Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica
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Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica

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O desenvolvimento de modelos de produção agrícola de base ecológica tornou-se necessário para suprir a necessidade crescente de alimentos livres de resíduos tóxicos e ao mesmo tempo, respeitar ...

O desenvolvimento de modelos de produção agrícola de base ecológica tornou-se necessário para suprir a necessidade crescente de alimentos livres de resíduos tóxicos e ao mesmo tempo, respeitar os preceitos da sustentabilidade, da conservação do meio ambiente e do bem-estar do ser humano. A produção orgânica de hortaliças se enquadra neste contexto e no Brasil, cada vez mais, vem conquistando simpatizantes tanto na agricultura familiar como no seguimento empresarial formado por médios e grandes produtores rurais. Também é preconizada por políticas públicas direcionadas a hortas urbanas e periurbanas.
A transição agroecológica refere-se a um processo gradual de mudança na forma de manejo do agroecossistema, que envolve a passagem de um modelo agroquímico de produção, de alta dependência de insumos externos (fertilizantes e agrotóxicos) para outro modelo de agricultura que incorpore princípios, métodos e tecnologias de base ecológica. As mudanças podem ocorrer em vários níveis: começando pela redução no uso de insumos convencionais; passando para a substituição de práticas e insumos convencionais por técnicas e insumos alternativos; e por fim, pela remodelagem de toda a propriedade conforme os princípios agroecológicos, com elevado aproveitamento dos processos naturais e interações ecológicas. Isto pode levar algum tempo, dependendo do tipo de manejo utilizado anteriormente na propriedade, das condições edafoclimáticas locais e das estratégias agroecológicas adotadas para construção do novo modelo de produção agrícola.

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    Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica Document Transcript

    • ISSN 1415-3033Manejo de pragas em hortaliças durante atransição agroecológicaCircularTécnicaBrasília, DFMarço, 2013Autores119 Foto:JosimarR.deCoutoMiguel Michereff FilhoEng. Agr., D. Sc.Embrapa Hortaliçasmiguel.michereff@embrapa.brFrancisco Vilela ResendeEng. Agr., D. Sc.Embrapa Hortaliçasfrancisco.resende@embrapa.brMariane Carvalho VidalBiol., Ph. D.Embrapa Hortaliçasmariane.vidal@embrapa.brJorge Anderson GuimarãesBiol., D. Sc.Embrapa Hortaliçasjorge.anderson@embrapa.brAlexandre Pinho de MouraEng. Agr., D. Sc.Embrapa Hortaliçasalexandre.moura@embrapa.brPatrícia Santos da SilvaEng. Agr.bolsista DTI-C/CNPqpsspatricia@gmail.comCaroline Pinheiro ReyesEng. Agr., M. Sc.Embrapa Hortaliçascaroline.reyes@embrapa.brO desenvolvimento de modelos de produção agrícola de base ecológica tornou-se necessário para suprir a necessidade crescente de alimentos livres deresíduos tóxicos e ao mesmo tempo, respeitar os preceitos da sustentabilidade,da conservação do meio ambiente e do bem-estar do ser humano. A produçãoorgânica de hortaliças se enquadra neste contexto e no Brasil, cada vezmais, vem conquistando simpatizantes tanto na agricultura familiar comono seguimento empresarial formado por médios e grandes produtores rurais.Também é preconizada por políticas públicas direcionadas a hortas urbanas eperiurbanas.A transição agroecológica refere-se a um processo gradual de mudança naforma de manejo do agroecossistema, que envolve a passagem de um modeloagroquímico de produção, de alta dependência de insumos externos (fertilizantese agrotóxicos) para outro modelo de agricultura que incorpore princípios,métodos e tecnologias de base ecológica. As mudanças podem ocorrer em váriosníveis: começando pela redução no uso de insumos convencionais; passandopara a substituição de práticas e insumos convencionais por técnicas e insumosalternativos; e por fim, pela remodelagem de toda a propriedade conforme osprincípios agroecológicos, com elevado aproveitamento dos processos naturaise interações ecológicas. Isto pode levar algum tempo, dependendo do tipo demanejo utilizado anteriormente na propriedade, das condições edafoclimáticaslocais e das estratégias agroecológicas adotadas para construção do novomodelo de produção agrícola. Nos primeiros anos de conversão para a agriculturaorgânica, são comuns os surtos de pragas e isto ocorre porque os produtoresdeixaram de empregar agrotóxicos no manejo de pragas e ao mesmo, seu
    • 2 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicasistema agrícola não tem as defesas próprias desistemas ecológicos amadurecidos. Apesar disso,várias medidas de controle mostram-se efetivas paraproteção das plantas neste período de conversão,desde que adotadas de forma correta e dentro daconcepção do manejo ecológico de pragas (MEP).Com esta Circular Técnica pretende-se disponibilizaruma série de informações sobre pragas que atacamhortaliças e métodos para seu controle durante operíodo de conversão para o modelo de produçãoorgânica, de tal forma que os agricultores tenhamsubsídios para alcançar os estágios mais avançadosda transição agroecológica e a sustentabilidade doseu processo produtivo.1. Manejo Ecológico de pragasO MEP consiste na adoção do manejo integradode pragas dentro do enfoque agroecológico(Figura 1). Neste busca-se aplicar o princípioda prevenção, recuperando a fertilidade naturaldo solo e fortalecendo as plantas por meio dorestabelecimento do equilíbrio ecológico noagroecossistema. Isto pode ser alcançado pelareintrodução planejada da biodiversidade napropriedade e pelo manejo racional do solo nasáreas cultivadas.A implementação do MEP depende das seguintesações: (1) reconhecer as pragas e suas injúrias,(2) reconhecer os inimigos naturais das pragas, (3)vistoriar periodicamente o cultivo e (4) selecionar eadotar de forma planejada os métodos de controle.1. Reconhecimento das pragas e suas injúriasA grande maioria das espécies de insetos e ácarospresentes nos cultivos de hortaliças não causaqualquer prejuízo, não devendo ser, portanto,considerada como praga. No entanto, aquelasespécies frequentemente presentes no cultivo emníveis populacionais que causam prejuízos (perdaseconômicas) são chamadas pragas principais oupragas-chave e exigem maior atenção do agricultor.Outras espécies raramente causam prejuízos,sendo consideradas como pragas secundárias ouocasionais. A maior ou menor importância de cadapraga varia de acordo com a região e a época decultivo. O reconhecimento das pragas principaisda cultura e suas injúrias auxiliará o produtor naseleção e adoção de medidas que favoreçam aspopulações dos seus inimigos naturais e/ou quegerem condições ambientais desfavoráveis à pragaem questão. São exemplos de pragas-chave emcultivos orgânicos:•  Abóbora, abobrinha, melão, melancia e pepino –mosca-branca (Bemisia tabaci, biótipo B), pulgão(Aphis gossypii), tripes (Thrips tabaci, T. palmie Frankliniella spp.) e brocas-das-cucurbitáceas(Diaphania nitidalis e D. hyalinata).•  Alho e cebola – tripes (T. tabaci) no campo;ácaro-do-cochamento-do-alho (Aceria tulipae) etraças-do-alho (Cadra cautela, Ephestia elutella ePlodia interpunctella) no armazenamento.•  Batata – vaquinha ou larva alfinete (Diabroticaspp.), pulgões (Myzus persicae, Macrosiphumeuphorbiae, A. gossypii e Aulacorthum solani) emosca-branca (B. tabaci, biótipo B).•  Couve comum, couve-flor, brócolis e repolho– pulgões (Brevicoryne brassicae, M. persicae,Lipaphis erysimi), traça-das-brássicas (Plutellaxylostella), curuquerê (Ascia monuste), lagartamede-palmo (Trichoplusia ni) e mosca-branca (B.tabaci, biótipo B).•  Morangueiro – ácaro rajado (Tetranychus urticae).•  Tomateiro – mosca-branca (B. tabaci, biótipo B),tripes (T. tabaci, T. palmi e Frankliniella schultzei),traça-do-tomateiro (Tuta absoluta) e broca-pequena-do-fruto (Neoleucinodes elegantalis).2. Reconhecimento dos inimigos naturaisInimigos naturais são organismos que, paracompletarem seu desenvolvimento, se alimentamdas pragas. Os inimigos naturais mais conhecidossão os predadores como as joaninhas, vespas ebichos lixeiros, que se alimentam de inúmerosindivíduos da praga (Figura 2). Os parasitóidespertencem à outra categoria de inimigos naturaise, em sua maioria, são vespas diminutas que sedesenvolvem no interior ou sobre o corpo da praga.Além destes agentes, existem micro-organismoscomo fungos, bactérias, vírus e nematóides queocasionam doenças e matam as pragas, quandoestas alcançam grandes populações no cultivo.
    • 3Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica3. MonitoramentoConsiste em se determinar a densidade populacionalou as injúrias das pragas em certo cultivo, pormeio de amostragens. É indispensável para queo agricultor saiba quando e como agir no manejoda praga. São realizadas inspeções em diferentesórgãos das plantas (folhas, ramos, frutos), ouempregam-se armadilhas atrativas (contendo corespecífica, atraente alimentar ou feromônio sexualsintético) conforme o comportamento da praga-alvo.Figura 1. Bases e estrutura do manejo ecológico depragas (MEP). Adaptado de Gonzales (1971).Recomenda-se que as inspeções no cultivo sejamrealizadas, pelo menos, duas vezes por semana.Detalhes sobre o monitoramento de cada grupo depragas são apresentados no item 2.4. Seleção e uso planejado dos métodos de controleNo MEP, sempre que possível, procura-seidentificar e tratar as causas de desequilíbriono sistema (ação preventiva) ao invés dos seussintomas (ação terapêutica), que se manifestamcomo surtos populacionais de pragas. Para tanto,são exploradas as características da paisageme das plantas que, em conjugação a práticasagroecológicas, promovem diretamente a reduçãoda incidência das pragas e, indiretamente,garantem a conservação e o aumento dos inimigosnaturais. Somente em casos de desequilíbrios noambiente e surtos populacionais de pragas sãoadotadas medidas complementares de controle(terapêuticas ou curativas), como o controlebiológico aplicado, armadilhas de coleta, iscasatrativas e diversos produtos, tais como extratose óleos vegetais, caldas fitoprotetoras, feromôniose cinzas. Em razão da complexidade dos sistemasde produção orgânica, o momento de adoção demedidas complementares de controle não podeser determinado exclusivamente com base emum parâmetro (nível de controle) relacionado àdensidade populacional ou intensidade de injúriade certa praga. Por outro lado, isto dependerá daperda de produção a ser tolerada pelo agricultorconsiderando seu investimento financeiro e ovalor da produção definido pelo mercado, damagnitude com que os fatores de mortalidadenatural (clima e inimigos naturais, dentre outros)atuam sobre a população da praga, do nível deeficiência de cada medida de controle disponívelao produtor e do histórico de infestação daquelapraga nos cultivos (Figura 1). Cada caso precisa seranalisado cautelosamente, e sempre que possível,Arte:MiguelMichereffFilhoFigura 2. Inimigos naturais de pragas que atacam as hortaliças.Foto: Jorge A. Guimarães Foto: Francisco G. V. Schmidt Foto: Francisco G. V. Schmidt Foto: Miguel Michereff Filho
    • 4 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaum profissional com experiência em fitossanidadee produção orgânica deverá ser consultado. Asprincipais medidas de controle de pragas sãoapresentadas a seguir.Manejo ambientalO agroecossistema pode ser manipulado parase tornar desfavorável às pragas. Isso pode seralcançado através de medidas que reduzam aschances de localização e colonização da plantahospedeira, promovam a dispersão dos indivíduos eafetem a reprodução e a sobrevivência das pragas,assim como favoreçam o controle biológico naturalno cultivo. Além de práticas conservacionistas paradiversificação vegetal no entorno da área cultivada(paisagem agrícola), são empregados os métodosde controle cultural, físico e mecânico para reduziras populações das pragas dentro dos cultivos. Sãomedidas profiláticas que devem ser consideradascomo a primeira linha de defesa contra as pragas.Assim, recomenda-se a adoção planejada epreventiva das seguintes medidas:–  Preservar a vegetação natural na paisagemagrícola e garantir sua conexão com as áreascultivadas da propriedade através de quebra-ventose faixas de vegetação (Figura 3);–  Implantar barreiras vivas permanentes (quebra-vento ou faixa de vegetação) circundando apropriedade para isolamento das áreas de cultivocircunvizinhas. Estas podem ser formadas porvárias espécies vegetais [fruteiras, eucalipto, pinus,cana-de-açúcar, cafeeiro, leucena, gliricídia, alémda própria vegetação natural] arranjadas de talforma que dificultem a livre circulação das pragase também sirvam de corredor e abrigo para osinimigos naturais (Figuras 3 e 4);–  Para a produção de hortaliças recomenda-sedividir a propriedade em talhões de cultivo comdimensão máxima de 1.000m2;–  Isolar os talhões de cultivo com uma ou duasespécies perenes de porte alto ou médio [girassolmexicano (Tithonia diversifolia), capim-elefante(Pennisetum purpureum) ou hibisco] (Figura 5);–  Subdividir o talhão em faixas de cultivo ouparcelas. Estas, por sua vez, podem ser separadascom espécies anuais de porte médio (cercas vivas;Figura 6), como sorgo forrageiro (Sorghum bicolor),milheto (Pennisetum glaucum), adubo verde(Crotalaria spp.), plantas aromáticas [manjericão(Ocimum basilicum), coentro (Coriandrum sativum),etc.] e/ou espécie que forneça flores como atrativoaos inimigos naturais. Por ocasião do plantio dashortaliças, estas barreiras internas já devem estarimplantadas;–  Estabelecer a rotação de culturas, no espaço e notempo, entre as faixas de cultivo do mesmo talhão.Para a eficácia desta medida contra as pragas deve-se evitar, durante 12 meses, o plantio adjacente ea sucessão de hortaliças da mesma família botânicaou que sejam atacadas pelas mesmas pragas efitopatógenos. Nestas faixas de cultivo tambémdeve-se prever o plantio alternado de adubos verdesou de gramíneas (sorgo, milho e milheto) comdiferentes famílias de hortaliças;–  Adotar o consórcio de plantas (Figura 7). Aconsorciação pode ser feita com alternância decanteiros, por exemplo, de alface, beterraba,brássicas (repolho, couve-flor, brócolis, couve-comum ou rabanete), cenoura e cheiro verde ou porfaixas com linhas de cultivo, como de tomateiro ecoentro, feijão-vagem e milho, pimentão e feijão-guandu-anão (Cajanus cajan), pepino e sorgo;–  Utilizar mudas vigorosas e isentas de pragase doenças para plantio; as mudas das hortaliçasdevem ser produzidas em telados com entradarestrita (com pedilúvio, antecâmaras e cobertoscom telas à prova de insetos sugadores), que sejamdistantes de campos infestados por estas pragas ouabandonados e longe do local definitivo de plantio.Nesta fase as plantas precisam receber nutriçãoadequada para crescerem vigorosas e sadias. Mudasque foram a campo e que não foram utilizadas nãodevem, de forma alguma, retornar aos viveiros;–  Usar cultivares de ciclo curto e adequar a épocade plantio para a região, visando o escape de picospopulacionais das pragas;–  Utilizar híbridos/variedades com rusticidade,adaptação ao manejo orgânico e com resistênciaaos fitopatógenos, quando possível.Atualmente, variedades e híbridos de diversashortaliças com resistência aos vírus estãodisponíveis no mercado;–  Garantir o isolamento das parcelas da mesmahortaliça por data e área, ficando sempre entrefaixas de cultivo de outras espécies vegetais oucircundadas por barreiras vivas;
    • 5Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica–  Não realizar plantio escalonado da hortaliça (novosplantios ao lado de áreas mais velhas). Quando nãofor possível o plantio em uma só etapa, recomenda-se fazer o segundo plantio com menos de 30 dias;–  Sempre que possível, adotar o sistema de plantiodireto de hortaliças sobre palhada ou o cultivomínimo. Para a produção de palhada utilizam-seplantas como milho, milheto, mucunas, crotalárias,vegetação espontânea, entre outras, roçadas ouacamadas, sem sua incorporação no solo;–  Aumentar a densidade de semeadura/mudasquando houver histórico de redução no estandeinicial de plantas pelo ataque das pragas;–  Quando for necessário e tecnicamente viável,cultivar as plantas sob manta de tecido não tecido(TNT) para impedir a infestação por insetos e ácarosno início do ciclo da cultura;–  Eliminar plantas espontâneas (invasoras) quesejam hospedeiras alternativas de pragas dashortaliças. Especial atenção deve ser dada para ocontrole de plantas como joá-de-capote (Nicandraphysaloides), leiteiro ou amendoim-bravo (Euphorbiaheterophylla), guanxuma (Sida sp.), corda-de-viola(Ipomoea sp.), mentrasto (Ageratum conyzoides),Foto:LuizG.C.Santospicão-preto (Bidens pilosa) e falsa-serralha(Emilia sonchifolia), as quais são hospedeirasde diversos insetos sugadores e de vírus quecausam grande impacto negativo na produção desolanáceas (tomate, batata, pimentão e berinjela) ecucurbitáceas (abóboras, melancia, melão e pepino);–  Eliminar plantas espontâneas de cultivosanteriores (tigueras), antes do novo plantio daquelahortaliça no mesmo local;–  Manejar a nutrição (adubação orgânica) conformeanálise de solo ou foliar e requerimentos da cultura,evitando-se a deficiência e/ou o excesso denutrientes, principalmente de nitrogênio, nas plantas;–  Utilizar adubos verdes dentro das áreas de cultivona entressafra das hortaliças;–  Manejar adequadamente a irrigação das hortaliçaspara evitar o estresse hídrico e favorecer oestabelecimento rápido das plantas;–  Fazer cobertura do solo com superfície refletorade raios ultravioletas (casca de arroz ou palha), paradificultar a colonização de insetos sugadores;–  Usar painéis ou faixas adesivas, de coloraçãoamarela, preferencialmente, nas bordaduras doFigura 3. Vista aérea mostrando a organização de uma propriedade orientada para a produção orgânica.Fazenda Malunga, Brasília-DF. FrM – fragmento de mata/vegetação natural preservada; BVe – barreiraviva externa (quebra-vento e faixa de vegetação) para isolamento da propriedade; BVt – barreira viva paraisolamento do talhão; Tal – talhão de cultivo; Parc – parcelas ou faixas de cultivo.
    • 6 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicacultivo para retardar a entrada de insetos sugadores(pulgões e moscas-brancas) e da mosca-minadoraoriundos de outros cultivos;–  Usar armadilhas adesivas ou bandejas com água,de coloração amarela ou azul para captura deinsetos sugadores dentro da área cultivada;–  Usar irrigação por aspersão para controlemecânico de insetos sugadores e lagartas presentesnas folhas;–  Retirar folhas infestadas ou efetuar a cataçãomanual e esmagamento de ovos e lagartas.Também remover das plantas as flores e frutosatacados por pragas;–  Coletar e destruir folhas e frutos caídos no solo;–  Eliminar plantas com viroses;–  Destruir ninhos de formigas cortadeiras, porescavação e eliminação da rainha, quando essesforem superficiais;–  Evitar a entrada de pessoas não autorizadas,carros e caixas nas áreas de cultivo;–  Adotar o vazio sanitário, de modo que a área decultivo da hortaliça e todas as outras áreas que lhesão próximas fiquem simultaneamente livres daquelamesma cultura e de plantas que compartilhem asmesmas pragas e viroses por, pelo menos, 30 dias e–  Destruir os restos culturais imediatamente apóso término da fase de colheita, não abandonando oscultivos ao final do ciclo. Foto:FranciscoV.ResendeFoto:FranciscoV.ResendeFoto:WaldirA.MarouelliFoto:MariaA.deMedeirosFigura 4. Barreira viva, composta por diferentesestratos (alturas) de vegetação, para isolamento dapropriedade. Embrapa Hortaliças, Brasília-DF.Figura 5. Barreira de capim-elefante (Pennisetumpurpureum) para isolamento de talhão. FazendaMalunga, Brasília-DF.Figura 6. Faixa de crotalária (barreira interna)entre parcelas de tomateiro estaqueado. EmbrapaHortaliças, Brasília-DF.Figura 7. Consórcio de tomateiro com coentroEmbrapa Hortaliças, Brasília-DF.
    • 7Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaControle por comportamentoAlgumas espécies de pragas, como pulgões,moscas-brancas e mosca-minadora são atraídospela cor amarela. Assim, painéis adesivos nestacor podem ser instalados, preferencialmente, nasbordaduras da cultura para capturar insetos emdeslocamento de uma cultura para outra ou aindadurante a dispersão destes entre plantas. Tambémpode-se utilizar plantas iscas ou plantas repelentesnas bordaduras da área ou em cultivo intercalarpara controle de lepidópteros e de besouroscrisomelídeos. Detalhes sobre esta tática decontrole são apresentados no item 2.Controle biológicoO uso dos inimigos naturais é conhecido comocontrole biológico e se baseia na regulaçãonatural das populações de insetos e ácaros quese alimentam de plantas. Assim, o homem podetirar proveito deste fato favorecendo os inimigosnaturais já existentes no agroecossistema (controlebiológico conservativo), por meio de práticas como:1) uso de barreiras vivas e plantas repelentes contrapragas; 3) manutenção de plantas que produzemflores na bordadura do cultivo, visto que estasfornecem alimento complementar, refúgio e localde reprodução para predadores e parasitóidesdas pragas; 4) manutenção do solo recoberto porvegetação ou de cobertura morta (palhada); 5)plantio direto ou cultivo mínimo; 6) policultivos(consórcios, faixas de cultivo); 7) preservação dasmatas nativas próximas à cultura, as quais atuamcomo ilhas de reposição de inimigos naturais e 8)uso de produtos alternativos de baixo impacto sobreinimigos naturais.Outra alternativa consiste na liberação de inimigosnaturais para controle da praga-alvo (controlebiológico aplicado). Vários inimigos naturais(predadores, parasitóides e entomopatógenos) sãousados e comercializados no Brasil em programasde controle biológico de pragas agrícolas. Abactéria entomopatogênica Bacillus thuringiensis(subespécies kurstaki e aizawai) é o agente decontrole biológico mais utilizado na agricultura,cujos produtos comerciais são registrados para ocontrole de lagartas em diversas hortaliças. Tambémpode-se adquirir no mercado e fazer a liberaçãosistemática de vespinhas parasitóides (por exemplo,Trichogramma spp.) que atacam ovos de pragas daordem Lepidoptera (mariposas e borboletas).Produtos alternativosUma opção promissora para auxiliar no manejode pragas é o uso de produtos alternativos aosagrotóxicos convencionais, como inseticidas eacaricidas botânicos (extratos vegetais), óleovegetal emulsionável ou óleo vegetal para cozinhae cinzas. No entanto, o uso de produtos deorigem vegetal com ação inseticida ou acaricidadeve ser cauteloso e restrito ao período detransição agroecológica, em razão de possíveisefeitos adversos destes pesticidas sobre inimigosnaturais e outros organismos benéficos quandofrequentemente utilizados no cultivo. Recomenda-se que o agricultor verifique previamente se ouso destes produtos é autorizado pelo Organismode Avaliação de Conformidade Orgânica (OAC)ou pelo Organismo Participativo de Avaliação daConformidade (OPAC), ao qual ele encontra-sevinculado.2. Pragas das hortaliçasNesta seção são descritos os principais gruposde pragas de hortaliças e as medidas de controleespecíficas a serem adotadas. A forma de preparoe uso de produtos comerciais e caseiros para ocontrole complementar de pragas encontram-sedescritos no item 3 desta publicação.Formigas cortadeirasIdentificação:Estas formigas também são conhecidas comosaúvas ou quenquéns e estão entre as maisimportantes pragas da agricultura brasileira (Figura8). São insetos com organização social, que vivemem ninhos subterrâneos (formigueiros; Figura 9).Cortam folhas, hastes e flores e transportam estasestruturas vegetais para o interior da colônia, ondesão utilizadas como substrato para cultivo de umfungo, do qual as formigas se alimentam.São facilmente identificadas pela presença de trêsou quatro pares de espinhos nas costas, na regiãologo após a cabeça. Elas são mais ativas à noitee nas horas de temperatura mais amena do dia.As injúrias causadas pelas formigas cortadeirassão facilmente reconhecidas, como o corte nasfolhas, em formato de meia-lua ou arco e a desfolhacompleta da planta atacada.
    • 8 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaInspeção:Procurar pela injúria típica nas folhas e flores everificar a presença de plantas mortas cortadas àaltura do solo.Controle:Manejo do ambiente de cultivo (preventivo)•  Barreiras – canais de terra ou canaletas decimento, cheios de água e gotas de detergenteneutro, circundando os canteiros de mudas doviveiro; latas de óleo ou garrafas descartáveisdo tipo “pet”, sem fundo e tampa ou gargalo,colocadas circundando os caules, sendo levementeenterradas no solo e untadas com graxa na parteexterna.Figura 8. Formiga cortadeira da espécie Attalaevigata (saúva-cabeça-de-vidro).Figura 9. Ninho e trilha de formigas cortadeiras.•  Planta repelente – cultivo permanente de batata-doce (Ipomoea batatas) ao redor da horta ou entrecanteiros. A batata-doce é pouco preferida pelasformigas cortadeiras, pois o látex que escorre darama quando a mesma é atacada pela formigacortadeira causa repelência a esta praga.•  Planta com ação inseticida – cultivo de gergelim(Sesamum indicum) ao redor da horta. Embora ogergelim seja atacado pelas formigas cortadeiras,substâncias químicas presentes neste vegetalafetam negativamente a vida das saúvas e reduzemo tamanho do formigueiro.Controle complementar•  Cinzas – as cinzas de madeira, obtidaspeneirando-se o fundo da churrasqueira ou do fogãoa lenha, atuam como repelente destes insetos;devem ser misturadas com água e aplicadas sobreas plantas ao final da tarde.Insetos sugadoresIdentificação:Os insetos sugadores, conhecidos como pulgões,moscas-brancas, cochonilhas, percevejos, tripes ecigarrinhas, estão entre as pragas mais importantesdas hortaliças (Figura 10). São insetos pequenos,possuem formato e cores variadas, podem ter asasou não e vivem em grandes populações (colônias)na face inferior das folhas, em brotações e nasflores. Sugam a seiva das plantas tornando-asmenos vigorosas e produtivas. Os pulgões, asmoscas-brancas e as cochonilhas também secretamum líquido açucarado que favorece a formaçãode uma película preta sobre as folhas e frutos,popularmente conhecida como fumagina. Isto reduza fotossíntese da planta e deprecia o alimento (folhaou fruto) devido ao péssimo aspecto.Inspeção:Para pulgões e cochonilhas – inspecionar os brotose a face inferior das folhas. Alternativamente,pode-se realizar o monitoramento de pulgõesadultos alados com armadilhas atrativas. Estaspodem ser placas adesivas amarelas ou na formade uma bandeja pintada de amarelo, com águae gotas de detergente neutro ou de sabão. Asarmadilhas adesivas também podem ser construídasFoto:MárcioAraújoFoto:MiguelMichereffFilho
    • 9Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicana propriedade, utilizando-se garrafas plásticastipo “Pet” pintadas externamente e untadas comgraxa. As armadilhas adesivas amarelas (Figura11), devem ser instaladas em estacas de bambuum pouco acima das plantas, em pelo menos,20 pontos distribuídos dentro da área cultivada,sendo substituídas quando ficarem cheias deinsetos e poeira. Já as bandejas com água podemser dispostas entre as linhas de cultivo (Figura 11),cuidando-se para mantê-las com certo nível deágua. Recomenda-se vistoria diária nas armadilhas.Para moscas-brancas – inspecionar a face inferiordas folhas novas na busca de insetos adultos.Foto:GeniL.Villas-BôasFoto:FranciscoG.V.SchmidtFoto:MiguelMichereffFilhoFoto:CherreShadeFoto:JersonGuedesFoto:RenataMonteiroFigura 10. Insetos sugadores que danificam ashortaliças.Também pode-se realizar o monitoramento destesinsetos com armadilhas adesivas amarelas oubandejas a exemplo do proposto para os pulgões.Para tripes – agitar vigorosamente as folhas dasplantas sobre uma placa ou bandeja plástica brancae observar os insetos caídos na superfície. Outraopção é o monitoramento de tripes adultos comarmadilhas adesivas ou bandejas de coloração azul.Estas armadilhas deverão ser instaladas da mesmaforma que aquelas utilizadas para pulgões.Controle:Manejo do ambiente de cultivo•  Armadilhas adesivas – instalação, em diferentespontos do cultivo, de placas ou garrafas plásticasdescartáveis do tipo “pet” e de pedaços de tábuaspintadas de amarelo, para atração de pulgões emoscas-brancas ou de azul para atração de tripes.Estas armadilhas atrativas devem ser revestidascom uma camada de cola ou graxa para retençãodos insetos.•  Plantas repelentes – cultivo em volta da hortaou dentro do canteiro, em fileiras ou em covasalternadas de coentro (C. sativum), tagetes oucravo-de-defunto (Tagetes sp.), hortelã (Menthaspp.), calêndula (Calendula officinalis), mastruz(Chenopodium ambrosioides), artemisia (Artemisiasp.) e arruda (Ruta graveolens). Estas plantasliberam voláteis que repelem os insetos sugadoresadultos, mantendo-os afastados das hortaliças.Controle complementar (curativo)•  Catação manual – retirada de folhas infestadas,seguida de esmagamento.•  Calda de farinha de trigo e água – quando pulverizadasobre as plantas mata os insetos por asfixia. Com opassar do tempo a calda seca ao sol, formando umacamada branca de pó que cobrirá os insetos e pelaação do vento esta película é gradativamente removidadas folhas junto com os insetos.•  Inseticidas alternativos – pulverização de extratode pimenta, alho e sabão neutro (ação repelente);uso de óleo vegetal de soja ou algodão paracozinha, misturado em água e sabão dissolvidoou detergente neutro; pulverização de produtoscomerciais à base de óleo de sementes de nim(Azadirachta indica).
    • 10 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaFigura 11. Armadilhas para monitoramento depulgões e moscas-brancas. A – placa adesiva decor amarela; e B – bacia amarela, com água edetergente.LagartasIdentificação:Existem mariposas e borboletas que, durante asua fase jovem, ou seja, na forma de lagartas,se alimentam de folhas e podem perfurar talos,flores e frutos ainda jovens. Estas lagartas podemapresentar coloração branco-amarelada, esverdeadaou amarronzada (Figura 12).Inspeção:Verificar a desfolha, a presença de lagartas nasfolhas e os sintomas de broqueamento nos frutospequenos (Figura 13). Para lagartas-roscas –verificar a presença de plantas mortas cortadas àaltura do solo, ao longo da fileira de cultivo. Parapragas como traça-do-tomateiro (T. absoluta), abroca-pequena-do-tomateiro (N. elegantalis), a broca-gigante (Helicoverpa zea), a traça-das-brássicas(P. xylostella) e lagartas desfolhadoras (gênerosPseudoplusia e Trichoplusia), o monitoramento deadultos (mariposas) pode ser feita mediante uso dearmadilhas iscadas com feromônio sexual sintéticode cada uma destas pragas (Figura 14).Controle:Manejo do ambiente de cultivo•  Plantas repelentes – conforme recomendado nocontrole de insetos sugadores.Controle complementar•  Inseticida biológico – produtos comerciais à baseda bactéria B. thuringiensis, que tem ação exclusivasobre lagartas. Este inseticida ao ser ingerido pelaslagartas, juntamente com as folhas, causa doençae a morte do inseto. Esta bactéria não é prejudicialnem ao homem e nem aos animais. No mercadobrasileiro existem vários produtos comerciaiscontendo este agente de controle biológico edeve-se consultar um Engenheiro Agrônomo pararecomendação da dosagem certa.Figura 12. Ovos e lagarta de Ascia monuste(curuquerê) em brócolis.•  Vespinhas parasitóides de ovos – liberação naforma massal (grande quantidade de indivíduos) devespinhas do gênero Trichogramma para controle datraça-do-tomateiro (T. absoluta), da broca-pequena-do-fruto (N. elegantalis), das brocas-gigantes(Helicoverpa zea e Spodoptera spp.) e da traça-das-brássicas (P. xylostella). Esta prática deve seriniciada com a constatação dos primeiros adultos eovos destas pragas no cultivo, podendo ser utilizadaem combinação com inseticidas à base de B.thuringiensis.•  Ensacamento de frutos – recomendadoespecificamente para lagartas broqueadoras defrutos. Garante proteção mecânica, impedindoo acesso da praga aos frutos. Pode ser feitoutilizando-se sacos plásticos com pequenosfuros para ventilação (similares aos utilizados noacondicionamento de hortaliças hidropônicas)ou sacos de papel parafinado, com tamanhos eformatos compatíveis com o volume necessário paraabrigar os frutos em seu pleno desenvolvimento.O  momento do ensacamento depende da espécie eFoto:MiguelMichereffFilhoFigura 13. Fruto de tomateirobroqueado por lagarta deHelicoverpa zea (broca-gigante).Foto:JorgeA.GuimarãesFoto:LeandroS.Lobo
    • 11Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicacultivar. Por exemplo, para o tomateiro, recomenda-se o ensacamento logo após a fecundação dasflores, a qual é notada pelo secamento e fácilretirada das pétalas (Figura 15).•  Outras medidas – catação manual de lagartas,de folhas infestadas e de frutos atacados ecaídos no solo; inseticidas alternativos à basede óleo de nim ou calda de farinha de trigo eágua, conforme recomendado no controle deinsetos sugadores.Figura 14. Modelos de armadilhas com feromôniosexual sintético para monitoramento de mariposas.A – modelo Delta (comercial); B – Redonda(artesanal).Figura 15. Ensacamento de frutos para proteçãocontra lagartas broqueadoras (Sistema Tomatec).VaquinhasIdentificação:São insetos pequenos, cujos adultos secaracterizam por apresentar o primeiro par deasas rígidas como um escudo, de cores variadas,com manchas amarelas, pretas ou acinzentadas(Figura 16). Estes besouros se alimentam de folhas,hastes e flores.Inspeção:Procurar pela injúria típica (perfurações arredondadas)nas folhas e flores ou pelos adultos.Controle:Manejo do ambiente de cultivo•  Plantas repelentes – cultivo de coentro, hortelã earruda.Controle complementar•  Inseticidas alternativos – produtos comerciaisà base de nim, conforme recomendado para osinsetos sugadores.Figura 16. Besouros conhecidos como vaquinhas.•  Iscas para adultos – confeccionadas a partir depedaços de raízes ou frutos de plantas conhecidascomo “tajujá” [Cayaponia tayuya; Ceratosantheshilariana; Cayaponia martiana] ou de cabaça verde(Lagenaria vulgaris), as quais possuem substânciasatrativas (cucurbitacinas) às vaquinhas. EstasFoto:MiguelMichereffFilhoFotos:JoséRonaldodeMacedoFoto:JorgeA.GuimarãesFoto:MiguelMichereffFilho
    • 12 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaiscas são previamente colocadas dentro de baciacontendo água e sabão neutro e quando saturadasde besouros procede-se sua imersão na água comauxílio de uma vara, o que ocasiona a morte dosinsetos por afogamento.Mosca-minadoraIdentificação:O adulto é uma pequena mosca, de coloração preta,com a parte inferior do abdome amarela (Figura 17).A larva é muito pequena, não possui pernas e temcoloração branco-amarelada ou esverdeada. As larvasabrem galerias, ou minas, de formato serpenteado nomesófilo foliar, à medida que crescem.Inspeção:Verificar a presença de minas com forma deserpentina nas folhas. Alternativamente, pode-serealizar o monitoramento de adultos com placasadesivas amarelas, a exemplo do proposto para ospulgões.Figura 17. Mosca-minadora, Liriomyza spp. A)adulto e B) injúrias em forma de serpentina nasfolhas da melancia.Grilos e paquinhasIdentificação:São insetos com 2,5 a 3,0 cm de comprimento, decoloração amarelada ou pardo-escura, que durante odia se abrigam em ambientes escuros e úmidos, sobpedras e restos de plantas (Figura 18). Se alimentamde folhas e hastes novas, de tubérculos e raízes.Inspeção:Procurar pela injúria. Verificar a presença de plantasmortas cortadas à altura do solo.Controle:Controle complementar•  Armadilhas – instalação, em diferentes pontosda horta, de copos plásticos, latas de óleo ougarrafas descartáveis do tipo “pet” contendo águae gotas de detergente neutro, os quais devem serenterrados no solo (Figura 19). Semanalmente osinsetos mortos devem ser retirados e trocada a águado recipiente. A eficiência do controle depende dainfestação da praga e do número de armadilhasinstaladas dentro da área cultivada.Figura 18. Grilo (à esquerda) e paquinha (à direita).Figura 19. Recipiente contendo água e detergente,enterrado no solo para controle de grilos epaquinhas.ÁcarosIdentificação:Os ácaros são pequenos aracnídeos, com menosde 1 mm de comprimento, que raspam a superfíciedas folhas e frutos das hortaliças, sugando o queo líquido que extravasa pela destruição das célulasvegetais (Figura 20). O ataque destas pragasocasiona o amarelecimento ou prateamento dasfolhas, manchas escurecidas nos os caules e ramos,em forma de bronzeamento e deformação dosfrutos.Foto:JorgeA.GuimarãesFoto:BernardoA.Halfeld-VieiraFotos:CarlosSolanoFoto:GeniL.Villas-Bôas
    • 13Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaInspeção:Procurar pelos sintomas, ou seja, amarelecimentoou prateamento das folhas, presença de teia (ácarostetraniquídeos), bronzeamento nos caules e ramos edeformação dos frutos.Controle: Similar ao realizado para os insetossugadores.Figura 20. Teia formada pelo ácaro rajado(Tetranychus urticae) em folhas de tomateiro.Lesmas e caracóisIdentificação:São moluscos terrestres, de corpo mole e mucoso,que raspam as folhas, flores, ramos novos e raízesdas hortaliças (Figura 21). Preferem locais úmidos esombreados e atacam à noite ou em dias chuvosos.Inspeção:Procurar pela injúria típica na folhagem e a presençade rastro, em forma gelatinosa e brilhante, deixadona superfície foliar e no solo.Controle:•  Iscas e armadilhas – existem várias opções para ocontrole destas pragas:1. Armadilhas feitas com estopas ou panosembebidos em cerveja ou leite devem serdistribuídas sobre a superfície do terreno e ao redordas plantas, ao anoitecer. No dia seguinte, bemcedo, deve-se virar a estopa ou o pano e recolheras lesmas e caracóis que se abrigaram embaixo daarmadilha. Estas pragas devem ser enterradas emvalas distantes de poços ou cisternas, e cobertaspor uma camada de cal virgem não muito espessa.O processo de coleta deve ser repetido diariamentepara a eliminação efetiva dos caramujos e lesmas.Não é recomendado o uso de sal de cozinhasobre o solo ou a plantação. Além de não ter oefeito desejado, pode contaminar o solo e águassuperficiais e subterrâneas e danificar as plantas.O procedimento de coleta, manuseio e eliminaçãode lesmas e caramujos deve ser feito com as mãosprotegidas por luvas ou sacos plásticos. Ao final daatividade devem-se descartar as luvas e lavar bemas mãos.2. Alternativamente, restos de hortaliças, comotalos, folhas e outros sobre jornais ou lona plástica,também servem como atrativos.3. Uso de iscas dentro de caixinhas ou latasdestampadas e enterradas na superfície do solo aolongo de toda a horta. A isca pode ser uma pequenaquantidade de cerveja ou uma hortaliça, comochuchu, misturada com sal. As lesmas e caracóissão atraídos pela isca e pelo escuro e morrem porcausa do sal no fundo do recipiente.4. Distribuição de pedaços de abóbora ou chuchucrus nos canteiros da horta no final da tarde,procedendo-se no dia seguinte à coleta de lesmas ecaracóis presentes sobre as iscas.5. O uso de faixas de cal extinta de, pelo menos,20 cm de largura ao redor da cultura após cadachuva, ou semanalmente.Figura 21. Infestação de lesma em folha de couve-comum.Foto:RenataS.deMendonçaFoto:JorgeA.Guimarães
    • 14 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica3. Receitas para o controlealternativo de pragas3.1 Calda de farinha de trigoPreparo:1. Colocar 20 g de farinha de trigo, aos poucos elentamente em recipiente com 1 L de água e agitarfortemente até a completa mistura da farinha.2. Coar a calda para uso.3.2. Extrato de pimenta-do-reino, alho e sabãoIngredientes:– 100 g de pimenta do reino moída– 100 g de alho– 50 g de sabão neutro– 2 L de álcool– 2 L de águaPreparo:1.Colocar 100 g de pimenta do reino moída e 1 L deálcool em um recipiente de vidro com tampa. Deixarem repouso por uma semana;2.Triturar 100 g de alho, misturar em 1 L de álcoole colocar em um recipiente de vidro com tampa.Deixar em repouso durante 7 dias;3.Dissolver 50 g de sabão neutro em 1 L de águaquente, no dia em que for usar a calda;4.No dia em que a calda for aplicada nas plantas,deve-se coar os extratos e depois colocar 20 ml doextrato de pimenta do reino, 10 ml do extrato dealho e 100 ml da solução de sabão neutro em umpulverizador, completando o volume com água para1 L. É necessário coar os ingredientes para evitarentupimento do bico do pulverizador.3.3 Óleo vegetal de uso culinárioPreparo:1. Misturar 5 ml do óleo vegetal de algodão ou sojae 0,5 ml de detergente neutro, completando-se ovolume com água para 1 L de calda.2. Agitar a suspensão para uso.3.3 Óleo de nim emulsionávelExistem diversos produtos comerciais à base deóleo de sementes de nim (A. indica) em formulaçãoemulsionável para pronto uso. Para hortaliçasfolhosas recomenda-se o uso do inseticida naconcentração de 0,5%, ou seja, para o preparo dacalda deve-se misturar 50 ml do produto comercialem 10 L de água.4. Cuidados na aplicação dosdefensivosOs defensivos recomendados devem ser utilizadosimediatamente após a sua mistura com a água. Aaplicação pode ser feita com borrifador de jardim ouminipulverizador (capacidade de 3-5 litros), com jatodirecionado para a face superior e inferior das folhase para brotos e pequenos frutos.As preparações caseiras, os produtos comerciaisà base de óleos vegetais, bem como o inseticidabiológico com a bactéria B. thuringiensis, devemser pulverizados sempre com vento fraco e nofinal da tarde, quando as temperaturas estãomais amenas e o sol fraco. Não aplicá-los em diaschuvosos ou com possibilidade de chuva após apulverização. Excepcionalmente a calda de farinhade trigo deverá se aplicada no período da manhã,em dias quentes e secos, com sol forte, devendo-se cobrir totalmente as folhas.Quando necessário, deve-se repetir o tratamentoem intervalos de sete dias. Evitar a aplicaçãode mistura de defensivos (pesticidas biológicose botânicos, e destes com caldas fitoprotetorascom ação fungicida). Para garantir as qualidadesorganolépticas do alimento, recomenda-sesuspender o uso de todos os defensivos 96 horasantes do consumo das hortaliças. Na manipulaçãoe uso dos defensivos sempre utilizar equipamentode proteção individual (máscara, óculos, luvas,botas, macacão e avental) para se evitar reaçõesalérgicas e eventuais queimaduras na pele.A busca por estratégias ecológicas de manejode pragas requer um processo constante deconstrução do conhecimento e de troca deexperiências entre produtores, extensionistas e
    • 15Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicapesquisadores. Nos modelos de agricultura de baseecológica, como a produção orgânica, não existeum pacote de receitas ou tecnologias que possaser aplicado de forma generalizada para a soluçãodos problemas fitossanitários. Nesta perspectiva,deve-se identificar quais os motivos que levaramtal organismo a se tornar uma praga, quais ospontos fracos do agroecossistema ou das práticasagrícolas que contribuem para a instabilidadedo sistema. A partir desta análise, com açõespreventivas pode-se reestruturar e manejar osistema agrícola na busca de soluções específicase duradouras para a produção de hortaliças emcada propriedade.O que se espera é o estabelecimento de sistemassustentáveis cada vez menos dependentes deinsumos externos e da intervenção constante dohomem, de modo que a restauração dos serviçosda natureza (ex. ciclagem de nutrientes, fixação denitrogênio, polinização e controle biológico natural)no agroecossistema seja capaz de subsidiar aproteção dos cultivos contra as pragas e garantirrentabilidade à exploração agrícola.As medidas complementares de controleapresentadas nesta publicação (controle biológicoaplicado e produtos alternativos), apesar deserem importantes alternativas aos agrotóxicosconvencionais, devem ser utilizadas como medidasauxiliares no manejo de pragas enquanto oagroecossistema ainda estiver desequilibrado, ouseja, durante a conversão para o novo modelo deprodução. Sem o componente de manejo ambientalna propriedade rural, estas medidas complementaresde controle terão pouca ou talvez nenhumaeficácia sobre as pragas nos cultivos orgânicos dehortaliças.ReferênciasAGUIAR-MENEZES, E. L. Diversidade vegetal: umaestratégia para o manejo de pragas em sistemassustentáveis de produção agrícola. Seropédica,RJ: Embrapa Agrobiologia, 2004. 68 p. (EmbrapaAgrobiologia. Documentos, 177).ALTIERI, M. A.; SILVA, E. N.; NICHOLLS, C. I.O papel da biodiversidade no manejo de pragas.Ribeirão Preto: Holos, 2003. 226 p. ANDRADE, L. N. T.; NUNES, M. U. C. Produtosalternativos para controle de doenças e pragas emagricultura orgânica. Aracaju: Embrapa Tabuleiros,2001. 20 p. (Embrapa Tabuleiros Costeiros.Documentos, 28).BURG, I. C.; MAYER, P. H. Prevenção e controle depragas e doenças: caldas, biofertilizantes, fitoterapiaanimal, formicidas, defensivos naturais e salmineral. Francisco Beltrão: Grafit, 2001. 153 p.CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A. Agroecologia:alguns conceitos e princípios. Brasília: MDA/SAF/DATER/IICA, 2004.GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processosecológicos em agricultura sustentável. 3.ed. PortoAlegre: UFRGS, 2005. 653 p.MEDEIROS, M. A.; HARTERREITEN-SOUZA, E. S.;TOGNI, P. H. B., MILANE, P. V. G. N.; PIRES, C.S. S.; CARNEIRO, R. G.; SUJII, E. R. Princípios epráticas ecológicas para o manejo de insetos-pragana agricultura. Brasília: Emater-DF, 2010. 44 p.MICHEREFF FILHO, M.; GUIMARÃES, J. A.; LIZ, R.S. Recomendações para o controle de pragas emhortas urbanas. Brasília: Embrapa Hortaliças, 2009.11 p. (Embrapa Hortaliças, Circular Técnica, 80).PENTEADO, S. R. Defensivos alternativos enaturais: para uma agricultura saudável. Campinas:Jornalista Maria da Graça D´Auria, 1999. 95 p.SOUZA, J. L. de.; RESENDE, P. Manual de horticulturaorgânica. Viçosa: Aprenda Fácil, 2003. 564 p.SUJII, E. R.; VENZON, M.; MEDEIROS, M. A.;PIRES, C. S. S.; TOGNI, P. H. B. Práticas culturaisno manejo de pragas na agricultura orgânica. In:VENZON, M.; PAULA JUNIOR, T.J. de; PALLINI,A. Controle alternativo de pragas e doenças naagricultura orgânica. Viçosa: EPAMIG, 2010. p.143-168.VENZON, M.; PALLINI, A.; AMARAL, D. S. S. L.Estratégias para o manejo ecológico de pragas.Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n.212, p.19-28, 2001.VENZON, M.; PAULA JUNIOR, T. J.; PINTO, C.M. F.; OLIVEIRA, R. M.; BONOMO, I. S. Insumosalternativos para o controle de pragas e doenças.Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 31, p.108-115, 2010.
    • 16 Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológicaMinistério daAgricultura, Pecuáriae AbastecimentoExemplares desta publicação podem ser adquiridos naEmbrapa HortaliçasRodovia BR-060, trecho Brasília-Anápolis, km 9C. Postal 218, CEP 70.351.970 – Brasília-DFFone: (61) 3385.9000Fax: (61) 3556.5744E-mail: cnph.sac@embrapa.br1ª edição1ª impressão (2013): 1.000 exemplaresCircularTécnica, 119Comitê dePublicaçõesExpedientePresidente: Warley Marcos NascimentoEditor Técnico: Fábio Akiyoshi SuinagaSupervisor Editorial: George JamesSecretária: Gislaine Costa NevesMembros: Mariane Carvalho Vidal, Jadir Borges Pinheiro, Ricardo Borges Pereira, ÍtaloMorais Rocha Guedes, Carlos EduardoPacheco Lima, Marcelo Mikio Hanashiro,Caroline Pinheiro Reyes, Daniel BasílioZandonadi Normalização bibliográfica: Antonia VerasEditoração eletrônica: André L. Garcia