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Delete - Mayer-Schonberger [Resenha]

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MAYER-SCHONBERGER, Viktor. Delete: the virtue of forgetting in the digital age. Princeton, Princeton University Press: 2009.

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Delete - Mayer-Schonberger [Resenha]

  1. 1. Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijioResenha – Delete: The Virtue of Forgetting in the Digital Age (Viktor Mayer-Schönberger)Tarcízio SilvaViktor Mayer-Schonberger inicia seu livro com alguns casos polêmicos e impactantesda interferência da memória digital em casos reais de pessoas comuns. Um dos casos,que dá título ao primeiro capítulo, é o da professora Stacy Snyder que publicou umafoto pessoal em seu perfil MySpace, na qual segurava um copo em uma festa. Alegenda, “drunken pirate”, dava a entender que Stacy estava consumindo bebidasalcoólicas. A ocasião e a foto seriam corriqueiras se Stacy não estivesse em processo decertificar-se como professora. Os oficiais responsáveis em sua universidade fizeramuma busca na internet, encontraram a foto e julgaram que Snyder não poderia receber ocertificado para ensinar, devido a seu suposto comportamento inadequado. Este é umdos diversos casos limítrofes que Mayer-Schonberger cita em seu livro paracompartilhar com o leitor os problemas que diversos desenvolvimentos técnicos e novaspráticas sociais trouxeram. Segundo o autor, a sociedade estaria deixando de esquecer.O capítulo seguinte trata, então, do papel da memória e da importância doesquecimento. Mayer-Schonberger fala da memória humana, do papel da linguagemcomo apoio à memória, memória externa como pintura e escrita, memóriacompartilhada, novos suportes da memória como fotografia, filme e vídeo. Quando falasobre as matérias da memória, o autor parece temer que a recuperação da memóriaatravés de suportes físicos engesse os significados. O autor explica que a pesquisa sobrea memória humana hoje concorda que o processo de lembrança não é apenas umarecuperação estéril da informação armazenadas, mas sim um reprocessamento contínuo.Como explica José van Dijck: “memory objects are not simply technological or material prostheses of the mind, as the movie wants us to believe. Personal cultural memory, as I will argue in this article, is neither located strictly within the brain nor outside in technological artifacts or in culture, but is the result of a complex interaction between brain, material objects, and the cultural matrix from which they arise” (VAN DIJCK, 2004, p.2)Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijio
  2. 2. Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijioOs suportes descritos por Mayer-Schonberger neste capítulo são vistos comomecanismos e dispositivos que trariam em si traços que levavam ao esquecimento, vistocomo natural.Novos dispositivos digitais, como computadores, entretanto, estariam ajudando a acabarcom o esquecimento. O próximo capítulo é aberto com a descrição da pesquisa deGordon Bell e o desenvolvimento do dispositivo MyLifeBits. A proposta desta pesquisaé construir um dispositivo de armazenamento das experiências e memória pessoais parauso individual. Descrito no livro O Futuro da Memória – Como essa transformaçãomudará tudo o que conhecemos (BELL & GEMMEL, 2009), este projeto vai deencontro ao que Mayer-Schonberger pensa sobre a memória. Alguns dos motivadoresdo “declínio do esquecimento”, que o autor descreve neste capítulo, são desenvolvidospor Bell.Segundo Mayer-Schonberger, o primeiro foi a digitalização da informação. A culturamainstream de hoje é quase totalmente baseada em digitalização, o que deixa para opassado a adição de ruído e envelhecimento nas cópias das informações. Areprodutibilidade hoje é exata, não se perde bits de informação a cada cópia realizada deoutra cópia. O armazenamento barato é outro motivador pois chegou-se a um ponto emque é mais fácil, rápido e barato manter as informações do que apagá-las. Sistemascomplexos e consistentes de metadados permitem a recuperação fácil das informações –ou memórias -, que podem ser encontradas tão facilmente quanto fazer uma busca noGoogle. O alcance global, por fim, permite que as pessoas acessem suas – e, muitasvezes, de outras pessoas – informações de qualquer lugar do mundo. Os dispositivos dearmazenamento estão conectados à web e os dispositivos de acesso não se limitam aosdesktops.O declínio do esquecimento traz muitas conseqüências nefastas, descritas no quartocapítulo. O autor discorre sobre o poder da informação e diz que “others gain ininformation power from our loss, influencing the circumstances of our futureinteractions with the world and how we function as a society” (p.63). Trêscaracterísticas da memória digital teriam tornado isto possível: acessibilidade,durabilidade e abrangência.Em relação à primeira característica, o autor explica que possuímos informações quedependem do contexto para serem relevantes, apropriadas ou não. Com a atualconfiguração da memória digital, isso se perde em diversos casos. O caráter público eResenha por Tarcízio Silva - @tarushijio
  3. 3. Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijiosemi-público das interações realizadas permite que estas informações compartilhassejam acessadas por pessoas não previstas originalmente pelo emissor. A durabilidadedas informações é outro fator relevante, pois permite que informações sejam acessadasem momentos socioculturais muito diferentes, nos quais os interagentes exercem outrospapéis sociais. A abrangência, por fim, dá conta do caráter múltiplo das informaçõesdisponíveis e, também, à possibilidade de cruzamento destas informações. Estas trêscaracterísticas seriam responsáveis por maiores desníveis de poder entre pessoas eentidades como empresas e instituições governamentais. Estas últimas teriam acessoprivilegiado a pedaços de informações individuais que estas pessoas sequer temconsciência de que estão armazenadas em algum local. Além disso, o poder detransformação dessas informações em recursos financeiros (através de perfis deconsumo, por exemplo) ou sistemas de controle (através da vigilância dos cidadãos) nãoestá nas mãos dos cidadãos. O autor enfatiza o fator “tempo” durante o capítulo. ParaMayer-Schonberger, a memória completa nega o tempo.O quinto capitulo traz “respostas possíveis” ao declínio do esquecimento. O autordiscorre sobre seis possíveis respostas. A primeira, mais radical, é a da simplesabstinência digital. Se as pessoas não utilizarem os dispositivos tecnológicos dedigitalização e compartilhamento da informação, não haveria memórias digitais fora deseu alcance. Evidentemente, mesmo levando em consideração que o indivíduo consigarealizar tal feito, somos lembrados de que a memória é também construída socialmente.Além das dificuldades em relação a aspectos práticos e cotidianos da sociedade(compras, por exemplo), as interações com outras pessoas “não-abstêmias” poriam emrisco os objetivos.Desenvolver o direito à privacidade da informação é outra alternativa. Se as pessoastiverem controle efetivo sobre seus dados pessoais, poderiam evitar usos indevidos. Estetipo de direito também se aplica à organizações, que perdem (com a pirataria, porexemplo), o direito à seus produtos. Outra alternativa é a efetivação de “ajustescognitivos”. Se as pessoas começarem a pensar sobre todas as implicações da memóriadigital, poderiam comportar-se de forma diferente.Regras de ecologia da informação, propostas por alguns pesquisadores,regulamentariam, entre outras coisas, que os dados pessoais devem ter uma data devalidade. Assim, parte do problema poderia ser resolvido. Esta solução é diretamenteligada à sexta proposta, que busca a contextualização perfeita. Mayer-SchonbergerResenha por Tarcízio Silva - @tarushijio
  4. 4. Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijiosugere que uma abordagem inusitada, mas que poderia resolver alguns dos problemas,seria adicionar ainda mais informações às memórias digitais. Assim, poderia ser quedados de contextualização das informações evitassem interpretações e reapropriaçõesdas informações distanciadas no tempo. Porém, essa alternativa sofre de diversasfraquezas, pois cada decisão tomada deveria, nessa perspectiva, estar acompanhada dereflexão profunda e interpretação de diversos dados de diversas fontes.No capítulo seguinte, Mayer-Schonberger propõe e discute a exeqüibilidade de se criaruma “data de expiração” obrigatória e automática para as informações digitais. O autorfala das necessidades técnicas e comportamentais para levar o projeto à frente. Naconclusão, revisa o que discutiu e propõe e retoma a importância de “lembrar aimportância do esquecimento”.Durante seu livro, Mayer-Schonberger por vezes apresenta uma perspectiva um tantoludista da tecnologia. Exagera consideravelmente nos malefícios que a memória digitaltraz e oferece uma solução muito radical – como suas premissas -, pouco prática. Aexeqüibilidade de seu projeto parece ser nula. Porém, a discussão apresentada é válidapor chamar atenção a aspectos pouco discutidos sobre a chamada web 2.0Os pontos altos do livro parecem ser os capítulos três e quatro. A sistematização dos“motivadores” do declínio do esquecimento – armazenamento barato, digitalização,recuperação fácil e alcance global –, assim como as três características da memóriadigital que identifica como influenciadoras nas relações de poder (acessibilidade,durabilidade e abrangência) são úteis para o entendimento de diversos fenômenos emtorno das interações sociais em ambientes online.ReferênciasBELL, Gordon, GEMMEL, Jim. Total Recall: How the E-Memory Revolution willChange Everything. New York: Dutton, 2009.MAYER-SCHONBERGER, Viktor. Delete: the virtue of forgetting in the digital age.Princeton, Princeton University Press: 2009.VAN DIJCK, José. Memory Matters in the Digital Age. Configurations, Volume 12,Number 3, Fall 2004, pp. 349-373.Resenha por Tarcízio Silva - @tarushijio

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