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Roteiro histórico a idade média
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Roteiro histórico a idade média

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  • 1. CONCELHO DE SINTRA - ROTEIRO MEDIEVAL - N s.•.•. o ~ i<I v " OEscala 1/100.000Caminhos-de·FerroEstradas NacionaisEstradas MunicipaisLimites de FreguesiaI - Castelo e Igreja de S.la Maria.2 - Vila: Urbe (ver quadro).3 - S. Pedro: Capela de S. Lázaro e Túmulo dos 2 irmãos. 4 - Paço de Belas.
  • 2. VILA DE SINTRARoteiro Medieval (URBE) N 1 .- --~----~~ ---- 25 O-L _---_---_--_....-<-1 -----.1125 M. l-Paço 14- Alpendre do Mercado 2 - Rio do Porto 15-Praça 3 - Caminho para Mafra-Ericeira 16- Pelourinho 4 - Caminho para a Ponte 17- Hospital da Redonda 18- Judiaria 5-Pisões 19- Sinagoga 6 - Paço do Alconde 20 - Casa da Vereação (?) 7 - Caminho de Colares 21- Poço do Romão 8 - Chão da Oliva 22- Pedras Ajorradiças 9 - Rua do Açougue 23- Fonte da Pipala - Rua da Pendõa 24- Rua da Ferraria11- Igreja de S. Martinho 25- Caminho para arredores12- Cadeia (7) - Lisboa e Cascais13- Torre do Relógio (7)2
  • 3. 1. OS VISIGODOS E OS MUÇULMANOS A presença visigótica na região sintrense apresenta-se parca de ves-tígios, sobretudo se comparados com os que foram encontrados em locaislimítrofes aos do concelho, como Lisboa, por exemplo. Será tal consequên-cia do carácter pouco urbano e tecnicamente pobre da civilização visigó-tica, sobretudo se comparada com os seus predecessores romanos e comos seus sucessores árabes? Será tal consequência do menor povoamentoda zona, que tinha relativamente perto uma localidade de maior valia efama (Lisboa)? Apenas hipóteses podem por nós ser formuladas e poucomais. Dos suevos sabemos que por Sintra teriam andado, pelo menos noséculo v, quando Réquila (441-448)unifica todo o ocidente peninsular -da Galécia à Lusitânia ocidental. Lisboa e arredores são ocupados porvolta de 458 e em 469, se bem que pouco depois reocupadas pelos visigo-dos. Prenúncio do que mais tarde sucederia ao próprio reino suevo, ane-xado pelos godos em 624. Em todo o caso, de entre os escassos testemunhos da sua presença,podemos e devemos referir o espólio funerário encontrado no Museu deOdrinhas, composto por vários túmulos em bom estado de conservação, eque constituem umcç.visitcr profícua. Também no Museu Regional de Sin-tra merece realce um anel de ouro aí exposto, se bem que - por fazerparte de uma colecção particular - sob a forma de fotografia. Quando, em 71 L as hostes do Islão entram na Península Ibérica ini-cia-se uma nova era para o território de um modo geraL e para a regiãode Sintra em particular. Desde cedo fixados nesta área, os muçulmanosvão marcar com o seu cunho muito particular a vila nascente, deixandomarcas que o tempo diluiu mas que podem ainda ser vistas, se atentossoubermos entender os sinais que aqui e ali se dispõem. A forte fixação muçulmana neste local (entenda-se Sintra e arredores)não é fruto do acaso. Possuidores de uma cultura e de uma civilizaçãoque a tornavam das mais avançadas do seu tempo, apreciadores da vidacampestre e do contacto com a natureza verdejante, não é difícil de enten-der de que forma foram os seguidores de Maomé cativados por umaregião onde a natureza parecia corresponder às suas expectativas.O célebre poema de Alcabideche, escrito em meados do século XI por IbneMucana Alisbuni - um antigo cortesão reformado -, é bem a prova detal atracção: "Ó tu que habitas Alcabideche! Oxalá nunca te faltem/cereais parasemear nem cebolas nem abóboras!l( ...) Deixei os reis cobertos com os seusmantos/e renunciei a acompanhá-los nos cortejos ...!Eis-meem Alcabide-che colhendo silvas com uma podoa/ágil e cortante.!Se te disserem: gostasdeste trabalho?, responde: sim.!O amor da liberdade é o timbre de umcarácter nobre.!Tão bem me governaram o amor e os benefícios de AbúBacre Almodafar/que parti para um campo primaveril." Se bem que este poema se refira a uma área que não exactamente asintrense, poderia ele ser, porém, igualmente - e até mais justamente-aplicado à região de Sintra, cuja fertilidade, exuberância natural eriqueza paisagística não é, de modo algum, menor. A instalação dosmuçulmanos na região sintrense - onde irão fundar a vila que hojeconhecemos como Sintra e então apenas vagamente esboçada por umaocupação humana antiga mas ainda não estruturada numa urbe comotal - enquadra-se, pois, nessa lógica de atracção por áreas verdejantes ede natureza fértil, que os leva a semear, um pouco por toda a parte e comparticular incidência na região que vai da vila até à Várzea, as suasfamosas "clmoínhos". que mais não eram que quintas dedicadas à explo-ração frutícola mas também com vastas áreas ajardinadas, animadasainda por pequenos riachos e contendo uma casa de habitação. Durante 3
  • 4. toda a Idade Média encontramos inúmeras referências a tais almoínhas,mesmo muito depois de o domínio islâmico ter sido substituído pelodomínio cristão. Também na documentação e nas narrativas árabes a região de Sintranos surge documentada. Se bem que a função de um roteiro seja guiar ovisitante mais pelos vestígios monumentais que pelas linhas de poemase anais, consideramos útil- sobretudo enquanto introdução - uma bre-víssima resenha de tais referências. Assim, vários são os autores quegabam a fertilidade da região: "(Sintra é) uma das vilas que dependem de Lisboa no Andaluz, nas Museu de Odrinhas: Sepulturasproximidades do mar. Está permanentemente mergulhada numa brumaque se não dissipa. O seu clima é são e os habitantes vivem longo tempo.Tem dois castelos que são de extrema solidez. A vila está a cerca de umamilha do mar. Há aí um curso de água que se lança no mar e serve para arega das hortas. A região de Sintra é uma das regiões onde as maçãs sãomais abundantes. Esses frutos atingem tal espessura, que alguns chegama ter quatro palmos de circunferência. Acontece o mesmo com as pêras.Na serra de Sintra crescem violetas selvagens. Da costa vizinha extrai-seâmbar excelente." (Ibne Abde AI-Mumine Al-Himiuri) "(...) na região entre Lisboa e Sintra, encontram-se numa montanha,utilizada outrora como reduto fortificado, pedras judaicas que têm exacta-mente a forma de glandes. Estas pedras têm, entre outras propriedades, ade dissolver os cálculos da vesícula e do rim. Fazem-nas também entrarna composição de eolitios." (Idem) "E o termo (arredores) de Lisboa é comprido de muitos bens porque aíhá mui saborosas frutas. E juntou em si as bondades do mar e da terra. Eem todo o tempo, em seu termo criam muito bons açores (...) que usammais caça e são melhores que os outros e são muito formosos. E há aímuito mel e muito bom; e é tão branco que não parece senão açúcar esabe melhor que o açúcar. E é tão bom por natureza que, mesmo sendoposto num pano de linho, não ficaria molhado, nem faria aí sinal tantocomo se fosse pedra." (Ahmede Arrazí) A instalação muçulmana no termo de Lisboa em geral, e na regiãosintrense em particular, enquadra-se, portanto, nessa lógica de aproxi-mação a uma natureza apreciada e fértil. Se é certo que, como atrás referimos, a ocupação humana da regiãosintrense remonta a épocas bem mais antigas - como já vimos; se éigualmente certo que as mais recentes campanhas arqueológicas pare-cem provar que a área onde hoje se instala a vila possuía alguma pre-sença humana, o que nos parece igualmente certo é que não andaremosmuito longe da verdade se afirmarmos que a vila de Sintra, enquanto tal,é genericamente de assentamento muçulmano. E a partir da ocupaçãoárabe que a vila pode ser estudada como uma realidade estruturada, pos-suindo uma coerência urbanística e características próprias que a fazemmerecer o título de "vila". Para esse efeito, serão sobretudo objecto donosso estudo o castelo, o casario e o traçado das ruas, o paço (alcáçova)da vila e a toponímia do concelho, vestígios mais vivos da presençamuçulmana em Sintra. Um último dado assaz curioso. Não obstante aimportância da permanência muçulmana na região, escassos são os ves-tígios materiais (em termos de objectos, entenda-se) que foram até hojedescobertos. Escassa cerâmica, algumas lucernas e ainda menos moedasestão visíveis no Museu Regional de Sintra. A razão de tão "pobre" espó-lio em clara desproporção com tão rica presença, dever-se-á ao facto -de acordo com os especialistas - de a ocupação muçulmana ter sido par-ticularmente tolerante para com a população autóctone/moçárabe, permi-tindo a permanência de formas artísticas próprias e o uso de objectos quese inserem na tradição local. Deste modo, só muito esporadicamente sepoderá falar de formas de expressão tipicamente árabes na região sin-trense, tanto mais que se crê que o árabe ocuparia mcis os núcleos urba-nos, deixando o aro rural para a população local (isto partindo do princípioque se pode traçar uma fronteira clara entre a população dita "local" e osmuçulmanos considerados como "forasteiros", o que é, a nosso ver, duvi-doso e incorrecto). Mais uma vez se depreende que a ocupação árabe noconcelho, como no país, não terá sido a ruptura que antigos textos - quiçámais eivados de ideologia que de rigor factual - sugeriam, ruptura quehoje a historiografia tende a pôr em causa.4
  • 5. 2. OS MUÇULMANOS2.1. O Castelo de Sintra A esquerda: Castelo visto da vila. A direita: Vila vista do castelo. Se bem que se desconheça em absoluto a data da sua fundação, éhoje pacífico que a sua origem é muçulmana. Tome-se em conta todaviaque - como acontece com quase todos os vestígios monumentais sintren-ses mais remotos - pouco é já o que pode ser observado que seja de ori-gem. Na verdade, devido a extensas obras levadas a cabo no século XIXpor D. Fernando Il. apenas as bases das torres e as muralhas remontarãoà fundação inicial. Serpenteando pelos acidentes naturais da serra, essasmuralhas assumem características únicas que as tornam inconfundíveis. , Outro provável testemunho árabe no castelo é a cisterna. Situadobem dentro do recinto muralhado, se bem que hoje encerrada ao públicoque apenas a pode ver do exterior - o que tira substancialmente umavisão clara da construção -, a cisterna é composta por um vasto tanqueabaixo do nível do solo e de planta rectangular. Mede de comprimentodezoito metros por seis de largura. Mede seis metros de altura da soleirada porta ao pàvimento e três metros até ao fecho da obóbcdu.i O pavi-mento é constituído por lajes de granito. A abóbada da cisterna possuiainda duas clarabóias. A água que a abastece é pluvial, entrando pelaparte de cima através de quatro manilhas situadas nos cantos. ·Até háalguns anos, esta água estava disponível ao público que a podia tirar, ser-vindo-se de uma bomba apropriada para o efeito. Parece assim evidenteque esta cisterna constituiu, ao longo dos séculos, mais um ponto abaste-cedor de água para as gentes de Sintra, sobretudo para aquelas quemoravam nas imediações do castelo, como o retratam antigas gravurasromânticas, onde se pode observar alguns sintrenses abastecendo-se. Uma análise mais detalhada do castelo de Sintra faz ressaltar, emprimeiro lugar, a sua quase aparente invulnerabilidade. De facto, as ver-tentes que o circundam não permitem a qualquer intruso uma aproxima-ção, já que de tão escarpadas e rochosas tornam-se inacessíveis. Deimediato, parece ao observador como quase impossível a sua conquista.Sensação reforçada pelo facto de nunca se ter combatido no castelo; denunca se ter pelejado pela sua posse nem nenhum cerco lhe ter sidoalguma vez montado. A história surge assim a confirmar a suspeição.Contudo, a surpresa poderá tomar o observador se se lhe disser quenunca houve lutas pela posse do castelo pelo simples facto de sempre elese ter rendido sem luta, sobretudo se Lisboa era tomada. E isto não obs-tante a sua invulnerabilidade. A resposta para esta aparente contradiçãopoderá passar pela própria função do castelo durante quer a ocupaçãomuçulmana, quer depois. De facto, parece-nos perfeitamente crível que ocastelo fosse mais um ponto de vigia dos campos em redor que um ba-luarte unicamente defensivo. Vigia da região e sobretudo de Lisboa, inte- 5
  • 6. grava-se assim a vila numa gargantilha defensiva - de que outras terrasfaziam igualmente parte - que protegia a cidade maior. Esta hipóteseradica em três premissas: 1 - A boa localização do castelo e suas torres, de onde podem serobservados os campos em redor. Ainda que integrado numa terra queconsiderava já como sua - de nascimento e residência -, o muçulmanoibérico sabia também que das terras do norte se aproximavam as hostescristãs. Alardos e pilhagens, correrias e fossados, ataques súbitos e expe-dições punitivas eram frequentes em ambos os campos, afirmando-sedeste modo a necessidade de se possuir uma boa rede de atalaias, queprevenissem ataques, que vislumbrassem os inimigos ao longe e que pre-cavessem a defesa. Vigilante, o muçulmano ibérico podia assim divisarao longe as patrulhas e os cavaleiros inimigos -, coisa que não poderiafazer no vale onde a vila se dispõe - e assim tomar as providênciasnecessárias, que poderiam passar por recolher dentro das muralhas oshabitantes dispersos, enquanto os inimigos rondavam as cercanias. 2 - Em rigor, muito pouco protege o castelo. Se é perfeitamente plau-sível que o recinto muralhado encerrasse algum casario inicial. cedo avila transbordou os estreitos muros e se dispôs de S. Pedro até ao vale. Nocimo, o castelo ficou isolado, muito pouco guardando, pouco protegendo.Tal é visível. mais tarde, durante a crise de 1383-85,quando os homens doMestre se abastecem em Sintra perante o olhar do conde-alcaide - quese declarara por Castela - que, contudo, não sai dos seus muros. Diz Fer-não Lopes: "(...) estando então em Sintra o conde e gentes com que o bem o podiadefender, que tinha voz por Castela. E correu Nuno Álvares a terra emredor, sem ter achado nenhum que o torvasse. (...) E teve o (Mestre) falacom alguns de Sintra (...) para que lhe dessem o castelo daquele lugar queé uma grande fortaleza em um alto e !ragoso monte, e a vila ao pé dele,sem nenhuma cerca que a defender possa." (Fernão Lopes, "Crónica deD. João I", caps. LxxIlcLXIV) Como se verifica, a função de vigilância prossegue após a Recon-quista. 3 - A evolução dos acontecimentos parece, aliás, confirmar estaideia. Logo após a conquista de Lisboa, o castelo rende-se sem luta, o queparece reafirmar claramente que a sua função de atalaia é feita sobre-tudo em função de Lisboa, da qual Síntra mais não é que um posto avan-çado e de apoio. Perdida Lisboa, perdia Sintra a sua função. O foral de1154reforça esta ideia, ao estipular, numa série de artigos, que a funçãoda cavalaria-vilã sintrense seria a de defender Lisboa, para esta se diri-gindo quando avistasse inimigos del-rei nas imediações de Sintra. A fun-ção de vigilância - como se vê mais até de Lisboa do que da própria vila- só se esbate com a definitiva pacificação do território, após a crise doInterregno. Mas a este assunto voltaremos mais tarde, quando analisar-mos o estatuto da vila após a Reconquista.2.2. O Casario Um outro vestígio - ainda que remoto - da presença muçulmana naregião sintrense parece-nos ser o casario. Mais exactamente, a malhaurbana e a disposição das ruas da vila. O observador que percorra a vila, nas imediações do paço e da igrejade S. Martinho, facilmente nota a estreiteza de algumas ruas e becos, aforma como elas serpenteiam entre o casario, a existência de becos e deruas sem saída, as curvas súbitas que mudam, por vezes, o sentido deuma ruela. Na verdade, o casario parece ter sido disposto e orientado semum plano claro que o definisse, deambulando as ruas de acordo com dita-mes que passam mais pelo capricho ou pela necessidade momentâneaque pela planificação prévia. A chamada "lei da permanência do plano"- que afirma que salvo cataclismos monumentais o plano e o traçado deum povoado tendem a manter-se mais ou menos constantes ao longo dostempos - permite -nos de algum modo filiar este traçado, naquele que os6
  • 7. muçulmanos terão forjado em Sintra, à medida que a vila ia crescendosob as suas mãos. Edificada primeiro em torno do castelo, instalada ini-cialmente nas casas que se erguiam fronteiras ao castelo, cedo a popula-ção desce o vale e se instala nos arrabaldes de S." Maria, S. Miguel esobretudo S. Martinho, bairros esses que, a breve trecho (sobretudo oúltimo), ultrapassam o casario do castelo como núcleo principal da vila.Aí instalarão os muçulmanos o seu paço acastelado onde os governado-res regionais (os walis) habitavam, aí passou a residir a casta mais aris-tocrática dos islâmicos do local, que entre Sintra e Lisboa repartia o seutempo, como reconhece o suposto Osberno em 1147: "Ali (Lisboa) se tinham fixado como hóspedes (...) todos os nobres (ára-bes) de Sintra." o casario e as ruelas do que é hoje comum chamar-se a "VilaVelha" são assim dispostos de acordo com o que eram os princípios Ruela da vila velhagerais da urbanística árabe e hispano-muçulmana, que se caracteri-zava pela ausência de regras e de princípios normativos para esseassentamento urbano. Na verdade, se percorrermos, ainda hoje, as ruasdas cidades islâmicas do Magrebe, notamos que as características queatrás apontámos para o casario velho sintrense são aí elevados aoparoxismo. As ruas estreitam-se, os becos surgem inesperadamente, olabiríntico das ruelas torna difícil a visita sem guia. Em Sintra, salva-guardadas as devidas distâncias, é possível ver tais tendências esbo-çadas, o que nos leva a afirmar - com a devida prudência que o tempojá passado e que a escassa dimensão da vila aconselham - que o tra-çado urbano sintrense é subsidiário do modelo islâmico de edificaçãourbana. Refira-se, já agora, que este modelo árabe de uma certa "desorgani- Vila: Poço Rosto e Pedras Ajorradiçaszação" urbana radica em três ordens de factores: . - Razões de mentalidade: para o muçulmano, a casa sobrepõe-se à rua.E lá que o fiel reza, que vive, que passa o tempo, sobretudo quando as mui-tas horas de calor não lhe permitem uma saída confortável. A casa é umespaço de sociabilidade maior do que a rua, tanto mais que as mulheres,por exemplo, centram a sua actividade muito mais lá que no exterior, ondeos seus movimentos sofrem restrições. Assim sendo, é lícito que um moradorprolongue a sua casa, que cerceie o espaço da rua ou mesmo que a fechenum beco sem saída. A ausência de regulamentação urbana entre os muçul-manos (e, por extensão, os hispano-muçulmanos) favorece tal tendência; - Razões climáticas: as ruas estreitas e apertadas permitem umamenor exposição ao sol e favorecem a sombra, caracteristícas bem apre-ciadas para quem à força do calor está acostumado; - Razões defensivas: becos e curvas apertadas, espaços labirínticose uma disposição irregular das ruelas favorecem quem defende, quemmelhor conhece o espaço onde se move e pode assim enfrentar com maisarmas o invasor. Ora, ainda que integrado no mundo ibérico que há muitoconquistara, não raro ainda se sentia o muçulmano ameaçado. Não só asarmas cristãs ameaçavam, como podiam suceder revoltas moçárabes,como as que efectivamente sucederam em meados do século IX, quandoduas rebeliões moçárabes eclodiram em Sintra, secundando igual movi-mento em Lisboa (e terminando, claro, quando em Lisboa terminaram). Deste modo, parece-nos perfeitamente credível afirmar que o traçadourbano sintrense é subsidiário da influência hispano-muçulmana, mesmolevando em conta que as ruas possam, com o tempo, ter sofrido algumasmodificações que impeçam uma correspondência plena. Mas a matrizestá lá.2.3. O Paço Até há alguns anos, a problemática respeitante à fundação do paçode Sintra era objecto de polémica. Vários autores - como Reinaldo dosSantos ou Mário Chicó - eram claros na sua asserção de que os paços deSintra eram de edificação joanina ou até manuelina, fazendo assim tábuarasa de anteriores vestígios e notícias, no que foi interpretado por outros 7
  • 8. autores - como Borges Coelho e com alguma lógica - como fruto de umdeterminado preconceito histórico antimouro. Na actualidade, a fundação árabe do paço de Sintra parece já poucoquestionáveL se bem que seja perfeitamente pacífico que o que restadessa fundação muçulmana se restringe a uma mão-cheia de pormeno-res, fruto de várias reconstruções e alterações posteriores. Os argumentosa favor da fundação árabe do paço - em contraponto à tese da fundaçãojoanina, tão cara a alguns autores - são vários. Em primeiro lugar, osdocumentos, os testemunhos. Ouçamos de novo AI-Himiari: "Sintxa tem dois castelos e são ambos de extrema solidez." Se é óbvio que um dos castelos é o da vila, no cimo da serra edificado,o outro só pode corresponder ao paço de Sintra, acastelado como umaalcáçova ou alcazar, tal como era usual entre os hispano-muçulmanos emais tarde entre os cristãos da reconquista. Depois, os factos. D. Dinis estabelece com os mouros forros de Colaresum protocolo no qual lhes concede algumas benesses fiscais, desde queeles garantam a manutenção das muralhas do castelo e do seu "palácioreal da Olivc" (leia-se "o palácio real do Chão da Olivc" , como na IdadeMédia se chamava ao local que é hoje o largo fronteiro ao paço). Não énecessário muito esforço para depreender de que palácio se trataria. Mais tarde, em 1385,é o recém-aclamado D. João I que doa a D. Henri-que Manuel de Vilhena, alcaide de Sintra, "todos os nossos paços que nóshavemos na vila de Sintra com todas as suas entradas e saídas". Istodécadas antes das obras ordenadas pelo monarca que, como adianteveremos, o reconstruíram e alteraram, obras que estão, de resto, na baseda argumentação favorável à fundação joanina. Actualmente, os vestígios da fundação muçulmana diluem-se noemaranhado de um palácio que cresceu sem uma grande regularidade -o que mais o torna original, diga-se. Mas em todo o caso podem ainda serobservados do primitivo paço acastelado mourisco alguns revestimentosde azulejaria existentes em pavimentos, como o tapete de azulejos alica-tados da capela real, ou o pavimento também de azulejos - verdes, cas-tanhos, manganés e amarelo - com desenho de laçaria, existente nachamada sala Afonso VI. Também alguns apontamentos patentes umpouco por toda a parte, se bem que de construção posterior (a disposiçãodos jardins suspensos, a decoração de portas e janelas, o desnivela-menmto das várias alas e corpos construtivos ou até alguma toponímia- "Terreiro de Meca", por exemplo - traem essa anciana influência queo tempo manteve. Para todos os efeitos, ainda que os vestígios sejam hoje vagos e difu-sos, o paço assume-se como herança muçulmana em Sintra, e seriainjusto como talo não considerar.2.4. A Toponímia Um facto evidente e por de mais sabido: uma das principais herançasmuçulmanas no nosso país deixadas foi a linguística. No domínio datoponímia, os exemplos encontram-se um pouco espalhados por todo oterritório nacional, se bem que com maior incidência no centro/sul, e Sin-tra não foge à regra. Pelo concelho fora, várias localidades deixam entre-ver, no seu nome, uma remota influência árabe, e se bem que osespecialistas nem sempre estejam de acordo sobre a etimologia de váriasdessas localidades, o elevado número encontrado não permite que seolvide tal herança. E se tais testemunhos não se enquadram necessaria-mente no campo dos vestígios mais monumentais, certo é também quecabem dentro de uma outra herança que não passa tanto pelas pedras epelos muros: a da memória colectiva que se fixa na língua que usamos enos nomes das terras onde nascemos, vivemos e morremos. Não é total o acordo entre os linguístas acerca da toponímia sintrensee suas etimologias árabes. Um dos mais conceituados linguístas portu-gueses - José Pedro Machado - divide os topónimos locais de origemárabe em três grupos: os árabes, os híbridos e os arábico-modernos. Decada grupo forneceremos uma lista, acómpanhada da raiz e do signifi-cado em anexo. Esta lista é ainda complementada com apontamentos deoutros autores que a este assunto se dedicaram igualmente, nomeada-8
  • 9. Imente Mário Guedes Real e Oliveira Boléo, se bem que demonstrassemestes menor profundidade que o linguista anteriormente citado. Assimtemos: - Topónimos de origem árabe (aqueles que possuem raiz árabe e quepermaneceram com pequenas alterações desse radical): Albarraque (al--barrak. isto é, "o brilhante", se bem que Guedes Real sugira um étimo emal-barraque, ou seja, plural de aI-barca - "solo duro"); Alcainça (al--kaniça, isto é, "a igreja"); Alcoruim ou Alcorvim (al-cairuáne, isto é, "ocaimão"); Alfaquiques (alfaqueques, cargo muçulmano que designava oindivíduo que resgatava prisioneiros); Alfouvar (al-fauwara, isto é, "obolhão"): Algueirão (al-guerane, isto é, "a gruta"); Almargem (al-marge,isto é, "o prado"); Arrabalde (arabáde, isto é, "os subúrbios"); Azenha (cç--çania, isto é, "a nora"); Azoia (az-zavia, isto é, "o mosteiro"); Cacém(qácine, que mais não parece ser que um antroponómico, apesar deGuedes Real sugerir raiz em cacéme, ou seja "o que divide"); Moçaravia(muçtarabe, isto é, "aquele que se tornou árabe"); Queluz (qá-luz, isto é,"vale da amendoeira"). Guedes Real apresenta também: Mucifal (moçícl.isto é, "o lugar que está em baixo"); Massamá (maçama, isto é, "o que estáalto"); Meleças (meliça, isto é, "o vazio"); Almoçageme (al-mesjide, isto é,"a mesquita"), entre outros mais improváveis. - Topónimos híbridos (aqueles que resultariam da associação dedois topónímos, um árabe e um latino): Alcolombal (da junção do artigoárabe "ol" com a palavra latina "columbcre", que significa pombal), Alco-bela (do árabe "al-quibba" mais o sufixo "ela"), Almoster (mescla doartigo "al" mais o termo latino "monosteriurn". que designa mosteiro). - Topónimos arábicos modernos (aqueles onde, apesar de se reco-nhecer uma etimologia árabe mais ou menos comprovada, não seconhece claramente a raiz, devido a influências posteriores): Abonemar,Açafora, Aljabafaria, Almoçageme (note-se o que Guedes Real propõepara este topónimo), Almornos, Almosquer, AlparreL Alpoletim, Alvegas,AsfamiL Boqcrlho. Calaferrim (o mesmo que Canaferrim, que daria maistarde Penaferrim, termo que designa também o bairro de S. Pedro - S.Pedro de Penaferrim), Galamares, Mafarros (ou Nafarros), Magoito, Mele-ças (ver tese de Guedes Real), Massamá (idem). Esta lista não é, por certo, nem definitiva nem isenta de bastas diver-gências. Não nos competindo arrogar o papel de árbitro - até porque noscarece a competência linguística para tanto -, resta-nos esperar quefuturos estudos esclareçam questões em aberto. Entretanto, registe-seuma curiosidade (e uma prova, afinaL de que este é um dossier emaberto): nenhum dos linguistas citou o topónimo Tercena, que se sabe tero étimo em "dor-cs-sincrc". isto é, "tulha" ou "armazém". 9
  • 10. 3. DA RECONQUISTA AO DEALBAR DA EXPANSÃO Após a queda de Lisboa. em 1147.Sintra rende-se sem luta. Esta ren- dição de tão inacessível castelo não surpreende. se se relembrar que a sua função não era tanto defender a vila - que visivelmente não defen- dia - mas mais a de se integrar na cintura defensiva que protegia Lis- boa. Cintura essa que se estendia por várias vilas do termo de Lisboa. e que visava fornecer à capital a vigilância e os homens necessários para a sua segurança. Perdida Lisboa. perdia-se o sentido de Sintra. Daí a sua rendição sem luta. Este estatuto de subordinação de Sintra em relação a Lisboa man- teve-se durante toda a Baixa Idade Média - quase nos atrevemos a dizer que é uma constante da sua história. Subordinação. antes do mais. mili- tar. Até à crise de 1383-85. enquanto a independência nacional corria perigo (primeiro mais às mãos dos muçulmanos; depois de Afonso III. somente de Castela). Sintra assumiu-se como um bastião militar de apoio a Lisboa. O castelo - vimo-lo já - erigia-se como ponto de vigia. como núcleo aglutinador de hostes que para a capital se deviam dirigir se fos- sem avistados inimigos deI-rei (recorde-se o articulado do foral que subordinava a cavalaria-vilã às necessidades lisboetas); os sintrenses assumiam-se - ou eram levados a ... - como mão-de-obra útil ao poder central. como sucedeu aquando da construção da muralha fernandina de Lisboa em 1373.na qual colaboraram habitantes de Sintra (e mais dezoito terras. de Setúbal a Benavente. de Cascais a Torres Vedras. de Lourinhã a Sesimbra. o que define o aro defensivo que resguardava a cidade maior); os guerreiros da vila auxiliavam-na com armas e homens. como aquando da crise de 1383-85.após a rendição de Henrique Manuel de Vilhena - que declarara a vila por Castela -. quando de Sintra seguiram "lanças" para Lisboa. Com a estabilização política e com a acalmia das fronteiras ocorridas após o triunfo da dinastia de Avis. o estatuto de Sintra muda quase radi- calmente. De bastião militar passa a vila cortesã. habitada sazonalmente por uma corte em busca de ares frescos e sombras calmas. que percorre Sintra como em casa sua. Nesse sentido se integram as constantes obras no paço da vila - que pela primeira vez se assume inequivocamente como residência real - e a extinção da coudelaria de Sintra em 1460- dispositivo militar inútil. numa vila que perdeu a sua função militari- zante. Agora. neste virar da centúria de trezentos para a de quatrocentos. que representa a mudança da vila militarizante para a vila áulica. o dis- curso do poder é já outro. Se no século XII o articulado do fora 1 ordenava aos cavaleiros-vilãos que acorressem a Lisboa para a ajudar belica- mente. agora. em 1436.D. Duarte diz de Sintra: ..... vimos a esta vila de Sintra muitas vezes ter alguns verãos (...); (a terra é) de muitos bons ares e águas e de comarcas. em que há grande abundância de mantimentos de mar e de terra. e por a nossa mui nobre e leal cidade de Lisboa ser tão acerca; e por havermos nela assaz de fol- ganças e desenfadamentos de montes e caças. e por termos nela nobres paços de mui espaçadas vistas .:" Este palavreado serve de preâmbulo ao conjunto de privilégios que o monarca concede aos sintrenses por motivo dos incómodos que eles sen- tem ao colaborar na reconstrução e obras do paço. Simbólico: se antes colaboravam na edificação da muralha fernandina de Lisboa. trabalha- vam,agora os sintrenses no paço da sua própria vila. E à luz desta subordinação de Sintra em relação a Lisboa que deve- mos interpretar a vila medieval e mesmo moderna. A subordinação não assume apenas aspectos militares ou áulicos; é também económica e ins- titucional. Para Lisboa vão alguns dos melhores produtos da terra. vendi- 10ta
  • 11. dos pelos almocreves e pelos campónios; para Lisboa vão os jovens inte-lectualmente mais promissores, os artesãos mais dotados, as gentes maisambiciosas. A proximidade da capital e a respectiva força centrípetapotenciavam uma constante sangria de gentes mais habilitadas e dosprodutos mais procurados, que os documentos aqui e ali revelam. De Lis-boa, por seu turno, vinha o poder e a corte, os fidalgos que em Sintra earredores arrendavam e compravam vastas terras, instalavam quintas einfluenciavam vereações. A consagração máxima desta subordinação éconstatada logo após 1385,quando Sintra (entre outras terras) é doada aLisboa como seu termo, o que, na prática, acarreta uma subalternizaçãoconcelhia em relação ao município sintrense e seus edis. O facto de taldoação ter sido anulada, cerca de um século depois, não lhe retira oimpacte. Em todo o caso, a subordinação em relação a Lisboa, e os incómodosque daí decorrem, tem as suas contrapartidas. A presença da corte acar-reta a doação de regalias aos sintrenses (como se viu com D. Duorte), apresença dos nobres e da corte conduz a uma subida dos preços pelosmercadores sintrenses, a presença ofuscante de Lisboa permite, enfim,que Sintra possua um estatuto no todo nacional que a sua pequenadimensão e escassa população (nunca ultrapassará o milhor de habitan-tes, de acordo com os nossos cálculos) não pressuporiam. E por isso queSintra tem uma posição de destaque em Cortes, onde se senta em lugarprivilegiado a par com terras de maior tamanho e mais população.Recorde-se que, de acordo com o protocolo, os concelhos sentavam-setanto mais à frente quanto mais importantes eram. Por outras palavras, opreço de tal subordinação é um estatuto de algum modo superior. Como veremos a seguir, o percurso dos monumentos segue bastanteessa evolução de estatuto. 11
  • 12. 4. IDADE MÉDIA4.1. O Paço de Belas o hoje olvidado Paço de Belas foi, contudo, até ao século xv, um pala-cete bastante frequentado pelos monarcas portugueses, pela família real :fe por várias famílias da alta nobreza, concorrendo e suplantando mesmoepisodicamente - com D. Pedro, por exemplo - o Paço de Sintra, então Jnuma penumbra que só o interesse joanino iria romper. Situado na actual vila de Belas, o Palácio do Senhor da Serra comotambém é conhecido, encontra-se fronteiro ao jardim central da locali-dade, inserindo-se numa vasta propriedade, de resto também interes-sante para outras épocas. O paço parece ter tido a sua origem numaherdade construí da em torno de alguns casais, herdade que tinha, emprincípios do século XIV, o cavaleiro Gonçalo Anes Correia como proprie- Paço de Belastário. Em 1318,a herdade passa para o Convento de Santos por cláusulatestamentária, para ser trocado pelas freiras dez anos depois, indo entãoparar às mãos do meirinho-mor, Lopo Fernandes Pacheco. Em 1357,a her-dade sai da posse desta família confiscada pelo monarca D. Pedro, já queo seu dono - ao tempo Diogo Lopes Pacheco - fora um dos executoresda Castro. É então que o rei ordena a construção do paço nos terrenos dessa her-dade, paço que ainda hoje existe, e onde pousava frequentemente. Ouça-mos, a tal propósito, Fernão Lopes: "Assim sucedeu que pousando (D. Pedro) nos Paços de Belas, que elefizera, dois dos seus escudeiros, que há muito com ele viviam ..." (Fernão Lopes, "Crónica de D. Pedra", Capo VI, adapt.) Após a subida ao trono de D. Fernando, a quinta e o paço são devolvi-dos aos Pacheco em 1367.Em 1389,João Fernandes Pacheco é confirmadono morgadio de Belas. A deserção deste para Castela leva a novo con-fisco e posterior doação régia a Gonçalo Peres Malafaia. Por fim, em 1424,a coroa volta a comprar a propriedade à viúva de Gonçalo Peres, retor-nando assim para a Casa Real. A partir de 1499,o paço é aforado pelacasa real a particulares. Um facto importante com este paço relacionado é a sua ligação àsMinas do Suímo (a "Ossumo" referida na "Crónica Geral de Espanha" edurante tanto tempo motivo de dúvidas) que ficavam próximo, na Serrada Carregueira. Durante largo tempo uma fonte de pedras semipreciosas,tiveram estas minas no paço um ponto de apoio importante, já que asminas estavam, tal como o paço, sob a directa posse da Coroa. Mesmoapós o aforamento a particulares do palacete, a Coroa salvaguardousempre a sua directa exploração do complexo mineiro. Sobre o Paço, e dum ponto de vista monumental. não há, infelizmente,muito a dizer. Pertença de particulares, não é tão fácil a sua visita comose fosse propriedade pública; para além disso, durante muito tempo alvo r-de depradações constantes e num estado pouco menos que ruinoso, sórecentemente tem vindo a ser alvo de uma recuperação que parece (naaltura em que este roteiro é escrito) augurar melhores dias. I4.2. O Ramalhão Entendamo-nos. Quando paramos no Largo do Ramalhão, que hojecomo ontem marcava a entrada para a vila de Sintra, estamo-nos a referirmais ao espaço propriamente dito que a qualquer vestígio monumental aíexistente. Uma paragem no lugar do Ramalhão não representa, contudo,uma mera pausa. Mais do que isso, estamos perante um ponto fulcral darede viária da vila medieva.12
  • 13. Aí se separavam. ou para aí confluíam. três das mais importantesvias da Sintra medieval. Aí começava o caminho que para Cascaislevava. caminho esse que passava pelo convento jerónimo de PenhaLonga. fundado nos finais da centúria de trezentos. Penha Longa ficava.aliás. na extrema que separava os concelhos de Sintra e de Cascais. exis-tente este desde 1364resultante precisamente de uma cisão no municípiosintrense. Voltando ao Ramalhão. temos ainda a segunda grande via. aquelaque levava de Sintra a Lisboa. Daí partia. seguindo depois para Ranho-las. Rio de Mouro (hoje mais conhecido como Rio de Mouro Velho).Agualva-Cacém. Belas. Pendão. Carenque. Falagueira (Amadora) e Ben-fica. num trajecto que demorava três a quatro horas em cavalo ou carrua-gem. Grande eixo viário. decisivo - ontem como hoje - para a vila deSintra. por ele se escoavam gentes e mercadorias. constituindo-se como ocordão umbilical que associava a nossa vila à capital. Mas do Ramalhão partia um outro caminho. aquele que vamos tam-bém nós agora retomar e que nos irá conduzir ao cerne da vila medieval.Seguindo do Ramalhão para S. Pedro, encontramos. logo à direita daestrada que do Ramalhão sai (Av. Conde de Suceno). um curioso túmulomedieval que merece nova pausa e uma atenção muito particular.4.3. O Chamado "Túmulo dos Dois Irmãos" Perpendicular à estrada está o que se designa tradicionalmente porTúmulo dos Dois Irmãos. Na realidade. trata-se de um túmulo do cemité-rio da gafaria de Sintra que em S. Pedro se situava. e neste ponto resideparte do seu interesse. O cemitério da gafaria ficava no outro lado daestrada. hoje em dia parcialmente ocupado por um campo de futebol. eera também aí que até alguns anos atrás se situava igualmente o túmulo.De facto. até 1976. e amputado da cruz que o encima. mudou ele váriasvezes de poiso. até ser definitavamente instalado e restaurado no pontoonde agora se encontra. A designação do túmulo, e o seu maior ponto de curiosidade monu-mental. reside no facto de possuir duas estelas discóides em cada uma dasextremidades da arca sepulcral. fenómeno pouco frequente e - necessaria-mente - gerador tanto de lendas como de especulações de índole vária.De acordo com a lenda - passada para texto por D. João da Câmara. porexemplo -. aí estariam sepultados dois irmãos que se teriam apaixonadopela mesma dama. Numa escura noite. um deles. ao aproximar-se paracortejar a dama. terá visto um vulto que se lhe antecipara em tais intentos.Movido pelo ciúme. prestes o assalta e prestes duelam ambos. sem que aescassa luz permita que se reconheçam. Num golpe mais forte. um delessucumbe nos braços do outro. até que um raio de luz faz com que. enfim. osobrevivente reconheça no moribundo o próprio irmão. Desvairado de dor.o sobrevivente volta contra si a espada e mata-se. De acordo com estalenda. o túmulo encerra os dois irmãos. Se o carácter lendário do episódioseria já de si suficiente para nos pôr de sobreaviso. o facto de estar apenasum esqueleto guardado no túmulo desmente de vez esta versão. De facto.aberto em 1830por ordem expressa de D. Miguel. o túmulo apenas reveloua existência de um só corpo. A lenda revela-se - como sempre sucede comas lendas - sem fundamento histórico. Também algumas especulações históricas não dão melhor solução.A tese de que aí estaria enterrado algum grande cavaleiro. em Sintratombado após lutas com mouros, mais não merece que a brevidade deuma contradita: nunca se combateu a moirama em Sintrc, pois esta ren-deu-se sem luta após a tomada de Lisboa. Finalmente. a tese mais propa-la da é aquela que afirma estar aí sepultado o bispo D. Luís Coutinho,bispo de Viseu (1439-1444).de Coimbra (1444-1452)e - se bem que comdúvidas - de Lisboa (1452-1454).De acordo com a tese citada. o bispoteria vindo falecer de lepra em Sintra. e em Sintra estaria sepultado. pre-cisamente no túmulo que temos vindo a estudar. de arquitectura tão pecu-liar apenas para albergar personalidade do seu quilate. Esta teoria nãotem porém mais fundamento que a simples suposição. já que na reali-dade nada liga. factual e objectivamente. o bispo ao túmulo sintrense, anão ser o facto de um estar em Sintro; e o outro por lá ter (segundo se crê)passado. Não é sequer claro que D. Luís Coutinho tenha falecido em Sin-trcr, o que transforma esta teoria em pouco mais que nada. 13
  • 14. Observando o túmulo mais em pormenor, verificamos que as cabecei-ras têm ambas o emblema da cruz voltado para lados opostos; a tampatem três faces sendo aproximadamente rectangular, possuindo na faceplana - a central- uma cruz esculpida a todo o comprimento. De cabe-ceira a cabeceira, mede o túmulo 1.70m. As cabeceiras têm de diâmetro0,35 m e de espessura 0,20 m. O fuste e a cruz que o encima são recentes,devido aos originais terem sido há muito depradados.4.4. A Gafaria de Sintra e a Capela de S. Lázaro Se do antigo cemitério dos gafos nada mais existe que uma memóriadocumental poeirenta e o túmulo denominado "dos Dois Irmãos", daantiga gafaria sintrense não é a fortuna mais pródiga. O seu antigorecinto é hoje ocupado pelo largo D. Fernando Il, mais conhecido por seractualmente o sítio da feira de S. Pedro que pelas lembranças de antigosgafos. E contudo, é impossível falar da vila medieval sem referir essa ins-tituição central da assistência sintrense que era a gafaria. Pertencente aoHospital da vila - gerido pelo próprio concelho sob a supervisão últimadoís) rainha(s) de Portugal (donatárias da vila desde D. Dinis) -, a Gafariaatingiu uma dimensão regional bem patente nos documentos esparsosque subsistiram. Desconhece-se a data da sua fundação, mas tudo indicaque a sua antiguidade radica nos primeiros tempos da nacionalidade. Se bem que a sua gestão levantasse problemas frequentes - as eter-nas questões do equilíbrio receitas/despesas e da gestão do património,parecem ter sido problemáticas, exemplo aliás do que sucedia por todo opaís em instituições afins -, o que parece igualmente certo é que, querpela área sob a sua jurisdição (correspondente a todo o oeste de Lisboa,de Cascais a Mofrcr). quer pelas verbas movimentadas (de que há registosnum tombo de finais do século xv, depositado no Arquivo da Misericórdiade Sintro), quer pelas próprias dimensões da gafaria e anexos (que, como Interior da Capela de S. Lázarovimos e segundo parece, abrangeria uma vasta zona que ia desde as ime- (Desenho de José Alfredo C. Azevedo)diações da Igreja de S. Pedro até ao Ramalhão), se bem que a sua gestãoapresentasse problemas, dizíamos, o que é certo é que a sua fama ultra-passou as fronteiras municipais e a sua eficácia assistencial parecenunca ter sido muito posta em causa. Tal como era comum suceder na Idade Média, a gafaria situava-senas imediações de uma via de algum movimento, já que tal lhe permitia oacumular das esmolas e dos donativos dos viandantes, o que constituíamais uma receita não negligenciável. Não olvidemos que a assistênciamedieval gira essencialmente em torno do princípio da caridade cristã, enão tanto da responsabilidade do Estado, o que transforma a "esmola", o"donctivo". numa das principais fontes de receita deste tipo de institui-ções. Outras fontes de receita, bem importantes de resto, resultavam dagestão do respectivo património imobiliário, sobretudo prédios rústicos eurbanos. As normas da gafaria, entretanto, eram decalcadas das da Casade S. Lázaro de Lisboa, tida ao tempo como a instituição modelar ao níveldo apoio e internamento de leprosos. Refira-se, aliás, que o maior vestígio que ainda hoje resta da gafaria,remete precisamente para o teor religioso/piedoso que rodeava o actoassistencial medievo: a capela de S. Lázaro. Feita para prestar amparomoral aos internados - recorde-se que, salvo certas condições e certoscasos, os gafos estavam compulsivamente circunscritos e encerrados nagafaria -, a capela tinha como orago um dos santos mais veneradospelos leprosos - S. Lázaro - ele próprio um padecente do mal "ardente".A capela situa-se num beco junto à actual Rua Serpa Pinto, e destaca-sepela simplicidade de formas e singeleza de proporções monumentais.Contudo, pode-se referir o pequeno portal manuelino; o altar, simples,mas ainda assim revestido de azulejos hispano-árabes; o tecto da capela-mor, composto por uma abóbada artesonada e com mísulas manuelinas,e onde se vêem ainda um camaroeiro em pedra (emblema da rainhaD. Leonor), além de três florões como fecho das nervuras; o tecto da nave,composto, por seu turno, por três nervuras na sua abóbada, fechadas porum escudo representando um pelicano (as armas de D. João n). pelo citadocamaroeiro e pelas armas nacionais. A única nave existente mede 5 metros de comprimento por 3,85metros Porta da Capela de S. Lázarode largura. No exterior da capela, duas pequenas janelas serviriam em S. Pedro de Sintra- segundo se pensa - para que os leprosos pudessem assistir à Euca- (Desenho de José Alfredo C. Azevedo)14
  • 15. Capela de S. Lázaro (Desenho de José Alfredo C. Azevedo)ristia sem contactarem com as pessoas sãs que no seu interior estives-sem. Tal como sucedeu um pouco por todo o país e por toda a Europa, odecréscimo da lepra, verificado nos finais do século XV,acarretou a deca-dência - ou, pelo menos, a diminuição - das gafarias. A de Sintraparece não ter escapado à regra, já que temos notícia da gradual diminu-ição do número de internados (um apenas, no princípio do século XVI), eda correspondente diminuição dos rendimentos. Não se esqueça que asgafarias também viviam, em grande medida, de parte dos bens dos inter-nados, que à gafaria eram obrigatoriamente doados como contrapartidapelo internamento e respectivo apoio. No século XVI. m 1545,a Gafaria- ebem como o Hospital, a que pertencia - foi anexada à Misericórdia deSintra, por determinação de D. João m.4.5. A Igreja Paroquial de S. Pedro A igreja paroquial de S. Pedro (de Penaferrim ou, como por vezessurge nos mais antigos documentos, de Canaferrim) era uma das quatroque aos fregueses da vila davam amparo religioso. As outras eram as deS." Maria, S. Miguel e S. Martinho, que em devido tempo abordaremos.Todas elas - excepto a de S. Martinho, no coração da vila medieval -estavam situadas no que se chamava genericamente o "Arrcbcrlde", isto é,as áreas periféricas do burgo medievo. As origens desta igreja não são claramente conhecidas. Uma teseplausível é que a sua edificação viria substituir a capela existente noCastelo e que teria sido o mais antigo templo cristão aberto ao culto nazona. Seja como for, o certo é que a actual igreja de S. Pedro remonta pelomenos ao século XIV. De medieval, porém, não terá já muito, que as sucessivas reconstru-ções alteraram-lhe a traça original. Em meados do século XVI. oi o primi- ftivo templo reconstruído - ~u pelo menos ampliado - por D. Alvaro deCastro, filho do vice-rei da India, D. João de Castro, possivelmente na Igreja de S. Pedro - Ábside 15
  • 16. sequência do terramoto que assolou a vila em 1531;e em 1755.na sequên-cia de outro (e mais célebre) terramoto que muito danificou a vila. foi denovo reconstruída. Actualmente. podemos ainda ver de medieval. no templo. a ábsidegótica amparada por quatro contrafortes e. já no interior. uma estátua deS. Pedro em pedra de Ançõ, situado numa peanha por cima do púlpito. Sebem que não seja completamente clara a medievalidade desta estátua.parece ser essa a hipótese mais provável. pelo menos de acordo comespecialistas - como Félix Alves Pereira - que o estudaram. A pequenaestátua. que mede 75 em de altura. representa S. Pedro sentado. com amão direita ergui da à altura do tronco. e abençoando à latina - polegar.indicador e médio levantados - e vestido com uma casula ponteagudaque lhe desce até aos pés. A roupa é talar e fechada à frente. caindo empregas; Félix Alves Pereira sugere a existência de uma pequena túnicasobreposta. talvez a indicação de uma dalmática. Um aspecto interes-sante é o facto do assento (sella) onde o pontífice repousa apresentarlavores ogivais que decoram os seus dois lados.4.6. O Convento da Trindade Se da igreja paroquial de S. Pedro se seguir pela Calçada do Penalvae pela Rua da Trindade. chegaremos ao local onde se situa o Convento daSantíssima Trindade. Fundado em finais do século XIV. inícios do séculoxv. pertencia à Ordem dos Frades Trinitários. uma ordem mendicante quese dedicava. sobretudo. à remissão de cristãos cativos. tarefa que cum-priam fazendo peditórios pela vila e arredores. A notícia mais antiga quedeste convento temos remonta a 1408.quando os clérigos da colegiada deS." Maria - que fica(va) fronteira - trazem a lume uma série de reclama-ções sobre pretensas irregularidades dos trinitários (erecção de altar.campanário e.sino indevidamente). Parece portanto claro que o conventoé anterior àquela data. O edifício actual - fácil é supô-lo pelo simples estudo da suafachada - nada tem já de medieval. sendo antes o fruto de várias altera-ções. Essa alteração da traça original atingiu igualmente. ao longo dosséculos. o seu interior. que de resto só na década de 1980começou a bene-ficiar de obras de restauro dignas desse nome por parte dos actuais pro-prietários. No primeiro andar do convento situa(va)m-se as celas dos frades tri-nos. hoje casa de habitação; no piso térreo é ainda visível a cozinha doconvento. com o refeitório artesonado em arco abatido e um conjunto deazulejos. O claustro é pequeno. com quatro arcos dóricos e com uma gale-ria aberta com colunas em estilo similar. O convento é delimitado por uma cerca de extensão razoável. subindo Convento da Trindadeem encosta para o castelo.4.7. As Igrejas Paroquiais de s.ta Maria e de S. Miguel Um pouco adiante do convento da Trindade fica a igreja paroquial deS." Maria. Talvez a proximidade com os trinos propiciasse as contendas.como vimos a propósito das queixas de 1408.Em todo 9 caso. é este tem-plo aquele que - dentro das igrejas paroquiais da vila - melhor con-serva algumas das características medievais da sua fundação. Fundado no século XII. foi reformulado nos finais do século XIIIsegundo os canônes dominantes do gótico. São ainda visíveis na fachada- não obstante a reconstrução pombalina subsequente ao terramoto - opórtico inscrito em gablete (remate triangular sobre as arquivoltas dosportais) e com três arcos ogivais que assentam em capitéis encimandoestreitos colunelos. A geminação da porta com a construção do colunelo Igreja de s.- Maria - Portal com figu-central é já renacentista. No exterior. encontramos duas portas. também ras antropomórficasgóticas. sendo uma delas decorada nos umbrais com curiosos elementosantropomórficos. como rostos vigiando os que passam. O interior. por seu turno. possui três naves divididas por tramos dearcaria ogival. sendo ainda visíveis alguns traços da decoração medievaque os séculos seguintes - sobretudo as alterações setecentistas - não16
  • 17. conseguiram apagar, como os capitéis com seus motivos naturalistas oua abóbada artesonada da capela-mor. Se bem que os aspectos da vivência religiosa deste tempo não façampropriamente parte dos objectivos deste roteiro, merece aqui mençãoespecial a Confraria dos Fiéis de Deus da Igreja de S.la Maria, conside-rada como uma das principais (senão a principal) confrarias da Sintramedieva, e que chegou a ter, em 1346, 141 confrades (85 homens e56 mulheres), número tanto mais significativo se se levar em conta que avila nunca ultrapassou - se é que perto andou - o milhar de almas. E mais acima, na íngreme ladeira que conduz a uma das entradaspara o Castelo, encontramos os vestígios - escassos estes - da outraigreja paroquial do núcleo urbano: a igreja paroquial de S. Miguel. Se deinício formava, com as três restantes (recorde-se: S. Pedro, S." Maria,S. Martinho) o quarteto das igrejas paroquiais da vila, veio contudo a per-der importância com o tempo, até ser integrada, já mais tarde, na paró-quia de S.la Maria que perto lhe ficava (a extinção da paróquia ocorreudepois de 1755).Actualmente é apenas visível a ábside gótica quatrocen-tista, integrada num edifício de laivos neogóticos revivalistas e que é asede dos Serviços Florestais.4.8. A Capela Românica do Castelo Igreja de s.a Maria: Porta Perto da entrada principal do castelo de Sintra, mas já dentro do troçomuralhado, encontra-se uma pequena igreja românica que deve merecer,mesmo que por breve, a nossa atenção. O estado ruinoso em que seencontra não permite que possamos uma observação mais cuidada, masconseguimos ocasionalmente vislumbrar algumas características que tor-nam este templo - há muito já abandonado - merecedor de atenção. A capela do castelo foi o primeiro templo cristão e a primeira sede defreguesia sintrense. Não é claro, porém, se a fundação desta capela dataforçosamente da reconquista afonsina, se se está perante um antigo tem-plo islâmico reconvertido após aquela data - hipótese também muitodivulgada e nada improvável-, ou até mesmo se a capela não foi, antesda Reconquista, uma igreja moçárabe. Decerto, apenas o facto de ter sidoa primeira sede de freguesia e paróquia, como se disse. Esclareça-se queo burgo original se sedimentou em torno do castelo, espalhando-se lenta-mente para o ..:.-agora - bairro de S. Pedro, onde mais tarde se viria aerguer o templo que já vimos com tal orago. Mas por esse tempo, aquandoda fundação da nova igreja, já há muito que o centro da vila se deslocaramais para baixo, para o vale onde outro bairro e outra freguesia e outraparóquia - S. Martinho - se tornara o eixo principal do núcleo urbano. A Portal Manuelino da Igreja de s.a Mariaigreja - e freguesia e paróquia - de S. Martinho tomava a vez a S. Pedro,tal como esta o havia já tomado à capela do castelo. Do abandono - a capela foi fechada ao culto no princípio do séculoXVI - cedo se passou à ruína que o caracteriza, ruína que chegou aos nos-sos dias sem se ter em conta que se está na presença do potencialmentemelhor vestígio românico do concelho. A capela é de uma só nave e podem ainda ser vistos no interior daábside e junto ao que era o altar-mor, um revestimento de pintura a frescoquatrocentista, com uma decoração geometrizante envolvendo a figura dopadroeiro - S. Pedro. Este fresco, porém, encontra-se hoje totalmente eirremediavelmente danificado, sendo apenas visíveis alguns troços depintura, já muito diluídos. Outros vestígios entretanto descobertos nolocal são visíveis no Museu Regional de Sintra. Refira-se entretanto que oS. Pedro gótico que tivemos possibilidade de observar na igreja paroquialde S. Pedro, terá vindo desta capela. Passagem de testemunho simbólica,decerto, mas também a constatação de uma evidência: os tempos áureosda pequena capela haviam cessado.4.9. A Vila: Trajectos, Ruas e Lugares Após termos andado - de algum modo - em círculos pelos arrabal-des urbanos, tempo é que nos dispúnhamos a visitar e percorrer o núcleourbano principal da vila de Sintra. Este núcleo é constituído pelo casario 17
  • 18. Vila: Poço do Porto e Pedras Ajorrádicasenvolvente do Paço da vila e igreja paroquial de S. Mortinho, estendendo--se numa área que rondaria grosso modo os 17000mZ• Area pouco extensa,caracterizando uma vila medieval de dimensões algo modestas, sobre-tudo se se levar em conta que o paço e anexos ocupariam entre um quartoa um terço desse espaço. Mesmo assim esta área não muito impressio-nante era suficiente para albergar os cerca de duzentos fogos e os menosde mil habitantes que a vila possuiu durante os séculos da Idade Médiaportuguesa. Ressalve-se que tempos houve - sobretudo a seguir à pestenegra de 1348- em que sobrava área e fogos e faltavam habitantes. Esta área estendia-se de acordo com um eixo viário que atravessavaa vila aproximadamente no sentido este-oeste. Para leste iam os cami-nhos para Lisboa e Cascais e que desembocavam no Largo do Ramalhão,como vimos. Para oeste seguia o caminho que a Colares - ao temporeguengo - conduzia. Ponto central desta via, e ponto central desta vila era a praça davila. E daí que o observador deverá começar o seu trajecto urbano, jáque as principais ruas medievais - e modernas, pois a regra da per-manência do plano parece ter-se mantido com mais ou menos coerên-cia - daí partiam e para aí convergiam. No centro da vila teremosjunto a nós o Paço Real. lugar habitual da permanência dos monarcas eda família real. sobretudo após D. João I, quando o paço começou afazer parte de forma decisiva dos percursos áulicos da corte. Muradodurante toda a Idade Média - só no início da I República foi a muralhaderribada -, ele representava, mesmo quando vazio dos seus detento-res, o poder central que tudo dominava e a que a vila se submetia comoserventuária de Lisboa que era. Iniciemos o trajecto e percorramos asruas mais concorridas, que ao paço retornaremos em breve para umaanálise mais detalhada. Situado no centro da vila - na Praça, como ao tempo se chamava - oobservador tem junto a si o recinto então conhecido pelo Chão da Oliva,terreiro imediatamente fronteiro à entrada do paço. Mas deixando o cen-tro, observe-se melhor o primeiro percurso, aquele que conduz à própriavila todos quantos vêm de Lisboa, de Cascais, e de grande parte dos arra-baldes urbanos de S. Pedro, S.laMaria e S. Miguel. Desloquemo-nos entãopara leste. Perto está a então chamada Rua da Ferraria, que permitiatambém o acesso à vila mas por outro ponto menos concorrido. A maioriados que vinham de Lisboa, Cascais e arrabaldes entrava na vila por umoutro caminho que mais acima se cindia da Rua da Ferraria, e queentrava no casario urbano mais junto ao Hospital. Descendo por essa rua e entrando na vila, veria o observador logo à sua direita o local chamado Pedras Ajorradiças, assim designado pelo facto de a água - frequente na serra e oriunda das várias nascentes naturais - jorrar abundantemente de entre as pedras e rochas. Hoje existe aí um fontanário, como que para não desmentir essa realidade lon- gínqua. Defronte seria o sítio provável da Casa da Vereação, num lugar18
  • 19. Vila: Praça e Chão da Olivaaté há pouco ocupado pelos Bombeiros Voluntários. A não existência deprovas documentais sobre a localização da Casa da Vereação para a IdadeMédia leva-nos a ter sérias reservas sobre esta possibilidade. Apenas ofacto de sabermos ser aí o antigo edifício da Câmara, cuja instalação seperde na memória, nos leva a concluir da possibilidade de ser esse o localda primitiva Casa da Vereação. Perto - e mais certo - ficava o Poço doRomão. Este triângulo - Pedras Ajorradiças, Poço do Romão, Casa daVereação (?) ~ constituíam a entrada para o casario, para o centro urbano. Entrando na vila, o visitante era recebido pelo edifício do Hospital. Olocal onde o primitivo edifício se instalava é o mesmo, se bem que o prédio- fácil é supô-lo - seja já outro. No antigo hospital, a fachada principalmedia cerca de 12,10m, a parede posterior de cerca de 12,65m, a parede dolado norte (lado esquerdo de quem entre no edifício) media cerca de 9,7 me a parede do lado sul (lado direito de quem entra) media cerca de 9,16 m.Estas medidas - já de si aproximadas porque resultam da conversão de"passos" medievais para os actuais metros - faziam com que a área ocu-pada pelo hospital medievo rondasse aproximadamente os 115 m", áreaconsiderável se se levar em conta a habitual exiguidade dos hospitais dotempo, a maioria dos quais não comportava mais do quatro/cinco leitos.Recorde-se que o conceito de hospital moderno, de grande área e de múlti-plos serviços assistenciais, resultante da acção do poder central e nãotanto da iniciativa de particulares imbuídos do espírito de caridade cristã,só data de finais do século XV, com a fundação, em Lisboa, do HospitalReal de Todos os Santos, levada a cabo por D. João 11. Este hospital assumia-se como o centro da estrutura assistencial daSintra medieval. A ele pertencia a gafaria de S. Pedro, com sua capela deS. Lázaro e cemitério anexo, a ele pertenciam vários prédios rústicos eurbanos, cujo arrendamento constituía a principal fonte de receitas dainstituição (era o Hospital um dos maiores proprietários do concelho), aele pertencia ainda o cemitério do próprio hospital, situado nos terrenosanexos. Dirigido por um provedor e escrivão e ainda coadjuvados por um"medidor de pão" (espécie de dispenseiro), e administrado pela Câmarasob a alçada última das Rainhas (donatárias da vila), o hospital assumiaainda a tarefa de ilustrar os "moços da vila", sustentando um mestre degramática, se bem que não tenhamos a certeza de ter tal intento passadodas intenções declaradas em alguns documentos coevos. No pequeno largo fronteiro ao Hospital e simultaneamente perto doPaço e da praça, ficava o pelourinho da vila. Infelizmente, o pelourinhoactual que aí pode ser observado não corresponde ao primitivo, que foidestruído em 1854por ordem camarária (sob a extravagante alegação deser contrário à "decência e asseio público") e mais tarde reconstruído, aoque parece segundo gravuras românticas de fidelidade contestável. Assi-nale-se todavia que se crê que o pelourinho que em 1854 foi derribadoseria já o manuelino, erguido aquando da renovação dos forais, nestecaso em 1514. 19
  • 20. De novo está o obervador no centro da vila. O percurso, que agora sefará, dirigir-se-á para outro lado, para sul. seguindo pelas ruas que levamaté artérias consideravelmente movimentadas da vila. Talvez mesmo asmais movimentadas. Dirigir-se-á então o observador para a actual Ruadas Padarias. Logo à sua entrada verá, do lado direito, à esquina, o lugaronde o mercado medieval - e posterior - se fazia, sob um alpendre.Subindo, não serão uma dezena de passos dados sem observar, àesquerda, uma beco onde se situava a judiaria sintrense. Aí se recolhiamobrigatoriamente os seguidores da Lei de Moisés - e só esses - numbeco que por norma fechava as portas pelas Avé-Marias (ou Vésperas,sensivelmente pelas 18 horas). impedindo os seus moradores de sair, Vila Hospital e Pelourinhosalvo motivo especial. Medindo não mais que oitenta metros de compri-mento, não deveria a judiaria ultrapassar a vintena de casas, o que signi-ficaria (de acordo com o que a demografia histórica projecta para esteperíodo) cerca de oitenta pessoas - números em todo o caso algo especu-lativos e que talvez até peque por excesso, confessemo-lo. Esta judiaria sintrense, a exemplo do que sucedia por todo o reino,tinha a sua própria gestão e funcionários, de que são exemplo o seu pró-prio tabelião, porteiro (funcionário com tarefas judiciais auxiliares) e rabi.A sinagoga era o ponto central desta pequena comunidade, e situava-seno terceiro prédio após transpormos os portais da judiaria, já que deacordo com uma carta de aforamento de dois prédios urbanos datada de1407,afirma-se que os dois prédios aforados se situam entre a sinagoga ea entrada da judiaria. Infelizmente, não sabemos em que lado da rua. Najudiaria, os judeus sintrenses exerciam as suas actividades, sobretudoartes e ofícios liberais bem como o tradicional comércio, que tinham poruso exercer - entre outros pontos - nos portais do seu bairro. Tambémas habituais actividades monetárias - usura ou arrendamento de impos-tos - eram por eles praticadas, o que de resto potenciava algumas alter-cações com os cristãos. Ainda assim, e tirando as queixas habituais e asdesinteligências pontuais e pessoais, não há notícia de grandes distúr-bios entre as duas comunidades. Tal como no resto do país, o assalto ajudiarias ou o ataque directo a judeus - ocasionalmente verificado emcidades maiores - não era regra. Altercações pontuais, e que num ounoutro caso isolado chegariam a vias de facto, mais não são que ques-tiúnculas pessoais, comuns em qualquer comunidade humana. Quanto à própria localização da judiaria, ela não era tão acidentalcomo se poderia pensar num primeiro instante. A norma impunha que assinagogas estivessem perto de igrejas, como se o regular tanger dossinos, a proximidade da eucaristia ou a presença vizinha das paredescristãs pudessem de algum modo impelir os seguidores da "Lei Velha"para as mensagens do Nazareno. Ora, a igreja de S. Martinho era (e é) alia dois passos. Saindo da judiaria e subindo um pouco mais a actual Rua das Pada-rias, desembocará o observador na chamada Fonte da Pipa, um dos prin-cipais locais de abastecimento de água aos habitantes da vila medieva eposterior. Claro que fácil é notar que a actual fonte nada tem de medie-val. já que enquadra num arranjo claramente barroco. Ainda assim, ésabido que esta fonte existia já, pelo menos, desde meados do século XIV,pois dela há notícia com esse mesmo nome: "Fonte da Pipa". Tal parecesugerir que já então poderia ter o seu formato de pequena pipa. Sejacomo for, era um dos locais que - como se disse - melhor abastecia ossintrenses, aproveitando uma das muitas nascentes naturais que da serratrazem água. Descendo mais uma vez ao centro da vila, iniciará agora o observadoroutro percurso que o levará, desta vez, às ruelas que para norte se esten-dem. Em primeiro lugar, passará pela Rua do Forno, como actualmente échamada, e que se situa debaixo do patamar que sustenta a esplanadado Café Paris. A primitiva ruela medieval não era, ao contrário da actual.coberta, fenómeno que só ocorreu já neste século. Estamos comprovada-mente diante de uma das mais antigas ruas de Sintra devidamente des-pistadas. Na documentação medieval. as primeiras referências surgemsob a designação de Rua do Açougue, mais tarde denominada Rua doForno do Açougue, e mais tarde enfim como Huc do Forno. Esta etimolo-gia permite-nos uma pequena especulação. E sabido que nas urbes deassentamento e influência hispano-muçulmana, era comum existirem asruas do "zoco" (mercado), situadas na proximidade dos mercados e ondegeralmente se procedia ao abate das reses consoante as determinaçõesreligiosas (não se olvide que, como povo semita, também os árabes têmrestrições no tocante ao consumo de certos tipos de carne). Ora, a palavra20
  • 21. árabe "zoco" (cs-sôq) deu em português "açougue", o que nos pode levar asupor a filiação entre a rua do zoco árabe e a actual Rua do Forno, tam-bém ela situada perto do suposto mercado medieval que fronteiro lheficava. Sem dúvida uma suposição que comporta os seus riscos e que per-filhamos com prudência e - por que não confessá-lo? - com hesitações.Mas é uma hipótese que fica em aberto. A Rua do Forno reserva-nos mais algumas considerações. Deacordo com o historiador sintrense Francisco Costa parece compro-var-se a existência de túneis que uniriam a antiga alcáçova dos"wc lis" mouros com as casas que sobre a Rua do Forno se situam, eque foram doadas, aquando da Reconquista, à Ordem do Templo.Tais túneis, de acordo com informações entretanto recolhidas, aindaexistiriam, e seriam parcialmente vislumbráveis através de peque-nas aberturas existentes na parede do lado direito (de quem desce)da Rua do Forno. Prosseguindo pela Rua do Forno deverá o observador sair pertode uma outra rua também referenciada profusamente para a medie-validade e que ainda hoje mantém a designação: a Rua da Pêndoa.Nos dicionários etimológicos, o termo "pêridocr" vem sie "peridoor" ou"cpendoor". que designa "declive" ou "inclinação". E lícito supor talfiliação etimológica devido à evidente inclinação da rua. Note-se quenão possuímos referências claras, na documentação coeva, a outrasruelas e becos a esta circundantes. Porém, não será abusivo conside-rar que várias ruas e becos que perto se situam (Beco do Briamante,por exemplo) respeitam o traçado medieval e eventualmente a sua Vila: Judiariadesignação. Mas nada de mais concreto podemos referir a esse res-peito. Retornando de novo ao largo da vila, mais uma vez como ponto dereferência tomado, poderá o observador iniciar outra deambulação pormais algumas ruas sintrenses. Poderá agora caminhar em direcção aoHospital e descer pela rua fronteira. Chegará a um lugar conhecido peloRio do Porto, designação também medieval e onde se iniciava na altura otrajecto que a Cheleiros (então reguengo), Mafra e Ericeira conduzia. Ocaminho actual só séculos mais tarde foi aberto, e algumas zonas dosarredores então, como hoje, conhecidas por Lourel ou Portela (que na eti-mologia mais não era que "lugar onde situam as portas" de alguma vila)seriam apenas áreas de escassas casas e poucos moradores, não tendo afunção de locais de passagem que hoje ainda conservam. Também o Riodo Porto servia comummente para o abastecimento de água aos habitan-tes da Sintra medieval. Do largo da vila, para onde de novo voltamos, parte-se para o der-radeiro trajecto pela vila medieva. Dirigir-se-á o observador paraoeste, como se para Colares fosse. Defronte do antigo mercado veráaquele que é hoje o edifício dos Correios. Nos finais da Idade Médiatalvez comportasse - em torre junta - o relógio de torre que a vilainaugurou em meados da década de 1460. Tratava-se de vulgar reló-gio de pêndulos, bem ao estilo medieval e sem ponteiros. Era maissinal de prestígio urbano próprio de uma vila de corte que desejo deregularização de um tempo "exacto" e mecânico, tempo esse aindadesconhecido da vivência medieva, que se regia mais pelo tempocíclico da natureza que pelo tempo linear dos relojoeiros. Dois apon-tamentos, entretanto: a localização do relógio medieval é duvidosa,sendo este um local possível entre outros que haver possa; o actualrelógio é setecentista, nada tendo a ver com o primitivo. O edifício dos actuais correios comportou, até à pouco tempo{leia-se, até ao século passado), a prisão da vila. Ignoramos se seriaaí a prisão medieval. Sabemos, isso sim, que existiria uma prisão navila, devido a referências fugazes e esparsas que na documentaçãosurgem, mas é impossível, no actual estado dos nossos conhecimen-tos, afirmar o local exacto. De novo, a filiação entre esta cadeia e amedieval mais não é que uma hipótese. Mais adiante, fica a igreja paroquial de S. Martinho de Sintra.Das suas características medievais pouco, muito pouco, há já a des-cobrir. Remodelações posteriores, sobretudo a sofrida após o terra-moto de 1755, alteraram-lhe a traça e as características. Apenas aestrutura ainda gótica da ábside, no seu exterior visível com panoscegos de contrafortes, se manteve após todos estes séculos. Maisinteressante, contudo, é o arcossólio (túmulo disposto na espessurade uma parede) de uma tal Margarida Fernandes datado de 1307, eque pode ser observado na parede exterior do lado sul {lado que dá 21
  • 22. para o antigo mercado) da igreja. O epitáfio está escrito em letras ini-ciais maiúsculas e contém o seguinte: "AQUI: JAZ: MARGARIDA: FERNANDI/Z : FILHA: D : FNÃ : MEEDIZ: D : SIT : E : MOLHR:Q/ FOE: D : W : AFÕSO : : ESCUDIRO : Q: PASOU: UES/PA: D: SÃ: MI: D: SETEBRO: TRES : DIAS: POR :/ ÃDAR : DAQL : SElA: ASA: ALMA: ALVGN DA : NOREINO : CELESTIAL: E : M : CCC:XLV: Feita a respectiva leitura epigráfica, temos a seguinte inscrição actua-lizada: "Aqui jaz Margarida Fernandes, filha de Fernão Mendes de Sintra emulher que foi de Rodrigo Afonso escudeiro, que passou véspera de l.S. Miguel de Setembro, três dias por andar daquele, seja sua alma alojadano reino celestial, Era milésima tricentésima quadragésima quinta." Genericamente, tal significa que a dita Margarida Fernandes faleceu " ~("passou") nas vésperas de S. Miguel de Setembro (fim desse mês).quando para tal data faltavam três dias ("três dias por andar daquele" Vila: Torre do Relógiodia), na era de César de 1345,ou seja, no ano de Cristo de 1307. Mais adiante, deixando esta memória de trezentos, seguia o já refe-rido caminho para Seteais e Colares. Por aí se saía da vila. Este deambu-lar pela vila não dispensa de forma alguma uma visita ao MuseuRegional de Sintra onde vários testemunhos medievais na vila encontra-dos estão visíveis, nomeadamente fotografias de silos (e respectivo espó-lio) descobertos na Rua das Padarias e na Rua Gil Vicente.4.10. O Paço Real de Sintra Não foi por acaso que deixámos para alíena própria o paço real davila, em vez de o integrarmos nestas deambulações pela malha urbanada vila. De facto, o paço domina a vila, quer pela área ocupada quer pelopeso de uma presença cortesã sempre marcante a partir de D. João r. Opaço atrqvessa toda a História de Sintra, sugerindo não um mas váriosroteiros. E agora a vez de o percorrermos com olhos mais para a medieva-lidade virados. Uma vez esclarecida anteriormente a origem do paço, convém salien-tar que ele permanece numa relativa penumbra até ao princípio da dinas-tia de Avis, como o atestam quer o facto de estar necessitado de obras comD. Dinis que, para tanto, se serviu dos seus mouros forros de Colares; quer Paço Real de Sintrao privilégio que alguns monarcas - como D. Pedro - visivelmente dão aopaço de Belas. Mais tarde, aquando da crise de 1383-85,o mesmo paço iráservir ao mestre para cativar nobres influentes para a sua causa, comosucedeu - relembre-se - com o conde Henrique Manuel de Vilhena, querecebeu o paço como doação de um Mestre de Avis em busca de apoios.Registe-se, já agora, como curiosidade, que tal não impediu o conde Henri-que Manuel de se declarar - e, com ele, a vila - por Castela. Este conjunto de factos - estado de dano, subalternização peranteoutros palácios, doação a terceiros - sugerem claramente que o tempodo paço não tinha ainda chegado. Chegaria, após o findar da crise doInterregno e o afirmar da dinastia de Avis. Na verdade, com D. João r. irãocomeçar as obras de beneficiação (as primeiras de muitas) que a velhaalcáçova sofreu. Supostamente sob a orientação do mestre João Garcia deToledo, artista mudejar de renome para a época, o velho paço veria aampliação do seu corpo central num estilo gótico-islâmico. Também assuas características chaminés cónicas datarão dessa altura, filiando opaço em alguma arquitectura senhorial transpirenaica (a abadia de Fon-tainebleau ou a arquitectura dos Plantageneta). Obras de vulto, portanto.Obras de vulto como o atesta o facto de, em 1423,o empreiteiro Diego Gilgastar anualmente para cima de 7000 libras nas suas reparações, queincluem sobretudo canalizações, portas, janelas e chafarizes. Tanto quanto as fontes nos revelam, ter-se-ão realizado obras de vultono paço sintrense em 1423, 1434, 1459 e 1460, para já não falar nas obrasrealizadas na primeira década do século XVI, o que sai já da nossa medie-22
  • 23. vcl alçada. Por outras palavras, parece claro uma continuidade de obrasque, sem dúvida, seria para os naturais largo motivo de incómodos. Não éem vão que o referimos: os documentos afirmam-no taxativamente. Osmonarcas, quando, em 1459 e 1460,concedem privilégios especiais aossintrenses (1459- isenção dos "pedidos especiais régios" para os sintren-ses cristãos com bens de raiz; 1460- extinção da coudelaria de Sintrc),alegam que tal é a recompensa pelos muitos trabalhos e grandes cansei-ras que as obras traziam à vila e seus habitantes. Assim ampliado, constantemente melhorado num crescendo de obrasque só pararão com D. Manuel, o paço passará então a ser o palco dealguns factos importantes da História nacional (planeamento da jornadade Ceuta, a visita da embaixada borgonhesa que, em 1429, tratou docasamento de D. Isabel com Filipe o Bom e na qual vinha Van Eyck, nasci-mento e morte de Afonso v, aclamação de D. João II, para já não falar dasconstantes estadias régias e cortesãs onde pontificavam figuras comoNuno Gonçalves, Bernardim Ribeiro, Gil Vicente e outros). Modificção qualitativa, sem dúvida. Mas quantitativa também. Oantigo paço surge agora remodelado, como o sugere o "Livros dos Conse-lhos dei-rei D. Duarte" ("Livro da Ccrtuxo"), que nos fornece o seguinte rolde aposentos: cerca de 27 aposentos dedicados a quartos, câmaras, ante-câmaras e salas com funções várias (escrivães, tesouraria e secretaria,etc.), com uma área total de aproximadamente 1250m2; 3 eirados com umaárea aproximada de 140 m2; 6 espaços reservados a funções religiosasnuma área aproximada de 120 m; uma salinha reservada a funções dehigiene ("uma casinha de mijar"), com a exígua área de 2,5 m2• O totalultrapassava os 1500 m2• Note-se que a esta área não estão somados osjardins e o espaço dedicado a serviços de apoio (estábulos, cavalariças,cozinhas, etc.), o que dá conta da grandeza deste paço que, sozinho, eraparte substancial de uma vila que em seu torno parecia começar a orien-tar-se. Desta época de reconstrução joanina pode sobretudo ser observado ocorpo central do paço, onde ainda se observa do exterior as cinco janelasgeminadas em estilo mourisco e os quatro arcos ogivais que encimam alarga escadaria da entrada.4.11. De Seteais a Colares Saindo por fim do paço, poderá o observador sair também da vila.Agora já não em direcção aos arrabaldes urbanos - em direcção aoRamalhão e aos caminhos que para Lisboa e Cascais se dirigiam -, masem direcção àquela que era a segunda povoação mais importante daregião na medievalidade: Colares. Para tal, deve deslocar-se até às ime-diações da igreja de S. Martinho - onde ainda há pouco esteve - e pros-seguir pela Estrada Nova da Rainha, na Idade Média a principal via quea Colares levava. Ao longo do trajecto poderão ser observados alguns traços da pre-sença e vivência medievais, logo começando por Seteais. Na Idade Média,o campo de Seteais era um vasto rossio onde os sintrenses podiam fazeras suas "revistas" militarizantes e "alardos" - como os que efectuavaperiodicamente o adaíl (chefe da cavalaria-vilã do lugar) -, os seus exer-cícios de soldadesca popular - caso dos besteiros - ou, mais pacifica-mente, podiam fazer de Seteais o seu "passeio público" avant la lettre. Naépoca, a área de Seteais era ocupada por ginjais e centeio, daí aliás lheprovindo o nome (Centeias-Seteais). As várias lendas sobre o nome deSeteais, com mouras encantadas e suspiros em série, por poéticas quesejam, têm de ceder o passo à realidade dos factos. Logo após Seteais avançava de novo o caminho, pouco habitado decasas e de gentes, pois só no princípio da centúria de quinhentos se vãocomeçar a erguer as áulicas quintas de que Penha Verde é o mais subs-tancial exemplo. Até Colares, era (e é ainda) um passeio marcado pelaexuberância da vegetação e do arvoredo, quebrado apenas por pequenospovoados (como a Eugaria) e pelas primeiras casas colarejas que aolonge se divisam. Colares não tem infelizmente substanciais monumen-tos medievais dignos de nota. O pelourinho é quinhentista, a igreja paro-quial passa também ao lado da medieval idade, e de entre o casario nãose encontram vestígios dignos de menção. Recorde-se, de resto, que a vilade Colares não se encontrava abrangi da pela jurisdição dos juízes e ve- 23
  • 24. readores sintrenses, já que, como território reguengo que era, estava soba directa alçada doís) reils). Não se creia, todavia, que a tal ausência de vestígios assinaláveispara a Idade Média local corresponde um apagamento da vila na época.Se bem que mais pequena que Sintra (Colares fornecia dez besteiros doconto, contra os vinte de Sintra, o que desde logo sugere a correlaçãoentre ornbus), a vila parece ter atingido alguma projecção na vida daregião, por força sobretudo dos seus terrenos circundantes de boa aptidãoagrícola, vinícola e frutícola. A fruta da região fazia já o espanto dosmuçulmanos, que dirão, pela boca de AI-Himiari: "Estes frutos (as maçãs) atingem tal espessura, que alguns chegam ater quatro palmos de circunferência. Acontece o mesmo com as pêras." E se bem que duvidemos de tal prodigalidade, não deixa por isso deser menos interessante o testemunho. As férteis terras da Várzea de Cola-res (a designação atraiçoa-lhe a fertilidade) situavam-se próximo, trans-formando esta zona na mais fértil de todo o concelho. A presença muçulmana na região colareja parece, de resto, ter sido dealgum peso. Dados esparsos na documentação sugerem que talvez elafosse mesmo mais forte aqui do que na própria vila de Sintra. Registe-sedesde já que não conhecemos mouraria em Sintra ou em Colares. Tal pode-ria ser sinal de que a comunidade moura se encontrava mais dispersa quea judaica, não obrigando por tal à instalação de um bairro exclusivo paraesta minoria étnico-religiosa, já que, como se sabe, a edificação de taisbairros só era obrigatória se numa localidade fosse ultrapassado um certolimiar mínimo de mouros e/ou judeus. Dois testemunhos parecem confirmara ideia segundo a qual a minoria muçulmana seria de alguma relevânciana região de Colares. O primeiro remonta ao reinado de Dinis quando estemonarca estabelece um protocolo com os "meus mouros forros de Colares",que vinculava estes à manutenção do "palácio real da Oliva" -leia-se "opaço real da vila sito no Chão da Olivc" - e à reparação das almedinasvelhas do castelo e suas torres. O facto de tal acordo ter sido efectuado comos mouros colarejos e não com os mouros sintrenses, pode sugerir que elessó existissem em número significativo para efectuar tais tarefas em Cola-res e arredores. Tal ideia parece ser confirmada pelo segundo testemunho,que dá conta do facto de que o cemitério muçulmano (o almocavar) se si-tuava em Colares, tendo sido apenas desactivado após a expulsão dasminorias étnico-religiosas efectuada nos finais do século xv. Segundo Pedro de Azevedo ("Os reguengos da estremadura"), Colaresseria "terra de mouros". Os factos não parecem desmenti-lo.4.12. Odrinhas Já o havíamos referido antes; repetimo-lo agora: Odrinhas e o respec-tivo Museu são um manancial de testemunhos que o tempo permitirá quese alarguem ainda mais, à medida que novos trabalhos forem revelandomais espólio e maiores certezas. Sobretudo romanos, mas também pré--históricos e medievais. Da Idade Média salientamos um interessantetúmulo situado no exterior da capela de S. Miguel. na parede do lado sule a esta adossado, túmulo que pertencia a um tal Fernão Reganha. Otúmulo situa-se dentro de um arcossólio e está encimado por uma lápideonde é visível uma inscrição com caracteres góticos dizendo: "SEPULTURADE FERNÃ REGANHAO UELHO E DE SEUS ERDEYROSFERNÃ DE ANS SEU BYSNETO E PESADÔ DA CIDADE DE LXBOA AMÃDOUFAZ" A leitura actualizada permite ler: "Sepultura de Fernão Reganha o Velho e de seus herdeiros. Fernãoanes, seu bisneto. e pesador da cidade de Lisboa. a mandou fazer" (Pesa-dor = almotacé). Juntamente com o chamado "Dos dois irmãos", este túmulo é dos maisbem conservados no concelho referentes à medievalidade, e merece quesobre ele nos debrucemos com particular atenção ao visitar Odrinhas.24