Identidadebiologica da homo bio

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  • 1. Homossexualidade e genetização dos discursosHaverá, pelo menos, alguns que se lembram do célebre motto da Simone de Beauvoir – on nenait pas femme, on le devient – transformado em bandeira da corrente feminista que nasce nomeio do século vinte.Para uma feminista que viveu ou tem memória desses tempos idos da década de sessenta, arelação que os homossexuais têm com a biologia e, em particular, com a noção biológica dahomossexualidade só pode causar perplexidade e mesmo suspeição. Ao contrário do queaconteceu com as feministas que, para lutarem contra a dominação masculina, forjaram todoum discurso e uma prática onde é bem explícita a rejeição do ‘destino biológico’ desde sempreatribuído às mulheres, o movimento gay, em geral, e muitos homossexuais, em particular,mantêm com a biologia uma relação muito particular de ambivalência. São muitos os queacolhem bem a noção expressa pelo slogan ‘nascemos assim’, achando que ele traduz nodiscurso ideológico público o que muitas vezes se vive no privado.A procura de uma relação entre homossexualidade e biologia tem raízes antigas , mas hoje osdesenvolvimentos das ciências da vida, nomeadamente da biologia molecular, vieram dar novavisibilidade e novos contornos à percepção de uma identidade gay.Esta reformulação enquadra-se num movimento mais vasto de biologização doscomportamentos sociais e individuais. Apropriando-se daquele conhecimento, muitos evariados ideólogos apareceram a proclamar, de modo certo e seguro, explicações biológicaspara toda uma série de condições desde o alcoolismo até à pobreza. Entre estes e, para ajudarà credibilidade, encontramos cientistas que, saídos dos seus laboratórios, passam à cenapública.Não é pois surpreendente que encontremos nesta onda redutivista, noções como o ‘cérebrogay’ ou o ‘gene gay’ que, por razões que merecem ser analisadas, são muito bem aceites eapropriadas pelo grande público. Mais paradoxal talvez, é verificarmos que, entre esses, seencontram biólogos homossexuais e que as conclusões dos seus trabalhos encontram umaaceitação entusiasta dentro da comunidade gay. Parecendo esquecer usos de investigaçõesanteriores do mesmo tipo para efeitos racistas e sexistas, emerge a ideia de que, o inatismo é‘pro-gay, ’ enquanto que a homossexualidade vista como escolha seria uma posição anti-gay.A definição biológica da identidade gay, no sentido de uma ideologia que vê a biologia ao seuserviço, sobrepôs-se à auto- representação social e, depois de um período de retraímentomental, reemergiu, talvez com novas roupagens, mas seguindo um padrão com mais de umséculo. É uma ideia que se exprime a vários níveis, desde o nível de uma consciência 1
  • 2. espontânea pre-ideológica, através da sua função social como ideologia, até ao nível das tesese resultados da investigação científica contemporânea.Ora se a promoção dos direitos dos homossexuais permanece uma acção importante eurgente, ela não se pode fazer à custa do esquecimento dos resultados do uso dodeterminismo biológico já apontado onde as diferenças são utilizadas para estabelecer valoreshierárquicos de superioridade e inferioridade, justificando vantagens e dominação de uns sobreos outros assim como da ignorância do rasto de má ciência associada às proposiçõesbiológicas deterministas (Gould; Lewontin, Rose, Kamin, etc.).É difícil delinear as fronteiras entre o biológico e o cultural, para usarmos de modo um poucoexpeditivo a dicotomia usada por Levi-Strauss. Difícil, equívoco e de questionável utilidade, nãofossem as repercursões generalizadas das afirmações repetidas de um determinismo biológico.É a quase obsessão científica que os media nos passam e a sua recepção por diferentesgrupos que nos conduz aqui a analisar o significado de investigações sobre a determinaçãobiológica da orientação sexual. Estas investigações alimentam debates geralmenteenquadrados por dicotomias como natureza (bio) vs cultura, características e comportamentosinatos vs aprendidos. Este dispositivo favorece a crença de que a descoberta da existência deuma componente biológica na expressão de determinadas características da vida faz desta acausa e o motor praticamente automático dessa expressão particular que não seria, portanto,nem escolhida nem aprendida. Sandra Witelson, especialista em anatomia do cérebro eorientação sexual na Escola de Medicina Michael G. DeGroote na McMaster University deOntario, Canada, expressa bem a confusão terminológica presente na dicotomia entre basebiológica e aprendizagem quando diz que as provas de diferenças biológicas mostram que a 1orientação sexual não se aprende Não se aprende, faz-se . E faz-se, diria, porque ... se temque fazer: é biológico.Não podemos cair no logro das discussões enquadradas por perguntas tão limitativas como: Ahomossexualidade é biológica ou vem da educação? Sendo os homossexuais diferentes dosheterossexuais, onde se localiza a diferença, na biologia ou no meio ambiente? Uma vezaceites, ficamos atados a uma certa definição dos termos, a determinados esquemas decompreensão e modalidades de discussão. Por muito científica que pareça ser a suaformulação, os implícitos dos seus enunciados não o são. No entanto, como sabemos, não éfácil deslocar as questões para que os implícitos se tornem objecto explícito de análise. Sóassim se compreende que, depois de terem sido desacreditados por várias vezes, eles serepitam continuadamente, sem terem sofrido grandes abalos.1 Ver “Researchers find a biological explanation for biology” (2005), blog Bobvis(http://bobvis.blogspot.com/2005_05_01_bobvis_archive.html) . Não se percebe bem então o que é aaprendizagem já que esta está também associada a modificações cerebrais. 2
  • 3. No que diz respeito aos próprios homossexuais podemos perguntar se aaceitação do inatismo gay não se enraíza na sensação de mal-estar ou mesmo derevolta face às regras de género impostas desde muito cedo, muito antes de se poder falar daconsciência de uma orientação sexual particular e, nesse sentido, se a noção ideológica deque se nasce assim não tem mais a ver com essa consciência espontânea do que com uminatismo biológico. Por muito que se regrida na memória, o desfasamento, a diferença sentida ésobretudo uma diferença psicológica relativa a certos padrões socio-culturais e mentais. Pormuito profunda que seja a marca que esta diferença inscreve no próprio sentido que um sujeitotem de si, a sua representação como algo de biológico pode ser mais ideológica que biológica.Em segundo lugar, a identidade biológica elide a diferença de género na infância e a orientaçãosexual em adulto. O referente da expressão ‘nasci assim’ é a criança e não o adulto. Não hánenhuma correspondência unívoca entre o sentimento infantil e o que seria a base biológicada orientação sexual, embora a ideologia da identidade biológica procure apresentar os doiscomo uma e mesma coisa. Para além disso, a confusão generalizada entre sexo e género e acrença arreigada no dimorfismo quer sexual quer de género são co-adjuvantesimportantíssimos na acção do biologismo.1.Não cabe aqui traçar em detalhe as várias etapas do conceito de identidade biológicahomossexual e da sua recepção pela sociedade, mas vale talvez a pena chamar a atençãopara alguns momentos desse percurso.O movimento gay aparece nas sociedades ocidentais num contexto de uma condenaçãobíblica, reforçada pelo Estado Cristão. Por outro lado, sabemos que, desde a Renascença pelomenos, existem pensadores que vão contrapõem à doutrina religiosa, a razão e a ciência. É, noentanto, apenas no século 19 que se torna possível desafiar o taboo imposto pela moral cristãsobre a homossexualidade e tentar a sua discussão racional no espaço público.Ironicamente, ou talvez não, a solução biologista até convém parcialmente à Igreja, pelo menosàs Igrejas mais reformistas. Se, por um lado, ela obriga à retirada, mais ou menos explícita, daideia de depravação dos homens e da consequente condenação divina, ela permite acomodara existência de uma minoria dentro de uma ordem social que permanece a mesma. Quer doponto de vista das tendências religiosas que sabem adaptar-se aos tempos, quer do ponto devista social, a homossexualidade aparece como algo que só diz respeito a um grupo minoritário 3
  • 4. e identificável e não como uma grande ameaça ao status quo. Enquanto diferença biológica, operigo que a homossexualidade representa é difuso já que ela como ser tratada como umaanomalia tal como a dislexia, o albinismo ou outras condições do mesmo género.O primeiro ele do novo nexo ideológico que associa o discurso dos direitos de uma minoria auma identidade biológica homossexual foi formulado em 1860 por Karl Heinrich Ulrichs queescolheu o termo uranismo (de Platão – eros uranos) para designar a minoria homossexualmoderna. Já no seu primeiro livro, escrito entre 1864 e 1879, podemos ler um dos pontoscruciais do seu argumento. Segundo ele, o uranismo não se aplicaria apenas aos sentimentossexuais mas a toda a parte não física do organismo. Porque inata, a homossexualidade seriatão natural para uma minoria de homossexuais como a heterosexualidade o é para a maioria.Não há pois razão para a condenação social e legal. Sem ter ainda o apoio de uma ciênciapositiva, Ulrich não pode definir nesses termos a natureza inata singular do homossexual,embora tenha chegado a avançar com a possibilidade de existência de um ‘terceiro sexo’biológico distinto. É, no entanto, a proposta de uma alma feminina num corpo de homem quevai caracterizar a singularidade destacada por Ulrich. Mesmo em termos tão vagos, opensamento de Ulrich vai ter influência sobre cientistas mais nossos contemporâneos, como oreconhece Simon LeVay, figura proeminente do movimento gay nos Estados Unidos, econhecido pelos seus trabalhos sobre o “cérebro gay”. Ele próprio diz que as ideias de Ulrichestão na base do seu pensamento e investigação no campo da biologia. Mesmo antes de asciências biológicas terem algo de importante a dizer sobre o assunto, os trabalhos de Ulrichvieram contribuir para o alargamento da discussão académica sobre a homossexualidade eabrem o caminho às primeiras obras etnográficas e aos estudos no campo de uma psicologiacom pretensões científicas. Estava quebrado o taboo.Ulrich não foi actor único no seu tempo, claro. Já em 1897 se começara a esboçar ummovimento gay com uma campanha pública sobre os seus direitos dos homossexuais.Fundado por Magnus Hirschfeld que, enquanto cientista, gostava de falar sobre o ‘terceiro 4
  • 5. sexo’ em nome de uma ciência, por definição, neutra, o movimento acabou por ter um fimabrupto com a chegada de Hitler em 1933.Hirschfeld também não se baseava no que hoje se consideram estudos científicos mas emestudos proto-científicos com afirmações que hoje aparecem como rídiculas. O que é um factoé que vamos encontrar, recontextualizadas em discursos científicos subsequentes, algumasdas variáveis por ele introduzidas. Por exemplo, o endocrinologista Eugen Steinach mostrouque os testículos e os ovários segregam químicos que entram na circulação sanguínea comníveis que vão influenciar o desenvolvimento físico e o comportamento sexual dos animais.Steinach chegou mesmo a publicar em 1917 o resultado de um trabalho experimental que,embora não saibamos se foi, de facto, realizado, hoje nada tem de surpreendente. Essaexperiência fala explicitamente de um transplante de um testículo de um homem heterossexualpara um homem ‘homossexual, efeminado e passivo’. O resultado descrito foi o de umamudança drástica na orientação sexual. Convencido por este trabalho, Hirschfeld vai afirmarque ‘ o factor decisivo na atracção sexual contrária não está, como Ulrichs acreditava, namente ou alma (anima inclusa) mas nas glândulas (glandula inclusa). Pela primeira vez, aidentidade biológica gay podia fazer apelo não a asserções metafísicas de uma ‘alma feminina’,não apenas a sentimentos da consciência espontânea, mas à ciência experimental.Este tipo de estudo sobre as hormonas sexuais veio dar força à ideia que a orientação sexual égovernada pela química do corpo que governava a orientação sexual. O tipo de intervenção deque aqui se fala materializa um dos meios médicos utilizados nas tentativas normalizadoras ecomo que anuncia as experiências levadas a cabo não só pelos Nazis, mas também naAlemanha pós-Nazi, por médicos americanos e, em menor grau, ingleses. Alan Turing foi umadas vítimas conhecidas deste tipo de intervenção cirúrgica já em 1953.O ensinamento maior retirado desta experimentação de manipulação hormonal veio, noentanto, das razões do seu insucesso generalizado. Descobriu-se que as mudanças decomportamento animal não estavam relacionadas com os níveis hormonais dos indivíduosadultos mas com as variações hormonais durante o desenvolvimento fetal. O custo foi talvezdemasiadamente alto. 5
  • 6. Apesar dos seus vários antecessores e ser continuador desta linhagem, cabe a Simon Le Vay,com trabalhos na década de 50 do século XX, servir para marcar o início de um ciência gay.Os seus trabalhos têm, com certeza, maior grau de sofistificação tecnocientífica mas nãodeixam de corresponder à visão clássica e simplista mais disseminada. LeVay não só relacionatodos os dimorfimos somáticos sexuais, incluindo os do cérebro e do comportamento, com aprodução hormonal nas gonadas desde o início da diferenciação das mesmas, comoestabelece uma relação causal entre diferenças de níveis hormonais e de comportamentossexuais.O trabalho de Le Vay é emblemático da dinâmica que se estabelece entre ciência e política. Éo próprio que estabelece uma ligação entre o seu trabalho sobre os determinantes biológicosda homossexualidade e o estatuto legal, psicopatológico e político dos homossexuais. É umapessoa influente no espaço gay e um cientista de renome entre os seus pares. Eraneurobiólogo no Salk Institute, na California e publicava na revista Science (revista científica dereferência).O seu trabalho mais conhecido tinha como objectivo o estudo das variações no hipotalamoverificadas entre homens heterossexuais, por um lado, e outros seres humanos – gays emulheres. A hipótese previa uma diferença significativa do tamanho médio de algum ou algunsgrupos celulares presentes nesse órgão para os dois grupos.Le Vay justificou a sua hipótese baseando-se nas conclusões de estudos realizados commacacos rhesus no quadro de investigações sobre diferenças sexuais entre machos e fêmease que mostraram uma diferença de tamanho numa microestrutura do hipotálamo, maisprecisamente, no Núcleo Sexualmente dimorfico, entre uns e outros. Com estes estudoschegou-se ainda à conclusão de que a parte anterior do hipotálamo está implicada na geraçãode comportamentos sexuais tipicamente masculinos, uma vez que a modificação dessa zonaleva a que os macacos em que se fez a intervenção não percam o seu ‘sexual drive’(medido 6
  • 7. pelos intervalos de masturbação) mas deixem de exibir um comportamento masculinotípico, avaliado pelo número de vezes que montavam as fêmeas e efectuavama penetração.2Fez também uma meta-análise dos estudos comparativos do tamanho dos gruposINAH-1, 2, 3, 4 em homens e mulheres que mostraram que dois desses grupos, INAH2e INAH 3, eram maiores, em média, nos homens que nas mulheres. (Allen et al.)Estes resultados apareceram no fim da década de oitenta, levando os biólogos a darcomo provada a existência de um substracto biológico da heterosexualidade humana,apesar da grande variabilidade dentro de cada grupo sexual e da grande zona decoincidências. Tendo estes resultados como base, Le Vay partiu na sua busca do‘cérebro gay’ e da verificação da sua hipótese de que “há centros separados dentro dohipotálamo que geram comportamentos e sentimentos tipicamente masculinos efemininos.” A originalidade da sua proposta está em correlacionar a diferença detamanho de INAH 2 e INAH 3 com a orientação sexual – não com o género.Uma vez que o binarismo é prevalecente em praticamente todo o tipo de estudos sobrediferenças sexuais não é de admirar que se tenha posto a hipótese de que heterossexuaise homossexuais tenham substratos biológicos diferentes e, uma vez que se concebemapenas duas possibilidades, o substracto biológico dos gay deverá ser semelhante ao dasmulheres.Le Vay simultaneamente resume e postula que “esse núcleos estão implicados nageração de orientações sexuais típicas” afirmando que as estruturas do cérebro causamdeterminados comportamentos. Na explicação da sua hipótese podemos ler: I tested the idea that one or both of these nuclei exhibit a size dimorphism, not with sex, but with sexual orientation. Specifically, I hypothesized that INAH 2 or INAH 3 is large in individuals sexually oriented toward women (heterosexual men and homossexual women) and small in individuals sexually oriented toward men (heterosexual women and homossexual men) (1035).2 Como se sabe o hipotálamo é um orgão localizado no cérebro inferior, comum a todos os mamíferos,estreitamenteo associado à glândula pituitária e com uma. função chave no controlo da secreção hormonalque governa o ciclo dos esteroides. 7
  • 8. LeVay não só assume que a diferença de tamanho se deve a uma diferença de género e auma diferença de orientação sexual, como ainda afirma que essa diferença de tamanhoprova a base biológica da homossexualidade masculina.Na apresentação dos resultados científicos, LeVay mostra alguma cautela, afirmandoque ‘ a orientação sexual ... pode não ser a única determinante do tamanho do inah-3”,mas o seu interesse em avançar com esta interpretação tão descaradamente redutora e ointeresse demonstrado pelos editores da revista Science, levaram-no não só a essapublicação como à sua publicitação em conferências de imprensa em termos bastantebombásticos. Fora do laboratório, quer os cientistas quer os media se juntaram paraafrimar que se tinha encontrado um indicador biológico fiável da homossexualidade.Ora mesmo que se assuma que os resultados deste estudo possam ser replicados, e quese observe uma diferença média no tamanho do inah-3 entre grupos gay e hetero assimcomo entre machos e fémeas, a questão de saber se a experiência social que difere já nasidades formativas, não provoca, por feedback, uma mudança nessas formaçõesmicroanatómicas, permanece.Uma análise da investigação de LeVay mostra uma série de distorções e erros bastantesignificativos. Muitos passam desapercebidos pois fazem parte do quadro conceptualcomum da investigação sobre diferenças sexuais: a determinação do que conta comodiferença significativa para explicação de diferenças de comportamentos; a definição doque conta como comportamento tipicamente masculino e comportamento tipicamentefeminino a que se associam hormonas que recebem o nome de hormonas masculinas ehormonas femininas embora elas apareçam em todos os indivíduos e possam influenciarmuitas coisas para além das características sexuais secundárias; o consequente círculotautológico entre a ‘masculinidade’ do cérebro e os comportamentos tipicamentemasculinos, já que se assume que as hormonas ‘masculinas’ no feto criam um cérebro‘masculino’ e que o seu deficit cria um cérebro ‘feminino’; o realce quase exclusivo deresultados que mostram essas diferenças em detrimento da publicitação de resultadosem que se confirma a ‘hipótese nula’; etc.LeVay aceita o pressuposto que há um ‘comportamento sexual típico masculino’ noshumanos que difere de um outro tipo comportamento e que esse tipo é o mesmo que a 8
  • 9. “orientação sexual, ..., a direcção dos sentimentos ou comportamento em relação a ummembro do mesmo sexo ou do sexo oposto” (1034). Como se vê, a introdução doconceito de ‘comportamento sexual tipicamente masculino’, permite a determinação deum comportamento não especificado baseado no género da pessoa para quem oindivíduo se orienta sexualmente. Orientação sexual e género rebatem-se um sobre ooutro já a orientação sexual assenta em características biológicas específicas dasidentidades masculinas e femininas.Na ‘década do cérebro’, embora os modelos neuronais se tenham tornado um poucomenos rígidos e deterministas, procurando dar conta da influência da da experiência naorganização e função no cérebro, o pre-conceito da feminização do homossexualpermanece.Repare-se que o quadro de referência geral aceita uma primeira dicotomia e hierarquiaentre comportamentos de homens e mulheres e é nesse contexto que introduz adicotomia entre comportamentos sexuais típicos masculinos – os orientados para asmulheres – e outros não típicos – os orientados para homens. É, posteriormente, querefere os papéis mais ‘femininos’ ( o lado receptivo do ser penetrado) entrehomossexuais, o que me parece inevitável, independentemente da existência de práticasconcretas muito diversas e de práticas semelhantes com parceiros de sexos diferentes ,uma vez a lógica do seu quadro conceptual depende fortemente da bipolaridade dascategorias de género.Numa entrevista na revista Discover, LeVay afirma:I am saying that gay men have a womans INAH 3 -- theyve got a womans brain in thatparticular part. In a brain region regulating sexual attraction, it would make sense thatwhat you see in gay men is like what you see in heterosexual women. But people getnervous, as if Im painting gay men as women in disguise. (Nimmons 66) 9
  • 10. Lembremo-nos que LeVay escolhe, em parte, esta área do cérebro para o estudo das causasdas diferenças sexuais nos humanos porque, diz , os estudos com outros animais nos dãogarantias de resultados mais fiáveis do que os obtidos noutras áreas, fora (psicologia) e dentroda biologia (estudos cromossómicos, de estruturas do cérebro, etc.) Ora se olharmos paraesses estudos, o que se nota é que o comportamento sexual masculino típico, leia-se, ocomportamento heterossexual, se define pelo montar das fêmeas pelos machos. Ora o ‘montar’não é, em qualquer caso, característico do sexo, nem do que monta nem do que é montado,pois todas as combinações são possíveis e podem ser observadas (Bleir 87, 174). Para todos,as fronteiras entre categorias de comportamento masculino e feminino são fluidas. Mas seninguém contesta estas observações, a análise do seu significado é a maioria das vezesomitida ou mesmo reprimida. Nesses estudos vimos também que o ‘drive’ sexual éequacionado com a masturbação.Por tudo isto podemos perguntar o que é finalmente esse tal comportamento tipicamentemasculino gerado pela variabilidade de tamanho de uma dada região do cérebro. A atracçãopelas fêmeas? A penetração? Estas características não são boas candidatas, pois nãosabemos em relação a quê ou a quem se está a falar quando se fala de semelhanças ediferenças.Outro problema de que LeVay não consegue libertar-se é o do determinismo biológico com queele opera, embora reconheça, por vezes, o seu carácter restritivo, como no caso em que 10
  • 11. discute as limitações do estudo que temos vindo a analisar. Aí, ele explicita que os seusresultados não permitem dizer se o tamanho dos grupos celulares cerebrais estudados sãocausa ou consequência de um certo comportamento sexual ou mesmo se existem variáveismediadoras.Parece-lhe, no entanto, mais provável que seja no substracto biológico que se aloje a causa e,de qualquer maneira, esta limitação não apareceu como suficientemente importante paraacautelar as proposições do estudo nem impedir a sua publicação e publicitação.Na lógica argumentativa dos artigos científicos aceites pela comunidade, as limitações doestudo, são, de certo modo, exteriores à validade do mesmo, sobretudo se ele vai no sentidodas crenças dominantes e que estão longe de serem meramente científicas. Por vezes, é opróprio LeVay que afirma a necessidade de proceder a algumas ‘simplificações’ para que aciência avance, ou seja, nuns casos, mais do que noutros, é necessário esticar as fronteiras davalidade científica.Até onde, perguntamos. Quem e como se decide?Fará o determinismo parte dessas ‘simplificações’ necessárias para que a ciência avance? Épor isso que ele é tão recorrente? A sua ‘eficácia’ pesará muito mais que as ‘limitações’ queimpõe e que ficam convenientemente esquecidas na hora da proclamação dos enunciados e doseu uso em contextos sociais?…………………………………..2. O gene gay e a sociobiologiaA problemática do ‘gene gay’ entra no campo dos estudos sobre a sexualidade humanapela mão de geneticistas como Dean Hamer e pela mão de especialistas de um certo tipode evolucionistas, nomeadamente, Wilson e Dawkins – os arautos da sociobiologia.Dean Hamer, em particular, procurou, no estudo do DNA, encontrar algumas respostasàs dificuldades encontradas nos estudos sobre as relações entre a fisiologia do cérebro eos comportamentos sexuais. 11
  • 12. Muda-se de campo, procura-se novo substracto biológico mas continua a procurar-seencontrar algo de biológico que explique não apenas, não sobretudo, um problemacientífico mas um fenómeno social que continua a ser problemático. Por razões que,como vimos, até podem ser opostas, a naturalização aparece simultaneamente como umcaminho promissor para o apaziguamento e controlo sociais relativamente a umaminoria no mínimo incómoda.E hoje, de facto, o gene aparece como o melhor candidato onde enraizar esse problema.Dadas as orientações dominantes no estudo da genética molecular e biomedicina, temosaqui um terreno credível que dá uma expressão aparentemente nova ao inatismo e aoessencialismo, uma nova força àquilo que a ideologia dominante e o senso comum, nofundo, já sabem. O resultado ideal seria, pois, a identificação de um gene, ou maisprecisamente, de um alelo, um de entre um conjunto de alternativas possíveis,encontrado num sítio específico do genoma de homossexuais certificados. 3Bem à maneira do geneticista, o bébé teórico de Hamer tem uma dupla paternidade .Um delas é a função particular do cromossoma x, único no caso do macho e provenienteda mãe que posui um par de cromossomas x e que se acopula com o cromossoma yherdado do pai. Esse cromossoma X tem várias anormalides que não se expressam nocaso da fêmea devido à presença de uma contra parte natural situada no sítio genómicoem questão mas que se expressam no macho que não tem essa contraparte.Ocromossoma X aparece assim como lugar natural para procurar variações no macho,nomeadamente, o ‘gene da homossexualidade masculina’.O outro parente é o estudo das populações que mostra uma certa tendência hereditáriada homossexualidade. A partir de estudos com gémeos verdadeiros e não verdadeiros ecom parentes mais distantes pertencentes ou não pertencentes à linhagem maternalHamer procurou mostrar que o factor genético que predispõe para a homosexxualidadeé transmitida pela mãe no cromossoma X.Usando essa técnica e partindo do estudo de 40 pares de irmãos hossexuais, Hamer e osseus colaboradores conseguiram identificar um marcador na região q28 do cromossomaX comum em 83% dos casos (33 casos). 4Embora este tipo de estudo não tenha dado resultados semelhantes no caso de mulhereshomossexauis e a sua replicação no caso dos homens não tenha dado resultadospositivos, este caso foi visto como o necessário e suficiente para se poder afirmar a basegenética da homossexualidade. Repare-se que, mesmo que se considere esta experiênciacomo suficiente, ela nada nos diz sobre a influência de um suposto ‘gene gay’ noshomossexuais em geral. A sua existência dirá quanto muito que, para alguns homens, aprobablidade de uma predisposição para crescer homossexual é maior. Isto para já nãofalar na inexistência nesta, como noutras experiências, de um indicador fiável dahomossexualidade.3 O modo de certificação não se explicita, claro. É certificado como se certifica a cor dos olhos? Como sedetermina a existência de um cancro? Da esquizofrenia? Do sexo?4 A hipótese nula seria correspondente a 50% dos casos. 12
  • 13. Nada disto impediu que a recepção ao trabalho de Hamer fosse ainda mais positiva queao trabalho de LeVay quer por parte da comunidade homossexual quer por parte dasociedade em geral.Mesmo antes de Hamer aparecer em cena o conceito de gene gay já tinha aparecido nosdebates da sociobiologia.A sociobiologia apareceu publicamente, como se sabe, em 1975 com o livroSociobiology de Edward O. Wilson e foi sempre foi objecto de enorme controversia. Nadécada de noventa conheceu os seus anos de ouro.Entre outras coisas, a sociobiologia veio promover o revivalismo do Darwinismo nopensamento social e retomar o conceito de natureza humana, agora inscrita na biologia esujeita aos processos evolutivos.A homossexualidade é, sem dúvida, um desafio para a sociobiologia pois, em princípio,não é fácil explicar a persistência na população humana de um gene cuja função erareduzir a propensão reprodutiva dos seus descendentes. A melhor resposta encontradaaté agora tem pouco a ver com a realidade mas permite manter intacta a lei reprodutivae atribuir uma funcionalidade positiva a um gene à partida condenado aodesaparecimento. Sem dúvida influenciada pelos estudos de Wilson com insectos, asociobiologia continua a afirmar a existência de um traço genético da homossexualidadeem ambos os sexos e explica a possibilidade da sua permanência pela sua funçãocoadjuvante na criação das gerações seguintes. Fica explicada assim a existência dehomossexuais e de uma identidade biológica gay. No entanto, e como é fácil de ver,mesmo se esta explicação tivesse alguma credibilidade real, ela não vem responder àquestão da necessidade de maior procriação em famílias com membros homossexuaispara cobrir o deficit de nascimentos que não se verifica. Dada a pouca credibilidade quemerece este tipo de respostas, não admira que especialistas como Wilson pouco ou nadatenham discutido a explicação evolutiva da homossexualidade, o que acontece, aliás,com outros comportamentos (o suicídio, o riso, a experiência estética, a contemplação)sem nenhuma função reprodutiva. 13
  • 14. Podíamos multiplicar os exemplos de estudos nesta procura de explicações biológicaspara a homossexualidade. Procurámos com estas mostrar que a sua análise dá muitasvezes conta de premissas e enquadramentos conceptuais questionáveis, de planeamentode experiências frágeis e de erros na manipulação e interpretação dos dados.Este parece-me ser um trabalho moroso mas necessário para questionar afirmaçõespretensamente científicas, para mostrar como a ciência distorce e viola as suas própriasregras por razões que têm pouco de científicoNão o tomemos, no entanto, como uma validação da relevância e do interesse deste tipode trabalhos para a compreensão de algo construído como fenómeno social einterpretado como um problema social que a ciência poderia vir ajudar a resolver,servindo como base de regras normativas de acção por muito positivas que ela nospareçam ser.A própria importância da correcção dos erros científicos e da reposição da verdade, nodomínio que é o seu, necessita de ser justificada. Essa justificação já foi, em certamedida, esboçada atrás mas não muito explicitada.Apesar das implicações legais e politicas que a descoberta de uma base biológica para aorientação sexual, há outras questões sociais que não se podem ignorar, entre elas opróprio facto de a homossexualidade precisar de uma explicação biológica. Se unsvêem na ‘naturalização’ uma base para a não descriminação, outros lêem nela a formade mais uma patologização da homossexualidade e, em particular, um defeito (erro?)genético (Kevle). A heterossexualidade não precisa de ser explicada. Um heterosexualpode ter muitos erros genéticos mas não esse. Mesmo que não reproduza, mesmo seexistem expressões suas sem fins reprodutivos, estas podem sempre ser são vistas comopreparatórias desse fim ou, então, pura e simplesmente ignoradas.. Por questionar ficatambém o dimorfismo. É neste quadro, como vimos, que os homens com os traçostípicos da masculinidade têm cérebros programados para serem atraídos por mulheres eas mulheres, por arrasto, cérebros programados para sentirem atracão por homens.Dentro da mesma lógica os homossexuais masculinos não podem senão ter umaprogramação errada, a feminina e, por arrasto, as lésbicas uma programação masculina.(Byne). Temos, pois, à partida, uma categorização binária sexista assente empressupostos sobre a sexualidade da ordem do e heterocêntricas sobre a polaridade degénero. Ora como diz Byne, Sexual orientation is not dimorphic; it has many forms. Different people could be sexually attracted to men for different reasons. The conscious and unconscious motivations associated with sexual attraction are diverse even among people of the 14
  • 15. same sex and orientation. . . . Indeed, the notion that gay men are feminized and lesbians masculinized may tell us more about our culture than about the biology of erotic responsiveness. (….)If we extend the inferences of this dimorphic model of sexuality, we must arrive at thevery dubious rationale that of the two people of the same sex who engage in sexualactivities only one of them can be homosexual. This nonsensical conclusion is based onthe heterosexual model of dimorphic gender that assumes that a male is assertive and afemale is passive. Therefore only one partner in a same-sex act could be homosexual.Presumably the passive partner or the partner who assumes the so-called inferiorposition or who is penetrated would have to be either a heterosexual female or ahomosexual male; while the active partner or the partner who assumes the so-calledsuperior position or who is the penetrator would have to be either a heterosexual male ora female homosexual.Byne concludes that if biology influences anything it is probably the creation of atemperamental inclination for a whole range of behaviors. As geneticist Walter Bodmerpoints out: "Sexual preferences come in a broad array, from the exclusive homosexual,to the heterosexual who has gay forays, to the heterosexual who only finds members ofthe opposite sex attractive. The idea that a single gene could control these widelyvarying reactions is ridiculous."On the other hand, it is rather interesting that in his designation of various sexualorientations, Bodmer works from a heterocentric point of view. He refers to "exclusivehomosexuals" and to "exclusive heterosexuals," but when he describes bisexuality herelies entirely on the heterosexual dimorphic model by describing bisexuals as "theheterosexual who has gay forays." It seems to me significant that he fails to mentionhomosexuals who have straight forays. He also seems to -135-tell us that sexual orientation is a polarized identity: with males and females dividedbetween exclusively heterosexual or exclusively homosexual persons, and an occasionalheterosexual who engages in same-sex activities. 15
  • 16. Byne offers one of the most interesting conclusions in the debate that is just beginningabout the influences of biology on sexual orientation: Perhaps more important, we should also be asking ourselves why we as a society are so emotionally invested in this research. Will it--or should it--make any difference in the way we perceive ourselves and others or how we live our lives and allow others to live theirs? Perhaps the answers to the most salient questions in this debate lie not within the biology of human brains but rather in the cultures those brains have created.…………………………………..Apesar da insistência Darwiniana no acaso dos processos evolutivos, os discursosevolutivos estão longe de terem erradicado a teleologia e a crença de que a evoluçãoindividual e colectiva tende para perfectibilidade assim como as sociedades modernastendem para o progresso.Apesar de a maioria dos biólogos ter abandonado o vitalismo, há alguns, nomeadamenteos influenciados pelo trabalho de Prigogine, insistem na existência de processos naturaisauto-organizadores e pressupõem que o avanço para a complexidade organizativa é umatendência universal muito próxima de uma lei. Não é esta uma expressão moderna quejustifica a superior dos homens sobre os outros animais?Com esta visão teleológica aparece a tendência para a moralização da natureza como omostram as tendências dominantes da chamada ciência sexologiaNum processo paradoxalmente semelhante ao teologia cristã, a biologia tem tendência aidentificar normas e hierárquicas. Mesmo antes da sexologia, a orientação sexual jáfazia parte da agenda escondida da biologia. O plano cósmico já não seria religioso masa dualidade, a hierarquia, a norma permaneceram. Não há Deus, não há uma finalidade 16
  • 17. cósmica mas o imperativo da procriação mantém-se como uma parte essencial da leinatural.Quer emanando de uma lei divina, quer de uma lei natural, o sexo marital é, pelo menosaté ao século 17, visto como expressão de um ‘estado da natureza original’.Posteriormente, com a industrialização e urbanização das sociedades, este tipo de leistorna-se extremamente frágil dando margem ao aparecimento de um novo cepticismoem relação à moralidade e à lei. A sexualidade tornou-se um aspecto mais visível domundo social. A esta maior visibilidade veio corresponder uma necessidade deencontrar novas formas de controlo da ordem social. Aparecem então os profissionaisda investigação da sexualidade com uma nova abordagem categórica do sexo. Se já nãoé possível fazer apelo a uma instância transcendente para justificar a justeza da leihumana é necessário manter os grandes pilares que sustentam a ordem social eencontrar outras formas de legitimação. A biologia e a medicina, em particular, apsiquiatria trespassada pelos avanços a bioquímica, tornam-se fontes priveligiadas deautoridade legitimadora. Por métodos cada vez mais tecnológicos, vão levar-nos, deregresso, à normatividade do natural de que descobrem os segredos. Certas das normas,têm agora também modos mais eficazes e benignos de intervenção e tratamento dosdesvios, não provocados pela maldade ou extravio dos indivíduos mas pelos erros deuma natureza não perfeita. Ou então pela ignorância dos homens que os leva a pensarque podem inventar-se fora desse substrato natural, sem atender ao que ele dita. Porqueeste já não se deixa ver nem compreender directamente, é necessária a mediação dosque têm modos de a saber e mais ainda de a aperfeiçoar.A ciência reclama ter a ver com o que é, para além da aparências e emancipada daimaginação mitológica e da autoridade religiosa. A modernidade rejeita narrativas queinterpretamos como representações de um eterno presente. Contra tempos, tradições e 17
  • 18. culturas que se nos afiguram estáticas, prezamos a mudança, sinal onde lemos oprogresso e o caminho da perfectibilidade humana. Esquecemo-nos, convenientemente,da multiplicidade de possibilidades abertas nesses tempos que nós congelamos namemória da história. Partidários da criatividade, suspeitamos da imaginação, da suafuga da realidade, da invenção de seres do extra-ordinário que hoje relegamos para ossonhadores, poetas, seres fora da sociabilidade, potencialmente nocivos pela suainutilidade positiva. O progresso, a mudança de que fala a modernidade, emerge dadescrença da durabilidade do que construímos, da consciência de que coisas eacontecimentos, à medida que avançamos no conhecimento e no seu controlo, vãosempre à nossa frente e que irão inevitavelmente refutar o que pensávamos significar averdade. Mudamos os factos, mudamos os significados e por isso pensamos queabandonámos vellhas verdades e avançámos para novos paradigmas. No entanto, muitasvezes, apenas mudaram os narradores e os modos de contar que reconstroem umamesma história do que chamamos realidade – a verdadeira realidade.Gostaríamos de poder dizer que vencemos todos os demónios e tudo o que tomamoscomo empecilho para o trabalho da razão objectiva. E não podemos senão ficarfrustrados quando se continua a demonizar pessoas com categorias limitativas etaxonomias reguladoras. Mas onde procurar a norma quando o ideal já não está nempara lá de nós, nem atrás de nós mas vai à nossa frente?Se voltarmos à questão que nos ocupa aqui, encontramos mesmo uma entidade que vai,no fundo, ser tão imutável, como aquelas que pensávamos ter deixado para trás e que éum sintoma que a história que agora se conta em regime discursvo científico éassustadoramente parecida com as que se contavam em tempos antigos. De facto, paralá da diferença do modo como é dita, de que se quer falar quando se vai buscar o termo 18
  • 19. de natureza humana, tão caro à psicologia evolutiva? Não está esta entidade reguladasempre pelas mesmas leis, atravessando tempos e culturas?Relendo, de novo, os trabalhos de Levay, Hamer, Wilson, etc. não é no que escolhemcomo representativo no presente que lêem o que sempre foi, em qualquer lugar?Ao inferir de observações actuais aquilo que identifica como o ‘comportamento tipico’dos machos, Levay não pretende limitar-se a uma mera descrição particularista masencontrar a norma da masculinidade em geral. De modo semlhante, e com todas aslimitações já apontadas, Hamer procura a loalização que desde sempre terá estado nabase genética da homossexualidade.A ciência não se dá bem com ambiguidades e o determinismo e o heterosexismo sãomodalidades de simplificação que têm permitido a aparente rapidez dos seusdesenvolvimentos e apresentação de propostas de aplicação. 19