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Genealogia de jesus

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  • 1. PERGUNTE E RESPONDEREMOS 013 – janeiro 1959SAGRADA ESCRITURAPergunta: Como se concilia a genealogia de Cristo apresentada por S. Lucas (3,23-38) com a que S. Mateus (1,1-17)refere? Das duas tabelas conclui-se que José era descendente de Davi; sabe-se, porém, que não era pai de Jesus.Como então Cristo pode ser dito Filho de Davi?Vejamos, antes do mais, quais as notas próprias de uma e outra tabela genealógica, para depois estudarmos asdiversas maneiras de conciliá-las entre si.1. As características das duas listasMt 1,1-17. O primeiro Evangelho apresenta a linha dos ascendentes de Cristo até Abraão, dispondo-a em três sériesde quatorze membros cada uma; o autor em 1,17 faz questão de sublinhar esta disposição dos nomes, dando aentender que era intencional. Com efeito, um exame atento dos textos sagrados mostra bem que o Evangelistaomitiu várias gerações para obter o quadro artificioso de 3 x 14, ou seja, 42 nomes; as omissões não se devem amero esquecimento, pois são frequentes e têm por objeto nomes importantes.Eis as três séries mencionadas:1. Abraão 1. Salomão 1. Jeconias2. Isaque 2. Roboão 2. Salatiel3. Jacó 3. Abias 3. Zorobabel4. Judá 4. Asa 4. Abiud5. Farés 5. Josafá 5. Eliacim6. Esron 6. Jorã 6. Azor7. Arã 7. Ozias 7. Sadoque8. Aminadab 8. Joatã 8. Aquim9. Naason 9. Acaz 9. Eliud10. Salmon 10. Ezequias 10. Eleazar11. Booz 11. Manassés 11. Matã12. Obed 12. Amon 12. Jacó13. Jessé 13. Josias 13. José14. Davi 14. Jeconias 14. JesusNesta tabela observe-se o seguinte:Entre Jorã e Ozias (v. 8), o autor sagrado silenciou três reis bem conhecidos: Ocozias, Joás e Amasias. Entre Farés,que nasceu na terra de Canaã, e Naasson, chefe da tribo de Judá na época do Êxodo, o Evangelista só menciona trêsgerações: Esron, Arã e Aminadab; ora este número é insuficiente para preencher o intervalo de permanência deIsrael no Egito, que, segundo os cálculos mais prováveis, foi de 430 anos.Entre Salmon, que nasceu no deserto, e Jessé, pai de Davi, só figuram duas gerações (v. 5s) para preencher umintervalo de ao menos dois séculos, pois a construção do Templo de Salomão só foi iniciada 480 anos após atravessia do deserto (cf. 3 Rs 6,1); ora duas gerações são insuficientes, pois os homens naquela época não eram maislongevos do que em nossos tempos...O nome Jeconias figura duas vezes (fim da segunda série, v. 11, e inicio da terceira, v. 12). Este nome grego, porém,pode ser a tradução de dois nomes hebraicos muito próximos um do outro: Joiaqim e Joiakin (pai e filho, conforme 4Rs 24,6).Pergunta-se agora: porque tanto se importava S. Mateus com o esquema «três séries de quatorze gerações?»O motivo está em que quatorze representa o valor numérico do nome hebraico de Davi (D = 4; V = 6; D = 4). DestarteCristo apresentado sob a rubrica 3x14 é apregoado como Davi ou como o Rei de Israel por excelência (amultiplicação por três, na linguagem simbolista dos números, significa elevação ao grau superlativo, plenitude dequalidades); a árvore genealógica de Jesus, por conseguinte, no Evangelho de Mateus é arquitetada de modo a
  • 2. exprimir propriamente uma tese teológica; o Evangelista quis dizer que em Cristo se cumpriram todas as promessasfeitas a Israel, pois Ele é o Consumador da obra de Davi. Em comparação com esta mensagem, tornavam-sesecundários para o Evangelista o número exato e os nomes dos varões que se sucederam entre Davi e Cristo; S.Mateus tomou a liberdade de os «arranjar» ou dispor de modo a transmitir seguramente sua mensagem teológica.Com isto não faltou à veracidade, pois os leitores antigos reconheciam sua intenção artificiosa (de resto, comumentre os escritores de outrora), e não interpretavam os números 3 x 14 como expressões de quantidade, mas, sim,como símbolos de qualidades.Lc 3,23-38. Embora São Mateus não tivesse a intenção de escrever mera crônica a respeito de Jesus, estranha-se quea árvore genealógica de Cristo por ele proposta tanto difira da que São Lucas apresenta: esta sobe de Jesus até Adão,o qual é imediatamente oriundo de Deus. O terceiro Evangelista enuncia 77 (ou onze septenários de) nomes,partindo de Cristo, passando por José, Heli, até chegar a Deus Pai.Esses nomes parecem obedecer a uma disposição mnemotécnica, que assim se pode apreciar: 1a série 2a série 3a série 4a série 1. Jesus 22. Salatiel 43. Davi 57. Taré 2. José 23. Neri 44. Jessé 58. Nacor 3. Heli 24. Melqui 45. Obed 59. Saruque 4. Matat 25. Adi 46. Booz 60. Ragau 5. Levi 26. Cosã 47. Salmon 61. Faleque 6. Melqui 27. Elmadã 48. Naasson 62. Heber 7. Janai 28. Her 49. Aminadab 63. Salé 8. José 29. Jesus 50. Arã 64. Cainã 9. Matatias 30. Eliezer 51. Esron 65. Arfaxad 10. Amós 31. Jorim 52. Farés 66. Sem 11. Naum 32. Matat 53. Judá 67. Noé 12. Hesli 33. Levi 54. Jacó 68. Lameque 13. Nagai 34. Simeão 55. Isaque 69. Matusalém 14. Maat 35. Judá 56. Abraão 70. Henoque 15. Matatias 36. José 71. Jared 16. Semei 37. Jonã 72. Malaleel 17. Joseque 38. Eliacim 73. Cainã 18. Jodá 39. Meleá 74. Henós 19. Joanã 40. Mena 75. Sete 20. Resa 41. Matatá 76. Adão 21. Zorobabel 42. Natã 77. DeusComo se vê, os setenta e sete nomes se agrupam com certa harmonia: três septenários ou 21 nomes vão de Jesusaté o cativeiro babilônico (Zorobabel); outros tantos, do cativeiro até Davi; dois septenários, de Davi até Abraão(eram estas as três etapas da tabela apresentada por S. Mateus); mais três septenários, de Abraão até Deus, oCriador do gênero humano e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo.Não se poderia provar que os agrupamentos acima hajam sido forjados artificialmente segundo alguma intençãopreconcebida; contudo não deixam de chamar a atenção do estudioso.De Davi a Abraão, a lista é exatamente a mesma em Mt e em Lc, havendo apenas inversão da ordem dos nomes. Notrecho, porém, que vai de Jesus a Davi. São Lucas enumera seis septenários, ao passo que São Mateus quatro; nessetrecho a tabela de Lc nada tem de comum com a de Mt, a não ser os dois nomes Salatiel e Zorobabel (cf. Mt 1,12s; Lc3,27). Mesmo a respeito destes dois nomes os exegetas.perguntam se designam as mesmas pessoas: com efeito, emMt Salatiel tem Jeconias por pai, e Zorobabel tem Abiud por filho, ao passo que em Lc o pai de Salatiel é Neri e ofilho de Zorobabel é Resa.Sendo assim, os estudiosos, desde os primeiros séculos da era cristã, têm procurado a conciliação dos dois textos emfoco. Em vista disto, propõem-se hoje
  • 3. 2. Três teorias exegéticas1 A hipótese da genealogia de Maria. Afirmam alguns autores que a genealogia apresentada por S. Lucas é agenealogia de Maria, Mãe de Jesus, por conseguinte a genealogia real ou física do Senhor, ao passo que a tabela deS. Mateus apresenta a ascendência de José, pai putativo de Jesus, por conseguinte a ascendência meramente legalou oficial do Senhor: José descenderia de Davi por via de Salomão (cf. Mt 1,6), seguindo a linha direta dos reis deIsrael; quanto a Maria, ela descenderia de Davi por via de Natã (cf. Lc 3,31). Visando facilitar a aceitação destahipótese, seus defensores traduzem Lc 3,23 de modo próprio, a saber:«Jesus, ao iniciar (seu ministério público) com cerca de trinta anos de idade, embora fosse tido como filho de José. erana verdade filho de Heli...»Heli, neste caso, seria o pai não de Jesus nem de José, mas de Maria Santíssima, da qual Jesus descendiaimediatamente; assim, saltando o nome de Maria, São Lucas teria passado imediatamente para os ascendentesmaternos do Senhor.Eis, porém, que uma dificuldade parece levantar-se por parte do nome do pai de Maria Santíssima. Conformetradição respeitável, seria Joaquim (Joachim, em latim), e não Heli. — Replicam que Heli ou Eli é a forma abreviadade Eliaqim, sendo Eliaqim, por sua vez, nome equivalente a Joachim, pois o que varia é apenas o modo de designar aDeus; no segundo caso, Jo viria de Javé (=Aquele que é), enquanto no primeiro caso Eli viria de El (=Deus); osignificado do nome seria consequentemente: «Javé (ou Deus) ergue, levanta». Os nomes Joaquim, Eliacim (e Eli) sesubstituem mutuamente na S. Escritura; cf. 4 Rs 23, 34 ; 2 Crôn 26,4; Jdt 4,5.7.11 (Eliaquim) em confronto com Jdt15,9 (Joaqim).Este sistema de solução do problema, proposto pela primeira vez no fim do séc. XV por Ânio de Viterbo, encontroudesde o séc. XVI bom acolhimento por parte de exegetas tanto católicos como protestantes.A teoria, porém, não satisfaz por dois motivos:a) A tradição quase unanimemente afirmou que ambos os Evangelistas referem a genealogia de São José; estaconvicção estava tão arraigada que até o séc. XV ninguém pensou em recorrer à solução acima, embora fosse tãocômoda. Aos antigos, tanto judeus como greco-romanos, o que importava era a genealogia legal, oficial, nãopropriamente a estirpe natural; ora, estando Maria e José unidos em legitimo matrimônio, Jesus, que nascera nesseconúbio, era tido como legítimo filho de José, embora seu nascimento tivesse sido virginal (a prole, na verdade,pertence aos cônjuges), por isto o Evangelista, narrando a ascendência de José, não fazia obra vã, embora José fosseapenas o pai putativo ou oficial de Cristo.Para resolver uma dificuldade por vezes proposta, note-se ainda: o fato de que os Evangelistas narram a genealogiade José, filho de Davi e pai putativo de Jesus, e não a de Maria, mãe do Salvador segundo a carne, não permiteconcluir que Jesus não fosse Filho de Davi, como José; muito ao contrário: Maria, sendo legitima esposa de José,devia igualmente ser da Casa de Davi, já que os casamentos em Israel se faziam dentro da mesma estirpe.b) O texto de Lc 3,23, que os propugnadores da sentença traduzem de modo próprio, significa, em seu sentido óbvio,que o Evangelista entende transmitir a genealogia de José; é esta, com efeito, a sua tradução mais provável, sempremantida pelos exegetas (pode-se dizer) até o séc. XVI:«E Jesus, ao iniciar (seu ministério público) com cerca de trinta anos de idade, era tido como filho de José, filho deHeli, etc.».É demasiado artificiosa e pouco fundada a tradução inovadora; além do que, não se entenderia a omissão do nomede Maria na árvore genealógica da própria Virgem Santíssima ... (note-se como o texto sagrado de Lc refere agenealogia de mulheres em 1,5; 2,36).Na base destas observações, merece preferência uma das sentenças abaixo.
  • 4. 2. A hipótese da lei do levirato. Suposto que os dois Evangelistas refiram a genealogia de São José, como acima foidito, a primeira dificuldade que surge para o exegeta é a de explicar como este varão possa ser apresentado porMateus como filho de Jacó (cf. Mt 1,16), quando São Lucas o propõe como filho de Heli (3,23).A fim de elucidar a questão, vários autores recorrem à chamada lei do levirato outrora vigente em Israel (cf. Dt25,5s; Ru 4,7; Mt 22,23-33; levir = cunhado, em latim): quando um varão casado morria sem deixar herdeiro, o seuirmão devia esposar a viúva, a fim de suscitar prole ao defunto; caso esta fosse de fato obtida, podia ser atribuídatanto ao seu pai real (o segundo esposo da viúva) como ao seu pai legal (o primeiro esposo, já falecido). Tal lei visavaassegurar a permanência da herança ou do patrimônio dentro da mesma família; por isto só tinha sentido quando setratava de dois irmãos filhos dos mesmos genitores ou ao menos do mesmo pai (semelhante disposição estava emvigor entre os assírios e os hititas). Pois bem; fazendo-se a aplicação da lei do levirato ao nosso problema, dir-se-á oseguinte:Matã, descendente de Davi por via de Salomão, esposou Está, da qual lhe nasceu Jacó. Uma vez morto Matã, estáesposou Matat (ou Melqui), que descendia de Davi por via de Natã; deste segundo conúbio, nasceu Heli. Porconseguinte, Heli e Jacó eram irmãos uterinos, isto é, filhos da mesma mãe. Ora Heli veio a morrer sem filhos; entãoseu irmão Jacó, em virtude da lei do levirato, esposou a viúva de Heli, da qual nasceu São José; Jacó desta formasuscitava prole a seu falecido irmão Heli, de sorte que José podia ser dito filho de Jacó, seu pai real (como faz SãoMateus) e também filho de Heli, seu pai legal ou oficial (como se vê em São Lucas).Esquematicamente ter-se-ia a seguinte figura :São Mateus - Linhagem de Davi por via de Salomão:1) Matã –> 1º casamento com ESTÁ –> Matat -> Jacó -> filiação real -> JoséSão Lucas – linhagem de Davi por via de Natã:1) Matat -> 2º casamento com ESTÁ -> Heli -> filiação legal -> JoséEsta solução é, desde Júlio Africano (séc. III), adotada por numerosos exegetas. Aqueles que admitem que Salatiel eZorobabel (nomeados igualmente por Mateus e Lucas num trecho em que os dois evangelistas nada têm de comum)designam as mesmas pessoas, esses exegetas recorrem mais duas vezes à lei do levirato para explicar as duasbifurcações da linha genealógica decorrentes de tal hipótese; o que não é inverossímil, pois a lei do levirato devia teraplicação frequente.Esta segunda solução do problema respeita bem os dados da tradição e satisfaz ao texto do S. Evangelho. Contudoopõe-se-lhe certa dificuldade: a lei do levirato, como foi insinuado acima, obrigava estritamente os filhos dosmesmos genitores ou ao menos do mesmo pai; não se impunha, porém, aos irmãos uterinos. Ora a hipóteseproposta supõe a execução da lei por parte dos filhos da mesma mãe (Está). Não seria arbitrário admitir isto? É estadúvida que leva vários exegetas a recorrer a uma terceira solução.3. A hipótese da adoção. Segundo esta sentença, São José terá sido filho de Jacó, mas haverá sido adotado por Heli,de modo a também poder ser considerado filho deste varão. Ora São Mateus ter-nos-ia transmitido os ascendentesde José por via de seu pai real, enquanto São Lucas haveria seguido a linha do pai adotivo José.A verossimilhança desta hipótese depende da seguinte questão: a adoção de filhos era ou não costume vigente nopovo de Israel?Responder-se-á que, embora a Lei de Moisés nada diga a respeito, a prática da adoção não é estranha ao AntigoTestamento; cf. Gên 48,5s; Êx 2,10; Est 2,7. Sabe-se outrossim que estava em vigor entre os povos orientais emgeral, sendo usual ainda entre os árabes de hoje. Não há, pois, motivo para não a admitir na antiga nação israelita.Com segurança pode-se afirmar que no povo de Israel era praticada a adoção do genro por parte do sogro; aquelepodia entrar, sim, na família deste com todos os direitos que a um filho competiam. Tal tipo de adoção se verificavacom frequência especial nos casos de «filha herdeira», ou seja, quando um pai não possuía filhos masculinos a quemtransmitisse os bens da família; então o lugar do filho primogênito era obviamente preenchido pelo genro.
  • 5. Alguns textos bíblicos dão testemunho dessa praxe em Israel. Lê-se, por exemplo, em 1 Crôn. 2,34s: «Sesã não tevefilhos, mas filhas; teve também um servo egípcio chamado Jeraá. ao qual Sesã deu sua filha por esposa; esta gerouEteu para ele (isto é, para o velho pai)». O texto de Esdr 2, 61 refere que «Berzelai tomou por esposa uma das filhasde Berzelai, o galaadita, e passou a ser designado pelo nome deste».Não se poderia provar que Maria Santíssima tenha sido filha única e, por conseguinte, «filha herdeira». Nem énecessário demonstrar isto. para que tenha verossimilhança a hipótese da adoção de José na família de Heli. Atradição cristã, porém, professava ter sido Maria a filha única de seus pais.Das três tentativas de solução do problema, a que mais probabilidades reúne é esta terceira; será preciso porém,recordar que, para o leitor da S.Escritura, há tarefa ainda mais importante do que a de procurar a conciliação dasduas tabelas genealógicas; faz-se mister, sim, antes do mais, apreender a mensagem teológica desses textos,mensagem primàriamente visada pelos Evangelistas: São Mateus, jogando em torno do nome de Davi e subindo atéAbraão, quis apresentar Jesus como herdeiro das promessas feitas a Abraão e como sucessor de Davi, o Rei de Israelpor excelência, o qual, consoante as profecias do Antigo Testamento, veio beneficiar todos os povos. Quanto a SãoLucas, remontando de Cristo até o primeiro homem ou até Deus Pai mesmo, quis acentuar principalmente o aspectouniversalista da obra de Cristo, mostrando que Jesus é o filho de Adão, o Salvador de todo o gênero humano.Dom Estêvão Bettencourt (OSB)