1Página em branco
22ª EdiçãoDo 4º ao 5º milheiroCapa deRevisão: Hugo Pinto Homem e Jacqueline SampaioCopyright ©1998 byFundação Lar Harmonia...
3           Adenáuer Novaes     Sonhos:mensagens da alma   FUNDAÇÃO LAR HARMONIA   C.G.C. (MF) 00.405.171/0001-09      Rua...
4Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz deSonhos: mensagens da almaSalvador: Fundação Lar Harmonia, 2001276p.1. Sonhos. I. Novaes,...
5     Àqueles que sonham e objetivam sua realidade.      “...revelam apenas a “fímbria da consciência”, como obrilho pálid...
6Página em branco
7                                                    ÍndicePrefácio                                               09Concei...
8Uma análise freudiana                                 130Utilidade dos sonhos                                  141Sonhos ...
9                                                 Prefácio        Sempre notei em meus seminários sobre o “Despertar daCon...
10que, de uma forma ainda acanhada e lenta, tenta alcançar osavanços da ciência psíquica.       A vulgarização dos estudos...
11forma para com todos. A análise e o estudo de seus sonhosserviram-me como pano de fundo para a compreensão melhor daciên...
12meditações, trabalhos com argila (esculturas), discursos verbais,testes projetivos, etc. Todos eles são válidos e não ve...
13mais que estudemos todos os aspectos sobre sonhos, eles aindase constituem um envolvente mistério para a alma humana. Su...
14       Cada vez mais percebo que as escolas psicológicas, bemcomo a sabedoria popular, as afirmações da PsicologiaTransp...
15SalvadorMarço de 1998
16            Conceitos preliminares        A maioria das considerações emitidas neste trabalho vêmda Psicologia Analítica...
17      Ânima1       É o aspecto feminino interior do homem. Representa osomatório das experiências do homem com mulheres ...
18esposo, amigo, amante, etc.). É a imagem masculina “perseguida”pela mulher. Jung dizia que “  Como a anima corresponde a...
19processos psicodinâmicos. Nele estão as estruturas dinâmicas deidentidade e de relação, além do Self. As primeiras são o...
20personalidade. Os complexos têm a facilidade de alterar nossoestado de espírito, sem que nos apercebamos de sua presença...
21       É o sujeito da ação consciente. Primeiro complexo a seformar na consciência, sendo seu centro. Estrutura-se a par...
22espécies de inconsciente: o pessoal e o coletivo. O pessoal éformado pelas experiências, reprimidas ou não, que o indiví...
23convivência pessoal. É o que se pensa que é. Muitas vezes apersona é influenciada pela psiquê coletiva confundindo nossa...
24dimensão da qual o ego evolui e se constitui. Jung dizia que: − “Osi-mesmo também pode ser chamado ‘o Deus em nós’.”, ec...
25obscuros da personalidade e desconhecidos da consciência e queestá mais acessível a ela. Normalmente temos resistência e...
26          O significado dos sonhos       A natureza é mais complexa e ao mesmo tempo muito maissimples e bela do que sup...
27também, aos limites estabelecidos pela época em que viveram evivem. Trata-se de uma ausência de faculdades psíquicas que...
28       O sonho é um grito inaudível e frutífero do senhor da vidapsíquica, o Self, e, portanto, também da consciência, c...
29       O sonho é algo improvável, salvo pelo depoimento dosonhador, única e solitária testemunha de seu objeto decuriosi...
30imagens oníricas parece não conter energia suficiente parapermanecer retida no córtex por muito tempo, tendo em vista nã...
31        Dormir: estar desperto para              uma realidade plena      Há pessoas, cujo hábito de dormir é    -lhes e...
32regulador da relação das duas instâncias psíquicas conhecidas, oinconsciente e o consciente.       Na leitura de textos ...
33       Todo sonho tem uma mensagem que, quando nãoentendida pelo ego do sonhador, se repetirá até que o processode cresc...
34objetos de investigação experimental. As descobertaseletroencefalográficas foram fundamentais para que se avançassenos e...
35                  Pesquisas sobre sonhos       A neurofisiologia ainda se encontra embrionária para acompreensão das mud...
36       É principalmente no estágio REM que os sonhos ocorrem.Enquanto cerca de noventa e cinco por cento das pessoasacor...
37no sonho e observou as conseqüências dos esforços paraperturbar essa periodicidade. Os resultados indicam que o sonho,co...
38entrar no mérito do “enredo” (como ele chama o conteúdo, comaspas) ele anotou: − “O conteúdo alucinatório dos sonhospare...
39       Em seu trabalho ele também verificou que alguns sujeitosrelataram que estavam sonhando durante períodos em que nã...
40laborioso esquadrinhar da cena da ação do sono, isto é, aqualidade e direção dos movimentos oculares correspondem aoque ...
41       Após suas pesquisas ele afirmou seguramente que t dos                                                          os...
42       Nathaniel também verificou o tempo versus quantidade desonho recordada, chegando à conclusão de que quanto maiste...
43foram enfrentados anteriormente; depois, vêm os sonhosorientados pelo desejo, em que há a sensação de que oconflito foi ...
44                             O que é o sonho                           (resumo histórico)       Certamente que os sonhos...
45       Pode-se, sem sombra de dúvida, afirmar que tal encantopelos sonhos se deve à sua identidade com a essência mítica...
46       Porém a efetiva entrada do estudo sobre os sonhos nomundo científico acadêmico se deu com o também famosotrabalho...
47e que servem como uma válvula de escape ao cérebrosobrecarregado. Eles curam e aliviam;       Volket (1875) – Para ele o...
48durante o dia, mediante inibição e supressão, tornava-se a forçamotriz dos sonhos à noite. O material psíquico que tinha...
49realizações de desejos reprimidos; Jung, estabelecendo que ossonhos são manifestações simbólicas do inconsciente; Ouspen...
50                                    Os sonhos em Jung      Talvez os sonhos sejam um dos temas mais abundante naPsicolog...
51que os sonhos apresentam à consciência um simbolismo daquiloque nunca é admitido. Neste particular, que se refere à form...
52compreensão dos complexos. Mais tarde ele vai assinalar que oinconsciente é de tal forma rico que não se pode ter a pret...
53exemplos de expressão por semelhança de imagens nossonhos. Freud reconhecidamente abriu um novo horizontepara a análise ...
54dos sonhos prospectivos afirmando que “os sonhos repetem arealidade com exatidão excessiva ou insistem com excessivaniti...
55pessoas ou situações que neles aparecem são objetivamentereais, em oposição ao plano do sujeito em que as pessoas ousitu...
56material associativo ao sonho, porém deve-se ir até onde possaparecer necessário. Deve ser feita uma seleção do material...
57encontrados nos mitos e contos de fadas. A psicologia onírica éuma psicologia comparada. Muito embora se deva munir dose...
58quase igual à da consciência. Não se deve desprezar a atitudeconsciente e guiar-se pelos sonhos. Quando o indivíduo está...
59uma relação estética entre a imagem e o objeto. Assim, como nãotemos uma idéia precisa de alguém, a imagem onírica expre...
60formulação de um inconsciente anímico de Leibnitz, ele afirma queo problema dos sonhos não subsiste sem a hipótese doinc...
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Sonhos
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Sonhos

5,061

Published on

0 Comments
2 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
5,061
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
2
Actions
Shares
0
Downloads
152
Comments
0
Likes
2
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Transcript of "Sonhos"

  1. 1. 1Página em branco
  2. 2. 22ª EdiçãoDo 4º ao 5º milheiroCapa deRevisão: Hugo Pinto Homem e Jacqueline SampaioCopyright ©1998 byFundação Lar HarmoniaRua da Fazenda, nº 13, Piatã, Salvador-BA.CEP 41.650-020.Telefax (71) 286-7796livros@larharmonia.org.brwww.larharmonia.org.brImpresso no BrasilTodo o produto desta obra é destinado à manutenção das obrasda Fundação Lar Harmonia
  3. 3. 3 Adenáuer Novaes Sonhos:mensagens da alma FUNDAÇÃO LAR HARMONIA C.G.C. (MF) 00.405.171/0001-09 Rua da Fazenda, nº 13, Piatã. 41.650-020.– Salvador – Bahia – Brasil 2001
  4. 4. 4Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz deSonhos: mensagens da almaSalvador: Fundação Lar Harmonia, 2001276p.1. Sonhos. I. Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz de, 1955. - II.Título.CDU –CDD – 154.63Índice para catálogo sistemático:1. Sonhos : Psicologia 154.63
  5. 5. 5 Àqueles que sonham e objetivam sua realidade. “...revelam apenas a “fímbria da consciência”, como obrilho pálido das estrelas durante um eclipse total do Sol.” C. G. Jung. “Eu tenho um sonho.” Martin Luther King Júnior.Trecho de seu famoso discurso em 28.08.63, para cerca de200.000 pessoas na marcha pelos direitos civis dos negros emWashington. A Rosângela, Camila, Juliana e Diego, esposa e filhos queridos, sonhos que se tornaram realidade.
  6. 6. 6Página em branco
  7. 7. 7 ÍndicePrefácio 09Conceitos preliminares 15O significado dos sonhos 25Dormir: estar desperto para uma realidade plena 30Pesquisas sobre sonhos 34O que é o sonho (resumo histórico) 43Os sonhos em Jung 49Quem é o sujeito dos sonhos 68Influência de substâncias químicas sobre os sonhos 72Como anotar os sonhos 75Como lembrar dos sonhos 77Porque esquecemos dos sonhos 82Como continuar a sonhar um sonho interrompido 84O simbolismo e a linguagem dos sonhos 86A estrutura do sonho 101Sonhos repetitivos 104Somatização dos sonhos 106Das imagens à interpretação descritiva na linguagem do consciente 109Como interpretar os sonhos 112Amplificações dos sonhos 127
  8. 8. 8Uma análise freudiana 130Utilidade dos sonhos 141Sonhos em terapia 145Sonhos antes e depois da primeira sessão da terapia 152A depressão e a ansiedade nos sonhos 154O medo nos sonhos 156A culpa nos sonhos 158A sombra nos sonhos 160Uma análise espírita 163Sonhos com mortos e com a morte 184Os “pesadelos” 188Desdobramentos e sonhos 195Sonhos na Bíblia 203Sonhos prospectivos 205Sonhos eróticos 207A série de sonhos 212Uma análise segundo a Gestalt-Terapia 214Uma análise segundo a Psicossíntese 217Uma visão Transpessoal 219Sonhos no processo de individuação 224Formas de se trabalhar os sonhos 227Sonhos criativos 230Sonhos premonitórios ou proféticos 232Sonhos compensatórios 236Sonhos na gravidez 239Sonhos dentro de sonhos 243Os sonhos e a arte 245Reflexões finais 249Bibliografia 257
  9. 9. 9 Prefácio Sempre notei em meus seminários sobre o “Despertar daConsciência”, a mudança de interesse das pessoas quandoabordava a análise e interpretação dos sonhos. O tema, quandosurgia, provocava imediato interesse e fazia mudar o rumo dosassuntos. Isso me motivou a incluir no ciclo de temas daFundação Lar Harmonia um seminário específico sobre sonhos,levando-me a escrever mais sobre o assunto. Não tenho apretensão de trazer tudo sobre os sonhos, pois o tema éextremamente vasto e complexo. Aqui o abordo de formasintética em face do pouco que conheço sobre o seu sentido esignificado. O leitor poderá buscar uma melhor compreensão indodireto às fontes onde me inspirei, constantes na bibliografia aofinal, e, principalmente, na obra de C. G. Jung. O crescente interesse pelos sonhos em nosso século e oaumento de estudos e publicações sobre o tema são reflexos deuma mudança paradigmática que está ocorrendo em nossacivilização. A crescente valorização do feminino, o aumento dasubjetividade, a procura pelas artes, o surgimento de uma novaFísica, as abordagens holísticas e transpessoais são, dentre outrosfatores, responsáveis por essa revolução no campo da Psicologia
  10. 10. 10que, de uma forma ainda acanhada e lenta, tenta alcançar osavanços da ciência psíquica. A vulgarização dos estudos sobre os sonhos parecetambém revelar essa mudança de paradigmas. O tema, entãorestrito aos psicólogos e médicos, alcança o domínio público,interessando cada vez mais o ser humano comum, desacostumadocom os livros clássicos e descompromissado com teoriascomplexas e que, muitas vezes, não têm sustentação prática. Ossonhos, sobretudo os premonitórios, suscitam o interesse públicoe provocam o abandono de teorias preconcebidas cujapreocupação básica é a negação de sua possibilidade ou oengessamento a dogmas ultrapassados. Todos sonham, seja de forma premonitória ou não, e isso éincontestável face à sua comprovação científica, o que nivelacoletivamente os seres humanos num padrão único de atividadepsíquica, sem distinção de qualquer natureza. Pode-se dizer que ofato de todos sonharmos estabelece uma conexão transcendenteentre nós. O desejo de que algo futuro se realize, tendo sido tomadopopularmente como sendo um sonho, transformou o termo(sonho) em sinônimo de algo quimérico ou fantasioso. Em algunsidiomas, a origem da palavra está associada aos termos “errante”e “vagabundear”, porém isso não altera o significado verdadeiro ereal dos sonhos. Muito embora paire uma atmosfera deirrealidade quando se comenta sobre sonhos, sobretudo entreleigos, eles expressam, de forma sincera e objetiva, semsubterfúgios ou dissimulações, o estado real do psiquismo doindivíduo. Neste trabalho evitei apresentar casos ou análises desonhos de meus pacientes, a fim de não estimular certasidentificações que geralmente se fazem e que levam alguns aacreditar que as interpretações sempre funcionam da mesma
  11. 11. 11forma para com todos. A análise e o estudo de seus sonhosserviram-me como pano de fundo para a compreensão melhor daciência dos sonhos. O mundo mental ou o mundo dos pensamentos,sentimentos, fantasias, etc., é o mesmo mundo dos sonhos, pois,estando-se acordado ou dormindo, a vida obedece às leis dasubjetividade interior. Venham de onde vierem, sejam resultantesfisiológicos ou não, a vida é comandada pelo que se elaborapsiquicamente. O mundo psíquico é completamente simbólico. Arealidade, para o mundo psíquico, é constituída de símbolos enão das coisas em si. Tudo no inconsciente se passa dentro de umambiente de imagens, de raciocínios lógicos, de sentimentos eintuições, fora do domínio da consciência, em face de sualimitação à concentração e à exclusão do todo. O meio ambienteexterno ao mundo psíquico é pouco relevante, salvo para geraraquelas imagens e idéias, pois tudo se passa a partir do que éapercebido e não do que está posto em si. Partindo desseprincípio, o real é o psíquico, pois é a partir dele que se elaboramrespostas ao mundo dito externo a ele. O mundo objetivo dopsíquico é exclusivamente simbólico. O mundo das coisas em si ésubjetivo ao mundo psíquico. O que existe em nós sãorepresentações de imagens diferentes daquilo que percebemoscomo sendo o mundo. Os sonhos fazem parte daquele mundo objetivo dopsiquismo. Eles são uma realidade em si para o mundo psíquico,que, efetivamente, comanda a vida. Dizer-lhes inconscientes émera questão de relatividade com o ego vígil. É no mundo ditoinconsciente que se elaboram as decisões para o mundo ditoconsciente e vice-versa. Para investigar aquele mundo dito inconsciente tem-se quelançar mão de uma série de ferramentas. Uma delas é o sonho. Asoutras são: os complexos, os atos falhos, desenhos, pinturas,
  12. 12. 12meditações, trabalhos com argila (esculturas), discursos verbais,testes projetivos, etc. Todos eles são válidos e não vejo qualquerordem de importância de um em relação aos outros, pois cadaindivíduo estabelece seus mecanismos de defesa que nãopermitem a acessibilidade de seu mundo psíquico profundo, poreste ou aquele motivo. Os sonhos são retratos instantâneos da vida psíquica dosonhador, cuja lente fotográfica é ele próprio e o material plásticoé colhido do inconsciente. São como espelhos sensíveis dasituação psicológica do indivíduo. Eles são fonte de cura e decrise ao mesmo tempo. Curar-se para iniciar um novo ciclo decrescimento. Crise pela necessidade de mudança. Os sonhos sãosempre mensagens simbólicas cujo conteúdo está a serviço de umpropósito evolutivo. Em cada sonho está implícita uma idéiadiretora e significativa para a vida do sonhador. Os sonhos são metáforas da vida real, elementos de umalinguagem poética e genuína da vida psíquica do sonhador, quenunca cessa, nem se submete às contingências egóicas. Sãofenômenos tão complexos quanto a consciência o é. Ultrapassamo conceito de serem simples mensagens e recados para que o egopossa melhor dirigir sua vida de relações, pois são estruturas vivase consistentes da personalidade que se desenvolveinexoravelmente. O mundo dos sonhos nos auxilia a entender o mundoexterno, dito objetivo, material, concreto. O sentido da vida nãose explica pelos fatos referentes a esse mundo constituído pelosfatos do cotidiano. Eles são apenas fragmentos conseqüentes dopensar humano. Os sonhos, ao contrário, nos apresentamaspectos da totalidade objetiva do viver. Os sonhos permitem a reunião de experiênciasemocionalmente assemelhadas, desconectadas ou não noinconsciente, necessitando de elaboração na consciência. Por
  13. 13. 13mais que estudemos todos os aspectos sobre sonhos, eles aindase constituem um envolvente mistério para a alma humana. Suasmetáforas visuais nem sempre acompanham a lógica do ego,preocupado em lhes aplicar sua coerência rígida e convencional. Durante a confecção deste trabalho, já na sua fase f inal,faltando apenas algumas inserções de notas sobre os conceitos deJung, sonhei que corrigia uma frase de um determinado trechodeste material que escrevia ao computador. No sonho, via a fraseconstituída por uma única palavra que necessitava ser separadapor espaços e pela inserção de vogais. Quando acordei, decidinão interpretar o sonho, mas aproveitar a energia intensa de quefui acometido ao levantar-me pela manhã. Fui direto aocomputador e concluí o texto rapidamente, pois acreditava queainda ia me demorar algumas semanas. Aprendi a desenvolvermotivações a partir da disposição ao acordar e, certamente,aquele sonho motivara-me a finalizar este trabalho, inserindo oque faltava como a brevidade das vogais. Sempre me questionei: – Por que os sonhos exercem tantofascínio nas pessoas? Não há quem não deseje a interpretação deum sonho que teve. O surrealismo presente sempre se constituiunum enigma até então insolúvel ou parcialmente esclarecidoatravés das diversas teorias oníricas. Esse fascínio provavelmenteadvém da natureza essencial penetrada pelos sonhos, queconsegue remeter o sonhador à sua própria origem. Por muitotempo se associou o sonho ao feminino, ao prazer, ao mistério eao transcendente, e esses são temas importantes do ser humanomoderno. Desvendar mistérios constitui-se num desafio àsexplicações do significado da vida. Dessa forma, os sonhospenetram na possibilidade de que, sendo explicados, possaalcançar-se respostas há muito procuradas sobre a essência davida.
  14. 14. 14 Cada vez mais percebo que as escolas psicológicas, bemcomo a sabedoria popular, as afirmações da PsicologiaTranspessoal e as contribuições do Espiritismo, no seu conjunto,apresentam uma razoável idéia de como entender e trabalhar comos sonhos. Qualquer dessas abordagens, mesmo aquela que nospareça a mais completa, tomada em particular, significaria umseccionamento fragmentário sobre o conhecimento aindaincipiente do mundo dos sonhos, o que impediria a percepção desua riqueza e de sua importância para o desenvolvimento psíquicodo ser humano. As interpretações psicológicas que se dêem, nos casos dossonhos que apresentem fenômenos considerados comoexperiências fora do corpo e que apontam para uma realidadeextrafísica de natureza espiritual, não estarão erradas ouequivocadas, pois tais fenômenos se processam com o humano, ecomo tal, sujeito a uma dinâmica psíquica, quer seja considerado“vivo” ou “morto”. Há sempre uma instância inconsciente ondeeles se produzem. A Psicologia não se furta a estudar taisfenômenos quando eles se tornam objetos de saber e não crençamágica em algo “sobrenatural”. A priori, não se pode excluirqualquer idéia, mesmo que ela nos pareça inverossímil. Nenhum trabalho é obra de uma só pessoa. Seuinconsciente é constantemente contaminado pelos conteúdosassimilados de suas relações com seus semelhantes. Quem podedizer que o que pensa ou sente não é também fruto de dascontaminações a que está sujeito, sem se equivocar ou resvalarpelo egocentrismo? Este trabalho portanto, além dascolaborações oriundas de várias fontes e pessoas, teve aparticipação direta de amigos queridos aos quais explicitamenteagradeço. A Rosana pela ajuda na pesquisa, a Lahiri, Rita e Sueli,pela revisão, a Sílzen pela complementação do conteúdo e aosmeus pacientes pelo material onírico fornecido.
  15. 15. 15SalvadorMarço de 1998
  16. 16. 16 Conceitos preliminares A maioria das considerações emitidas neste trabalho vêmda Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961),psiquiatra suíço, de cujas obras extraímos as idéias e os conceitossintetizados adiante, necessários à compreensão do significadodos sonhos e de sua importância para o desenvolvimento doindivíduo. Evidentemente que não temos a pretensão deapresentar as observações e idéias de Jung, no seu conjunto, arespeito dos sonhos. Sua obra é por demais vasta, rica e extensano estudo dos sonhos. Não a conhecemos o suficiente para falarem seu nome ou dizer que escrevemos numa linguagem junguiana.Apresentamos apenas algumas idéias extraídas de parte de suaobra. Não creio que seria possível a alguém, sozinho, alcançartamanha proeza. Mesmo aqueles que conviveram de perto comele, não alcançaram penetrar na totalidade de suas idéiasluminosas. Jung foi maior que sua época. Nunca mais a Psicologiafoi a mesma após ele. Estabeleceu um marco divisório nosestudos da mente humana. O reconhecimento de sua obra veioainda em vida, quando novas abordagens psicológicas surgiramtendo como raízes seus conceitos e suas pesquisas sobre asorigens e estrutura do psiquismo humano. Eis, portanto, osconceitos que considero relevantes para o nosso fim:
  17. 17. 17 Ânima1 É o aspecto feminino interior do homem. Representa osomatório das experiências do homem com mulheres (mãe, irmã,amiga, esposa, amante, etc.). É a imagem feminina “perseguida”pelo homem. Sua projeção inicial estabelece-se primeiramente namãe e depois sobre outras mulheres. É uma espécie de imagomaterna que acompanha e influencia o homem por toda sua vida.O homem tende a, inconscientemente, comparar toda mulher, quese apresente a ele, com sua ânima. A tentativa de plasmar suaânima numa mulher tende a se tornar uma operação arriscada eperigosa na vida de todo homem. Nos sonhos geralmente elaaparece como figuras femininas sedutoras e arrebatadoras oumesmo condutoras do sonhador. Quando o homem se deixainfluenciar pelo arquétipo da ânima, geralmente ele se tornamelindroso e irritadiço, caprichoso, ciumento e vazio. Diz Jungque: − “A anima é o arquétipo da própria vida.”2 Ele distinguiuquatro grandes estágios da ânima, personificados como Eva,Helena, Maria e Sofia, isto é, de mãe, de amante, de deusa e desabedoria. É nesse quarto estágio que a ânima de um homemfunciona como guia da vida interior, intervindo entre os conteúdosconsciente e inconsciente. Jung considerava importante oconfronto com a ânima para o desenvolvimento do homem. Ânimus É o aspecto masculino interior de toda mulher. Representao somatório das experiências da mulher com homens (pai, irmão, 1 Optei por acentuar as palavras ânima, ânimus e psiquê em função da pronúncia que normalmente se utiliza. Conservei a grafia original nas transcrições. 2 The Archetypes and the Collective Unconscious, CW Vol. 9/1, par. 66.
  18. 18. 18esposo, amigo, amante, etc.). É a imagem masculina “perseguida”pela mulher. Jung dizia que “ Como a anima corresponde aoEros materno, o animus corresponde ao Logos paterno.”3 “Oanimus é uma espécie de sedimento de todas as experiênciasancestrais da mulher em relação ao homem, e mais ainda, éum ser criativo e engendrador, não na forma da criaçãomasculina.”4 Daryl Sharp diz5 que “Jung descreveu quatroestágios do desenvolvimento do animus numa mulher. Eleaparece primeiramente nos sonhos e nas fantasias como apersonificação da força física, um atleta, homem musculosoou bandido. No segundo estágio, o animus fornece-lheiniciativa e capacidade para a ação planejada. Está pordetrás de seus desejos de independência e de profissãoprópria. No estágio seguinte, o animus é a “palavra” que sepersonifica muitas vezes em sonhos na figura de um professorou de um clérigo. No quarto estágio, o animus é a encarnaçãodo sentido espiritual. Neste nível mais elevado, à maneira daanima como Sofia, o animus é um intermediário entre amente consciente da mulher e seu inconsciente. Na mitologia,este aspecto do animus aparece como Hermes, mensageirodos deuses; nos sonhos, é um guia espiritual prestativo.”Tanto quanto da ânima, é desejável a integração parcial doânimus a fim de auxiliar o indivíduo a lidar com a complexidadedas relações com as outras pessoas, assim como consigo mesmo. Aparelho psíquico Expressão utilizada para significar a psiquê ou a totalidadedo psiquismo inconsciente e consciente. Nele se situam todos os 3 C. G. Jung, Obras Completas Vol. IX/2, par. 29. 4 Estudos sobre psicologia analítica, Obras Completas Vol. VII, par. 336. 5 Léxico Junguiano, p. 25, Ed. Cultrix, SP.
  19. 19. 19processos psicodinâmicos. Nele estão as estruturas dinâmicas deidentidade e de relação, além do Self. As primeiras são o ego e asombra, as segundas são a persona e a ânima/ânimus. Arquétipo Estruturas virtuais, primordiais da psiquê, responsáveis porpadrões e tendências de comportamentos estruturais. Sãoanteriores à vida consciente. Não são passíveis de materialização,mas de representação simbólica. Para Jung, são hereditários erepresentam o aspecto psíquico do cérebro. São universais,comuns a todos os seres humanos e ordenam imagensreconhecíveis pelos efeitos que produzem. Pode-se percebê-lospelos complexos que todos temos, pelas imagens arquetípicasque geram, assim como pelas tendências culturais coletivas. Complexos Os complexos são conteúdos psíquicos carregados deafetividade, agrupados pelo tom emocional comum. São ‘temasemocionais reprimidos capazes de provocar distúrbiospsicológicos permanentes’, e que ‘reagem mais rapidamenteaos estímulos externos’. ‘São manifestações vitais da psique,feixes de forças contendo potencialidades evolutivas que,todavia, ainda não alcançaram o limiar da consciência e,irrealizadas, exercem pressão para vir à tona.’6 São unidadesvivas dentro da psiquê e que gozam de relativa autonomia. Porvezes somos dirigidos pelos complexos. Eles não são elementospatológicos, salvo quando atraem para si excessiva quantidade deenergia psíquica, manifestando-se como conflito perturbador da 6 Nise da Silveira, Jung Vida e Obra , p. 37.
  20. 20. 20personalidade. Os complexos têm a facilidade de alterar nossoestado de espírito, sem que nos apercebamos de sua presençaconstelada na consciência. À semelhança de um campomagnético, não são passíveis de serem observados diretamente,mas por meio da aglutinação de conteúdos que lhes constituem.No âmago de um complexo sempre encontramos um núcleoarquetípico. Consciência ou Consciente Atitude psíquica que envolve conteúdos, com forte cargade energia, acessíveis ao ego. Sua base e origem é o inconsciente.Difere do eu ou ego pelo seu conteúdo amplo e por ser seucampo de atuação. Geralmente se opõe ao que há noinconsciente. Jung escreveu que “Não há consciência semdiscriminação de opostos.”7 Em 19398 , Jung afirmou: − “Nossaconsciência não se cria a si mesma; mas emana deprofundezas desconhecidas. Desperta gradualmente nacriança, e cada manhã, ao longo da existência, desperta dasprofundezas do sono, saindo de um estado de inconsciência. Écomo uma criança que nasce diariamente do inconscientematerno. Sim, um estudo mais acurado da consciência nosmostra claramente que ela não é somente influenciada peloinconsciente, como também emana constantemente, doabismo do inconsciente, sob a forma de inumeráveis idéiasespontâneas.” Ego ou eu 7 Psychological Aspects of the Mother Archetype, CW Vol. 9/1, par. 178. 8 Psicologia da Religião Ocidental e Oriental, Obras Completas Vol. XI, par. 935.
  21. 21. 21 É o sujeito da ação consciente. Primeiro complexo a seformar na consciência, sendo seu centro. Estrutura-se a partir doinconsciente e é, muitas vezes, confundido com o centroorganizador e diretor do aparelho psíquico. Conhecer a si mesmonão é conhecer o eu ou ego, que só conhece seus própriosconteúdos, mas, também, aquele centro organizador. O processode desenvolvimento da personalidade, a individuação, consiste emdiferenciar o ego de suas estruturas arquetípicas auxiliares. Oego, o Self (centro organizador da psiquê) e o ego onírico (o eudos sonhos) são instâncias psíquicas diferentes. O ego se baseiano arquétipo do si-mesmo, sendo, de certa forma, seu agente nomundo da consciência.9 Inconsciente Constitui-se de conteúdos sem energia psíquica suficientepara atingir a consciência. É a parte da psiquê onde se encontramos conteúdos arquetípicos. Jung diz que o inconsciente “é a fontede todas as forças instintivas da psique”. Seu conteúdo nãoestá relacionado de modo perceptível com o eu. No inconscienteestá tudo que sei, mas que não estou pensando no momento ouque esqueci; tudo que é captado subliminarmente, mas nãopercebido; tudo o que faço involuntariamente bem como novaselaborações psíquicas a partir do material existente. Neste últimocaso atribui-se uma função criativa ao inconsciente. Tudo issopoderá se tornar consciente algum dia. Muitas vezes estar com osconteúdos inconscientes acessíveis à consciência poderá provocarsintomas psicóides. Os conteúdos inconscientes, dispostos deforma simbólica, quando acessíveis pela consciência, deverãosofrer a necessária interpretação. Jung colocou que existem duas 9 James A. Hall, Jung e a Interpretação dos Sonhos, p.41.
  22. 22. 22espécies de inconsciente: o pessoal e o coletivo. O pessoal éformado pelas experiências, reprimidas ou não, que o indivíduotem em sua vida consciente desde a infância. O coletivo éresultante das experiências da humanidade sedimentadas napsiquê coletiva, pela hereditariedade. Os conteúdos doinconsciente coletivo, para Jung, não podiam ser adquiridosindividualmente, mas coletivamente. Para ele toda a mitologia seriauma espécie de projeção do inconsciente coletivo ou psiquêobjetiva. Individuação É um dos conceitos centrais da Psicologia Analítica deJung. É o processo de desenvolvimento da personalidade peladiferenciação psicológica do eu. É um processo no qual o egovisa tornar-se diferenciado da coletividade, embora nela vivendo,ampliando suas relações. Para se alcançar a individuação énecessário se evitar as tendências coletivas inconscientes. Aindividuação respeita as normas coletivas e o individualismo ascombate. O contrário à individuação é ceder às tendênciasegocêntricas e narcisistas ou à identificação com papéis coletivos.A individuação leva à realização do Self, e não simplesmente àsatisfação do ego. É um processo dinâmico que passa pelacompreensão da finitude da existência material, objetiva, face àinevitabilidade da morte física. Persona ou máscara O termo persona deriva das máscaras que os atores gregosusavam para os diversos papéis ou personalidades queinterpretavam. É o aspecto ideal do eu que se apresenta aomundo e que se forma pela necessidade de adaptação e
  23. 23. 23convivência pessoal. É o que se pensa que é. Muitas vezes apersona é influenciada pela psiquê coletiva confundindo nossasações como se fossem individuais. Ela representa um pacto entreo indivíduo e a sociedade, sendo um conjunto de personalidadesou uma multiplicidade de pessoas numa só. A identificação doego com a persona provoca o afastamento de nossa identidadepessoal, isto é, corremos o risco de não sabermos quemrealmente somos. Somos, ao mesmo tempo, seres individuais ecoletivos, pois temos uma natureza singular como também temosatitudes que nos confundem com a coletividade. Psiquê O mesmo que aparelho psíquico. Representa a totalidadedas funções psíquicas e todos os processos que envolvem odeslocamento de energia a serviço do processo de individuação.Engloba não só os processos conscientes e inconscientes comotambém aqueles que fogem ao domínio imediato da realidade.Nele se encontram os opostos que anseiam em se completarem.Jung dizia que a psiquê é o princípio e o fim de todo oconhecimento, é o objeto e o sujeito da ciência. São quatro osníveis da psiquê: consciência pessoal, inconsciente pessoal,consciência coletiva e inconsciente coletivo. Self ou si-mesmo É o centro organizador da psiquê. É o arquétipo datotalidade. É a unidade e a totalidade da personalidade doindivíduo. É o centro do aparelho psíquico, englobando oconsciente e o inconsciente. Como arquétipo, se apresenta nossonhos, mitos e contos de fadas como uma personalidadesuperior, como um rei, um salvador ou um redentor. É uma
  24. 24. 24dimensão da qual o ego evolui e se constitui. Jung dizia que: − “Osi-mesmo também pode ser chamado ‘o Deus em nós’.”, ecompletava acrescentando que “o si-mesmo está para o eu,assim como Sol está para a Terra.”10 Isso nos faz entendermelhor qual é a relação entre o centro diretor da consciência e ocentro organizador da vida psíquica do indivíduo. O Self é oarquétipo central da ordem, da organização. São numerosos ossímbolos oníricos do Self, a maioria deles aparecendo comofigura central no sonho. Símbolo Representa algo cuja existência é reconhecida, porém nãose revela presente. “O símbolo, no entanto, pressupõe sempreque a expressão escolhida seja a melhor designação oufórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mascuja existência é conhecida ou postulada.” “Uma expressãousada para designar coisa conhecida continua sendo apenasum sinal e nunca será um símbolo.”11 Pode-se, portanto,inventar um sinal, nunca um símbolo. Os símbolos têm acapacidade de transformar e redirecionam a energia psíquicainstintiva em favor do processo de desenvolvimento dapersonalidade. Eles são produzidos constantemente na psiquê esurgem nos sonhos e nas fantasias. Sombra Representa o que não sabemos ou negamos a respeito denós mesmos. A sombra é o arquétipo que representa os aspectos 10 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, parágrafos. 399 e 400. 11 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VI, parágrafos. 903 e 906.
  25. 25. 25obscuros da personalidade e desconhecidos da consciência e queestá mais acessível a ela. Normalmente temos resistência emreconhecer e integrar a nossa sombra, o que nos levainconscientemente às projeções. Essa integração é geralmente feitacom relativo esforço moral. A sombra representa o queconsideramos mal e não nos damos conta de que nos pertence,fazendo parte de nós tanto quanto o bem. A sombra contém obem e o mal desconhecidos ou negados em nós, ou que nãoforam conscientizados. Portanto, é acertado dizer-se que asombra contém também qualidades boas. Ela dá lugar à personapor uma necessidade de adaptação social. Sua exposição torna oindivíduo inadequado e inviabiliza sua convivência harmônica. Nossonhos, a sombra costuma aparecer como personagens domesmo sexo do sonhador, muitas vezes em atitudes aversivas oucomo alguém conhecido e antipatizado por ele. Temos umatendência a projetar as características pessoais da sombra nosoutros, considerando-os moralmente inferiores. Reconhecer aprópria sombra é um grande passo no processo de individuação.A sombra se opõe à persona e ambas se relacionam num regimemútuo de compensação. Estes conceitos são necessários à compreensão de boaparte do conteúdo deste trabalho, muito embora não representemcondição essencial, pois a compreensão dos sonhos não passapela necessidade de um sistema de códigos. A grandecomplexidade do tema exige abordagens diversas para melhorpercepção de seu significado. Não há fórmula padrão como nãohá essencialmente um sonho igual a outro.
  26. 26. 26 O significado dos sonhos A natureza é mais complexa e ao mesmo tempo muito maissimples e bela do que supomos. Apresenta nuances cujo deleitesó é possível se transcendermos a esfera comum da análise fria eracional, típica do arcaico pensamento excessivamente dogmáticoe racionalista da humanidade. Ao ser humano, hoje, exige-se umestado de percepção do mundo, coerente com a beleza própriada natureza. O mundo não se constitui apenas do que éapreendido pelos sentidos, que a lógica nos obrigou a descrever apartir do organicismo típico dos séculos XIX e XX. O mundo dossonhos vem nos mostrar uma outra faceta da mesma realidade,antes observada pelas lentes embaçadas do intelecto, muitasvezes de modo inconseqüente, pois foi a consciência racional doshomens que gerou guerras. Sua interpretação pela consciência éapenas uma possibilidade de compreensão que, além de serdeformada, não açambarca a realidade dos sonhos como ummundo em si, rico de imagens, símbolos, emoções, enfim, de vida. Os avanços científicos do século XX e as descobertas quese prenunciam para o século XXI, principalmente no campo daFísica Quântica e da Psicologia, levarão a uma compreensão maisadequada do campo dos sonhos. A estreiteza de suacompreensão não se deve propriamente a seus estudiosos, mas,
  27. 27. 27também, aos limites estabelecidos pela época em que viveram evivem. Trata-se de uma ausência de faculdades psíquicas quepudessem permitir uma maior compreensão da realidade. Issoequivale à falta da capacidade de voar de algumas aves de grandeporte, cuja deficiência foi suprida pela evolução que lhesdirecionou para a estruturação da convivência social, junto ànatureza-mãe, na terra. O vôo do ser humano deverá ser mais altoe mais próximo ao si mesmo, credenciando-o à compreensão danatureza real do que é gerado em seu aspecto desconhecido eincomensurável, onde qualquer teoria preconcebida seria nomínimo incompleta. Costumo dizer aos meus pacientes que seus sonhos sãomais importantes do que o que sua consciência me diz. Atravésdeles, estabelecemos um diálogo permanente entre o que eleconscientemente não consegue me dizer e que ele necessita saber.Àqueles que costumam dizer que não sonham, afirmo-lhescategoricamente, buscando induzir-lhes, que a partir daquele dia(primeira ou segunda sessão) eles sonharão, basta que assim odesejem. Dormir não se opõe ao estar desperto ou acordado doponto de vista psicológico, tampouco o sonhar se opõe ao sono.Enquanto se dorme, processam-se fenômenos riquíssimos quepodem mudar a vida da pessoa. A atividade do sono está ligada àvida íntima do ser humano. O sonho,12 como atividade onírica,revela de forma sintética a riqueza fantástica do dormir. O sono éuma importante fonte de prazer do ser humano, muito embora, àsvezes, pode revelar-se doloroso para o ego ao mostrar-lhe,através do sonho, situações e conteúdos que vão de encontro àssuas tendências e aspirações conscientes. 12 Jung dizia que o sonho não é o resultado de uma continuidade da experiência, mas o resíduo de uma atividade que se exerce durante o sono. CW, Vol. VIII, par. 443.
  28. 28. 28 O sonho é um grito inaudível e frutífero do senhor da vidapsíquica, o Self, e, portanto, também da consciência, contra seualgoz, o sono, que, embora facilite a emissão da mensagem deforma direta, impede a manutenção da consciência do ego. É atentativa exitosa do ego em perpetuar-se, face aos receiostemerosos da consciência. O sonho é imponderável e improvável.Qualquer que seja o estado do sonhador, durante e depois dosonho, ele é simultaneamente fascinante, misterioso e paradoxal.Traz à consciência uma situação mágica e singular, variando domaravilhoso ao s obrenatural, do divino ao dantesco, do incrívelao absolutamente verdadeiro. Às vezes, nos levam a momentosinesquecíveis, a situações de deleite intraduzíveis, de cujasensação não queremos nos desligar. Outras vezes, nos trazemmedo e pavor ou angústia, dando-nos um aperto no coração. Sua linguagem é completamente simbólica e nem sempreencontra correlações na cultura do sonhador. Sua mensagem,portanto, se levada ao pé da letra, nem sempre poderá sercompreendida. Eles têm a peculiaridade de nos apresentargeralmente uma situação de conflito. Digo geralmente, pois ossonhos podem ser gerados exatamente pelo oposto. Nem sempreo são por um conflito, mas pela satisfação em relação a algo quedeve chegar à consciência. Quando os explanamos, as palavrasmas, porém, entretanto, parecem se repetir com muitafreqüência. Uma situação oposta ou contrária à normalidadeconsciente surge nos sonhos e esse estado pode serextremamente variável. Ao mesmo tempo que o sonhador quer uma análise de seusonho, ele elabora uma que atende imediatamente a ansiedadeque porventura tenha sido provocada. Caso sua análise sejacontrariada, ele buscará entender a que lhe foi dada e readaptaráa anterior visando obter mais alívio à consciência.
  29. 29. 29 O sonho é algo improvável, salvo pelo depoimento dosonhador, única e solitária testemunha de seu objeto decuriosidade. É uma daquelas ocorrências da vida psíquica do serhumano que o obriga a uma resposta sobre sua gênese, pela suaincognoscibilidade inicial. Tudo que diz respeito ao psiquismo humano é objeto decontrovérsias, quanto a sua gênese, nas mais variadas escolas queestudam o comportamento humano. Os sonhos não escapariam aessa discussão. Umas os consideram fantasia, frutos daimaginação, portanto sem valor científico; outras os colocamcomo uma espécie de subproduto psíquico, algo que se eliminacomo material imprestável. Porém seu valor, causal e finalista aomesmo tempo, tem sido defendido ultimamente. Em que pese nem sempre ser possível a compreensão doseu sentido, as conseqüências de sua ocorrência, porém, sãoobserváveis. Muitas pessoas alteram seu humor a partir dalembrança, ao acordar, do sonho. Outras tomam atitudes apósseus sonhos, ou mesmo realizam projetos após lembrar-se deles.Mesmo assim, eles sugerem interrogações e desejos decompreensão. Em que meio eles ocorrem? Como sãoprovocados? Qual o material de que se utilizam? É possíveldominá-los? Para que ocorrem? São interrogações comuns detodos os sonhadores. Muito lógico que entendamos que o sonho se processenuma instância inconsciente e, por um mecanismo desconhecido,alcance o córtex, pois, para ser lembrado, deverá ser impressonos neurônios cerebrais. Esse “imprint” deve alcançar neurôniosnovos, cujo poder de retenção é mínimo, fazendo com que ossonhos sejam facilmente esquecidos. Essa probabilidade dossonhos ficarem registrados em neurônios novos parece seassemelhar à possibilidade de existir uma memória virtual, volátil,que se inibe com a atividade consciente. A força de certas
  30. 30. 30imagens oníricas parece não conter energia suficiente parapermanecer retida no córtex por muito tempo, tendo em vista nãocontarem com o mecanismo associativo proporcionado pelo ego. São pensamentos não pensados, não elaborados ouelaborações mentais irrompidas à consciência sem que esta tomequalquer iniciativa. São emanações do inconsciente nãocontroladas pela consciência, não sendo possível sonhar-seexatamente como e o que se deseja. O sonho é, muitas vezes,perturbador, revelando os mais dramáticos conflitos interiores e,por ser inconsciente, leva o indivíduo à ansiedade, à angústia e aestados de humor incontroláveis. Pelo mesmo motivo, podemlevar o sonhador a estados felizes e ditosos incomensuráveis,aliviando as tensões entre o consciente e o inconsciente. Sua interpretação sempre despertou vivo interesse naspessoas e vem desafiando sérios estudiosos quanto à suaveracidade e alcance. Tentarei neste trabalho trazer algunsapontamentos que venho fazendo em meu trabalho clínico, semcontudo achar que trarei algo novo ou que não tenha sido objetode estudos anteriores. De qualquer forma o assunto é palpitante,emocionante e que transcende a esfera clínica. Espero trazer algode bom àquele que o ler.
  31. 31. 31 Dormir: estar desperto para uma realidade plena Há pessoas, cujo hábito de dormir é -lhes extremamenteimportante e chegam a não trocar qualquer outro prazer por umbom sono. Vivem sob o domínio de Morfeu, a quem se entregamprazerosamente. Porém há aqueles para os quais dormirrepresenta algo extremamente desagradável e dispensável. Suasocupações diárias são mais importantes que seu sono. Dormemmal e acordam mal. A insônia pode representar também a fuga doestado onírico desagradável. A dificuldade de dormir associa-se àpreocupação latente por algo importante na vida de vigília, mastambém por algo incognoscível e complexo na vida íntima dapessoa. Se não fossem os sonhos, poder-se-ia dizer que o sono éuma morte com direito a retorno, face ao seu estado de absolutainconsciência. Mas os sonhos ‘perturbam’ o sono demonstrandoum estado “consciente” além da consciência desperta. O sonho é um recado do Inconsciente (Self) para oConsciente (ego). É uma mensagem com endereço certo, semdevolução, pois, sempre chega ao seu destino, independente davontade consciente do ego. Ele tem um papel orientador e
  32. 32. 32regulador da relação das duas instâncias psíquicas conhecidas, oinconsciente e o consciente. Na leitura de textos sobre sonhos, oriundos de váriosautores, observamos nas análises e interpretações dos mesmosuma certa função auxiliadora dos sonhos. Parece que os autoressão unânimes em lhes atribuir tal caráter. Os sonhos atuam aserviço do desenvolvimento do ser, denotando, simultaneamente,os sentidos evolutivo e curativo de que são portadores. Independente destes dois aspectos, o ato de dormir esonhar certamente refletirão no estado de espírito da pessoa nodia seguinte. Ter um sono tranqüilo representa um bom início dedia para qualquer pessoa, porém há quem já acorde de mal com avida, como se o mundo lhe fosse extremamente adverso, em facede um mau sonho. Geralmente isso ocorre em função de um sonointranqüilo e mal dormido, principalmente se seus sonhoschamarem a atenção aos aspectos negados ou aversivos. Muitas vezes acordamos com a sensação de terexperimentado algo muito importante, agradável e fascinante,diferente de tudo que se viveu antes. Parece que, durante o sonoentramos em contato com uma natureza extremamente prazerosacapaz de fazer com que os fatos e fenômenos do estado de vigíliapareçam sem importância. É o sono com sonhos profundos quenos mantém em contato com nossa natureza essencial e divina. Os sonhos refletem o passado, o presente e o futuro, bemcomo situações atemporais. Tempo e espaço são relativizadosnos sonhos assim como a noção de causalidade. Não se podequerer que os sonhos apresentem a mesma seqüência cronológicade eventos como na consciência. Se assim fosse não seriamsonhos, mas apenas a continuidade da vida de vigília. Tratam deuma natureza que escapa à maneira ortodoxa e rígida de ver osfatos como o faz a consciência.
  33. 33. 33 Todo sonho tem uma mensagem que, quando nãoentendida pelo ego do sonhador, se repetirá até que o processode crescimento tenha atingido seu real objetivo. Essa mensagem éque tem sido objeto de busca e compreensão. Nem sempre ela éencontrada, principalmente devido à forma pragmática epreconcebida como a buscamos. A parte da mente que busca osignificado dos sonhos não é a mesma que os elabora. Talvez o grande desejo do sonhador seja ter o domínio daconsciência durante seu sonho a fim de observar melhor ouniverso em que eles são elaborados. Essa tentativa de manter suavitalidade é vencida pelo processo fisiológico natural do sono.Quando a consciência retorna, ela tenta, da mesma forma,compreender os sonhos, resvalando em sua própria incapacidadede penetrar nos domínios que não lhe pertencem. Pensar sobre os sonhos, anotá-los, tentar interpretá-los, oudar-lhes qualquer atenção, disparará um mecanismo psíquico queproduzirá novos sonhos criados pelo fato de lhes atribuirmosalgum valor. Isso nos leva a entender que h sonhos que são ácriados pela observação que fazemos deles, segundo o princípioda incerteza ou da indeterminação de Heisenberg, de que oobjeto observado se altera com a visão do observador. Jung serefere a esse princípio,13 agradecendo ao físico norte-americanode origem austríaca, Prêmio Nobel de 1946, Wolfgang Pauli, portê-lo ajudado a entendê-lo. Os registros encefalográficos mostram traçados durante osonho semelhantes aos obtidos no estado de vigília. Enquanto oestado de vigília caracteriza-se pela coerência consciente deconteúdos, os sonhos apresentam uma certa coerência temáticade imagens visuais. Com os estudos acadêmicos os sonhosdeixaram de pertencer ao domínio das teorias, tornando-se 13 Obras Completas, Vol. VIII, par. 438.
  34. 34. 34objetos de investigação experimental. As descobertaseletroencefalográficas foram fundamentais para que se avançassenos estudos sobre sonhos e se criassem laboratórios em váriaspartes do mundo exclusivamente para pesquisas oníricas. Além dos estados de sono, de despertar e de consciênciaabsoluta, a filosofia hindu considera o sonho um dos estados deconsciência em que o irreal passa a ser real, o subjetivo passa aser objetivo. No volume XI das Obras Completas sobre RamanaMaharshi, encontramos suas impressões sobre os sonhos, naseguinte questão: Pergunta 2214 - Não existe diferença entre vigíliae sonho? Resposta - “A vigília é longa e o sonho curto; essa éa única diferença. Assim como os acontecimentos do períodode vigília parecem reais enquanto estamos despertos, tambémos acontecimentos do período de sonho parecem reaisenquanto sonhamos. No sonho, a mente toma outro corpo.Tanto no estado de vigília como no estado de sonho,pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.” Muito provavelmente os sonhos apresentem uma marcaregistrada do sonhador. Cada indivíduo possui um certo padrãode sonho cuja característica básica torna-se sua identidadeessencial. Cada sonhador apresentará, sempre, um estilo própriode sonho, independente de seu conflito pessoal ou das imagensarquetípicas que utilizar. Como o sonho é uma realidade dosonhador, nele vamos encontrar sua identidade e seu estadopsíquico. 14 Ramana Maharshi, Ensinamentos Espirituais.
  35. 35. 35 Pesquisas sobre sonhos A neurofisiologia ainda se encontra embrionária para acompreensão das mudanças bioquímicas que ocorrem durante osono, sobretudo na conexão porventura existente entre a químicacerebral e os sonhos. Sem dúvida que substâncias químicasalteram os padrões de sono, conseqüentemente modificam ossonhos, porém não se sabe o que elas alteram e de que forma ofazem. O desenvolvimento da compreensão fisiológica dos sonhosindiscutivelmente se inicia com a invenção do eletroencefalogramapor Hans Berger, que demonstrou que as ondas cerebrais nãocessam durante o sono. Porém, a primeira descoberta importanteno campo dos sonhos se deu com o estudante americano EugeneAserinsky, em 1953, que, orientado por seu professor defisiologia Nathaniel Kleitman, percebeu, ao observar criançasdormindo, que seus olhos mexiam intensamente durante o sono,mesmo depois de cessada a atividade corporal. Esse estágio dosono passou a chamar-se, por aquele motivo, REM (Rapid EyesMovement – ‘movimento rápido dos olhos’), cujas ondascerebrais se aproximam muito daquelas do estado de vigília. Oestágio REM é chamado de sono paradoxal ou dessincronizado.
  36. 36. 36 É principalmente no estágio REM que os sonhos ocorrem.Enquanto cerca de noventa e cinco por cento das pessoasacordadas durante esse estágio se lembram dos sonhos, apenasdez por cento se lembram dos sonhos quando acordadas emoutros estágios do sono (sono Não-REM). As pessoas privadasdo sono REM têm dificuldade de concentração e memória fraca eas pessoas privadas do sono NREM mostram-se cansadas elentas. Nathaniel Kleitman escreveu sobre o tema, tendo publicadosuas pesquisas pela Universidade de Chicago, com o títuloPadrões de Sonhos, que a seguir comento e, às vezes, transcrevosuas palavras para não lhes alterar o conteúdo, que, com certezatraz informações preciosas aos estudiosos do assunto. Ele inicia criticando as interpretações dos sonhos comovisões proféticas e como determinadores da personalidade,destituindo-lhes o valor científico. Porém ele admite a dificuldadedo pesquisador que queira investigar o processo do sonhorevelando o motivo: − “Somente a pessoa que dormia é quepode, ao despertar, testemunhar o fato de ter sonhado. Se elaafirma que não sonhou, pode ser que tenha esquecido seusonho.” Admitindo essa dificuldade ele prossegue em suainvestigação e chega a descobrir um modo objetivo eaparentemente confiável de determinar se uma pessoa adormecidaestá sonhando – no sentido, é claro, de seu “relato de tersonhado” quando ela acorda ou é acordada. O indicador objetivodo sonho, caracterizado por um padrão diferenciado de ondascerebrais, tornou possível marcar o início e a duração deepisódios de sonho durante a noite, sem perturbar a pessoaadormecida. Ele também pode despertá-la e interrogá-la após constataro início de um sonho. Ele determinou que há uma periodicidade
  37. 37. 37no sonho e observou as conseqüências dos esforços paraperturbar essa periodicidade. Os resultados indicam que o sonho,como um processo fisiológico fundamental, está relacionado aoutros ritmos do corpo. Seu trabalho procura responder a questões como: Será quetodos sonham? Quanto se sonha no decorrer de uma noite desono? Está o “enredo” de um sonho realmente condensado nummomento de sonho? Os estímulos externos e internos – luz,barulho, fome ou sede – afetam o conteúdo dos sonhos? Foi com o trabalho de Eugene Aserinsky que se descobriuque os movimentos oculares forneciam u meio mais confiável mpara distinguir entre as fases ativas e as tranqüilas do sono. Antesisso era feito através dos grandes movimentos corporais. Suasobservações sugeriram que os movimentos oculares poderiam serusados para seguir ciclos semelhantes na profundidade do sonoem adultos. O incômodo para a pessoa adormecida eraminimizado controlando-se remotamente os movimentos ocularescom um eletroencefalógrafo, um mecanismo que registra os sinaiselétricos fracos continuamente gerados pelo cérebro. Taismovimentos oculares começavam geralmente após uma hora emeia de sono e se repetiam em períodos de tempo irregularesdurante todo o sono. Embora a pessoa adormecida estivesse imóvel, as taxas depulsação e respiração aumentavam durante o sono REM,sugerindo uma atividade cerebral emocionalmente15 carregada.Ele testou essa hipótese acordando a pessoa e questionando-asobre o que ocorria naquele momento do despertar. Muito embora as pesquisas de Kleitman não pudessemalcançar o conteúdo dos sonhos, elas chegaram a determinar osmomentos de seu início e fim. Mesmo sabendo que não poderia 15 Destaque do original.
  38. 38. 38entrar no mérito do “enredo” (como ele chama o conteúdo, comaspas) ele anotou: − “O conteúdo alucinatório dos sonhosparecia, desse ponto de vista, ser apenas expressão de umtipo grosseiro de atividade executada no córtex cerebraldurante uma certa fase do sono.” Vale salientar que afirmar seralucinatório o conteúdo do sonho, vem mais do preconceito deledo que de suas pesquisas. Analisando, também distante dos resultados de suaspesquisas, a ausência de censura do sujeito do sonho (que supõeser o próprio sonhador e não o ego onírico), ele afirma o seguinte: “É instrutivo observar o contraste com o tipo deatividade cerebral que caracteriza o estado de vigília emadultos sadios e crianças mais velhas. Respondendo aosimpulsos que chegam dos vários órgãos receptores do sistemasensorial, o córtex primeiro os submete à análise. Relaciona omomento presente da experiência com sua memória dopassado e projeta passado e presente no futuro, pesando asconseqüências da ação não realizada. Chega-se a umadecisão, e o córtex gera uma resposta integrada. Esta semanifesta na ação dos órgãos efetores (principalmentemúsculos) ou na inibição deliberada de ação. (Boa parte docomportamento civilizado consiste em não fazer o quenaturalmente se faria). No processo de sonho, o mesmo tipode atividade cortical se processa num nível inferior dedesempenho. A análise dos fenômenos é falha; o sonhadorreconhece um amigo falecido, mas aceita sua presença semsurpresa. A memória é cheia de fendas e traz confusamente opassado à superfície. Conseqüentemente, a integração daresposta cortical é incompleta e o sonhador é muitas vezeslevado a cometer imaginariamente atos anti-sociais.Felizmente, os impulsos do córtex adormecido morrem acaminho dos órgãos efetores e nada de mal acontece.”
  39. 39. 39 Em seu trabalho ele também verificou que alguns sujeitosrelataram que estavam sonhando durante períodos em que nãomostravam movimentos oculares rápidos. E, algumas vezes,durante o sonho, o coração e a taxa de respiração diminuíam, aoinvés de se acelerarem. Kleitman, citando William Dement, outro estudante de seulaboratório, afirma que o critério mais confiável para se registrar omomento do sonho é o padrão de ondas cerebrais. Ele descreve esse critério a partir dos registrosencefalográficos de uma pessoa em estado de vigília e tambémdormindo. Diz ele: “Uma pessoa que está acordada, mas em repouso, comos olhos fechados, mostra o chamado ritmo alfa – ondascerebrais com uma amplitude relativamente grande e umafreqüência de oito a treze ciclos por segundo. Quandoadormece, a amplitude das ondas diminui e o ritmo cai paraquatro a seis ciclos por segundo. Dement denominou essepadrão de eletroencefalograma Estágio 1. O sono maisprofundo se caracteriza pelo aparecimento de “fusos desono” – séries curtas de ondas que aumentam e diminuemprogressivamente na amplitude e têm uma freqüência de 14a 16 ciclos por segundo. Dement dividiu esse nível de sono emdois estágios (EEG Estágio 2 e EEG Estágio 3). O nível maisprofundo do sono caracteriza-se pelo aparecimentos de ondasgrandes e lentas (EEG Estágio 4). Durante uma típica noitede sono, a profundidade do sono flutua num ciclo que duraaproximadamente 90 minutos. O p adrão do EEG passa oestágio 1. Durante ciclos posteriores o sono não pode ser tãoprofundo; o padrão do EEG pode não ir além do estágiointermediário antes de retornar ao estágio 1.” Kleitman afirma que os movimentos oculares rápidospodem ser horizontais ou verticais e que parecem representar um
  40. 40. 40laborioso esquadrinhar da cena da ação do sono, isto é, aqualidade e direção dos movimentos oculares correspondem aoque o sonhador está olhando ou seguindo com seus olhos. Alémdisso, movimentos oculares rápidos parecem estar relacionadoscom o grau em que o sonhador participa dos acontecimentos dosonho. Um sonho “ativo”, no qual o sonhador está muitoenvolvido, é mais provavelmente acompanhado de movimentosoculares rápidos do que um sonho “passivo”. Isso nos l va a acreditar que o sonho, cujo conteúdo se etransforma em imagens impressionáveis no córtex, interfere noorganismo do indivíduo a ponto de lhe transmitir m ovimentos,mesmo que sejam apenas nos olhos, tal qual um filme que seassiste. Edward A. Wolpert, também da Universidade deChicago, registrou potenciais elétricos de ação também nosmúsculos dos membros de sonhadores, que, ao serem acordadosdurante o sono REM, relataram estarem fazendo movimentos comaqueles membros na mesma seqüência registrada nos eletrodos. Essa interferência não pode nos levar a afirmar que taissonhos não sejam meramente simbólicos, ou que retratem osonhador, num estado psicofísico (“viagem astral”) realizandoalguma atividade física no momento do sono. A atividaderegistrada no eletroencefalograma quer apenas dizer que o sonhointerfere no organismo numa medida capaz de ser captadavisualmente, pelos movimentos oculares, e eletricamente, peloaparelho. Nathaniel vai mais longe justificando o sonambulismo apartir do defluxo motor registrado, em grau extremo. Essa constatação científica derrubou por terra a hipóteseque afirmava serem os conteúdos oníricos oriundos dosmovimentos corporais durante o sono, isto é, o sonhar com ummovimento era fruto do próprio movimento corporal durante osono. Por exemplo: um sonho onde o sonhador está cego seriamero reflexo de sua dificuldade em abrir os olhos ao acordar.
  41. 41. 41 Após suas pesquisas ele afirmou seguramente que t dos osonhavam e o faziam repetidamente toda noite, de acordo com osrelatos obtidos daqueles que foram acordados nos momentosadequados. Ele diz que há ‘recordadores’ e ‘não-recordadores’. Para testar a idéia de que os estímulos externos podemafetar os sonhos de alguém, Dement e Wolpert expuseram algunssujeitos aos estímulos de som, luz e gotas d’água durante operíodo de sonho. O resultado foi o seguinte: “Elementos sugestivos de tais estímulos apareceramapenas numa minoria dos sonhos recontados depois. Oestímulo mais sugestivo foram as gotas d’água caindo napele. Quedas d’água apareceram em seis dos quinzes sonhosrelatados depois de o sujeito ter sido despertado por esseestímulo, e a água apareceu em l4 das 33 narrativas quandoas pessoas estiveram sujeitas ao estímulo, mas não haviamsido despertadas por ele. Uma campainha elétrica usadarotineiramente para despertar os sujeitos apareceu em vintedos 204 sonhos, mas freqüentemente como uma campainhade telefone ou de porta. Afirmou-se que estímulos internos,das vísceras, provocariam ou ao menos i fluenciariam os nsonhos. Afirmou-se que os sonhos sobre comer sãoestimulados por contrações de um estômago vazio. Dement eWolpert tinham três sujeitos que passaram sem líquidosdurante vinte e quatro horas. Em cinco ocasiões, apenascinco das quinze narrativas de sonho continham elementosque poderiam relacionar-se com a sede. Em nenhum doscasos a narrativa envolveu uma consciência da sede oudescrições de beber, embora os sujeitos estivessem muitosedentos quando foram para cama.”16 16 Vale lembrar que, para muitos estudiosos dos sonhos, essa possibilidade justificava a origem dos sonhos bem como explicava seus conteúdos. Ouspensky (1914), pensador russo, formulando crítica à psicanálise, faz uma análise a partir
  42. 42. 42 Nathaniel também verificou o tempo versus quantidade desonho recordada, chegando à conclusão de que quanto maistempo se durma depois do sonho menos o sonhador se recordadele. De suas pesquisas ele concluiu que os sonhos ocorrem emintervalos de noventa minutos e com duração média de trinta ecinco minutos cada, tendo-se em média de três a cinco períodosde sonho, num total de uma ou duas horas de sonho por noite.Foram realizadas 2343 sessões de sono, com 33 sujeitos. Dement concluiu que, provisoriamente, suas descobertassão indicativas de que “uma certa quantidade de sonho é umanecessidade”. De uma forma bastante pragmática, Kleitman conclui emseu relatório que os sonhos podem não ter qualquer funçãosignificativa. Vale lembrar que a atividade cortical nos primeiros estágiosdo sono é diferente daquela registrada ao acordar-se. Os eventose pensamentos do dia certamente estarão presentes nos sonhosocorridos no início do sono. Os sonhos que se dão no final dosono certamente são mais profundos, isto é, alcançam conteúdosmais inconscientes, principalmente pela pouca influência cortical.David Feinstein17 coloca que “Há vigorosos paralelos entreessa estrutura e as descobertas feitas nas pesquisas deRosalind Cartwright, que identificou um padrão noturno, emque os sonhos iniciais tendiam a rever preocupações nãoresolvidas do dia anterior. Em seguida vêm os sonhos queconsideram cenas do passado em que problemas análogos de seus sonhos, onde justifica-os pelas suas crenças da infância e nas dificuldades inconciliáveis entre suas pernas e o cobertor. Para ele, os sonhos estavam relacionados não apenas com a sensação de um estado, mas simplesmente com a sensação e postura do corpo no momento dado. 17 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 36.
  43. 43. 43foram enfrentados anteriormente; depois, vêm os sonhosorientados pelo desejo, em que há a sensação de que oconflito foi resolvido. Os sonhos finais tentam integrar osvários elementos da seqüência de sonhos numa resoluçãoviável do conflito.” Comentários As experiências de Kleitman não devem ser tomadas comoa última palavra sobre os sonhos. Sem sombra de dúvidasrepresentam um avanço sobre o estudo do tema, mas requeremuma revisão tendo em vista o longo tempo que separa a época(1953) da sofisticação atual dos aparelhos que a medicina seutiliza para a investigação cerebral. Estabelecer o momento em que se pode detectar, por meiode uma alteração de freqüência cerebral, que se esteve sonhando,não quer dizer que se desvendou o significado dos sonhos ou desua teleologia. Mesmo considerando que Kleitman se utilizou de todo origor científico exigido, suas conclusões não devem sergeneralizadas. Elas não trouxeram uma compreensão dosignificado dos conteúdos dos sonhos. Conclusões maissignificativas teremos quando for possível alcançar uma amostramais representativa, num tempo maior de pesquisa. Observamos, em certos aspectos, que seu trabalho teveuma preocupação em investigar os pressupostos psicanalíticos.Esse fator pode, de alguma forma, ter provocado um certo viésem seu trabalho. Estudos posteriores, sobretudo os de Krippner(1994), vieram trazer maiores resultados.
  44. 44. 44 O que é o sonho (resumo histórico) Certamente que os sonhos são mais complexos que osconceitos que temos deles. É uma atividade que se processa deforma espontânea em todos os seres humanos, capaz de serregistrada cientificamente. As primeiras notícias históricas sobre sonhos, citadas nolivro No Mundo dos Sonhos, da Time-Life Books, editado porJanet Cave, afirmam existir referência no ano 2070 a. C., de umcerto Rei Mericate, do Egito, que dizia ser o sonho uma intuiçãode um futuro possível. Posteriormente a ele, citados pela Bíblia,há os sonhos de José, bem como aqueles por ele interpretados,cujo conceito se prende a uma certa premonição a partir dasimagens simbólicas trazidas pelo sonhador. Não é difícil encontrar na história da humanidade poetas,pensadores, filósofos, homens de ciência, religiosos, visionários,escritores, etc., que tenham escrito algo sobre sonhos, cujanatureza mágica a todos eles fascinou. Nas civilizações maisantigas, na China, na Grécia, na Índia, e mesmo na Europa, ossonhos exerceram, e exercem, uma atração irresistível pela suaproximidade com o maravilhoso, o espiritual, o divino.
  45. 45. 45 Pode-se, sem sombra de dúvida, afirmar que tal encantopelos sonhos se deve à sua identidade com a essência mítica etranscendente do ser humano. Os antigos viam os sonhos sob pontos de vista diferentes.Alguns eram céticos a ponto de os tratarem como fantasias.Outros, sob a ótica religiosa, acreditavam tratar-se de sugestõesdemoníacas. Outros acreditavam que eles vinham dos deuses quequeriam avisar sobre os destinos humanos, utilizando-os naspráticas adivinhatórias. Outros acreditavam tratar-se de sintomasdas doenças, sendo eles avisos sobre as partes doentias, ou quese tratavam de delírios semelhantes aos dos loucos e eram sinaisde quem estava perturbado mentalmente. Alguns, como ospitagóricos, aceitavam a tese de que os sonhos eram estados daalma que se emancipava entrando em contato com outros seresno mundo não corpóreo. Porém, o mais famoso trabalho sobre sonho vem deArtemidoro de Éfeso, datado de cerca de 150 d.C., cujo títuloera Oneirocriticon (A Interpretação dos Sonhos), onde elecolocava a realidade do sonho como inerente ao sonhador. Eledizia, nos cinco volumes de sua obra, que continha a análise decerca de 3000 sonhos, que podem ser de cinco tipos: simbólicos,proféticos, fantasiosos, pesadelos e visões diurnas. Os antigos acreditavam que os sonhos estavamrelacionados com o mundo dos seres supra-humanos, com osdeuses e com os demônios. Na Grécia antiga existiam templosdedicados à cura advinda da interpretação dos sonhos do doente.Hipócrates (460 – 351 a.C.) já relacionava os sonhos com asdoenças. Aristóteles, filósofo estagirita grego (383 – 322 a.C.),acreditava que os sonhos eram demoníacos, mas que tambémrevelavam aspectos mórbidos do corpo além de seremfragmentos de lembranças dos fatos do dia.
  46. 46. 46 Porém a efetiva entrada do estudo sobre os sonhos nomundo científico acadêmico se deu com o também famosotrabalho sobre o tema: A Interpretação dos Sonhos, de SigmundFreud (1856-1939), datado de 1900. Sem dúvida nenhuma, suateoria sobre os sonhos como realização (disfarçada) de desejosinconscientes abriu um imenso leque de estudos e proposiçõespara os que se dedicavam ao tema. Talvez essa importância sedeva à própria teoria freudiana do inconsciente. A percepção daexistência do inconsciente como instância psíquica e comogerador dos sonhos foi fundamental para o desenvolvimento desua compreensão. É do trabalho de Freud que extraímos amaioria dos nomes e resumos das abordagens dos seguintesautores que se dedicaram ao estudo dos sonhos: Kant (1764) – Afirmava que “o louco é um sonhadoracordado.”; Cabanis (1802) e Lelut (1852) – Estabeleciam um certoparentesco entre os sonhos e as desordens mentais; Burdach (1838) – Criticava a teoria de que o sonho era umestado de vigília parcial. Ele dizia que o sonho é uma atividadenatural da mente e que era a vitalidade livremente operante doscentros sensoriais; Krauss (1861) – Ele dizia que “a loucura é um sonho quese teve enquanto os sentidos estão despertos.”; Griesinges (1861) – Ele afirmava que “As idéias nos sonhose nas psicoses apresentam em comum a característica de seremrealizações de desejos.”; Scherner (1861) – Para ele, o material das imaginaçõesoníricas, além de serem estímulos somáticos orgânicos, falam porsímbolos e não por palavras. Dizia que interpretar um sonho éatribuir-lhe um significado; Robert (1866) – Descreve os sonhos como um processode excreção somático que conscientizamos quando reagimos a ele
  47. 47. 47e que servem como uma válvula de escape ao cérebrosobrecarregado. Eles curam e aliviam; Volket (1875) – Para ele os sonhos representavam partesdo organismo de forma simbólica e apresentavam mais desprazere dor do que prazer; Maury (1878) – O sonho era um estado de vigíliaincompleto e parcial. Ele tinha sonhos hipermnésicos(conhecimento superior inexistente no estado de vigília); Binz (1878) – Os sonhos eram impressões materiais dopassado mais recente, concatenados de forma tumultuada eirregular. Os sonhos deveriam ser categorizados como processossomáticos e que eram, em todos os casos, inúteis e, em muitoscasos, positivamente patológicos; Radestock (1879) – Fazia analogia entre os sonhos e aloucura, seguindo uma tendência comum na Medicina de suaépoca e complementava dizendo que os sonhos eramcompensatórios. Suas idéias influenciaram Freud; Delboeuf (1885) – Para ele, o sonho era uma continuidadeda atividade psíquica; Haffner (1887) – Ele assinalou que ‘Em primeiro lugar, ossonhos dão prosseguimento à vida de vigília. Nossos sonhosregularmente se associam às idéias que tenham estado em nossaconsciência pouco antes. A observação acurada quase sempreencontra um fio que liga um sonho às experiências do diaanterior.’; Eduard von Hartmann (1890) – Para ele, em quem Jung sebaseou no estudo do inconsciente, os sonhos eram contrariedadesda vida de vigília transportadas para o estado de sono; Yves Delage (1891) – Os conteúdos dos sonhos, segundoele, eram fragmentos e resíduos dos dias precedentes e de épocasanteriores. Resultavam da reprodução não reconhecida dematerial já experimentado. A energia psíquica armazenada
  48. 48. 48durante o dia, mediante inibição e supressão, tornava-se a forçamotriz dos sonhos à noite. O material psíquico que tinha sidosuprimido vinha à luz nos sonhos; Herbart (1892) – Ele considerava que o sonho era umdespertar gradual, parcial e, ao mesmo tempo, altamente anormal; Florence Hallam e Sarah Weed (1896) – Realizaramestatísticas com seus próprios sonhos, chegando à conclusão deque eles eram mais desprazerosos que prazerosos; Freud deu continuidade aos estudos sobre sonhos trazendoefetivamente algo novo, sobretudo à compreensão da naturezaessencial dos sonhos. Suas teorias ainda hoje são objeto deestudos e utilizadas na prática clínica. Muitos estudos que foramfeitos posteriormente a ele tentaram desfazer suas teorias, comrelativo sucesso, porém não foram s uficientes para impedir suautilização, nem apagar o brilho de seu pioneirismo na ciênciapsíquica. Sobre os estudos de Jung a respeito dos sonhos em suaatividade clínica, poderemos melhor avaliar seu pensamento numcapítulo à parte. Mas podemos afirmar que sua contribuição foifundamental para o desenvolvimento da própria Psicologia e doentendimento do significado dos sonhos, sobretudo do simbolismoque lhe é característico. Os estudos com rigor científico se tornaram mais freqüentesa partir dos trabalhos de Aserinsky e Kleitman, de 1953, queconseguiram estabelecer parâmetros de detecção do momento dosonho. Esse achado tornou o sonho um objeto científicoimportante para os estudos sobre o sono. Podemos distinguir também determinadas idéias e seusautores em épocas distintas: Hipócrates, considerando que ossonhos refletem problemas patológicos do organismo; oEspiritismo, afirmando que os sonhos são produtos das atividadesdo espírito durante o sono; Freud, assinalando que os sonhos são
  49. 49. 49realizações de desejos reprimidos; Jung, estabelecendo que ossonhos são manifestações simbólicas do inconsciente; Ouspensky,colocando que os sonhos são produtos dos movimentoscorporais; e, por fim, Kleitman, mostrando que os sonhos sãoprodutos de atividades cerebrais. Nem sempre as afirmações decada um deles se baseou nas hipóteses anteriores, mas, não sepode negar que, no seu conjunto, elas formam a base da históriados estudos sobre os sonhos. Isoladas, essas idéias se mostramincompletas para a percepção global dos sonhos e de seu realsignificado. Ainda estamos longe de alcançar uma precisão maior sobreo sentido dos sonhos e seus significados, pois, em face de suanatureza, eles ainda são pouco estudados e, quando isso ocorre,muitos autores sustentam-se em teorias cuja comprovaçãocientífica se torna difícil. Em ciência é fundamental teorizar, porémpreconceber dogmaticamente torna-se um crime contra o bomsenso coletivo.
  50. 50. 50 Os sonhos em Jung Talvez os sonhos sejam um dos temas mais abundante naPsicologia de Jung. Se não o for, creio que seja o mais recorrente,dada a sua importância para a compreensão dos aspectosinconscientes da psiquê. Ele soube notar a importânciafundamental desse fenômeno para a compreensão da n aturezahumana e de seu desenvolvimento. Seus estudos mais importantesincluem essa via de acesso aos conteúdos inconscientes damesma forma que um astrônomo se utiliza do telescópio para vero universo. Ele o explorou de várias formas sobre pontos de vistanunca antes experimentados. Dos teóricos que se dedicaram aoestudo dos sonhos, ele foi o que mais se utilizou de estudosexperimentais para o desenvolvimento de suas afirmações. Foi fundamental para Jung o desenvolvimento do m étododas associações de palavras na constituição de sua teoriapsicológica, em particular no que se refere à descoberta doscomplexos e à análise dos sonhos. Em 1902, antes de avistar-se com Freud, Jung, então umjovem médico de 27 anos, tece algumas considerações sobre ossonhos em seu trabalho Estudos Psiquiátricos18 , onde considera 18 Obras Completas, Vol. I, par. 97.
  51. 51. 51que os sonhos apresentam à consciência um simbolismo daquiloque nunca é admitido. Neste particular, que se refere à formacomo o sonho se apresenta, ele parece querer mostrar, com outralinguagem, o que Freud chamava de conteúdo latente dos sonhos.Ao analisar os fenômenos denominados de alucinações, Junglevantava uma questão a respeito dos estudos de Freud sobresonhos, em seu Die Traumdeutung, cuja leitura lhe fora recente.Ele, embora admitisse o simbolismo expresso pelo sonho, nãoidentificara, no caso em estudo, a repressão afirmada por Freud.Reconhecia uma certa censura no sonho, como Freud já haviaassinalado antes. Creio que, talvez, ele já percebesse osimbolismo de que os sonhos se revestem. Jung considerava que “quanto menos a consciênciaacordada interferir com reflexões e cálculos, mais segura econvincente será a objetivação do sonho.”19 Atribuindo aoinconsciente o papel de gerador dos sonhos, ele deixa em abertoa possibilidade da interferência da atividade consciente (o desejo,por exemplo). Ele não considerava que os sonhos não pudessem ser frutoda realização de desejos sexuais, como consta no parágrafo 120do Volume I de sua obra. Porém, ele admitia a existência deoutros tipos de sonhos com outras interferências. Mais tarde, na sua obra Estudos Experimentais, escritaentre 1904 e 1907, ele cita20 outro tipo de sonho, o sonambúlico,que surge como sintoma da histeria. Nesta mesma obra ele vaiestabelecer21 o paradigma de que há sonhos que são expressõessimbólicas do complexo, cujo conceito ainda não estava bemdefinido claramente. Jung fazia estudos sobre associação, sonho esintoma histérico e c olocava o sonho como sendo uma porta à 19 Idem, par. 117. 20 Obras Completas, Vol. II, par 157. 21 Idem, par 823.
  52. 52. 52compreensão dos complexos. Mais tarde ele vai assinalar que oinconsciente é de tal forma rico que não se pode ter a pretensãode enxergá-lo a partir de uma única estrutura (o sonho). Noparágrafo 844 ele diz: – “Vimos principalmente que os sonhosconfirmam o complexo revelado nos testes de associação. Asassociações indicam um complexo sexual intenso e os sonhosse referem exclusivamente, por assim dizer, ao tema doacasalamento. Ficamos sabendo que os complexos queconstelam as associações no estado de vigília tambémconstelam os sonhos. Encontramos também na análise dossonhos os mesmos bloqueios que se manifestam noexperimento das associações. A análise das imagens oníricasrevelou o complexo sexual, sua transposição para o autor, adesilusão e volta da paciente para a mãe e o reatamento deuma relação infantil e misteriosa com o irmão.” Seus estudoso levaram ao inevitável paralelismo entre os sonhos e oscomplexos. Como Freud, Jung também considerava os sonhos comoresíduos do dia. Ele empregava, na análise, o métodopsicanalítico freudiano. Ele afirmava22 que os sonhos, ao invés deserem conseqüência de desejos reprimidos, eram representaçãode complexos reprimidos. Ainda nesta época, por volta de 1906, Jung publica seutrabalho intitulado Psicogênese das Doenças Mentais, onde elecontinua a colocar a análise dos complexos juntamente com ossonhos. No capítulo III – A influência do complexo de tonalidadeafetiva sobre a valência da associação, daquela obra, noparágrafo 122, ele afirma: – “Os sonhos também se estruturamsegundo os modos de expressão simbólica do complexoreprimido, (...). Na verdade, encontramos os mais belos 22 Obras Completas Vol. III, par. 308.
  53. 53. 53exemplos de expressão por semelhança de imagens nossonhos. Freud reconhecidamente abriu um novo horizontepara a análise dos sonhos. Espero que a psicologia logovenha a perceber esta verdade, que lhe traria enormesbenefícios. Nessa perspectiva, a Interpretação dos Sonhos deFreud é fundamental no que concerne ao conceito deexpressão por semelhança de imagens, tão i portante na mpsicologia da dementia praecox.” Jung considerava que a maiorparte dos complexos fosse de origem erótica-sexual, porémafirmava que existiam outros tipos. Seguindo a cronologia, num texto escrito em 1909, emfrancês, ainda contaminado pelas idéias de Freud, embora jáapresentando aspectos novos e preparando sua teoria sobre ossonhos, Jung coloca que as sensações orgânicas não são a causados sonhos. Os sonhos possuem um significado. Eles desfiguram,mas apontam para o complexo reprimido. Essa desfiguração éfeita pela censura. Perguntar ao sonhador o significado direto dosonho é perder tempo. Deve-se ir às associações. Deve-se fazerperguntas ao sonhador. Quem? O que? Etc. No volume V das Obras Completas, Símbolos daTransformação, escrito entre 1911 e 1912, que marca adissidência entre ele e Freud, encontramos elementos através dosquais se pode dizer efetivamente que ele apresenta uma novateoria dos sonhos. Desenvolve o conceito de que os primeirossonhos em análise tratam da relação transferencial e servem deexcelente instrumento ao analista no seu trabalho terapêutico.Procura demonstrar que as bases inconscientes dos sonhos nãosão somente reminiscências infantis, mas, na realidade, tratam-sede formas de pensamento primitivas ou arcaicas, que naturalmenteaparecem mais claramente na infância do que depois. Coloca aquestão da compensação dos sonhos em relação ao estadoconsciente, isto é, completam o que nele falta. Apresenta a idéia
  54. 54. 54dos sonhos prospectivos afirmando que “os sonhos repetem arealidade com exatidão excessiva ou insistem com excessivanitidez numa realidade antecipada”. Em 1916, Jung volta a abordar a importância dos sonhospara o conhecimento das camadas do inconsciente, pessoal ecoletivo, colocando os arquétipos como estruturas pertencentes aestes últimos, e que surgem nos sonhos, a exemplo da sombra.Critica o procedimento redutivo, exclusivamente causal, na análisedos sonhos, face aos símbolos não mais serem passíveis deredução às reminiscências ou anseios pessoais, por trazeremimagens do inconsciente c oletivo. A partir de muitos fracassos,segundo Jung, ele abandonou a orientação exclusivamentepersonalística da psicologia terapêutica. Ele afirmava que todaanálise deve ser seguida de uma síntese, e essa síntese deve serfeita com o material arquetípico ampliado. Reafirma a naturezacompensatória dos sonhos a fim de conservar o equilíbrio daalma, porém, esta não é a única finalidade da imagem do sonho.Ele (o sonho) também retifica a concepção do paciente. Suatécnica se reforça com a busca dos elementos arquetípicospresentes nos sonhos e sua necessidade de compreensão porparte do paciente. Mais tarde, em 1921, no volume VI, Tipos Psicológicos,ele tratou do tema, reforçando a idéia de que os sonhos possuema facilidade de fazer reaparecer a realidade primitiva da imagempsíquica, encontrando neles os temas da mitologia grega presentesem negros de raça pura, além de uma faculdade de antecipar ofuturo de forma construtiva visando o desenvolvimentopsicológico. Assinala novamente a função compensadorainconsciente. Neste volume ele também desenvolve os conceitossobre as interpretações no plano do objeto e no plano do sujeito.Sobre esse assunto ele afirmava: “Quando falo de interpretarum sonho ou fantasia no plano do objeto, quero dizer que as
  55. 55. 55pessoas ou situações que neles aparecem são objetivamentereais, em oposição ao plano do sujeito em que as pessoas ousituações nos sonhos se referem exclusivamente a grandezassubjetivas. A concepção freudiana dos sonhos estáexclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejosnos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuaisque incidem na esfera fisiológica, portanto extrapsicológica.” Em 1928, ao escrever os “Aspectos Gerais da Psicologiado Sonho”, ele desenvolve outros conceitos que reforçam suasconcepções, cada vez mais distanciadas das idéias freudianas.Para Jung, nessa época, o sonho é uma criação psíquica quecontrasta com os conteúdos habituais da consciência. Não é oresultado de uma continuidade da experiência, mas o resíduo deuma atividade que se exerce durante o sono. Porém, eles nãoestão totalmente à margem da continuidade da consciência, poisse podem encontrar detalhes que provêm do dia anterior ou dedias anteriores. A dificuldade de se recordar os sonhos vem dacombinação das representações numa seqüência estranha aomodo habitual de se pensar. Chamam-se os sonhos de absurdospela própria projeção da incapacidade de entendê-los. Asignificação psicológica mais profunda dos sonhos é semelhanteao sentido moral oculto das fábulas. Para se explicarpsicologicamente os sonhos deve-se investigar as experiênciasprecedentes de que se compõem. Ele considerava que, para se entender o sentido do sonhodeve-se perguntar ao paciente que elementos estão associados àimagem onírica. Lugares conhecidos, familiares, parentes, fatospassados, etc., porém a redução é insuficiente. Deve-sequestionar o “porquê” daquelas associações e não outras. Umacausa só é insuficiente. “Só a influência de várias causas écapaz de dar uma determinação verossímil das imagens dosonho.” Pode-se evocar toda a história do indivíduo como
  56. 56. 56material associativo ao sonho, porém deve-se ir até onde possaparecer necessário. Deve ser feita uma seleção do material esubmetê-lo ao método comparativo. Os fenômenos psicológicospodem ser abordados de duas formas: causalidade e finalidade.Do ponto de vista causal, o material recolhido leva às tendências.Saindo da causalidade e indo para finalidade, Jung pergunta paraque serve o sonho. Para que e não por que ele ocorre. Ele nãodeixa de concordar com as interpretações causais, porém vai maisalém. Afirma que a compreensão não é um processo intelectual. Aeficácia dos símbolos religiosos é um exemplo disso. O sonho nãoé simplesmente uma instância moral. O inconsciente é aquilo quenão se conhece num dado momento. O sonho acrescenta àsituação psicológica aspectos essenciais desconhecidos. O sonhoacrescenta ao sonhador aspectos que foram ignorados por ele. Critica novamente a concepção freudiana pela limitação àanálise causal, que parte do desejo recalcado e que tudo poderiadesembocar no aspecto genital erótico. Para ele a linguagem dossonhos não deve ser interpretada em sentido concreto. Alinguagem sexual é de natureza arcaica, cheia de analogias, semcoincidir todas as vezes com o conteúdo sexual verdadeiro. Eleafirma a riqueza dos símbolos e critica a uniformidade designificação. Para ele o ponto de vista causal tende para essauniformidade, ao contrário do final, baseado na concepção de queo símbolo não dissimula, ensina. O ponto de vista final é capaz deconcorrer para a educação prática da personalidade, pois mostrao que ela está negligenciando. Muito embora assinale a limitação da análise causal eleconsidera que a psiquê não pode ser entendida apenas pelomodo causal. Ela também exige uma abordagem finalista. O sonhosó pode ser melhor compreendido pela conjugação dos doispontos de vista. Quanto aos motivos dos sonhos, eles podem ser
  57. 57. 57encontrados nos mitos e contos de fadas. A psicologia onírica éuma psicologia comparada. Muito embora se deva munir doselementos mitológicos, ele considera que os sonhos comunicampensamentos, julgamentos, concepções, diretrizes, tendências,etc., inconscientes recalcados, reunidos associativamente face ànecessidade do estado momentâneo da consciência, sendofundamental conhecer-se esse estado para se compreender osonho. Como ele considerava que todos os sonhos têm um carátercompensador em relação aos conteúdos conscientes, elescontribuem para a auto-regulação da psiquê. Nesse processo decompensação, ao contrário de Freud, ele dizia que o sonho éjustamente aquilo que mais perturba o sono. Ele afirma que aconcepção de Freud é estreita e reafirma a função compensadorados sonhos em dado momento da consciência. As atitudesunilaterais da consciência sofrem a reação do inconsciente com ointuito de manter o equilíbrio produzindo sonhos em contrastecom aquelas atitudes ou idéias fixas. O caráter compensador dossonhos é individual e se manifesta de acordo com a personalidadede cada um. A função compensadora implica que o inconscienteacrescenta à situação consciente todos os elementos que nãoalcançam o limiar da consciência por causa do recalque ousimplesmente por serem débeis demais para chegar à consciência. Ele aborda a questão da finalidade como uma funçãoprospectiva e que ela é uma antecipação, surgida no inconsciente,de futuras atividades conscientes, um exercício preparatório ouum esboço preliminar, um plano traçado antecipadamente. Ela ésuperior à combinação consciente e precoce das possibilidades,face aos conteúdos subliminares do inconsciente e atua quando oindivíduo se encontra inadaptado ou fora da norma. Porém, alertaque a função prospectiva dos sonhos pode levar a se exagerar aimportância do inconsciente. A importância do inconsciente é
  58. 58. 58quase igual à da consciência. Não se deve desprezar a atitudeconsciente e guiar-se pelos sonhos. Quando o indivíduo estáaquém do que pensa que é, a função prospectiva atuanegativamente, adquirindo um caráter de uma função redutora doinconsciente, levando-o a perceber-se através de imagensinferiores ao seu papel consciente. Ampliando os tipos de sonhos e sua função para oindivíduo, cita um outro comum em situações t aumáticas. Ele rdizia que os sonhos redutores, prospectivos, compensadores, nãoesgotam todas as possibilidades de interpretação, pois há sonhosreativos que derivam de situações traumáticas graves. Essessonhos reproduzem uma situação traumática vivenciada até queseu conteúdo seja destituído da intensa carga afetiva associada aotrauma e possa ser reintegrado na hierarquia psíquica. Ele éreativo quando a interpretação analítica não interrompe suaprodução dramática. Fala da influência do organismo do sonhador na produçãodos sonhos, afirmando que os estímulos somáticos sóexcepcionalmente têm sua significação determinante nos sonhos.Coloca também que os fenômenos telepáticos também exerceminfluência sobre os sonhos. Eles são os que antecipam no tempo eespaço um acontecimento, por exemplo, o falecimento de alguém;muito embora considere que não haja leis sobrenaturais, sabe-seque há fatos cuja explicação transcende o saber acadêmico. Sobre o significado intrínseco das imagens oníricas eleanalisa primeiro a questão das projeções, considerando anecessidade de se estabelecer diferença entre o objeto e suaimagem. Para ele, os conteúdos do nosso inconsciente são todosprojetados em nosso meio ambiente. Deve-se perceber aimportância das projeções e o valor simbólico do objeto. Ainterpretação objetiva decorre, às vezes, da incapacidade dedistinguir-se entre o objeto e a idéia que se tem dele. Há apenas
  59. 59. 59uma relação estética entre a imagem e o objeto. Assim, como nãotemos uma idéia precisa de alguém, a imagem onírica expressa asubjetividade. As imagens oníricas são partes constitutivas denossa mente. São fatores subjetivos que se agrupam numaimagem, não por motivos externos, mas por motivos internosdesconhecidos. A interpretação ao nível do sujeito concebe todasas figuras do sonho como traços personificados da figura dosonhador. Ele se questiona sobre o que é mais importante: o níveldo objeto ou o nível do sujeito? Os laços afetivos com apersonagem do sonho pode levar a um dos lados. A substituiçãodas figuras é um trabalho dos sonhos motivado pelo recalque. Énatural que ocorram substituições das figuras nos sonhos já que orecalque mantém afastado da consciência aqueles conteúdos queainda não são passíveis de integração. Desse modo, o sonhoapresenta tais conteúdos sob a forma de imagens (símbolos) quepenetram na consciência pela necessidade de serem reconhecidose trabalhados. Tal substituição pode refletir o pouco valor doafeto com a pessoa. A interpretação ao nível do sujeito traz aosonhador uma ajuda a fim de que corrija suas atitudesinadequadas. Além disso, a relação vital entre o sonhador e apersonagem do sonho auxilia a decidir qual será o nível deinterpretação a ser empregado. A interpretação no nível dosujeito perturba a concepção ingênua da identidade dosconteúdos da consciência com os objetos. Toda religião antiga sefundamenta nessa ligação mística com o objeto, onde asprojeções inconscientes são colocadas. Em 1947 é publicado o texto escrito em 1931, oriundo deum discurso, intitulado “A aplicação prática da análise dossonhos”, onde Jung estabelece novas considerações s obre ossonhos e sua prática psicoterapêutica. Baseando-se no conceito de inconsciente, formulado porC. G. Carus, no “campo incomensurável de idéias” de Kant e na
  60. 60. 60formulação de um inconsciente anímico de Leibnitz, ele afirma queo problema dos sonhos não subsiste sem a hipótese doinconsciente, pois sem ele, reduzem-se às sobras do dia. Para eleo objetivo da análise dos sonhos é a descoberta e aconscientização de conteúdos até então inconscientes, sendo elessua expressão direta e capazes de apresentar sua etiologia. Algunssonhos são mais complexos e neles não transparecemprognósticos nem etiologias, porém podem apresentar umaorientação à terapia. Os sonhos apresentam a situação inconsciente como ela é,independente do desejo do sonhador ou das interpretações doanalista. Quando a análise é causalista, o sonho pode ser privadodo sentido de indicar algo ao sonhador. Os sonhos iniciais daanálise são mais claros e de fácil entendimento. À medida que otratamento avança, eles perdem a clareza e, se essa condiçãopermanece, é sinal de que a análise não chegou à parte essencialda personalidade. Há sonhos iniciais que desvendam toda aprogramação futura do inconsciente e que, por motivosterapêuticos, não se deve revelar ao paciente. Muitas vezes,quando o analista considera que o sonho, ou mesmo seu paciente,é confuso, ele deveria admitir sua própria confusão, reconhecendosua projeção. Segundo Jung, o analista deve tentar convencer o paciente,e, em certos casos, mostrar-lhe sua resistência. Porém deve,acima de tudo, querer buscar o consenso, o que impedirá asugestão, na análise do sonho, evitando a compreensão unilateral,pois ela pode ser fruto da tentativa de encaixar sua opinião numaortodoxia. O paciente não deve ser instruído acerca de umaverdade, mas evoluir até ela. Nesse ponto, o analista deve evitar asugestão ao paciente, sempre convidando-o a dar sua opinião e atomar decisões quando colocado diante de problemas. Da mesmaforma o analista deve precaver-se para não se confundir com as

×