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O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO E SUA DUPLA DIMENSÃO NO CAPITALISMO
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O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO E SUA DUPLA DIMENSÃO NO CAPITALISMO

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Porém, na forma social do capitalismo o trabalho tornou-se mercadoria e o …

Porém, na forma social do capitalismo o trabalho tornou-se mercadoria e o
trabalhador não é dono do produto do seu trabalho, ou seja, na sociedade capitalista o
trabalhador realiza um trabalho alienado. Assim, o trabalho pode permanecer no
capitalismo como princípio educativo? No sistema capitalista quando o trabalhador
percebe que é explorado, a própria condição de exploração o educa, porém propicia a
emancipação ou simplesmente a adaptação? Se o trabalho como princípio educativo não
é possível no capitalismo, qual é o sentido da tentativa da escola recuperar a relação
entre conhecimento e a prática do trabalho?
A partir desses questionamentos surgem as hipóteses que orientaram esse
artigo.O objetivo é analisar o trabalho como princípio educativo, considerando os
desafios da formação humana na sociedade capitalista atual, que traz a dicotomia entre
educação e trabalho; considerando a dupla dimensão do trabalho capitalista: ontológica
e de alienação e, da educação: emancipação e adaptação. Para alcançar esse objetivo, o procedimento metodológico foi a leitura e análise
de autores marxistas, investigando a possibilidade de pontuar as duas hipóteses em cada
texto analisado. Neste artigo fez-se um apanhado geral das principais contribuições de
autores clássicos como Marx (1983; 1989), Lukács (1981) e Gramsci (2001) e de
contemporâneos como Saviani (1994; 2007), Tumolo (2005), Gonzalez (2007) e Ramos
(2005).

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Transcript

  • 1. 1 O TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO E SUA DUPLA DIMENSÃO NO CAPITALISMO Solange Toldo Soares1 Jussara das Graças Trindade2 Introdução O princípio educativo do trabalho é uma temática muito debatida entre estudiosos dedicados a estudar as relações entre Trabalho e Educação. As bases teórico- metodológicas desta linha de investigação nos remetem ao trabalho como atividade especificamente humana e sua dupla dimensão: ontológica, ou seja, de criação da vida humana e histórica, pois é um processo e sua forma de organização em uma sociedade traz transformações sociais específicas. Assim, o trabalho é uma forma de fazer o homem pensar, portanto tem um princípio educativo. Porém, na forma social do capitalismo o trabalho tornou-se mercadoria e o trabalhador não é dono do produto do seu trabalho, ou seja, na sociedade capitalista o trabalhador realiza um trabalho alienado. Assim, o trabalho pode permanecer no capitalismo como princípio educativo? No sistema capitalista quando o trabalhador percebe que é explorado, a própria condição de exploração o educa, porém propicia a emancipação ou simplesmente a adaptação? Se o trabalho como princípio educativo não é possível no capitalismo, qual é o sentido da tentativa da escola recuperar a relação entre conhecimento e a prática do trabalho? A partir desses questionamentos surgem duas hipóteses que orientaram esse artigo3. Na primeira hipótese, o trabalho se institui como princípio educativo, considerando a educação em sua dupla dimensão - de adaptação e de emancipação - por ser práxis que comporta, como um de seus fundamentos, a integração entre ciência, cultura e trabalho. Na segunda hipótese, o trabalho na formação social do capitalismo, 1 Mestranda em Educação, pela Universidade Federal do Paraná e bolsista pela CAPES. E-mail: solange_tsoares@yahoo.com.br 2 Mestranda em Educação e professora substituta, pela Universidade Federal do Paraná. E-mail: jussaratrindade@yahoo.com.br 3 Esse artigo é resultado de discussões realizadas na disciplina “O princípio educativo do trabalho”, orientada pela professora Dra. Mônica Ribeiro da Silva, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná, Mestrado, Linha de Pesquisa Mudanças no Mundo do Trabalho e Educação, em 2007.
  • 2. 2 ao se instituir como trabalho alienado, reforça o sentido da adaptação e impõe limites à discussão emancipatória da educação. Ou seja, a primeira hipótese de investigação considera a dimensão ontológica do trabalho, ligada à produção do conhecimento e a segunda, considera a dimensão histórica específica da sociedade capitalista, onde o trabalho assume a dimensão de alienação, pois o resultado do trabalho é a mercadoria que não pertence ao trabalhador. O objetivo é analisar o trabalho como princípio educativo, considerando os desafios da formação humana na sociedade capitalista atual, que traz a dicotomia entre educação e trabalho; considerando a dupla dimensão do trabalho capitalista: ontológica e de alienação e, da educação: emancipação e adaptação. Para alcançar esse objetivo, o procedimento metodológico foi a leitura e análise de autores marxistas, investigando a possibilidade de pontuar as duas hipóteses em cada texto analisado. Neste artigo fez-se um apanhado geral das principais contribuições de autores clássicos como Marx (1983; 1989), Lukács (1981) e Gramsci (2001) e de contemporâneos como Saviani (1994; 2007), Tumolo (2005), Gonzalez (2007) e Ramos (2005). O trabalho como princípio educativo e sua dupla dimensão no capitalismo Para Marx, em uma sociedade genérica, o trabalho possui uma dimensão ontológica, de criação da vida humana, considerando que o trabalho é um processo histórico, através do qual o homem transforma a natureza e a si mesmo, torna-se humano, aprende através do trabalho, pois: ... é atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação natural para satisfazer as necessidades humanas, condição universal de metabolismo entre o homem e a natureza, condição natural eterna da vida humana, independente de qualquer forma dessa vida, sendo antes igualmente comum a todas as suas formas sociais (MARX, 1983, p.153). Com o surgimento do capitalismo, o trabalho passou a ter uma dimensão de alienação. Para Marx no trabalho alienado o trabalhador tornou-se mercadoria, pois:
  • 3. 3 Se a oferta excede por muito a procura, então parte dos trabalhadores cai na penúria ou na fome. Assim, a existência do trabalhador encontra-se reduzido às mesmas condições que a existência de qualquer outra mercadoria. O trabalhador tornou-se uma mercadoria e terá muita sorte se puder encontrar um comprador (1989a, p. 102). No texto do seu Primeiro Manuscrito, Marx faz uma análise do salário do trabalho, que segundo ele é determinado pela luta amarga entre o capitalista e o trabalhador. Relata que o lucro do capitalista é obtido sobre os salários dos trabalhadores e sobre as matérias-primas. Debate sobre a renda de terra (o preço que se paga pelo uso da terra) e por fim faz uma crítica ao trabalho alienado. No trabalho alienado o produto não pertence ao trabalhador, existe a ausência de controle sobre o produto e sobre o próprio trabalho que inclusive expropria o saber do trabalhador. Assim pode-se evidenciar a segunda hipótese de orientação deste trabalho, ou seja, a que se refere à dimensão de alienação do trabalho, pois: ... o trabalho é exterior ao trabalhador, quer dizer, não pertence a sua natureza; portanto, ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruína o espírito (...) Assim, o seu trabalho não é voluntário, mas imposto, é trabalho forçado (1989a, p. 162). E também “... o trabalho em si, não só nas presentes condições, mas universalmente, na medida em que a sua finalidade se resume ao aumento da riqueza, é pernicioso e deletério...” (1989a, p. 108). Por outro lado, Marx considera o trabalho, de um ser genérico (homem) em uma sociedade genérica, como produtor da vida humana, o homem tem um ato de vontade que é elaborado, que o diferencia dos demais animais; então há espaço para apontar-se a 1ª hipótese de pesquisa deste artigo, aquela que se refere à dimensão ontológica: De facto, o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva, aparece agora ao homem como o único meio da satisfação de uma necessidade, a de manter a existência física. A vida produtiva, porém, é a vida genérica. É vida criando vida. No tipo de atividade vital reside todo o caráter de uma espécie, o seu
  • 4. 4 caráter genérico; e a atividade livre, consciente, constituiu o caráter genérico do homem. A vida revela-se simplesmente como “meio de vida” (1989a, p. 164). A partir do Primeiro Manuscrito de Marx, existe a possibilidade de afirmar ambas as hipóteses, pois para ele, ao realizar uma atividade vital consciente, o homem se distingue dos animais e torna-se um ser genérico, dessa forma sua atividade é livre, referindo-se a dimensão ontológica. Mas o trabalho alienado transforma a atividade vital do homem em simples meio de existência, o que é referente à dimensão histórica específica do capitalismo: a alienação. Seguindo o mesmo método de análise teórica, Marx no Segundo e no Terceiro Manuscrito discorre ora sobre o trabalho na sua dimensão ontológica, ora como instrumento de alienação no capitalismo. No Segundo Manuscrito, Marx discorre sobre a relação da propriedade privada, iniciando com pensamentos que podemos utilizar para apontar a 2ª hipótese, referente à alienação, para ele: “... o trabalhador tem a infelicidade de ser um capital vivo e, portanto, com necessidades, que em cada momento em que não trabalha perde os seus juros e, por conseguinte, a existência” (1989b, p. 173). Ou seja, o trabalho está diretamente relacionado com a existência do homem, mas o trabalho alienado torna o homem uma mercadoria, e à medida que não trabalha, perde sua existência. A sua vida é valorizada de acordo com a procura e a oferta, condicionada à Lei de Oferta e Procura do Mercado, à medida que a existência do capital é a existência do homem, evidencia-se a condição da dependência humana em relação ao capital. Consequentemente o burlão, o ladrão, o pedinte, o desempregado, o faminto, o miserável, ou seja, as pessoas excluídas da sociedade são consideradas como inexistentes para o capitalismo, pois não estão produzindo lucro para o capitalista. Quem não faz parte da classe dos trabalhadores não é gente, dessa forma: “A produção não produz unicamente o homem como uma mercadoria, a mercadoria humana, o homem sob a forma de mercadoria; de acordo com tal situação, produ-lo ainda como um ser espiritual e fisicamente desumanizado... Imoralidade, deformidade, hilotismo dos trabalhadores e capitalistas... O seu produto é a mercadoria autoconsciente e activa... a mercadoria humana” (1989b, p. 174).
  • 5. 5 O capitalismo faz do homem mercadoria, e o desumaniza. Assim não é possível, dentro desse sistema, uma condição de emancipação, fato que reforça a afirmação da 2ª hipótese, que aponta a alienação, pois, o trabalhador no capitalismo não passa de mera mercadoria. Porém Marx, também se refere, no Segundo Manuscrito, ao trabalho como atividade humana destacando a dimensão ontológica do mesmo, o que podemos utilizar para defender a 1ª hipótese, o autor reconhece que além do capitalismo que transforma o trabalho em produção de mercadoria, existe o trabalho humano na sua existência concreta4. “Por um lado, há a produção da actividade humana como trabalho, isto é, como actividade que é estranha entre si, ao homem e à natureza, portanto, alheia à consciência e à realização da vida humana; a existência abstrata do homem como simples homem que trabalha, que por conseguinte todos os dias mergulha a partir do seu nada realizado no nada absoluto, na sua não- existência social e, portanto, real. Por outro, há a produção do objecto da atividade humana como capital, no qual se dissolve toda a característica natural e social do objecto, na qual a propriedade privada perdeu a sua qualidade natural e social (e, por conseqüência, perdeu todos os disfarces políticos e sociais e deixou de surgir mesclado com relações humanas)-no qual também o mesmo capital permanece idêntico nas mais variadas condições naturais e sociais, que já não têm qualquer relevância a respeito do conteúdo real.” (1989b, p.175) No Terceiro Manuscrito, Marx faz relatos sobre a propriedade privada e trabalho, propriedade privada e comunismo, necessidades, produção e divisão do trabalho, discorre sobre o dinheiro e finaliza fazendo uma crítica a filosofia de Hegel. O autor inicia relatando o trabalho como negação da vida humana, pois a propriedade privada determina a essência do homem, fato que reforça a afirmação da 2ª hipótese, pois no capitalismo a valorização do ter impede a valorização do ser, então: “Sob a aparência de um reconhecimento do homem, também a economia política, cujo princípio é o trabalho, se manifesta apenas como a conclusão lógica da negação do homem” (1989c, p. 184). 4 Trabalho humano concreto é aquele que tem como resultado o valor-de-uso e está ligado diretamente à dimensão ontológica.
  • 6. 6 Ou seja, a partir do momento que o trabalho no capitalismo desumaniza o homem, isto é fato para continuarmos afirmando a 2ª hipótese. Por outro lado, Marx considera o trabalho como energia do homem e, portanto da vida e por constituir-se como atividade é um órgão de manifestação da vida: “A actividade em directa associação com os outros tornou-se um órgão da manifestação de vida e um modo da apropriação da vida humana” (1989c, p.198), fato que pode ser utilizado para defender a 1ª hipótese. O autor também afirma que a indústria é o livro aberto das faculdades humanas, sendo o trabalho considerado como ato genérico do homem exercendo e usando suas faculdades mentais, revelando assim o caráter ontológico do trabalho humano, ou seja: ... a ciência natural penetrou tanto mais praticamente na vida através da indústria, transformou-a e preparou a emancipação da humanidade, muito embora o seu efeito imediato tenha consistido em acentuar a desumanização do homem (1989c, p.201). Assim, podemos reforçar a afirmação da 1ª hipótese, pois, Marx reconhece que aconteceu a desumanização no capitalismo, mas não deveria ser assim, o trabalho humano é ontológico. No capítulo V do “Capital”, Marx refere-se ao processo de trabalho e de valorização da mercadoria. Para expor suas idéias, Marx utiliza um recurso metodológico por categorias de análise. Ele abstrai a história e inicia sua exposição considerando o trabalho em qualquer forma social determinada, ou seja, em uma sociedade genérica. Faz isso para explicar a dimensão ontológica do trabalho, e depois parte para a explanação sobre o trabalho alienado. Para Marx: “Antes de tudo, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a Natureza” (1983a, p. 149). Considerando que ao modificar a natureza o homem também se modifica, há possibilidade de afirmação da 1ª hipótese, pois Marx explica que a diferença entre o homem e os animais é o planejamento mental anterior ao trabalho e também as ferramentas que constrói para auxiliá-lo. Assim:
  • 7. 7 Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele constrói o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente (MARX, 1983a, p. 149-150). Por outro lado, Marx explica que o modelo de trabalho simples e concreto não foi mais suficiente no capitalismo, pois o produto do trabalho precisa ter um valor de troca. Assim, o produto não pertence mais ao trabalhador, é necessário calcular o trabalho materializado no produto, o que reforça a exploração do trabalhador e o aliena. É o que Marx denomina como processo de valorização da mercadoria, pois: “Quer produzir não só um valor de uso, mas valor e não só valor, mas também mais-valia” (1983, p. 155). Ou seja, o capitalista economiza nos meios de produção ao forçar o trabalhador a trabalhar cada vez mais pra obter a mais-valia, reforçando assim a condição de alienação. A partir da explanação de Marx, sobre o processo de valorização da mercadoria, há possibilidade de afirmação da 2ª hipótese. No capítulo VIII do “Capital”, Marx faz uma análise sobre a jornada de trabalho, expondo que o trabalhador precisa de seis horas diárias de trabalho para produzir seus meios de subsistência. Porém conforme o trabalho é prolongado em uma, três, ou seis horas, a mais-valia é produzida, ou seja, o lucro do capitalista é produzido através de mais trabalho. Assim existe a possibilidade de afirmação da 2ª hipótese, pois no capitalismo, o trabalhador é considerado o seu tempo de trabalho, as diferenças individuais não existem para o capital: O capital é trabalho morto, que apenas se reanima, à maneira dos vampiros, chupando trabalho vivo e que vive tanto mais quanto mais trabalho vivo chupa. O tempo durante o qual o trabalhador trabalha é o tempo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho que comprou. Se o trabalhador consome seu tempo disponível para si, então rouba ao capitalista (1983b, p. 189).
  • 8. 8 Porém, Marx nos lembra que, o trabalhador ao perceber que está sendo explorado, luta por seus direitos, assim o trabalho o educa, possibilitando a afirmação da 1ª hipótese. Isso acontece segundo Marx, na luta pela diminuição da jornada de trabalho, o trecho a seguir relata o trabalhador falando com o capitalista: “Eu exijo, portanto, uma jornada de trabalho de duração normal e a exijo sem apelo ao teu coração, pois em assuntos de dinheiro cessa a boa vontade” (1983b, p. 189). Nos trechos lidos das obras de Marx, Primeiro, Segundo e Terceiro Manuscritos e capítulos V e VIII do Capital, pode-se perceber a presença de referencial para afirmação ora da 1ª hipótese, ligada a dimensão ontológica do trabalho, considerando o trabalho como princípio educativo e ora da 2ª hipótese, ligada ao trabalho alienado que impõe limites ao processo emancipatório. Para compreendermos a categoria princípio educativo do trabalho é fundamental a reflexão dialética que Marx nos traz sobre o trabalho no capitalismo, ou seja, sua dupla dimensão, mesmo que o objeto de estudo de Marx não tenha sido o princípio educativo do trabalho. Para compreensão do princípio educativo do trabalho consideraram-se obras de Lukács (1981) e Gramsci (2001), pois se basearam nas obras de Marx para escrever as suas. Lukács (1981) ocupou-se de escrever em “A ontologia do ser social” sobre a dimensão ontológica do trabalho, ou seja, seu objeto de estudo no trecho estudado sobre “O trabalho” foi exclusivamente a dimensão ontológica do trabalho, e consequentemente pode-se afirmar, a partir destes seus escritos, somente a 1ª hipótese. Para Lukács (1981), o trabalho nasce em meio à luta pela existência, sendo produto da autoatividade do homem. Assim: Considerando que nos ocupamos do complexo concreto da sociabilidade como forma de ser, poder-se-ia legitimamente perguntar porque, ao tratar deste complexo, colocamos o acento exatamente no trabalho e lhe atribuímos um lugar tão privilegiado no processo e para o salto de sua gênese” (LUKÁCS, 1981, p. 3). Para Lukács (1981) o homem transforma a natureza e a natureza transforma o homem biologicamente, só há ontologia porque o indivíduo reconhece em si o mundo, pois:
  • 9. 9 Essa separação tornada consciente entre sujeito e objeto é um produto necessário do processo de trabalho e com isso a base para o modo de existência especificamente humano. Se o sujeito enquanto separado na consciência do mundo objetivo, não fosse capaz de observar e de reproduzir no seu ser-em-si este último, jamais aquela posição do fim, que é o fundamento do trabalho, mesmo do mais primitivo, poderia realizar-se (LUKÁCS, 1981, p. 24). Esta questão é fundamental para a discussão do princípio educativo do trabalho, pois a dualidade do ser social, “sujeito e objeto”, possibilita ao homem sair do meio animal, fato chamado por Lukács (1981) de “salto da gênese humana”. Para o autor, por ser o trabalho resultado do que já estava na mente humana, imprimindo na natureza seu próprio fim, o trabalho assume uma posição teleológica, que dá origem a uma nova objetividade (ação do homem sobre a natureza a partir de uma ideação, teleologia). Para Lukács (1981), somente o trabalho tem esse caráter ontológico e fora dele não existe teleologia. O processo de tornar-se algo autônomo (a gênese do ser) se baseia no trabalho, pois: Antes de mais nada, a característica real decisiva da teleologia, isto é, o fato de que ela só pode adquirir realidade quando for posta, recebe um fundamento simples, óbvio, real: nem é preciso repetir Marx para entender como qualquer trabalho seria impossível se ele não fosse precedido de um tal por, que determine o processo em todas as suas fases. (...) Só é lícito falar do ser social quando tivermos compreendido que a seu gênese, o seu distinguir-se da sua própria base, o processo de tornar-se algo autônomo, se baseiam no trabalho, isto é, na continuada realização de posições teleológicas (LUKÁCS, 1981, p. 11). Assim a dimensão ontológica do trabalho começa a partir da necessidade da espécie em busca de algo, o pôr teleológico. Lukács (1981) considera que existe desigualdade, mas a ontologia do trabalho sempre está presente. Mas o trabalho alienado (no capitalismo) pode ser portador da dimensão emancipatória? Essa questão não foi objeto de estudo de Lukács, ele estudou o processo de trabalho e sua dimensão ontológica.
  • 10. 10 Gramsci (2001) nos auxilia a responder esse questionamento, pois seu objeto de estudo no caderno 12 “Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais” foi o princípio educativo do trabalho. Para Gramsci o trabalho se institui como principio educativo, o processo de educação para emancipação acontece tomando como princípio a ciência e a técnica, na formação de uma escola unitária, rompendo assim com o fetiche da mercadoria para a formação de um ser humano dirigente, cientista e político, em uma atividade teórico-prática, pois todos os homens são intelectuais: “Por isso, seria possível dizer que todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais...” (GRAMSCI, 2001a, p. 18). Dessa forma, a partir dos escritos de Gramsci no caderno 12 pode-se afirmar a 1ª e negar a 2ª hipótese, pois: Na verdade, o operário ou proletário, por exemplo, não se caracteriza especificamente pelo trabalho manual ou instrumental, mas por este trabalho em determinadas condições e em determinadas relações sociais (sem falar no fato de que não existe trabalho puramente físico, e de que mesmo a expressão de Taylor, do “gorila amestrado”, é uma metáfora para indicar um limite numa certa direção: em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora) (GRAMSCI, 2001, p. 18). Assim o trabalho se institui como princípio educativo, por ser práxis que comporta como um de seus fundamentos a integração entre ciência, cultura e trabalho, pois: A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade das escolas especializadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a “área” escolar quanto mais numerosos forem os “graus” “verticais” da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado (GRAMSCI, 2001, p. 19).
  • 11. 11 O autor acredita que a escola reflete a divisão do trabalho que existe na sociedade capitalista, porém acredita que se a escola integrar ciência, cultura e trabalho em uma escola unitária, a crise da divisão do trabalho intelectual e manual poderá ser amenizada, pois: A tendência atual é a de abolir qualquer tipo de escola “desinteressada” (não imediatamente interessada) e “formativa”, ou de conservar apenas um seu reduzido exemplar, destinado a uma pequena elite de senhores e de mulheres que não devem pensar em prepara-se para um futuro profissional, bem como a de difundir cada vez mais as escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua futura atividade são predeterminados. A crise terá uma solução que, racionalmente, deveria seguir esta linha: escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre de modo justo o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual (GRAMSCI, 2001, p. 33). No caderno 22 “Americanismo e fordismo”, Gramsci faz uma explicação de como foi o desenvolvimento da indústria no início do capitalismo, nos Estados Unidos, que estava organizada no molde taylorista/ fordista. Ele relata que a Europa queria o mesmo desenvolvimento industrial dos Estados Unidos, porém sem alterar sua estrutura social. Para Gramsci os Estados Unidos foi educado através do modelo industrial que surgiu e por não possuir uma estrutura social rígida isso aconteceu rapidamente: Dado que existiam essas condições preliminares, já racionalizadas pelo desenvolvimento histórico, foi relativamente fácil racionalizar a produção e o trabalho, combinando habilmente força (destruição do sindicalismo operário de base territorial) com a persuasão (altos salários, diversos benefícios sociais, habilíssima propaganda ideológica e política) e conseguindo centrar toda a vida do país na produção. A hegemonia nasce na fábrica e necessita apenas, para ser exercida, de uma quantidade mínima de intermediários profissionais da política e da ideologia (GRAMSCI, 2001b, p. 247-248). Segundo Gramsci, para a Europa alcançar resultados semelhantes aos dos Estados Unidos era necessário mais capitalismo, pois o industrialismo “domou” a
  • 12. 12 animalidade do homem americano, deixando claro o princípio educativo do trabalho no capitalismo: A história do industrialismo foi sempre (e se torna hoje de modo ainda mais acentuado e rigoroso) uma luta contínua contra o elemento “animalidade” do homem, um processo ininterrupto, frequentemente doloroso e sangrento, de sujeição dos instintos (naturais, isto é, animalescos e primitivos) a normas e hábitos de ordem, de exatidão, de precisão sempre novos, mais complexos e rígidos, que tornam possíveis as formas cada vez mais complexas de vida coletiva, que são a conseqüência necessária do desenvolvimento do industrialismo (GRAMSCI, 2001b, p. 262). Gramsci reconhece a contraditória positividade do trabalho no capitalismo, pois a imposição do modelo taylorista/ fordista foi brutal: “Até agora, todas as mudanças do modo de ser e viver tiveram lugar através da coerção brutal...” (2001b, p. 262), porém a partir do caderno 22 é possível afirmar a 1ª hipótese e negar em alguns trechos a 2ª hipótese, mas é arriscado afirmar a 2ª hipótese através destes escritos, pois Gramsci não relata que o trabalho no capitalismo impõe limites a discussão emancipatória da educação, pelo contrário ele acredita em uma formação geral, tomando o trabalho como princípio educativo. Autores contemporâneos os quais desenvolvem pesquisas na área educação e trabalho têm abordado a dupla dimensão do trabalho, sobretudo no que diz respeito às mudanças trazidas pelo toyotismo. Tais mudanças apontam possibilidade de maior articulação entre trabalho intelectual e instrumental, unificando as capacidades de pensar e fazer. Como afirma Saviani (1994) a universalização da escola tem sido colocada como uma exigência posta pelo próprio desenvolvimento do processo produtivo, ou seja, o princípio educativo do trabalho é para o autor é norteador dos processos de emancipação humana. Para Gonzalez (2007) o trabalho humano é produtor de valores historicamente produzidos nas sociedades capitalistas, que levam a emancipação por meio das relações sociais. Neste caso, o trabalho é, portanto, elemento central na estrutura constitutiva do ser social. Sendo assim, pode-se afirmar que o trabalho se institui como princípio educativo.
  • 13. 13 Em Ramos (2005) a produção da existência humana se faz mediada pelo trabalho. Nesta perspectiva o trabalho pode ser considerado uma categoria ontológica, inerente à espécie humana, o que reafirma a primeira hipótese apontada neste artigo. Tumolo (2005) questiona a possibilidade da existência do trabalho como princípio educativo no capitalismo, considerando que o conhecimento nasceu do trabalho e o capitalismo trouxe a dicotomia entre teoria e prática, ao transformar o trabalho e consequentemente a educação em mercadorias. Assim nos leva a refletir sobre o princípio educativo do trabalho como uma categoria de crítica radical ao capitalismo, possível somente fora desta sociedade capitalista. Saviani (2007) considera que a base em que se assenta a estrutura do ensino fundamental é o princípio educativo do trabalho, pois o modo como está organizada a sociedade atual é referencia para organização da escola. E também pontua o papel fundamental da escola de nível médio para recuperar a relação entre o conhecimento e a prática do trabalho, afirmando que o princípio educativo do trabalho não só é possível no capitalismo, como é inerente à organização da escola. Conclusão Esses apontamentos sobre o trabalho como princípio educativo e sua dupla dimensão no capitalismo, tiveram a intenção de dialogar com as duas hipóteses apresentadas: primeiro, a que reforça a dimensão ontológica, onde o trabalho corresponde à mediação na produção de bens, conhecimento e cultura, e a segunda hipótese que sinaliza a dimensão histórica, especificamente o trabalho no capitalismo, com características do trabalho alienado, que se reduz à produção material. Ou seja, nos autores estudados foi possível encontrar base teórica para sinalizar as duas hipóteses de investigação. Assim, o trabalho como princípio educativo é norteador dos processos de humanização e de atualização histórica do próprio homem, por ser práxis que comporta como um de seus fundamentos, a integração entre ciência, cultura e trabalho, mas ao mesmo tempo, o trabalho na formação histórica do capitalismo impõe limites à emancipação humana. Essa compreensão é possível através de estudos de autores marxistas que trazem a contradição como metodologia de análise.
  • 14. 14 Portanto, a categoria princípio educativo do trabalho, compreendida dentro do capitalismo, determinada pelas bases materiais de produção, nos remete a pensar na sua dupla face: a primeira contribui para a educação do trabalhador, onde desta forma ele possa reconhecer-se no produto de sua obra, aprendendo a se organizar, reivindicar seus direitos, desmistificar ideologias, dominar conteúdos do trabalho, compreender as relações sociais e a função que nela desempenham; a segunda, o trabalho na formação social do capitalismo, ao se instituir como alienação, reforça o sentido da adaptação e impõe limites a emancipação humana. Referências FRIGOTTO G., CIAVATTA M., RAMOS M. (orgs). Ensino Médio Integrado: concepções e contradições. São Paulo: Cortez, 2005. GONZALEZ,J. L.C. Apontamentos para Investigação das Relações entre Trabalho e Educação. www.estudosdotrabalho.org /2007. GRAMSCI, A. Caderno 12: Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais. In: _____ Cadernos do Cárcere. Trad. De Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001a. GRAMSCI, A. Caderno 22: Americanismo e Fordismo. In: _____ Cadernos do Cárcere. Trad. De Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001b. LUKÁCS, G. O trabalho. In: ___Ontologia do ser social (Trad. de Ivo Toned). Roma: Editori Riuniti, 1981. MARX, K. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Lisboa: edições 70, 1989a. Primeiro Manuscrito. MARX, K. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Lisboa: edições 70, 1989b. Segundo Manuscrito. MARX, K. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Lisboa: edições 70, 1989c. Terceiro Manuscrito. MARX, K. Processo de Trabalho e Processo de Valorização. In: ___ O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983a. MARX, K. A jornada de trabalho. In: ___ O Capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983b.
  • 15. 15 SAVIANI, D. O trabalho como princípio educativo frente às novas tecnologias. In: FERRETI, C. et al (org). Novas tecnologias, trabalho e educação. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. ___. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. In: Revista Brasileira de Educação. jan. /abr. 2007, v. 12, n. 34, p. 152-180. TUMOLO, P. S. O trabalho na forma social do capital e o trabalho como princípio educativo: uma articulação possível? In: Educação e Sociedade: Campinas, jan. /abr. 2005, v. 26, n. 90, p. 1-18.

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