CONCELHO DE SINTRA                                                  -   ROTEIRO ROMÂNTICO   -                       N     ...
~~------------------------------------IIIIIIIII"".    1. DAS NEBLINAS À REPÚBLICA     Dos finais do século XVI a meados de...
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predilecta de veraneio. Ter casa em Sintra era sinal de fortuna, de bom          Vila: Gravura Românticagosto, de importân...
percurso, a pioneira locomotiva tipo «Lcrmcmjcrt». O projecto, rudimentare de apenas uma linha, apresentou-se inviável, e ...
2. EM OS MAlAS, UM ROTEIRO QUEIROZIANO DE SINTRA      Seguindo as peripécias das personagens desta obra-prima do sé-culo X...
Sobretudo a partir do termo da guerra civil. em 1834,Sintra conheceuuma das épocas áureas da sua história. A sociedade rom...
vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de herase de musgos: através da folhagem, faiscavam longas fle...
sobretudo, pelo ambiente calmo que a delicada vista do vale, nas trasei-ras, proporcionava, a sua cozinha requintada, ader...
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D. Carlota Joaquina; ostentando por baixo uma inscrição, datada de 1802,dedicada ao futuro rei. De traça neoclássica, o ed...
partira na véspera para Mafra. Então, sabendo-a longe, «Sintro, de repente,pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste»....
Planta      da                CÁMARA              MUNICIPAL14
--   PERCURSO   OUEIROSlANO                              DE   MENINOS                                                     ...
o  outro ergueu-se guardando o canivete, ajeitando as lunetas.     - Lá está no Vítor, muito engraçado, comprou um burro ....
3. ROMÂNTICAS RAMAGENS                                                                                Castelo   visto da V...
3.1. Palácio de Seteais                                                     Seteais: Gravura   Romântica    Ouviu O visita...
Pena: Gravura Romântica     o visitante que penetrar neste palácio terá a nítida visão da ambiên-cia romântica dos seus in...
Jardim Romântico     Amo-te, ó cruz, no vertice firmada          De esplendidas egrejas;     Amo-te quando á noite, sobre ...
3.3. Parque e Palácio de Monserrate     Este maravilhoso local deve o nome a uma pequena ermida ali edifi-cada por Frei Ga...
3.5. Quinta do Relógio                                                          Quinta do Relógio     Reinava D. Pedro V q...
3.7. Quinta da Regaleira                                                         Quinta da Regaleira     António Augusto C...
3.8. Paços do Concelho     Com o crescimento da Vila de Sintra, sobretudo depois da inaugura-ção do caminho-de-ferro,     ...
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Do romantismo à república

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  1. 1. CONCELHO DE SINTRA - ROTEIRO ROMÂNTICO - N : .•• ~~~:.,.y.A; ; :l.~:.:~: • ;;I-!.~_ I ! ;.•,.7i;!:~.:;."T~ " ..~::~.:( ! .:.1.. ••• ,),.;:".;- ••• :::.~~" _·..•.·S~·.:. cEscala 1/100.000Caminhos-de-FerroEstradas NacionaisEstradas MunicipaisLimites de Freguesial-Palácio de Seteais.2- Monserrate.3- Pena (Palácio e Chalet da Condessa).4- Paços do Concelho (séc. xx),
  2. 2. ~~------------------------------------IIIIIIIII"". 1. DAS NEBLINAS À REPÚBLICA Dos finais do século XVI a meados de setecentos, a vila perdeu muitodo seu brilho. Quase dois séculos passados e Sintra enterrada nas nebli-nas perpétuas, abandonada, à espera que os homens redescubram o seuencanto. Andaram os reis em busca de outros espaços, por força da men-talidade regente, mais abertos os espaços, porque as mentalidades nempor isso. O singular, e outrora sumptuoso, Paço Real apenas serviu paraencarcerar um rei deposto. D. João V prefere as charnecas de Mafra paraerguer, a ouro do Brasil, um gigantesco palácio-convento, apanágio deum governo parenético. D. Pedro, o terceiro do nome no rol da realezanacional, escolhe as colinas suaves de Queluz, onde edifica, a partir de1747,um palácio cuja imagem marca o gosto de uma época onde pontificaa teatralidade, a aparência e a necessidade de espaços amplos. A Serrada Lua apenas serve de cenário, ao fundo, lá pelas bandas do oceano.Definitivamente, Sintra não está na moda. Todavia, a Terra não dorme. Antes se renova, se transmuta constante-mente. E foi preciso uma convulsão tremenda, na manhã do dia 1 deNovembro de 1755,para os homens regressarem a Sintra e abrirem o cora-ção <;Ios istérios encantatórios da vila mui (des)prezada. m E, de facto, com a reconstrução do casario, desmoronado em largaescala durante o terramoto, a par do despoletar de novos sentimentos esensibilidcdes artísticas, que vai nascer outro período áureo para Sintra.Das cinzas renasce a fénix, do caos é que surge a ordem. Nem que sejaum ordenamento desordenado. Numa altura em que começam a ser postos de parte os sentimentosestilizados e racionais dos clássicos, os artistas vão criar conforme o arre-batamento de cada um, despontando assim a aurora do Romantismo. Porora, estas manifestações surgem ainda associadas ao Iluminismo e aoNeoclassicismo. Mas certo é já que o tempo é de mudança. No último quartel do séc. XVIII, a paisagem sintrense vai sofrer altera-ções profundas, nomeadamente em redor do perímetro urbano, com aconstrução de diversas quintas coroadas por luxuosos palacetes. Sãoexemplos as quintas de Seteais e Monserrate, muito por força do capitalestrangeiro, com o cônsul holandês em Portugal, Daniel Gildemeester, afabricar a primeira, e o rico comerciante huguenote, Gerald De Visme, aerguer em Monserrate um palacete cuja gramática pronunciava já asso-mos de exotismo e de revivalismo medieval. Importante nesta viragem mental ocorrida nos finais de setecentos é,sem dúvida, a influência dos estrangeiros no seio da sociedade portu-guesa. Viajantes como William Beckford, James Murphy, Robert Southey,Lord Byron, e tantos outros, trazem com eles novas tendências artísticas evão espelhá-las nas suas produções literárias. Com o devir das Invasões Francesas, e a consequente fuga da cortepara o Brasil, Sintra vai estar intimamente ligada a este período negro danossa História, até por ter dado o nome, embora erradamente, à conven-ção que pôs termo à primeira invasão, em 1808.Outros pontos de referên-cia são o Palácio do Ramalhão, refúgio e coito de uma das principaisfiguras deste cenário, a rainha D. Carlota Joaquina, e o Palácio de Que-luz, residência real de veraneio por excelência na época, e que apareceligado tanto à rainha e a D. João VI, como ao general [unot, quando esteali se instalou faustosamente, fazendo do palácio o seu quartel-general, etransformando-o, interior e exteriormente, com o pintor Manuel da Costaa trabalhar os frescos a mando do gaulês e os jardineiros a plantarem ochamado Jardim dos Azereiros. Durante a guerra civil entre liberais e absolutistas, Sintra vai viverum período de tensão, tal como o resto do país. Ao certo, vamos encontrar D. Miguel I em Sintra, a 7 de Abril de 1830,quando, por ordem sua, foi aberto o lendário Túmulo dos Dois Irmãos, aoRamalhão: «Armo do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, de mil2
  3. 3. oitocentos e trinta, aos sete dias do mez de Abril do dito anno neste sitio denominado da Cruz dos Dois Irmãos na Estrada Real que de Cintra vae para Lisboa, limite do logar de S. Pedro, e proximo à Real Quinta do Ramalhão aonde por ordem expressa vocal dEl-Hei Nosso Senhor Dom Miguel Primeiro, veio o Doutor Juiz de Fóra da mesma Villa e termo, Dia- mantino António Botto Machado, comigo escrivão de seu cargo e officiaes da repartição de Pedreiro, Victorino José Fernandes e Luiz José Gonçalves, para effeito de se proceder à abertura do Monumento antigo contiguo àquela Cruz, e assim se examinar o que dentro delle existe pela falta de escriptos antigos, ou tradição com caracteres de verdade, que mostrem a certeza da sua fundação e destino; sendo presente o Mesmo Augusto Senhor acompanhado dos Gentis Homens de sua Real Camara os Excel- lentissimos Marques de Tancos, Marques de Bellas e Marques de Alvito, Estribeiro Mor, com todas as mais pessoas de seu Estado 1..1». Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, parecia até que Sin- tra ficaria ainda mais espoliada, mais votada à ruína e ao abandono. Mas, em 1836, a nossa D. Maria II casou com um príncipe da Baviera que trazia sonhos na alma e uma grande sensibilidade artística no coração. Chamou-se D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha e foi o principal agente transformador da cenografia monumental e natural de Sintra durante o século XIX. Dom Fernando, o rei-artista, foi ainda o responsável pelo enca- minhamento das modas para a ambiência de Sintra, criando uma vila de vilegiatura, um santuário romântico que se impôs ao longo de toda a cen- túria de oitocentos. Em Sintra, viria Dom Fernando a encontrar o terreno mágico para a corporalização dos seus sonhos, ao adquirir perante a Junta de Crédito Público, a 3 de Novembro de 1838, as ruínas do antigo Real Mosteiro de Nossa Senhora da Pena, bem como toda a mata circundante, incluindo o chamado Castelo dos Mouros. E aproveitando os claustros, a capela qui- nhentista e mais alguns anexos, concebeu um palácio-castelo, cujo resul- tado é a expressão viva do ideal romântico. Chamou para trabalhar no projecto o Barão Von Eschwege, arquitecto militar natural da Renânia e que trabalhava, entre nós, como engenheiro de minas. Começaram as obras em 1840, numa primeira fase com a recu- peração das partes quinhentistas e a construção da Estrada da Pena. Quatro anos mais tarde, iniciava-se a edificação da parte moderna, o chamado «palácio novo». Simultaneamente, D. Fernando e Eschwege, em íntima colaboração com o engenheiro Wenceslau Cifka, cuidaram de pro- jectar e arranjar o espaço envolvente, com a plantação das primeiras árvores no Parque da Pena. Por esta altura, a direcção das obras do palá- cio foi entregue ao pintor-cenógrafo italiano Demetrio Cinnatti, sob orien- tação directa do barão e do rei. Desta confluência artística de espíritos elevados, resultaria uma obra de surpreendente efeito cenográfico e um dos locais mais belos do Romantismo europeu. Parque e Palácio formam um todo, um livro onde D. Fernando combinou o pensamento do Homem com a verdade sincrética dos Elementos, e cuja leitura nos permite apreender não só o sentimento peculiar da época, como ainda descer ao mais profundo dos mistérios do mundo e voltarmos de lá com a chave que nos abre outras portas do entendimento. Richard Strauss, quando da sua visita a Sintra, aperceber- -se-ia desses mesmos mistérios dissimulados por um manto de beleza: «Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, cSicílio, a Gré- cia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. E a coisa maisr bela que tenho visto. Este é o verdadeiro Jardim de Klingsor - e lá no alto, está o Castelo do Santo Graal.» Em 1869, catorze anos depois da morte de D. Maria Il. D. Fernando vol- tou a casar. Aconteceu o rei apaixonar-se pela cantora Elisa Frederica Hensler, elevada à nobreza pelo príncipe Ernesto II que a agraciou com o título de Condessa dEdla. Foi esta segunda esposa de D. Fernando a res- ponsável directa pela arborização e embelezamento do Parque da Pena, e tapadas anexas, sobretudo a partir de 1870. Amor contestado por muitos, onde não faltaram as costumadas intri- gas de corte, refugiou-se o casal em Sintra, num dos recantos do Parque da Pena. Para ter morada separada do Palácio, D. Fernando mandou edi- ficar o chamado Chalet da Condessa, mimosa vivenda de um romantismo ruralista, onde se pode sentir a intensidade da paixão vivida pelo casal. Esta apetência por Sintra, fomentada por D. Fernando, rapidamente se transformou em moda e, mais do que isso, em ambição de um determi- nado estrato da sociedade: o burguês/liberallromântico, que saíra triun- fante da guerra civil, acorre a Sintra e elege a vila como estância 3
  4. 4. predilecta de veraneio. Ter casa em Sintra era sinal de fortuna, de bom Vila: Gravura Românticagosto, de importância política e social. Assim vão nascendo palacetes echalets ao redor de um centro urbano que também ia crescendo, com osurgimento de acolhedoras unidades hoteleiras, algumas delas eterniza-das na literatura abundante do período romântico que dedicou belaspáginas á vila de Sintra. Fundamental para este ressurgimento foi a modernização dos trans-portes e rede viária que ligavam a vila à capital. No ano imediato ao fin-dar da guerra civil (1835),era inaugurado o trajecto regular de diligênciaentre Lisboa e Sintra, causa e efeito, sem dúvida, da inclusão da vila nospercursos da moda. Registe-se o que diz o «Diário do Governo» n." 104,f. 444,de 25 de Abril de 1835: «A diligência para Cintra, estabelecida debaixo da protecção dos srs.subscritores abaixo indicados, fará a sua I." jornada para Cintra 3.° feira,5 do corrente, pelas 3 h e 1/2 de casa de madame Dejeau, rua Direita deS. Roque n," 6, e parará em Cintra na coche ira do Romão n." 120.Nos mes-mos sítios se venderão os bilhetes. Em uma e outra parte haverá umquarto para as bagagens dos srs. passageiros; as quaes não deverão exce-der o peso de 8 arretéis. A Diligência é montada sobre 8 molas e serápuchada por cavalos, com mudas em meio caminho. Continuará a correr 0 0para Cintra nas 3.°/5.°e sábado, e voltará de Cintra nas 2. /4. /e 6.°,sendo ahora de partida de Lisboa às três e meia da tarde, e de Cintra às seis emeia da manhã. O preço de cada viagem é de 1:440rs. incluindo a gorgeta. Nome dos subscritores: Duque de Palmela/ Duque da Terceira/ Marquês de Saldanha/ Agosti-nho José Ferreira/ José da Silva Carvalho/ Conde de Farrobo/ Visconde deSá da Bandeira/ Conde de Seia/ Marcellino Azevedo e Mello/ José JoaquimGomes de Castro/ G. Gould/ G. Walsh/ N. Roope/ O. Sampayo/ J. DufflAlmirante Sartorius/ Coronel de Gand/ J. A. y Mendizabal/ J. M. ONeill.» E porque o tráfego aumentava e justificava novas estruturas, em 1841arrancavam as obras de uma estrada considerada piloto, entre Sintra e acapital. Nomeadamente, de 1844a 1849,procedeu-se ao plantio de árvoresnas bermas da estrada, no troço entre Belas e Sintra, para tornar as via-gens mais amenas, mais aprazíveis. A primeira tentativa de ligação da vila a Lisboa por caminho-de-ferrodata de 1855.Rolava com grandes dificuldades, para vencer o acidentado4
  5. 5. percurso, a pioneira locomotiva tipo «Lcrmcmjcrt». O projecto, rudimentare de apenas uma linha, apresentou-se inviável, e Sintra só ficaria defini-tivamente ligada a Lisboa por comboio a partir de 1887. Com a chegada deste meio de transporte, a vila transforma-se numpasseio obrigatório para todo o lisboeta. E agora, já não é só a sociedadeelegante que demanda a Serra da Lua. Em As farpas, na revista de Outu-bro de 1888,Ramalho Ortigão oferece-nos uma imagem bastante precisadesse veraneio a Sintra, com as famosas burricadas, o colorido das espa-nholas abraçadas aos marialvas, enfim, toda a capital a refrescar-se, decorpo e alma, na sua estância predilecta: «Com o caminho de ferro, quepresentemente a prende à capital por um breve e commodo passeio, Cin- Vila: Gravura Românticatra mudou muito de aspecto. Ao domingo principalmente a multidão trc-zida pelos comboios de recreio dá-lhe um ar popular de festa suburbana,no Beato, nas Amoreiras ou no Campo Grande. A noite porém, com a par-tida do último trem, a villa esvazia-se outra vez. Ao quente borborinho dopovo, ao orneio dos burros, às risadas das hispanholas, succede-se osilêncio cavo do valle. A névoa, que lentamente desce da serra, limpa oambiente da poeira impregnada das exhalaçães da cerveja, do vinho deCollares, e do peixe frito. E quando a lua desponta por cima dos casta-nheiros, esse astro tantas vezes invocado pelo velho lyrismo da locali-dade, não hesitaria em reconhecer na sua decantada serra, noalcantilado relêvo da penedia, nas ameias do castello dos Mouros, nadensa espessura dos arvoredos, no murmurio da água por entre os mus-gos, no cheiro das giestas humidas de orvalho, o eden de Childe Horold.» Para além das mudanças sociais operadas pela chegada do comboio,também no aspecto físico Sintra iria mudar. Outra vila estava para nas-cer, a Estefânia, que não passou, afinal, de um prolongamento, de umespreguiçar da povoação já existente. E quem iria adquirir uma das pri-meiras nove casas que constituíam, inicialmente, essa vila, foi FranciscoGomes de Amorim, discípulo e biógrafo de Garrett. É ele quem nos contacomo comprou essa vivenda. Fá-lo em Muita Parra Pouca Uva: «As casasda villa Estephania olham todas para a villa e serra de Cintra. Dir-se-hirrque contemplam a sua visinha com ar de provocante ironia. Cintra nãodeve deixar-se adormecer, embalada pelo orgulho da opulencia. Ellarepresenta o passado: a villa Estephania é o futuro. Que a mãe se nãotorne madrasta, se não quizer expôr-se a qualquer dia a filha, já emanci-pada e rica de todas as forças da mocidade, a renegue por sua vez. 1...1Fechei os olhos e comprei a casa. Dias depois voltámos a Cintra. Eu ia justar as obras; e pareceu-meque toda a gente me olhava já como proprietario do sitio. Até a minhasombra se me afigurava maior! Ser proprietario dá outro ar á gente: nãose fica tão pequeno e encolhido como quando se é simplesmente ...inquí lino.» A Estefânia iria crescer ao longo do nosso século, e transformar-se nocentro de comércio de Sintra. Entre a chamada Vila Velha e a parte nova que então dava os pri-meiros passos, foram-se edificcmdo algumas casas particulares e outrasdestinadas a serviços públicos. E o caso de dois edifícios, ambos daautoria do arquitecto Adães Bermudes: a Cadeia Comarcã (1906) e osPaços do Concelho 0906-1909). Numa tradição romântica que se impôsao longo de todo o século XIX, Sintra continuava apegada a actos derevivalismo, nomeadamente ao neomanuelino e ao neogótico. E estasduas obras não fugiram à regra: «Os Paços do Concelho foram riscadose dirigidos por Adães Bermudes, arquitecto revivalista de múltiplaspotencialidades, que concebeu entre a Vila Velha e a Estefânia um edi-fício de grande dignidade cenográfica, que se acerta com os desníveisdo terreno, tirando partido do enquadramento natural e da ambiênciacenográfica da paisagem.» (Vítor Serrão, Sintra, Col. Cidades e Vilas dePortugal, Lisboa, 1989,p. 77.) Este gosto pela revitalização dos estilos medievais e quinhentistasimplantados no espaço de Sintra, iria perdurar, pelo menos, ao longo doprimeiro quartel do século xx, numa apetência cada vez mais exageradae que nem a implantação da República conseguiria travar. 5
  6. 6. 2. EM OS MAlAS, UM ROTEIRO QUEIROZIANO DE SINTRA Seguindo as peripécias das personagens desta obra-prima do sé-culo XIX, torna-se acessível a reconstituição de um roteiro inteiramentequeiroziano, de significativo interesse histórico-culturaL e que possibilitaao visitante actual um contacto vivo com o espaço labiríntico da chamadaVila Velha, palco de acção capaz de mobilizar o interesse criativo e for-mativo, onde se conjugam a história e a ficção narrativa do século pas-sado. Romance publicado em dois volumes pela Livraria de Ernesto Char-dron, em 1888, Os Maias - Episódios da Vida Romântica tiveram umalonga gestação. Em 1882,dizia Eça a Ramalho Ortigão, em carta de 3 deJunho: «Eu não estou contente com o romance: é vago, difuso, fora dosgonzos da realidade, seco, e estando para a bela obra de arte como ogesso está para o mármore. Não importa. Tem aqui e além uma páginaviva - e é uma espécie de exercício, de prática, para eu depois fazerrrielhor.» Complicações e atrasos na impressão da obra e a habitual ânsiade perfeição do escritor, fazem com que Os Maias apenas sejam publica-dos seis anos mais tarde. Depois de editada a obra, Eça recomenda a Oliveira Martins a leiturados melhores episódios, em carta de 12-6-1888:«Os Maias saíram umacoisa extensa e sobrecarregada em dois grossos volumes! Mas há episó-dios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumososde mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida aSintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e, sobretudo, osarau literário. Basta ler isso, e já não é pouco. Indico-te, Eara não anda-res a procurar através daquele imenso maço de prosa.» E exactamentesobre esta «certa ida a Sintra» que nos debruçaremos com maior atenção. Seguindo o entrecho do romance, encontramos, logo na parte introdu-tória, os pais daqueles que virão a ser as figuras centrais da obra (Carlosda Maia e Maria Educrdo), utilizando Sintra para consolidarem uma liga-ção que será tempestuosa: «No Verão, Pedro partiu para Sintra; Afonsosoube que os Monfortes tinham lá alugado uma casa.» Pedro da Maia,homem de uma fragilidade romântica, põe termo à vida suicidando-se,enquanto Maria Monforte fugia com um napolitano, levando a filha con-sigo, Maria Eduarda, e deixando o filho Carlos entregue aos cuidados doavô, Afonso da Maia. Depois de viver em Paris durante longos anos,Maria Eduarda regressa a Lisboa acompanhada por um brasileiro, CastroGomes. Um dia, ao entrar no Hotel CentraL Carlos encontra-se face a facecom a figura deslumbrante de Maria Eduarda. Fascinou-o aquela mulher«com passo de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás de si,como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar». Será Dâmaso Salcede, tipificação caricata do conquistador lisboeta,que irá apresentar Carlos a Maria Eduarda. Começará aí a paixão deCarlos e os ciúmes de Dâmaso que pretende ter aquela mulher comoamante. Durante um serão no Ramalhete, morada da família Maia, Car-los toma conhecimento .do partida de Dâmaso para Sintra, juntamentecom os Castro Gomes. E Taveira quem o informa: «- Iam pelo Chiadoabaixo; anteontem, às duas horas ... Estou convencido que iam para Sin-tra. Levavam uma maleta no landau, e atrás ia uma criada num cupé comuma mala maior. .. Aquilo cheirava a ida a Sintra.» Todo o serão, Carlosfoi magicando naquela partida inesperada para Sintra, ia perguntando «se o hotel Lawrence, em Sintra, estava aberto todo o ano»; até que,repentinamente, tomou uma decisão. Iria atrás dela. Correria a Sintra.E para não ir só, convidou o seu amigo Cruges, o maestro: «- Dize cá,Cruges, queres vir amanhã a Sintrc?», e porque o maestro demorou a res-ponder, Carlos antecipou-se: «- Está claro que queres, não te faz senãobem vir a Sintra ...». Fica ali, durante o serão, combinada a partida para Sintra, às oito da manhã do dia seguinte.6
  7. 7. Sobretudo a partir do termo da guerra civil. em 1834,Sintra conheceuuma das épocas áureas da sua história. A sociedade romântica da cha-mada Regeneração transformou a região num espaço bem determinadode lazer: «Sintro era então um ninho de amores, e sob as suas românticasramagens as fidalgas abandonavam-se aos abraços dos poetas.» Vindosde Lisboa pela antiga estrada de Belas, viajando sobretudo de sege, cale-che, tipóia, diligência ou ónibus, os visitantes podiam experimentar, apartir de 1841,uma estrada considerada piloto, que serviu de modelo aoutras vias que foram construídas posteriormente no país. Para tornar asviagens mais amenas, mais aprazíveis, as margens da estrada sofreramobras de arborização lateral entre Belas e Sintra, de 1844a 1849. Carlos e Cruges não utilizaram qualquer destes meios de transporte.Vieram de breque, carruagem mais íntima, de cariz aristocrático, maiscoadonante com a posição de Carlos da Maia no seio da sociedade, e,sobretudo, mais leve, por isso mais rápida. Pontualmente às oito damanhã, «Curlos parava o breque na Rua das Flores, diante do conhecidoportão da casa do Cruges. Mas o trintanário, que ele mandara acimabater à campainha do terceiro andar, desceu com a estranha nova de queo Sr. Cruges já não morava ali». Filho de uma viúva rica que possuíavárias casas pela Baixa lisboeta, o maestro mudava de habitação comfrequência. Este imprevisto irritou particularmente Carlos. Com pressa dechegar a Sintra, porque só queria estar onde ela estava, desesperou coma falta de cuidado de Cruges em não o ter avisado, na véspera, quemudara para a Rua de S. Francisco (actual Rua Ivens). Foi encontrar o maestro atrasado como sempre, «a correr, quase aostrambolhões, com um cachez-nez de seda na mão, o guarda-chuvadebaixo do braço, abotoando atarantadamente o paletó». Antes de parti-rem, ainda uma voz feminina gritou de cima: «- Olha não te esqueçamas queijadas!» Pelo caminho, Cruges quis saber o porquê desta viagem inesperada.Carlos acaba por lhe confessar, de modo subtil, as suas razões e, despreo-cupando-o: «- Deixa-te levar, que não te hás-de arrepender». Cruges nãose arrependia, Sempre gostara muito de Sintra, embora não se lembrassemuito bem da vila, pois já não ia a Sintra desde os nove anos e apenaslhe ficara «uma vaga ideia de grandes rochas e de nascentes de águasvivas». Surpreendido com a ignorância de Cruges sobre Sintra, Carlos traçalogo um itinerário, de sabor só aparentemente turístico: «O quêl, o maes-tro não conhecia Sintra? ... Então era necessário ficarem lá, fazer as pere-grinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores,barquejar na Várzea ...», e perante este apetecível passeio. Cruges des-venda o seu mais vivo desejo: «- A mim o que me está a apetecer muito éSeteais; e a manteiga frescc.» Ao longo do percurso pela estrada de Sintra, os viajantes apenaspararam uma vez. Foi na Porcalhota (hoje a cidade da Amadora), ondeCruges, esfomeado por causa dos ares do campo, se avia com «uma belapratada de ovos com chouriço», enquanto Carlos apenas bebe um café. Pelo caminho, o maestro «pesado dos ovos com chouriço, olhava vagae melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavalos», Carlos pensava nomotivo que o trazia a Sintra, e «realmente não sabia bem porque vinha;mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha umpasso de deusa pisando a Terra, e que não encontrava o negro profundode dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que elaestava em Sintra, corria a Sintra», e imaginando um encontro poético, desabor dito romântico, via a possibilidade de «daí a pouco, na velhaLawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu ves-tido, ouvisse talvez a sua voz». Ao longo deste episódio passado em Sintra, muitas são as persona-gens que vamos encontrar pela Vila, todas elas em busca do amor: unsem verdadeiros jogos amorosos, outros devaneando em paixões platóni-cas. Eça de Queiroz apenas nos oferece uma personagem pura em todo ocapítulo oitavo: o maestro Cruges, que vem a Sintra com a intenção pri- mária de conhecer Sintra. Será, portanto, sempre através do olhar atento, quase fotográfico, do maestro, que Eça nos dará as descrições das paisa- gens, dos monumentos, das ambiências de Sintra. Entrando em Sintra pelo mesmo local que ainda hoje se entra, para quem vem de Lisboa: o Ramalhão; chegam as primeiras descrições da paisagem natural e social da região: «E, a passo, o breque foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia- -os pouco a pouco uma lenta sussurração de ramagens e como o difuso e 7
  8. 8. vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de herase de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Umar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui ealém, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquelesimples bocado de estrada, todo salpicado de manchas de sol. sentia-sejá, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescuradistante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repousofidalgo das quintas de Verão ...» Cruges, absorvido por toda aquela beleza, pergunta na sua ignorân-cia de Sintra: «- A Lawrence onde é? Na serrc?», mas Carlos desilude-o:«- Nós não vamos para o Lawrence (...) Vamos para o Nunes, estamos lámuito melhor!» O velho e pioneiro Hotel Lawrence albergava, sobretudo aaristocracia e alta burguesia lisboeta, os funcionários de Estado e casaisem lua-de-mel. Poder-se-á perguntar então por que é que Carlos, sendoum fino aristocrata e frequentador do Lcwrence nas suas vindas a Sintra,prefere, desta vez, instalar-se no Nunes. E que, de repente, lhe viera «umatimidez, a que se misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado deser indiscreto, seguindo-a assim a Sintra, ainda que ela o não reconhe-cesse, indo instalar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um lugarà mesma mesa ... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a ideia de lhe ser apre-sentado pelo Dâmaso: via-o já bochechudo e vestido de campo, a esboçarum gesto de cerimónia, a mostrar o "seu amigo Maia", a tratá-lo por tu,afectando intimidades com ela, cocando-a com um olhar terno ... Isto seriaintolerável.» Cruges, descendo pela estrada de São Pedro à Vila, suspenso na ver-dejante paisagem que lhe causava «uma impressão religiosa», avista porentre uma clareira o Paço Real: «(...) este maciço e silencioso palácio, semflorões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casaria da vila,com as suas belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre sem-blante real. o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminéscolossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse todaela uma cozinha talhada às proporções de uma gula de rei que cada diacome todo "umreino ...» Recentemente demolido o magnífico imóvel onde, em meados doséculo XIX, funcionara a hospedaria Bragança, o Hotel Nunes não seriapropriamente, na década de 70, a mais recatada das unidades hoteleirasde Sintra. Situado num lugar recôndito da Vila, cujo acesso se fazia pelaestreita Rua de Meca, entalada por um casaria demolido durante a Pri-meira República, em 1911,e pertencente ao palácio, o Hotel Nunes estáligado às facetas mais deletérias das personagens de Os Maias. E mesmoo criado do hotel quem confirma a má imagem deixada por indivíduoscomo Salcede: «só com raparigas e em pândega é que o sr. Dâmaso vinhapara o Nunes». Desta vez, em lugar de Dâmaso, aí se encontram instalados alarve-mente e sem escrúpulos, Eusebiozinho, o viúvo, franzino e acanhado quese intimidava desde pequeno perante a figura de Carlos da Maia; com«outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço», o Palma Cavalão, jornalistamedíocre de pasquim, acompanhados por duas prostitutas espanholas.Ali se desvenda, naquele episódico encontro, que Cruges e Carlos daMaia eram também, afinal. velhos convivas das seiíoritas. Na ânsia de saber se Maria Eduarda estava em Sintra, Carlos preci-sava de ir ao Lawrence. Numa época pouco frequentada, as ruas apresen-tavam-se calmas: «Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas,cães vadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia, os presospediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam peloscantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fechadas, continu-ando o seu sono de Inverno, entre as árvores já verdes.» A Praça era entãoo local de mercado da Vila, onde as vendedeiras apregoavam os seus pro-dutos em volta do Repuxo (hoje colocado no Jardim da Preta do Palácio deSintra). Formava o largo mais amplo do centro urbano, com a Alpendrada(demolida em 1893)de um lado, a Torre do Relógio e a Cadeia (hoje o edi-fício dos Correios) do outro. Seguindo a estrada de Sintra a Colares, mais adiante os dois protago-nistas do passeio deparam com o afamado Hotel Lawrence, na sua cons- trução setecentista, de estrutura modesta e «fcchcrdc banal», mas que, todavia, encantava de imediato o observador: «- Tem o ar mais simpá- tico - disse o maestro.» O Hotel Lawrence, a mais antiga unidade hote- leira da Península Ibérica, e uma das primeiras do seu género em toda a Europa, era pertença de uma família inglesa e encontrava-se em activi- dade desde cerca de 1780.Hoje seriamente arruinado, o hotel agradava,8
  9. 9. sobretudo, pelo ambiente calmo que a delicada vista do vale, nas trasei-ras, proporcionava, a sua cozinha requintada, adereços cuidados e mobi-liário fino. Carlos, que esperava reconhecer a presença dela em Sintra, fixa osolhos numa janela aberta onde estava «um par de botinas de dura quesecando ao sol». Iam seguir caminho para Seteais, mas Carlos, ao escutarum som de flauta, ainda se reteve um pouco, «quase certo de Dâmaso lheter dito que a bordo Castro Gomes tocava flauta». Cruges, que se sentaraadiante, «num bocado de muro baixo, defronte de um alto terraço gra-deado», prodigalizava as maravilhas da natureza, parecendo disposto apermanecer ali em vez de ir visitar «as outras belezas de Sintra». Melan-cólico e romântico, o maestro tinha as suas preferências: «- Sintra nãosão pedras velhas, nem coisas góticas ... Sintra é isto, um pouco de água,um bocado de musgo ... Isto é um paraíso!...» e sentindo-se enlevado, pos-sesso pelo espaço edílico, concluía: «- Que pena que isto não pertença aum artista!» Ir do Lawrence a Seteais era uma peregrinação obrigatória, espéciede Passeio Público de Sintra. Cruges e Carlos deixam de admirar a paisa-gem, despertos pelo rodar de uma carruagem com ingleses lá dentro.Rolando pela estrada, entãp de terra batida, as carruagens levantavammuito pó em dias de calor. E por detrás dessa nuvem de pó, envolto numanévoa em dissipação, que Eça nos faz surgir a figura carismática dodefensor da Ideia Velha, o romântico poeta Tomás de Alencar. O velhobardo, que havia sido íntimo amigo de Pedro da Maia e Maria Monforte,abraça efusivamente Carlos e beija o maestro, «porque conhecia Crugesdesde pequeno, Cruges era para ele como um filho». Tomás de Alencar, homem alto, todo vestido de negro e com umpanamá na cabeça, de «grandes bigodes românticos», predispõe-se logoa regressar com os «rapazes» a Seteais, ele que já vinha de lá. Mas não seimportava, até fazia questão, porque: «aquilo é sítio muito meu, filhos!Não há ali árvore que me não conheça ...». Afirmamos no início desteroteiro que todas as personagens que viajavam para Sintra ou que aí seencontrcvcm.ivinhcrm para flirtar, para namoriscar, em busca de amoresquase sempre proibidos, exceptuando o maestro Cruges. Então e Alen-car? Talvez já não tenha idade para grandes pândegas, para namoros fur-tuitos, mas vem a Sintra para recordar os amores que por aqui teve.Sintra, para ele, era um «ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizercemitério ...» A situação geográfica de Sintra em relação a Lisboa, cuja distânciaera curta e longa, estando simultaneamente perto e longe da capital; asua beleza paradisíaca, quer natural. quer monumental. faziam da vilaum local predilecto para encontros amorosos fora das vistas da socie-dade, verdadeiros jogos de damas disputados entre os hóteis, as ruelaslabirínticas do centro urbano e as quintas fidalgas ao redor de Sintra. Antes de prosseguirem o passeio, Alencar faz o prenúncio das vivên-cias que irá recordar, marcadamente, em Seteais: «Quantos luares eu lá vi? Que doces manhãs dAbril? E os ais que soltei ali Não foram sete mas mil!" Pelas sombras do arvoredo que acompanha a estrada, num dia mornode Primavera, eis que surge finalmente Seteais. Mas Cruges ficou desilu-dido perante o abandono da fidalga residência: «Toda aquela vivenda,com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roí-dos pela chuva, o pesado brazão rococó, as janelas cheias de teias de ara-nha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrervoluntariamente naquela verde solidão - amuada com a vida, desde quedali tinham desaparecido as últimas graças do tricorne e do espadim e osderradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas ...» Importa aqui falarmos um pouco da história de Seteais. Adquirido noúltimo quartel do séc. XVIII por Daniel Gildemeester, cônsul holandês emPortugal, a quinta passaria para a posse do 5.° Marquês de Marialva,D. Diogo José Vito de Menezes Noronha Coutinho, gentil-homem do reinoe estribeiro-mor de Sua Majestade a Rainha D. Maria r. nos finais de sete-centos. Uma vez na posse da propriedade, D. Diogo fez obras de vulto,ficando a vivenda com a actual traça, composta por dois núcleos idênti-cos ligados por um arco que contém, no cimo, um medalhão onde se vêemas efígies de D. João VI (à época ainda príncipe regente) e sua esposa 9
  10. 10. 11 ,.; ••• , ~---;;------j;---;;----;;-- ;-. LO, (,U/II""" ,1# ,!NHfV/~ <f, "jlu,huUf ,lI lU-/i" ti" If."tlNrlit ·rJ:~JlM),. lfj~ _ _ rI("~1".II/(nur .1/ n",U"WHÜ. so 1"1IfIfUif (Ir ·tnl, 1I0,-lIfl#" J7 _ (lHlfrld «II811116a #Ir fI!(Rntl1rifl .1~ ~_ tlu l~rdR , {H!"~N } 5" I!"I"",,II. j~ _ ,IIOI"_lIft"uI 33 .11111"<1. tltI XFTrt1 I"/"..,. •• ,,,,{.,_J _ ••••. ~lHItf.fIHr#tf f.I~.,.".,.,·,.l( J!I _ ttá !fUfumc.i" -i(* IrI~rryt~(1 ,j,f _ tlR.)~ttll;t6 Í#;JMtllf~ / lI; -.,.J SIJ J/..,4"••"(tu 0 f.•ctfllurlCII, ;):;_RI"lIi. "r F!IJt/llrr.t l(fl ",ti" U ~rf/If "1f,·J/lunr,.nI,~ .it: _ 1~t"1" J" Ji"""ti. f.Wr.Ur.UlI.""TOS lrBtlro ;;1 __ tI"r.!fr#, 4~ rlf./lf _{tr.l"_".rlifn.r.JJIJ-;4../t~:iJ4 J8_I;IfIl"/lttlf nA-";,, :iUI &S_((u(ottú.,lilllI 3~ lIuv,{h. ,mlNlrrnNf,f1 . 1I,.,/(frfWÚf/ltrf~ j-,if. r.r", ;(<1 lid#.,,. d" í*/J/tIHull«rlmINty (/, SUá . ·Jlf(!I~t,ul( U IljtoulltUi..r 11 ••_1/,1((##. F.llln ti <t"lttll 11.//:./I":lJfln 46 rd"NIlh;. III"~..I,, fP~ ""rffl* .4/4 f~"l">tl -i ,V"-#n "... " _r t~fn"ff"~ •••• ,~. Sto. rtlllI.10
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  12. 12. D. Carlota Joaquina; ostentando por baixo uma inscrição, datada de 1802,dedicada ao futuro rei. De traça neoclássica, o edifício e a quinta vive-ram os seus momentos áureos nos finais de setecentos e princípios deoitocentos, no tempo em que eram moda os tais «vestidos de anquinhas»como nos diz Eça de Queiroz. Mas Seteais não é só históric. O local tam-bém comporta uma grande carga lendária. Sobre a origem do topónimo,cuja composição sugere a ligação entre duas palavras, Sete + ais, criou opovo as mais variadas lendas. Contudo, a origem do topónimo tem umaexplicação bem real, dada pelo falecido escritor sintrense FranciscoCosta. Diz este homem das letras que, antes de ali ter existido a vivenda,se cultivava naqueles campos o centeio. Daí, Campo de Centeais, que, porcorruptela, fez surgir Seteais, o que é bastante perceptível. As razões do abandono de Seteais nos finais do século passado sãomúltiplas. Mas afigura-se-nos que a mentalidade romântica terá contri-buído, sobremaneira, para esse abandono. Ao cortarem radicalmente comas ideias iluministas, também as construções desse período sofreram, dealgum modo, com esse corte. Perguntaremos, então, o que traz com tãoelevado ânimo o poeta Alencar, romântico convicto, a Seteais? Exacta-mente a sua grande carga lendária e, sobretudo, o Penedo da Saudade. Atravessando o terreiro, Cruges, Carlos da Maia e Alencar passaramo arco, e ao cimo da rampa, nas traseiras dos dois pavilhões, foram con-templar a paisagem do varandim sobranceiro ao jardim de simetrias rígi-das, labirínticas, ao sabor classicista: «Cruqes, no entanto, encostado aoparapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo,rica e bem trabalhada, repartida em quadros verde-claros e verde-escu-ros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos.» Já se prepara-vam para abandonar Seteais quando «Cruges quis explorar o outroterraço ao lado». Inevitavelmente o maestro entestou com o Penedo daSaudade. Embora não conhecesse Sintra, Cruges identificou, automatica-mente, o célebre rochedo: «Foram-no encontrar triunfante, diante de ummontão de penedos, polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentosdeixados ali outrora, poeticamente, para dar ao terraço uma graçaagreste de selva brava.» E virando-se para o poeta: «- Se eu me lem-brava perfeitamente! Penedo da Saudade, não é que se chama, Alencar?»Mas o bardo não conseguiu responder. Envolto em recordações, a emoçãoembargava-lhe a voz. Só momentos depois «a sua voz ergueu-se, saudosae dolente», para recordar em verso certos amores que ali vivera: «Vieste! Cingi-te ao peito. Em redor que noite escura! Não tinha rendas o leito, Não tinha lavares na barra Que era só a rocha dura ... Muito ao longe uma guitarra Gemia vagos harpejos ... (Vê tu que não me esqueceu) ... E a rocha dura aqueceu Ao calor dos nossos beijos!» Perfeitamente enquadrado no espírito romântico, Cruges «ficou aolhar para os penedos como para um sítio histórico». Descendo a rampa, e olhando através do arco, os viajantes experi-mentaram uma visão cujo pitoresco não escapou a Cruges: «O maestroembasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura depedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma com-posição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavala- lria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todosalpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigasárvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha 1de folhagem reluzente; e, emergindo abruptamente dessa capada linhade bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacandovigorosamente num relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o cumeairoso da serra, toda cor de violeta-escura, coroada pelo Palácio da Pena,romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torreesbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem fei-tas de ouro ...» Sem dúvida uma das melhores descrições da literatura portuguesa,Eça oferece-nos, de um modo impressivo, o retrato preciso desta «tolosublime». De regresso à Vila, Carlos fica, finalmente, a saber que Maria Eduarda12
  13. 13. partira na véspera para Mafra. Então, sabendo-a longe, «Sintro, de repente,pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste». Cruges apenas teve tempopara uma visita rápida ao «vasto casarão histórico», o Paço Real. sob «avoz monótona do cicerone mostrando a cama de S. M. EI-Rei, as cortinasdo quarto de S. M. a Rainha, melhores que as de Mafra, o tira-botas deS. A.; e trazia de lá uma pouca dessa melancolia que erra, como umaatmosfera própria, nas residências reais». Reuniram-se novamente no Lawrence, e Alencar, que se aperceberaser necessário animar os «rapazes», propôs: «- E, para ser festa completa- exclamou ele, limpando os bigodes do conhaque - enquanto vocêsvão ao Nunes pagar a conta e dar ordens para o breque, eu vou-me enten-der lá abaixo à cozinha com a velha Lawrence e preparar-vos um baca-lhau à Alencar, récipe meu ... E vocês verão o que é um bacalhau! Porque,lá isso, rapazes, versos os farão outros melhores; bacalhau ndo!» Bulhão Pato, um dos pontífices do Romantismo, viria a reconhecer-sena figura de Tomás de Alencar, exactamente por também ele ser poeta ecozinheiro ao mesmo tempo. Sentindo-se caricaturado, Bulhão Pato ataca,em 1889, Eça de Queiroz, escrevendo duas sátiras violentas: O GrandeMaia e Lázaro Cônsul. Eça responde com alguns artigos esfusiantes dehumorismo, e que se encontram compilados nas Notas Contemporâneas. Depois do jantar, a partida. Em tempo de despedida, Eça deixa-nosalgumas imagens nocturnas: «Algum tempo o breque rodou em silêncio,na beleza da noite. A espaços, a estrada aparecia banhada de uma clari-dade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, sur-giam, de entre as árvores, com um ar de melancolia romântica.Murmúrios de águas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enrama-dos, o ar estava cheio de aroma». Rolando pela estrada, meio adormecidos pelos balanços do breque, equando Alencar vai para recitar uns versos, Cruges solta um grito naescuridão: «Com mil rcrios!»: inevitavelmente esquecera-se das queijadas. Para além do itinerário descrito no capítulo oitavo, e que forma ocorpo central deste Roteiro Queiroziano, as referências a Sintra multipli-cam-se ao longo de todo o romance, sempre de uma forma persuasiva emque o espaço se torna cúmplice do sujeito, caracterizando-o, movimen-tando-o na acção em função do cenário. De salientar as deslocações àVila de João da Ega, essa personagem magistral tida em muitos aspectoscomo o retrato do próprio Eça: «Fidalgote rico, figura esgrouviada e seca,os pêlos do bigode arrepiados sobre o nariz adunco, um quadrado devidro entalado no olho direito - tinha realmente alguma coisa de rebeldee de satânico.» Amante de Raquel Cohen, mulher do director do BancoNacional. vê Dômc so Salcede disputar-lhe a conquista e, roído pelociúme, corre a Sintra e instala-se no Hotel Vítor. Propriedade de Vítor Sassetti. o Hotel Vítor é o terceiro dos hóteis deSintra citados na obra. Situado já na encosta da serra, empoleirado sobreo casaria da Vila, juntamente com o Hotel Lawrence e o Hotel Nunesfechava em triângulo todo o centro urbano, numa teia dominadora emcujas malhas se tecem os mais variados episódios amorosos. Em carta a Carlos da Maia, João da Ega desculpa esta sua correriaatrás daquela «Icrmbisqóic de Israel. melada e molenga, sovada a ben-gala», alegando «uma saudade infinita da natureza e do verde», e prome-tendo que apenas se demoraria «o tempo de cavaquear um bocado com oAbsoluto, no alto dos Capuchos, e ver o que estão fazendo os miosótisjunto à meiga Fonte dos Amores ...». Mais tarde, Carlos recebe notícias de Ega, que se instalara no Vítor edesesperava na presença de Dâmaso e Raquel: «O Dâmaso aparecia emtoda a parte com a Cohen; o Dâmaso tornara-se grotesco em Sintra, numacorrida de burros; o Dâmaso arvorara capacete e véu em Seteais; oDâmaso era uma besta imunda», e acentuando a sua ira, despeitado porse ver rejeitado pela sua amada, remata furioso: «o Dâmaso, no pátio doVítor, de perna traçada, dizia familiarmente a Raquel; era um dever demoralidade pública dar bengaladas no Dâmaso!...». O Hotel Vítor era uma das hospedarias predilectas na época de vera-neio. Espécie de casino particular, jogava-se no Vítor. Era também localde partida das famosas burricadas, as corridas de burros que alegravama sociedade lisboeta. Através das interjeições irónicas, satirizantes, deJoão da Ega, Eça oferece-nos quadros exactos da ambiência de Sintra emtempo de Verão. Atente-se neste diálogo em que Carlos da Maia interrogaEusebiozinho sobre Sintra e, nomeadamente, o Ega: «- E tu - perguntou então Carlos, voltando-se para Eusebiozinho.-Tens estado em Sintra, hem? Que se faz lá? .. O Ega? 13
  14. 14. Planta da CÁMARA MUNICIPAL14
  15. 15. -- PERCURSO OUEIROSlANO DE MENINOS ~ I ; CASCAIS-ESTORIL . ""- Vila de 5inlla I I) ~e 100 100 lO •• I SOl ~ SãàaadE!A S 15
  16. 16. o outro ergueu-se guardando o canivete, ajeitando as lunetas. - Lá está no Vítor, muito engraçado, comprou um burro ... Lá está oDâmaso também ... Mas esse pouco se vê, não larga os Cohen ... Enfim,tem-se passado menos mel. com bastante calor ... - Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a LaIa? Eusebiozinho fez-se escarlate. Credo! Estava no Vítor, muito sériol» Depois deste trajecto pelos pontos capitais da obra referentes a Sin-tra, fica-nos a imagem nítida, possível de ser visualizada, da Vila nosfinais do século passado. Através de uma grande perspicácia de olhar, deum profundo sentido de análise, Eça de Queiroz em Os Maias atribuiu aSintra um papel preponderante quer no desenrolar da acção, quer na pró-pria caracterização das personagens, cuja movimentação se faz em per-feita dialéctica entre o sujeito e o espaço de Sintra. Para sempre ficarãofixados locais de Sintra de uma forma impressiva, capaz de transmitir àsgerações aspectos sociais, culturais e monumentais, alguns deles jádesaparecidos - como o malogrado Hotel Nunes, hoje substituído poroutro edifício de traça moderna que alberga o Hotel Tivoli -, outrosainda acessíveis, que nos possibilitam a reconstituição do percurso enun-ciado em Os Maias.16
  17. 17. 3. ROMÂNTICAS RAMAGENS Castelo visto da Vila Sintra pode, ainda hoje, oferecer ao visitante o que de mais belo e sig-nificativo o movimento romântico criou. Por si só, a geografia sintrense énaturalmente romântica, com a sua serra nascida abruptamente do meioda planície e que a faz parecer mais alta do que, efectivamente, é; as flo-restas densas dissimuladas em neblinas perpétuas; as águas correntes enascentes que tanto evocam o derrame de lágrimas como o passar irre-versível do tempo; o mar agreste e selvático ao fundo; as populaçõesrurais exibindo os seus usos e costumes; enfim, os seus vestígios do pas-sado que vêm desde os primórdios do homem, fazem de Sintra um localpropício à corporalização dos sentimentos românticos. Foi este cenárioque levou os homens, ao longo do século XIX, a burilarem esse roman-tismo natural, ora cantando as belezas da terra, ora salpicando a serracom mágicos palacetes e chalets. E nessa demanda colectiva de fazer deSintra um santuário romântico, bom é que se levante a figura de D. Fer-nando II como pioneiro e principal impulsionador, cujo papel preponde-rante não só modificou elegantemente o espaço sintrense, como o tornounum dos locais mais belos do mundo. «Ob! Cintra! oh saudosissimo retiro, Onde se esquecem magoas, onde folga De se olvidar no seio á natureza Pensamentos que embala adormecido O sussurro das folhas, co murmurio Das despenhadas lymphas misturado! Quem, descansado á fresca sombra tua, Sonhou senão venturas? Quem, sentado No musgo de tuas rocas escarpadas, Espairecendo os olhos satisfeitos Por céus, por mares, por montanhas, prados, Por quanto ha hi mais bello no universo, Não sentiu arroubar-se-lhe a existência, Poisar-lhe o coração suavemente Sobre esquecidas penas, amarguras, Ansias, lavor da vida? - Oh grutas frias, Oh gemedoras fontes, oh suspiros De namoradas selvas, brandas veigas, Verdes outeiros, gigantescas serras! Não vos verei eu mais, delicias daliua?» in Camões, Almeida Garretl 17
  18. 18. 3.1. Palácio de Seteais Seteais: Gravura Romântica Ouviu O visitante falar de Seteais e ficou curioso. O topónimo sugere--lhe ecos e lendas antigas de belas princesas mouras. Vai lá e não deupor perdido o seu tempo. No meio da romântica floresta tingida porromânticos palácios. emergem surpreendentemente as linhas neoclássi-cas do Palácio de Seteais. empoleirado sobre o vale do Rio das Maçãs.onde a vista se estende e se deleita no retalho dos campos cultivados. obranco das casas saloias ao longe. e a linha azulada do mar ao fundo.Hoje uma requintada unidade hoteleira. Seteais foi edificado no últimoquartel do século XVIII. pelo cônsul holandês Daniel Gildemeester. que o 0vendeu. nos finais da mesma centúria. ao 5. marquês de Marialva.D. Diogo Vito. Este destacado nobre português acrescentou. à primitiva construção.um segundo núcleo. ligando-os por um arco encimado pelo brasão real eum medalhão que contém as efígies de D. João e de D. Carlota Joaquina.erguido em 1802. No seu interior. de notar as pinturas atribuídas a Pillement, o mobiliá-rio único e uma decoração capaz de fazer o visitante revi ver o espírito daépoca.3.2. Palácio Nacional da Pena Os ecos de uma lenda antiga contam-nos que. cmdcmdo D. Manuel I acaçar pelo alto da serra e preocupado com novas da Indin, avistou. de umdos picos onde existia uma ermida dedicada a N." Sr.° da Penha. a nau deNicolau Coelho a entrar a barra do Tejo. E pela graça concedida. mandouerguer. em 1503.o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Pena. confiado àOrdem de São [erónimo. Depois. muito depois. houve um príncipe da Baviera que teve umsonho. Chamava-se D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha e casou. em1836.com a nossa rainha D. Maria 11.Homem detentor de uma sensibili-dade invulgar e apurado gosto. adquiriu. a expensas próprias. as ruínasdo antigo cenóbio e toda a mata circundante. incluindo o Castelo dosMouros. Mandou plantar o fabuloso Parque da Pena. verdadeiro museubotânico que contém espécies das mais variadas partes do mundo. e idea-liza. juntamente com o Barão de Eschewege. um palácio mítico-mágicoque concilia valores de várias épocas e civilizações. transformando.enfim. aquele local no baluarte arquitectónico do movimento românticoem Portugal.18
  19. 19. Pena: Gravura Romântica o visitante que penetrar neste palácio terá a nítida visão da ambiên-cia romântica dos seus interiores, com as salas ricamente decoradas, porde mais preenchidas, notando o horror ao espaço vazio. Terá ainda a pos-sibilidade de admirar uma das obras mais belas da nossa Renascença, oretábulo quinhentista 0529-1532), em alabastro, que concebeu mestreNicolau Chanterene. No exterior, o visitante sentirá o contacto com o céu,Ó mar e a serra, numa amplidão de horizontes que não mais esquecerá. 19
  20. 20. Jardim Romântico Amo-te, ó cruz, no vertice firmada De esplendidas egrejas; Amo-te quando á noite, sobre a campa, Junto ao cypreste alvejas; Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos, As preces te rodeiam; Amo-te quando em prestito festivo As multidões te hasteiam; Amo-te erguida no cruzeiro antigo, No adro do presbyterio, Ou quando o morto, impressa no ataúde, Guias ao cemitério; Amo-te, ó cruz, até quando no valle Negrejas triste e só, Nuncia do crime a que deveu a terra Do assassinado o pó!" Cruz Mutilada, A. Herculano20
  21. 21. 3.3. Parque e Palácio de Monserrate Este maravilhoso local deve o nome a uma pequena ermida ali edifi-cada por Frei Gaspar Preto, em 1540, dedicada a Nossa Senhora de Mon-serrate. Manteve-se este templinho a culto até ao início do século XVIII,altura em que foi votado ao abandono. Em 1718, instituiu-se o vínculo da Quinta de Monserrate a D. Caetanode Melo e Castro, comendador da Ordem de Cristo e vice-rei da Índia.Tendo ficado bastante danificada com o terramoto de 1755, a quinta e ascasas existentes foram arrendadas a um rico comerciante inglês, denome Gerald de Visme. Este huguenote, que se instalara em Portugal noano de 1746, mandou edificar uma vivenda acastelada de sabor neogó-tico, onde residiu por um curto período. Em 1794, aí se instalou WilliamBeckford, fazendo obras nos jardins e redecorando a vivenda. QuandoLord Byron visitou aquele local, em 1809, já a vivenda se encontravaabandonada, entregue ao vandalismo e à pilhagem, mas, mesmo assim,o grande poeta ainda lhe chamaria «o primeiro e mais lindo lugar destereino». Só em 1856, Monserrate é, de novo, revitalizado, com a venda aoutro rico comerciante inglês, Francis Cook, que vai transformar a antigavivenda num singular palácio de cariz orientalizante, procedendo tam-bém à modificação da propriedade rural num exótico jardim, com o plan-tio de diversas espécies provenientes das mais remotas paragens domundo. Assim, o visitante que se passeia em Monserrate, naquele harmo-nioso e exuberante conjunto artístico e ambiental, sente, de uma formaviva e marcante, o «glorioso Eden» que Byron tão bem soube cantar.3.4. Chalet da Condessa dEdla Elisa Frederica Hensler, grande cantora de origem alemã, cuja repu-tação verdadeiramente internacional adquiriu através das suas sober-bas interpretações nas mais significativas capitais europeias (incluindoLisboa, onde se apresentou, pela primeira vez, em 23 de Fevereiro de1860), recebeu do Príncipe Ernesto 11, de Saxe, o título de CondessadEdla. Em 1869, a Condessa viria a desposar o rei consorte D. Fernando 11,que enviuvara 16 anos antes. Partilhando do entusiasmo do monarcapelas obras de construção do Palácio e Parque da Pena, iniciadas já em1839, deveras contribuiu para o enriquecimento dos imensos jardins, queratravés da plantação da conhecida «Feteira da Condessa», quer introdu-zindo raras espéç:ies provenientes da América do Norte, país onde pas-sara parte da sua juventude. Ainda no mesmo ano em que contraiu matrimónio com o rei-artista,esta senhora de grande sensibilidade mandou erguer, em pleno Parque,um curioso chalet. O estilo arquitectónico do edifício, traçado pela pró-pria Condessa dEdla, antecipou-se e, de certa forma, preconizou a modade chalets que, em finais de oitocentos, se fez notar sobretudo em Sintra ena Costa do Estoril. De planta rectangular, ao nível do rés-do-chão, e cruciforme no pri-meiro andar, a habitação apresenta fachadas de alvenaria que imitamlongas tábuas, à semelhança das casas rústicas da América do Norte.Com as ombreiras das portas, janelas e óculos ornamentadas em cortiça,sobressai deste conjunto homogéneo uma típica varanda que circundatodo o piso superior. Os interiores, ricos e bem trabalhados, fazem o visi-tante notar, por entre estuques, frescos, embutidos de cortiça e cobre, adoçura do amor vivido pelo nobre casal. "A proximidade de Cintra é o mais superior dos merecimentos que tem Cascaes, porque - apesar da moda que ultimamente a esqueceu e que há poucos annos fazia de Cintra a belleza official, a paisagem dos compendios de retorica, o logar selecto pela antipathica unanimi- dade dos suffragios - Cintra é, ainda assim, pella belleza dos seus terrenos, pella abundancia das suas águas, pellas suas vegetações, pellas suas quintas, uma das mais bellas, das mais suaves, das mais tranquillas regiões que offerece o pcríz.» in As Praias de Portugal, R. Ortigão 21
  22. 22. 3.5. Quinta do Relógio Quinta do Relógio Reinava D. Pedro V quando esta propriedade passou para as mãos deManuel Pinto da Fonseca, rico aventureiro conhecido como o «MonteCristo», epíteto extraído do célebre romance de Dumas, por ter enrique-cido à custa dos escravos. Cerca de 1860,Manuel da Fonseca, na esteira do espírito românticoque em Sintra tinha já revelado a sua feição arquitectónica, nomeada-mente através da construção dos singulares e exóticos palácios da Pena eMonserrate, mandou erguer uma nova vivenda na Quinta do Relógio, eque ainda hoje subsiste, em pronunciado estilo arabizante. Nos jardins, embora de dimensões não muito grandes, pode encon-trar-se abundante vegetação exótica e lagos cheios de nenúfares. Sob projecto de António Manuel da Fonseca [únior. o palacete entãoedificado é constituído por um pavilhão central de topo ameado, ao qualse anexam dois corpos mais baixos. Na fachada, destaca-se uma legendaárabe, repetida por três vezes, divisa dos reis mouros de Granada, quediz: «Deus é o único vencedor.» Nesta casa passaram a lua-de-mel. em 1886,D. Carlos e D. Amélia,reis de Portugal.3.6. Chalet Biester Ernesto Biester (1829-1880),dramaturgo e jornalista, empresário doTeatro D. Maria II, juntamente com D. João de Menezes e o actor EduardoBrasão, desejou um dia construir um bonito e cenográfico chalet naencosta da Serra de Sintra. Encomendou a obra ao arquitecto José LuísMonteiro, em 1880,precisamente antes de morrer, em 12 de Dezembro domesmo ano. Deixou assim o seu nome ligado a Sintra através do famosoexemplar riscado por José Monteiro, e soberbamente decorado nos inte-riores, onde a teatral idade efémera e os «décors» quase de ópera seadequam ao espaço, e que para tal foram recrutados, entre uma elite,aqueles que mais se familiarizavam com o gosto revivalista. Assim, apa-recem o entalhador Leandro Braga, o cera mista Bordalo Pinheiro e, sobre-tudo, o cenógrafo Luigi Manini. a trabalharem os cenários interiores,numa colaboração que, apesar da sua unidade aparente, assinala umaresponsabilidade estética diferente.22
  23. 23. 3.7. Quinta da Regaleira Quinta da Regaleira António Augusto Carvalho Monteiro. homem de grande cultura eimensa fortuna. encomendou o projecto da Quinta da Regaleira a LuigiManini. célebre encenador do Real Teatro de São Carlos e autor dos dese-nhos que regeram a edificação do Palácio-Hotel do Buçaco. Contudo. naQuinta da Regaleira. Manini não irá apenas espelhar o seu gosto reviva-lista. mas também inscrever nas construções diversa simbologia maçó-nica. transformando o local num espaço de grande interesse esotérico. A Regaleira é. efectivamente. possuidora de uma rica e abrangentegramática ornamental. mistura de estilos que convivem em perfeita har-monia. O resultado surpreendente do conjunto deve-se. em parte. à sábiae subtil condução do projecto por parte de Carvalho Monteiro e Manini. e.também. porque escolheram os mais notáveis canteiros da época. A Capela da Santíssima Trindade. edificada em frente ao palacete.foi igualmente projectada por Luigi Manini. Assim. o exterior do temploapresenta-se pleno de ornamentação. ostentando uma magnífica fachadaneomanuelina. Por outro lado. no interior. destaca-se sobretudo a riquezada decoração. com os seus coloridos vitrais. Saliente-se. ainda. a profusãode emblemas maçónicos aqui presentes. cujo significado se prolonga poroutras estruturas simbólicas existentes ao longo do parque. nomeada-mente o curioso poço iniciático. 23
  24. 24. 3.8. Paços do Concelho Com o crescimento da Vila de Sintra, sobretudo depois da inaugura-ção do caminho-de-ferro, em 1889, e o consequente aparecimento doBairro da Estefânia, assistiu-se a uma deslocação do centro económico eadministrativo que permaneciam precariamente instalados na VilaVelha. Assim, escolheu-se um local intermédio entre os dois burgos paraa implantação dos Paços do Concelho, no local onde, então, se erguia aantiga ermida de São Sebastião. Segundo projecto de Adães Bermudes, a construção foi iniciada em1906e concluída em 1908. Os Paços do Concelho apresentam fachadasausteras, com janelas neomanuelinas sobriamente decoradas. No alçadoprincipal destaca-se, pela sua imponência, uma bela torre rematada porameias, e por uma cobertura piramidal revestida com azulejos, os quaisrepresentam alternadamente a Cruz de Cristo e o escudo Pátrio. No topo,surge, majestosa, a esfera armilar, enquanto outras quatro de menoresdimensões ladeiam esta curiosa cobertura. No interior, abre-se um mag-nífico claustro, cujos varandins do piso superior se encontram ricamenteornamentados com motivos manuelinos e renascentistas.24

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