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11        Quando observamos esses fenômenos no ambiente educacional, percebemosrapidamente que os diferentes tipos de form...
12alguns desses rituais perderam força, permanecendo apenas os mais relevantes, queainda podem ser encontrados nas escolas...
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Como o pesquisador entende o sagrado; hierofania na escola. é possível falar do espaço sagrado na escola; ritos de passagem

  1. 1. 1 PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA Com enfoque em ensino religioso LEANDRO SOARES DE SOUSACOMO O PESQUISADOR DA RELIGIÃO ENTENDE O CONCEITO DE SAGRADO? HIEROFANIA NA ESCOLA RELIGIOSA É POSSIVEL FALAR DO ESPAÇO SAGRADO NA SALA DE AULA? RITOS DE PASSAGEM NA ESCOLA É RELIGIOSO OU NÃO? Trabalho apresentado à prof. Antonio Boeing da disciplina de Fundamentos antropológicos da religião como avaliação e exigência para aprovação. Rio de Janeiro Novembro- 2012
  2. 2. 2COMO O PESQUISADOR DA RELIGIÃO ENTENDE O CONCEITO DE SAGRADO 1? Por Leandro Soares de Sousa Ao consultar o Dicionário Enciclopédico das Religiões2 sobre o termo Sagrado,vemos que trata-se de uma "manifestação de algo de ordem diferente, de umarealidade que não pertence ao nosso mundo natural, profano. As conotações ontológicas para o conceito do sagrado, tem o foco de interessedos representantes clássicos da Fenomenologia da Religião na experiência humana donuminoso3, ou seja, na reação do sujeito religioso aos "chamados" do sagrado.Metaforicamente falando, pode-se dizer que há uma instância própria no interior do serhumano que reage à esfera divina transcendental analogicamente a uma caixa deressonância que, devido a seu material, vibra na mesma freqüência de um somproduzido próximo a ela. A Fenomenologia clássica da Religião, portanto, parte doaxioma antropológico de que o ser humano é equipado com uma faculdade específicaque o predispõe para a sensação da presença do sagrado. Esse sensus numinis[13]possibilita a sensação ambígua do sagrado como mysterium tremendum et fascinosum("mistério tremendo e fascinante"). Em outras palavras, o encontro do individuo com aessência divina nele provoca, simultaneamente, "sentimentos inexplicáveis de horror eespanto, por um lado, e êxtase irresistível e fascinação, por outro. Mircea Eliade chamou de "hierofanias", as auto-revelações do sagrado, queconstituem um elemento-chave na história humana, embora o lado irracional dosagrado enfraqueça na medida em que uma religião concreta passa por um processode racionalização. Em outras palavras: "O elemento racional supera o estágio originaldo „rudimento‟ e „esquematiza‟ os momentos irracionais por meio da moralização e1 Frank Usarski (2004) diz que há um uso aleatório da palavra sagrado, que é aplicada à vontade paraparafrasear algo que - de uma maneira ou outra - tem (mais ou menos) a ver com religião. Dá-setambém o contrário, ou seja, o termo sagrado é intuitivamente associado a um sentido mais específicodo que o da palavra religião. Em relação à suposição de sinonímia da noção do sagrado com o termo"religião", seria uma tarefa sem fim listar todas as citações de títulos de livros, dissertações e teses,anúncios de encontros interinstitucionais, aulas magnas, eventos temáticos e ementas de cursosbrasileiros apenas nos últimos anos para provar a "naturalidade" com a qual o sagrado é adotado comose fosse um termo técnico inequívoco e imediatamente acessível para leitores, integrantes de bancas,ouvintes em auditórios e alunos em salas de aula. Cf. Revista de Estudos da Religião Nº 4 / 2004 / pp.73-952 Cf. Dicionário Enciclopédico das Religiões, Vol.1, orgs. Por Hugo Schlesinger e Humberto Porto,Petrópolis: Vozes, 1995, p.1265.3 Otto foi o criador do neologismo alemão numinoso, termo derivado da palavra latina numen quesignifica aproximadamente : vontade divina", "atuação divina" ou "essência divina" e empregado paradesignar a forma mais "abstrata"[5] do sagrado, tema central e título da sua "obra magna".
  3. 3. 3cultivo". Embora essa "sublimação" tenha diminuído o vigor do numinoso, ele não deixade repercutir nas formas posteriores. Pelo contrário: como Rudolf Otto afirma ainda noinício da sua obra magna, "o numinoso vive em todas as religiões." O ser humano concretiza sua relação com o sagrado na vida através desímbolos, ritos e expressões estéticas culturalmente pré-estruturadas. Embora asformas diversificadas e variáveis no tempo e espaço constituam o mundo religiosoempírico, elas não desviam a atenção de um pesquisador comprometido com oprograma da Fenomenologia da Religião4, uma vez que sua tarefa mais "digna" é a detranspassar a multiplicidade dos fatos produzidos nos âmbitos de diferentes religiõespara compreender a essência da religião. É preciso que o pesquisador não se perca na complexidade dos fatos, e estudea manifestação religiosa em si mas abstraia do mundo empírico por ativar seu própriosensus numinis e "treinar" sua empatia com o sagrado para se deixar penetraremocionalmente pelo numinoso e experienciá-lo.BIBLIOGRAFIA CONSULTADADicionário Enciclopédico das Religiões, Vol.1, orgs. Por Hugo Schlesinger e HumbertoPorto, Petrópolis: Vozes, 1995, p.1265.ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo:Martins Fontes, 1995.OTTO, R. O Sagrado, Lisboa: Edições 70, 1992USARSKI .Frank .Revista de Estudos da Religião Nº 4 / 2004 / pp. 73-95.4 Para alguns críticos da fenomenologia “Clássica” da Religião , do Ponto de vista metodológico, não ésuficiente estudar as "meras" manifestações religiosas. Pelo contrário, é preciso que o pesquisador sedeixe penetrar emocionalmente pelo numinoso e experienciá-lo.
  4. 4. 4 HIEROFANIA NA ESCOLA RELIGIOSA5 Por Leandro Soares de Sousa Esse texto tentará refletir sobre a Hierofanias na constelação escolar de escolasreligiosas. As seguintes questões são chaves de interpretação da realidade,especialmente religiosa, na perspectiva antropológica. Sabemos que existem diferentes concepções que irão contribuir nadecodificação e compreensão do fenômeno religioso no contexto escolar. No caminhometodológico será o itinerário da antropologia da religião, que está marcado por umalonga investigação sobre as origens da religião. Há um consenso entre ospesquisadores ao afirmar que a pesquisa neste campo foi aos poucos assumindoobjetivos mais limitados em torno do papel que a religião exerceu ou exerce, nocontexto das outras dimensões da vida associativa. Daqui resultam o casamentoepistemológico da análise antropológica e análise sociológica do fenômeno religioso,particularmente, quando a primeira retém como fundamental o estudo das estruturassociais, especialmente a antropologia social, enquanto a segunda prolonga seuspróprios interesses no âmbito dos sistemas simbólicos. Podemos começar nossa reflexão partindo de Mircea Eliade no Tratado deHistória das Religiões que pretende estudar os fenómenos religiosos. Ele aborda osfenómenos religiosos em si mesmos, como hierofanias (fenómenos religiosos),identificando tipologias e estudando a sua estrutura e significado. Mas o que éhierofanias? O próprio Eliade define que: “ o homem pode tomar conhecimento dosagrado, porque este se manifesta; portanto, esta é caracteristica intrisica, acapacidade de manifestação”. Logo a Hierofania é manifestação do sagrado que podese manifestar em qualquer objeto do mundo profano, e este assume a condição desagrado. Penso que a máxima dessa reflexão é pensar que o objeto passa a ser outracoisa e continua a ser ele mesmo. Assim como outros teóricos, Mircea Eliade define o sagrado pela oposição aoprofano. Vê o sagrado como uma experiência natural, embora possa aparecer atravésde coisas humanas e se revelar através da natureza. Rudolf Otto6, um grande historiador das religiões, foi que melhor definiu aessência do sagrado com uma forma de experiência interna sui generis e incomum.5 Termo cunhado por Mircea Eliade e utilizado nesta reflexão por Leandro Soares para descrever a manifestaçãoreligiosa nas escolas religiosas.
  5. 5. 5Ele analisou a manifestação do sagrado como uma experiência única, interna eindividual, mas que poderia ser partilhada. O autor defende ainda que o sagrado semanifesta sempre com uma qualidade inteiramente diferente da realidade cotidiana eda experiência natural. A religiosidade de um povo se manifesta não apenas em rituais complexos emitos dos tempos primordiais, mas também na experiência cotidiana em todas as áreasda vida. A forma de entrar ou sair de uma casa, um simples gesto no momento da caçaou pesca, a dieta alimentar, a direção do olhar ao se aproximar de determinado objeto,o pronunciar discreto de determinadas palavras ao entrar na água e coisassemelhantes podem expressar muito da religiosidade local. Desde que o ser humanose compreendeu como ocupando determinada posição no cosmos, compreendeu umasacralidade. A partir do momento em que o humano pôde começar a descrever o que orodeava, as noções e os conceitos que formulou para descrever o que via emanaramde uma interpretação que compreendia o sagrado. Vemos por toda a parte a"tendência do homem para «consagrar» toda a sua vida". Neste sentido, há umatendência para o sacrifício no homem. Agora, como podemos entender o sagrado no contexto escolar? De primeiramão podemos postular que essa hierofania não é tarefa essencial e especial dadisciplina ensino religioso e muito menos do professor de Ensino religioso. Acreditamosque essa hierofania escolar só se efetivará na medida em que forem incorporadospelos professores, não apenas no planejamento formalizado na escola, mas no efetivotrabalho com os educandos. Tendo como ponto de partida as novas demandas para o Ensino Religioso, queforam definidos nas Diretrizes Curriculares dessa disciplina, Cumpre relembrar que oobjeto do Ensino Religioso é o estudo das diferentes manifestações do sagrado nocoletivo7. Seu objetivo é analisar e compreender o sagrado enquanto o cerne daexperiência religiosa do universo cultural, que se contextualiza no cotidianoeducacional ou escolar de inter-relação dos diversos sujeitos. Contudo como comenta o antropólogo brasileiro Luiz Gonzaga Mello8, só épossível isolar a religião dentro da cultura como um recurso didático e metodológicoapenas. Ou seja, o universo cultural religioso perpassa todas as disciplinas na escola.6 OTTO, R. O Sagrado, Lisboa: Edições 70, 1992.7 Em colégios católicos temos também a especificidade da filosofia cristã e espiritualidade dos fundadores.8 OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O Trabalho do Antropólogo – Olhar, Ouvir, Escrever. In: Revista deAntropologia. Vl. 39, Nº 1. São Paulo: USP, 1996.
  6. 6. 6Podemos ainda falar de uma hierofania que se manifesta na relação educando xeducador e não somente na relação educando x conteúdo. Meslin9 (1992) em sua tesecentral defende que o sagrado só se capta no interior da experiência humana. Daí sesegue que a experiência religiosa só se entende desde o concreto das pessoas que avivenciam no interior de suas religiões. Então podemos aplicar o mesmo principio aosprofessores de colégios religiosos: A experiência religiosa de Fraternidade,solidariedade, amor.. só se entende desde o concreto dos professores que a vivenciamno interior de suas escolas. Sendo assim, podemos concluir afirmando que o sagrado é uma noçãofundamental que parece acompanhar a humanidade desde os primórdios. O estudo dosagrado pode lançar luz sobre o modo de ser do ente que é capaz de se relacionarcom entes sagrados - sendo que "sagrado" na constelação escolar significa, ser, existir,"dotado de sentido". Qualquer compreensão profunda do humano deve estar preparadapara esclarecer o fenómeno do sagrado. E desta forma, estudar a estrutura e osignificado dos fenómenos religiosos na escola deve ajudar a lançar luz sobre o ser doente que é capaz de se relacionar com o sentido na educação e na escola. BIBLIOGRAFIAELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo:Martins Fontes, 1995.MESLIN, Michel. A experiência humana do divino: Fundamentos de uma antropologiareligiosa. Petrópolis: Vozes, 1992.OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. O Trabalho do Antropólogo – Olhar, Ouvir, Escrever.In: Revista de Antropologia. Vl. 39, Nº 1. São Paulo: USP, 1996.OTTO, R. O Sagrado, Lisboa: Edições 70, 1992.9 MESLIN, Michel. A experiência humana do divino: Fundamentos de uma antropologia religiosa. Petrópolis:Vozes, 1992.
  7. 7. 7 É POSSIVEL FALAR DO ESPAÇO SAGRADO NA SALA DE AULA? Por Leandro soares de Sousa Para desenvolver nossa reflexão sobre o espaço sagrado na escola, iniciamos aconstrução de um arcabouço teórico, evidenciando a noção de sagrado como categoriainterpretativa do fenômeno religioso apoiado nas contribuições de Mircea Eliade 10 ;Rudolf Otto11 e aliando essa construção as facetas do poder e sua legitimação nareligião com base nas teorizações de Michel Foucault12 Segundo Gil Filho13 para que um espaço seja sagrado, ele necessita decaracterísticas que se identifiquem com a religião. Essas características constituem-senas representações. A existência dos espaços de representação acontece com ocontrole e legitimação/apropriação desses por parte da instituição dominante. Odomínio se dá por diversos fatores, entre os quais encontram-se os discursos,simbolismos e ritos, que exercem poder nesses espaços, formando territóriossagrados. A tese principal de Cassirer14 é que toda relação do homem com o mundo émediada por um sistema de signos. Esses sistemas de signos não sãonecessariamente lingüísticos, podem ser artísticos, matemáticos etc. Mas a linguagem,enquanto sistema de signos, participa também de várias formas simbólicas, como mito,religião, ciência. Dessa tese da mediação “signica” entre o sujeito e o objetodesprendem-se várias outras. No seu trabalho Essência e efeito do conceito desímbolo, resultado das conferências realizadas em 1921, encontra-se sua definiçãomais explícita: Por "forma simbólica" há de entender-se aqui toda a energia do espírito em cuja virtude um conteúdo espiritual de significado é vinculado a um signo sensível concreto e lhe é atribuído interiormente. Neste sentido, a linguagem, o mundo mítico-religioso e a arte se nos apresentam como outras tantas formas 15 simbólicas particulares. (1975, p.163)10 Mircea Eliade (1907-1986), romeno naturalizado norte-americano, foi um notável historiador e filósofo dasreligiões.11 Rudolf Otto (1869-1937) – teólogo protestante alemão que se destacou com a obra Das Heilige (1917).12 Michel Foucault (1926-1984), filósofo francês que de forma destacada investigou o tema dopoder.13 GIL FILHO, Sylvio Fausto. Espaço sagrado: estudo em geografia da religião. Curitiba:IBPEX, 2008. 163p.14 CASSIRER, E. Linguagem, Mito e Religião. Porto: Rés-Editora, 2000.15 CASSIRER, E. Esencia y efecto del concepto de símbolo. México: Fondo de CulturaEconómica, 1975.
  8. 8. 8 Gil Filho ressalta que o principal conceito para o estudo da religião é o sagrado,pois, sem este, o estudo perde a essência, fica limitado ao físico, ao visível, ou seja,seu entendimento acaba distorcido. A partir do sagrado como poder, representação,discurso religioso, identidade e territorialidade. A categoria “espaço sagrado” comochave para a interpretação da religião em suas diversas expressões no mundo. Eleenfatiza que o estudo da religião, em sua obra, está relacionado à análise dasrepresentações religiosas, com foco na religião como forma simbólica. Para estudar o sagrado, é de suma importância observar as representaçõessimbólicas que, muitas vezes, existem pelo exercício do poder. O sagrado de umareligião é visto e revisto por meio de formas simbólicas. Este pode até vir da psique,mas vem principalmente de sua constituição histórica, da essência do mundo, derepresentações que remetem o homem ao sagrado, à religião. A partir do sagrado decada religião, constituem-se a Geografia e a importância das representações e dopoder exercido pela religião. A pós-modernidade forma um discurso religioso dinâmico pela acessibilidade àinformação existente. A religião perde seu papel de objeto de análise e começa a servista como forma de conhecimento. Creio, que neste momento o espaço escolar, localde aprendizagem por excelência, pode levar o ser em formação a uma reflexão domundo e de si e perceber como suas atividades estão voltadas para o universosimbólico, e que tudo que faz parte desse processo é da ordem simbólica, comolinguagem, mito e religião. A escola, neste sentido, tem o dever social de abordar a diversidade religiosa doespaço sagrado buscando oportunizar aos educandos a leitura crítica dos fatos quedesafiam a vivência respeitosa entre pessoas de diferentes crenças. A ação institucional da escola ganha sentido quando se verifica que o discursoembute no indivíduo transformações identitárias. Por isso, o discurso religioso é parteintegrante (essencial) do sagrado. Para manter o espaço sagrado, ou mesmo oexpandir, as religiões utilizam representações, dentre elas o poder do discursoreligioso, que é dinâmico, tem temporalidade específica e sempre será formulado deacordo com a vida cotidiana da sociedade receptora. Então cabe a escola a formação de uma consciência critica do espaço sagradosem esquecer-se do respeito à diversidade religiosa e o respeito. Mas quem é oresponsável por essa mediação e reflexão do espaço sagrado na escola?- O
  9. 9. 9profissional do Ensino Religioso16 que seja capaz de viver a reverência da alteridade,de considerar que família e comunidade religiosa são espaços privilegiados para avivência religiosa e para a opção de fé, e de colocar seu conhecimento e suaexperiência pessoal a serviço da liberdade do educando, subsidiando-o noentendimento do fenômeno religioso. Seu papel é fazer que compreenda o fenômenoreligioso, contextualizando-o espacial e temporalmente e que configure o fenômenoreligioso através das ciências da religião e que conheça a sistematização do fenômenoreligioso pelas Tradições Religiosas e suas teologias Na sala de aula o professor de ensino religioso deve despertar a analise dopapel das Tradições Religiosas na estruturação e manutenção das diferentes culturas,signos, linguagens e manifestações sócio-culturais do espaço sagrado. Em suma, que professor de Ensino religioso relacione o sentido da atitude moral,como conseqüência do espaço sagrado sistematizado pelas Tradições Religiosas ecomo expressão da consciência e da resposta pessoal e comunitária das pessoas; e,Saiba lidar, especialmente em sala de aula, com a diversidade religiosa e acomplexidade do fenômeno religioso na sociedade, sem proselitismo no respeito àdiferença. BIBLIOGRAFIABONJARDIM, Solimar Guindo Messias B.goiano.geogr. Goiânia, v. 31, n. 1, p. 175-179,jan./jun. 2011.CASSIRER, E. Linguagem, Mito e Religião. Porto: Rés-Editora, 2000.CASSIRER, E. Esencia y efecto del concepto de símbolo. México: Fondo de CulturaEconómica, 1975.GIL FILHO, Sylvio Fausto. Espaço sagrado: estudo em geografia da religião. Curitiba:IBPEX, 2008. 163p.ELIADE, M. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo:Martins Fontes, 1995.16 No intuito de fomentar a formação de professores para o Ensino Religioso no Brasil, o FONAPER, OFórum Nacional Permanente do Ensino Religioso, com a contribuição de muitos educadores,pesquisadores e filiados, produziu 12 Cadernos para um Curso de Extensão a Distância denominadoEnsino Religioso: capacitação para um novo milênio. Nossa referencia está baseado no caderno 12:Ensino Religioso no Cotidiano da Sala da Aula.
  10. 10. 10 RITOS DE PASSAGEM NA ESCOLA É RELIGIOSO OU NÃO? Por Leandro Soares de Sousa Quando pensamos a estrutura escolar , logo pensamos em sua distribuiçãofísica, com salas, pátio, biblioteca, recreio, laboratório e cantina; em sua população,com professores, alunos e funcionários; eventualmente, em questões administrativas,pedagógicas e políticas, mas dificilmente nos damos conta de um elementofundamental que agrega todos esses componentes físicos e abstratos do universoescolar: o ritual e os ritos de passagem. O ritual é parte integrante de qualquer grupo social e estabelece uma série deações ou padrões simbólicos que permitem a esse grupo um entendimento e umasensação de pertencimento. Por essas razões, é um dos conceitos mais estudadospela antropologia. Na escola não é diferente. Rituais e ritos de passagem ocupamfartamente esse ambiente no dia a dia ou em eventos especiais. É comum que alguns rituais apareçam ao mesmo tempo que outros percam osentido, assim como é normal vermos rituais impostos convivendo com ritosespontâneos. Muitos deles têm objetivos semelhantes, ainda que possam variardependendo do tipo de escola, mas a origem desse tipo de evento é quase semprereligiosa. Entre os rituais escolares, os mais conhecidos por todos são os depassagem17; por exemplo, as formaturas que celebram o início de novas fases na vidado estudante e as festas e formalidades que representam isso. Em seu clássico estudo de 1909, Van Gennep 18 aponta que "nos lugares em queas idades são separadas, e também as ocupações, esta passagem é acompanhadapor atos especiais, que, por exemplo, constituem, para nossos ofícios, a aprendizagem,e entre os semicivilizados consistem em cerimônias, porque entre eles nenhum hábitoé absolutamente independente do sagrado". A ideia de "semicivilizado" pode ser umavaliosa afirmação de que qualquer grupo em qualquer nível de desenvolvimento eorganização tem seus ritos.17 A expressão "ritos de passagem" foi usada pela primeira vez pelo antropólogo alemão Arnold vanGennep para descrever dois tipos de ritos: os que acompanham a passagem de um indivíduo de umstatus social para outro, no decorrer de sua vida, e os que marcam pontos determinados do tempo.nosentido moderno, são os que acompanham o nascimento, a consecução do status de adulto, ocasamento, a morte".18 VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Rio de Janeiro, Vozes. Cap. 1 e conclusão, pp. 25- 33, 157-161. 1977.
  11. 11. 11 Quando observamos esses fenômenos no ambiente educacional, percebemosrapidamente que os diferentes tipos de formatura, por exemplo, encerram ciclos ecolocam o estudante em um novo patamar. A passagem é normalmente festejada coma participação das famílias. Mas o ritual de formatura na sua forma complexa servepara legitimar o direito garantido pelo diploma. Podemos pensar que estes ritos com aforça da prática de relações sociais são importantes para a sustentação e manutençãode crenças e valores ligados à escola. As passagens na escola coincidem com passagens de vida, como, por exemplo,do aluno que deixa o ensino fundamental para ingressar no médio. Nesse momento jáhá, indiretamente, a solenidade de formatura. A outra, que encerra o período na escola,é a mais marcante, pois significa também o início da vida adulta da pessoa. De acordocom a professora, por esses motivos, a expectativa de uma extensão maior da vida deestudante no dias de hoje - escola, faculdade, pós-graduação - não desvaloriza os ritosde passagem. O rito escolar sobre a óptica de seu papel social pode ser visto como um marcosimbólico do que o aluno atingiu em sua carreira escolar, inclusive perante o Estado. Osociólogo francês Pierre Bourdieu19 propõe que se dê ao rito o nome de seu efeito e desua função: então, rito de passagem, rito de consagração, rito de legitimação seriamvistos como ritos de instituição20. Junto da religiosidade presente nos rituais escolares, há outra influênciaimportante: a pátria. Símbolos nacionais, assim como efemérides, são os motivos maiscomuns nesses ritos. Evidentemente, houve, durante o governo militar, umfortalecimento desses atos que eram estimulados e, algumas vezes, impostos nasescolas como parte de um programa de formação de apoio ao governo por meio deuma identificação coesa e patriótica com o país. No viés ideológico desses rituais "parauma determinada ordem," nos ritos cívicos, havia o uso do espaço das celebraçõespara a manifestação de ideias contrárias ao que era propagado pelo governo. Namesma época, rituais escolares, principalmente de formatura, serviram de palco dedenúncia e de resistência ao governo militar. Evidentemente, depois do fim da ditadura,19 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p.11620 BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Edusp,2008. Para ele “é mais apropriado falar em rito de instituição, ou rito de consagração ou de legitimaçãodo que falar em rito de passagem” nomeado por Arnold Van Gennep. O autor lança algunsquestionamentos à nomenclatura ritos de passagem pois, segundo ele, pode mascarar um dos efeitosessenciais do rito, qual seja, o de separar e instituir diferenças. De acordo com Bourdieu, através do ritode instituição um estado de coisas é consagrado; uma ordem estabelecida é sancionada e santificada ea diferença instituída passa a ser conhecida e reconhecida, passando a existir como tal.
  12. 12. 12alguns desses rituais perderam força, permanecendo apenas os mais relevantes, queainda podem ser encontrados nas escolas. Compondo o cenário do ritual, estãosempre os símbolos nacionais: Bandeira e Hino Nacional - cantado por todos no inícioda cerimônia - que dão à solenidade o caráter oficial e legal." Devemos também levar em consideração que os novos padrões decomportamento são influentes nos rituais. Nós vivemos em uma sociedade complexa eaberta em termos culturais. Um bom exemplo disso são as mudanças tecnológicas,pois a entrada de equipamentos de mídia no interior da escola também vem indicandomudanças nos rituais de agregação em torno deles. Ou seja, se no passado maisdistante o homem organizava certas tradições em volta da fogueira, hoje isso aconteceem redes de computadores. Os rituais são quase todos celebrados por diferentes classes econômicas, emescolas públicas ou privadas de grandes centros e de regiões mais isoladas. Os rituaissão os mesmos, mas a organização, a linguagem, a estética e o espaço marcam muitoclaramente a distinção das classes sociais. Ainda assim, sua realização parece servalorizada por qualquer camada da população. Os rituais escolares começam bastante cedo dentro das escolas. Logo que acriança tem suas primeiras vivências no espaço de aula ela participa de rodas paracontar histórias, aprende músicas e hinos e obedece a formalidades que a ajudam aentender o funcionamento do ambiente e a fortalecer seus laços com colegas eprofessores. Desse modo, o contato paulatino com esses momentos faz com que eladesenvolva uma relação mais natural na hora em que se depara com novos ritostípicos da escola. BIBLIOGRAFIAVAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Rio de Janeiro, Vozes, 1977.BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas: o que falar quer dizer. SãoPaulo: Edusp, 2008

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