido da e na Guarda, que requisiteina biblioteca, foi a Monografia Artística da Guarda (a ediçãode 1977), da autoria de Adriano Vasco Rodrigues, que meacompanhou durante alguns dias, fosse numa viagem decomboio, fosse numa fuga para uma esplanada. O livroproporcionou-me um primeiro contacto com a HistóriaLocal, e o ter ficado por dentro de uma realidade regionalque desconhecia até então. Este livro mostrou-me que a Guarda tinha umaexistência milenar, considerando as suas origens, edespertou-me curiosidade em conhecer a restante obra doProfessor, o que me proporcionaria mais tarde um contactodireto com toda a sua obra existente na biblioteca. As Bibliotecas Municipal da Guarda e Fixa n.º 41 daFundação Calouste Gulbenkian, estiveram instaladas, de1986 a 2007, no Solar Teles de Vasconcelos, no largo com omesmo nome, junto à Sé da Guarda. Nessa época, a Biblioteca Municipal era frequentadamaioritariamente por estudantes das escolas limítrofesdos 2.º e 3.º Ciclos e Secundárias, bem como do EnsinoSuperior, na altura existentes, como o ISACE (InstitutoSuperior de Administração, Comunicação e Empresa), aEscola Superior de Enfermagem e o Instituto Politécnicoda Guarda. As escolas, dos 2.º e 3.º Ciclos e Secundário,ainda não estavam apetrechadas com as bibliotecas de quedispõem atualmente, pelo que a Biblioteca Municipal/ 38
  • Percursos de razão e afetos/Gulbenkian era o seu principal recurso para a obtenção deinformação considerada necessária. Assim, era frequente que as salas de leitura da bibliotecaestivessem lotadas com utilizadores, sobretudo estudantes,que a procuravam para realização de trabalhos e requisiçãode livros. No ano de 1998, a biblioteca passou a oferecer oserviço de internet, o que, no início, colocaria o livro numplano secundário. Na época, os temas procurados pelos utilizadoreseram bastante variados: Filosofia, Linguística, Geografia,História Geral, Literatura, História Local, Literatura,Ciências, Jornalismo, Marketing, Enfermagem, entreoutros. Esta procura tinha como base as matérias lecionadasnos respetivos anos ou cursos frequentados. A biblioteca procurava responder da melhor forma àssolicitações, tentando, na medida do possível, reunir umfundo documental adequado às solicitações dos utilizadores. Surgiu então a necessidade de formar um FundoLocal (reunir no mesmo local as obras inseridas nesseconceito), embora ficasse limitado às edições disponíveis,para melhor atender os leitores interessados neste assunto.Estas obras foram reunidas e colocadas numa estante daSala de Leitura do primeiro piso. Aqui se reuniram obras deautores que fossem naturais do Distrito da Guarda (ou a eleprofundamente ligados) ou que tivessem escrito sobre ele. Embora não existisse na biblioteca uma extensa obraque se enquadrasse nestas condições, conseguimos reuniruma estante que ficou em local destacado, devidamenteidentificada. 39
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Cedo passou a ser o local da biblioteca com maiornúmero de obras consultadas. Era ali que estavam os livrosde João de Almeida, detentor de vasta obra da História daGuarda, militar e não só, e do império português em África,nas suas vertentes militar e política. Esta estante reuniatodas as monografias, existentes na biblioteca, referentes atodas as localidades do nosso distrito. As obras eram muitoprocuradas, pois incluíam assuntos como História, Usose Costumes, Tradições, Personalidades, etc. referentes àsregiões do Distrito da Guarda que retratavam. Dispunhatambém das informações mais importantes sobre tradiçõescomemorativas do Carnaval, Páscoa, São Martinho, Natal,Provérbios, entre outras. Outros autores presentes neste fundo eram ManuelRamos de Oliveira, Quelhas Bigotte, Pinharanda Gomes,Virgílio Afonso, João de Almeida, António Monteiro daFonseca, Aires Dinis, Célio Rolinho Pires, AntonietaGarcia, Américo Rodrigues, Nuno de Montemor, AugustoGil, Alípio da Rocha e muitos outros. Um dos autores selecionados para a referida estantee dos mais importantes, considerando a pertinência e aprocura das suas obras, era AdrianoVasco Rodrigues. Os seuslivros foram objeto, quer de empréstimo domiciliário, querde consulta local, em centenas de pedidos de utilizadores.Por exemplo, a obra Monografia Artística da Guarda, no iníciocom a edição de 1977 ou mesmo de 1958, era, talvez, aobra mais consultada da biblioteca. Era-o seguramente noque diz respeito ao Fundo Local. Centenas de utilizadoresconsultaram a obra para saber mais da nossa História, das 40
  • Percursos de razão e afetosnossas origens, dos nossos monumentos. Mais tarde, noano 2000, seria editada a Guarda: Pré-História, História e Arte:(monografia), que viria a substituir a edição de 1977 comobase neste tipo de consulta. Mas, como é certamente conhecido, Adriano VascoRodrigues é detentor de uma vasta obra. Embora nosdebrucemos sobre a referida época da biblioteca, nãopodemos deixar de referir, como bastante consultadas//requisitadas as seguintes obras: – Celorico da Beira e Linhares: monografia histórica eartística. Obra também muito consultada, quando sepretendia o estudo do concelho de Celorico da Beira, sejana História, Usos e Costumes ou Património. – Escultura Africana: perenidade e mudança.Consulta noâmbito do tema. – História geral da civilização. Manual escolar mas queainda era consultado para alguns temas da História. – Provérbios de origem sefardita no interior da Beira e emTrás-os-Montes. Livro bastante consultado, não só porqueexistia pouca bibliografia sobre o tema, mas porque o autorpossui vastos conhecimentos na matéria. – A Catedral da Guarda: na história e na poesia.Recordemos que a Sé da Guarda era o monumento maisprocurado em investigações de leitores. Esta era uma dasobras mais utilizadas nesse âmbito. – Salvador do Nascimento: uma vida – um ideal. Emboramais recente, trata-se de uma obra importante a nívelbiográfico. 41
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues – O Despotismo e a Igreja: cartas régias para o Bispo daGuarda na época pombalina. Obra, talvez única a debruçar-sesobre o tema. – Os lusitanos: mito e realidade. – As lápides sepulcrais da Capela-Mor da Sé da Guarda.Outra obra importante para o estudo da Catedral daGuarda. – Terras da Meda: natureza e cultura: (monografia). Maisum estudo monográfico, de outro concelho do distrito, eque era bastante consultado. – Trabalhos de história e arqueologia da Guarda e regiõesconfinantes: coletânea de quarenta e cinco estudos, cujaspublicações se encontram na quase totalidade esgotadas, oferecidaspelo Autor à Biblioteca Pública da sua cidade natal período de1944-1976. Gostaria de destacar esta curiosa publicaçãoartesanal, coletânea de vários artigos de Adriano VascoRodrigues, que este, em boa hora, decidiu fazer e oferecerà Biblioteca Municipal da sua terra natal. A esmagadoramaioria dos artigos são de índole arqueológica, sendobastante consultados os seguintes: Achados arqueológicosdo Mileu; Moinhos manuais na região da Guarda; Uma armacom mais de 120.000 anos: o biface de Cairrão: (Guarda); Umbracelete lusitano da estância arqueológica do Mileu; Espadade Vilar Maior: idade do bronze: espada de Castelo Bom; A pro-pósito de uma lápide do Mileu (Guarda); Estela de Meimão:cabeça de guerreiro lusitano da Guarda; Inscrições romanas deValhelhas; Inscrição tipo «Porcom» e Aras Anepígrafes do Cabeçodas Fráguas (Guarda); Subsídios para o estudo do Paleolíticono Distrito da Guarda: I Congresso Nacional de Arqueologia; 42
  • Percursos de razão e afetosSubsídios para o estudo do paleolítico na Beira Alta; O Castro doCabeço das Fráguas e a romanização das suas imediações: notíciasobre uma prospeção arqueológica no concelho da Guarda; Subsídiosnumismáticos para o estudo da dominação suévico-visigótica naregião da Guarda: elementos inéditos; Elementos para o estudoda romanização nos Montes Hermínios: I: as escavações da Póvoade Mileu – Guarda; A Torre de «Centum Celas»: pretório de umacampamento romano; Achados avulsos romanos; O templo romanode Almofala: nova interpretação sobre o casarão da Torre. O presente texto não pretende ser uma análise,completa ou incompleta, da obra de Adriano VascoRodrigues. Trata apenas do impacto que a obra de AdrianoVasco Rodrigues teve naquele período de funcionamento dabiblioteca, junto dos utilizadores, considerando a procuraque teve, em investigação ou requisição domiciliária. 43
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues O castro do Cabeço das Fráguas e a romanização das suas imediações Uma separata de Adriano Vasco Rodrigues, exemplo de obra muitoconsultada, na Biblioteca Municipal da Guarda, na época mencionada. 44
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES UMA REFERÊNCIA António Pimenta de Castro* Conheci pessoalmente o Senhor Professor AdrianoVasco da Fonseca Rodrigues, já há quase trinta anos,quando me encontrava a fazer uma visita habitual ao meusaudoso amigo, Dr. Armando Pimentel, na sua casa situadanos Estevais de Mogadouro. Sempre que me era possível,quando terminava as aulas na Escola Secundária de Torre deMoncorvo, a caminho do meu domicílio, em Mogadouro,fazia um pequeno desvio e parava na casa do Dr. ArmandoPimentel, aristocrata no sangue e fidalgo de fino trato, parauma amena cavaqueira, direi mesmo, uma pequena tertúlia,com este grande intelectual transmontano e, por vezes, comilustres intelectuais que o visitavam, ou mesmo gente dopovo, que ele tanto estimava. Digo pessoalmente, porquealguns dos seus trabalhos já os conhecia e muito me falava* Professor da Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado, Torre de Moncor-vo; investigador. 45
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesdele o meu querido amigo e colega na Escola de Moncorvo,o saudoso Senhor Padre Rebelo. Aquando da homenagemfeita ao Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado,escreveu o Senhor Padre Joaquim Manuel Rebelo: “Creioque foi em 1960 que encontrei, novamente, o Dr. Casimirono Vale da Vilariça, num acampamento de alunos de umliceu do Porto, dirigido pelos meus ilustrados amigos,Padre Dr. Domingos de Pinho Brandão e Dr. AdrianoVasco Rodrigues (…)”. Estes estudantes estavam a realizarescavações arqueológicas, superiormente orientados pelosreferidos professores. O Dr. Adriano Vasco Rodrigues, embora nascido naGuarda, é um verdadeiro transmontano, e é-o pelo coração.É uma das minhas maiores referências transmontanas,juntamente com o Abade de Baçal, o Dr. Casimiro Machado,o Abade Tavares (de Carviçais), o Senhor Padre Rebelo eo próprio Dr. Armando Pimentel. O Dr. Adriano VascoRodrigues, grande amigo do Dr. Armando Pimentel, temfeito ultimamente vários apelos para que a maior bibliotecaparticular de Trás-os-Montes, e não só – a do Dr. Armando–, seja preservada, tendo-me “incumbido” de falar desteproblema ao seu amigo Dr. António Guilherme de MoraesMachado, Presidente da Câmara Municipal de Mogadouro,para levar a bom termo esta justa aspiração. Não vou falar aqui do seu brilhante curriculum comointelectual, investigador, escritor, etnógrafo, arqueólogo,deputado, pedagogo, fundador e diretor de revistas e autorde “mais de cem livros e separatas que revelam as importantes 46
  • Percursos de razão e afetosincursões nos mais variados campos da História da Arte, apar dos trabalhos de vanguarda da Pré-História Peninsulare da Pré-História em Angola”1, incontáveis temas redigidos,primorosamente, na língua de Camões, e dos quais salientoos regionais. De facto, as raízes são fundamentais para aidentidade de um povo e de um país. Para mim, tambémpor esta razão, o Dr. Adriano é um verdadeiro exemplo. E não vou falar da sua vasta atividade por algumasrazões: porque existem várias e extensas referências a elas,desde Enciclopédias ao Dicionário dos Mais IlustresTransmontanose Alto Durienses (vol. I, Guimarães,1998, páginas 530 a532; a Dra. Maria da Assunção Carqueja Rodrigues constada página 542); porque nesta homenagem, por certo,alguns colaboradores as irão referir e, finalmente, porquequero dar o meu testemunho sobre as atividades em queestive envolvido, pessoalmente, com o Dr. Adriano VascoRodrigues. Devo acrescentar que, no seio dos seus múltiplosinteresses, há um tema comum que o Dr. Adriano VascoRodrigues e eu temos em grande estima: a História dosJudeus em Portugal. Na realidade, para além de livros eoutros estudos que o Dr. Adriano Vasco Rodrigues publicousobre este assunto (concretamente na Revista Altitude),foi fundador (é o sócio n.º 1) da Associação de Amizadee Relações Culturais Portugal – Israel (1979), Presidente1 Revista CEPIHS, Revista do Centro de Estudos e Promoção da InvestigaçãoHistórica e Social (CEPIHS), n.º 1, p. 248, Coimbra, Palimage, 2011,p. 248. 47
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesda Direção, e, agora, seu Presidente Honorário. DestaAssociação também eu sou sócio (caso curioso e altamentehonroso para mim é que o meu cartão de sócio tem aassinatura do Presidente da Direção, isto é, do Dr. AdrianoVasco da Fonseca Rodrigues, datado de 1988, e que euguardo, religiosamente, no meu arquivo pessoal). Das atividades, nas quais coincidi com o Senhor Dr.Adriano, destaco as seguintes: em 1988, em Mogadouro,na Comemoração do Centenário do nascimento deCasimiro Henriques de Moraes Machado, promovidapela Câmara. Desta homenagem resultou a publicaçãode um opúsculo com as palestras efetuadas pelo Dr.Adriano Vasco Rodrigues, Dr. Armando Calejo Pires epor mim próprio; no mesmo ano, prefaciou e apresentouo livro do seu grande amigo, Dr. Casimiro Henriques deMoraes Machado, Mogadouro – um olhar sobre o passado; em2001, elaborou um trabalho intitulado “O Pelourinho deMogadouro”, para a Revista n.º 2, de dezembro, Fórum Terrasde Mogadouro, páginas 9 a 11, sendo diretores desta revistaAntónio Moraes Machado, António Pimenta de Castro eMaria da Natividade Ferreira; em 2004, escreveu o livroProvérbios de Origem Sfardita no interior da Beira e em Trás--os-Montes, editado pela Câmara Municipal de Mogadouro,a cujo lançamento tive o prazer de assistir; em 2006, em co--autoria com Maria da Assunção Carqueja Rodrigues,saiu o excelente livro Felgar – História, Indústrias Artesanais,Património, com apresentação em Moncorvo, fazendo euparte do grande número de pessoas que a ela acorreram;em 2008, colaborou na Revista Campos Monteiro, n.º 3, com 48
  • Percursos de razão e afetoso artigo “Torre de Moncorvo e o alvorecer do Japão noOcidente”, a qual também integrei com o artigo “GuerraJunqueiro – Epicurista”, tendo o privilégio de participarno seu lançamento. Finalmente, em janeiro de 2011, foiapresentada, na Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado,de Torre de Moncorvo, o n.º 1 da Revista CEPIHS, órgãodo Centro de Estudos e Promoção da InvestigaçãoHistórica e Social, de que o Dr. Adriano Vasco Rodrigues éfundador. Aquele exemplar integra o seu artigo intitulado“Dissertação a propósito da Implantação da República emTorre de Moncorvo”, em co-autoria com a Dra. Maria daAssunção Carqueja Rodrigues. Colaborei nesta publicaçãocom o trabalho “O Projecto de Guerra Junqueiro para abandeira da República”. Esta revista foi dedicada aos dois investigadores, comoreconhecimento da sua importante ação cultural a favor danossa região, tal como o tributo presente, gestos que sejuntam aos muitos que coroaram a sua carreira, como ofacto de lhe ter sido conferido o título de Diretor Jubiladoda Schola Europaea e ser agraciado com vários louvorese condecorações, nomeadamente, com a Comenda daOrdem do Infante D. Henrique. Foi, para mim uma honra falar do Dr. Adriano VascoRodrigues e prestar-lhe, assim, a minha sincera homenagem,bem como à Dra. Maria da Assunção Carqueja Rodrigues,símbolos das altas virtudes das nossas gentes. Estes investigadores enobrecem Trás-os-Montes e onosso país. Bem-hajam! 49
  • Percursos de razão e afetos DO OUTRO LADO DA LINHA... Arnaldo Duarte da Silva* Estávamos em maio de 2009. Germinava na minhacabeça um pulverizar de ideias acerca da personalidade queiria ser o patrono do Núcleo Museológico da Fotografia doDouro Superior, em Torre de Moncorvo. Fez-se luz. Na fotografia, a mesma tem a propriedadede decompor os sais de prata que entram na composição dacamada sensível do suporte a sensibilizar. Mas a luz fixadano meu pensamento era a do Senhor Professor AdrianoVasco Rodrigues. Surgiu como um raio luminoso que iria,com todo o seu saber, proporcionar um elevado grau desensibilidade nas pessoas presentes. Liguei-lhe pela noitee do outro lado da linha, a lembrar Torga ou até a IsabelMateus, absorvo um quem é, não como intruso, mas simnum posicionar esclarecido. E foi desse outro lado da linha,com um grau de abertura extraordinário, tal como nas* Diretor e proprietário do Núcleo Museológico da Fotografia do DouroSuperior, Torre de Moncorvo. 51
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesobjetivas que proporcionam e nos dão a possibilidade detrabalhar melhor , experimentando vários efeitos de luz esempre com grande profundidade, que o Senhor Professoranuiu, sem condições, ao meu convite. Mesmo assim,ainda me penitenciei a pedir-lhe desculpas pelo incómodo,sabendo que o mesmo lhe traria imensas satisfações. E são com elas que, discorrendo para a fotografia,sabemos qual a forma ideal para encontrar o sucesso naimagem. Este não depende só da exposição correta, domelhor doseamento no revelador de brometo e potássio,ou ainda quando o negativo é muito translúcido. A imagemtem que ser vigorosa, com contraste o suficiente e,inevitavelmente, qualidade superior. Do Senhor Professor absorvi, como atributos ímpares,a transparência, o vigor e a qualidade. A transparência porque foi verdadeiro e didático aosugerir-me que não fizesse um espaço para depositar coisas,mas que fosse, sobretudo, instrutivo. O vigor, atendendo à sua energia que o fez estar presenteno dia da inauguração, como portador dos elementosnecessários para melhorar a intensidade do registo, comoque estando a dosear o seu telémetro, sempre com avantagem de não ter pensado no erro de percurso entre oPorto e Torre de Moncorvo. Senti-o focado, entusiasmadoe disponível. A qualidade, esta sim, foi visível no seu discursoimprovisado, mas aproximado ao objeto, para mais de 200 52
  • Percursos de razão e afetospessoas que albergava o espaço inaugurado, no dia 12 dejulho de 2009. Abordou, com amplitude, a iniciativa com aberturareal. Porém, o mais importante foi a sua focagem naabertura útil. Os seus olhos determinaram uma grandeprofundidade de foco que não tem paralelo nas tabelasaproximadas para conseguir que todos os planos fiquemreproduzidos com nitidez. Os mesmos, abertos ao máximono seu diafragma, conseguiram atenção e sem deformação,vulgarmente designada aberração. O seu discurso fluído,coberto de saber, qual emulsão, foi ao encontro do que eraexpectável. Não apresentou bolhas de ar, nem tão poucomarcas de sódio ou potássio, ainda que a temperaturado dia rondasse os quarenta e cinco graus. Apelou àpreservação e à recuperação. Situou este Douro desde oCachão da Ribeira a Barca d’Alva. Falou do Douro romanoe da sua importância. E, por fim, rematou, proferindo,qual lembrança de erudito ou político da nossa terra, que oNúcleo Museológico valia ouro. E, neste campo, tal comoespaço panorâmico do lugar, clicavam-se sorrisos e palmase, até nos planos mais longínquos, se sentia a temperaturaideal, talvez equivalente em sorrisos de alegria, tal como aslâmpadas de tungsténio ao serviço do cinema e do retratoprofissional. Foi uma grande festa. O Senhor Professor AdrianoVasco Rodrigues foi, é e será a referência deste espaçomuseológico nascido sem as cartilhas dos especialistas e,muito menos, sem o conflito de interesses destas coisasda cultura. Ele é a peça, a obra, que deverá ser lembrada 53
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguestal como a máquina que registou as primeiras imagens deTorre de Moncorvo. No arquivo existente, procurei, confesso com poucaorganização, imagens do Felgar. Logo surgiram cercade trinta das décadas de cinquenta e sessenta. As maisimpressionantes, talvez pelo sentir profundo emanado,são as da Procissão da Senhora do Amparo, de 1956. Asoutras, registos imortalizados pelo Senhor Zeca Peixe epelo Dr. Horácio Brilhante Simões, fazem luz de um tempoeternizado em fórmulas preciosas ao revelar negativos.Convém referir que muitos deles, e chegados até nós, foramconservados atendendo a uma fórmula sábia de hipossulfitode soda, metassulfito de potássio e água. Na realidade, as dezenas de milhares de imagensreunidas no Núcleo Museológico da Fotografia do DouroSuperior e todo o seu espólio são um marco significativo,sem halo, em toda a região transmontana. Mas, se asimagens são também importantes para melhor homenagearo Senhor Professor Adriano Vasco Rodrigues e a sua esposa,é minha convição que os homenageados, pela humildade edesinteressada forma de estar na vida, ficariam bem felizessó pelo facto de lhes transmitirmos o nosso agradecimento.Um muito obrigado. 54
  • Percursos de razão e afetosFotografias do acervo do Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior Felgar – anos 50-60 do século XX 55
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 56
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  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 58
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  • Percursos de razão e afetos O TEMPO DE TERNA MEMÓRIA Belmira Parente* Recebi, com alegria, o convite para me juntar à justahomenagem que te dedicam, a ti e ao teu marido. E, numapágina, apenas, recordo a nossa vida de colegiais. Comsaudade! Fomos colegas desde a admissão ao Liceu até ao 6.ºano (hoje, 10.º ano), no Colégio de Lamego. A nossaamizade vem daí, de um tempo de crianças, de um tempode obrigações, de ensinamentos, de formação dos espíritos.Atravessámos a vida com a esperança e o optimismoinculcados então. Não posso deixar de registar alguma memória,hoje, linda, na altura penosa: a Matemática, verdadeirador de cabeça, que a irmã Marieta teimava em acentuar;a disciplina, que impunha levantarmo-nos às 7 horas damanhã para irmos à missa; o castigo de prato na mão norecreio, porque não comia a tempo, o que me impedia* Colega de Maria da Assunção Carqueja, no Colégio de Lamego. 61
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde jogar à bola e ao ring contigo e as demais colegas; asescassas idas a casa, só em férias, a saudade da família quetentávamos atenuar falando dela, da casa, das brincadeirascom os irmãos. Mas retenho, também, o doce sabor dascastanhas de amêndoas feitas pela tua Mãe e que connoscopartilhavas quando regressávamos de férias, e a imagem doquanto estavas animada, naquele passeio do Colégio pelaestrada da Régua, por causa de uma tentadora árvore cheiade medronhos... Uma outra lembrança permanece, a dos teus primeirosversos! Escreveste-os quando estávamos prestes a fazer oexame de admissão no Liceu, algo que denunciava, já, atua veia poética e perspetivava a grande Poeta que vieste arevelar-te. Recordo-os aqui, com a ternura que nos remetepara esses momentos e para todos os momentos que, aolongo destes anos, temos vivido em verdadeira amizade. Lá em cima está a raposa Cá em baixo a admissão Juntaram-se os dois á esquina E combinaram entre si Não haver reprovação 62
  • Percursos de razão e afetos PARA UMA BIBLIOGRAFIA ABRANGENTE DA FREGUESIA DO FELGAR: O CONTRIBUTO INTRANSPONÍVEL DE MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA RODRIGUES E ADRIANO VASCO RODRIGUES Carlos d’Abreu* Otília Lage** 0. Intróito Amigos comuns, bem como a direção do Centro deEstudos e Promoção da Investigação Histórica e Socialem Trás-os-Montes e Alto Douro (CEPIHS), com sedenesta Vila – apesar de saberem desde a primeira hora queestaríamos hoje e aqui neste lugar presentes –, fizeramquestão que nos associássemos diretamente à homenagemde que seriam alvo, os nossos simpáticos concidadãos,conterrâneos, pedagogos e investigadores, Professores* Investigador.** Colega de trabalho de Maria da Assunção Carqueja. 63
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesMaria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues,ambos felgarenses e guardenses, ambos transmontano-durienses e ribacodanos. Pois se ele “pagou o vinho” no Felgar para aí passara pertencer, ela, com o consórcio, ganhou foros de beirã,uma vez que esse negócio pressupõe partilha, uma partilhade meio século, ou para sermos mais rigorosos, de 55 anose 1 mês, uma vez que casaram neste mesmo dia, mas domês de setembro do ano de 1956. Somos por isso duplamente conterrâneos, não fora oDouro a linha de união entre esses dois territórios, aliás ogrande coletor comum de milhentos cursos de água e umdos principais elementos articuladores de toda a PenínsulaIbérica. O Professor Adriano atravessou-o vindo de Sul e aProfessora Assunção em sentido inverso. Encontraram-seno caminho e passaram a caminhar juntos, numa longa efrutífera jornada, que prossegue. 1. Principal bibliografia dos autores relativa ao Felgar (e região envolvente) Na sua vasta bibliografia por várias áreas do Saber,própria de quem negou o ócio por ter consciência de que“o tempo dá-o a Natureza de graça”, cedo tomaram o gostopela investigação. Passando em revista a sua Obra, percebe-se queamaram todas as terras onde viveram e trabalharam,porquanto, sendo docentes, o mais “natural” era que as suas 64
  • Percursos de razão e afetospreocupações fossem para os temas gerais; todavia, elestambém desceram ao particular, dedicando trabalhos deinvestigação a sítios e localidades, próximas e longínquas,independentemente do seu estatuto administrativo, emPortugal e Angola, no domínio da História, da Arqueologia,da Arte, da Etnologia, do Património em geral e, até na artede cantar em verso, sempre com o fito de contribuíremcom alguma luz, ao ignoto, ao desconhecido, ao obscuro. Nessa senda, a freguesia do Felgar – e também oconcelho e região envolvente –, foi visada pelos olhosatentos dos dois investigadores. E a primeira manifestação telúrica surge logo em 1955,quando a estudante Maria da Assunção Carqueja apresentaà Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a suadissertação de Licenciatura intitulada Subsídios para umaMonografia da Vila da Torre de Moncorvo, meritório trabalhode leitura e estudo da documentação medieval do arquivohistórico municipal (que havia sido iniciado pelo Abade deBaçal) e cuja publicação há muito se impunha. Seguem-se vários outros trabalhos, ora por ela, orapelo marido, ora em parceria de ambos e, em alguns (raros)casos até com outros autores, como sejam: – A Vila Morta de Santa Cruz da Vilariça, publicado em1957; – Olarias do Felgar, em 1958; – Fabrico da telha no Felgar, ainda em 1958; – Necrópole de Civitas Aravorum. Marialva – Meda, em1961; 65
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues – Missão de estudo arqueológico na região da Vilariça –Moncorvo, em 1962; – Subsídios para o estudo das ferrarias do Reboredo –Moncorvo, também em 1962; – Problema das fundições romanas de ferro. Escavação feitasegundo a técnica tridimensional numa ferraria do Reboredo(Moncorvo), em 19651; – Retrospectiva Histórica dos Concelhos de Meda, Longroiva eMarialva, em 1976; – Foz Coa contra Moncorvo – a disputa da barca do Douro, em1980; – Terras de Meda – Natureza, Cultura e Arte, em 1983; – Retábulo flamengo da Parentela de Santa Ana na igrejamatriz de Torre de Moncorvo, em 1990; – Terras da Meda – Natureza, Cultura e Património (reed.)em 2002; – A contribuição para o estudo do Paleolítico Inferior naRegião do Coa, 2003; – Provérbios de origem Sefardita no interior da Beira e emTrás-os-Montes, em 2004; – Felgar, em 2006;1 Estes dois opúsculos influenciaram o nosso interesse (Cd’A) pelamineração e metalurgia do ferro na nossa região e foram companheirosdurante anos, antes, durante e após, o levantamento que fizemos dosescoriais de ferro, das escavações arqueológicas na ferraria da Chapa-cunha (Mós) em que participámos e trabalhos ulteriores. O últimodeles, constituiu mesmo, a primeira lição no âmbito da ArqueologiaExperimental. 66
  • Percursos de razão e afetos – Documentos Medievais de Torre de Moncorvo, em 20072. Mas é sobre o Felgar e o seu livro, de autoria do casal,que nos debruçaremos, como no título se percebeu e, nãoobstante dele se apresentar na segunda parte deste artigouma recensão crítica, não poderemos deixar de referirque nele, livro, as palavras constituídas pelos substantivospróprios “Silhades” e “Sabor” são as mais utilizadas, depoisde “Felgar”. Não podia ser de outra maneira. É nessatrilogia (termo que preferimos a troika) que esta freguesia,esta paróquia, esta autarquia, esta aldeia, este povo e estacomunidade radicam, desde os princípios dos tempos. Felgar, a única freguesia do Concelho cujo termose reparte entre as duas margens de um Rio, deve a suaexistência a Silhades e esta nasceu porque o Sabor ali passa. A vetusta Silhades, com assento na margem direitadaquele importante afluente do Douro, envolta porexcelentes terras de cultivo, foi propriedade realenga, ouseja, régia, no início da Nacionalidade e com pergaminhosmais antigos que o concelho de Torre de Moncorvo (1285),ou mesmo o de Santa Cruz da Vilariça (1225), de quemaquele herdou o termo e as prerrogativas. Localizava-se naquelas medievas eras nos limitesdo antigo concelho de Mós (1162), a cujos habitantesD. Sancho I em meados de maio de 1200, passou umacarta de doação perpétua deste seu reguengo, com os seus2 Estes dois últimos livros incluem a compilação de vários opúsculos, queassim se reúnem, revistos e ampliados. O segundo deles é preenchidosobretudo pela dissertação de Licenciatura de MAC. 67
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguestermos novos e antigos, para que o povoassem [carta dedonationis aos populatoribus de Moos do nostro regalengo quoduocatur Siliade… cum suis terminis nouis et ueteribus]. Mas antes destes povoadores baixo-medievais, tiveraoutros, numa ocupação sucessiva desde a Pré-história maislongínqua, intensificada durante a Romanização, comoos abundantes vestígios arqueológicos atestam: desdeinstrumentos líticos e gravuras rupestres do Paleolítico, atéà arte móvel, fortificações e outras estruturas arquitetónicasda colonização romana e da Idade Média. A geomorfologia e a ação antrópica modelaram a suapaisagem. Novos animais e novas plantas se instalaram.Com o incremento da agricultura foi reduzida a área decoberto vegetal natural. Mas como a Natureza é sábia,reservou o leito de cheia do Sabor para arquivo, paraaí poder ir buscar as sementes sempre que necessárioe assim preservar a flora autótone. Só que a soberba dohomem cresceu e agora vai afogar o vale. Os mais atentos já perceberam onde queremos chegar. Durante os árduos anos de luta contra o projeto doempreendimento hidroelétrico do Baixo-Sabor, isto é, aconstrução de duas gigantescas presas, numa manifestaçãopopular in situ, ouvimos um felgarense exclamar: – querem--nos pôr a pescar da janela! Pois é. Por isso também os felgarenses aquihomenageados – “como filhos de boa gente” – perguntama páginas tantas no seu livro, porque não se procuram outrasalternativas energéticas, ou em vez de megabarragens, hoje 68
  • Percursos de razão e afetoscientificamente condenadas, construírem pequenas barragens? (pp.70-71). É certo e sabido que apesar das promessas de criaçãode emprego e de progresso, através da construção debarragens no Douro e seus afluentes, iniciadas durante asditaduras ibéricas, barragens essas que representam tantoem potência como em produção quase 25% da produçãohidroelétrica nacional espanhola e mais de 60% da nacionalportuguesa, elas não contribuíram nem contribuem parao desenvolvimento da região e, a prova está na sangria dassuas gentes desde então para cá, tornando-se numa regiãode baixa densidade demográfica, em franco despovoamentoe muito envelhecida. É pois muito difícil perceber, como é que uma regiãoque produz tanta riqueza, pode ser tão pobre! 2. Recensão crítica da obra: RODRIGUES, Maria da Assunção Carqueja, RODRIGUES, Adriano Vasco – Felgar: História, Indústrias artesanais, património. [Coimbra]: Edição dos Autores, 2006. No contexto da bibliografia de referência histórica,arqueológica e patrimonial de Moncorvo e do Felgar,é fundamental determo-nos na leitura e apreciação daimportante obra que é Felgar: História, Indústrias artesanais,património, da autoria coletiva de Maria da AssunçãoCarqueja Rodrigues e Adriano Vasco Rodrigues, livrograficamente muito cuidado, enriquecido de minuciosos 69
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesmapas, belas fotografias e complementado ainda porsingular contributo estético – literário dos autores e seusdescendentes diretos, filhos e netos. Aliás, esta dimensão gostosamente afetiva e motivante,simultaneamente humana e pedagógica que atravessa estaimportante obra de história local, destaca-se também,desde logo, na apelativa e pedagógica nota de aberturaque é o empolgante “Hino Felgarense”, poema de Mariada Assunção Carqueja de 1950 (pp. 9-10) e ainda na “chavede ouro” que a encerra com “Alguns poemas dedicadosao Felgar” da mesma autora, ficcionalmente auto-referidacomo “Mariazinha persiste/era de lá, lá ficou” (versos doúltimo poema Mariazinha ficou…, pp. 327-328). Para além desta nota imediatamente apreensível,sobressai igualmente de imediato o rigor analítico e aexigência científica e académica do tratamento com queos seus autores abordam os diversos conteúdos e variadostemas que fazem da presente obra uma referência decisivae inultrapassável para qualquer estudioso do Felgar e deMoncorvo, terras de origem e adoção de seus autores. Consagrado à memória do grande empreendedoreconómico e negociante de frutos secos, riqueza daregião, Gualdino Augusto Carqueja e esposa, Evangelinada Conceição Carqueja, respetivamente pais e sogros dosautores, este livro (332 páginas profusamente ilustradas),com prefácio/carta do amigo comum dos autores, Dr.Armando Pimentel, divide-se em três partes essenciais:uma primeira considerada introdutória sobre a antiga e 70
  • Percursos de razão e afetosjá longa história do Felgar, nos seus mais variados aspetose plurifacetadas dimensões (pp. 21-262); uma segundaparte, em que se transcrevem e atualizam “Trabalhos dearqueologia no Felgar” (pp. 263-312) e uma terceira eúltima parte já atrás referenciada, com “Alguns poemasdedicados ao Felgar” de Maria Assunção Carqueja (pp. 313--328). Ao longo da primeira parte do livro, podemosacompanhar, numa narrativa histórica de sabor etnológico,bem urdida, encadeada e referenciada, a longa evoluçãohistórica da povoação do Felgar (agrícola, industrial e detraços urbanísticos), desde o seu distante passado pré--histórico com os seus castros e divindades trazidas pelosromanos até aos desportos, lazeres, tradições comunitáriase aprazíveis ambientes naturais da atualidade, sem esqueceralguns ilustres felgarenses, passando pelas invasões ecultos medievais, o domínio da Igreja e da Inquisição e apresença dos Judeus, a noticia das devassas e inquiriçõesna paróquia e já na Idade Moderna, a introdução doEnsino Publico, notícia das populações e curiosidades,sem que se esqueça a referência às repercussões locais deacontecimentos históricos nacionais como o Ultimato oumesmo internacionais de que é exemplo a Guerra Hispano--Americana de Cuba. Já na segunda parte da obra, o enfoque vai para adescrição, estudo e análise especialmente de trabalhos deescavações arqueológicas com destque para a arqueologiado ferro, realizados pelos autores, relevando-se a sua 71
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguescontribuição para o estudo mais pormenorizado eaprofundado das ferrarias de Moncorvo. Conclui-se esta obra com uma terceira e última parteem que é divulgada uma amostra de 7 composições poéticasde Assunção Carqueja, de acentuado sabor memorialísticoe laivos etnográficos entretecidos por uma íntimasensibilidade ligada à sua terra natal, “Aldeia pequenina emque nasci” (título de um dos poemas), isto é, o Felgar de queoutros poemas evocam particularidades como a “varanda”,o “luar”, os “lares” (e outros tantos títulos). Trata-se efetivamente de uma das mais relevantes obrasda bibliografia transmontana sobre a região de Moncorvoe a localidade bem antiga e genuína de Felgar. Todosquantos a consultem manifestarão o seu reconhecimentopelos estudos minuciosos e eruditos realizados ao longo deanos e aqui parcelarmente compilados como é o caso dotexto “Subsídios para o estudo das Ferrarias do Reboredo--Moncorvo” de autoria conjunta, publicado como separatada revista Lucerna, Porto, vol II, n.º 1-2, 1962 (e inseridocom o título “Contributo para o estudo das Ferrariasde Reboredo” e algumas pequenas adaptações, ao níveldas gravuras em apêndice, na obra que aqui é objeto derecensão crítica, pp. 263-285), ou do texto de AdrianoVasco Rodrigues, “O problema das fundições romanasdo ferro escavação feita segundo a técnica tridimensionalnuma ferraria do Roboredo (Moncorvo)”, publicadoigualmente em separata da revista Lucerna, Porto, vol. IV,n.º 1, 1964 (e incluído também na obra Felgar, pp. 287--304 e acrescentado com mais ilustrações, uma notícia 72
  • Percursos de razão e afetossobre minas de ferro e um breve vocabulário ligado aoferro) – textos estes que se encontram bem enquadradose devidamente reconfigurados na estrutura geral da obramonográfica em análise. Percorrendo um longuíssimo arco temporal, quedecorre entre a recuada Pré-história do território ondese desenvolveu a moderna povoação do Felgar até à nossaContemporaneidade, os conteúdos desta obra, sob diversasformas de abordagem em que são dominantes importantese pioneiros estudos arqueológicos contextualizadoslocalmente, e desenvolvidos/orientados pelos autores,centram-se na história, património e arqueologia doconcelho de Moncorvo que documentam e iluminam, demodo substancial, singular e muito atrativo. Informam e preparam a sólida ancoragem destetrabalho dos autores, uma de várias outras publicações suasmais recentes (consulte-se a bio-bibliografia atualizada deAdrianoVasco Rodrigues e outras contribuições da presenteantologia), anteriores estudos eruditos aqui não compiladosde que, citando apenas alguns títulos, salientamos, porexemplo, de Maria Assunção Carqueja, Documentos Medievaisde Torre de Moncorvo, publicado pela Câmara Municipal deTorre de Moncorvo em 2007, importante repositóriode fontes e documentos, cujos originais se transcrevemseguidos das respetivas transcrições, mas também deAdriano Vasco Rodrigues, A vila morta de Santa Cruz daVilariça, publicada na revista Horizonte, n.º 44, Dez. 1957,pp. 73-76, ou ainda o trabalho, Missão de estudo Arqueológicona região da Vilariça-Moncorvo, comunicação conjunta de 73
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesAdriano Vasco Rodrigues e Domingos de Pinho Brandão,apresentada ao I Colóquio Portuense de Arqueologia,1961, e publicado no Porto, no ano seguinte. Depreende-se da leitura proveitosa desta multifacetadaobra, simultaneamente erudita e de divulgação, que osseus conteúdos científicos e históricos impõem aos seusleitores um estudo atento e bem informado capaz devalorar devidamente os seus inúmeros pontos fortes querem matéria de conteúdo quer ao nível da contextualizaçãodos mais variados assuntos abordados. Situa-se esta obra na vasta e erudita tradição dos maisimportantes estudos monográficos, de pesquisa de terrenoe de investigação produzidos sobre Trás-os-Montes poralguns dos nossos mais destacados estudiosos, como osProfessores Leite de Vasconcelos e J. R. dos Santos Júnior eo notável erudito Francisco Manuel Alves, mais conhecidocomo Abade de Baçal, influências que se podem aí registar.É esta plêiade de autores e sua obra valiosa de grandeerudição e pioneirismo que Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues de modo algum ignoram e tomam comoexemplo a seguir, conforme se pode deduzir da coerenteestrutura, metódica organização e bem alicerçada tessituradeste seu livro e de muitos dos seus anteriores trabalhos queeste incorpora, contribuindo deste modo para um avançosignificativo do conhecimento e dos estudos transmontanos. Nesta medida se considera, do nosso ponto devista, assente numa perspetiva de conhecimento, situadoenquanto historiadora e transmontana, amiga e admiradorados dois autores que, para lá de possíveis pontos de discórdia 74
  • Percursos de razão e afetos(por exemplo, a ausência de bibliografia que esta obra bempedia!), completamente ultrapassados pelos muitos mais deconcordância face às teses bem apresentadas e argumentadasnesta obra de muito agradável e proveitosa leitura queestamos em presença de uma monografia exaustiva sobreo Felgar e Moncorvo. Estes trabalhos tornaram-se possíveispelo estudo aturado, pela produção intelectual e pesquisaespecializada de largos anos e pela exemplar colaboraçãocientífica dos dois investigadores e estudiosos que são osseus autores. É, indubitavelmente, como dizíamos no início,um contributo decisivo e intransponível para a bibliografiahistórica, etnográfica e arqueológica de Trás-os-Montes. 3. Nota final Numa nota final, que não desprovida de igualimportância, registe-se, ainda, que da poética da ProfessoraAssunção, ao folhearmos a revista Altitude (a revista de culturado distrito da Guarda e publicada nesta cidade), detetámosa seguinte contribuição, que poderá eventualmente ser útila quem o assunto vier a tratar: – A nossa casa, datado da Guarda, 1957 (publicado non. 5-6 da 2.ª série), 1982; os – Um Soneto, idem, idem (ibidem, n.º 1 da 3.ª série, eatual), 2003; – Três Sonetos [“A minha liberdade”, de 1999; “Quiseraser Deus por um momento”, de 25.XI.1999; “Eu sou aqueleque sou!”, de 23.XI.1998] (ibidem, n.º 5), 2000; – Trágica Lei daVida, soneto (ibidem, n.º 6), 2001; 75
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues – Mundo da Saudade!, soneto (ibidem, n.º 7), 2002; – Os Tempos do Tempo e O rapaz que bateu à nossa porta,este também soneto (ibidem, n.º 8), 2003; – Dó, Ré, Mi… (ibidem, n.º 9), 2004; – Meditando, de 22.VII.2006 (ibidem, n.º 10), 2006; – Sim!, “nas Bodas de Ouro, 8.IX.2006”, assinala-se nofinal (ibidem, n.º 12), 2009. 76
  • Percursos de razão e afetos NOTÁVEL CASAL Carlos Sambade* O fervor e a vontade de progresso têm expressãoliminar nos períodos que se seguem a tormentas na naturezaou no homem., ainda que não haja uma razão certa de causae efeito. Em Portugal e em meados do século XX incidênciahouve, no campo educacional, documentada a vários títulos,parecendo, a alguns, que se estava perante uma tentativadesesperada de mostrar serviço no campo da alfabetizaçãode modo semelhante, salvaguardadas as diferenças e asdistâncias, à hoje verificada com a formação profissional debase. A «regência» de escolas nos locais mais recônditos,em «quintas» anexas a freguesias, era atribuída a pessoalrapidamente preparado, supostamente com vocaçãopara o ensino para abreviar outras dificuldades, sendo acertificação obtida em provas, escrita e de prática de salade aula. É assim que muitos dos que viam na instrução e na* Professor; Mestre em Educação. 77
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigueseducação um valor sempre presente procuram contribuirpara esse desígnio na forma que encontram ao alcance. A coleção de “Pontos modelos de preparação para osexames de aptidão à Regência de Postos Escolares” (1954)e os problemas (de matemática) que os acompanham,respetivamente de Adriano Vasco Rodrigues e de Arnaldodo Nascimento Rodrigues, dão-nos uma medida dessetempo, singela que seja, aqui e agora. Os pontos em questão são vinte e cada um deles écomposto por uma prova de ortografia/ditado, um temaproposto para redação e problemas de aritmética. Dos vinte ditados, o primeiro centra-se em Salazar,chefe do governo de então, que, segundo J. P. d’Assac,autor do trecho, «não se parece com ninguém». Por outrolado, o tema de redação proposto nesse ponto pede “umahistória em que entre uma rua íngreme, um velho operário,dois alunos da Escola Primária e um carro de mão com umpesado fardo”. Seis dos ditados têm como base a história de Portugal,outros seis são textos de autores portugueses clássicos, doissão da lavra de Salazar. Nos restantes aborda-se o conceitode linguagem, a criança, a domesticação de animais dandocomo exemplo o cão, feitos dos homens e de Cristo.Dir-se-á que nada disso importa para ditado, contandomais a cadência relacionada com a tonalidade inerentea cada palavra ou frase. Não será totalmente assim seconsiderarmos que a um texto é imputável uma qualidadeintrínseca que extravasa o criar dificuldades a quem épedido que o reproduza. 78
  • Percursos de razão e afetos Os temas propostos para provas de redação abarcamos costumes, os recursos naturais, as festas cíclicas, a(vantagem da) alfabetização. Os problemas de índole matemática baseiam-se emoperações de transação corrente, patenteiam a necessidadedo cálculo, assentam nos sistemas decimal e sexagesimal. No ano de 1962 surge o primeiro volume da HistóriaGeral da Civilização a que o notável casal deita ombros eque vai ter sucessivas edições e algumas modificações, umavez que, como é referido no início do manual, «trabalhosdesta índole são sempre difíceis e de critério discutível».Na 1.ª edição há uma necessidade de maior parcimóniana explicação de propósitos, nomeadamente no que serefere “a interpretação das Instruções com base nos maisrecentes métodos e processos pedagógicos, (…), a práticaexperimental aperfeiçoada conforme as reações dos alunos(…) e os resultados colhidos”. Na edição de 1962 (doravante HGC62), introdução,logo à cabeça se indica que “Não há uma definição dehistória, mas vários conceitos de história”. Com semelhanterelevo, na edição de 1971 (doravante HGC71), se pergunta“Por que razão estudamos a história?”. Na HGC62, “A cultura é o aspeto espiritual dacivilização, que permite ao homem discernir, julgar erefletir sobre os valores”. Na HGC71 a cultura é tambémisso mas dá-se conta, logo de seguida, da impossibilidade dacultura enciclopédica, nos dias que correm. Tanto numa como noutra das referidas edições domanual se expressa que a civilização é “o conjunto de 79
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesconhecimentos, costumes e instituições que integram asociedade de um povo ou de uma raça”, sendo, assim, “umponto de chegada e um ponto de partida”. Na HGC71, imediatamente a seguir à introdução e sobo título Das culturas indiferenciadas à civilização urbana, sãoencaixadas, comparando com a HGC6, dezassete páginas,com uma nota de rodapé na primeira de elas: “Embora oPrograma não faça menção especial a esta rubrica, julgamosconveniente expressá-la em linhas gerais para melhorcompreensão das civilizações pré-helénicas”. Só depois seabordam, na HGC61, “As Civilizações Orientais, a Ciênciae a Técnica” e na HGC71 “As Civilizações Orientais, aCiência, a Técnica e a Arte nas Civilizações Orientais e Pré--helénicas e a sua influência na génese da Civilização Grega”. Noutro campo (e não se incluirá a arqueologia nacerteza de que outros o farão com mais propriedade),ficamos a saber melhor que houve várias mercadorias--padrão que não foram liminarmente abolidas com as“unidades ponderais geralmente de forma anular” (AsOrigens da Moeda, 1956, Separata do Jornal O Cávado,Esposende). Da defesa de direitos de autor (1958) à possibilidadede ampliar o campo especifica e essencialmente educacional(1973) nele dando mais ênfase à arqueologia (nem que,para isso, esta tenha, de certo modo, de se deixar adaptar),passando pelas virtualidades e vicissitudes vividas, há maisde quarenta anos, na potência-Angola, uma certeza fica, nasombra e ao sol, abrigando-nos: “A saudade tem-se”. Esteter é da ordem do ser. 80
  • Percursos de razão e afetos MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA UMA ILUSTRE FELGARENSE Carlos Seixas* 1. A má porta veio bater pessoa Amiga quando meescolheu, um obscuro escrevinhador de artigos, um simplesamador das letras e das coisas do antigamente, para, com 6páginas de prosa tosca e sem brilho, participar numa maisque justa e merecida Homenagem à Dra. Maria da AssunçãoCarqueja, minha ilustre conterrânea. E tão acanhado me reconheço e sinto, que nem sequerme atrevo, ainda que profundamente honrado, a fazer aclássica apresentação de tão ilustre felgarense nas suas nobresqualidades de extremosa Mãe, de insigne investigadora epoetisa, de pedagoga e docente com vasta aptidão literáriae capacidade intelectual … e vá a responsabilidade a quem,depois de ter tido a tão louvável ideia de Homenagem,praticou o erro tremendo de encarregar um desconhecidorabiscador, que nada vale, para alinhavar meia dúzia de ideiasde testemunho para uma homenageada que vale tanto!* Advogado; investigador. 81
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues É que sempre corro o risco de que alguém, sorrateiro emalicioso, a sorrir, me pergunte ironicamente quem é que,primeiramente, me apresenta a mim, visto que, mesmoprocurando e rebuscando os recantos mais esconsos e oslimbos da nossa existência terrena, de comum com tãobrilhante homenageada só um ponto nos une: o de sermosambos, com a diferença da idade de Jesus Cristo, nados ecriados no Felgar, naquele torreão natal que, concedo semrelutância, a Dra. Maria da Assunção Carqueja ama maisque eu, um Amor terno, bem manifestado na sua obrapoética e, em particular, melhor expresso no mote de umseu poema de 1950: “És tão linda, ó minha aldeia”, maistarde adoptado como hino felgarense e brilhantementemusicado pelo maestro e compositor António Pedro numacasalamento mais do que perfeito de poesia e música. Ainda neste campo, cometeria uma enormeingratidão, se não fizesse também referência, ainda que aode leve, a outro exemplo de Amor à terra e que se traduziuna publicação do excelente livro monográfico intituladoFelgar, editado em 2006, seja, em ano de gozo das bodasde ouro dos seus autores e ora homenageados, os quais,em parceria, elaboraram uma obra de consulta obrigatóriasobre esta nossa aldeia e que sei ter tido uma óptimaaceitação por todos os felgarenses que se preocupamem saber das suas raízes e em saber sempre mais sobre aimensidade dos fastos históricos aí narrados. Bastaria estaobra monográfica, e até agora única, para que o nome dosseus autores seja para sempre recordado e associado a umaimportante iniciativa e a uma mui válida pedrada no charco 82
  • Percursos de razão e afetosque veio abanar o marasmo cultural das águas calmas emque o Felgar navegava. Oxalá que tão exemplar comportamento sirva paranortear e atiçar outros curiosos ou entidades a promoveremmais estudos e publicações deste cariz. De certeza que asnossas aldeias e a região culturalmente só tinham a ganharcom idênticas iniciativas. 2. E foi, ainda menino e moço, na década de 70 doséculo passado, ao som dos acordes musicais da BandaFilarmónica Felgarense, em dias de nomeada, festivos oude romaria, ou a ouvir as vozes das mulheres cantadeiras danossa terra, em dias de labuta doméstica ou lide rural, quetantas vezes entoavam e trauteavam o hino felgarense, queme levou à natural curiosidade de saber quem era o autorde tão belo poema. A resposta veio célere e algo explicativa.– É a Dra. Maria da Assunção, filha do Senhor Gualdino–, respondiam-me os mais idosos. Logo, por ser filha dequem era, consegui identificar a autora, pois, naquelaaltura, o berço ainda gozava de foros de autenticidade e deconsideração social e sendo, como alguém já escreveu, oFelgar uma terra com memória constatei, um tanto ufano e comsentido orgulho bairrista que, afinal, no campo feminino,a par de outra poetisa felgarense, Brígida Janeiro (1894--1974), com quem cheguei ainda a conviver e a escutaratenciosamente a leitura e declamação de alguma da suapoesia, em longínquos e saudosos serões culturais que seperdem na bruma da minha memória, o Felgar tinha no seuseio e era terra natal de outra poetisa, a ora homenageada.Assim, a nossa memória, coletiva e individual, inequívoca eindelevelmente ficava mais rica. Muito mais rica. 83
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 3. Mais tarde, já adulto, estando naquela fase da supercuriosidade relativamente à causa das coisas e na de tentarrecolher avidamente o máximo de informação oral e escritasobre o passado do Felgar ou de compilar tudo o que à nossaterra dissesse respeito, reparo, ao consultar as folhas delidase gastas do jornal A Torre, editado nos meados do séculopassado aqui em Torre de Moncorvo, com alguns poemasassinados sob o pseudónimo de Carqueja da Serra. Agora,já não precisei de perguntar ou de pedir auxilio a terceirospara apurar da identidade de tão ilustre autora. O nomecom as suas 2 singelas palavras dizia tudo. Sem precisarmosde ser especialista ou de ter passado tempo a dissecarsementes de filologia, é fácil dar com o rasto etimológicoao nome Carqueja, a Pterospartum tridentatum do latim, eque é um arbusto que abunda nos matagais das encostasda Serrinha e do Cabeço da Mua, cuja flor tem algumaimportância medicinal, manuseada em tisanas ou mezinhascaseiras para combater as constipações ou para fazer-seum chá para atacar os males do fígado. Não olvidamos,ainda, que a propriedade principal deste arbusto, que podeatingir o máximo de 1 metro de altura, era a de ser idealpara produzir a combustão, para fazer-se lume e aquecer-se o forno da poia, importante e imprescindível atividadeindustrial da época. Daí, se nos afigurar que aquelas que se dedicavam àvenda deste arbusto e de tal faziam profissão eram conhecidascomo as “carquejeiras”, ou as “carquejas” ou, pelo ladomasculino, os “carquejos”. Estava assim o étimo Carqueja duplamente bem ligadoà toponímia por, como se intui, visar homenagear a Serrinha 84
  • Percursos de razão e afetose o Cabeço da Mua, o tal “altar que tem aos seus pés opovo do Felgar” e à onomástica felgarense, cuja existênciae conhecimentos de antroponomia e genealógicos melevam aos inícios do século XIX, mais precisamente aotrisavô da Dra. Assunção, Domingos Manuel Carquejo,ancião com vasta prole e descendentes com ocupação nosmodestos ofícios de jornaleiros e artífices, até chegarmosa seu Pai, Gualdino Augusto Carqueja (1907-2003), senhorque, paulatinamente, passo a passo, construiu um impériocomercial e ocupa, por direito próprio, um lugar merecidoe destacado nos notáveis felgarenses do século XX. Assim,a história seja justa e lhe reconheça tal posição. 4. Igualmente, já nos idos do mês de março de 1995,tive o enorme prazer de ter descoberto e obtido fotocópiasde uma obra, completamente esgotada, de difícil acessoe já por mim tão procurada. Refiro-me à dissertação delicenciatura Subsídios para uma monografia da vila de Torrede Moncorvo apresentada e defendida, em 1955, pela Dra.Maria da Assunção Carqueja na Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, e que o Município em boahora veio a reeditar, tendo a autora revisto e procedidoa atualizações com novas notas e fotografias que muitoenriqueceram a edição. Tornou-se obra de consultaindispensável para qualquer investigador, amador ouprofissional, amante ou mero curioso da história local. E foi esta uma obra que muito me ensinou sobre asnossas origens e importância que Moncorvo teve em eraspassadas, quando, inclusive, foi tida como a maior comarca 85
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde Portugal. Igualmente, e já o escrevi noutras paragens,foi num documento aí publicado que vi a primeirareferência escrita ao Felgar, enquanto aldeia e que informaque, em 1326, quatro moradores felgarenses assinam,como testemunhas, uma postura da Câmara que proibia aentrada do vinho de fora no concelho, enquanto houvessevinho da vila e do seu termo. Essa referência, para serbem compreendida, carece de oportuno enquadramento,alguma explicação e desenvolvimento em futuro trabalho. Permita-se-me, agora, abrir um pequeno parêntesespara contar um acontecimento real. Na única vez que tive oprazer de falar mais demoradamente com a homenageada,aos 25 de setembro de 2005, após a realização de umajornada cultural na freguesia de Felgar presidida pelo seumarido, Dr. Adriano Vasco Rodrigues, sob o patrocínioda Junta de Freguesia, veio, no meio da conversa e atalhe de foice, uma alusão a esta sua obra e lembro-me,perfeitamente, de ter pedido e insistido, várias vezes,com a Dra. Maria da Assunção para a necessidade dereeditar aquela sua obra, por se me afigurar que, além davelha e quase inacessível monografia do Abade de Baçalsobre Moncorvo, de 1908, as poucas obras monográficasexistentes relativas ao concelho deixavam muito a desejar.Era necessário dotar os novos investigadores de uma obramais acessível para se ler e consultar, com riquíssimovalor histórico, fruto da consulta e transcrição das fontesoriginais primárias, consubstanciadas em 39 documentosde um núcleo de pergaminhos medievais do arquivomunicipal. O seu valor histórico é incalculável, por abordar 86
  • Percursos de razão e afetosos mais variados temas e da maior importância para o diaa dia do viver num concelho medieval : os arrendamentos,delimitação de termos, feiras, moendas, barcas, posturassobre o vinho, fintas, sisas, fornos de poia, adua, … Afinal, por certo não pelos meus insistentes pedidos,mas pelas boas graças do Município, a dita obra, com otitulo Documentos Medievais de Torre de Moncorvo, acaboupor ser lançada aos 09-06-2007, e eu, além de a terautografada, guardo-a religiosamente na minha biblioteca,mais precisamente na prateleira das obras concelhias deleitura e consulta obrigatória. 5. Fechado o parênteses, devo dizer ainda que, dafamília da homenageada, além de conhecer os seus irmãosmais novos, conheço também o Jorge, o seu filho maisvelho, e sempre segui com interesse o trajeto cultural eprofissional do seu marido, o Dr. Adriano Vasco Rodrigues,enquanto pessoa de reconhecida craveira intelectual. Neste, sempre admirei a sua eloquência, o seu domda palavra e o facto singelo de, apesar de ter nascido nasterras da Beira, se considerar felgarense, condição essaque lhe adveio na dupla qualidade de, por um lado, tercasado no Felgar – cumprindo-se assim a sina e a profeciade uma cigana a qual, in illo tempore, lhe previu, ainda nasua juventude, que a sua cara metade, a sua Maria, a iriaencontrar em terras d’além Doiro – , como pelo facto de,por outro lado e previamente, ter obtido a sua carta dealforria ou passaporte de felgarense ao ter pago o vinho,o que o tornou num cidadão felgarense de pleno direito.Cumpriu, assim, o uso consuetudinário ancestral que 87
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesobrigava o noivo que viesse casar a terra alheia a ter depagar o vinho, e ai daquele que o não fizesse. É que o ato de se pagar o vinho traduzia uma arreigadatradição de cariz sócio-etnográfico imemorial, sendo um atopopular que mais não era do que a manifestação atualizadade um ritual medieval, uma espécie de antecâmara daobrigatória entrega das arras dotais. No caso de pagar ovinho, o pagamento era feito pelo noivo forasteiro a terceirosresidentes na terra da noiva, que tinham direito ao cântaroou à remeia do vinho, ou, ainda, a outras prebendas. De facto, se no longínquo ano de 1956, aos 8 desetembro, a família Noga, e meus ascendentes, assistia aodoloroso transe do funeral do meu bisavô Francisco ManuelNoga (1870-1956), anónimo poeta local, já para a famíliaCarqueja, por contraponto e numa clara manifestação danatural renovação do ciclo da vida, era dia de festa devidoà enorme alegria que sentia com a celebração de uma novaetapa nesse mesmo ciclo: o casamento, in casu, da filhamais velha Maria da Assunção, num quadro tradicionale bem rural. Casamento esse realizado na antiga igrejamatriz do Felgar, na velha e acanhada Praça, ainda com osfrondosos olmos junto a ela, com o centenário rego da água– autêntico cartão de visita da nossa terra – a levar a águaem abundância ao renovo das hortas limítrofes e a matizar acanícula do dia, com a velha e inclinada calçada, com o vastopréstito trajando a preceito e acompanhando os noivos noprimeiro dia do resto das suas vidas pela Rua Direita até àCurralada, local da residência da noiva e do copo de água, ecom os demais olhares dos habituais mirones, curiosos pelo 88
  • Percursos de razão e afetosacontecimento, e algum rapazio a acompanhar, prontospara a ansiada arrebatinha dos tostões, dos rebuçados e daentrega dos tremoços. 6. Ademais, que hei-de dizer da sua obra publicada,dos seus artigos e, em especial, da sua poesia que a criticajusta e imparcial já o não saiba ou o não tenha dito? Por especial obséquio e atenção, a Dra. Maria daAssunção tem-me oferecido os seus livros de poesia, desdeo Versos do Meu Diário, o Porquê mais que nada? e Jardimda Alma. Apesar de não ser especialista em tal matéria,muito me tocou a entrega, em mão, do livro Os temposdo Tempo, e tenho de realçar o orgulho que sinto ao ver onosso Felgar ser tratado com a atenção, métrica correta,sentimentalidade e consideração que merece e vê-lo,ainda, retratado com saudade de uma forma tão clara,tão sincera, tão autêntica, tão bem delineada nos poemasintitulados,“Tempo de memória”, “Aquele macho”, “Tábuade costura”, “Nostalgia”, “Luar da minha aldeia”, “Aldeiapequenina em que nasci”, “Lembranças de criança”, poemaeste dedicado ao seu irmão e nosso Amigo, também comvasta obra publicada, o Professor Doutor Hernâni Carqueja. Fez pois, muito bem, minha cara conterrânea, aodeixar-nos este legado, dando forma e devida publicidadeaos seus desabafos íntimos. Seria deplorável que eles ficassempara sempre sepultados em folhas pessoais, manuscritas ereservadas que, depois de lidas pelo grupo restrito familiar,não mais se procuram ou raramente se manuseiam. Seriamal feito conservar em eterno descanso ou perpétuoesquecimento, poemas que tantos ensinamentos encerram. 89
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesTrazendo-os à luz do dia e legando-os a um vasto público,a Senhora Dra. Maria da Assunção Carqueja mostrou o seuAmor pelos seus e pelo Felgar. E isto merece aplauso. E oFelgar, reconhecido, agradece. Bem-haja! 90
  • Percursos de razão e afetos ABRAÇOS VELHOS EM SOPROS NOVOS Céu Cavalheiro Ponce Dentinho* Lembro a Assunção, essencialmente, com juventudee determinação, quer dizer, romantismo e realismo,montanha e Escola... Coimbra a recebeu.Ali crescemos juntas, Universidadee Alta, à velha maneira de lá, alfarrábios incríveis e aulasespantosas (ou monocórdicas!). Ali se formaram caraterese amizades eternas. Depois chegou, em tarde especial, um colega especiale... pronto, a Assunção abstraiu tudo à sua volta! Dele, tenho uma fotografia com a sua noiva no diado casamento. Dela, dois livros de poesia. E, sobretudo,tenho a longa amizade que me leva a rabiscar estas linhas, àtoa e à pressa, para este, também, notável alfarrábio, numtestemunho pequeno mas repleto de abraços velhos emsopros novos, à moda, estes, do nosso “Penedo da Saudade”.* Colega de Faculdade de Maria de Assunção Carqueja. 91
  • Percursos de razão e afetos A CULPA FOI DA DOUTORA... Elvira Cunha de Azevedo Mea* Conheci a Senhora Dra. Maria da Assunção Carquejaquando tinha doze anos e iniciei o meu terceiro ano, noLiceu Carolina Michaelis, no Porto – era a minha Professorade História. Gostámos logo dela porque era nova (havia poucasno Carolina), sorridente, não gritava e eu, pessoalmente,gostei porque tinha o cabelo encaracolado como eu e tinhaa coragem de não o alisar e eu não. A Dra. Maria da Assunção percebeu muito depressaque eu devorava livros, pelo que, au passant frequentementeme dava dicas para leituras de História na biblioteca, ondedescobri as biografias. Tive uma imensa dificuldade em perceber o porquêda mitologia, o que, com muita paciência, ela conseguiuexplicar-me; nunca esqueçerei as gravuras, quadros,objetos que levava para a aula, um método diferente, que* Aluna de Maria de Assunção Carqueja. 93
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesme encantava, até porque ela nos deixava mexer neles,havia uma componente lúdica no seu modo de ensinar,muito raro naquele tempo – estávamos nos anos sessenta. A Dra. Maria da Assunção continuou a ser minhaProfessora de História até ao fim do liceu e ao longo dessesanos continuámos a estar motivadas com os vários programasque íamos dando, não obstante o maçudo Matoso, poisquando íamos estudar pelo manual, já as nossas cabeçastinham uma ideia do conteúdo mais humanista, eclético, emque as variantes de relacionação eram incomparavelmentemais amplas e compreensíveis. Aprendíamos uma História de pessoas, de vidas,portanto onde as vertentes política, económica, social,cultural se cruzavam, já que a Dra. Maria da Assunçãoprivilegiava a compreensão, apelava e desenvolvia-nos oespírito crítico, a memória vinha por arrastamento e semesforço. Ela conseguia diluir a visão duma História de Heróis,típica do Regime, numa História de pessoas, feita portodos, inclusivamente e com muita inteligência, entrandona História do quotidiano, na História Cultural e dasMentalidades, muito mais motivante para adolescentes,passando depois para as outras perspetivas. Penso que a minha vida mudou quando ela nos começoua introduzir na investigação, ainda que linear, bibliográficae de acordo com a nossa idade. Siderou-me quando dissepela primeira vez mais ou menos isto: A História está sempre a fazer-se e a Historiografiatambém porque sendo a História uma Ciência Humana, 94
  • Percursos de razão e afetosdepende dos olhos de quem a vê; enquanto nas Ciênciasexatas, dois mais dois são sempre quatro, a História englobatantas variáveis que o seu labor é infinito, nunca acaba, assuas interpretações imensas, o que não quer dizer que nãoseja uma ciência rigorosa”. Assim, não foi novidade a minha escolha em seguirHistória no 6.º ano do liceu, onde a Dra. Maria da Assunçãocontinuou a ser minha Professora e a fazer parte das minhasreferências. Nós conhecíamos o marido, que a ia buscar frequen-temente e aprovávamos a escolha – era bonito, trazia devez em qundo os meninos, o que para nós, adolescentes, eraum garante de modernidade e cavalheirismo. Os rapazesdo D. Manuel gostavam do Vasco, era “porreiro” e levava-ospara as escavações. Era engraçado e de certo modo um tanto transgressivo,que ele, o Vasco, do D. Manuel viessa buscar a mulher aoCarolina, algo de probido para os rapazes do mesmo liceuem relação às raparigas do Carolina, os quais nem sequerpodiam estar parados em frente. Lá estava o polícia prontopara intervir mas não podia fazer nada quando o Vascocumprimentava a Dra. Assunção com um beijo... Entretanto, nasceu a Miriam Beatriz, juntámo-nospara um presente e tive a alegria de ser uma das três a ir àcasa da Dra. Maria da Assunção e conhecer a menina. Durante esses dois anos da alínea D (História) fomosa alguns museus, ao Arquivo Histórico e convidadas parauma ou outra conferência fora das aulas. 95
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Foi assim que conheci o Senhor Amílcar Paulo, umespecialista do Judaísmo, primo dos Professores, cujainvestigação histórico-etnográfica me deixou encantada.No futuro seria essa a minha área de investigação, nãoobstante o objetivo máximo – a vida diplomática, ondeainda não havia carreira para as mulheres. No nosso 7.º ano, a Dra. Maria da Assunção atiroumais uma pedrada no charco estagnado do preconceituosoliceu Carolina: fizemos um trabalho de investigação, emgrupo, sobre o Porto e apresentámo-lo num Colóquio deArqueologia na Faculdade de Letras. Um autêntico choque emocional: subir aquelasescadas, pela primeira vez, com sapatos de salto, tambémpela primeira vez, apresentar um trabalho em público, aindapela primeira vez; era demais para os meus dezasseis anos– sentia vertigens (e não era dos sapatos, como ironizam ascolegas), tremia, a garganta seca, donde me parecia que nãoiria sair uma única palavra, estava gelada. Chegou a hora, tudo se devaneceu e achei que estavano bom caminho, graças à Dra. Assunção, que nos ajudoutambém com conselhos práticos à inserção na Faculdade.Nunca mais esqueci o que ela disse num contexto qualquersobre a liberdade e convivência na Faculdade (vínhamosdum liceu feminino, para muitas era uma novidade umensino misto): “Como pessoas e como mulheres nunca devemos fazernada contra a nossa dignidade pessoal”. Durante anos perdi de vista o casal Carqueja-Rodriguese reencontrei-os quando resolvi fazer o estágio, no mesmo 96
  • Percursos de razão e afetosano que defendi a tese de licenciatura – uma vez mais meapoiaram e deram conselhos preciosos para afrontar um anode estágio sem ter experiênca de ensino, o que na época eraimpensável; a própria orientadora, de início, sugeriu queeu desistisse. Tudo correu bem e, curiosamente, ao lecionar os anosexperimentais do 7.º, 8.º e 9.º anos tive a Miriam BeatrizCarqueja Rodrigues como aluna, um acaso que juntavao afeto à responsabilidade de ter a filha de pessoas tãoespeciais ao meu cuidado. Entretanto, a família foi para a Bélgica, a carreira doProfessor Vasco Rodrigues e da Dra. Maria da Assunçãocontinuava, cada vez mais empenhados, e já nos fins deoitenta, num dia de inverno, muito próximo do Natal,encontro o Professor Vasco Rodrigues, junto à Assembleiada República. Eu saía do Arquivo da Torre do Tombo com umaamiga, vimos uma carrinha dum conhecido importador debacalhau que fazia entregas aos deputados e perguntámos sevendiam bacalhau. Responderam-nos com uma gargalhadaque era um presente para os deputados do CDS... E nós,rindo, retorquimos que também éramos do partido masnão deputados e, portanto, ainda precisávamos mais dobacalhau. Eis quando aparece o Professor Vasco, que me fazuma grande festa e se inteira da situação; pede-nos paraesperarmos um pouco para encetar um curto conciliábulocom os senhores da carrinha... Depois, bem, depois vimo-nos cada uma de nós comum enorme bacalhau na mão e os desejos dum Santo Natal. 97
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesO percurso pela Rua de S. Bento até encontrarmos umamercearia que cortasse e embrulhasse os ditos cujos, foium espetáculo, com toda a gente a olhar-nos e comentaro aspeto dos bacalhaus – enormes, com uma óptima cura. Só muito tempo depois é que pensei que provavelmentequem ficou sem bacalhau foi o deputado Vasco Rodrigues. A Senhora Dra. Maria da Assunção e o Professor VascoRodrigues continuaram a trabalhar, a investigar, a publicare a ajudar os outros, muitos jovens. Inclusivamente, a suapresença na vida cultural da Beira e Trás-os-Montes é bemvisível com publicações, conferências, visitas culturais, etc. Porém, já só no século XXI é que soube que a minhaProfessora de História era poetisa – tive o prazer de lerdois dos seus livros. Em 2007, numa visita a Torre de Moncorvo vi naBiblioteca e Arquivo alguns textos medievais sobre a terra,tirados da tese de Licenciatura da Dra. Assunção. Malcheguei ao Porto contactei-a para a felicitar pelo ineditismoda dissertação e pedir-lhe que a publicasse, como queria aBiblioteca.Tive a honra de prefaciar a sua “nova” publicação,que continuava atual. Data de então também a minha leitura da sua obrafilosófica, de grande qualidade, fruto duma rigorosainvestigação, reflexão e, naturalmente, dum conhecimentoe experiência ímpares, fruto duma vivência rica em locaismuito diferentes. Neste apanhado de pedaços de recordações diversas,escolhi de propósito, o quotidiano, em que realmente apersonalidade tão humana, a riqueza espiritual e a dádiva 98
  • Percursos de razão e afetosaos outros caracterizam a Dra. Maria da Assunção e oProfessor Adriano Vaso Rodrigues. Acerca do seu alto gabarito intelectual e científicofalam as suas obras. Qualquer homenagem que lhes possamos fazer ficasempre muito aquém do que fizeram sempre pelos outros. Mesmo sem ser mandatada, estou certa que muitosjovens que lhes passaram pelas mãos nunca os esquecerão,lhes estão gratos por tanto terem contribuído para a suaformação e para a construção duma escala de valores deque se orgulham na sua vivência profissional e humana. Bem-hajam! Pela minha parte posso dizer que a minha dedicaçãoà História, o meu perfil de Professora, cidadã, mulher emãe, em que me sinto realizada, muito deve à Senhora Dra.Maria da Assunção Carqueja Rodrigues. Ora bem, a culpa disto tudo é da Dra.... 99
  • Percursos de razão e afetos HOMENAGEM A DOIS CONTERRÂNEOS ILUSTRES Fausto Afonso Pontes* Perguntaram-me há pouco tempo se eu estaria dispostoa associar-me à homenagem que em Moncorvo se estava apreparar aos Profs. Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues, nossos conterrâneos, respetivamentepor nascimento e por casamento. Apesar de em meadose fins da década de sessenta nos termos cruzado algumasvezes, em Luanda, em eventos de natureza cultural, não meapercebi na altura da nossa origem moncorvense comum,nem sequer mais tarde quando conheci trabalhos de ambos,na investigação histórica e arqueológica do nosso concelho.Só recentemente, ao ler algumas poesias da ProfessoraMaria da Assunção no quinzenário Pinhel Falcão (ondeeu também publiquei algumas), me chamou à atenção aexcelência dos seus poemas e reparei no apelido de seu pai,amigo do meu e meu também. A confirmação da identidadefoi feita pelo diretor daquele periódico, e se a admiração já* Médico. Professor Catedrático da Universidade de Coimbra (jubilado). 101
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesexistia em mim, ela foi reforçada pela simpatia cúmpliceque as mesmas raízes geram entre transmontanos. O convite acima referido fez a ocasião para que euobtivesse algumas obras dos homenageados, e embora semoutros pergaminhos além do meu interesse por quantodiz respeito à nossa terra, atrevi-me a aceitar o convite eparticipar com este modesto texto para esta homenagem. Li e reli boa parte da obra de cada um e de ambos, enão posso senão agradecer a oportunidade de as conhecere apreciar. Os Professores Maria da Assunção e Adriano VasoRodrigues, distinguiram-se no ensino da História eda Filosofia, fizeram trabalhos notáveis no âmbito dainvestigação arqueológica, e surpreenderam por fimcom a invulgar qualidade das suas produções literárias,respetivamente a poesia e aquilo a que eu chamaria ascrónicas da sua vida e dos seus trabalhos em Angola. A boa arte no ensino da história e da filosofia não é – ounão era no meu tempo – muito comum. Os alunos do liceusó conseguiam gostar verdadeiramente delas, e estudá-lasdevidamente, quando deparavam com um professor que aestas disciplinas desse vida e os transportasse às diferentesépocas do passado ou aos assuntos da filosofia, se fizessemdos alunos como que espectadores contemporâneos ecríticos ativos daquilo que então ia sendo contado, expostoe ensinado. 102
  • Percursos de razão e afetos O testemunho da habilidade que nesse domínio foireconhecida à Professora Maria da Assunção por uma suaantiga aluna e hoje distinta professora universitária, que lheatribui o seu próprio interesse e gosto por essas disciplinas,é elucidativo. São-no igualmente os livros Noções de Filosofia e Históriada Civilização da sua autoria ou participação. Relativamente aos méritos que o Professor AdrianoVasco Rodrigues revelou sempre na docência, além doseu conhecido curriculum, falaram-me colegas meus queforam seus alunos na Guarda, os quais são ainda hoje, alémde admiradores, seus amigos pessoais. Alguns deles, meusparentes, continuam a ser estudiosos da História e, quandovem a propósito, discutem-na como se fossem académicosentendidos!... Nos estudos de investigação arqueológica, ambosforam, em grande parte dos trabalhos, colaboradores umdo outro. Curiosamente eu tive como Professor, durante algunsanos no liceu Alexandre Herculano, o Padre Dr. Domingosde Pinho Brandão, que todos admirávamos muito. Lembro--me que vários de nós, depois de termos concluído o 7.ºano, ficámos no Porto para o ajudar a catalogar a sua vastabiblioteca pessoal, que guardava nos seus aposentos noandar superior da Igreja dos Clérigos, onde residia, e quequeria transferir para o Seminário Maior do Porto, de quefora nessa ocasião nomeado Reitor. Durante muitos anos,mesmo enquanto Bispo de Leiria ou do Porto, ele era nosso 103
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesconvidado nas reuniões anuais que sempre fizemos desdeentão, e continuamos fazer. Só deixou de comparecerquando a morte o levou. Ele contou-me do estudo em queparticipou em Sta. Cruz da Vilariça, e que o Professor VascoRodrigues lembra. Saber ouvir – e entender – a linguagemdas pedras adormecidas (mas não mortas), não é certamentefácil, mas deve ser fascinante. E deve ser compensadorquando se pode oferecer, à comunidade interessada quefala só a língua de hoje, a história que aquelas pedras alirepetem desde há muito tempo. O mesmo se pode dizer dos documentos do velho Baúda Câmara de Torre de Moncorvo, que a Professora Mariada Assunção estudou e traduziu da escrita arcaica paraum Português mais corrente. São agora acessíveis comoelementos muito interessantes que completam o nossoBilhete de Identidade como povo, e valem tanto como osdados da origem individual de cada um de nós. Às vezes penso que há, nos métodos científicos dainvestigação arqueológica, alguma coisa de parecido comos processos que usamos na Medicina quando, partindodos dados da sintomatologia ou da exploração físicaou instrumental no estudo de um doente, procuramosconstruir um quadro lógico no qual se encaixe o diagnósticoda doença subjacente. Em ambos os domínios, além dogosto pelo trabalho, há arte, habilidade, esmero técnico,e domínio da história natural dos processos estudadospara que seja mantida a procura de quanto é visível ou sepresume susceptível de ser revelado. 104
  • Percursos de razão e afetos A última obra literária do Professor Vasco Rodrigues,aliás a única de que neste momento disponho, é o livro DeCabinda ao Namibe – Memórias de Angola. Quando o abri ecomecei a folhear e a ler, não mais pude parar: li-o assim,embora saltitando, de um só fôlego. Depois voltei aoprincípio para uma leitura pausada e minuciosa. Tendo euvivido em Angola oito anos (já descontada uma interrupçãode um ano para voltar a Londres a fim de concluir umtrabalho que deixara inacabado), fui durante dois anoscontemporâneo da estadia do Professor Vasco Rodriguesem Luanda. A curiosidade que esta leitura me suscitou foipor isso acrescentada. O livro está escrito numa linguagem e estilo vivos,que fazem do leitor um espectador constantementeinteressado: nos mesmos acontecimentos e vivências que oautor presenciou; nas suas descrições de partes de históriade Angola que conhecia num pormenor que escapava àmaioria de quem lá viveu; nas referências a trabalhos eestudos que realizou no desempenho das suas funções ecompetências, quer no âmbito da educação, quer nos deíndole arqueológica ou sociológica; nas observações detoda a ordem que soube fazer enquanto viajava por qualquermotivo naquele vasto território, “de Cabinda ao Namibe”. O Professor Vasco Rodrigues foi para Angola numaidade em que combinava da melhor forma o vigor físicoe intelectual, a maturação profissional e científica, e acapacidade criativa para a elaboração e concretizaçãode projetos fundamentadamente viáveis e eficazes, enaturalmente ambiciosos, no âmbito da educação. 105
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Seduziu-o, como confessa, a esperança de participar,com entusiasmo e dedicação, no ritmo do desenvolvimentoe do progresso que Angola experimentava em múltiplosdomínios naquela época. Infelizmente, talvez porque a sua capacidade de fazerobra digna fosse logo notada e temida por quem deveriaaproveita-la prontamente, deparou com incompreensívelinércia e mesmo resistência ao início efetivo das suasfunções específicas. A fase inicial da sua vida em Angola fê--lo conhecer os costumes, os vícios, os esquema e enredos dapequena politica e dos políticos pequenos, mais preocupadoscom a preservação dos seus pergaminhos e vaidades do quecom a eficácia da governação. Essa aprendizagem preparou-opara enfrentar outras dificuldades que viria a encontrar maistarde. Curiosamente, a solução para a demora da iniciaçãoefetiva de funções veio, de forma discreta, simples, fácil epronta, de um humilde funcionário... Gostei de ver lembrados no livro pessoas que tambémconheci e admirei, a começar pelo meu colega Dr. SalvadorRodrigues (só agora sei que era irmão do autor), o qual sedistinguiu entre outras coisas, em prontamente reconhecere enfrentar a grave epidemia de febre amarela em Angolano fim daquela década, quando antes se considerara já parasempre dali erradicada. Eu, que nessa altura era, em part-time, diretor clínicoda Gulf Oil, cheguei a consultar o Professor Zuckermman,conceituado virologiasta da Universidade de Londres, 106
  • Percursos de razão e afetossobre o problema, e partilhei as informações com o Dr.Salvador Rodrigues. Conheci igualmente o Dr. Bonfim, cirurgião de grandeexperiência, o Dr. Pedro Azeredo e esposa, a Dra. LuísaMelo, e o Dr. António Melo, todos de grande prestígio noexercício das respetivas profissões e em dignidade humana;e o mesmo se pode dizer da Dra. Deolinda Abreu, doProfessor Engenheiro Canas Martins e de vários outros. No Livro relatam-se episódios e histórias que, emboracurtos, são ricos de significado e uma amostra de quanto avida pode trazer. A propósito do desvio do paquete Santa Maria, em1960, que foi notícia em todo o mundo, é contado o dramado jovem madeirense que concluíra o 7.º ano e viajavapara os Estados Unidos para frequentar um curso superior.O Capitão H. Galvão, que entretanto descobrira que elefalava inglês, mobilizou-o “ad hoc” para intérprete dogrupo revolucionário, e só depois de cessada a operaçãomilitar e já sem dinheiro, pode esse jovem prosseguir noseu programa de estudos, que aliás veio a concluiu comêxito. Uma outra história, porventura um drama muitocomum, é a de “uma menina mestiça”. Um jovemadministrativo fora colocado nos confins do planaltoangolano, nessa altura de difícil acesso. A solidão levou-oa comprar uma jovem negrita, que lhe alegrou a solidão,a mesa e talvez outras coisas mais, nascendo-lhe uma filha.Regressou mais tarde à metrópole, e só trouxe a filha, que 107
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesentregou aos avós brancos; ele próprio arrumou depois a suavida, casando com mulher branca. Anos mais tarde, aquelafilha, já casada, recebeu carta da mãe preta, que semprechorou a perda da sua filha, da qual conseguira por fim oendereço. É possível que algumas lágrimas a filha tenhaentão chorado também. Umas e outras continham, comodizia o poeta, água e cloreto de sódio: as da mãe tinhamcertamente hemoglobina à mistura; às da filha faltava umpouquinho de coragem. As do administrativo não tinhamprovavelmente nem cloreto de sódio, nem sangue, nemcoragem, nem mesmo água, porque a melanina da alma lheterá secado os olhos. O Salomão Sambade, do Peredo, ao fim de muitosanos de Angola e já em plena guerra civil, veio rever a suaterra natal. Poderia então cá ter ficado, mas disse de novoadeus ao Peredo e voltou para a mulher preta e para osmuitos filhos mestiços. E lá ficou até ser trucidado pelaguerra, agarrado ao trabalho e à guitarra, que sempre tocouadmiravelmente. Mas o Salomão, além de músico, era umpoeta, e na alma cresciam-lhe os mais nobres sentimentos. Uma outra história, que se lê com magoado interesse,é a do inicio do terrorismo, com a reivindicação dostrabalhadores nas fazendas de algodão, seguida mais tardedo assalto à cadeia de Luanda e da chacina nos diversoslocais do interior norte. Teria sido possível evitá-lo?Talvez não! Podia Portugal naquela altura fazer outra coisadiferente do que fez? Talvez não também. Mas talvez o quefoi feito pudesse ter tido outro resultado se tivesse sido 108
  • Percursos de razão e afetosdefinido um programa claro e um objetivo aceitável portodos os interessados Pior do que acabou por acontecer,com o regresso de centenas de milhares de Portugueses ea mortífera e longa guerra civil angolana, é que não seriapossível. Da história mais recuada deAngola o autor recorda, comum pormenor que eu e muita gente não conhecia, a entradada esquadra de Diogo Cão no estuário do rio Zaire, quandojulgava que estava já a dobrar, como era sua esperança, aponta sul de África. Quando reconheceu tratar-se de umgrande rio e descobriu o reino do Congo, ali ficou por unstempos. Iniciou então um processo de relacionamento coma população local, tendo embora algumas desconfiançasiniciais recomendado cautelas; mas acabou por levar aoestabelecimento de relações diplomáticas, com troca deembaixadores e a criação de amizade e respeito mútuoentre a coroa Portuguesa e o Grande Soba daquele reinoafricano. Esse tipo de diplomacia nunca mais foi excedidoem termos de eficácia, e só foi pena que não fosse mantidoo espírito inicial que a enformou. Uma outra parte da história que li com muito interessefoi o da resistência aos invasores Holandeses, criada nasmargens do Quanza, nos fortes da Muxima e de Massangano,e que foi da iniciativa e continuada e corajosa execução doaventureiro-soldado Cardonega, que a descreveu tambémcomo hábil cronista. 109
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues O Professor Vasco Rodrigues, como investigador doIICA, levou a cabo vários estudos de arqueologia. Destacodois. O primeiro diz respeito aos túmulos dos sobas da regiãoda Kibala, onde, depois de exéquias e rituais demorados,o corpo do soba falecido era preparado e guardado.Os túmulos eram construídos em pedra, e têm algumasemelhança com as monumentais pirâmides faraónicasdo Egipto. Não custa a acreditar que tenha havido, numpassado distante, alguma influência entra as duas regiões,eventualmente implicando movimentos migratórios quenão terão deixado outras marcas aparentes. Um outro estudo, que implicou várias deslocações doautor à costa do sudoeste angolano, consistiu em averiguara origem dos restos lá descobertos de uma embarcaçãoque aparentemente fizera a rota das Índias e naufragarano século XVII. O estudo obrigou ao levantamento dedocumentos históricos, onde o autor pode identificar váriasdezenas de naufrágios nos séculos XVII e XVIII e depoisorganizar o mapa da arqueologia submarina com os sítiosdesses naufrágios. Os dados encontrados permitiram a reconstituição donaufrágio daquela embarcação e do drama que envolveuos tripulantes, que terão perecido, alguns por afogamentoimediato, outros mais tarde enquanto procuravam sair dodeserto. Este estudo despertou grande interesse e curiosidade,e não escapou à cobiça do governo local, que pretendia ser 110
  • Percursos de razão e afetosele a pedir uma verba exorbitante, que desse para pagarum elevador da residência oficial e uma avioneta para o seuserviço, restando uma migalha, aliás bastante para custeara investigação. Naturalmente, o Professor Vasco Rodriguessuspendeu temporariamente o seu trabalho. No desempenho do cargo do autor no âmbitoda educação em Angola, realço dois projetos muitoimportantes: O primeiro ocorreu-lhe quando verificou que oinsucesso escolar entre os jovens africanos se devia emgrande parte às dificuldades que neles facilmente senotavam no domínio da língua portuguesa quando passavama frequentar a escola. Mais do que excluir esses jovens denovas tentativas e de outras oportunidades educativas, oautor entendeu que a solução estava em procurar realizarum esforço maior, mais precoce, e mais duradouro noensino da língua portuguesa. E assim o propôs. Ovo deColombo? Certamente; mas não para quem não gostou quea ideia tivesse ocorrido ao Professor Vasco Rodrigues e nãoao superior hierárquico a quem cabia mandar, e que porisso a recusou. O segundo projeto foi levado a cabo com sucesso, econsistiu na iniciativa de promover a renovação pedagógicaatravés de cursos ou seminários, em que os professoresdo ensino secundário tiveram oportunidade de discutir osmelhores métodos e os conteúdos mais indicados para asescolas de Angola. 111
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Por fim, não posso deixar de fazer uma referênciaaos episódios em que o Professor Vasco Rodrigues se viuenvolvido, que tanto o magoaram mas que ele enfrentoucom coragem, firmeza, e grande dignidade. Num dos casos nomeou-se o júri de revisão de provasde um aluno, nas quais ele fora reprovado. O presidentedo júri (familiar do aluno) e um dos vogais pretendiamque na revisão fosse utilizado um bónus de 6,5 valores, deque se falava em Lisboa e se esperava a todo o momentoem Luanda. O terceiro elemento do júri era o ProfessorVasco Rodrigues, que entendia que se devia aguardar quea informação escrita desse bónus chegasse a Luanda e fosseconhecida antes de aplicado. A decisão do júri foi, por isso,adiada. Mas outra solução mais simples ocorreu poucodepois ao presidente do júri: o Professor Vasco Rodriguesfoi mandado para uma missão urgente e longa para oextremo leste de Angola, e, logo que ele partiu, os outrosdois elementos do júri reuniram e o aluno foi prontamenteaprovado. O bónus nunca haveria de chegar. Outro caso passou-se com um filho de um altodirigente do governo. Reprovado pelo júri de exame eassim aparecendo na pauta divulgada num dia de manhã,foi pouco tempo depois pela presidente do júri aprovadoe assim apareceu na mesma pauta na tarde do mesmo dia.Quando a professora da disciplina em causa soube destaalteração, protestou e participou imediatamente para asinstâncias superiores. O Professor Vasco Rodrigues foiencarregado de fazer as averiguações necessárias, e veio aconcluir que a lei devia ser cumprida e a reprovação mantida. 112
  • Percursos de razão e afetosO governante, com o argumento de que tinha prometido aofilho que passaria no exame, movimentou-se em inúmeraspressões, mas nem o Professor Vasco Rodrigues nem areferida professora cederam. O pobrezinho daquele paiacabou por se conformar. Um outro caso passou-se com um filho do governadordo distrito que reprovara no exame. Duas professorasdiligentes reviram a prova e informaram o Reitor (familiardo governador) de que a professora que examinara a provade Matemática, Dra. Berta Pedrosa Afonso, não tinhaclassificado algumas das respostas e que essa falta fora acausa da má classificação. A Dra. Berta negou ter cometidoqualquer lapso e demonstrou que a prova tinha sidofraudulentamente acrescentada com respostas corretas jádepois de ela a ter corrigido e classificado. O governanteameaçou-a com um processo disciplinar, que a impediriade regressar à metrópole, como previa para pouco tempodepois. O Professor Vasco Rodrigues foi indigitado parafazer as averiguações no local, e reconheceu facilmente aevidência da fraude e que a Dra. Berta tinha razão, e podia,por isso, regressar à metrópole. Se não fosse este reconhecimento do acrescento àprova, a Dra. Berta teria sido retida, contra a sua vontade eo seu direito, em Angola. No liceu Alexandre Herculano, do Porto, tive umprofessor de matemática que todos considerávamosimenso, o Dr. Pedrosa Afonso, excelente docente e pessoahonestíssima e bondosa. Chamávamos-lhe o “Pópi”, porquetinha o hábito de usar, no sumário que ditava no inicio de cada 113
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesaula, a palavra “propriedades” (das equações, inequações,etc), sem que se lhe ouvissem bem os “r”, e soando porisso “popiedades”. Na comemoração do centenário daqueleLiceu, há alguns anos, alguém se referiu a este professorcomo nunca tendo faltado, apesar de aparentemente sofrerde um problema respiratório crónico; mas faltou uma vez,propositadamente, para não ter de marcar falta a um alunoque já tinha esgotado o número legal de faltas e não podiair naquele dia à aula. O quarto caso é ainda mais insólito. O filho de 10 anosdo autor obtivera notas excelentes em todas as provas doexame da quarta classe à exceção do ditado, onde cometeuerros na identificação de certo tipo de palavras ditadas peloprofessor, que era aparentemente um tanto disléxico. Umprofessor da escola propôs ao Professor Vasco Rodriguesque as referidas palavras fossem substituídas pela sua formacorreta a fim de que o filho não reprovasse. É claro queeste, indignado, recusou liminarmente! Não há aqui umcheirinho à tentação feita há 2000 anos a um jovem profeta,no fim do retiro que fizera no deserto, pelo príncipe doMal deste mundo? O quinto e último caso, ultrapassou quanto antes setinha visto em prepotência, desfaçatez, manha ardilosa,e vingança furiosa: um governante quis que o ProfessorVasco Rodrigues propusesse um processo disciplinar àpresumível autora dum artigo, que, sem a nomear, atingiaa sua esposa, conhecida como pouco cumpridora das susobrigações docentes. A atitude mais sensata seria o silêncio,para que o murmúrio público se extinguisse, e a mudança 114
  • Percursos de razão e afetosde comportamento, para desmentir a má fama entretantocriada, e esse foi o conselho que foi dado ao marido ferido.A recusa em participar nesta vingança valeu ao ProfessorVasco Rodrigues uma furiosa perseguição da parte daquelegovernante, o qual aos berros o chegou a expulsar doseu gabinete. Espantado e magoado, poderia de algummodo voltar a acreditar no que quer que fosse? Não lhepareceu, e bem fez ele: virou costas e regressou às origens.Reencontrou um sentido para a sua vida, o reconhecimentodo mérito, e a oportunidade de ser útil no ensino emPortugal e na Europa, onde trabalhou em lugares de muitaresponsabilidade e prestígio. Não é este o lugar, nem esta a ocasião, para umareferência aos complexos mas interessantes mecanismosneuropneumofonofisiológicos presumivelmente envol-vidos quando se faz poesia. Mas um apontamento breve,que diz respeito à parte respiratória deste processo, podeajudar a compreender o interesse das regras que, ao longodos séculos, os poetas foram construindo para satisfazer eafinar o seu gosto na expressão formal da sua composiçãopoética em palavras escritas para serem ditas, de maneiraefetiva ou imaginada. Um verso deve ser dito durante uma expiraçãorepousada normal, que envolve (num indivíduo adultomédio normal) cerca de 500 ml de ar dos pulmões para oaparelho fonador (laringe, faringe, boca). Havendo cerca de12 ciclos respiratórios por minuto, e sendo a expiração (porser passiva) um pouco mais longa do que a inspiração (que é 115
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesativa), um verso dispõe de 2,5 a 3,0 segundos para ser ditosem interrupção. Se o verso é demasiado longo, ou se sepretende dizer um ou mais versos seguidos, a expiração comque ele se diz tem de ser alongada recorrendo ao volumede reserva expiratório. Mesmo assim, se este alongamentonão for excessivo, a adaptação não é normalmente difícil.Se, porém, o alongamento for maior, ou se ele se repetirvezes sucessivas, a ventilação alveoalar pode aumentar aponto de o desvio alcalósico resultante causar um esboçode vertigem ou de dispneia, que perturba quem diz a poesiae distrai dela quem a ouve. As regras a que acima aludiestabelecem os momentos para as pausas e as bases e sinaispara a cadência harmónica que a boa poesia não dispensa. Li, deslumbrado, os três livros de poesia da ProfessoraMaria da Assunção Carqueja. Em cada poema o tema dasubstância ou essência é observado, e como que dissecado,desde o conceito no seu âmbito comum, até aos limitesonde pode levar a análise racional, e, neste sentido, emcada um deles está um exercício e uma lição cultural.Mas a substância está imbuída do mais íntimo e delicadosentimento, que lhe completa os contornos de realimanência da alma. Esta riqueza original encontrou depoisexpressão formal na musicalidade de cada verso, na escolhadas palavras, na disposição das sílabas, na colocação dosacentos, na regularidade da rima, na oportunidade dametáfora mais ajustada, na precisão e construção da frase,que satisfazem a exigência artística da poetisa e deliciamquem lhe ouve ou lê a poesia. 116
  • Percursos de razão e afetos Quase não há tema possível que tenha escapado. Desdeo tempo, que mede e acompanha a vida de quanto existe domomento em que nasce até que se extingue e tem, sobre anossa consciência do próprio destino, um efeito dominante;até ao sentimento ou opção racional da fé; à natureza econdição do pensamento; às preocupações e posições devários filósofos da história; à saudade do passado, quandoa idade já conta; ao problema terrível da droga que destróitantos jovens; aos diversos cenários do ambiente, como odo pardalito que vê pousar na varanda e, saltitando, bicavaaqui e ali; à pobreza e solidão dos desprotegidos destemundo, e a tantos outros: de tudo tratou a Professora Mariada Assunção com a mesma mestria e o mesmo jeito. Para alguns dos cenários ou aspetos particulares, asexpressões formais encontradas são tão lindas que elasganham, depois disso, existência própria e a dimensãode ditados ou aforismos, que podem ser repetidosisoladamente, por quem os tenha apreciado especialmente,para introduzir e desenvolver a descrição de um novosentimento, uma nova ideia, ou um dos membros dumametáfora. Eis alguns que recolhi, quase aleatoriamente, doslivros da Professora Maria da Assunção. Há tanto que se pensa mas se cala, e tanto, sem pensar, de que se fala. Se discutir Deus é tempo perdido, Não crer em Deus é vida sem sentido, 117
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues A nossa vida, frágil como pena, É a penar que entra e sai da cena. Ser Médico é ser atento, é ser nobre, Olhar do mesmo modo rico ou o pobre, Gostar de fazer bem a toda a gente. (Hipócrates não disse melhor no seu juramento!) Eu digo talvez mais se estou calada Ou se deixo a razão dormir em paz. Um dia vou partir... Mas tu não chores! Contigo ficará algo de mim! (Christina Rosseti também o disse: When I am dead, my dearest / Sing no sad songs for me) Ferro velho! Dum monte de projectos Não restam nem os sonhos, nem objectos, Transformados em lixo – só sucata! Já que não posso dar-tas, mão na mão, Mando-te flores, Mãe, do meu jardim, Daquele que cultivei dentro de mim. O Homem quer saber sempre “porquê” E leva o seu porquê ao infinito… 118
  • Percursos de razão e afetos Mas no limite resta-lhe só Fé, Ou ficar sufocado no seu grito! Se se perde o jeito de sonhar A vida é um triste caminhar. Eu quero ver contigo a madrugada, Eu quero ver contigo o sol poente. Pensar que Deus não existe É tornar tudo mais triste. Queria perguntar ao Criador Porque sofrem crianças tanta dor. Há pesadelos nos sonhos Que morrem ao despertar.... Mas pesadelos sem sonhos Só se vão se se sonhar! Vamos correr nas ruas e calçadas, Dar pontapés nas pedras levantadas, Voltar ao nosso mundo de meninos. Apesar de muitas vezes se pretender de outro modo,as pessoas, como tudo o mais, embora possam ostentarmuita coisa comum, caracterizam-se pela diversidade, e sãodiferentes. Mesmo que, por exemplo, a sensibilidade sejasemelhante, a atenção que ela merece, o desenvolvimento 119
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesque lhe é dado, o apuramento das suas variações, a expressãoque para ela é escolhida ou preparada, as consequências quedela são retiradas – variam de pessoa para pessoa. E entãoa reunião de todos os fatores ou mecanismos da mentepara chegar à construção das formas finais de a exprimir,sejam eles naturais ou espontâneos, ou aperfeiçoadas pelosesforço do estudo, do exercício e do treino, acabam porestabelecer diferenças marcadas, que distinguem as pessoas. Na Professora Maria da Assunção, uma conjugação felize rara de qualidades e atributos fizeram dela um exemplode poetisa natural. A poesia nasce nela já feita, como aágua cristalina nasce na fenda da rocha e corre depois comsuavidade e frescura para a fonte, para encanto de quema lê ou ouve. Quase não foi preciso educar os processosde expressão: os poemas nasceram como as flores “do seujardim, que cultivou dentro de si”. Como sinal, embora muito modesto, da minhaadmiração pelas suas poesias, vou deixar-lhe aqui três dasminhas em que recordo com saudade a minha mocidade jádistante, vivida na minha aldeia de Peredo, também desteconcelho de Torre de Moncorvo. 120
  • Percursos de razão e afetos Aldeia da minha mocidade (vista do Outono da minha vida)Where are the songs of Spring? Ay, where are they?Think not of them, thou hast thy music too,While barred clouds bloom the soft-dying day,And touch the stuble-plains with rosy hue! John Keats, To Autumn (1795-1821)Onde estais, meus bons anos do passadoE a vida que convosco eu já vivi?Onde irei reviver quanto senti,Num tempo tão feliz e descuidado?Quanta pureza havia em todo o lado,Nesses anos que tanto eu conheci!Quanto, com tanto gosto, os repeti,Mais tarde em tantos sonhos acordado!Oh! Aldeia da minha mocidade,Meu berço e referência renovada,Que a memória perfuma como a flor:Até tu hás-de ter tanta saudade,Da vida que por ti foi tão marcada,Que só de ti eu tenho uma maior! 121
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues A Torre de MoncorvoO templo de granito amorenado,Que, há muito, gente rija aqui ergueu,Tem força que faz forte quem nasceuE à sua sombra fresca foi formado.A parede é rochedo musculado,Que sobe a sustentar por cima o céu,E tanta robustez desenvolveuQue aos anjos dá um sono sossegado.A torre, essa sobe alto, aos pés de Deus,E reza-lhe com sinos a tocar;E Deus, que ouve essa música encantado,Já aqui fez, desta gente, amigos Seus:Não se cansa de a cá vir visitarE dizer que foi bom tê-la criado. 122
  • Percursos de razão e afetos Bright Star Parable of migrationThe kingdom of Heaven (our Mother Land)Is like a youth who ventured to world largeIn spite of how much his dream would charge:Friendly soil and love for just dry sand.And, when already old, weak, and tormented,He returned, his whole loss he lamented.A bright, little star in my life pastShone whil’ youth, and faith, and sight did last.You were a little girl in early teens,And I a boy in age years of yours twins,Both natives of Eden‘s land and inns.Many thought of us as each other’s match,And so did we, you and I, very much.Although we never said words of the kind,We both knew they were in each other’s mind,And, in the other’s sight, each could them find.Our families met, when winter came,In either’s homes for the fire’s flame.One evening, when seating at the back row,We felt the warm wave coming up slow;I took both your hands to my eager lips,In a way that each of us still worships.Then I kissed them many times once, 123
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesAnd we both loved dearly the romanceSoon later, a western school was my way;Far to northeast you went for equal stay.We ceased to see each other each day.Since then, no words ever said, you or I,On that evening which became our tie.Why should such a nice dream so soon die?Was it fear, shyness, jealousy, silence,Kind respect, or just the cruel absence?Oh! My missed, shining little bright star,How, why – my God! – did we get so afar?How, why, could I let your dear light decayAnd, with so impious time, fade away?Deaf and blind by the noisy urban waste,I have deceived you, myself, and Fate.If that past each of us review’d tomorrow,Perhaps both would weep tears of common sorrow!... 124
  • Percursos de razão e afetos À MULHER – MARIA DA ASSUNÇÃO Fernanda Mota Leite* Quero, hoje, agradecer a oportunidade que tive navida de contactar a privar com a Mulher que, no meio dasmúltiplas solicitações de esposa, mãe e educadora, nunca seafastou dos seus deveres de filha amorosa, sempre presentenos inúmeros problemas que a longevidade dos seus paisacarretou. Quero agradecer a honra de ter trabalhado com aMulher que, como Professora, soube granjear, com a suafrontalidade, a sincera amizade dos seus alunos. Educoupelo exemplo, com compreensão e ternura, com muitahumanidade mas, também, com muita firmeza. Procuroue soube corrigir na altura certa. Por tudo o que recebi de muita amizade da Maria daAssunção, aqui lhe deixo o meu bem-haja.* Vice-Reitora do Liceu Garcia de Orta e Metodóloga, quando Maria daAssunção exercia, também aqui, estas funções e Adriano Vasco Rodri-gues era Reitor. 125
  • Percursos de razão e afetos TESTEMUNHO DE UM PREITO INSCRITO NO PRESENTE E NO PASSADO Fernando Augusto Machado* Há dias felizes, apregoa a voz do povo quando seconsegue, encontra ou conquista o que se quer e busca ouquando o acaso faz sorrir a sorte, sobretudo quando estadeixa marca perdurável de iluminação na alma. Foi assim,no Porto, numa casualidade ligada à apresentação da RevistaCampos Monteiro, a última, datada de dezembro de 2009. Aítive o privilégio de conhecer, pessoalmente, o casal AdrianoVasco e Maria de Assunção Carqueja Rodrigues. Há menosde dois anos, portanto. Eis a razão da necessidade de justificara ousadia deste meu testemunho de reconhecimento eadmiração. Faço-o de dois modos: primeiro, pelo espelhoda qualidade relacional de tão curto espaço de tempo;segundo, pela memória de vivências marcantes de outrora,encostadas a imagens afetivas e motivacionais de figurasdespersonalizadas mas reais que me deram chão da saber* Professor Catedrático da Universidade do Minho (aposentado). 127
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesapetecido, que tão tarde reencontrei e que aqui evoco,singelamente. Os percursos evolutivos das línguas encerram, atravésdas suas polimorfias etimológicas, tesouros inauditos deinformação, e podem patentear fecundos sentidos de históriae de cultura dos povos e da humanidade. Ora, escreve-se noDicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José PedroMachado, na entrada Homenagem, que este é termo queproveio do provençal ou, talvez antes, do antigo francêsomenage, derivando este do latim hominaticu-, de homine-,«homem»… Assim, celebrar homenagem será, antes demais, o reconhecimento de se ser Homem, realçando nestea superioridade que o distingue, por essência, do animalnão homem. Por decorrência, e transpondo o paradigma daespécie para o conjunto dos indivíduos que compõem esta,será susceptível de homenagem o indivíduo que adquirarealce assinalável no quadro da essência e realizaçõesrelativamente aos seus pares na espécie! Tudo, então, nocaso presente, se torna claro relativamente ao ato que nospropusemos realizar relativamente ao Professor Adriano,homem, e à Dra. Maria de Assunção, mulher. E registo adiferença de géneros porque a própria evolução etimológicaacabou por consagrar bem cedo, mais prematuramente doque o aparecimento dos frutos da longa luta pela igualdade,a necessidade de eliminar a discriminação para tão honrosoato, adoptando o termo, à revelia da raiz que o sustentava,o género feminino, antes do ano de 1289: a homenagem,palavra de género feminino. Nesta base, fácil é provar, querpela estrutura essencial que os caracteriza o casal em causa 128
  • Percursos de razão e afetos– inteligência, sentimentos e valores – quer pelo esteiosubstantivo dos registos de vida conhecidos e que dãocorpo àquela essência, que tem toda o sentido e se impõeo nosso preito a estas duas destacadas figuras nacionais e danossa região. O quadro destes registos, não de todos, naturalmente,mas dos mais públicos, é conhecido: a relevância dainteligência e seus usos, notada na fecunda e variadainvestigação científica e cultural, na invejavelmente fértilprodução intelectual, na criação poética, na arte e no rigorpedagógicos; a solidez e grandeza dos afetos que sustentamuma tão prolongada quanto viva relação mutua edificativa eexemplar e que irradia de forma tão transparente para todoo círculo humano envolvente, quer se tenha o privilégioda sua amizade, se seja tão só conhecido ou se estejasimplesmente presente; a elevação dos valores que se tornapatente quer no pujante esteio humanista que trespassaos seus pensamento, escrita e ação, quer no continuadoexercício de cidadania nos campos científico e cultural,social e político nos mais variados vetores, de muitodiferentes formas e em campo nacional e estrangeiro.O Caderno Especial de Homenagem que a Revista Altitudede outubro de 2009 (n.º 12, IIIª Série) dedica ao Dr.Adriano Vasco Rodrigues e o n.º 1 da Revista CEPIHS(Centro de Estudos e Promoção da Investigação Históricae Social, janeiro de 2011) que é dedicado ao casal e que oconsagra como patrono da associação nascente, fornecemdados suficientes para a solidez destes juízos e valorações.Enfim, a curta convivência presencial que tive com os 129
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigueshomenageados, embora lamente a curta experiência, nãoprejudica a qualitativa e subida representação construída. Não queria, contudo, deixar de testemunhar o meuapreço por casuais e despersonalizados encontros dopassado. De facto, a circunstância do encontro presencialatrás referido conduziu-me à lembrança de uma espéciebibliográfica presente e cuidadosamente guardadanuma prateleira da minha biblioteca que acolhe algunsexemplares mais estimados do meu percurso estudantil.Foi lembrança que confirmei no próprio dia do encontro,e que compulsei vagarosamente e com emoção. Trata--se dos dois volumes da História Geral da Civilização, oumelhor, do primeiro volume, que o segundo foi-se numempréstimo não retornado. É uma 3.ª edição melhorada,como o rosto regista. Lá está o autor, Adriano VascoRodrigues, Professor Efetivo do Liceu de Nova Lisboa eex-Professor no Liceu Normal do Porto! Lá estão os meussublinhados quase contínuos, sintomáticos de julgadaimportância de quase tudo o que no volume estava escrito,e as margens todas anotadas com literatura empobrecidarelativamente ao texto original, ali tão perto! E lembro-mede parar nos “Textos e Documentos”, ilustrativos da rubrica“A Cultura Científica Grega”, que faziam seguir o célebree curioso Juramento de Hipócrates, de um texto sobre músicagrega, com explicações fantásticas e ilustração pautalcom claves de sol e de fá! Quanta investigação, quantaleitura, quanto poder de boa seleção para que os alunosnão se enfastiassem e tivessem boa base de aprendizagem!Celebrei, então, com emoção, o reencontro, recordando 130
  • Percursos de razão e afetoso prazer do texto, para usar expressão de Roland Barthes,as discussões da matéria que ele me proporcionou com oamigo e colega de quarto, o António Caldeira Azevedo,a suculenta aprendizagem que me proporcionou e até osucesso em exame que me garantiu! Pois bem, para alémda modernidade dos objetivos e metodologias que a obraapresenta, modernidade que logo nos Prefácios das trêsedições se adivinham e que a globalidade da obra maisainda demonstra, lá aparece, no fim do Prefácio da segundaedição, a referência que confirma que, afinal, se tratou já,há tanto tempo, de um encontro a três: eu, o ProfessorAdriano e a Dra. Assunção. Diz-se lá “Seria injusto senão deixasse aqui uma palavra de reconhecimento para aminha esposa, também professora de História, no Liceu,que colaborou na pesquisa bibliográfica e na revisão do texto” 1.Foi um encontro despersonalizado, é certo, mas longo eintenso, com marcas na alma que hoje compartilho comreconhecimento, satisfação, orgulho e saudade. Recorro, para remate deste curto e simples texto, aodizer que só a pena primorosa e criativa dos poetas é capazde exprimir e que a de Maria de Assunção Carqueja tãosensivelmente escreveu no poema Tempo de Memória: Às vezes fecho os olhos, pois agora, Vejo melhor o que já vi outrora!21 O sublinhado é da minha responsabilidade.2 Maria da Assunção Carqueja, Os tempos do Tempo – Poemas. Editor, Adria-no Vasco Rodrigues, 2005, p. 17. 131
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES UM BEIRÃO CIDADÃO DO MUNDO Francisco Ribeiro da Silva * As boas e gratas gentes da Torre de Moncorvo muitojustamente querem prestar homenagem a um casal exem-plar, com raízes na região, assumidas, nunca esquecidas,sempre transportadas para o exterior, nos diversos sítiosdo Mundo aonde as vicissitudes da vida os levaram: Felgar,Guarda, Porto, Coimbra, Lisboa, Angola, Bélgica, etc. Porisso, e pelos valores com que programaram as suas vidas,Maria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues,lusitanos de gema, merecem o epíteto de cidadãos do mundo. Convidado a escrever algo para o evento, faço-o commuito agrado e centrarei a minha atenção no curriculumdo Professor Adriano Vasco Rodrigues, sem deixar deexprimir a minha profunda admiração pela Professora,ensaísta, escritora, poeta e mãe que é Maria de Assunção. O Curriculum Vitae de Adriano Vasco Rodrigues é detipo poliédrico e, como tal, constituído por várias faces.* Professor Catedrático da Universidade do Porto (jubilado) e seu Vice-Reitor entre 2001-2006. 133
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues I – Começarei por dar relevo aos aspetos que vincam oseu ideal humanista e humanitário, sublinhando a) O seu espírito de tolerância e abertura Embora seja um especialista dos estudos sobre Judeus em Portugal (como bom beirão que é) e fundador da Associação de Amizade e Relações Culturais Portugal-Israel, isso não o impediu de fundar uma Cadeira de Islamismo na Schola Europaea de que foi Diretor e de ter defendido, como deputado na Assembleia do Atlântico Norte, as minorias muçulmanas da Rússia. Acrescentarei que a dita Escola, durante a sua Diretoria em 1994 foi distinguida com o título de Escola Sem Racismo. É importante lembrar que era, então, frequentada por jovens de 32 países. b) O seu espírito de cidadão do mundo levou-o a celebrar então um protocolo com a Rússia que previa o intercâmbio de alunos e professores e iniciou diligências para um protocolo semelhante com a China. c) Provavelmente foi o seu espírito altruísta que o levou a deixar o conforto da terra e o levou para a África, mais concretamente para Angola (1965- -1969), onde exerceu as altas funções de Inspetor Provincial Adjunto do Ensino e onde levou a cabo importantes missões científicas ao serviço do Instituto de Investigação Científica. Entre 1966 134
  • Percursos de razão e afetose 1969 dirigiu frutuosas escavações nesse grandepaís lusófono e tornou-se um profundo conhece-dor e divulgador da arte angolana.d) Militância pelos direitos humanos – Sendodeputado para a Assembleia do Atlântico Norte(1981-1983) e tendo sido eleito Relator para alivre circulação de pessoas, trabalhou em favordo respeito pelos direitos humanos na Polónia, naRússia; integrou a task force que tentou fomentar oregresso à democracia na Turquia. Não admira quea subcomissão a que pertencia tivesse sido recebidae acarinhada pelo Papa João Paulo II, o qual lhe ofe-receu uma medalha que foi colocada na Exposição.Na mesma ordem de preocupações, julgo deversituar a sua atuação (1981-1988) como Presidenteem Portugal da Associação Internacional para aDefesa das Democracias.e) As suas preocupações humanitárias vêm delonge e levaram-no a muito precocemente, em1973, a frequentar um estágio na Hermann-Hesse--Schule, em Frankfurt, para reintegração socialde jovens drogados e a participar em Genève numseminário sobre anti-semitismo, sob o patrocíniodo Ministro da Educação o Professor Veiga Simão,ilustre filho desta terra. 135
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues II – Profissionalmente, Adriano Vasco Rodrigues é,sobretudo, um Professor e um Pedagogo Preparou-se bem para a função docente não só sobo ponto de vista pedagógico como científico. Na buscade uma boa base de preparação profissional e na suadedicação ao trabalho, constitui um verdadeiro exemplopara as novas gerações de professores e de profissionaisde outros ofícios. O Professor Adriano, nesse aspeto, temfeito aquilo que se chama na linguagem universitária atual«a aprendizagem ao longo da vida». De facto, para além dapreparação corrente obtida na Escola do Magistério e naUniversidade de Coimbra, frequentou um sem-número decursos no estrangeiro que lhe deram bagagem substancial,numa época em que a mentalidade era a de obter o canudoe depois colher os respetivos rendimentos. Vejamos: curso de língua e cultura espanhola naUniversidade de Santiago de Compostela, especializaçãoem arte medieval na mesma Universidade, estágiona Universidade de Bona em técnicas de arqueologiatridimensional; frequência de um curso intensivo de inglêspara Professores do ensino secundário; participação emsimpósios científicos em Pretória e em Leida (Holanda);frequência de seminários sucessivos na Inglaterra, naDinamarca, na Bélgica e na Alemanha que lhe deramsegura vantagem quando se candidatou a Diretor da ScholaEuropaea, como veremos. E percorreu todos os graus de ensino. 136
  • Percursos de razão e afetos Foi Professor do Ensino Primário, no Porto entre1951 e 1956. Durante esse período, sem deixar de trabalhar,licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas pelaUniversidade de Coimbra, completando essa formação como Curso de Ciências Pedagógicas que o habilitou a transitarpara o ensino liceal. Nesse nível percorreu todos os degraus,desde Professor eventual até Presidente dos Exames deEstado para Professores e Orientador Pedagógico Regionalda disciplina de História. E não se limitou a ensinar. Elaborou um Compêndiode História, História Geral da Civilização, em dois volumes,para os alunos do 3.º ciclo que foi muito conhecido naépoca. Aliás, conheceu 8 edições entre 1962 e 1975. E como não poderia deixar de ser, foi Professor doEnsino Superior Universitário. Primeiro (1958-1962), no Centro de Estudos Huma-nísticos, anexo à Universidade do Porto, colaborando dessaforma com a sua quota parte para que viesse a ser fundadaa minha Faculdade, a Faculdade de Letras da Universidadedo Porto. Depois, na Universidade Livre do Porto, entre 1978e 1982. Finalmente, na Universidade Portucalense InfanteD. Henrique desde 1986, lecionando Cadeiras nas áreas daArqueologia, da Numismática e da História da Arte. Como pedagogo de eleição e gestor escolar, organizoue foi Reitor do Liceu Garcia de Orta na cidade do Porto, 137
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesque na época (1969) foi um liceu piloto porque se neleiniciou uma experiência que hoje é normal mas que entãoparecia um risco: a coeducação de rapazes e raparigas.O Liceu Garcia de Horta foi o único liceu do país que nãoteve a Mocidade Portuguesa e que fechou no dia 25 deAbril de 1974 a pedido do MFA, feito ao Professor AdrianoVasco Rodrigues pelo Major Herculano Matos que fora seucolega no Liceu da Guarda. Outra medida pioneira foi a criação de um Infantáriopara acolher filhos de professores e funcionários e,eventualmente, irmãos infantis de alunos que deles fossemamparo indispensável. Tudo correu muito bem e, ainda hoje, a EscolaSecundária Garcia de Orta mantém elevados padrões dequalidade. Desde 1 de setembro de 1989 até 1 de setembro de1996, na sequência de candidatura internacional e pornomeação do Conselho Superior dos Representantes daeducação dos países da então CEE exerceu o alto cargo deDiretor da Schola Europaeia. Tendo cessado funções em1996, passou a usufruir do título de Diretor-Jubilado dessaEscola. As suas capacidades de gestor escolar indigitaram-nopara Diretor-Geral do Ensino Particular e Cooperativo,numa época (1983-86) em que se exigia do titular destecargo grande equilíbrio, ponderação e alguma coragem, 138
  • Percursos de razão e afetosdada a conjuntura difícil para o ensino privado de nívelsecundário. Era Chefe do Governo o Dr. Mário Soares. A qualidade do seu desempenho foi reconhecida porpúblico louvor do Ministro da Educação. III – O Homem de cultura e o investigador Outra faceta notável do nosso querido amigo é ogosto e a propensão para a investigação científica e para adivulgação. Investigou nos domínios da Arqueologia, da Históriade Arte, da Numismática, da Antropologia, das SociedadesJudaicas em Portugal e até da Literatura. Refira-se pelasua importância e prestígio a direção do Gabinete para arecuperação do Teatro Romano de Lisboa (1986-1989)de que foi feito um estudo publicado pela Ordem dosEngenheiros. Lembre-se ainda que na mesma época obteveequiparação a bolseiro para um projeto de investigaçãosobre cultura e arte africanas. E não esqueceremos ostrabalhos de prospeção arqueológica que muito cedo(1960-1989) levou a cabo nos concelhos da Meda, de Torrede Moncorvo, do Sabugal, de Figueira de Castelo Rodrigoe da Guarda, principalmente Mileu e Cabeço das Frágoas,onde se descobriu uma curiosa inscrição lusitana. Divulgou o que ia investigando e aprendendo. Divulgou como? Organizando e participando emCongressos, inclusive servindo como secretário-geral – oque demonstra toda a sua capacidade de servir. 139
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Do mesmo modo, fez divulgação da ciência e dacultura através de conferências, palestras e comunicações. Divulgou ainda através de várias e sucessivasExposições e da organização de cursos sobre os temas dasua predileção: exposições de arte africana, no Porto e noMuseu da Guarda; na Escola Europeia; em Potsdam, naAlemanha; na Universidade Portucalense, em Almeida. Divulgou planificando filmes, como foi o caso deuma película muito sugestiva sobre a presença judaica emPortugal, produzida para televisão e apresentada em TelAviv em 1989. Divulgou colaborando na criação do Museu Judaico,em Belmonte, no qual cerca de 90% das peças são da famíliadele e de sua Esposa Dra. Maria da Assunção Carqueja.Aliás, foi ali criado o Centro de Estudos Judaicos a quederam o nome de Adriano Vasco Rodrigues. Divulgou fundando ou dirigindo revistas científicascomo foi o caso da Lucerna de que foi fundador e co--diretor, da Revista de Ensino em Angola de que foi diretore da revista Altitude de que foi diretor desde 1978 até2008. Divulgou escrevendo livros, ensaios e artigos. Paraalém dos artigos de jornal, cujo número provavelmente elepróprio ignora, é autor de mais de 100 títulos. Colaboroudesta forma em várias revistas de que destaco: Nummus, Horizonte, Zephyrus (Universidade de Sala-manca), Humanitas, Revista de Guimarães, Studium Generale,Beira Alta, Labor, Lucerna, Altitude, Revista de Engenharia,Revista de História, Africana, Revista de Ciências Históricas, 140
  • Percursos de razão e afetosMuseu, Amigos do Porto, Praça Velha (Revista do Município daGuarda), OR (palavra hebraica que significa luz) de que foiDiretor e, obviamente, na Revista CEPHIS. Colaborou ainda nas Enciclopédias Verbo e Luso--Brasileira, no Year-book da Europese School da cidade deMol, de que foi Diretor, no Bulletin Pédagogique da ScollaEuropea. Alguns dos seus trabalhos foram traduzidos paraneerlandês e francês (Universidade de Dijon). Escusado será dizer que muitos dos seus títulosversam sobre temas da Guarda, sobre a história de Felgare das Terras de Torre de Moncorvo e de outros lugaresimportantes das Beiras. Os seus inúmeros artigos visamdar a conhecer e valorizar o património. Mas não menosimportante é a preocupação de despertar as pessoas para ariqueza cultural da região. Como homem de Ciência, é sócio de várias academias.Permitam-me que saliente aqui a Academia Internacionalde Cultura Portuguesa, a Sociedade de Geografia de Lisboa,a Associação Portuguesa de Estudos Judaicos, a AssociaçãoBrasileira de Folclore, a Academia José Moreira da Silva, naqual representou a Universidade Portucalense, o Grupo deArqueologia Naval do Noroeste, a Sociedade Portuguesa deNumismática, a Cooperativa Árvore (no Porto) de que foifundador, a Associação de Jornalistas e Homens de Letrasdo Porto, de que foi Presidente. 141
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues IV – O cidadão interveniente – o homem do serviçopúblico Na personalidade polifacetada e dinâmica de AdrianoVasco Rodrigues não poderia faltar a dimensão do homempúblico, do político no sentido de agente e zelador do bempúblico. Exerceu tarefas e cargos políticos tanto a nívellocal, como nacional e, também, internacional. A nível local – foi Vereador independente da Câmarado Porto. Foi Governador Civil do Distrito da Guarda em cujoexercício deu provas do seu espírito aberto e partidariamenteisento. A valia do seu desempenho foi publicamentereconhecido pelo louvor conferido pelo, então, Ministroda Administração Interna. Quando, descontente com ocomportamento de membros do governo em relação aoDistrito da Guarda, todos os Presidentes das Câmaras doDistrito, de várias cores políticas, reunidos no Sabugal,pediram ao recém-eleito Primeiro-Ministro, Dr. MárioSoares, que o convidasse para o mesmo cargo. Foi de factoconvidado, mas por razões de coerência não aceitou. A nível nacional, foi Deputado da Assembleia daRepública (1976-1983) onde proferiu cerca de umacentena de intervenções e onde, como Membro daComissão de Educação, desenvolveu magníficas tarefasem prol da elaboração de leis importantíssimas, como aLei de Bases do Sistema Educativo e Reforma do Estatutodas Universidades, para além de ter desempenhado papel 142
  • Percursos de razão e afetosativo na preparação da criação das Universidades de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Beira Interior. A nível internacional, foi membro da Comissãode Educação da Assembleia do Atlântico Norte, ondefoi Relator do Subcomité de livre-trânsito de pessoas einformações, preparando, de certo modo à distância o queviria a ser o Acordo de Schengen. Sublinhe-se, mais umavez, o papel importante que aí teve na defesa dos direitoshumanos e em prol da melhoria das relações leste/oeste. V – Não poderia terminar sem sublinhar outra facetaexemplar: a participação cívica em movimentos associativose cooperativos ligados ao Ensino, à Cultura, ao FomentoRegional. Como já referi, foi Fundador da CooperativaÁrvore no Porto (que tem sido de uma produtividadeexemplar e pioneira em muitos setores da arte e da cultura),foi fundador da Cooperativa Universidade PortucalenseInfante D. Henrique, da Escola Profissional de EconomiaSocial e da Escola Superior de Economia Social. Nestaperspetiva cívica coloco a fundação da Associação dosProfessores de História Euroclio – Écoles Européennes eainda, a Associação Cultural dos Amigos do Porto e a dosAmigos de Luanda. VI – Como seria de esperar num homem com esteperfil, teve reconhecimento nacional do mérito dosseus serviços prestados ao país no estrangeiro, como odemonstra a atribuição, em 1996, da Comenda da Ordemdo Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Dr. 143
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesJorge Sampaio. A nível local, importa referir que recebeu amedalha de oiro da Câmara do Porto e que foi feito cidadãoemérito de Almeida, neste ano de 2011. VII – Não devo encerrar esta visita ao curriculum deAdriano Vasco Rodrigues sem fazer uma breve referênciaao seu sentido de família, de cuja falta o mundo de hojetanto padece. Marido sempre atento, solícito e preocupadocom a saúde da sua esposa, Dra. Maria da Assunçãoque, por sua vez, é uma mulher de grandes e invulgarescapacidades. Pai e mãe dedicados e venerados pelos seusfilhos que aprenderam bem as parentais lições de cidadania,de probidade, de ética e da solidariedade com os outros. Eis em traços muito largos o esboço da figura que asforças vivas de Felgar e da Torre de Moncorvo entenderamdever apontar como exemplo, não em virtude de qualqueroportunismo de ocasião, mas por imperativos de justiça ede gratidão por toda uma vida progressiva e continuamenteexemplar. A grandeza de um país e de uma cidade não émedida apenas pelos índices de progresso material oupela riqueza do património construído e pela valia da suahistória. Tudo isso é deveras importante. Também contam,e muito, nesse quadro de honra as pessoas notáveis que aterra, a cidade ou o país foram capazes de suscitar. Aliás,desde o século XVIII, nos inquéritos de tipo corográficoenviados pelo poder central às cidades, vilas e aldeias e nasMemórias das terras, quase sempre constava uma pergunta 144
  • Percursos de razão e afetossobre as pessoas notáveis nas letras, nas armas e na virtude,que a terra produzira. Pois bem.AdrianoVasco Rodrigues e Maria da AssunçãoCarqueja estão por direito próprio e a vários títulos nessequadro intemporal de personalidades das terras da Torrede Moncorvo e da Guarda. Alegro-me como amigo doshomenageados mas, sobretudo, pela justiça do seu repetidoreconhecimento público. 145
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES Gaspar Martins Pereira* Quando uma amiga duriense, a Otília Lage, mepediu para colaborar, com um testemunho pessoal, nestahomenagem a Adriano Vasco Rodrigues, fiquei preocupado.Era inquestionável a minha pronta e sincera adesão àmerecida homenagem ao amigo e cidadão invulgar, aohomem de cultura, defensor entusiasta do patrimónioe adepto de um modelo de desenvolvimento integral eharmonioso do território e da humanidade, com quempartilhei, e partilho, um bom número de causas. Mas sabiade antemão que qualquer testemunho que tentasse passarao papel ficaria sempre muito aquém da personalidadedo homenageado, o que me deixava a sensaçãodesconfortável de quem quer dizer algo e não é capaz.E, mesmo dando desconto a essa dificuldade de expressão,o meu testemunho seria sempre parcelar e parcial, já quesó tive o prazer de conhecer, pessoalmente, o Adriano* Professor Catedrático da Universidade do Porto. 147
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesVasco Rodrigues há pouco mais de vinte anos e, desdeentão, a nossa relação tem-se alimentado de encontrosbreves e esporádicos. Têm sido momentos solares, emque tenho tido o privilégio de beneficiar não só da suaamizade franca e autêntica como de uma parte do seusaber, simultaneamente enciclopédico e universalista, naperspetiva do humanismo que cultiva, e local, preso à terrados seus ancestrais, de Trás-os-Montes, do Douro e daBeira, em particular, um saber que distribui a rodos, coma sua arte rara de conversador. São, para mim, fragmentospreciosos de vida que guardo na memória. Mesmo assim,fragmentos, que sei incapazes de revelarem a verdadeiradimensão intelectual e cívica de Adriano Vasco Rodrigues. Certamente, não seria difícil recordar o espírito liberalque manifestou, ainda nos anos da ditadura, quer na suamissão em Angola (que recordou no seu mais recente livroDe Cabinda ao Namibe, publicado em 2010) quer, depois,já no final do regime, como Reitor do Liceu Garcia deOrta. Ou, após o 25 de Abril, a forma livre como exerceutodos os cargos que lhe foram confiados, tanto por eleiçãocomo por nomeação, desde o de deputado à AssembleiaConstituinte ao de Governador Civil da Guarda ou, depois,ao de Diretor da Escola Europeia, em Bruxelas. Nem seria difícil destacar o pioneirismo com que seaventurou em múltiplas campanhas arqueológicas, ou emestudos de história local, ou, ainda, em temáticas específicas,como a história dos judeus portugueses, a arte africana oua numismática. Apesar de não se ter integrado na carreirauniversitária pública, e ainda mais por isso, o contributo 148
  • Percursos de razão e afetosdas suas investigações é valioso. Não é este o local certopara qualquer recensão da sua imensa obra, com centenasde títulos, que vão da Arqueologia à História da Arte, daHistória Local à História Universal (a História Geral daCivilização, que escreveu com sua Mulher, Maria da AssunçãoCarqueja, formou muitos milhares de estudantes da minhageração), da Pré-História à História Contemporânea, semfalar das suas reflexões sobre a pedagogia, a tolerânciareligiosa, o multiculturalismo, o património e muitosoutros temas. No conjunto, é uma obra monumental, queo Adriano Vasco Rodrigues não deixa de aumentar a cadaano que passa. Que sejam muitos e bons, ainda, pois serão,certamente, produtivos. E que sejam, também, partilhadospor Maria da Assunção Carqueja, igualmente com umaatividade intelectual invulgar, que se cruza, aqui e ali, coma do seu Marido, em diversas obras de colaboração (desdea já referida História Geral da Civilização à monografia sobreFelgar, recentemente publicada). À extensa obra publicada, Adriano Vasco Rodriguesjunta uma atividade ímpar de divulgação, com inúmerasconferências, no país e no estrangeiro, e uma entusiasta eirradiante ação cívica em defesa da cultura, da memóriae do património, desde a fundação e direção de diversasrevistas à criação de museus e associações ou à organizaçãode cursos livres, congressos, exposições e outras formasde difusão do conhecimento. Qualquer simples listagemdessas ações culturais e cívicas de Adriano Vasco Rodriguesocuparia muitas páginas e correria sempre o risco de serincompleta. Bastaria referir o seu apoio decisivo à criação 149
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesdo Museu Judaico de Belmonte, não por acaso associado aum Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues.Ou a direção da revista Altitude, que assegurou durante 27anos… Mesmo em registo breve, não poderia esquecer oapoio que Adriano Vasco Rodrigues prestou ao projetodo Museu do Douro, nos tempos difíceis em que muitosduvidavam da sua concretização. Nesse combate, que uniuos durienses, esteve sempre na primeira linha, com o seuentusiasmo e determinação. Pela minha parte, durante ameia-dúzia de anos em que assumi responsabilidades nadireção desse projeto, posso testemunhar que o estímuloque recebi de Adriano Vasco Rodrigues foi sempre dos maissólidos e constantes, ajudando-me a não esmorecer, mesmoquando se multiplicavam os obstáculos e as contrariedadesque esse projeto teve de enfrentar. Não por acaso, em julhode 2002, esteve entre os primeiros sócios fundadores daAssociação dos Amigos do Museu do Douro. Acima de tudo, a par da sua vasta obra, Adriano VascoRodrigues é o exemplo de cidadania ativa de um Homemde cultura humanista e universal. 150
  • Percursos de razão e afetos EM JEITO DE OBLATA João de Castro Nunes* A Dra. Maria da Assunção Carqueja tem na alma odoloroso estigma dos Poetas de eleição, essa portentosaraça que tem lugar cativo à mesa de Deus, com Elepartilhando alegoricamente as suas refeições, como umdia escrevi e largamente foi difundido a propósito de umoutro inconfundível vate transmontano da zona duriense, oatormentado Torga: Só Deus os faz e a Natureza, só Deus faz os Poetas, essa raça de Orfeus discriminados pela graça de terem um lugar à sua mesa! Mais que um privilégio, que também o é, não deixade ser uma punição pela distinção conferida e consequentesegregação da restante coletividade humana, condenada econformada em viver longe das estrelas. Um privilégio que* Professor Catedrático (jubilado). 151
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesse paga caro, frente à permanente e persistente polarizaçãoda mente do Poeta obcecado pela busca incessante epertinaz da perfeição, nunca atingida, da construçãoliterária afanosamente pretendida. Que frustrações! Quemnão recorda o Santo Antero: Recebi o baptismo dos poetas e fiquei triste! Só que a Dra. Maria da Assunção Carqueja nãoficou nem “pálida” nem “triste”, porque superou essadececionante desilusão anteriana. Pese às inevitáveis doresdo parto literário, realizou-se em alegria nas mensagensque nos transmitiu, pletóricas de sonoridades musicaise rítmicas cadências vocabulares em torno de ideias econceitos, sentimentos e fruições de excelência e virtualou virtuosa qualidade. A sua poesia é uma evasão de almaque , por empatia, nos levanta o espírito e nos faz vibrara sensibilidade em consonância com os mais altos e maisexigentes padrões morais. A Dra. Maria da Assunção Carqueja pertence a essaraça eleita dos Orfeus, o que, por ela, evidentemente nãofestejo, pois o labor poético é caminho de muitas agruras,dificilmente partilhadas. Opera-se em silêncio e na solidãodo processo criativo. Não se é Poeta impunemente!Vencidosos recifes, porém, chega a hora suprema da compensação,que mais não é que a santificação do vate, pois a Poesia é,na sua primordial essência, a exaltação de tudo o que, na 152
  • Percursos de razão e afetosnatureza por Deus criada, é estruturalmente bom e beloe simples e visceralmente autêntico. Poesia, com letracapital, é penhor de santidade! Longe, porém da dramaticidade e da ascese dosmortificados, a autora do Jardim da Alma canta, emprimorosa forma, de clássico recorte e cadenciados ritmos,a intimidade onírica das suas lucubrações, o cosmoramadas suas relações sociais, os seus amigos mais próximos, osseus familiares, as suas preferências, a natureza do meio emque a sua operosa vida decorreu, incluindo e destacando abucólica evocação da terra que lhe foi berço, nos entornosde Moncorvo. Se queres conhecer o poeta, começa porconhecer a sua aldeia, recomendava Goethe. Pelas cordas do seu violino passa o toque dos sinosque festivamente repicaram no dia do seu baptismo e,porventura, no do seu auspicioso enlace matrimonial; adesassombrada afirmação da sua fé religiosa; a fidelidadeaos amigos; o seu desvelado apego à família; o seu afetoconjugal, o maior e o mas santo de todos os amores, nopresente caso envolvendo a pessoa de um velho Amigo eColega meu nas divagações arqueológicas por terras beiroas,suas pelas raízes e minhas por adoção, o Dr. Adriano VascoRodrigues. Um processional desfilar e desfiar de vivênciase saudades entranhadamente sentidas e melodicamentetranspostas para o verso alcandorado em verdadeira poesia.Em suma, uma vida plenamente assumida e concretizadaao calor de princípios morais e valores de toda a ordem 153
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesnunca preteridos ou secundarizados, muito embora porvezes questionados ou abalados por fortuitos desencantos,legítimas dúvidas ou passageiras desilusões logo superadas e,por assim dizer, trocadas por mais firmes e mais inabaláveisconvições. Lendo e relendo a sua já relativamente longa e ricaprodução poética, designadamente o livro de poemasintitulado Jardim da Alma, hoje em maior destaque, constatoque a Dra. Maria da Assunção Carqueja chegou ao topodo calvário, alinhando em honrosa parceria e com nãomenor sucesso, neste particular, com a restrita plêiade lusade Poetas, de estripe feminina, da craveira das Florbelas,Sophias, Natálias e, mais recentemente, a sonetista CéliaCelso: idêntica sensibilidade, o mesmo domínio técnico doverso, igual carisma.Varia a substância, tratada sempre comexímia virtuosidade em termos de expressão formal dosseus mais nobres e lídimos sentimentos próprios. A Poesia,sendo a sua irrecusável via dolorosa, foi, e certamente aindao é, causa também da sua transfiguração nas lides literáriasdo seu viver quotidiano, superando-se a si mesma e doando--se em plenitude aos seus leitores, a par das suas congénerese consagradas sibilas do mundo das letras pátrias. Honra lheseja! Na hora das congratulações, tão justas quantomerecidas, este é o meu tributo propiciatório, frutoevidente da minha admiração e testemunho iniludível dapessoal estima de um poeta menor! 154
  • Percursos de razão e afetos APRENDER E REFORÇAR IDEAIS COM O EXEMPLO DOS MAIORES João S. Campos* Ao prestar o testemunho que me é pedido é dúplicea vontade: a de imediatamente querer corresponder comalegria mas, simultaneamente, sentir uma certa retraçãopor saber, à partida, que não poderei transmitir quantoquereria. Devo dizer que beneficio do contacto, próximoe exaltante, com o Casal Assunção e Adriano desde hárelativamente poucos anos, embora a mim me pareça quevai já para muito tempo. Lembro-me como foi: numa vernissage de um comumAmigo Pintor reparei na irradiante simpatia do Professore meti conversa – coisa que, com ele, é natural e bom,como respirar. Expliquei-lhe então como lhe era devedordo contributo que ele me dera como sentido para a minhaformação.* Arquiteto. 155
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues O caso é que toda a minha formação académica passoupelo facto de, no currículo liceal, não me ter afastado dadisciplina de História, o que me conduziu aos manuais do6.º e 7.º ano, da autoria de Adriano Vasco Rodrigues. Foiuma lufada de ar revigorante: muito jovem e em plenoregime do antigamente, tive a surpresa de encontrar prazerna maneira de aprender, percebendo a utilidade que oconhecimento da História poderia ter naquilo que um diagostaria de fazer. Poucos são habitualmente os livros de estudo queemparceiram na galeria pessoal dos espécimes especiaisduma bibliografia de estimação, como essa minha HistóriaGeral da Civilização1, já da terceira edição, e na minha possehá 45 anos. Claro que eu pensava que era uma espécie deafortunado por esse privilégio do contacto com alguémverdadeiramente especial. Mas não: ao longo do tempotenho repetidamente topado com uma sucessão de pessoasreclamando-se do mesmo que eu, e – devo já acrescentar –não apenas do lado do Professor Adriano Vasco Rodrigues,mas igualmente do da Doutora Maria Assunção Carqueja,observando eu como ambos são cumprimentados pordiscípulos, saudosos e enlevados. A ponto de começar a pensar que o melhor talvezseja criar-se uma espécie de clube em que os felizardosse passem também a conhecer-se… Podia ser chamado1 A primeira edição, da Porto Editora, Porto, data de 1962. Até 1975foram feitas oito edições da obra, em dois volumes. 156
  • Percursos de razão e afetosde muitas maneiras: por exemplo, e de uma maneirafantástica (agora até está na berra por causa dos ratings ecoisas parecidas), o Clube AAA, Triple A, o dos Amigos deAssunção e Adriano… A perspicácia do Saber e a ductilidade da Erudiçãode ambos, associadas à sensibilidade rara para a Estética,nos diversos planos das suas manifestações, têm propiciadoincursões marcantes de Maria Assunção Carqueja e deAdriano Vasco Rodrigues nos mais variados capítulos daLiteratura ou do Ensino, da História daArte e daArqueologia,revelando-nos aspetos focais do Conhecimento da CulturaPortuguesa. Os nossos queridos Autores oferecem-nos, conti-nuadamente, uma Vida de belos registos e de recensõescientíficas do que vão efetuando. Uma vida de Exemplos. Como já fiz noutro lugar, peço aqui também autorizaçãopara deixar mais bem explicitado este testemunho pessoal.Visto daqui e agora, quando estou já ratificando uma vidade trabalho, o meu percurso ficou marcado bem cedo: taldevera-se, como dei a entender no começo destas linhas, àcircunstância de, ao decidir que seria arquiteto – não saberiaexatamente porquê – o prato da balança ter pendido paraaí por causa da História. É que, à força de ter que optar,na matrícula do meu 3.º ciclo dos Liceus, no já distanteano de 1966, fi-lo por um alinhamento curricular que nãome apartasse da História, essa companhia que sempre mebalizou, por não conceber as coisas sem o enredo que astorna úteis, como explicação do Mundo. 157
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Eis-me aqui portanto, extrapolando sobre o quede mais atávico encontro como genuína razão para medizer orgulhoso e muito honrado por poder usufruir dacompanhia e do companheirismo de Amigos que são umcasal dos mais probos pais de família e trabalhadores (daHistória, da Filosofia e do Ensino em Portugal): se souarquiteto, é ao reconhecimento da importância que sempredediquei à História e à Arte que o devo. O primeiro nomeque aponto naquela razão é o de Adriano Vasco Rodrigues. E já agora acrescento: nos últimos anos tenho encon-trado da parte do Professor e de sua e minha Senhora,o conforto do apoio em muita da minha atividade, oque não só me lisonjeia como engrandece. Com talajuda tenho aproveitado para continuar o objetivo quetenho sempre perseguido, tentando redimir uma velhaquerela (que não deveria passar de enamoramento,ainda que às vezes enciumado…) entre historiadores daarte, e especificamente da arquitetura, e arquitetos: eusempre achei bem sacramentar-se a relação, deixando oprotagonismo ao património edificado (o de ontem e o deamanhã) e à sua capacidade de subsistir, como expressãoviva constituinte do que somos. Finalmente, deixo uma nota sobre o Amor. Acho muito significativo (com desculpas para asofrível tradução que fiz) um poema-elogio celebrado porOscar Vanderborght, Professor Emérito das Universidadesde Anvers e Gand, antigo Presidente do Comité “IGBP 158
  • Percursos de razão e afetos– Global Change” das Academias Reais das Ciências deBruxelas, ex-Diretor das Investigações em Radioproteçãodo Centro Nuclear de Moll e Perito da Comissão Europeia(Ambiente) e que, com a devida vénia, fui resgatar deoutro sítio onde o nosso concidadão era homenageado poralguém de lá de fora. Dizem essas palavras, originalmenteem francês:: Adriano RODRIGUES SABER viver, saber fazer, saber conhecer em ciência em diplomacia em arte em história em cultura em filosofia SABER AMAR MARIA. AGIR em ardente impaciência agir na paciência da amizade agir como fonte de conhecimentos agir para captar o passado e o futuro. VISÃO e síntese: amor pelo detalhe emocionante e pela grandeza da arte e do homem. Ele é para mim 159
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues o mais universal e mais cativante «HOMO UNIVERSALIS», tão raro e tão precioso. Como um diamante, por cada raio de luz reflete, em mil cores, mil esperanças e mil ternuras.E mais não posso, nem saberia, dizer.Só um Bem-hajam, com um beijo para cada um. 160
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES UMA REFERÊNCIA EMBLEMÁTICA NOS TEMPLOS DO SOL Jorge Trabulo Marques* Adriano Vasco Rodrigues é uma referência nos Templosdo Sol. Para além do arqueólogo, etnógrafo e historiador,atrevo-me mesmo a dizer que é também o místico, oprofeta e o adivinho. Foi ele que, em 1982, trouxe à luz doconhecimento científico o Santuário Rupestre da Pedra daCabeleira de Nossa Senhora, no Monte dos Tambores, emChãs, nos arredores da minha aldeia. Por essa altura, o então Professor da UniversidadePortucalense, que, já uns vinte anos antes, se deslocaracom um grupo de amigos à misteriosa Pedra, incumbidode elaborar uma monografia sobre a História Remotada Meda, apresentou à estampa a primeira alusão aoimponente megálito. É certo que o povo já tecia, à voltado enorme mas gracioso fraguedo, as mais díspares lendas* Jornalista; fotógrafo; investigador; escritor. 161
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguese conjeturas. Havia o pressentimento de que não era umapedra qualquer. Dizia-se que a sua gruta havia servido deabrigo a Nossa Senhora, quando fugiu do Egipto com oMenino Jesus ao colo, para evitar ser degolado pelo ReiHerodes.Ao encostar os seus cabelos no pequeno nicho, quese situa logo à entrada do pequeno portal que a atravessa,ficaram gravados, para sempre, como que a perpetuar a suaapressada e atribulada viagem. As lendas, por vezes, têm o seu cunho de verdade,mas todas exigem ir mais longe, decifrar-lhes como queos seus códigos. Foi o que fez o Professor Adriano VascoRodrigues, tal como nos diz: “Em 1957, tive oportunidade de estudar a fraga conhecida com o nome da Cabeleira de Nossa Senhora, que classifiquei como santuário pré-histórico, integrado cronologicamente na revolução neolítica. Pelas suas características sugere a existência de um culto ao crânio, característico, na Península Hispânica, da transição do Paleolítico para o Neolítico, segundo o Professor Pericot. A identificação com uma entidade feminina, que sofreu consagração à Virgem Maria, acompanhada de lenda popular, sugere um culto inicial à Deusa Mãe, símbolo da fertilidade”1.1 Cf. Adriano Vasco Rodrigues, Culto à deusa mãe e calendário solar; santuá-rio pré-histórico da Fraga da Cabeleira de Nossa Senhora (Chãs,Vila Nova deFoz Coa), in Revista Ebvrobriga – Museu do Fundão, n.º 4, Fundão, pp.119-127. 162
  • Percursos de razão e afetos Creio que a Pedra não continuaria, hoje, no mesmosítio, se não fosse Adriano Vasco Rodrigues a atribuir-lhevalor arqueológico. Na verdade, quando era garoto, a lajeem que assenta só não foi totalmente cortada a fogo depedreira, talvez por uma qualquer intervenção miraculosa.Quem passar ao lado da face do curioso megálito, voltadoa sul, vê perfeitamente até onde chegaram os golpes damarra de pedreiro. Se o Professor não lhe tivesse dado visibilidade histórica,classificando-a como local de culto, uma segunda investidateria ditado o fim do seu desafio às leis da gravidade, que é oque parece demonstrar, tal a inclinação em que se encontraa testa do gigante pedregulho no periclitante apoio em queassenta e sobressai o seu frontispício, debruçado de orientepara ocidente. Deus criou a Terra, o Universo, mas foi osaber do Homem (concebido à imagem da sua semelhança)que o aperfeiçoou e o moldou, sendo, também, quantasvezes, o culpado da sua destruição. O Professor Adriano Vasco Rodrigues desterroue valorizou património, soterrado e perdido pelassedimentações dos séculos e milénios, classificando-o,recuperando-o e trazendo-o à luz do conhecimento dosnossos dias, contrariando a destruição e a incúria. Semdúvida que a sua visão intuitiva, a sua sensibilidade poéticae artística, de verdadeiro mago e profeta, evitou a perda deum dos mais antigos e belos calendários solares. Essa visãoajudou-me, ainda, a desvendar-lhe os últimos segredos.Em setembro de 2002, um feliz acaso fez aperceber-me de 163
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesque havia justíssimas razões que corroboravam as teses quedefendia no seu livro, História Remota da Meda. Vasco Rodrigues foi o meu guia e orientador. Desdea instrução primária que me lembro de ouvir falar doProfessor que, um dia, se deslocou às míticas fragas dosTambores, atraído pelas lendas que o povo contava acercada Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, e, certamentetambém, dos fabulosos contos que eram narrados em tornodo Castelo Velho, da Cova da Moura e do Curral da Pedra,antigos castros. Quis ser o intérprete da memória remotadestes sítios, tanto mais que nascera em Longroiva, umaoutra freguesia bem perto de Chãs, a cujo termo, aliás,esta chegara a pertencer. Vasco Rodrigues cultiva o saber,a dádiva e a generosidade e tem pautado a sua vida em proldo conhecimento e da sociedade. Mas... o saber também causa confusão a quem onão compreende. Daí, ter deixado, como que a pairar, aimpressão de ser detentor de poções mágicas, de ter osdotes dos antigos feiticeiros, dons especiais e advinhatóriosde que, apenas, certos eleitos são prendados e logramherdar dos seus ancestrais. Ou seja, a figura de VascoRodrigues surgia como que associada à do lendário JoséBorrego: o eremita, o único homem da aldeia que sabiaonde ficava a entrada da porta para o Castelo Velho e quefalava, junto de quem o quisesse ouvir, sobre as maldiçõesque recaíriam em quem passasse tal entrada, que parecenunca ter sido descoberta. Contudo, de certa forma amaldição até se cumpriu, com a morte de um homem juntoao sopé. Andava na exploração de minério e foi tingido por 164
  • Percursos de razão e afetosum pedregulho que desabou e lhe caiu nas pernas. Lembro--me muito bem dos seus gritos lancinantes, porque estavaperto, atrás do gado com o pastor, ao qual havia ido levar amarmita do almoço, teria os meus seis anos. Este facto deu-se no tempo em que andavam, por ali, aexplorar o volfrâmio e o chumbo. Mesmo após a guerra terterminado, a loucura do minério ainda continuou. Quasetoda a aldeia andava envolvida a garimpar pelos Tambores,nas Quebradas e nas minas das Trecadas. Os homensna extração e as mulheres com as peneiras na lavagem.A seguir, era levado nos machos, muitas das vezes à socapa,para escaparem ao controlo das autoridades. Ainda hojepermanecem muitas valas a céu aberto. ••• O Dr. Lima Garcia pediu-me um depoimento sobre onosso amigo comum, o Professor Adriano Vasco Rodrigues,ao qual vai ser prestada uma homenagem, em Torre deMoncorvo, que considero merecidíssima. Naturalmenteque aceitei o convite com muito gosto. Pensei que o melhordepoimento era, justamente, recordar o importantíssimocontributo que prestou ao estudo do Santuário Rupestre daPedra da Cabeleira de Nossa Senhora, situado nos arredoresda minha aldeia. De facto, foram os seus valiosos trabalhos científicosque me levaram a questionar se não haveria por ali algomais – algo maravilhoso –, escondido pela poeira das erase ainda por desvendar. E não estava enganado. Depois de 165
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguestanto refletir e de tantas voltas dar por aqueles lugares,direi mesmo, peregrinações (muitas das quais descalço,em criança, que distam já do tempo em que ia ali levara marmita ao nosso pastor, quando os meus pais eramcaseiros na Quinta do Muro), acabei por deparar com aúltima decifração do enigma da Pedra da Cabeleira deNossa Senhora, graças em boa parte, ao génio inspiradorde Adriano Vasco Rodrigues. Comunicador nato porexcelência, cuja palavra é sempre um grato prazer escutar,tem o dom de infundir o saber e o entusiasmo pelas coisasdo passado. Obrigado Professor Adriano Vasco Rodrigues e que osdeuses antigos o inspirem e sejam os seus divinos protetorese do seu amado Lar. Estou certo, que muitos segredos arqueológicos haveráque esperam por si. 166
  • Percursos de razão e afetos AOS AMIGOS ASSUNÇÃO E ADRIANO José Campos Neves* Quando nos momentos de reflexão e suaverecolhimento, que o quotidiano nos seus fortuitosdesígnios impõe, com saudade e aprazimento, a olhar avida, é normal e humano que a memória se avive, com tudoo que de melhor lhe foi oferecido. Em geral sobressaem,nos homens, reconhecidos à Providência, a presença dosamigos e as amizades que estes nos dedicaram, e dedicampela vida fora. É, de um desses instantes, que agora quero partilhar,onde a presença constante de um dos meus bons amigos,as suas palavras e atos me foi trazido pela alma (nãonos esqueçamos que a amizade não é racional, mas simespiritual).* Médico dos homenageados. Professor Catedrático da Universidade doPorto (jubilado). 167
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Desde que conheço o Dr. Adriano Vasco Rodrigues, seique os momentos que usufruímos, são sempre de salutaraprendizagem e profunda sabedoria, como é próprio deum homem que soube, ao longo da sua existência, saciar acuriosidade e cultivar a arte de encantar e transmitir Sabere Erudição e, simultaneamente, sempre ter defendido ecultivado os valores supremos da dignidade humana, daliberdade, da família e da amizade, com que incessantementee de forma notabilíssima, sempre se pautou. Viveu e vive assim, cultivando os valores que dãodignidade e brilho à existência e alimentam o respeito e aadmiração. Como tal, foi perseguido, por defender nos idos anosde 60, do século passado, a liberdade, de novo posta emperigo nos anos 80 e 90, a que reagiu de forma corajosae lúcida, refletindo, uma vez mais, a raiz profunda das suaconvições morais e a manifestação publica da sua elevadaconsciência cívica. Possuidor de uma visão penetrante e global da história,de que é um profundo conhecedor, foi dela agente nosperíodos turbulentos que Portugal viveu, sabendo, sema menor hesitação ou tibieza, fazer ouvir a sua palavraacima da “espuma dos tempos” sugerindo um rumo a daràs ações dos seus concidadãos e orientando, sempre, parao melhor. O seu conhecimento e o profundo humanismoque o caracteriza, autorizam-no a ser uma voz pertinentena noite escura da cegueira humana, que hoje temos oprivilégio de ouvir. 168
  • Percursos de razão e afetos Foi para África, no degredo, embora o governode então tenha vindo, posteriormente pedir-lhe ajuda.Após 1974 defendeu energicamente causas, participandopublicamente na defesa e proteção dos mais fracos e menosvalidos, em inúmeras funções políticas e sociais. Foi chamado para a Europa, onde exerceu elevadasfunções de grande relevo para Portugal, o que não oimpediu de aprofundar os seus conhecimentos nem de ospartilhar connosco, nas suas múltiplas obras literárias. Mas, mais que a sua ação pública, politica, de defensorde gentes simples e desconhecidas, há outra faceta quese impõe reforçar – a do homem crente e de princípios,defensor da família e do que esta representa, cultivando,exemplar e dignamente, valores hoje (por muitos)esquecidos. Ora uma família é um agregado de afetos e umapartilha a dois, na luta por um futuro melhor dos filhos,transmitindo-lhes, não apenas o conhecimento ou aexperiência, mas o prazer de viver em elevação. À semelhança dos bancos onde normalmente nossentamos, a família tem que se apoiar em sólidas basescomplementares e igualmente ricas e elaboradas, qualsuporte de cristal invisível onde o mundo assenta e evolui. Apenas a complementaridade, na similitude, assegurao equilíbrio profícuo e evolutivo. Por isso, perdoe-me omeu caro amigo Vasco Rodrigues, mas impõe-se, queroe devo honrar o mérito e o trabalho que tem sido o seu 169
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguescomplemento, a Senhora Dra. Maria da Assunção Carqueja,sua mulher. É bem verdade que o suporte transparente da famíliaexiste e é partilhado pelos que a constituem, senão nãohaveria suporte, nem projeto. Por essa razão é, naturalmente,meu dever, congratular-me por ser seu amigo e honrar aseguir a sua mulher, pela presença e amizade que semprenos dedicou e soube edificar ao longo dos muitos anos deconvivência que as nossas famílias têm tido, e continuarão ater pelas gerações vindouras. Senhora de raras virtudes, com raízes telúricas nessaterras em que o ano se divide apenas em duas categorias,como que se a natureza quisesse, desde cedo, forjar assua gentes na coragem, no esforço, na perseverança, naamizade, na partilha, no trabalho, enfim nas qualidades quesão apanágio dos que vivem para lá do Marão. Senhora de raros méritos, dedicou-se à pedagogiafilosófica que exerceu com devoção e culto da verdade,no mais sagrado respeito pelos valores morais que recebeuno seio da casa onde nasceu. Soube sempre conduzir osseus discípulos na arte de bem raciocinar, única formade enfrentar a vida e as suas exigências, exemplo da raramestria que possui. Daí que se compreenda a família que criou e os valoresque se manifestam bem arreigados no seu seio. Senhora de raro talento, pois a leitura da sua poesiaé disso prova indesmentível. São versos, de grande 170
  • Percursos de razão e afetossensibilidade, que atravessam a vida, alegres, apontandopara a reflexão, normas que urge fazer reviver, saudadesque a todos abalam os corações, amarguras que reforçam oslaços e dão expressão aos sentimentos mais escondidos queem todos nós existem. Adriano Vasco Rodrigues, Maria da Assunção, doisseres firmemente entrelaçados, mutuamente enriquecidos,generosos na compreensão e sob constantes impulsos deternura, são os amigos que abraço com enorme ternuraintemporal. 171
  • Percursos de razão e afetos PREITO A UMA VIDA DE AFETOS À SOMBRA DE UMA TORRE TUTELAR José Luís Lima Garcia* A homenagem que a 8 de outubro de 2011 a CâmaraMunicipal de Torre de Moncorvo e o CEPHIS vão prestara Adriano Vasco Rodrigues e Maria da Assunção Carquejavem no seguimento de outras que algumas “forças vivas” emunicípios da zona (Almeida, Guarda, Mêda) têm prestado aeste casal que percorreu um longo caminho de vida dedicadoà docência e à investigação. Sendo ambos da região duriense,apenas o condicionalismo geográfico do nascimento dividiuna juventude a vida destas personalidades. Mau grado essedistanciamento de margens diferentes, nunca perderam orumo deste rio ibérico, e descendo para o jusante Porto deacolhimento aí fizeram vida conjugal e profissional, criaramos filhos e partiram para outros destinos. Primeiro, nosanos sessenta, para Angola, e, nos finais de oitenta, para aBélgica, onde na Escola Europeia protagonizaram uma ricaexperiência de multiculturalismo pedagógico.* Diretor da revista Altitude, órgão da Assembleia Distrital da Guarda. 173
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Não vamos falar mais em concreto dos seus tão vastoscurrículos pois outras pessoas mais habilitadas já o fizerampor nós, apesar de conhecermos bem o percurso de vida docasal Rodrigues, sobretudo do ProfessorAdriano, porquantotendo já uma grande admiração desde que estudámospelo seu mais que conhecido manual de História Geral daCivilização, no distante ano letivo de 1966/1967. Mas foivinte anos depois, em 1987, já na sua terra de nascimento,que tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmenteAdriano e Assunção Carqueja Rodrigues num eventocultural promovido pelo Instituto Politécnico da Guarda.Esse acontecimento serviu para reforçar o relacionamentocom tão carismáticas individualidades, num contacto quedura há um quarto de século, o que hoje, numa sociedadematerialista e egoísta, em que tudo é efémero e poucoduradoiro será para louvar. O facto de sermos de geraçõesdistintas, não obstou que persistisse uma camaradagem econvívio que, por vezes, não subsiste nas pessoas da mesmaidade. Para além de admirarmos a vasta cultura do casalRodrigues, apreciamos ainda o espírito de tolerância e desolidariedade com os outros, sem preconceitos de caráterideológico e cultural, procurando abordar os problemashumanos numa perspetiva universalista e ecuménica.Como dizia Willem Godschalx, da Escola Europeia,referindo-se ao Professor Vasco Rodrigues, como colegae Diretor desta instituição transnacional, “tu deste a cadaum a possibilidade de desenvolver as suas próprias aptidões 174
  • Percursos de razão e afetose graças a isso reinava justamente um bom ambiente decooperação e amizade”1. Este “depositar” de confiança, este “dar” a cada um a“possibilidade” de dilatar as suas próprias “aptidões” forampressupostos que o homenageado nos conferiu tambémao longo do nosso conhecimento, desde que começámosa escrever por seu convite, na 3.ª série da revista Altitude,órgão da Assembleia Distrital da Guarda, com velhos eimportantes pergaminhos na comunidade guardense, desdeos finais da primeira metade do século passado, época emque se editara a 1.ª Série deste periódico, entre os anosde 1941 e 1944, onde pontificaram, entre outros, autoresdo gabarito de António Júlio de Proença Abranches,Beatriz Salvador, Carlos Marques, Carlos Martins, Carlosde Oliveira, João Couto, José Crespo de Carvalho, JoséPinheiro Marques, Luís Reis Santos e Orlando Ribeiro.Após um hiato de trinta anos, com o 25 de Abril de 1974criaram-se condições para o retomar da revista Altitude.E foi precisamente o homem ilustre das humanidades eda intervenção cívica, agora representando os ideais dademocracia-social na Assembleia da República, que selembrou, conjuntamente com Eduardo Sucena, de propor,em 1978, ao governador civil da Guarda, Emílio LeitãoPaulo, a republicação do periódico que durante o finalda Segunda Guerra Mundial conseguira tanto prestígio1 Willem A. J. Godschalx, «Carta» enviada a 20 de junho ao Diretor daEscola Europeia, Professor Adriano Vasco Rodrigues. 175
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesna denominada região da “Beira Serra”, na divulgação deassuntos e matérias culturais. Nos finais da década de setenta, em pleno períododa democracia, já não havia uma federação de concelhos“serranos”, mas uma assembleia distrital cujo presidente eratambém governador civil da Guarda. E foi nessa situaçãoque convidou para dirigir a Altitude essa personalidade quese lembrara que a cidade altaneira deveria ter um órgãode difusão de todos esses aspetos espirituais, que davamgenuidade a uma região. Estavam assim criadas as condiçõespara que o periódico regionalista guardense pudesseprosseguir o seu caminho em prol do desenvolvimento eda solidariedade interconcelhia de uma parte de Portugalainda muito esquecida, mas que tinha, à semelhança deoutras regiões, muita história e cultura etno-antropológicapara dar a conhecer aos seus conterrâneos e compatriotas.Na “abertura” do primeiro número, dessa segunda série,que embora não datada, pensamos que se referia ao mêsde julho de 1980, o seu diretor, Adriano Vasco Rodrigues,depois de um breve histórial da revista, antecipava o queseria este meio de comunicação no futuro, nomeadamenteno que se reportava a alguns aspetos do seu funcionamento: “Sob a minha direção nunca será uma revista partidária. Ao contrário da «Altitude», falecida em 1944, esta não ostenta o dístico «Visada pela Comissão de Censura da Guarda». Estamos em liberdade e somos responsáveis. Na 176
  • Percursos de razão e afetos portada da revista anterior dizia-se: toda a colaboração é solicitada. Para nós toda a colaboração será voluntária e gratuita. A Revista «Altitude» é uma publicação aberta às boas vontades, que se interessem pelo nosso distrito”.2 No segundo número, editado meses depois, emnovembro de 1980, ainda nas “palavras prévias” do seudiretor, este pormenorizava mais alguns detalhes de carátercultural, como ainda adiantava outros meios, que não os docontribuinte, para a sustentação financeira desse periódico: “A cultura é o primeiro e mais profundo elo que caracteriza e aproxima os membros de uma comunidade. Dentro do limitado espaço em que se enquadra a nossa região, passaram várias épocas históricas, rodaram centenas e centenas de séculos de atividade humana, viveram e morreram gerações mas, a identidade cultural deste legado manteve-se constantemente enriquecida”.3 E para manter a “identidade cultural” desse legadoassente em múltiplos testemunhos como a antropologia, aeconomia, a etnografia, a geografia, a história, a linguística,a literatura, a pedagogia, a sociologia e o turismo, havianecessidade de se ponderar os meios adequados demanutenção e para não sobrecarregar o erário público,2 Adriano Vasco Rodrigues, “Abertura”, in revista Altitude, Ano I, 2.ª Sé-rie, Volume I, N.º 1, p. 5.3 Adriano Vasco Rodrigues, “Abertura”, Ibidem, Altitude, Ano I, 2.ª Série,novembro de 1980, Volume I, N.º 2, p. 3. 177
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguescomo única contribuição para a publicação da revista,a direção, conjuntamente com o conselho redatorial,composto por Eduardo Sucena, José Domingos, JoaquimAndrade e Joaquim Lopes Craveiro, entendeu abrir a outrasentidades essa mesma viabilização, como se subentendiapelo preâmbulo de Vasco Rodrigues, nesse número inicialda segunda série: “Os responsáveis na elaboração da Revista Altitude, no desejo de a quererem melhorar constantemente e tornarem duradoura, discutiram se sim ou não deveria conter publicidade. Analisadas as vantagens e os inconvenientes, decidiu-se, a partir do próximo número, incluir uma seção de publicidade, que não afetará o contexto cultural”.4 E nas suas palavras, a referida medida contribuiriadecisivamente para a “divulgação dos nossos valores ecapacidades na sua dinâmica produtiva”5. Neste mesmonúmero colaborava pela primeira vez Maria da AssunçãoCarqueja Rodrigues que, como boa transmontana, abordavanum artigo de história local a “disputa da barca do Douro”,entre as localidades de Foz Coa e Moncorvo6, evidenciando4 Idem, Ibidem.5 Idem, Ibidem.6 Maria da Assunção Carqueja Rodrigues, “Foz Côa contra Moncorvo –A disputa da barca do Douro”, Ibidem, revista Altitude, Ano I, 2.ª Série,novembro de 1980, Volume I, N.º 2, pp. 59-61. 178
  • Percursos de razão e afetosa rivalidade assente na velha questão da acessibilidade entreas margens deste rio: “Moncorvo foi a vila que mais beneficiou com o rio Douro, disputando sempre os seus direitos sobre a barca do Pocinho e envolvendo-se em sucessivas questões com outras terras, igualmente desejosas dos seus benefícios. A vila da Torre de Moncorvo desempenhava, em relação às terras do nordeste transmontano, o mesmo papel que Vila Nova de Foz Coa, em relação à Beira interior. Ambas as vilas estão próximas do Pocinho, onde o Douro separa e une os seus termos”.7 Passados trinta e um anos depois da refundação darevista Altitude pelo Professor Adriano Vasco Rodrigues,esta continua o seu percurso numa altura difícil em queos Governos Civis foram desativados e a crise financeiranão vaticina nada de bom para os meios de comunicaçãoque difundem cultura e reforçam a identidade dos povos.A “barca” do Douro já não é disputada porque foisubstituída por pontes materiais, como a do Pocinho, eespirituais, como a aliança que uniu o destino de muitoscidadãos provenientes destas vilas, entre os quais Maria daAssunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues, que no dia8 de outubro, em Torre de Moncorvo, se homenageiampelo paradigma de uma coexistência harmoniosa em prolda família, dos amigos e da sociedade em geral. Esse casal,7 Idem, Ibidem, p. 59. 179
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde ambas as margens que o rio uniu e nós hoje consagramosno alto das terras transmontanas e para o qual desejamosmuitos anos de vida, é um dos múltiplos passageiros dessabarca que o Douro transportou ao longo do seu rumorejareterno. 180
  • Percursos de razão e afetos QUASE MEMÓRIAS FOI ASSIM QUE... José Maria da Cruz Pontes* O ano letivo de 1950/51, foi o último em quea Faculdade de Letras funcionou no edifício depoistransformado em Biblioteca Geral da Universidade deCoimbra. No início do ano letivo seguinte, em outubrode 1951, o meu curso foi inaugurar a nova Faculdade,construída em frente da antiga e constituindo uma praça,com a Porta Férrea ao fundo, no lado poente. Matriculou-se, então, na Faculdade de Letras, noCurso de Ciências Histórico Filosóficas, um certo númerode alunos voluntários, idos do Norte. Designavam-seassim por contraste com os alunos ordinários, nome quelhes advinha da obrigação de assistirem às aulas, tendo deresponder à chamada feita ao entrarem na sala. Podiamperder o ano por faltas. Por isso, quando algum alunotencionava não comparecer, pedia a algum colega que porele respondesse “presente”.* Colega de Faculdade de Maria da Assunção Carqueja. 181
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Os alunos voluntários não eram obrigados a assistiràs aulas mas, em contrapartida, tinham que realizar duasprovas escritas de frequência, que eram eliminatórias. Osalunos ordinários também as faziam, podendo assim ficardispensados dos exames finais, de que nunca os voluntáriosestavam eximidos. Entre os alunos voluntários, originários do Norte,foram-se conhecendo e relacionando a Maria ClaraConstantino, vinda do Porto e a Maria de Lurdes, que faziaviagem comigo no mesmo comboio de Braga, quando nãose dispunha a estar em Coimbra um dia antes. Apareceu,depois, o António Nazaré de Oliveira, de S. Pedro doSul e uma senhora, já mãe de filhos, de Viseu. Passámosa encontrar-nos em Coimbra, por ocasião das provas defrequência ou nos exames finais de cada ano. Recordo que este pequeno grupo de alunosvoluntários, de que eu fazia parte, se relacionava comalgumas alunas matriculadas como de frequência ordinária,com quem se juntava antes de cada prova escrita, aqui ouali, em Coimbra. Mercê da generosidade destas colegas,ficavam conhecedores do que os professores diziam nasexposições de cada sessão escolar e que não se encontravanas tradicionais “sebentas”. Deste modo, aproveitávamos do saber da Aninhas SubtilRoque e da Maria da Assunção, entre outras. Conhecíamos,assim, por exemplo, o entusiasmo do Professor Torquatode Sousa Soares pela teoria de Henri Pirenne (1862--1935), que fizera época quando foi publicada, em 1937,a obra póstuma Mahomet et Charlemagne. De acordo com a 182
  • Percursos de razão e afetossua interpretação, a civilização romana não terminara em476, com as invasões germânicas e a deposição de RómuloAugústulo pelo chefe dos Hérulos. O que destruíra aunidade mediterrânica teria sido, antes, o bloqueio árabe,que, no século VIII, fez com que a Europa se dobrassesobre si mesma, conduzindo-a a uma economia fechada, deestrutura predominantemente agrária. Esta teoria, tão do agrado do Professor Torquato,sabíamo-la nós graças aos apontamentos que as diligentescolegas tomavam nas aulas e depois nos transmitiam, nasprévias sessões de estudo coimbrãs, em comum, antes dasprovas. O mesmo se diga de certas referências expostas naslições de Filosofia do Professor Miranda Barbosa, que sedeu conta que nós, os alunos voluntários daquele grupo,mostrávamos conhecer, ao contrário dos alunos chamadosordinários que, na sua maior parte, não as tinham registado. Tudo isto lá vai... mas foi assim que conseguimos fazero nosso curso universitário. O que ficou até hoje, e dura há mais de cinquenta anos,foi, essencialmente, a amizade criada naquelas tardes deestudo conjunto e animada convivência. Hoje, desses colegas, cabe-me salientar a Maria daAssunção, presença solícita e cativante de enérgica alegria! 183
  • Percursos de razão e afetos A MINHA HOMENAGEM José Marques * Dentro de poucos dias, terá lugar, em Moncorvo, umaexpressiva e merecida homenagem ao Senhor ProfessorDr. Adriano Vasco Rodrigues e a sua Ex..ma Esposa, SenhoraDra. Maria da Assunção Carqueja Rodrigues, natural deFelgar, manifestação pública, que ficará perpetuada emlivro, programado e elaborado para o efeito. Não me tendo sido possível elaborar um trabalhocientífico a integrar nesta obra, agradeço a oportunidadeque me é dada de a ela me associar com este brevetestemunho. Conhecia o Homenageado, há muito, através dealgumas das suas obras, por vezes, referidas nas aulas daFaculdade de Letras do Porto, mas só nos finais da décadade 1980, nos conhecemos, pessoalmente, quando amboslecionávamos, na, então, recém-criada e promissora* Professor Catedrático da Universidade do Porto (aposentado). 185
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesUniversidade Portucalense, a que ambos demos o melhordo nosso entusiasmo e competência, aí se tendo iniciadouma sólida amizade, que foi crescendo e permanece. Para além da forma cordial e distinta do seurelacionamento com os colegas, alunos e funcionários,impressionava também a sua disponibilidade para ajudarquantos dele precisavam, sempre numa atitude decompreensão, abertura e tolerância, nos seus múltiplosaspetos, que mais se vincaram durante os anos em que,vencido o difícil processo de escolha política, no contextointernacional, passou a ser o primeiro Diretor portuguêsda Escola Europeia, de Mol. Nestas formas de ser e agir, além do temperamentopessoal e da formação humana, adquirida ao longo da vida,contam muito também a diversificada formação científica ehumanística e a experiência docente. Não é este o momento para analisar estes aspetos,mas, porque está intimamente ligada ao fundamentoúltimo desta homenagem, não poderei deixar de aludir àsua vasta produção literária e científica, onde as regiões:transmontana de Moncorvo e da Beira Alta ocupamposições particularmente evidentes. Entre os variadíssimos temas desenvolvidos nas suasobras, avultam os dedicados a aspetos da romanização,lusitanos, arqueologia, epigrafia, numismática, arte, aHistória Geral da Civilização, cuja obra teve o privilégiode várias edições, sem esquecermos temáticas de variadaordem cultural, de que a simples enumeração nos levariamuito longe. Neste contexto, porém, apraz-me acentuar 186
  • Percursos de razão e afetosa predileção do Dr. Adriano Vasco Rodrigues pela histórialocal das regiões a que, de alguma forma, esteve ligado. É, por isso, que ninguém poderá estranhar a quantidadede monografias que enriquecem a sua produção científicae literária, impondo-se, nestas circunstâncias, referir asde Celorico e Linhares, Guarda, Marialva, Longroiva econcelho da Meda, bem como os estudos sobre a Catedralda Guarda, Terras da Meda, Terras bragançanas, Aldoar, etc.E não se pense que, após estas breves referências, olvidamoso interesse e o carinho que o nosso Homenageado esua esposa, Senhora Dra. Maria da Assunção CarquejaRodrigues, dedicam a Moncorvo e região circundante,contemplados em vários dos seus estudos, quer individuais,quer, mesmo, em colaboração, podendo servir de exemplosO retábulo flamengo da Parentela de Santa Ana, na Igreja Matrizde Torre de Moncorvo, Os lusitanos: mito e realidade, da autoriado primeiro, e os estudos em colaboração: Subsídios parao estudo das ferrarias do Reboredo, Moncorvo e Felgar: história,indústrias artesanais, património, ou, ainda, Documentos Medie-vais de Torre de Moncorvo. Para além de quanto fica sugerido, impõe-se salientara atenção que o Homenageado e Esposa têm prestado, nasrespetivas investigações, à presença judaica em Trás-os--Montes e, em particular, em Moncorvo e na Beira Alta enoutras vilas e cidades portuguesas. Neste domínio, mereceo devido relevo a promoção de vários colóquios, realizadosem Moncorvo, Guarda, Gouveia e Trancoso, tendo-nossido dado participar nos três últimos, podendo afirmar queficaram todos marcados pela elevação científica e cultural 187
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguese pelo franco ambiente de abertura, compreensão etolerância, contribuindo, assim, para dinamizar a atividadee as relações da Associação de Amizade Portugal-Israel. A formação universitária, de base histórico-filosófica,atraiu também o seu interesse para temas culturais maisvastos e complexos, como O despotismo e a Igreja, As trovas doBandarra: suas influências judaico-cabalísticas na mística da PazUniversal, Perenidade e mudança na escultura africana, etc. Este breve apontamento ajudará a vislumbrar o muitoque se poderia afirmar sobre a vida e obra científica ecultural do Senhor Prof. Dr. Adriano Vasco Rodrigues ede sua esposa, Senhora Dra. Maria da Assunção CarquejaRodrigues. Na impossibilidade de o fazer, gostaria de felicitar ospromotores desta justíssima e merecida homenagem, pelaideia da sua organização e realização em Moncorvo, terraa que os homenageados estão intimamente ligados e cujoconhecimento e difusão cultural tanto se empenharam emdifundir. Aos Homenageados muitos parabéns, com os melhoresvotos de Ad multos annos! 188
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES Levi Guerra* Na plenitude duma senioridade fecunda, AdrianoVasco da Fonseca Rodrigues emerge como uma grandepersonalidade, com um vigor intelectual contagiante, coma afabilidade social calorosa de sempre, com a riquezaimaginativa que o distinguiu ao longo da vida e o lançou emprojetos sucessivos adequados às circunstâncias que na suavida ocorreram, até hoje. Grande pedagogo, foi um professor que exerceua docência em todos os patamares do ensino, do primárioao universitário. Foi Reitor do primeiro Liceu misto noPaís, o Garcia de Orta, no Porto, onde, em 1969, emplena primavera marcelista, foi um inovador ousado naforma aberta de comunicação com a juventude escolar, osseus alunos e alunas, e também na capacidade de cativaçãoeficaz que demonstrou, quando fresco pairava ainda naEuropa, e obviamente em Portugal também, o Maio de 68,* Médico. Professor Catedrático da Universidade do Porto (jubilado). 189
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde Paris. O ambiente de sucesso que criou no Liceu foide trabalho, de bem estar e de festa, para o que se serviuda colaboração bem orquestrada das artes cénicas e damúsica, concretamente de conjuntos musicais, bastandolembrar a presença conseguida dos “up with people” dosE.U.A. Nesta experiência tive o meu filho, na altura alunodesse Liceu onde tinha, como professora a Dra. AssunçãoCarqueja Rodrigues, sua esposa . Entrou nestas funções após o seu regresso de Angola,após quatro anos de permanência naquela então provínciaultramarina, onde, acompanhado de sua esposa realizouuma obra notabilíssima de investigação arqueológica que,entre outras várias publicações terminou com a maispreciosa de todas, “a primeira Carta da Pré-História deAngola”. Mas em Angola, como Inspetor Provincial Adjuntoda Educação, realizou Cursos de formação e atualização deprofessores do ensino secundário, de História de Arte, deArqueologia, e até de Matemáticas Modernas. Ao mesmotempo, correu Angola e participou em várias escavaçõesde investigação e prospeção arqueológica, em colaboraçãocom o Instituto de Investigação Científica de Angola e crioua seção de Arqueologia no Museu de Angola. De toda este laborioso, vasto e penetrante trabalhocientífico, arquivou uma riqueza enorme de saber sobre aarte africana que depois veio a aproveitar para a difundir emcursos e exposições que realizou no País e fora dele, tendosido, porventura, muito importante para esta extraordináriaação cultural o facto de ter sido nomeado Diretor da ScholaEuropaea (U.E.), em Bruxelas (1988/1996). 190
  • Percursos de razão e afetos Ao longo da vida nos encontrámos algumas vezes,e, apesar de esbatida na memória, ressaltam-me asparticipações conjuntas que tivemos em alguns eventos deíndole cultural e social. Claro, porém, que me ficou sempre no espírito a suamarcante probidade, a sua simpatia calorosa e cativante, oseu perfil de pedagogo sabedor, experiente e arguto. Enfim,um português de exceção. 191
  • Percursos de razão e afetos A MINHA HOMENAGEM PROFESSORES MARIA DA ASSUNÇÃO E ADRIANO VASCO RODRIGUES Manuel Daniel* Vejo a cena com muita nitidez. O pai, que era o meuProfessor na escola primária, tinha colocado uma garrafaesverdeada sobre a sua secretária e pediu aos alunospara a desenharem, tendo em conta os reflexos que aluz provocava no seu bojo. Como era redonda, a garrafafornecia praticamente a mesma perspetiva a cada um dosalunos. Tentei, sem grande jeito. Desenhar é, penso eu, daruma ideia das dimensões e dos volumes. Mas, desta vez,pediam-me para reproduzir também os relexos da luz. Eraum problema: como dar uma ideia da luz? Caído do céu, o Vasquinho, filho do Professor e maisvelho do que eu cerca de 5 anos, entrou na sala. Quandopassou por mim, viu que a garrafa até não estava mal, masos efeitos de luz é que... nada!* Advogado; poeta. 193
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Mal encostado à minha carteira, pegou no lápis ecomeçou a rabiscar no interior do desenho e, zás, pronto,os reflexos já se viam... pois era aquilo que tinha de serfeito por cada um e nós e que o Vasquinho, de carteira emcarteira, ajudou a fazer a cada um. Que grande Professor de desenho ele seria!... Nãoesqueci tão cedo aquele olhar vivo, os seus movimentosprecisos e o gesto solidário que repartiu por todos. Nove anos depois, em 1954, apareceu na Meda umquinzenário, com o título Luz da Beira, do qual eu eraredator. Nesse jornal, e, de companhia com o malogradoamigo Manuel Maria Heitor, tive a alegria de ver artigossobre história e outras ciências afins, subscritos por AdrianoVasco Rodrigues. Era o Vasquinho, entretanto, com ocurso do Magistério primário e a concluir, em Coimbra, alicenciatura em Histórico-Filosóficas. No jornal começoua surgir, pouco tempo depois, um suplemento cultural,de sua coordenação, e que denominou “História e BelasArtes”, no qual apareciam nomes, como um José AugustoSeabra, um Eurico Heitor Consciência, e outros. Num dosprimeiros números desse suplemento, apareceu tambémum poema assinado por uma senhora, já formada, quese revelava ser pessoa de grande sensibilidade – Maria daAssunção Carqueja. Começava e terminava assim: As orquídeas lindas que me deste falaram longo tempo a sós comigo... Disseram coisas que não me disseste E coisas também que eu te não digo!... 194
  • Percursos de razão e afetos Na realidade, as orquídeas deviam ter dito tais coisasque houve corações que se envolveram. Não tardou muitoa saber-se que tinha havido casamento. E a vida nos levou, entretanto, como à Menina e Moçade Bernardim, “para longes terras”! A uns e a outros.O jovem Dr. Adriano Vasco Rodrigues continuou estudospor Santiago de Compostela; eu próprio mergulhei numavida profissional como funcionário público, e andei à mercêde concursos, nomeações e transferências, por terras dolitoral, do Alentejo, da Beira Serra e da Beira Douro. Não me esqueço de que, quando um dia penseiem melhorar as habilitações literárias que entretantoconseguira, me vieram à mão uns livros que me davamnotícias agradáveis: para a disciplina de História iria apoiar--me nos dois volumes da História da Civilização, de AdrianoVasco Rodrigues, e depois, em filosofia, entre outras, numaobra deste mesmo autor e de Maria da Assunção Carqueja. Não se imagina com que prazer fui devorandotodas aquelas páginas, pois era como se estivesse a ouvirpessoalmente, só para mim, aqueles claros ensinamentosde pessoas que muito admirava e que tinha como amigossecretos da minha alma. Amigos que, na verdade, também andavam a corrermundo, sempre com crescente mérito e prestígio. Em cargosque terão sido verdadeiros desafios às suas capacidades, eusoube que o Dr. Adriano Vasco se gastava por vários centrosde saber e de trabalho. Desde uma experiência, então 195
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesmuito badalada, no Liceu Garcia da Horta, onde foi Reitor;passando por uma missão em Angola, como inspetorsuperior do ensino; depois, no Portugal democráticocomo Diretor Geral do Ensino Particular e Cooperativo; aseguir com um mandato como Deputado na Assembleia daRepública; ainda o desempenho das funções de GovernadorCivil do Distrito da Guarda, e, logo depois, como a cerejano bolo, bem no centro da Europa, em Bruxelas, comoDiretor da famosa “Schola Europaea ”, ou, nos seus incríveis“intervalos”, aumentando a sua já longa bibliografia ouparticipando em colóquios, escrevendo artigos sempre demuito interesse, deixando muito do seu saber numa listainterminável de páginas. Numa altura em que Vila Nova de Foz Coa vivia aindaalguns ecos das celebrações do VII Centenário do Tratadode Alcañices, tive a honra de convidar o Professor AdrianoVasco para ser o orador oficial numa reunião extraordináriada Assembleia Municipal, no aniversário do foral dionisinoa Foz Coa, cuja data – 21 de Maio – é feriado concelhio.Quase sobre a data, fui incumbido de convidar o orador.Lembrei-me de pedir ajuda ao meu “professor de desenho”,que, ao ver-me aflito, veio mesmo em socorro e acedeu aoconvite. O tema da sua conferência foi “Árabes e Judeusem terras de Foz Côa”. Servindo-se de uns apontamentos,deu ali uma impressionante lição de história acerca da nossaregião e das nossas gentes, dando a impressão que o tempoa que se reportava semelhante, se não mesmo, o nosso.Nomes de famílias, locais, ideias e religiões, palavras que 196
  • Percursos de razão e afetosse entrosavam, tudo isso desfilou no areópago municipalnum ambiente que deixou de ser “político” para se sentircongraçado. Apesar de saber das suas peregrinações por Françase Araganças, o nosso desencontro apenas cessou quando,sendo Governador Civil da Guarda, um dia tenho o gostode o cumprimentar em Foz Coa. Dadas as suas funções, fuiformal no cumprimento. Mas logo ele me atalhou com umabraço que me acendeu o coração... – Ó Manuel Daniel, quem está aqui é o seu amigoAdriano Vasco! Os seu olhar vivo tinha ainda o mesmo brilho e a suainteligência refletia agora, não o reflexo da luz que meensinou a desenhar, mas uma visão do mundo muito serenae consciente, como serena é a água de um lago tranquilo. Ninguém imagina a alegria que me deu poder abraçá-lo. Um dia tive a oportunidade de, na Meda, o ouvir falarsobre mais uma das então projetadas “reformas” do ensino.Orador direto e simples, era escutado atentamente por umaassistência que não cabia na sala. Teve palavras elogiosaspara o professor em geral, que vive para dar muito de si aosseus alunos e abordou também, na sua exposição, a queixaque frequentemente se vinha fazendo dos professores:que faltavam muito e com muita facilidade. Depois, emdeterminado momento, alguns dos presentes, fizeram oscomentários que acharam convenientes. 197
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Do fundo da sala, pedi para dizer alguma coisa,também. E evoquei um Professor que tive, assombrosoformador, que quando faltou a uma aula, na minha primeiraclasse, os seus alunos, com 7 anos apenas, foram estradaabaixo, a pé, para saberem onde estaria o Senhor Professor.Cansados, ofegantes, chegaram a Longroiva, e, logo àporta de casa, ouviram uma severa reprimenda da esposa,Senhora Professora D. Amália. Depois conseguiram ver oseu mestre. Verificaram que o seu Professor estava cheiode febre, com gripe, ficando muito zangado ao ver queestávamos ali. Afinal, neste caso, até foram os alunos quemverificou a doença, a razão da única falta do seu mestre. Eraele o meu saudoso Professor Arnaldo, pai do Dr. AdrianoVasco Rodrigues. Quando terminámos os exames da 4.ª classe soubemosque o nosso Professor ia ser transferido para o Porto, a seupedido. Compreendemos, mas custou-nos a notícia. Unsdias depois fomos por ele convocados para ir a uma sala daescola, porque nos queria felicitar pelos resultados obtidosnos exames e para nos desejar um bom futuro. Todos nóstínhamos lágrimas nos olhos, quando ele nos disse: “rapazes;ficarei muito feliz sempre que souber que qualquer um devós se porta como um homem.” Tão grande pai, quão grande filho! É verdade que, “por detrás de um grande homem,há sempre uma grande mulher”. Também é verdade nestecaso. A Dra. Maria da Assunção, de aparência tão calma esimultaneamente tão inquieta, para além de uma sensitiva 198
  • Percursos de razão e afetospoeta, tem sido sempre a companhia atenta do marido, oarrimo para a sua atividade, a alma gémea que a cada dia ovem completando. Está sempre a tua mão com a minha, tão juntinha, que já faço confusão, qual é tua? qual é minha? Professora de corpo e alma, dedicada aos seus alunos,enquanto o seu espírito vaja na busca de um sonho: Quisera o sonho agarrar na palma da minha mão, usar de tinta e papel para depois o pintar cor de perfume e de mel... Quisera fazer do sonho vento forte do tufão, arrastando o mundo louco... ... que não tira os pés do chão! Muito haveria que dizer acerca deste casal – ProfessoresAdriano Vasco Rodrigues e Maria da Assunção – tantas asfaces que as suas vidas, como os diamantes, nos revelam.São ambos de boas origens e com virtudes de alta qualidade:humanidade, trabalho, honestidade, tenacidade, amizadee solidariedade. Muitas das nossas terras os consideramcomo seus: Meda, Almeida, Figueira, Longroiva, Belmonte,Moncorvo, Angola, Bruxelas... Em todos estes lugares háplacas com os seus nomes em ruas, avenidas, bibliotecas, 199
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguessalas de estudo. E compreende-se: a sua terra é aquelaonde, desde logo, já deixaram muito de si, a sua amizade,o seu saber, a sua docilidade, a sua presença, o seu coração,em suma. Por isso, não tenha ciúmes o lindo Felgar, tão bemcantado pela Dra. Maria da Assunção. Nem tenha invejaa cidade da Guarda, por ter o Professor Adriano VascoRodrigues adoptado muitas destas outras terras como sequalquer delas fosse o seu torrão natal. Ambos são cidadãosinteiros e de pleno direito das comunidades a que têm dadoo seu esforço e o seu amor. Valeu a pena que as “orquídeas” tivessem dito coisasmisteriosas e que os reflexos da “luz” sobre as pessoas eos objetos tenham ajudado, em cada dia, a interpretar omundo de ontem e de hoje, como ambos nos mostramainda, felizmente, através da sua vida e da sua obra. 200
  • Percursos de razão e afetos UM CIDADÃO DO MUNDO Márcia Trabulo* O meu Pai, que na Meda fez, com distinção, o examedo 2.º grau elementar, teve o privilégio de ser aluno doProfessor Arnaldo do Nascimento Rodrigues. Recorda bem a mota de dois lugares e o cavaloBrilhante que de Longroiva transportavam para a Medaaquele distinto Professor e sua Esposa. Evoca também,com saudade, os laços de amizade e consideração que desdesempre uniram as nossas famílias. Da análise do notável perfil profissional do ProfessorAdriano Vasco Rodrigues, destacam-se, de imediato, asvertentes de investigador, historiador, escritor e educador,pautadas pelo elevado padrão ético e humanístico quesempre orientou a sua vida. A sua obra espelha claramentea polivalência do seu multifacetado talento que, divididoentre a investigação e a docência, frutificou em valiosasatividades e publicações, de índole científica, arqueológica,* Advogada; escritora. 201
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesetnográfica, histórica e educativa, que o tornaraminternacionalmente conhecido como embaixador culturaldo nosso país. Foi o primeiro Diretor português da Schola Europaea,que, frequentada por alunos de 32 nacionalidades, foidistinguida, durante a vigência da sua direção, comoSchool Zonder Racismus (Escola sem Racismo). Nos anosem que esteve à frente desta Escola, o Professor AdrianoVasco Rodrigues presidiu a numerosos seminários e cursosinternacionais de atualização de docentes de várias seçõeslinguísticas. Criou, naquela Escola, uma cadeira de Línguae Religião Hebraica e uma cadeira de Língua e ReligiãoIslâmica. Depois de regressar a Portugal, trabalhou emInvestigação, na Universidade Portucalense, tendo alirealizado cursos livres, de que se destacam os cursos de ArteAfricana, de Educação para a Europa e de História das Religiões. De entre as associações culturais internacionais a quepertence, citam-se a Associação Brasileira de Folclore, e aAssociação de Amizade Portugal-Israel. E de entre as merecidas homenagens internacionais deque foi alvo, salienta-se a que, em 1996, em Londres, lhefoi prestada pelos Chefes das Delegações dos Ministérios daEducação. Das numerosas homenagens nacionais de que oilustre Professor tem sido alvo, destaca-se a Condecoraçãoda Ordem do Infante Dom Henrique, que na Bélgica,em nome do Presidente da República, o Embaixador dePortugal, em julho de 1996 lhe entregou, e as calorosas 202
  • Percursos de razão e afetoshomenagens que a na cidade e distrito da Guarda lhe têmsido prestadas. Em Longroiva, foi dado o seu nome à rua em que sesitua a casa em que residiram os seus Pais. E o Municípioda Meda honrou com o nome do Professor Adriano VascoRodrigues, uma das suas avenidas. Sua Esposa, a Dra. Maria da Assunção CarquejaRodrigues, natural de Felgar (Torre de Moncorvo),licenciada em Ciências Históricas e Filosóficas, foiProfessora e Metodóloga de Filosofia e Técnica da UniãoEuropeia, na Bélgica, para a elaboração dos programase ensino destas matérias. Participou em muitas dasinvestigações e deambulações culturais, através do mundoprotagonizadas por seu Marido e, como inspirada poetisa,rodeou a sua Família de belos poemas que veiculam elevadose humanísticos valores. Porquê mais que nada? é o título deum dos seus mais representativos livros de poemas. O honroso currículo do Professor Adriano VascoRodrigues, cidadão do mundo, homem sábio e comunicadornato, é tão rico, vasto e denso, que chegaria para engrandecere enobrecer, não um, mas muitos investigadores. Terminamos com um sincero Bem-Haja, pelo seuexemplo, pelos valores que nos inculcou, e por nuncadeixar esmorecer a sua “confiança na capacidade humanade construir um mundo melhor”. 203
  • Percursos de razão e afetos ALGUMAS SENTIDAS PALAVRAS Maria Adelaide Valente* Conheci a Senhora Dra. Assunção andava eu pelosdezasseis anos, sendo discente de Filosofia, no LiceuAlexandre Herculano, onde a sua juventude de espírito,paciente e sábia, nos abria as portas desse enorme “amorpela sabedoria”, a nós, jovens, completamente conscientesda nossa ignorância . Assim definiu Pitágoras a matéria queera ministrada pela cara Professora, levando tão a sério ede forma tão dadivosa o que nos ensinava que, havendodúvidas, chegava a receber-nos em sua casa, lá para asbandas do Cinema Vale Formoso, e tudo isso apesar de seaproximar o momento de ser mãe. Muitos anos mais tarde, haveria eu de encontrá-la nostrilhos da poesia que tão belamente percorreu. Muitos anos mais tarde, haveria eu de saber como aquerida mestra e seu marido, o Senhor Professor Adriano* Aluna de Maria de Assunção Carqueja. 205
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesVasco Rodrigues, teriam feito caminho luminoso, vivaz ede enorme prestígio. Muitos anos mais tarde, aqui estou, carinhosamente,prestando-lhe a minha homenagem com uma admiraçãosempre primeva e doce. Como ontem, quando, de trançasnegras, a demandava lá para as bandas do Vale Formosoonde desvelada e exemplarmente me acolhia. Por tudo o que fez, o que deu e o que é, estar eu nestaspáginas só pode significar enorme privilégio e gratidão. 206
  • Percursos de razão e afetos MEMÓRIAS VISITADAS Maria Clara Constantino* O que me suscita verdadeiro encantamento é amaneira como a Assunção soube privilegiar a família, noconjunto sempre amado dos seus deveres. Foi a família olugar da felicidade; tal como o da relação com os amigos ofoi da lealdade A conjugalidade é vivida, instante a instante, comoencontro e companhia quer no trabalho a distância quernos serões, lado a lado, em tarefas de elaboração intelectualou mero entretenimento manual, artístico, de modelagem,como ocorreu nos períodos – longos períodos – depadecimento físico O aproveitamento compacto do tempo, projetando aordem nas múltiplas tarefas, sedimentava nos filhos e netoso culto, o gosto pelo trabalho e pela iniciativa em que a artemarcava sempre uma presença harmonizante... E este foi oclima projetado à sua volta, num processo de espontânea* Colega de Faculdade de Maria de Assunção Carqueja. 207
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguespedagogia que se insinuava, operando sem violência, numprofundo respeito do outro. Na juventude, o esboço de uma personalidaderica, multifacética, dotada de uma impulsão vulcânicaapaixonada mas, simultaneamente, contida perante ooutro, manifestava-se numa desconcertante simplicidade,quase infantil na sinceridade. Fazia pressentir a figura que,após décadas de afastamento em continentes distantes,reencontro exposta na história de uma existência preenchidade realidades valiosas e vivências felizes e partilhadas.Eis o que justifica a dedicatória manuscrita que Assunçãome dirige no seu livro de poemas Os Tempos do Tempo: ”...recordando uma velha amizade que o tempo não levou...”.E sublinho a mensagem, que nos revela o seu segredo, napoesia Caminhos da Amizade... que passo a transcrever: Não deixes erva crescer nos caminhos da amizade”, é um ditado chinês, que, como podemos ver, traduz bem uma verdade mesmo para o português. Caímos numa rotina que nos amarra e enerva. É a tensão que domina e é tal a letargia que vai crescendo a erva neste nosso dia-a-dia... O cansaço nos invade. 208
  • Percursos de razão e afetos E vamos sempre adiando limpar a erva do chão... Vivemos na ansiedade. O tempo vai apagando caminhos do coração!... A Filosofia, saboreada nos tempos da Faculdade edigerida ao longo da vida, ganha, em Maria da Assunção,reproduzida em atos significantes, também traduzidos emversos, um tipo – será protótipo? – existencial. E eu diria:eis a forma do filosofar português! 209
  • Percursos de razão e afetos RECORDANDO... Maria do Amparo (Farrica)* Conheci o Adriano Vasco Rodrigues em Coimbra, nosnosso bons tempos de estudantes. Frequentámos, juntos, adisciplina de História dos Descobrimentos, pertencendo,no entanto, a cursos diferentes. Impressionava-me o seuporte, a maneira de ser, o seu ar de um senhor… Impunharespeito. Voltei a encontrá-lo, mais tarde, em Luanda, comoInspetor dos Serviços de Educação de Angola, era eu,então, Professora do Liceu Feminino Dona Guiomar deLencastre. Por dever de ofício, tivemos de privar. Nemsempre foi fácil! Para ambos! Trabalhámos, depois, juntos, na Escola SecundáriaAntónio Nobre e é, desses tempos, que guardo excelentesrecordações de sã camaradagem, de partilha deexperiências, de inesquecíveis vivências – uma excursão àsua terra natal na Beira Alta, com boas peripécias e com os* Colega de estudos e de trabalho de Adriano Vasco Rodrigues. 211
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesalunos, para quem ele, tão cuidadosamente, preparava aulasinteressantíssimas, de acordo com as várias tendências, quejá se evidenciavam! Sempre os ouvi manifestarem-lhe grande apreço! Gabo-lhe a extraordinária capacidade de doação eempenhamento e agradeço as ideias fantásticas que comigopartilhou e a sua tolerância de caráter, que também muitome ensinou… Obrigada, Vasco, bem-haja! No momento em que nos juntamos para voshomenagear, é com muito agrado que aqui deixo estetestemunho. Ao Adriano e à Maria da Assunção, um abraço de muitaamizade. 212
  • Percursos de razão e afetos NA VERDADE A ALMA FALA Maria do Amparo Dias Silva* Tantas memórias. Amizades. Ligações que não sequebram. Nunca. Foram-se, apenas, alguns nomes. Umdia (lembro-me como se fosse hoje), era eu uma jovemestagiária no Liceu D. Manuel II, no Porto, e ia dar umaaula a alunos do sétimo ano (décimo segundo atual). Comoditavam as regras, essa aula ia ser assistida pelo Metodólogodo grupo, no meu caso, o insigne Dr. Augusto Medina. Elegi este senhor, como um verdadeiro mestre, poisalém de nos transmitir saberes, levava-nos (sem querer,sem passar por uma decisão racional) ao contacto com onosso próprio saber. Nas aulas a que assistia, costumavasentar-se no fundo da sala e tinha o hábito de, para afinara sua atenção e ouvir melhor, colocar a mão direita nopavilhão auricular. Nesta posição, nada escapava na colheitade amostras reais. No fim da atuação, brindava, com o seu* Estagiária do Liceu D. Manuel II, quando Adriano Vasco Rodrigues era,aqui, Professor. 213
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguessentido de justiça e alguma graça, o apreensivo estagiáriocom a respetiva apreciação. Nesse bendito dia, da referida aula, a campainha tocoue, já prestes a entrar na sala – sorte a minha! – vislumbrei,no corredor, o Dr. Seixas, Metodólogo de Físico--Química, o Dr. Dias da Silva, Vice-Reitor, e o Dr. VascoRodrigues, Professor de História e de Filosofia deste Liceu(e anteriormente, aqui, aluno), que vinham convidar o meumestre para os acompanhar num café. Convite aceite, láforam num maravilhoso gosto de rir e de falar. Sem dar disso conta, o Dr.Vasco Rodrigues, responsávelpela pausa dos colegas e num gesto característico da suaespontânea alegria e afabilidade, não só adiou a dura provacomo lhe atenuou a dificuldade – o quadro, leve e informal,retirou-lhe transcendência. Intimamente, agradeci-lhe milvezes a providencial ajuda, como se da alma viesse. Este é, apenas, um episódio simbólico com que ilustroa conduta deste pedagogo, humanista e estudioso ímpar,ao longo de toda a sua vida. Inúmeras gerações de alunospermanecem com ele na sua memória, uma memóriaque o reverencia e que se alastra a todos os que com eleprivaram. Em todos os domínios foi presente, orientou,abriu caminhos, engrandeceu. Dra. Maria da Assunção e Dr. Adriano, a nossa ligaçãopassa por outro episódio, igualmente, forte – o Felgar, aterra que nos é comum pela origem, pelo coração, pelasvivências. Bem-hajam, hoje e sempre. Um abraço. Um sorriso.Até breve. 214
  • Percursos de razão e afetos DE BRUXELAS COM SAUDADE Maria Manuel Gomes da Costa Pinto Gandra* Em 1991 eu estava em Bruxelas cumprindo umsonho ou uma ilusão: a divulgação da cultura portuguesa.Um Leitorado em Gand. A fundação da Orfeu LivrariaPortuguesa em Bruxelas. Em 1991 eu tivera um violento desaire de saúde. Numa tarde de sábado na Orfeu, em plenaconvalescença, vejo entrar portas adentro a minhaProfessora de Filosofia e o marido que só conhecia por seruma figura pública. – Maria Manuel! – Era a Doutora Maria da AssunçãoCarqueja que soubera que esta sua antiga aluna vivia emBruxelas e estivera gravemente doente. Viera com o marido, o Doutor Adriano VascoRodrigues, então Diretor da Escola Europeia de Mol,pequena cidade onde moravam.* Aluna de Maria de Assunção Carqueja; colega de Adriano Vasco Rodri-gues na Escola Europeia. 215
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues São assim estes grandes amigos: generosos, solidários,abnegados! Difícil é imaginar o meu espanto, a minha comoção,quando trinta anos depois vem ao meu encontro a melhorProfessora que me coube em sorte nesse temível LiceuCarolina Michaëllis, onde talvez só ela me tenha interrogadosobre o sonho! Com o seu modo doce mas firme aprendi a pensar,encontrei algumas respostas e muitas interrogações,confirmei a inteireza de caráter como coisa primordial,descobri que, afinal, o diálogo livre era possível nesseespaço-tempo repressivo do meu ensino secundário. A sua voz pausada, segura, conduzia-nos ao essencial. A sua cabeça, ligeiramente de lado, traduzia a tolerânciae a escuta. A vivacidade e a profundidade das abordagens pren-diam-nos em silêncio fecundo e faziam-nos rejeitar os ba-fientos manuais de então. O seu exemplo foi um esteio à minha escolhaprofissional no deserto pedagógico que era o Carolina. Quem me dera que um aluno, um só dos meus alunos,me recordasse com o mesmo carinho com que recordo aminha Professora de Filosofia! Em 1991 eu estava em Bruxelas e levava Camõese Pessoa até Gand. Pouco depois, o Dr. Adriano VascoRodrigues pediu-me que os levasse até Mol aos meninos daemigração que, pela sua mão, puderam frequentar a EscolaEuropeia de Mol. 216
  • Percursos de razão e afetos Então, conheci dois novos amigos: o meu Diretor e asua esposa. A Dra. Assunção Carqueja não era já (embora o fiquesempre!) a minha melhor Professora, mas uma colega maisvelha, amiga maternal e intuitiva, a quem, num momentoem que a minha vida tremeu, sem que nada soubesse, ouviobservar “eu sabia que havia qualquer coisa...” O meu Diretor deixou também em mim uma marcaindelével. Atento, preocupado, justo. Profundamente humanocom alunos e professores. Na Escola de Mol, dominada por europeus do norte,geralmente, racionais, práticos, frios, entre a estranhezae a admiração, deixou a imagem lendária de um Diretordemocrata, humanista, arguto e próximo de todos osprofessores. Uma das coisas que mais lhe admiravamos era asimplicidade com que vinha à sala de professores darnotícias do que se passara nas reuniões do ConselhoSuperior das Escolas Europeias em vez de fazer circular alacónica informação escrita como era prática dos diretores. A versatilidade da sua cultura era outro motivode admiração dos colegas, pois tanto discutia de umachado arqueológico, como agarrava numa guitarra paraacompanhar um pai imigrante no fado. Nos anos em que dirigiu a escola de Mol bateu-sepelo acesso dos filhos de compatriotas residentes na regiãode Antuérpia ao ensino de elite das escolas europeias,proporcionando-lhes o acompanhamento de professores 217
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesportugueses em língua materna e matemática e lutandopelo subsídio de transporte que então era possível obter doestado português. Incansável no amor à sua terra, organizou viagens deque alguns colegas ainda hoje me falam com nostalgia. Andarilho curioso, recolheu nos muitos mercados deantiguidades e velharias que frequentava, material sobreo qual apaixonadamente refletia e connosco partilhava areflexão. A partilha, a solidariedade, a nobreza de caráter, aforça das convições, mesmo quando diferíamos, são marcasindeléveis que permanecem à distância da sorte que tiveno convívio com estes dois grandes Amigos e me deixammuita, muita saudade. Todo o bem-hajam pela Amizade, pelas lições de vidae pelo privilégio de convosco ter partilhado uma parte dacaminhada! 218
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES UM HOMEM ILUSTRE QUE HONRA A GUARDA E O DISTRITO Mário Cameira Serra* Muito honrado com o pedido que me foi endereçadopara redigir um breve depoimento sobre um ilustreguardense, antevi um desafio deveras gratificante mas,simultaneamente, muito árduo. Gratificante, por ter sidoformulado por dois amigos, a Dra. Adília Fonseca, quetantas saudades deixou pela competência e qualidadeshumanas demonstradas no curto período de docência naEscola Normal de Educadores de Infância da Guarda, e omeu colega Professor Lima Garcia, atual Diretor da RevistaAltitude. A incumbência é ainda mais prazenteira por tercomo alvo uma pessoa que muito admiro e a quem me ligam,de igual modo, velhos mas firmes laços de amizade. Emcontrapartida, fiquei confrontado com uma árdua tarefa,dada a extrema dificuldade em focar a atenção na totalidadee universalidade das áreas de investigação e intervenção* Professor do Ensino Superior. 219
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesdo Professor Adriano Vasco Rodrigues. Além da minhamanifesta incapacidade para aceitar tamanha empresa, iriacorrer o risco de repetir o que outros, bem melhor do queeu, irão decerto escrever sobre este guardense ilustre. Estou certo que não faltará quem lhe louve aselevadas qualidades de pedagogo, historiador, arqueólogo eetnólogo, atestadas na qualidade científica e na vastidão daobra que deu à estampa. Porém, prefiro evocar a sua açãoempenhada na direção da revista Altitude e no desempenhodas funções de Governador Civil do Distrito da Guarda. Com indestrutível entusiasmo, perseverança e capa-cidade de persuasão junto dos municípios, conseguiu darvida longa a essa revista cultural editada pela AssembleiaDistrital da Guarda. Ainda retenho a ação incentivadorajunto de jovens estudiosos da arte e da cultura, que, peranteo seu entusiasmo e inconformismo intelectual, o elegeramcomo referência inspiradora. Era impossível resistir aofulgor da sua empatia e ao poder de atração do seu exemplo.Eu próprio fui contagiado pela sua vontade de mais saber,numa altura em que, calcorreando as azinhagas dos povoadosda Beira, procurava resgatar do esquecimento geral muitastradições lúdicas e festivas. Como seria possível recusar osseus constantes encorajamentos para investigar e trazer àluz singularidades cujo interesse histórico ou etnográficoele fazia questão de atestar? Como eu, muitos outros foram por si arrastados nesta“onda”, que conseguiu varrer a apatia e a inépcia instaladasna sociedade guardense, no início dos anos 80. Apesar deinvestigador incansável, que ocupava no estudo muitas 220
  • Percursos de razão e afetoshoras do seu quotidiano, e não obstante a exigência das suasfunções oficiais, Vasco Rodrigues, numa visão altruísta,nunca negou a sua participação em inúmeros colóquios, portodos os cantos do distrito. Comunicador nato, discursavacom singeleza e naturalidade sobre um vastíssimo lequede saberes, sendo percebido e apreciado mesmo pelos nãoespecialistas. Em momento algum vi ofuscar o brilho dasua inteligência ou declinar o entusiasmo que punha nainteração com pessoas de diferentes níveis de formação oucondição social. Nos poucos anos em que ocupou a cadeira do GovernoCivil, Adriano Vasco Rodrigues não se desviou das suaspreocupações humanistas. Manteve a mesma vivacidadee lhaneza de trato, privilegiando a defesa do patrimóniocultural do distrito. No desempenho destas funções, nunca sedeixou converter num mero funcionário político, seguidistae reprodutor das orientações partidárias e das diretivas dopoder central. Ao contrário, sem perder a verticalidade,continuou a ser o mesmo lutador intransigente pelanobre causa da cultura, mostrando também uma grandepreocupação em contribuir, dentro das suas possibilidades,para a melhoria das condições sociais e económicas dapopulação do distrito. Autor de uma obra que dispensa quaisquer encómios,este estudioso de terras e gentes aliou às invejáveisqualidades intelectuais e volitivas uma elevada estaturamoral. Ousou, fez obra, conquistou amigos e abriu novoshorizontes. 221
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Esta justíssima homenagem que agora lhe está a serprestada em Torre de Moncorvo, aliada a muitas outrasdistinções com que já foi cumulado, não deve ser entendidacomo um epílogo da sua capacidade criadora. Ao contrário,é minha convição que o homenageado continuará, pormuitos anos, a surpreender-nos com novos contributos ajuntar à sua relevante produção bibliográfica. O Professor Adriano Vasco Rodrigues derramou osfrutos da sua inteligência e generosidade por várias terras,países e continentes. Mas, a meu ver, foi na sua terra e noseu distrito que entregou o legado mais valioso e granjeouo respeito, a amizade e o reconhecimento dos seusconcidadãos. Pelo que ficou escrito neste breve apontamento e pelomuito que, estou certo, muitos admiradores e amigos nãodeixarão de acrescentar, não restam dúvidas de que AdrianoVasco Rodrigues merece um lugar de destaque no paineldos guardenses mais ilustres. 222
  • Percursos de razão e afetos AS JÓIAS DE HELENA Mário Cláudio* Nos finais da década de cinquenta, e em vésperasdas revoluções que transformariam o pensamento, e asensibilidade, do século XX, o professor afável, dialogantee culto, constituía verdadeira raridade, reticentementesufragada pela pedagogia oficial. Maria da AssunçãoCarqueja, docente de Filosofia dos alunos que por essaaltura frequentavam o terceiro ciclo do Liceu de AlexandreHerculano, prefigurava a admirável exceção. Punha--se diante de nós, brandindo a caneta com que redigiaos sumários, e não o ponteiro de arrogantes conotações,e falava-nos de um conhecimento amplo, veiculandoinformes sobre as aldeias transmontanas de raiz cripto--judaica, sobre a duvidosa política de construção dos altosfornos, e muito sobre a faina arqueológica de seu marido,Adriano Vasco Rodrigues, que recuperava civilizações eculturas, sepultadas pelo peso da terra.* Aluno de Maria da Assunção Carqueja. 223
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Daí que, ao ler eu, alguns anos decorridos, o relatodas escavações que Heinrich Schliemann efetuara em Tróiae Micenas, me recordasse do casal de mestres portugueses.Penetrava o intuitivo arqueólogo alemão, seguido pelacompanheira, e a horas mortas, numa esconsa galeria,e topavam ambos com o tesouro de Príamo. Ainda hojetenho a certeza de que, se fosse Adriano Vasco Rodrigues adesentranhar o fabuloso achado, não hesitaria em procedercomo Schliemann, ataviando com os brincos e o colar,supostamente de Helena, a mulher real, mas nem por issomenos mítica, de toda a sua vida. 224
  • Percursos de razão e afetos MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA E ADRIANO VASCO RODRIGUES FIGURAS NOTÁVEIS DA CULTURA PORTUGUESA Nuno de Santa Maria Pascoal* A bela Província de Trás-os-Montes e Alto Douro,de paisagens emblemáticas, majestosas e surpreendentes,o “belo horrível”, no dizer de Guerra Junqueiro, podelegitimamente ufanar-se de ter tido – como tem – grandesescritores. Não é necessário, hoje e aqui, mencioná-los e propagá--los, tão conhecidos e admirados como são. Mas, a alguns que militam ainda afanosamente nas letrase engrandecem, em cada dia, o património cultural de Trás--os-Montes e Alto Douro, bom é que sejam colocados nopódio a que têm direito: hoje, falamos, apenas, do ProfessorDr. Adriano Rodrigues e da sua extremosa mulher, Dra.Assunção Carqueja Rodrigues. Antes de mais, façamos asua apresentação, servindo-nos dos seus próprios textos.* Advogado; jornalista. 225
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Diz-nos Adriano Vasco Rodrigues: “Fui gerado e criadoem Terras da Meda. De meus Pais, que aqui exercerama docência, herdei o amor à Natureza e às gentes.Despertaram-me o interesse pela história local. Minha Mãefoi a primeira professora de Longroiva, ali exerceu durantetrinta e seis anos. A povoação honrou-lhe a memória com uma lápide. Meu pai foi docente neste concelho, durante quaseuma trintena de anos, lecionando na Coriscada, na FonteLonga e na Vila (hoje cidade) onde foi Delegado Escolar”. “Maria da Assunção Carqueja Rodrigues nasceu noFelgar. Licenciou-se em Ciências históricas e filosóficas, naUniversidade de Coimbra. Profissionalizou-se no Porto,com estágio e exame de Estado para o exercício da docêncialiceal em História e Filosofia. Foi Professora e Metodólogade Filosofia e, também, técnica da União Europeia (Bélgica)para os programas e ensino destas matérias”. Muitos livros saíram já da pena do Professor Dr.Adriano Vasco Rodrigues, igualmente da Dra. AssunçãoCarqueja Rodrigues, sobre os quais outros, com capacidadebem superior à minha, saberão tecer criticas e os devidoselogios. Mas quero, particularmente, referir-me a Terrasda Meda, natureza, cultura e património e, também, a Felgar,quer um quer outro ilustrativos do seu acendrado amorpelas terras onde foram gerados e, do mesmo passo,ambos documentos genuínos do amor à família e daautêntica comunhão familiar. Para asseverar isto mesmo, oProfessor Dr. Adriano Vasco Rodrigues e a Dra. Assunção 226
  • Percursos de razão e afetosCarqueja Rodrigues são co-autores de uma destas preciosasmonografias, constituindo um património cultural comum. O livro Terras da Meda, natureza, cultura e património éuma monografia grandiosa, de mais de quinhentas páginas,que disseca e põe na frente dos nossos olhos tudo quanto,ao longo dos séculos até hoje, o que as terras da Medatêm de mais valioso, arqueologicamente mais relevante,as vicissitudes que sofreram, os seus costumes e tradições.Em destaque, dado que o seu coração para ela pende, a suaLongroiva, porque foi lá, como o Dr. Adriano confessa,“que herdou o amor à Natureza e às gentes”. Ainda muito novo, já procedia a escavações arqueoló-gicas e o seu pecúlio de moedas, sobretudo romanas,tornou-se proverbial – amealhou mais de vinte e cincomil... Sempre junto das classes humildes, entre as quaisgranjeou devotados amigos e admiradores, percorria aaldeia tocando cavaquinho seguido pelos populares. Era já,como continua a ser, um timoneiro. Como Professor é um gigante, semeando a cultura e obem. A este respeito não se resiste trazer à colação o que énarrado no livro De Cabinda ao Namibe – Memórias de Angola,a páginas 378 até 386, por ser um depoimento definidorda personalidade bem formada, da sensibilidade moral, doprestígio profissional e da luta pela justiça, assim como daalta dignidade do Ensino, sendo esta a prática corrente doSenhor Professor Adriano Vasco Rodrigues. A sua atitudefirme e determinante impeliu-o a, deliberadamente,regressar a Portugal, quando, até aí, se sentia feliz em 227
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesAngola. Foi a defesa da verdade e a solidariedade para comuma colega de trabalho, tremendamente injustiçada, que olevaram a tomar tal decisão. Não pactuou com a prepotên-cia a arbitrariedade de um superior hierárquico. Trata-se deum testemunho impressionante, revelador, também, de queo autor de De Cabinda ao Namibe – Memórias de Angola partici-pou “na batalha da educação, que afinal era a batalha da paz”.É assim o caráter honesto, verdadeiramente superior, doDr. Adriano Vasco Rodrigues. Felgar é, sobretudo, um testemunho amoroso da suaalma gémea e extremosa esposa, Dra. Maria da Assunção.Sendo co-autores desta monografia fizeram questão de adedicar aos seus pais e sogros com a gratidão e saudadeque lhes concitam. Tanto em Longroiva, como no Felgar,o amor, a saudade e a gratidão aos Pais de ambos sãosentimentos cimeiros. E para que estes livros tivessem,verdadeiramente, um cunho familiar e telúrico, os filhos enetos do casal deram a sua participação, fazendo desenhosalusivos e representativos dessa união. Não admira que Armando Pimentel, ele própriotransmontano ilustre, em prefácio amistoso e jocoso daesplêndida monografia Felgar, se lhes dirigisse nestes termos:“É de justiça reconhecer que quando Vasco e Assunçãoderam as mãos e acertaram passo neste caminho da vidanasceu para a cultura, para o acréscimo da sabedoria, umaforça criativa que (deixem-me escrever o termo duro), se«fartou» de aí (nessas cultura, nessa sabedoria), produzir 228
  • Percursos de razão e afetosriqueza». É que, sendo ambos «alguém de saber grande,com amor e ato de bem querer deixam memória escrita”. “Sabedoria é a perseguição da verdade ou a habilidadepara ver a realidade tal como ela é” (in A Sabedoria, Definiçãomultidimensional e Avaliação, de Paulo Jorge Alves). Deacordo com esta definição, o Professor Dr. Adriano e a Dra.Maria da Assunção têm-na praticado com evidente sucesso,ao longo de toda a sua vida. Bem merecem ser apelidadosde sábios da cultura. Seria imperdoável, além de muito injusto, não referirque a Dra. Maria da Assunção é autora de inúmeros poemascheios de ternura, beleza e encanto, nos quais a sua veiafilosófica tem um relevante lugar. Porquê mais que nada (2002) e Os Tempos do Tempo (2005)são dois livros que deliciam pela sonoridade, pela elegânciada forma, pela grandeza das ideias, pela finura do sentimentoe que nos guindam até à altura da melhor poesia. Em 2008,saiu à estampa Jardim da Alma, que culmina, até agora, umcaminho poético de maravilha, livro que se lê de um trago,como com um olhar de florido jardim se contempla o quemais nos deleita: as flores matizadas de cores encantadas.Jardim da Alma é um jardim aberto para regozijo dos leitores.O soneto intitulado “Sim!”, conectado com o soneto “Asorrir...” são um conluio amoroso sem par: A sorrir nós iremos mais em frente talvez para ensinar à outra gente que não pode esquecer o verbo amar! 229
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Por isso, quando o casal celebrou as suas Bodas deOuro de casamento, a Dra. Assunção brindou o maridocom o soneto intitulado “Sim!” que, no primeiro tercetorefere: À nossa volta tudo tem sentido: conversas, gargalhadas e ruído no Lar que no Altar se consagrou!” Neste soneto confessa: “Se fosse agora, voltava a dizerSim!”. Continue, Dra. Assunção, nesse seu trajeto ascensionalpara gáudio dos seus leitores, que muito têm a aprenderconsigo. Saudemos tão excelsa e lídima união familiar. 230
  • Percursos de razão e afetos ABERTURA AO OUTRO, AO MUNDO, AO CONHECIMENTO: LIÇÃO DE ASSUNÇÃO CARQUEJA / ADRIANO VASCO RODRIGUES. Otília Lage* Mais tarde será tarde e já é tarde (…). Sophia de Mello Breyner Andresen Obra Poética III Assunção e Adriano Rodrigues, mal começam a falar,conversadores afáveis, com vidas e histórias fascinantes paracontar, percebe-se de imediato que estamos na presença deduas pessoas que precisamos de conhecer. Maria da Assunção Carqueja Rodrigues e AdrianoVasco Rodrigues são, verdadeiramente, e a todos os títulos,contagiantes! Talvez por isso e por se tratar de pessoas de grandecultura e de saberes diversificados, os estudos que lhes têmsido dedicados designadamente enquanto investigadores,* Colega de trabalho de Maria de Assunção Carqueja. 231
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesapenas foram até agora, objeto de trabalhos fragmentáriose isolados, o que tem impedido que lhes seja atribuído opapel de primeiro plano que na área de seus interesses eespecialidades assumem. Mensagem e narrativa solidária é, simplesmente, umtexto escrito em homenagem a Maria da Assunção CarquejaRodrigues e Adriano Vasco Rodrigues, Professores cujaação pedagógica e cultural cedo os retirou do anonimato,estudiosos plurifacetados e exemplo de humanidade,cidadania e compromisso ético para diversas gerações deprofissionais da História e da Filosofia e de investigadoresdas regiões da Beira, Trás-os-Montes e Alto Douro, dahistória regional de Portugal e de outras latitudes noestrangeiro. Uma “rota a dois” tendo por “desafio a liberdade e como estímulo o Amor” Um indívíduo reconhece-se na história que conta a si próprio sobre si próprio Paul Ricouer, 1994 Incansáveis investigadores e patronos “de facto e dedireito” do Centro de Estudos e Promoção da InvestigaçãoHistórica e Social (CEPIHS), cumpre a este tributar-lheso devido reconhecimento público pelo muito que lhesdeve no impulso para a sua criação e crescimento no seuprimeiro ano de existência. 232
  • Percursos de razão e afetos De largos horizontes, como as suas terras de origem,são as suas vidas e obras, difíceis de abarcar em espaços--tempos curtos, como aqueles em que nos movemos aqui. Por isso, sendo um privilégio tê-los como amigos, nonosso caso, de longa data, sob a invocação da amizade, aambos cara, nos arrimamos procurando, ambiciosamente,que no não dito de nossas palavras se possa abrir o espaçopropício ao reconhecimento que cada um de si faça, de quenos fala Ricouer. Licenciados os dois em Ciências Históricas eFilosóficas, pela Universidade de Coimbra onde fizeramtambém o Curso de Ciências Pedagógicas, na década de1950, iniciam longa e profícua carreira docente, ao mesmotempo que escrevem, autonomamente, ou em colaboração,livros escolares de indiscutível sucesso, de que é exemploNoções de Filosofia (1962), de Assunção Carqueja, ou, deAdriano Vasco Rodrigues, a História Geral da Civilização(2 volumes com 8 edições). A sua obra em colaboraçãoprosseguirá, nomeadamente, em As Trovas do Bandarra – suainfluência judaico-cabalística na mística da paz universal, ediçãode 1982, da Universidade Portucalense, instituição a cujacriação ambos se encontram ligados e, mais recentemente,a obra Felgar: História, Indústrias Artesanais, Património, ediçãode autores, 2006, ou ainda a Dissertação a propósito daimplantação da República em Torre de Moncorvo (2011)1.1 Revista CEPIHS, n.º 1, janeiro 2011, pp. 161-175. 233
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues É grande a abrangência da obra de Adriano VascoRodrigues que se estende pela História, a História de Arte,a Pré-História e a Arqueologia para além de numerosasmonografias sobre a região da Beira de que é natural,assim como a de Assunção Carqueja que se alarga àfilosofia (Personalismo, Liberdade e Compromisso, ed. InstitutoLiberdade e Democracia, s.d.), à história regional da suaterra de origem, ao estudo de comunidades africanas e àpoesia, com vários volumes de poemas publicados: Versos domeu diário (1978), Porquê mais que nada? (2002) e Os temposdo tempo (2005). Pedagogos e estudiosos polifacetados nos domíniosda história, arqueologia e património cultural e histórico,cidadãos ativos e intervenientes, personalidades de cultura eespírito cosmopolista, suas vidas, realizadas e em uníssono,na esfera pública e na privada, têm-se cumprido semprecom a mesma dignidade e sentido de elevação, na profissãoe nos estudos, na família construída, nas viagens e estadiasde trabalho prolongadas em diversos paises da Europa etambém em África. Aliás, diga-se ainda que sobre a históriae culturas deste continente ambos escreveram, depois,obras como A dimensão moral nas comunidades africanas deexpressão bantu, livro da autoria de Assunção Carquejaeditado pela Universidade Portucalense em 1982, ou, maisrecentemente, de Adriano Vasco Rodrigues, o livro DeCabinda ao Namibe: Memórias de Angola. Prodígio de meio século, esta “rota a dois” tendocomo “desafio a Liberdade e como estímulo o Amor”, nas 234
  • Percursos de razão e afetospalavras de Adriano Vasco Rodtigues2, é evocado no “Sim”de Assunção Carqueja Rodrigues, soneto com que assinalaas suas Bodas de Ouro, a 8 de setembro de 2006. Aí, como veremos, revive, poeticamente, reminiscên-cias, promessas cumpridas, fidelidades e alegrias de umahistória de vida cúmplice onde o amor, imenso, duradouroe intenso, sempre marcou presença3: Se fosse agora, voltava a dizer Sim! Junto daquele altar; numa promessa Enquanto tu olhavas para mim Num misto de amor; receio e pressa! A nossa rota a dois nasceu assim E juntos caminahmos bem depressa Num crescendo de Amor; que não tem fim Mas que, em cada dia, recomeça… À nossa volta tudo tem sentido: Conversas, gargalhadas e ruído Dum Lar; que no Altar; se consagrou!2 Entrevista do Professor Adriano Vasco Rodrigues conduzida por Vic-tor Amaral publicada na revista Altitude, n.º 12, III Série, outubro 2009,pp.287-296.3 Este poema está publicado na revista Altitude n.º 12, III Série, outubro2009, p. 281. O presente número desta revista regionalista, fundada naGuarda em 1941 e de que Vasco Rodrigues foi, durante muitos anos,Diretor, dedica-lhe um Caderno Especial de Homenagem, páginas 251--354, importante repositório de informações sobre a vida e obra da no-tável personalidade que é Adriano Vasco Rodrigues. 235
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Foi só nesta verdade do Amor Que vimos crescer vidas em redor e sem as quais não era quem eu sou! Evocando a poesia, melhor se poderá falar destanotável figura feminina que com sabedoria, coragem depensamento e determinação de conhecer, honra e enobrececom sua vida e obra, a ainda largamente anónima históriadas mulheres transmontanas. Então, sob o signo do dom ancestral, profundo veiode cultura de que ambos estão imbuídos, nos dirigimos,a partir de agora, a cada um, em suas individualidadespróprias. Adriano Vasco Rodrigues, vasta e merecidamentehomenageado e condecorado, como político democrata eprestigiado autor4, será o primeiro a concordar connoscoem dar aqui a devida primazia a sua companheira deempreendedorismo e utopias. O generoso sentido de partilha de Maria da Assunção Carqueja Rodrigues Nascida no Felgar, freguesia de Torre de Moncorvo,Maria da Assunção Carqueja, uma das filhas de Gualdino4 Cfr. a sua Bio-bibliografia elaborada pelo Arquiteto João Campos, seuamigo, publicada na revista Altitude n.º 12-III série – outubro de 2009,pp. 255-276 e na obra bilingue Adriano Vasco Rodrigues – Almeida: Da pré--história aos nossos dias. Memórias. Câmara Municipal de Almeida, 2010,pp. 177-192. 236
  • Percursos de razão e afetosCarqueja, nome destacado na galeria de felgarensesilustres, comerciante e exportador de frutos secos da regiãotransmontana, de sucesso, que ainda criança conheci, amigoe colaborador com que meu pai privava, uma vez feitosos estudos primários e secundários, seguiu para Coimbraonde se licenciou e conheceu o que viria a ser seu marido. Se a formação académica lhe permitiu o longo e criativoexercício de funções docentes, foi na vida intensamentevivida que a sua aprendizagem se ancorou e fez fonte deinspiração de escrita e ação Lembro, nitidamente, a sua invulgar apetência literáriae estimulante capacidade de iniciativa dos tempos emque trabalhámos juntas no Centro de Documentação daInspeção Geral de Ensino – IGE (Porto), nos anos 1980,quando este serviço do Ministério da Educação se pautavapor forte orientação pedagógica e Adriano Vasco Rodriguesera, então, em Lisboa, Diretor-Geral do Ensino Particulare Cooperativo, alta função por cujo exercício viria a serlouvado pelo Ministro da Educação, nos anos 1980, depoisde ter sido Reitor do Liceu Piloto, Garcia de Orta, noPorto e de se ter já destacado em muitas outras atividadese cargos exercidos no campo da Educação e da Cultura5. Tais qualidades, aliadas à sua rica vivência de ProfessoraMetodóloga e larga experiência de direção do Centrode Documentação Científica do Instituto de InvestigaçãoCientífica de Angola (Luanda), desde 1965 a 1970,impulsionaram-na a escrever com regularidade, durante5 Cfr. Bio-bibliografia citada. 237
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues3 anos, no Boletim Informativo e Cultural da DelegaçãoRegional do Norte da IGE, aí divulgando importantesestudos e traduções que ia fazendo sobre ensino, educação,leitura, novidades pedagógicas e metodologias inovadoras. Desses tempos, inesquecíveis como poucos, lembrotambém as frequentes e estimulantes tertúlias pedagógicas,literárias e políticas, que com a sua vivacidade e opiniõesesclarecidas ajudava a alimentar o nosso “chá das cinco”,duplamente, pois, atenta a todos os pormenores, nunca seesquecia de levar os biscoitos e deliciosas bolachinhas desua confeção primorosa que, ainda hoje, nos enchem desaudades e nos fazem crescer água na boca. Entendi, com esta revelação de alguma privacidade,assinalar fragmentos de um trajeto de vida circunstancial-mente partilhado que volveu amizade insofismável, massobretudo, chamar a atenção para vertentes quiçá menosconhecidas da marcante personalidade que é a da Dra.Maria da Assunção Carqueja Rodrigues, colaboradora detrabalho intelectual, incansável e insubstituível, amigaimprescindível de todas as horas. A nível individual, Assunção Carqueja toca-nos,especialmente, com um certo modo de impor o seupensamento sempre afetivo sobre a realidade quotidianae concreta, a sua predisposição consensual que não ignoraa critica desassombrada, se e quando necessária for, a suaexigência de nunca deixar de ensinar – aprender com osoutros, em rigor e alegre vivacidade. Oxalá, como se pretendia, tenhamos contribuído paracorrigir uma relativa injustiça entreabrindo apenas para 238
  • Percursos de razão e afetosoutras valiosas dimensões desta notável transmontana,que urge retirar de um limbo recatado a que sempre seremeteu, avessa à mediocridade e vulgaridade mediática. Não sendo, pois, fácil eleger esta ou aquela de muitasdas suas valências, resta-nos ser mais uma das muitasreferências a seu nome que atingirá a notoriedade merecidana história da profissão docente e no panorama cultural danossa região sobre cujas gentes, tradições e tempos temdebruçado, desde longa data, a sua fina atenção de estudiosa. Na obra que produziu sobre Felgar e Moncorvo,designadamente desde o seu trabalho de licenciatura,Subsídios para uma monografia da vila de Torre de Moncorvo,podem os estudiosos da história e vida local encontrar umimportante repositório de informações, dados, memórias edocumentos que cobrem vastos arcos temporais. Registe-se que as suas notáveis qualidades de mulhere os seus múltiplos méritos de Professora de grandeabrangência humana e profissional de âmbito histórico –filosófico, cultural e cívico, são porém bem conhecidos dehá muito e dos muitos que com ela tiveram o privilégio deaprender e (con)viver. A hospitalidade e o talento de Adriano Vasco Rodrigues Foi por intermédio da Dra. Assunção Carqueja queconhecemos pessoalmente o Dr. Adriano Vasco Rodrigues,ele próprio filho dileto também do Felgar e de Moncorvoonde vai e permanece com frequência, e a que tem 239
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesdedicado muitos dos seus estudos de história, património earqueologia, sendo acarinhado por instituições e populaçõescujas tradições, usos e costumes lhe não são alheias. A talponto, mutuamente, se adotaram que não raro tem sidoAdriano Vasco Rodrigues considerado como figura ilustredas terras de origem de sua mulher. A empatia que logo surgiu entre nós, seguida de umasólida amizade mantida pelo cuidar constante da Dra.Assunção Carqueja e que nunca mais deixou de crescer,alimentada pela feliz coincidência de amigos comuns e poridênticos interesses de estudo nas áreas da documentação,educação, história e património cultural, designadamenteatinentes a Trás-os-Montes, Alto Douro e Beiras, acabariapor reunir-nos de novo, mais tarde e mais prolongadamente. Deu-se esse nosso memorável reencontro na Bélgica,em 1992, quando o Professor Adriano Vasco Rodriguesera Diretor da Schola Europaea (Mol), no âmbito da UniãoEuropeia, cargo que deteve de 1988-1996, sendo o primeiroportuguês a ocupá-lo e merecendo, pelo prestigioso trabalhoque aí desenvolveu, um louvor do Ministro da Educação em1996. Por essa altura, a Dra. Assunção Carqueja Rodrigues,desempenhava, por sua vez, as funções de técnica científicana área da Filosofia, na mesma escola, próxima de Bruxelas,estabelecimento de ensino integrado (pré-escolar, primárioe secundário) fundado em 1960, para educação dos filhosdos membros do pessoal da Comissão Europeia, e cominternato a partir de 1985, aberta a crianças e jovens demuitas outras famílias europeias que vivem e trabalham naárea. Dotada de quatro seções linguísticas (alemão, inglês, 240
  • Percursos de razão e afetosfrancês e língua holandesa), a Schola Europaea prepara,ainda, os alunos finalistas do secundário para a obtençãode um diploma europeu de acesso ao ensino superiorreconhecido em todas as universidades europeias e emalgumas estrangeiras. É missão desta escola, definida por Jean Monet, paidas Comunidades Europeias, aquando do seu projeto inicialde 1953 “Educar as crianças e os jovens, desde a infância,em igualdade e sem problemas nem preconceitos, dentrode tudo o que é grande e bom nas diferentes culturas,levando-os a crescer e amadurecer juntos. Sem deixar deolhar para as suas próprias terras, com amor e orgulho, elesse tornarão os europeus do futuro, educados e preparadospara concluir e consolidar o trabalho que antes deles seuspais desenvolveram e para construir uma Europa unida epróspera.” Missão com que, a convite do seu talentoso Diretor,o Professor Adriano Vasco Rodrigues, tomámos diretocontacto, guiados pela sua douta orientação, durantedois dias, respirando o sábio ambiente pedagógico dosseus agradáveis e bem equipados espaços de aula e deaprendizagens múltiplas extra-escolares, perfeitamenteorganizados num belo e grande edifício rodeado deverdejantes bosques e jardins que embelezam e protegemesta escola modelo. Integrava eu, então, juntamente com alguns deseus amigos de infância e antigos colegas de ensinoliceal em Lisboa, no Instituto Presidente Sidónio Pais(estabelecimento de ensino para filhos de professores de 241
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesensino primário)6, o grupo alargado dessa inesquecívelviagem à Bélgica, tornada possível pelo convite e totalapoio do Professor Adriano Vasco Rodrigues. Esta viageme estadia, com o seu permanente acompanhamento, francahospitalidade e sábia orientação proporcionada pelos seusmais diversos conhecimentos e enorme à-vontade assentenuma rede vastíssima de contactos e conhecimentos locais,em breve se transformou numa excecional visita de estudode natureza histórica, cultural e turística à região norte daBélgica e a toda a área do antigo e histórico condado daFlandres, foco do moderno capitalismo europeu, durantea baixa Idade Média. Neste tempo, estreitas eram as suasligações com o nosso país que perduraram por mais algunsséculos de história económica e diplomática partilhada. Em alegre, seguríssimo e descontraído ambiente deamizade, são convívio cultural, estimulante e enriquecedoravivência, nos acompanhou em todos os dias da nossa estadia,o Professor Adriano Vasco Rodrigues que não deixou denos proporcionar, também, esclarecedores contactos compessoas das duas comunidades da Flandres: a flamenga e a6 Sobre a história social deste Instituto do Professorado Primário OficialPortuguês (Instituto Sidónio Pais), existente em Lisboa e Porto, durante75 anos, veja-se o livro FELGUEIRAS, Margarida Louro – Para uma his-tória social do professorado primário em Portugal no século XX. Uma nova famí-lia: O Instituto do Professorado Primário Oficial Português. Porto: Campo dasLetras, 2008. Adriano Vasco Rodrigues é, como outras figuras púbicasex-alunos do Instituto, entrevistado e citado nesta obra cuja autora foi,também ela, aluna do Instituto no Porto. 242
  • Percursos de razão e afetosvalona, cujas tendências separatistas e movimentos ativosainda hoje estão na origem da atual crise política da Bélgica. Companheiro cordial e atento, guia dos maiscultos que se poderia ambicionar e cicerone excecional,o Professor Adriano Vasco Rodrigues sem deixarnunca de nos guiar, seguro, pelos mais insuspeitados eincríveis trajetos culturais, proporcionou-nos ainda umainesquecível viagem espácio-temporal. Conhecemos aflorescente cultura e pintura flamenga dos sécs XV a XVII,que pudemos apreciar em muitas das igrejas e museusvisitados, sem esquecer as belas livrarias e preciosasbibliotecas de antigos conventos hoje reconvertidos emdinâmicos produtores das muitas variedades de cerveja edoçaria artesanal belga, os aprazíveis e acolhedores parquesnaturais, os mais renomados ou escondidos sítios e ex-librisda história e da literatura europeia, sem esquecer as muitase atrativas cidades da região, por onde deambulámos, desdeBruxelas. Aqui, gostosamente nos perdemos com a suagastronomia típica, dos mexilhões aos doces, e admirámosa sua representativa coleção de edifícios arte nova, atémuitas outras cidades tão ou mais memoráveis pela suarica história e excecional beleza, como as históricas cidadesde Liège, Gant, Bruges, com suas tradicionais rendas,onde, desde o séc XIII, se encontravam os mercadoresportugueses. Também visitámos Antuérpia e as suas ricas eantigas guildas, ou a famosa cidade de Lovaina que continuaa ser para os flamengos a capital da Flandres. 243
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Inesquecível esta viagem como a hospitalidade, otrato solidário e o talento cultural e humano do ProfessorAdriano Vasco Rodrigues que nos acolheu. Qual romeiro pagador de promessas, tive pois devoltar ao encontro destes dois seres humanos de exceção,recordando lições de vida, de sabedoria e de ternura queambos, constantemente, nos prodigalizam. Do pouco que fica dito se poderá concluir que, seMaria da Assunção Carqueja Rodrigues é uma mulher dedestaque da cultura transmontana por aí (man)ter as suasraízes nunca renegadas, ela é para além disso, pelas vivênciasde uma vida longa e intensa, uma cidadã do mundo. Adriano Vasco Rodrigues, nobre figura de beirão dosquatro costados e transmontano de adoção, homem quedesempenhou com honra e louvor múltiplos e altos cargosnos campos da política, da cultura e da educação e autorde centenas de estudos, livros e trabalhos nas mais variadasáreas, parte deles como bolseiro de prestigiadas entidadesnacionais e estrangeiras, afirma-se no nosso panoramapolítico e cultural como incontornável referência. Ambos, notáveis pedagogos e incansáveis investiga-dores, pelos valores que defendem, pela preservaçãoexemplar de suas identidades, pelas causas por que se têmbatido, pelas elevadas preocupações sociais, culturais epedagógicas, pela qualidade das suas obras, ações e posiçõesde dignidade, merecem todas as homenagens e tributos deseus conterrâneos e dos muitos amigos e admiradores quesempre souberam granjear, com notória consciência sociale pública. 244
  • Percursos de razão e afetos Bibliografia consultadaANDRESEN, Sophia de Mello Breyner – Obra Poética III. Lisboa: Caminho, 1991.FELGUEIRAS, Margarida Louro – Para uma história social do professorado primário em Portugal no século XX. Uma nova família: O Instituto do Professorado Primário Oficial Português. Porto: Campo das Letras, 2008.Revista CEPIHS, n.º 1, janeiro 2011. Moncorvo: Centro de Estudos e Promoção da Investigação Histórica e Social.Revista Altitude, nº 12-III série – outubro de 2009. Guarda: Assembleia Distrital da Guarda. Revista Regionalista fundada em 1941.RICOUER, Paul – Ideologia e Utopia. Lisboa: Edições 70, 1991RODRIGUES, Adriano Vasco Rodrigues, Coord. – Almeida: Da pré-história aos nossos dias. Memorias. Edição bilingue. Almeida: Câmara Municipal de Almeida, 2010.RODRIGUES, Maria da Assunção Carqueja, RODRIGUES, Adriano Vasco Rodrigues – Felgar: História, Indústrias artesanais, Património. Edição de Autores, 2006. 245
  • Percursos de razão e afetos MARIA DA ASSUNÇÃO Rui Prado Leitão* É meu privilégio poder falar sobre a “nossa Assunção”,apesar de me sentir muito aquém de saber traduzir as suasreais qualidades literárias tão bem expressas na sua poesiaque, carinhosamente, me tem feito chegar. À Assunção e ao Adriano devo a regularidade dasconversas telefónicas, para nos inteirarmos da saúde e,também, por motivos nada altruístas – para revivermosepisódios e avivarmos saudades da “nossa Coimbra”, semprepresente. A Assunção pertencia a um grupo de colegas daFaculdade mais restrito, em termos de convivência ecamaradagem. A ela fiquei a dever a disponibilidade dosseus “apontamentos”, uma ajuda fundamental porque aminha letra era ilegível, até para mim. Esta despreocupaçãopermitia-me estar nas aulas com um certo à-vontade edisplicência. Numa das muitas fastidiosas aulas de um* Colega de Faculdade de Maria da Assunção Carqueja. 247
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesProfessor de História, eu e um colega do lado trocávamos,à socapa, comentários mais ou menos jocosos sobre odiscurso anedótico que ele proferia. A “pobre” da Assunçãoé que “pagou as favas”, com uma inconveniente advertênciado Professor... Foi também a Assunção que atirou, da janela do segundoandar onde morava, já passava da meia-noite, a “sebenta” deNumismática que eu, desesperadamente, tentava encontrar.Precisava das folhas sobre o “Asse Liberal” que, daí a poucashoras, deveria sair no exame... Recordar a Assunção é lembrar aqueles cinco anosde alegrias e tristezas, sonhos e realidade, cinco anos defranca camaradagem. As recordações do que vivemosacompanharam-nos até hoje e irão acompanhar-nos até aofim... Obrigado, Assunção! Um abraço do Rui para o casal, Assunção e Adriano. 248
  • Percursos de razão e afetos HOMENAGEM AOS PROFESSORES ADRIANO VASCO RODRIGUES E ASSUNÇÃO CARQUEJA Telmo Cunha* O primeiro encontro com o Professor Adriano VascoRodrigues aconteceu na década de 50 do século passado,na cidade da Guarda, era eu aluno do Liceu. Rapidamentedemos conta que ele era diferente. Habituados a um modelode Professor e a um estilo de ensino próprio da época, nãodemorou muito para nos apercebermos de que aquele novoProfessor trazia algo de novo, era mais próximo, mais vivo eassertivo, emprestando às aulas, uma dinâmica incomum, edepressa causou uma visível empatia na maioria dos alunos.Foi uma “aragem despertadora” para a mente de muitosjovens daquela época um tanto sombria, no aspeto cultural.Ao ler agora o último número da revista PraçaVelha, sei queo encontro ocorreu entre 56 e 58. Neste curto espaço detempo, deixou a sua “marca” na cidade, quer dentro doLiceu, quer fora dele. Para além de professorar, a sua sede* Aluno de Adriano Vasco Rodrigues, no Liceu da Guarda. 249
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesde saber levou-o ao passado, tentando descobrir como eraa vida dos homens que por aquelas terras procuraram gerirsuas existências. A Arqueologia foi e continua a ser umadas suas paixões. Inconformista e não pactuando com o“marasmo” instalado dentro das portas do Liceu, criou umGrupo de Teatro fora de portas (Teatro do Romanceiro).Com toda a naturalidade e frontalidade, interveio naseleições presidenciais que entretanto ocorriam, apoiandoa candidatura do General Humberto Delgado, o que lhetrouxe o dissabor de ter de abandonar o Liceu no anoseguinte. Basta atentar em todas estas suas iniciativas eatitudes, para concluirmos tratar-se o Professor Adrianode um homem invulgar, que deixa sempre uma intensaimpressão e admiração em todos os que com ele contactammais de perto. Este sentimento, se o convívio se prolongarno tempo, inevitavelmente acabará por criar raízes de umasã e fraterna amizade, pois a sua afabilidade e constantedisponibilidade para o Outro, é algo que lhe é intrínseco,formando parte do seu caráter muito pessoal. O primeiro encontro deixou-me este agradável eimpressivo “retrato”, e sei que o mesmo aconteceu com agrande maioria dos meus colegas de então. Durante largos anos os nossos caminhos não secruzaram, apenas me recordo de o saber no cargo deGovernador Civil na cidade da Guarda, e de ouvirinúmeros elogios à sua postura política, conseguindounir num tempo de grande desunião, conseguindo comtoda a naturalidade e simplicidade, ser apoiado e desejadopor todos os Presidentes dos Executivos Municipais do 250
  • Percursos de razão e afetosdistrito. Uma outra vez abandonou o seu posto, tal comotinha acontecido anos atrás no Liceu, devido à sua fortepersonalidade e à exigência que coloca na defesa dos seusvalores e dos princípios em que acredita. Recordo tambémter sido deputado na Assembleia da República, ondeinterveio com a sua habitual fluidez e sempre em coerênciacom o ser profundo que nele reside. O segundo encontro foi proporcionado pelosinúmeros convites que recebe das instituições da regiãobeirã, para intervir em acontecimentos de índole culturale social. Passámos a cruzar-nos em tais eventos, aos quaispassei a assistir com bastante frequência, devido sobretudoao meu ativo papel na feitura do jornal de Almeida (PraçaAlta). Agora, já numa fase adulta, comecei a adquirir ummelhor conhecimento do nosso querido homenageado,percecionando com maior detalhe a sua rara personalidade.Muito sinceramente, depois de o ouvir dissertar sobrediversos temas, sobre os quais as suas palavras deslizamespontaneamente, saltando de uns para outros, sem qualquerdificuldade, interligando-os no espaço e no tempo, fazendo--nos assim perceber, como tudo está ligado, fui assaltadopor uma grande perplexidade: como conseguia o ProfessorAdriano V. Rodrigues adquirir tanto conhecimento, deáreas tão diversas do saber? Confesso que foi coisa na qualpensei diversas vezes e que me despertou o meu profundointeresse e uma imensa curiosidade. Todos nós temos asnossas peculiaridades, e uma das minhas é ser curioso.Quando algo me desperta, quando qualquer coisa de quegosto me questiona, eu de imediato procuro descortinar e 251
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesentender os porquês. O saber multifacetado do ProfessorDr. Adriano Vasco Rodrigues passou a ser um dos muitosassuntos que eu vou constantemente acumulando, no sótãodas minhas interrogações, e cuja compreensão persigocom alguma tenacidade. Com o decorrer do tempo e àmedida que o nosso relacionamento se foi estreitando,bem como a leitura de algumas das suas obras literárias queentretanto fui lendo, não esquecendo os numerosos artigosescritos para o Praça Alta e outros jornais regionais, foi--se desenhando na minha mente o seu “perfil”, nas diversasvertentes de que o homem é feito. No presente momento,é pois com imensa satisfação que escrevo estas curtas linhassobre o encantador casal, que tive a felicidade de conhecere a cuja justa homenagem me associo. Para mim, na minha óptica pessoal, o segredo daversatilidade do conhecimento do Dr. Adriano VascoRodrigues resume-se sobretudo no seu modo muito pessoalde olhar, sentir e perscrutar o mundo envolvente. Peranteum Universo infindo e tão diversificado, ele não o tentaformatar, não usa o preconceito dos seus conhecimentosentretanto já colhidos, antes avança sem receio ao seuencontro, tentando compreendê-lo e aceitando sempreo Outro, em vez de o recusar ou restringir. Desta formaconsegue fazer sínteses onde integra o conhecido e odesconhecido, avançando na perceção de realidades porvezes bem distantes daquelas já suas conhecidas. Esta suaatitude, esta abertura de espírito, faz toda a diferença, e daía grande capacidade em abarcar vastas áreas do saber. É umverdadeiro exemplo para todos os que com ele contactam, 252
  • Percursos de razão e afetospois só assim é possível evoluir e não ficar estagnado naquiloque já pretensamente conhecemos.Abrirmo-nos aos outros,à sua cultura, história e tradições, é um ato fundamentalpara uma melhor leitura do mundo, e desta forma fazercrescer e enriquecer o próprio universo interior. Somentecom esta coragem de enfrentar o desconhecido, sem receiodo caos que ele pode porventura provocar no nosso íntimo,é possível fazer crescer e enriquecer o nosso própriouniverso interior. Pessoalmente admiro homens que assimpensam e atuam, sendo para mim um forte estímulo, nosentido de os imitar, recusando preconceitos e um sabercomodamente instalado e perfeitamente arrumado nasinúmeras “prateleiras” da nossa extensa massa cinzenta.Encontrando-se o mundo em constante mutação, torna--se imperioso acompanhar tal “movimento”, com umapermanente disponibilidade para mudar de ângulo devisão, para limar arestas aqui ou ali, para olhar as velhase pesadas coisas como inspiração para ir mais além, comuma maior abertura e sempre num superior patamar deliberdade individual. Costuma dizer-se que “ao lado de um grande homem,há sempre uma grande mulher”, mas este pensamento podeinverter-se e colocar-se em primeiro lugar a mulher, tudodependendo do grau de conhecimento que temos de ambos,bem como do seu grau de mediatização. No meu caso, tenhotido mais contacto e, portanto, um maior conhecimentodo Professor Adriano Vasco Rodrigues. Relativamente àSenhora Dra. Assunção Carqueja, nos curtos convívioscaptei a sua visível simplicidade, discrição e uma rara 253
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguessensibilidade. Ler os seus livros foi uma grande emoção eporque não dizê-lo algum espanto, uma vez não ser eu muitoversado na difícil arte da Poesia. A sua forma de expressão,através de poemas, tem uma beleza e uma profundidade desentimentos que muito particularmente me tocaram. São“perfeitas radiografias” da sua alma, podemos mesmo dizerdas nossas almas, das almas dos seres humanos de hoje,perturbados com as dores do mundo, com a nossa habitualincapacidade em atingir a verdade e a angústia que talbusca acaba por nos causar, sobretudo, quando se mexe naintimidade de cada um, e nas suas particulares inquietações.Já uma vez me referi à universal utopia, expressa numdos seus poemas – “Eu, sou tu e todos nós / tudo na mesmaverdade”. Este sentimento do Uno é algo que intuímos,que sentimos nas profundezas do nosso Ser, o qual não seconsegue revelar plenamente neste existir terreno. Aquie agora, olhamos as coisas através dos numerosos “filtros”criados ano após ano, vida após vida, no sentido de nosdefendermos dos medos e das dores existenciais. Alguémafirmou um dia o seguinte: “Nada é verdade ou mentira, tudoé da cor do cristal com que se olha”. A Poesia é isto mesmo, aexpressão do que sentimos e pensamos. E os poemas daDra. Assunção Carqueja combinam bem as inquietaçõesdo coração com os da mente. Os seus poemas têm umabela sonoridade, pois as palavras bem colocadas provocamuma doce harmonia, como muitas outras artes humanas ofazem. Para além desta emoção, os seus poemas revelamum intenso e doloroso diálogo entre a razão e o coração.A respeito desta minha afirmação, gostaria de sublinhar 254
  • Percursos de razão e afetosneste momento, duas quadras do seu livro Os Tempos doTempo (pág. 11). No Tempo há tantos tempos esquecidos porque não são história! Talvez só conhecidos em singular memória!... (...) O Tempo tantos tempos apagou!... … mas seria dif´rente o Tempo que ficou sem tempos dessa gente! Tinha razão Jaime Brasil, na sua apreciação nosanos 50 do século passado, quando escreveu: “…oautor é um grande poeta. Não deve portanto calar--se, ocultar a sua poesia. Publique-a, não por vaidade,mas por dever. Vaidade, ninguém a deve ter por essesdons. Não dependem da sua vontade: acontecem--lhe. Dons dos deuses? Dons da vida. Assim como serepartem os bens materiais com os deserdados, devem serdistribuídos os do espírito pelos que têm fome e sede debeleza…”. O autor a que se referia o jornalista era a nossa queridahomenageada. E continuando nesta curta apreciação à sua Poesia, aquideixo mais uma “jóia” do seu livro Jardim da Alma (pág. 19). Nós vivemos procurando… A procura faz a vida 255
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues e a meta conseguida nova meta vai gerando. E se já não procuramos não vivemos, vegetamos! Por último, não resisto a que reflitam neste óptimoexemplo de como a sua intuição a pode arrastar paradeterminados caminhos, certamente incómodos para a suarazão. Todos nós já passámos por idênticos “choques”, e éassim que a dialética vai construindo a realidade de cadaum. Na verdade não sei se sei quem sou! Minh’alma não nasceu quando eu nasci… Ao longo dos milénios se forjou, Não só durante o tempo que vivi! E termino esta minha contribuição para a justíssimahomenagem que se presta a este admirável casal, dizendoo quanto gosto deles e os admiro, aproveitando ainda aoportunidade para agradecer todas as suas manifestaçõesde simpatia, bondade e a permanente disponibilidade naajuda prestada ao meu trabalho literário. Mais que este curto apontamento sobre as suasatividades intelectuais e científicas, quero expressar omeu grande afeto pelos homenageados, afirmando que sãopessoas assim que nos fazem acreditar num mundo melhor,mais colorido, mais justo, humano e próximo daquelaharmonia por tantos tão desejada e sonhada. 256
  • Percursos de razão e afetos COMO QUE UM REGRESSO ÀS ORIGENS Virgílio Tavares* O progresso de uma sociedade resulta do seu grau decultura. Trás-os-Montes, região caracterizada por carênciasde toda a ordem, desde os tempos mais remotos, beneficiou,na década de oitenta, de um gesto advindo do Homem queaqui, justamente se homenageia – Adriano Vasco Rodrigues.Plurifacetado nas funções que desempenhou, todas em prolda cultura e do bem comum, foi como Diretor Geral doEnsino Particular e Cooperativo, cargo que exerceu de1983 a 1985, com a maior competência – competênciaessa reconhecida com um louvor do Ministro da Educaçãode então –, que autorizou a abertura do InstitutoPiaget em Macedo de Cavaleiros. Esta iniciativa veio aoencontro de uma velha aspiração das gentes da região, quepretendiam a implantação do ensino superior como fatorde desenvolvimento e de oportunidade de futuro para* Professor do Instituto Piaget, Mirandela; investigador. 257
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesos jovens, uma mais valia naquele sentido. Sendo daquinaturais, a oportunidade de terem, próximo de si, a soluçãopara os seus estudos superiores e, consequentemente,a solução para a sua vida profissional, conduziria, maisfacilmente, à sua permanência nas terras a que pertenciam.É inquestionável a importância de tal gesto e os serviçosque aportou a tantas gerações, tal como os que resultaramdas Universidades da Beira e de Trás-os-Montes, a cujonascimento está, igualmente, ligado. Efetivamente, a criação, em 1990, da ESE Jean Piaget,Escola Superior de Educação, com licenciaturas destinadasa diversos graus de ensino, desde o Pré-Escolar ao 1.º e 2.ºCiclos do Ensino Básico e, em 1993, a criação da EscolaSuperior de Enfermagem, orientada para a formaçãonuma área notoriamente deficitária em Portugal, no queaos recursos humanos diz respeito – a Saúde – deram aesta zona do interior português uma nova oportunidadede desenvolvimento, abrindo as portas ao ensino superiorem terras muito afastadas do litoral. Nesta Escola, agoradesignada ESS Jean Piaget – Escola Superior de Saúde, sãolecionados cursos como Fisioterapia, Análises Clínicas e deSaúde Pública, e Enfermagem. O gesto do Professor Vasco Rodrigues e o da ampliaçãodo Instituto Piaget contribuíram para esse progresso e paraa fixação das populações numa das regiões de Portugal maismarcadas pela interioridade e pelo afastamento dos grandescentros urbanos do litoral. A prová-lo está a elevação acidade, em 1999, da então vila de Macedo de Cavaleiros. 258
  • Percursos de razão e afetosOs anos de ouro que esta cidade viveu com o incrementoda atividade do tecido económico local e regional, querpela via do aumento populacional associado à chegada dosnovos alunos, quer pela dinamização das trocas comerciaisdaí decorrentes, estão ainda patentes no tecido urbanodaquela cidade. Adriano Vasco Rodrigues é um Homem de amplasvisões e de grande generosidade cultural. Como que de umamissão se trate, coloca ao serviço dos outros a sabedoria e aprofunda competência que o caracterizam. Neste sentido,é ao Piaget que regressa, na sua qualidade de Presidenteda Mesa da Assembleia do CEPIHS – Centro de Estudos ePromoção da Investigação Histórica e Social – Centro deEstudos Transmontanos e Alto Durienses, com sede emTorre de Moncorvo. Responsável pela sua fundação, emsetembro de 2010, apoiou a assinatura, recentemente, deum protocolo entre as duas instituições, que contempla acolaboração em termos da investigação da nossa região. Congratulo-me com esta iniciativa, na qualidade dedocente deste instituto e de investigador. É, ainda, umahonra, poder contar com a presença do Senhor Professorna promoção cultural das nossas terras, numa linha decontinuidade profícua, desenvolvida, em grande parte,em conjunto com a Senhora Professora Maria da AssunçãoCarqueja, cujo valor como pedagoga, estudiosa e poeta éampla e legitimamente admitido. Não deixou de constituir, também, um privilégio ofacto de ter substituído, como professor, Adriano VascoRodrigues no Liceu António Nobre, em 1977, quando ele 259
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodriguesfoi assumir o lugar de deputado na Assembleia da República.As turmas que lecionei, nesse ano, manifestavam-me asaudade do Professor. De igual modo, os colegas docentes,referiam-se-lhe como um excelente e distinto profissional,de bom trato e fina camaradagem. Só bem mais tarde éque tomei consciência de que fora ocupar o lugar deum professor daquela craveira, eu que iniciava, assim, asminhas lides docentes! Não foi um desafio fácil! Mas a vidasurpreende-nos com coincidências deste tipo e eu dei estapor bem vinda! Adriano Vasco Rodrigues é, sem dúvida, uma indivi-dualidade ímpar da nossa Cultura e uma referência únicaem termos humanos. Orgulhamo-nos de o termos como“conterrâneo” e na lista dos mais ilustres. 260
  • BIO-BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL
  • Percursos de razão e afetos MARIA DA ASSUNÇÃO RODRIGUES António Vasco Rodrigues Loja* Maria da Assunção Carqueja nasceu no Felgar, Torrede Moncorvo, a 15 de agosto de 1930, filha de GualdinoAugusto Carqueja e Evangelina da Conceição Carqueja. Frequentou os três primeiros anos da Escola Primária,no Felgar. No Colégio Campos Monteiro, em Moncorvo,fez exame do 1.º grau. No ano seguinte, transitou para oColégio da Imaculada Conceição (Ordem Franciscana),em Lamego. Ali prosseguiu os Estudos Básicos e os Liceais,concluindo o curso geral dos liceus, 6.º ano, o último queali se lecionava. Fez o Curso Complementar de Letras,7.º ano, no Colégio da Senhora da Bonança, em Vila Novade Gaia, também da mesma Ordem. Optou por seguirFilosofia, na Universidade de Coimbra, na Faculdade deLetras, onde se licenciou com a classificação de Bom emCiências Histórico-Filosóficas, em 1955. Fez, ainda, oCurso de Ciências Pedagógicas.* Neto de Maria da Assunção Carqueja e Adriano Vasco Rodrigues. 263
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Iniciou a carreira docente no Liceu Nacional de Braga,em 1955-56. Casou em setembro de 1956 com AdrianoVasco Rodrigues. Foram colocados no Liceu Nacionalda Guarda, aqui trabalharam até ao ano escolar de 1958,transferindo-se para o Porto, onde se profissionalizaramna docência do Ensino Secundário. Maria da Assunção foiProfessora nos Liceus de Rainha Santa Isabel, AlexandreHerculano, Carolina Michaelis. Em 1965, interrompeu adocência no Porto para acompanhar o Marido em Angola,onde trabalhou no Instituto de Investigação Científica,na área das Ciências Humanas, tendo, interinamente,desempenhado funções de Diretora do Centro deInvestigação Científica e, também, presidido ao Comitédo Pessoal. Na área das Ciências Humanas trabalhoucom o Marido, responsável pela Seção de Pré-História eArqueologia, tendo organizado duas salas no Museu deAngola ligadas a essas áreas. Em Angola elaborou vários trabalhos nas áreas dahistória dos povos africanos, escravatura e da FilosofiaBantu. Alguns desses trabalhos foram publicados peloInstituto de Investigação Científica e, mais tarde, pelaUniversidade Portucalense. Regressada ao Porto, no ano de 1969-70, retomou adocência, vindo a exercer, antes e depois do 25 de Abril,o cargo de Metodóloga para a formação de professores deFilosofia. É, desde 1976, membro da Association Internationaldes Professeurs de Philosophie, Europa Forum, tendo participadoem vários colóquios e congressos. 264
  • Percursos de razão e afetos Em 1988-89, acompanhou o Marido que, por concursointernacional, obteve o cargo de Diretor da Schola Europeaeda U.E., na Bélgica. Durante 10 anos, exerceu o cargo deConselheira Técnica para o Ensino da Filosofia na U.E.,que desempenhou com elevado mérito, apreciado pelossuperiores responsáveis da Comissão de Educação. Dedica-se à poesia desde a infância, colaborando emjornais e revistas. No Colégio de Lamego, escreveu algumaspeças de teatro, conhecendo uma delas grande sucesso.Tratava-se de um concílio dos deuses do Olimpo paraaprovar a reforma do Ensino, publicada, então, em 1947.Em 1950, escreveu a letra do Hino do Felgar, musicada peloconterrâneo e compositor António Pedro. Hoje, é tocadapela Banda do Felgar. No Natal deste ano, fez a poesia, Luarda Minha Aldeia, também musicada por aquele compositor. Realizou trabalhos nas áreas da História, da Filosofia,da Pedagogia e, também, da Poesia.Algumas das suas obrasEstudosSubsídios para uma monografia da Vila da Torre de Moncorvo(1955; Dissertação de Licenciatura).Subsídios para o estudo das ferrarias do Reboredo (1961).Noções de Filosofia (1962).Colaboração na História Geral da Civilização, de AdrianoVasco Rodrigues (1961-1975; 8 eds).Personalismo, Liberdade e Compromisso (s/d.). 265
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesAs Trovas do Bandarra – sua influência Judaico-cabalística namística da paz universal (1982).A dimensão moral nas comunidades africanas de expressão bantu(1982).Felgar (2006), em colaboração com Adriano VascoRodrigues.Documentos Medievais de Torre de Moncorvo (2007).PoesiaVersos do meu diário, (sob pseudónimo Miriam; 1978).Porquê mais que nada (2002).Os tempos do Tempo (2005).Jardim da Alma (2008).Amanhã é outro dia (2011).Moncorvo, Quadros da nossa História (a publicar). 266
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES João S. Campos* Nasceu na Guarda, em 4 de maio de 1928, cidadeonde fez estudos liceais, que conclui no Porto. Exerceu adocência nos três ramos de ensino: primário, secundárioe superior. Consagrou-se à investigação nos ramos daHistória e Arqueologia.Diplomas académicosLicenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas, pelaUniversidade de Coimbra, 1956.Curso de Ciências Pedagógicas, U.C.Curso de Língua e Cultura Espanhola, pela Universidadede Santiago de Compostela.Especialização em História da Arte (Medieval), sob adireção do Professor José Maria de Ascarati Ristori, damesma Universidade (então equivalente a Doutoramento).* Arquiteto. 267
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesExame de Estado (presidido pelo Professor Delfim Santos)e Estágio (2 anos), para o exercício do Magistério Liceal(4.° grupo) – Classificação de Bom, 1960.Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian no InstitutFür-vor-und Fruhgesehiehte da Universidade de Bona(Alemanha), em Técnicas de Arqueologia Tridimensional,1961 e 1962.Diploma de membro da Union Européenne des ConseillersTechniques Scientifiques (área de Educação), 1988.A course organization culture communication for inspiration anddevelopment, destinado a Diretores da Schola Europaea, tendofrequentado Seminários em Egelund, Dinamarca, 1989,Hans-Sur-Lesse (Bélgica), 1990; Mol (Bélgica), 1992;Munique, (Alemanha), 1995.Estatuto de Formador (História Geral; História de Portugal;e História da Arte) – (Conselho Científico-Pedagógico deFormação Contínua), Universidade do Minho, 1997.Formador (Sistema Nacional de Formação Profissional),1998.Ensino Superior e InvestigaçãoRegeu o Curso de Arqueologia Peninsular no Centro deEstudos Humanísticos, anexo à Universidade do Porto,1958-1962.Regeu a cadeira de História Geral da Arte, como ProfessorAssociado na Universidade Livre do Porto, transitandocom a mesma categoria para a Universidade Portucalense,1978-1982 – U.L. / 1986-1989 – U.P. 268
  • Percursos de razão e afetosBolseiro do Consejo Superior de Investigaciones Cientificas(Madrid), no estudo das guerrilhas de Viriato e caminhosda Meseta, na Estremadura Espanhola, 1963.Colaborador do Instituto de Investigação Científica deAngola e responsável pela organização da Seção de Pré--História e Escavações Arqueológicas, 1966-1969.Realizou numerosos trabalhos de campo de Arqueologia eprospeção nos concelhos da Meda, da Guarda, de Torre deMoncorvo, Sabugal, Figueira de Castelo Rodrigo e Monçãoentre os anos de 1960 a 1981.De 1981 a 1988, foi Presidente em Portugal da AssociaçãoInternacional para Defesa das Democracias, tendo comoVice-Presidente Sam Levy.Trabalhou, equiparado a Bolseiro, num Projeto deInvestigação sobre Cultura e Arte Africana, 1986-1989.Dirigiu e organizou a recuperação do Teatro Romano deLisboa, 1986-1989.Após o regresso da Bélgica, trabalhou em Investigação naUniversidade Portucalense, 1997, e realizou cursos livresde Arte Africana, Educação para a Europa, Numismática,Arte e iniciação ao estudo de Antiguidades, História dasReligiões.Membro do Conselho Nacional de Acreditação da Formaçãode Professores, desde 2000.Regeu cursos de Arte na Universidade Sénior da Foz, 1999--2007.Em 2004, por proposta do Reitor e aprovação do ConselhoCientífico da Universidade Portucalense foi nomeado 269
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesDiretor do Instituto Sénior desta Universidade, onde regeuo curso de História das Religiões e Introdução ao Estudo dasAntiguidades. Participou em vários congressos e colóquios.Fez exposições sobre arte africana, pondo à disposição daCâmara Municipal de Almeida o seu espólio para a criaçãode um Museu de Arte Primitiva.Ações sobre a Presença Judaica em PortugalFundador (sócio n.° 1), da Associação da Amizade e Rela-ções Culturais Portugal-Israel (1979). Foi Presidente daDireção e é Presidente Honorário. Com sua Esposa estáligado ao nascimento do Museu Judaico de Belmonte.Louvores e condecoraçõesRecebeu louvores e condecorações, sendo distinguidocom a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique e asMedalhas de Ouro das Câmaras Municipais do Porto,Guarda e Almeida.Publicações – revistasFundador e codiretor da Revista Lucerna, 1960-1965(Arqueologia), Edição da Universidade do Porto. Diretorda Revista de Ensino, de Angola, 1965-1969. Diretor daRevista Altitude (da Assembleia Distrital da Guarda),1978-2007. Diretor do Boletim OR (Luz) da Associação deAmizade Portugal-Israel. (1980-90). Colaborou e colaboraem várias revistas científicas. 270
  • Percursos de razão e afetosPublicações – livros e separatasÉ autor de numerosas publicações de que se distinguem:A Catedral da Guarda na História e na Poesia (1953).Arqueologia da Península Hispânica (1960; 4 eds.).História Geral da Civilização (1962-1975; 2 vols; 8 eds.).Portugal – história, arte e tradição, (1991; traduzido emNeerlandês e Francês).Judeus Portugueses no Desenvolvimento dos Portos Atlânticos naIdade Moderna (1979).História da Engenharia Civil – Pilar da Civilização Ocidental(2006).Felgar (2006), em colaboração com Maria da AssunçãoCarqueja Rodrigues.De Cabinda ao Namibe – Memórias de Angola (2010;2 eds.). 271
  • FOTOBIOGRAFIA
  • Percursos de razão e afetosMARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA Com os pais e a avó materna 275
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Primeira comunhão 276
  • Percursos de razão e afetosCom os irmãos, na praia 277
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Com o pai e o irmão – Paris Família Carqueja 278
  • Percursos de razão e afetosNo Colégio de Lamego 279
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues No Baldoeiro Em Longroiva 280
  • Percursos de razão e afetosEm Trás-os-Montes 281
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Universidade de Coimbra 282
  • Percursos de razão e afetos 283
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 284
  • Percursos de razão e afetos 285
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 286
  • Percursos de razão e afetos 287
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 288
  • Percursos de razão e afetos 289
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 290
  • Percursos de razão e afetos 291
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues 292
  • Percursos de razão e afetosMARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA RODRIGUES ADRIANO VASCO RODRIGUES Casamento – Felgar 293
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesMaria da Assunção com os filhos – Leça da Palmeira 294
  • Percursos de razão e afetos Universidade de BonaNa Senhora da Boa Nova – Leça da Palmeira 295
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Nascentes do Rio Jordão Em férias em Portugal, vindos da Bélgica 296
  • Percursos de razão e afetos Natal de 2009 297
  • Percursos de razão e afetos ADRIANO VASCO RODRIGUES Deputado da Assembleia da RepúblicaRecebido por João Paulo II pelo seu trabalho na defesa dos direitos humanos 299
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesNo sítio arqueológico dos Tambores – Chãos – LongroivaJunto de uma casa de tipo lusitano – Região de Gouveia 300
  • Percursos de razão e afetosDiretor da Escola Europeia – Mol – Bélgica 301
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues Festa na Escola Europeia A caminho da Escola 302
  • Percursos de razão e afetos Com o neto Vasco Grupo de amigos, de Portugal,em visita a Adriano Vasco Rodrigues 303
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco RodriguesComemorações, na Guarda, do 25 de Abril, em 2004 Entrega da Monografia da Guarda ao Presidente da República Jorge Sampaio 304
  • Percursos de razão e afetosInauguração do Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior – Torre de Moncorvo 305
  • ÍNDICE
  • Percursos de razão e afetos 7 NOTA DE APRESENTAÇÃO Adília Fernandes11 HOMENAGEM DO MUNICÍPIO DE TORRE DE MONCORVO AOS SENHORES PROFESSORES MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA E ADRIANO VASCO RODRIGUES Aires Ferreira – O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo15 HOMENAGEM AOS PROFESSORES ADRIANO VASCO RODRIGUES E ASSUNÇÃO CARQUEJA Adriano Moreira17 PELO MUNDO DA ARTE Agostinho Cordeiro19 ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES Alcides Amaral27 HOJE COMO ONTEM Ana da Encarnação Subtil Roque31 ADRIANO VASCO RODRIGUES O HOMEM QUE, HOJE E SEMPRE, INVESTIGA, PENSA E SONHA MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA A MULHER QUE AO SEU LADO INVESTIGA, PENSA E SONHA EM POESIA António Alberto Barbosa Areosa 309
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues37 OS LIVROS FORAM FEITOS PARA SEREM LIDOS António José Ramos de Oliveira45 ADRIANO VASCO RODRIGUES UMA REFERÊNCIA António Pimenta de Castro51 DO OUTRO LADO DA LINHA... Arnaldo Duarte da Silva61 O TEMPO DE TERNA MEMÓRIA Belmira Parente63 PARA UMA BIBLIOGRAFIA ABRANGENTE DA FREGUESIA DO FELGAR: O CONTRIBUTO INTRANSPONÍVEL DE MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA RODRIGUES E ADRIANO VASCO RODRIGUES Carlos d´Abreu Maria Otília Pereira Lage77 NOTÁVEL CASAL Carlos Sambade81 MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA UMA ILUSTRE FELGARENSE Carlos Seixas91 ABRAÇOS VELHOS EM SOPROS NOVOS Céu Cavalheiro Ponce Dentinho93 A CULPA FOI DA DOUTORA... Elvira Cunha de Azevedo Mea 310
  • Percursos de razão e afetos101 HOMENAGEM A DOIS CONTERRÂNEOS ILUSTRES Fausto Afonso Pontes125 À MULHER – MARIA DA ASSUNÇÃO Fernanda Áurea127 TESTEMUNHO DE UM PREITO INSCRITO NO PRESENTE E NO PASSADO Fernando Augusto Machado133 ADRIANO VASCO RODRIGUES UM BEIRÃO CIDADÃO DO MUNDO Francisco Ribeiro da Silva147 ADRIANO VASCO RODRIGUES Gaspar Martins Pereira151 EM JEITO DE OBLATA João de Castro Nunes155 APRENDER E REFORÇAR IDEAIS COM O EXEMPLO DOS MAIORES João S. Campos161 ADRIANO VASCO RODRIGUES UMA REFERÊNCIA EMBLEMÁTICA NOS TEMPLOS DO SOL Jorge Trabulo Marques167 AOS AMIGOS ASSUNÇÃO E ADRIANO José Campos Neves 311
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues173 PREITO A UMA VIDA DE AFETOS À SOMBRA DE UMA TORRE TUTELAR José Luís Lima Garcia181 QUASE MEMÓRIAS FOI ASSIM QUE... José Maria da Cruz Pontes185 A MINHA HOMENAGEM José Marques189 ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES Levi Guerra193 A MINHA HOMENAGEM PROFESSORES MARIA DA ASSUNÇÃO E ADRIANO VASCO RODRIGUES Manuel Daniel201 UM CIDADÃO DO MUNDO Márcia Trabulo205 ALGUMAS SENTIDAS PALAVRAS Maria Adelaide Valente207 MEMÓRIAS VISITADAS Maria Clara Constantino211 RECORDANDO... Maria do Amparo (Farrica)213 NA VERDADE A ALMA FALA Maria do Amparo Dias Silva 312
  • Percursos de razão e afetos215 DE BRUXELAS COM SAUDADE Maria Manuel Gomes da Costa Pinto Gandra219 ADRIANO VASCO RODRIGUES UM HOMEM ILUSTRE QUE HONRA A GUARDA E O DISTRITO Mário Cameira Serra223 AS JÓIAS DE HELENA Mário Cláudio225 MARIA DA ASSUNÇÃO CARQUEJA E ADRIANO VASCO RODRIGUES FIGURAS NOTÁVEIS DA CULTURA PORTUGUESA Nuno de Santa Maria Pascoal231 ABERTURA AO OUTRO, AO MUNDO, AO CONHECIMENTO: LIÇÃO DE ASSUNÇÃO CARQUEJA / ADRIANO VASCO RODRIGUES. Otília Lage247 MARIA DA ASSUNÇÃO Rui Prado Leitão249 HOMENAGEM AOS PROFESSORES ADRIANO VASCO RODRIGUES E ASSUNÇÃO CARQUEJA Telmo Cunha257 COMO QUE UM REGRESSO ÀS ORIGENS Virgílio Tavares261 BIO-BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL 313
  • Homenagem a Maria da Assunção Carqueja e AdrianoVasco Rodrigues263 MARIA DA ASSUNÇÃO RODRIGUES António Vasco Rodrigues Loja267 ADRIANO VASCO DA FONSECA RODRIGUES João S. Campos273 FOTOBIOGRAFIA 314