Gestão Eficienteda Merenda EscolarHistórias gostosas de ler    e boas de copiar     Volume II
Gestão Eficiente da Merenda Escolar — Histórias gostosas de ler e boas de copiar – Volume IIé uma publicação distribuída g...
Experiências bem-sucedidas das prefeituras vencedorasdas 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar  ...
Introdução                         Outro dia, em uma conversa entre amigos em que eu contava sobre meu trabalho, percebi q...
e dirigen­ es que conseguiram intervir na realidade de suas cidades apenas executando de forma criativa, ética e honesta u...
ÍNDICE	      Pedra do Indaiá	       Diversidade e participação ..............................................................
Apucarana	      Em tempo integral . .........................................................................................
Diversidade                                                          Pedra do indaiá (MG)e participação            Os cons...
Pedra do Indaiá (MG)Índice de Desenvolvimento                                                    População	               ...
D iversidade e participa ç ã oUm cardápiopara cada turma                                                                  ...
Pedra do indaiáda merenda. Mas ainda faltava uma gestão mais profissional, já que a alimentação estava a cargo diretamente...
D iversidade e participa ç ã ofalta de variedade na pauta de produtos. “Mas é importante lembrar que o alimento não é só o...
Pedra do indaiá                            conselhos de classe, e os dos pais em reuniões nas escolas. O prefeito nomeou o...
D iversidade e participa ç ã ota do conselho, Célia das Dores Silva (representante dos professores, mas também membro     ...
Pedra do indaiáde aniversários, etc. Mas como a Cachoeira do Lambari fica muito longe e as reuniões são feitas em dias que...
D iversidade e participa ç ã odo produtor, outros fornecedores de fora do município diziam que não podia. Mas nós usamosum...
Pedra do indaiáfornecer pra merenda, porque a verdura é pura, só usa adubo orgânico. Eu não trabalho com agrotóxico e prod...
Criatividade:                                             Fernandes Pinheiro (PR) ponto finalno marasmoFernandes Pinheiro ...
Fernandes Pinheiro (PR)Índice de Desenvolvimento                                                       População	         ...
C riatividade : ponto final no marasmoMETAMORFOSEESSENCIAL                                                    Em certo dia...
F e r nan d e s P i nhe i r omesmo aqueles caldos pouco consistentes marcavam presença todos os dias. Diante disso, os alu...
C riatividade : ponto final no marasmoda meninada costuma captar notícias estimulantes. A qualidade dessas mensagens se de...
F e r nan d e s P i nhe i r ona quantidade certa. Instruções para trabalhar de forma correta estão disponíveis no Manual d...
C riatividade : ponto final no marasmodos gêneros alimentícios. E eles recebem produtos frescos na segunda-feira. A Secret...
F e r nan d e s P i nhe i r oIslea Farias em 2005/2006. Nas gestões anteriores, o CAE só fazia figuração, pois as atas das...
C riatividade : ponto final no marasmoprimeira série) do Ensino Fundamental. A sala onde estudou lhe serviu de residência ...
F e r nan d e s P i nhe i r oTambém não será difícil avançar com a merenda, agora que está bem estruturada. De acordo com ...
Grande distância,                                                  Jussara (GO)caminho curtoA merenda escolar pode ser um ...
Jussara (GO)Índice de Desenvolvimento                                                       População	                    ...
G rande dist â ncia , caminho curtoCREDIBILIDADERESGATADA                                                                 ...
Jussaralar tinha valor per capita muito baixo, como é do conhecimento geral. Com o tempo, as várias correções dessa “tabel...
G rande dist â ncia , caminho curtopara refeitórios e outros utensílios aumentou na escala adequada. E as pouco mais de 40...
Jussara                                                               Agora que as dificuldades ficaram para trás, Jussara...
G rande dist â ncia , caminho curtocentral. A rotina é diferente no caso das escolas rurais, que são abastecidas com o suf...
JussaraA escola merece destaque não apenas por causa de seus vínculos com a merenda escolar, da qual é fornecedora, mas ta...
G rande dist â ncia , caminho curtotrabalhamos com meninos de poucos recursos financeiros. Cada um se vê apenas como mais ...
Jussaracooperativa — a Coopernova —, um núcleo de produção rural instalado a 43 quilômetros da sede do município. O proje­...
Quem planta,                                           Dois Irmãos (RS)colhe Como regar, nutrir e podar as boas      idéia...
Dois Irmãos (RS)Índice de Desenvolvimento                                                         População	              ...
Q uem planta , colheEvoluçãoconstante                      Roma não foi feita em um dia! Tudo o que vale a pena na vida pr...
Dois irmãosgues enviavam ossos bovinos para reforçar a sopa em algumas escolas, apesar do alto risco de contaminação. É ta...
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá

8,155

Published on

Informativo do Programa Fome Zero sobre o sucesso da programa de merenda escolar da administração 2005-2008 de Pedra do Indaiá - MG

Published in: News & Politics
0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
8,155
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
69
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Merenda Escolar - Prêmio Pedra do Indaiá

  1. 1. Gestão Eficienteda Merenda EscolarHistórias gostosas de ler e boas de copiar Volume II
  2. 2. Gestão Eficiente da Merenda Escolar — Histórias gostosas de ler e boas de copiar – Volume IIé uma publicação distribuída gratuitamente pelos seus realizadores.RealizaçãoAção Fome ZeroRua Matias Aires, 402, 1.º andar, ConsolaçãoCEP 01309-020 – São Paulo – SPwww.acaofomezero.org.brwww.premiomerenda.org.brAutoria:Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá escreveram as histórias das prefeituras premiadas em 2005Rogerio Furtado escreveu as histórias das prefeituras premiadas em 2006Fatima Menezes e Waldemar Zaidler colaboram com outros textosRevisão TécnicaFatima MenezesWaldemar ZaidlerRevisãoKátia GouveiaIlustraçõesMapas IDHM – Atlas do Desenvolvimento Humano – PNDU/ ONU – Brasil (2000)FotografiasMaria Eugênia Sá (págs. 9-17, 39, 41-51, 53-63, 65-74, 85, 87-93, 105, 107-115, 117-125, 127-134, 147, 149-159, 161-169)Rogério Furtado (págs. 21-29, 31-38, 75, 77-83, 95, 97-102, 139-143)João Fiorim (pág. 59 – foto de fundo, 160)As demais fotos foram gentilmente cedidas pelas cidadesFoto da capa: Angelo LorenzettiProjeto e produção gráfica:Planeta Terra Design (Waldemar Zaidler, William Haruo)ImpressãoMargraf Editora e Indústria GráficaAgradecimentosA todos os envolvidos nas histórias que dispuseram tempo e esforços para fornecer dados,dar depoimentos, abrir arquivos de forma a possibilitar a realização deste trabalho.Tiragem: 5 mil exemplaresSão Paulo, outubro de 2007É permitida a reprodução parcial desde que citada a fonte.
  3. 3. Experiências bem-sucedidas das prefeituras vencedorasdas 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar OUTUBRO 2007
  4. 4. Introdução Outro dia, em uma conversa entre amigos em que eu contava sobre meu trabalho, percebi quenenhum dos presentes sabia da existência do programa de merenda escolar das escolas públicas... A conversa, entremeada de casos queconheci e de explicações sobre como funciona tal programa, acabou por despertar em todos eles uma enorme curiosidade e até umacerta perplexidade, demonstrada na reflexão final: numa época em que julgamos ter acesso a todo tipo de informação, quanta coisa boae interessante acontece silenciosamente em nosso país... Essa experiência pessoal me chamou a atenção para a opor­ u­ tnidade do livro Histórias gostosas de ler e boas de copiar, que foi idealizado para divulgar as boas práticas de administração do progra­ma de merenda escolar reveladas por meio da metodologia do prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar. Concluí que há um novopúblico que merece conhecer este livro: aquele que não freqüentou o sistema público de ensino e que não tem a chance de saber, porsua própria experiência, da importância estratégica, da complexidade de execução e da amplitude do programa. No segundovolume de Histórias gostosas de ler e boas de copiar você vai conhecer o percurso dos municípios premiados pela gestão do ProgramaNacional de Alimentação Escolar — PNAE em 2005 e 2006. Além de um referencial didático, este livro conta histórias de pessoas, grupos4
  5. 5. e dirigen­ es que conseguiram intervir na realidade de suas cidades apenas executando de forma criativa, ética e honesta um pro­ ra­ a t g mpúblico de amplitude nacional. Este livro reflete a adesão de várias empresas associadas ao programa que, com suacontribuição, possibilitam o financiamento do projeto Gestão Eficiente da Merenda Escolar e comprovam que quando a iniciativa priva­da apóia o desenvolvimento de uma boa política pública quem ganha é o país. Leia. Comova-se. Aprenda, se for o caso. Verifique que há um país silencioso acontecendo... Muito obrigada, Fatima MenezesEm tempo: Se você, leitor, não encontrar neste volume a história de alguns municípios premiados nesses anos de 2005 e 2006, não se espante. Certamenteelas ajudaram a compor o primeiro volume do livro com o mesmo nome, pois já haviam sido premiadas anteriormente. Porque é assim: uma boa prática podeser levada adiante. Basta querer... 5
  6. 6. ÍNDICE Pedra do Indaiá Diversidade e participação ........................................................................................ 9 Fernandes Pinheiro Criatividade: ponto final no marasmo ................................................................. 19 Jussara Grande distância, caminho curto ......................................................................... 29 Dois Irmãos Quem planta, colhe . ................................................................................................. 39 Concórdia Parcerias para enfrentar o novo . ........................................................................ 51 Araxá Vontade, investimento e resultados ...................................................................... 63 Patos Estratégia para reversão......................................................................................... 75
  7. 7. Apucarana Em tempo integral . ................................................................................................... 85 Castanhal Vaivém na cozinha..................................................................................................... 95 Criciúma Sem mágica ............................................................................................................... 105 Blumenau Fora do esquadro.................................................................................................... 115 Florianópolis Controle Social . ..................................................................................................... 125 Joinville Merenda forte ......................................................................................................... 137 Goiânia A merenda faz parte do sucesso .......................................................................... 147 Porto Alegre Dedicação profissional e humana . ..................................................................... 159
  8. 8. Diversidade Pedra do indaiá (MG)e participação Os conselhos de alimentação escolar podem causar inclusão social. De que jeito? Pedra do Indaiá é um bom exemplo disso.
  9. 9. Pedra do Indaiá (MG)Índice de Desenvolvimento População 3.814Humano Municipal, 2000 Área da unidade territorial (km²) 349Municípios do estado de Minas Gerais Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,568 a 0,667 (171) 0,668 a 0,707 (171) Maior IDHM do Estado 0,841 0,708 a 0,743 (175) Menor IDHM do Estado 0,568 0,744 a 0,770 (173) IDHM de Pedra do Inadiá 0,755 0,771 a 0,841 (163) Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental) 6 Receita municipal R$ 3.839.456,33 Recursos transferidos pelo FNDE R$ 13.827,60 Complementação do município para compra de alimentos R$ 12.465,11 Experiência pre­ ia­ a na cate­ o­ ia m d g r Alunos atendidos 511 Região Sudeste – 2005 Refeições servidas 100.200 Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — A participação de representantes da terceira dados referentes a 2004. idade como conselheiros deu novo significado ao Conselhos de Alimentação Escolar. Outro fator de destaque é a diversificação de cardápios para atender às necessidades individuais dos alunos. É um município pequeno mas tem escolas rurais que são atendidas por um bom trabalho de distribuição dos alimentos. Oferece merenda orgânica adquirida de pequenos produtores locais.
  10. 10. D iversidade e participa ç ã oUm cardápiopara cada turma Imagine preparar uma refeição diferente, variada e ade­quada para cada aluno, levando em conta suas necessidades nutricionais, peso e altura, perfil de atividades físicas e hábi­tos alimentares da família. Obviamente, isso é impossível numa rede pública com centenas de milhares de crianças. Masnuma cidade pequena, com uma equipe comprometida e profissional, dá para chegar bem perto. Em Pedra do Indaiá,município localizado no Triângulo Mineiro, existem sete cardápios diferentes para uma rede de apenas quatro escolas euma creche. Como uma das escolas oferece aulas em três turnos, cada turma possui sua própria lista de pratos a seremservidos durante a semana e o cardápio muda periodicamente. Com menos de 5 mil habitantes, a cidade teve de buscaruma nutricionista em outro município. O Conselho de Alimentação Escolar — CAE e o Setor de Merenda Escolar, contu­do, são formados por gente genuinamente da terra, assim como alguns produtores locais que fornecem legumes, frutas everduras para as escolas. No CAE, aliás, vale destacar a forte atuação do grupo da terceira idade da cidade.Até dez anos atrás, as refeições distribuídas aos alunos de Pedra do Indaiá não diferiam das oferecidas em outros milhares depequenos municípios pelo País afora. O próprio prefeito da cidade, Itamar José da Costa, morou até os seteanos na zona rural do município e lembra bem o quão pouco apetitosos eram os pratos de mingau ou arroz industrializa­do da merenda escolar da rede pública nos anos 1980. “Não tem nem comparação com o que se serve hoje, tanto que eumesmo raramente comia na escola”, diz. Tudo começou a mudar quando ele ainda era chefe de gabinete do prefeito ante­rior, no final dos anos 1990. Na época, a administração conseguiu aumentar o volume e melhorar um pouco a qualidade 11
  11. 11. Pedra do indaiáda merenda. Mas ainda faltava uma gestão mais profissional, já que a alimentação estava a cargo diretamente da secretáriade Educação, Maria José Benito da Silva Oliveira, que contava então apenas com uma auxiliar.O primeiro passo na profissionalização foi a criação do Setor de Merenda Escolar e a contratação de uma coordenadoraes­ ecífica para a função. A escolhida foi a professora Solange Tavares Silva Lemos, p com 18 anos de ex­ e­ priência em sala de aula e nenhum conhecimento prévio em administração pública. “No início deu muito medo, foram umcho­­ que a quantidade de papel e o tamanho da burocracia. O que me ajudou muito foi um livrinho editado pela FNDE chama­do É Hora da Merenda. Mas eu lia tudo o que caía nas minhas mãos e repassava as informações ao CAE para que os conse­hei­ lr­ os também aprendessem mais e ganhassem poder”, recorda. Com a mudança de governo para o primeiro mandato do atualprefeito em 2001, toda a responsabilidade pela alimentação das 531 crianças atendidas recaiu sobre suas costas. “Nós não tí­ ha­ nmos uma nutricionista, nem um CAE atuante. As hortas eram fracas e não havia contato com os produtores locais. A pauta dealimentos era formada basicamente por arroz, batata, pão e molho. Verduras eram muito poucas e as frutas não faziam parteda lista de compras. Eu queria mudar tudo aquilo, mostrar a todos que as crianças mereciam uma alimentação melhor. E aospoucos fomos criando as mudanças”, diz Solange. Nutricionista uma vez por semana Depois do Setor de MerendaEs­ olar, a segunda grande vitória foi a contratação da nutricionista Giselle Cristina Teixeira. c Moradora da vizi­nha Divinópolis, Giselle trabalha de terça a sexta em uma clínica psiquiátrica. Com as segundas-feiras livres, ela fechou umacordo com a Prefeitura de Pedra do Indaiá para prestar seus serviços primeiro quinzenalmente e agora uma vez por semana.Para ela, é incrível um município desse tamanho com uma preocupação tão grande em contratar um profissional de nutriçãopara melhorar a qualidade da alimentação escolar. “E ainda mais admirável é, num país varrido pela corrupção e pelo desvio deverbas de programas sociais, encontrar pessoas honestas, responsáveis com o dinheiro público e dispostas a criar instâncias defiscalização que realmente funcionem como o CAE. Isso me deixou muito entusiasmada para trabalhar aqui”, explica Giselle.Ela considera a merenda escolar oferecida antes de 2002 não como “terrível”, apenas “monótona”, devido principalmente à12
  12. 12. D iversidade e participa ç ã ofalta de variedade na pauta de produtos. “Mas é importante lembrar que o alimento não é só ovalor nutricional. A merenda escolar é uma oportunida­ e única de a criança ter um espaço d A experiência com os alimentos que apara começar a valorizar o que ela come e por que ela come. Não adianta nada ter um pra­ criança traz de sua casa e dato colorido e com os alimentos adequados, se não trabalhar o que a criança tem em casa. herança cultural de sua família não pode ser desconsiderada naPode ser bonito e nutritivo, mas ela recusa. Tem que fazer esse vínculo entre o almoço escola. Para oferecer novos saboresno refeitório e o jantar em casa, uma experiência próxima de sua vida comum. A escola é conveniente partir da experiência que a criança conhece e introduzirtem que cumprir o seu papel de oferecer educação para a vida. E não é só matemática e aos poucos alimentos diferentes.português. É aprender a se relacionar, a se comportar à mesa, a pedir, a se socializar…”, Contextualizar o novo alimento em atividades escolares ou nas hor­analisa. “E nesse processo, claro, temos que inserir também os pais, para ter um reforço e tas desperta a curiosidade euma continuidade do trabalho em casa.” É exatamente para deixar a merenda o mais pró­ incentiva o consumo.ximo possível da realidade e da necessidade dos alunos que Giselle monta um cardápio dife­rente para cada turma. Assim, a escola rural da comunidade de Betânia, onde a po­­ lação é mais pu­carente, recebe uma lista de pratos mais reforçados e em maior quantidade. Na de Mata dos Lemos, onde es­ udam nove tcrianças, é fundamental servir um café da manhã antes das aulas e mais o almoço. Nas escolas do Lambari e do Centro deIndaiá, comidas como sopa de macarrão simplesmente não são aceitas. E quem estuda à tarde recebe um lanche mais leve.Outra importante atividade que vem sendo realizada com a ajuda da nutricionista é a avaliação antropométrica dos alunosda re­ e pública para verificar possíveis problemas de saúde. A primeira aferição ocorreu em 2004 e vem se repetindo desde dentão. Os casos verificados de baixo peso, que poderiam indicar subnutrição, foram poucos. Preocupante foi um início deaparecimento de crianças com sobrepeso e obesidade. “Infelizmente é para isso que estamos caminhando. Por isso, a par­tir de 2007 teremos vários grupos de trabalho em nutrição dentro das escolas, especialmente um de controle de peso, commedições mensais, palestras, etc. Nesse grupo, as crianças poderão discutir suas dificuldades e comentar as melhoras decada um. E vamos contar também com a ajuda dos pais auxiliando em casa”, diz Giselle. “Afinal, se mudar o hábito ali­ remos uma redução de peso, mas com uma alimentação saudável, o que corrige todosmentar de um, muda o de todos. Que­­os problemas, seja de pouco peso, so­ repeso ou outros. Sempre de uma forma que não discrimine, com muito cuidado para bnão reforçar estigmas e preconceitos.” CAE na melhor idade O “pulo do gato” do Setor de Merenda Esco­lar, no entanto, foi a reformulação do CAE. Entre 2004 e 2005 o conselho passou a se reunir com maior freqüência, de umamédia de oito reuniões por ano para 15 encontros anuais. Os representantes dos professores passaram a ser eleitos nos 13
  13. 13. Pedra do indaiá conselhos de classe, e os dos pais em reuniões nas escolas. O prefeito nomeou o representante do Os conselhei­ Poder Executivo e a Câmara Municipal indicou os nomes do Legislativo. Faltava a sociedade ros de alimentação civil. Um dos poucos grupos organizados na cidade era o Grupo da Melhor Idade Bem Viver,escolar devem trabalharem parceria com a nutri­ com cerca de 80 membros. “Ligamos para Brasília, para perguntar se podíamos convidar o cionista, os secretários pessoal da terceira idade para participar do CAE, e eles acharam uma grande idéia”, conta de governo e o prefeito. Com um trabalho de Solange. “Assim estaríamos estimulando atividades e resgatando a auto-estima. Fizemos o equipe harmonioso convite, explicamos o que era o CAE, como funcionava, quais eram as funções dos conse­ quem ganha são os alunos. lheiros e eles também adoraram.” Em poucos dias foram indicados dois representantes da sociedade civil, um efetivo e um suplente. Funcionário da prefeitura aposentado por invalidez aos 60 anos e atualmente com 65, Braulio Esteves Rodrigues sempre achou que não veio ao mundo para “pesar na terra que nem pedra”. Para ele, enquanto Deus permitir, a vida é sinônimo de trabalho. “Quando eu me aposentei, eu pensei comigo que tinha que procurar alguma coisa pra fazer. Eu tomando meu remédio, tô bem. E vendo as pessoas em volta trabalhando, tudo bem, fico melhor ainda. Eu estudei ainda um pouco no tempo da palmatória. Mas agora tenho cinco netos e uma filha na esco­ la pública e acho que devo ajudar no que puder. Por isso, quando houve o convite de trabalhar com a merenda eu achei que tinha que mergulhar de cabeça nesse negócio. Eu não tenho hora, estou disponível dia e noite pro que precisar. Para mim é uma honra trabalhar no CAE. É o que eu tenho mais prazer na vida. Eu ajudo nas hortas, nas escolas, o que tiver de fazer. Participo das reuniões, visito as escolas. Antes a gente fazia só bailes, forró, coral, missas, uma ginasticazinha… A ginástica me ajudava na coluna, mas a enxada ajuda mais.” Com o grupo da melhor idade no CAE, as escolas não só ganharam conselheiros atuantes e totalmente disponíveis como também suas reivindicações passaram a ter maior credibilidade e a serem atendidas com mais agilidade. Um caso típico é o da Escola Municipal Cachoeira do Lambari, uma unidade rural com 48 alunos. Apesar de bem representada — a diretora Delieny Rodrigues da Silva foi presidente do CAE e outra professora, Carmem Aparecida Ribeiro, também faz parte do conselho junto com uma mãe —, a escola pedia já há algum tempo a construção de um refeitório e um fogão novo porque o velho, a lenha, estava quebrado. Com o novo CAE, bastou um ofício enviado ao prefeito pela presiden­ 14
  14. 14. D iversidade e participa ç ã ota do conselho, Célia das Dores Silva (representante dos professores, mas também membro O trabalhodo Bem Viver), para que a reforma fosse agilizada. De quebra, a escola ganhou ainda uma do CAE deve sercozinha também reformada e mais adequada. “O pessoal da melhor idade tem um res­ conhecido pelos cidadãos. Os conselheiros devem ouvirpeito maior da sociedade e do poder público”, atesta Solange. “Sua atuação no conse­ os pais de alunos, os profes­lho é tão importante que eles foram os que mais vibraram com a vitória de Pedra do sores, as merendeiras, os gestores. Também devemIndaiá no prêmio “Gestão Eficiente da Merenda Escolar”, afinal são eles os principais organizar as propostasatores desse processo.” Mingau de e levá-las à Câmara de Vereadores e à prefeitura. maritaca Já que estamos falando da escola Cachoeirado Lambari, vale a pena conhecer o depoimento de Maria do Carmo Borges, merendeira há oito anos nessa unidade. Elaconta que quando entrou para trabalhar na rede pública, a merenda ainda era formada por arroz, almôndegas enlatadase “mingau de maritaca”. “A gente chamava assim porque parecia aquela comida de dar pra passarinho. E as crianças nãogostavam. A gente jogava muita comida fora. Hoje eles comem tudo. O que mais pedem é pão com molho e arroz comfrango.” A outra merendeira da escola, Wanda Maria da Costa, também atesta a qualidade das refeições, bem aceitaspelas crianças, e a diminuição do des­perdício. Com bem menos tempo defunção, ela ainda não passou porne­ hum treinamento específico, mas nnem por isso deixou de receber asorientações básicas sobre higiene pes­soal e dos alimentos e utensílios.“Gostaria de fazer um curso de culiná­ria para aprender novas receitas por­que saber nunca é demais.” Na reali­dade, o Setor de Merenda Escolarreú­ e as merendeiras a cada dois nmeses para atividades de auto-estima,orientações, palestras, comemoração todos na fila para a merenda 15
  15. 15. Pedra do indaiáde aniversários, etc. Mas como a Cachoeira do Lambari fica muito longe e as reuniões são feitas em dias que não háaulas, fica difícil para Wanda participar.Desde a entrada da nutricionista, em 2002, o Setor de Merenda Escolar passou a pegar no pé das merendeiras estipulandoregras rígidas de limpeza, higiene e comportamento em serviço. “Às vezes a gente se torna até chata por fazer exigênciascomo touca, unhas cortadas, uniforme”, diz Solange. “O maior problema foi quando proibimos a entrada de outras pes­soas na cozinha durante a manipulação dos alimentos”, complementa Giselle. “Quando falamos que os professorestinham de entrar na fila junto com os alunos, fazer o prato e sentar à mesa com eles, sem uma comida diferente, sem ocafezinho, eles queriam nos matar, mas são educadores e têm que dar o exemplo.” Para quem aceitou as novas regras,contudo, também houve um bom retorno em valorização das merendeiras. “Elas são as estrelas da alimentação escolar,por isso quando pediram uma camiseta com o logotipo do Setor de Merenda Escolar, por exemplo, tivemos que providen­ciar sem chiar…”, brinca Solange.Segundo ela, o problema do transporte das merendeiras para os cursos e capacitações deve estar resolvido ainda em2007 com a aquisição de um carro para o setor já prometido pelo prefeito. “O que é gasto com o Setor de MerendaEscolar é um investimento que vale a pena. Estou muito satisfeito com os resultados, não só nas crianças, mas tambémcom os prêmios que estão dando visibilidade para um município pequeno como o nosso”, afirma o prefeito. “É muitogratificante ser exemplo para outras cidades. Mas, para isso, temos uma grande preocupação com a cobrança dos impos­tos. A arrecadação é pequena, mas o município também é pequeno e precisamos disso para investir em educação.” Umaalternativa para aumentar a arrecadação, estimular a economia do município e ainda melhorar a qualidade e variedadedos produtos oferecidos na merenda escolar é a aquisição de frutras e verduras diretamente dos produtores da região.Pedra do Indaiá tem um programa com esse objetivo desde 1997, mas só com a criação do Setor de Merenda é que sefechou o ciclo com a alimentação escolar. Até recentemente o município adquiria produtos de cinco fornecedores, mas,com as fortes chuvas ocorridas no final de 2006, três deles perderam a safra e só voltarão a entregar os alimentos pro­vavelmente na metade de 2007. Nota fiscal avulsa “No futuro esperamos envolver mais produtores e diversificar aoferta. Os que vieram e começaram a fornecer viram que é interessante. Afinal, ganham em volume e têm um dinheirogarantido todo mês que é muito importante para quem está na roça”, afirma o prefeito. “Compramos por um preço menore com melhor qualidade do que se fôssemos trazer de fora e ainda geramos renda e ICMS. Quando começamos a comprar16
  16. 16. D iversidade e participa ç ã odo produtor, outros fornecedores de fora do município diziam que não podia. Mas nós usamosuma nota avulsa, comprovamos que compramos com menor preço e portanto estamos tra­ As hortas escolares propiciam obalhando de forma legal. Tanto que outros municípios da região estão seguindo pelo uso de alimentos naturaismesmo caminho. Pelo menos seis cidades nos procuraram diretamente para saber como e saudáveis na merenda esco­ lar, diminuem o custo defazer. Estamos usando o bom senso. Tenho certeza de que não vamos ser questionados aquisição de alimentos e possi­judicialmente por isso. De qualquer forma, usamos o dinheiro da contrapartida do muni­ bilitam um trabalho multidisci­ plinar de educação alimentar.cípio, que é em geral um valor semelhante ao repassado pelo FNDE.” De quebra, as sobras podemA aquisição direta realizada por Pedra do Indaiá é inovadora, principalmente porque os ser utilizadas pelos horteiros e pela comunidade.produtores não estão organizados em associações ou cooperativas com registro de pessoajurídica. Como não ultrapassa R$ 8 mil por ano, não precisa passar por concorrência públi­ca, só por um processo licitatório mais simples. Mesmo assim, Solange ligou diversas vezes parao FNDE perguntando sobre possíveis procedimentos e problemas até estar totalmente segura sobre ométodo de compra. “Acabei ficando ‘íntima’ da pessoa que responde por Minas Gerais no FNDE”, brinca. “E com issodescobri que o produtor precisa apresentar a escritura do terreno, o cartão do produtor rural, mais os documentos pes­soais como identidade, CPF, etc. para conseguir a nota fiscal avulsa emitida pela Administração Fazendária do estado.Ela vem com carimbo, nome e CPF do produtor e com isso ele pode responder à carta-convite da licitação da prefeitura.No começo ficaram com medo, mas eu assumi a responsabilidade. O interessante foi que até o pessoal dos armazénsque vendem pra gente aceitaram isso, porque eles compram os produtos in natura da Ceasa e não conseguem competirem preço com o pequeno produtor local.”Os principais fornecedores desse tipo hoje são o casal Maria Aparecida dos Santos e JulioAparecido dos Santos. Proprietários de um sítio de cinco alqueires quase dentro da área urbana de Pedra do Indaiá, elesplantam quiabo, couve, pepino, abóbora, inhame, batata-doce, tomate cereja e milho verde para vender nas ruas da cidade.Por isso já conheciam Solange e acreditaram nela quando ouviram a proposta de vender seus produtos para a merenda esco­lar. “Teve uma burocraciazinha. Leva algum tempo pra receber. Mas como sou aposentado, um dinheiro a mais sempre ajuda,e hoje a venda para a prefeitura representa um terço da minha renda total. Cerca de R$ 200 por mês”, calcula Julio. “É bom 17
  17. 17. Pedra do indaiáfornecer pra merenda, porque a verdura é pura, só usa adubo orgânico. Eu não trabalho com agrotóxico e produzo cenoura,beterraba, alface, repolho e mandioca para as escolas.” Com o tempo a parceria e a confiança mútua cresceram. Hoje a Ematerentrega ao produtor bandejas e substrato para as mudas. Ele, por sua vez, já recebeu três turmas de dez alunos sorteados parauma visita ao sítio com a chance de aprender a lidar com as verduras diretamente com quem conhece o assunto a fundo.Julio, aliás, foi um dos juízes do concurso “A Melhor Horta Escolar”, que no final premiou todas as quatro escolas do muni­cípio. A idéia é estimular alunos e pais a desenvolver hortas comunitárias que serviriam tanto para complementar a merendacomo para diversificar os produtos nas mesas das famílias.18
  18. 18. Criatividade: Fernandes Pinheiro (PR) ponto finalno marasmoFernandes Pinheiro ilustra que em questãode merenda, tamanho não é documento.O pequeno município faz um trabalho grandede educação alimentar.
  19. 19. Fernandes Pinheiro (PR)Índice de Desenvolvimento População 6.368Humano Municipal, 2000 Área da unidade territorial (km²) 407Municípios do estado do Paraná Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,620 a 0,707 (85) 0,708 a 0,732 (82) Maior IDHM do Estado 0,620 0,733 a 0,751 (79) Menor IDHM do Estado 0,856 0,752 a 0,774 (81) IDHM de Apucarana 0,711 0,775 a 0,856 (72) Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental) 7 Receita municipal R$ 7.907.965,13 Experiência pre­ ia­ a na cate­ o­ ia m d g r Recursos transferidos pelo FNDE R$ 31.361,40 Desenvolvimento Local – 2006 Complementação do município para compra de alimentos R$ 19.614,25 Entre as receitas regionais incluídas no cardápio Alunos atendidos 1.043 está o virado feito com feijão, farinha de milho e Refeições servidas 188.600 temperos. Para a compra da merenda, o município Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — dados utilizou o Programa de Aquisição de Alimentos do referentes a 2005. Governo Federal, que beneficiou oito produtores rurais da região. A prefeitura auxilia os agricultores familiares. As merendeiras participaram de cursos que abordam ética profissional, noções sobre nutrição e alimentação, reaproveitamento de alimentos, armazenamento e higiene. Os alunos também receberam educação nutricional por meio de peças de teatro.
  20. 20. C riatividade : ponto final no marasmoMETAMORFOSEESSENCIAL Em certo dia de maio de 2007, por volta de 10h, Eleandro da Rocha, desete anos de idade, comemorava sua cota diária de satisfação. Como desconhece luxos, tudo se resumiu a andar de ônibuse depois saborear a merenda na escola rural que freqüenta, no município paranaense de Fernandes Pinheiro. Para a foto­grafia na sala de aula, o menino indicou com três dedos quantas vezes havia se servido na refeição matinal. Na outra mãosegurava uma folha de papel, com o desenho de um boneco que enfeitara. Um retrato de suas viagens exploratórias aoterritório das cores e formas. Embora titubeantes, é de esperar que essas incursões também lhe sejam prazerosas. Isso impor­ta: do mundo, Eleandro com certeza já acumulou o quinhão suficiente de impressões amargas.Até 2006, caminhava sozinho cerca de 40 minutos para tomar o ônibus escolar. Outras contrariedades ainda presentes no seuco­ idiano não devem ser comentadas. Até certo ponto são perceptíveis em sua fisionomia e nas roupas. Agora Eleandro mora tcom avós, a cinco quilômetros da escola, e a condução passa quase na porta. A situação melhorou um pouco, mas para trásfi­­ ram a mãe e cinco irmãos — um é recém-nascido —, mergulhados na realidade sombria das famílias carentes. Ao comer à ca­von­ ade na escola, pelo menos Eleandro afasta o espectro da fome. E talvez possa sonhar com coisas próprias de sua ida­ e. t dQuanto à alimentação, é possível que crianças que o antecederam nas escolas de Fernandes Pinheiro tenham sofrido priva­ções mais agudas. No município, a merenda escolar foi mesquinha durante anos. Dos tempos em que a cidade era distrito deTeixeira Soares, até bem depois da emancipação, ocorrida em 1998. Eliane Marcele Mendes, funcionária dapre­­ feitura, conta que suportou a mesmice de uma dieta exclusiva de sopas industrializadas no período escolar. Mas nem 21
  21. 21. F e r nan d e s P i nhe i r omesmo aqueles caldos pouco consistentes marcavam presença todos os dias. Diante disso, os alunos também não eram látão assíduos... Outras pessoas confirmam essas informações. Uma delas é Marlei Viegandt de Meira, atual secretária deEducação, com 20 anos de magistério.Marlei acrescenta que eram comuns as promoções nas escolas para garantir a merenda. Como a populaçãonão é rica, esse recurso só podia ser utilizado com alguma parcimônia. A rotina era quebrada quando as crianças traziamlegumes e verduras de casa, para engrossar as sopas. Agora Eliane Mendes ajuda a preparar a merenda na escola onde estu­dou — a Floresval Ferreira — para 400 alunos, a maior do município. Ela atesta que a alimentação escolar passou pormetamorfose essencial, como resultado de uma política responsável inaugurada em janeiro de 2005. O professor FranciscoCarlos Zittel, veterano que dirige essa unidade de ensino, assina embaixo.Ele diz que os elogios à qualidade da merenda são recorrentes, partindo de pais e alunos. “Desde que a alimentação escolardeixou de ser errática, as crianças passaram a se alimentar com prazer. Muitas delas precisam comer na escola, enchendoo prato várias vezes. A merenda é farta o bastante para isso. A primeira coisa que muitos alunos fazem ao chegar é consul­tar o cardápio, afixado em um mural.”A professora Noeli Filus de Meira orgulha-se de ter comandado o processo até março de 2007, como secretária de Educaçãono período. Noeli, que hoje leciona na Escola Costa e Silva, onde está matriculado o pequeno Eleandro da Rocha, abando­nou os estudos aos 15 anos de idade. Morava longe e não havia como se deslocar até a escola. Casada, com dois filhospequenos, voltou a estudar. Cursou magistério e pedagogia. Quando recebeu o convite para assumir a Secretaria deEducação, não tinha experiência administrativa.No entanto, conhecia bem as falhas da estrutura sob o seu comando. Soube montar uma equipe competente e deu contado recado. Para começar, eliminou as deficiências do transporte escolar. A prefeitura comprou dois ônibus e criou onzelinhas para servir os estudantes. Assim conseguiu conter a evasão dos alunos, principalmente as faltas nos dias chuvosos.Durante a gestão de Noeli, o município capacitou professores e merendeiras. Hoje ela se dedica a uma turma de EducaçãoInfantil. Experimenta a merenda com as crianças e as incentiva a comer: “Vejam como está gostosa!”.Para muitos alunos da rede pública esse tipo de incentivo é desnecessário: algo em torno de 15% da população escolar recebeaulas de reforço, com direito a refeições suplementares. A maioria desses estudantes costuma manter olhos e ouvidos atentosnas salas de aula. Os professores sabem que tal fome de saber também está relacionada com a cozinha. É de lá que o olfato22
  22. 22. C riatividade : ponto final no marasmoda meninada costuma captar notícias estimulantes. A qualidade dessas mensagens se deve ao trabalho da nutricionistaMauricila de Campos França. “A presença dela é uma benção”, diz Noeli. HORA DE REFORMAR Mauricila se formouem Curitiba, em 2001. Depois veio para a Santa Casa do município vizinho de Irati, onde trabalhou por quase quatro anos.Além de cuidar da nutrição clínica, administrava a cozinha do hospital. Mas sempre esteve interessada em atuar em esco­las. “Minha intenção era trabalhar com crianças que, em princípio, formam uma comunidade sadia. Assim eu teria a pos­sibilidade de contribuir para a formação de cidadãos com hábitos alimentares adequados desde a infância.” A nutricionis­ta chegou em março de 2005 para organizar e coordenar a merenda.Por vários anos, o sistema de alimentação escolar fora coordenado por um professor ou por um funcionário da Secretariade Educação. O cargo não exigia muito do responsável. Por ser bastante singela, restrita às sopas industrializadas, a meren­da também não dava muito trabalho às cozinheiras. Para sacudir o marasmo, Mauricila foi conhecer todas asescolas, e logo providenciou um primeiro encontro com as merendeiras. O objetivo era ensinar alguns conceitos básicos,sem os quais seria impossível estruturar o serviço. Não foi difícil. O município tem apenas cinco escolas, onde trabalham25 pessoas contratadas para as tarefas de apoio.Todas elas passavam pelas cozinhas, em sistema de rodízio. O arranjo funcionava, mas não com a suavidade desejada.Algumas das funcionárias não morrem de amores por panelas e fogões, algo que transparece na comida que preparam. A saídafoi escolher as que têm veia culinária e deixá-las ocupar o posto de forma permanente. Maria Poposky é uma dessas cozinhei­ras fixas. Trabalhou 12 anos na creche municipal. Depois de passar pela Secretaria de Saúde, agora está definitivamente naEscola Floresval Ferreira, onde tem Jussara Aparecida Lerner e Eliane Mendes como ajudantes eventuais.O rodízio vai continuar para as auxiliares, que poderão substituir as merendeiras titulares em caso de necessidade. Assim,as cozinhas jamais ficarão desguarnecidas e as substitutas no mínimo terão uma boa idéia de como preparar os alimentos, 23
  23. 23. F e r nan d e s P i nhe i r ona quantidade certa. Instruções para trabalhar de forma correta estão disponíveis no Manual do Manipulador de Alimentos,que tem duas versões. Uma para a creche e outra para as escolas. Os conteúdos são semelhantes, diferindo apenas na parteque trata do preparo de mamadeiras e alimentos para os bebês. Os treinamentos têm sido contínuos. O último aconteceuno começo de 2007, quando Maria Poposky e suas colegas fizeram o curso do Cozinha Brasil, programapatrocinado pelo Serviço Social da Indústria — Sesi.Mauricila tem reunido o pessoal duas vezes por ano, durante as férias de janeiro e julho. Os encontros de julho se destinama resolver assuntos pendentes e à reapresentação de conhecimentos e práticas que as merendeiras ainda não conseguiramabsorver a contento. São oportunidades para o repasse de muitos conceitos, com ênfase nas questões de higiene. Quandocomeçou, Mauricila temia sofrer restrições na montagem dos cardápios em vista do custo de alguns itens. O temor erainfundado: “Para minha surpresa, minha atenção nunca foi chamada por causa disso. Os gestores municipais me apoia­ram. Eles também querem qualidade”, diz a nutricionista.As experiências com o cardápio também são contínuas. Em maio, os alunos da rede pública experimentaram granola. Paramuitos esse foi o primeiro contato com essa rica mistura de cereais, frutas secas e outros ingredientes. Contudo, Mauricilaobserva que todas as medidas possíveis são tomadas para evitar desperdícios. O reaproveitamento de alimentos é umaconstante, e um capítulo importante dos treinamentos. Como medida de economia, o cardápio muda todos os meses, parapermitir a compra de produtos de época, a preços mais baixos. Principalmente frutas e hortícolas.As verduras são fornecidas por agricultores locais, em quantidade suficiente para o abastecimento das escolas. As frutas,nem sempre. É o caso da banana, que o município não produz. À variação da cesta de alimentos corresponde um grandenúmero de pratos, bem ao gosto da criançada. Comida regional: viradinho de feijão com chá de hortelã, arroz com carnemoída e salada orgânica, polenta com músculo, nhoque de batata com carne moída, macarrão com frango e salada, etc. Alista dos lanches doces também revela grande número de opções: bolo de cenoura com limonada, sagu (feito na escola)com suco de maracujá, mingau de aveia com banana, arroz-doce com sementes de abóbora, canjica com amendoim e assimpor diante. Sempre que possível, os alimentos são naturais, com frutas e verduras para completar a dieta.As sopas industrializadas não desertaram da merenda. Mas agora só aparecem uma vez por mês, ao lado de pudins e bebi­das lácteas. A despeito da variedade do cardápio, a logística impede que produtos perecíveis sejam consumidos nos doisprimeiros dias da semana. Supermercados de Irati, cidade mais próxima, vêm ganhando as licitações para o fornecimento24
  24. 24. C riatividade : ponto final no marasmodos gêneros alimentícios. E eles recebem produtos frescos na segunda-feira. A Secretaria de Educação de Fernandes Pinheiromanda buscá-los no mesmo dia e, à tarde, a coordenadoria da merenda divide os suprimentos para a distribuição, realiza­da no dia seguinte. É difícil encontrar alimentos passados. A nutricionista fez marcação cerrada no início, inclusive sobreos produtores de hortaliças.A carne vem resfriada, em caixas térmicas, já dividida em pacotes para cada escola, e é congelada antes de seguir para oconsumo. Além de músculo bovino, que é um corte mais barato, a merenda utiliza carne moída e frango. No princípio, aprefeitura comprava frangos inteiros. Depois mudou para coxas e sobrecoxas, ao constatar que havia algum desperdício.Embora a merenda passasse por transformação radical no decorrer de 2005, as escolas continuaram a sofrer o desconfortoprovocado pela falta de utensílios. Não havia panelas, talheres e pratos em quantidade suficiente.Mas a prática de dois turnos para o lanche acabou de vez em 2006, com a compra do material que faltava. Hoje asescolas podem se dar ao luxo de ter alguma sobra de utensílios básicos em estoque. As próprias cozinhas passam porreformas, que já foram concluídas na Escola Floresval Ferreira, para a satisfação de Maria Poposky. Ela, que gosta deexibir seus talentos em cozinha impecável, havia herdado uma estrutura precária: “Antes não dava para exigir limpeza”.Das cozinhas restantes, duas ganharão apenas azulejos nas paredes, pois estão em bom estado. As demais serão inteira­mente reconstruídas até 2008. EDUCAÇÃO À MESA Em 2006, as crianças de Fernandes Pinheiro receberam visitas do “ZéTomatão”. O personagem acompanhou sua criadora, a nutricionista Mauricila França, numa turnê educativa pelas escolas.Mauricila falou sobre a tradicional “pirâmide dos alimentos”, explicando a importância das funções de cada conjunto deprodutos como fontes de carboidratos, vitaminas, proteínas, etc. Entre outras atividades, “Zé Tomatão” respondia pergun­tas, enquanto mostrava os alimentos dispostos sobre mesinhas. O retorno do personagem estava previsto para o final doprimeiro semestre de 2007.Nesse novo ciclo de palestras e brincadeiras, a fantasia seria vestida por Regina Pereira Zanlourensi, diretora doCentro de Educação Infantil Tia Aurora. Regina, é claro, apresenta boas credenciais para assumir o papel, pois tem 70 criançassob sua responsabilidade. É também presidenta do Conselho de Alimentação Escolar — CAE, cargo ocupado pela professora 25
  25. 25. F e r nan d e s P i nhe i r oIslea Farias em 2005/2006. Nas gestões anteriores, o CAE só fazia figuração, pois as atas das reuniões provam que os antigosconselheiros se encontravam formalmente apenas uma ou duas vezes por ano, conta Islea. E a merenda era o que se viu.Islea, que hoje é vice-presidente do CAE, avalia a experiência dos conselheiros como muito positiva a partir de2005. “Todos estávamos conscientes de nossas responsabilidades. Visitamos as escolas com freqüência, examinando cozi­nhas e despensas. Também acompanhamos as licitações e verificamos se os cardápios incluíam os alimentos comprados.E enviamos críticas e sugestões à coordenadoria da merenda.” A comunicação era imediata: para ouvir Islea e os demaisconselheiros, Mauricila compareceu a todas as reuniões do CAE. Além de coordenar a merenda e inspecionar regularmenteas escolas, ela orienta alguns cidadãos que precisam de dieta especial, segundo um acordo que fez com a prefeitura.Na rede pública de ensino, o pessoal já está habituado a seguir suas recomendações. O primeiro a tomar uma iniciativaimportante foi o professor Jeferson Alves Pires, que organizou uma horta com alunos da Escola Rural Costa e Silva, em2006. Havia um terreno disponível ao lado. Jeferson preparou o solo com as crianças, depois fez vários canteiros em formade triângulo, retângulos e outras figuras geométricas. E ali plantou cenouras, com adubação orgânica. O experimento foiexplorado ao máximo como recurso didático em aulas de diversas disciplinas, principalmente de ciências e matemática.Serviu também para comentários sobre questões ambientais.E terminou em bolo, feito em sala de aula, acompanhado de explicações sobre a necessidade de higiene na cozinha: ospequenos mestres-cucas usavam toucas enquanto preparavam a receita. Todos os que estavam na escola comeram aomenos um pedaço. O professor Jeferson parece ter notável aptidão para o ensino de crianças, particularmente as do meiorural. Ele também veio de lá: é filho caçula de agricultores, e o único dos irmãos a estudar. Como ele diz, a caminhada embusca dos diplomas foi um tanto penosa, mas valeu a pena. Com apenas nove anos de idade, saiu para morar com tios quenão conhecia, em Irati. Tinha saudades da família, mas ficou com os parentes até completar 18 anos e conquistar o títulode técnico em contabilidade.Com esse diploma, na época era possível ingressar no magistério. Formado, Jeferson fez concurso e ganhouo cargo de professor. Após a capacitação necessária, foi designado para a mesma escola em que cursou o segundo ano (antiga26
  26. 26. C riatividade : ponto final no marasmoprimeira série) do Ensino Fundamental. A sala onde estudou lhe serviu de residência por dez longos anos, até que pudessecomprar sua própria casa. Nesse período, além de dar aulas, fez graduação e pós-graduação em pedagogia. O tempo e a prá­tica ajudaram o professor a desenvolver um talento insuspeitado até certa altura: o de escrever, com rapidez, ótimas peçasinfantis sobre temas abordados em aula. Jeferson também cuida do cenário e da montagem. Um sucesso. As crianças se diver­tem aprendendo. No meio delas, naturalmente, o menino Eleandro da Rocha. À FRENTE, SEMPRE Uma horta escolar nãoprosperou em Fernandes Pinheiro. A que era cultivada pelo pessoal da escola de Bituva dos Machados, uma comunidaderural do Distrito de Angaí, o mais distante da sede do município. Os pequenos plantios realizados na escola se tornaramsupérfluos: a prefeitura agora compra os hortícolas de agricultores que utilizam métodos orgânicos, informa o diretor daescola, Carlinhos Moreira de Jesus. A iniciativa de organizar a compra direta desses produtos foi do ex-se­cretário de Agricultura, o técnico florestal Clóvis Medeiros.Entre os fornecedores, 25 ao todo, está o casal Ione e Sebastião Góes, com a filha Gilda, que vivem em uma chácara de 4hectares, nas proximidades. Ali a família planta para consumo próprio e para a merenda. Os cultivos mais importantes sãoos de milho, feijão, mandioca, abóbora, cebola, amendoim e diversas hortaliças, inclusive temperos. A introdução de boavariedade de hortícolas na merenda tem dois efeitos óbvios: melhora a qualidade da alimentação das crianças e proporcio­na renda aos produtores familiares.O primeiro passo foi convencer uma parcela considerável dos alunos de que as verduras são fundamentais, daí os esforçosna esfera da educação nutricional. Nesse ponto, Fernandes Pinheiro tem colhido bons resultados. No princípio, criançasforam flagradas jogando verduras do prato no lixo. Hoje já não desprezam esses alimentos. Às vezes são contrariadas. Bomexemplo foi o que aconteceu com os morangos, consumidos na forma de pudins, ou servidos com mingau, pratos muitobem recebidos em 2006. A coordenação da merenda resolveu eliminar essa fruta do cardápio, a pedido dos produtores dehortaliças orgânicas. Os pastéis de carne moída fritos também saíram de linha. Dessa vez para atender as cozinheiras: dãomuito trabalho para fazer. A volta dos morangos e dos pastéis, contudo, não está descartada. Para isso, o cultivo da frutaterá de ser orgânico, e os pastéis, assados — nada que signifique um grande obstáculo. 27
  27. 27. F e r nan d e s P i nhe i r oTambém não será difícil avançar com a merenda, agora que está bem estruturada. De acordo com a Secretaria de Educação,é possível que mais ou menos a metade das famílias do município não possa dar café da manhã para os filhos em idadeescolar. Não se trata apenas de falta de recursos. Às vezes, por causa das grandes distâncias, certo número de crianças pre­cisa sair muito cedo de casa para alcançar as escolas. Seja porque não têm apetite, ou por falta de tempo, acabam sem odesjejum. Diante disso, a Secretaria de Educação formulou um projeto para oferecer lanches antes das aulas. Nem que sejaapenas um chá com biscoitos.A idéia já foi apresentada ao prefeito, Nei Rene Schuck. Para fornecer o lanche adicional aos mais de 900 alunos do muni­cípio, a despesa não seria grande. O pessoal da secretaria está otimista: a prefeitura tem sido generosa — além de mudar amerenda, já deu uniforme para a criançada e para as cozinheiras, que antes nem tinham toucas para trabalhar. De todaforma, alguns projetos já estão garantidos: a retomada do programa de hortas escolares para fins didáticos; a mudança dacoordenadoria da merenda para novo prédio, onde haverá espaço mais adequado para a guarda de alimentos e utensílios;e a compra de um veículo exclusivo para o serviço de alimentação escolar.28
  28. 28. Grande distância, Jussara (GO)caminho curtoA merenda escolar pode ser um bom pretextopara desenvolver a região. Os recursos federaispodem ser aplicados na aquisição de alimentosproduzidos localmente. Com isso o dinheirocircula entre os pequenos agricultores que,além de fornecerem alimentos mais frescosaos alunos, podem desenvolver sua produção.Como fazer isso?
  29. 29. Jussara (GO)Índice de Desenvolvimento População 20.034Humano Municipal, 2000 Área da unidade territorial (km²) 4.092Municípios do estado de Goiás Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,600 a 0,710 (48) 0,711 a 0,729 (49) Maior IDHM do Estado 0,600 0,730 a 0,742 (49) Menor IDHM do Estado 0,834 0,743 a 0,761 (47) IDHM de Jussara 0,740 0,762 a 0,834 (49) Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental) 21 Receita municipal R$ 15.391.522,25 Experiência premiada Recursos transferidos pelo FNDE R$ 53.386,20 na categoria Região Centro-Oeste – 2006 Complementação do município   para compra de alimentos R$ 48.525,43 O município utilizou o Programa de Aquisição Alunos atendidos 1.706 de Alimentos, do Governo Federal, para comprar Refeições servidas 312.200 frutas, frango, ovos, carne bovina, mel, polvilho Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — e queijo; o que beneficiou 67 pequenos produtores dados referentes a 2005. rurais. A merenda contou, ainda, com produtos adquiri- dos no Horto Municipal. A prefeitura também desenvolveu o projeto “Polpa de Fruta”, por meio do qual as escolas receberam doações de frutas da estação, utilizadas na preparação de sucos. O esforço financeiro da prefeitura foi de cerca de 90% dos recursos federais transferidos para a merenda.
  30. 30. G rande dist â ncia , caminho curtoCREDIBILIDADERESGATADA Ao que parece, o Brasil é o único país que temnome de árvore. E Jussara, em Goiás, é o único município brasileiro que tem nome de miss. Em homenagem à goianaJussara Marques de Amorim, vencedora de um concurso nacional de beleza realizado em 1949. Um retrato da moça nãodemorou a chegar ao então povoado de Água Limpa, que pertencia a Goiás, antiga capital do estado. A fotografia acabouentronizada na parede de um boteco. O barzinho rural ocupava ponto estratégico na confluência de algumas estradas quelevavam a diversas fazendas. Ali a peonada das vizinhanças costumava se reunir todos os dias, ao final da tarde, obede­cendo a uma convocação geral: “Está na hora de ver a nossa Jussara”.Na era do rádio, eleição de miss nesta Terra de Santa Cruz tinha gosto de Copa do Mundo. Assim, não demorou a se formaruma comissão para transformar a devoção geral a Jussara Marques em algo substantivo. Requerimento à Câmara de Goiásresultou na mudança do nome de Água Limpa, em 1950. Jussara se tornaria independente em 1958. Quem conta a histó­ria é Joaquim Alves de Castro Neto, prefeito da cidade desde 2001. Porém, Castro Neto avisa que não hácomo provar que tudo tenha acontecido dessa forma. Não tem importância. De tão saborosa, fica valendo essa versão.Jussara se desenvolveu em grande parte graças ao afluxo de migrantes nordestinos. Cidade interiorana, mantém a tradiçãode contar boas histórias. Uma delas é a da merenda escolar, que deu um salto de qualidade nos últimos tempos. O marcoda virada foi 2001. Antes, a situação era um tanto difícil. Principalmente porque a verba federal para a alimentação esco­ 31
  31. 31. Jussaralar tinha valor per capita muito baixo, como é do conhecimento geral. Com o tempo, as várias correções dessa “tabela”aumentaram a disponibilidade de recursos, junto com a contrapartida da municipalidade.Os administradores que assumiram a prefeitura no primeiro ano do milênio decidiram investir na educação de formaconsistente, com o apoio da comunidade. Até a geografia do município exige tal ajuda, pois Jussara tem grande extensãoterritorial. Esparramadas, algumas das escolas rurais estão distantes da sede do município. Assim, fazendeiros ou seus fun­cionários, e mesmo os professores, acabam transportando os produtos para a alimentação escolar. A natureza tambémcolabora. Na área rural pode-se complementar a merenda com peixes apanhados nos rios, e o cerrado, generoso, produzfrutas em quantidade.Melhorar a merenda exigiu dedicação e persistência, conta Darlene Souza e Silva Cardoso, secretária deEducação. Darlene veio da Bahia há duas décadas. Antes de assumir o cargo estudou pedagogia, especializando-se em ges­tão educacional, e lecionou durante vários anos em escolas estaduais. A situação em sua área era bastante complicada noinício do milênio. Desacreditada, a rede municipal atendia apenas 780 alunos. As escolas pediam reformas urgentes.Nessas circunstâncias, o professorado, desmotivado, andava cabisbaixo. Segundo Darlene, alguns mestres hoje admitemque ficavam um tanto envergonhados por darem aulas na rede municipal.Em poucos anos, o quadro geral mudou. Jussara fechou 2006 com cerca de 1.900 alunos nas escolas municipais. O aumen­to de 144% em relação a 2001 superou em muito o incremento populacional registrado no período, que se deu a uma taxamédia comedida. Também não havia muitas crianças fora das escolas ao iniciar-se o século 21. O número de alunosaumentou exponencialmente porque a rede pública recuperou a credibilidade, comemora a secretária. E sem dúvida sub­traiu alunos da rede estadual e até das escolas particulares, das quais há cinco na cidade.Para que isso fosse possível, houve investimentos em infra-estrutura e na qualificação dos professores. Surgiram novasescolas e as demais passaram por reformas e ampliações. Antes, os professores só tinham o magistério. Por meio de con­vênios com a Universidade do Estado de Goiás, a prefeitura patrocinou a formação de todos eles, que somam pouco maisde uma centena. Hoje a metade tem curso superior, e os demais são também pós-graduados. Nesse período, a educaçãopor vezes absorveu mais de 25% das verbas municipais, chegando a abocanhar até 29% do total.No que diz respeito à merenda, Jussara investiu na construção ou reforma de cozinhas, que agora estão totalmente equi­padas com geladeiras, congeladores, fornos e fogões. A oferta de material básico como panelas, vasilhames diversos, mesas32
  32. 32. G rande dist â ncia , caminho curtopara refeitórios e outros utensílios aumentou na escala adequada. E as pouco mais de 40 merendeiras vêm passando pordiversos cursos, sendo muito dedicadas — o que resulta em alto grau de aproveitamento, diz a secretária, que aproveitapara elogiar as ações do Conselho de Alimentação Escolar.O CAE está muito próximo da merenda. Isso porque é presidido pela professora Irene Lúcia Marques. Formadaem História, Irene lecionou durante dois anos, mas depois foi para a Secretaria de Educação cuidar da alimentação escolar,como gerente, em meados dos anos 1990. Ali continua até hoje, tendo sido eleita presidenta do CAE como representantedos professores. Ocupou a vice-presidência na chapa anterior, liderada por Irmã Maria Elina Bustus, religiosa católica quedirigia uma creche na cidade.Irene informa que, embora não seja uma exigência legal, a gerência da merenda faz quatro prestações de contas por ano aoconselho. Os conselheiros, dois a dois, visitam regularmente as escolas e apresentam relatórios detalhados sobre o que vêem.No total, são 12 escolas e cinco creches. Nem sempre a tarefa é fácil, pois as escolas rurais são distantes. Uma delas fica a maisde 100 quilômetros de Jussara, nas proximidades do município de Britânia. FARINHA DE BARU Um passo importanteda atual administração foi chamar o nutricionista André Luiz de Castro de volta para casa. Nascido em Jussara,André deixou a cidade para estudar em Goiânia. Depois ficou anos num restaurante industrial, em Barra doGarças (MT). Em 2002, ao receber o convite da prefeitura para trabalhar com a merenda, fez as malas sem demora. Oemprego anterior era bom, mas ele queria ficar perto da família e dos amigos. O nutricionista chegou em boa hora, diz apedagoga Selma Pinheiro, uma das gerentes da merenda. Na época ela cuidava da alimentação em uma das escolas.“O governo goiano mandava alguns cardápios prontos, o que deixava a desejar, já que o pessoal especializado em nutriçãoestava em Goiânia, distribuindo as mesmas sugestões para todo o estado. Fazíamos tudo meio a olho, não sabíamos calcular asquantidades per capita”, conta Selma. Em contrapartida, já havia certo padrão de organização nas cozinhas, onde as merendei­ras usavam uniformes e tinham nível razoável de conhecimentos. Foi sobre essa base que André começou a trabalhar. 33
  33. 33. Jussara Agora que as dificuldades ficaram para trás, Jussara tem cinco creches e duas escolas que oferecem três refeições por dia. Uma delas é a escola agrícola municipal. A outra fica no setor urbano, atendendo crianças carentes de um bairro periférico. A prefeitura construiu essa unidade para receber de 250 a 300 estudantes do Ensino Fundamental. André de Castro renova os cardápios de dois em dois meses. A sazonalidade da oferta dos produtos alimentícios define as mudanças. “Procuramos bons preços, sempre levando em conta a aceitabilidade”, diz o nutricionista. Merecem destaque as preparações que incluem produtos regionais, entre eles a farinha de baru, usada com freqüência. O baru,árvore típica da região Centro-oeste, produz frutos em abundância. Da semente, torrada e triturada, obtém-se a farinha dealto teor calórico: são 500 quilocalorias por 100 gramas. Além disso, a semente contém muitas proteínas e minerais, comoo potássio e o magnésio.Como o fruto pode ser estocado por vários anos, tem-se oferta constante de uma farinha com gosto semelhante ao doamendoim, usada em bolos, canjicas, nas vitaminas de frutas e na feitura de preparações salgadas. As farofas são um bomexemplo. A merenda também consome o pequi — tradicional na culinária goiana — mel, leite e seus derivados. Para faci­litar a vida das responsáveis pela alimentação em cada escola, a secretaria oferece dez cardápios por bimestre. A responsá­vel pela merenda escolhe cinco, de acordo com a realidade do estabelecimento.Os sucos naturais de frutas predominam nos meses mais quentes: acerola, manga, goiaba, caju, maracujá, limão... A comu­nidade se envolve com a merenda, fazendo doações. Afinal, os beneficiados serão seus próprios filhos. O projeto de apro­veitamento das frutas de época foi desenvolvido há tempos, para evitar desperdícios. E vem apresentando bons resultados.Nas refeições quentes há diversos pratos, como a galinhada, feita de carne de frango com arroz e legumes (ou pequi). Amerenda também serve carne suína e bovina.Para as compras, realizadas no mercado local, a Secretaria de Educação faz pesquisas de preços em diversos estabeleci­mentos antes da montagem bimestral dos cardápios. A compra é feita pelas gerentes de merenda das escolas, tambémresponsáveis pela qualidade, recepção e guarda dos alimentos. Dessa forma, elimina-se a necessidade de um depósito34
  34. 34. G rande dist â ncia , caminho curtocentral. A rotina é diferente no caso das escolas rurais, que são abastecidas com o suficiente para dois meses. “A gentedepende do apoio dos donos das fazendas, e segue um calendário que seja conveniente para eles também”, dizSelma Pinheiro. O comprador retira um vale na prefeitura e leva os produtos. As carnes seguem resfriadas,em embalagens apropriadas. Depois ficam nos congeladores. O cardápio é diferenciado, porque a população do campotem suas próprias opções — é o caso do peixe.Enquanto reorganizava a merenda, o município de Jussara desenvolveu um programa de avaliação nutricional dos alunosda rede pública, por iniciativa de André de Castro. A primeira coleta de dados — peso, altura e idade — foi realizada em2003, para descobrir alunos com necessidade de dieta especial. Esse levantamento levou à adoção de período integral ealimentação farta para as crianças do bairro Nova Jussara. ESCOLA NOTA 10 Jussara surgiu e cresceu por obra debrasileiros vindos de diversos estados. Até o prefeito, Joaquim de Castro, é forasteiro. Ele teve a sorte de nascer e viver emGoiás, a antiga capital do estado, a tempo de prestar serviços de datilografia para uma velhinha extraordinária, confeiteirade doces e de poemas. Na ocasião, começo dos anos 1970, Cora Coralina ainda não havia espalhado seu encanto pelo país,e ainda não sabia usar a máquina de escrever que comprara. Joaquim passou manuscritos a limpo durante um mês. Entradona adolescência, com a cabeça nas nuvens, não prestava atenção no conteúdo dos escritos, que então não lhe diziammuito. Esqueceu-se até de cobrar pelo serviço. Ao menos aproveitou os doces de Cora Coralina, que ela dizia serem melho­res que seus poemas. E guardou uma boa história para contar aos netos.Joaquim também se orgulha do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, e diz que a prefeitura se esforça para progredirainda mais nesse campo. A próxima iniciativa será a implantação de uma cozinha comunitária para oferecer cursos àsmerendeiras — inclusive as da rede estadual — e às donas-de-casa. A idéia é melhorar o padrão nutricional de toda a comu­nidade. Há projetos em curso em outras áreas. Um deles para organizar a produção local de carne. “Estamos trabalhandocom as cadeias produtivas de bovinos, suínos e aves para aperfeiçoá-las. A criação de animais é um dos pontos fortes daregião. Com mais oito municípios, temos o apoio do Sebrae e do governo estadual.” Nesse contexto, a escola agrícola deJussara sempre terá um papel importante. 35
  35. 35. JussaraA escola merece destaque não apenas por causa de seus vínculos com a merenda escolar, da qual é fornecedora, mas tam­bém por se tratar do melhor exemplo de recuperação do ensino público municipal. O professor Luiz Mário Lopes Cardoso,pós-graduado em matemática e estatística, assumiu a direção em 2001. A escola atravessava uma fase difícil, com apenas37 alunos matriculados. Como se trata de instituição muito importante para navegar sem rumo, Luiz agarrou o timão comenergia para colocá-la na rota original. Fundada em 1991, a unidade se destinava a filhos de produtores rurais. Além dasdisciplinas básicas do Ensino Fundamental, sempre ofereceu aulas sobre técnicas agrícolas e práticas de zootecnia, com oobjetivo de formar mão-de-obra qualificada e fixá-la no campo.A primeira tarefa do novo diretor e sua equipe foi repensar o papel da escola, para adequá-la às condições da produçãoagropecuária atual, seguindo os parâmetros da educação moderna. Hoje a escola tem 160 alunos, que fizeram teste voca­cional, cursando do 6.º ao 9.º ano, em período integral. O diretor comenta: “No início aqui só ingressavam filhos de pro­dutores rurais, mas como a qualidade do ensino melhorou muito, passamos a aceitar alunos que vivem na cidade. Aprocura é muito grande”.Em Jussara, as preocupações com o ambiente levaram à formatação de bons projetos. A escola agrícola produz grandequantidade de mudas de diversas espécies nativas para distribuição gratuita. Entre elas seringueiras, baru, aroeira, ipê euma acácia que dá flor o ano inteiro, excelente para a apicultura. Antes as pessoas pegavam as mudas e as plantavam deforma aleatória, ou as doavam a terceiros. Então surgiu um projeto de arborização da área urbana – algo que interessa atodos, pois a região é muito quente. Os alunos plantam sementes, cuidam das mudas e depois as levam para casas demoradores que se cadastram para participar do projeto. O professor Luiz Mário explica que a iniciativa tem grande valor educativo e desdobra-se em três vertentes. “Primeiro, o ensino passa a ter melhor qualidade. Com a prática, o aluno aprende conceitos de matemática, geografia e portu­ guês, pois escreve textos de maneira prazerosa, narrando suas experiências. Depois, descobre que a questão ambien­ tal é muito complexa, que não se resolve por meio de pales­ tras dadas uma vez por ano. Da produção da semente ao plantio da muda, o aluno toma consciência do quanto o processo pode ser demorado, até ver a árvore crescida.” Em outra vertente há a questão da auto-estima. “Geralmente36
  36. 36. G rande dist â ncia , caminho curtotrabalhamos com meninos de poucos recursos financeiros. Cada um se vê apenas como mais um indivíduo, e não como cida­dão que pode ser útil à comunidade. O projeto, de grande aceitação, elevou a auto-estima de todos. Já plantamos perto de 2 milmudas na cidade. Para participar, o morador assina um termo de compromisso, obrigando-se a cuidar da muda. Os estudantesvoltam sempre para fazer avaliações. E dão uma cutucada no dono da casa se ele não estiver seguindo as recomendações.”Para consumo próprio e para oferecer produtos à merenda municipal e a instituições beneficentes, a escola agrícolacultiva boa parte de seus 51 hectares. Dali saem frutas, legumes, verduras, leite, mel, frangos, ovos e suínos. O volumeproduzido oscila de acordo com as estações do ano, como é natural. Na horta, os estudantes trabalham sob a supervisãode José Flávio Lima, chefe de jardinagem e olericultura. José Flávio, um veterano que está no ramo desde1983, recebe alunos de outras unidades da rede municipal para ensinar-lhes técnicas agrícolas, e também colabora naimplantação de hortas nas escolas estaduais.Da horta, os vegetais passam para os domínios de Maria das Graças de Mesquita, gerente da merenda na escola. Maria dasGraças ocupa o cargo há 13 anos, apoiada por cinco cozinheiras. Ela coordena e fiscaliza o trabalho, encarrega-se das pres­tações de contas e faz compras. Como se recorda, um dos itens da merenda é a farinha de baru, produzida por Vilmar AlvesRabelo, um jussarense que se dispôs a explorar as potencialidades da árvore. Vilmar inaugurou o negócio em 2005, tocan­do a produção com a ajuda da esposa e de seis funcionários.E tem feito experiências interessantes: a casca do baru dá carvão, e o fruto, fermentado, cachaça. Os resíduos da fer­mentação viram adubo de qualidade, podendo servir de alimento para o gado. O óleo de baru tem aplicações na indús­tria de cosméticos e, mais recentemente, surgiu a boa notícia de que a castanha é um autêntico “viagra” natural.Vilmar produz de forma artesanal bombons, doce de leite e rapadura, com adição de castanha triturada. Naforma de farinha, a merenda absorve cerca de 30% da produção total de castanhas, que anda pela casa dos 15 quilos por dia.O município também estimula a produção agrícola familiar. Em maio de 2007, 67 produtores estavam cadastrados noPrograma de Aquisição de Alimentos, criado pelo governo federal. Há uma contrapartida de recursos da prefeitura, que seencarrega de prover assistência técnica e manter as estradas em ordem. Dentre os fornecedores estão os 22 sócios de uma 37
  37. 37. Jussaracooperativa — a Coopernova —, um núcleo de produção rural instalado a 43 quilômetros da sede do município. O proje­to da Coopernova foi iniciado em 2001, com financiamento do Banco da Terra. Cada associado tem 12 hectares de terra.Um deles é Eliaquim Rodrigues dos Santos, casado com Silma Pereira de Freitas. O casal construiu­casa no terreno e dedica-se, como os demais sócios, aos plantios de subsistência e à produção leiteira. Planta mandioca, mamão,batata-doce, bananas, cria aves e tem pequeno rebanho. Os excedentes vão para o mercado ou para a merenda. José LinoGuimarães (o Zé Lino) é o funcionário da prefeitura que coordena o Programa Compra Direta Local da Agricultura Familiar, comrecursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar — Pronaf. Ele explica que uma das vantagens doprograma é afastar os atravessadores e garantir preços melhores para os agricultores. Antigo peão de fazendas, Eliaquim estásatisfeito com seu novo status de proprietário, ainda que tenha um financiamento a pagar durante os próximos 20 anos.Zé Lino sabe valorizar os esforços dos produtores. Solidário, compreende as dificuldades enfrentadas portodos no trato com a terra, principalmente por aqueles que vieram de fora, em busca de vida melhor, como Eliaquim, quenasceu em Montes Claros (GO). O próprio Zé Lino migroudo Rio Grande do Norte com a família, a bordo de um pau-de-arara. Foram dois meses de viagem. Ele se lembra dealguma coisa da jornada. Inclusive do primeiro picolé, quepretendeu poupar a todo custo. Na inocência de seus quatroanos, percebeu que seria impossível conservá-lo só depoisde ter a camisa molhada pelo gotejar constante do sorvete,imposto pelo sol de Brasília. Na época, a capital do paísestava em construção. E o município de Jussara prestes aaparecer no mapa do Brasil.38
  38. 38. Quem planta, Dois Irmãos (RS)colhe Como regar, nutrir e podar as boas idéias para que elas frutifiquem?
  39. 39. Dois Irmãos (RS)Índice de Desenvolvimento População 22.435Humano Municipal, 2000 Área da unidade territorial (km²) 65Municípios do estado do Rio Grande do Sul Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,666 a 0,753 (95) 0,754 a 0,776 (96) Maior IDHM do Estado 0,870 0,777 a 0,797 (92) Menor IDHM do Estado 0,666 0,798 a 0,816 (95) IDHM de Dois Irmãos 0,812 0,817 a 0,870 (89) Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental) 16 Receita municipal R$ 22.984.166,75 Experiência premiada Recursos transferidos pelo FNDE R$ 82.386,00 na categoria Continuidade – 2005 Complementação do município   para compra de alimentos R$ 36.862,56 A categoria continuidade visa premiar prefeituras Alunos atendidos 3.247 que mantiveram em seu município experiências Refeições servidas 597.000 bem-sucedidas de administrações anteriores da Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — merenda escolar, a despeito de mudança de governo. dados referentes a 2004. A prefeitura de Dois Irmãos elaborou um manual da alimentação escolar em parceria com a Emater. Com isso as boas decisões sobre a merenda escolar podem ter continuidade. Há uma preocupação com a introdução de alimentos regionais na merenda dos alunos.
  40. 40. Q uem planta , colheEvoluçãoconstante Roma não foi feita em um dia! Tudo o que vale a pena na vida precisa ser construído aolongo do tempo, com planejamento, dedicação e competência. Isso é ainda mais verdadeiro nos serviços públicos, ondeas mudanças na administração podem prejudicar bons projetos se não houver um compromisso com a continuidade e obom atendimento à população. Um exemplo a ser seguido é o de Dois Irmãos, município de forte influência da imigraçãoalemã e considerado “portal” da serra gaúcha. Tendo recebido os primeiros trabalhadores da antiga Colônia São Leopoldoem 1825 e com fundação oficial em 1959, a cidade conta com a mesma secretária de Educação desde 1989. Assim, osmembros da equipe de merenda escolar vivenciaram juntos todas as grandes transformações pelas quais passou o ProgramaNacional de Alimentação Escolar — PNAE nos últimos 15 anos e transformaram essa experiência em projetos inovadores,de grande sucesso e alguns pioneiros. São iniciativas como a construção de hortas nas escolas e de um hortão para fornecervegetais fresquíssimos a baixos custos; a introdução de alimentos orgânicos e integrais; o apoio do sistema de VigilânciaSanitária da cidade para o cadastramento de fornecedores da região; avaliações nutricionais e de risco de obesidade nosalunos; e muito mais. Sem dúvida, foi um longo caminho para transformar escolas que nem sequer tinham quem prepa­rasse a merenda em um modelo premiado. As crianças, claro, agradecem.“Quando entrei para a secretaria, nos final dos anos 1980, não tínhamos merendeiras ou serventes e as próprias professo­ras preparavam a comida para os alunos com os produtos enviados pelo Governo Federal”, lembra a secretária municipalde Educação, Cultura e Desporto Hilária Arnold Kreuz. “As escolas também não possuí­am cozinhas, refeitórios e nem despensas apropriadas.” “Muitas vezes os alimentos vinham com oprazo de validade quase vencido e as crianças não aceitavam bem as bebidas lácteas muito doces,com forte gosto de soja, as sopas industrializadas e a comida enlatada, que não fazem parte de A construção de hortas nas escolas possibilita umnossa tradição alimentar”, acrescenta a coordenadora da merenda escolar Lucimar dos Santos trabalho de educaçãoEngelmann. “O estado fornecia apenas os pratos de plástico e algumas panelas. Para o restante multidisciplinar.tínhamos que contar com a contribuição voluntária da comunidade.” Os agricultores da regiãodoavam esporadicamente frutas e verduras de modo a tornar a merenda mais palatável, e os açou­ 41
  41. 41. Dois irmãosgues enviavam ossos bovinos para reforçar a sopa em algumas escolas, apesar do alto risco de contaminação. É tambémdessa época o chamado Projeto Ovo, em que as crianças eram estimuladas a trazer de casa, um dia por semana, um ovopara ser acrescentado à merenda. Tempos difíceis. Profissionais e infra-estrutura Tudo começou a mudara partir de 1992, com a decisão da prefeitura de aumentar o investimento em infra-estrutura das escolas, com a aquisiçãode fogões, geladeiras e outros equipamentos para as cozinhas. Mesmo não havendo um cargo específico para a área dealimentação, a secretaria requisitou a transferência de uma professora concursada, Guizela Steier Meier, para ajudar a criaruma coordenadoria para a alimentação escolar. O primeiro salto, no entanto, viria em 1994 com a municipalização damerenda. A nova lei já previa então a formação de um Conselho de Alimentação Escolar e a contratação de um nutricio­nista para o desenvolvimento de cardápios que respeitassem os hábitos alimentares de cada localidade e sua vocação agrí­cola, dando preferência aos produtos in natura, além da prioridade na aquisição de “produtos de cada região, visando aredução dos custos”. Os administradores, contudo, não sabiam ainda como realizar essas contratações e aquisições, já quenão havia modelos, experiências anteriores e nem legislações municipais para isso. “Mas houve uma mudança de menta­lidade com foco em uma melhor nutrição das crianças, e a prefeitura passou a contribuir com 30% a mais do que os valo­res enviados pelo Governo Federal, sendo que 20% eram destinados à compra de alimentos e 10% para equipamentos decozinha”, conta a coordenadora Lucimar.Chegam as merendeiras A secretária montou então o embrião do que hoje é aCoordenação de Merenda Escolar, ligada ao Departamento de Administração da Secretaria de Educação. Com isso foi possívelcontratar as primeiras merendeiras e serventes para as escolas, que adaptavam cardápios enviados por fax pela Prefeitura deSão Paulo. A primeira turma de merendeiras trabalhava apenas nas 10 maiores das 33 escolas da rede com cerca de 1.200alunos. Na época, a secretária de Dois Irmãos ainda era responsável pelas unidades educacionais dos distritos de Morro Reutere Santa Maria do Herval, que mais tarde se tornariam municípios independentes. Hoje são 35 serventes/merendeiras atuandoem 16 unidades educacionais (das 13 escolas de Educação Fundamental da cidade, apenas uma é particular) e atendendo amais de 3 mil alunos, sendo que 350 estudam em período integral e recebem três refeições diárias. “A decisão sobre quem vai42
  1. A particular slide catching your eye?

    Clipping is a handy way to collect important slides you want to go back to later.

×