PLANTAS DOENTES PELO USO DE AGROTÓXICOS Novas bases de uma prevenção contra doenças e parasitas – A teoria da trofobiose –
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Os agricultores, estudantes, técnicos, pesquisadores e professores brasileiros têm, com esta obra, acesso a um texto fundamental e pioneiro para se entender o verdadeiro e complexo processo de proteção das plantas da ação deletéria dos agentes parasitários: insetos, fungos, bactérias, vírus, ácaros, nematódeos, coccídeos.
Francis Chaboussou, ao enunciar, na década de 1970, a teoria da trofobiose, lançou um dos pilares da agroecologia. Com o ciclo do gás etileno no solo e com a teoria da transmutação dos elementos de Kervran, a teoria da trofobiose forma a base em que se apóia a produção de alimentos limpos, sadios, dispensando o uso de agrotóxicos* e de fertilizantes solúveis de síntese química.

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PLANTAS DOENTES PELO USO DE AGROTÓXICOS Novas bases de uma prevenção contra doenças e parasitas – A teoria da trofobiose – PLANTAS DOENTES PELO USO DE AGROTÓXICOS Novas bases de uma prevenção contra doenças e parasitas – A teoria da trofobiose – Document Transcript

  • PLANTAS DOENTES PELOUSO DE AGROTÓXICOSNovas bases de uma prevenção contradoenças e parasitas– A teoria da trofobiose –
  • FRANCIS CHABOUSSOUEDITORAEXPRESSÃO POPULARPLANTAS DOENTES PELOUSO DE AGROTÓXICOSNovas bases de uma prevenção contradoenças e parasitas– A teoria da trofobiose –
  • Copyright © 2006, by Editora Expressão PopularRevisão: Geraldo Martins de Azevedo FilhoProjeto gráfico, capa e diagramação: ZAP DesignImpressão e acabamento: CromoseteTodos os direitos reservados.Nenhuma parte deste livro pode ser utilizadaou reproduzida sem a autorização da editora.1aedição: janeiro de 2006EDITORA EXPRESSÃO POPULARRua Abolição, 266 - Bela VistaCEP 01319-010 – São Paulo-SPFone/Fax: (11) 3112-0941vendas@expressaopopular.com.brwww.expressaopopular.com.brISBN 85-87394-87-8Prefácio: Paul PessonRevisão técnica e apresentação: Luiz Carlos Pinheiro MachadoTradução: Maria José Guazzelli View slide
  • SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO .............................................................................................9PREFÁCIO ...................................................................................................... 11 View slide
  • À minha esposa, Jacqueline Thibault,que, em sua vida e sempre ao longo de minhacarreira, não cessou de me apoiar e de me daro exemplo de coragem e de determinação.AgradecimentosÀ Editora L&PM, de Porto Alegre/RS,pela concessão dos direitos de tradução;À Patrícia Karina Ferraz da Rosa porsua magnífica digitalização;À Ariana Gomide Porro Ferrari pelaajuda na revisão gráfica do texto.
  • Os agricultores, estudantes, técnicos, pesquisadores e professo-res brasileiros têm, com esta obra, acesso a um texto fundamental epioneiro para se entender o verdadeiro e complexo processo de pro-teção das plantas da ação deletéria dos agentes parasitários: insetos,fungos, bactérias, vírus, ácaros, nematódeos, coccídeos.Francis Chaboussou, ao enunciar, na década de 1970, a teoria datrofobiose, lançou um dos pilares da agroecologia. Com o ciclo do gásetileno no solo e com a teoria da transmutação dos elementos deKervran, a teoria da trofobiose forma a base em que se apóia a pro-dução de alimentos limpos, sadios, dispensando o uso de agrotóxicos*e de fertilizantes solúveis de síntese química.APRESENTAÇÃO*A tradução literal do título deste livro em francês é As plantas doentes pelospesticidas (Les plantes malades des pestícides). Entretanto, no Brasil, a partir dadécada de 1970, os pesticidas agrícolas passaram a ser chamados de agrotóxicos,denominação, sem dúvida, mais apropriada e usada na tradução original, posiçãoseguida nesta revisão. (N. do R.)
  • 10F R A N C I S C H A B O U S S O UAo longo desta obra, o leitor encontrará uma sólida argumenta-ção científica apoiada em extensa e qualificada bibliografia, demons-trando que os parasitas não atacam as plantas cujos sistemasnutricionais estejam equilibrados. Isto porque, os parasitas têm umaparticularidade fisiológica: seu equipamento enzimático digestivo écarente ou insuficiente em enzimas proteolíticas, isto é, enzimas quedesdobram as proteínas em substâncias mais simples, como osaminoácidos, assimiláveis pelos organismos. Esse fato, simples, e atémesmo primário, explica porque os fertilizantes solúveis e osagrotóxicos atraem os parasitas, gerando, assim, um ciclo de depen-dência. Logo, a questão fundamental na proteção das plantas à açãodos parasitas é desenvolver um processo produtivo que permita à plan-ta chegar a um ótimo de proteossíntese, ou seja, à formação de subs-tâncias mais complexas, como as proteínas, que demandam a ação deenzimas para serem desdobradas e utilizadas. Nós que nos preocu-pávamos com a produção agrícola limpa – animal e vegetal – nãotínhamos, até Chaboussou, as formulação e sustentação teórica deuma prática milenar, conhecida e difundida pelos verdadeirosagroecologistas: as plantas cultivadas em solos ricos em matéria or-gânica, proveniente de esterco, não são atacadas por pragas e doen-ças: este fato é explicado pela teoria da trofobiose, pois a nutrição dasplantas com substâncias complexas gera uma predominância daproteossíntese, circunstância fisiológica adversa aos parasitas.Chaboussou, como Voisin, apresenta suas posições e os resultadosdas pesquisas que deram embasamento à sua teoria e as suas conclusões(e parece ser uma “técnica” francesa...) de forma repetitiva e aparente-mente, “paciente”. Na verdade, é uma forma sutil de “ganhar” o lei-tor para suas posições. Por outro lado, Chaboussou, não só apresentaa sua teoria da trofobiose, como denuncia, comprovadamente, o apa-recimento de novas doenças pelo efeito do emprego de agrotóxicos.O estudo dos desequilíbrios biológicos produzidos pelos diferen-tes tratamentos convencionais, antes de controlar os parasitas, como
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S11demonstra Chaboussou, provoca uma perturbação na fisiologia dasplantas trazendo, em conseqüência, o agravamento do problemainclusive, transformando em parasitas seres que, antes, mantinhamum convívio harmônico com a plantas. São, como chamou o autor,as doenças iatrogênicas, isto é, doenças provocadas pelo uso de supos-tos remédios.Não é acidental e nem sem causa, que as poucas dezenas de pra-gas e doenças vegetais registradas há pouco mais de meio século, hojechega à casa do milhar. Não é acidental, também, que os alertas deHoward, Russell, Rusch, Voisin, Faulkner e tantos outros têm sido,até mesmo menosprezados, pela ciência convencional: há, nessa área,um poderoso jogo de interesses, cuja conta os produtores agrícolas –pequenos, médios e grandes, todos – estão pagando, com o uso cres-cente dos agrotóxicos e fertilizantes. É bem recente o fracasso da“revolução verde” para confirmar o que está dito e dispensar maiorescomentários sobre o assunto, da mesma forma do que está acontecen-do com o “agronegócio”, apresentado como panacéia e, hoje, sobre-vivendo em crise sobre crise.Chaboussou identificou as causas do problema. Propõe comosolução, essencialmente, a correção das carências de elementos mine-rais no solo, especialmente dos microelementos. Nesse ponto, o ci-entista expôs ao mundo e de maneira inequíosca, que a causa dasinfestações parasitárias é, principalmente, os desequilíbriosnutricionais: é a predominância na fisiologia da planta, da proteólisesobre a proteossíntese. Este cientista, ainda preso a uma condutaconvencional que ele próprio “destrói”, propõe uma solução basea-da na correção em elementos minerais do solo, com ênfase nosmicroelementos, isto é, um caminho convencional.Ora, o equilíbrio da composição mineral do solo é condição sinequa non para a sua fertilidade. Não é esta a questão em discussão. Oproblema é como alcançar esse equilíbrio. O caminho proposto porChaboussou – da correção mecânica das deficiências do solo com a
  • 12F R A N C I S C H A B O U S S O Usimples incorporação dos elementos que a análise química registracomo carentes – este caminho entra em contradição com sua própriateoria: se o balanço proteossíntese – proteólise, processo fisiológicointerno da planta, é a base da proteção vegetal contra os parasitasquando esse balanço é favorável à proteossíntese, as plantas estãoprotegidas. Entretanto, o mecanismo de proteção é pouco conheci-do mas, seguramente, é desencadeado a partir de fatores bióticos, nosquais os microrganismos do solo desempenham papel preponderante.E, seguramente, é através desse mecanismo que o solo se desintoxica,se equilibra e passa a ser um integrante ativo no processo. Na propo-sição da simples correção das eventuais carências, o solo é apenas umreceptáculo passivo.Em diversas oportunidades, especialmente nos últimos capítu-los, Chaboussou recomenda a aplicação de fertilizantes, com a fina-lidade de corrigir os desequilíbrios do solo, especialmente demicroelementos. Trata-se de uma contradição com sua própria teo-ria da trofobiose. É que, o solo desintoxicado e manejado corretamen-te dispensa o uso de adubos como, aliás, estabelece a nossa lei defertilidade crescente (A fertilidade do solo, quando manejado sem agres-são – aração e procedimentos similares – e com técnicas que estimulem abiocenose é crescente, indo a limites ainda não identificados).Portanto, a partir da teoria da trofobiose, que é a linha mestra doprocesso, devemos pesquisar os meios bióticos de correção dos solosque têm sido agredidos por decênios pela agricultura predatória. Éa partir do equilíbrio biocenótico da fertilidade do solo que se abreo caminho para a produção de alimentos limpos, com a dispensa deagrotóxicos e fertilizantes solúveis. Se o processo for conduzidodialeticamente a partir da participação do animal na desintoxicaçãodo solo e na manutenção e melhoria de sua fertilidade, poder-se-ádispensar o uso de quaisquer produtos químicos externos ao solo,porque, com manejo correto, desencadeiam-se o ciclo etileno e atransmutação dos elementos com baixa energia, os quais, com a
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S13trofobiose, conformam o tripé sobre o qual se ergue a produçãoagroecológica. Isto, naturalmente, com a sustentação energética daeficiente e gratuita energia solar.Este livro deixa numerosos ensinamentos e aguça a curiosidadepara uma série de questões. Talvez, porém, a questão mais significa-tiva diga respeito à atividade dos pesquisadores – fitopatólogos eentomólogos. Modo geral, nossos cientistas debruçam-se sobre oestudo de determinada praga ou doença, pesquisando profundamen-te aspectos específicos e fazendo um controle com o objetivo da eli-minação do parasita. Talvez fosse aconselhável uma análise maisampla, holística, a começar pelo equilíbrio metabólico e pelas neces-sidades nutricionais da planta.Dou um exemplo. No início do projeto Alegria, em Taquara, RioGrande do Sul, em 1964, a infestação de saúva era extremamenteintensa. Com o decorrer do tempo, graças ao manejo do PastoreioRacional Voisin, com a desintoxicação do solo e ausência completade agrotóxicos e fertilizantes, as saúvas desapareceram, mas as áreasvizinhas continuaram infestadas. Por quê? A ciência convencional nãotem explicação para este fato e, diante do fato, fica-se com o fato edesprezam-se as teorias ainda que esposadas por grandes nomes, comodiria Claude Bernard.O desaparecimento natural das saúvas deve ser pesquisado sobuma ótica inspirada na análise dos fatores externos que, certamente,interferem nas questões internas do inseto. Em outras palavras, atravésde uma análise holística, em que os fatores bióticos e abióticos emsuas interrelações e contradições levam às causas dos problemas e sobreelas recaí a ação humana. Trabalhar sempre sobre as causas e não sobreos efeitos, no caso, as pragas e doenças.Todos devem ler e meditar sobre este texto: os produtores, paraquestionarem seus técnicos quando esses recomendam agrotóxicos eou adubos solúveis; os estudantes, para indagarem a seus professoressobre as posições de Chaboussou; os técnicos, para se capacitarem a
  • 14F R A N C I S C H A B O U S S O Uuma conduta de produção sem veneno: o professor para levar aos seusalunos uma posição contrária à agronomia convencional e, finalmente,àqueles pesquisadores, que se distanciaram da realidade que desçamde seu frágil pedestal e venham para a planície onde está a vida e,portanto, a verdade.Quanto às pesquisas fitopatológicas e entomológicas cabe umareflexão: a quase totalidade dessas pesquisas concentra-se em elimi-nar (se possível) o parasita. A partir das informações deste texto, seriadesejável que se conhecesse o contexto ambiental – manejo e fertili-dade do solo, clima, vegetação espontânea, uso de agrotóxicos e fer-tilizantes solúveis – e relacionar o aparecimento dos parasitas comesses fatores, como Chaboussou analisa a partir do quarto capítulo.Chaboussou, por sua formação e por seu campo de pesquisa,dedicou-se ao controle de parasitas das plantas. Como pesquisadoreclético, porém, não esqueceu os animais. Para isso, dedicou, sob otítulo de “A agricultura biológica e a saúde dos vertebrados”, parte dooitavo capítulo às repercussões dos desequilíbrios nutricionais à saúdeanimal e seus produtos.A aplicação da teoria da trofobiose – ao dispensar o uso dosagrotóxicos e adubos solúveis – reveste-se de importância singular naproteção ambiental. Essa é, por outro lado, questão transcendentalpara a própria sobrevivência da espécie humana. As conseqüências dadilapidação ambiental são noticiadas cada vez com maior freqüência:recentemente, a redução do tamanho das ostras cultivadas na baía deFlorianópolis motivada pela elevação da temperatura da água do mar,é um exemplo.A biocenose viabiliza o desencadeamento de importantes proces-sos em solos ricos em matéria orgânica, porosos e com limitadacompactação, pois se ativa a “nutrição das plantas, via compostosorgânicos mais complexos, que seriam absorvidos diretamente pelasraízes e serviriam de base à construção, pela planta, de seus consti-tuintes, especialmente das proteínas”. Essa teoria, alicerçada em
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S15substantivos resultados experimentais compõem, com a teoria datrofobiose de Chaboussou, a base de um novo e instigante paradigma,este livre das perniciosas dependências econômicas, recuperando osentido dialético e, por isso mesmo verdadeiro, da desgastada expres-são “trabalhar com a natureza”. Aí está para os cientistas sem precon-ceitos e para os agricultores pesquisadores, a porta aberta para aconstrução de uma doutrina que ofereça aos produtores a tecnologiada vida, na qual se alcançaria a maravilhosa harmonia da natureza com“sua própria consciência, o humano”. Esta construção estará conclu-ída quando a ciência puder desenvolver um modelo de produçãocapaz de alimentar a humanidade, sem dilapidação dos recursos nãorenováveis, através do maravilhoso trabalho da vida do solo, em har-monia com a máxima captação da energia solar pela fotossíntese.A Editora Expressão Popular a reeditar e a Editora L&PM, a cederos direitos de tradução para a republicação em português, da obra deChaboussou – a quem os leitores devem agradecer – põem à dispo-sição dos agricultores, estudantes, técnicos, pesquisadores e profes-sores, um corpo de doutrina inédito na literatura científicaagronômica nacional, que constitui o primeiro pilar para a produçãolimpa, sem venenos, dispensando agrotóxicos e fertilizantes solúveisde síntese química. É a partir da compreensão da indispensabilidadedo emprego de insumos energéticos de origem solar e da dinâmicada vida do solo, que se constrói a agricultura limpa, rentável e sus-tentável, isto é, que se põe, em prática, a verdadeira agroecologia,caminho seguro para perpetuar a produção de alimentos limpos,como a própria sobrevivência da humanidade está a exigir.Porto Alegre, RS, Verão de 2006.Prof. Dr. Luiz Carlos Pinheiro MachadoPresidente do Instituto André Voisinprvpinheiro@terra.com.brlcpm@cca.ufsc.br
  • Durante minhas aulas de entomologia e de ecologia, no InstitutNational Agronomique ou no curso superior de especialização doDEA*de entomologia, na Universidade de Paris-VI, freqüentementetive a ocasião de apresentar a meus alunos os trabalhos de meu cole-ga Francis Chaboussou e sua teoria da trofobiose. É um prazer paramim, hoje, apresentar sua obra ao grande público.Ao fazê-lo, desejaria me esforçar para fazer o leitor compreender aextrema importância desta obra, que propõe aos pesquisadores agrôno-mos, e aos agricultores, um conceito original e novos caminhos, queresultam de uma reflexão madura baseada tanto nas pesquisas pesso-ais do autor, como nos múltiplos dados experimentais de origem in-ternacional, oriundos dos laboratórios ou das condições de campo.PREFÁCIO*Diplôme d’Etudes Approfondies (Diploma de Estudos Aprofundados). (N. da T.)
  • 18F R A N C I S C H A B O U S S O UQue me seja permitido, antes de mais nada, apresentar o autora seus leitores, apesar de ser bem conhecido nos meios da pesquisaagronômica, na França e no exterior.Biólogo de formação, diplomou-se na Universidade de Bordeaux.Ali beneficiou-se dos ensinamentos de entomologia do prof. Feytaud,e de zoologia e biologia dos professores Avel e Bounhiol. Em 1933,entra, como jovem pesquisador, no Institut National de la RechercheAgronomique. Nomeado para a Estação de Zoologia do Centro dePesquisas Agronômicas de Bordeaux, na região de La Grande Ferrade,em Pont-de-la-Maye, aí desenvolverá toda sua carreira, encerrando-a em 1976, como Diretor de Pesquisa e Diretor da Estação de Zo-ologia desse Centro.Nesta função, ele teve, inicialmente, a oportunidade de abordarproblemas entomológicos da época, como a reprodução de umcarabídeo, predador de um coleóptero do gênero Leptinotarsa,*ele-mento potencial de controle dessa praga, de importação recente ou,ainda, a invasão imprevista de gafanhotos migradores em Landes,seguida de incêndios florestais. Após, se veria confrontado com pro-blemas mais complexos e de grande importância econômica, envol-vendo as culturas frutíferas de Agenais, as culturas de milho de Landese, obviamente, as pragas dos vinhedos da região de Bordeaux. Eleformou, nessa época, alunos excelentes e colaboradores que assegu-raram sua sucessão e mantêm, hoje, a reputação do Centro de Pesqui-sas de Zoologia Agrícola do Sudoeste.A diversidade de problemas entomológicos que apareceram e anecessidade de propor soluções práticas de controle não haviam,então, permitido a Francis Chaboussou aprofundar-se no estudo deum assunto especificamente. Em 1960, entretanto, dois novos pro-blemas se lhe apresentaram e, sobre os quais, enfim, ele espera poder*Doryphore no original. Corresponde ao “Colorado potato beetle”. (N. Da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S19empreender uma tese de doutorado em ciências: por um lado, oestudo dos atrativos sexuais elaborados por fêmeas virgens delepidópteros (feromônios) e sua aplicação no controle de urna lagartada videira,*por outro, a análise das causas do aparecimento e proli-feração de novas pragas em videiras, os ácaros fitófagos. Após ter bemencaminhado os estudos sobre a lagarta, ele confiou seu prossegui-mento a seus colaboradores e, a partir de então, consagrou-se de 1960a 1969 ao estudo de ácaros da videira. É no curso dessas pesquisas quese elabora o conceito da “trofobiose”, resultando na sua defesa de tese,em 1969, em Paris.A substituição dos arsenicais pelo DDT e por outros inseticidasorgânicos sintéticos, particularmente nos tratamentos dos pomarese vinhedos, teve como conseqüência a aparição, nos Estados Unidose Europa, de uma nova calamidade, os ácaros fitófagos, até entãorelativamente pouco danosos; estes microscópicos picadores e suga-dores de folhas provocam, por sua proliferação, prejuízos importan-tes aos vinhedos e pomares. A primeira explicação geral proposta foide que o DDT e outros inseticidas polivalentes de contato elimina-vam os predadores ou parasitas naturais desses ácaros fitófagos. Mas,esses predadores são, essencialmente, outros ácaros, de diversos gê-neros, e a hipótese não pôde ser confirmada.Para a videira, o problema apresentava-se sob um aspecto muitocomplexo, que Francis Chaboussou soube perfeitamente analisar. Trêsespécies de ácaros intervêm, cada uma podendo proliferar em perí-odos diferentes da estação e em função das datas de aplicação e danatureza dos diversos tratamentos inseticidas ou fitossanitários apli-cados à videira. Foi dissecando experimentalmente estes fenômenosque o autor conseguiu mostrar que a ação dos agrotóxicos utilizados**Po1ycrosis botrana. (N. da T.)*No original não existe a palavra agrotóxico. É usada a palavra pesticida. É,entretanto, correto o uso da palavra agrotóxico, criada por A. Paschoal em 1975.(N. do R).
  • 20F R A N C I S C H A B O U S S O U(particularmente inseticidas, contra larvas do cacho da uva;*oumesmo fungicidas) repercutia sobre os ácaros, por intermédio daplanta. Estes produtos provocam modificações no metabolismo daplanta, resultando num enriquecimento dos líquidos celulares oucirculantes em açúcares solúveis e aminoácidos livres. Os ácarosfitófagos picadores e sugadores dos tecidos vegetais encontram-se,assim, favorecidos na sua alimentação. Isto se traduz, conforme asespécies, por um aumento de sua fecundidade e de sua fertilidade,da velocidade do desenvolvimento e do número de gerações e mes-mo da longevidade. É, portanto, um fator trófico que está na origemdas proliferações dos ácaros fitófagos da videira. A esta dependênciaestreita entre as qualidades nutricionais da planta e seu parasita,Francis Chaboussou batizou de “trofobiose”. O termo já havia sidoutilizado pelos biologistas para designar as relações tróficas de algu-mas formigas com pulgões, aos quais elas dedicam cuidados particu-lares, mas o novo sentido dado pelo autor reveste-se de um grandeinteresse: é o próprio objeto do livro que ele nos apresenta hoje.Na realidade, lendo o livro de Francis Chaboussou, podemos nossurpreender por encontrarmos apenas citações breves de suas própriaspesquisas. Por isso, me parece justo sublinhar, aqui, sua importânciana origem do conceito de trofobiose, conceito que pesquisadoresposteriores confirmaram e ampliaram. Foi dessa forma que o autorpôde mostrar a ação de fatores edáficos (relação K/Ca) sobre as pro-liferações de certas cochonilhas de citros, no Marrocos; a incidênciada natureza do porta-enxerto sobre as reações de um mesmo enxer-to aos tratamentos fitossanitários (proliferações de ácaros fitófagos);e os efeitos favoráveis não-intencionais de certos acaricidas. Ocorreuma desordem ou desequilíbrio metabólico da planta, que se revelafavorável aos parasitas sempre que os açúcares solúveis e os aminoá-cidos livres dos tecidos vegetais estão em excesso, não estando normal-*Polychrosis botrama S. e Clysia ambiguella Hb. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S21mente incorporados na proteossíntese: desordem ou desequilíbriometabólico da planta, que se revela favorável aos parasitos.As experiências se acumulam pelas pesquisas pessoais, bem comopela revisão bibliográfica. Esta hipótese é confirmada por novas de-monstrações e o autor procura aplicá-la às causas tróficas das doen-ças fúngicas e até de doenças viróticas.Os fungos parasitas são organismos osmotróficos que se nutrem,como os insetos e os ácaros sugadores de seiva, de açúcares eaminoácidos livres dos tecidos vegetais. Nada de surpreendente,portanto, no fato de que todo o enriquecimento dos tecidos comsubstâncias solúveis favoreça o desenvolvimento das micoses. Osnumerosos exemplos citados e analisados pelo autor, neste livro, sãoprovas deste fato.Buscando analisar, segundo os princípios de sua teoria datrofobiose, todos os casos “inexplicados” de proliferação de parasitas,de eclosão de micoses, de aparição de viroses, da ineficiência de cer-tos tratamentos; buscando explicar os efeitos indiretos ou inespera-dos de diversos tipos de agrotóxicos (herbicidas, fungicidas,inseticidas, acaricidas), Francis Chaboussou chama a atenção que sechega, sempre, à existência de desequilíbrio entre dois processosfundamentais da fisiologia vegetal: proteossíntese e proteólise.O autor tem consciência clara que esses dois processos são eminen-temente complexos e que os mecanismos e fatores em jogo são múltiplos.Da mesma maneira, ele põe em evidência os desequilíbrios do meiointerior da planta (teor em açúcares solúveis e em aminoácidos livres),revelando ou suspeitando de causas distantes indiretas, insidiosas: exces-sos de adubações nitrogenadas solúveis, desequilíbrios de correções de K,Ca, Mg; carência ou excesso em determinados oligoelementos,*muitosdos quais são fornecidos à planta pelos agrotóxicos.*O termo oligoelemento é usado nesta obra como sinônimo de microelemento,forma mais empregada no Brasil. Foi respeitada a forma original. (N. do R.)
  • 22F R A N C I S C H A B O U S S O UEm suma, o autor, preocupado com a proteção das culturas con-tra seus parasitas ou suas doenças, volta-se mais para a planta doenteque para o parasita ou agente infeccioso. Admite-se, de muito bomgrado, que o homem “que nada lhe falta” sofre, hoje, diversas afecções,que têm origem num excesso de bem-estar (excesso de carne, gordu-ras, açúcar, excesso de álcool, de fumo e, mesmo, excesso de medica-mentos), mas também num excesso de estresse ou de estímulos (excessode barulho ou de agitação, excesso de automóvel ou de TV). As plan-tas cultivadas, em particular aquelas culturas industriais, são postas emcompetição permanente, para um crescimento mais rápido, uma pro-dução mais abundante, uma qualidade mais atraente.Nesses jogosolímpicos da agricultura industrial, as plantas cultivadas sãosuperalimentadas, sofrendo algumas vezes até um empanturramentode nitrogênio; elas são bem tratadas, como os campeões antes da pro-va (a colheita!), pulverizadas, banhadas freqüentemente com misturasfungicidas, inseticidas, acaricidas, a título preventivo; suas condiçõesde vida são artificializadas ao extremo (ciclos biogeoquímicos acelera-dos, húmus reduzido, herbicidas, chuva artificial, sob cultura imper-meável ou em estufas). Mas, às vezes, o campeão quebra antes da prova:acamamento dos cereais, secamento do pecíolo do cacho de uva,abortamento de frutos; aparentemente saudável, ele contrai, apesar detodas as medidas preventivas, doenças súbitas e desastrosas (micoses,viroses), ele sofre ataques maciços de parasitos(ácaros, pulgões).Então, se chama à cabeceira destas plantas-campeãs os especialis-tas mais renomados: fitopatologista, virologista, entomologista,imunologista, cada um em sua área, dando seu diagnóstico e sua re-ceita fitofarmacêutica. O próprio agrônomo, que deveria ser o médicogeneralista de sua cultura, consulta o edafólogo, o climatogista, ogeneticista. Como salienta Francis Chaboussou, se estuda muito adoença e não tanto o doente. Ele, médico dos vinhedos de Bordeaux,assusta-se com este excesso de terapêutica e com esta insuficiência dehigiene da planta e de seu meio. Nossas culturas industriais, diz ele,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S23sofrem de doenças cujas causas têm sua origem num excesso de cuida-dos fitossanitários; ele fala, então, de doenças “iatrogênicas”.Certamente, não se poderia negar os imensos progressos da agri-cultura industrial, graças, em particular, à seleção, às correções e aostratamentos fitossanitários! Nós temos, na França, belas culturas ebelas colheitas! Mas, voltando a uma comparação, talvez abusiva,porém não desprovida de sentido, podemos também dizer que ohomem moderno vive certamente melhor e mais longamente queaquele da Idade Média, eliminaram-se ou controlaram-se muitas dasgrandes doenças epidêmicas: varíola, tuberculose, peste, malária...Mas ele está, hoje em dia, sujeito a novas e múltiplas doenças orgâ-nicas ou infecciosas (arteriosclerose, câncer, gripe). Do mesmo modo,se é certo que as plantas cultivadas pagaram um pesado tributo acertas calamidades epidêmicas ou certas pragas, bem antes do desen-volvimento do controle químico moderno (requeima da batata quearruinou a Irlanda, Phylloxera que arrasou os vinhedos europeus,bicudo do algodão e cochonilhas dos citros nos Estados Unidos), sóse pode constatar a repetição incessante de afecções ou ataques quesofrem as culturas industriais, o que acarreta, como para o homem,um aumento crítico das despesas fitofarmacêuticas.Tão logo desenvolveram-se os tratamentos fitossanitários na Fran-ça, com a aparição de numerosos inseticidas, fungicidas ou herbicidassintéticos, nasceram duas palavras novas: “fitofarmárcia” e “fitiatria”,a fitofarmácia teve um grande desenvolvimento, conduzindo ao nas-cimento da indústria de agrotóxicos, mas, pode-se dizer que a fitiatria,ou medicina das plantas, manteve-se superficial, aparentemente li-mitada ao universo especializado da parasitologia: estudo de micoses,bacterioses, viroses (fitopatologia) e dos parasitas animais das cultu-ras (especialmente entomologia e nematologia).Certamente os agrônomos, no campo da pesquisa agronômica defisiologia vegetal, preocuparam-se em melhorar o crescimento, a pro-dução, a resistência das plantas cultivadas, e interessaram-se por tudo
  • 24F R A N C I S C H A B O U S S O Uo que diz respeito à nutrição mineral da planta, seus desequilíbrios, suascarências. Mas falta, incontestavelmente, uma ligação estreita entre afitofarmárcia e a fisiologia vegetal. O estudo das repercussões dosagrotóxicos, de todos os tipos e sob todas as suas formas de aplicaçãosobre a fisiologia da planta, somente foi abordado de forma superfici-al: efeitos tóxicos diretos, mais comuns. Os efeitos indiretos, a longoe curto prazos, tais como Francis Chaboussou apresenta em numero-sos exemplos, foram negligenciados.Já que o agrônomo se tornou o “generalista” para o estudo dasplantas cu1tivadas, não é de se surpreender que tenham sido os agrô-nomos práticos, isto é, os produtores, os primeiros a notar e a tentarcorrigir, empiricamente, os efeitos dos excessos de cuidados tróficose fitossanitários dispensados às plantas cultivadas de forma industrial.Estes produtores quiseram, de alguma forma, desenvolver o que euchamaria, de bom grado, uma agroproteção das culturas, com asubstituição dos métodos de proteção da agricultura de tipo indus-trial, os quais abusam, em particular, dos tratamentos fitossanitários,seja a título curativo ou mesmo preventivo.Assim, nasceu o que se chamou de agricultura biológica. O ter-mo, sem dúvida, se prestaria a discussões, mas o uso generalizou-segraças à imprensa e à mídia. Graças, sobretudo, a um grande públi-co apaixonado pela ecologia e obcecado pelos problemas de poluição.Por razões que não nos cabe analisar agora aqui, razões múltiplase, às vezes, imponderáveis, é lamentável que uma espécie de divórciose tenha estabelecido entre os agrônomos promissores do que chamei,aqui, a agroproteção das culturas, e a maioria dos agrônomos pesqui-sadores ou dos próprios quadros da pesquisa oficial.Uma crítica freqüentemente dirigida às teorias desses pioneirosé dizer-se “que não há nada de novo nisto, pois não passa de umageneralização abusiva de alguns dados insuficientes”, ou ainda “estesmétodos não podem satisfazer as necessidades de uma produçãoindustrial, isto é, competitiva e cobrindo as necessidades”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S25O autor desta obra não contradiria o fato de que, desde há muito,agrônomos, e dos mais renomados, têm chamado a atenção para aimportância do estado fisiológico da planta, como elemento de suaresistência às doenças infecciosas e parasitárias ou, ainda, alertandocontra os riscos potenciais do abandono da adubação orgânica, do usoabusivo dos adubos nitrogenados solúveis, da redução da atividadebiológica dos solos, citando os nomes de A. Demolon, G. Bertrand,J. Dufrénoy, P. Chouard e muitos outros. Sem contar que os traba-lhos de numerosos pesquisadores ou biólogos do INRA*são citadostrazendo um apoio direto ou indireto à teoria da trofobiose ou aosprincípios ecológicos da agroproteção das culturas.Quanto a tratar as pesquisas de Francis Chaboussou uma gene-ralização abusiva, considero, pessoalmente, um julgamento caduco.Este livro, precisamente, aporta muitos fatos em apoio à posição deChaboussou, se tomamos da literatura científica internacional, queurge, a meu ver, não deixar de testar mais adiante, esse conceito datrofobiose.Sem qualquer dúvida, as condições tróficas oferecidas pela plantaa seus parasitas, por mais importantes que sejam, não representam osúnicos fatores em jogo nas explosões populacionais de insetos ou deácaros fitófagos, ou na aparição e expansão de moléstias criptogâmicas,bacterianas ou viróticas. O autor, sem dúvida, em alguns trechos, sedeixa levar na direção de algumas afirmações ou hipóteses, nas quaisnem todos os leitores o seguirão.No entanto, quando ele se apóia nas belas pesquisas de nossocolega C. Vago, da pesquisa agronômica, sobre os processos dedesencadeamento e interligação das doenças infecciosas nos insetos,para tentar explicar (ao menos parcialmente) as eclosões e multipli-cação das afecções viróticas nos cultivos industriais, só se pode, no-*Institut National de Recherches Agronomiques (Instituto Nacional de PesquisasAgronômicas). (N. da T.)
  • 26F R A N C I S C H A B O U S S O Uvamente, desejar que a pesquisa se debruce, com atenção, sobre es-sas hipóteses emanadas da teoria da trofobiose.Igualmente, quando ele examina as incidências secundárias deuma desordem da proteossíntese nas plantas cultivadas (conseqüên-cias eventuais de desequilíbrios nutricionais ou de tratamentosfitossanitários) sobre a alimentação animal ou humana, mesmo queaí esteja, apenas um aspecto muito parcial do problema, a hipótesenão é gratuita e merece ser levada em consideração.Sem dúvida, os diversos problemas suscitados foram abordadospor um ou outro dos setores da pesquisa agronômica oficial, mas aleitura do livro de Francis Chaboussou, de bom grado, leva a pen-sar que sua idéia diretriz, expressa na sua teoria da trofobiose, po-deria ser, para os diversos pesquisadores, uma linha comum dedireção bastante útil.Quanto à afirmação de que os métodos culturais preconizados nocontexto da agroproteção das culturas não seriam aplicáveis às culturasindustriais, é conveniente sublinhar que o autor , antes de mais nada,deseja que a metodologia geral proposta não seja condenada apenassobre este critério, mas que seja, antes, testada, verificada oudesmentida. Ele tem consciência que o sugerido, em particular asaplicações foliares de oligoelementos, aproxima-se necessariamente,no plano técnico e agronômico, dos métodos de controle químico daagricultura industrial. Ë evidente que os métodos preconizados de-vem ser testados quanto a seus efeitos eventuais a longo prazo, pois,como em todas as coisas, o abuso pode ser a origem de novosdesequilíbrios.O mérito de Francis Chaboussou neste livro é, partindo de umaidéia simples, demasiadamente simples, já que foi negligenciada pormuito tempo por numerosos pesquisadores muito especializados,mostrar que sua teoria da trofobiose pode fornecer uma aproximação,e mesmo uma interpretação de uma quantidade de fatos que perma-nece inexplicados no campo da proteção de culturas.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S27O Institut National de la Recherche Agronomique recentementedefiniu suas novas orientações no sentido de uma agricultura “maiseconômica e mais autônoma” (J. Poly), sem reduzir, no entanto, aprodutividade e sua qualidade. Para mim, não há dúvidas de que umapesquisa destinada a melhor definir os fatores de agroproteção dasculturas, em função das espécies vegetais cultivadas e das condiçõesde meio, pode efetivamente ajudar a atingir estes objetivos.Paris, 18 de setembro de 1980.Paul PESSONProfessor honorárioInstitut National AgronomiqueParis-Grignon
  • Uma eminente especialista em ácaros pôde observar: “Até 1945os ácaros fitófagos eram tidos como inimigos menores da agricultura. Poroutro lado, há quinze anos o desenvolvimento destas espécies predatóriasatinge uma elevada significação econômica, ao mesmo tempo que sua listanão pára de aumentar” (ATHIAS-HENRIOT, 1959).Ora, uma tal ascensão dos ácaros à condição de inimigos maio-res da agricultura, proliferando tanto sobre plantas de grande culti-vo, como o algodão, quanto em videira ou árvores frutíferas, é,concomitante, com o emprego agrícola de um dos primeiros inseti-cidas de síntese e que deu o que falar: nos referimos ao DDT, ouzidane. Efetivamente, as primeiras multiplicações do que, impropri-amente, chamou-se de “aranhas vermelhas” ocorreram em macieiras,em seguida dos tratamentos à base de DDT e dirigidos contra a larvade Carpocapsa sp., ou “bicho das frutas”.PRÓLOGO
  • 30F R A N C I S C H A B O U S S O UMais tarde, por outro lado, o DDT seria, de certa forma, subs-tituído em tais processos “pró-ácaros” por toda uma série de outrosagrotóxicos sintéticos, como a maior parte de diferentes ésteresfosfóricos, Parathion à frente, os carbamatos como o Carbaryl , osftalimidas, como Captan etc.Assim, devido ao emprego de numerosos inseticidas sintéticos,que haviam destronado os produtos minerais, assistiu-se ao nascimen-to de uma nova indústria: a dos acaricidas.Isto é, impuseram, ao mesmo tempo, aos agricultores novas epesadas coerções. Sobretudo, como teremos a oportunidade de men-cionar neste trabalho, será demonstrado que numerosos acaricidas,em princípio, destinados a exterminar os ácaros, os faziam, parado-xalmente, proliferar, de acordo com o mesmo processo, pouco enten-dido, e cujo estudo será objeto da primeira parte desta obra.Entretanto, dois diferentes fatos, pelo menos, mereceriam aten-ção. Por um lado, estes “desequilíbrios biológicos”, com.o foram chama-dos, não diziam respeito somente às multiplicações de ácaros, mastambém de pulgões aleirodídeos, lepidópteros e até mesmos denematóides. Por outro lado, a utilização de certos agrotóxicos, comoos ditiocarbamatos (Maneb, Zineb, Mezineb), acarretam, também, odesenvolvimento não só de pragas, mas de moléstias criptogâmicascomo Oidium e Botrytis. Certos observadores registravam até a expan-são consecutiva de doenças viróticas. Trata-se de um grave fenôme-no que parece estar bem confirmado, como demonstraremos.Sem dúvida, seria suficiente apenas expor a diversidade destes“desequilíbrios” que dizem respeito tanto a vírus, quanto a fungospatógenos ou a ácaros, para perceber que o determinismo deste pro-cesso não poderia residir, unicamente, na eventual destruição dosinimigos naturais, que habitualmente é colocada como primeiroargumento. Como pensamos mostrar na primeira parte desta obratudo se passa como se, por sua ação nefasta sobre o metabolismo da plan-ta, os agrotóxicos rompessem a sua resistência natural.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S31Em outras palavras: é necessário, daqui para frente, se ter consciên-cia de um fato que, em princípio, não é de, outro modo,surpreendentesaber que, o agrotóxico – mesmo não provocando queimaduras ou fenôme-nos de fitotoxicidade aparentes – pode mostrar-se tóxico para a planta, comtodas as conseqüências que isto pode causar sobre a resistência a seus agressores,sejam eles fungos, bactérias, insetos ou mesmo vírus.Assim, esta obra é destinada a todos aqueles que, de perto ou delonge, estão implicados na utilização e recomendação dos agrotóxicos,como técnicos e pesquisadores, mas também aos burocratas, especi-almente os encarregados do registro e da colocação destes produtosnas mãos dos usuários.Nos mais de vinte anos que dedicamos a trabalhos sobre estetema, não faltou oportunidade aos diversos responsáveis para toma-rem conhecimento de nossas pesquisas e de nossas advertências.Contudo, pode ser que assim reunidas numa mesma obra de sínte-se, nossas concepções venham a ser acolhidas de outra forma, além dosacudir de ombros ou da conspiração do silêncio.Compreender-se-á, na sua leitura, que este livro é também umgrito de alarma, um grito destinado, em primeiro lugar, a ajudar osagricultores a se liberarem da alienação na qual se encontram e quereside numa absurda e arruinadora cadeia de intervenções comagrotóxicos, resultante, ela mesma, de uma cadeia de doenças artifici-almente provocadas.Todavia, temos, cada vez mais, confiança no bom senso e na ló-gica dos agricultores. Já são numerosos os que sentem, confusos, quecom o emprego quase desenfreado de agrotóxicos estão na direçãoerrada. Com efeito, os problemas de parasitismo das plantas nãocessam de se multiplicar e, é evidente, que não poderia ser de ou-tra forma no contexto atual dos métodos de controle químico.Assim, esperamos confiantes que, ao dar aos agricultores, causasdessas dificuldades e desventuras, nosso trabalho os ajudará amudar de direção.
  • 32F R A N C I S C H A B O U S S O UDuas tarefas nos pareceram mais urgentes: primeiro, dar a expli-cação dos perigos que corre a saúde da planta com os agrotóxicos e, espe-cialmente, pelos herbicidas, à fertilidade do solo. Esta responsabilidadeé dividida com os adubos solúveis, como pensamos demonstrar.Fm segundo lugar, destacar a natureza das relações que unem aplanta ao parasita. Assim, seremos conduzidos à segunda parte des-ta obra, consagrada à outra face do problema, ou seja, os meios deestimular a resistência da planta em relação a seus diferentesagressores. Tendo como princípio básico o estímulo da proteossíntese porcorreção de carências, serão consideradas as repercussões benéficas deuma adubação equilibrada e o emprego de oligoelementos.Enfim, julgamos lógico e indispensável expor, num último capí-tulo, aquilo que, atualmente, podemos concluir das conseqüências dediversas técnicas culturais em relação à uma questão que interessa atodos: a saúde do rebanho e do homem chamados a consumir ascolheitas assim obtidas.Não saberíamos concluir este “prólogo” sem expressar toda nossagratidão ao INRA (Institut National de la Recherche Agronomique),ao qual tivemos a honra de pertencer durante mais de quarenta anos,e ao qual ficamos, obviamente, profundamente ligados. Não tantoporque nossos superiores e a maior parte de nossos colegas tenhamtestemunhado um grande entusiasmo em relação a nossas concepçõesum pouco revolucionárias, mas porque tivemos a vantagem de podertrabalhar com toda a independência de espírito. Nunca seremos capa-zes de apreciar suficientemente o preço desta liberdade e, até, destacompreensão dada a um desditoso pesquisador, desgarrado num lamen-tável não-conformismo pela chamada lógica de seus trabalhos.Balizac, 29 de julho de 1980.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S33PRIMEIRA PARTEPLANTAS DOENTES PELA QUÍMICA
  • 1. DEFINIÇÃODa mesma forma que em patologia humana ou animal, enten-demos por “doença iatrogênica”, toda a afecção desencadeada pelo uso– seja moderado ou abusivo – de um medicamento qualquer. Em pa-tologia vegetal trata-se, portanto, do uso de agrotóxicos. Por outrolado, fala-se mais freqüentemente de “desequilíbrio biológico” quandose faz referência a uma proliferação brusca de uma ou outra praga, queocorre em seguida a um tratamento fitossanitário. É, por exemplo,o caso – do qual voltaremos a falar – das proliferações de ácaros, emseguida a numerosos tratamentos, tanto com fungicidas quanto cominseticidas.Assim, se falamos em “desequilíbrio”, foi porque, segundo a teo-ria clássica, implicitamente se imputava tais proliferações apenas àCAPÍTULO IAS DOENÇAS IATROGÊNICAS NAS PLANTAS“Devemos ser curiosos para ver se o que vemos é o que sentimos ver. Devemosanalisá-lo, abri-lo, virá-lo, olha-lo por baixo e olhar atrás. O conformista,simplesmente, não está programado para isso”.James G. HORSFALL (The story of a nonconformist, 1975.)É realmente uma coisa maravilhosa esta faculdade que têm os insetos dedistinguir uma árvore que não está mais em suas condições normais”.Edouard PERRIS (Histoire des insectes du pin maritime.)
  • 36F R A N C I S C H A B O U S S O Udestruição dos inimigos naturais da nova praga. O freio estandosuprimido, o fitófago podia proliferar sem obstáculos.Entretanto, essa teoria defronta-se com certas dificuldades. As-sim, ela não saberia explicar:– Como um certo número de agrotóxicos, perfeitamente inofen-sivos para os inimigos naturais, podem, entretanto, acarretar multi-plicação de diversos fitófagos – pulgões, por exemplo?– Por que razão, um agrotóxico não acarretando nenhuma reper-cussão deste gênero, em uma época determinada do ciclo da plantaem questão pode, entretanto, desencadear graves proliferações damesma praga em outro momento?– Como pode ocorrer, que um inseticida aplicado em tratamentodo solo possa provocar proliferações de ácaros do gênero Tetranychussobre as folhas da batata cultivada a seguir?– Enfim, no campo da patologia vegetal propriamente dita, éevidente que o desenvolvimento de diversas moléstias, tanto viróticasquanto criptogâmicas, não poderia ser atribuído a uma eventualdestruição de inimigos naturais, e isto pela simples razão de que essesúltimos são praticamente inexistentes!É a razão pela qual, num primeiro momento, julgamos indispen-sável revisar um certo número de casos de “desequilíbrios biológicos”,provocados pelo uso de agrotóxicos.2. DESEQUILÍBRIOS BIOLÓGICOS SEGUIDOS DOSTRATAMENTOS DAS FOLHAS COM AGROTÓXICOSA) Proliferações de pragasÁcaros: é o caso por nós estudado, sobre videiras, seguido aos tra-tamentos da folhagem com agrotóxicos (CHABOUSSOU, 1969). Foipossível mostrar que diversos inseticidas como DDT, Carbaryl e nu-merosos fosforados acarretam proliferações tanto de ácaros vermelhos
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S37(Panonychus ulmi, Koch), como de ácaros amarelos (Eotetranychuscarpini vitis, Dosse) (fig.1).Atualmente, por outro lado, as proliferações de ácaros fitófagosem árvores frutíferas, plantas de grandes cultivos ou videiras, e con-secutivas à utilização de produtos fosforados ou clorados, aí incluí-dos – paradoxalmente – os próprios acaricidas (CHABOUSSOU,1970), são por demais conhecidos para que continuemos insistindoneste assunto.Entretanto, devemos também chamar a atenção que tais prolife-rações ocorrem não somente com a utilização de inseticidas, isto é,de produtos com princípios tóxicos em relação aos inimigos naturaisdos ácaros (e ainda que o DDT, por exemplo, seja inofensivo paraácaros do gênero Typhlodromus, principais predadores), mas tambémcom os produtos fungicidas, como o Captan, não tóxicos para os para-sitas ou os predadores dos ácaros.Pulgões: diversos produtos podem, igualmente, provocar prolife-rações de pulgões (fig. 2). Por enquanto nos contentaremos em dardois exemplos.MICHEL (1966) demonstrou experimentalmente através decriações que, sobre o fumo, os tratamentos à base de um fosforado,o Mevinphos, desencadeavam em Myzus persicae aumentos defecundidade e redução do ciclo evolutivo. Como resultado, produ-zia-se, no curso da temporada, o aparecimento de uma geração su-plementar (fig. 2).Da mesma forma, estudando a reprodução de Aphis fabae sobreo eixo floral da beterraba, SMIRNOVA (1965) constata um efeitopositivo do tratamento com DDT sobre a fecundidade do pulgão. Opico máximo deste aumento da reprodução ocorre entre oito e quinzedias após a intervenção inseticida. Veremos, adiante, que pode ocorrero mesmo com os herbicidas, ao estudar-se o determinismo destasproliferações (MAXWELL e HARWOOD, 1961, e ADAMS eDREW, 1969).
  • 38F R A N C I S C H A B O U S S O UOutros insetos: essas multiplicações “anormais”, após tratamentosdas folhas com agrotóxicos, não envolvem somente ácaros e pulgões,mas também os aleirodídeos (van der LANN, 1961) sob influênciado DDT; as cochonilhas (KOZLOVA e KURDYUKOV, 1964)pelos fosforados, e também os lepidópteros, seja por um produtoclorado, o Dieldrin, no tratamento do solo (LUCKMANN, 1960),seja por um fosforado, como o Demeton (SAVESCO e IACOL,1958).Enfim, tais “doenças iatrogênicas” envolvem igualmente osnematódeos, cujos níveis de populações são evidentemente muito maisdifíceis de controlar. Entretanto, certos fungicidas, como o Thiramou TMTD, acarretam, sobre cebola, crescimento de populações deDitylenchus dipsaci (BRESKI e MACIAS, 1967).Da mesma forma, WEBSTER (1967) demonstrou experimental-mente que, tanto em aveia resistente quanto suscetível, os tratamentosherbicidas à base de 2,4-D acarretavam, em comparação às testemunhas,um maior número do mesmo nematóide, Ditylenchus dipsaci. Saliente-se que este tratamento com 2,4-D provoca na aveia hipertrofia das cé-lulas, fenômeno provavelmente relacionado com o da proliferação.Como já se pode suspeitar, tais proliferações de pragas que ocorrempela intermediação da planta, envolvem numerosos outros organismosparasitas, inclusive os vírus, como pensamos mostrar mais adiante.. Se,relativamente, há longo tempo, esses fenômenos foram constatadosenvolvendo ácaros, pulgões e cochonilhas, é porque estes insetos picadoresmantêm-se sobre a planta durante toda a duração de seu ciclo evolutivoe, conseqüentemente, sua multiplicação não poderia passar desaperce-bida. O mesmo não ocorre com certas ordens de insetos como oslepidópteros, por exemplo, submetidos a metamorfoses que exigem oabandono do vegetal. Também é importante, como veremos a propósi-to do tratamento do solo, registrar – graças a observadores perspicazes –proliferações de lagartas endófitas do milho, como Ostrinia nubilalis Hb,após certas desinfecções do solo.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S39B) Desenvolvimento de doenças fúngicasSobre este assunto, os trabalhos de JOHNSON (1946), que já ci-tamos (CHABOUSSOU, 1972), parecem-nos exemplares. Desde aquelaépoca o autor chamava a atenção que “a reação da planta hospedeira aoDDT podia abrir um novo rumo no que diz respeito ao estudo da resistênciado trigo à ferrugem”. Como a seqüência desta obra demonstrará abundan-temente, pelo menos esperamos, não é somente a ação do DDT emrelação à ferrugem, mas também a de diferentes agrotóxicos quanto a suasincidências positivas sobre o desenvolvimento de várias doenças nos le-varão a elucidar o determinismo da resistência da planta a seus agressores.JOHNSON (op. cit.) experimentou diversas variedades de trigo,as quais inoculou com esporos de diversas raças de ferrugem (Pucciniagraminis tritici). As plantas foram, a seguir, tratadas com DDT, de-pois de ter sido previamente estabelecido que este inseticida nãoacarretava nenhum efeito direto sobre a virulência do fungo. Comoconseqüência dessas contaminações artificiais, JOHNSON constatouque na variedade de trigo Khapli, todas as ferrugens tinham produ-zido lesões, consideravelmente, mais extensas sobre as plantas trata-das com DDT do que sobre os trigos testemunhas.Por outro lado, nesta variedade mais sensível à ferrugem,JOHNSON observou uma relação marcante entre a clorose e a exten-são da doença. Parece, assim, bem demonstrado que a exacerbação dasuscetibilidade do trigo à ferrugem provocada pelo tratamento com DDTé conseqüência direta das repercussões deste produto clorado sobre a fisi-ologia da planta.Os trabalhos de JOHNSON explicam determinadas dificuldadesde controle de diversas doenças, como daremos exemplos mais adiante,quando as plantas tenham sido tratadas – isto é, “fisiologicamentecondicionadas” – por meio de certos agrotóxicos. É, particularmen-te, o caso do oídio (Uncinula necator, Schw). Efetivamente, pudemosmostrar sobre videira, durante dois anos consecutivos que, em com-paração às testemunhas tratadas com água pura, diversos carbamatos
  • 40F R A N C I S C H A B O U S S O U(ditiocarbamatos, como Maneb, Zineb e Propineb) tinham provo-cado um desenvolvimento altamente significativo de oídio (CHA-BOUSSOU et alii, 1966) (fig. 3).Da mesma forma, pode-se questionar a responsabilidade destesditiocarbamatos no recrudescimento dos ataques de mofo cinzento(Botrytis cinerea) constatado há uma quinzena de anos – isto é, des-de o emprego destes fungicidas sintéticos – na maior parte dos vinhe-dos do mundo inteiro. Demonstramos isto no desenvolvimento denossos experimentos sobre videiras.Tais resultados, alias, só confirmam os já obtidos sobre tomate,onde o Maneb, usado contra o míldio, provocou um aumento nagravidade dos ataques de Botrytis (COX e HAYSLIP, 1956). Pesqui-sas análogas, conduzidas sobre morangueiros, também mostraram queas parcelas tratadas com zinco ou com Nabam + sulfato de zinco,estavam significativamente mais atacadas por Botrytis (COX eWINFREE, 1957). Veremos, no próximo capítulo, como as análi-ses das folhas realizadas por estes autores permitirão compreender odeterminismo desta suscetibilidade.C) “Dificuldades de controle”, “fracassos de tratamentos” ou, àsvezes, “ineficácia dos produtos”não significam, muitas vezes, se nãouma sensibilização da planta a ser protegida da doença a combater,esta produzida pelo próprio agrotóxico.1 – Fracassos dos ditiocarbamatos contra o míldio da videira, no finalda temporadaA partir da utilização dos novos fungicidas sintéticos, numero-sas decepções e fracassos foram registrados no controle das doençasda videira. Assim, em 1963, AMPHOUX denunciava as insuficiên-cias do Captan, do Phaltan (2 ftalimidas) e do Zineb (2 formulações),no controle do míldio.Parece-nos útil citar: “A utilização de novos fungicidas (ou seja,as quatro formulações supracitadas) não pode ser concebida sem o
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S41risco de se ver desenvolver, intensamente, o míldio, durante o perío-do de crescimento muito lento da videira: em agosto, setembro e outubro,caso não se tenha o recurso de uma sólida cobertura cúprica, por ocasiãodos últimos tratamentos da estação”.AMPHOUX acrescentava esta observação, que nos parece mui-to importante: “Contudo, continua difícil precisar qual deva ser esta“sólida cobertura indispensável”, já que, em certos casos, no fim dasafra, três tratamentos com calda bordalesa a 2% em videiras tratadas comOrthocide 50 (Captan) mostraram-se insuficientes”. Voltaremos maisadiante, sobre as repercussões, tanto dos produtos dessa síntese, como docobre, que nos esclarecerão sobre a causa desses fenômenos. No momento,daremos um exemplo, dentre outros: Em 1966, DIETRICH eBRECHBUHLER observaram: “em Riesling, o míldio do fim detemporada instalou-se, principalmente, sobre as parcelas tratadascom Euparen (Dichlofuanid) e com F 263-2*(um produto experi-mental) e, em menor grau, sobre aquelas de Phaltan”.Observemos, por enquanto, que nestes dois casos se trata dedificuldades de fim de temporada. No caso que estudaremos agora,veremos a evolução, na eficácia de um mesmo produto no decorrer datemporada, o que nos permitirá, precisamente, explicar a razão dessa“disparidade sazonal” na ação do produto, que também é encontrada nosinseticidas.2 – Evolução da eficácia de diversos fungicidas no decorrer da tem-porada, em relação ao míldio da videiraApós os resultados dos ensaios do Instituto Técnico do Vinho(ITV) contra o míldio, LE NAIL (1965) observou a disparidade daeficácia dos diversos fungicidas testados em relação à doença, em fun-ção da época dos levantamentos. Retomando a questão (CHA-BOUSSOU, 1967), evocávamos, em Videiras e vinhos estas repercussões*Basfungin. (N. da T.)
  • 42F R A N C I S C H A B O U S S O Uapressadamente qualificadas de “secundárias”. Assim, observávamos:“Ora, todos estes fenômenos só se esclarecerão, a partir do momentoem que conhecermos a natureza profunda das repercussões dosagrotóxicos sobre a planta e que pudermos confrontá-las com as respec-tivas necessidades dos fungos patogênicos e das pragas”. É chegado omomento.No decorrer destes ensaios, sete intervenções antimíldio foramrealizadas, em: 25 de maio; 1º, 8, 13, 22 de junho; 1º, 10, 20 dejulho e 12 de agosto. Constata-se, no curso dos diferentes levanta-mentos efetuados nos dias 17 de julho, 25 e 26 de agosto, 25 e 26de setembro, 16, 17 e 26 de outubro(este último, levantamentoenvolvendo o peso das folhas), uma grande disparidade na ordem deeficácia dos produtos.Veremos, aqui, apenas as disparidades mais salientes encontradascom os produtos utilizados puros, ou seja: Propineb e calda bordalesa,em duas concentrações: 0,5% e 2%.Ora, em 17 de julho, época do primeiro levantamento após as seteprimeiras intervenções, terminadas em 10 de julho, o Propineb (tam-bém chamado Mezineb) – um ditiocarbamato de zinco, é o primei-ro em eficácia. Na mesma época, a calda bordalesa a 2% está emquarto lugar, e a 0,5% em ultimo (fig. 4).Dois outros tratamentos ocorrem nos dias 29 de julho e 12 deagosto. Os levantamentos de 25 e26 de agosto indicam que oMezineb recua ao 8º lugar, e que descerá para o 10º e último lugar,no decorrer das observações de 23 e 24 de setembro e, l6 e l9 deoutubro.Exatamente ao contrário, a calda bordalesa a 5% não cessa deprogredir na ordem de eficácia, à medida que se avança na tempora-da. Do 8º lugar em 13 e 14 de setembro, passa a 3° nos dias 16 a 19de outubro. Definitivamente, ela coloca-se à frente dos produtosorganocúpricos como cupro-Zineb, cupro-Carbatene, e dos produ-tos orgânicos puros como Difolatan, Maneb e Propineb.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S43Face à mediocridade desses resultados, dos produtos orgânicosutilizados, seja associados ao cobre seja empregados puros, não fal-tou invocar-se uma eventual ausência de sua persistência, se compa-rada à da calda bordalesa. Contudo, as análises dos produtos quepersistem na superfície das folhas, absolutamente não confirmaramesta hipótese. E mais, com certos produtos “ineficazes” registra-se,entre os levantamentos de 17 de julho e 26 de agosto, 25 a 30 vezesmais manchas de míldio. As parcelas tratadas com Mezineb nãoapresentaram mais que 7,3% de folhas sãs em 23 e 24 de setembro.É evidente que, neste caso, absolutamente, não se trata de umasimples ineficácia dos produtos orgânicos, mas – exatamente comopara oídio e Botrytis – de uma estimulação do potencial biótico do míldioprovocada, indiretamente, pelas repercussões dos tratamentos repetidos comesses “fungicidas” sobre a fisiologia da planta, assunto que estudaremos aolongo do próximo capítulo.3 – Disparidade da eficácia de Oxicarboxin e de Triforine em rela-ção à ferrugem branca do crisântemo (Puccinia horiana, P. HENN)Trata-se de trabalhos realizados por GROVET e HALLAIRE(1973) sobre plantas em casa de vegetação. Os produtos foram uti-lizados em pulverização sobre a folhagem ou por irrigação do solo, àrazão de 10 litros/m2. Os autores consideraram um eventual efeitofungicida por ação sistêmica.Resultados dos tratamentos por pulverização. No momento dapulverização, os pés de crisântemo possuíam 8 a 10 folhas, e tinhamde 14 a 18 na época da inoculação da doença. De modo geral, oOxicarboxin apresenta um efeito persistente: um só tratamento,aplicado durante o período de incubação, impede o desenvolvimentoda ferrugem e protege as plantas durante vários dias, uma contami-nação ulterior.Entretanto, de maneira bastante excepcional, os autores avalia-ram a gravidade da doença não somente em função dos produtos
  • 44F R A N C I S C H A B O U S S O Uutilizados mas, também, segundo a idade das folhas. Assim, puderamconstatar, especialmente sobre as testemunhas, uma resistência àdoença nas folhas recém-formadas, semelhante à das senescentes. Aocontrário, as folhas de meia-idade (maduras) mostraram-se muitomais sensíveis à doença. Precisemos que tal fenômeno é de ordemgeral, especialmente na videira, tanto para o míldio como para ooídio. Isto demonstra bem, se ainda houvesse necessidade, a impor-tância do estado fisiológico do órgão ou da planta inteira na sensibi-lidade ao que se pode chamar de seus “parasitas” (fig. 5).Por outro lado, no que diz respeito ao determinismo do modo deação dos produtos, nota-se um fenômeno particularmente interessan-te: a eficácia dos dois fungicidas testados revela-se muito diferente,segundo a altura de inserção da folha, isto é, segundo sua idade. Ográfico da fig. 6, montado com base nos dados da fig. 5, mostra quea eficácia da Triforine está inversamente relacionada à idade da folha,a ponto de se tornar estimulação da doença para os níveis 12 e 13, quesão as últimas folhas formadas.Estes resultados, absolutamente, não são isolados: num segun-do ensaio, três tratamentos foram aplicados em 26 de julho e, 5 e 16de agosto. Ora, vinte e seis dias após o último tratamento, o núme-ro de manchas formadas, em função da idade da folha, dá um gráfi-co sensivelmente análogo ao do experimento precedente.Assim, a aplicação de três tratamentos ao invés de um só, à basede Informe, a 30 g/hl, permitiu a proteção da planta até uma alturamais elevada (10 folhas). A curva relativa aos ataques sobre as teste-munhas evidencia a total resistência à ferrugem dos seis níveis maisbaixos das folhas.Quando comparadas às testemunhas, as repercussões dosfungicidas mostram uma modificação na doença que envolve, aomesmo tempo, sua gravidade e a altura das folhas. Se, como para oexperimento precedente, se estabelece, uma comparação à testemu-nha, se a eficácia ocasionada pelos tratamentos produz curvas perfei-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S45tamente contínuas e que mostram bem o decréscimo da eficácia dosprodutos em função da juventude crescente dos tecidos foliares (fig. 6).Como no caso precedente, parece que o processo teria por efeitoestimular a suscetibilidade das últimas folhas formadas na planta. Parecebem demonstrado que esta estimulação da doença – e isto tanto comOxicarboxin como com Triforine – não seria explicável senão pelo efeitodestes “fungicidas” sobre a fisiologia do crisântemo.Nessas condições, a ação anticriptogâmica destes produtos con-tra a ferrugem nas outras folhas não seria resultado de um eventualefeito tóxico em relação ao fungo parasita. Necessariamente, seriainterferência das repercussões destes agrotóxicos sobre o estadobioquímico das folhas. Em princípio, tratar-se-ia de uma ação inversaà do DDT sobre o trigo, que estudamos anteriormente. Antecipan-do o próximo capítulo, pode-se presumir que estes produtos ajamestimulando a proteossíntese e, portanto, provocando a regressão dassubstâncias solúveis nos tecidos. Essas substâncias soluveis favorecemnão apenas o desenvolvimento da ferrugem, mas também o de umasérie de outras doenças (DUFRÉNOY, 1936).Ora, fenômenos semelhantes são encontrados constantemente,por menor que seja o cuidado na condução das observações. Vamosdar um último exemplo, que diz respeito ao controle do míldio dotomate.4 – Resultados do Prothiocarb contra o míldio do tomateBEYRIES e MOLOT (1977) concluem, dos seus experimentoscom Prothiocarb contra o míldio do tomate, que, nas fortes dosesutilizadas, entre 1% e 2% as folhas superiores são resistentes, enquantoque as da base são sensíveis. Segundo os autores, isto significa que ouno ápice da planta há maior concentração do produto, admitindo-se que ele seja verdadeiramente fungicida ou, neste nível, “as modi-ficações dos processos naturais de defesa da planta são bem maisintensos que em outras áreas”.
  • 46F R A N C I S C H A B O U S S O UEstes autores parecem admitir, implicitamente, que o agrotóxicopode ter modificado, favoravelmente, neste caso, a resistência daplanta à doença, quando esta regride. Ou num sentido desfavorável,em caso contrário. BEYRIES e MOLOT (op. cit.) observam igual-mente que: “A aplicação, no solo, do Prothiocarb aumenta a sensibi-lidade das folhas da base – que são as primeiras atacadas – em razãoda forte umidade relativa existente neste nível”.Falaremos novamente dos fracassos propriamente ditos dos tra-tamentos e do desenvolvimento de moléstias fúngicas, bacterianas eviróticas relacionadas ao uso dos agrotóxicos. Poderemos tratar me-lhor destas questões após havermos estudado as repercussões dosagrotóxicos sobre a fisiologia da planta e, através da teoria da trofobiose,as relações que unem a planta e seus predadores.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S47Número de F. Livres hibernantesDe E. carpini vitis Boisd., em 800 cmem lenho de 2 anosFig 1. Multiplicação do ácaro amarelo da videira, Eotetranychuscarpini vitis Boisd por Carbaryl e Parathion (Carbaryl = Sévin)(CHABOUSSOU, 1969.)
  • 48F R A N C I S C H A B O U S S O UPopulação do pulgão pretoFig. 2. Multiplicação do pulgão preto da beterraba, Aphis fabaeScop., consecutiva a diversos tratamentos com agrotóxicos (Dados doServiço da Proteção de Vegetais/experimentos de homologação de1964.) Ordenadas logarítmicas.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S49Coeficiente de ataqueem 400 cachosFig. 3. Coeficientes de ataque de oídio sobre cachos de uva, emfunção dos diferentes fungicidas utilizados contra o míldio. (CepaCabernet-Sauvignon, método de blocos, 4 repetições. Ensaios 1966,em Latresne [INRA].)
  • 50F R A N C I S C H A B O U S S O UCepapeso das folhasem gramasFig. 4. Resultados dos experimentos de controle de míldio, con-duzidos em 1964 pelo Institut Technique du Vin (ITV). Este esque-ma dá, em diversas datas, a ordem de eficácia dos produtos testados,por ordem decrescente da esquerda para a direita.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S51Número médio de manchas por folhasFig. 5. Repercussões de dois fungicidas, Triforine e Oxicarboxin, emrelação à ferrugem branca do crisântemo (Puccinia horiana), em fun-ção da idade da folha. (Segundo dados de GROUET e HALLAIRE,1973.) – Número médio de manchas por folha, em função da sua idadee dos tratamentos aplicados em uma unica pulverização. (observação15 dias após tratamento).
  • 52F R A N C I S C H A B O U S S O UPercentual de Eficácia, em comparação às testemunhasFig. 6. Eficácia de Oxicarboxin e de Triforine contra a ferrugembranca do crisântemo (Puccinia horiana), e em função da idade dafolha, comparada às testemunhas. (Segundo dados de GROUET eHALLAIRE, 1973.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S53BIBLIOGRAFIAADAMS J.B. et DREW M.E. 1969. Grain aphids in New Brunswick. IV. Effectsof malathion and 2-4 D amine on aphid populations and on yields of oats andbarley. “Cand j. Zool.”, 47, p. 3.AMPHOUX M. 1963. Le Mildiou de laVigne. Publication I.T.V.BEYRIESA.etMOLOTP.M.1976. Relationentrelasystémieduprothiocarbetsonefficacitévis-à-visduPhytophthorainfestansdelaTomate(partraitementdusol).“Phytiatrie-Phytopharfie” 25, pp. 235-249.BREZESKIM. W. et MACIAS W. 1967. The increased attack of Ditylenchusdipsaci on onion caused by fungicides. “Nematologia”, 13, p. 322.CHABOUSSOUF.1966. Nouveauxaspectsdelaphitiatrieetdelaphytopharmacie.Lephénomènedelatrophobiose.“Proc.F.A.O.Symposiumofintegratedcontrol”,1, pp. 36-62.CHABOUSSOU F. 1967. Etude des répercussions de divers ordres entrainées parcertains fongicides utilisés en traitement de laVigne contre le mildiou. “Vignes etVins”, no160 e no 164, 22 p.CHABOUSSOU F., MOUTOUS G. et LAFON R. 1968. Répercussions surl’Oidium de divers produits utilisés en traitement fongicide contre te mildiou de laVigne. “Rev. Zool. Appl.”, pp. 237-249.CHABOUSSOU F. 1969. Recherches sur les facteurs de pullulation des AcariensphytophagesdelaVigneàlasuitedestraitementspesticidesdufeuillage.“ThèseFac.Se”., Paris, 138 p.CHABOUSSOU F. 1970. Sur le processus de multiplication des Acariens par lesacaricides phosphorés. “Rev. Zool. Agric. Path. Veg.”, pp. 33-44.CHABOUSSOU F. 1972. LaTrophobiose et la protection de la Plante. “Revue desQuestions scientifiques”, Bruxelas, t. 143, pp. 27-47 e 175-208.COX R.S. etHAYSLIPN.C.1958. Progress in the control of grey mold and leaf spotand on the chemical composition of strawberry plant tissues. “Plant diseasereporter”, 40, p. 718.COX R.S. et WINFREE J.F. 1957. Observations on the effect of fungicides on greymould and leaf spot and on the chemical composition of strawberry plant tissues.“Plant disease reporter”, 41, pp. 755-759.DIETRICHetBRECHBUHLER1966. RapportsurlesessaisconduitssurlaVigne
  • 54F R A N C I S C H A B O U S S O Uen 1966. “Institut du Vin et lnstitut Viticole Oberlin”, Colmar.DUFRENOY J. 1936. Le traitement du sol, désinfection, amendements, fumure, envuedecontrôlerchezlesPlantesagricolesdegrandeculturelesaffectionsparasitaireset les maladies de carence. “Ann. Gron. Suisse”, pp. 680-728.GROUETD. etHALLAIREL.1973.Efficacité de l’oxycarboxine et de la triflorinecontre la Rouille blanche du Chrysanthème (“Puccinia Horiana”, P. Hevin).“Phytiatrie Phytopharmacie”, 22, pp. 177-188.JOHNSONT.1946.TheeffectofD.D.T.onthestemrust.ReactionofKhapliwheat.“Canad. J. Res.”, pp. 24-28.KOZLOVA E.N. et KURDYNKOV. 1964. The effect of organophosphorusinsecticides on the developpement on Comstock’s mealybug. “Trudy vsee Inst.zahsch”. 20 pt., pp. 2l-24, Leningrado. (In “Rev. Appl. Ent.”, 1966, p.320)LE NAIL F. 1965. Efficacité comparée de divers fongicides à l’égard du mildiou de laVigne. “La Défense des Végétaux”, no 113, pp. 4-5.LUCKMANNW.H.1960.IncreaseofEuropeancomborerfollowingsoilapplicationof large amounts of dieldrin. “J. Econ. Ent.”, t.59, 4, pp. 582-584.MAXWELLR.C.etHARWOODR.P.1960.Increasereproductionofpea-aphidinbroad beans treated with 2-4D.“Ann.Ent.Soc.Amer.”,53, no2,pp.199-205.MICHELE.1966.ProliférationanormaleduPuceronMyzuspersicaeélevésurTabactraité à la phosdrine. “Rev. Zool. Agric.”, 14,6, pp. 53-62.SAVESCU A. et IACOL N. 1958. Do systemic insecticides stimulate infestations ofPlusia orichalcea Fabr. in potatoes? (“Comm. Acad. Republ. roumaine”, 8, nº6, pp. 593-9.)SMIRNOVAI.M.1965.Therelationofthebeanaphid(AphispomiSe.)tothecontentofsugarsandnitrogenussubstancesinbeetplantstreatedwithD.D.T.“Trudyvsesnonkew. isseld; Inst. Zasheh. Rast.”, Leningrado, 34, pp. 124-129.VanderLAANP.A.1961.StimulationseffectsofD.D.T.treatmentoncottononwhitefiles(BenisiaTabaciGenn.Aleurodidae)intheSudanGezira.“Ent.exp.appl.”,4, pp. 47-55.WEBSTER J.M. 1967.Some effects of 2-4 dichlorophenoxyacetate acid herbicide onnematode-infestedcereals:Ditylenchusdipsaci, “PlantPathol.”,16,1,pp.23-26.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S55INTRODUÇÃOAcreditamos ter mostrado que a proliferação de pragas e, com maisforte razão, o desenvolvimento de doenças, desencadeadas pelo uso deagrotóxicos, não poderiam ser explicados somente pela destruição doseventuais inimigos naturais. No quarto capítulo, nos propomos a ex-por suas causas tão profundamente quanto possível. Já sabemos que setrata de fenômenos indiretos, que se atêm à modificação da fisiologiada planta sob a ação dos produtos fitossanitários; quer se tratem deinseticidas, de fungicidas e, com mais forte razão, dos herbicidas. Assim,coloca-se em questão o problema das relações entre a planta e o quepodemos justamente chamar; seus “parasitas”. Estudando-o através deum caso particular compreenderemos melhor toda a importância dasrepercussões dos agrotóxicos sobre a saúde e a resistência do vegetalassim tratado... E, freqüentemente, maltratado!CAPÍTULO IIFISIOLOGIA E RESISTÊNCIA DA PLANTA“O grande erro da terapêutica moderna foi estudar a doença sem se preocuparcom o terreno onde ela evolui”Dr. Albert LEPRINCE (La médicine électronique, 1962).“Este trabalho (seleção de linhagens resistentes dentro das populações) é, aliás,delicado, porque a imunidade, a tolerância e a hipersensibilidade são funçõesdas condições do meio”.P. LIMASSET e E.A. CAIRASCHI (La lutte contre les maladies à vírus desplantes. Monografia INRA, 1941.)
  • 56F R A N C I S C H A B O U S S O U1. AS DUAS CONCEPÇÕES DO DETERMINISMO DARESISTÊNCIAPelo termo “resistência” não entendemos a capacidade da plantade suportar, sem muitos danos, o ataque deste ou daquele predador,e, pelo termo “tolerância”, a não receptividade ou imunidade (parcialou total).Atualmente, há concordância em se reconhecer neste fenômenouma causa sobretudo, bioquímica, e não mecânica. Contudo, duasconcepções estão presentes para explicar este processo.Segundo a teoria clássica, a resistência da planta procederia dapresença de substâncias antagônicas nos seus tecidos, tóxicas ouapenas repulsivas ao “parasita” em questão.Ao contrário, para nós que destacamos toda a importância danutrição sobre o potencial biótico dos organismos vivos, a imunida-de estaria, antes de mais nada, relacionada com a ausência dos ele-mentos nutritivos necessários ao crescimento e ao desenvolvimentodo parasita – seja vegetal ou animal. É a nossa teoria da trofobiose, quedesenvolveremos no decorrer do próximo capítulo.É possível perguntar-se em que medida essas duas teorias não pode-riam concordar entre si, já que, na presença de substâncias reputadascomo tóxicas ou antagônicas nos tecidos, encontrar-se-iam, na realidade,correlacionadas à ausência de fatores nutricionais. Se isto fosse demons-trado, seria o único critério a ser considerado para a resistência daplanta. Veremos em que medida justifica-se tal posição, pelo estudode um exemplo, o da resistência do milho à helmintosporiose.2. CONDICIONAMENTO FISIOLÓGICO DO MILHO ERESISTÊNCIA À HELMINTOSPORIOSEA) Pesquisa de fatores antagônicosO estudo de um determinado condicionamento da planta comofator de resistência à helmintosporiose foi ilustrado pelos trabalhos
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S57de MOLOT (1969) – já vimos que em suas pesquisas sobre a eficá-cia de um fungicida, o Prothiocarb questionava o seu modo de ação.Quanto à resistência do milho ao fungo Helminthosporium turcicum,diversos fatores foram revisados: densidade de plantio, emasculação daespiga e duração da luminosidade. O determinismo bioquímico daresistência foi pesquisado pela análise de folhas, que envolveu açúcarese fenóis, elementos provavelmente relacionados ao processo.Na França, frisa MOLOT, esta doença só afeta, raramente, asculturas de Landes e dos Pirineus-Atlânticos.Em condições naturais, a doença jamais é observada sobreplântulas. As primeiras manchas só aparecem em torno do estágio da7ª e 8ª folha, e continuam a se desenvolver após a floração. As folhasatacadas podem se dessecar prematuramente provocando, às vezes,importantes quedas nos rendimentos.Por outro lado, as condições de luminosidade (ou seja, o fotoperíodo),como se sabe, efetivamente, podem modificar a resistência da plantaàs doenças fúngicas e influem sobre a suscetibilidade do milho àhelmintosporiose. Assim, as plantas cultivadas sob fotoperíodos curtos sãomuito mais sensíveis à moléstia. Teremos ocasião de retomar este fenôme-no, que não é específico nem do milho, nem da helmintosporiose.Após ter exposto estes primeiros dados, MOLOT conclui: “Pa-rece ser a composição química da planta que exerce uma influência pre-dominante nos fenômenos de resistência”. Portanto, não se trata dequalquer barreira mecânica no processo de resistência.Por outro lado, refere-se a diversos trabalhos, que estabelecem:a) existe um gradiente de teores em glicídios ao longo do colmo;b) essa concentração de açúcares condiciona a resistência domilho em relação a um outro fungo patógeno, Diplodia zeae.MOLOT orientou seus trabalhos sobre a pesquisa das eventuaisrelações entre o teor em glicídios dos colmos e a resistência a outrasdoenças, as fusarioses. É necessário resumir os resultados desses es-tudos, ainda que saiamos do caso da helmintosporiose.
  • 58F R A N C I S C H A B O U S S O UMOLOT (op. cit.) chega à conclusão que “quanto mais elevada fora concentração em glicídios dos colmos em fim de período vegetativo,mais baixa será a percentagem de quebra na maturidade”. (Estas con-clusões resultam de observações sobre 17 linhagens, em que os teoresde glicídios foram avaliados em 15 de setembro, enquanto a avaliaçãoda quebra – que se admite estar em estreita relação com a doença – foifeita em meados de outubro, ou seja, um mês mais tarde.)Entretanto, tal conclusão não existe sem levantar certas dificul-dades que não escaparam a seu autor. MOLOT completa: “Ora, osglicídios, compostos importantes da nutrição carbonada dos fungos,favorecem o crescimento miceliano. Portanto, pelo menos nas con-centrações em que eles existem, não é possível atribuir-lhes um pa-pel fungistático. Ao contrário, é permitido pensar que eles variamcorrelativamente com outros fatores bioquímicos capazes de inibir ocrescimento miceliano”.Temos que subscrever esta conclusão, mas devemos confirmar,enfaticamente, que é sob um outro ângulo, bem diferente da ação deeventuais substâncias antagônicas ou tóxicas, que divisamos os pro-blemas do determinismo da resistência. E, os resultados relatadosadiante podem, aliás, conduzir-nos, como no estudo que vamosabordar,aos fatores de resistência do milho à helmintosporiose.B) O “fator A”, de BECK, e a resistência do milho à lagarta e àhelmintosporioseO “fator A”, posto em evidência por BECK, no milho, determi-naria a resistência à lagarta (Ostrinia nubilalis Hb). Trata-se de umproduto quimicamente identificado como 6-metoxibenzoxazolinonae que teria também correlação negativa com o grau de sensibilidadeà helmintosporiose. (Estimativa pelo método das médias das concen-trações logarítmicas).MOLOT (op. cit.) observa: “Do ponto de vista biológico, istosignifica que o comportamento do milho está na dependência da
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S59concentração do fator A nos tecidos. Notemos, entretanto, que teoresmuito elevados desta substância, principalmente na linhagem B 49 nãotornam a planta imune. Além disto, uma linhagem ainda mais resistenteque a B 49, contém muito pouco de 6-metoxibenzoxazolinona. Conclui-se que, se o fator A pode ser considerado como um fator de resistên-cia à helmintosporiose, ele não intervém sozinho no mecanismo dedefesa da planta”.Parece que com tais observações – cuja honestidade científica deveser louvada – chegamos ao âmago do problema. Isto implica que aexistência de uma resistência elevada do milho, mesmo com um fra-co teor nos tecidos do fator A, não poderia ser considerada como umaexceção, que, em gramática, pareceria confirmar a regra.. Se elevadosteores do fator A não produziriam resistência, e se em outras linha-gens a resistência manifesta-se, a despeito de um baixo teor de 6-metoxibenzoxazolinona (cuidadosamente identificada), é porque esteproduto não provoca nenhuma toxicidade em relação ao fungopatógeno.Voltamos, obrigatoriamente, à nossa concepção de resistênciarelacionada com a ausência ou, pelo menos, a carência dos elemen-tos nutritivos necessários ao desenvolvimento do parasita.Em relação ao processo de resistência do milho a Ostrinia,SCOTT e GUTHRIE (1966) parecem tê-lo demonstrado perfeita-mente. Suplementados com uma dieta artificial adequada, os milhosresistentes foram perfeitamente aceitos pelas lagartas de Ostrinia nubilalis.Este regime alimentar permitiu-lhes completar um ciclo perfeito,absolutamente comparável ao que poderia ter-se desenvolvido àsexpensas de uma linhagem suscetível.Portanto, aí está a demonstração de que, se um inseto não ataca aslinhagens de milho ditas “resistentes”, é porque ele não encontra nostecidos dessas plantas (N. do R.) os elementos nutritivos necessáriospara seu desenvolvimento e sua reprodução. E isto, sem que estejampresentes, obrigatoriamente, eventuais produtos tóxicos nos tecidos.
  • 60F R A N C I S C H A B O U S S O UAliás, o próprio BECK parece ter-se dado conta da insuficiência de suateoria da imunidade da planta pela existência de substâncias antagô-nicas; ele reconhece que “pesquisas deveriam ser empreendidas envolven-do um melhor conhecimento das relações entre a nutrição do inseto, o estadofenológico da planta e o comportamento do animal”.Bem entendido, é o mesmo processo que deve ser posto em açãono que diz respeito ao estudo das relações entre o fungo patógeno ea planta. Em outros termos, o problema consiste em determinarcomo o fator A pode inibir o desenvolvimento da helmintosporiosese ele não é, realmente, um fungicida (os fitopatologistas têm prefe-rido empregar os termos anticriptogâmico ou fungistático, o que nosparece significativo).Em outras palavras – e toda a questão está aí, em relação a umaplanta ou uma linhagem resistente, no caso, o milho – o fungo para-sita morre envenenado ou perece de inanição? A resposta a esta questãoparece estar na terceira parte do trabalho de MOLOT, que envolveo que ele denomina: “o modo de ação dos compostos fenólicos”.Revisando os trabalhos anteriores referentes à resistência do milhoà helmintosporiose, MOLOT lembra que: “O crescimento micelianoem presença de compostos fenólicos depende da cultura (KIRKHAM,1957) e da presença ou ausência de nitrogênio no meio (KIRKHAM,1954). Assim, um aumento da relação N/fenóis diminui a toxicidadedos compostos fenólicos em relação ao gênero Venturia. Um aporte denitrogênio afeta, não somente a toxicidade dos fenóis, mas também suaconcentração na planta”.Eis aí sobre o que refletir, quanto ao mecanismo da resistênciade compostos fenólicos. Se realmente agem como tóxicos, é neces-sário então, explicar como a adição de certos produtos nitrogenadospode ter a função de contraveneno? Sabe-se – como observa o pró-prio MOLOT – que certos fungos, especialmente os que atacam amadeira, usam os fenóis e seus derivados como substâncias nutri-tivas...
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S61Entretanto, a toxicidade dos fenóis em relação ao fungo, absolu-tamente não nos parece demonstrada e, o papel nutricional do nitro-gênio nos parece, ao contrário, evidente no desenvolvimento e navirulência de Helminthosporium. Os fatos nos parecem muito fáceisde explicar se os consideramos sob o ângulo do crescimento e dareprodução do agente patógeno. É isto que nos propomos a estudaragora, analisando os resultados obtidos pelo tipo de fertilização so-bre a resistência da planta à helmintosporiose.C) Fertilização e resistência da planta à helmintosporiose.Analisaremos antes o trabalho aprofundado de SHIGEYASUAkai (1962), relativo à influência das repercussões potássicas sobrea helmintosporiose do arroz. Anteriormente, ele observa que, certosautores,como ONO e OKAMOTO, já haviam mostrado que a apli-cação de potássio provoca uma diminuição do número de manchasde Helminthosporium sobre as folhas.Os experimentos de SHIGEYASU (op. cit.) foram desenvolvidosa partir do arroz cultivado em solução nutritiva e tratado de manei-ra a ser submetido a excessos ou carências de N ou de K. Ora, a menorpercentagem de manchas de grandes dimensões foi constatada como tratamento “excesso de K”, enquanto a mais elevada foi encontra-da nos tratamentos para “carência de K” ou “carência de N”.Por outro lado, a natureza da fertilização afeta igualmente ataxa de germinação dos conídeos. De 37,7% nas testemunhas,passa a 25,3% para o “excesso de K”, a 51,0% para a “carência deK”, a 74,3% para “o excesso de N” e, enfim, a 90,4% paraa”carência de N”.Estes dados destacam a importância do condicionamento daplanta pela fertilização, em relação à resistência à doença. Neste caso,evidenciam a influência primordial do nível de potássio sobre a re-sistência, por intermédio – como veremos agora – de suas repercus-sões no teor dos elementos nitrogenados solúveis nos tecidos.
  • 62F R A N C I S C H A B O U S S O USHIGEYASU (op. cit.) realizou com efeito, análises de folhas(sadias e doentes); um a cinco dias após a inoculação da doença. Essasanálises foram conduzidas, simultaneamente, sobre o teor de K e dediversos aminoácidos livres como glutamina, asparagina e alanina.Ora, de maneira geral, verifica-se que as folhas atingidas contêmnitidamente menos aminoácidos que as folhas sadias. Presume-se queesta deficiência resulta de seu consumo pelo fungo parasita. O autorobserva que:“A taxa de germinação dos conídeos é proporcional à quantida-de de aminoácidos livres contidos nas folhas e, quanto mais elevadofor o teor de aminoácidos livres, mais alta será a taxa de germinação”(dos conídeos, N. do R.).Quanto ao teor de potássio nas folhas, parece ter pouca impor-tância, ao menos a partir de um certo nível. Isto confirmaria o fatode que este elemento não agiria, por si próprio, sobre a resistência,mas por intermédio de suas repercussões sobre o metabolismo daplanta.Por outro lado, registra-se “uma correlação positiva entre o teorde aminoácidos dibásicos das folhas do arroz e o crescimento dasmanchas de helmintosporiose”. O autor acrescenta: “Neste experi-mento, o teor de aminoácidos dibásicos era baixo. Ao contrário, asfolhas de arroz das parcelas com carência de potássio e de nitrogênioapresentavam quantidades importantes de aminoácidos dibásicos eum número elevado de manchas de Helminthosporium, de pequenasdimensões”.Após ter observado que as folhas da parcela com excesso de nitro-gênio apresentavam os teores mais elevados de alanina, SHIGEYASU(op. cit.) conclui: “Se a atividade de síntese das proteínas, a partir deaminoácidos livres, decresce nas plantas deficientes em potássio – comojá foi demonstrado por diversos autores em várias plantas – este fenô-meno pode favorecer o desenvolvimento de manchas sobre as folhas dearroz das parcelas com carência de potássio”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S63Observemos rapidamente este processo que une a sensibilidade daplanta a uma deficiência na proteossíntese. Em resumo e com efeito,devido ao papel fundamental que desempenha no metabolismo da plan-ta e especialmente nos metabolismos glicídico e fosfatado e devido aoparalelismo entre o teor de potássio e a intensidade da fotossíntese, opotássio encontra-se na base de um metabolismo ligado à resistência daplanta, pelo favorecimento da síntese de proteínas e, conseqüentemen-te, pela regressão das substâncias solúveis que acarreta. Encontra-se, pois,na base de um metabolismo ligado à resistência da planta.Torna-se necessário precisar que o potássio não age só, mas simsegundo seu equilíbrio com os outros elementos, especialmentecatiônicos (CHABOUSSOU, 1973). Assim, SHIGEYASU (op. cit.)observa, no arroz, a importância do antagonismo K/Mg. Da mesmaforma deve-se considerar a influência do Mg e do P nas parcelas ondea relação K/N está desequilibrada por um excesso de N.Enfim, o autor também procedeu a ensaios de fertilização comoligoelementos. Os primeiros resultados evidenciaram que: “A sen-sibilidade à helmintosporiose diminui pela aplicação de iodo, zinco emanganês. Além disso, estes tratamentos parecem ter efeito favorável so-bre o desenvolvimento vegetativo”.Um comentário impõe-se imediatamente: não é por acaso queesta terapia com oligoelementos age positivamente sobre o crescimen-to, isto é, sobre a proteossíntese. É este último processo que acarretaa resistência da planta à moléstia, por regressão das substâncias so-lúveis nos tecidos. Voltaremos a este ponto fundamental ao longodeste livro, especialmente no próximo capítulo.Prosseguindo sua análise, SHIGEYASU (op. cit.) precisa que oexcesso de fósforo, a adição de cobalto e a carência de magnésio au-mentam a sensibilidade do arroz ao Helminthosporium. Este fato leva-o a concluir que é absolutamente impossível discutir sobre asensibilidade do arroz em relação a este parasita, apenas sob o ângu-lo da fertilização potássica.
  • 64F R A N C I S C H A B O U S S O UEste ponto de vista – a priori bastante evidente – encontra-seconfirmado pelos trabalhos de BOGYO (1955), que tratam da in-fluência dos aportes de potássio e cálcio sobre a aparição e a gravida-de de Helminthosporium turcicum em milho. De maneira geral,enquanto o potássio aumenta a resistência, o cálcio agrava a sensibi-lidade. Este fenômeno parece ter relação com o equilíbrio K/Ca naplanta, do que falaremos mais adiante. Um ponto importante subli-nhado pelo autor: “uma vez que a planta disponha de quantidadessuficientes de potássio assimilável, a cal aplicada em doses crescentesnão provoca aumento da doença”.Quer dizer, esta é toda a importância dos fenômenos de troca eassimilação no metabolismo e resistência da planta.Em resumo, dois anos de experimentos permitem a BOGYO con-cluir: “A adubação potássica bem como o uso de esterco permitem uma dimi-nuiçãosignificativadagravidadedosataquesdeHelminthosporiumturcicum”.Retenhamos, por enquanto, este efeito benéfico da fertilizaçãoorgânica sobre a resistência da planta em relação à doença: a isto,igualmente, voltaremos ao longo desta obra.Definitivamente, os resultados de BOGYO e SHIGEYASU en-contram-se para confirmar a ação benéfica da fertilização potássica,quando esta é feita num contexto nutricional da planta, caracterizado porum ótimo de proteossíntese. Ou seja, correlativamente, com a existên-cia nos tecidos de, um mínimo de substâncias solúveis sensibilizadoras.Esta concepção de determinismo bioquímico da resistência seráconfirmada, a seguir, pelo estudo das relações entre determinados fato-res ambientais ou culturais e a resistência do milho à helmintosporiose.D) Determinismo bioquímico das repercussões de diversos fatoressobre a resistência do milho à helmintosporiose1 – Idade da plantaComo assinalado anteriormente, as plantas jovens de milho ja-mais são atacadas: as primeiras manchas, com efeito, só se desenvol-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S65vem ao nível da 7ª e 8ª folhas, continuando a se estender após afloração.Ora, sabe-se que em todas as folhas jovens a síntese protéica épredominante, daí ter-se um mínimo de substâncias solúveis nos te-cidos. Aqui, ainda, a resistência também está ligada a um fenômeno decarência em elementos nutricionais em relação às necessidades do fungoparasita. Propomo-nos a mostrar neste trabalho que se trata de umfenômeno de ordem geral. Quanto ao processo inverso, ‘da suscetibili-dade aos ataques de parasitas de diversas ordens, parece que se explicapela existência de um estado bioquímico caracterizado, ao contrário,qualquer que seja o fator em jogo, por uma proteólise dominante e pelaabundância de substâncias solúveis nos tecidos.Assim se explica, notadamente, como veremos adiante, a carac-terística sensibilidade na época da floração, tanto nos cereais como nasárvores frutíferas.Inversamente, a resistência das folhas maduras a doenças e insetossugadores, como os pulgões, parece ligada ao fato de, nestes órgãosmaduros, a maior parte do nitrogênio estar concentrada em proteí-nas e, conseqüente-mente, o teor em compostos solúveis ser relativa-mente baixo.2 – Influência da luminosidadeA energia luminosa apresenta uma influência positiva sobre assínteses. Ao contrário, com luminosidade alterada e em penúria deágua estas são reduzidas. Neste caso, a abundância de aminoácidose ácidos orgânicos é que sensibiliza nutricionalmente a planta emrelação aos organismos patogênicos. A influência da luminosidade éconfirmada pelo do fotoperíodo e, portanto, em condições iguais, à dalatitude. MOLOT lembra que se YOUNG et. alii. (1959) assinalamum crescimento de sensibilidade do milho à Diplodia zeae quando sedesloca um mesmo híbrido de um estado do norte dos EstadosUnidos, como Minnesota, para um estado mais meridional, como o
  • 66F R A N C I S C H A B O U S S O UMissouri ou Oklahoma, é porque a latitude diminui e, com ela, ocomprimento do dia.Parece se tratar de um fenômeno de ordem geral. Assim,UMAERUS 1959) assinala que a variedade de batata “Sebago”, con-siderada como altamente resistente em dias longos, no Maine, mos-tra-se, ao contrário, uma das variedades mais suscetíveis à requeima(Phytophthora infestans) em dias curtos, na Flórida.3 – Influência da emasculação da espigaEsta operação, segundo MOLOT (op. cit.), tem por objetivoaumentar a sensibilidade do milho em 25% em relação à helmintos-poriose. Ora, o corte deste órgão reprodutor tem por resultado au-mentar o teor de glicídios das folhas, porque sua migração para osórgãos reprodutores não ocorre mais. Todavia, os glicídios não são osúnicos a não mais migrarem; ocorre o mesmo com os compostosnitrogenados solúveis. Como chegamos à conclusão de que, sozinho,oteor de glicídios nos tecidos não afetaria a resistência, somos induzi-dos a pensar que ela possa estar inversamente relacionada ao teor emcompostos nitrogenados solúveis. A operação de emasculação acarreta,provavelmente, uma regressão dessas substâncias.4 – Influência da região de cultivoCom a mudança de região, é evidente que certas condições decultivo encontram-se simultaneamente modificadas. Isto ocorre coma latitude, sendo a energia recebida pela planta diferente. Não éimpossível que esta influência possa interferir na França, apesar dasdiferenças de latitude estarem longe de alcançar a mesma escala quenos Estados Unidos (oito (8) paralelos, em vez de 17 nos EstadosUnidos). Todavia, os departamentos de Landes e Pirineus-Atlânticos,regiões assinaladas por MOLOT como as mais atacadas pelahelmintosporiose, são também as mais meridionais. Este fenômenoconcordaria, portanto, com o fato de uma grande sensibilidade des-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S67te mesmo milho em relação a Diplodia ou da batata à requeima, nosestados do sul dos Estados Unidos.Vimos, estudando as repercussões da fertilização potássica ounitrogenada, que a nutrição da planta pode estar igualmente emdiscussão. Vimos também, a importância dos oligoelementos. EmLandes, onde a helmintosporiose ataca com maior intensidade, ossolos – silicosos – são particularmente deficientes em cobre,. carênciaesta que tem por resultado aumentar o teor dos tecidos em produ-tos nitrogenados solúveis e, portanto, em elementos nutricionaissuscetíveis de sensibilizar o milho em relação a diversas moléstias eespecialmente à helmintosporiose.Confirmaremos estas considerações, pelas conseqüências benéficasresultantes das correções do solo e de pulverizações cúpricas ou à basede complexos de oligoelementos, em relação àquilo que se podechamar “estado geral” da planta e sua resistência contra toda umagama de doenças ou pragas.3. DISCUSSÃO GERAL E CONCLUSÕES REFERENTES ÀSRELAÇÕES ENTRE O MILHO E A HELMINTOSPORIOSEA respeito da podridão do colmo, provocada pelos ataques dasfusarioses, MOLOT (op. cit.) evidenciou uma correlação altamentesignificativa entre o teor em glicídios dos colmos em 15 de setembroe as percentagens de quebra em meados de outubro, isto é, corres-pondente aos danos de Fusarium.Entretanto, MOLOT, muito justamente, observa que, como osglicídios são elementos importantes da nutrição carbonada dos fun-gos, não seria possível lhes atribuir qualquer papel fungistático. Aocontrário, diz ele, e sempre com a mesma preocupação de explicar aresistência pela presença de um produto tóxico ao patógeno nos te-cidos (fitoalexina), acrescenta: “Pode-se pensar que eles (os glicídios)variam correlativamente com outros fatores bioquímicos capazes deinibir o crescimento miceliano”.
  • 68F R A N C I S C H A B O U S S O UEm resumo, podemos constatar que, mesmo munida de estudosestatísticos (com transformações angulares), a hipótese do papel dosglicídios como inibidores ou fungistáticos em relação às fusarioses nãose confirmou. Por outro lado, MOLOT observa que MESSIAEN(1957), “trabalhando sobre um material mais heterogêneo, nãoobteve uma relação linear entre o índice refratométrico e a percenta-gem de colmos doentes”.Por outro lado, MOLOT assinala duas séries de trabalhos quepõem o nitrogênio em questão. Primeiro TURK et alii. (1957) esta-beleceram que, ao nível dos colmos e dos pedúnculos da espiga, omaterial sensível aparece sempre deficitário emcarboidratos, e que existeuma correlação entre a resistência a Diplodia e a relação N/sacarose.Quanto às pesquisas de KIRKHAM (1954-1957), elas eviden-ciam que “o crescimento miceliano em presença de compostosfenólicos – reputados como inibidores – depende também, comopara a helmintosporiose, da idade da cultura e da presença ou ausên-cia de nitrogênio no meio”. Assim: “Um aumento da relação N/fenóisdiminui a toxicidade dos compostos fenólicos em relação ao gêneroVenturia”.Esta é, pelo menos, a interpretação do pesquisador sobre os fa-tos. É curioso se constatar que, apesar da impossibilidade de eviden-ciar qualquer fator antagônico, o autor obstina-se na procura deeventuais compostos tóxicos face ao fungo parasita, como se umatoxicidade fosse o único meio de inibir seu desenvolvimento. A im-portância das relações de elementos onde o nitrogênio aparece comonumerador, em relação ao crescimento dos patógenos, deveria orientaras conclusões para uma direção totalmente diferente!Uma vez que o excesso de glicídios e mesmo de fenóis não con-seguiria explicar a inibição do crescimento miceliano, deveríamosperguntar-nos se esta inibição não poderia resultar de uma carêncianutricional e, no caso, de uma insuficiência em certos elementosnitrogenados.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S69Em outras palavras: a função positiva entre o valor da relação N/fenóis e a virulência do fungo resultam, não da eventual toxicidadedos fenóis face ao patógeno, mas sim do efeito positivo do nitrogênio sobreseu desenvolvimento.Aliás, foi exatamente a esta conclusão que fomos conduzidos peloestudo da virulência da helmintosporiose em relação ao arroz,provocada por diversos tipos de fertilização; da mesma forma que pelaanálise do determinismo bioquímico das repercussões de diferentesfatores do meio ou dos tratosculturais sobre a resistência do milho àmesma doença. Esta concepção do determinismo da resistência daplanta, baseada nos elementos nutricionais que ela pode oferecer aoparasita, será amplamente verificada ao longo deste trabalho. Trata-se da nossa teoria da trofobiose, que nos propomos a expor e estudarno curso do próximo capítulo.BIBLIOGRAFIABECK S.D. 1965. Resistance of plants to insects. “Ann. Rev. Ent.”, pp. 207-282.BOGYO Dr. 1955. L‘effet des apports de potassium et de chaux sur l’apparition del‘HelminthosporiumturcicumchezleMais.“RevuedelaPotasse”,outubrode1955.KIRKHAM D.S. 1954. Significance of the ratio between the water soluble aromaticand nitrogen constituents of apple and pear in the host parasite relationships ofVenturia species. “Nature”, 173, pp. 690-691.KIRKHAMD.S.1957.Thesignificanceofpolyphenolicmetabolitesofappleandpearin the host relations of Venturia inaequalis and Venturia pirina. “J. gen.Microbiol.”, 17, p. 491.MIESSIAENC.M.1957.RichesseensucredestigesdeMaisetVerseparasitaire. “Rev.Pathol. veg. Entomol. agric.”, 36, 4, pp. 209-213.MOLOTP.M.1969.RecherchessurlarésistanceduMaisàl’HelminthosporioseetauxFusarioses. “Ann. Phytopartho”: (I) Rôle de la composition chimique de la Plan-te, pp. 55-74. (II) Facteurs de résistance, pp. 353-366. (III) Mode d ‘action descomposés phénoliques, pp. 367-383.SCOTT G.E. et GUTHRIE W.D. 1966. Survival of European corn borer larvae
  • 70F R A N C I S C H A B O U S S O Uon resistant com treated with nutritional substances. “J. Econ. Ent.”, pp. 1265-1267.SHIGEYASU Akai. 1962.Application de potasse et apparition d Helminthosporiosesur Riz. “Revue de la Potasse”, section 23, 7 p.DeTURKE.E.,EARLYE.B.,HOLBERTJ.R.1937.Resistanceofcomhybridsrelatedto carbohydrates. “III. Agric. exper. Stn. Ann. Rept”, 49 (1936), pp. 43-45.UMEARUS V. 1959. The relationship between peroxydase activity in potato leavesand resistance to Phytophthora infestans. “Amer. Potato J.”, 36, pp. l24-l3l.YOUNG H.C., WILCOXON R.D., WHITEHEAD M.D., de WAY J.E.,GROGAN C.O., ZUBER M.S. 1959.An ecological study of the pathogenecityof Diplodia maydis isolates inciting stalk rot of corn. “PlantDis.Rept.”,43,pp.1124-1129.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S711. A “TROFOBIOSE” COMO TEORIA DA RESISTÊNCIADA PLANTAO caso estudado no capítulo precedente, envolvendo o determi-nismo da resistência de diversas plantas à helmintosporiose, mostrou-nos a impossiblidade de evidenciar a eventual existência de qualquerfator antagonista a este fungo. Inúmeras vezes a hipótese das“fitoalexinas” ou “alexinas” (literalmente: compostos de proteínas)como explicação do fenômeno da imunidade foi posta em dúvida pordiferentes pesquisadores.Assim, WOOD (1972) chama a atenção contra esta hipóteseprecisando que “se existem numerosas asserções segundo as quais aresistência seria ligada à presença de tais toxinas nas plantas sãs, amaior parte delas não são muito convincentes”.No que diz respeito à resistência do milho a HelminthosporiumCAPÍTULO IIIA TEORIA DA TROFOBIOSE“Num programa de controle integrado, os fatores tróficos deverão seramplamente considerados: fungicidas e inseticidas não deverão mais serselecionados, quando com igual eficácia, unicamente segundo sua relativainocuidade aos inimigos naturais das pragas, mas também em função de suaação profunda sobre a planta e considerando-se suas eventuais repercussõespor trofobiose sobre a dinâmica das populações de pragas”. Pierre GRISONPrincípios e métodos de controle integrado (Accademia Nazionale dei Lincei.Quaderno no128, pp. 211-230. Rome, 1968)
  • 72F R A N C I S C H A B O U S S O Uturcicum, OBI (1975) observa que numerosos tipos de resistência aeste fungo não poderiam ser imputados a uma eventual produção defitoalexinas.Por outro lado, KIRALY et alii. (1972) salientam que certasobservações sobre as ferrugens do trigo (Puccinia recondita Rob eDesm. e P. graminis Pers.) conduzem ao conceito da “respostahipersensitiva” de uma planta hospedeira à infecção. Este tipo deresistência é caracterizado pela desorganização, escurecimento emorte (necrose) das células nos locais da infecção.Estes mesmos autores fazem o relato de experiências mostrandoque a necrose hipersensitiva em relação à produção de uma fitoalexina éapenas uma conseqüência e não a causa da resistência da batata e feijãoa Phytophthora infestans e do trigo às ferrugens. Eles concluíam assim:“Em outras palavras, na interação natural de incompatibilidade hos-pedeiro-patógeno, não era a necrose dos tecidos do hospedeiro que ini-bia ou impedia o patógeno de prosseguir seu crescimento, mas, antes danecrose, um ou vários mecanismos desconhecidos que inibem ou mesmomatam o patógeno”.É o estudo dos fatores de sensibilidade da planta que nos ajuda-rá a dissecar as causas do fenômeno inverso, o da resistência. Paratanto, torna-se necessário retomar os trabalhos do patologista fran-cês DUFRÉNOY, ao qual a Academia de Agricultura acaba de prestaruma homenagem. DUFRÉNOY (1936), analisando as repercussõesde diferentes fatores culturais sobre a resistência da planta, como asfertilizações e adubações orgânicas, ressalta que: “O que varia na célulaé a concentração de determinadas substâncias absorvidas do meioexterior; em condições desfavoráveis à sua utilização, estas substân-cias podem se acumular nas soluções ditas ‘vacuolares’, na forma desal mineral ou ácidos orgânicos”.DUFRÉNOY precisa que estas “condições desfavoráveis” podemser decorrentes de desequilíbrios na adubação, tanto dos macronu-trientes, como os “clássicos” N, P, K, ou dos oligo-elementos. Transcre-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S73vemos a causa de sensibilidade, tal como concebido por DUFRÉNOY:“Toda circunstância desfavorável à formação de nova quantidade decitoplasma, isto é, desfavorável ao crescimento, tende a provocar, na solu-ção vacuolar das células, um acúmulo de compostos solúveis inutilizados,como açúcares e aminoácidos; este acúmulo de produtos solúveis parece fa-vorecer a nutrição de microorganismos parasitas e, portanto, diminuir aresistência da planta às doenças parasitárias”. (fig.7)Fig. 7. Célula vegetal (folha de Helodea canadensis) . (Segundo GUINOCHET, 1965.)Em outras palavras: um estado de proteólise dominante nos te-cidos conduz a uma sensibilidade em relação aos parasitas. Esta con-cepção, efetivamente, parece confirmada pela análise do fenômenoinverso: o da resistência. Assim, TOMIYAMA (1963), analisando osfenômenos fisiológicos e bioquímicos da resistência das plantas, as-sinala que a fungo-toxicidade dos compostos fenólicos, “admitindo-se que ela exista, não é muito elevada”, e que os outros gruposimportantes de toxinas também não são altamente tóxicos. Seuspróprios experimentos referentes a Phytophthora infestans parasitando
  • 74F R A N C I S C H A B O U S S O Uas células epidérmicas das folhas de batata mostram que a maior partedas hifas intracelulares continuam vivas quando sobrevém “a mortehipersensível”. Estas hifas intracelulares parecem precisar de dezhoras ou mais para morrerem, após a morte hipersensível da célula-hospedeira.Em resumo, tudo leva a crer que, sem nenhuma intoxicação, ofungo parasita morre simplesmente de inanição.Deduz-se, conseqüentemente, que a resistência da planta deveriaser inerente a um ótimo de proteossíntese. É, efetivamente, o resultadoda análise de TOMIYAMA (op. cit), tendo registrado que “observou-se um aumento das proteínas nos tecidos resistentes”. É, também, isto quesugere outra observação do mesmo autor: “O acúmulo de amido, oaumento de protídeos, os compostos fenólicos e a respiração indicam queos materiais transportados estão relacionados com um metabolismo ace-lerado no tecido que se mostra resistente ao ataque de parasitas”.Assim, não é devido a qualquer efeito tóxico dos compostosfenólicos que se exerce a resistência, mas sim como conseqüência deuma carência de elementos nutricionais solúveis. A própria carência éresultante de um estímulo da proteossíntese, que é acompanhada da pro-dução de fenóis. Aliás, TOMIYAMA termina seu trabalho observan-do a necessidade de mais estudos profundos relacionados aos fatoresnutricionais.Parece justificada nossa concepção da trofobiose, segundo a qual:“Todo o processo vital encontra-se sob a dependência da satisfação das neces-sidades do organismo vivo, seja ele vegetal ou animal” (CHABOUSSOU,1960).Em outras palavras, isto significa que a planta ou, mais precisamente,o órgão será atacado somente na medida em que seu estado bioquímico,determinado pela natureza e pelo teor em substâncias solúveis nutricionais,corresponda às exigências tróficas do parasita em questão.É útil observar que estas relações de ordem nutricional já haviamsido suspeitadas em 1956 por GARBER. Esse autor escreveu: “Se o
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S75parasita prolifera ou metaboliza extensivamente num hospedeiro, ohospedeiro deve fornecer todos os elementos nutritivos requeridospelo parasita; pela mesma razão, um hospedeiro suscetível apresen-ta um ambiente inibidor ineficaz”.GARBER (1956) fornece o exemplo de alterações na virulênciade mutantes bioquímicos de Klebsiella pneumoniae. Os mutantes quenecessitam de treonina, tirosina, leucina, histidina ou uracilo guar-dam sua virulência. Ele conclui que a relação nutricional encontra-se, assim, perfeitamente demonstrada. Ele continua: “Se o parasita nãopode proliferar ou metabolizar exclusivamente no hospedeiro, ele não podeser virulento”.Gostaríamos de fazer aqui uma segunda observação em relação àssubstâncias solúveis como elementos nutricionais indispensáveis aosdiversos parasitas. É óbvio que afirmando isto não pretenderíamos quetodos os parasitas – como ácaros, insetos, fungos parasitas ou vírus –sejam tributários de um regime alimentar idêntico. Na realidade, istoseria testemunhar uma profunda falta de conhecimento da diversi-dade das necessidades nutricionais destes vários organismos. Todavia,todos estes organismos – que se pode qualificar de “inferiores” –, devido aseu equipamento enzimático, exigem alimentar-se de substâncias solúveis,as únicas capazes de assimilarem.Assim, é graças a um estado predominante de proteólise nostecidos da planta, que pode ser conseqüência de diversos fatores –entre os quais os tratamentos com agrotóxicos – os quais nos ocu-paremos de estudar nos próximos capítulos- que o parasita encon-tra os elementos solúveis que lhes convém. Por isso é capaz de crescere se multiplicar numa planta já prejudicada no seu crescimento nor-mal.A seguir, vamos expor nossos conhecimentos relativos às neces-sidades nutricionais das principais pragas e dos fungos patógenos. Asexigências dos vírus serão tratadas no quinto capítulo, consagrado aessa grave questão.
  • 76F R A N C I S C H A B O U S S O U2. NECESSIDADES NUTRICIONAIS DOS “PARASITAS”ANIMAIS*Com o estudo do que determina a seleção da planta pelo insetoou ácaro, podemos afirmar que estamos no âmago da entomologiaagrícola. De início, coloca-se uma questão fundamental: a escolha doanimal é devida a uma resposta a fatores atrativos ou repulsivosemitidos pela planta, ou esta se encontra selecionada pela superiori-dade que oferece ao fitófago?São numerosos os trabalhos desenvolvidos para responder a estaquestão tão delicada, que exige muita atenção para não se cair naarmadilha do finalismo. Entretanto, diversos métodos de pesquisaforam colocados em jogo. Citamos, especialmente, as observações dosinsetos em seu meio natural, sua ação predadora, o exame dodivertículo esofágico e dos excrementos, as adaptações estruturais, osmétodos histológicos e determinados métodos especiais, dos quais omais recente é dos mais interessantes: criações sobre meios nutriti-vos artificiais ou sintéticos.Assim, diversos autores puderam mostrar a estreita relação exis-tente entre a morfologia das mandíbulas de Acridae e de Tettigonidaee as formas de sua apreensão do alimento. Isto se constitui na demons-tração das relações que unem a anatomia do inseto ao seu compor-tamento alimentar e à sua nutrição. Todavia, em relação à descobertae ao ataque da planta, dois tipos de resposta do inseto foram distin-guidos. O inseto seria governado por dois tipos de estímulos:a) Os “token stimuli” (ou estímulos sinais), cuja natureza pode serolfativa ou gustativa, mas cuja característica seria acusar a presença deprodutos desprovidos de qualquer valor alimentar nos tecidos da*Segundo certos puristas, o termo “parasita” deveria ser reservado aos inimigosnaturais das pragas, que usam o corpo destas para efetuar uma parte de sua evolução.Contudo, decidimos conservar este vocábulo para designar as próprias pragas,pois caracteriza bem a natureza das relações que ligam a planta e os organismos –sejam eles quais forem – que vivem às suas expensas.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S77planta. Entre estes, pode-se citar: os glicosídeos, os alcalóides, assaponinas, os óleos essenciais, os taninos etc.b) Os estímulos gustativos, que respondem à existência de fatoresnutricionais, tais como glicídios, protídeos, vitaminas etc.É de duvidar que as controvérsias sobre a respectiva ação dessasduas categorias de estímulos não tenham sido desprovidas de intençõesextracientíficas. Por exemplo, em relação à infalibilidade, real ou supos-ta, do que foi convencionado chamar de instinto. THORSTEINSON(1957) mostrou que os “token stimuli” exercem sua máxima ação sen-sorial em relação a uma dieta quando esta apresenta o maior valornutritivo. Foi o que vimos com os trabalhos de SCOTT e GUTHRIE,no capítulo precedente. Esses autores conseguiram fazer as lagartas deOstrinia nubilalis consumirem os milhos reputados resistentes,suplementando-os com uma dieta adequada.É, também, o que se verifica nos trabalhos de KENNEDY(1951), sobre pulgões, que “Há uma espécie de discriminação sen-sorial exercida pelos pulgões que está associada ao desenvolvimento fi-siológico das plantas, mais do que à classificação botânica, e que estáligada à nutrição dos afídeos, quando esta é avaliada pela fecundidade”.Esta discriminação é exercida especialmente em função da idadeda folha de uma mesma planta. Assim, KENNEDY (op. cit.) obser-va que as folhas em crescimento e as senescentes mostram-se maissuscetíveis, em relação a Myzus persicate e Aphis fabae, que as folhasmaduras das mesmas plantas. A hipótese para explicar tais efeitos éque a nutrição oferecida por esses dois tipos de folhas é especialmente ricaem compostos orgânicos nitrogenados solúveis e de alto valor nutritivo:aminoácidos livres e amidos.Estes compostos formam-se especialmente nas partes em cresci-mento (com diferentes nuances entre as folhas muito jovens e jovens),e quando do período de senescência, quando os protídeos dissociam-se em aminoácidos. A proteólise, então, predomina sobre aproteossíntese (KENNEDY, 1958).
  • 78F R A N C I S C H A B O U S S O UDeve-se, também, notar a preferência dos pulgões por galhas eplantas atacadas por moléstias viróticas. Assim, Aphis fabae reproduz-se cerca de uma vez e meia mais rápido sobre plantas com estas do-enças que sobre plantas sãs. Veremos novamente este fenômeno,ligado à composição bioquímica da planta, quando estudarmos asdoenças viróticas.Esta correlação entre a escolha da planta pelo animal e seu valornutricional é encontrada, igualmente, em outros insetos como, porexemplo, o bicho-da-seda (Bombyx mori) ou nos ácaros (CHA-BOUSSOU, 1969). Trata-se de determinar, o mais precisamentepossível, não apenas os elementos nutricionais que entram em jogo, eque sabemos serem, de maneira geral, produtos solúveis (aminoácidose glicídios redutores), mas também seu equilíbrio no metabolismo móvelda planta. Agora, vamos examinar o que sabemos sobre as necessida-des nutricionais das principais ordens de insetos.De uma maneira geral, os insetos têm necessidade de:1. Sais minerais: o potássio é indispensável aos coleópteros,lepidópteros, dípteros e blatários.2. Glicídios: as necessidades são muito variadas.3. Aminoácidos: foi possível mostrar que dez aminoácidos sãocomuns aos insetos e aos vertebrados. A diferença reside em que, nosinsetos, estes aminoácidos devem estar disponíveis sob forma livre, enão sintetizados em protídeos ou proteínas mais complexas, comopara os vertebrados.4. Lipídios: numerosos insetos são capazes de sintetizar suas re-servas lipídicas a partir de hidratos de carboidratos.5. Esteróis: os insetos são incapazes de sintetizar o núcleo esterole devem, portanto, encontrá-lo obrigatoriamente na sua dieta. Assim,a produção de ovos viáveis de Musca domestica exige a presença decolesterol, já que outros esteróis são incapazes de substituí-lo(BERGMANN, 1965). Confirmando esta ação, LE BERRE ePETAVY (1965) puderam mostrar a relação entre a presença de
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S79esteróis no meio nutritivo e a viabilidade dos ovos de Locustamigratoria.Os autores HARLEY e THORSTEINSON (1967) experimen-taram 20 produtos químicos vegetais, estudando o desenvolvimen-to da longevidade e do comportamento alimentar de um gafanhoto,Melanotus bivittatus Say. Concordando com os resultados apresenta-dos, eles concluem que “no comportamento alimentar deste inseto, opapel dos produtos químicos secundários é informá-lo sobre as dietas aescolher”.Os esteróis mostraram o maior efeito, simultaneamente, sobre ocomportamento alimentar, a longevidade e o crescimento do gafanho-to. Assim, chega-se à hipótese de que a distribuição dos esteróis naplanta poderia fornecer o mecanismo das relações entre o inseto e aplanta-hospedeira.Estudando o caso dos ácaros, veremos que também reagem po-sitivamente à presença de esteróis na dieta. Ë necessário observar queas repercussões dos esteróis foram muito menos estudadas que as dosaminoácidos ou glicídios e, por outro lado, os quais veremos aimportância,conforme mostraram DUPEYRON e DUPEYRON(1969), o enriquecimento da planta em nitrogênio protéico é acompa-nhado de um aumento de esteróis.6. Vitaminas: somente as vitaminas do grupo B, hidrossolúveis, sãoindispensáveis aos insetos. Os meios nutritivos artificiais contêm,ordinariamente, dez vitaminas.Os equilíbrios nutricionaisDos diferentes fatores nutricionais antes enumerados, os glicídiose os aminoácidos foram os mais estudados e, especialmente, as reper-cussões de seu equilíbrio sobre o potencial biótico do inseto emquestão.A princípio, distinguimos os alimentos energéticos, que mantêma vida – trata-se principalmente dos glicídios – e alimentos plásticos,
  • 80F R A N C I S C H A B O U S S O Unecessários à formação de novos tecidos, que são os produtosnitrogenados.Contudo, observou-se que esta distinção não é absoluta: oscarboidratos podem ser necessários para a utilização das proteínas dadieta. As experiências conduzidas com soluções nutritivas artificiaisparecem confirmar este fato, tanto do ponto de vista da preferênciaquanto do nível do potencial biótico. Esses trabalhos referem-se prin-cipalmente a pulgões, mas também a alguns outros insetos e ácaros.Em relação aos pulgões, recordaremos as pesquisas de MITTLERe DADD (1965) com Myzus persicae. Elas estabeleceram que, se oaçúcar é fundamental para a vida larval, uma mistura de aminoácidosessenciais, potássio, magnésio e fosfatos é necessária para que se pro-duza um crescimento apreciável. Sem aminoácidos a longevidadepermanece inalterada, mas a fecundidade é muito baixa. MITTLER(1967) observa o efeito fago-estimulante dos açúcares: a nutrição émedíocre ou inexiste nas dietas que apresentam um baixo teor emsacarose (menos de 5%). O mesmo ocorre com baixas concentraçõesem aminoácidos (menos de 1%). Para a sacarose, a escala ótima situa-se entre 10 e 20%. Para os aminoácidos, a ingestão do alimentoaumenta com as concentrações crescentes na dieta, indo até 3%. Apóseste limite, ela decresce levemente.O autor observa que isto explica as diferenças nos ataques emfunção da época, já que as concentrações em sacarose e aminoácidosvariam ao longo de todo o ano. Acrescentaremos que o mesmo ocor-re com todos os outros fatores suscetíveis de agir sobre a fisiologia daplanta, como vimos antes, especialmente os tratamentos comagrotóxicos e a fertilização.São considerações análogas que desenvolve HOUSE (1967-1969), após ter estudado o comportamento alimentar da moscaPseudosarcophaga affinis, em relação a dietas sintéticas. Os resultadosmostram uma preferência nítida por uma dieta equilibrada. Esseautor especifica “que os fatores não nutricionais, como óleos essenci-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S81ais, glicosídios etc... e, suscetíveis de atuar sobre a atratividade por seugosto, odor ou cor, e outros ‘token stimuli’, absolutamente não sãoresponsáveis pela preferência”.Em resumo, a escolha do inseto recai sobre uma dieta bem de-terminada: a dieta F, contendo l,125% de aminoácidos e 1,5% deglicose. A aptidão de elaborar as proteínas depende do equilíbrio dadieta, especialmente dos aminoácidos, sais e os outros elementosnutritivos, como a composição em minerais.Estes resultados foram confirmados por diferentes pesquisadorese voltaremos a eles, quando estudarmos as repercussões dosagrotóxicos sobre a multiplicação de pulgões.O estudo do comportamento dos lepidópteros conduz às mesmasconclusões. Assim, vimos que a resistência do milho à lagarta deOstrinia nubilalis não pode ser explicada por eventuais efeitos tóxi-cos de uma substância que estaria presente nos tecidos. Ao contrário,BECK e HANCE (1958) mostraram que um determinado númerode aminoácidos tem efeitos significativos em relação ao comporta-mento de nutrição dos primeiros estágios larvais da lagarta. Assim,a duração média dos períodos de ingestão do alimento é aumentadapor um determinado número de aminoácidos, particularmente pelaL-alamina, o ácido de £-aminobutírico, a L-serina e a L-treonina. Semdúvida, não é necessário procurar em outro lugar a causa do ataqueem milhos reputados resistentes, quando são artificialmentesuplementados por uma dieta adequada que contenha estes elemen-tos nutricionais- como tivemos a oportunidade de assinalar antes(SCOTT e GUTHRIE, 1966).Ainda nos lepidópteros, KNAPP et alii. (1965) observaram queas linhagens de milho resistentes a Heliothis zea não apresentavamnenhuma diferença na composição das proteínas em aminoácidos.Essas linhagens resistentes mostraram nas amostras não protéicas, umaconcentração menor em aminoácidos, em relação às linhagens suscetíveisque, ao contrário, revelavam concentrações muito elevadas.
  • 82F R A N C I S C H A B O U S S O UO mesmo ocorre com os açúcares redutores: uma linhagem susce-tível, MP17 x MP319, tem 22,53% desses açúcares, em relação aopeso de matéria verde, enquanto uma linhagem resistente, como F44x F6, tem apenas 15,03%.Também o estudo do comportamento alimentar da lagarta doalgodoeiro, Earias fabia, mostrou que são as diferenças nos teores emaminoácidos das diversas dietas que explicam sua utilização pelaslarvas, com repercussões inerentes sobre o crescimento (MEHTA eSAXENA, 1973).A própria natureza dos aminoácidos também intervém. Os expe-rimentos referentes às preferências alimentares de trips, conduzidoscom duas espécies, sobre videiras e mamona, mostraram que as videi-ras atacadas apresentavam uma ausência total de lisina, histidina e tirosina.MARDZHANJAN et alii. (1965), estudando a causa da multiplica-ção do ácaro Tetranychus urticae pelo DDT, sobre algodoeiro, observa-ram o desaparecimento de certos aminoácidos livres, especialmente ahistidina, entre outras perturbações bioquímicas.Ainda referente aos trips, SAXENA (1970) evidenciou que asvariedades de cebola resistentes continham glicina, histidina e cistina.Isto parece, pois, ser uma confirmação do papel “dissuasivo” de umaminoácido como a histidina.Assinalaremos enfim, antes de passarmos ao caso dos ácaros, queexiste uma correlação positiva direta entre as espécies de plantasselecionadas pelos acrídios e seu valor, no que se refere à longevidade,ao crescimento e ao potencial de reprodução desses insetos(MULKERN, 1967).Os ácaros foram mais especificamente estudados devido a suasmultiplicações após os tratamentos com numerosos agrotóxicos.Diversos métodos de pesquisa foram utilizados como as repercussõesda fertilização, e dos agrotóxicos, a criação sobre plantas (elas mesmascondicionadas por determinadas soluções nutritivas) e, enfim, a cri-ação direta sobre meios nutritivos artificiais.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S83Freqüentemente, o nitrogênio solúvel foi questionado (CHA-BOUSSOU, 1969). A espécie Tetranychus urticae, fácil de criar, foiparticularmente estudada. STORMS e NORDDINK (1970), a pro-pósito do teor de aminoácidos nas plantas, precisam que o substrato dosácaros é constituído pelo conteúdo vacuolar das células. Para os ácaros, comopara os insetos, são exatamente as substâncias solúveis que interferem nasrepercussões nutricionais da dieta.Segundo RODRIGUEZ (1967), T. urticae seria capaz de sinte-tizar numerosos aminoácidos a partir da glicose: como alanina, áci-do aspártico, cistina, ácido glutâmico, glicina, prolina, serina etreonina. Para esta espécie de ácaros, os aminoácidos essenciais seri-am arginina, histidina, isoleucina, leucina. metionina, fenilelanina,tirosina e valina.Assim, estaria confirmado, como observa RODRIGUEZ, que,qualitativamente, as necessidades em aminoácidos dos ácaros sãoiguais, não apenas às dos insetos, mas também, e, grosseiramente,análogas às do rato.Entretanto, as substâncias nitrogenadas não constituem os úni-cos elementos nutricionais dos ácaros: os glicídios também intervêm,como demonstrado inicialmente por FRITZCHE (1961). Assim, nofeijão, a fecundidade de T. urticae difere segundo a variedade e estáem estreita relação com o teor de açúcares redutores nas folhas.Quadro 1. Fecundidade de T. urticae, em função da variedade de feijão e do teorde açúcares redutores nas folhas.Fecundidade Variedades de feijão Açúcaresredutores(mg/g mat. seca)Alta Saxa 10,44Média Goldregen 8,24Baixa Prinsa 3,90FRITZSCHE explica, igualmente, as diferenças de fecundidadedo mesmo ácaro em relação a diversas hortaliças, bem como a influ-
  • 84F R A N C I S C H A B O U S S O Uência do estado fisiológico da planta – o lúpulo, no caso – sobre agravidade dos ataques.O mesmo autor também evidencia um fenômeno ao qual volta-remos: a influência de certas práticas culturais sobre a multiplicaçãodo ácaro vermelho, Panonychus ulmi Koch, em macieiras. Trata-se danatureza da adubação: a cobertura morta de palhas propicia populaçõesrelativamente fracas, em comparação a uma fertilização à base de adu-bos verdes.FRITZSCHE (op. cit.) também mostrou que em feijão a carên-cia em potássio acarreta uma elevação no teor de açúcares redutores.Daí o efeito nefasto de numerosas adubações desequilibradas (fig. 8).A influência do estado fisiológico da planta sobre a nocividade doácaro foi diversas vezes demonstrada, especialmente por POE (1971).O autor observa que em morangueiro T. urticae multiplica-se de umaforma mais acelerada sobre plantas com frutos que sobre moranguei-ros em crescimento e sem frutos. Ora, na análise, as folhas das plan-tas com frutos mostraram níveis mais altos de sacarose, emcomparação às plantas sem frutos.Efetivamente, DABROWSKI (1973) mostrou, após RODRI-GUEZ, que um certo número de açúcares apresentaram um efeito defagoestimulação significativamente mais elevado que o mais eficaz dosaminoácidos utilizado isoladamente.MEHROTRA (1963) demonstrou que T. urticae possui nume-rosas glucosidases capazes de hidrolisar diversos carboidratos, comomaltose, sucrose, trealose, melilose, lactose, melisitose e rafinose. Damesma forma, esse trabalho sugere que T. urticae contém todas asenzimas necessárias para a utilização das fostato-hexoses no proces-so de Embden-Meyerhof, exceto a desidrogenase lática.Chega-se à conclusão de que são, antes de tudo, as relações en-tre as substâncias nitrogenadas e os glicídios que determinam, tan-to a suscetibilidade da planta ao ataque, como a fecundidade do ácaro.RODRIGUEZ (1967) demonstrou que os elementos nutritivos
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S85servem, efetivamente, de estimulantes de nutrição e que, pelo menosnuma primeira aproximação, um certo equilíbrio entre aminoácidose glicídios assegura o máximo de fecundidade.Assim, os ensaios de criação sobre dieta artificial mostraram quese a longevidade de T. urticae é aumentada abaixando-se o nível deaminoácidos a 0,5% e mantendo-se o da sacarose em 2%, afecundidade e a fertilidade são reduzidas em média de 50%. A dietaótima para o desenvolvimento dos ovos apresentaria uma proporçãoaminoácidos/sacarose de 1,5 a 2%.Acrescentemos que, como nos insetos outros fatores alimentaresestreitamente ligados também repercutem sobre a reprodução e oataque à planta. Isto ocorre com os elementos fosforados (CANNONe CONNEL, 1965).Determinadas contradições parecem se explicar pela natureza dometabolismo da planta e em função das respectivas proporções dosdiversos elementos nutritivos. Assim, HENNEBERRY (1963) regis-tra uma maior fecundidade de T. telarius (igual a T. urticae) com oaumento do N fornecido e absorvido e, ao contrário, uma redução noteor do P e do total de carboidratos. A contradição com certos resul-tados precedentes do autor, segundo ele próprio, se explicaria porque,neste estudo, o total de carboidratos e de fósforo estão em correlaçãonegativa com o nitrogênio absorvido. Ora, nas plantas deficientes emnitrogênio, um teor elevado em glicídios implica uma queda na forma-ção de proteínas. Isto também explicaria que nos estágios ulteriores daplanta, quando o tamanho das folhas é função das possibilidadesfotossintéticas, o efeito inverso pudesse se produzir.Na conclusão desse estudo, relativo às necessidades nutricionais dosinsetos e dos ácaros, os pontos principais que se destacam podem serassim resumidos:1. A suscetibilidade da planta é função da existência de fatoresnutricionais em seus tecidos, especialmente elementos solúveis pre-sentes no vacúolo das células e, em particular, aminoácidos e glicídios
  • 86F R A N C I S C H A B O U S S O Uredutores, como no caso de moluscos e crustáceos. Parece bem estabe-lecido que numerosos insetos e ácaros sejam desprovidos de todopoder proteolítico.2. Como pensamos ter demosntrado, parece, em uma primeiraaproximação, que, um certo equilíbrio entre os elementos nitrogenados eos glicídios seja necessário para assegurar, a cada espécie animal, umadieta ótima para seu crescimento e sua reprodução.Entretanto, a própria natureza destes elementos pode interferir, jáque as diferentes espécies não têm exigências nutricionais idênticas,como seria fácil de prever.3. Vimos também, rapidamente, diversos fatores, ambientais ouda natureza da planta, que confirmam a influência da nutrição sobrea suscetibilidade. Além da variedade, a idade da folha, a época do anoe a natureza da fertilização, todos estes, fatores os quais voltaremos amencionar.4. Com o caso de Ostrinia nubilalis, viu-se como SCOTT eGUTHRIE (1966) puderam tornar sensível um híbrido resistente,suplementando-o com uma dieta nutricional adequada (contendoprincipalmente ácido ascórbico, além de outras substâncias nutriti-vas). Isto levou os autores a concluírem que: “Os experimentos decriação mostram que, apesar das larvas comerem folhas podendoconter a toxina ou o repulsivo (tese de BECK), elas continuam asobreviver e a se desenvolver rapidamente”.Isto constitui a demonstração de que a resistência encontra-serealmente ligada a uma carência da planta em elementos necessári-os à praga.O inverso também foi tentado, isto é, tornar resistente uma plan-ta sensível através de uma suplementação nutricional. Assim,KIRCHER et alii. (1970) mostraram, em alfafa, que nenhum dossucos de variedades resistentes tornou resistentes os colmos dos clonessensíveis ao pulgão Theriophis maculata. Isto prova, salientam eles, quea causa da resistência está excluída de toda a ação tóxica ou repulsiva.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S87Ao contrário, como para Ostrinia nubilalis em relação ao milho,foi possível mostrar que Solanum demissum, resistente a Leptinotarsa,é perfeitamente aceita a partir do momento em que se infiltra suasfolhas com suco extraído da batata, Solanum tuberosum. Os autoresconcluem que a resistência de S. demissum resulta da sua não aceita-ção como alimento, e esta anorexia provoca a atrofia dos ovários doinseto.Portanto, dispomos de duas provas suplementares da estreitacorrelação entre o valor nutricional da planta em relação ao parasitae do ataque que disto resulta. Sobre este assunto, veremos o que serefere aos parasitas vegetais e especialmente os fungos patógenos.3. AS NECESSIDADES NUTRICIONAIS DOS FUNGOSPATÓGENOSContrariamente aos entomologistas e aos acarologistas, que sedebruçaram entusiasticamente sobre as necessidades dos animaiscomo objeto de seus estudos, parece que aqueles fungos parasitostinham tentado muito menos os fitopatologistas. Exceto alguns ra-ros casos, eles sequer se preocuparam com os problemas que envol-vem as relações entre a planta – definida por seu estado bioquímico– e sua resistência aos agressores. No máximo, como no estudo do casoda helmintosporiose, certos patologistas consagraram-se à pesquisade produtos antagonistas. Vimos que, semelhante ao caso dos inse-tos, esta via levava de fato, a um impasse. Assim, exatamente comopara a causa do ataque à planta pelas pragas, somos reconduzidos aoestudo dos fatores nutricionais necessários a desses organismos infe-riores.Ao nosso conhecimento, HORSFALL e DIMOND (1957) sãoos primeiros a tomarem como hipótese de trabalho as eventuais re-lações entre a suscetibilidade da planta à doença e o conteúdo emaçúcares dos tecidos. Eles observaram que uma carência em boro ecertos tratamentos com reguladores de crescimento tinham por resul-
  • 88F R A N C I S C H A B O U S S O Utado afetar o teor dos tecidos em glicídios e, conseqüentemente, asensibilidade da planta ao seu eventual parasita.Estes autores, trabalhando sobre Alternaria solani do tomate,anotaram a observação de um prático, segundo o qual as Bull plants,*isto é, carregadas de folhas mas desprovidas de frutos, mostraram-seíndenes aos ataques de Alternaria. Efetivamente, a emasculação detodas as flores tinha por resultado imunizar a folhagem em relação àdoença. E, reciprocamente, as plantas com abundância de floresmostraram-se altamente suscetíveis à doença.Os autores concluem: “Os frutos tiram das folhas alguma substânciaque é responsável pela ‘resistência’ em relação à Alternaria, a qual nãopoderia ser, senão o açúcar”.Ora, se esta tentativa de relacionar o estado bioquímico da plantaà doença é meritória, é necessário se dar conta, por tudo que foi vis-to, que atribuir a resistência apenas ao teor dos tecidos em açúcaresé concluir de maneira um tanto precipitada.Prosseguindo sua tentativa de demonstração, HORSFALL eDIMOND (op. cit.) recordam a observação corrente, da maiorsuscetibilidade a Alternaria das folhas velhas de tomateiro do que dasjovens. Estes autores justificam o fato porque estes órgãos senescentescontêm menos açúcares. Contudo, a idade das folhas afeta igualmen-te a natureza e a quantidade dos elementos nitrogenados. Com efeito,a proteólise sendo predominante nas folhas velhas, estas mostram-se maisricas em produtos nitrogenados solúveis que, como vimos, são nutricional-mente sensibilizadores em relação aos fungos parasitas.Em resumo, reencontramos aqui esta noção fundamental de quea resistência não poderia ser atribuída a esta ou aquela substância apriori considerada antagonista, presente nos tecidos da planta-hos-pedeira, mas muito mais a uma carência nutricional. No caso deAlternaria, a resistência estaria ligada a uma deficiência em elemen-*Em inglês no original. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S89tos nitrogenados solúveis ou, mais exatamente, a uma relação muitobaixa N solúvel/glicídios. Como já observamos no caso da helmintos-poriose, os açúcares não apresentam qualquer propriedade fitotóxica,muito ao contrário.Há outra observação de HORSFALL e DIMOND (op. cit.) que podedar lugar a uma interpretação totalmente contrária. Os autores observa-ram que as mudas de tomate, em trânsito pelos mercados, tornavam-sesuscetíveis à Alternaria durante a noite. Eles acreditaram poder concluirque era devido ao consumo do açúcar que ocorre nesse período. Contu-do, com mais lógica, se pode atribuir tal sensibilização, neste período dociclo circadiano, à destruição das proteínas e à translocação dos produ-tos nitrogenados que delas derivam. Esta atividade fornece ao fungoparasita os elementos nitrogenados necessários a seu desenvolvimento.Portanto, esta é a razão pela qual a distinção que fazem HORSFALLe DIMOND, de “moléstias a altos e baixos teores em açúcar”, pode-ria ser, mais logicamente, transformada em moléstias medidas em fun-ção da relação nitrogênio solúvel/glicídios redutores.Assim, a helmintosporiose, estudada no segundo capítulo, clas-sificada por esses autores como “moléstia a baixo teor em açúcar”, deveser normalmente classificada entre as doenças com a relação N solú-vel/glicídios relativamente elevada, já que o açúcar não mostra qual-quer efeito antagonista ao fungo.Esta concepção não apresenta somente um interesse teórico, masnos permite, por um condicionamento apropriado da planta, resistirmelhor às diversas agressões que ela pode sofrer. Veremos isto atravésda natureza e equilíbrio da fertilização, pela utilização de tratamentosfoliares com produtos nutricionais (macro e oligoelementos) e trata-mentos da semente, cuja terapêutica se realiza através de uma açãoindireta sobre o metabolismo da planta.Analisando as concepções de GRAINGER (1967), igualmentebaseadas sobre o teor em açúcares dos tecidos, chegaremos à mesmaconclusão.
  • 90F R A N C I S C H A B O U S S O UObservando que a suscetibilidade das plantas às moléstias variadurante todo o ciclo evolutivo de crescimento, GRAINGER recor-da que os patologistas distinguem “ataques primários” e “ataquessecundários”, separados por um intervalo de boa saúde relativa, emnumerosas doenças de cereais.Outro exemplo, a requeima da batata (Phytophthora infestans),cujas infecções são muito graves sobre os brotos recém-saídos dostubérculos, é incapaz de contaminar as batatas na metade do ciclo decrescimento. Daí a relatividade dos termos genéticos de “sensibilidade”e de “resistência”. Assim, podemos já supor, como veremos confirmado,abundantemente, adiante, tal concepção é perfeitamente justificada.GRAINGER não parece dar valor absoluto à “resistência”, exclu-sivamente definida geneticamente, ao contrário, ele vê uma relaçãoentre o ataque da planta e seu estado bioquímico caracterizado pelarelação Cp/Rs na qual Cp representa o peso total dos carboidratos eRs o peso seco residual dos tecidos (fig. 9).Esta relação expressaria o potencial de vulnerabilidade do hospe-deiro tanto em relação a bactérias patogênicas quanto a fungos para-sitas. GRAINGER estabelece, com efeito, , em princípio, que osglicídios são elementos nutricionais dos quais, antes de tudo os fun-gos patógenos têm necessidade. Ele escreve: “Essas substâncias con-tribuem (com o nitrogênio e a cinza*), não somente para a própriaconstituição do agente patógeno, mas também constituem igualmen-te uma fonte de energia para seu crescimento, já que o nitrogênio ea cinza não são matérias energéticas”.O próprio GRAINGER deve reconhecer que esta relação nemsempre é estreita e que o crescimento da planta também parece in-tervir. É porque, diz ele, torna-se necessário estabelecer uma rela-ção inversa entre os dois fatores: Rs expressando a amplitude de*Por “cinzas” termo de tradução do artigo, pensamos que se deve entender como asoma diversos elementos minerais.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S91crescimento num dado período. Ora, precisamente, Rs represen-ta, em parte, o teor em proteínas que está estreitamente ligado aocrescimento. Conseqüentemente, a relação Cp/Rs escolhida porGRAINGER se aproxima muito da C/N, ou de glicídios/elemen-tos nitrogenados.GRAINGER é forçado a concordar que, se a maioria dos fungosparasitas são exigentes em glicídios como, por exemplo, a requeimada batata (Phytophthora infestans), alguns outros, como os Pythiumtêm “pouca atração” pelos açúcares. Neste caso é, portanto, sobretudoàs expensas dos elementos nitrogenados que eles se desenvolvem.Ferrugens e carvões também fariam parte desta categoria de fungos.Conclui-se que as necessidades nutricionais dos fungos poderiam semostrar diferentes segundo a categoria à qual eles pertencem, o quenos parece bastante normal. Assim, retomemos as concepções deHORSFALL e DIMOND, mas corrigidas, levando-se em conside-ração o teor dos tecidos em nitrogênio solúvel, principalmente sob aforma de aminoácidos livres.Indicamos, por fim, que GRAINGER propõe uma verdadeiraescala do “potencial de vulnerabilidade” da planta, baseada na rela-ção Cp/Rs. Assim, o que ele chama “a fase da barreira fisiológica”correspondente, de fato, à imunidade, seria caracterizada por umarelação inferior a 0,4; 0,5 ou 1, segundo o gênero do agentepatogênico.A fase denominada “primeira fase receptiva” corresponde a umarelação Cp/Rs entre 0,4 e 1 para os agentes patogênicos pouco exi-gentes em glicídios ou entre 0,5 e 1 para os agentes patogênicos“normais”. Quanto à fase dita “epidêmica”, ela intervem, quando arelação Cp/Rs se eleva entre 1 e 10: quanto mais se eleva a relação,mais grave é a epidemia.GRAINGER distingue uma “fase de tolerância”, que ocorreria apósuma fase de hipersensibilidade. Neste caso, a relação cai de 10 para1, e a planta tende a superar a moléstia, caso ela tenha sido atacada.
  • 92F R A N C I S C H A B O U S S O UEnfim, na fase “hipersensível”, Cp/Rs é maior que 10: é o casodos brotos recém-saídos de sementes, bulbos ou tubérculos, com altosteores de glicídios (fig. 10).GRAINGER observa que, devido à influência dos fatoresambientais, estas diferentes fases da sensibilidade à doença não seapresentam sempre da mesma maneira. “Certos hospedeiros são não-receptivos durante uma grande parte do período em que as tempe-raturas são adequadas a uma atividade intensa da maior parte dosparasitas. Por outro lado, as fases de hipersensibilidade, extremamenteperigosas, e as fases de tolerância, menos receptivas, ocorrem quan-do as temperaturas são relativamente baixas e os agentes patogênicosmenos ativos”.É o que interpretamos disto fazendo notar que a proteossínteseencontra-se inibida com baixas temperaturas, causando uma eleva-ção no teor dos tecidos em substâncias solúveis. Este fenômeno estáligado à exacerbação da sensibilidade da planta em relação à molés-tia, já que a natureza e a gravidade da doença são determinadas pelanatureza e pelo nível das substâncias solúveis, nutricionalmente necessá-rias ao parasita em questão.Observemos que, para os fungos patógenos, a questão da “procu-ra” da planta hospedeira não existe, uma vez que os esporos, emiti-dos em número considerável, estão quase sempre presentes no meioambiente. Aqui, talvez ainda mais que para as pragas, é o estado fi-siológico da planta ou do órgão que atua na sensibilidade ou, caso seprefira, na resistência.Estas considerações nos levam à noção de “períodos críticos” nociclo anual fisiológico da planta. São épocas no curso das quais a fi-siologia e a resistência dos órgãos evoluem devido a certos processosmetabólicos que acompanham, como por exemplo, o crescimento, amaturidade e a senescência da folha ou bem a formação e o desenvol-vimento dos órgãos reprodutores, a fisiologia, cuja resistência dosórgãos evoluem. Como nos preocuparemos ao longo desta obra a
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S93folhagem da planta pode, segundo a época considerada,encontrar-semais ou menos sensível – ou resistente – aos ataques das diversaspragas.Precisamente, são os diversos fatores capazes de intervir na fisi-ologia e, portanto, no estado bioquímico da planta ou do órgão queiremos estudar agora, como já fizemos, rapidamente, no caso dahelmintosporiose.4. OS DIVERSOS FATORES CAPAZES DE AGIR SOBRE APROTEOSSINTESE E, PORTANTO, SOBRE ARESISTÊNCIA DA PLANTAEstes diferentes fatores podem ser classificados em três categorias:a) Fatores intrínsecos, que envolvem a constituição genética daplanta, entre os quais se pode distinguir:1. A espécie e a variedade.2. A idade dos órgãos ou da planta.b) Fatores abióticos, que, provisoriamente, consideraremos emconjunto:3. O clima: energia solar, temperatura, umidade, precipitação eeventuais influências cósmicas (lua).c) Fatores culturais.Distinguimos:4. O solo: tanto do ponto de vista da composição química quan-to da estrutura e aeração.5. A fertilização: na qual distinguiremos fertilização, mineral e osoligoelementos e, enfim, a adubação orgânica6. A prática de enxertia: está demonstrada a influência do porta-enxerto sobre a fisiologia do enxerto e reciprocamente.7. Os tratamentos com agrotóxicos: que colocamos como causa dodesencadeamento de “desequilíbrios biológicos”.A influência da espécie e da variedade, que ninguém contesta, deulugar a importantes pesquisas de ordem genética visando obter as
  • 94F R A N C I S C H A B O U S S O Uvariedades resistentes. Todavia, não se deveria perder de vista, comohaveria a tendência de fazê-lo, que os genes não são mais que um dosfatores que governam o metabolismo da planta. Como pôde obser-var GROSSMANN (1968): “A produção de plantas resistentes foi, atéaqui, reservada à genética. É uma via penosa e que conduz, freqüente-mente, a um sucesso apenas temporário”. Ele acrescentava ainda estareflexão a propósito da prática de determinadas terapêuticas: “Tal-vez fosse mais simples e mais eficaz, no futuro, conferir a resistência àsplantas pela aplicação de produtos químicos”.Está colocado o problema da modificação do metabolismo daplanta no sentido da resistência, ou seja, na direção inversa da queconduz aos “desequilíbrios biológicos”, pelas repercussões dosagrotóxicos e que evocamos no primeiro capítulo. Antes de podermostomar a via inversa destes fenômenos, ou seja, estimular em vez dereprimir a resistência, é necessário analisar o processo nefasto. Pen-samos ter explicado pela incidência dos agrotóxicos sobre o metabo-lismo que agora será estudado mais de perto e em função de nossateoria da trofobiose.Assim, o próximo capítulo será consagrado às repercussões dosagrotóxicos sobre a fisiologia da planta e às modificações bioquími-cas acarretadas pela aplicação de diversos produtos fitossanitários:inseticidas, fungicidas e herbicidas. Após já termos estudado as ne-cessidades nutricionais dos diversos parasitas, será possível explicar acausa das multiplicações de pragas e do desenvolvimento das molés-tias pela distorção do metabolismo da planta. Veremos que ela vai nosentido previsto pela teoria da trofobiose: é, ao menos, o que nospropomos demonstrar, ou seja, a inibição da proteossíntese.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S95Teor em açúcares redutoresFig. 8. Teores em açúcares redutores em diferentes níveis da fo-lhagem de feijão, em função do tipo de carência na solução nutriti-va. (Segundo FRITZSCHE, 1961)
  • 96F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 9. Escala de sensibilidade da batata à requeima (Phytophthorainfestans) em função da relação Cp/Rs, expressando a relação entre opeso total dos carboidratos contidos na planta inteira (Cp) e o pesoseco residual (isto é, menos os carboidratos). (Segundo GRAINGER,1967)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S97A) Potencial de vulnerabilidade da aveia (observada e testada) emrelação a Helminthosporium avenae, em função da época do ano.*B) Aveia: relação Cp/Rs, em relação com as fases da doença queela revela.
  • 98F R A N C I S C H A B O U S S O UBIBLIOGRAFIABECK S.D. et HANSE W. 1958. Effect of amino-acids in feeding behavior of theEuropean corn borer: Pyrausta nubilalis Hübn. “J. Insec. Physiol.”, 2, pp. 85-96.BERGMANN E.D. 1965. Les stéroides des lnsectes. “Bull. Soc. Chim. Fr.”, 2687691; 65 ref.CANNONW.N.etCONNELLW.A.1965.PopulationsofTetranychusatlanticusMeG. (Acarina: Tetranychidae) on Soybean supplied with various levels ofnitrogen, phosphorus and potassium. “Ent. exp. et applic.” 8, pp. 158-116 .CHABOUSSOUF.1967.LatrophobioseoulesrapportsnutritionnelsentrelaPlante-hôte et ses parasites. “Ann. Soc. Ent. Fr.”, 3(3), pp. 797-809.CHABOUSSOUF.1972.LatrophobioseetlaprotectiondelaPlante.“RevuedesQuestion Scientifiques”, Bruxelas, t. 143, nº 1, pp. 27-47 e nº 92, pp. 175-208.DABROWSKI Z.T. 1973. Studies of the relationship ofTetranychus urticae Koch.and host plants. IV. Gustatory effect of some carbohydrates. “Bull. Ent. Pologne”,t. 43, pp. 521-33, Wroclaw.DADD R.H.et MITTLERT.E. 1965.Studies on the artificial feeding of the aphidMyzuspercicaeSulzer.IIISomemajornutritionalrequirements.“J.Ins.Physiol.”,II, pp. 717-743.DUFRÉNOY J. 1936. Le traitement du sol, désinfection, amendement, fumure, envuedecombattrechezlesplantesagricolesdegrandeculturelesaffectionsparasitaireset les maladies de carence. “Ann. Agron. Suisse”, pp. 680-728.DUPERONP.et DUPERONR.1969.Genèse des stérols, dans les divers organes dela plantule de Haricot (Phaseolus vulgaris). Influence de l’isolement. “C.R.Ac.Sciences”, ser. D. , t. 268, 2, pp. 306-309.FRITZSCHER.,WOLFFGANGH.et OPELH.1957. UntersuchungenüberdieAbhängigkeit der Spinnmilbenvermehrung von dem Ernährungszustand derWirtspflanzen “Z. Pflanzeneráh”, 78, nº 1, pp.13-27.FR1TZSCHE R. 1961. Einfluss der Kulturmassnahmen auf die Entwicklung vonSpinnmilbengradationen. “Med. Land. Gent.”, pp. 1088-1097.GRAINGER J. 1967. La Cp/Rs, nouvelle clef de phytopathologie. “Span”, vol. 10,pp. 44-49.GROSMANN F. 1968. Confered resistance in the host. “Word Review of PestControl”, 7, pp. 176-183.
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  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S1011. A PARTICIPAÇÃO DOS AGROTÓXICOS NOMETABOLISMO DA PLANTAA utilização de diversos hormônios, de herbicidas e o emprego dosadubos foliares – técnicas presentes na prática agrícola corrente –bastariam para mostrar que os tecidos vegetais deixam-se penetrar pornumerosos produtos ditos “fitossanitários”. Ao contrário, é necessá-rio observar que muitas vias de entrada são possíveis:• Antes de tudo, pela folha, durante os tratamentos clássicos cominseticidas e fungicidas.• Igualmente, pela raiz, como conseqüência, não somente, dadesinfecção do solo contra pragas, fungos patógenos ounematódeos, mas também pela queda de agrotóxicos prove-nientes dos tratamentos da folhagem. Estas conseqüênciassão mais importantes do que se poderia supor a princípio.CAPÍTULO IVAS REPERCUSSÕES DOS AGROTÓXICOSSOBRE A FISIOLOGIA DA PLANTA“Para que esta evolução seja possível [a da medicina da planta], é indispensávelestudar a fundo a fisiologia vegetal, especialmente nossos conhecimentos sobrea circulação da seiva, se trata também de estudar as modificações provocadasna planta pelos produtos químicos”. Paul MÜLLERLe développement de la Phytopharmacie. (3º Congrès International dePhytopharmacie, Paris, 1952)
  • 102F R A N C I S C H A B O U S S O UApenas mencionaremos a esterilização do solo devido a tra-tamentos cúpricos prolongados e à destruição das minhocaspelos ditiocarbamatos.• Pela semente, como resultado de tratamentos das sementescontra insetos ou moléstias das plântulas e cujas repercussõesindiretas sobre a fisiologia da planta podem explicar tanto aação benéfica procurada, como os efeitos tóxicos.• Existe, enfim, uma quarta via, que diz respeito, em particular,às árvores frutíferas: trata-se do tronco e galhos, por ocasião dostratamentos de outono, inverno ou de pré-brotação.WILLAUME (1937) demonstrou que os óleos de antracenoapresentavam uma ação estimulante sobre o crescimento dasárvores. Esta ação parece ligada à propriedade da substânciade crescimento apresentada pelo ácido antracênico contidonesses óleos. Sabe-se que em determinadas diluições os óle-os de antraceno podem acelerar a germinação dos grãos detrigo. Certamente, é esta ação que provoca diferenças nasépocas de eclosão dos ovos de inverno dos “aranhas verme-lhas”, em árvores frutíferas, segundo elas tenham sido trata-das ou não com os óleos de antraceno.No que diz respeito à penetração dos agrotóxicos nas folhas, queconstitui a via mais freqüente, sabe-se que a cutícula e as paredescuticulares das folhas contêm numerosos lipídios que facilitam aabsorção dos compostos lipossolúveis. Este fato acentua, pois, todaa importância da solubilidade das moléculas sobre as repercussõesindiretas dos agrotóxicos. Foi bem destacado, com efeito, que: “Defato, é mais precisamente a afinidade do agrotóxico, pelos corposgraxos de um lado e pela água, por outro, que vai condicionar suapenetração no organismo animal ou vegetal. Ele deve antes atraves-sar uma primeira barreira essencialmente lipídica (cutícula cerosa dosvegetais, tegumentos dos insetos e dos animais superiores). É neces-sário, para isto, possuir uma certa solubilidade nos lipídios. Após, é
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S103necessário que ele passe pela fase aquosa, que o veiculará até seu lo-cal de ação. Esta fase aquosa constitui o meio vivo ao nível da célula,como ao nível dos transportadores celulares (seiva, linfa, sangue). Umacerta hidrossolubilidade é, portanto, necessária. E é, conseqüente-mente, isto que chamamos de coeficiente de separação entre o óleoe a água que condicionará seu transporte do meio exterior até seu localde ação”. (Collectif , 1979).Esta citação exige duas observações: a primeira é que os autoresexprimem-se como se o agrotóxico só pudesse agir no âmago do orga-nismo visado, seja ele animal ou vegetal. Ora, classicamente, umfungicida, à parte os produtos sistêmicos, tem reputação de agir nasuperfície, pela barreira tóxica que ele constitui, pelo menos emprincípio, em relação aos esporos. Temos, portanto, uma nova atitudeenvolvendo o modo de ação dos anticriptogâmicos que implicariauma ação dita curativa ou erradicante. Isto nos conduz a uma segundaobservação: de que maneira se produz esta ação e no que a modifica-ção na fisiologia da planta, sob ação do produto, pode intervir? É isso,precisamente, com que teremos que nos preocupar ao longo destetrabalho.O fato de que a cutícula e as paredes cuticulares das folhas con-têm numerosos lipídios que facilitam a absorção de compostoslipossolúveis explica, por exemplo, que um sal metálico como o óxi-do de cobre hidratado resultante da aplicação da calda bordalesa,possa penetrar na folha, como há muito tempo haviam afirmadoMILLARDET e GAYON (1887) e, mais recentemente, demonstra-do por STRAUSS (1965).A espessura da cutícula bem como o número e a repartição dosestômatos também podem influir na penetração das caldas. Assim,podem ser parcialmente explicadas as diferenças de sensibilidade emrelação a um mesmo agrotóxico, segundo a espécie e a variedade daplanta. Todavia, talvez seja a pressão osmótica das células que regule,acima de tudo, a penetração das caldas.
  • 104F R A N C I S C H A B O U S S O UQuando o suco celular é isotônico ou hipertônico em compara-ção à calda, não há risco de queimaduras, pois não há possibilidadede penetração. Ao contrário, quando é hipotônico, as alterações sãomais freqüentes, pela plasmólise das células. MENZEL (1935) cons-tatou que certas variedades de macieiras e de pereiras, que apresen-tam uma forte pressão osmótica (30 a 38 atmosferas), são quasecompletamente insensíveis às queimaduras por produtos cúpricos,enquanto que outras variedades com baixa pressão osmótica (5,3 a13,7 atmosferas) eram fortemente alteradas.É sem dúvida, a esse fator que é necessário repontar as diferenças naspenetrações dos produtos segundo o estado fisiológico da planta no momentodo tratamento. Por sua vez, o estado fisiológico depende dos fatores abióticos,da idade dos tecidos, e da alimentação da própria planta.Assim, a luz, favorecendo a abertura máxima dos estômatos,aumenta a permeabilidade da folha. Uma elevação de temperaturapode agir neste mesmo sentido: em tempo quente, um tratamentocom nicotina acarreta queimaduras, enquanto que este inseticida nãoprovoca nenhum fenômeno fitotóxico quando utilizado com baixastemperaturas e sob baixa insolação. O mesmo se passa com os pro-dutos à base de enxofre.Esta influência da luz e da temperatura parece ser um fenôme-no de ordem geral. Assim, SARGENT (1964) pode mostrar que o 2-4 D penetra mais rapidamente nas folhas de feijão com luminosidadeelevada do que na obscuridade.No que diz respeito à influência da idade, as plantas senescentesdeixam-se facilmente penetrar pelos produtos.Enfim, a alimentação da planta também interfere, por sua influ-ência sobre a pressão osmótica das células e, pois, a repercussão dosadubos. COIC (1964), por exemplo, estabeleceu que uma alimen-tação amoniacal pode traduzir-se simultaneamente por uma reduçãodos cátions minerais, tais como Ca++ e Mg++ e, ao contrário, por umamaior absorção de ácido fosfórico. Assim, é possível se perguntar se
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S105a penetração dos inseticidas fosforados na planta, como o Parathion,não poderia se encontrar ligada à nutrição e, portanto, à adubação.Parece evidente que também a natureza química do agrotóxicoinflui: enquanto os ésteres fosfóricos, como o Parathion, desaparecemrapidamente da superfície das folhas, penetrando na quase totalida-de ao final de apenas dois dias (KHAMI, 1960), os produtos clorados,como o Carbaryl, por exemplo, persistem muito mais tempo. Refe-rente às suas relações com a planta, pode-se dizer, também, que osprodutos orgânicos sintéticos (talvez por isso sejam orgânicos) apresen-tam uma afinidade toda particular pelos tecidos vegetais.Ainda a respeito da penetração dos agrotóxicos nos tecidos daplanta e de suas repercussões – benéficas ou maléficas – sobre ometabolismo, cabe considerar a influência eventual dos adjuvantes.Assim, PARMENTIER (1969) pôde evidenciar que no controle deOidium em cereais:1. “O cobre, o manganês e o cádmio podem ser utilizados em bai-xa concentração sem fitotoxicidade, mas somente se o tensoativoestiver em concentração suficiente”.2. “O controle pode ser realizado com a ajuda de um número con-siderável de produtos, mesmo os mais simples, desde que sejamacompanhados de um tensoativo”.PARMENTIER acrescenta: “Este tipo de controle apresentaria aparticularidade de que a escolha do produto de tratamento seria baseadanuma outra qualidade que não seu valor fungicida, mas principalmen-te seu valor nutritivo”.O mesmo autor, evocando “a influência de certas práticas cultu-rais, especialmente a influência dos adubos nitrogenados, segundosua dose e sua época de aplicação”, estima que “esta influência pode-ria agir sobre os estados fisiológico e bioquímico da planta-hospedeira, emconcordância com a teoria da trofobiose”. PARMENTIER (1973).É necessário sublinhar a importância de tais observações? De umaparte, elas parecem confirmar que os diversos produtos experimentados
  • 106F R A N C I S C H A B O U S S O Uagiram por via interna, e, portanto, graças a uma modificação benéfica dometabolismo e, por outra parte, que se trata de uma ação intermediáriados oligoelementos.Teremos ocasião de voltar a esse assunto nos capítulos consagradosà fertilização e aos tratamentos foliares.2. REPERCUSSÕES DOS AGROTÓXICOS SOBRE OMETABOLISMO DA PLANTASe esta questão parece não preocupar, atualmente, os fitopatologistase os responsáveis pelo registro dos produtos, é necessário registrar, entre-tanto, que diversas explicações foram-lhe consagradas. Mencionaremos,especialmente, as de POIGNANT e THIOLLERE (1952), de RIPPER(7º British Weed Control), de BRUISMA (1965), de CHABOUSSOU(1965, 1969).O que se depreende desses estudos? Dada a multiplicidade dosprodutos usados, a diversidade de plantas que sofreram suas ações,bem como as condições ambientais, concebe-se que as conclusõespodem ser apenas de ordem geral. Nem por isto são menos impor-tantes.Um primeiro fato parece bem estabelecido: a despeito das barreirasque devem ultrapassar e ás quais falamos antes, todos os agrotóxicos, sejamminerais e, com mais forte razão, orgânicos, sejam fungicidas, insetici-das ou acaricidas, todos penetram mais ou menos nos tecidos das plan-tas (sobretudo se estão associados a certos tenso-ativos) e, portanto, agemsobre seu metabolismo.Assim, os agrotóxicos podem enriquecer a planta com o metal oumetalóide contido na sua fórmula: cobre, ferro, zinco, enxofre, fósforoetc...Outros – é o que veremos adiante – parecem intervir pela própriaestrutura de sua molécula. É, bem entendido, o caso dos hormônios sin-téticos, mas é também, como igualmente veremos, o caso dos produtosclorados, como o DDT. Ainda que praticamente retirados do comércio
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S107atualmente, isto não diminui o interesse de seu estudo, pois sua ação podeser comparada à das substâncias de crescimento (fig. 11).Certas contradições surgem na natureza das repercussões. Assim,parece que um mesmo produto não conduz, necessariamente, às mes-mas conseqüências em todos os casos. Isto se explica porque a incidên-cia do agrotóxico não é só função de sua natureza química e de sua dose,mas, também, do estado inicial da planta e de sua nutrição; mas tambémda época das intervenções em relação a seu ciclo fisiológico anual.No limite, pode-se até dizer que, em função da natureza da plantae de seu estágio, cada caso é diferente. De maneira geral, foi mostra-do que os agrotóxicos apresentam uma ação sobre os principais pro-cessos fisiológicos, como respiração, transpiração e fotossíntese. Assim– e é principalmente isso que nos interessa com atenção à nossa te-oria –, se pode afirmar que, por sua ação sobre os processos antago-nistas de proteossíntese e de proteólise, os agrotóxicos são capazes demodificar, de uma maneira mais ou menos acentuada e mais prolon-gada, a relação entre as substâncias nitrogenadas e os glicídios, porsua ação sobre os processos antagonistas de proteossíntese e proteólise.O mesmo processo ocorre envolvendo as relações entre as diferentesformas de nitrogênio, ou seja, os critérios do nível de proteossíntese,correlacionados ao processo de resistência.Por seus efeitos indiretos e nutricionais, estes processos parecemexplicar as repercussões maléficas e, também, benéficas dos agrotóxicos,até agora utilizados sob um ângulo totalmente diferente do estímulo daresistência da planta. Veremos a confirmação disto pelo estudo de diver-sos tipos de ação de agrotóxicos.3. REPERCUSSÕES DO DDT(DICLORODIFENILTRICLORETANO) SOBRE AFISIOLOGIA DA PLANTADesde 1949, CHAPMAN e ALLEN assinalam diferenças nasensibilidade das plantas ao DDT, segundo sua natureza botânica.
  • 108F R A N C I S C H A B O U S S O URegistra-se um aumento da proteossíntese, do tamanho das folhas,da velocidade do crescimento e do rendimento em videira e batata,mas um definhamento e redução de colheita em pepino.Sobre trigo Khapi, FORSYTH (1954) constata que “o DDTaltera o metabolismo de tal forma que os aminoácidos e os açúcaresacumulam-se na folha, o efeito parecendo resultar de uma inibição desíntese das proteínas e dos carboidratos”.Este fato aproxima-se dos resultados obtidos por JOHNSON(1946). Ele havia demonstrado que a exacerbação da sensibilidade dotrigo à ferrugem, acarretada pelo tratamento com DDT, era conse-qüência direta das repercussões deste produto sobre a fisiologia daplanta. Aliás, JOHNSON sublinhava, desde esta época, que: “A re-ação da planta-hospedeira ao DDT podia abrir uma nova via envolvendoo estudo da resistência à ferrugem”.Efetivamente, os resultados de FORSYTH relacionam a sensibi-lidade do trigo com a abundância das substâncias solúveis nutricio-nais nos tecidos. Isto confirma nossa hipótese de que é através doprocesso de proteossíntese dominante, que estaria estimulada a resis-tência à ferrugem. Os efeitos sensibilizadores dos herbicidas agiriamno processo inverso.Aliás, os trabalhos de ALLEN e de CASSIDA (1951), relati-vos à influência de DDT sobre feijão, trazem indicações suplemen-tares sobre o modo de ação deste produto. Enquanto o DDTestimula o crescimento quando o feijão cresce numa soluçãonutritiva não tamponada, na qual a auxina está ausente, quandoa auxina está presente, registra-se uma inibição de crescimento(fig.12).PILET, a respeito destas repercussões, registra que a naturezafísico-química do protoplasma está em jogo e que o equilíbrio entrea síntese e a decomposição das proteínas, rompido pelas auxinas, podese deslocar em um sentido ou noutro, segundo o citoplasma aumentede volume ou cesse de crescer.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S109Aí está a explicação das diferentes ações do 2-4 D e do DDT, nãoapenas segundo a dose utilizada, mas também em função dos dife-rentes fatores que agem sobre a fisiologia da planta, seja: sua nature-za botânica ou, dito de outra maneira, sua constituição genética, aépoca da intervenção, as condições ecológicas e, enfim, a nutrição,que, por sua vez, depende da natureza da fertilização.4. REPERCUSSÕES DO 2-4 D SOBRE A FISIOLOGIA DAPLANTAExatamente como para os outros produtos, MENORET (1960)observa diferenças nas repercussões, segundo a planta tratada e a doseutilizada.Assim, na soja, o tratamento das raízes acarreta uma diminui-ção das proteínas nas folhas, mas um aumento delas no colmo e naraiz. Nos dois casos, contudo, observa-se um aumento consideráveldo nitrogênio aminado solúvel e do residual. Ou seja, condições emi-nentemente favoráveis ao desenvolvimento de diversas moléstias.Em raros casos, principalmente com fortes doses de 2-4 D e nostecidos jovens, registra-se uma tendência ao estímulo da proteos-síntese. De maneira geral, o 2-4 D (assim como diversos herbicidascomo Oxynil, Chlrophame*e Propanil) perturbam a transmissão docódigo genético pelo RNA. É, aliás, a razão pela qual o 2-4 D) encon-tra-se normalmente classificado entre os inibidores da síntese protéica.(Collectif, 1979.)Por outro lado, é necessário sublinhar que, sejam quais forem asrepercussões dos agrotóxicos sobre o metabolismo da planta e, portanto,sobre sua resistência, elas guardam estreita relação com sua nutrição. Apropósito da ação do 2-4 D, ALTERGOT e POMAZONA (1963)*Oxynil e Chlrophame: nomenclatura desconhecida. Provavelmente se refere aIoxynil e Chloroprophame, respectivamente. Ambos são herbicidas que atuam emnível de código transmissor. (N. da T.)
  • 110F R A N C I S C H A B O U S S O Usalientam que como todos os processos fisiológicos da planta estãoaumentados pelas substâncias de crescimento, esta necessita de umarápida alimentação complementar.Assim, esses autores, experimentando, com diversas plantas comotrevo, milho e fava, obtiveram um aumento da capacidade redutorae sintetizadora das plantas tratadas com uma solução nutritiva con-tendo 2-4 D.Todavia, utilizado só e na concentração 10-5, o 2-4 D inibe a sín-tese das proteínas e aumenta as formas não protéicas do nitrogênio. Estainibição não se limita só às plantas adventícias. Os efeitos inibidores do2-4 D podem ser nefastos ao cereal a proteger, provocando fenômenos desensibilização em relação às doenças.ALABUSCHEV (1962), que obteve aumentos de colheita detrigo, podendo atingir 15 a 20% com o 2-4 D, nota que a quali-dade do cereal também deve ser levada em consideração. As proteínassão as principais substâncias que determinam o valor nutricional deuma planta. Ora, importantes modificações podem se produzir noconteúdo protéico, de um lado, devido às condições do solo – e, por-tanto, da fertilização –, e ainda aos tratos culturais, ao clima e à va-riedade.Os trabalhos desse autor mostraram que, em relação ao teor emproteínas, obtém-se resultados diferentes segundo a época de apli-cação do 2-4 D e as doses utilizadas. Tudo isto revela o quanto podeser delicado o manejo destes “hormônios sintéticos” que, aplicadosno outono, ainda conservam sua toxicidade na primavera, acarretan-do uma ação depressiva sobre a microflora do solo. (ALABUSCHEV.,op. cit.)O produto utilizado em baixa dose pode mostrar uma açãoinibidora em relação ao crescimento do cereal a proteger e, conse-qüentemente, sensibilizá-lo a diversas doenças. Agora, vamos exami-nar as repercussões dos diversos agrotóxicos sobre as árvores frutíferase sobre a videira.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S1115. REPERCUSSÕES DOS AGROTÓXICOS SOBRE AFISIOLOGIA DAS ÁRVORES FRUTÍFERAS E DA VIDEIRAA) Repercussões dos agrotóxicos sobre a fisiologia do pessegueiroDurante muito tempo, a “necrose hibernal”, também chamada“doença café com leite” do pessegueiro deixou perplexos tanto osfitopatologistas que se debruçaram sobre a questão, quanto os pro-dutores que sofriam as conseqüências desta misteriosa “afecção”. Noque ela consistia?Uma vez terminados os últimos tratamentos, na queda das folhase no momento da poda é que os estragos manifestam-se em toda suaextensão. Contudo, esses estragos aparecem mais cedo, pelo fim dooutono, mas mesmo assim é necessário estar alerta e não descuidar davigilância do pomar.Os sintomas são os seguintes: a casca, que normalmente seriavermelha, apresenta, em algumas áreas, grandes manchas de co-loração variável, geralmente de um marrom mais ou menos claro.Nos casos graves, essas manchas podem se estender rapidamente,sobre vários centímetros, até que o ramo, tendo mudado comple-tamente de coloração, morre, murchando pela extremidade. Acasca está efetivamente morta e recobre uma madeira parcialmentemarrom.GROSCLAUDE (1964-1966-1969), autor desta descrição,pôde estabelecer que estas alterações eram devidas às repercussõesnefastas de determinados tratamentos com agrotóxicos. Os produtosem questão eram, especialmente, Ziram, Azinphos e, segundo toda aprobabilidade, o Parathion era igualmente responsável.Segundo os resultados dos questionários realizados junto aosprodutores, “pareceria que se pode aplicar as mesmas conclusões aoThiram ou “TMTD (tetrametildisulfuros)”. Isto não seria surpreen-dente, observa GROSCLAUDE, dado o estreito parentesco quími-co entre Thiram e Ziram: ambos são ditiocarbamatos, como Zineb e o
  • 112F R A N C I S C H A B O U S S O UManeb, que citamos a propósito de suas implicações no desenvolvi-mento de moléstias como Oidium e Botrytis.Assim, estamos em presença de uma manifestação de um tipoparticular fitotoxicidade, diferente do que se chama comumente de“queimaduras”, que aparecem logo após a aplicação do agrotóxico.Contudo, aí não há simplesmente uma diferença de natureza; essesfenômenos assinalam a existência de repercussões insidiosas dos agrotóxicossobre a fisiologia da planta. Incidências, aliás, plenamente confirma-das pelas análises dos ramos, envolvendo duas formas de nitrogênioe os açúcares redutores, conforme o quadro adiante:Quadro 2. Resultados das análises dos ramos de pessegueiro,em função da natureza dos tratamentosOrigem das amostras NSolúvel Ninsolúvel Açúcares Açúcaresredutores /N totalParcela Ziram Ramo são 0,050 0,413 0,745 1,60Parcela Ziram Ramo doente 0,057 0,475 0,632 1,18Parcela testemunha Ramo são 0,083 0,587 0,415 0,61Se damos crédito, esses dados são importantes como prova de queo (ou os) agrotóxico(s) utilizado(s) neste caso o Ziram inibiu o pro-cesso de proteossíntese no pessegueiro, devido à regressão das duas formasde nitrogênio, sobretudo o insolúvel, simultaneamente à elevação doteor de açúcares, em comparação às testemunhas.Deve-se observar que na parcela “Z” – ramo são, pelo menos emaparência – os dados mostram, em comparação à testemunha nãotratada, uma regressão da taxa de nitrogênio insolúvel. Isto significaque, apesar de ainda não aparente, existe um fenômeno de fitoto-xidade. Isto confirma o caráter insidioso que as repercussões dosagrotóxicos podem tomar.Estas inibições de proteossíntese provocam, ao mesmo tempo –não tenhamos medo de repetir – uma sensibilização da planta emrelação a suas pragas (ácaros, pulgões, lepidópteros etc.), e às próprias
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S113moléstias, pelo enriquecimento dos tecidos em substâncias solúveis.É a razão pela qual questionamos imediatamente se tais perturbaçõesno metabolismo celular não poderiam se encontrar na origem dodesencadeamento das moléstias viróticas, como também suspeitaPOLJAKOV em suas observações sobre a batata.Os experimentos de GROSCLAUDE sobre as incidências dosagrotóxicos responsáveis pela moléstia “café com leite” reforçam aimportância da nutrição da planta sobre as manifestações da doença.GROSCLAUDE (1966) pôde mostrar que um complemento deadubação orgânica, sob a forma de esterco de curral, atenua os danosacarretados pelos agrotóxicos, se comparada a uma fertilização estri-tamente mineral.Quadro 3. Alteração de ramos de pessegueiro, em função do tratamentocom Ziram e da natureza da fertilizaçãoTratamentos Natureza da Ramoscom agrotóxicos fertilização alteradosTestemunha A: com matéria orgânica 4C: só adubo NPK 13Tratamento com Ziram D: com matéria orgânica 57F: só adubo NPK 174Esta regressão nas alterações produzidas pelo Ziram, graças aoemprego de esterco de curral, nos parece muito significativa eesclarecedora. Ela confirma plenamente a ação positiva da matériaorgânica fermentada sobre a proteossíntese, como já tivemos ocasiãode mencionar (CHABOUSSOU, 1974 e 1979). Repercussões quese traduzem correlativamente- como nos ocuparemos adiante- sobrea resistência às moléstias e, em particular, em relação às moléstiasviróticas CHABOUSSOU, 1974; MEHANI, 1969).B) Repercussões de diversos acaricidas sobre a fisiologia da macieiraSão raros os pesquisadores que, até aqui, se preocuparam com as
  • 114F R A N C I S C H A B O U S S O Urepercussões dos inseticidas ou fungicidas sobre a fisiologia e a bioquí-mica das plantas e da macieira, em particular. Esta é a razão porqueacreditamos ser importante analisar o interessante trabalho deBLAGONRAVOVA, que trata das repercussões de diversos acaricidas einseticidas sobre os teores de nitrogênio protéico e não-protéico nas folhasde macieira (variedade Reinette Simirenko) (CHABOUSSOU, 1977).Resumimos, adiante, essa comunicação à Academia de Agricultura.O autor estudou, sobre a fisiologia da macieira, as incidências deseis produtos, Phosalone, Benzophosphate, Bromopropylate,Chlorphenamidine, mistura BCPE + CPAS,*e Dicofol. As testemu-nhas, para comparação, foram tratadas com água pura.Os resultados estão resumidos nas fig. 13 e 14. Como se podeconstatar, as repercussões mais acentuadas, em comparação às teste-munhas, dizem respeito a Dicofol, Chlorphenamidine e à misturaBCPE + CPAS.1. Repercussões do DicofolEsse produto acarreta, ao contrário dos outros, um muito níti-do aumento do nitrogênio protéico: em 6 de julho, o teor era o triploque nas testemunhas. Contudo, esta elevação é seguida de uma quedaimportante em meados de agosto.Inversamente, até o mês de julho, ou seja, no curso da primeiraparte do ciclo vegetativo, os teores em nitrogênio não-protéicoregridem, em comparação aos da testemunha. É apenas no fim deagosto – começo de setembro, isto é, na época em que todas as folhasentram em proteólise, que os teores em nitrogênio solúvel se elevamnitidamente acima dos das testemunhas.Estas repercussões parecem explicar porque com o emprego desteacaricida e, ao contrário de numerosos outros produtos, não se constata*Refere-se à mistura Dimite + Chlorfensulphide, respectivamente. (N. da T.) Essesprodutos são conhecidos sob o nome comercial de Anilix ou Milbex. (N.do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S115proliferações secundárias de Tetranychus em fim de estação. Isto é con-seqüência, não somente da eficácia imediata do produto, mas tambémgraças a seu efeito prolongado sobre a proteossíntese, produzindo assim,como veremos adiante, uma ação trófica prolongada “antiácaro”.2. Repercussões do ChlorphenamidineAs fig. 13 e 14 mostram que as incidências deste produto sãoquase inversas às do Dicofol, ou seja, uma regressão do nitrogênioprotéico em comparação às testemunhas, que se prolonga até mea-dos de agosto. Por outro lado, e parece correlativamente, registra-se umconsiderável aumento de nitrogênio não-protéico (x 2,8).Em outras palavras, na primeira parte do ciclo vegetativo da ma-cieira, ou seja, aproximadamente até meados de julho, o Dicofol exerceum claro efeito positivo sobre a proteossíntese, enquanto, ao contrá-rio, se registra uma regressão do Chlorphenamidine. As repercussõesde ordem bioquímica deste último produto parecem explicar aconstatação de sua medíocre eficácia sobre videira*tanto em relaçãoà aranha vermelha (Panonychus ulmi) quanto à aranha amarela(Eotetranychus carpini vitis). A elevação considerável da taxa de ni-trogênio solúvel, registrada desde o mês de junho, com este produ-to, só pode provocar um nítido aumento do potencial biótico dosácaros. Este fenômeno supera largamente o efeito acaricida imedia-to e mais ou menos fugaz exercido pelo produto no momento de suaaplicação.3. Repercussões da mistura BCPE + CPAS (Anilix)Em início de estação, as repercussões desta associação deagrotóxicos são bastante comparáveis às de Dicofol. Assim, em rela-ção às testemunhas constata-se um aumento do nitrogênio protéico,que se prolonga até o mês de agosto. No final de setembro, registra-*Repercussões semelhantes foram registradas com Omethoate e Tetradifon.
  • 116F R A N C I S C H A B O U S S O Use uma clara elevação do nitrogênio não protéico, que apresenta umteor mais elevado, ou seja, 2,3 vezes mais que as testemunhas.O efeito positivo sobre a proteossíntese até o mês de agosto é se-guido, no fim da estação, de uma considerável regressão. Ora, se estaassociação de agrotóxicos, efetivamente comprova um efeito acaricidaimediato, por outro lado registram-se, diversas vezes, graves prolifera-ções, ditas “secundárias”. Sobre laranjeiras, no Marrocos, nós mesmospudemos constatar consideráveis multiplicações do ácaro(Brevipalpus),cujos ataques provocaram a quase totalidade da queda das folhas.Este fenômeno parece resultar de um estado de proteólise acen-tuada da folhagem, no caso onde, como na macieira, uma tal mistu-ra provocaria,- como tudo faz pensar - as mesmas repercussõesfisiológicas sobre citros.4. Repercussões do inseticida PhosaloneComparado aos outros agrotóxicos que acabamos de revisar, esteproduto parece caracterizar-se por efeitos muito mais moderadossobre a composição bioquímica das folhas. Assim, em junho e julhoregistra-se um muito leve aumento do teor de nitrogênio protéico,que regride em agosto e, finalmente, atinge os mesmos valores dastestemunhas (fig. 13).Os teores do nitrogênio não-protéico apresentam uma peculiarida-de muito importante referente à resistência: quase constantemente sãoinferiores ao das testemunhas. Sabe-se que, fazendo exceção a muitosoutros agrotóxicos o Phosalone caracteriza-se, de maneira geral, pelaausência de repercussões estimulantes ao desenvolvimento dos ácaros.Tal propriedade deste agrotóxico parece explicar-se por dois processos:– ação positiva sobre a proteossíntese, no início do ciclo vegetativo(13);– manutenção, a seguir, do teor de nitrogênio não-protéico emnível constantemente inferior ao das testemunhas, durante todo ci-clo vegetativo da macieira (fig 14).
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S117Em resumo: o Phosalone, além de uma ação acaricida imediata, porcontato, parece, igualmente, apresentar uma ação anti-ácaro, por um efeitotrófico prolongado. Contudo, trata-se apenas de um “efeito não-intenci-onal” e cuja ação benéfica é devida ao puro acaso. É, contudo, a tais efeitosindiretos, via ação da fisiologia da planta, que pode ser explicada, porexemplo, a ação anticriptogâmica de diversos produtos que não apresen-tam, no sentido literal, eficácia fungicida. É, especialmente, o caso de“fungicidas” clássicos como a calda bordalesa ou o enxofre.6. REPERCUSSÕES DE DIVERSOS INSETICIDAS SOBREA FISIOLOGIA DA VIDEIRADurante vários anos de pesquisa, estudamos, nas condições reaisde campo, as repercussões sobre a fisiologia da videira, de diversosinseticidas utilizados no controle de Eudemis botrana(Polychrosisbotrana); os agrotóxicos mais usados eram DDT, Carbaryl, Parathion,Diazinon, Mevinphos, Carbophenothion e arseniato de chumbo(CHABOUSSOU, 1969).Em 1960, o tratamento foi feito em 24 de maio e as análisesforam realizadas sobre as folhas recolhidas em 15 de junho, ou seja,vinte e um dias após o tratamento. O DDT provocou um aumentosignificativo do nitrogênio total e do nitrogênio insolúvel. Tambémconstatou-se uma perturbação nos elementos catiônicos: o mesmoproduto clorado aumentou, em comparação às testemunhas, o teorde K, enquanto diminuiu os de Ca e de Mg.No mesmo ano, um segundo tratamento foi efetuado a 6 dejulho, e as análises foliares realizadas sobre levantamentos efetuadosem 5 de setembro, ou seja, sessenta e um dias após o tratamento. ODDT continuava provocando um aumento significativo do nitrogênioinsolúvel e total, mesmo após tanto tempo de intervenção.Outra repercussão estatisticamente significativa foi a regressãodo teor de cálcio, tanto com Mevinphos quanto com Carbaryl. Entre asnão significativas nota-se, com estes dois agrotóxicos, uma regressão
  • 118F R A N C I S C H A B O U S S O Udo magnésio e um aumento do potássio (cepa em experiência: Merlottinto).Em 1961, com cepa Cabernet-Sauvignon, tratamento em 6 dejulho e análises sobre folhas colhidas em 17 de julho (onze dias apóso tratamento): nenhuma repercussão significativa. Contudo, regis-tra-se com todos produtos experimentados, ou seja, DDT, Parathion,Mevinphos e Carbaryl, um aumento do teor de potássio e uma regressão,aparentemente correlativa, do cálcio nas folhas.Em 1962, com cepa Merlot branco, as análises foram realizadasem 14 de junho, ou seja, nove dias após o tratamento de 5 de junho.Nessa época e com esse intervalo, um determinado número de reper-cussões significativas são registradas:– aumento do potássio com Carbaryl,– aumento do magnésio com Parathion e Carbophenothion,– aumento do cálcio com Parathion,– aumento do fósforo com Parathion, Diazinon e Carbophenothion– o que parece lógico, já que são produtos fosforados – mas tam-bém com DDT.A fig. 15 traz os resultados das repercussões do DDT, Parathione Carbaryl, em comparação com as testemunhas e sobre cada uma dasseis parcelas tratadas. Essas diferentes repercussões agem também deforma distinta sobre as multiplicações de cada uma das duas espéci-es de Tetranychus (fig. 16). Isto faz supor que as exigências nutricionaisdesses ácaros são, também, diferentes.Quando estudarmos os herbicidas, vamos retomar as perturba-ções acarretadas pelos agrotóxicos sobre os equilíbrios catiônicos(onde estão implicados K, Ca e Mg), condicionantes do fenômenoda proteossíntese e, portanto, da resistência da planta.7. CAUSAS DE CERTAS AÇÕES ANTIFÚNGICASDiversos produtos, de difícil qualificação quanto à açãofitossanitária, podem apresentar um efeito indireto positivo sobre a
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S119resistência da planta. Como exemplo temos a ação antifúngica doarseniato de chumbo contra sarna e septoriose da pereira (DARPOUXe ARNOUX, 1958); do Parathion, eficaz contra ferrugem coroada doazevén (COURTILLOT, 1965); do 2-4 D (em determinadas doses),contra Botrytis da fava (MOSTAFA e GAYED, 1956); do Carbarylcontra Alternaria do algodoeiro ABO e DAHAB, 1965) etc.Estes casos põem em questionamento o modo de ação dosagrotóxicos, especialmente dos fungicidas. Tratar-se-ia de uma açãoantagonista, tóxica, em relação ao fungo parasita, mas sendo exercidapor via interna, sistêmica? Isto foi o que perguntaram dois autorescomo SOMERS e RICHMOND (1962), testando Captan contraBotrytis do feijão. O produto foi aplicado sobre as raízes para tentardestruir o fungo por via endoterápica.Utilizado desta maneira, este agrotóxico mostrou-se eficaz. Con-tudo, análise das folhas mostrou que o máximo de Captan encontradosó representava uma pequena fração daquela requerida para a inibi-ção da germinação dos esporos in vitro. Assim, os autores concluíramque: “A repercussão do produto sobre o metabolismo do hospedeiro seriaresponsável pela ação anticriptogâmica observada sobre as folhas apósaplicação sobre as raízes”.É desnecessário ressaltar a importância destas constatações, quepõe em discussão o modo de ação e, portanto, o da utilização dosdiversos agrotóxicos. Devemos enfatizar que determinados especia-listas em controle moléstias por via química colocaram em dúvida aeficácia fungicida dos produtos correntemente utilizados.Assim, PARMENTIER (1979) contesta seriamente a eficácia deprodutos – ainda admitidos para a venda – contra ferrugens ouescaldadura do centeio. Por outro lado, segundo ele, o enxofre me-rece ser conservado, pois: “Não somente é barato e não apresentatoxicidade, como proporciona, freqüentemente, aumentos de rendi-mento desproporcionais à sua eficácia anticriptogâmica, independente-mente da presença de parasitas”.
  • 120F R A N C I S C H A B O U S S O UEsses fatores podem ser apenas interpretados como uma ação in-direta e benéfica sobre a fisiologia da planta a proteger, isto é, umaação positiva sobre a proteossíntese, provocada pelo enxofre. Efetiva-mente, TURREL (1950) e TURREL e WEBER (1955) demonstra-ram que o enxofre elementar em pó constitui um nutriente para asfolhas de limoeiro, sendo encontrado nas proteínas da planta. É efe-tivamente a este efeito “secundário” que um velho autor comoMARTRES (1862) atribuía a regressão do Oidium pelo enxofre. É útilcitá-lo: “O efeito do enxofre é notável; posto em contato com o micélioe as caulículas de Oidium, ele os destrói; mas é sua ação sobre a vege-tação geral da planta que dá, sem dúvida, a maior contribuição a seusucesso. Fez-se, há diversos anos, experiências muito interessantes sobreos efeitos do enxofre como adubo, dando à vegetação de diversasplantas um estímulo plenamente favorável a seu desenvolvimento. Asvideiras tratadas com enxofre, sobretudo com o orvalho, sentem particu-larmente o efeito deste tratamento quando estão doentes; imediatamen-te, as folhas pálidas e retorcidas reverdecem tornam-se lustrosas e maleáveis,os sarmentos alongam-se e, se o mal não é muito forte, vê-se asinflorescências esbranquiçadas, que começam a cobrir a baga, desapare-cerem, da mesma maneira que desaparecem, sobre o corpo dos animaissubmetidos a uma alimentação sã e abundante, os parasitas que os pre-judicam”.Assim, por uma espécie de premonição notável, este modestoobservador punha em evidência o efeito anticriptogâmico do enxo-fre por ação positiva sobre o crescimento da planta, isto é, aproteossíntese.Inversamente, NIGHTINGALE (1932) e EATON (1941)mostraram que as plantas ricas em nitrogênio e pobres em enxofrecontinham em seus tecidos grandes quantidades de nitrogênioaminado livre, nitratos e carboidratos (glicídios). Eles imputam estefenômeno a uma diminuição do teor de redução dos nitratos e a umamenor síntese das proteínas, acompanhada de uma proteólise elevada.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S121O fenômeno de carência em enxofre, – sobreo qual voltaremos a falar– explica a sensibilidade das plantas a diversas moléstias, pelo efeitonutricional favorável ao desenvolvimento dos parasitas. Assim, o es-tudo do modo de ação do enxofre por sua participação no metabo-lismo ou sua carência, só reforça nossa concepção da trofobiose e daconveniência de uma terapêutica orientada para a estimulação daproteossíntese. É o que veremos na segunda parte deste trabalho, es-tudando as repercussões da fertilização e dos tratamentos foliares,com aportes de macro e microelementos, no metabolismo da plan-ta. Veremos que a clássica calda bordalesa não é exceção à regra de açãoindireta sobre a fisiologia da planta – neste caso, benéfica como oenxofre. Veremos agora as repercussões nefastas acarretadas sobre asplantas pelos agrotóxicos.8. REPERCUSSÕES NEFASTAS DE DIVERSOSFUNGICIDASPor comodidade, arbitrariamente separamos o estudo das reper-cussões do DDT, substâncias de crescimento, inseticidas e acaricidas.Na realidade, o que nos interessa são as repercussões desses diversosagrotóxicos na fisiologia da planta, segundo suas incidências sobre aproteossíntese e, portanto, sobre a resistência do vegetal a seus ini-migos. Antes de abordarmos o problema das repercussões dosagrotóxicos sobre a própria vida e fertilidade do solo, gostaríamos deestudar a influência da época e da repetição das intervenções nafitotoxidade dos agrotóxicos.Assim, BESEMER (1956), experimentando sobre macieiras,pôde mostrar que:• Geralmente, o período de sensibilidade e, até, de hipersensibilidadeem relação aos agrotóxicos começa, para as árvores frutíferas, poucoantes da floração, para terminar somente um mês após a floração.Isto não significa que depois as árvores tornar-se-iam resistentesàs queimaduras e outros fenômenos fitotóxicos.
  • 122F R A N C I S C H A B O U S S O UA razão deste fato é que, na época em torno da floração todas asfolhas perdem simultaneamente seu poder de síntese e procedem, atéa uma certa decomposição de suas próprias proteínas. As substânci-as solúveis são assim postas à disposição dos órgãos reprodutores. Éeste estado de proteólise dominante que explica a sensibilidade aosagrotóxicos e às diversas moléstias, numa determinada época.• Em segundo lugar, BESEMER (op. cit.) pôs em evidência ainfluência nefasta da repetição dos tratamentos. Assim, Zirame Ferbam manifestam ação fitotóxica somente após a quartaaplicação em macieira. Os três primeiros tratamentos apre-sentam, ao contrário, uma certa influência benéfica no desen-volvimento das folhas.Como já suspeitávamos, estudando os resultados de GROS-CLAUDE sobre o pessegueiro, o inseticida Azinphós adicionado aoZiram agrava os danos.A repetição de tratamentos e misturas de produtos são práticacorrente. Não raro, 20 a 30 intervenções sucedem-se nos pomares emcultivo “químico”. Não é de surpreender que as diminuições de ren-dimento tenham sido constatadas um ano, ou mesmo dois, após oexperimento com tratamentos consecutivos de Ziram (BESEMER,op. cit.). Isto confirma as repercussões a longo prazo na fisiologia dasplantas perenes e, portanto, na diminuição da resistência às moléstias.A estas incidências nefastas e incontroláveis, resultantes de tra-tamentos diretos sobre as plantas, somam-se as repercussões indire-tas dos agrotóxicos sobre a fertilidade do solo, via nutrição da planta.9. REPERCUSSÕES DOS AGROTÓXICOS SOBRE ANUTRIÇÃO DA PLANTA E A FERTILIDADE DO SOLOA) NAR ou “net assimilation rate”,*critério do metabolismo da planta*Em inglês, no original: taxa líquida de assimilação. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S123A NAR ou net CO2assimilation rate dos anglo-saxões, permiteavaliar o nível de assimilação da planta graças à análise do CO2em luzinfravermelha. Em experimentos sobre folhas de macieira, HEIN-RICKE e FOOT (1966) puderam mostrar que dois inseticidasfosforados, Gusathion e Diazinon, reduziam, muito nitidamente, aNAR da folhagem, após mais de uma semana da aplicação. Estudosanteriores, dos próprios autores, tinham mostrado os mesmos efeitoscontrários de diversos agrotóxicos, como Aramite, Sulfenona, Tetradifone 2-45T, sobre o nível de fotossíntese das folhas de macieira.HEINRICKE e FOOT (op. cit.) observam que esta regressão daNAR excedia o intervalo recomendado entre as aplicações, podendo,portanto, repercutir sobre os rendimentos, devido à diminuição dopotencial de fotossíntese das árvores. Estes autores não vislumbrarameventuais repercussões sobre a diminuição da resistência da maciei-ra em relação às moléstias. Mas esta sensibilidade é ligada a umainibição da proteossíntese, igualmente confirmada por SHARMA(1975).Pela técnica da NAR, SHARMA (op. cit.) mostrou que diversosherbicidas aplicados no solo provocam repercussões sobre a fisiolo-gia das folhas. Também é necessário não perder de vista que osagrotóxicos aplicados sobre a folhagem podem contaminar o solo, porescorrimento, de uma forma mais grave do que se supõe a priori.B) Repercussões de diversos fungicidas sobre as minhocas e amicroflora do soloO relatório do grupo internacional de controle integrado empomares (IOBC), relativo à reunião ocorrida em Bolonha, em 1972,salienta, de um lado, a importância da fertilização e de outro, dostratamentos com agrotóxicos sobre a resistência da macieira a Oidiumnas folhas e às moléstias dos frutos.Está bem especificado que o Captan estimula particularmente odesenvolvimento de Oidium.
  • 124F R A N C I S C H A B O U S S O UDa mesma forma, as fertilizações nitrogenadas excessivas e ostratamentos a base dos fungicidas Captan, Tuzet, Maneb, Metiram eMancozeb aceleram a maturação dos frutos e reduzem, por isso mes-mo, sua resistência em relação aos parasitas de armazenazenamento,tais como Gloesporium e Nectria.Esta sensibilização parece ter sua origem – como é regra geral –num processo de ordem nutricional. Os autores do relatório salien-tam que “o nitrogênio total aumenta após quase todos os tratamentosfungicidas”. E, também, que existem diferenças importantes no teorde aminoácidos, segundo o agrotóxico usado.Está bem especificado nesse relatório coletivo que certosfungicidas anti-Oidium, como Dinocap e Binapacryl fazem os ácarosregredirem, por um efeito tóxico imediato, mas estimulam, em segui-da, sua multiplicação por um pós-efeito trófico indireto.Entretanto, ainda há mais: após a decomposição do materialvegetal (principalmente folhas), contendo os fungicidas sistêmicosque lhe foram aplicados (Benzimidazol, Benomyl, Thiophanate etc),a grande maioria desses compostos entram no ecossistema do solopodendo, assim, afetar os processos de decomposição. É bem conhe-cido que os fungicidas sistêmicos inibem certos organismos saprófitasdo solo, tanto as micorrizas, como também sobre a videira comosobre a macieira.Enfim, Benomyl, Thiophanate e Thiabendazole mostraram-se muitonocivos em relação a minhocas (Lumbricus terrestris). Esta influêncianociva em relação às minhocas explica o fato de que as folhas caídaspermaneçam intactas após pulverizações com fungicidas sistêmicos,já que os oligoquetas são em grande parte responsáveis pela decom-posição da folhagem morta.O relatório precisa que “após as aplicações de Benomyl, as modifi-cações na microflora podem causar o desenvolvimento de certos fungosparasitas, anteriormente sem importância, como é o caso de Alternaria,na regido do Lago de Constança”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S125Estudos precisos de diversos pesquisadores, envolvendo as reper-cussões dos agrotóxicos em relação aos microorganismos do solo,confirmam o exposto, conforme veremos.C) Repercussões de diversos agrotóxicos – especialmente herbicidas– sobre os microrganismos do solo e sobre a nutrição da planta.PURUSHOTHAMAN et alii. (1973) estudaram o teor dos so-los em ácido indolacético ou IAA, observando que a presença nos solos,dessa substância de crescimento estava suficientemente provada, aindaque se pudesse fazer reservas quanto à sua origem.Estes autores observaram que as auxinas podem se acumular dediversas maneiras:1. por excreção do sistema radicular das plantas;2. por decomposição da matéria orgânica;3. por síntese, graças a certos organismos do solo.Assim, se estimou que: 77% das bactérias, 60% dos fungos e46% dos actinomicetos são capazes de produzir o IAA.Esta constatação levou os autores a estudarem os efeitos doFormothion (inseticida organofosforado endoterápico), do Benomyl(um carbamato), e do Pentachloronitrobenzeno ou PCNB e de umantibiótico, o sulfato de estreptomicina, sobre o metabolismo do IAAno solo.Tratavam-se de experimentas de laboratório em que o solo secorecebia, ou não, triptofano ou glicose. Como se sabe, o triptofano éum precursor do IAA; primeiro, convertido em triptamina é, emseguida, desaminado em indol-3-acetoaldeído, este último dando, aseguir, o IAA.Os resultados indicam que, mesmo tendo originalmente muitopouco de IAA, o solo o contém em grandes quantidades quando tem-se o cuidado de suplementá-lo com triptofano. O tratamento do solocom sulfato de estreptomicina inibe a elaboração do triptofano em IAA,o que confirma que sua conversão é, em grande parte, microbiológica.
  • 126F R A N C I S C H A B O U S S O UOs inseticidas e fungicidas testados nesses experimentos provocaramum decréscimo no teor em IAA no solo, sendo a regressão mais acentu-ada com Formothion do que como Benomyl ou Pentachloronitrobenzeno.Quadro 4. IAA sintetizado (em y /25mg de extrato de solo) em função dosdiferentes tratamentos do solo.Tratamentos I.A.AsintetizadoSolo + triptofano + glicose 189,02Solo + triptofano + glicose + Formothion 30,32Solo + triptofano + glicose + Benlate 85,57Solo + triptofano + glicose + Pentacloronitrobenzeno 114,20Solo + triptofano + glicose + estreptomicina 55,26Solo + glicose, sem triptofano 32,32VLASSAL e LIVENS (1975), referindo-se a numerosos trabalhosque estabeleceram a extrema sensibilidade da nitrificação em relaçãoaos agrotóxicos, evidenciaram os efeitos nefastos de alguns deles,idênticos aos dos adubos nitrogenados, sobre as atividades da microflorado solo e um efeito inibidor do BHC, ou hexaclorociclohexano, sobreos microrganismos nitrificantes.Num segundo trabalho, esses mesmos autores estudaram os efei-tos de vários agrotóxicos, em diversas concentrações, sobre aamonificação e a nitrificação, com especial atenção sobre a ação dosprodutos em presença de adubos amoniacais. Pensamos interessan-te especificar o detalhe.Esses experimentos foram conduzidos sobre dois tipos de solo,ambos cultivados com beterraba açucareira. O solo A, proveniente deplanície, apresentava 3,3% de húmus; o solo B tinha tido um cul-tivo de 15 anos de beterraba, com rotação de cereais, e não acusavamais do que 1,9% de húmus. (Pode-se perguntar se, eventualmen-te, não haveria aí uma relação de causa e efeito entre a cultura dabeterraba, os tratamentos com agrotóxicos que ela comporta e o baixoteor de húmus que subsiste.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S127Os agrotóxicos testados incluíam cinco herbicidas, dois inseti-cidas: (Heptacloro (l kg/ha) e Aldrin (3kg/ha) + Aldicarb e, em ou-tro, Oxamyl e Prophos. (Obs.: o Oxamil é um carbamatonematicida.)De maneira geral, os agrotóxicos apresentaram um menor efeitoretardado no processo de nitrificação, no solo A que no solo B, devi-do ao teor mais alto em húmus do primeiro. No entanto, os resul-tados confirmam que a maior parte dos carbamatos provocam umaregressão da nitrificação no solo, na dose padrão de aplicação. Anitrogenase é, sobretudo, afetada pelo Oxamyl.Os autores concluem que não apenas a nitrificação é sensível acertos produtos, mas que o próprio processo da fixação de nitrogênio pelasbactérias é afetado por alguns agrotóxicos. Especialmente os produtosnocivos à nitrogenase são indesejáveis, pois impedem a fixação donitrogênio do ar.Essas pesquisas foram confirmadas por trabalhos relacionadosnão, mais a plantas anuais como a beterraba, mas a culturas perenes,como as árvores frutíferas.SHARMA (1975) estudou o efeito de diversos agrotóxicos sobrea NAR de macieiras cultivadas em estufa. Assim, ele evidenciou queprodutos tão diferentes quimicamente como Diazinon, Dicofol,Omite, Leptofos e o Thiram ou TMTD fazem a NAR decrescer emmais de 10%.Pulverizações repetidas de Dicofol reduzem significativamente aNAR da folhagem de macieira. Sozinhos, os tratamentos de Dodinenão mostraram nenhuma influência significativa sobre a NAR.Além disto, SHARMA (op. cit.) estudou as repercussões de di-versos agrotóxicos aplicados no solo sobre a NAR das folhas de maciei-ra Golden Delicious. Foi demonstrado que:– Monuron faz decrescer a NAR em 45%– Atrazine faz decrescer a NAR em 37%– Simazine faz decrescer a NAR em 12%.
  • 128F R A N C I S C H A B O U S S O USHARMA precisa, também, que: “A influência dos herbicidas sobrea NAR apareceu dez dias após o tratamento e este efeito persistiu no res-tante do período experimental, ou seja, quarenta dias”.Isto significa que durante pelo menos quarenta dias, a proteossín-tese da árvore frutífera encontrar-se-á afetada. Só podemos nos pergun-tar quais serão, nestas condições, as conseqüências sobre sua resistênciaem relação às moléstias e às pragas que se multiplicam às expensas dassubstâncias solúveis presentes no vacúolo das células.Esses resultados, envolvendo a folhagem da planta crescendo emsolo tratado, parecem explicáveis pelo que se passa ao nível do solo.VICARIO (1972), procedendo a uma revisão bibliográfica, antes dedar seus próprios resultados, recorda os pontos de vista de MOYER.Este pesquisador refere que os tratamentos com agrotóxicos, que des-troem um grande número de microrganismos do solo, podem provo-car uma toxicidade indireta em relação às plantas, atribuída a umanão-disponibilidade de fósforo. Esta hipótese parece concordar com apropriedade que possui a matéria orgânica e, especialmente, o húmus,de favorecer a assimilação do fósforo pelas plantas, como veremos apropósito da influência da natureza da fertilização sobre a resistênciada planta. Esta questão será revista mais adiante, a propósito da influ-ência da natureza da fertilização sobre a resistência da planta. MOYERobserva que determinados agrotóxicos, principalmente os que contêmnitrogênio, são eles próprios cátions e que por isso podem deslocaroutros cátions do complexo de troca, tais como Ca, Mg e Zn.VICÁRIO (op. cit.) pôde mostrar que 2-4 D - 2-4-MCPA e Malathion,afetam P, K, e Ca, assim como o total de N trocável, nos solos argilosos.Estas modificações, que lembram nossos próprios resultados comdiversos agrotóxicos em tratamento de folhas da videira, não podemsenão repercutir sobre o metabolismo e, portanto, sobre a resistên-cia da planta.Os trabalhos de GAWAAD et alii. (1973) confirmam a influên-cia inibidora de diversos inseticidas de solo, tais como Kepone, Endrin,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S129Dyfonate e um certo PP 221*(provavelmente um produto de expe-rimentação) sobre a amonificação da peptona e a nitrificação dosulfato de amônia.Esses autores estabeleceram que os inseticidas e, em primeirolugar os clorados, têm uma influência inibidora sobre a atividade dosfungos (especialmente os actinomicetos) e bactérias que participamda amonificação, e sobre os nitrobacter que participam da transforma-ção dos nitritos em nitratos.ResumoO conjunto desses trabalhos mostra que todos os agrotóxicosincorporados ao solo, seja intencionalmente para desinfecção, não-intencionalmente, após tratamentos de controle de insetos ou fun-gos ou tratamentos herbicidas, são capazes de afetar a fisiologia daplanta através de sua nutrição. Os herbicidas parecem os mais perigo-sos, devido a sua dupla ação: efeito direto no momento do tratamento,ainda que subletal, em relação à planta e ação indireta, pela inibição danitrificação ou da amonificação, conseqüente à destruição dos microrga-nismos do solo.ROTINI e SEQUI (1974) já tinham salientado que: “O empre-go de inseticidas e herbicidas causa grandes problemas no que dizrespeito à integridade das características do solo”. A matéria orgâni-ca e o húmus que dela deriva podem, de certa forma, servir de “tam-pão”, reduzindo um pouco o atraso provocado por este ou aqueleagrotóxico na nitrificação. Contudo, pode-se perguntar o que acon-tece com a matéria orgânica e o húmus assim “tratados”? ROTINI eSEQUI (op. cit.) observam, oportunamente, que “se deveria conside-rar mais a influência dos inseticidas e dos herbicidas sobre as enzimas dosolo”.*Pirimifosetil. (N. da T.)
  • 130F R A N C I S C H A B O U S S O UEstes mesmos autores, por outro lado, observam: “Se um herbicidacomporta-se como um inibidor das enzimas do solo, todo o sistema ecoló-gico poderá sofrer modificações profundas, e a própria fertilidade do solopoderá ser alterada”.Efetivamente, é o que confirmam os diferentes trabalhos que ana-lisamos. Portanto, podemos nos perguntar quais podem ser as conse-qüências provocadas pelos diversos agrotóxicos – herbicidas à frente –sobre a resistência da planta assim perturbada em sua nutrição?É necessário questionar em que medida as inibições da proteossín-tese não apresentariam uma influência indireta, mas certa, sobre odesenvolvimento das doenças e, especialmente das doenças viróticas,eventualidade à qual já fizemos alusão. São estas importantes questõesque nos propomos tratar no próximo capítulo.Fig. 11. Fórmulas comparadas do DDT e do 2-4 D
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S131Fig. 12. Repercussões de DDT pó a 70% sobre videira. À esquer-da, planta testemunha; à direita, planta tratada (segundo DELHAYE,Bull. Horticole. Liège, 1950). Observar as deformações das folhas,idênticas às que podem ser provocadas por uma substância de cres-cimento.
  • 132F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 13. Repercussões sobre os teores de nitrogênio protéico emfolhas de macieira, acarretadas por diversos tratamentos com produtosacaricidas. (Segundo BLAGONRAVORA, 1974.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S133Fig. 14. Repercussões sobre os teores de nitrogênio não-protéicoem folhas de macieira, em seguida a diversos tratamentos com pro-dutos acaricidas. (Segundo dados de BLAGONRAVORA, 1974)
  • 134F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 15. Equilíbrio dos elementos catiônicos K/Ca/Mg nas folhasde videira, para cada uma das seis parcelas do quadrado latino, cor-respondente aos tratamentos: DDT, Parathion, Carbaryl e testemunha,em 14 de junho, após a intervenção inseticida de 5 de junho de 1962.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S135Fig. 16. Níveis das populações totais de Panonychus ulmi eEotetranychus carpini vitis em 9 de julho de 1962, para o conjunto dasseis parcelas do quadrado latino e em função do equilíbrio K/Ca/Mgnos tecidos foliares, em 14 de junho de 1962. (Experiência a cam-po aberto, CHABOUSSOU, 1969, tese)
  • 136F R A N C I S C H A B O U S S O UBIBLIOGRAFIAABO EL DAHAB M.H. 1965. Fungicide effect of Sevin insecticide on certainphytopathogenic fungi. “Phytopath. Med.”, IV, 3, pp. 138-144.ACTA Collectif 1970. Les maladies des plantes, 744 p.ALABUSCHEV V.A. 1962. Effect of the herbicide 2-4 D on the protein nitrogencontentofBarley,cornandmilletgrain.“Sov.Plantphysiol.”,vol.9,nº3,p.294.ALLENT.C. et CASSIDA J.E. 1951. Criteria for evaluating insecticidal toxicityaerial growth. “J. Econ. Ent.”, 44, pp. 737-746.ALTERGOTV.F.et POMAZONA E.N. 1963.Action stimulante sur la croissancedes plantes de mélanges de composés physiologiquement actifs et nutritifs. “Akad.Nauk. S.S.S.R.”, 12, 3, pp. 45-51.BESEMER A.F.H. 1956. Facteurs influençant la phytotoxicité des boulliesantiparasitaires. (Traduzido do holandês). “Med. Landb. Gand. Deel.”, nº 3,pp. 483-496.BLAGONRAVOVA L.M. 1974. Change of N content in apple tree leaves sprayingwith pesticides. “Byull. gonikitsr. bot. Sada”, nº 3, 22, pp. 56-59.BRUINSMAJ.1965.Effectsofpesticidaltreatmentsonthechlorophyllcontentofplantparts. “Residue Rev. Ger.”, 10, pp. 1-39.CHABOUSSOUF. 1965. Influence des insecticides et des anticryptogamiques sur lacomposition élémentaire des végétaux. Corrélation entre ces répercussionsbiochimiques et les multiplications des Tétranyques et autres ravageurs. “1erColloque C.I.C.R.A.” pp. 17-50.CHABOUSSOU F. 1969. Recherches sur les facteurs de pullulation des AcariensphytophagesdelaVigneàlasuitedestraitementspesticidesdufeuillage.“ThèseFac.Sciences”, Paris, 238 p.CHABOUSSOUF.1974.PhysiologieetrésistancedelaPlante.In“HommagesàJeanDUFRENOY”, “Académie d’Agriculture”, Paris, pp. 75-98.CHABOUSSOUF.1977.Répercussionsdespesticidessurlabiochimieetlarésistancede la Plante. “C.R. Acad. Agric. France”, 9 mar l977, pp. 369-380.CHAPMAN M.K. et ALLEN T.C. 1948. Stimulation and suppression of somevegetable plants by D.D.T. “J. Econ. Ent.”, 41, pp. 616-623.COLLECTIF1979.Lespesticides:ouiounon? PressesUniversitairesdeGrenoble,231 p.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S137COÏC Y. 1964. Sur la composition minérale des espèces végétales et organes végétauxet son déterminisme. “Rev. Gen. Sciences”, nº 9-10, pp. 259-265.COURTILLOTM.1965. ActivitéduparathioncontrelaRouillecouronnéeduRay-grass. “C.R. Acad. Agric.”, 4, pp. 223-228.DARPOUXH.etARNOUXM.1958.Actiondupétroleetdel’arséniatedeplombsurlaTavelureetlaSeptorioseduPoirier.“Pnytiatrie-Phytopharmacie”,7,pp.47-50.FORSYTHF.R. 1954.EffectofD.D.T.onthemetabolismofKhapliwheatseedlings.“Nature”. P. 827.GAWAAD A.A.A., HAMMAD et EL GAYAR F.M. 1973. Effet de quelquesinsecticidessurlatransformationdel’azotedanslesol.(Ho.an)“Agrokem.Talajt.“, t. 22, pp. 169-173.GROSCLAUDE C. 1964. Un grave accident sur le Pêcher: la nécrose hivernale desrameaux. “Rev. Zool. Agric. Appl.”, nº 4-6, pp. 77-83.GROSCLAUDEC.1966.Champignonsparasiteslatentschezlesarbres.“Rev.Zool.Agric. Appl.”, nº 4-6, pp. 86-91.GROSCLAUDEC.et DÉTIENNEC.1966.NouvellesobservationsconcernantlesaltérationshivernalesdesrameauxdePêcher.“B.T.I.”,nº207,marçode1966,6p.GROSCLAUDEC.1969.LanécrosehlvernaledasrameauxduPêcher.Reproductionexpérimentaledessymptômesàlasuitedestraitementspesticides.“Rev.Zool.Agric.Path. Veg.”, nº 1-3, pp. 26-35.HEINRICKER.etFOOTU.W.1966.Theeffectofseveralphosphateinsecticidesonphoto-synthesisofRedDeliciousappleleaves. “Canad.J.Plant.Sci.”,46,pp.589-591.JOHNSONT.1946. TheeffectofD.D.Tonthestemrust.ReactionofKhapliwheat.“Canad. J. Res.”, pp. 24-48.MARTRES L. 1862. Quelques considérations suna cause de l’Oidium. Congrêsscientifique de France. 28esession 1861, Bordeaux, l862, pp. 215-218.MEHANIS.1969.InfluencedesfumuressurladégénérescenceinfectieusedesartichautsdueauviruslatentenTunisie.“Ann.PhytopathologieI.N.R.A.”,Vol.Horsserie,pp. 405-408.MENORET Y. 1960. Action de l’acide 2-4 D sur la métabolisme azoté des tissus deCarotte cultivés in vitro.Thèse d’Ingénieur-Docteur, Paris.MENZELK.C.1935. UntersuchungenderschädigendenWirkungenkupferhaltigerSpritz-Mittel. “Angew. Bot.”, 17, pp. 225-253.
  • 138F R A N C I S C H A B O U S S O UMILLARDETA. et GAYONU.1887. Recherches sur les effets de divers procédés detraitements du mildiou par les composés cuivreaux. Bordeaux, l887, p. 1-63.MOSTAFA M.A. et GAYED S.K. 1956. Effect of herbicide 2-4 D on bean choco-late spot disease. “Nature”, 178, p. 502.NIGHTINGALEG.T.,SCHERMERHORNL.-G.etROBBINW.R.1932.Effetde la carence en soufre sur le métabolisme duTabac. “Plant Physiol.”, 7, p. 565.PARMENTIER G. 1969. Action fongicide des tensio-acttfs. III. Fongitoxicité-Phytoxicité. “Parasitica” t. XXV, nº 3 pp. 86-96.PARMENTIERG.1973.L’Oidiumetlastructuredespopulationsdefromentd’hiver.“Parasitica”, 29(3), pp. 107-113.PARMENTIER G. 1979. Principe de lutte intégrée contre les maladies des céréales:“‘Revue de l’Agriculture” (belge), vol. 32, mar-avril 1979, pp. 419-421.POIGNANT P. et THIOLLIÈRE J. 1952. Phénomènes d’altération et destimulation dès produits phytosanitaires en arboniculture fruitière. CongrèsPomologique de Metz, 32 p.PILET G. 1952. Les phytohormones de croissance.RIPPERW.E.1958.Sideeffectsofpesticidesonplantgrowth.7eBritishWeedControlConf. Proceedings, 3, pp. 1040-1058.PURUSHOTHAMAN D.; BALARAMAN K. et OBLISAMI-G. 1973. “Curr.Sci.”, t. 42, 10, pp. 270-273.RAPPORT. Réunion de l’I.O.B.C. Groupe pour la lutte intégrée en vergers tenu àBologneles8et9février1972,surlaluttecontrelesmaladiescryptogamiquesdansles vergers. Lienden, mai 1972. (doc. mimeogr.)SHARMAD.S.1975.Effectofpesticidesonphotosynthesisonapple.(MalussylvestrisMill). “Diss. Abstract.” Int. ser. Bt 35. 2010 B.TURREL F.M. 1950. A study of the physiological effects of elemental sulphur dust onCitrus fruits. “Plant Physiol.”, 25, pp. 13-62.TURRELF.M.etWEBERJ.R.1955.Lesoufreélémentairepulvérulent,alimentpourles feuilles de citronnier “Science”, 122, p. 119.SOMERS E. et RICHMOND D. 1962. Translocation of captan by broad beanplant. “Nature”, 216, 4980.STRAUSSE.1965. DieaufnahmevonKupferdurchdasBlattderWeinrebeundderschwarzen Johannnisbeere. “Mitt.”, Klosternenburg, Ser. B 75, 1, p. 127.VICARIO B.T. 1972. A study of the effect of pesticides (2-4D ester, agroxone 4 and
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S139malathion) on the phosphorus, potassium, calcium and total nitrogen levels innovaliches clay loam sol: “Araneta Res. J”., t. 19, 2, pp. 103-114.VLASSAKK. et LIVENSJ.1975Effectofsomepesticidesonnitrogentransformationin sol. “Sci. total Envir.”, t. 3-4, pp. 363-372.WILLAUMEF.1937.Lescarbolineumsphytophérapiques.Journéesdelalutecontreles ennemis des cultures, “Chimie et Industrie”, 38 (4 bis).
  • 1. A TROFOBIOSE COMO EXPLICAÇÃO DO AUMENTODA SENSIBILIDADE DA PLANTA AOS PARASITAS PELAAÇÃO DOS AGROTÓXICOSOs capítulos precedentes nos mostraram que:• determinados agrotóxicos agravam o desenvolvimento, tanto dedoenças fúngicas, como também, como veremos adiante – viro-ses – com a multiplicação de pragas, como ácaros, pulgões,aleirodídeos, Todos organismos picadores, mas também oslepidópteros, como, por exemplo, a Ostrinia nubilalis, do milho.• estes ataques não são, absolutamente, devido ao desapareci-mento de eventuais fatores antagonistas;• ao contrário,o desenvolvimento das pragas tem por origemum aumento do seu potencial biótico (ação positiva especi-CAPÍTULO VCAUSA DO DESENCADEAMENTO DEMULTIPLICAÇÕES DE PRAGAS E DEDOENÇAS PROVOCADAS PELOSAGROTÓXICOS“E através dos fenômenos de nutrição que podemos atingir os organismos vivos”. ClaudeBernard
  • 142F R A N C I S C H A B O U S S O Ualmente sobre a fecundidade, longevidade e velocidade dereprodução desses organismos);• estas modificações são de origem nutricional ou trófica: ateoria da trofobiose é proposta como exp1icação do que foiconvencionado chamar de “desequilíbrios biológicos”.Vimos também que, mesmo sem serem idênticas, as necessida-des nutricionais dos diferentes “parasitas” são constituídas desubstâncias solúveis, como aminoácidos livres ou glicídiosredutores. Conseqüentemente:• é criando um estado de proteólise dominante que os agrotó-xicos sensibilizam a planta;• é, inversamente, por estímulo da proteossíntese, através de di-versas técnicas, que reforçaremos a resistência da planta.É pelo estudo, tão aprofundado quanto possível, das relações en-tre as repercussões dos agrotóxicos sobre a bioquímica da plantae o desenvolvimento das pragas e das doenças, que poderemos.É o que propomos fazer ao longo deste capítulo.2. CAUSAS DAS PROLIFERAÇÕES DE ÁCAROSConforme tratamos no primeiro capítulo, pudemos demonstrarpelas criações, que o ácaro(Tetranychus), alimentado à base de folha-gem tratada com o produto responsável por sua multiplicação, tinhaseu potencial biótico aumentado. Isto ocorria pela elevação de suafecundidade (no sentido do número de ovos postos diariamente) e desua longevidade (os ácaros fazem postura até sua morte), pela redu-ção de seu ciclo evolutivo (aptidão de chegar mais cedo à idadereprodutiva) e por uma maior proporção de fêmeas na população(distorção na proporção de sexos). (CHABOUSSOU, 1969) (fig. 17).Um determinado número de produtos sintéticos, indiferentemen-te, inseticidas ou fungicidas, podem também intensificar as multipli-cações dos ácaros. Destacam-se, sobretudo, DDT, Carbaryl, Captan ediversos ésteres fosfóricos. Nas condições em que aceleram a prolifera-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S143ção, esses produtos provocam uma inibição da proteossíntese. É esteenriquecimento dos tecidos da planta em substâncias solúveis querepercute, de maneira positiva, sobre o potencial biótico desses animais(fig. 18 e 19).Este gênero de determinismo já havia sido aventado por algunspesquisadores. Assim, em 1965, MARDAJANIAN et al., numacomunicação à Academia de Ciências da Geórgia*, assinalavam que“a multiplicação de Tetranychus após tratamentos com DDT era de-corrente das mudanças na composição bioquímica das folhas e, con-seqüentemente, do regime de nutrição dos ácaros”.Efetivamente, as análises de folhas do algodoeiro submetidos aestes tratamentos, efetuadas a cada cinco dias, evidenciaram diversosfenômenos, como:– flutuações na atividade da peroxidase;– queda regular do teor de clorofila;– aumento da pigmentação antociânica;– enfim, diminuição do teor de nitrogênio protéico;– e, ao contrário, aumento da concentração de fósforo.Apenas estes dois últimos processos bastariam para explicar oaumento da fecundidade dos ácaros que se nutrem das folhas assimtratadas.Mencionamos efim, que a proporção de glicídios diminui, o teor deamido aumenta e certos aminoácidos desaparecem como, por exemplo,a histidina. Semelhantes perturbações no metabolismo da planta foramigualmente registradas por outros pesquisadores, como SMIRNOVA(1965), que se preocupou com o determinismo da multiplicação sobrebeterraba tratada também com DDT, o que veremos adiante.Em relação ao fenômeno, aparentemente paradoxal, que consti-tui a multiplicação dos ácaros por produtos acaricidas destinados, em*União Soviética. (N. da T.)
  • 144F R A N C I S C H A B O U S S O Uprincípio, a destruí-los, como já mostramos, (CHABOUSSOU,1970), merece atenção o fato de que, tão logo isto foi demonstrado,os pesquisadores tentaram elucidar seu determinismo sem evocaruma suposta destruição dos inimigos naturais ou um processo qual-quer de resistência. Este foi o caso de WAFA et alii. (1969).Esses autores – os quais pode-se supor que tenham sido, previ-amente alertados por determinados fracassos de tratamentos –, estu-daram dois tipos de repercussões conseqüentes a aplicações repetidasde diversos acaricidas sobre citros. Primeiro, procederam a observa-ções escalonadas envolvendo o nível das populações do ácaro(Eutetranychus orientalis), (Klein), dos citros. Segundo, confrontaramesses dados com a composição bioquímica das plantas cítricas sobreas quais foram mantidas essas populações.O experimento comportava sete “tratamentos”: Amidithion-Formothion; Amidithion e Formothion em aplicações alternadas;Amidithion e Demeton alternados; Amidithion, Formothion e Demetonalternados com intervalos de duas semanas sem tratamentos, eFormothion e Demeton em tratamentos alternados.Os autores registraram que os inimigos naturais dos ácaros eramraros e não podiam interferir de maneira sensível sobre o equilíbriodas populações.Resumindo, segundo os autores, os resultados indicam que osacaricidas fosforados. quando utilizados só, em aplicações repetidas, pro-vocam um aumento da infestação dos ácaros durante um período prolon-gado.Este efeito positivo sobre a multiplicação do ácaro pelos acaricidasfosforados é atribuído à ação dos produtos sobre a composição bio-química da planta. Assim, os autores registram com Amidithion,Formothion e Demeton uma elevação do nível dos glicídios solúveis. Istotanto nos caules quanto nas folhas dos citros.Esta constatação concorda com os resultados obtidos porFRITZSCHE (1961) sobre feijão e por nós mesmos sobre videira, em
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S145relação a Eotetranychus carpini vitis (CHABOUSSOU, 1970). Deve-mos observar que o potencial biótico, via fenômeno da nutrição, nãodepende somente dos glicídios, mas de um regime alimentar corres-pondente a um certo equilíbrio:Substâncias nitrogenadas £ solúveis glicídios redutores.É, portanto, este equilíbrio que vamos ver relacionado com amultiplicação dos pulgões.3. CAUSAS DAS PROLIFERAÇÕES DE PULGÕESTrata-se de um fenômeno análogo ao das proliferações de ácaros,mas que talvez não sensibilize os observadores com a mesma inten-sidade. Freqüentemente, a presença de colônias abundantes de pul-gões após este ou aquele tratamento é debitada a uma simplesresistência ao agrotóxico (fig 4). Tanto é verdade que se confunde,freqüentemente, multiplicação e resistência.Entretanto, como disse antes, MICHEL (1964) obteve, sobrefumo tratado com Mevinphos (inseticida fosforado), uma multiplica-ção maior de Myzus persicae em comparação às testemunhas (fig. 20).Esta elevação do potencial biótico resulta de um processo triplo:a) aumento da fecundidade: a média de postura passa de 25,09 natestemunha para 31,69, sobre fumo tratado com Mevinphos, a l cm3/l, e para 46,30, em fumo tratado com Mevinphos a 2 cm3/l;b) aumento da longevidade dos indivíduos: as relações entre onúmero de indivíduos que chegam a se reproduzir em comparaçãocom o número dos indivíduos instalados são as seguintes:– Testemunhas ............................ 69,60%– Mevinphos: 2cm3/l ................... 74,40%– Mevinphos: 2cm3/l ................... 87,43%c) redução do ciclo evolutivo: isto é, a aptidão dos indivíduos, ali-mentados sobre as folhas tratadas com agrotóxicos, para reproduzi-
  • 146F R A N C I S C H A B O U S S O Urem-se mais precocemente. Em outras palavras, as gerações sucedem-se em ritmo mais rápido devido a este fenômeno.Estudando a reprodução de outro pulgão, Aphis fabae, sobrehastes florais de beterrabas tratadas com DDT, SMIRNOVA (1963)constata que a fecundidade do pulgão é diferente segundo o tempodecorrido entre o tratamento e a contaminação artificial. O efeitomais agudo sobre a fecundidade de Aphis fabae ocorre entre nove equinze dias após a aplicação do inseticida. Segundo o autor, esta exa-cerbação da oviposição está correlacionada com a concentração em nitro-gênio não-protéico das plantas assim tratadas.Por outro lado e em concordância com os resultados de WAFA et alii.(op. cit.) referentes aos ésteres fosfóricos sobre citros, registrou-se igualmen-te, nas hastes florais da beterraba tratadas com DDT, um aumento nosaçúcares pela ação do agrotóxico, em relação às testemunhas.Essas análises evidenciam que a multiplicação dos pulgões pelo DDTresulta de um estado de proteólise dominante, criado pela ação doagrotóxico, e de um estado nutricional da planta, que depende doequilíbrio dos produtos nitrogenados e dos glicídios. Depende, tam-bém, da própria natureza desses elementos (presença ou predomi-nância deste ou daquele aminoácido) que tem como característicaserem substâncias solúveis, isto é, assimiláveis por esses organismos.Essas inibições da proteossíntese são conseqüência de diversosagrotóxicos e das substâncias estimulantes de crescimento utilizadascomo tais. MAXWELL e HARWOOD (1960) mostraram que otratamento das favas com 2-4 D provoca no pulgão Macrosiphumpisum uma taxa de reprodução claramente mais elevada que nas tes-temunhas. Como no caso precedente, este aumento de fecundidadeparece ter relação com o crescimento dos teores de aminoácidos livresna seiva.ADAM e DREW (1969), mostraram também, com trabalhossobre aveia e cevada, que as populações de duas espécies de pulgões,Rhopalosiphum padi e Macrosiphum avenae, achavam-se associadas às
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S147aplicações de 2-4 D. Estes aumentos do potencial biótico dos pul-gões pelos hormônios de crescimento foram confirmados por criaçõesem laboratório.Especialmente no caso da beterraba e dos cereais, fica evidente aimportância das interações entre o estado fisiológico da planta devi-do à ação de diferentes agrotóxicos sobretudo inseticidas e herbicidasque lhe são aplicados, e o desenvolvimento das doenças fúngicas eviróticas. Estas últimas são favorecidas, simultaneamente, por umestado onde predomina a proteólise e pela resultante multiplicaçãodos pulgões vetores. Voltaremos adiante sobre esta questão fundamen-tal, a propósito das doenças por vírus.Não se pode concluir este parágrafo, dedicado aos pulgões, semevocar o caso da filoxera da pereira (Aphanostigma piri). Trata-se, ain-da, de um “desequilíbrio biológico” que deixa os entomologistas etécnicos encarregados do controle perplexos e impotentes. Todavia,começa-se a suspeitar da provável influência de determinadas condi-ções capazes de interferir no estado fisiológico da planta.Assim, MOUSSION (1979) recorda as repercussões de diversastécnicas culturais, trabalho do solo, fertilização e, enfim, “a utiliza-ção de antiparasitários”. Todavia, o autor não precisa que esses fatorespoderiam agir por intermédio de suas repercussões sobre o metabo-lismo da planta. A julgar pelas experiências apresentadas, talvez oproblema básico resida neste ponto.Após ter recordado a influência positiva de um excesso de nitro-gênio sobre o desenvolvimento dos pulgões, MOUSSION (op. cit.)chega a esta observação “inesperada” – diz ele – feita pelos agentes doINRA, no curso de testes em 1962, com um novo inseticida,Demeton-methyl. As parcelas que receberam aplicações deste produ-to foram invadidas por Aphanostigma piri e a colheita foi muito pre-judicada.Ele não questiona, se esta proliferação foi resultado de um pro-cesso análogo ao das outras multiplicações de pulgões e ácaros. Este
  • 148F R A N C I S C H A B O U S S O Ufato coloca sob suspeição a influência do Demeton-methyl na fisiolo-gia e estado bioquímico da pereira assim tratada.MOUSSION (op. cit.) menciona, igualmente, um fato muitosignificativo a nossos olhos. Trata-se da “insuficiência” (para empre-gar sua expressão) de diversos outros inseticidas, entre os quais oParathion – óleo diesel, bem como de diferentes “inseticidaspolivalentes”, tenham eles ação de contato, ingestão ou inalação.MOUSSION precisa, também, que os “inseticidas polivalentes”, decontato ou sistêmicos, como “Azinphos-methyl”, Vamidothion eOmethoate, devem ser evitados nos pomares atacados por esta filoxera.Não apenas se mostram ineficazes, como, ele observa , “apresentam osmesmos inconvenientes do Demeton-methyl, citado anteriormente”.Em outras palavras, esses produtos, não só são apenas ineficazes,mas parecem exacerbar a multiplicação do parasita, como no caso doDemeton-methyl. A fim de demonstrar este efeito favorável ao pulgão,ao invés de se constatar, com uma espécie, que Diazinon, Bromophos,Dichlorfos, Endosulfan, Pirimicarb e Parathion- óleo diesel “foram umfracasso total”, bastaria, simplesmente, observar com cuidado, os níveisde população nas árvores assim tratadas e verificar se são superioresou não às levantadas sobre as testemunhas. E não comparar com osresultados de um produto padrão, cujas repercussões sobre a plantapodem mascarar o fenômeno de estimulação.Seria necessário, em suma, proceder como COX e HAYSLIP fi-zeram para o desenvolvimento de Botrytis sobre tomates tratados comDitiocarbamatos contra a Phytophthora (p. 29).4. CAUSAS DA MULTIPLICAÇÃO DE LEPIDÓPTEROSSe as proliferações de ácaros, pulgões e aleirodídeos, desencadea-das por toda uma gama de agrotóxicos, “saltam aos olhos”, é porqueestes parasitas permanecem sobre a planta durante a maior parte deseu ciclo. Ora, o mesmo não ocorre com os lepidópteros, cujas exi-gências de metamorfose levam-nos a mudar de meio e, portanto, a
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S149deixar a planta-hospedeira. Entretanto, vimos pelas observações deLUCKMANN (op. cit.), que tratamentos do solo com um insetici-da clorado como o Dieldrin podiam aumentar as populações detortrice (Ostrinia nubilalis), no milho.Com os trabalhos de TITOVA (1968), temos resultados tabu-lados envolvendo os diversos processos que podem ser responsáveispelo aumento do potencial biótico do inseto.TITOVA (op. cit.) conduziu seus estudos simultaneamente emlaboratório e a campo, envolvendo diversos lepidópteros nocivos,avaliando os indivíduos sobreviventes após o tratamento, bem comosua descendência. Assim, as experiências conduzidas com lagartas deHeliothis armigera, alimentadas com tomateiro tratado com DDT eCarbaryl, apresentaram os seguintes resultados:Quadro 5. Resultados sobre o potencial biótico das mariposas oriundas de lagartasalimentadas com folhas de tomateiro tratado com DDT e Carbaryl.Tratamentos Fecundidade das Longevidade Peso (em mg) Mortalidadefêmeas (em dias) das crisálidas das crisálidasTestemunhas 452 15,2 278-285 46,5%DDT 664 22,6 306-303 46,6%Carbaryl 478 20,1 266-270 43,0%O mesmo autor realizou experiências com Agrotis segetum sobreplântulas de trigo, cujos grãos tinham sido tratados com Lindane. Aalimentação das lagartas às expensas desse trigo mostrou que:• a duração do estágio larval é levemente prolongada com otrigo oriundo de grãos tratados com Lindane – 39,4 diascontra 32,4 no testemunha;• o peso das crisálidas é aumentado, como no caso precedente:machos fêmeasTestemunhas 233 260 mgTrigo oriundo de grãos-lindane 276 326 mg
  • 150F R A N C I S C H A B O U S S O UAs crisálidas de A. segetum mantidas a 5 – 6º C, durante trêsmeses, apresentavam apenas 16,9% de mortalidade quando prove-nientes do “trigo-lindane”, contra 72,5%das testemunhas.Isto parece constituir um fenômeno geral, já que as crisálidas deH. armigera mantidas durante quatro meses à mesma temperatura de5 – 6ºC, apresentavam 49% de mortalidade nas larvas oriundas dasfolhas tratadas com lindane, contra 92% para as larvas alimentadascom trigo-testemunha. O autor conclui assim: “Tudo isto mostrauma forte resistência às condições experimentais adversas, em funçãodos tratamentos químicos”.O modo de alimentação das lagartas afeta igualmente a propor-ção de crisálidas em diapausa bem como a fecundidade das fêmeas dageração seguinte:Alimentação com trigo tratado : fecundidade por fêmeaTestemunha : 43DDT : 191Carbaryl : 326TITOVA (op. cit.) conduziu observações sobre lagartas de Hadenasordida recolhidas em trigo no Casaquistão, tratadas com Methyl-parathion. O autor constatou, em comparação às testemunhas:– um aumento do peso das lagartas– uma diminuição da mortalidade larval.As análises da hemolinfa das lagartas mostraram a influência dostratamentos com agrotóxicos. Assim, parecem particularmente afe-tados os teores dos íons Na+e K+. Em Heliothis, nas lagartas tratadascom “folhas DDT, Carbaryl e Methyl-parathion”, a relação Na/K éinferior, em comparação às testemunhas. Esta relação, tomada comoindicador da intensidade metabólica, revela que em seguida a trata-mentos inseticidas os indivíduos sobreviventes apresentam um me-tabolismo reduzido, e que são mais resistentes a numerosos fatores
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S151ambientais adversos, aí incluídos os tratamentos químicos. Este últimoponto corresponde ao que pudemos evidenciar nos ácaros, com oParathion (CHABOUSSOU, 1968).Levando-se em consideração as repercussões dos agrotóxicos so-bre a fisiologia da planta e as conseqüências resultantes sobre o po-tencial biótico das pragas, por efeito nutricional, todo o controlequímico deve ser retomado sobre novas bases, bem como o controledito “integrado”. Veremos novas provas disto estudando as relaçõesentre a planta e o agrotóxico e o desencadeamento de doenças, queeste último pode provocar.5. O DESENVOLVIMENTO DAS DOENÇAS FÚNGICAS EBACTERIANAS CAUSADAS PELOS AGROTÓXICOSA) Os ditiocarbamatos no desenvolvimento das doenças das plantasNo primeiro capítulo, referimo-nos aos “desequilíbrios biológicos”provocados pelo emprego dos agrotóxicos no campo das doenças,como o desenvolvimento da ferrugem do trigo pelo DDT ou doOidium e Botrytis na videira, pelo Maneb, Zineb e Propineb ouMezineb (CHABOUSSOU, 1966). Também fizemos referência aosfracassos dos tratamentos com estes mesmos produtos, no fim daestação de produção que, na realidade, acabam sendo processos desensibilização da planta em relação à moléstia a combater.A este propósito GREWE (1967) observava: “Zineb e sobretudoManeb favorecem a infecção dos cachos de uva por Botrytis cinerea, a talponto que, em numerosas regiões, o mofo cinzento tornou-se o pro-blema patológico mais importante na agricultura”. No sul da Flórida,a extensão desta moléstia em tomateiros é atribuída à utilização deManeb e Zineb contra Phytophthora (COX e HAYSLIP, 1956).Efetivamente, estes dois autores mostraram que, em tomateiros,os carbamatos da série etilada, tais como Zineb e Maneb, provocavama recrudescência dos ataques de Bobrytis.
  • 152F R A N C I S C H A B O U S S O UEstas repercussões nefastas do Maneb e Zineb foram encontradaspor COX e WINFREE (1957) também sobre morangueiros. Istodemonstra a generalidade do fenômeno e levou estes autores a conclu-írem: “É tentador associar o aumento da concentração de zinco nasfolhas com o crescimento aparente da suscetibilidade à infecção porBotrytis. É bem conhecido que os excessos nos níveis dos oligoelementospodem induzir a desequilíbrios em processos de grande importânciabiológica”.COX e WINFREE (op. cit.) fazem alusão ao acúmulo do zinconas folhas tratadas com Zineb.Quadro 6. Concentração de zinco nas folhas de morangueiro (em ppm)segundo os tratamentos com agrotóxicosTratamentos Folhas velhas Folhas jovensTestemunha 16 44Zineb 208 155Nabam+ZnSO4203 121Thylat 17 41Phygon 26 48L.S.D.01 31 20Os aumentos em zinco nas folhas, produzido pelo Zineb e pelamistura Nabam + Zn SO4, são acompanhados de alterações nometabolismo normal da planta. Assim, COX e WINFREE (op. cit.)observam:“As diferenças envolvendo o conteúdo protéico, ainda que não sig-nificativas, são sugestivas, em particular no que diz respeito às folhasvelhas, nas testemunhas e nos tratamentos Zineb e Nabam + ZnSO4. Estas amostras contêm, em média, os seguintes valores”:Quadro 7. Teor de nitrogênio protéico das folhasTestemunhas ....................................................... 3,18Zineb ................................................................. 3,08Nabam + Zn SO4............................................................................... 3,06
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S153Este fato conduziu os autores à seguinte conclusão:“O trabalho reforça a hipótese de que estas aplicações defungicidas biditiocarbamatos podem aumentar a suscetibilidade decertas plantas a Botrytis”. Como demonstram as análises já citadas, eem concordância com a teoria da trofobiose, este processo parece seencontrar relacionado com a diminuição da proteossíntese constatadapor estes autores. Esta sensibilização da planta por agrotóxicos comoos ditiocarbamatos não envolve somente as doenças fúngicas, mastambém as moléstias viróticas e bacterianas que, como as precedentes,encontram-se em fase de expansão na agricultura. Como se surpre-ender, se esta expansão procede de um mesmo determinismo?B) Agrotóxicos e doenças bacterianasUma das doenças bacterianas mais graves é o “fogo bacteriano dapereira” provocado por Erwinia amylivora.*Esta doença foi detectadarecentemente em Aquitaine, num pomar de Passe-Crassane, em Labatut(Landes). Esta doença penaliza toda esta região, mas poupa determina-dos produtores de Amou. Ocorre que estes conservam certos métodosparticulares de controle químico, aos quais voltaremos, pois nos parecemestar relacionados com a imunidade das árvores assim tratadas, ainda quenão especificamente em relação a Erwinia amylivora.Começa, atualmente, uma preocupação com as causas desta “ex-plosão” de doença. Entre elas estão vagamente implicadas “as técni-cas culturais”, sem que aí se incluam, entretanto, os tratamentos comagrotóxicos. Contudo, diversas observações os colocam claramente emquestão.Assim, FIERET e LARGE (1976) assinalam: “as substâncias decrescimento, empregadas para melhorar a fixação das flores, agravarama tendência à segunda floração, e esta técnica deverá ser abandonada oumelhor dominada”.*Agente da doença “Fire blight”. (N. da T.)
  • 154F R A N C I S C H A B O U S S O UO questionamento das substâncias de crescimento no desenvolvi-mento da doença bacteriana, que se pode qualificar “de empírico”,parece plenamente justificado. Como vimos, estes produtos provocamuma inibição da proteossíntese e, conseqüentemente, um enriquecimentodos tecidos da planta em substâncias solúveis, nutricionalmentesensibilizadoras.Outra conclusão: estes mesmos autores observam que “as aduba-ções nitrogenadas, freqüentemente muito pesadas, têm uma influênciamarcante, sobretudo nos pomares não irrigados”.Sabe-se que um excesso de fertilização nitrogenada, especialmen-te com adubos amoniacais como o sulfato de amônia, correntemen-te usado, tem como primeiro resultado aumentar o nível denitrogênio solúvel nas plantas. Assim, exatamente como para as subs-tâncias de crescimento citadas anteriormente, é por um fenômeno deinibição ou redução da proteossíntese que a árvore frutífera se tornaria maissensível à doença bacteriana.Observações importantes devem ser efetuadas envolvendo asrepercussões dos agrotóxicos, por efeito indireto, sobre a fisiologia daplanta.Em primeiro lugar, se deve recordar que podem ter incidênciasnefastas as substâncias de crescimento aplicadas intencionalmentesobre as árvores frutíferas, como a maior parte dos fungicidas e inse-ticidas sintéticos. Estas intervenções podem, perfeitamente, ser su-ficientes para colocar a planta num estado de sensibilidade tanto emrelação às pragas quanto às diversas doenças.O processo de sensibilização é o mesmo, seja com pulgões, seja combactérias, seja a inibição ou interrupção da proteossíntese.. É comumobservar-se que, em Landes, as pereiras atacadas pela bacteriose dePseudomonas syringae são infestadas também por filoxera (FIERET eLARGE, op. cit.).Por outro lado, é necessário assinalar que podem agir sobre a fi-siologia das árvores frutíferas, os agrotóxicos aplicados intencional-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S155mente*sobre as folhas e ramos, e os herbicidas, prática corrente ago-ra, não apenas sobre cereais e hortaliças, mas também sobre árvoresfrutíferas e videira. Está bem demonstrado que todos estes agrotóxicosapresentam repercussões – algumas vezes mesmo a longo prazo –sobre a bioquímica destas plantas perenes.Já se sabia que Monuron provoca aumento do nitrogênio total edo nitrogênio solúvel nas hortaliças (COOKE, 1955). RIES et alii.(1963) estudaram, sobre pessegueiros das varidades Redhaven eRichhaven, as repercussões de Simazine e Amitrol, em relação ao teorem nitrogênio das folhas. Tanto sobre pessegueiros quanto sobremacieiras, a mistura Simazine (4 libras por acre, ou seja, aproxima-damente 4,5 kg/ha) + Amitrol (2 libras por acre, ou seja, aproxima-damente 2,25 kg/ha) provocam, em comparação às parcelas limpas àmão, níveis de nitrogênio mais elevados nas folhas. Esta elevação foi de3,59% em comparação às parcelas limpas à mão, e de 3,02% emcomparação às com cobertura plástica do solo. A destruição das in-vasoras era idêntica.Repercussões como a estimulação de crescimento ou o aumentodo número de galhos laterais desenvolvidos sobre cada ramo podem,à primeira vista, parecer benéficas. É de se temer, todavia, que estesaumentos de vigor, traduzidos bioquimicamente por aumentos de nitro-gênio nos tecidos e, sobretudo, de nitrogênio solúvel, não sensibilizem asárvores em relação às diversas doenças, em especial às viróticas. Exa-minaremos o assunto mais adiante.Que os tratamentos com agrotóxicos podem produzir repercussõessobre a sensibilidade – ou caso prefira, inibir a resisistência às doençasdas árvores frutíferas por suas incidências sobre a fisiologia dessas plantas– nos parece perfeitamente demonstrado (como mostramos com o enxofre)por certas repercussões – benéficas – produzidas por determinados produtos.*São chamados tratamentos preventivos, isto é, a aplicação do agrotóxico sem quehaja a ocorrência de praga ou de doença. (N. do R.)
  • 156F R A N C I S C H A B O U S S O UNão é por acaso que os pomares da região de Amou (Landes), aque fizemos referência antes, são poupados de ataques de Erwiniaamylivora, o “fogo bacteriano”. Nessa área, com efeito, notaremos queas árvores são tratadas por meio de produtos cúbricos contra P. syringae.LAGAUDE (1979) observa, a propósito das moléstias bacteria-nas do tomateiro: “Os produtos ricos em cobre podem ser utilizados.Embora os produtos cúpricos não sejam bactericidas, foi possívelnotar que exerciam uma ação contrária às bactérias”.Em consequência, há unanimidade de que a ação devidamenteprovada do cobre em relação às doenças bacterianas é indireta. A nossoconhecimento, ninguém tentou explicar até agora este fato. Ora, noque nos concerne e, segundo nossa concepção da trofobiose, o cobrepoderia ter uma ação positiva sobre a proteossíntese, como oligoelemento,melhorando o metabolismo da planta.Quanto a esta ação do cobre, observamos que:a) em nossos próprios experimentos sobre videiras (cepas Semillone Sauvignon), a calda bordalesa provocou uma clara regressão do nitro-gênio aminado e amoniacal, bem como dos glicídios solúveis totais nasfolhas (CHABOUSSOU: resultados não publicados).b) PINON (1977), por outro lado, diz em seu trabalho que: “Aanálise das folhas da amostra colhida no fim da floração revela umainfluência dos fungicidas antimíldio. Os níveis de nitrogênio total e denitrogênio solúvel das folhas são menos elevados no caso do tratamento comcalda bordalesa”.Estes resultados, que exprimem a regressão das substâncias solú-veis nutricionalmente sensibilizadoras, parecem explicar o efeito nãofungicida, mas antimicótico e antibacteriano, dos produtos cúpricos, porsua ação sobre o metabolismo da planta.Isto ocorreria por intermédio da influência do oligoelemento cobresobre enzimas como a polifenoloxidase e, portanto, positivamente sobre aproteossíntese. Assim estaria explicada a polivalência dos produtoscúpricos em relação a toda uma gama de doenças, aí compreendidas
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S157as bacterianas e as viróticas. Voltaremos a este propósito na fertiliza-ção e nos tratamentos foliares à base de oligoelementos.Uma última observação a propósito do “fogo bacteriano” (Erwiniaamylivora): FIERET e LARGE (op. cit.) ressaltam que, em sementei-ra, “nenhum ataque foi observado sobre as plantas sensíveis. Após asconsiderações precedentes, podemos nos perguntar se esta imunidadeem sementeiras não seria devido a uma dupla circunstância: estasplantas jovens, em período de crescimento ativo, são fisiologicamente re-sistentes – como se constata através de outras doenças como, por exem-plo, a causada por Phytophthora cambivora em castanheiras,*por outrolado, pode também que esses indivíduos ainda não tiveram tempo deser sensibilizados pelos tratamentos repetidos com agrotóxicos,que,habitualmente, são aplicados no pomar.Enfim, hã um outro desencadeamento de doenças mais preocu-pante: as diversas doenças que atingem os cereais, o que vamos exa-minar agora.C) Agrotóxicos e doenças dos cereaisRecentemente, um técnico de uma empresa de agrotóxicos ob-servava que: “O mercado francês dos fungicidas destinados aos cere-ais está em plena expansão. Enquanto em 1973 menos de 5% doscereais recebiam um tratamento fúngico durante seu desenvolvimen-to, em 1978 mais de 30% das áreas semeadas foram tratadas (estapercentagem atinge quase 40% para o trigo mole de inverno)”. Oautor prossegue: “Os fungicidas de aplicação nas partes aéreas doscereais considerados como um meio ocasional de preservar uma cul-tura comprometida, atualmente são parte integrante do seu sistemade produção, da mesma forma que a adubação, os herbicidas e até osreguladores de crescimento” (DUPERRAY, 1979).*Refere-se à castanheira européia. (N. da T.)
  • 158F R A N C I S C H A B O U S S O UNão acreditamos que os agricultores se regogizem com a neces-sidade na qual parecem encontrar-se, ou seja, a necessidade de recor-rerem a tratamentos fúngicos... Nosso problema é saber se estanecessidade nãoResultaria, precisamente, da utilização de herbicidas e outrosreguladores de crescimento – denunciados como favorecedores dodesenvolvimento da helmintosporiose – e cuja utilização, como su-blinha o autor, agora entrou na prática corrente.Referente aos cereais, recordemos que JOHNSON (1946) jádemonstrou experimentalmente que o DDT provoca um aumentoda sensibilidade do trigo à ferrugem, como conseqüência direta dasrepercussões deste produto organoclorado na fisiologia do cereal.Obviamente não é mais questão de tratar os cereais com DDT ououtros produtos clorados, já interditados. Todavia, observa-se que asincidências deste produto podem, perfeitamente, ser comparadas àsprovocadas por uma substância de crescimento como 2-4 D.Aliás, já se observou que: “Os herbicidas podem ter uma açãofavorável ou desfavorável sobre o estado sanitário das culturas”. “Pa-rece que os ataques graves de esporão do centeio, observados há algunsanos, e a multiplicação da fusariose são, em parte, devidos à utiliza-ção de herbicidas que destruiriam apenas parcialmente as gramíneas”(LEMAIRE e RAPILLY, 1970).Registremos o fato fazendo, porém, as mais expressas reservas quantoao processo da sensibilização do cereal que é sugerido pelos autores. Elesescrevem: “Além disto, os produtos à base de hormônios, que têm uma influ-ência sobre a fisiologia dos cereais, podem torná-los mais receptivos a certasmoléstias transmitidas no momento da floração. Parece que certos parasitassão favorecidos diretamente por diversos herbicidas e que, no futuro, seráimportante escolher a substância ativa, objetivando destruir as ervas invaso-ras, mas também levando em conta os parasitas presentes no solo”.Assinalemos em seguida que, no caso do cereal encontrar-se con-dicionado de tal forma a ser fisiologicamente resistente (segundo
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S159nossa teoria, porque se encontrará num estado de proteossíntesedominante), ele estará, ao mesmo tempo, imunizado, seja qual for onível de inoculantes, no biotipo. Veremos adiante, a propósito dePyricularia oryzae (do arroz), e da influência dos oligoelementos nafertilização, que o nível do inoculante seria negligenciável se o esta-do fisiológico – em outras palavras, o terreno, no sentido biológico dotermo – fosse o fator determinante da relação planta-parasita.Um fato parece confirmar este ponto de vista: trata-se da época emque se produzem as contaminações. Segundo os autores, este perío-do de hipersensibilidade corresponderia ao momento da floração, oque se enquadra perfeitamente em nossa teoria da trofobiose e nasconcepções de DUFRÉNOY. Com efeito, é no momento da formaçãoda inflorescência que todas as folhas perdem seu poder de síntese, e mes-mo realizam uma determinada decomposição de suas próprias proteínas.Isto ocorre para alimentar os órgãos reprodutores com substânciassolúveis.Nestas condições, parece normal – se é possível se dizer assim –que este estado de proteólise dominante favorece o ataque de diver-sos fungos patógenos e, mesmo, como veremos adiante, provoca odesencadeamento de doenças viróticas. A situação de proteólise podeestar eventualmente agravada pela ação proteolítica, ou, simplesmen-te, proteoinibidora, agravada por um ou por outro agrotóxico, espe-cialmente um herbicida, que pode agir direta ou indiretamente atravésde repercussões sobre a nutrição da planta.D’AGUILAR et alii. (1977) observam que: “Nos últimos anosviu-se o surgimento e a multiplicação inquietante de numerosas egraves doenças fúngicas e bacterianas de origem telúrica. O fato éobservado por todos os laboratórios que estudam as traqueomicoses,traqueobacterioses, e agentes da podridão do colmo e das raízes. Osagentes de enfraquecimento bacteriano e de origem viral também sãoigualmente numerosos e preocupantes”. Segundo RIDE (INRA,Angers), eles representam fenômenos complexos cujo estudo
  • 160F R A N C I S C H A B O U S S O Uetiológico necessita do concurso de diversas disciplinas e, na maio-ria dos casos, de uma experimentação bastante longa.Todavia, acreditamos que esses trabalhos só apresentarão resul-tados, caso seja procurada a elucidação das relações que unem a plantae o parasita, caso se disponha de uma hipótese de trabalho a esterespeito. Para as doenças viróticas, bem como para as outras afecções,propomos nossa teoria da trofobiose, segundo a qual a sensibilidadeda planta encontra-se em estreita relação com o nível das substânci-as solúveis nos tecidos. Este estado de proteólise encontra-se, simultane-amente, sob a dependência da nutrição da planta e das repercussões dosagrotóxicos (além de outros fatores, principalmente ambientais).D’AGUILAR et alii. (op. cit.) observam igualmente que: “A aduba-ção ou o emprego de fungicidas específicos podem causar desequilíbriosbiológicos: cada vez mais se tem consciência deste fenômeno emfitopatologia, seja relacionado com as modificações do substrato (turfa,húmus), adubações mais ricas ou práticas que forçam o crescimento. Estesdiferentes fatores agem sobre a fisiologia do hospedeiro, tornando-o mais sen-sível”. E mais adiante: “Para LEMAIRE e JOUAN (INRA, Reunes), oagravamento progressivo dos danos de Phytophthora sp. No colo dostomates em estufas pode estar relacionado com a utilização excessiva deBenzimidazol, em tratamento da folhagem e do solo”.Em resumo, e como observava POLJAKOV (op. cit.), após suaspesquisas sobre as repercussões do tratamento das sementes comdiversos fungicidas: “Um dos principais fatores determinante da resis-tência aos fungos é o estado fisiológico da planta-hospedeira”. Isto impli-caria, portanto, em que o eventual efeito antimicótico obtido não seriaproveniente de uma ação fúngica de superfície, mas sim de uma açãoantimicótica através da modificação benéfica do metabolismo, sob aação do produto.POLAKOV (op. cit.) precisava: “o ácido ditiocarbâmico, usadodurante quatro anos no controle de Phytophthora na batata, provoca-va um aumento de outras moléstias, em particular de viroses”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S161Podemos nos perguntar se o emprego generalizado de herbicidase ditiocarbamatos, que exercem um efeito inibidor da proteossíntese,não estaria englobado num processo de sensibilização dos cereais emrelação às doenças viróticas? Assim, poderiam se explicar os danos donanismo amarelo da cevada, cujo desenvolvimento acelerou-se nestesúltimos anos sem que se tenha, até agora, uma explicação realmentesatisfatória para este fato.É este o duplo problema: responsabilidade dos agrotóxicos detoda a ordem no desencadeamento das doenças viróticas, de um lado,e a ordem de aparição na planta das diversas afecções e, de outro, oque nos propomos abordar agora.6. AGROTÓXICOS E DESENCADEAMENTO DASDOENÇAS VIRÓTICAS - SUCESSÃO DAS DOENÇAS NASPLANTASA) Agrotóxicos e desenvolvimento das viroses nas hortaliçasMARROU (1969) observa: “Desde que os horticultores familiari-zaram-se com os principais parasitas de suas culturas, e desde que dispõemde fungicidas eficazes, as doenças viróticas passaram a ter uma importânciapredominante. Essas doenças são temidas, porque sua origem parecemisteriosa e seu desenvolvimento insidioso”.Nesta proposição, registramos um julgamento: o fato de que os pro-dutores se familiarizaram com os principais parasitas de suas culturas.Em outras palavras, aprenderam com a ajuda visível desse autor areconhecê-las. Isto se aplica particularmente às doenças viróticas.Em segundo lugar, MARROU faz uma aproximação entre doisfatos:• primeiro: utilização de novos fungicidas, qualificados de “efica-zes” – o que “se discutirá mais adiante – e que têm por caracte-rística serem produtos de síntese, como os ditiocarbamatos (Zineb,Maneb e Mezineb), cuja responsabilidade no desenvolvi-
  • 162F R A N C I S C H A B O U S S O Umento de certas doenças fúngicas como Oidium e Botrytis jádemonstramos;• segundo: a predominância de doenças viróticas, ou seja, umacategoria de moléstias que na batata, segundo POLJAKOV(op. cit.), estaria recrudescendo, devido, precisamente, àutilização dos ditiocarbamatos...Provavelmente não é nesta relação de causa-efeito, via metabolis-mo da planta, modificado pelo agrotóxico, que pensa MARROU. Eleparece deixar subentendido que as doenças viróticas somente teriamse desenvolvido a partir do momento em que os agricultores dispu-seram de fungicidas considerados a priori eficazes, isto é, suscetíveisde eliminar as doenças fúngicas e bacterianas.Em outras palavras, a doença virótica ocuparia doravante o “ter-reno” até então ocupado pelo fungo parasita ou pela bactéria. Estedesenvolvimento da doença virótica seria, de certa forma, o resulta-do da destruição de um “concorrente” eliminado pelo fungicida re-putado “eficaz”.Todavia, o mínimo que se pode dizer é que os fatos não parecemestar em acordo com esta concepção. Devemos observar que,freqüentemente, se encontram, simultaneamente, presentes na mes-ma planta doença fúngica e doença virótica. RUSSEL (1972) assinalaque, na beterraba açucareira, a Alternaria – que ele qualifica de “do-ença fúngica associada” – encontra-se sobre as folhas das plantasinfectadas pelo vírus.RUSSEL (op. cit.) assinala, ademais, que as folhas velhas da be-terraba açucareira infectadas pelo vírus BMYV (Beet Mild YellowingVirus) – o mais comum na Grã-Bretanha e no norte da Europa – sãopredispostas aos ataques de fungos parasitas, ditos “de fraqueza”,entre os quais o Alternaria parece o mais importante.O vírus absolutamente não faria concorrência ao fungo patógenomas, talvez, até favoreceria seu desenvolvimento. Admite-se, empatologia humana, que todo o ataque micótico ou bacteriano é sem-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S163pre precedido de um ataque viral, ele próprio condicionado pelacapacidade da célula em aceitar ou recusar a ordem do vírus demodificação de seu metabolismo.Assim, chegamos à concepção de uma sucessão das moléstias, cujaseqüência seria basicamente iniciada pelas doenças viróticas. Teremossua confirmação pelo estudo de fenômenos análogos nos insetos re-alizado por VAGO.Essa concepção do mecanismo do desenvolvimento das doençasviróticas estaria em perfeita oposição com àquela relativa à elimina-ção das doenças fúngicas, graças à suposta “eficácia” dos novosfungicidas sintéticos. Temos boas razões para manter sérias reservasquanto a esta “eficácia”.Como primeiro exemplo, citamos MARROU, em relação a hor-taliças: no controle químico de Phytophthora cactorum do moranguei-ro, os doze produtos testados (sulfato de cobre – Calda bordalesa –,Diclofuanid, Nabam, Dexon, Difolatam, Captan, Demosan, Mancozeb,Vitavax, Tiabendazole, Udonkor e Daconil), segundo o experimentador,nenhum merece ser considerado eficaz (NOURRISSEAU, 1970).Da mesma forma, em relação às doenças dos cereais, das quaisfalamos antes. Um especialista, PARMENTIER (1979) contestatotalmente a eficácia das pulverizações fúngicas qualificadas de “es-pecíficas” para controlar tanto os parasitas do pé, como a escaldadurada cevada (Rhyncosporiose, no original. N. do R.) e, também asferrugens.Quanto a SOENEN (1975), seguro de sua experiência de lon-gos anos de testes com agrotóxicos em culturas frutíferas, sublinha que“os últimos antifúngicos desenvolvidos não são necessariamentefungicidas ou fungistáticos, mas intervêm de um modo ou de outrona relação bioquímica entre o patógeno e seu hospedeiro”.Diz, também, que “em culturas frutíferas, o valor de um fungicidase estabelece mais por seus efeitos secundários que por sua atividade emrelação de um determinado fungo”.
  • 164F R A N C I S C H A B O U S S O UJá recordamos este caso a propósito do enxofre, o qual retomare-mos adiante.Caberia perguntar se, por um fenômeno de mascaramento ou deconfusão de sintomas, esse desenvolvimento das doenças viróticas nãoseria ilusório, caso não fosse confirmado pelo pesquisador especialistaque o relata. Sabe-se que nem sempre é possível atribuir às infecçõesvirais sintomas realmente característicos. São poucos os sintomas queefetivamente podem ser associados a viroses. Há diversas convergên-cias de sintomas entre determinados fenômenos de carência e asinfecções virais. Isto se explicaria porque toda a nutrição deficiente dovegetal, como por exemplo a relacionada a carências, pode ser a ori-gem do desencadeamento da doença.Todavia, um conjunto de observações em cereais, árvores frutíferase hortaliças mostra que parecem existir relações entre o desenvolvi-mento das doenças viróticas e a utilização, freqüentemente repetidasobre uma mesma cultura, dos novos fungicidas sintéticos. Somosinduzidos a perguntar se um processo análogo ao que estudamos,envolvendo a sensibilização, pelos ditiocarbamatos, da videira e dasárvores frutíferas a Oidium e Botrytis, não estaria agindo no estímulodo desenvolvimento das doenças viróticas? Sobretudo, se estas fossemas primeiras a se manifestarem na seqüência das diversas afecções.Dentro desta hipótese, seria por um distúrbio do metabolismocelular que o agrotóxico teria provocado a proliferação do ou dos vírusem primeiro lugar. Ora, estes só se multiplicam às expensas das for-mas simples do nitrogênio (aminoácidos). Assim, novamente somosconduzidos a encarar todas as proliferações de vírus como capazes deresultar da incidência de qualquer fator que favoreça na planta umestado fisiológico caracterizado por proteólise dominante, incluindoas repercussões dos agrotóxicos.De novo devemos precisar que a ação nefasta deste ou daqueleagrotóxico pode perfeitamente se encontrar superposta a uma mánutrição da planta. Esta, por sua vez, pode resultar de uma fertiliza-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S165ção desequilibrada (excesso, por exemplo, de adubos nitrogenados,ou carências minerais). As doenças viróticas poderiam, portanto, serdesencadeadas por uma conjunção – provavelmente mais freqüentedo que se poderia pensar a priori – de práticas culturais desfavoráveisà proteossíntese.Assim, estaria explicada a noção de “latência” das doenças nas plan-tas. Nas árvores frutíferas, a existência de “vírus latente” conduziria,segundo MORVAN (1969), “ao absurdo da noção de plantas sem vírus”.Esta afirmação acentua a importância das condições ambientais,incluindo-se os tratamentos com agrotóxicos. Por um condiciona-mento desfavorável à proteossíntese, o metabolismo da planta seriacapaz de favorecer o desenvolvimento do vírus e, até, de criá-lo. A esterespeito, as constatações de LÉPINE na virologia humana e os traba-lhos de VAGO, envolvendo as doenças dos insetos, que trataremosadiante, nos parecem fundamentais.Eis o que escreve o especialista em doenças humanas: “Com osprogressos da terapêutica antinfecciosa e a redução das moléstiasbacterianas, vemos aumentar o número de doenças causadas pelos vírus,que tendem cada vez mais a ocupar o primeiro plano da patologia infec-ciosa” (Pierre LÉPINE, 1973).Ora, esta observação, posta em paralelo com as constatações deMARROU, envolvendo o desenvolvimento das doenças viróticas nashortaliças como conseqüentes do emprego de certos agrotóxicos, nosparece impressionante. Numerosas questões se colocam, como:• em que nível a regressão das doenças bacterianas pode estarrelacionada com o aumento das doenças viróticas?• e, em que este aumento estaria ligado aos “progressos daterapêutica”? Dever-se-ia considerar, também para as plan-tas, a utilização de novos medicamentos e, especialmente,dos antibióticos? Estes são suscetíveis de agir, não apenas emrelação ao agente patogênico, mas, também, indiretamente,por intermédio do próprio paciente?
  • 166F R A N C I S C H A B O U S S O UNo que diz respeito às questões relativas à patologia humana são,bem entendido, os médicos que devem responder e, antes de tudo,refletir sobre isto. Seria importante saber em que medida se poderiaextrapolar da patologia humana para a patologia vegetal ou inversa-mente. Isto, bem como o estudo do desenvolvimento das doençasviróticas nos insetos, poderia nos trazer alguma luz no que diz respeitoaos problemas da mesma ordem, que se colocam nos vegetais. Ana-lisaremos, agora, os notáveis trabalhos de Constantin VAGO sobre:“L’enchainement des maladies chez les Insectes” (1956).*B) Os trabalhos de Constantin VAGO sobre a sucessão das doençasnos insetos1. Influência da natureza da alimentação sobre o desenvolvimentodas doençasNo lepidóptero Vanessa urticae L., VAGO demonstrou que doismodos de alimentação favorecem o desenvolvimento de poliedrose:*• a alimentação contínua com folhas murchas, contendo poucaclorofila e em vias de amarelecimento;• a alimentação com urtigas, mas com diferentes repercussõessobre a poliedrose, segundo a natureza do solo de onde provi-nham as plantas:– alimentadas com urtigas provenientes de um solo argiloso, aslarvas de primeira idade são atacadas pela poliedrose numa propor-ção de 15 a 19%;– aquelas que consumiram urtigas, desenvolvidas numa terraarável, de aluvião, apresentam apenas 4%.2. Bicho-da-seda, Bombyx mori L.Alimentadas desde seu nascimento com folhas muito maduras,os “bichos” apresentavam, desde a primeira muda, uma poliedrose*“A sucessão das moléstias nos insetos”. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S167elevada, com a afecção persistindo durante toda a duração da faselarval.Estas experiências acentuam a importância da alimentação e danutrição sobre a resistência do organismo aos agentes patogênicos.Como não colocar estes resultados em paralelo com as repercussõesque envolvem a natureza da fertilização e a resistência da planta apragas e doenças?As pesquisas de VAGO envolvendo as incidências da ingestão desubstâncias tóxicas talvez sejam as mais importantes para nós, pelasconclusões a que podem conduzir.3. Influência da ingestão de produtos químicos em pequenas dosesEm 1949-1951, a Estação de Sericicultura de Alès (INRA)(transformada em Estação de Pesquisa de Patologia Comparada INRA– CNRS – EPHE) teve que se preocupar com uma epidemia anor-mal de uma doença*que atingia diversas regiões. Os levantamentosrealizados chegaram a resultados que se podem qualificar de funda-mentais.Esta doença atacava de uma forma claramente mais intensa nosdepartamentos de Gard, Ardèch e Lozère. Ora, esta região era limi-tada ao norte, por uma determinada fábrica de produtos químicos.A gravidade da moléstia era simultaneamente função da proximida-de desta fábrica e da direção dos ventos dominantes.Os sintomas da doença em questão eram semelhantes aos dagrasserie, exceto pela turgescência. Os tecidos adiposos e sangüíneosapresentavam lesões avançadas, e isto ocorria mesmo quando as lagar-tas aparentemente não possuíam nenhum sintoma da doença.As lagartas recolhidas nesta área confirmaram o efeito favorável danutrição sobre os ataques da doença: 2% de poliedrose na alimenta-*“Grasserie”, no original. (N. da T.) Grasserie é uma doença do bicho-da-seda caracteridapor um inchaço (gorduroso) anormal dos anéis do corpo do inseto. (N. do R.)
  • 168F R A N C I S C H A B O U S S O Ução com as folhas recolhidas fora da zona contaminada; 20% – ou seja,10 vezes mais – com as folhas colhidas na zona contaminada.Outro ponto: a alimentação apenas com folhas provenientes dazona contaminada apresentava:– 13% de poliedrose com folhas previamente lavadas;– 23% de poliedrose com folhas não lavadas.Este resultado parece indicar (como faziam prever os resultadosda alimentação com folhas murchas, em Vanessa) que as repercussõesdos resíduos de venenos, apesar de importantes, não são as únicas emquestão. O veneno pode também ter agido após penetração nos te-cidos, por modificação da bioquímica da folha.VAGO não deixou de ver uma relação com fluoroses que ataca-vam o gado na mesma região, e de que havia um caso semelhante naItália. Esta doença era, com efeito, provocada pela ingestão do fluoreto desódio (NaF), que era o constituinte essencial das emanações da fábrica emquestão.Acrescentaremos que os fatores ecológicos igualmente influem:um abaixamento da temperatura acarreta um agravamento espetacu-lar da doença.Contudo, alguns outros resultados de VAGO nos parecem ain-da mais importantes, no sentido de que eles podem modificar total-mente nossa maneira de considerar o desencadeamento das doençasviróticas. Trata-se de provocar viroses sem haver infecções prévias.4. Obtenção de viroses, no bicho-da-seda, sem infestação préviaGraças a múltiplas precauções, VAGO conseguiu excluir todo oaporte externo de vírus. Os experimentos envolveram as repercussõesde uma determinada alimentação do bicho-da-seda com uma plan-ta não-habitual, Maclura aurantiaca. Em comparação com a alimen-tação “normal”, às expensas de Morus alba, registra-se:– um menor volume de ingestão de alimento;– uma mortalidade precoce;
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S169– o desencadeamento de uma virose: a partir da terceira idade*a poliedrose intensifica-se no lote “Maclura”. No curso da quarta equinta idades ela provoca na ninfose, a eliminação da quase totalidadedo lote. Nas testemunhas, a mortalidade é inferior a 20%.Talvez os experimentos com o fluoreto de sódio sejam os mais sig-nificativos. Para rastrear os efeitos “secundários” do veneno era indis-pensável obter uma ação subletal. Para isto, as folhas de amoreiraforam mergulhadas numa solução de NaF puro, a 0,01% Os resul-tados foram dos mais comprobatórios:– alimentação com folhas contaminadas: 85%de viroses;– alimentação com folhas sãs: 8% de viroses.A partir do décimo-terceiro dia a virose torna-se importante esubitamente os casos são mais numerosos: a curva da doença assina-la rapidamente a perda quase total do lote.Baseadas em suas experiências, cujo rigor é inatacável, as conclu-sões de VAGO nos parecem de tal importância que se torna indispen-sável transcrevê-las quase integralmente. Ele inicia afirmando: “Parecepossível desencadear uma virose aguda, não apenas sem infecção experi-mental prévia, mas igualmente na ausência controlada do aporte devírus”.VAGO acrescenta: “Os meios que permitem a obtenção deste efeitosão de natureza variada e os fatores responsáveis podem estar ligados àalimentação, às intoxicações por certas substâncias químicas, bem comoàs condições climaticas-fisiológicas”.Em contrapartida, os fatores de não-aparição de virose correspon-dem a um estado fisiológico ótimo, isento de qualquer distúrbio deordem patológica ou parapatológica. VAGO observa: “Estas duas con-siderações traduzem os fatores de desencadeamento de virose como sendoproblemas fisiológicos que, apesar da natureza variada dos efeitos externos,podem convergir para um mecanismo preciso na escala celular”.Para VAGO: “O desencadeamento das viroses por fatores não infec-ciosos nos aparece sob forma de um complexo, com uma parte primária,
  • 170F R A N C I S C H A B O U S S O Uenglobando processos patológicos diversos e, secundariamente, representadapela virose”.Ora, como não comparar o que ocorre nos insetos com o que sepassa nos vegetais onde, com freqüência, encontram-se associadasafecções fúngicas e doenças viróticas?Como, também, não ver confirmada nossa hipótese do desencadea-mento das doenças viróticas pelas repercussões dos agrotóxicos sobreo metabolismo celular? À luz dos resultados de VAGO, este processoparece cada vez mais provável. Aliás, o próprio VAGO não deixa defazer alusão aos ‘vírus em dormência” dos vegetais, designados maisfreqüentemente sob o termo de “vírus latentes”, dos quais fizemos referên-cia antes. É este fenômeno que nos propomos estudar imediatamente..C) Latência e desencadeamento das doenças nas plantas1. Latência dos fungos parasitas nas árvores frutíferasGROSCLAUDE (1966) observava que, devido à autoridade dasteorias pasteurianas relativas à assepsia dos seres vivos, temos aindadificuldades em admitir que um vegetal são possa, em seu estadonormal, abrigar impunemente fungos ou bactérias patógenas, man-tendo-se esses parasitas em “estado latente”. E, contudo, estes exem-plos são freqüentes.GROSCLAUDE (op. cit.) define uma “infecção latente” comouma infecção “que não produz temporariamente nenhum sintomavisível, mas. que é capaz de se exteriorizar em determinadas circuns-tâncias”.Todo o problema consiste em saber quais podem ser os fatoressuscetíveis de fazer mudar este estado. Os fitopatologistas ficam sem-pre embaraçados quando se trata de definir patogenia. Todavia, reco-nhecem que não existe limite bem nítido entre saprófitas e parasitas.Não vamos nos ater na distinção pouco sutil entre a “contaminaçãolatente” (geralmente na superfície do hospedeiro) e a “infecçãoquiescente” (exteriormente visível, mas que não evolui). O importan-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S171te, acreditamos, é saber se o agente patogênico tem ou não potenci-al para evoluir às expensas de seu hospedeiro.GROSCLAUDE (op. cit.) dá diversos exemplos de fungos para-sitas latentes”: Stereum purpureum, agente do “chumbo” e que, apósinoculação, pode aparecer com um ou dois anos de atraso; Cytosporadas arvores frutíferas que, para uns seriam saprófitas e, para outros,patogênicos; enfim, as podridões, “bons exemplos de doenças comperíodos de incubação longos e mal definidos”. Na cerejeira “Saint-Lucie”, GROSCLAUDE (op. cit.) pôde constatar, após inoculação,uma latência de dois anos em cinco arvores, enquanto as vinte e duasárvores restantes permaneciam aparentemente sãs, apesar da presençade Armilariella nas raízes.Entre os fungos “latentes”, GROSCLAUDE assinala que se podeincluir as “podridões de armazenagem”, como Sclerotinia fructicola,agente da moniliose na Austrália, e Gloesporium, Botrytis, Trichoseptoria,Cylindrocarpon, etc., todas doenças recrudescentes após o emprego denovos agrotóxicos sintéticos.*Em definitivo, podemos concluir com GROSCLAUDE, que “aassepsia numa árvore, se ela pode existir, é um estado totalmenteexcepcional, exceto, talvez, durante as primeiras semanas de sua vida”.Sua segunda conclusão é a seguinte: “O poder patogênico só podese manifestar se o agente encontra em seu hospedeiro condições conveni-entes de desenvolvimento”..Se podemos referendar semelhante formulação, divergimos, en-tretanto, no que diz respeito às únicas condições que limitariam estedesenvolvimento. GROSCLAUDE vê apenas duas:– o antagonismo entre os próprios microrganismos;– a reação do hospedeiro, traduzindo-se por barreiras físicas ouquímicas.*Aliás, segundo BONDOUX (1963), é no pomar e não no depósito de frutas que sedeve iniciar o controle das doenças de armazenagem dos frutos. Acrescentaremosque é o condicionamento adequado da árvore que deve preservá-la destes ataques.
  • 172F R A N C I S C H A B O U S S O UEm resumo, de acordo com as concepções clássicas, não haveriaimunidade ou resistência, se não por um antagonismo, seja por con-corrência ou por barreira física. Acreditamos ter demonstrado e tradu-zimos, em nossa teoria da trofobiose, que nas relações entre hospedeiroe parasita, antes de tudo, influem os fatores nutricionais suscetíveis desatisfazerem este último. Daí a importância do “condicionamento” daplanta pela natureza do solo e pela fertilização “corretiva” que se podefazer.Consideremos, por exemplo, o caso da “moléstia do chumbo” davideira. BRANAS (1974) assinala que é a carência em boro que pro-voca esta moléstia. A prova? Este definhamento se cura por transplante,ou seja, por uma alimentação em um outro solo e, também, peloaporte de boro na folhagem ou solo.Aliás, esta carência em boro foi identificada em Portugal, com amoléstia da “maromba” no vale do Douro. (Voltaremos, mais adiantea este importante fenômeno que reside na convergência entre carên-cias e doenças.)Outro exemplo é o de Armillariella mellea, agente de uma “podri-dão”. Os trabalhos de GARD mostraram, em ameixeiras na região deEnte, a imunidade a este fungo patógeno nos solos que tinham, pelomenos 30% de CaCO3. Segundo GUYOT (1931-1935), o mesmoocorre com nogueiras: Armillariella sp. não se desenvolve em solos quecontenham de 20 a 30% o de carbonato de cálcio. Através de cultu-ras em laboratório, GUYOT demonstrou a influência inibidora dos saisde cálcio e magnésio, assim como a ação estimuladora do potássio(carbonato, sulfato, nitrato) em relação a Armillariella sp.Mais adiante aprofundaremos a questão das relações entre ferti-lização e resistência da planta. Os resultados acima coincidem per-feitamente com o fato de que numerosas moléstias parecem ter pororigem uma carência do solo em cálcio, ou, mais exatamente, umarelação catiônica Ca/K + Mg muito baixa. Isto resultaria numa redu-ção da proteossíntese.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S173Por outro lado, os oligoelementos intervêm de maneira importante nafisiologia e, portanto, na resistência da planta. Assim, o iodo,pinceladonas raízes, mostrou-se um excelente remédio contra Armillariella sp.Ora, o iodo é um oligoelemento que parece essencial ao metabolismo – e,portanto, à saúde da planta. ROUBINE e ARTSICHOSKAIA (1960)observam que: “A nutrição mineral parece ser o fator decisivodeterminante da resistência que as plantas oferecem à infecção: o ex-cesso de nitrogênio a deprime, o potássio e o magnésio melhoram-na,os oligoelementos intervêm energicamente, especialmente zinco, lítio e iodo”.Da mesma forma, SHIGEYASU (1962), no decorrer de seus ex-perimentos de controle da helmintosporiose do arroz, por fertilizaçãocom oligoelementos, nota que: “A sensibilidade à helmintosporiose dimi-nui pela aplicação de iodo, zinco e magnésio. Ainda mais, esses tratamen-tos parecem favorecer o desenvolvimento vegetativo”.SHIGEYASU (op. cit.), continua, observando que “o efeito favo-rável dos tratamentos com oligoelementos sobre o desenvolvimentovegetativo do arroz não é acrescentado a seus efeitos positivos sobre a re-sistência à moléstia: ele é, na realidade, a origem”.Interpretamos isto da seguinte maneira: a ação positiva dosoligoelementos sobre o desenvolvimento vegetativo, isto é, sobre aproteossíntese, acarreta a resistência da planta à doença. Isto ocorre pelaregressão concomitante das substâncias solúveis necessárias ao desen-volvimento dos parasitas.Definitivamente, confirma-se que a “latência” deste ou daquelepatógeno resulta de uma insuficiência nos elementos nutritivos que lhessão oferecidos. Inversamente, a interrupção da “latência” poderá provirde uma má nutrição do vegetal, seja devido a uma carência (tanto demacro como de oligoelementos), ou a uma inibição da proteossíntese,por um agrotóxico qualquer.Todavia, outros fatores podem agir sobre a fisiologia da planta e,portanto, sobre sua resistência. Trata-se da influência do porta-enxer-to sobre a fisiologia do enxerto e vice-versa.
  • 174F R A N C I S C H A B O U S S O U2. Latência das doenças viróticas: influência do porta-enxertoSegundo VAGO: “A análise do complexo – problemas meta-bólicos com aparição tardia de viroses agudas – trouxe elementosparticularmente bem assimilados em patologia comparada. Comefeito, ela simboliza, neste momento, junto com a lisogenia dasbactérias, os ‘vírus em dormência’ dos vegetais e o vírus dadrosófila, a questão do problema da infecção dos vírus sem infec-ção prévia”.Não se poderia negar que os resultados de VAGO, analisadosanteriormente, são extremamente inquietantes em relação às questõesque envolvem as repercussões dos diversos agrotóxicos sobre asuscetibilidade das plantas às doenças viróticas e bacterianas.Se o desencadeamento de uma doença virótica pode ser resultantede má nutrição ou ingestão de um veneno, como o fluoreto de sódio,por que não poderia ocorrer o mesmo nas plantas, onde os tratamen-tos com agrotóxicos perturbam o metabolismo? Estes, principalmen-te em intervenções repetidas, inibem o processo da proteossíntese,estabelecendo, conseqüentemente, um estado eminentemente favo-rável ao desencadeamento das diversas doenças.Assim, poder-se-ia explicar como se originou esta concepção, jámencionada antes, do “vazio da noção de mudas sem vírus” nas árvo-res frutíferas. MORVAN (1970) escreve: “Os vírus latentes propri-amente ditos correspondem a uma concepção diferente. No caso damacieira, por exemplo, são os vírus que não provocam nenhum sin-toma sobre o conjunto das variedades comestíveis. Tal evidência foi,no início, fruto do acaso. Espécies, como as macieiras ornamentais,com frutos pequenos, manifestaram anomalias inesperadas quandose colocou, sobre elas, enxertos de árvores normais”.Esta observação mostra toda a importância do estado fisiológico dasárvores, pelo menos sobre as manifestações dos sintomas das doençasviróticas e, até, sobre a própria causa do seu desencadeamento. Estasinterferências recíprocas entre porta-enxerto e enxerto repercutem sobre
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S175a nutrição deste último e, portanto, sobre sua suscetibilidade em re-lação às diversas doenças, inclusive as viróticas.Assim, não é por acaso que a doença “Sharka” manifesta-se, par-ticularmente, nos damasqueiros enxertados sobre um determinadoporta-enxerto, o Brompton. E que, inversamente, SUTIC (1975),obtém resistência em relação à mesma doença, por enxertia das plan-tas sobre porta-enxertos especiais. Realmente a resistência das árvo-res assim enxertadas parece estar ligada a um nível elevado deproteossíntese provocado pela natureza da nutrição.Em relação à suscetibilidade a “Sharka”, seria do maior interessecomparar o estado bioquímico dos enxertos suscetíveis sobreBrompton ao dos enxertos resistentes obtidos por SUTIC. Formula-mos a hipótese de que, nestes últimos, a proteossíntese mostra-se maisintensa, o que deveria se traduzir por um nível mais baixo das subs-tâncias solúveis como aminoácidos e glicídios redutores.Pesquisas análogas também deveriam ser empreendidas paraexplicar a razão da resistência da ameixeira a “Sharka”, quando enxer-tada sobre Saint-Julien. DO VALE (1972) mostrou, em relação aosporta-enxertos dos limoeiros, que as combinações que davam osmelhores resultados apresentavam baixas quantidades de açúcaressolúveis nas folhas colhidas na primavera. Ocorre o inverso com osporta-enxertos que dão resultados medíocres. Fenômenos análogosforam registrados na videira: o porta-enxerto Riparia X Rupestris 3309provoca, nas folhas das cepas européias enxertadas, um acúmulo deaminoácidos, seguido da redução de sua transformação em proteínas.Ou seja, um fenômeno que, segundo nossa teoria da trofobiose, sen-sibiliza o enxerto às diversas doenças.Voltaremos a estudar a importância da enxertia em relação àresistência da videira às doenças e pragas. A natureza fisiológica doporta-enxerto não explica tudo o que se refere ao desenvolvimentoatual das doenças viróticas: neste caso, ainda, parece que osagrotóxicos carregam uma pesada responsabilidade.
  • 176F R A N C I S C H A B O U S S O U3. Agrotóxicos e doenças viróticasA análise da proposição de MARROU, referente ao desenvolvimen-to das doenças viróticas nas hortaliças, nos levou a suspeitar dos novosfungicidas sintéticos como causa deste fenômeno, da mesma formacomo foram responsabilizados pela sensibilização de diversas plantasem relação a Oidium e Botrytis. Contudo, paradoxalmente, se procuroucontrolar as doenças viróticas com agrotóxicos. Mas isto com diversascausas, Os resultados obtidos foram os mais diversos, em sua maioriadecepcionantes, por razões agora mais fáceis de serem compreendidas.A partir de determinados resultados sobre fumo, com o 2-4 D emrelação aos vírus X e Y, LIMASSET et alii. (1948), conduziram ex-perimentos sistemáticos com este mesmo fitormônio sintético. Osresultados mostram que o hormônio absolutamente não impediu acontaminação nem destruiu o vírus, mas “simplesmente” manifestouuma ação inibidora muito forte em relação à sua multiplicação.Os experimentos in vítro mostraram que o 2-4 D era desprovidode qualquer ação própria inativante. Sobre a planta, esta ação eraapenas temporária, e, com as doses utilizadas, o fumo sofria deforma-ções características.Em resumo, tratava-se de repercussões indiretas, induzidas pelo2-4 D sobre a fisiologia do fumo. Estas eram perfeitamente capazesde modificar a resistência à doença virótica e aos fungos parasitas.Assim, foi na redução de glicídios nos tecidos que MOSTAFA eGAYED (1956) viram a razão da eficácia do 2-4 D em relação aBotrytis, na fava.Por outro lado, CORS et alii. (1966), apoiando-se em que oaumento da utilização dos fungicidas sistêmicos levantava a questãode sua interferência sobre a multiplicação dos vírus, realizaram diver-sos experimentos, principalmente em tratamento de sementes. Tra-tava-se do vírus do mosaico da cevada, BMV. Os produtos Plantvaxe Benomyl favorecem o aumento da concentração de vírus nas folhas, namaioria das condições.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S177Todavia, praticamente não resultam destes experimentos conclu-sões bem definidas envolvendo as relações entre crescimento da plan-ta, concentração de vírus nas folhas e aspecto das plantas artificialmenteinfectadas por BMV. Exceto, talvez, pela existência de uma certa inter-ferência entre a ação dos fungicidas e a infecção pelo vírus.A mesma ausência de conclusão geral resulta da revisão bibliográ-fica de SMITH (1973) no que diz respeito às repercussões das subs-tâncias de crescimento em relação à resistência das plantas às pragasou doenças.Todavia, as concepções de VAN EMDEN (1964) trazem algumaluz sobre estes fenômenos, confirmando plenamente nossa posição.Experimentando Chlormequat contra pulgão da couve, Brevicorynebrassicae, VAN EMDEN sugere que a aplicação deste produto acarre-tou reduções na reprodução dos afídeos, pela regressão do nível deaminoácidos e nitrogênio total nos tecidos, em seguida da aplicação deChlormequat.Com este produto, e dentro das condições em que foi utilizado, VANEMDEN obteve resultados inversos aos de MICHEL (op. cit.) comMevinphos sobre Myzus persicae, e aos de MAXWELL e HARWOOD(op. cit.) com 2-4 D, que, ao contrário, aumentaram a reprodução deMacrosiphum pisum, em fava.Pode-se mencionar, entretanto, que estes diferentes resultadosintegram-se perfeitamente em nossa concepção da trofobiose, segun-do a qual, não temos pena em repetir:• a sensibilização da planta a seus diferentes parasitas estácorrelacionada com uma inibição da proteossíntese, ou seja,do que se poderia chamar mais comumente, mas com exati-dão, de um certo envenenamento da planta;• quanto ao estímulo da resistência, ao contrário, ela vai demãos dadas com a da proteossíntese e com a reduçãoconcomitante do nível das substâncias solúveis.Os herbicidas utilizados em cereais, cuja seletividade os técnicos
  • 178F R A N C I S C H A B O U S S O Uobservam jamais ser total – também inibem a proteossíntese nestasplantas. Por suas incidências, simultaneamente diretas sobre a plan-ta e indiretas sobre a vida do solo, favorecem o desenvolvimento dasdoenças viróticas, como suspeitam, agora, observadores cada vez maisnumerosos.As árvores frutíferas sofrem repercussões “acumuladas” defungicidas, inseticidas, acaricidas e, agora, de herbicidas. Não seria desurpreender que posteriormente sofressem uma desregulagem celular,caracterizada por um estado predominante de proteólise, resultando,finalmente, numa infecção por esta ou aquela doença virótica.A batata é cultivada através de segmentos de tubérculos. Esteprocedimento repete as eventuais desordens fisiológicas de uma ge-ração à outra. Não é por acaso que POLJAKOV (1966) constata odesenvolvimento de diversas doenças e, especialmente, viroses embatata, após tratamentos com ditiocarbamatos.Estes efeitos nefastos dos herbicidas e outros agrotóxicos podemser exacerbados quando os cereais estiverem em mau estado, vegetativono início do ciclo, seja devido a uma queda de temperatura ou a umdesequilíbrio da fertilização.Resta estudar em que medida se pode explicar a multiplicação oumesmo a infecção de origem eventualmente endógena dos vírus, soba influência de diversos fatores.4. As causas do desencadeamento e da multiplicação de vírus pelosagrotóxicosEm patologia animal ou humana, MONTAGNIER (1973)observa, a propósito dos vírus cancerígenos, que existem argumentosem favor da presença de um sistema “de vigilância” nas células dife-renciadas, que controla seu estado de diferenciação, graças a umaproteína especial.MONTAGNIER (op. cit.) observa que: “À exclusão dos outrosprogramas, a manutenção do programa de diferenciação, ao nível pós-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S179transcricional, dependeria da síntese desta proteína e de seu estadofuncional. Como as outras células do mesmo tecido diferenciadoproduzem a mesma proteína, é possível que a manutenção do esta-do de diferenciação de cada célula dependa do teor global destaproteína, graças a um intermediário do tipo hormonal”.O mesmo autor acrescenta: “O importante é que toda a altera-ção na atividade desta proteína acarretaria, seja qual fosse a causa, umrelaxamento do controle e também o alargamento da ‘abertura’ dediferenciação. Novos programas apareceriam, novas mensagens po-deriam ser lidas e, por meio delas, talvez, programas mitogenéticos”.MONTAGNIER (op. cit.) observa que nos camundongos estacapacidade de produzir interferon:– diminui com a idade;– é sensível às radiações;– baixa nas células tratadas pelos hidrocarbonetos cancerígenos.Assim, com MONTAGNIER, pode-se imaginar que os hidrocar-bonetos diminuem as sínteses protéicas de uma célula ou de um grupo decélulas. MONTAGNIER prossegue: “Esta ação, reversível, não temconseqüências duráveis para a maioria das sínteses, mas ela tem porefeito, diminuir, durante um certo tempo, a produção de proteínas devigilância (como o interferon) e, também, enfraquecer o controle de“abertura de diferenciação das células”.Conseqüentemente, pode resultar a saída de novos programas e,entre eles, programas mitogenéticos, sejam embrionários ou prove-nientes de pró-vírus integrados mitogenéticos.Pela freqüência dos casos vistos neste trabalho, nos perguntamos: seos agrotóxicos exercem uma ação inibidora na proteossíntese – estimulandoa sensibilidade da planta às doenças fúngicas e provavelmente, bacterianas– não poderiam, igualmente, por um mecanismo análogo, encorajar aelaboração e a multiplicação dos vírus nas plantas assim tratadas?Em apoio a esta hipótese, MONIER (1977) precisa que a expres-são das informações necessárias à multiplicação dos vírus, normalmen-
  • 180F R A N C I S C H A B O U S S O Ute reprimida, “pode ser desbloqueada sob a influência de diversosfatores, por exemplo: radiações ionizantes, luz ultravioleta, substân-cias químicas cancerígenas ou mutagênicas, vírus cancerígenos paraDNA, hormônios”.Da mesma forma, os resultados de VAGO levam a pensar que osagrotóxicos poderiam acarretar a multiplicação dos vírus nas plantas,por um mecanismo análogo.Esta concepção une-se à de Maurice ROSE e Jore d’ARCES(1957), segundo a qual: “Sob a influência de condições particulares,desviando o metabolismo habitual,seja em seu equilíbrio, seja nas velo-cidades de suas diversas reações, certos ácidos nucléicos normais poderiamtornar-se, mais ou menos patogênicos, para o organismo que os contém”.Finalmente, “a célula poderia, assim, fabricar seus próprios vírus e, umnúmero cada vez maior de biologistas, inclina-se a pensar dessamaneira”.Vimos com os trabalhos de VAGO que entre estas condiçõesparticulares às quais fazem alusão os autores, figura a alimentação. Noque diz respeito à planta, são o solo e sobretudo a fertilização que estãoem questão. É ela que estudaremos no próximo capítulo.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S181Fig 17. Repercussões do Carbaryl em duas doses, em relação àfecundidade de Panonychus sobre videira (cepa Muscadelles), vintedias após o tratamento (CHABOUSSOU, 1969.)
  • 182F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 18. Fecundidade global de Tetranychus urticae criado sobrefeijão tratado com Parathion, em comparação com a fecundidade nofeijão testemunha (CHABOUSSOU, 1969.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S183Fig. 19. Relação entre fecundidade e longevidade de 18 fêmeasde T. urticae alimentadas sobre folhagem testemunha e sobre folhagemtratada com Parathion, a 5 g/hl. (CHABOUSSOU, 1969.) 141.
  • 184F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 20. Fecundidade e sucessão das gerações de Myzus persicaecriado sobre fumo tratado com Mevinphos ou Phosdrin em duas do-ses e na testemunha (5 tratamentos: 5 e 24 de junho, 8 e 20 de julhoe 2 de agosto). (MICHEL, 1964.) 142
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S185BIBLIOGRAFIAADAMS J.B. et DREW M.E. 1969. Grain aphids in New Brunswick. IV. Effectsof malathion and 2-4 D amine on aphid populations and on yelds of oats andbarley. “Canad. K. Zool.”, 47, p. 3.D’AGUILARJ.,RITTERM. etMERCIERS.1977.Lesdéterminationsd’insectes,de nématodes et de maladies. “Phytoma”, avril 1977, pp. 19-27.BONDOUX P. 1963. Les principales maladies des poires et des pommes enconservation. “B.T.I.”, 179, pp. 235- 249.BRANASJ.etBERNONG.1954.LeplombdelaVigne,manifestationdelacarenceen bore. “C.R. Acad. Agric.”, pp. 593-596.CHABOUSSOUF.1966. Nouveauxaspectsdelaphytiatrieetdelaphytopharmacie:le phénomène de la trophobiose. “Prod: F.A.O. Symposium of integratedControl”, 1, pp. 36-62.CHABOUSSOU F. 1968. Sur le déterminisme de la résistance des Insectes et desAcariens aux pesticides. Influence des produits par contact àdes doses subléthales etpareffettrophiqueàlasuítedesrépercussionsbiochimiquessurlaPlante.“Rev.Zool.Agric. Appl.”, nº 10-12, pp. 105-138.CHABOUSSOU.1967.Etudedesrépercussionsdediversordresentraînéesparcertainsfongicides utilisés en traitement de laVigne contre le mildiou. “Vignes et Vins”,nº 160 et 164, 22 p.CHABOUSSOU F. 1969. Recherches sur les facteurs de pullulation des AcariensphytophagesdelaVigneàlasuítedestraitementspesticidesdufeuillage.“ThèseFac.Sciences”, Paris, 238 p.CHABOUSSOU F. 1970. Sur le processus de multiplication des Acariens par lesacaricides phosphorés. Re. Zool. Afric. Path. veg.”, pp. 33-44.COOKEA.R.1955. EffectofC.M.Uonbiochemicalcompositionofseverallegumes.“Res. Report N.C.W.C.C.”, 12, pp. 181-182.CORSF.,KAMMERTJ.etSEMALJ.1971.Someeffectsofsystemicfongicidesonvirusmultiplication in plants. “Med. Fac. Land Rijk.”, Gent., t. 36, pp. 1066-1070.COX R.S. et HAYSLIP N.C. 1958. Progress in the control of grey mould ofTomatoin southern Florida. “Plant disease reporter”, 40, p. 718.COX R.S. et WINFREE J.F. 1957. Observations on the effect of fungicides on greymould and leaf spot and on chemical composition of strawberry tissues. “Plantdisease reporter”, 41, pp. 755-759.
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  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S187l’aided’insecticidesorgano-chlorés. “Comm.Acad.SciencesdeGéorgie”,XVIII,nº 8 (traduzido do georgiano).MARROU J. 1970. Les maladies à vírus des plantes maraîchères. In “Les maladiesdesplantes”, Acta, Paris, 1970, pp. 489-518.MAXWELLR.C. et HARWOODR.P.1960.Increasereproductionofpeaaphidinbroadbeanstreatedwith2-4D. “Ann.Ent.Soc.Amer.”,53,nº2,pp.199-205.MICHEL E. 1966. Prolifération anormale du Puceron Myzus persicae élevé surTabac traité à la phosdrine. “Rev. Zool. Agric.”, 14, 6, pp. 53-62.MONIERR.1977.Virusetcancer.“Rev.Palaisdeladécouverte”,vol.5, nº49,juin1977, pp. 14-37.MONTAGNIERL.1973. Vírus oncogênes et conceps de la biologie moderne. “Bull.Inst. Pasteur”, 71, pp. 281-298.MORVAN G. 1970. Les maladies à virus des arbres fruitiers. In: “Les maladies desplantes”, Acta, Paris, 1970, pp. 579-607.MOSTAPHA M.A. et GAYED S.K. 1956. Effect of herbicide 2-4D on bean cho-colate disease. “Nature”., 178, p. 502.MOUSSIONG.1979. LePhylloxeraduPoirier.Facteursfavorablesetpossibilitésdelutte. “Phytoma”, décembre 1979, pp. 19-21.NOURRISSEAU J.G. 1970. Quelques mesures pratiques de lutte contre lePhytophthora cactorum (L. et C. Schroet) du Fraisier. “Rev.Zool.Agric.Path.Veg.” pp. 12-17.PARMENTIER G. 1979. Príncipes de lutte intégrée contre les maladies des céréales.“Revue de “Agriculture”, Bruxelles, nº 2, vol 32, pp. 419-421.PINONV.1977. Observàtions des effets secondaires des fongicides antimildiou sur laVigne pineau de la Loire. Problème de méthodologie. “Mémoire fin d’étudesE.N.I.T.A. de Bordeaux”, 153 p.POLJAKOVI.M.1966. Effetsdefongicidesorganiquesnouveauxsurlesplantesetleschampignons pathogènes. “Rev.Zool.Agric.Path.Veg.”,4etrimestre1966,pp.152-160 (traduzido do russo).RIES S.K., LARSON R.P. et KENWORTHY A.L. 1963.The apparent influenceof simazine on nitrogen nutrition on peach and apple trees. “Weeds”, II, pp.270-273.ROSE M. et Jore d’ARCES. 1957. Evolution et nutrition. Paris, Vigot frères,155 p.
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  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S189SEGUNDA PARTEPROTEÇÃO DA PLANTA POR ESTÍMULO DAPROTEOSSÍNTESE
  • CAPÍTULO VIFERTILIZAÇÃO E RESISTÊNCIA DA PLANTAEntretanto,“o biologista não poderá se satisfazer, a longo prazo, com uma solução que se detenhano mal e não em suas causas. Portanto, ele deve preparar as bases de um sistemaque o conduza; a não mais considerar somente a ilusória erradicação de uma sóespécie através da química, mas ao conjunto de uma agrobiocenose, como reco-menda a própria FAO. Nesse conjunto, como integrar-se-ão, harmoniosamente,tanto os aspectos da ‘trofobiose’, no sentido de CHABOUSSOU (1961), comoa evolução dos organismos auxiliares (onipresentes mas pouco visíveis) e, ainda,a competição interespecífica no próprio meio, ele mesmo em constante transfor-mação, apesar ou devido à sua domesticação pelo homem”.Pierre GRISON, Princípios e métodos de luta integrada, (Accademia Nazionale deiLincei. Quaderno no128), Roma, 1968.“Uma nutrição normal aumenta a resistência da planta”.Albert DEMOLON“Qualquer adubação que deixe a planta em sua condição fisiológica ótima con-fere-lhe o máximo de resistência. Conseqüentemente, trata-se de fornecer à plan-ta a adubação adequada, que lhe aporte os diversos elementos que ela exige, nasproporções relativas a suas necessidades efetivas. Portanto, tanto o excesso comoa carência de um ou diversos elementos, que rompem o equilíbrio fisiológico nor-mal da planta, são capazes de diminuir sua resistência natura”.F. LABROUSSE, (Annales Agronomiques, 1932)“Insetos e fungos não são a verdadeira causa da doença das plantas. Eles só ata-cam plantas ruins ou plantas cultivadas incorretamente”.Albert HOWARD (Testament Agricole)
  • 192F R A N C I S C H A B O U S S O U1. AS CONDIÇÕES DA PROTEOSSÍNTESECOIC resume, assim, o que se sabe, atualmente, sobre a síntesedas proteínas: “Imaginemos uma fábrica onde máquinas de fabrica-ção de ferramentas fabricariam peças individuais, e também aquelasque constituem essas máquinas ferramentas, elas próprias; e ondeoutras máquinas montadoras realizariam a montagem dessas peças,tanto para construir as máquinas de fabricação de ferramentas, comopara as máquinas montadoras”.“Transpondo isto para a célula viva (não considerando, aqui, ofato de que a célula ainda se divide em duas células semelhantes asi mesma), temos uma imagem grosseira de seu funcionamento quí-mico”.“A máquina montadora nº 1 (ácido desoxiribonucléico ou DNA)pode autocopiar-se com a ajuda de certas peças individuais(nucleotídeos de desoxiribose); ela realiza, assim, a montagem damáquina montadora nº 2 (ácido ribonucléico ou RNA), com a aju-da de peças individuais análogas (nucleotídeos de ribose).Esta máquina no2 (RNA) procede, por sua vez, à fabricação demáquinas ou materiais extremamente diversos (proteínas), entre osquais figuram as máquinas ferramenta (enzimas), que servem à fabri-cação de peças individuais variadas, especialmente nucleotídeos eaminoácidos”.As ligações peptídicas que necessitam de energia ocorrem empresença de ATP (trifosfato de adenosina) e com a intervenção dacoenzima A. O esquema da fig.21 destaca a intervenção das substân-cias, isto é, dos diversos elementos que entram em jogo nesta síntesedas cadeias protéicas, a partir da alimentação da planta e dafotossíntese (antigamente chamada assimilação clorofiliana).A respeito dessas substâncias que constituem a matéria vegetal,recordaremos que:– 95%da matéria seca das plantas é composta de quatro elemen-tos: carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio;
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S193– 4% pelos seguintes oito elementos : potássio, fósforo, cálcio,magnésio, silício, enxofre, cloro e sódio;– 1% (ou menos) do peso seco restante é constituído pelosmicroelementos, também chamados oligoelementos, que podem ounão ser indispensáveis.É a partir destes treze elementos, ditos “macro”, e dos oligoele-mentos (Cu, Fe, Zn, Mo, Mn, Li, B etc...), que se faz a síntese dasproteínas, cujo ótimo, segundo nossa teoria, está ligado a um máximode resistência da planta. É, pois, evidente que a adubação, pela quan-tidade e natureza dos elementos nutricionais que fornece à planta,constitui um dos fatores fundamentais da proteossíntese. Vamosestudá-la sob a ótica de suas repercussões no metabolismo da planta e,conseqüentemente, sobre o que se pode chamar de sua saúde.2. OBJETIVO DA ADUBAÇÃOAntes de abordar o estudo das repercussões sobre o metabolismoe a resistência da planta, elemento por elemento, é útil recordar ra-pidamente o objetivo da adubação.A curto prazo, ela tem o papel de fornecer à planta todos os ele-mentos de que necessita para se desenvolver e dar uma colheita “ren-tável”. É o ponto de vista geralmente adotado pela agriculturaclássica, e que ninguém sonha contestar.*A longo prazo, é oportuno prever a manutenção da fertilidade dosolo, além de não se provocar eventuais descontroles através deagrotóxicos, introduzidos intencionalmente ou não no solo.Em segundo lugar, é necessário evitar qualquer desequilíbrio ali-mentar da planta, seja este resultante de desequilíbrios de ordemquantitativa dos elementos colocados no solo ou da própria natureza*Atualmente, essa posição é contestada pela própria trofobiose em conjunto como ciclo etileno no solo, pela transmutação dos elementos com baixa energia,sintetizada na “lei da fertilidade crescente”. (N. do R.)
  • 194F R A N C I S C H A B O U S S O Udestes elementos. Não é indiferente que estes elementos tenham origemsintética ou biológica. Referimo-nos, especificamente, ao problema dasrepercussões dos adubos nitrogenados.Deixando de lado a questão do teor de resíduos tóxicos na pro-dução, provenientes de agrotóxicos, nitratos ou nitritos, é necessáriopreocupar-se com o valor nutricional das colheitas, em função da fer-tilização. Apesar da relativa escassez de documentos disponíveis so-bre este tema, trata-se de uma questão fundamental, pois toca demuito perto a saúde dos animais domésticos e do próprio homem.Estudaremos, portanto, as repercussões da fertilização mineral eorgânica, sob o ângulo de suas incidências na proteossíntese. Paracomodidade de análise, abordaremos uma a uma as incidências dediversos elementos minerais sobre o metabolismo, observando asrepercussões de seu equilíbrio.Da mesma forma, este estudo nos levará à questão das repercus-sões dos oligoelementos e de sua utilização terapêutica.3. PAPEL DOS ADUBOS NITROGENADOSRepetidamente os fertilizantes nitrogenados, especialmente osamoniacais, têm sido citados como causadores de efeitos nefastos.Efeitos que se referem à sensibilização da planta em relação a doen-ças e insetos. Enumeraremos rapidamente alguns exemplos.Segundo VAN EMDEN (1966), a reprodução de pulgões(Brevicoryne brassicae e Myzus percicae) cresce com a elevação do teorde nitrogênio solúvel no floema, conseqüente do uso de adubosnitrogenados.BREUKEL e POST (1959) registram um importante crescimen-to das populações de Panonychus ulmi em macieira após a adubaçãodo pomar com sulfato de amônia.METCALF (1970) constata que a fecundidade de Saccharosydnesaccharivora – a cigarrinha da cana-de-açúcar – e o teor de nitrogê-nio nas folhas aumentam após aplicação de sulfato de amônia.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S195ADKRISSON (1958) registra que, em algodoeiro, a aplicação denitrato de amônia provoca um nítido aumento das populações deHeliothis zea. (Similarmente aos agrotóxicos, constata-se que, as pro-liferações devido aos adubos nitrogenados não envolvem somente osinsetos picadores ou os ácaros que se nutrem de seiva ou de sucocelular, mas que elas também envolvem os lepidópteros.).De maneira geral, os adubos nitrogenados provocam o desenvol-vimento de numerosas doenças, como ferrugens, Oidium no trigo,Uromyces na beterraba, Cladosporium no tomate, Sclerotinia na cenou-ra e requeima da batata (HERLIHY, 1970).Igualmente, quando em grande abundância, o nitrogênio favo-rece a ferrugem da ameixeira, sarna da macieira, o míldio da videira(VILLEDIEU, 1932), o Botrytis da videira (SCHELLENBERG,1935, in GROSCLAUDE, 1961).STETTER (1971) demonstrou, experimentalmente, que umasuplementaçãoo de nitrogênio, na ordem de 124kg/ha, fornecidopelo nitrato de cálcio, aumenta a sensibilidade do trigo de invernoem relação à podridão-das-raízes (Ophiobolus graminis), bem como àcercosporiose-das-raízes (Cercosporella herpotrichoides).PARMENTIER (1973) realizou trabalhos muito interessantescom cereais. Após ter recordado que, no caso de Eresiphe graminis, aadubação nitrogenada tem um papel determinante na invasão para-sitária demonstrou, experimentalmente, a influência das práticasculturais precedentes e o fato de que a infecção por Oidium, aumen-ta com a quantidade de nitrogênio incorporado.PARMENTIER (op. cit.) observa que existe um “limite desensibilização ao nitrogênio, expresso em unidades de nitrogênioaplicado, a partir do qual o trigo apresenta uma elevação brutal dainvasão parasitária. Este teto é variável, segundo as práticas culturaisprecedentes”.Num segundo experimento, o mesmo autor evidenciou que apercentagem de colmos sem Oidium é mais elevada nos colmos de
  • 196F R A N C I S C H A B O U S S O Uespiga longa. No curso de dois anos consecutivos, o número médiode pústulas por colmo mostrou-se tanto mais elevado quanto mais leveou menos desenvolvido fosse o colmo.Em outras palavras: esses resultados confirmam inteiramentenossa concepção, já que, definitivamente, a sensibilização do trigo aooídio está na razão inversa do crescimento, isto é, do nível da proteossíntese.Aliás, PARMENTIER evoca, “de acordo com o conceito da trofobiose”,a influência de certas práticas culturais e, especialmente, a “dos adu-bos nitrogenados, segundo sua dose e sua época de aplicação”.Um outro fator importante reside na natureza sob a qual se apre-senta o adubo nitrogenado em sua repercussão sobre a resistência daplanta. Assim, SOL (1967) mostrou que a fava cultivada em soluçãonutritiva apresentava uma sensibilidade diferente quando o nitrogê-nio era amoniacal ou nítrico. O primeiro tipo de adubo sensibilizamuito mais a fava em relação a Botrytis. Isto porque as folhas dessasplantas apresentam, em seus tecidos e exsudatos, teores mais eleva-dos em aminoácidos (3 a 4 vezes mais) e em açúcares, comparando-se às plantas cultivadas em solução com nitrogênio nítrico.Em outras palavras: o nitrogênio sob forma amoniacal acarretaum nível mais baixo de proteossíntese do que sob a forma nítrica.Segundo VAN EMDEN (1966), é um fenômeno análogo queexplica por que o sulfato de amônia, correntemente usado pelos agri-cultores, mostra-se particularmente “eficaz” para aumentar o conteú-do de aminoácidos nas folhas e, portanto, sensibilizar as plantas emrelação às doenças, se comparado às repercussões menos nefastas dosadubos nítricos. A “murcha de STEWART”, no milho, é agravadapela fertilização com nitrato de amônia, mas não o é pela forma redu-zida do nitrogênio.Assinalamos, enfim, que uma fertilização rica em nitrogênio, geral-mente, também favorece o desenvolvimento das doenças bacterianas dasfolhas. Isto ocorre com a chamada “queima bacteriana” do fumo.Contudo, se pode limitar e até suprimir os estragos, graças a um
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S197aporte conveniente de potássio. Como nos casos dos ácaros e dospulgões, as plantas com carência de potássio mostram-se, especial-mente, mais sensibilizadas à infecção.Referente às “relações entre a nutrição das plantas e doenças do ar-roz”, TROLLENIER e ZEHLER (1977) observam que “um grandenúmero de organismos patogênicos dependem de constituintes solúveisdas células, como açúcares e aminoácidos. Estes compostos acham-se emconcentrações elevadas nas plantas abundantemente providas com nitro-gênio, assim como nas plantas carentes em potássio”.Os mesmos autores acrescentam: “A carência em potássio restrin-ge a fosforilação, de forma que, se acumulam os carboidratos comreduzido peso molecular e os compostos nitrogenados solúveis. Al-guns estudos indicam que há quantidades mais elevadas de compos-tos com baixo peso molecular nas variedades suscetíveis, que nasvariedades resistentes”.Estas constatações nos levam a considerar o equilíbrio N/K naresistência da planta e a estudar o papel do potássio no metabolismo.4. PAPEL DO POTÁSSIO E DOS ADUBOS POTÁSSICOSNO METABOLISMO E NA RESISTÊNCIA DA PLANTAA) Papel do potássio no metabolismo da plantaO potássio é um elemento essencial no metabolismo. Muitomóvel, ele se encontra particularmente localizado nos tecidosmeristemáticos, onde se opera a fotossíntese. Ora, a proteossíntese étributária da glicogênese e, mais precisamente, da decomposição dosglicídios, que fornecem suas cadeias carbonadas aos protídeos. Assimse explicaria o papel do potássio na proteossíntese, sua carência seacompanha de um problema geral da condensação em proteínas.A carência de potássio provoca um aumento das enzimas de decom-posição. ROUTCHENKO e LUBET (1966) mostraram, no milho,que o fornecimento excessivo de N (NH4) e P, em relação às disponibi-
  • 198F R A N C I S C H A B O U S S O Ulidades de K, parece ser o principal responsável pelo acúmulo de NH4na planta e, portanto, pela intoxicação amoniacal resultante.Isto parece ser um fenômeno de ordem geral. MITCHELL et alii(1976), nesse sentido, mostraram que a carência de K afeta a composi-ção da farinha de gergelim. No caso de carência de K constata-se acúmulode todos os aminoácidos livres, exceto a cistina. Os autores resumem assimseus resultados: “Os acúmulos e reduções observadas nos teores de pro-teínas das plantas carentes em K apóiam a hipótese segundo a qual umaporte adequado de K é necessário para que os aminoácidos sejam uti-lizados de forma apropriada na síntese de proteínas”.Esses resultados se explicam pelo fato de que numerosas enzimassão ativadas de forma seletiva pelo K que, por este motivo, tem par-ticipação em diversos processos biossintéticos, como a fosforilação ea síntese do ATP (trifosfato de adenosina). Daí a importância doequilíbrio N/K, já que o potássio influi na síntese das proteínas e,portanto, como veremos adiante, na resistência da planta a seus di-versos agressores.Contudo, antes de abordar este assunto, devemos fazer umaobservação de ordem geral, porque ela é, pensamos, válida para osdiversos elementos. Uma coisa é reconhecer a importância do potás-sio; outra, é a maneira de colocá-lo à disposição da planta. É aí quea natureza da alimentação do vegetal, ou seja, a natureza dos adubos,nas condições normais de cultivo, influi na resistência da planta e noseu valor nutricional.Com efeito, como vermos adiante, os aportes de adubos potássicosgeralmente, mas nem sempre, são benéficos. KOCH e MENGEL(1972) nesse sentido mostraram que as leguminosas reagem aosadubos potássicos de uma forma completamente diferente das outrasfamílias de plantas. Como vimos antes, as plantas não leguminosasmostram, com o aporte de adubos potássicos, um decréscimo dosteores em aminoácidos solúveis, em correlação com seu efeito posi-tivo sobre a proteossíntese: é o inverso do que esses autores consta-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S199taram com uma leguminosa como o trevo vermelho. Os autoresconcluem que: “A nutrição potássica das leguminosas afeta a fixação donitrogênio pelo Rhizobium leguminosarum”.Esta conclusão é de uma importância fundamental para a práti-ca da adubação. Sabe-se, também, que os adubos nitrogenados solúveisprovocam o desaparecimento das leguminosas. Assim, podemos pergun-tar se, devido a sua toxicidade em relação aos microrganismos do solo –Como dissemos antes, compartilhada com a de diversos agrotóxicos – nãoteríamos a explicação dos efeitos nefastos provocados pelos adubos solúveis,correntemente denunciados pelos agrobiologistas.B) Repercussões do potássio sobre a resistência da plantaUma primeira observação em relação ao potássio: trata-se de umelemento necessário em grandes quantidades, já que deve estar presen-te nos locais onde as sínteses são muito ativas, especialmente nosmeristemas. Ele constitui um caso bastante particular, no sentido deque só existe sob forma de íons K, contrariamente ao N, P, Ca, Mg,que entram nas combinações orgânicas permanentes. Presente na seivae no protoplasma, o potássio está estreitamente ligado à migração dosaminoácidos: do lugar onde são formados, para os locais onde sãoutilizados.De fato, os casos em que o excesso de potássio foi assinalado comonocivo são extremamente raros. Bem ao contrário, ao inverso dosadubos nitrogenados, a maior parte dos autores concordam em con-siderar que os adubos potássicos conferem aos vegetais uma maiorresistência, tanto às doenças como às pragas.Realmente, como acabamos de ver, um tal processo resulta – aforaas repercussões sobre as leguminosa – em grande parte do seu efeitopositivo sobre a proteossíntese, com a regressão correlativa das subs-tâncias solúveis que ele origina.LEFTER e PASCU (1970) evidenciaram uma relação linear entrea relação N/K20 e a sensibilidade da macieira à sarna (fig. 22).
  • 200F R A N C I S C H A B O U S S O USCHAFFNIT e VOLK (1930) observaram que o K tambémestimula a resistência da macieira ao Oidium, do míldio da videira eà ferrugem dos cereais.Observa-se, igualmente, que o potássio provoca uma resistênciado pessegueiro às doenças ditas “fisiológicas”.A videira é bem conhecida por suas exigências de potássio. Elassão mais importantes em dois períodos de sua vegetação: no início,no momento da formação de folhas e, após, no período de lignificaçãodo sarmento. Todos os fatores que agem de um modo qualquer sobreo metabolismo (temperatura, teor em água, hormônios, inibidores,substâncias tóxicas) têm uma ação indireta sobre o potássio celulare sua distribuição. Vimos que isto ocorre com diversos agrotóxicos,como o Carbaryl, que aumenta o K ao mesmo tempo em que dimi-nui o Ca (fig. 23).Por outro lado, HOFFMANN e SAMISH (1969) observam queas necessidades da videira em K diminuem quando os níveis de Cano solo são baixos. Assim, eles consideram que um alto nível de Capode anular os efeitos desfavoráveis de um excesso de potássio.Estes mesmos autores também observam que a concentração dosaminoácidos constitui o melhor critério para a determinação do es-tado nutricional do K na videira. Assim, na cepa Semillon, a 0,65%de K correspondem 50 ppm de aminoácidos, enquanto que a 0,28%de K a concentração de aminoácidos se eleva a 950 (fig. 24). Estesdados revelam uma deficiência no processo da proteossíntese. Pode-se temer, neste caso, repercussões nefastas sobre os rendimentos esobre a qualidade do vinho e, obviamente, sobre a resistência emrelação a diversas doenças.Acrescentemos que o ótimo de concentração de K não seria umaconstante, mesmo para um período análogo da videira e um nívelhomólogoda folha. Já chamamos a atenção para o fato de que o teordos elementos é função não apenas do clima e dos agrotóxicos apli-cados sobre a videira, mas também da constituição genética (influ-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S201ência da cepa) e da natureza do porta-enxerto. Ou seja, de todos osfatores que devem ser levados em conta para a pesquisa de um equi-líbrio ótimo.Referente às pragas tivemos ocasião de demonstramos, experimen-talmente, as repercussões benéficas das fertilizações potássicas emrelação à resistência de Citrus às cochonilhas. Realizamos uma expe-riência de adubação mineral conduzida sobre uma parcela debergamoteiras. Estes ensaios – origem puramente agronômicos –tinham por objetivo, primitivamente, demonstrar que o aportemaciço de potássio no solo acarretava um aumento de K nas folhase, correlativamente, uma redução de Ca, que se encontrava em exces-so no solo. Este excesso nos fazia suspeitar de um desequilíbrio nometabolismo das árvores, provocando sua sensibilidade em relação aosataques das cochonilhas (CHABOUSSOU, 1974)Exceto para as testemunhas, os tratamentos foram: CaCO3,H2S04e KN03. As observações foram feitas sobre duas espécies decochonilhas: Lepidosaphes beckii e Saissetia oleae. A fig. 25 mostra, em1970, diferenças consideráveis nas populações, em função da fertiliza-ção. Em comparação às testemunhas, confirma-se o efeito positivo docálcio sobre a multiplicação de Lepidosaphes beckii. Na colheita, aspopulações nos frutos são aproximadamente o triplo. Os “tratamentospotássicos” reduzem o nível das cochonilhas quase à metade.Em 1971 (os ensaios estavam implantados desde 1965), as di-ferenças ainda se acentuam entre as populações, especialmente sobregalhos finos e folhas. Os tratamentos potássicos reduzem ascochonilhas a um terço das presentes nas testemunhas (fig. 26).Esta regressão das cochonilhas está ligada a fatores nutricionaise, provavelmente, à relativa diminuição das substâncias solúveis daseiva, em particular dos aminoácidos. Este processo parece ocorrer porintermédio do estabelecimento, na planta, de um novo equilíbriocatiônico. Se compararmos a população de L. beckii nos frutos colhi-dos, com os valores da relação K/Ca+Mg das cascas, constata-se que
  • 202F R A N C I S C H A B O U S S O Ua regressão das populações parece estar ligada ao aumento desta re-lação (fig. 27).Inversamente, a diminuição desta mesma relação, pelo tratamen-to CaCO3, está ligada à multiplicação da cochonilha, se comparadaàs testemunhas (fig 27). Este último resultado confirma, portanto,a hipótese dos efeitos favoráveis na multiplicação desse inseto, de umexcesso de cálcio no solo, como na região de Rharb.A generalidade deste processo é confirmada pelos resultadosanálogos obtidos com uma segunda espécie de cochonilha, a Saissetiaoleae.Em resumo, estes resultados demonstram que uma correçãoadequada do metabolismo da planta, graças a fertilizações apropri-adas (neste caso, o aporte de potássio), permite obter uma regressãosensível nas populações das pragas fitófagas, apenas pela vianutricional. Veremos a seguir, a respeito da influência do cálcio, queele pode ter o mesmo efeito para as doenças.5. PAPEL DO CÁLCIO E DAS CORREÇÕES CALCÁRIASNO METABOLISMO E RESISTÊNCIA DA PLANTAA) Papel do cálcio no metabolismo da plantaWALLACE et alii.(1966) observam que:– as plantas superiores parecem necessitar de grandes quantida-des de cálcio;– a questão destas necessidades é, ainda, extremamente confusa.Talvez o cálcio seja o elemento essencial menos compreendido.Paradoxalmente, as plantas calcífugas parecem acumular maiscálcio que as calcícolas. Isto significa uma diferença fundamental nometabolismo do cálcio nestas duas categorias de plantas. Podem serdiferenças na fixação do Ca sobre os locais de troca iônica ou nasmodalidades de uso deste elemento. Estes fenômenos ocorreriam,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S203portanto, nas partes aéreas das plantas, pois nas raízes a evolução doteor de Ca é praticamente idêntica numa espécie calcífuga, como otremoço, e numa calcícola, como a fava (BOUSQUET, 1971).Outro fato importante referente ao metabolismo do cálcio: são osnumerosos “equilíbrios” em que está implicado. Já mencionamos o equi-líbrio K+/Ca++, mas o cálcio está ligado a diversos outros elementos.No milho, FALADE (1973) mostrou que o cálcio estimula aabsorção de K+e de Mg++até um determinado nível na soluçãonutritiva, mas a inibe, ao contrário, em outros níveis. O potássio ageda mesma forma para a absorção de Ca++, enquanto o Mg++comporta-se de forma semelhante para a absorção de Ca e de K+.SHEAR (1975) observa que, elevando-se suficientemente o teorde Mg, a absorção de Ca pode ser aumentada.Estas interrelações complexas podem explicar certos resultadosaparentemente contraditórios referentes às relações entre o Mg e asafecções por carências de Ca, que nos ocuparemos mais adiante.Assim, o blossom end rot*ou BER do tomate, bem como o coraçãonegro do aipo, estão relacionadas com os baixos valores da relação Ca/total de sais solúveis.Ora, como vimos, a suscetibilidade da planta está ligada a um teorelevado do nitrogênio nos tecidos, o que parece significar que, nessecaso, o equilíbrio catiônico é pouco favorável a um ótimo deproteossíntese.Outra relação clássica é a do cálcio e fósforo. O Ca estimula a ab-sorção de fosfatos no milho, com certos teores de cátions, mas nãoapresenta estes efeitos com outros, como para K e Mg (FALADE,1973). Daí a importância, como veremos adiante, da relação Ca/P naplanta, no que diz respeito a sua resistência às doenças.*Em inglês no original. (N. da T.). A blossom-end-rot é uma doença fisiológica queproduz uma colaboração pálida nas flores, no decurso da floração. Ocorre em condiçõesdesfavoráveis, com excesso de N e/ou carência de Ca. (Yepsen, 1966). (N. do R.)
  • 204F R A N C I S C H A B O U S S O UEstes fenômenos estão sempre relacionados com o processo daproteossíntese, em que o íon Ca forma complexos com as proteínas.Isto se expressa, também, da seguinte maneira: “as proteínas apre-sentam uma afinidade considerável com o cálcio”. Também as vitami-nas A e C estão estreitamente relacionadas ao metabolismo docálcio.Efetivamente, são as relações que ligam o cálcio à matéria orgâ-nica do solo e às leguminosas que parecem as mais interessantes. E,também, as mais suscetíveis de nos fazer entender melhor o papel docálcio no processo da proteossíntese e, conseqüentemente, na resis-tência da planta.B) Adubação orgânica e cálcioALBRECHT (1941) estima que a fertilidade de um solo estárelacionada com o teor de cálcio trocável. E que este cálcio trocável seencontra, ele próprio, relacionado com o teor do solo em matéria orgâ-nica. Ele observa que, por outro lado, o acúmulo de matéria orgâni-ca, a partir de blue-grass*não aumenta somente o Ca trocável, mastambém o Mg trocável.ALBRECHT (op. cit.) observa que a matéria orgânica modifica nãosomente a mobilidade do cálcio, mas também, do nitrogênio e do hidro-gênio. Esse autor estima que Ca e H devem ser colocados à parte entreos cátions, devido a suas propriedades particulares. “O cálcio é umagente para encorajar a completa combustão da matéria orgânica”.Um trabalho recente chega à conclusão que “o cálcio aumenta aestabilidade biológica da matéria orgânica, enquanto a elevação do pHtem uma função oposta” (LINÈRES, 1977).Segundo ALBRECHT, “uma explicação mais plausível do altoteor de matéria orgânica do solo chernozem é de que o elevado nível*Em inglês no original. Gramínea do gênero Poa. (N. da T.). Poa protensis, pasto-azul. (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S205de Ca e de outras bases provoca grande fixação de nitrogênio, tantosimbiótico quanto não simbiótico. Esta fixação produz mais carbo-no e eleva o teor de matéria orgânica, apesar de aumentar suadestruiçao pelos microorganismos, em meio tão favorável”.Os trabalhos de LINÈRES (op. cit.) confirmam esta conclusão:“A saturação das moléculas pelo Ca parece ser o fator determinante daestabilização biológica dos humatos cálcicos, bem como do conjunto damatéria orgânica dos solos com nível cálcico elevado”.Em resumo, o aumento do nitrogênio e do cálcio não são absoluta-mente processos independentes. E este processo está relacionado com amatéria orgânica.Por outro lado, ALBRECHT distingue o tipo de vegetação se-gundo a relação silício/cálcio. A “vegetação carbonada”, que pode re-sultar, com seu baixo teor em outros elementos nutritivos, éreconhecida como “desmobilizadora” em relação aos íons, enquantoque a vegetação de leguminosas, com uma baixa relação Si/Ca e um altoteor em outros elementos além do silício, no solo, é conhecida como“mobilizadora”destes íons.Portanto, isto justifica, de outro modo que só pelo enriquecimen-to do solo em nitrogênio, a prática de adubação verde comleguminosas, preconizada desde sempre pelos agrobiologistas e, ago-ra, novamente, pela agricultura clássica.Ainda é necessário mencionar uma outra relação clássica: a do cálcioe fósforo. O Ca, estimula no milho, a absorção de fosfatos a certos níveisde cátions, mas não de outros. Tudo como ocorre com K+e o Mg++(FALADE, 1973). Veremos adiante o papel da relação Ca/P nomecanismo da resistência da planta.Enfim – e aí talvez esteja o ponto mais importante do metabolismodo cálcio – este elemento apresenta relações de certa forma privilegiadascom os oligoelementos. Isso ocorre, por exemplo, com o boro, apesar dasfunções deste elemento não estarem ainda muito claras. Contudo,parece provado que o boro é capaz de manter o cálcio sob forma solúvel.
  • 206F R A N C I S C H A B O U S S O UAssim, tanto o boro fornecido através das raízes como por pulveriza-ções foliares aumenta o movimento do Ca nas maçãs.O cálcio, além do equilíbrio que manteria com numerosos ele-mentos, é considerado, ele próprio, como desempenhando o papelde um oligoelemento, ou quase, e o de um antitóxico, em relação aeventuais excessos de elementos como o Mg, Cu, Fe, Mn e Zn e,talvez, de outros íons (WALLACE et alii., 1966). Este é um aspectoimportante a ser retido, considerando-se a terapêutica pelosoligoelementos, que abordaremos no próximo capítulo.C) Repercussões do cálcio sobre a resistência da plantaTudo o que vimos, referente ao papel do cálcio no metabolismoda planta parece colocá-lo no centro dos fenômenos que resultam naproteossíntese e inclusive, como veremos adiante, daqueles fenôme-nos – extremamente complexos – como as relações com a matériaorgânica, isto é, com a intervenção dos microrganismos. Voltaremos a esteassunto mais adiante.A importância do cálcio na resistência da planta é surpreenden-te. SHEAR (1975) enumerou pelo menos trinta afecções ou doen-ças causadas por carências de cálcio. Citemos entre elas:– as necroses ou “coração negro ou marrom”;– a necrose “hipocotiledonar” do feijão;– as rachaduras da cenoura, cereja, tomate;– o coração negro do aipo;– o bronzeamento da batata etc.SHEAR (op. cit.) ressalta, por outro lado, todas as dificuldadesem admitir-se a carência de Ca como causa destas diversas doenças.Ele escreve, a propósito: “A despeito de uma monumental evidência,a aceitação universal de um inadequado teor de cálcio como fator geralda origem dessas doenças foi lento. Mesmo se o papel ou papéis es-pecíficos do cálcio como redutor ou preventivo dessas doenças ain-da não estão determinados, à compreensão da função da nutrição com
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S207cálcio, que pode ser afetada por cada uma das condições discutidasanteriormente, é essencial, se quisermos reduzir as perdas econômi-cas acarretadas por estes distúrbios”.No que diz respeito ao papel do cálcio, acreditamos ter mostra-do que ele se encontra em estreita relação com a estimulação daproteossíntese, como veremos confirmado. Entretanto, SHEAR tam-bém faz alusão aos diferentes fatores ecológicos suscetíveis de agiremindiretamente sobre o metabolismo do cálcio na planta (e, acrescen-taremos, dos outros elementos).Estes são, principalmente:– solo seco (considerado o fator mais importante da necrose dotomate);– inversamente, as regas sucessivas;– altas temperaturas.Observamos, de passagem, que todos estes diferentes fatores unem-se para provocar uma inibição da proteossíntese.Assim, KYDREV e TJANKOVA (1960), estudando as relaçõesentre as modificações provocadas pela seca e a infecção das plantas porPuccinia triticina Erikss, evidenciaram que a seca provoca na plantacertos fenômenos considerados como favoráveis à infecção, especial-mente a elevação do teor de nitrogênio não-protéico e a queda do teorde auxinas.Também no trigo, SLUKHAI e OPANASENKO (1974), encon-traram que o déficit em água perturba o metabolismo dos compos-tos nitrogenados, com uma redução da síntese protéica e o aumentoconsiderável de certos aminoácidos, como a asparagina e a prolina.Efetivamente, parece que o acúmulo de prolina é característico dometabolismo das plantas deficientes em água (RUHLAND, 1958).Acrescentaremos que é desnecessário procurar em outro lugar a causade certas multiplicações bruscas e aparentemente inexplicáveis de inse-tos como, por exemplo, pulgões e cochonilhas. Uma deficiência dasplantas em água provoca uma hidrólise das proteínas nas folhas e, con-
  • 208F R A N C I S C H A B O U S S O Useqüentemente, um enriquecimento em nitrogênio solúvel, que acarretauma multiplicação de pulgões como, por exemplo, Aphis fabae, Myzuspersicae e Brevicorynae brassicae (WEARING e VAN EMDEN, 1967).Assim, estes fatores ecológicos sobrepõem-se aos da carência emcálcio. Além das necroses e rachaduras, pode-se citar as fusarioses,Verticillium do tomate e Phytophthora do moranguinho, entre asmoléstias relacionadas com a carência em cálcio.As carências “conjugadas” de Ca e Mg provocam a necrose e amorte dos brotos do aspargo.Uma tal ação nefasta das carências de cálcio se encontra, por ou-tro lado, confirmada pelo efeito inverso produzido pela estimulação daresistência das plants pelas correções calcárias. Assim, por exemplo:• aumenta a resistência do tomate a Botrytis, com aportes su-cessivos, seja de cal hidratada, seja de gesso agrícola, a doen-ça parece se encontrar inversamente ligada à relação Ca/P(STALL, 1963 e STALL et alii. 1965) (fig. 28);• em relação ao mofo cinzento, em terreno calcário, os diversosditiocarbamatos não acarretam os mesmos graves inconveni-entes assinalados anteriormente.VERONA (1976) evidenciou a ação benéfica da cianamidacálcica*em relação a diversas doenças. Isto ocorre, por exemplo, coma helmintosporiose do milho (BOGYO, 1955), com Phytophthoracapsicii, Armillariella mellea, Pythium ultimum, Verticillium alboatrum,Fusicoccum amygdali e Giberella zea.VERONA (op. cit.) salienta a importância da quantidade decianamida colocada, bem como da época de aplicação. A cianamidaexerce uma influência inibidora indireta, via metabolismo da plantae, portanto, seu emprego deve ser repetido e contínuo.VEZ (1972) mostrou como a doença de cereais, Cercosporellaherpotrichides, era fortemente inibida pelas correções à base de*Adubo nitrogenado muito usado na Europa. Pouco conhecido no Brasil. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S209cianamida, enquanto um ataque tardio se manifestava principalmen-te nas parcelas que haviam recebido nitrato de amônia. (Isto confir-ma os efeitos nefastos dos compostos amoniacais em relação àresistência das plantas às moléstias, devido ao aumento do teor de ni-trogênio solúvel nos tecidos.)Conhece-se outros exemplos da importância do cálcio. GUYOT(1935) demonstrou o papel antagonista do calcário e dos sais demagnésio em relação ao desenvolvimento da podridão (Armillariellamellea).*GARD (1929) demonstrou que os superfosfatos atacam o cálcioe diminuem o teor deste no solo, favorecendo a aparição de focos depodridão em nogueiras, provocados por Armillariella mellea. Esta doençanão existiria nos solos contendo de 20 a 25% de carbonato de cálcio.O cálcio permite manter o pH do solo em limites favoráveis àatividade biológica e à assimilação dos elementos nutritivos. Assim,a calagem, na razão de 9t/ha, fez o pH passar de 3,8 a 4,3 após 24semanas da aplicação. Segundo o Research Branch Report,*de Quebec(1973), este fenômeno produz um acúmulo de nitrogênio na formade NO3, e não de NH4,como ocorre em condições mais ácidas. Ora,vimos que, sob forma nítrica, o nitrogênio é muito menos capaz desensibilizar a planta a doenças do que sob forma amoniacal...Contudo, não é seguro que este fenômeno ocorra diretamente porintermédio da mudança de pH. HUBBELING e CHAUDHARY(1969) salientam que o pH do solo não tem influência direta sobrea reação de plântulas de tomate a Verticillium. Em duas variedades detomate, os autores observam que: “Uma nítida parada de crescimentoe uma coloração vascular marrom demonstraram que um forte ataquedo fungo está correlacionado com uma deficiência em Ca”.Da mesma forma, CORDEN e EDGINGTON (1960) haviamdemonstrado que os tomates com carência de Ca eram claramente*Podridão ou fendilhamento anular das raízes. (N. do R. )*Em inglês no original. Relatório da Divisão de Pesquisa. (N. da. T.)
  • 210F R A N C I S C H A B O U S S O Umais suscetíveis a Fusarium que as plantas normais. As plantas trata-das com o ácidob – naftaleno acético (NAA) mostravam-se nitidamenteresistentes, mas a resistência induzida por este produto era nula nas plantasdeficientes em Ca.Esta observação é fundamental: ela constitui uma demonstraçãosuplementar da influência indireta dos agrotóxicos sobre a resistência daplanta a seus agressores, seja ela anulada ou, ao contrário, estimulada. Emoutras palavras, o efeito buscado de resistência – erroneamente chama-do fungicida” – deve, obrigatoriamente, passar por um novo estado fi-siológico a planta, diferente de seu estado inicial. Vimos que este estadoé caracterizado por um metabolismo com proteossíntese dominante.Assim se explicam as constatações desses mesmos autores, de que:“os cátions, tais como os íons monovalentes, como Na+, NH+4e K+,que estavam em competição com os íons Ca++, tinham aumentado osefeitos da doença”. Isto nos conduz ao estudo da noção do equilíbriocatiônico e de suas conseqüências.6. EQUILÍBRIO CATIÔNICO E RESISTÊNCIA DA PLANTAComo vimos antes, em numerosos casos os adubos potássicosaumentam a resistência da planta, parece através da elevação do teorde K nos tecidos. Em outros casos, ocorre o contrário com o cálcio.Em cada um desses dois casos, as relações K/Ca e K + Na/Ca + Mgencontram-se modificadas, num ou noutro sentido: o novo equilíbriocondiciona o metabolismo e o nível de proteossíntese da planta, quepoderá ser intensificado ou reduzido. Para um nível máximo deproteossíntese, concebe-se que o valor dessas relações pode variar,segundo a natureza genética da planta.BOGYO (1955) observa que se o K provoca uma regressão dehelmintosporiose no milho, o cálcio, ao contrário, a aumenta. Toda-via, observa-se igualmente que, quando o milho dispõe de K assimilávelem quantidade suficiente, a cal aplicada em doses crescentes não provocamais aumento da doença.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S211Portanto, não há absolutamente contradição no fato de que numcaso o cálcio estimule a resistência à doença e, noutro, faça o inver-so. Em termos ideais, se trata de um equilíbrio que resulta nummetabolismo caracterizado por um ótimo de proteossíntese. Esteótimo é obtido por um determinado equilíbrio entre K e Ca, prova-velmente diferente para cada família de plantas.Os trabalhos de CRANE e STEWART (1962), com Menthapiperita, parecem confirmar este ponto de vista. Essas pesquisas fun-damentalmente colocaram em concorrência fatores que interferemno crescimento, como a luz (dias curtos e longos) e o equilíbrio K/Ca da solução nutritiva. Se resumirmos seus resultados, podemosdizer que:1. Os dias curtos acentuam o teor dos compostos solúveis nostecidos e, portanto, segundo nossa teoria, sensibilizam a planta emrelação a seus diferentes agressores. (Recordemos o exemplo das re-percussões da latitude sobre a sensibilidade da batata a Phytophthorainfestans.)2. Os efeitos do valor da relação Ca/K (ou inversamente) sobre-põem-se aos principais efeitos atribuídos aos dias longos ou curtos:dito de outra maneira, ao fotoperíodo (fig. 29).Num contexto de síntese de proteínas com alto teor emglutamina, um elevado teor de K nos tecidos e baixo de Ca provocauma concentração maior de N protéico e, ao contrário, uma menorde N solúvel. Ou seja, condições favoráveis a um estímulo da resis-tência da planta.As três carências artificialmente provocadas, em K, Ca e S acarre-tam, nas folhas, a presença de aminoácidos especiais, em que aglutamina parece estar em equilíbrio com a asparagina. Estas vari-ações em aminoácidos poderiam ser correlacionadas com “períodoscríticos”, efetivamente, constatados no curso do ciclo evolutivo daplanta, tanto em relação às pragas (Tetranychus sp., por exemplo)quanto às doenças.
  • 212F R A N C I S C H A B O U S S O UQuanto às carências em oligoelementos, às quais serão mais es-pecialmente tratadas no próximo capítulo, CRANE e STEWART(op. cit.), mostraram que elas conduzem a conclusões análogas. As-sim, as carências em Cu e em Mn provocam aumento do nitrogêniosolúvel nas folhas, sobretudo da glutamina. Estas carências levam àsensibilização da planta a seus agressores. E, efetivamente o inver-so que se obtém com a correção das carências.7. INFLUÊNCIA DOS OUTROS ELEMENTOS – ENTREOS QUAIS O MAGNÉSIO – NO METABOLISMO ERESISTÊNCIA DA PLANTAInsistimos sobre a influência do potássio e do cálcio no me-tabolismo da planta e elaboração das proteínas, fator que nos in-teressa, particularmente, na resistência do vegetal, em relação aseus diferentes parasitas. Contudo, é evidente que, além destesdois elementos, muitos outros intervêm na cadeia das síntesesprotéicas. Aliás, eles figuram no esquema da fig. 21, com o sen-tido das flechas indicando as principais “vias” do metabolismo.Além dos oligoelementos e do enxofre, dos quais já falamos edos quais trataremos no próximo capítulo, é conveniente exami-narmos, brevemente, o papel do magnésio.Sabe-se que o magnésio faz parte da molécula da clorofila. É,portanto, lógico que ele também intervenha nas cadeias de de-composição e de síntese dos glicídios. As substâncias ricas emenergia (ATP) servem de intermediárias para as sínteses e degra-dações. Ora, os compostos ricos em energia, utilizados na cadeiade degradação das “oses” (açúcares), são compostos fosforilados,e os sistemas enzimáticos destas mesmas cadeias necessitam, emsua maioria, da presença de Mg.A reação ADP + P =ATP só pode ocorrer na presença de Mg.Daí a importância bioquímica das relações entre P e Mg. É pos-sível dizer que “o ‘dínamo celular não pode funcionar sem magnésio”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S213O metabolismo do fósforo também está estreitamente relaci-onado com o cálcio. Portanto, não é surpresa constatar-se a exis-tência de um antagonismo Ca-Mg. É porque esta relação justificao fato de ser possível, numa primeira aproximação, contentar-secom a relação K/Ca para quantificar, sumariamente, o metabolis-mo da planta e, em particular, o da proteossíntese.É estabelecido, claramente, que a relação K/Ca influi na pro-porção de Mg utilizada pelo vegetal, o que se explica pela influ-ência do Ca sobre a absorção do Mg. Assim, se admite que:K + Ca + MG = constante.Existe uma nítida correlação entre N e Mg nas folhas das ár-vores, com curvas de variação destes dois elementos sendo análo-gas. Assim, o teor de Mg nas folhas de macieira, expresso empercentagem de matéria seca, é, por exemplo:– Folhas doentes, em início de clorose: .... 0,14 a 0,20 %– Folhas sãs: ................................................ 0,30 a 0,45 %Estas insuficiências, também chamadas “subcarências”, por-que nem sempre muito aparentes, podem ser provocadasinvoluntariamente pelos agricultores, pela utilização abusiva deoutros adubos, como os produtos ‘nitrogenados sintéticos. Estesprodutos podem também bloquear os oligoelementos no solo. As-sim, a relação K/Mg no solo condiciona a quantidade de Mg uti-lizada pelo tomateiro. Quando esta relação é muito elevada, háclorose.É necessário chamar a atenção sobre as relações do Mg com osoligoelementos. Assim, para diversas enzimas implicadas no meta-bolismo das “oses”, o Mg pode ser substituído pelo Mn, apesar daatividade final do sistema não ser a mesma.
  • 214F R A N C I S C H A B O U S S O UEm resumo, é normal registrar-se fenômenos análogos de carên-cia com o Mg, Fe e Mn.Finalmente, consideremos as relações Ca/Mg, por um lado, e Ca/matéria orgânica, por outro, e a relação deles com os diferentesoligoelementos, antes de passar ao estudo das repercussões dessesúltimos, nos parece racional estudar, em primeiro lugar, as repercus-sões da adubação orgânica sobre a resistência da planta, pelo ânguloeventual de sua influência na proteossíntese. É o que nos propomosfazer agora.8. REPERCUSSÕES DA ADUBAÇÃO ORGÂNICA NARESISTÊNCIA DA PLANTA A SEUS DIVERSOSPARASITASA) Concepção de certos pesquisadores, práticos e agrobiologistasJá em 1946, DEMOLON escrevia: “Como indicou GabrielBERTRAND, é possível que o emprego de adubos sintéticos e a diminui-ção dos aportes de adubo orgânico venham um dia a tornar mais freqüen-tes, para nós, estas manifestações patológicas”.O eminente agrônomo que foi DEMOLON aludia a certasdoenças adquiridas por carências, como a “podridão” da beterraba,eficazmente tratada por correções à base de borato de sódio, na razãode 15 kg/ha.Além disto, DEMOLON observava também que: “O número dedoenças viróticas aumenta rapidamente. Elas existiam anteriormente,houve um reforço de sua virulência, ou foram introduzidas com asnovas variedades?”Essas questões já haviam sido colocadas por outros práticos eagrobiologistas. Assim, em sua obra Testament Agricole*, onde resu-*“Testamento Agrícola”. (N. da T.) Esta obra será publicada pela Editora ExpressãoPopular. (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S215miu suas observações e os resultados de sua longa carreira, HOWARDcoloca “o problema do paralelismo inquietante entre o desenvolvimen-to dos parasitas, o dos tratamentos antiparasitários e da fertilizaçãoexclusivamente mineral”.Em relação ao chá*ele constata que a compostagem obtida atra-vés de uma técnica própria de fabricação – o processo INDORE –causa “uma melhoria do crescimento, da vitalidade em geral e um aumen-to da resistência às doenças”. Ele explica este fenômeno “pela ação es-timulante do húmus sobre o desenvolvimento das micorrizas”.A respeito da videira, ele comenta: “A vida prolongada das espé-cies de videira é a característica do Oriente, da mesma forma que oemprego de esterco e a ausência relativa de danos causados por insetos efungos”.Quanto às doenças viróticas, das quais voltaremos a falar maisadiante- ele observa: “uma das plantas estudadas em PUSA foi ofumo. Em primeiro lugar, viu-se aparecer, nas minhas culturas,plantas malformadas (neste meio tempo se pôde demonstrar queum vírus era o responsável). O vírus desaparecia quase totalmentequando se tinha o cuidado de obter boas sementes, de fazer as plântulascrescerem convenientemente nas sementeiras, de zelar por um bom trans-plante e pelo trabalho do solo: finalmente, o vírus desapareceu quaseinteiramente”.***Refere-se ao chá-da-Índia. (N. da T.). Thea sinensis L. (N. do R.)**Devido a sua vasta e longa experiência, HOWARD necessariamente tornou-sefilósofo e teorizador. Assim, às vezes, ele resumiu suas concepções de maneira umpouco contundente e não conformista, de seu próprio estilo como estas quedeixamos à meditação do leitor:“A ciência perde-se num labirinto de detalhes”.“O problema jamais é considerado em seu conjunto”.“O aumento do número de pesquisadores obscureceu mais do que clareou vastosproblemas biológicos”.Enfim: “O trabalho de equipe não é um remédio para os inconvenientes doretalhamento dos problemas. A renda tecida pelo trabalho de equipe freqüentementeé cheia de buracos”.
  • 216F R A N C I S C H A B O U S S O UPodemos escutar daqui os protestos dos virologistas: segundo eles,o vírus não teria desaparecido, mas no máximo, suas manifestações. Eé, sem dúvida, isto que HOWARD quis dizer. Todavia, e como jávimos a propósito dos trabalhos de VAGO e da incidência dosagrotóxicos sobre a planta, é certo que um condicionamento adequa-do da planta por uma nutrição equilibrada e ativa possa aniquilar opróprio vírus. É, pois, o que discutiremos adiante.Devemos, igualmente, citar um outro agrobiologista. RUSCH(1972)*escreve: “A agricultura biológica facilita consideravelmentea solução do problema (o das doenças e pragas). As plantas, que naagricultura química não poderiam sobreviver sem ajuda de produtosfitossanitários, podem ser cultivadas sem o socorro de nenhum de-les, desde que as condições naturais ótimas sejam efetivamente preenchi-das”.Estas duas posições referentes à proteção da planta podem serresumidas de uma forma lapidar.· A agricultura “clássica” assegura: “Minha planta cresce bem,porque não está doente”.Subentendido: pelo fato de que devemos destruir os eventuaisparasitas, é necessário intervir, freqüente e quimicamente, com osdiversos agrotóxicos. O melhor, como é freqüentemente preconiza-do, é “cobrir a planta” de produtos, constituindo-se uma “barreira”.Certo, hoje se preconiza, mais ou menos, um controle dito “in-tegrado”, que não é mais do que um tipo de compromisso entre a luta“química” e a luta “biológica”. Contudo, ambos, e com todas as con-tingências que isto comporta, visam a destruição da praga. Vimos, noscapítulos precedentes, todas as dificuldades e todos os inconvenien-tes que isto acarreta.*A obra básica de Ruch é La fècondité du sol, Le courrier du livre, Paris, 1972. Ooriginal, em alemão, foi publicado em 1968, pela Karl T. Haus Verlag. O nome doautor é H. P. Rusch. O original grafou-se sem o “c” (Rush). (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S217· Diametralmente oposta é a atitude da agricultura biológica.Esta é feita com o objetivo de “dissuadir” o parasita de ata-car a planta. Sua atitude pode ser concretizada na fórmula:“Minha planta não está doente porque cresce bem”.Isto se justifica, segundo nossa teoria da trofobiose, na medidaem que o crescimento “ótimo”, do qual fala RUSCH, corresponde aum ótimo de proteossíntese. Assim, somos conduzidos a nos pergun-tar em que a adubação orgânica, da qual falamos antes, pode estimu-lar a proteossíntese. Qual seria o processo em jogo?Ora, Didier BERTRAND (1974) observava: “Se o emprego dematéria orgânica é recomendado nas culturas desde há muito tempo,as razões científicas deste emprego foram pouco estudadas”. Contudo,nos últimos anos, um certo número de fatos foram estabelecidos. Elesnos permitem ver mais claramente a causa deste fenômeno e explicar,ao menos parcialmente, esta “propriedade indeterminada da matériaorgânica” a que faziam referência PILAND e WILLIS (1937) a respei-to da assimi1ação do cobre e do manganês pelo trigo. Esses autoresmostraram, em experiência de laboratório, uma nítida influência so-bre o crescimento da gramínea, de um simples disco de papel-filtromisturada ao quartzo que servia de suporte.Para comodidade da exposição e, ainda que esta separação seja umpouco artificial, podem ser distinguidos dois tipos de repercussões damatéria orgânica: as que se relacionam mais especificamente à vida dosolo, e as outras, com a vida da planta. Estes dois tipos de influênciarepercutem, finalmente, sobre o metabolismo e, portanto, sobre aresistência da planta.B) Propriedades da matéria orgânica em relação ao soloA maior parte dos autores reconhecem que a adubação orgânicatem um certo número de propriedades:– melhoria da capacidade do solo no que diz respeito à retençãode água;
  • 218F R A N C I S C H A B O U S S O U– melhoria, igualmente, da microflora do solo;– além disto, a adubação orgânica proporciona ao solo alimentosminerais, em quantidades não desprezíveis, sobretudo N, S, P, Mg e K.A matéria orgânica contém também os oligoelementos, que liberano curso de sua decomposição. Em solo ácido, por exemplo, a ma-téria orgânica faz o manganês passar ao estado reduzido, aumentan-do assim sua mobilidade e disponibilidade para as plantas. Aocontrário, teria sido observado que o adubo orgânico diminui a con-centração de zinco disponível no solo, enquanto o extrato de alfafa aaumenta. Quanto à celulose, constituinte essencial do filtro de pa-pel da experiência de PILAND e WILLIS, à qual já nos referimos,aumenta consideravelmente o teor de boro solúvel.Pela importância dos oligoelementos na fisiologia da planta e, emarticular, na proteossíntese (que veremos confirmada no próximocapítulo) parece que temos aí uma das razões pela qual a adubaçãoorgânica e, especialmente, as compostagens, estimulam a resistência.Além disto, parece ocorrer o mesmo processo com os macroelementos.No que diz respeito ao nitrogênio, lembrando que sua liberação esua estocagem mineral são fenômenos microbianos, DELAS et alii.(1973) distinguem dois tipos de evolução no solo:1. Nos materiais ricos em nitrogênio, isto é, com relação C/N bai-xa, a decomposição vai se traduzir por uma liberação do nitrogêniomineral; ela começa na primavera para atingir seu máximo no fim doverão.*2. Se, ao contrário, a relação C/N for elevada, por exemplo, amatéria orgânica sendo uma palha ou esterco*pouco decomposto, osmicrorganismos vão, em primeiro lugar, retirar o nitrogênio neces-sário à sua síntese de proteínas. Há, portanto, aproveitamentomicrobiano do nitrogênio ao invés de sua mineralização. Daí o efeito*Não esquecer que o autor refere-se ao Hemisfério Norte. (N. do R.)*Refere-se a esterco misturado com restos vegetais. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S219depressivo do enterramento das palhas nas culturas, sem o aportecomplementar do nitrogênio mineral.Estes resultados experimentais parecem explicar por que os “in-ventores” da compostagem insistem num “amadurecimento” conve-niente antes de seu emprego.Outro ponto importante da ação da adubação orgânica é o daestabilização da estrutura dos solos. Isto ocorre, primeiro, graças aotrabalho dos microrganismos que se desenvolvem rapidamente, àsexpensas das substâncias carbonadas. Após, num segundo estágio,pelos produtos transitórios provenientes da humificação. Assim, sechega ao último estágio: os ácidos húmicos, cuja evolução é muito lenta.LEMAIRE (1972) demonstrou experimentalmente que o efeitodepressivo da palha desaparece ao cabo de dois meses de decompo-sição em estufa, e que é necessário esperar três meses para obter efeitosestimulantes. Ele acrescenta: “Pode-se imaginar que no curso da fer-mentação as substâncias de efeito depressivo desapareçam ou se trans-formam, dando nascimento às substâncias de efeito estimulante”.Efetivamente, experimentando adubação orgânica em azevém,LEMAIRE obteve, pela utilização da matéria orgânica, “um efeitoespecífico, traduzido por um estímulo do crescimento e um aumento dosrendimentos”.Certamente estes fatos são bem conhecidos pela maioria dos agri-cultores e, principalmente, dos agrobiologistas. Contudo, seria útildemonstrá-los experimentalmente. Diversos outros trabalhos tambémpermitem melhor compreender o mecanismo desta estimulação docrescimento pelas diversas substâncias contidas no húmus.FLAIG (1965) mostrou que no curso da formação das substân-cias húmicas há liberação, por ação microbiana, de compostos facilmenteassimiláveis, como NH4e NO3, que podem, portanto, servir direta-mente à alimentação das plantas.Esse autor identificou diversos ácidos, produtos da degradaçãodas ligninas ou de compostos fenólicos que mostraram influência
  • 220F R A N C I S C H A B O U S S O Usobre a fertilidade do solo e sobre a amplitude de crescimento dovegetal.Por outro lado, a ação microbiana prossegue, pela formação defenóis e de quinonas, ainda produtos da decomposição das ligninas nosolo, e que se formam, portanto, quando da compostagem dos materiaisvegetais. FLAIG observa que quinonas e fenóis são pouco estáveis, masque, em compensação, são 10 a 100 vezes mais ativos que os produtosresultantes diretamente da degradação da lignina.FLAIG indica que a ação destas substâncias fisiologicamenteativas depende das condições de meio, como a quantidade dos elemen-tos nutritivos assimiláveis (fator que parece não ser considerado pelospatologistas que procuram combater as doenças pelo emprego dasdiversas substâncias de crescimento), e dos fatores ambientais, comotemperatura, luz e umidade. Isto permite explicar as contradições entrediversos autores no que se refere à influência das frações húmicas sobreo metabolismo do vegetal.Assim, chegamos a um segundo tipo de ação da matéria orgânica.C) Propriedades da matéria orgânica em relação à plantaEstá confirmado que, além do aporte de substâncias nutritivas, aadubação orgânica fornece à planta substâncias de crescimento, permi-tindo a assimilação das primeiras.De uma maneira geral, a ação dessas substâncias de crescimento setraduz por um aumento do nível de respiração e de clorofila e, “refe-rente à parte central do metabolismo, por reações de “fosforilação”localizadas nas mitocôndrias.Assim, a fosforilação oxidativa permite à planta armazenar ener-gia para formação de ADP e ATP. Segundo FLAIG, “as duas reações,de combustão do hidrogênio e de formação de ATP, estão acopladas.Este acoplamento se reduz à medida que a concentração de substân-cias fisiologicamente ativas aumenta, isto é, que o teor de fosfatosminerais aumenta e o de ATP diminui”. Ora, observa ele,”para uma
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S221intensidade determinada de interação, o aumento do teor de fosfato nacélula acelera os processos metabólicos ligados à presença dos íons defosfato”.Finalmente, estes processos criam os produtos necessários à sín-tese da matéria vegetal, como os açúcares. Os derivados glicídicosparticipam da elaboração de compostos aromáticos, que por sua vezproduzem as ligninas, bem como os compostos cetônicos precursores dosaminoácidos e das proteínas.Essas relações entre a matéria orgânica e a assimilação do fósforotêm sido confirmadas desde então por diversos trabalhos. Assim,KUTE et alii. (1967) mostraram que em solo calcário, na presençade colóides húmicos, os rendimentos aumentam nitidamente com oaporte de adubos fosfatados. Isto se explica porque “o húmus, clara-mente, fez a planta aumentar a utilização das reservas fosfóricas do soloe da adubação orgânica fornecida”.Da mesma forma, trabalhando em laboratório sobre discos debeterraba, VAUGHAM e MAC DONALD (1971) confirmaram queos ácidos húmicos estimulam a capacidade de absorção do fósforo.Também é necessário mencionar os trabalhos de POONIA eRHUMBLA (1974) relativos à fertilização da cevada. Estes autoresmostraram que a aplicação de esterco era muito eficaz para a produ-ção de matéria seca num solo sódico, desde que esse fosse aplicadocom gesso agrícola. Não ocorre o mesmo fenômeno com o carbona-to de cálcio. Os autores relatam que: “O desempenho medíocre dacolheita de cevada em um solo tratado com gesso agrícola, sem apli-cação de adubo orgânico, indica que, apesar da carência em cálcio ser oprincipal fator de um crescimento, medíocre da planta, os problemas decondições físicas do solo e outras deficiências nutricionais eram igualmenteimportantes”.POONIA e RHUMBLA (op. cit.) observam também o aumen-to gradual de potássio, em resposta às aplicações de adubo orgânico. Alémdisto, uma aplicação de matéria orgânica em solo tratado com gesso
  • 222F R A N C I S C H A B O U S S O Uagrícola propicia uma absorção total de Ca, Mg, Na, N e P, de 3 a 5vezes maior.Está confirmado que a matéria orgânica fermentada estimula aassimilabilidade dos elementos.Em resumo, os diferentes trabalhos que acabamos de revisar, rela-cionados às repercussões da matéria orgânica fermentada em relação aosolo e à nutrição da planta, convergem, perfeitamente, para acentuarseus efeitos positivos sobre o crescimento da planta. Vimos,que a plantaassim adubada assimila melhor os oligoe1ementos, o fósforo e, mesmo,o potássio. Trata-se de um processo extremamente complexo e temosainda muito a aprender, especialmente sobre os fenômenos da elabo-ração das substâncias de crescimento durante a fermentação da maté-ria orgânica. Estes fenômenos explicam a estimulação da proteossínteseque daí resulta, tendo como conseqüência a resistência da planta, re-sistência que diz respeito, inclusive às doenças viróticas, como veremosa seguir.D) Adubação orgânica e resistência da planta às doenças viróticasFoi, ao longo do quarto capítulo que tratamos, pela primeira vez,dos efeitos benéficos da adubação orgânica sobre a resistência da planta.Assim, pudemos constatar que sobre árvores de pessegueiro que rece-beram esterco as repercussões nefastas do Ziram eram um pouco ate-nuadas. As análises dos ramos mostraram que se tratava de um efeitopositivo da matéria orgânica fermentada sobre a proteossíntese. Vere-mos, no caso de uma doença virótica – que consideramos exemplar –que a regressão provocada pelo adubo orgânico procede, verdadeiramen-te, do mesmo fenômeno.MEHANI (1969) havia constatado na Tunísia, na variedade dealcachofra “Violet de Provence”, a existência de um mosaico cujasrepercussões são particularmente freqüentes no segundo e, sobretu-do, terceiro ano de cultura. Essa doença virótica é, evidentemente,acompanhada de quedas consideráveis de rendimento.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S223Ora, na França, onde havia trabalhado, MEHANI observara queestas mesmas alcachofras jamais manifestavam os sintomas da doen-ça. No entanto, transportadas para a Tunísia, elas exteriorizavam omosaico e não se restabeleciam mais.Esta contradição levou o autor a estudar a influência dos adubosorgânicos sobre as manifestações da virose. Os experimentos forambaseados no fato de que, durante sete anos, uma plantação de alca-chofras “bem cultivada” não apresentou sintomas de degenerescência.Isto parece provar que, como na França, graças a certos fatores cultu-rais, o vírus podia, senão desaparecer (para demonstrá-lo teria sidonecessário realizar análises), pelo menos permanecer indefinidamenteneste “estado latente”, que falamos anteriormente.Segundo o próprio autor, “a freqüência desta degenerescência podiaser vista como resultado de fatores desfavoráveis a um bom desenvolvimentoda planta”.As experiências de MEHANI, efetivamente, mostraram que o empregode esterco reduziu consideravelmente os sintomas e repercussões nefastas dadegenerescência, como mostra o gráfico da fig. 30.Entretanto, não se poderia perder de vista, na análise desse processo,que a ação dessas adubações orgânicas é, de fato, superposta aos aportesminerais. Tudo se passa como se a fertilização orgânica, favorecendo aassimilação dos elementos, isto é, a proteossíntese, tivesse, ao mesmo tempo,estimulado sua resistência em relação às manifestações nefastas do vírus.Resumindo, os experimentos de MEHANI (op. cit.) trazem ademonstração científica das constatações empíricas dos práticos eagrobiologistas que citamos no início deste capitulo. Os resultadostambém concordam com as conclusões apresentadas por CHOUARD(1972) depois de uma missão na China, e que cremos necessário re-produzir: “As práticas dos camponeses chineses que me foram relata-das absolutamente não consistem em destruir os vírus ou eliminá-los,mas em atenuar e, às vezes, fazer desaparecer, nas condições locaisparticulares, a expressão dos sintomas da contaminação viral. O frio
  • 224F R A N C I S C H A B O U S S O Unoturno e a luz intensa têm estas propriedades, e ninguém sabe realmen-te, até este momento, qual é a base científica rigorosa da atenuação dossintomas sem desaparição do vírus”.CHOUARD acrescentava: “Não é, pois, desprovida de interes-se, longe disso, a utilização dos métodos empíricos que eu chamariade ‘sintomatológicos’”.Após termos estudado as relações entre as repercussões dos agrotóxicossobre a fisiologia da planta e o desenvolvimento das doenças viróticas,acreditamos ser perfeitamente possível que um condicionamentoadequado da planta, através da nutrição, possa, ao contrário de cer-tos agrotóxicos, não fazer desaparecer apenas os sintomas, mas tam-bém o próprio vírus De qualquer forma, temos aí uma solução agronômicaque não é mais empírica – como já vimos e como veremos confirma-do mais adiante – que o uso de agrotóxicos, especialmente nosfungicidas, no controle fitossanitário.É isto que nos propomos estudar no prõximo capítulo, consagra-do à proteção da planta, através – como no mosaico da alcachofra –da fertilização do solo e de tratamentos à base de oligoelementos, estesúltimos tendo sido, deliberadamente, deixados de lado, ou quase, até aqui.Devemos chamar a atenção de que, se a adubação orgânica pode levaraos resultados interessantes que acabamos de expor, é necessário queos adubos orgânicos e compostagens contenham, não apenas substân-cias de crescimento, mas também oligoelementos.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S225Fig. 21. Intervenção dos elementos minerais no metabolismo donitrogênio.(Esquema ROUTCHENKO, documento pessoal.)
  • 226F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 22. Correlação entre o grau de ataque do fungo da sarna damacieira (Endostigma inaequalis) e a relação N % / K2O % nas folhas(Segundo LEFTER, PASCU e POP, 1970.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S227Fig. 23. Influência dos diversos inseticidas sobre a relação K / Canas folhas da videira. (CHABOUSSOU, 1969.)
  • 228F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 24. Relação entre o teor em K nas folhas de videira (cepaSemillon) e seu conteúdo em aminoácidos. (Segundo HOFFMANNe SAMISH, 1969.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S229Fig. 25. Influência do tipo de correção sobre bergamoteiras emrelação às populações da cochonilha (Lepidosaphes beckii), Newman,em 1970. (Experimento CHABOUSSOU: Sidi Bouknadel, 1970.)
  • 230F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 26. Influência do tipo de correção sobre bergamoteiras emrelação às populações de Lepidosaphes beckii , Newman, em 1971.(Experimento CHABOUSSOU: Sidi Bouknadel, 1971.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S231Fig. 27. Contaminação dos frutos (bergamotas) por Lepidosaphesbecckii Newman, na colheita, segundo os diferentes tipos de corre-ção e em função dos valores da relação K/Ca + Mg nas cascas. (10 deoutubro de 1969).
  • 232F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 28. Correlação entre os ataques de Botrytis em tomate e arelação Ca/P nos tecidos foliares, em função das correções à base decal hidratada. (Segundo os dados de STALL et alii. 1965.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S233Fig. 29. Esquema referente às influências conjugadas dofotoperíodo e do equilíbrio dos elementos catiônicos K e Ca, emrelação aos fenômenos de proteogênese, de proteólise e do teor nasfolhas de certos aminoácidos, em Mentha piperita. (Segundo CRANEe STEWART, 1962.)
  • 234F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 30. Influência do esterco superposto a dos adubos minerais,sobre as manifestações do mosaico da alcachofra. (Segundo dados deMEHANI, 1969.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S235BIBLIOGRAFIAALBRECHT W.M. 1941. Soil organic matter and ion avaibility for plants. “SoilScience”, pp. 51-56.BERTRAND D. 1971. Influence dans le sol des engrais additionnés ou non d‘oligo-eléments et de matières organiques non cellulosiques sur la microflore du cycle del’azote. “C. R. Acad. Agric. France”, t. 57, p. 1551.BOGYODr. 1955.L ‘effet des apports de potassium et de chaux sur l‘apparition et lagravité de l’Helminthosporium turcicum chez le Ma-s. “Revue de la Potasse”,Sectio 23, 16esuite.BOUSQUETU.1971. Absorptionetmigrationducalciumchezuneespècecalcifugeet une espèce calcicole. “C. R. Acad. Sc.”, 272, pp. 1768-1774.BREUKEL L.M. e POST A. 1959. The influence of the manurial treatment oforchards on the population density of Metatetranychus ulmi Koch. (Acari:Tétranychidae). “Ent. Exp. Appli.”, 2, pp. 38-47.CHABOUSSOUF.1974.LeconditionnementphysiologiquedesCitruscommemoyende lutte vis-à-vis des ravageurs des Agrumes. “Fruits”, vol. 29, nº 1, pp. 23-33.CHOUARDP.1972.LarecherchescientifiqueenChine,aulendemaindelarévolutionculturelle. “La Recherche”, no23, mai, 1972, pp. 411-416.COÏCY.1966. Lamatièrevégétale:commentellesecrée,sacomposition. Publication“StudexParis”.CORDEN et EDGINGTON 1960. In “Phytopathology”, 50, pp. 324-326.CRANEF.A.etSTEWARDF.C.1962.Growth,nutritionandmetabolismofMenthapiperitaL.IVEffectsofdaylengthandofcalciumandpotassiumonthenitrogenousmetabolitesofMenthapiperitaL.“CornellUniver.agric.Exp.St.Minn.”,nº379,pp. 68-90.DELASJ.etJUSTEC.1973.Matièresorganiquesetfertilitédessols.“Bull.Tench.Ing.Agric.”, p. 841.DEMOLONA.1946.L’evolutionscientifiqueetl’Agriculturefrançaise.Paris,329p.FALADEJ.A.1973. Interrelationships between potassium, calcium and magnesiumof Zea mays L. “Annals of Botany”, nº 150, p. 37.FLAIG Pr. 1965. Action des produíts de dégradation de la lignine sur le métabolismeduvégétalMécanismepossibledecetteaction “C.R.Acad.Agric.”,1ºdedezem-bro de 1945.GARD (1929): voir en GUYOT (1931).
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  • 238F R A N C I S C H A B O U S S O UCercosporella herpotricho-dea in contineous careal growing (D. an.). “T.Planteavl.” t. 75, 2, pp. 274-277.VAN EMDEN H.F. 1966. Studies on the relations of insect and host plant. III – Acomparison of the reproduction of Brevicoryne brassicae and Myzus persicae.(Hemiptera: Aphididae) on brussels spout plants supplied with different rates ofnitrogen and potassium. “Ent. Exp. et Appl.”, 9, pp. 444-460.VERONA O. 1970.Der Einfluss des Kalksticktoffs auf einige gruppen von niederenPilzen. “Landw. Forsch.”, 23, pp. 36-52.VEZ A. 1972. Examen de l’effet herbicide, fongicide et fertilisant de la cyanamidecalcique dans une rotation chargée en céréales. “Rev. Suisse Agric.” t. 44, 1, pp.18-24.VILLEDIEU G. Cuivre et mildiou. “Prog. Agric. Vit.”, XCVIV, pp. 536-539.WALLACEA.,FROLICHE.etLUNTO.R.1966.Calciumrequirementsofhigherplants. “Nature”, pp. 209 e 634.WEARING C.H. et VAN EMDEN H.E. 1967. Studies on the relations of in sectandhostPlant.I–Effectsofwaterstressinhostplantsininfestation byAphisfabaeScop., Myzus persicae Sulz. and Brevicoryne brassicae L. “Nature”, vol. 213,no5O80, p. 1052. II – Effects of water stress in host plant on the fecundity ofMyzuspersicaeSulz.andBrevicorynebrassicaeL.“Nature”,vol.213,nº5080,p. 1052.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S239
  • CAPÍTULO VIIA CORREÇÃO DAS CARÊNCIAS COMOTERAPÊUTICA DAS DOENÇAS“Segundo SEZARY, os medicamentos ditos específicos, como o mercúrio, nãoseriam específicos em relação aos germes patológicos, mas apenas agiriam nasreações do organismo. Em outras palavras, mercúrio, bismuto e arsênico nãomatariam o agente microbiano — o espiroqueta — mas aumentariam a vitalida-de do organismo, de tal forma que este encontraria no medicamento um auxíliopara lutar contra a infecção. É a razão por que estes medicamentos podem curarlúpus, psoríase, reumatismo blenorrágico, erisipela, asma etc.”.Dr. Albert LEPRINCE (La Médicine Electronique)“Uma proveitosa via de proteção da planta seria aberta se tivéssemos mais infor-mações sobre os mecanismos naturais da resistência às doenças. Produtos quími-cos sistêmicos, capazes de alterar o metabolismo da planta para induzir aresistência, poderiam encontrar um lugar de destaque, para proteger os vegetais”.Joseph KUC (The plant fights back, 1961)“O controle de Oidium (dos cereais) pode ser enfrentado com a ajuda de umnúmero considerável de produtos, mesmo os mais simples, desde que sejam acom-panhados de um tensoativo. Este tipo de controle, teria a particularidade de quea escolha do produto seria baseada, em primeiro lugar, numa outra qualidade quenão o seu valor fungicida, ou seja, seu valor nutritivo”.G. PARMENTIER (Parasitica, XXV, nº 3, 1969)
  • 242F R A N C I S C H A B O U S S O U1. CARÊNCIAS E DOENÇASUm agrônomo, no sentido estrito da palavra, observou: “Não seexclui que existem relações entre as carências e determinadas doenças,especialmente bacterianas e viróticas. As doenças podem favorecer asmanifestações de carência e vice-versa. Por exemplo, as árvores com carên-cia de boro ou zinco poderiam ser mais sensíveis a determinadas doençasviróticas ou bacterianas”. (TROCMÉ, 1964.)É curioso que esta aproximação não tenha incitado os patologis-tas a certos questionamentos, especialmente, de saberem se, efetiva-mente, não haveria relação de causa e efeito entre carência e patogenia,além da convergência de sintomas. Acreditamos não haver dúvida deque a carência antes e, depois da doença, constituem uma seqüênciaobrigatória. Propomo-nos a dar vários exemplos, a seguir:1. Em relação à videiraCOOK e GOHEEN (1961) observam, no momento da colhei-ta, a similaridade de sintomas nas cepas com enrolamento foliar e nasvideiras com carência de potássio. Na análise, nota-se, os dois tiposde videiras mostram carências de K e Mg, que são praticamente idên-ticas nos limbos. A única diferença, no caso do enrolamento, é queo K se acumula nos pecíolos e a concentração de Mg, aí, é baixa. Épraticamente o inverso que ocorre com carência apenas de K.2. Ora, sempre com a videiraOs fenômenos desse tipo, põe como causa as carências no de-senvolvimento de doenças viróticas, que poderiam ser muito maisfreqüentes do que, geralmente, se imagina. Parece significativo que,em Latresne,*DELAS e MOLOT (1967) tenham observado que:“O vinhedo apresenta numerosos ataques de doenças viróticas: as ma-nifestações que elas provocam (descolorações, enrolamentos, modifica-*Trata-se do vinhedo experimental do INRA, Bordeaux.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S243ções da forma das folhas), tornaram mais difícil a identificação dossintomas de carência”.Esta confusão seria bastante lógica se, como se pode pensar, ascarências estiverem na origem do desencadeamento das doençasviróticas, como acontece seguidamente, toda a dificuldade consisteem determinar o limite entre a causa e o efeito. Mas, prosseguimos.3. Carência de boro e chumbo da videiraBRANAS (1971) registra que a carência de boro provoca o“chumbo” da videira. Ele observa que se trata de um enfraquecimentocurável pelo transplante para um terreno com nutrição mais favorá-vel ou por aporte de boro nas folhas ou no solo.Essa carência foi identificada, em Portugal, como a doença da“Maromba” do vale do Douro.Falaremos do boro e de outros oligoelementos mais adiante. Énecessário registrar que, também é a carência do solo em boro que estána origem de uma doença da beterraba, isto é, da instalação de umfungo patógeno, o Phoma betae.4. Carência de boro e “vírula” do damasqueiroPENA e AYUSO (1970) observaram que “diferentes razões levama pensar em uma origem viral, mas a evolução da doença e o resultadodas análises foliares conduzem à hipótese de uma carência de boro”.Os autores ainda raciocinam, aqui também, como se estas duaseventualidades sejam excludentes entre si, mas tudo leva a crer que umaé conseqüência da outra. Depois, PENA e AYUSO (op. cit.) propuse-ram-se a estudar as incidências dos aportes de boro no solo, em rela-ção ao eventual restabelecimento das árvores atingidas. Eles notaramindícios de uma interação vírus carência no boro. Infelizmente, apesarde nossos esforços, não pudemos obter os resultados de seus trabalhos.À primeira vista, parece mais racional corrigir a carência de umoligoelemento diretamente no solo, porque se conhece as quantidades
  • 244F R A N C I S C H A B O U S S O Uque se coloca. Contudo, os resultados são aleatórios, porque não sesabe se a planta realmente pôde absorver, devido a eventuais fenôme-nos de bloqueio. Ao contrário, as pulverizações foliares dão resultadosmuito mais rápidos no que diz respeito à identificação de uma carên-cia. Voltaremos ao assunto, no próximo capítulo.5. Carência de cobre e swollen shoot virus do cacau*LOCKARD e ASOMANING (1965), trabalhando com nutri-ção de cacau (Theobroma cacao), observam o inchamento de brotosem plantas com carência de cobre, que se parecem com os causadospelo swollen shoot virus. Isto leva os autores a sugerirem a hipótese deuma interação: nutrição vírus no cacau.Entretanto, esses autores propõem uma seqüência inversa à nos-sa, a saber: o vírus competindo com a planta por alguns de seusprodutos metabólicos, provocaria uma deficiência de cobre, daí ossintomas observados. Todavia, seus experimentos não conseguiramconfirmar esta hipótese. Mas eles constataram o agravamento dadoença na ausência de luz, isto é, por falta de energia recebida pelaplanta. É a confirmação de que a doença estaria relacionada a umadeficiência da proteossíntese, e que a causa primária da aparição do vírusseria exatamente a carência de cobre, pois sabemos o papel desseoligoelemento, para a proteossíntese.6. Enfraquecimento de macieiras na ItáliaREFATITI et alii. (1970) constataram, a partir de 1965, enfra-quecimentos das macieiras, numa região restrita da província deSondio, na Itália. Os sintomas são: definhamento dos brotos, provi-dos de raras folhas de cor verde-pálida, levemente enroladas; os*A grafia, no original de Chaboussou, cita os nomes das viroses em inglês, mastrazemos significados como, “Vírus do inchamento do ramo do cacau”, não ocorreno Brasil, Ceplac, 2006. (N. do R.).
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S245corimbos, freqüentemente incompletos, apresentam alterações na corde suas pétalas; a colheita, evidentemente, é reduzida e de medíocrequalidade.Até então nenhuma infecção fúngica ou bacteriana havia sidoregistrada nas árvores enfraquecidas. Em compensação, “sintomasde Stem Pitting Virus Disease*e de Blister Bark*(dois vírus) haviamsido observados sobre os galhos principais e o tronco. O fenôme-no foi detectado sobre árvores de todas as idades, a partir de cincoanos.Os autores consideram estranho que a doença só afete uma árealimitada e de cultivo relativamente recente. Observam que as condi-ções ambientais não parecem muito diferentes das de outros cultivosde macieiras na Itália.Como não questionara natureza do solo, já que, às vezes, de ummetro para o outro a concentração em oligoelementos é extremamentevariável? Um congressista que assistia a esta comunicação observouque tinha encontrado sintomas semelhantes, em pereiras, onde osindicadores revelaram a presença de vírus latentes.Ora, vimos anteriormente, que é necessário entender esta noção:numerosos fatos nos fazem pensar que a doença pode ser desencadeadapor determinados fatores ambientais, por intermédio da nutrição e, semnecessidade de infecção prévia.Outra razão de suspeitar de carências como origem desta doen-ça é que esses pesquisadores obtiveram uma “cura” através de pulveriza-ções à base de produtos cúpricos e com zinco. Penetrando na planta eagindo como medicamentos internos, como já sugerimos e como tratare-mos adiante, esses elementos poderiam ser a origem da resistência, pelamodificação benéfica do metabolismo da planta.*“Vírus da acanaladura do tronco”. Sarasola e Sarasola, 1975. (N. do R.)*“Vírus da pústula da casca”. Sarasola e Sarasola, 1975. (N. do R.)
  • 246F R A N C I S C H A B O U S S O U2. A TERAPÊUTICA PELA CORREÇÃO DE CARÊNCIASA) Correção de macroelementosComo vimos no capítulo anterior, conforme o caso, o aporte deK ou Ca no solo estimula a resistência da planta. A correção da ca-rência produz um novo equilíbrio nos elementos catiônicos, especi-almente na relação K/Ca, que parece ser uma das mais importantes.Assim, NGUYEN et alii. (1972), em seus trabalhos sobre “ainfluência da adubação nitrogenada, fosfatada e potássica na incor-poração dos aminoácidos às proteínas e os rendimentos da alfafa”,concluem que: “A fertilização com K aumentou levemente a concentra-ção de N total, diminuiu o acúmulo dos aminoácidos livres e favoreceu suaincorporação às proteínas”.O problema é que esse equilíbrio é difícil de ser conseguido atra-vés de adubos solúveis. A própria adubação potássica, benéfica nestecaso, pode ser nefasta em outros, por exemplo, afetando a fixação denitrogênio pelo Rhizobium leguminosarum, provavelmente pela des-truição desta bactéria (KOCH e MENGEL, 1972).Também está bem estabelecido, sem dúvida, por um processoanálogo, que as aplicações de nitrogênio solúvel dificultam ou inibemtotalmente a fixação do nitrogênio atmosférico. Assim, na fertiliza-ção das pastagens que tenham leguminosas,seria necessário evitar autilização de nitrogênio na forma solúvel, sob pena de vê-las desapa-recerem.Esses fatos, há muito constatados pelos agrobiologistas, fizeramcom que se banissem todos os adubos solúveis, com alguma aparên-cia de razão.Os adubos provocam repercussões múltiplas, diretamente sobre anutrição imediata da planta e, indiretamente, sobre a vida e fertilida-de do solo, pela ação tóxica sobre os microrganismos. Se o adubo foidistribuído ao nível do solo, torna-se impossível a generalização dosefeitos desta ou daquela correção, em relação à resistência da planta.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S247O mesmo não ocorre quando os elementos nutricionais são for-necidos à planta sob forma de pulverizações foliares, especialmenteno caso dos oligoelementos.B) Correção do elementos menores ou oligoelementosJá tivemos a oportunidade, especialmente ao longo do segundocapítulo, de mostrar toda a importância dos oligoelementos na resis-tência da planta. Isso se explica, por seu papel nas “máquinas ferra-mentas” que são as enzimas e, portanto, sua importância no fenômenoda proteossíntese, ligado à resistência.Entretanto, antes de analisarmos o modo de ação de determina-dos fungicidas clássicos, veremos exemplos de controle de doenças ouinsetos, pela simples ação dos oligoelementos.1. Oligoelementos e brusone do arrozPRIMAVESI et alii. (1972) dedicaram-se ao controle destamoléstia durante vários anos. Observando que ela se torna cada vezmais devastadora em todo o mundo, eles citam que dois autores,SALLEBERRY-RIBEIRO 1970) e SANCHEZ NEIRA (1970) ve-rificaram a ineficácia dos fungicidas. Não é, pois, a primeira vez queencontramos constatações igualmente desiludidas. Assim, eles reco-mendam, finalmente, correções equilibradas, como medida preventiva.PRIMAVESI et alii. (op. cit.) puderam mostras as influênciasbenéficas do manganês e do cobre. Este último elemento aumentoua quantidade e a qualidade da colheita. Eles chegam a esta importanteconclusão: “É evidente que a contaminação da semente, do solo e daágua, pelos esporos de Pyricularia não tem influência sobre a saúde daplanta quando a nutrição está equilibrada. Mesmo em variedades susce-tíveis a doença não sobrevive. Pode-se admitir que os níveis de 18 ppm demanganês e 2 ppm de cobre são suficientes para manter as plantas em bomestado de saúde nos solos estudados”.
  • 248F R A N C I S C H A B O U S S O USão estudos de diversos anos, com conclusões categóricas e atérevolucionárias: “É evidente, dizem eles, que nem o clima, que nostrês primeiros anos mostrou-se muito favorável à Pyricularia oryzae,permitindo o desenvolvimento da doença nas diferentes regiões doEstado [no Brasil], nem a presença de esporos podem ser respon-sáveis pelos ataques devastadores nas lavouras de arroz. Odesequilíbrio mineral, que torna a planta suscetível ao ataque, pareceser o fator decisivo”.Seria difícil ressaltar com mais vigor e clareza a importância doestado fisiológico da planta na sua resistência à doença.Quanto à ineficácia dos fungicidas, assinalada por diversos autores- e que concorda com as observações, do mesmo gênero, os cereais(PARMENTIER, op. cit.) e as árvores frutíferas (SOENEN, op. cit.)– ela se explica realmente pelo fato de que os produtos comerciais,normalmente usados, não modificariam a fisiologia do arroz numsentido favorável, ao nível da proteossíntese.Parece ocorrer o contrário com os oligoelementos que, colocadosno solo, têm ação sobre a nutrição da planta. Isto, veremos agora,confirmado por alguns exemplos.2. Os Oligoelementos e a requeima da batataMUDICH (1967) recorda que, segundo GALILOV, a suscetibi-lidade da batata às doenças pode ser reduzida com a aplicação, no solo,de determinados oligoelementos, como Cu, Mn, B e Zn. MUDICHrealizou experimentos para estudar os efeitos do aporte simultâneo dediversos oligoelementos com o superfosfato, em relação à requeima.Ora, nesses experimentos, só o molibdênio, ao contrário do Cu,Zn e Mn provocou um decréscimo na sensibilidade da batata à re-queima.Segundo MUDICH (op. cit.), os oligoelementos só favorecem asaúde da planta se utilizados juntamente com um adubo dito “debase”. De certa forma os oligoelementos agem como “catalisadores”,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S249estimulando a atividade das enzimas e, conseqüentemente, acelerandoa elaboração de proteínas e substâncias de reserva, a partir dosmacroelementos.Assim, relembramos que, o molibdênio favorece simultaneamentea fixação microbiológica do nitrogênio, a amonificação e, enfim, o índi-ce de nitrificação. Através do índice de nitrificação se pode ter uma boaavaliação da atividade biológica global do solo.3. Os Oligoelementos e “enrolamento do lúpulo”PRUSA (1965) observa, antes de tudo, que as experiências parademonstrar o caráter infeccioso da doença não puderam provar suaorigem virótica. Mas, foi possível, o autor estabelecer, claramente, arelação entre as condições de nutrição e a variabilidade das manifes-tações externas da doença.PRUSA (op. cit.), pôde igualmente estabelecer, num experimentode campo, que a doença foi inibida pela aplicação de sais de diferen-tes elementos, sobretudo, B, Mg, Mn, Ni, I e Zn.Por outro lado, as análises de folhas mostram nas plantas doen-tes, um conteúdo mais baixo de zinco e uma concentração mais eleva-da de P, K e Ca. As diferenças em relação aos outros elementos sãovariáveis.Na Alemanha Federal, esses resultados levaram a combater adoença com preparados e “fungicidas” à base de zinco, como sulfatode zinco e Zineb, que agem indiretamente sobre o metabolismo daplanta.Estes tratamentos substituem os fungicidas clássicos à base de cobre,que aumentam a intensidade da doença causada por Pseudoperonospora.Efeitos similares ao do zinco podem ser obtidos com boro emagnésio. Nas plantas doentes o teor destes elementos é mais baixoque nas sãs.Este novo exemplo de controle por tratamento à base deoligoelementos confirma a estimulação da resistência pela modifica-
  • 250F R A N C I S C H A B O U S S O Ução benéfica da fisiologia da planta. O próprio autor reconhece quese trata de uma “terapia sintomática” da doença.O agravamento da doença pelos produtos cúpricos nos leva aquestionar se, na maioria dos casos, ou até em sua totalidade, osprodutos antifúngicos não teriam ação indireta. É o que nos propo-mos analisar no próximo parágrafo.4. Oligoelementos, pulgões e doenças viróticas.RUSSEL(1972) observa que a resistência ao vírus da icterícia dabeterraba,*compreende diversas formas:– a resistência aos pulgões vetores do vírus;– a resistência à inoculação dos vírus;– a tolerância aos vírus.Esse mesmo autor observa, “cada uma delas pode ser afetada pordiversos fatores, capazes de diminuir seriamente a resistência. Porexemplo, os fatores que modificam a concentração de glicídios eaminoácidos nas folhas afetam a resistência aos pulgões, bem como aresistência à inoculação do vírus”.RUSSEL (op. cit.) observa que “a resistência também é afetadavariando-se as concentrações de certos macro ou oligoelementos nosolo”.Assim, os sais de lítio, zinco ou níquel estimulam o estabeleci-mento dos pulgões na planta, enquanto o boro repele os afídeosA transmissão do vírus seria aumentada pelo lítio e boro masinibida pelo cobre e zinco.RUSSEL (op. cit:) sugere que os oligoelementos podem agir di-retamente sobre o ataque de pulgões, e indiretamente modificando ometabolismo dos tecidos foliares. Considerando-se o comportamento dospulgões, os dois fenômenos devem estar estreitamente ligados.Estes*Icterícia, ou amarelecimento, da beterraba é causado pelo vírus BYV (Valíela,1969). (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S251insetos se nutrem e preferem substâncias solúveis. Por esta razão, sejaem folhas muito jovens, seja em senescentes ricas em substâncias so-lúveis, eles serão mais atraídos pelas plantas atacadas por vírus, por-que elas encontram-se em estado de proteólise dominante. Aliás, suafecundidade é superior em plantas com virose do que em plantas sa-dias.Um fato parece confirmar este ponto de vista: o boro, que repeleo ataque de pulgões, também é o oligoelemento cuja carência é res-ponsável pela doença do coração da beterraba, provocada por Phomabetae. Como mencionei antes, esta afecção é eficazmente controladacom incorporações no solo de borato de sódio, Bórax.É um exemplo onde a melhoria da resistência da planta à moléstiaparece concordar com sua imunidade relativa ao pulgão. Quandoestudarmos o papel do boro na fisiologia da planta, veremos que setrata de um efeito positivo desse oligoelemento sobre a proteossíntese,de acordo com nossa teoria.*3. EFICÁCIA DOS FUNGICIDAS CLÁSSICOS COMOCORRETIVOS DE CARÊNCIASA) o caso da calda bordalesaEm sua obra, clarividente, A evolução científica e a agriculturafrancesa, DEMOLON observa que a calda bordalesa clássica a 2%,formulada por MILLARDET, em 1886, não pôde ser igualada. Pros-seguindo, ele sublinha: “Se, desde essa época, foram realizados pro-gressos quanto à época e modo de aplicação(contra o míldio), omesmo não ocorreu com a explicação do papel aparentemente espe-cífico do cobre. Quando as pesquisas identificarem o mecanismo de ação*Não se pode esquecer que a fisiologia da planta depende de sua fertilização e dainfluência dos agrotóxicos aplicados. Por exemplo, na beterraba, não adiantariadosar bem os oligoelementos se os agrotóxicos, eventualmente aplicados, dessemum efeito contrário.
  • 252F R A N C I S C H A B O U S S O Udo cobre, poderão se abrir novas vias capazes de conduzir mais longe emelhorar uma situação que, por mais satisfatória que seja, penaliza aviticultura com elevados custo”.Como se pode constatar, estas linhas, escritas em 1946, aindapermanecem atuais.Entretanto, é hora de questionarmos determina-das dificuldades inerentes ao modo de ação do cobre e da caldabordalesa. Sua origem é, como se sabe, essencialmente empírica:percebeu-se que as videiras das extremidades das fileiras, aspergidascom sulfato de cobre para afastar os gatunos, não sofriam com omíldio, quando comparadas às outras.Resumindo brevemente a questão, diremos que a dificuldadepara explicar a ação, em princípio fungicida, deste preparado, resi-dia na insolubilidade em água, dos produtos depositados ou transforma-dos na superfície da folha. Numerosas teorias foram propostas, masnenhuma é realmente convincente.SOMERS (1965), especialmente, questionou “como o cobre temconcentração tóxica suficiente para atacar o fungo (esporo), quandoa solubilidade de calda bordalesa pulverizada é tão baixa”. Ele chegaaté a concluir que a formação de complexos cúpricos, a partir de reaçõesentre a calda bordalesa e os exsudatos da folha ou do esporo reduzem aapreensão de cobre pelo esporo. Esse autor acredita que os complexoshidrossolúveis de cobre, existentes na calda bordalesa, são menoseficazes do que o ânion cúprico livre, na penetração do esporo. É umaposição ainda vigente.É necessário, igualmente, expor a posição de VILLEDIEU (1920-1932), mesmo que seja uma opinião controvertida. Ele diz que a açãoda calda bordalesa seria, na realidade, devido à cal livre que contém.Ele teria demonstrado que o cobre não se dissolve na água da chuva,ou que a pequena quantidade dissolvida é impotente para matar osesporos do míldio.Baseando-se em SCHAFFNIT, VILLEDIEU reitera que o míldioabsolutamente não se acostuma ao cobre, como havia sido sugerido,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S253mas que “o abuso dos adubos químicos, especialmente o excesso de nitro-gênio, que a uma nutrição desequilibrada, torna o.vinhedo muito maissensível aos ataques de míldio e até de oídio”.Esta observação nos conduz de volta à questão das relações:Planta --------Parasita --------AgrotóxicosOs trabalhos de PANTANELLI (1921), referentes ao míldio,mostraram a sensibilidade da folha, em relação ao fungo parasita: “Acomposição mais favorável ao ataque é caracterizada por uma forteproporção de açúcar, comparado ao amido, e de compostosnitrogenados e fosforados, relativamente insolúveis, isto é, em rela-ção à albumina, nucleínas e protídeos. Os ácidos livres parecem nãoter importância”.Em outras palavras, o míldio não é exceção à regra nutricional dosorganismos patógenos: ele só se desenvolveria às expensas de substân-cias solúveis encontradas na planta-hospedeira. Aliás, é a razão pela qualas folhas “adultas” são mais atacadas no outono e pouco suscetíveis noverão, enquanto as folhas muito jovens permanecem sem danos. Isto se deveà ausência quase completa de compostos nitrogenados solúveis na água.*É necessário saber em que medida o complexo sulfato de cobre-calda calda bordalesa altera a fisiologia da videira e explica uma eventualresistência, induzida indiretamente. De acordo com resultados recen-tes, parece que esse processo poderia, efetivamente, existir.PINON (1977) constatou: “A análise das folhas colhidas no fimda floração revela uma influência dos fungicidas antimíldio. Os teo-res de nitrogênio total e solúvel das folhas são menos elevados, no caso dotratamento com calda bordalesa”.*Segundo CHAMPIGNY (1960), em Bryophyllum daigremontianum a relação Nprotéico/N dos aminoácidos é de 17,4, nas folhas muito jovens; 15,9 nas jovens e28,8 nas adultas.
  • 254F R A N C I S C H A B O U S S O UIsto significa, pois, que a calda bordalesa mostrou um melhor efeitosobre a proteossíntese do que os outros produtos testados. Isto pode-ria explicar a causa de sua eficácia, concordando com nossa teoria.B) O caso do EnxofreJá comentamos no capítulo quarto o caso do enxofre. Parececomprovado que sua eficácia reside, principalmente, na sua açãopositiva sobre a proteossíntese. O enxofre elementar, aplicado sobre asplantas, é encontrado em suas proteínas. Isto, aliás, não escapou àobsevação de certos agricultores, que notaram o seu efeito benéfico sobre avegetação da planta. Por outro lado, ele também pode agir sobre a resis-tência da planta através da fertilização do solo. Um exemplo nos é dadopela colza.*Há alguns anos, na região de Landes, Gasconha, desenvolvem-senovas culturas, especialmente a colza. A implantação dessa oleaginosanesses solos leves, ácidos e altamente podzolizados, ao invés doshabituais solos calcários, exigiu pesquisas relacionadas às correções.As pesquisas realizadas pelo Centro de Pesquisa do INRA – Bordeaux,que foram objeto de comunicação à Academia de Agricultura(COURPRON et alii., 1973), podem ser assim resumidas: A seme-adura de colza (variedade Sarepta) foi realizada em meados de outu-bro, na quantidade de 4 kg de semente/ha. O aporte de cal teveinfluência reduzida nos rendimentos. Ao contrário, a adubação comenxofre levou a um aumento da produção de 150% sobre a testemunha,fosse qual fosse a dose utilizada (50 a 100 kg/ha, em forma de sulfa-to de amônia, distribuído em diferentes épocas).Quanto às causas desse fenômeno, cremos melhor dar a palavraaos pesquisadores: “Nas condições particulares deste experimento, oefeito espetacular do aporte de enxofre é explicado pela correção dacarência do solo neste elemento, mas, sem dúvida, também, porque*A colza também é chamada de canola (canadá). (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S255esta adubação, favorecendo o crescimento da colza, protegeu-a de umataque severo da mosca das sementeiras (Phorbia platura). Observou-seque, no momento da floração, as manifestações deste ataque (dessecamentoparcial ou total da inflorescência e mal formações do talo) eram muitomais numerosas nas parcelas testemunhas que nas que receberam sulfatode amônia. Levantamentos efetuados em diferentes estágiosvegetativos confirmam a clara diferença entre o desenvolvimento dasplantas das parcelas que receberam enxofre e o das plantas proveni-entes das parcelas testemunhas”.Em resumo, a adubação, à base de enxofre, ou seja, a incorpora-ção no solo de um elemento indispensável ao crescimento da plantaprovocou, simultaneamente, um aumento espetacular dos rendimen-tos e uma resistência aos ataques da mosca.Isto se explica, em defi-nitivo, pelo efeito positivo da incorporação do enxofre sobre o nívelda proteossíntese.C) Como atua o Maneb?Ao longo do quarto capítulo, vimos que SOMERS e RICH-MOND (1962), testando Captan nas raízes de feijão, contraBotrytis, concluíram que sua ação antifúngica resultava da repercus-são do produto sobre o metabolismo do hospedeiro. Ocorreria omesmo quando os outros produtos sintéticos mostram-se eficazes?O caso do Maneb foi estudado por fitofarmacêuticos do INRA.VIEL e CHANCOGNE (1966) observam que as suspensões deManeb na água absorvem oxigênio e que ocorre uma decomposição,com solubilização do manganês. Segundo os autores, nenhum dosprodutos da decomposição estudados mostrou atividade suficiente,em relação aos esporos, para explicar “o poder fungicida do Maneb”.A presença de monosulfeto de etileno tiuram não é suficiente paraexplicar a ação do Maneb. VIEL e CHANCOGNE concluem: “Éprovável que exista um produto intermediário de decomposição,pouco estável, o qual não conseguimos identificar”.
  • 256F R A N C I S C H A B O U S S O UÉ difícil conceber que um produto pouco estável, fugaz, possamostrar qualquer eficácia. Não seria melhor pesquisar a ação domanganês sobre a planta? Os próprios autores observam que esteelemento se solubiliza. Evidentemente, a solubilização favorece suapenetração nos tecidos e, conseqüentemente, sua ação em relação àresistência aos fungos patógenos – benéfica ou nefasta, segundo a dosee as repetições dos tratamentos.O estudo dos oligoelementos em relação à fisiologia da planta nospermitirá entender melhor seu modo de ação na estimulação da re-sistência e a maneira pela qual podemos utilizá-los para este fim.4. OS OLIGOELEMENTOS NA FISIOLOGIA E NARESISTÊNCIA DA PLANTAA) Como abordar o problemaAinda temos muito que aprender sobre o papel dos diversosoligoelementos na fisiologia e, portanto, na resistência da planta a seusdiversos agressores. Sabemos que são indispensáveis à proteossíntesee que sua ação positiva neste processo é seguramente favorável. Inver-samente, toda a carência provoca uma inibição da proteossíntese e odesencadeamento de doenças, segundo um mecanismo que seriasupérfluo repetir.Estas inibições no crescimento, fenômeno geral provocado portoda a carência, tornam difícil e até quase impossível determinar,apenas pelos sintomas, exatamente qual elemento que está em falta.Exemplo: confusões possíveis entre carências em ferro e manganês eentre potássio e magnésio.Sabemos também, da necessidade de um equilíbrio entre macro emicroelementos, ao nível da planta, como vimos no caso de helmintos-poriose no arroz. É útil entrar em alguns detalhes deste assunto.Diversos pesquisadores encontraram uma estreita relação positivaentre a concentração em aminoácidos dibásicos nas folhas do arroz e
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S257o crescimento do tamanho das manchas de Helmintosporium. Sãoregistradas quantidades importantes de aminoácidos dibásicos e umnúmero elevado de manchas de helmintosporiose nas parcelas comcarência de K e de N. Um dos aspectos do problema é encontrar umequilíbrio K/N conveniente.Por outro lado, SHIGEYASU Akai (1962) também observa quea sensibilidade à helmintosporiose diminui com a aplicação de iodo, zincoou manganês. (São mais dois oligoelementos, I e Zn, que parecemconfirmar os resultados benéficos obtidos por PRIMAVESI et alii.(1972) com o cobre e manganês, no solo.)Observando que a carência de Mg, ou o excesso de P, ou a adiçãode Co aumentam a sensibilidade do arroz a esse fungo, SHIGEYASUAkai conclui: “não é possível discutir a proteção do arroz através daadubação apenas pelo ângulo do potássio”.É a procura de um equilíbrio entre os macroelementos e, destes,com os oligoelementos necessários à planta que permitirá chegar-sea um ótimo de proteossíntese. Antes, é necessário nos afastarmos doempirismo em que ainda nos encontramos, revisando o que sabemossobre o metabolismo dos oligoelementos.B) Classificação dos oligoelementos – Sinergismos e antagonismos –Lei do ótimo de concentração nutritivaPara julgar o papel dos oligoelementos, como assinalava COIC,“basta saber que são indispensáveis ao funcionamento das máquinas-ferramentas, como são chamadas as enzimas que presidem a fabricaçãode peças soltas do metabolismo”. Isto o leva a distinguir os elementosque são integralmente parte da enzima dos que são simplesmenteativadores. Estes últimos não apresentam, pois, ação especifica, já quepodem ser substituídos por um outro elemento.Ferro, cobre, zinco e molibdênio fazem parte do primeiro grupo;manganês, cloro e boro, do segundo.Um dos aspectos que nos interessa diretamente, referente às re-
  • 258F R A N C I S C H A B O U S S O Upercussões dos oligoelementos sobre a fisiologia da planta, reside nassuas relações com os outros elementos e entre eles próprios. Assim,essas ações parecem de ordem sinérgica.É assim que encontramos, freqüentemente, associados em suaação, o cobre eo manganês.PILAND e WILLIS (1937) constatam que o trigo cultivado emsolução hidropônica tem seu crescimento afetado quando as soluçõesnutritivas contêm só cobre ou só manganês – mesmo na presença depapel-filtro, que pode ser visto como a matéria orgânica necessária.Quando os dois elementos estão presentes, o crescimento está asse-gurado.São concentrações precisas de cobre e manganês no solo, obtidasatravés de uma fertilização e nutrição adequadas, que PRIMAVESIet alii. (1972) associam à estimulação da resistência do arroz àPyricularia oryzae.Estes resultados aproximam-se de determinados efeitos antifún-gicos obtidos com fórmulas mistas organo-cúpricas de cobre, manganêsou zinco, nas quais os produtos ativos estão presentes em doses bai-xas, sendo ineficazes, se utilizados sozinhos. Por isto questionamos senão se trata de uma ação indireta de tais fórmulas, que passaria, obri-gatoriamente, por uma modificação benéfica da fisiologia da planta.Segundo nossa concepção, isto consistiria numa estimulação daproteossíntese.Em outras palavras, não se trataria da adição de eventuais efeitostóxicos, já que cada um dos elementos é utilizado abaixo do nível deeficácia, mas sim de uma ação sinergética dos oligoelementos sobrea proteossíntese, com o respectivo aumento da resistência.Os efeitos tóxicos provocados na planta pela repetição dos trata-mentos parecem justificar esta posição, assunto que abordaremos nosquarto e quinto capítulos.Sinergismo e antagonismo entre elementos são noções muito pró-ximas e, freqüentemente, difíceis de separar. Assim, se Mn e Cu são
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S259capazes de agir sobre a resistência da planta, provavelmente porsinergia, estes dois oligoelementos são antagonistas no metabolismo,exatamente como cobre e boro ou zinco e cádmio.Como nos macroelementos – relação KCa, por exemplo –, en-contramos a noção de equilíbrio, que, por sua vez, está relacionadacom a “lei do ótimo de concentração nutritiva” elaborada por GabrielBERTRAND.Trabalhando com o manganês, G. BERTRAND conseguiu esta-belecer que o efeito deste oligo-elemento cresce com a quantidadeutilizada. Contudo, isto só é válido dentro de certos limites: acimade uma determinada dose, as plantas são cada vez menores e menosviçosas. Em resumo, obtém-se um máximo de efeito num ótimo de con-centração, que nem sempre é a mais elevada.É uma lei que se deveria ter presente quando são utilizadosoligoelementos para a proteção da planta, uma vez que, agindo sobreo metabolismo, as repercussões destes produtos podem ser de interesse fun-damental em relação à sua resistência.Grosso modo, três casos podem ocorrer:a) O primeiro é o que acabamos de ver: ressalvando-se que asnecessidades são diferentes segundo a natureza da planta e efeitoalmejado, existe um ótimo na quantidade utilizada para o crescimen-to da planta. Por exemplo, as leguminosas exigem mais molibdênioque as gramíneas, mas a planta não tem tendência à saturação;b) A toxicidade é marcante nas concentrações dos elementos que malultrapassam o valor “ótimo”. É o caso do boro, em relação à beterraba;c) O terceiro caso, bastante raro, é quando o elemento pratica-mente não é tóxico, mesmo em doses fortes. Ele pode apresentar umefeito favorável, devido a um modo de ação diferente, chamado “dotipo farmacodinâmico”. O iodo, no homem e mamíferos, ilustra bemeste caso: um excesso de iodo jamais se torna muito grave.Contudo, um mesmo oligoelemento pode entrar em um ou outrocaso da lei do ótimo de concentração nutritiva, dependendo da es-
  • 260F R A N C I S C H A B O U S S O Upécie vegetal ou animal em questão. Isto é explicado, como observamGOUDOT e BERTRAND (1968), pelas diferenças nos sistemasenzimáticos existentes nos seres vivos.C) Equilíbrio entre oligoelementos e cálcioPela mesma razão, explica-se que os efeitos dos oligoelementosdependem de seus antagonismos com os outros elementos. A propó-sito das repercussões do cálcio utilizado como corretivo, vimos queSTALL (1963) obteve, como mostramos, reduções muito significa-tivas de ataques de Botrytis em folhas e frutos do tomate, graças acorreções com cal hidratada ou calcários dolomíticos. Contudo, elechama a atenção para o fato de que a doença aumenta, após determi-nadas pulverizações à base de oligoelementos, nas parcelas tratadascom uma dose média de cal hidratada, enquanto este fato não é cons-tatado nas parcelas tratadas com altas ou baixas doses.Isto explica a importância da natureza dos solos na resistência daplanta à doença. STALL (op. cit.) relaciona a distribuição de Botrytis,na Flórida, com a concentração de calcário no solo. A doença atacapouco nos solos calcário-alcalinos, sejam estes de origem natural ouresultantes de calagens repetidas.Aplicações de Maneb e Zineb, que devemos considerar comotratamentos com os oligoelementos manganês e zinco, respectivamen-te, provocam agravamento da doença nos solos pobres em cálcio, emenos nos solos calcários.Devemos observar que estas repercussões dependem do númeroe da freqüência das aplicações, isto é, definitivamente, da quanti-dade de olzgoelementos com que os tecidos foram artificialmente enri-quecidos. Os resultados de COX e WINFREE (1957), queapresentamos,(no capítulo cinco), explicam como esta acumulaçãopode ser nociva. Recordemos que, segundo as análises destes auto-res, após tratamentos com Zineb ou Nabam + sulfato de zinco, asfolhas jovens dos morangueiros tratados continham 3,5 vezes mais
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S261zinco que as testemunhas, enquanto que as velhas chegavam a 13vezes mais.Nessas condições, parece evidente que o ótimo de concentraçãonutritiva foi ultrapassado e, que as alterações no metabolismo domorangueiro não só podem sensibilizá-lo, em relação a Botrytis, mastambém em relação a outras doenças, como, Phytophthora e doençasviróticas, sendo que estas podem até aparecer antes.Algumas sementeiras de morangueiro, chegam a receber trintatratamentos com fungicidas, inseticidas e acaricidas! Os produtores, queacreditam estar seguros contra doenças e insetos, conseguem o resultadoinverso, sensibilizando os morangueiros em relação a Verticillium ePhytophthora.O melhor meio para não incorrer em tais erros é:• ter consciência de que todo o produto fitossanitário age,principalmente, sobre a fisiologia da planta e, que esta açãopode ser benéfica ou nefasta, se estimulam ou inibem aproteossíntese;• por outro lado, como se trata, em definitivo, de nutrir aplanta, adequar a distribuição das pulverizações nutritivasque são tratamentos à base de oligoelementos, durante osperíodos em que as necessidades nutricionais da planta sãoimportantes.É o que veremos a seguir.D) Equilíbrio entre oligoelementos e fósforoOutro antagonismo clássico é o de determinados oligoelementoscom o fósforo, como, por exemplo, Zn e PO4.O Mn, quando em boas condições, catalisa o transporte dosfosfatos; um excesso de P em relação ao equilíbrio Ca/Mg pode acar-retar uma carência de manganês, particularmente no pessegueiro.Aliás, está bem estabelecido que o excesso de correções calcáriaspodem tornar o manganês não assimilável.
  • 262F R A N C I S C H A B O U S S O UPor outro lado, sob certas condições, que precisariam ser melhordefinidas, os oligoelementos aumentam a concentração de P no te-cido das plantas e de diversos grupos de combinações fosfóricas, re-forçando, assim, a chegada do cálcio nas células. A partir do que se sabesobre o papel do cálcio, este fenômeno pode estar na origem daestimulação da resistência (POLJAKOV, 1972).Os efeitos benéficos do cálcio sobre a resistência da planta justifi-cam plenamente a sua presença nas fórmulas à base de oligoelementosdesenvolvidas por algumas firmas comerciais.Outras relações importantes dos oligoelementos referem-se aoboro. Por isso, vamos consagrar-lhe um estudo particular.E) O boro no metabolismo da plantaO papel do boro, como de resto, de outros oligoelementos, per-manece obscuro. Já vimos os graves efeitos que sua carência provocana planta. Inversamente, um aporte de boro na adubação do moran-gueiro estimula a acumulação da vitamina C (PISKUNOV, 1965).Os trabalhos de BAILEY e METTARGUE (1944) esclareceramum pouco a questão do papel do boro e de outros oligoelementos,como cobre, zinco, e manganês, estudados em tomate cultivado emsolução nutritiva.Esses pesquisadores trabalharam na influência desses elementosna atividade de diversas enzimas: catalase, invertase, oxidase eperoxidase. Antes de mais nada, a resposta das enzimas a estes ele-mentos depende da dose utilizada, que não é, necessariamente, amais alta, obedecendo à lei do ótimo de concentração nutritiva.• Três enzimas apresentam um máximo de atividade com 1ppm de zinco: são elas a peroxidase, a catalase e a oxidase;• Três enzimas apresentam o mesmo máximo com 1 ppm deboro: são a invertase, a peroxidase e a catalase (fig. 31).Duas enzimas, invertase e catalase, mostram a maior resposta àdose de 0,01 ppm de cobre.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S263Em relação ao manganês, se o ótimo de atividade da peroxidaseé a 1 ppm, esta dose provoca um efeito depressivo sobre as outras três.Esses autores não explicam tal fenômeno, mas observam que aperoxidase é uma enzima protéica a base de ferro e fósforo, e que fer-ro e manganês estão estreitamente associados na fisiologia da plan-ta. Portanto, o manganês poderia afetar o ferro, como mencionadoantes, , o que explica as dificuldades em separar os sintomas de ca-rência em ferro, das carências do manganês.Também, BAYLEY e METTARGUE chegaram a esta conclusão(op. cit.): “Estes resultados sugerem que as respostas enzimáticas são ex-pressões das condições metabólicas gerais da planta, antes que das influ-ências diretas dos oligoelementos sobre as enzimas. HEINICKE e NELLERsugerem que a atividade da catalase mede o estado metabólico dos tecidose pode servir como indicador das respostas fisiológicas das plantas ao seuambiente”.Esses autores também observam que a oxidase responde ao cobreporque a polifenol-oxidase é uma enzima protéica à base de cobre, maseste fato poderia ser uma exceção. Com efeito, WYND evidenciouuma uniformidade considerável das respostas da catalase, daperoxidase e da invertase em relação aos tratamentos com iodo.Assim, o iodo, como o manganês e o boro fariam parte dos ativadoresde enzimas. Isto explicaria seus efeitos benéficos sobre a resistência daplanta, já citados (ROUBINE e ARTSICHOVSKAIA, 1960;GARD, 1932).Ademais, como já citado, o iodo, não apresentando efeitos tóxi-cos mesmo em altas doses, poderia ser experimentado nos prepara-dos fitossanitários, já que na pior das hipóteses eles se mostrariaminofensivos. Quanto ao boro e, considerando nossas preocupaçõesreferentes á resistência da planta, está, atualmente estabelecido que,em razão das relações com a invertasa, ela pode afetar o mecanismodos glicídios e, em consequência, reforçar essa resistência, como vi-mos quando das carências desse elemento.
  • 264F R A N C I S C H A B O U S S O UVejamos uma nova prova com os trabalhos de RAJARATNAM(1971-1972): esse autor trabalhou com dendezeiro, que pode ser ata-cado por duas moléstias: Bud Rot*(broto vermelho) e Little Leaf*(fo-lha pequena). Estas duas afecções são, na realidade, dois estágios damesma doença. Alguns pesquisadores atribuem à carência de boro, eoutros, a ataques de agentes patogênicos ou de insetos. RAJARATNAMobserva que estes dois pontos de vista são corretos, porque o aumentoda suscetibilidade à doença pode, perfeitamente, sobrevir como umefeito secundário do estado bioquímico dos tecidos carentes em boro.(É, pois, um pesquisador que se une às nossas concepções...)No entanto, o autor vê a razão na ausência de polifenóis nostecidos – leucontocianinas – nos tecidos. Segundo sua opinião, estesprodutos estão associados à resistência a vírus, fungos parasitas e atéa ataques de insetos. RAJARATNAM se detém na teoria da resistên-cia associada à presença, na planta, de fatores tóxicos antagonistas aosparasitas.Acreditamos já ter demonstrado toda a fragilidade dessa posição. Narealidade, a presença de polifenóis, cuja toxicidade absolutamente nãofoi demonstrada, é, ao contrário, concomitante à carência de fatoresnutricionais. Veremos uma nova prova, com as pesquisas do próprioRAJARATNAM (1972) sobre as relações da nutrição em boro dodendezeiro e sua suscetibilidade a um tetranyque, Tetranychus piercei.Foram feitas culturas hidropônicas, com ou sem boro na soluçãonutritiva e artificialmente contaminadas pelo ácaro.As folhas das plantas cultivadas em solução sem boro foram as maisintensamente prejudicadas, sem que tenha sido detectada a leucocia-nidina. As das plantas cultivadas em solução com boro foram as menosatacadas, e, também, as que apresentaram mais leucocianidina.Contudo, e como já indicado antes, isto não comprova que apresença ou ausência de leucocianidina tenha relação de causa e efeito*Em inglês no original. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S265com o maior ou menor ataque de Tetranychus. Mas, a ação do borosobre o metabolismo dos glicídios e proteínas poderia estar relacio-nada com a nutrição dos ácaros. Isto é provado pelas repercussões dacarência de boro, que produz uma inibição do crescimento, isto é, daproteossíntese, provocando maior concentração de substâncias solúveisnos tecidos.Em resumo, estes resultados confirmam a validade da terapêu-tica pelo boro, desde que se considere a dose utilizada e o número detratamentos realizados. Isto a fim de não ultrapassar o ótimo deconcentração nutritiva, que poderia levar a níveis de toxicidade.Chegaremos a este resultado através de intervenções apenas nos pe-ríodos ditos “críticos” do ciclo fisiológico anual da planta em ques-tão. Essas épocas são caracterizadas por necessidades nutricionaisparticularmente elevadas. É a questão que vamos abordar, para ter-minar este capítulo.5. TRATAMENTOS “NUTRITIVOS” ATRAVÉS DEPULVERIZAÇÕES FOLIARESA) Os períodos críticos do ciclo anual da plantaA existência de períodos críticos no ciclo da planta cultivadaconstitui uma das bases de nossa teoria da trofobiose. Se em determi-nadas épocas as folhas se encontram mais sensíveis a ácaros, pulgõesou fungos patógenos, é porque estão numa fase em que a proteólisepredomina sobre a proteossíntese.Por exemplo, se considerarmos o caso das plantas perenes, comoa videira ou as árvores frutíferas, o estágio de botão floral caracteriza-se por uma síntese dominante, efetuada, sobretudo, a partir das reservasdo lenho constituídas no ano precedente.Ao contrário, no momento da formação da inflorescência, todas asfolhas perdem, simultaneamente, o poder de síntese e procedem, até,a uma certa decomposição de suas próprias proteínas. Assim, a planta
  • 266F R A N C I S C H A B O U S S O Uem estágio de floração e, mais ainda, em estágio de fruto jovem, émarcada por uma proteólise acentuada, com queda nítida do conteú-do protéico nas folhas maduras.Essa época de floração constitui, pois, um primeiro período desensibilidade acentuada para as plantas perenes.Para as rosáceas é a época sensível à sarna e, também aquela desensibilidade aos danos dos agrotóxicos, com riscos de rugosidade ourusseting.Nos cereais é o estágio sensível a Oidium e à ferrugem. Este pe-ríodo crítico se prolonga do estágio 3-4 folhas até a floração-espigamento. Trata-se de uma época difícil na alimentação da planta,especialmente para o manganês.É, também, o período em que as árvores frutíferas manifestamnecessidades nutricionais intensas, ou seja, os estágios D, F2 e 1 deFLECKINGER.Em relação à videira, estes estágios “famintos” corresponderiamao estágio G da formação do cacho (estágio de BAGGIOLINI), e aodo início da maturação.Contudo, parece que outras épocas podem se mostrar sensíveis,dependendo das necessidades nutricionais particulares da planta. Éo que vamos nos esforçar em destacar.B) Ciclo fisiológico da macieira e suas necessidades nutricionaisANDUS (1955) observa que na macieira existem dois valoresmínimos nos teores de auxinas (o zinco está ligado à síntese dasauxinas) correspondentes à queda de frutos: “queda de junho” e “que-da na maturidade”.Por outro lado, MASON e WITFIELD (1960), através de aná-lises de N, P, K, Ca e Mg, distinguem dois períodos especiais deatividade: fim de abril e fim de junho. São dois períodos em que osteores dos cinco elementos analisados mudam de forma apreciável nostecidos, ainda que por um curto espaço de tempo.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S267Estes dois períodos coincidiriam, portanto, de um lado, com umcrescimento rápido das folhas (abril)*e, de outro, com o momentode crescimento dos rebentos (junho).Pode-se presumir que estes dois períodos correspondem às neces-sidades nutricionais mais intensas das árvores e que, logicamente, énestas épocas que devem ser realizados tratamentos destinados acorrigir as carências e a nutrir as plantas (fig. 32).C) Ciclo fisiológico da videira e períodos de sensibilizaçãoDois grandes períodos podem ser distinguidos no ciclo anual davideira:1. Da brotação à parada de crescimento, que resulta na formaçãoda folhagem;2. Da parada de crescimento à queda das folhas: é o período deuma intensa proteossíntese, com elaboração de reservas glucídicas.A primeira fase é a época da floração, quando se encontra, comodissemos antes, o período sensível a doenças como míldio e Botrytis.A este respeito, é interessante analisar a fundamentação dos chama-dos “tratamentos de segurança”.Contestou-se a validade dessas intervenções, reprovando-se seuempirismo. Elas absolutamente não se baseavam na evolução doparasita – única considerada na fitopatologia clássica – mas na davideira. As restrições eram inerentes a esta ótica, que se baseia unica-mente no comportamento do patógeno em relação ao clima. Emoutras palavras, se abstraía o hospedeiro, que deve, obrigatoriamen-te, estar num estado bioquímico bem determinado para que o fun-go parasita possa se desenvolver. É o que vimos no início destecapítulo, analisando brevemente as repercussões da calda bordalesa.Entretanto, é necessário voltar a ela, para aprofundar a questão, namedida do possível.*Chaboussou refere-se ao Hemisfério Norte. (N. do R).
  • 268F R A N C I S C H A B O U S S O UI. Sobre a época das intervençõesSegundo a concepção de “tratamento geminado”, ou seja, dois trata-mentos com calda bordalesa*envolvendo a aparição e o desenvolvimen-to das inflorescências, MOREAU e VINET (1930) recomendavam:– um primeiro tratamento quando os botões florais começam ase separar, ou seja, o estágio H de BAGGIOLINI;– um segundo tratamento, dez a doze dias mais tarde.Esses mesmos autores observavam: “Após a floração, a ação dostratamentos de segurança continua a se exerce”. Isto dá, pois, a pensarque a eficácia prolongada destes tratamentos só poderia ter por ori-gem uma ação indireta sobre a resistência da videira, por repercussãosobre seu metabolismo.Ora, como nós vimos, efetivamente, que a calda bordalesa pro-voca uma regressão do nitrogênio total e solúvel na folha, fenômeno pro-vavelmente relacionado à resistência da videira, segundo nossa concepçãoda trofobiose.2. Sobre o modo de ação da calda bordalesaReiteradas vezes têm sido constatado que, em doses iguais decobre na calda, o oxicloreto de cobre sempre se mostra menos eficaz quea calda bordalesa, em relação a diversas doenças, especialmente omíldio (fig. 33). HORSFALL (1975) lembra que o óxido de cobredesprovido de cal não pôde controlar os insetos da batata, tão bem quantoa calda bordalesa e, conseqüentemente, não se obteve nenhum sucesso notratamento dessa planta.HORSFALL (op. cit.) observa que a calda bordalesa estimula abatata.*A qual, freqüentemente, adiciona-se arseniato de chumbo, contra as lagarta docacho – este produto pode ter uma ação antifúngica. (Chaboussou). No originalTordeuses de la grape. Tordeuse – nome de diversas borboletas (Tortricides), cujalargarta enrola as folhas das plantas em cartuchos, fazendo um estojo protetor(Petit, 1983) (N. do R.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S269Estas diferenças de repercussões, certamente associadas a suasincidências sobre a fisiologia da planta – como bem observaHORSFALL – devem corresponder a diferenças na composição dosprodutos. Especialmente, observa-se que o cálcio deve ter um gran-de papel na eficácia da calda bordalesa. Além disto, o enxofre dosulfato de cobre pode também ter uma influência benéfica naestimulação da planta, isto é, na proteossíntese.Assim, esta “associação” empírica de cobre, enxofre e cálcio, que cons-titui a calda bordalesa, poderia explicar sua notável eficácia em relação atoda uma gama de doenças, graças a seu efeito positivo sobre aproteossíntese.*Isto não significa que ela seja a última palavra em termosde tecnologia. Se é pela satisfação das necessidades nutricionais da plantaque agem os produtos fitossanitários quando se mostram eficazes (exce-ção feita aos venenos contra insetos), devem ser buscadas fórmulas espe-cíficas para cada tipo de planta e cada tipo de solo. É como procedemalgumas firmas que fabricam produtos nutricionais deste gênero.Queremos, ainda, recordar a propriedade “repelente” da caldabordalesa, diversas vezes apresentada, especialmente a propósito deLeptinotarsa sp.MURBACH (1967) realizou uma experiência interessante,exatamente relacionada a Leptinotarsa sp. Esse autor, numa experiên-cia precedente, havia constatado que, ao contrário dos produtoscúpricos, o Fentinacetato não tinha efeito repelente em relação aLeptinotarsa sp., mas provocava uma forte diminuição do número deposturas e de larvas, enquanto o Maneb parecia não ter qualquerinfluência.Assim, uma segunda experiência foi realizada. Estavam sendocomparados: Oxicloreto de cobre (e não calda bordalesa), Fentinacetato,Maneb e testemunha.*A calda bordalesa, fungicida clássico contra o míldio da videira é igualmente eficazcontra oídio.
  • 270F R A N C I S C H A B O U S S O UOs resultados foram os seguintes:Quadro 8. Repercussões dos produtos sobre a população de Leptinotarsa sp.Tratamentos Posturas Insetos perfeitos População de mais de l0 larvasna primavera - % de pés de batataOxicloreto de cobre 57 3 0,5%Maneb 190 40 16,0%Fentinacetato 122 31 1,09%Testemunhas 296 35 33,6%Segundo o autor, conclui-se que os fungicidas cúpricos, exclusi-vamente por sua ação repelente, são capazes de assegurar uma pro-teção praticamente suficiente contra a Leptinotarsa sp.O Fentin-acetato não mostrou efeito repelente, mas os insetos sóatacaram muito levemente as folhas tratadas, cessando rapidamentede se alimentar. Daí a queda na fecundidade.Quanto ao Maneb não teria mostrado nenhuma ação perceptí-vel sobre a densidade da população.Pode-se perguntar se as repercussões desses diferentes produtosnão seriam, antes de tudo, devido a suas incidências sobre a fisiolo-gia da planta. E, se este efeito “repelente” do cobre não seria, basica-mente, resultado das mudanças produzidas no estado bioquímico dostecidos, antes do que dos resíduos na superfície? O comportamentode Leptinotarsa sp. em relação à folhagem tratada com Fentinacetatoexige reflexão. Veremos, então, ao longo do próximo capítulo, queuma adubação adequada às vezes é suficiente para “dissuadir”Leptinotarsa sp., de não se alimentar da batata.Ao contrário, MURBACH (op. cit.) observa que “os inseticidascorrentemente utilizados contra esta praga favorecem a multiplicação dospulgões vetores da batata, por eliminarem seus inimigos naturais” (P.BOVEY e MEIER, 1962). Isto ocorre a tal ponto que estes autoresrecomendam “limitar, ao estritamente necessário, o uso de produtos paracontrolar Leptinotarsa sp., a fim de prevenir um aumento maciço deinfecções virais”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S271Estas observações agregam-se às de POLJAKOV, já referidas, quedescrevem o desenvolvimento de moléstias viróticas na batata, após autilização de ditiocarbamatos no controle da requeima. Assim, é possí-vel ter-se reservas quanto ao processo observado por BOVEY e MEIERpara explicar este fenômeno. Mesmo admitindo-se que a destruiçãodos inimigos naturais interfira em algum nível na multiplicação dospulgões, ainda é necessário que a planta se encontre num tal estado fi-siológico que o vírus possa se multiplicar, fato que, geralmente, se perde devista.No que se refere à incidência dos produtos sintéticos sobre a fi-siologia da planta, está demonstrado que os “inseticidas fosforados”,usados no controle de Leptinotarsa sp., causam repercussões seme-lhantes às dos ditiocarbamatos, utilizados contra Phytophthora, ou seja,provocam na planta um estado predominante de proteólise.Ora, vimos que tal estado favorece, simultaneamente, a multiplica-ção de pulgões e de vírus.É a este menosprezo pelas incidências indiretas dos agrotóxicosque deve ser imputado o agravamento dos problemas fitossanitáriose a impossibilidade, cada vez maior, de resolvê-los unicamente peladestruição do parasita. Por isso, acreditamos que a única perspectivaracional consiste na medicação interna da planta, baseada na concep-ção da trofobiose.*Veremos os resultados nos próximos capítulos.6. DETERMINAÇÃO E TRATAMENTOS DAS CARÊNCIASOs exemplos que vimos antes sobre o assunto, nos recorda:– de um lado, a igualdade dos sintomas entre carências e doenças.– de outro, da luta contra diversas doenças em relação ao solo,tratamento da folha ou imersão de grãos em meio de certos*O Fentinacetato é usado como esterilizador de insetos, causando quebrascromossômicas. (N. da T.) Esta posição visionária de Chaboussou deveria seranalisada por todos os pesquisadores que se dedicam ao controle das pragas edoenças. (N. do R.)
  • 272F R A N C I S C H A B O U S S O Uoligoelementos (fig. 34), bem como, a ação de produtos clássicoscomo a calda bordalesa e enxofre, só podem ser explicados por seuefeito benéfico – sobre a fisiologia da planta.O mesmo ocorre com a ação de novos fungicidas sintéticos,quando se mostram eficazes.Parece justificada nossa hipótese dos produtos terem uma ação dotipo “medicamento” através de interferências favoráveis no metabo-lismo da planta. Segundo nossa teoria, se essas repercussões se mos-tram benéficas, é porque são exercidas num sentido positivo sobre aproteossíntese. Isto quer dizer que estes aportes permitiram corrigir ascarências que se opunham à realização da proteossíntese.Assim, o problema do controle dos parasitas da planta se voltadefinitivamente para:1. a determinação da ou das carências;2. os meios de corrigi-las sem, no entanto, atingir qualquer limitede toxicidade, limite este, alcançado rapidamente com numerososprodutos sintéticos, o que estudamos ao longo dos quarto e quintocapítulos.Em resumo, trata-se de atingir um equilíbrio envolvendo macro emicroelementos. É um trabalho difícil mas não desencorajador. Afi-nal, se com nossa concepção da proteção da planta ainda estamos noempirismo, o que dizer de um método que consiste em atingir oparasita tratando a planta, sem se preocupar com as repercussõessobre a “saúde” dela, suscetível de ser “perturbada” pela ação inter-na dos agrotóxicos? Pensamos ter dado ampla demonstração de nos-sa posição.A determinação das carências só pode ser feita através de análisefoliar. Devido aos complexos fenômenos de bloqueio ou de trocas queocorrem no solo, a análise deste freqüentemente chega a resultadosde difícil interpretação. O contrário ocorre com o “diagnóstico foliar”,ou melhor ainda, a análise dos extratos frescos dos tecidos condutores,desenvolvido por ROUTCHENKO (1975).
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S273Pelas características desta obra, não nos é possível entrar emdetalhes a respeito dos números ótimos já obtidos e relativos aosdiversos elementos, e para as diferentes categorias de plantas. Dire-mos, simplesmente, por nessecidade profissional, que algumas firmasespecializadas na elaboração de fórmulas “nutricionais” já reuniramdados que permitem determinar limites para afirmar que há carên-cias, graças ao confronto das doenças constatadas com os resultadosdos pesquisadores, de determinar os “limites”*fora dos quais pode-se afirmar que há carências.Ainda há importantes progressos a serem conseguidos nesta di-reção, especialmente no que se refere à escolha dos elementos a seremanalisados. Sobre isso, precisamente, gostaríamos de fazer uma ob-servação: estamos, perfeitamente, de acordo com os especialistas queafirmam que as análises, para serem utilizáveis, devem ser rápidas ede fácil interpretação.Coloca-se, pois, o problema dos elementos a analisar e, o de saber,o que se entende por análise “completa”. Assim não cessamos de in-sistir e, esperamos ter demonstrado ao longo dessa obra, a resistên-cia da planta é função de um mínimo de substâncias solúveis nos tecidosfoliares, especialmente nitrogênio.A questão é se bastaria realizar estas análises nos períodos críti-cos do ciclo vegetal para saber se a planta encontra-se num estadoanormal de proteólise e, portanto, de carência. Essas análises realizadasao longo dos períodos críticos do ciclo que falamos antes.Contudo, essas análises não poderiam indicar a natureza doselementos- macro e microelementos- em que a planta se encontracarente. Também seria necessário fazer análises de K, Ca, Mg e dosprincipais oligoelementos: Fe, Mn, Zn, B, Ni; e, ainda, pode-seacrescentar: Co, Mo e Li.*No original, fourchettes. “Limite entre dois valores extremos”. (Petit Robert,1983), ( N. do R. )
  • 274F R A N C I S C H A B O U S S O USomente através de experiências e cruzamento de dados a respeitode um determinado tipo de planta - da qual conhecemos, mais oumenos, as exigências nutricionais - quais são, de preferência, serápossível escolher os elementos a serem analisados.Propositadamente, deixamos o P de lado. De maneira geral, sabe-se que as variações de P estão relacionadas às do cálcio, que deveráobrigatoriamente ser analisado. Portanto, nesse caso, a análise dofósforo será supérflua, exceto em casos particulares.Os elementos catiônicos, como vimos muitas vezes e, especial-mente, no capítulo anterior, parecem ter grande importância. É fun-damental conhecer a relação K/Ca que condiciona, em grande parte, ometabolismo da planta, especialmente a quantidade de magnésioutilizado pelo vegetal.K e Ca, aliás, são antagonistas ao Mg e nos parece significativo quea soma K + Ca+ Mg seja uma constante.Quanto aos oligoelementos, os quais vimos a importância em re-lação à resistência da planta às doenças, veremos novas provas paraestudar suas repercussões sobre a qualidade dos produtos. Será o temado último capítulo, quando teremos ocasião de examinar o papel decertos microelementos, que deixamos de lado até aqui e de conside-rar a melhor maneira de fazer participar no metabolismo da plantapara o maior benefício de sua resistência e da qualidade da colheita.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S275Fig. 31. Resposta de diversas enzimas a diferentes concentraçõesde boro na solução nutritiva, em folhas de tomateiro.
  • 276F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 32. Estágios críticos do ciclo fisiológico da videira e dasrosáceas.A) Videira: estágio G de BAGGIOLINI, de desenvolvimento docacho. É o estágio em que as folhas, em estado de proteólise e, por-tanto, sensíveis às doenças, guardam suas reservas para assegurar afloração e a frutificação. O mesmo processo ocorre nas árvores frutí-feras e cereais.B) Rosáceas: estágio do desenvolvimento acentuado dos frutos.A partir do mês de julho, macieiras e pereiras servem-se de suas re-servas das folhas adultas para assegurar o crescimento e aprovisiona-mento do fruto em cálcio.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S277Fig. 33. Resultados de experimentos da eficácia de diversos pro-dutos contra o míldio da videira. Eles mostram, em particular, parauma mesma dose de cobre, a nítida superioridade do sulfato decobre(sob a forma de calda bordalesa): nas fórmulas 7-8-9, 10-11-12e 13-14-15, sobre o óxido de cobre: fórmula 1-2-3.
  • 278F R A N C I S C H A B O U S S O UFig. 34. Regressão da Sclerotinia do girassol por imersão das se-mentes em diversas soluções de oligoelementos. (Segundo dados deP. V. POLYAKOV, 1971.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S279BIBLIOGRAFIAANDUS. 1955. Sur la physiologie du Pommier. “Endeavour”, p. 205.BAILEY L.F. et METTARGUE J.S. 1944. Effect of boron, copper, manganese andzinc,ontheenzymeactivityofTomatoandalfafaplantsgrowthinthegreenhouse.“Plant. Physiol.”, 19, pp. 105-116.BRANASJ.etBERNONG.1954. LeplombdelaVigne,manifestationdelacarenceen bore. “C. R. Acad. Agric.”, pp. 593-596.BRANAS J. 1974. Viticulture (Alimentation générale de laVigne)CHAMPIGNY(Mlle.M.L.).1960.L’influencedelalumièresurlagenèsedesacidesaminés dans les feuilles de Bryophyllum daigremontianum, Berger,Thèse Fac.Sci.,Paris.COOK J.A. et GOHEEN A.C. 1961. The effect of virus disease, leafroll on the mi-neral composition of grape tissue and a comparison of leafroll and potassiumdeficiency symptoms. “Ann. Inst. Biol. Sc.”, pp. 328-354.COX R.S. et WINFREE J.P. 1957. Observations on the effect of fungicides on graymold and leaf spot on the chimical composition of strawberry plant tissues. “Plantdisease Rept.”,41, pp. 755-759.DELAS J. et MOLOT C. 1967. Fertilisation potassique du vignoble bordelais. –Résultats d’un essai de 7 ans. “Bull. Ass. Fr. Etude du sol”, nº 1, pp. 3-10.DEMOLONA.1946.L’évolutionscientifiqueetl’Agriculturefrançaise,Paris,329p.GARD : in GUYOT R. 1935. Influence des cendres et des sels de potassium dans lescultures in vitro d’.Armillaíre. “C. R. Congrès A.F.A.S.”, pp. 521-526.GOUDOT et BERTRAND D. 1968. Les oligo-éléments. Coll. “Que sais-je?”HORSFALL J.G. 1975 Fungi and fungicides.The story of a non-conformist. “Ann.Rev. Phytopathol.”, t. 13, pp. 1-13.KOCH K et MENGEL K. 1972. Effect of potassium nutrition on the content andthe spectrum of soluble amino-compounds in red clover. (Al. res. an.) “Zeitschr.Pflanz.”, t. 131, 2, pp. 148-154.LOCKARD R.G et ASOMANING E.J.A. 1965. Mineral nutrition of Cacao(Theobroma cacao L.) II. Effects of swollen shoot virus on the growth and nutrientcontentofplantsgrownundernutrientdeficientconditionsinsandculture. “Trop.AgricultureTrin.”, vol. 42, nº 1.MASON A.C. et WITTFIELD A. 1960. Seasonal changes in the uptake anddistribution of mineral elements in apple trees. “J. Hort. Sci.”, 35, (1), p. 34.
  • 280F R A N C I S C H A B O U S S O UMOREAU L. et VINET E. 1930. De la valeur des traitements d’assurance dans lalutte contre les ennemis de la grappe. “C. R. Acad. Agric.” 1, p. 106.MOREAU L. et VINET E. 1931. Sur les traitements curatifs du mildiou. “ C.R.Acad. Agric.”, p. 52.MUDICHA.1967.Effectoftraceelementsboundtosuperphosphateontheresistanceof Potato tubers to Phytophthora infestans (Mont.) de Bary. “Acta Phyto. Ac.Scienc. Hungariae”, 2, pp. 295-302.MURBACH R. 1967. Effect de plein champ de fongicides à base de fentin-acétate,de manèbe et d ‘oxychlorure de cuivre, sur la densité de population du DoryphoredelaPommedeterre(LeptinotarsadecemlineataSay).“RechercheAgronomiqueen Suisse”, vol. 6, fasc. 3/4, pp. 345-357.NGUYEN S.T., PAQUIN R., O’GRADY L.J. et OUELLETTE G.J. 1972.Influence de la fertilisation azotée, phosphatée et potassique sue l’incorporation desacidesaminésauxprotéinesetlesrendementsdelaLuzerne.“CanadianJournalofPlant Science”, vol. 52, nº 1, p. 41.PANTANELLI E. 1921. Contribution à la biologie du mildiou de laVigne. “Prog.Aric. et vitic.”, LXXV, 87, pp. 111-161.PARMENTIER G. 1968. Action fongicide des tensio-actifs. III. Fongitoxicité-Phytotoxicité. “Parasitica”, XXV, nº 3, pp. 86-96.PILAND J.R. et WILLIS L.G. 1937.The stimulation of seedlings plants by organicmatter. “J. Amer. Soc. Agron.”, 29, pp. 324-332.PISKUNOVG.P.1965. Supplémentationextra-radiculaireduFraisierparlesoligo-élémentsdanslesconditionsdeKirovakan (enrusse).“Akad.Nauk.arm.S.S.S.R.Izv. biol. Nauki.”, 18, nº 5, pp. 57-62.PINONV.1977. Observations des effets secondaires des fongicides antimildiou sue laVigne (Pineau de la Noire). Problèmes de méthodologie. “Diplôme E.N.I.T.A”,Bordeaux.POLYAKOVP.V.1971.Changeinsunflowerimmunityundertheinfluenceofmicro-elements (Sclerotinia L.). “Sel’ skokh. Biol.”, t. 6, pp. 471-472.PRIMAVESIA.M.,PRIMAVESIA.etVEIGAC.1972.Influenceofnutritionalba-lancesofpaddyriceonresistancetoblast. “Agrochemica”,t.16,4/5,pp.459-472.PRUSA V. et alii. 1965. Nutritional effects of the Hop curl disease and comparisonof the chemical compositions of diseased and healthy Hop plants. “Biologiaplantarum”, t. VII, nº 6, p. 425.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S281RAJARATNAMJ.A.1972. Boron nutrition and susceptibility ro red spider mires inoil palm seedlings – A preliminary study. “Malaysian Agricultural Research”,1,(1), pp. 60-62.RAJARATNAMJ.A.1971. Boron:possibleroleinplantmetabolism. “Science”,vol.172, nº 3988.REFATTI E, OTLER R, FRANCO P.G. et MOGLIA C. 1970. On an appledecline in Italy. VIIIeSymposium européen sur les maladies à virus des arbresfruitiers. Bordeaux, 24-30 juin 1970. I.N.R.A. pp. 33-48.ROUBINE B.A. et ARTSICHOVSKAIA E.V. 1960. Biochimie etphysiologie del’immunité des plantes. (en russe). “Ac. Sciense U.R.S.S”., 350 p. Documentpersonnel.RUSSELL G.E. 1972. Inherited resistance to virus yellows in sugar beet. “Proc. R.Soc.”, Lond. B.181, pp. 267-279.SHIGEYASUAka- Applicationdelapotasseetapparitiondel’HelminthosporiosesurRiz. “Revue de la Potasse”, 23, p. 7.SOENEN A. 1975. Les traitements contre les maladies en culture fruitière.“Symposium de Gembloux : Semaine d’étude ‘Agriculture et Hygiène desplantes”’, 8-12, septembre, 1975.SOMERS E. et RICHMOND D.V. 1962. Translocation of captan by broad beanplants. “Nature”, t. 194, 4834, pp. 1194-1196.STALL R.E. 1963. Effects of lime on incidence of Botrytis gray-mold of Tomato.“Phytopathol.”, 53, pp. 149-151.STALLR.E.,HORTENSTINEC.C.eILEYJ.R.1965. IncidencesofBotrytisgraymold ofTomato in relation to a calcium-phosphorus balance. “Phytopatol.”, 55,pp. 447-449.TROCME S. 1964. “Phytoma”, juin, 1964, p. 23VIEL G. et MLLE CHANCOGNE M. 1966. Sur la décomposition du manèbe:action de l´ eau et de l’oxygène. “Phytiatrie-Phytopharmacie”, 15, pp. 131-40.VILLEDIEU. G. De la non-toxicité du cuivre pour les moisissures en général et pourle mildiou en particulier. “Progr. Agric. vitic.”, pp. 498-500.VILLEDIEU G. Cuivre et mildiou. “Progr. Agric. vitic.”, 49, pp. 536-539.
  • 1. OS OLIGOELEMENTOS: CORRECÃO DE CARÊNCIASE FATORES DE QUALIDADEO EXEMPLO DA VIDEIRAEm repetidas vezes encontramos neste trabalho a videira e sua pro-dução, como objeto principal de nossas pesquisas. No capítulo ante-rior vimos como a carência em boro pode desencadear a “doença dochumbo” na videira. Agora vamos examinar, à luz de experiências dediversos autores, de que maneira as incorporações, seja de macro oumicroelementos obtiveram melhorias, tanto nas videiras, como, na qua-lidade do vinho. Com isto se atinge um resultado duplo: aumento daresistência da planta e melhor qualidade da produção a ser consumida,em relação aos vertebrados ligados ao nível de proteossíntese.CAPÍTULO VIIITÉCNICAS AGRÍCOLAS E QUALIDADEDAS COLHEITAS“O objetivo principal dos pesquisadores trabalhando com produção vegetal ésatisfazer as necessidades em oligoelementos, para obter a maior produção e melhorqualidade possíveis”.Yves COÏC et Claude TENDILLE.Causes connues des variations des oligo-elements dans les végétaux.Ann. Nutr. Amm. 1971. 25 – B97 – B131.)“A produção de plantas resistentes foi, até agora, reservada à genética. É um ca-minho difícil, e que, freqüentemente, conduz, como sabemos, a um sucesso ape-nas temporário. Talvez fosse mais simples e eficaz, no futuro, conferir resistênciaàs plantas pela aplicação de produtos químicos”.E.GROSSMANN(ConferedResistanceintheHost.1968)(WorldReviewofPestControl)
  • 284F R A N C I S C H A B O U S S O UA) Os oligoelementos nos solos dos parreirais: repercussões sobre aqualidade do vinhoBERTRAND et alii. (1966), precisam antes de darem os resul-tados de seus experimentos: “A cultura da videira tem um problemamuito particular, do ponto de vista dos adubos”... “Sabe-se que umdesequilíbrio em oligoelementos provoca uma diminuição dos ren-dimentos, bem como modificações de qualidade, para as árvores fru-tíferas. Portanto, seria desejável ver quais as repercussões sobre aprodução de vinho”.Os experimentos desses autores foram realizados na região dePech Rouge, do INRA, Montpellier. Eles observam que o tratamentodas folhas é necessário no caso de haver problemas graves, mas quenesta técnica ignoram-se as quantidades absorvidas de cada produ-to. Corre-se o risco de cair num desequilíbrio por excesso. Como jávimos, os ditiocarbamatos utilizados em tratamentos repetidos pro-vocam excessos de zinco ou manganês nos tecidos, tornando-os tó-xicos.Contudo, a técnica de pulverizações foliares é preciosa no controledas diversas doenças das plantas, bem como na melhoria da qualida-de, desde que criteriosamente utilizada.BERTRAND et alii. (op. cit.) realizaram experimentos comaportes de boro, molibdênio e magnésio no solo.Pode-se contestar a classificação de “oligo” ao magnésio, mas eletem uma importância considerável sobre a fisiologia da planta e so-bre a saúde dos vertebrados que consomem o vegetal assim adubado.Sempre em relação ao magnésio, BERTRAND observa que abruma do mar carregada pelo vento é uma fonte não negligenciáveldesse elemento. Mesmo na região parisiense, onde este aporte é menorque na propriedade de Pech Rouge, ele atinge 1 kg/ha/ano.Referente ao rendimento, o magnésio mostrou um efeito adver-so. Ao contrário, o molibdênio e o boro tiveram repercussões positi-vas.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S285Quanto à qualidade:a) Magnésio: provoca um aumento do teor de açúcar; o ótimoda dose de Mg se situaria em torno de 2,5 kg/ha. Este valorpropicia a melhor densidade do mosto;b) Molibdênio: a quantidade de matéria seca aumenta commaiores teores, a ponto do máximo ainda não ser atingidocom 0,8 kg/ha. Inversamente, o teor mínimo de cinzas éobtido com aproximadamente 0,2 kg/ha. A densidade e aacidez volátil aumentam como a matéria seca enquanto o graualcoólico tem seu ótimo com aproximadamente 0,35 kg/ha;c) Boro: a densidade e acidez total crescem com o teor de boro,enquanto a acidez volátil atinge o mínimo com aproximada-mente 6kg de borato/ha. O grau alcoólico tem seu ótimo comaproximadamente 0,35 kg/ha;d) Os resultados da degustação são assim caracterizados porBERTRAND et alii. (op. cit.):“Todas as amostras das parcelas que receberam aporte demagnésio são melhores à degustação e mais coloridas. O vi-nho da parcela testemunha pode ser considerado como umvinho branco manchado, e os outros vinhos, como rosés”.“As amostras de vinhos provenientes das parcelas que recebe-ram aporte de molibdênio são melhores à degustação”.“Os vinhos provenientes de parcelas tratadas com boro sãopouco coloridos. A diferença com a testemunha é poucosensível”.Os pesquisadores observam que não foram colocados nem zinco,nem manganês. Contudo, detectou-se baixos teores destes elementos.Estas possíveis pequenas deficiências podiam provocar modificaçõesno teor de açúcar, já que o zinco joga um papel essencial na síntesedestes últimos.Isto demonstra que os diversos nutrientes devem ser associadosnum equilíbrio conveniente, a fim de se obter resultados satisfatórios
  • 286F R A N C I S C H A B O U S S O Unos diferentes objetivos visados: rendimento, resistência da planta equalidade da colheita. Veremos isto confirmado pelo exemplo a seguire pelos resultados obtidos através de preparados industriais que as-sociam oligo e macroelementos, em função das necessidadesnutricionais especiais de cada tipo de planta cultivada.B) Tratamentos foliares da videira através de oligoelementosDOBROLYNBSKIJ (1975) estudou, especialmente, a influên-cia de zinco e do manganês sobre a qualidade do vinho, determina-da, neste caso, não pela degustação, mas em função do teor deaminoácidos associados presentes nos bagos de uva.Esse autor observa que as diferenças evidentes na composição dauva e, portanto, dos vinhos, dependem das particularidades biológicasda planta, isto é, da cepa, mas também das condições de crescimento,isto é, clima, (fator bem conhecido dos viticultores) e, igualmenteagrotecnia. Isto engloba não apenas os processos culturais como afertilização, enxertia mas também os tratamentos com agrotóxicos, espe-cialmente pelos oligoelementos que são usados, freqüentemente, emexcesso.DOBROLYNBSKIJ (op. cit.) preconiza uma intervenção antes dafloração geral e outra no momento da formação dos grãos. Isto pare-ce corresponder aos estágios G e J de BAGGIOLINI. Ele utilizouuma fórmula na qual a calda bordalesa foi associada a 0, 05% de sulfatode zinco e 0, 05% de sulfato de manganês.As análises mostraram que estes tratamentos a base de oligoele-mentos (cobre, zinco e manganês, mais enxofre e cálcio da caldabordalesa) provocaram nas duas cepas tratadas, Aligoté e Cabernet-Sauvignon, uma queda dos aminoácidos livres e um aumento dosaminoácidos associados.O conteúdo dos aminoácidos livres decresce às custas da alanina,ácido glutâmico, ácido aspárgico e outros, enquanto aumenta a con-centração de uma série de aminoácidos indispensáveis: valina, glicina,
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S287leucina + isoleucina, cistina + cisteina, lisina, histidina, tirosina efenilalanina.Na cepa Aligoté, a percentagem de aminoácidos associados emrelação ao total, é:Testemunha Calda bordalesa Calda bordalesa+ ZnSO4+ MgSO456,2% 60,1% 59,1%DOBROLYNBSKIJ precisa, nas suas conclusões, que estesoligoelementos, aumentando o número dos aminoácidos indispen-sáveis, melhoram proporcionalmente o valor nutricional das uvas. Estesresultados também estão correlacionados com o aumento da produtividadee a elevação do conteúdo de açúcar das bagas.Essas repercussões benéficas dos oligoelementos se explicam peloseu papel no metabolismo da planta, que tratamos no capítulo an-terior.Sabe-se que o zinco é necessário à síntese da clorofila e à do áci-do indolacético ou IAA, cujo precursor é o triptofano. Sem o IAA –hormônio indispensável – as plantas enfraquecem, e nas árvores fru-tíferas se instala a doença chamada roseta das folhas, em que o alon-gamento das hastes não se produz normalmente.Em resumo, o zinco está ligado à síntese das auxinas, e à sua ação.Daí os efeitos positivos dos tratamentos à base deste oligoelemento,já que as carências ou subcarências (difíceis de serem identificadasapenas por observação visual) são muito mais freqüentes do que sepoderia imaginar. BERTRAND et alii. (1961) observam que o nú-mero de enzimas conhecidas que tem o zinco como constituinte é muitoelevado. Assim, as modificações histológicas provocadas pelos proble-mas de funcionamento das cadeias enzimáticas podem ser melhorexplicadas.Segundo BERTRAND e colaboradores, é necessário não esquecer
  • 288F R A N C I S C H A B O U S S O Uque estas cadeias variam com as espécies, pelo menos em importânciafuncional, tanto que os sintomas observados em um caso não são neces-sariamente os mesmos para as outras plantas. Por isso a dificuldade deidentificar as carências apenas pela observação visual e a necessidade derecorrer-se às análises de folhas ou de suco celular.O manganês, como o zinco, é indispensável aos animais e aos vege-tais. Gabriel BERTRAND descobriu um fato novo, capital, ainda quemal conhecido: o da subcarência, que não tem manifestação patológicaaparente, pelo menos num primeiro momento, mas causando uma re-dução de rendimentos que pode ser bastante elevada. Descoberta emaveia, Didier BERTRAND estima que as subcarências em manganês sãomuito mais freqüentes do que se supõe. Isto parece confirmado pelacontraprova dos resultados benéficos, já relatados em videira.COÏC mostrou, na Bretanha, que o manganês e o zinco podemse encontrar bloqueados, isto é, não assimiláveis, devido a correçõescalcárias exageradas. Daí o interesse pelos tratamentos foliares, mesmose o manganês não se comporta como um ativador de enzimas. Jávimos o papel que ele pode desempenhar na resistência da planta àsdoenças, especialmente a helmintosporiose e Sclerotinia do girassol.Presume-se que sua ação positiva sobre a proteossíntese da videira,como acabamos de ver, se acompanha igual e correlativamente, comiguais repercussões sobre a resistência às doenças.C) A técnica do controle por complexos sinérgicos de oligoelementosPelo menos duas razões são favoráveis à utilização de complexos deoligoelementos:Primeiro, os efeitos de sinergismo, precisamente e como já assina-lamos, como aqueles do cobre e do manganês sobre o crescimento. Eque deveria se traduzir, teoricamente, segundo a nossa concepção, porum efeito positivo sobre a resistência da planta.Ora, efetivamente, parece que é o que se passa. Assim, DUFRÉ-NOY (1930) observa que: “HOAGLAND e SNYDER obtêm moran-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S289gueiros mais vigorosos e mais resistentes a Oidium e Tetranychus numasolução contendo 26 elementos do que numa com 12 elementos”.Apesar de ignorarmos a causa exata do processo, podemos regis-trar o fato e aproveitar estes resultados empíricos, embora menosincertos que os decorrentes do uso de agrotóxicos, clássicos. Essesúltimos, mostram, ao contrário, uma vez mais incertos nos seus re-sultados e, muito mais perigosos para a saúde da planta, como pen-samos haver demonstrado antes.Sem entrar em detalhes, apresentamos uma fórmula especialmenteestudada para a videira, que contém Zn, Mo, Mn, Fe, B, Co, Ca e Mg.Transcrevemos, adiante, o que nos escreveu o autor dessa fórmula,referente aos resultados obtidos: “O que posso afirmar é que em todosos vinhedos assim tratados no meio-dia,*na França [segue a enumera-ção das propriedades vitícolas], constatou-se modificações benéficasapós as aplicações dos oligoelementos. Os tratamentos acrescidos deaplicações de zinco e manganês no inicio do período vegetativo, e boro, a partirda floração, melhoraram a qualidade do lenho, tornou-se mais amadu-recido e mais duro, aumentaram consideravelmente o tamanho docacho, particularmente sensível em Carigan, Syrah, Mouvèdre eSauvignon, e o espessamento da casca da uva”.Referente às doenças, meu correspondente acrescentava: “O con-junto destas condições faz com que, nestas propriedades, Botrytis não sejamais considerada uma moléstia grave, mesmo não tendo sido feito trata-mento especifico contra ela”.“Paralelamente, houve redução e, após, desaparecimento total da esca*(Stereum hirsutum) e erradicação da excoriose (Phoma reniformis)”.**Meio-dia (Midi) significa também o Sul da França e ou da Europa. (N. do R)*Doença causada por S. Hissutum, chama-se “esca”. Pommer, 2003. (N. do R.)*A doença causada por P. Rerriformis, chama-se “excariose” ou “podridão brancada uva”. Pommer, 2003. (N. do R.). As citações no original são, respectivamente,Esca e Excoriose. (N. do R. )
  • 290F R A N C I S C H A B O U S S O UO programa desses tratamentos compreende cinco aplicações,entre o rebrote e a formação do cacho.Conhecendo bem nosso correspondente, acreditamos não serpossível debitar a um otimismo exagerado ou a uma propagandainteresseira os fatos registrados. Eles acompanham os resultados dasrepercussões benéficas dos oligoelementos sobre a resistência de di-versas plantas por estimulação da proteossíntese em conseqüência dacorreção de carências.DOBROLYNBSKIJ e FREDOLENKO (1969), ressaltando asrelações de zinco e fósforo nas folhas da videira, observam que: “Oaumento da quantidade de nucleoproteínas e fosfatídeos nas folhas,por influência do zinco, é extremamente importante. Sabe-se que umaumento das nucleoproteínas, que são colóides hidrófilos, podemexplicar a influência favorável do zinco sobre a resistência da videiraà seca, ao calor e à geada”.Por outro lado, a maior quantidade de compostos fosforados noscachos repercute na qualidade do vinho.Finalmente – nesse trabalho os autores só enfocam a influênciado zinco – este elemento provoca:– um aumento da produtividade;– uma melhoria da qualidade (devida, como mostraram seustrabalhos posteriores, ao acréscimo das cadeias de aminoácidos);– uma aceleração da maturação dos cachos.Estes trabalhos confirmam resultados práticos de controle edemonstram que a utilização criteriosa dos oligoelementos permiteum aumento dos rendimentos, sem baixar a qualidade.Esses fatos se explicam, pela simples razão de que estas técnicas têmpor base a estimulação da proteossíntese, como bem o demonstram asanálises da planta, ainda que esses métodos fossem empíricos, noinício, vimos que a fórmula complexa, desenvolvida para o tratamen-to da videira, comportava um certo número de oligoelementos alémdo magnésio que, como vimos, certos sábios o incluia entre eles. Este
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S291elemento é dos mais importantes para a videira, como estimamosnecessário mostrar em seguida.D) Secamento do engaço nos vinhedos: causas e tratamentosOs secamentos do engaço foram registrados na Suíça, Alemanha eno Leste da França, nos anos 1950-1960. Os sintomas manifestavam-se entre a metade e o fim da maturação, por necroses no pedúnculo,no eixo principal do cacho e suas ramificações. Fenômenos que podem,finalmente, resultar no secamento completo do cacho.Os porta-enxertos S04*e 5 BB**favorecem esta afecção. Determi-nadas cepas, como Gewurztraminer, na Alácia, mostram-se mais sen-síveis. Como a carência de Mg é decorrente de uma deficiência do soloou de um excesso de fertilização potássica, pode se inferir que o porta-enxerto atua por um processo semelhante. O porta-enxerto 44-53sensibiliza, igualmente, o enxerto em relação ao secamento do engaço.Efetivamente, seja por um desequilíbrio hormonal ou por umdéficit alimentar, é uma carência de Ca e Mg que está na origem destaafecção. Isto se traduz por relações mais elevadas de K/Ca, de K/Mge de K/Ca + Mg nos engaços.O aporte ao solo de MgSO4diminui claramente os ataques desecamento do cacho. Também se constata uma correlação altamentesignificativa entre o teor em Mg das folhas e o secamento do engaço.Assim se explicam, por exemplo, os excelentes resultados depulverizações com sulfato de magnésio sobre uma associação porta-enxerto - enxerto particularmente sensível, como Cabernet-Sauvignonenxertada sobre “SO4*”. Duas a três pulverizações de MgSO4a 5%:uma no início da floração; a segunda oito a dez dias após e, a tercei-ra oito a dez dias após a segunda, deram resultados muito significa-tivos:*Seleção Oppenheimer 4. (N. da T.)**Kober 5BB. (N. da T.)
  • 292F R A N C I S C H A B O U S S O U– em 1973, os cachos atacados caem de 51-52% nas testemunhaspara 3,1 -3,66% nas plantas tratadas;– em 1972, duas intervenções fizeram a doença involuir de 100%para 50,5%.Por isso o interesse de tratamentos preventivos com fórmulas àbase de complexos de oligoelementos e magnésio, como aquela citada.Estas intervenções, baseadas em análises prévias, capazes de eviden-ciar as subcarências, deveriam permitir evitar-se os graves inconve-nientes resultantes das carências e, especificamente, da carência demagnésio.Estas carências, exatamente como na medicina humana e veteri-nária são, na realidade, o leito das doenças, especialmente, as viróticas.Admite-se a esse respeito, do ponto de vista nutricional, a qualida-de está ligada ao nível de proteínas: o valor alimentar da colheita será,pois, função não apenas de fatores genéticos, mas, também, de prá-ticas culturais.Por isso, chegamos, para concluir este capítulo e, também estaobra, a examinar as repercussões da fertilização mineral e orgânica, etambém dos agrotóxicos (afora o problema dos resíduos), sobre aqualidade da colheita.2. FERTILIZAÇÃO MINERAL E QUALIDADE DACOLHEITAA) Considerações geraisComo observou COÏC, “na agricultura, geralmente, a preocupa-ção é maior com a quantidade do que com a qualidade”.Às vezes nos preocupamos com uma certa qualidade, mas que sódiz respeito a um critério comercial. Freqüentemente, trata-se ape-nas de um aspecto exterior. Assim, os frutos “manchados” são, comer-cialmente, de “má qualidade”. É, igualmente, de má qualidade todaa colheita maculada com resíduos de qualquer agrotóxico.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S293Contudo, o que aqui entendemos por “qualidade” reside no seuvalor nutricional, isto é, na sua composição em elementos nutritivos.Ora, esta pode estar alterada pela forma como a planta foi con-dicionada, através das técnicas de cultivo. Já vimos que a planta e suaprodução podem ser modificadas pelos adubos que receberam oupelos tratamentos com agrotóxicos que sofreram. Afora toda a ques-tão dos resíduos, os agrotóxicos e os adubos são igualmente capazesde modificar, num ou noutro sentido, o valor nutricional da planta,por ação sobre o seu metabolismo.Os agrobiologistas há muito se deram conta disto e louvam obtercolheitas de melhor qualidade, graças a seus métodos de cultivo. Con-tudo, antes de discutirmos esta polêmica, devemos estudar a maneiracomo podem variar determinados critérios, em função de técnicasusadas. Ora, a forma de adubação é precisamente uma das principais,como também é a que, nesse sentido, temos mais informações.B) Adubação e qualidade do trigoI. A questão dos adubos nitrogenadosAo longo do sexto capítulo, foi evidenciado, o papel, freqüente-mente nefasto, dos adubos nitrogenados sobre a resistência da plan-ta aos seus diversos parasitas. Isto porque os aportes de nitrogênio solúvelao solo provocam excesso de nitrogênio solúvel nos tecidos das plantas, nãoconvertido em proteínas.Esta primeira observação já confirma os inconvenientes da adu-bação nitrogenada solúvel em relação à qualidade da colheita. Comefeito, a questão é se obter a mais alta concentração em protídeos eproteínas.Aliás, COÏC não dissimula que “a adubação nitrogenada colocaárduos problemas em cultivo intensivo”. Ele precisa: “Um aumentode aportes, especialmente, de adubos nitrogenados para melhor sa-tisfazer as necessidades das culturas permitiu aumentar os rendimen-tos e, correlativamente, os resíduos de matérias orgânicas
  • 294F R A N C I S C H A B O U S S O Unitrogenadas. Disto resulta um aumento continuo da quantidade denitrogênio fornecido pelo solo às cultura”.Ora, vimos antes e, falaremos adiante, a propósito da adubaçãodas pastagens dos inconvenientes deste nitrogênio mineral em rela-ção às bactérias úteis e à fertilização do solo. Inconvenientes aindamais acentuados, tratando-se dos adubos nitrogenados amoniacais.Segundo COÏC: “A nutrição amoniacal, comparada à nutriçãonítrica, leva a um acúmulo de nitrogênio orgânico solúvel e, maisespecificamente, de aminas (glutamina ou asparagina, conforme asespécies vegetais)”.Ainda COÏC: “quando os protídeos são constituídos por umacerta proporção de nitrogênio orgânico solúvel, a variação da proporçãodeste nitrogênio solúve,l no qual a composiçãoo em aminoaçidos daque-la da proteína, como a variação de composição deste nitrogênio solúvel,modifica a composição dos protídeos totais”.A adubação nitrogenada solúvel e os tratamentos com herbicidas,que inibem a proteossíntese por provocarem excesso de nitrogêniosolúvel no cereal, podem alterar a qualidade do grão, medida pelariqueza em proteínas.Pode-se questionar se o excesso de nitrogênio mineral ou orgânicono solo, provocado por estas técnicas, não atuariam no bloqueio dopotássio. Sabe-se que excesso ou deficiência de potássio são nefastos,podendo conduzir a um acúmulo de nitrogênio solúvel na planta,como observou COÏC.Inversamente, toda a prática que favoreça a proteossíntese melho-ra, simultaneamente, a resistência da planta e a qualidade da colheita,como no caso de correções de carências e, especialmente, o enxofre.2. A questão do enxofreSegundo o COÏC: “A deficiência em enxofre traduz-se por umacúmulo de nitrogênio solúvel, isto é, de aminoácidos e de peptídeos quenão puderam ser utilizados na construção das proteínas”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S295Por outro lado, os aportes de enxofre, corrigindo uma carência ousubcarência, melhoram, simultaneamente, os rendimentos e a qua-lidade do grão: é, em particular, o que sobressai dos resultados deBYERS e BOLTON (1979).Esses autores, trabalhando com o trigo de primavera, mostraramque a adição de enxofre ao nitrogênio solúvel pode aumentar a pro-dução de 40 a 110%; a relação N/S parece fundamental: os grãos dostratamentos que deram as produções mais elevadas em matéria secae proteína bruta apresentavam uma relação N/S em torno de 15.A composição do grão inteiro em aminoácidos, também foi, sig-nificativamente, modificada pelos tratamentos de fertilização. Assim,o trigo, cultivado sem aporte de enxofre e com o nível mais elevado denitrogênio continha menos da metade do total de cistina e de metionina(em relação à percentagem total dos aminoácidos) encontradas no grãodaquele trigo cultivado com quantidades adequadas de adubos à base deenxofre.Os grãos das plantas carentes em enxofre, além das deficiênciasde cistina e de metionina, apresentaram menos treonina, leucina,isoleucina e lisina.Comprovadamente, estas repercussões da fertilização com enxofrerepercutem sobre o valor nutricional do cereal. BYERS e BOLTON(op. cit.), a partir de seus resultados, concluem pela necessidade dese dispor de uma quantidade adequada de enxofre, sobretudo quan-do se propõe a utilizar altas doses de nitrogênio. Isto, afim de asse-gurar ao grão, a mais alta, qualidade possível, seja qual for o cultivarconsiderado.Estes mesmos autores registram que “interesses opostos podemsurgir entre agricultores que buscam o máximo de produção, consu-midores interessados na qualidade do grão – determinada pelo teor emproteínas – e industriais preocupados com o valor de panificação dotrigo, ou seja, o índice de tenacidade ou W. Segundo BYERS eBOLTON (op. cit.), estas três exigências podem ser satisfeitas, des-
  • 296F R A N C I S C H A B O U S S O Ude que se assegure à planta uma concentração suficiente em enxofre,sobretudo quando se faz elevadas aplicações de adubos nitrogenadossolúveis. Mas isto não resolve os outros inconvenientes deste tipo deadubo, evocados antes, especialmente a redução que pode provocarnas bactérias úteis.Em resumo, parece demonstrada a importância do enxofre nafertilização, em relação aos rendimentos, à qualidade da colheita e àresistência às doenças.Como todos estes processos resultam na existência de um nívelmáximo de proteossíntese na planta, é evidente que a fertilizaçãocom enxofre, por mais interessante que seja, não é a única variávelem jogo. Como pensamos ter demonstrado, ao longo dessa obra, aproteossíntese depende ainda de um certo número de parâmetros,especialmente dos oligoelementos de que ela pode dispor, para asse-gurar ao máximo o seu metabolismo. É esse fator que, vamos exa-minar em seguida.3. A questão dos oligoelementosÉ opinião geral que a fertilização com P, K, Ca e Mg não ofereceproblemas, pois se trata “apenas” de restituir as exportações. Isto podeser correto considerando-se apenas os rendimentos, mas se conside-ra, diferentemente, se encaramos a resistência da planta e seu valornutricional.DOMSKA (1973), em experimentos a campo, com trigo e ce-vada, mostrou que a melhor qualidade é atingida somente através deum equilíbrio bem determinado entre os aportes de adubosnitrogenados, fosforados e potássicos, que não corresponde, necessa-riamente, às doses mais elevadas: ao contrário, autor observa que asdoses máximas de fertilizantes fizeram decrescer as quantidades de prote-ínas no grão de trigo.Por “fertilizantes” entenda-se os adubos solúveis NPK. DOMSKA(op. cit.) observa que este tipo de adubação faz com que “a maioria dos
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S297aminoácidos decresçam, exceto alguns, como a prolina, isoleucina,leucina, fenillanina e alanina”Ao contrário, precisa DOMSKA, quando os oligoelementos sãoacrescentados, a concentração e o valor nutricional da proteína aumen-tam. DOMSKA, que testou B, Cu, Zn, Mn e Mo, observa que estesoligoelementos aumentam a concentração do total de aminoácidos (de91,7g para 101,3g, e de 70,6g para 80,6g); a concentração dosaminoácidos livres (de 331,2 para 396,1 e, de 240,1 para 267,6 mg/% em peso); bem como o valor biológico da proteína (75 para 77e 55 para61, segundo o índice EAA).*Contudo, aqui também se trata de respeitar um certo equilíbrio.DOMSKA observa que o valor biológico do grão de cevada baixou,ao longo dos experimentos de 1966 ao nível mais baixo de adubaçãoNPK. Esse valor também ocorreu em 1965: o índice EAA passa de73 para 56, devido a doses muito fortes de oligoelementos. Nestecaso, provavelmente, estava-se fora do ótimo de concentração nutri-tiva, sobre a qual insistimos antes.C) Adubação e valor nutricional das pastagens1. Nutrição e potencial bióticoCertamente, é uma empreitada bastante difícil determinar o valornutricional deste ou daquele alimento em relação a esta ou aquelaespécie de animal doméstico, no contexto de nossos conhecimentosatuais. E, contudo, foi possível observar que: “O conhecimento daalimentação adequada a cada raça, em função do trabalho específico quelhe é solicitado, é uma das bases da ciência da criação.” (Maurice ROSEe Jore d’ARCES, 1957.)Entretanto, pelo que precede, pôde-se demonstrar é um estadonutricional específico da planta ou órgão que, segundo nossa teoria*EAAI: Essencial Amino Acid Index. Expressão em inglês do índice criado por Oser(1951), para definir a qualidade da proteína por seu conteúdo em aminoácidosessenciais. (N. do R.)
  • 298F R A N C I S C H A B O U S S O Uda trofobiose, determina a suscetibilidade, ao contrário, ou a resis-tência à doença ou inseto. Assim, devemos admitir o mesmo, para asaúde dos vertebrados, em função da composição de sua alimentação.Efetivamente, Maurice ROSE e Jore d’ARCES, em sua obraEvolution et Nutrition*(1957), de onde retiramos a citação preceden-te mostram, através de diversos exemplos, a importância da naturezada alimentação sobre a saúde e sobre o desenvolvimento dos animais.Assim, eles citam o caso do rebanho Limousin Criado em sologranítico quase desprovido de elementos fosfocálcicos, o rebanhoLimousin produzia bois robustos, apreciados para o trabalho, mas depequeno porte. Os agricultores decidiram melhorar as pastagens comadubação de cálcio e fosfatos e também, com irrigação, o que permitiuo cultivo de raízes e a extensão das pastagens. A raça “Limousin”,recebendo forragens mais abundantes e mais nutritivas, transformou-se rapidamente: registrou-se, simultaneamente, o desenvolvimentorápido do esqueleto, o aumento da massa muscular e uma notávelprecocidade.Outro exemplo típico da influência da alimentação sobre o“fenótipo” dos animais é o do cavalo bolonhês. Esses autores referemque VISEUR registrou a presença de dois tipos nesta raça, desde oséculo 17: “o bolonhês grande e o pequeno, reversíveis de um tipo parao outro. Isto ocorre quando sua descendência vive alternadamentesobre os planaltos, as colinas férteis e no vale, ou nas encostas maisou menos áridas”.Da mesma forma, os fracassos das importações de gado Limousinna Argélia, durante a colonização, seria explicável pela natureza di-ferente da alimentação.Estes diversos exemplos acentuam a importância da alimentaçãodos rebanhos sobre sua constituição. Não há por que se espantar queela possa também repercutir sobre sua saúde.*“Evolução e Nutrição”. (N. da T.)
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S299O principal do que sabemos dessas relações é o produto, sobre-tudo das carências, pelo menos onde puderam ser formalmenteestabelecidas. É esta questão que nos propomos examinar a seguir.2. Carências e estado sanitário dos rebanhosComo observa PERIGAUD (1970), as carências dos alimentosem oligoelementos podem provocar fenômenos de ordem patológicanos animais. É o exemplo clássico da miopatia provocada pela carênciade selênio. O mesmo autor ainda se refere: “Os sintomas das outrascarências são múltiplos e ‘não específicos’. Seguidamente, constata-se apenas a infertilidade, mas a maioria dos sintomas são característi-cos de deficiência em energia, nitrogênio, fósforo, ou de más condições nacriação”.É surpreendente se encontrar a mesma dificuldade que já encon-tramos, nas plantas, para caracterizar os sintomas desta ou daquelacarência em oligoelementos. Tanto nos animais como nos vegetais,parece que todas as carências repercutem sobre o conjunto do meta-bolismo do indivíduo, com toda a gama de seqüelas que isto traz aofuncionamento normal do organismo. Aliás, daí as dificuldadesobservadas por VAGO (1956) “para explicar os numerosos estadospatológicos, baseando-se apenas na unidade “doença”.Por agora, tentaremos esclarecer a natureza das relações entre aalimentação com uma pastagem obtida através de um determinadotipo de fertilização e o estado sanitário de rebanho que a consome.3. Relações entre alimentação e doençaPrimeiro se tentou abordar e até resolver este árduo problemaatravés de análises. Ou seja, analisaram-se os fenos para confrontar osresultados com as análises dos tecidos de animais que correspondessema um estado sanitário conhecido. A priori, se arriscava a um fracasso,especialmente com os oligoelementos.Pela análise dos fenos procurava-se determinar:
  • 300F R A N C I S C H A B O U S S O U– de uma parte, o início da carência;– de outra, o início da toxicidade.Quanto à análise dos tecidos animais, que deveria complementar ado feno, é um método válido em determinados casos, como na pesquisade selênio, mas que fracassa na maioria das vezes. PERIGAUD (1970)observa que “a análise individual não tem nenhum significado e se trabalhaapenas sobre valores médios”.Por outro lado, é difícil imaginar como a confrontação desses doistipos de análise poderia dar informações úteis quanto às necessida-des dos animais. Buscando determinar estas exigências nutricionaisatravés de análises puramente minerais e freqüentemente relativas aum único elemento, tangencia-se os conteúdos, por não se conhecero assunto com a devida profundidade. Os pesquisadores envolvidoscom este delicado tema parecem estar bem conscientes disto.Admitindo que se pudesse identificar as carências, se perceberiaque nem todas são “primárias”, isto é, diretamente ligadas à insufi-ciência de um elemento na ração. Algumas são “secundárias’ isto é,induzidas pela presença de um outro fator alimentar que interfere nautilização metabólica do alimento ingerido (PERIGAUD, 1970).À maioria dos observadores não escapou esta importante noção dasrelações que unem o solo, a planta e a saúde do animal que dela se nutre.PERIGAUD (op. cit.) observa, a respeito dos oligoelementos: “A pobre-za do solo em oligoelemento disponível repercute sobre a composição dosvegetais que nele se desenvolvem e daí sobre o animal que deles se nutre.Determinados tipos de solo produzem forragens cujo teor em algunsoligoelementos é freqüentemente inferior ao limite de carência definido peloanimal”.Como os dados obtidos pelo método de análise do feno nãoconduziam a um diagnóstico preciso, passou-se a testes terapêuticos,isto é, substituiu-se o pelo sintético método analítico .Com efeito, o início de carência foi determinado pelo processo deanálise de feno, temos direito de questionar até onde ele é válido.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S301Primeiro, o elemento em questão deve ser considerado sob o pontode vista de seu papel na fisiologia da planta, especialmente, como pen-samos ter demonstrado a importância, na elaboração das proteínas, con-sideradas como um fator de qualidade na alimentação de vertebrados.Ora, nenhum oligoelemento, como já vimos, age sozinho sobreo metabolismo da planta, mas sim num contexto fisiológico em queoutros macro ou microelementos intervêm, igualmente, e em funçãodos métodos culturais usados.Examinemos, por exemplo, o caso do cobre, cuja carência é geral.PERIGAUD (op. cit.) observa que “a concentração bruta do solo emcobre parece não ser suficiente”. Ela diz que:– um solo carente em cobre (na Normandia), cultivado intensi-vamente com azevém, produz uma forragem com 0,7 ppm de cobre;– sobre o mesmo solo, os campos nativos, com baixo rendimen-to alcançam 7,3 ppm;– enfim, em “solos normais”, a cultura superintensiva não tem maisque 3 a 5 ppm de cobre, isto é, menos que a pastagem extensiva em solopobre.Assim, PERIGAUD questiona:“Em que medida o aumento considerável da produção através deplantas selecionadas, da aceleração dos ritmos de corte, das técnicasde fertilização,*da irrigação etc... tem repercussões sobre a concentra-ção de oligoelementos nas forragens?”.A esta questão, podemos, talvez, aportar um início de resposta. E,em seguida, para explicar estas disparidades na concentração de cobrenas forragens, segundo os três casos mencionados, seria necessário sa-ber no que consistem as diferenças entre os métodos de cultivo.Quando PERIGAUD qualifica os cultivos de intensivos ou mes-mo “superintensivos”, isto não corresponderia a um emprego exagera-do de adubos solúveis, como é o mais comum? Ou até à utilização de*Grifado por Chaboussou (N. do R.)
  • 302F R A N C I S C H A B O U S S O Uherbicidas? (Para, como alguns preconizam, selecionar as espéciesforrageiras interessantes).Por enquanto, retenhamos apenas a provável utilização de adubosquímicos solúveis. Já vimos, antes, que os adubos nitrogenados solúveis– e, às vezes, os adubos potássicos, podem apresentar um efeito con-trário sobre a colonização da rizosfera pelas bactérias (com diferençasnas repercussões segundo a categoria de bactérias) (TROLLDENIER,1970). Especificamente, a nutrição potássica das leguminosas afeta afixação de nitrogênio pelo Rhizobium leguminosarum (KOCH eMENGEL, 1972).Ainda nas leguminosas, os aportes elevados de adubos potássicosaumentam o teor dos aminoácidos solúveis na planta. Em outras pala-vras, eles inibem a proteossíntese e diminuem, portanto, o valornutritivo da forragem.BETAEGHE e COTTENIE mostraram, numa longa experiên-cia de trinta e seis anos, que a fertilização com os adubos aplicados nasparcelas NPK praticamente provoca o desaparecimento do cálcio. Osautores constatam que isto leva a uma diminuição significativa do pHe da produção.Ora, vimos, no sexto capítulo, que o papel do cálcio é fundamen-tal na proteossíntese, devido a suas relações privilegiadas com osmicrorganismos e a matéria orgânica. O cálcio, associado à matériaorgânica, aumenta a fixação de nitrogênio. Ele também mobiliza osoligoelementos. Assim se explica que seu desaparecimento possaprovocar o bloqueio dos oligoelementos e, portanto, em cadeia, o doselementos nutritivos assimiláveis, num processo resumido no esque-ma da fig. 35.PERIGAUD (1970) constatou que o excesso de adubos nitrogenadospode provocar hipocupremias e queda de fertilidade do rebanho. PERIGAUDe DEMARQUILLY observam que, “na Bretanha, os casos de baixa fer-tilidade das vacas aparecem nos solos pobres em cobre, nas exploraçõesonde as doses empregadas de nitrogênio ultrapassam 100 kg/ha”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S303PERIGAUD e DEMARQUILLY salientam, em contrapartida,que os agricultores que não utilizam nitrogênio em suas pastagenstêm um rebanho com fecundidade superior a dos outros. É que acarência em cobre pode influenciar a diversidade da flora e a compo-sição mineral das plantas.Assim, a quantidade de capim Timothy*no feno pode ser dobra-da e a do trevo vermelho aumentada de 5 a 12 vezes, pelo aporte decobre ao solo (COÏC e TENDILLE, 1971). PERIGAIJD (1970) es-pecifica que “em solo muito pobre, estas espécies, adubadas commacroelementos com dosagens elevadas, são muito carentes em cobre”.Definitivamente, todos estes fenômenos têm por origem as repercus-sões nefastas dos adubos solúveis sobre os microrganismos do solo. Emparticular, o cobre é mais assimilável graças ao desenvolvimentobacteriano, como referem COÏC e TENDILLE (1971). A carênciaocorre com a destruição das bactérias.Como se sabe, o cobre interfere no teor de proteínas altamentedigestíveis da matéria verde. Este fenômeno implica que um pastojovem, rico em cobre, pode vir a provocar deficiência deste elemen-to (PERIGAUD e DEMARQUILLY, 1975).Esta constatação levanta diversas questões. Que critérios definiramesta carência? Quais são os sintomas apresentados pelo animal? Suaorigem é realmente uma deficiência em cobre, ou estaríamos na pre-sença de uma carência nutricional mais complexa como, por exemplo,uma carência de proteínas? Neste caso, o cobre contido no pasto jovempoderia estar acima do ótimo de concentração nutritiva e, com este teor,influenciaria, desfavoravelmente, o processo de proteossíntese.Como já observamos, geralmente os sintomas da maioria dascarências são “múltiplos e não específicos”, “secundários”, e não “pri-mários”.*Phaleum protense. ( N. do R.)
  • 304F R A N C I S C H A B O U S S O UAssim, a tetania do pasto, que pode ser provocada por excesso deadubos nitrogenados ou potássicos, seria, proveniente da diminuição dadigestibilidade do magnésio sob influência de um excesso de K ou N.Contudo, PERIGAUD e DEMARQUILLY (1975) indicam que estadoença “parece ser mais um problema de metabolismo de origem endócrinado que conseqüência do nível de digestibilidade do magnésio do pasto”.Esta observação aproxima-se à de COPPENET, a propósito dosefeitos complexos da adubação, que envolve diversos fatores difíceisde dissociar. Esse autor observava: “o estágio da exploração e o ciclosão mais importantes sobre a concentração de fósforo no azevém doque o teor de fósforo no solo e da adubação fosfatada”.Só resta dizer que é no nível da composição bioquímica da plan-ta que se deve buscar a causa das repercussões sobre a saúde do reba-nho que a consome. Resumindo, o que foi evidenciado quanto àsrepercussões da adubação sobre a qualidade do grão de trigo, podeser transposto, com grande aproximação, para a qualidade da forra-gem e a saúde do rebanho.A respeito da flora das pastagens; fixemos que:– pela existência de seus nódulos de Rhizobium, as leguminosasenriquecem o solo em nitrogênio orgânico, benéfico para o crescimentoe a qualidade da planta;– as leguminosas mobilizam também o cálcio e provocam uma bai-xa relação Si/Ca;– o cálcio, nas suas relações (ainda obscuras) com a matéria orgâni-ca e os microorganismos do solo, aumenta a fixação do nitrogênio e favo-rece a assimilação dos micronutrientes;– ao contrário, os adubos nitrogenados e potássicos solúveis, prova-velmente por seus efeitos tóxicos sobre as bactérias, como Rhizobium, acar-retam o desaparecimento das leguminosas e, conseqüentemente, tambémdo cálcio assimilável e dos oligoelementos como o cobre.Assim, pela via nutricional, resultam problemas mais ou menosgraves na saúde do rebanho, provavelmente oriundos, em última
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S305análise, de uma deficiência da forragem em proteínas e oligoele-mentos (fig. 35).Assim, não seria surpreendente constatar, em relação à saúde dosanimais e, mesmo, a do homem, repercussões sobre sua saúde e seupotencial biótico, podendo encontrar resultados, diametralmenteopostos, pela realização de técnicas culturais que, a despeito de seuempirismo, produzem na planta um estímulo à proteossíntese, aocontrário do esperado.Veremos agora os resultados dos métodos usados pelo que seconvencionou chamar de “agricultura biológica ou ecológica”.3. AGRICULTURA BIOLÓGICA E A SAÚDE DOSVERTEBRADOSA) os critérios de qualidade ou valor nutritivo da alimentaçãoA alimentação ideal seria a que, além de assegurar um bom cres-cimento, favorecesse, simultaneamente: a fecundidade, a fertilidade,a resistência às doenças e, enfim, a maior longevidade possível.O problema, que não é pequeno, consiste em determinar oscaracteres bioquímicos do alimento que corresponderiam, para cadaespécie animal, às normas de uma alimentação ideal. Diversas fórmu-las foram propostas, sem que nenhuma pudesse obter adesão unâni-me. Contudo, em relação aos vertebrados - como aludimos antes - seestá de acordo em reconhecer como critérios positivos a existência dealtas concentrações em proteínas e, também, em determinadosaminoácidos e em vitaminas. Veremos a demonstração disso, com osresultados de SCHUPHAN, que serão apresentados mais adiante.Referente aos animais, uma série de observações seguras e fatosque se assemelham entre si fornecem uma base sólida para determi-nar o bom estado sanitário de um rebanho. Outro bom indicador,mais imediatista, é a conta paga pelos criadores aos veterinários!... éo que faremos com os resultados alcançados pelos agrobiologistas.
  • 306F R A N C I S C H A B O U S S O UB) Os resultados da “agricultura biológica”BRUGGER (1975), que parece caracterizar bem uma posiçãobastante corrente, escreve: “A pretensão da agricultura ‘biológica’ de sera única que produz alimentos de qualidade irrepreensível e de valorsuperior, do ponto de vista biológico, deve ser refutada com vigor”.O mesmo autor insiste: “por razões de ordem jurídica e objeti-va, determinados limites deveriam ser impostos à propaganda emfavor dos produtos biológicos”.Entretanto, se nosso autor, – que está perfeitamente em seu di-reito – contesta a superioridade dos produtos da agricultura bioló-gica, em relação aos da agricultura “clássica” ou “química”, ele nãoapresenta nenhuma prova e fica no estágio da afirmação. Por isso,baseados em fatos e na qualidade das colheitas, vamos analisar obje-tivamente os resultados obtidos pela agricultura biológica e identi-ficar, se realmente não apresentam alguma superioridade em relaçãoà agricultura “química”. E, aqui, deixando de lado a questão de resí-duos de agrotóxicos (os agrobiologistas salientam a sua ausência emseus produtos), para enfocarmos o ponto de vista do valor nutritivodas plantas assim cultivadas.Para sermos o mais objetivos possível vamos recorrer, não direta-mente aos agrobiologistas, mas a um pesquisador oficialmente encar-regado de apreciar os resultados das explorações agrobiológicas.A saúde do rebanho nas explorações agrobiológicas será o primeiroponto enfocado.Quando o CORDES (Comitê d e Organização de Pesquisas sobreo Desenvolvimento Econômico e Social), organismo do “ComissariadoGeral de Planejamento”, nos deu a honra de perguntar nossa opiniãosobre a pesquisa de Yves LE PAPE, resumida no relatório A agricultu-ra biológica afirmamos que:“O mínimo que se pode dizer desse trabalho é que nos pareceescrupuloso, imparcial e, na medida em que é humanamente possí-vel, objetivo”. E, podemos, mesmo, acrescentar: “Sem dúvida, ele não
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S307provoca um impacto considerável nos diversos meios agrícolas, sejamestes favoráveis, ou não, às concepções da agricultura biológica”.Foi excesso de otimismo. Na realidade – e, ao contrário do quesugerimos - este interessante relatório, segundo nosso conhecimen-to, não foi objeto de nenhuma discussão oficial. Contudo, como osfatos aí relatados continuam os mesmos, necessariamente terão queser considerados num futuro mais ou menos próximo.Um primeiro fato nos chamou a atenção na leitura desse relató-rio: a unanimidade das repercussões benéficas sobre a saúde das plan-tas, animais e do próprio homem produzidas pelo emprego dastécnicas da agricultura biológica. Tal convergência não é apenas fru-to do acaso.A respeito da saúde dos animais, o relatório observa que areconversão das explorações de “agricultura química” para “agricul-tura biológica” deu-se essencialmente em razão do estado sanitário dorebanho.O relatório precisa que:– 68% dos agricultores são motivados pelas numerosas doençasdo rebanho, que haviam tido na agricultura “química”;– 18% destes apresentavam problemas de saúde em sua própriafamília.O relatório precisa que, depois da conversão, o estado sanitáriomelhorou nitidamente. Citamos: “75% [dos agrobiologistas] regis-traram uma importante diminuição dos custos veterinários. A nos-so conhecimento, nenhum caso de febre aftosa foi registrado naBretanha, nos agricultores biológicos, apesar dessa doença ter ataca-do, gravemente, nessa região, na primavera desse ano. Por outro lado,no Finistère, onde a vacina não é obrigatória, não foi registrado ne-nhum caso de febre aftosa. Como explicar fatos tão surpreendentes?”.Vemos uma só resposta a esta questão: a superioridade da quali-dade da alimentação obtida elaborada graças às técnicas da agricul-tura biológica.
  • 308F R A N C I S C H A B O U S S O UIsto nos leva a questionar os elementos que atualmente dispomoscomo critérios bioquímicos válidos para identificar a qualidade dosprodutos vegetais, em função dos diferentes modos de cultivo. A esterespeito, habitualmente se faz referência aos trabalhos de SCHUPHAN(1974), que se estenderam por doze anos.Os trabalhos de SCHUPHANEm resumo, os trabalhos de SCHUPHAN comparam diversostipos de adubação, em culturas como espinafre, repolho crespo, batatae cenoura. São consideradas a fertilização clássica NPK, utilizada iso-ladamente e associada ao esterco, só esterco e, enfim, compostagembiodinâmica.Foram feitos três tipos de constatações:– evolução da composição mineral do solo;– composição das colheitas em diversos constituintes orgânicose minerais;– repercussões sobre a saúde de bebês alimentados com produ-tos obtidos desses diferentes tipos de fertilização.No que se refere às transformações constatadas no solo, SCHUPHANregistra:1. A função reguladora do húmus na nutrição das plantas.2. Sobre turfa, com o composto biodinâmico, concentrações extrema-mente elevadas em K2O, O2, Na, P2O5, Ca e Mn.SCHUPHAN justifica este segundo ponto pelas quantidadeselevadas de elementos fornecidos a cada ano, e também pelo nívelrelativamente moderado das colheitas.Contudo, pelo que se sabe dos fenômenos ditos “de troca” e de“mineralização”, provocados pela fertilização orgânica, é questionávelse são apenas estes os processos em questão. Vimos que, ao longo docapítulo sexto, a matéria orgânica estimula a proteossíntese, princi-palmente quando previamente fermentada. Veremos, adiante, umademonstração suplementar.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S309A respeito dos oligoelementos, a concentração de ferro aumenta comdois tipos de adubação orgânica: esterco e composto biodinâmico.Além disto, com o composto biodinâmico, as concentrações do solo,em magnésio, são mais elevadas do que com os outros tratamentos.A respeito da composição da planta, indicamos sumariamente osseguintes resultados:Com a adubação orgânica:a) constata-se, se de um lado, a elevação das concentrações de ele-mentos minerais (exceto sódio), bem como a redução da presença decompostos indesejáveis, como nitrogênio nítrico e aminoácidos livres,que são produtos nefastos para a alimentação dos vertebrados, inclu-ído o homem;b) por outro lado, como a adubação puramente química aumenta oteor de água nos tecidos, com a aplicação de esterco, aumenta-se o teor dematéria seca em 96%, se comparado ao tratamento químico com NPK;c) a concentração de vitamina C (ou ácido ascórbico), seu teor,sempre comparado ao tratamento NPK, aumentou em 78% com oesterco e 64% com o composto biodinâmico;d) em resumo, estes resultados provam que a fertilização orgânicaestimula a proteossíntese, tanto nas hortaliças estudadas, como noscereais, forragens e árvores frutíferas, como vimos antes.Do ponto de vista dietético, o fato mais significativo reside napropriedade da fertilização orgânica de aumentar o teor de aminoácidossulfurados (metionina e cistina) nas proteínas. Estes são os mais impor-tantes para a nutrição do homem e dos animais.Inversamente, os adubos nitrogenados solúveis, principalmentequando usados em grandes quantidades, provocam, por exemplo, emespinafre, reduções consideráveis na concentração de metionina nas pro-teínas.Acreditamos ser útil citar SCHUPHAN integralmente: “Osdados do quadro 6 indicam uniformemente baixas concentrações emaminoácidos livres devido à fertilização orgânica, tanto com ‘esterco’
  • 310F R A N C I S C H A B O U S S O Uquanto com ‘composto biodinâmico’. Mostram também altas concentra-ções com a associação ‘esterco’ mais NPK e apenas NPK, devido à concen-tração de nitrogênio do adubo mineral usado”.Aproveitemos para ressaltar os efeitos nefastos dos adubosnitrogenados solúveis, que já comentamos nesta obra, em relação à resis-tência da planta e da qualidade do trigo ou forragens. Este tipo de adu-bo, por diversas razões já citadas, inibe a proteossíntese. Não énecessário buscar outras razões para todos os seus inconvenientes.As experiências de SCHUPHAN, relativas ao valor nutricional dosprodutos vegetais para bebês, referiram-se, apenas, à comparação doconsumo das hortaliças obtidas com esterco e associação esterco maisNPK. Os resultados foram claramente superiores com os produtosoriundos do último modo de adubação. E, aqui, em seguida, a opi-nião dos pediatras: “os teores mais elevados em constituintes não calóricos:vitaminas, minerais e oligoelementos”.Citemos resumidamente os resultados globais obtidos com ester-co e composto biodinâmico. Comparado com fertilização apenas deNPK, são os seguintes os percentuais de aumento:– determinação sobre batata e espinafre, separados:análise da batata:• matéria seca + 23%• % proteína + 18%• ácido ascórbico + 28%• açúcares totais + 19%• metionina + 23%análise do espinafre:•K +18%•Ca+10%•P +19%•Fe +77%
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S311Enfim, os constituintes nefastos ou indesejáveis, normalmente prove-nientes de um metabolismo imperfeito, mostram consideráveis regressões,devido ao estímulo da fertilização orgânica, se comparada ao tratamen-to NPK:• regressão dos nitratos 93%• regressão dos aminoácidos livres 42%• regressão do sódio 12%Assim, os trabalhos de SCHUPHAN parecem concordar com osresultados empíricos obtidos pelos agrobiologistas e, que têm a pre-tensão de fornecer produtos com maior valor nutricional do que osda agricultura “clássica” ou “química”.Esse maior valor nutricional, parece se explicar pela natureza deseus métodos, quais sejam:– o cultivo de leguminosas que enriquecem o solo em nitrogênioorgânico e cálcio;– os aportes moderados de correções de cálcio-magnésio;– a escolha de adubos insolúveis (pó de rocha);– a utilização privilegiada de estercos e compostos fermentadose ricos em oligoelementos e substâncias de crescimento;– o não-uso de adubos solúveis que apresentam toxicidade emrelação às bactérias úteis e ameaçam a vida e a fertilidade do solo;– enfim, a recusa aos agrotóxicos sintéticos, inclusive herbicidas,suscetíveis, de poluir, não apenas os produtos com resíduos, mastambém sensibilizam as plantas a doenças e alteram a qualidade dacolheita, por inibição da proteossíntese.É, efetivamente, um conjunto de disposições que só pode resul-tar no aumento do processo da proteossíntese e, portanto, do valornutricional das culturas. Essas diversas técnicas parecem explicar, porseus efeitos sobre a elaboração das proteínas, os resultados de que seorgulham os agrobiologistas: técnicas brandas e pouco onerosas,resistência das plantas às pragas e doenças, superioridade do valornutricional das colheitas que levam a uma excelente saúde do reba-
  • 312F R A N C I S C H A B O U S S O Unho e até do homem.Assim, se encontraria fechado o ciclo que, através da planta, vaido solo ao homem e aos animais domésticos, e que é a característicae objeto da agricultura. Ainda restam grandes progressos a seremalcançados, principalmente sobre a abertura de espírito, mas pareceque uma via mais racional está disponível. Pensamos ser útil expres-sar em grandes linhas nossas conclusões gerais.Fig. 35. Esquema da cadeia das repercussões dos adubos solúveisem relação à qualidade das forragens e da saúde do rebanho.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S313BIBLIOGRAFIABERTRANDD.,DEWOLFM.A.etSILBERSTEINL.1961.Influencedel’oligo-élémentzincsurlasynthèsedequelquesamino-acidesdunslesfeuillesdePois(Pisumsativum). “C.R.Ac. Sciences”, t. 253, p. 2586.BERTRANDD.,FLANZYM.,DEWOLFA. etBENARDP.1966.Influencesurle vin des oligo-éléments utilisés dans la culture de laVigne. “C.R.Ac. Agric.”, 11de maio de 1966, pp. 574-581.BETAEGHE I. et COTTENIE A. 1976. Aspects botaniques et analytiques del’évolution àlongue échéance de l’état nutritif du sol. “Ann. Agron.”, 27(56), pp.819-836.BYERSM.etBOLTONJ.1979.Effectsofnitrogenandsulphurfertilizersontheyield,N et S content, and amino acid composition of the grain of spring wheat. “J. Sc.Food Agric.”, 30, pp. 251-263.CHABOUSSOU F. 1979. Agriculture biologique Agriculture de la protéosynthèse.“Publication I.R.A.A.B.”, 58 p.CHABOUSSOU F. 1980. La fertilisation et la santé. Public. “Nature et Progrés”,Chamarande, 51 p.CHABOUSSOU F. 1979. Techniques agricoles et qualité der récoltes. “C.R. l04eCongrès des Sociétés Savantes”, Bordeaux, 1979, fase. II, pp. 241-250.COÏCY.1968.Fertilisationminéraleetqualitédesrécoltes.Documentmimeografé:18 p.COÏC Y. etTENDILLE Cl. 1971. Causes connues des variations quantitatives desoligo-éléments duns les végétaux. “Ann. Nutr. Alim.”, 25, B 97, B 131.DOBROLYNBSKIJ O.K. et FEDORENKO I.V. 1969. Influence of zinc on thecontent of phosphorus compounds in plants. “Soviet Plant Physio”., 16, 5, pp.739-744.DOBROLYNBSKIJO.K.etFEDORENKOI.V.1975.Influencedesmicroélémentssurlacompositionenacidesaminésduraisin.(Enrusse.)“Fiziol.Biokhem.Rast”,7, 4, pp. 392-397.DUFRENOYJ.1935.Lesproblèmesphysiologiquesenpathologievégétale,34p.Ann.Agron. Separata. Id. 631.092.8.KOCHK. et MIENGELK. 1972. Effects of potassium nutrition on the content andthe spectrum of soluble amino-compounds in Red clover. “Z. Pflanzenrahr”,t. l3l,2, pp. 148-154.
  • 314F R A N C I S C H A B O U S S O ULE PAPEY. 1975. L‘Agriculture biologique. critique technologique et système social.Commissariat général au plan. C.O.R.D.E.S., nº 15, 129 p.PERIGAUD5.1970.Lescarencesenoligo-élémentschezlesruminantsenFrance.Leurdiagnostic. Les problémes soulevés par l’intensification fourragère. “Ann.Agron.”,21(5), pp. 635-669.PERIGAUDS. et DEMARQUILLYM.C.1975. Influence de la fertilisation sur laqualité minérale des fourrages. Colloque F.A.O. Nova York, 1975.ROSE M. et d’ARCES J. 1957. Evolution et Nutrition. Paris, Vigot, 155 p.SCHUPHANW.1974. Influencesurlavaleurnutritionnelledesrécoltes,defumuresorganiques ou inorganiques. Résultats de douze ans d’études (1 960-1972).“Qualitas plantarum”, 26 de abril de 1974, nº 04, pp.333-358.TROLLDENIER G. 1970. The influence of potassium and nitrogen nutrition ofwheat on bacterial colonisation on the rhizosphère. “BüntehofAbstracts”,1970-1971, 2, pp. 18-20.VAGO C. 1956. L‘enchainement des maladies chez les Insectes. Thèse Doctorat es-Sciences, Aix-Marseille, 181 p., I.N.R.A. editor, 149, rue de Grenelle, Paris.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S3151. SOBRE A NATUREZA DAS RELAÇÕES HOSPEDEIRO-PARASITARecentemente foi observado que: “A maioria de nossos conheci-mentos sobre as relações hospedeiro-parasita das doenças das plan-tas ainda se restringe aos processos descritivos. A transposição dessesconhecimentos para relações bioquímicas e fisiológicas precisas, comoas que possibilitam o progresso da medicina, constitui o trabalhomais importante a ser realizado”.*Foi o que tentamos nesta obra, procurando responder a um de-terminado número de indagações.Assim, a respeito das repercussões dos agrotóxicos, que representamo volume maior de nossos trabalhos, questionamos:1. Por que diversos agrotóxicos provocam multiplicações deácaros, pulgões, lepidópteros etc?CAPÍTULO ICONSIDERAÇÕES GERAIS
  • 316F R A N C I S C H A B O U S S O U2. Por que os ditiocarbamatos acarretam o desenvolvimento deOidium e Botrytis nas plantas tratadas?3. Por que diversos produtos notoriamente não fungicidas apre-sentam ação antifúngica?4. Por que a causa da ação da calda bordalesa e do enxofre emrelação a numerosas doenças fúngicas ainda não foi explicado?Sobre as incidências nefastas ou benéficas da fertilização, pergun-tamos:5. Por que os adubos nitrogenados solúveis são unanimementereconhecidos por sensibilizarem as plantas em relação a doenças epragas?6. Por que, inversamente, o potássio e uma fertilização equilibra-da conferem à planta resistência a estas mesmas pragas e doenças?Sobre o clima e os fatores ambientais:7. Por que uma queda de temperatura sensibiliza a planta às do-enças fúngicas?8. Por que, ao contrário, temperaturas mais altas e fotoperíodolongo as tornam mais resistentes?Sobre determinadas práticas culturais:9. Por que, em determinados casos, a enxertia sensibiliza o enxer-to a ataques de ácaros ou doenças e, em outros casos, provoca efeitocontrário?10. Por que, na maioria dos casos, o trabalho do solo estimula aresistência?Enfim, a respeito do metabolismo da planta – que, em últimaanálise, é o ponto principal:11. Por que folhas muito jovens ou folhas maduras são resisten-tes, enquanto folhas de idade intermediária ou folhas velhas são, aocontrário, suscetíveis?12. Enfim, por que as folhas são mais sensíveis no momento dafloração?A esta série de questões – cuja lista poderia ser alongada – con-
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S317seguimos dar uma única resposta: a resistência está associada, posi-tivamente, ao nível de proteossíntese nos tecidos. Isto significa quenossa teoria da trofobiose tem chance de dar um passo adiante naexplicação destes fenômenos. Ou seja, fazer avançar os meios a seremdesenvolvidos para proteger a planta.Julgamos necessário voltar a falar sobre os riscos dos agrotóxicos,ainda usados sem se levar em consideração sua ação indireta sobre aresistência da planta.2. EXPLICAÇÃO DAS REPERCUSSÕES DOS FUNGICIDASSe, na medicina, o registro de medicamentos considerados efica-zes é dado após testes em animais, os médicos devem reconhecer, ho-nestamente, que ignoram quase completamente a maneira como osprodutos agem. Acreditamos válido recordar, através de uma citação doDr. LEPRINCE, que SEZARY estimava que os produtos não seriamespecíficos em relação aos germes patogênicos, mas que exerceriam umaação indireta no organismo, aumentando sua “vitalidade”. Ou, emoutras palavras, modificando favoravelmente “o terreno”, noção cara aClaude BERNARD e, cada vez mais, levada em consideração.É esta a ênfase dada por nossa teoria da trofobiose, que preten-de, além disto, definir o terreno como “meio nutricional” em relaçãoao parasita.Portanto, a eficácia de um “fungicida” qualquer resultaria de umaação antinutricional em relação ao parasita em questão, simplesmentepor um efeito favorável à proteossíntese.Assim se explicaria a ação antifúngica, em relação a certas doen-ças, de produtos não fungicidas como os arsenicais para o controle dasarna, do Parathion contra a ferrugem coroada do azevém, do Carbarylem relação a Alternaria do algodoeiro etc.Cabe a mesma explicação para os efeitos pró-fúngicos dosditiocarbamatos e pró-ácaros de diversos agrotóxicos, inseticidas efungicidas.
  • 318F R A N C I S C H A B O U S S O UTambém estaria explicado o modo de ação antifúngica de produ-tos clássicos como o enxofre ou a calda bordalesa, que há muito tempocomprovam sua utilidade.Enfim, também se teria a explicação da ineficácia freqüente deprodutos registrados como “fungicidas”, que falham quando utiliza-dos e cuja eficácia é formalmente colocada em dúvida por pesquisa-dores experientes.As falhas são tantas, que se permite definir como “fungicida”qualquer produto não necessariamente tóxico em relação ao patógenoem questão, mas que, através de um efeito não-intencional, porémbenéfico, sobre a estimulação da resistência da planta tratada, podeter ação antifúngica, em uma determinada dose, sobre um determinadotipo de folha e num determinado período do ciclo fisiológico. Istoocorre através de um efeito de ordem antinutricional em relação aoparasita.Assim, são os efeitos não intencionais dos produtos sobre a fisio-logia da planta que podem provocar graves repercussões sobre suasuscetibilidade, bem como o desencadeamento das doenças.É este ponto importante que gostaríamos de retornar nas conclu-sões gerais.3. GRAVIDADE DAS REPERCUSSÕES DOSAGROTÓXICOS SOBRE A PLANTAO quarto capítulo desta obra tem por objetivo as repercussõesdos agrotóxicos sobre a fisiologia da planta. Como vimos, elas seexplicam em função de nossa teoria da trofobiose, tanto pela açãoeficaz dos produtos, quanto nos casos freqüentes de ineficiência eo desencadeamento de novas afecções, que analisamos no quinto ca-pítulo.A este respeito levantamos o caso – tão inquietante do ponto devista agronômico – das doenças viróticas, em recrudescimento nosúltimos anos.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S319Achamos útil, para entender a eventual causa deste grave proble-ma fazermos uma aproximação com o que ocorre nos insetos, segundotrabalhos de VAGO. Diremos brevemente que, nosso eminente co-lega demonstrou que, nos insetos pode haver desencadeamento dedoenças viróticas, mesmo havendo controle para impedir o contatode vírus com os insetos. O desencadeamento ocorre por má nutriçãoou ingestão de produtos químicos como, por exemplo, o fluoreto de sódio,em doses baixas.Pelo que conhecemos das repercussões dos agrotóxicos (especialmenteherbicidas) sobre a fisiologia da planta e sua má nutrição, que pode serdecorrente dos efeitos tóxicos sobre os microrganismos do solo, po-demos nos perguntar se as primeiras repercussões nefastas dessesprodutos não seriam as de favorecer a elaboração dos vírus.Muitos agrotóxicos, especialmente os herbicidas, inibem aproteossíntese. Além disto, os agrotóxicos, como “toda uma série detratamentos químicos e físicos (aquecimento, irradiação ultravioleta,ultra-som, ação leve de ácidos e bases etc.)”,*possivelmente, “modi-fiquem a estrutura e as propriedades de uma proteína sem separar ne-nhum dos aminoácidos que a constituem”.Efetivamente, diversos herbicidas como o 2-4D, Ionoxyl, Chlorpropham,e Propanil, perturbam a transmissão do código genético do RNA e inibema síntese de proteínas. Foi demonstrado que:a) os herbicidas e inseticidas provocam profundas modificaçõesno metabolismo do nitrogênio;b) pode haver alteração do caráter das proteínas, no que se refereà sua composição em aminoácidos (SELL et alii., 1949).Nestas condições, é de se espantar com a atual disseminação dasdoenças viróticas, especialmente nos cereais? Extensão que poderia terpor origem, não apenas os efeitos dos herbicidas sobre o cereal, mas*“As doenças das plantas: modos de desenvolvimento e métodos de controle”.Collectif. Traduzido do inglês (Publicação INRA).
  • 320F R A N C I S C H A B O U S S O Utambém as incidências da má nutrição, pela ação tóxica dos herbicidase adubos nitrogenados solúveis sobre os microorganismos do solo, como jáfoi demonstrado.CONCLUSÕESAS RAZÕES DAS ATUAIS DIFICULDADES DECONTROLE DE PRAGAS E DOENÇASAs considerações precedentes, que constituem um extremo resu-mo deste trabalho, talvez permitam compreender as razões das difi-culdades atuais de controle das doenças e pragas. Salta aos olhos queelas são provenientes da insuficiência, para não dizer inexistência, detrabalhos referentes às relações planta-parasita.Ora, a este respeito, propomos uma teoria, a da trofobiose. Que sejaposta a prova! Assim, com base no conjunto dos fatos expostos nestetrabalho e em concordância com as concepções de certos fitopatologistascomo DUFRÉNOY, será possível verificar se ela é eficaz.Em segundo lugar, é hora dos fitofarmacêuticos fazerem suaautocrítica e, até, sua “mea culpa”. Como elo de ligação entre fabricantesde agrotóxicos e usuários, é grande sua responsabilidade. Até agora,os fitofarmacêuticos consideraram mais os casos notórios defitotoxicidade ou queimaduras, para excluir um agrotóxico da lista deprodutos registrados, do que sua repercussão sobre a fisiologia e,portanto – repetimos – sobre a resistência das plantas.A fitiatria está, atualmente, no mesmo ponto que estaria a me-dicina, se negligenciasse as eventuais repercussões de um antibióti-co ou cortisona, no organismo de um paciente!Esta atitude é particularmente condenável, em relação aosherbicidas: recentemente, num simpósio quase oficial, realizado naFrança, não houve uma só comunicação referente às repercussõesdesses produtos sobre os microrganismos e a vida do solo!Por isso as dificuldades de se encontrar soluções viáveis no con-trole de pragas e doenças. Um fracasso do controle químico exige outra
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S321intervenção com agrotóxico, tão grande é a crença na destruição –contudo muito problemática – do agente patogênico através deenvenenamento químico! Isto apenas torna o problema mais grave:é necessário compreender que, se por este método visamos o parasita, éà planta que atingimos a cada golpe.Daí esta sucessão de doenças, verdadeiramente, “iatrogênicas”, acomeçar pelas doenças viróticas, se a alteração do metabolismo celu-lar, provocada pelos efeitos cumulativos dos diversos agrotóxicos,realmente tiver como primeiro resultado a formação de, pelo menos,a multiplicação dos vírus.Por isso o desencorajamento e amargura dos fitopatologistaspesquisadores, responsáveis por encontrar meios para controlar estaproliferação de doenças, que se queixam de ser relegados ao papel de“bombeiros de plantão”.Só vemos um meio para eles saírem desta posição subalterna:mudarem de objetivo. Ou seja, procurar evitar o estímulo da sensi-bilidade da planta ao invés de buscar simplesmente a destruição doparasita.Esta nova perspectiva supõe o questionamento dos fatores genéticoscomo único meio de se obter esta resistência, bem como levar em con-sideração todos os fatores ambientais capazes de agir neste sentido. Sedeverá considerar, principalmente, a adubação e as pulverizações foliaresnutritivas, sob a perspectiva de uma correção de carências e subcarências,segundo um primeiro esquema sugerido no sétimo capítulo.Quanto aos entomologistas, esperamos que este trabalho contribuapara fazê-los refletir que o potencial biótico de todo o animal estáestreitamente ligado ao valor nutricional do alimento disponível. Istoocorre, especialmente, com as espécies fitófagas que eles devem com-bater. E que, para a praga, esta “qualidade” do vegetal é função, nãoapenas da variedade botânica ou da espécie da planta, mas tambémda maneira como ela foi “condicionada” pelos tratos culturais, comotrabalho do solo, adubação e... tratamentos com quaisquer agrotóxicos.
  • 322F R A N C I S C H A B O U S S O UAssim, nossos colegas deveriam ser levados a rever a concepção doequilíbrio das espécies e da limitação das pragas apenas pelo proces-so da predação e do parasitismo. Esta revisão provavelmente serádolorosa para alguns, pois questiona toda uma técnica sobre a qual muitose investiu: queremos falar do controle biológico.*Estamos absolutamente conscientes da revolução que nossasconcepções trazem à área de fitiatria, bem como dos interesses queelas podem lesar. Certamente, a evolução será mais lenta e mais di-fícil de ser alcançada no nível intelectual. Todavia, se ela já ocorreucom agricultores que sofreram as graves dificuldades evocadas, porque também não ocorreria no espírito dos pesquisadores? Para o bemda agricultura, esperamos que esta evolução ocorra o mais rapidamen-te possível. Ficaremos felizes se nossa obra puder contribuir para isto.Última observação, para terminar:Poderíamos ter apresentado mais argumentos para nossa tese,pelo estudo de diversos outros pontos aos quais rapidamente fizemosalusão, especialmente, como:– as repercussões da enxertia sobre a suscetibilidade do enxerto aácaros e doenças, sobre as quais constituímos um dossiê bastanteimportante;– sobre os experimentos de controle com antibióticos e substâncias decrescimento, cujo sucesso é tributário da nutrição da planta e, confir-mando a regra geral, do nível de proteossíntese;– enfim, sobre as relações entre a natureza da adubação e asuscetibilidade da planta a doenças viróticas, a respeito do que coleci-onamos numerosas referências.Contudo, a eles renunciamos, para não ampliar ainda mais estaobra. Talvez examinaremos estas questões em outro trabalho, volta-*Marianne LEVY, 1955, Les protéines, Coll.. “Que Sais-Je”.
  • P L A N T A S D O E N T E S P E L O U S O D E A G R O T Ó X I C O S323do às soluções práticas de proteção da planta, com base em resulta-dos obtidos através de técnicas inspiradas em nossa concepção datrofobiose e, aos quais, já fizemos alusão brevemente.Bordeaux-Balizac: junho-agosto 1980.