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    3.1.guimaraes organizacao 3.1.guimaraes organizacao Document Transcript

    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92 A organização do trabalho na produção da vida humana de base científica laboratorial Valeska Nahas Guimarães, UFSC valeska_kenaz@yahoo.com.br Samya Campana, UFSC samyacampana@gmail.comResumoEste artigo tem origem em pré-projeto de doutorado intitulado “Emancipação humana pela educação?A prática pedagógica engrendrada pelo desenvolvimento das forças produtivas sociais de basecientífica-laboratorial” desenvolvido a partir dos resultados de dissertação de mestrado. A pesquisatem como pressuposto que o processo de produção laboratorial, a exemplo do Laboratório Nacionalde Luz Síncrotron (LNLS) (localizado na cidade de Campinas em São Paulo, sendo o único dohemisfério Sul), é o que há de mais avançado em termos de forças produtivas sociais sob égide docapital. Não obstante, essas considerações nos remetem a duas indagações que são nosso norte, jáque constituem parte importante dessa pesquisa doutoral: há ou não há uma “nova forma deorganização do trabalho” que se manifesta nessa nova forma produtiva laboratorial? Se estamosdiante de uma nova forma de organização do trabalho que se constitui e se desenvolve no e pelo“sistema de laboratório”, será ela reafirmadora ou contestadora da sociedade capitalista? Destarte,indagamos se essa nova forma de organização do trabalho traz em seu bojo relações sociais querepresentem um avanço, ou mesmo, a superação das relações capitalistas. Inicialmente, para buscarrespostas a essas indagações, nos utilizamos neste artigo de uma revisão dos modelos e formas deorganização do trabalho, incluindo-se uma discussão sobre as novas formas de organização dotrabalho, objetivando diagnosticar ou não uma simetria entre os modelos e formas de organização dotrabalho e a organização do trabalho na produção de base científica laboratorial.Palavras-chave: organização do trabalho, novas formas de organização do trabalho, sistema delaboratórioAbstractThis article has its origin in a pre-doctoral project entitled “Education for Human Emancipation”. Theteaching created by the development of social productive forces of scientific and laboratory "developedfrom the results of Masters thesis. The research has the assumption that the process of laboratoryproduction, such as the National Laboratory of Syncrotron (located in the city of Campinas, in SãoPaulo, the only one of the South) is the most advanced in terms of social productive forces under theaegis of the capital. Nevertheless, these considerations send us to two questions which are our goal,once they constitute an important part of this doctoral research: is there or is there not a “new form ofwork organization” which rises in this new form of laboratory productive form? If this is a new way oforganizing work that is developed and is in and the “laboratory system,” is it reaffirming or contestingthe capitalist society? Therefore, we ask whether this new form of organization of work itself bringsinside some new social relation which may represent a step ahead or even an overcoming of thecapitalist relations. At first, in search of answers for theses questions, in this paper we used a review ofmodels and forms of work organization, including a discussion about the new forms of workorganization, aiming at diagnosing or not symmetry among the models and forms of work organizationin the scientific-based laboratorial production.Key-words: work organization, new forms of work organization, laboratory system.GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 153
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 921. IntroduçãoNas últimas quatro décadas a humanidade tem vivenciado transformações no modo comoproduz o capitalismo e a si mesma. Na década de 1970, muito se falava em crise; na de1980, os termos de moda foram “reestruturação e reorganização”; na de 1990, deixou-se deter certeza de que a crise já estaria solucionada e começou a se difundir a visão de umanova fase histórica do capitalismo, chamada por alguns de pós-moderna; na de 2000, fala-se de névoa, incerteza, transição, admitindo-se a possibilidade concreta de umatransformação radical (senão de colapso das relações capitalistas) e de abertura pararelações de um tipo novo.A tese assumida é a de que o modo de produção capitalista está atravessando ummomento decisivo e que as transformações em curso não têm precedentes. Entendendoque a história não se repete, seu primeiro pressuposto é a consideração da afirmação,negação e superação do Modo de Produção Capitalista (MPC) à luz do movimento de suabase material e da constituição do ser social. Suas formas sociais orgânicas de produzir(artesanal, manufatureira e industrial) são e expressam o movimento de seus próprioscriadores - os homens -, suas relações sociais de produção burguesas, no tempo e noespaço ao decomporem o trabalho individual como fonte da vida e constituírem o trabalhosocial como fundamento da existência humana (AUED, 2005, 1999). O segundopressuposto é a constatação de que a superação do modo de produção capitalista se faz,no presente, a partir de uma nova forma social orgânica de produção, contraditória etransitória que emerge do desenvolvimento das forças produtivas sociais, mas que nadatem em semelhante com a forma da grande indústria (muito menos da manufatura e doartesanato), porque mesmo tendo sido embutida em seu bojo, desta se separou superando-a e, provisoriamente, foi chamada de “sistema de laboratório” (CAMPANA, 2006).Em continuidade ao desenvolvimento dessa tese, foi originado um pré-projeto de doutoradointitulado “Emancipação humana pela educação? A prática pedagógica engrendrada pelodesenvolvimento das forças produtivas sociais de base científica-laboratorial”, com enfoquena Educação para saber se esta se configura de forma diferenciada em relação àinteriorização e legitimação das condições do MPC. Essa pesquisa tem como pressupostoque o processo de produção laboratorial, a exemplo do Laboratório Nacional de LuzSíncrotron (LNLS), localizado na cidade de Campinas em São Paulo, sendo o único dohemisfério Sul, é o que há de mais avançado em termos de forças produtivas sociais sobégide do capital. Seu objetivo é relacionar essa nova forma produtiva ao processoeducacional do ensino e pesquisa universitários visando compreender essa relação socialcomo afirmação, negação e superação do próprio modo de produção que a produz.Não obstante, essas considerações nos remetem a duas indagações que serão aqui nossonorte: na prática, constata-se o surgimento de uma Nova Forma de Organização doTrabalho (NFOT) que se manifesta nessa nova base produtiva laboratorial? Será estaemancipatória? Se estamos diante de uma NFOT que se constitui e se desenvolve no epelo “sistema de laboratório”, será ela reafirmadora ou negadora da sociedade capitalista?Destarte, indagamos se essa NFOT traz em seu bojo relações sociais que representam umavanço, ou mesmo, a superação das relações capitalistas. Finalmente, uma perguntainspiradora: o que essa nova base produtiva laboratorial e, se for o caso, essa NFOT podesignificar em termos da modernização tecnológica de regiões periféricas, no atual contextode esgotamento dos recursos planetários?Inicialmente, é preciso compreender a Organização do Trabalho (OT) no modo de produçãocapitalista (MPC) como uma manifestação concreta de como o capital atinge o seu objetivode valorização através da dominação exercida sobre a força de trabalho, a qual, nãopossuindo o controle dos meios de produção, submete-se ao assalariamento (ROESE,1992). Trata-se da forma de extração de mais-valia absoluta, enquanto o desenvolvimentoGUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 154
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92tecnológico dos meios de produção representa a forma de obter mais-valia relativa(GUIMARÂES, 1995).No entanto, apesar de identificada a lógica geral que enseja a organização do trabalho noMPC, não é tarefa fácil caracterizá-la, dado que representa um locus privilegiado, ondeencontram-se, intimamente associados, os aspectos políticos, técnicos, econômicos,psicológicos, sócio-culturais (ORSTMAN, 1984, FLEURY, 1987).Essa confluência de áreas tem impelido como pressuposto a análise interdisciplinar daorganização do trabalho, numa concepção ampla, ao contrário do tratamento convencional,afinado com uma postura normativa, tradicionalmente oferecido pelas CiênciasAdministrativas e pelas Engenharias, que se limitam a interpretá-la como organizaçãoracional do trabalho1 - tampouco deve ser conduzido unilateralmente pelas Ciências Sociais(especialmente a Sociologia, a Psicologia e a Política) sem entrar no mérito dosprocedimentos operacionais, presente nas situações reais do trabalho (FLEURY, VARGAS,1983 apud GUIMARÃES, 1995).A interdisciplinaridade permite avançar quanto à interpretação da OT, sugerindo a inclusãodas relações sociais, os níveis de responsabilidade, as qualificações necessárias além dacadência, da variedade e complexidade das tarefas, ou, ainda, relacionando a OT com apolítica industrial que estrutura o conjunto (MELO, 1985). Para Guimarães (1995), dessainterpretação ampla, decorre, em primeiro lugar, que a OT está relacionada à estrutura depoder e ao controle organizacional e que se refere tanto ao conteúdo (através da concepçãode postos e tarefas) quanto às condições materiais de trabalho, cujas fronteiras não sãofáceis de precisar. Enfim, entende-se que a OT lida com uma diversidade de combinaçõesde elementos que compõem o próprio processo de trabalho.2Em nível mundial, a partir da década de 1950, constata-se uma tendência de integração dediversas áreas de conhecimento nos estudos sobre a organização do trabalho (comoocorreu com a equipe de pesquisadores do Instituto Tavistock de Londres). No Brasil,somente a partir da década de 1980, observa-se um esforço entre os pesquisadores da OTno sentido de romper as barreiras que delimitam o campo de conhecimentos sobre aquestão: contrapondo-se à práxis internacional, grupos de pesquisadores com formaçãobásica em Engenharia, passaram a utilizar os seus conhecimentos técnicos à luz dasCiências Humanas e Sociais (GUIMARÃES, 1995).No entanto, embora o tratamento interdisciplinar da OT represente uma tendência geral emnível nacional e internacional, inexistem propostas concretas de unificação de metodologias,tampouco, conclusões convergentes sobre o tema (SORENSEN, 1985; CASASSUS-MONTERO, 1989).Um dos procedimentos sugeridos para a melhor compreensão da diversidade de formas deOT refere-se aos estudos comparativos, desenvolvidos em nível internacional, conformeproposto por Cassasus Montero (1989). A autora defende que “as formas de organização dotrabalho resultam certamente de escolhas das empresas face às alternativas tecnológicas edo mercado, mas estão também inscritas dentro de um sistema institucional” (ibid., p.156).Assim, estudos comparativos em nível internacional tendem a encaminhar-se de acordocom duas correntes: a) a primeira defende a possibilidade de determinar perfis comuns e,portanto, abre a possibilidade de generalização, pressupondo que, apesar dascaracterísticas distintas de cada país, a heterogeneidade de respostas não é ilimitada, e b)a segunda destaca as especificidades nacionais como condicionantes das formas de OT, as1 Mas vale ressaltar, conforme Guimarães (1995), que mesmo no campo da Engenharia, atualmente observa-seuma tendência de ampliar o entendimento da OT relacionada apenas às exigências físicas com relação aosequipamentos, suas características técnicas e localização; ritmo; seqüenciamento das operações e divisão dastarefas, acrescentando-se algumas preocupações ergonômicas e de condições ambientais.2 Dentre esses elementos, uma posição significativa é ocupada pela tecnologia: “a OT lida com as combinaçõespossíveis entre tecnologia e utilização da força de trabalho” (ROESE, 1992, p.21). Para ROESE (1992) esteconceito engloba a forma como o trabalho é dividido; o conteúdo das tarefas; a hierarquia e o modo como sãotomadas as decisões no local de trabalho; a relação homem/máquina (número de máquinas por operador, ritmo ecadência de trabalho); como estão constituídos e integrados os postos de trabalho (se individual ou grupal, onúmero de componentes da equipe, responsabilidades e grau de autonomia). GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 155
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92quais resultam do desenvolvimento próprio de cada sociedade; as diferenças entre asformas de OT são interpretadas historicamente.3Com relação à aparente diversidade das várias abordagens comparativas internacionais,um ponto comum a destacar é a crítica ao determinismo tecnológico, pois os estudoscomparativos internacionais demonstram que empresas utilizando as mesmas tecnologias,porém situadas em países diferentes, apresentam uma diversidade de formas deorganização do trabalho.Feitas essas considerações acerca da justificativa deste artigo e das possibilidades deabordagens para caracterizar a organização do trabalho no modo de produção capitalista,adotaremos o procedimento de desvelar organização do trabalho existente na materialidadecapitalista, admitindo o existente como a força produtiva materializada na máquina-ferramenta-automática de precisão quântica (CAMPANA, 2006) e a partir da discussão e daproposta de classificação apresentadas por Guimarães (1995) a respeito da organização dotrabalho. Indicaremos num primeiro momento os principais elementos dessa nova forma deos homens produzirem, a saber, a produção de base científica laboratorial. Num segundomomento, a após uma panorâmica sobre os modelos existentes para caracterizar aorganização de trabalho, apresentaremos as características da organização do trabalho naprodução de base científica laboratorial conforme o modelo proposto por Guimarães (1995)e de inspiração no Quadro de Liu (1983). O objetivo do artigo é com auxílio desses modeloscompreender a realidade evidenciada pela produção de base científica laboratorial,tentando responder as seguintes questões: há uma nova forma de organização do trabalhona produção de base científica laboratorial? O que pode ser inferido sobre a modernizaçãoperiférica a partir dessa nova organização do trabalho neste espaço?2. A nova forma de os homens produzirem em questãoSeguindo o trabalho desenvolvido por Campana (2006), cujo guia para se compreender talforma de produção foi a dialética materialista, explicitando os nexos e as mediações de umaforma de produção para outra, nosso ponto de partida real não é nem grande indústria nema ciência conscientemente aplicada do final do século XIX, mas a do final do séculoXX/início do século XXI. E é esta ciência atual que remodela à sua produção as formas dagrande indústria, manufatureiras e artesanais. A ciência, atualmente, vista comodecomposição da matéria mesma em partículas quânticas é a própria decomposição doobjeto de trabalho em si e para si e se origina da decomposição dos instrumentos detrabalho, realizada pela grande indústria, cujo ponto de partida fora a máquina-ferramenta-automática. Portanto, temos que a grande indústria hoje se transmuta, ao ser determinadapelo sistema de laboratório, passando a integrar uma nova totalidade: antes, a grandeindústria foi engendrada pela manufatura – a qual alterava a forma exterior dos objetos -,mas agora é a parte operacional do Sistema de Laboratório alterando a forma exterior dosobjetos a partir dos avanços sobre a constituição e manipulação atômica da matéria.43 Segundo Guimarães (995), Cassasus-Montero (1989) sugere quatro tipos de abordagens que podem serseguidas na condução de estudos comparativos: a sistêmica, a cultural, a política e a estratégica, as quais não sãoexcludentes entre si. Os defensores da corrente crítica assumem, em seus estudos, uma abordagem política daOT, valendo-se da análise dialética do trabalho. É o caso dos estudos de Zimbalist et. al. (1979), Palloix (1982),Tronti (1982), Braverman (1987), Gorz (1989). No Brasil, podem ser citados os estudos de Espíndola (1985),Kuenzer (1985), Bruno e Saccardo (1986), Marques (1987), Vieira (1989), Humphrey (1990), Faria (1992, 1987,1985).4 Cabe enfatizar que, para Campana (2006), a relação histórica entre manufatura e grande indústria modernatambém foi mediada pela ciência, na forma do que a autora chamou de “laboratório”, porque os avanços não eramsuficientes para se compreender a estrutura atômica da matéria, embora já tivesse sido iniciado o processohistórico de decomposição de seus elementos mais simples. O que se sucedeu ao desenvolvimento da grandeindústria moderna em seu último grau (e por causa disto) é também a ciência, porém elevada a um novo nível - epor isso chamado pela autora de “sistema de laboratório” – porque visa a decomposição, manipulação erecomposição dos elementos simples integrantes à matéria (CAMPANA, 2006). Qual seria, atualmente, a diferença GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 156
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92O Sistema de Laboratório, apesar de não estar mencionado em Karl Marx teve elaboraçãodesenvolvida a partir da obra desse autor. Entre alguns especialistas há um debate emaberto sobre as indicações de sua obra, principalmente dos Grundrisse, para caracterizaruma forma produtiva superior à grande indústria moderna, envolvendo o conceito deintelecto geral. Para tal apreensão, torna-se importante a contribuição de autores comoMoraes Neto (2003, 1991) que, visando compreender a “reestruturação produtiva” bemcomo o ohnoísmo e a automação de base microeletrônica, critica as análises marxistas dotrabalho sobre as tendências dominantes do avanço tecnológico; Fausto (2002, 1987) ePrado (2003, 2005a, 2005b) que buscam compreender o que chamam de “pós-grandeindústria ”a partir das formas de subsunção do trabalho ao capital e Aued (2005b) eCampana (2006), que buscam compreender o “sistema de laboratório” a partir da idéia deser social e transitoriedade.Distintamente do modo como a objetividade do trabalho se materializa nas fasesmanufatureira e industrial, na fase laboratorial a objetividade do trabalho tem como ponto departida os elementos constitutivos da matéria - o objeto sobre o qual se trabalha - e sematerializa em um instrumento de trabalho específico: a máquina-ferramenta-automática deprecisão quântica, cuja característica determina a universalização do conhecimento(general intellect) dos homens na produção e na criação das mercadorias (CAMPANA,2006).Conforme Campana (2006), a máquina-ferramenta-automática de precisão quântica é umsistema que, ao lhe ser transmitidas força motriz e transmissão apropriadas, age, baseadoem princípios quânticos, sobre o objeto, a partir do conhecimento de sua estrutura atômica.Nesse sentido, a interação entre as várias áreas da ciência se exprime de duas maneiras:a) no sistema de máquinas automáticas, agora sintetizado num só aparelho e b) nainteração de múltiplos sistemas de máquinas automáticas, materializada em váriosaparelhos que atuam conjuntamente.No primeiro modo de interação, de acordo com Campana (2006), cada aparelho é a síntesediminuta da “combinação de máquinas de diferentes espécies e diferentes habilidades doshomens” - ou, do “verdadeiro sistema de máquinas”, conforme Marx (1996, p.432) -, queopera sobre o objeto. E, abstraindo-se a interação dos aparelhos entre si, observando umaparelho isoladamente, a transformação que se opera sobre o objeto é desprovida decaráter subjetivo (CAMPANA, 2006).Pelo aparelho, a execução é objetiva em si mesma, por meio dos seus diversoscomponentes, e o problema de levar a cabo cada um dos diversos processos e deentrelaçá-los é resolvido com a aplicação de outros domínios da ciência. Parece queexecuta, nesse caso, todos os movimentos necessários para a transformação “sem ajudahumana”, pois a intervenção humana (que requer habilidades específicas) ocorre em funçãoda vigília e/ou término da vigília sobre o processo. Entretanto, o ser social, o humano, estáexpressado/materializado no aparelho (CAMPANA, 2006, p.105).No segundo modo de interação, conforme a autora, o conjunto dos vários aparelhos (cadaentre sistema de laboratório e os laboratórios de P&D? Seriam a mesma coisa? Para Campana (2006), o sistemade laboratório em comparação à grande indústria moderna “[...] reproduz, num nível ou qualidade superior deprodutividade, a utilização das forças naturais e a aplicação tecnológica da ciência. Somente sob essa condição dereproduzir, os métodos para elevar a força produtiva social do trabalho são métodos para elevar a produção damais-valia ou do produto excedente, que por sua vez é fator constitutivo da acumulação” (CAMPANA, 2006, p.87).O âmago da questão é que a produção do sistema de laboratório, o trabalho ali objetivado, não mostra serviroriginalmente como meio imediato para que uma nova produção seja capital, como também o trabalho aliempregado não se revela produtor de mais-valia. “Em que sentido esse movimento altera a composição técnica docapital global? É que, ao se apropriar produtivamente dos resultados do sistema de laboratório (ou transformá-losem ´métodos mais produtivos` via laboratórios de pesquisa aplicada à grande indústria), o modo de produçãoespecificamente capitalista amplia em outros setores industriais a conversão contínua da mais-valia em capital(que se patenteia na magnitude crescente do capital que entra no processo de produção), reproduzindo a base daprodução em escala ampliada dos métodos que elevam a força produtiva do trabalho e acelerando a produção damais-valia (MARX, 1996). O grau de acumulação que o capital adquire, ao se apropriar produtivamente dosresultados do sistema de laboratório, se revela a condição do modo de produção especificamente capitalista, eeste, reagindo, causa acumulação acelerada do capital. ´Esses dois fatores, na proporção conjugada dos impulsosque se dão mutuamente, modificam a composição técnica do capital, e, desse modo, a parte variável se torna cadavez menor em relação à constante` (Op.cit., p.726)” (CAMPANA, 2006, p.87).GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 157
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92qual constituindo um sistema de máquinas diminuto), acrescidas as habilidades dos homensvivos para, teleologicamente, decomporem partículas quânticas, em si e para si, constituemo sistema de laboratório. Desta maneira, não são os aparelhos, isoladamente, queconstituem seu elemento fundante, mas os vários aparelhos existentes conjuntamente comas habilidades pensantes dos homens (as quais são socialmente criadas): A cooperação entre os homens não ocorre sob a forma de combinação de um único sistema de máquina-ferramenta-automática parcial complementar, tal qual na grande indústria (que patenteia o “verdadeiro sistema de máquinas”) em que as máquinas controlavam os homens, predominantemente ao controle destes sobre elas. A cooperação ocorre sob a forma da combinação de vários sistemas de máquinas-ferramenta-automáticas, expressados na existência dos vários aparelhos. Desse modo, os aparelhos específicos e as habilidades (ambos provenientes de outros domínios) se transformam em órgãos adequados de uma função especial: cada um dos vários sistemas de laboratórios se distingue, pela configuração particular dos vários aparelhos existentes, para responder a uma necessidade bem definida (CAMPANA, 2006, p.105).Sendo assim, o caráter geral material do processo se expressa no e pelo general intellect,como força universal pensante, porque sendo os processos parciais (aqueles realizadospelos aparelhos) que o constituem examinados objetivamente em si mesmo, auniversalidade como objetivação se expressa não somente nos aparelhos, mas também - efundamentalmente -, materialmente, no homem pensante, teleológico, social ehistoricamente considerado. Nesse sentido, o general intellect, evidenciado pelo sistema delaboratório, é pura ação humana intelectual, consciente e objetivamente expressa, porquetem por pressuposto a decomposição do trabalhador coletivo materializado na máquina,cujo resultado são os aparelhos de laboratório que decompõem a matéria. Nisso reside ocaráter revolucionário/salto ontológico deste processo de produzir em relação à grandeindústria moderna.A partir dessa descrição sucinta a respeito dessa nova base de produção dos homens, debase científica laboratorial, vejamos sobre os modelos e formas de OT a partir da discussãoapresentada por Guimarães (1995) e, em seguida, sobre a proposta de classificação que aautora apresenta.3. Modelos e Formas de Organização do Trabalho: tradicionais e ‘novasformas’Com a expressão “modelo de organização do trabalho” pretende-se identificar umreferencial teórico formado por um conjunto de princípios e conceitos básicos, estabelecidosa partir de experiências práticas de organização da produção e do trabalho (ROESE, 1992).A partir daí, torna-se fundamental que se considere a distinção entre formas de OT e o(s)modelo(s) que fornece(m) os substratos teóricos e ideológicos. Assim, várias formas deorganização do trabalho podem ter o mesmo modelo referencial, mantendo em comum, omesmo corpo de princípios básicos. Guimarães (1995) apresenta uma avaliação crítica doslimites e condicionantes do modelo conceitual em que estão assentadas as “novas formasde organização do trabalho” (NFOT), tendo questionado se o modelo sobre o qual essas“novas formas” se assentam é realmente novo ou tradicional. Dentre as propostas declassificação dos modelos de OT destacamos a de Orstman (1984) e a de Fleury (1987).Orstman (1984) classifica as diversas correntes em três grupos gerais, por ele denominadosde abordagens tecnocráticas, abordagens liberais e abordagem sócio-técnica. Incluem-secomo abordagens tecnocráticas: (1) o próprio taylorismo e as correntes dele derivadas; (2) acorrente ou Escola de Relações Humanas e (3) o enriquecimento de cargos. Com adenominação de abordagens liberais, o autor inclui os grupos de auto-formação ("T-Groups"), baseados em técnicas de dinâmica de grupos e a do DesenvolvimentoOrganizacional (DO). Para o autor, essas duas formas são consideradas formasGUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 158
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92tradicionais de organização do trabalho porque não rompem com o taylorismo/fordismo.Finalmente, a terceira abordagem, representada pela abordagem sócio-técnica e a suaproposta de inovação organizacional do trabalho - através dos grupos semi-autônomos deprodução - corresponde à única tentativa de superação do taylorismo originando, portanto,uma nova forma de organização do trabalho (NFOT), de acordo com Orstman.A proposta de Orstman (1984), segundo Guimarães (1995), é passível de críticas, pois oque autor identifica como “abordagens liberais” representam experiências organizacionais enão caracterizam formas específicas de OT. Além disso, para a autora a tipologia de formasde OT proposta por Orstman tem como critério de classificação a correção ou superaçãodas fragilidades decorrentes do primeiro modelo operacionalizado por meio da organizaçãocientífica do trabalho.Por sua vez, a proposta de Fleury (1987) contempla uma classificação dos modelos de OTem dois grandes grupos:a) Modelo Clássico, representado pela administração científica (modelo taylorista/fordista),como uma proposta surgida num período conflituoso da sociedade norte-americana,especialmente tratando-se das relações de trabalho e que permitiu “um desbalanceamentototal na relação de forças, provendo o patronato de um esquema extremamente autoritário”(FLEURY, 1987, p.52) e,b) Novos Modelos de OT, os quais rompem basicamente com os princípios e técnicastayloristas, dentre os quais o autor inclui as propostas de enriquecimento de cargos e osgrupos semi-autônomos, ambos assentados em premissas implícitas sobre asnecessidades humanas (em geral e com relação ao trabalho), e o “modelo” japonês de OT,como um “modelo” integrado à lógica organizacional e à cultura japonesa.Contudo, entre esses “novos modelos” de OT 5 o autor não inclui as formas geradas peloModelo da Escola de Relações Humanas, que visavam “humanizar” o ambiente de trabalho,porque estas desconsideraram o subsistema técnico da produção e "pouco mudaram oprocesso de trabalho em si, tendo conseqüências apenas sobre algumas práticasadministrativas, e, em certos casos, sobre o ambiente de trabalho” (ibid., p.53).Evidenciando as limitações dessas duas propostas anteriores, Guimarães (1995) enfatizaque uma proposta de classificação de OT associada às matrizes paradigmáticas deveriaincluir não somente o Modelo Taylorista-Fordista, mas o Modelo de Relações Humanas e oModelo Sócio-Técnico.A respeito do Modelo Taylorista-Fordista, a autora esclarece que [...] apresenta-se como um modelo único, dados os princípios conceituais comuns. Esta simbiose dos dois modelos organizacionais clássicos tem como principais características a divisão dicotômica entre a concepção e a execução do trabalho; o parcelamento máximo das tarefas; a simplificação e a desqualificação do trabalho; a centralização das decisões e o controle sobre o processo de trabalho. Na prática administrativa, o Modelo Taylorista-Fordista é reconhecido como “gerência científica” ou “organização racional do trabalho”. Teoricamente, é cognominado, também, “modelo mecanístico” 6(GUIMARÃES, 1995, p.37).No entanto e apesar dos sintomas da crise eminente e esgotamento desse modelo (índicescrescentes de turnover, absenteísmo, insubordinação e sabotagem industrial), caberegistrar seu esgotamento parcial e não total, pois se observa que a sua filosofia eprincípios gerais “[...] foram mantidos incólumes e embora sejam pouco perceptíveis,encontram-se implicitamente inseridos nas propostas de ‘novos modelos e formas deorganização do trabalho’ [NFOT]” (GUIMARÃES, 1995, p.38).Quanto ao Modelo de Relações Humanas, segundo a autora, originou-se da tentativa de se5 Ressalte-se que, na verdade, são formas de OT, não chegando a constituir um novo modelo, pois, o modelo estáassentado num paradigma teórico, num corpus teórico, enquanto que a forma é a operacionalização ou aplicaçãoprática do modelo.6 A expressão “ modelo mecanístico” deve-se a Burns e Stalker (1961) na obra The management of innovation.London: Tavistock. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 159
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92reverter o quadro negativo e a situação de crise decorrente do modelo dominante deorganização do trabalho (taylorista/fordista) e visava para recuperar a máxima eficácia e aacumulação, detendo os conflitos sociais. Considerado um modelo humanista, esse modelo– proposto pela Escola de Relações Humanas na década de 1930 – só aparentemente secontrapôs ao taylorismo/fordismo, pois na realidade não o pôs em causa, tratando-se de umtentativa tecnocrática de correção ao taylorismo/fordismo. Dentre suas características de“humanização do trabalho” pode-se destacar: [...] a redefinição da lógica eficientista da racionalidade taylorista, pela lógica da cooperação, com vista à conquista da ‘harmonia administrativa’ (consenso) não pela coerção/autoritarismo, mas, pela cooptação obtida por meio de esquemas manipulativos psicológicos [...], a ênfase nas motivações psicossociais no trabalho (em substituição as de ordem econômico- financeiras, propostas pelo taylorismo); o destaque ao papel dos pequenos grupos de trabalho, como o coletivo informal de referência; a redefinição do papel da gerência: de emanadora de ordens, autoritária, controladora para integradora do indivíduo, procurando a cooperação e a harmonia pelo consenso através de esquemas motivacionais (GUIMARÃES, 1995, p.38-39).É este modelo, ampliado com a contribuição da psicologia industrial, nos anos de 1950, queservirá de paradigma à formulação das teorias motivacionais do trabalho, as quais vãoinfluenciar algumas propostas de modificações na organização do trabalho – reconhecidascomo “novas formas de organização do trabalho” (NFOT) – que incluem “[...] o alargamento(horizontal e vertical) dos cargos (job enlargement), a rotação de tarefas, o enriquecimentodos cargos, além dos grupos de trabalho (GTs); equipes polivalentes; grupos semi-autônomos de produção (GSA) e, mais recentemente, o trabalho politécnico” (GUIMARÃES,1995, p.39).Finalmente, de acordo com a classificação de Guimarães, apresenta-se o Modelo Sócio-Técnico, considerado na teoria organizacional, como o mais avançado. Este modelo foidesenvolvido nos anos da Segunda Guerra Mundial com a contribuiçao dos pesquisadoresdo Tavistock Institute de Londres e do Projeto de Democracia Industrial, nos paísesescandinavos. Aplicações práticas do Modelo Sócio-técnico são as formas japonesa, suecae italiana de organização do trabalho, comumente denominados na literatura como“modelos” japonês, sueco e italiano, os quais se utilizam de um mix de formas de OTbaseadas no trabalho em grupo, em equipes ou células de produção (time-works). 7Guimarães (1995) destaca como principais focos difusores da abordagem sócio-técnica,além do Tavistock e do Programa de Democratização Industrial (IDP), na Noruega, acorrente denominada ‘Job Design’, nos EUA, liderada por Louis Davis (1957) daUniversidade de Los Angeles. No Brasil esta corrente é conhecida como análise edelineamento de cargos (Fleury, 1978; Garcia, 1980).Quanto ao Modelo Japonês de gestão, atualmente muito difundido, este polemiza asopiniões dos pesquisadores. Enquanto alguns estudiosos o consideram como a alternativamais eficaz ao paradigma taylorista/fordista (FLEURY, 1987, MONIZ, 1987a; KOVÁCS,1987b), vem sendo alvo de severas críticas por parte de diversos autores (FREYSSENET,HIRATA, 1985, VIEIRA, 1989, SACCARDO, LINO, 1986, SALERNO, 1987, ROESE, 1992;2004, 2007, ANTUNES, 2003). Os críticos do modelo procuram demonstrar que, na prática,tenta reproduzir esquemas participativos e motivacionais assentados no modelo“humanístico” proposto pela Escola de Relações Humanas, constituindo-se como uma novaforma de exploração do trabalho.O Modelo Japonês parte do pressuposto que o fator produtividade é determinado pelohomem e não pela máquina e isto pressupõe uma forma de OT que estimule a motivação ea qualificação para que as máquinas possam ser as mais produtivas possíveis (Freyssenet,7 A sua ampla difusão deve-se aos trabalhos de consultoria que foram sendo desenvolvidos pelo Tavistock, combase em modelos conceituais importados das mais diferentes fontes, tais como, a psicanálise freudiana, apsicologia gestáltica, a antropologia funcional, a teoria de campo de Kurt Lewin e a teoria dos sistemas abertos(SORENSEN, 1985). Podem ser considerados também como influentes os trabalhos de Bion (dinâmica de gupos),Lewin (grupos de auto-formação), Selznick (liderança organizacional) e Argyris (conflitos entre personalidade eorganização). O modelo de Hawthorne, de acordo com Burrel & Morgan (1979) representou uma influênciaprimordial no início dos trabalhos sócio-técnicos. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 160
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 921992). Identificado correntemente com a ‘produção enxuta’ (lean production), proporcionadapelo sistema Just-in-time, esse modelo de OT procura ajustar a produção à demanda dosprodutos, visando a inexistência de estoques, pressupondo fornecer a cada processosomente o que é necessário, na quantidade e no tempo exatos8. O trabalho é organizado detal forma que não deve ser realizada nenhuma atividade que não adicione valor ao produto.Deve-se eliminar, pois atividades de movimentação desnecessária de material, atividadesde controle ou inspeção dos produtos, estoques em geral, máquinas paradas, dentre outros.A flexibilidade organizacional é pré-condição para o funcionamento do JIT, de modo que asestruturas de produção estejam adaptadas as demandas cada vez mais diversificadas. Aorganização do processo de produção prevê a divisão da fábrica em mini-fábricasseqüenciais, com autonomia relativa, interligadas por um sistema de informaçõesdenominado “kanban” (layout linearizado). Observa-se então, uma reprodução aproximadada linha fordista, sendo cada mini-fábrica formada por diversas células de produção onde,em cada uma, um grupo multifuncional (e não polivalente) opera diversas máquinassemelhantes ao mesmo tempo9.O JIT, ao eliminar os estoques intermediários, requer que os operários mantenham-setrabalhando todo o tempo e a multifuncionalidade evita os tempos ociosos10. Portanto,apesar da ênfase na flexibilidade do modelo - se analisado em termos do ritmo eseqüenciamento da produção - o JIT pode ser considerado uma espécie de fordismocelular. Como ocorre no fordismo, observa-se que, além da parcelização do trabalho e adivisão entre trabalho intelectual e manual, o ritmo é intenso e imposto. Pesquisasempíricas têm demonstrado o quanto é fatigante para o trabalhador e causador de stressessa NFOT (MOSER, 1985; ROESE, 1992. FARIA, 2004, 2007), em grande parte devido àampliação do grau de vigilância e controle sobre o trabalhador, por parte da administração.Quanto ao denominado “Modelo Sueco de Organização do Trabalho” ou “volvismo”, esteoriginou-se a partir de 1970, quando um grande número de experiências foram introduzidasnas indústrias, incorporando os princípios da abordagem sócio-técnica. Nesse sentido, asmais divulgadas são as experiências da Volvo nas plantas de Kalmar e Uddevala e daSaab-Scania em Trollatan. Esses projetos de inovação organizacional contaram com aparticipação conjunta de administradores, técnicos e sindicalistas (GUIMARÃES, 1995).11No entanto, autores como Marx, R. (1992, 1994) e Leite, M. (1991) (cujos estudos sobre arealidade sueca conferem autoridade para avaliar a questão) não consideram apropriada autilização da expressão “Modelo Sueco” porque, ainda que se observe uma tendênciacrescente de se continuar adotando formas de trabalho em grupo, essa tendência nãoparece seguir nenhum modelo pré-estabelecido (MARX, R., 1992)12.8 O modelo japonês está associado ao Sistema Toyota de Produção (denominado toyotismo ou ohnismo) emfunção de ter os seus pressupostos assentados na proposta de Taiichi Ohno, especialista em produção da Toyotaem 1950.9 O que basicamente difere é a disposição da linha em cada célula, que assume um leiaute em forma de ‘U’ parafacilitar o arranjo das diversas máquinas e reduzir o deslocamento do operador multifuncional. A aplicação doleiaute celular e do trabalho em grupo, não é uma inovação do modelo japonês, mas uma adaptação da propostasócio-técnica identificada com o Modelo Sueco de OT. Ao contrário, porém, do modelo sueco, a versão japonesanão traz explicitamente o objetivo de melhorar as condições de trabalho, embora possa ter isto como efeito (Roese,l992). A preocupação é muito mais com a competitividade do que observado no modelo sueco, cuja produtividade énegociada com o conjunto de trabalhadores, num espectro mais amplo de qualidade de vida e conquistas sociais.10 Os operários multifuncionais devem assumir também as funções de controle de qualidade e manutenção dasmáquinas, como também solucionar pequenos problemas de produção e tomar decisões sobre situaçõesrotineiras, sem a necessidade do envolvimento da gerência, que fica liberada para tratar de assuntos estratégicos.A propalada ‘autonomia decisória’ é, no entanto, bastante limitada, pois, o que produzir, a quantidade, os prazos, adivisão do trabalho, e a alocação dos postos de trabalho, são rigidamente determinados pela empresa.11 “A experiência de Kalmar, iniciada em 1974, representa uma espécie de paradigma de uma nova forma deorganização do trabalho, onde os aspectos do tipo: enriquecimento de cargos, autonomia de decisões sobre oritmo e melhores condições ambientais se mostraram possíveis” (MARX, R., 1992, p.37). Para os sócio-técnicos,essa proposta é tão significante, que costumeiramente é comparada, em termos de impacto organizacional, àexperiência de Hawthorne na década de 1930.12 As principais tendências observadas por Márcia Leite (ibid.) referem-se ao abandono da linha fordista demontagem e substituição pelas ilhas de produção; utilização de crescentes níveis de trabalho qualificado e grupal; GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 161
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92Além da Volvo, Scania-Saab e inúmeras empresas suecas, mundialmente foram muitodivulgadas as experiências da Renault e Rhône Poulenc na França, Fiat e Olivetti na Itália.13Entretanto, deve-se atentar para o fato de que, a partir dos anos 1990, devido às condiçõesdesfavoráveis de mercado14, a Volvo decidiu pelo fechamento das plantas de Kalmar eUdevalla, o que representa um retrocesso à experiência sócio-técnica com os grupos semi-autônomos.Outros modelos vêm sendo definidos, a partir da década de 1980, assumindo formas de OTassemelhadas aos modelos japonês e sueco, como é o caso da proposta de Piore e Sabel(1984) acerca da especialização flexível, com base na flexibilidade organizacional e notrabalho multifuncional apregoados pelo modelo japonês, considerado, pelos autores, como“um novo paradigma da organização do trabalho”. Na literatura encontra-se, também,referências ao Modelo Italiano identificado com “a Terceira Itália”, particularmente, onde háuma forte concentração de indústrias mecânicas com produção diversificada de pequenoslotes (região da Emília-Romagna) (HIRATA et al., 1992). As macrocondicionantes regionais,tais como movimento operário forte e organizado, sindicatos altamente combativos,conferem características muito peculiares a esse modelo, pois, desde as metas deprodutividade, as inovações a serem introduzidas e as formas de organização do trabalhosão negociadas com a direção das empresas15.Considerando essa breve exposição da discussão acerca dos modelos e formas de OT,apresentamos uma proposta de classificação das novas formas de organização do trabalho,baseada na proposta originalmente defendida por Guimarães em 1995.164. Uma proposta de classificação das novas formas de organização dotrabalhoA título de diferenciação em função do seu caráter mais ou menos inovador, no sentido decontinuísmo, correção ou ruptura com a lógica formal de sustentação do modelotaylorista/fordista, propomos a seguinte classificação:ampliação do grau de decisão autônoma e de responsabilidade; crescente colaboração entre os operários e opessoal de escritório, com os trabalhadores ocupando-se cada vez mais do planejamento e programação de seutrabalho; relações de trabalho mais democráticas, descentralização de poder e agilização dos processos dedecisão; estruturas organizacionais pouco rígidas. Além disso, a pesquisadora observou uma grande interaçãoentre as formas de OT e variáveis intra e extra organizacionais como a cultura, as estruturas sócio-políticas eeconômicas contextuais. Porém, adverte que, a par dessas transformações em prol da reorganização do trabalhoapontando para uma flexibilização, nos últimos 20 anos, não houve o abandono completo dos princípios tayloristas.13 No Brasil, efetivamente divulgados, são poucos os casos de verdadeiros GSA. Na década de 1980, algumasexperiências com GSA destaque na mídia, particularmente associadas à subsidiárias estrangeiras, tais comoVolvo, Rhodia e Souza Cruz, cada qual adotando seus próprios esquemas de implantação (AQUINO et al., 1984).Uma forte razão para considerar-se imprópria a expressão ‘Modelo Sueco’ de OT.14 As condições desfavoráveis referem-se à estagnação ou decréscimo das vendas, excesso de capacidadeinstalada e competição acirrada entre fabricantes. Todavia, outros motivos não devem ser descartados , tais como,a fusão recente da Volvo com o grupo francês Renault, que teria pressionado o fechamento das plantas por nãose enquadrarem na nova proposta de organização do trabalho (assumida pelo grupo), influenciada pelo modelojaponês (MARX, R.,1994).15 Os grupos autônomos de produção propostos pelos trabalhadores, ultrapassam a concepção dos GSA suecos,em termos de autonomia e controle do processo de trabalho, num esquema negociado pelos sindicatos, "aocontrário do que ocorre com os CCQs ou outra formas de captação não negociada do conhecimento dostrabalhadores (...)" (HIRATA et al., p. 177). Porém, deve-se destacar que não se trata de uma situação que possaser generalizada, pois, em outras regiões da “Terceira Itália”, como a Toscana, onde predominam indústriastradicionais (têxteis, vestuário, calçados), as relações de trabalho ainda permanecem adversas, inclusive, tratando-se das relações com os sindicatos.16 Esta proposta foi apresentada em sua tese doutoral intitulada Novas tecnologias de produção de basemicroeletrônica e democracia industrial: estudo comparativo de casos na indústria mecânica de Santa Catarina(UFSC, 1995). GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 162
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92a) propostas que pouco acrescentam em termos de inovação e ruptura com o paradigma clássico;b) propostas que avançam, mas não rompem com a lógica taylorista/fordista;c) propostas que se destacam como formas inovadoras de OT, em ruptura parcial ou transitória17 com o paradigma clássico.Em relação às propostas que pouco acrescentam em termos de inovação e ruptura emrelação ao paradigma clássico, a autora inclui o alargamento dos cargos (job enlargement)e rotação de tarefas (GUIMARÃES, 1995). O alargamento dos cargos - uma versãosimplificada do enriquecimento dos cargos - refere-se ao agrupamento de tarefassemelhantes (alargamento horizontal) ou tarefas com certo grau de diferenciação(alargamento vertical) em um mesmo cargo, ou, ainda, uma combinação desses dois tipos(MELO; 1985; MONIZ, 1987a; BRESCIANI, 1991). Já a rotação de tarefas ou rotação deposto de trabalho significa a possibilidade para o operário de permutar entre diversos postosde trabalho, geralmente semelhantes do ponto de vista do conteúdo das tarefas e daqualificação exigida. Ambas as modalidades (rotação ou alargamento), entretanto, nãocontribuem para o aumento da qualificação do trabalhador, cuja natureza intrínseca dotrabalho não sofre alteração.Quanto às propostas que avançam, mas não rompem com a lógica taylorista/fordista, deacordo com a classificação de Guimarães (1995), podem ser consideradas as propostas deenriquecimento de cargos (job enrichment) ou projeto e delineamento de cargos e os gruposde trabalho (GTs), os quais avançam em termos de inovação, mas não rompem com omodelo taylorista/fordista.No que se refere ao enriquecimento de cargos acontece quando se associa à tarefaprincipal outras tarefas mais nobres, mais interessantes, que despertem o interesse e amotivação do trabalhador. Trata-se de uma proposta que vem sendo alvo de muitas críticaspor parte de dois grupos, teórica e ideologicamente distintos: pesquisadores sócio-técnicos(EMERY, THORSRUD, 1976; TRIST, 1981; ORSTMAN, 1984; FLEURY, VARGAS, 1983)18 edefensores da corrente crítica radical (PEREIRA, 1979; TRAGTENBERG, 1980; MARGLIN,1981; FRASER, 1983; GORZ, 1987)19. A não-inclusão dos trabalhadores na discussão edecisão das propostas de enriquecimento dos cargos é uma crítica comum entre ambos osgrupos de pesquisadores, ainda que tenham visões distintas dos objetivos e tipos departicipação dos trabalhadores. “Por paradoxal que possa parecer, faz-se um discurso emdefesa do trabalhador, propõe-se a suavização das normas disciplinares e a ampliação daliberdade, mas recusa-se qualquer implicação do interessado neste esforço” (CASTRO,1988, p.40 apud GUIMARÃES, 1995).Deste modo, os defensores da corrente radical unem-se aos sindicalistas para denunciarque as gerências valem-se de esquemas pseudo-enriquecidos para manipular, de formainsidiosa, os trabalhadores contra os sindicatos:17 Em 1995, Guimarães propunha o agrupamento de propostas em ruptura parcial ou total.18 A crítica sócio-técnica concentra-se em três aspectos sócio-organizacionais: o projeto de cargos individuais nãoprevê formas grupais de organização do trabalho; não há participação do trabalhador no projeto edelineamento de cargos; o acréscimo no grau de iniciativa é pouco significativo e não pode extrapolar o que foiestabelecido pela gerência, através dos especialistas. Não há, portanto, aumento da autonomia do trabalhador.Todavia, os sócio-técnicos reconhecem que, apesar de suas limitações, o enriquecimento de cargos representaum avanço em termos das condições de trabalho, além de destacar a OT propriamente dita (GUIMARÃES, 1995).19 Por sua vez, os teóricos radicais – segundo Guimarães (1995) - literalmente desmantelam a proposta deHerzberg, bombardeando-a com críticas severas, desde a simploriedade da lógica de formulação das hipótesessobre o comportamento humano, até o seu atrelamento ideológico e político ao capitalismo e a ótica gerencialistade suas considerações. Gorz (1987, p.86) avalia o enriquecimento de cargos como “uma tentativa dospsicossociólogos patronais para conciliar os trabalhadores com o trabalho (...) muito mais como uma nova forma demanipulação do que uma solução para as contradições de fundo”. Pereira (1979, p. 26) refletindo sobre asconsiderações de Friedman (1977), acrescenta que o enriquecimento de cargos representa a melhor propostapara reduzir a resistência operária ao controle direto do processo de trabalho por parte da gerência. Isto porque,vale-se das vantagens de conceder uma certa “autonomia responsável”, de acordo com a qual os trabalhadores,identificados com os objetivos da empresa, podem agir de forma mais responsável, com um mínimo de supervisão. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 163
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92 As iniciativas patronais para humanizar o trabalho têm como objetivo, confesso ou não, conquistar os corações e as mentes dos operários da empresa, em detrimento de sua lealdade ao sindicato ou a sua classe (MARGLIN, 1981, p.239).Com relação aos grupos de trabalho, as aplicações práticas remetem aos casos em que umconjunto de pessoas reúne-se para a realização de um determinado tipo de trabalho,previamente projetado e planejado pela gerência. A forma e a maneira de dispor esteconjunto varia de acordo com o produto, os modelos, as máquinas e as pessoas queparticipam do conjunto (PICCININI, 1992, citando SCHMITZ, 1989)20. Em geral, o grau deautonomia desses GTs é muito relativa, se comparados com os grupos autônomos deprodução. A ampliação da qualificação dos trabalhadores depende do tipo e da natureza dotrabalho desenvolvido em grupo21.Finalmente, tratando-se das propostas que se destacam como “formas inovadoras deorganização do trabalho”, em ruptura parcial ou transitória com as formas tradicionais,Guimarães (1995) destaca o trabalho polivalente (ou as equipes polivalentes); o trabalhopolitécnico; os grupos semi-autônomos (GSA) e grupos autônomos de produção.Vejamos primeiramente sobre o trabalho polivalente e o trabalho politécnico. No caso dotrabalho polivalente não há uma interpretação consensual. Há autores que entendem quese trata da possibilidade de deslocar os operários, segundo as necessidades de produçãoem função do turnover e do absenteísmo, devido as características de não-especialização,não-parcelamento das tarefas, não-individualização do trabalho, tempos de execuçãovariáveis. Mantém-se, contudo, a separação entre concepção/decisão/controle e execuçãodo trabalho.Em relação ao trabalho polivalente, na literatura corrente e na prática empresarial é comuma utilização da expressão “polivalência” para caracterizar situações distintas, tratando-se darealização de tarefas diversificadas por um mesmo trabalhador. Em geral, confunde-sepolivalência funcional com multifuncionalidade22, as quais, na realidade representam formasdistintas de utilização do trabalho diversificado e que têm implicações diferentes sobre aqualificação do trabalhador (GUIMARÃES, 1995). Uma tentativa de diferenciação dasexpressões é apresentada por Roese (1992, p.92), que assim argumenta: por polivalência entende-se a capacidade do operário desempenhar um número de operações maior do que o realizado normalmente por um operário especializado. Além disto, o polivalente pode deslocar-se de um posto de trabalho para outro, de acordo com a necessidade de produção. Em termos de qualificação, é capaz de controlar a qualidade de sua produção e tomar decisões que julgar necessário do atingimento dos objetivos da programação da produção.O operador multifuncional não precisa ter uma qualificação superior, mas sim, umadiversidade de sua especialização, pois detém apenas a capacidade de operar muitasmáquinas semelhantes. Este tipo de operador é na prática, comumente utilizado como“quebra galho”, no caso da ausência de outros operários (ZILBOVICIUS; MARX, 1983).Salerno (1993, p.13), refere-se a um aspecto fundamental relativo à lógica imanente às20 A autora refere-se aos GTs observados na indústria calçadista do Vale dos Sinos (Rio Grande do Sul) e Franca(São Paulo).21 Moniz (1987a) destaca um tipo de GT específico, que ele denomina "equipes flexíveis de produção", queavançam no sentido de auto-definirem os métodos, a divisão do trabalho, a composição e o gerenciamento dogrupo visando ao incremento da produtividade e a redução dos desperdícios. Porém, não desempenham funçõesde supervisão e nem tem autonomia para tomarem decisões. A intervenção de Melo (1985), com relação aosgrupos de trabalho, vai no sentido de alertar que podem significar realidades diferentes, encontrando-se, naprática, desde grupos formais de produção sem mudanças significativas no conteúdo do trabalho e sem umaresponsabilidade coletiva sobre as suas atividades até, num outro extremo, grupos autônomos, formados poroperários qualificados, que integraram um determinado número de tarefas e responsabilidades, com certaautonomia coletiva.22 Smith (1984) toca no ponto principal para o estabelecimento da distinção entre um e outro: trata-se dadiferenciação entre qualificação (skill) e especialização (specialisation). A polivalência pressupõe um aumento daprimeira e a multifuncionalidade, uma diversificação da segunda. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 164
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92duas formas organizacionais de trabalho, entendidas como dois tipos diferentes depolivalência: a multifuncional (relacionada a esquemas onde “o planejamento do trabalho éexterno aos executantes do trabalho”) e a qualificada (“entre esquemas onde a definição decomo produzir - em termos de método de execução do trabalho - é prerrogativa dooperário”). No primeiro caso, de acordo com diferenciação estabelecida pelo autor,observa-se presente a lógica taylorista e, no segundo caso, a influência visível da propostasócio-técnica e dos desdobramentos que a aprofundam.Uma terceira conceituação da questão é apresentada pela educadora Lucília Machado(1994, p.19), que vai mais além ao tentar trazer ao debate as questões da polivalência e dapolitecnia no trabalho industrial. No seu entendimento, “polivalência significa simplesmenteum trabalho mais variado com uma certa abertura quanto à possibilidade de administraçãodo tempo e não importa necessariamente em mudança qualitativa das tarefas”. A autoradefende que, no caso da polivalência, trata-se de uma racionalização formalista com finsinstrumentais e pragmáticos, nada além disso. Além do mais, também não acredita quesignifique a intelectualização do trabalho, pois “é suficiente [ao trabalhador] o recurso aosconhecimentos empíricos disponíveis, permanecendo a Ciência como algo que lhe éexterior e estranho” (ibid., p.19).Observa-se que se trata de uma interpretação diferente de polivalência, que se aproxima danoção de multifuncionalidade (ROESE, 1992) ou polivalência multifuncional (SALERNO,1993). No entanto, enquanto a polivalência representa o novo em termos da qualificação dotrabalhador frente à introdução das Novas Tecnologias de Produção de BaseMicroeletrônica (NTP-ME), Machado (1994) anuncia o que ela considera “o novíssimo” e oque, realmente, não se encontra presente nas discussões correntes acerca do tema: aquestão da politecnia. Segundo a autora, politecnia significa: o domínio da técnica a nível intelectual e a possibilidade de um tempo flexível com a recomposição das tarefas a nível criativo. Supõe, também a ultrapassagem de um nível de conhecimento meramente empírico, ao requerer formas de conhecimento mais abstratas (MACHADO, 1994, p.19).De acordo com a autora, a politecnia pressupõe um perfil amplo de trabalhador, conscientee capacitado a agir criticamente em atividades criativas, dispondo de autonomia para utilizaros conhecimentos necessários ao seu progressivo aperfeiçoamento23.Finalmente, no caso dos Grupos Semi-Autônomos (GSA) ou autônomos de produção, háuma mudança substancial no conteúdo e nas condições de trabalho. Decorrentes doModelo Sócio-técnico de organização do trabalho: um grupo semi-autônomo é uma equipe de trabalhadores que executa, cooperativamente, as tarefas que são designadas ao grupo, sem que haja uma pré-definição de funções para os membros. As justificativas para este esquema, contemplam tanto o aspecto social, quanto o aspecto técnico do trabalho (FLEURY, VARGAS, 1983, p.34)24.A partir da definição de GSA, Fleury e Vargas (1983) destacam algumas conseqüênciasdesta NFOT, tais como a necessidade de cooperação requerida entre os elementos dogrupo e o desenvolvimento de múltiplas habilidades. Considerando a exigência dehabilidades múltiplas, em princípio, pressupõe-se a necessidade de operadores polivalentes(com maior qualificação). Os GSAs podem ser organizados e estruturados de formasdiversas, respeitando-se os tipos de tarefas a serem desenvolvidas e as características das23 A formação politécnica vai além da mera formação técnica: no âmbito do trabalho industrial, ela pressupõe acompreensão teórico-prática da bases científicas e tecnológicas empregadas nos processos (produtivos eorganizacionais), métodos, técnicas, materiais. Por sua vez, a passagem do trabalho polivalente ao politécnico,requer "práticas requalificadoras, que exigem a união da destreza e do fazer com a inteligência e o pensar, numnível superior" (MACHADO, 1994, p. 20).24 Para Guimarães (1995), de acordo com os sócio-técnicos os GSA constituem-se em uma NFOT que ampliaconsideravelmente a autonomia e a participação dos trabalhadores nas decisões, no âmbito das suas tarefas,contribuindo para a democratização do trabalho. Como decorrência, um acréscimo na produtividade industrial eelevação do nível de bem estar social é esperado. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 165
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92pessoas que deles participam25.Os críticos mais radicais (PEREIRA, 1979, GORZ, 1987, ENGUITA, 1988, VIEIRA, 1989)não atribuem ao GSA uma autonomia e controle do seu trabalho, mas apenas umaautonomia relativa, no âmbito da divisão interna de tarefas pelo grupo e um controle restritoao cumprimento das metas de qualidade e de quantidade estipuladas pela gerência26.Assim: embora os GSA melhorem sensivelmente as condições de trabalho, evidentemente que funcionam submetidos a determinação mais geral da direção, a qual estabelece o nível de produção e além disso, preservam a divisão entre o trabalho intelectual e manual, ainda que no interior das equipes todos façam tudo (VIEIRA, 1989, p.75).Entretanto, os seguidores da corrente crítica procuram estabelecer uma distinçãoimportantíssima entre a formação de Grupos Semi-Autônomos por iniciativa da empresa -como ocorreu na Escandinávia (caso das fábricas da Volvo e Saab) - e experiênciassemelhantes conquistadas pelos próprios trabalhadores, após longo processo de lutas -como ocorreu na Itália (caso da Fiat, por exemplo). Nos dois casos, observa-se que asconseqüências em termos da operacionalização dos grupos, conquista da autonomia plenae do controle sobre o grupo são muito diferentes. Quando propostos pela empresa sãoestimulados e quando a iniciativa parte dos trabalhadores, são combatidos e poucosconseguem êxito (GORZ, 1987).5. Novas Formas de Organização do Trabalho (NFOT) e o Sistema deLaboratórioPara analisarmos as formas de organização de trabalho em um sistema inusitado einovador, que denominamos “Sistema de Laboratório”, torna-se necessária a imersão narealidade concreta, material de um destes “Sistemas”, mediante uma pesquisa de campocujo locus selecionado é o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), pois, comodescrito na primeira parte deste artigo, o Sistema de Laboratório refere-se a uma nova baseprodutiva capitalista, conforme Campana (2006), a qual aponta novas condições sociais emque se realizado o trabalho. Por que hipotetizamos que a materialização desse sistemaesteja no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron? Porque fazemos a distinção entre aprodução científica laboratorial “pura” ou “de base” e aquela “aplicada”. A primeira não éconvidativa ao investimento capitalista privado porque requer somas gigantescas dedinheiro, constantes e durante certo tempo (amplo demais aos capitalistas), ansiososdemais para se apropriar privadamente do “caro” conhecimento produzido socialmente;deste modo, este tipo de pesquisa (ou produção do conhecimento) requer investimentogovernamental, parecendo ser representativa(o) do LNLS27.Contudo, apesar de as informações que dispomos sobre esse Laboratório serem oriundas25 Diversas propostas de organização (interna e externa) dos GSA podem ser encontradas em Fleury (1978, p.31-33 ) e Fleury e Vargas (l983, p.35).26 Klein (1991, p. 22) analisando a questão da autonomia, destaca que ela significa literalmente "liberdade deescolha". Em termos de trabalho, a autora identifica a autonomia com o "grau em que o trabalho oferecesubstancial liberdade, independência e determinação para o indivíduo planejá-lo e determinar os procedimentosque devem ser adotados na sua execução" (ibid., p. 23). Na opinião de Klein, autonomia pressupõe o controle dosritmos, dos métodos e do processo de trabalho, além da capacidade de tomar decisões, sem o que, trata-se deuma conquista relativa. A autora reconhece que a tecnologia freqüentemente delimita o grau de autonomiaconcedida ao indivíduo ou ao grupo.27 Ele é operado pela Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS) mediante um Contrato deGestão assinado com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Ministério daCiência e Tecnologia (MCT). Assim, quando há propriedade intelectual envolvida, há uma taxa para o uso dosexperimentos. Trata-se de uma das instituições que ocupam o Pólo II de Alta Tecnologia de Campinas (região ondeestão, por exemplo, a UNICAMP, a PUC-Campinas, a Fundação CPqD) da área de telecomunicações e empresasde base tecnológica. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 166
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92de fontes secundárias (buscadas na internet) e do site do próprio Laboratório e referirem-setão somente a informações administrativas, financeiras, ou técnicas, com base emelementos de reflexão e pressupostos teóricos sobre as organizações e os sistemas deprodução classificados como “inovadores”, podemos inferir e estabelecer hipótesesqualitativas sobre as formas de organização do trabalho vivenciadas neste espaço, e comoelas podem se constituir em elementos para a discussão da modernização periférica.A pesquisa de dados primários documentais e de campo acerca do modo como estáorganizado o trabalho nesse espaço está ainda para ser realizada no LNLS, e, portanto,conforme exposto acima, a proposta de classificação das formas de organização dotrabalho em um Sistema de Laboratório parte de pressupostos teóricos e evidênciasempíricas em fontes secundárias.Os pressupostos teóricos e as evidências empíricas encontram amparo em nos estudosanteriormente desenvolvidos por Campana (2006) e Guimarães (2004,2003,1998,1997,1996).Com base no exposto sobre os Modelos e Formas de OT levantamos uma hipótese teóricaa partir de reflexões sobre o modo como se organiza o trabalho no Sistema de Laboratório -que sinaliza uma base produtiva assentada na compreensão (e por isso manipulação) deátomos e decomposição-recomposição do objeto, e no intercâmbio entre os homens pelodesenvolvimento do general intellect, conforme Campana (2006).Outrossim, pesquisas realizadas por Guimarães, publicadas em autoria e co-autoria commestrandos e graduandos, especificamente tratando-se do tema formas deorganização/gestão do trabalho e empresas de base tecnológica (EBT’s), incluindo-seincubadoras tecnológicas como o Centro de laboração de tecnologias Avançadas - CELTA(Florianópolis, SC)28 também compuseram um conjunto de pressupostos e hipóteses paraelaboração do Quadro 1 que teve como base de idealização as propostas defendidas porLiu (1983) e Guimarães (1995).As conclusões de tais estudos anteriormente desenvolvidos em ambientes de inovaçãotecnológica não corroboraram a hipótese levantada pelos pesquisadores de que a inovaçãotecnológica de ponta (inovações radicais ou revolucionárias, segundo a classificação deSchumpeter) que caracteriza o sistema de produção destas organizaçõesprodutivas/empresas de base tecnológica, estaria associada a formas de gestão eorganização do trabalho também inovadoras. As constatações destes estudos evidenciaramque tanto as formas tradicionais (OCT) associadas aos modelos taylorista e fordista; quantoas formas intermediárias, relacionadas com os modelos de relações humanas, bem comoformas mais “avançadas” como os GSA’s, equipes multifuncionais e/ou polivalentesrelacionadas com o modelo sócio-técnico e modelo japonês (ohnismo) se fizerampresentes, em alguns situações convivendo em paralelo ou como “ formas híbridas”.Deste modo, salientamos que o Quadro a seguir constitui uma indicação de hipótese, já queo “Sistema de Laboratório”, materializado no LNLS, ainda não foi pesquisado, sendo queaqui apresentamos uma possível “leitura” desse espaço em termos da temática da OT.29Portanto, as evidências em fontes secundárias nos levam a apresentar um quadro amplo,conforme segue:28 Orientação das dissertações de Trindade (2004); Pontes (2003) ; pesquisas com a co-autoria de Assanuma(2003); Dresch, Mattos (1998); Francisco Jr. (1997); Dresch (1996); Bonilla (1996).29 “Grande parte da pesquisa científica realizada em países como o Brasil ocorre nas universidades. Sabemos, noentanto, que não existe equivalência entre as atividades realizadas nos laboratórios de pesquisa e nos laboratóriosdidáticos. Trabalhos reportados na literatura (QUEIROZ; ALMEIDA, 2004; SANTOS et al., 2006; NEVES, 2001) têmapontado a importância de se discutir nos cursos superiores de Ciência o contexto da “vida” de laboratório, umavez que este conhecimento pode trazer contribuições para a formação e futura atuação profissional dosestudantes” (ZANON; ALMEIDA; QUEIROZ, 2007, p.58). Uma obra, considerada clássica, que se originou de umestudo em um laboratório, é A Vida de Laboratório de Bruno Latour e Steve Woolgar, tendo seu enfoque sobre “osentido, a pertinência e as implicações teóricas de um estudo etnográfico sobre a atividade científica” (Op.cit.). GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 167
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92QUADRO1 – TIPOLOGIAS E FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DOTRABALHO MODELOS E FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA DE LABORATÓRIOMODELOS TAYLORISMO- RELAÇÕES HUMANAS SÓCIO-TÉCNICO FORDISMOCARACTERÍSTICAS/ Organização Alargamento Rotação Enriqueci Grupo Grupo Semi- FORMAS DA clássica do de Tarefas de mento de polivalente autônomoORGANIZAÇÃO DO trabalho Tarefas cargos TRABALHO (OT)Parcelização não sim não não não nãoEspecialização não sim não sim sim simTempos Impostos não sim não sim sim simIndividualização não não não sim sim simSeparação: não não não não não nãoControle/execuçãoSeparação não sim não sim não nãoconcepção,coordenação,decisão, execuçãoCLASSIFICAÇÃO Formas de Organização Formas de Organização Forma deDAS PROPOSTAS Taylorista e derivadas (a) intermediária (b) Organização(a, b ou c) em rupturaCONFORME parcial ouGUIMARÃES (1995) transitória com o Taylorismo (c)Fonte: Elaboração das autoras com base no Quadro de Liu (1983) e na proposta de classificação deGuimarães (1995).Em comparação com o quadro originalmente proposto pelo sócio-técnico Liu (1983), o qualapresenta (por exemplo, nos dois extremos) a coluna inteira do Taylorismo-Fordismopreenchida por “não” e a coluna inteira do Sócio-Técnico preenchida por “sim”, sugerimosem relação ao sistema de laboratório – com base nas informações e dados até entãocoletados –uma espécie de “miscelânea” ou “diversidade” que se apresenta de modo não-linear, isto é, inesperadamente.Por esse indicativo poderíamos esperar a possibilidade de uma Nova Forma de OT e atémesmo de um novo Modelo? Talvez esse seja o caso. Ou, então, talvez seja apenas o casode se efetuar o estudo empírico, buscando mais dados e informações, para umaclassificação mais acurada, que inclua inclusive uma possibilidade inovadora radical, comoos Grupos Autônomos de Produção ou Grupos Autogeridos, formas em ruptura transitóriapautados em modelos ou formas de gestão “alternativas”?Se estes administram sem a intervenção de chefias, coordenadores, gerentes ousupervisores sendo possível encontrá-los em organizações que trabalham com projetos,criação, artesanato, artes por que não poderiam estar presentes em um sistema delaboratório como LNLS?6. Considerações finaisA proposta deste texto de resgatar os modelos e formas de organização do trabalho édesafiadora, haja vista que se esta temática representa um campo de estudos que setornou interdisciplinar e que se manifesta como uma categoria de interesse tanto naliteratura referente à engenharia de produção, à economia de empresas e à teoriaorganizacional (de cunho mais eficientista), quanto aos estudos críticos desenvolvidos no GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 168
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92campo de conhecimento da sociologia do trabalho, sem fronteiras claramente delimitadasou definidas. Quiçá possa constituir-se como um campo de investigação transepistêmicopela sua complexidade de análise, associada ao modo de produção e ao processo deprodução capitalistas.Associar-se a temática da organização do trabalho no capitalismo contemporâneo à umaforma avançada de sistema produtivo, mediado pela Ciência, denominada por Campana(2006) de “Sistema de Laboratório”, torna-se, então, tarefa hercúlea, altamente complexa.Consideramos que nesse artigo, o start esteja dado, portanto, alea jactea est, “a sorte”está lançada. Estamos atentas ao fato de que, a partir da materialização da pesquisa decampo, novos elementos irão compor ou contrapor-se aos conteúdos, propostas ehipóteses formuladas com base no campo do conhecimento teórico até então desenvolvido.No LNLS, desde 1997, funciona a única fonte de luz síncrotron existente em todo ohemisfério Sul a qual permite estudar os ingredientes básicos dos materiais, os átomos e asmoléculas - são apenas 14 países que têm laboratórios síncrotron. Este equipamento foidesenvolvido, construído e é operado inteiramente por brasileiros. Além dele, existem outrosequipamentos relacionados a um centro de microscopia eletrônica: três microscópios etodos os equipamentos necessários para preparar amostras de materiais a seremestudados. Também, é no LNLS que está hoje o microscópio mais potente da AméricaLatina, capaz de ampliar um objeto em um milhão e meia de vezes - neste caso, osequipamentos podem ser usados por pesquisadores externos. Outro laboratório deressonância magnética nuclear com dois espectrômetros também é aberto para usuáriosbem como vários laboratórios de apoio.O orçamento anual do LNLS, aprovado pelo Congresso Nacional (em 2002) para 2003 foide 28,145 milhões30 (sendo o orçamento anual de todo o Ministério da Ciência e Tecnologiano mesmo ano, de 2,14 bilhões de reais). Isto incluiu o pagamento de pessoal, recursospara a manutenção e novos desenvolvimentos tecnológicos. A equipe fixa tem 180 pessoas,outras 80 integram a equipe como bolsistas e estagiários e 90% dos cientistas (físicos,químicos, biólogos, engenheiros de materiais) que usam o LNLS são de outras instituições.Eles podem ser de uma universidade ou de um outro centro de pesquisa, do Brasil ou doExterior, ou da indústria. Após passar alguns dias em Campinas, onde fica o LNLS, parafazerem as experiências necessárias em uma das estações experimentais instaladas nafonte de luz síncrotron ou outros equipamentos disponíveis, retornam a seus locais deorigem, onde analisam todas as informações obtidas.A tentativa de analisar as formas de organização do trabalho vivenciadas em um Sistema deLaboratório, conforme o Quadro 1 apresentado na página anterior, levou em conta osestudos e avanços acerca dos modelos e formas de organização do trabalho, os estudosfeitos por Guimarães (2004, 2003,1998,1997,1996), os apontamento teóricos feitos porCampana (2006) sobre as especificidades dessa nova base produtiva e as informaçõesencontradas (ainda que bastante preliminares) sobre o LNLS.Longe, ainda, de fornecer respostas conclusivas, o presente artigo constata que as fontes eas informações trabalhadas sinalizam a complexidade e dificuldade de se compreender aspesquisas (ou processos de produção do conhecimento) de cunho “nanocientífico” (achamada nanociência) - em especial aquelas que visam obter resultados “puros” ou “debase”, e mais ainda, sobre a organização do trabalho - a partir de modelos desenvolvidoscom base nos processos de trabalho encontrados na grande indústria moderna. Além disso,há escassez de informações sobre a OT nesse tipo de espaço, diferentemente no espaçodas indústrias.Mais perguntas/dificuldades surgem quando o assunto é Modernização periférica: admitindoque o LNLS possa ser representativo do que há de mais avançado em termos de forçasprodutivas sociais (o Sistema de Laboratório), como foi e está sendo possível odesenvolvimento desse único Laboratório no hemisfério sul e na América do Sul, aqui noBrasil, onde historicamente o desenvolvimento tecnológico ainda permanece como um gapimenso (se confrontado com os países centrais) e onde é comum a importação de30 Deste valor, R$ 18 milhões sob contrato com o Ministério da Ciência e Tecnologia. GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 169
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92tecnologias avançadas. Uma das hipóteses é o fato dele ser financiado em 100% peloEstado; ao mesmo tempo, a falta do “privado forte” (tal como nos laboratórios europeus enorte-americanos) ou, ainda, a presença de um “privado mascarado” nesse tipo de pesquisa“pura”, tem qual tipo de implicação sobre a OT?Todas as questões aqui em aberto suscitam a necessidade de discussão e pesquisaenvolvendo a produção do conhecimento “puro” ou “de base” relacionado à nanociência.ReferênciasANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho.São Paulo: Boitempo, 2003.AQUINO, Cleber et al. Novas formas de organização do trabalho. Revista de Administração,São Paulo, v. 19, n. 2, p. 6-19, abr./jun. 1984.ASSANUMA, Marlon S.. O Processo de transferência de tecnologia Universidade-Empresa:um estudo de caso no Laboratório de Mecânica de Precisão. Trabalho de Conclusão deCurso. (Graduação em Administração) - Universidade Federal de Santa Catarina, 2003AUED, Idaleto Malvezzi. Capital e emancipação humana: o ser social. In: AUED, BernadeteW. (Org.). Educação para o (des) emprego: ou quando estar liberto da necessidadeemprego é um tormento. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p.109-131.___________ Transcendência (aufhebung), alienação, manufatura e maquinaria em KarlMarx; ou de como o homem supera sua desumanização e faz-se homem plenamentedesenvolvido. Programa de Pós-graduação em Sociologia, Unesp, 2005. (Tese de Pós-Doutorado) (Texto Inédito).BERNARD, Rosilane P. Formas de Gestão em Empresas de base tecnológica: um estudono CELTA/FLORIANÓPOLIS/SC. Mestrado em Administração, Universidade Federal deSanta Catarina., Florianópolis, 2003.BRESCIANI, Luis Paulo. Tecnologia, organização do trabalho e ação sindical: da resistênciaà contratação. São Paulo: Escola Politécnica, 1991. Dissertação (Mestrado em Engenhariade Produção) Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade deSão Paulo, São Paulo, 1991.BRUNO, Lúcia, SACCARDO, Cleusa. Organização, trabalho e tecnologia. São Paulo: Atlas,1986.BURNS, Tom, STALKER, George. The management of innovation. London : Tavistock,1961.BURREL, Gibson, MORGAN, Gareth. Sociological paradigms and organizational analysis.Heinemann Educational Books Ltda, 1979. Cap. 4-5, p. 41-225.CASASSUS-MONTERO, Cecília. Les differents approches dans les comparaisonsinternationales du travail industriel. Sociologie du Travail, n. 2, p. 153-163, 1989.CAMPANA, Samya. A emancipação humana a partir da síntese histórica dodesenvolvimento das forças produtivas sociais: o sistema de laboratório. 2006. 256f.Dissertação (Mestrado em Economia) - Programa de Pós-Graduação em Economia, UFSC,Florianópolis, 2006.DRESCH, Gertrudres; FRANCISCO JR, Olávio. Reestruturação produtiva e novas fomasde gestão do trabalho: estudo de caso no setor de mecânica de precisão de Santa Catarina.Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Administração) - Universidade Federal deSanta Catarina, 1997.EMERY,Fred, THORSRUD, Einar. Democracy at work. The Hague : Nijhoff, 1976.GUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 170
    • XI SEMINÁRIO MODERNIZAÇÃO TECNOLÓGIA PERIFÉRICA RECIFE, 4 a 6 de NOVEMBRO de 2009 Fundação Joaquim Nabuco, Apipucos, Sala Gilberto Osório, Rua Dois Irmãos, 92ENGUITA, Mariano. Tecnologia e sociedade: a ideologia da racionalidade técnica, aorganização do trabalho e a educação. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 13, n. 1, p.39-52, jan./jun. 1988.ESPÍNDOLA, Célio. Automação e emprego: uma visão geral. In BENAKOUCHE, Rabah(ORG.). A informática e o Brasil. São Paulo: Polis, 1985. p. 77-106.FARIA, J.H. de. Análise crítica das teorias e práticas organizacionais. São Paulo: Atlas,2007.______ Economia política do poder: uma crítica da teoria geral da administração. Curitiba:Juruá, 2004. Vol. 2______ Tecnologia e processo de trabalho. Curitiba: Editora da UFPR, 1992.______ Comissões de Fábrica: poder e trabalho nas unidades produtivas. Curitiba: CriarEdições, 1987.______ O autoritarismo nas organizações. Curitiba: Criar Edições, 1985.FAUSTO, Ruy. Marx: lógica e política. Livro I e II. São Paulo: Brasiliense, 1987.__________ Marx: lógica e política. Livro III. São Paulo: Ed.34, 2002.FLEURY, Afonso Carlos. Organização do trabalho na indústria: recolocando a questão nosanos 80. In: FLEURY, Maria Tereza, FISCHER, Rosa Maria. Processo e relações detrabalho no Brasil. São Paulo: Atlas, 1987. p.51-66.FLEURY, Afonso Carlos C., VARGAS, Nilton. Organização do trabalho: uma abordageminterdisciplinar. São Paulo: Atlas, 1983.FRASER, Steve. Industrial democracy in the 1980s. Socialist Review, v. 13, n. 6, p. 99-122,1983.FREYSSENET, Michel, HIRATA, Helena. Mudanças tecnológicas e participação dostrabalhadores: os CCQ no Brasil. Revista de Administração de Empresas, Rio de Janeiro, v.25, n. 3, p. 5-21, 1985.GARCIA, Ramon M. Abordagem sócio-técnica: uma rápida avaliação. Revista deAdministração de Empresas. Rio de Janeiro, v. 20, n. 3, p. 71-77, jul./set. 1980.GORZ, André. Crítica da divisão do trabalho. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.GUIMARÃES, Valeska Nahas. Novas tecnologias de produção de base microeletrônica edemocracia industrial: estudo comparativo de casos na indústria mecânica de SantaCatarina. 1995. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção, Florianópolis, 1995.GUIMARÃES, V.N., DREESCH, G. Diagnóstico do Setor de Mecânica de Precisão de SantaCatarina: um estudo exploratório. (Relatório de Pesquisa- CNPq). Florianópolis, UFSC,1996GUIMARÃES, V.N., BONILLA, A. Diagnóstico organizacional de micro e pequenasempresas de base tecnológica instaladas em incubadoras: o caso do Celta SC. (Relatóriode Pesquisa- Funpesquisa. Florianópolis, UFSC 1996.HUMPHREY, John. Perspectivas do sindicalismo no local de trabalho no Brasil e naInglaterra. In: SOARES, Rosa Maria S. de Melo (Org.). Automação e Competitividade.Brasília: IPEA, 1990, p. 207-235.KLEIN, Janice. A Reexamination of Autonomy in Light of New Manufacturing Practices.Human Relations. v. 18, p. 21-34, 1991.KOVÁCS, Ilona. Tendências atuais e mudanças tecnológica e organizacional na Indústria:um estado da arte. Lisboa: FCT/UNL, 1987b. (mimeo).LEITE, Márcia de Paula. O "modelo sueco" de organização do trabalho. In: LEITE, Márciade P., SILVA, Roque Aparecido. (Org.) Modernização Tecnológica, Relações de Trabalho eGUIMARÃES, VN; CAMPANA, S. A organização do trabalho na produção da vida humana de base cientifica laboratorial 171
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