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Um arquiteto que projeta o maior e mais sofisticado teatro da cidade em sua época, mas que recusa uma homenagem oferecida pela Câmara Municipal por seus serviços; um produtor cultural que decide impedir a destruição de milhares de livretos de programação teatral reduzidos a entulho do dia para a noite, levando-os para seu próprio apartamento; uma guerra de bolas de papel que eclode no meio de um concerto; uma passeata para exigir que o preço dos ingressos para a ópera seja reduzido; e, como se tudo isso não bastasse, a Semana de Arte Moderna, realizada em 1922. Esses são apenas alguns dos muitos eventos e pessoas cujas histórias estão ligadas ao Theatro Municipal de São Paulo, ao longo de mais de cem anos de existência. Publicado pelo Senac São Paulo, O Theatro Municipal de São Paulo: histórias surpreendentes e casos insólitos reúne vários episódios relacionados a essa prestigiosa casa de espetáculos, a maioria deles desconhecidos até mesmo de seus frequentadores mais assíduos. Narrados na forma de crônicas que remetem umas às outras, eles constroem uma história repleta de momentos curiosos, divertidos e belos, que retratam os motivos por que o teatro é objeto de respeito e apreço por parte do público e dos profissionais que nele atuam.

Autor: Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise

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Transcript

  • 1. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO Histórias surpreendentes e casos insólitos Livro Teatro Municipal.indd 1 06/08/2013 11:59:44
  • 2. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Jeane Passos Santana – CRB 8a/6189) Veiga, Edison O Theatro Municipal de São Paulo: histórias surpreendentes e casos insólitos / Edison Veiga, Vitor Hugo Brandalise; [prefácio de Francisco Ornellas]. São Paulo : Editora Senac São Paulo, 2013. Bibliografia. ISBN 978-85-396-0397-8 1. Theatro Municipal de São Paulo : História 2. Teatro : São Paulo (cidade) : História I. Brandalise, Vitor Hugo. II. Ornellas, Francisco. III. Título. 13-130s CDD-792.0981 Índice para catálogo sistemático: 1. Theatro Municipal de São Paulo : História Livro Teatro Municipal.indd 2 792.0981 06/08/2013 11:59:44
  • 3. Edison Veiga Vitor Hugo Brandalise O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO Histórias surpreendentes e casos insólitos EDITORA SENAC SÃO PAULO – SÃO PAULO – 2013 Livro Teatro Municipal.indd 3 06/08/2013 11:59:44
  • 4. Administração Regional do Senac no Estado de São Paulo Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de A. Salgado Superintendente Universitário e de Desenvolvimento: Luiz Carlos Dourado Editora Senac São Paulo Conselho Editorial: Luiz Francisco de A. Salgado Luiz Carlos Dourado Darcio Sayad Maia Lucila Mara Sbrana Sciotti Jeane Passos Santana Gerente/Publisher: Jeane Passos Santana (jpassos@sp.senac.br) Coordenação Editorial: Márcia Cavalheiro Rodrigues de Almeida (mcavalhe@sp.senac.br) Thaís Carvalho Lisboa (thais.clisboa@sp.senac.br) Comercial: Marcelo Nogueira da Silva (marcelo.nsilva@sp.senac.br) Administrativo: Luís Américo Tousi Botelho (luis.tbotelho@sp.senac.br) Edição de Texto: Luiz Guasco Preparação de Texto: Leandro dos Santos Rodrigues Revisão de Texto: Luiza Elena Luchini (coord.), Globaltec Editora Ltda. Projeto Gráfico, Capa e Editoração Eletrônica: Antonio Carlos De Angelis Fotos da Capa: Edison Veiga Impressão e Acabamento: Rettec Artes Gráficas Ltda. Proibida a reprodução sem autorização expressa. Todos os direitos desta edição reservados à Editora Senac São Paulo Rua Rui Barbosa, 377 – 1o andar – Bela Vista – CEP 01326-010 Caixa Postal 1120 – CEP 01032-970 – São Paulo – SP Tel. (11) 2187-4450 – Fax (11) 2187-4486 E-mail: editora@sp.senac.br Home page: http://www.editorasenacsp.com.br © Editora Senac São Paulo, 2013 Livro Teatro Municipal.indd 4 06/08/2013 11:59:44
  • 5. SUMÁRIO Nota do editor, 9 Prefácio – Francisco Ornellas, 11 Começo, meio e fim, 15 RAMOS DE AZEVEDO: Ele disse “não, obrigado”, 17 ELEAZAR DE CARVALHO: Futebol, jovens e reinaugurações, 21 LUCIANO CERRI: Salvou a história do lixo, 25 DIOGO PACHECO: Guerra de bolotas contra o maestro pop, 29 LULA: Condenou os generais, 33 ALDEMIR MARTINS: Escadas para protestar, 37 WALTER MOCCHI: Passeata em São Paulo: a cidade exige ópera, 39 ARTURO DE ANGELIS: Fica, maestro: a colônia precisa cantar, 41 ZOLA AMARO: Com o governador a seus pés, 43 VIVIEN MAHR: À beira do viaduto, 47 YOKO ONO: Tem samba no pé, 49 TONINHO PENTEADO: “Bravo! Bravíssimo!”, 51 GREGÓRIO GRUBER: O folião proletário, 55 OSWALD DE ANDRADE: E a Semana que reinventou o Brasil, 59 CARLOS BEUTEL: Ponto de encontro, 63 FRANCISCO MATARAZZO: Motorizado, 65 RAUL CORTEZ: Adeus de 120 mil pessoas, 67 SÉRGIO MAMBERTI: Contra as gravatas, 71 5 Livro Teatro Municipal.indd 5 06/08/2013 11:59:44
  • 6. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS SILENE ZEPTER: Nua, 73 MAURICIO DE SOUSA: “Minha imaginação voava”, 75 ARNALDO BAPTISTA: Em todas as cadeiras, 79 ZUZA HOMEM DE MELLO: Um disco raro, 81 TIAGO ARARIPE: O drácula, o branco e os porcos, 85 IRACITY CARDOSO: Nas pontas das sapatilhas, os primeiros passos, 89 ALBERTO RENAULT: São Paulo Fashion Week no Municipal, 93 WALTER MENEZES: Sonhou, 97 ARTHUR MOREIRA LIMA: Emprestou o nome ao povo, 101 RENÉ THIOLLIER: O empresário dos modernistas, 105 AFONSO ARINOS: A elite e os “pretos de verdade” no Municipal, 107 SÉRGIO REIS: Violeiros e índios, 111 FABIO MECHETTI: Avô, filho e neto, 115 TAVINHO PAES: Peru de fora dá palpite, 119 DARIO BUENO: O divulgador do centenário, 123 ALFREDO MESQUITA: E o início do teatro moderno, 127 NIZA DE CASTRO TANK: Lágrimas de crocodilo e dueto com um gato, 131 PELÉ: No Municipal, não existe a palavra “não”, 135 ISABELLA INFANTINE: Foi preciso ficar amiga do segurança, 139 THEREZINHA BORGES: O fim do glamour, 141 ALEX PERISCINOTO: E as vitrines da loja da frente, 143 EDISON MARINHO: Guarda do Municipal se apaixonou – pela música, 147 CONRADO SORGENICHT: O clã dos vidros, 149 ANTONIO CANDIDO: E o manifesto proibido, 153 JACY GUARANY: Respeito à música, 157 ARMANDO BELARDI: Traduziu O guarani – e o apresentou para o mundo todo, 159 OTACÍLIO JOSÉ RODRIGUES: Táxi no Municipal, 163 JOSÉ ERMÍRIO DE MORAES FILHO: Vaquinhas, 167 MOISÉS MIGUEL: Colecionador, 169 BENIAMINO GIGLI: Parou a missa, 173 6 Livro Teatro Municipal.indd 6 06/08/2013 11:59:44
  • 7. SUMÁRIO GEORGES HENRY: No Municipal, rumba cubana, 177 PAULO LUÍS FERREIRA: O fotógrafo de postais, 181 CRISTIANO MASCARO: Mudança de vida, 183 MIRIAM TUCCI PASTORINO: O tour da restauração, 187 ALCINO DA SILVA: Um sonho: assistir à ópera, 189 RICARDO PERES: O pianista voador, 191 EDUARDO MORAES DANTAS: Ele queria reformar o Municipal, 193 TOMMASO FERRARA: Um empreiteiro italiano, 195 PELÁGGIO LOBO: Dentro do teatro em obras, 197 EUGENIA ZERBINI: De mãe para filha, 199 FERNANDO FIGUEIREDO: A posse, 201 VITÃO: Um performer das antigas, 203 JORGE FERREIRA SILVA: “Tudo o que sei, aprendi ali”, 205 ARLINDO DE SOUZA: Assombrações, 209 FERNANDO MEIRELLES: De vanguardista picareta a caça-fantasmas, 213 NAZARETH PRADO: A causadora da Semana de 22, 215 BOB WILSON: Doze horas, 217 TOMIE OHTAKE: Teatro é o Municipal, 219 IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO: O cheiro do teatro, 221 MÁRIO CHAMIE: De Mário para Mário, 223 MÁRIO DE ANDRADE: “Acabemos com essa falsificação ridícula”, 227 MAGDALENA TAGLIAFERRO: A professora, 231 AMILTON GODOY: A primeira vez, 233 EVA WILMA: E os porteiros amigos, 235 SALVADOR CORVINO: Ciumento, 239 CLAUDIO ROSSI: Amigo do prefeito, 243 BESSÃO: E o concurso da pichação, 249 HEITOR CARVALHO JORGE: Na Wikipédia, o Theatro Municipal, 251 DOMIZIANO ROSSI: Delicados desenhos do arquiteto “terrível”, 255 JÚLIO MEDAGLIA: Do violino da empregada aos palcos, 257 SANDRO BORELLI: Estreias, 261 7 Livro Teatro Municipal.indd 7 06/08/2013 11:59:44
  • 8. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS CLAUDIO WILLER: A arte transgressora invadiu o templo da erudição, 265 IVALD GRANATO: O anjo louco da poesia, 269 ALCÂNTARA MACHADO: Defende o povo operário e a música brasileira, 271 MANOEL CARLOS: Para entrar de graça, batia palmas, 275 MARIA ADELAIDE AMARAL: E o caderno da memória, 277 ANGELA DE BUARQUE BORGES: Os músicos tinham fome, 283 EMÍLIO KALIL: Municipal é do povo, 287 MARCOS ARBAITMAN: Entre Kalil e Calil, 291 CARLOS AUGUSTO CALIL: O secretário do centenário, 293 JORGE AMERICANO: O memorialista das antigas, testemunha da inauguração, 297 HILÁRIO TÁCITO: E Madame Pommery, no Bar do Municipal, 301 ANITA MALFATTI: Teatro cheio até as torrinhas, 305 ISADORA DUNCAN: Amiga de Anita, 309 MARIA PRESTES MAIA: Por trás da política, 313 TIAZINHA: Bailarina clássica, 317 SÉRGIO CASOY: Órfão do Municipal, 321 LIVIO TRAGTENBERG: Regente do caos, 323 GILBERTO TINETTI: O pianista solitário, 325 VICTOR BRECHERET: Mais de 9 mil quilômetros de distância, 327 ANTONIO PRADO: Sacode a poeira, 331 ROSA CORVINO: Em casa, 335 Referências bibliográficas, 341 Índice onomástico, 349 Pessoas entrevistadas, 359 Algumas palavras finais, 363 Sobre os autores, 365 8 Livro Teatro Municipal.indd 8 06/08/2013 11:59:44
  • 9. NOTA DO EDITOR Inaugurado em 1911, o Theatro Municipal de São Paulo foi projetado pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo para receber, sobretudo, espetáculos de ópera, e seu desenho foi inspirado nas linhas de um dos mais célebres teatros do mundo, o Ópera de Paris. Ao longo de pouco mais de cem anos de existência, seu palco foi ocupado por grandes companhias de ópera e de dança, tanto nacionais como internacionais, além de abrigar espetáculos de música orquestral, música de câmara, canto lírico e de grandes solistas da música erudita. A casa, porém, também abriu espaço a manifestações da vanguarda artística e, em diferentes ocasiões, a expressões da sociedade civil em busca de novos rumos para a política do país. Publicado pelo Senac São Paulo, O Theatro Municipal de São Paulo: histórias surpreendentes e casos insólitos narra diversos episódios ligados à história dessa instituição, criando um rico painel em que se cruzam opiniões de atores, músicos, artistas e intelectuais que ali atuaram, por meio do qual o leitor pode apreciar a importância que essa instituição cultural adquiriu desde sua fundação e que se mantém até hoje. 9 Livro Teatro Municipal.indd 9 06/08/2013 11:59:44
  • 10. Livro Teatro Municipal.indd 10 06/08/2013 11:59:44
  • 11. PREFÁCIO Eu era um pirralho nos primeiros anos da década de 1960 quando estive pela primeira vez no Theatro Municipal de São Paulo. Fui levado por meus pais. O programa de todo mês era sagrado: pelo Trem de Aço,1 vindo do Rio de Janeiro com escala em Mogi das Cruzes, chegávamos à Estação Roosevelt. Dali, em uma lotação Lincoln, íamos até a praça do Patriarca, para uma parada na Casa São Nicolau, o paraíso dos brinquedos que nos fazia sonhar. Em seguida à travessia do Viaduto do Chá, com parada obrigatória nas exposições de fotos ou na maquete de ferromodelismo, sempre disponíveis na passagem subterrânea da Xavier de Toledo, alcançávamos a Barão de Itapetininga. A estação seguinte era a Casa Los Angeles, para comprar uma ou outra roupa antes de ir almoçar na Leiteria Americana. Seguia-se um café espresso na Confeitaria Fasano, em tempo para ir à sessão vespertina de um cinema ou teatro. Ao final, o elevador do Mappin rumo ao Salão de Chá. Dali, pouco me lembro – a ansiedade infantil com os brinquedos presenteados deixava passar ao largo os violinistas a permear as mesas em parelha com o pianista de casaca. De novo, o Lincoln Limousine até a Estação Roosevelt, para uma viagem de horas à casa de sempre. Viagem de sono e de sonhos. Esse roteiro me levou pela primeira vez ao Theatro Municipal de São Paulo. Menino, arregalei os olhos com tantos espelhos, corrimãos dourados, 1 Trem de Aço era o apelido do trem Santa Cruz, que fazia o trajeto Rio-São Paulo. 11 Livro Teatro Municipal.indd 11 06/08/2013 11:59:44
  • 12. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS corredores aveludados e portas enceradas. No palco, alegres evoluções de coloridas fantasias. Coisa com jeito de Tatiana Belinky e Júlio Gouveia. Até que... Nos primeiros anos da década de 1970, repórter iniciante, incumbiram-me de cobrir o Baile de Gala do Carnaval de São Paulo. Onde? No Theatro Municipal. Trabalho simples: deveria enviar à redação, por telefone, um único parágrafo para justificar a foto que sairia na edição seguinte. As mulheres vinham fantasiadas ou trajadas para soirée; as máscaras tinham lantejoulas. Os homens estavam de smoking ou summer; as orquestras procuravam animar paulistas circulando em desalinho pela plateia, de onde foram removidas as poltronas. Não entendi muito bem o que se pretendia com aquilo. Mas me deu um nó no coração ver o que estava guardado na memória da infância ser reduzido a um espetáculo de desrespeito ao patrimônio público. Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, dois dos mais brilhantes jornalistas da nova geração, com os quais tenho o privilégio de compartilhar minha trajetória, resgatam com este livro a melhor história do Theatro Municipal de São Paulo. A cada fase de desrespeito, como aquela vivida no Baile de Gala do Carnaval há quarenta anos, costuma suceder um período de glória, como o testemunhado há cinquenta anos. E, em todas as recuperações, há sempre espaço para livros – enaltecendo a obra e esquecendo os autores. Aqui, não: Edison e Vitor Hugo buscaram os responsáveis pela vida dada ao totem da engenharia. O que seria o Theatro Municipal de São Paulo sem as dezenas de protagonistas garimpados entre tantos outros nesses mais de cem anos – os mesmos que fizeram viver cada detalhe imaginado por Ramos de Azevedo, Claudio e Domiziano Rossi! Além desses protagonistas, foram citadas outras centenas de personagens. Por certo, a restauração agora concluída e o brilho devolvido ao Theatro Municipal de São Paulo não serão os últimos. Outros terão de vir para 12 Livro Teatro Municipal.indd 12 06/08/2013 11:59:44
  • 13. PREFÁCIO assegurar a perenização daquilo que foi classificado pelos autores, de forma emblemática, como o maior e mais significativo monumento paulistano. Definitivamente, Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise prestam inestimável serviço à história do nosso Theatro e à memória da gente paulistana. Trabalho de pesquisa histórica aliado à técnica jornalística. Passamos a ser – mais do que leitores – credores desse resgate. francisco ornellas Jornalista, sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo 13 Livro Teatro Municipal.indd 13 06/08/2013 11:59:44
  • 14. Livro Teatro Municipal.indd 14 06/08/2013 11:59:44
  • 15. COMEÇO, MEIO E FIM Este é um livro sobre um teatro e sua gente. Sua origem, seu enredo, sua finalidade. No centro do palco, o Municipal de São Paulo. Ao seu redor, uma centena de personagens. Gente orgulhosa que deixou sua marca no primeiro século do teatro da cidade. Gente orgulhosa que também leva sua marca. Cada um dos personagens aqui retratados tem um papel na história do Municipal – ajudou a erguê-lo, apresentou-se em seu palco, chocou sua plateia, batalhou em seus bastidores, nasceu e renasceu dentro dele. Construiu os cem primeiros anos de sua história. Transformou-o na mais notável casa de cultura de São Paulo. São trajetórias que se conectam – o Theatro às pessoas, as pessoas ao Theatro. Por isso, são histórias também contadas assim: ligadas umas às outras. No fim da narrativa de um personagem, começa sempre a de outro. São trajetórias unidas por meio de pontos em comum. Muitas vezes, de forma surpreendente. Em que a história de uma mulher nua no palco do Municipal estaria ligada à do mais famoso quadrinista brasileiro? Qual é a ligação entre um vereador eleito em um distante 1911 e um dramaturgo que começou a trabalhar mais de meio século mais tarde? São eles próprios que vão contar.22Terminando com quem nele começou. Começando com quem o concluiu. 2 Nesta obra há três tipos de citações: introduzidas com travessão, quando se tratar da fala do personagem-título do capítulo; entre aspas, quando for depoimento de outra pessoas sobre o personagem-título; e em itálico, quando se tratar de anotação ou trecho de livro escrito pelo próprio personagem-título. 15 Livro Teatro Municipal.indd 15 06/08/2013 11:59:44
  • 16. Livro Teatro Municipal.indd 16 06/08/2013 11:59:44
  • 17. RAMOS DE AZEVEDO Ele disse “não, obrigado” Estava tudo planejado: o ilustre arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo, autor do projeto do novíssimo Theatro Municipal de São Paulo, teria um busto de bronze, em tamanho natural, no foyer da casa de espetáculos. Justa homenagem da capital paulista ao criador do que seria seu maior e mais significativo monumento. A exatos dez meses da inauguração do teatro, já orgulhosa do futuro símbolo, a Câmara Municipal propôs o tributo – um reconhecimento “pelo trabalho, pela mais alta competência, pela imaculada honorabilidade” do arquiteto, como defendeu o vereador Augusto Carlos da Silva Telles, autor da proposta, em sessão da Câmara em 12 de novembro de 1910. Os jornais publicaram: Ramos de Azevedo seria imortalizado no salão nobre do novo teatro. Na Câmara, ninguém se opôs. Era certo – o projeto de lei no 60, de 1910, seria aprovado com facilidade. E o doutor Ramos de Azevedo, por causar “grande desvanecimento para a cidade”, receberia homenagem justamente no coração de sua obra maior. Na base do busto, palavras de reverência: Ramos de Azevedo. Homenagem da Municipalidade de São Paulo ao arquiteto deste Theatro. 17 Livro Teatro Municipal.indd 17 06/08/2013 11:59:45
  • 18. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS Mas, uma semana depois da proposta, o inesperado entrou em cena: Ramos de Azevedo negou-se. Dispensou a homenagem. Recusou um busto seu no foyer do Municipal. Jamais chegaria a ver, nos dezoito anos que lhe restavam, uma estátua sua ali. Em 19 de novembro de 1910, o vereador Silva Telles explicou na Câmara a razão da negativa. Ramos de Azevedo lhe enviara uma carta – fazia-o “com delicadeza verdadeiramente elevada”, que também revelava “um espírito eminentemente elevado”. Negara a homenagem em nome da lealdade. – Seria a mais honrosa consagração aos meus esforços. Entretanto, há algumas considerações ditadas por deveres de lealdade que não devo calar. A edificação foi executada em harmoniosa colaboração com os meus devotados companheiros, senhores arquitetos Claudio e Domiziano Rossi, comigo signatários do contrato das obras. Todo o trabalho foi conjunto. Ramos de Azevedo, homem de notório saber, contratado sem concorrência pelo prefeito Antonio Prado, chefiava e supervisionava o projeto e a obra. Mas a empreitada era grande demais para um só homem. Ao cenarista Claudio Rossi, couberam o primeiro esboço do que seria o edifício e a compra na Europa de todos os equipamentos internos. Domiziano Rossi (eles não eram parentes, apesar do mesmo sobrenome) transformou o que era um belo desenho em centenas de projetos de cada detalhe do teatro. Apontado como um profissional que “admirava e proclamava os méritos das obras daqueles em quem reconhecia talentos, devoção profissional e probidade” – nas palavras do amigo jornalista e advogado Pelágio Lobo –, Ramos não poderia aceitar sozinho a homenagem. Não era de sua índole ignorar o trabalho de colaboradores. – Como aceitar a situação de destaque a que me conduziria a manifestação proposta? A sua expressão, que é a de justiça, não corresponderia ao sentimento que anima o meu amigo [Silva Telles] e os dignos colegas que o acompanham. Não desdenhando a honra que me é oferecida, só me seria grato aceitá-la ao lado dos meus companheiros. 18 Livro Teatro Municipal.indd 18 06/08/2013 11:59:45
  • 19. Ramos de Azevedo Assim, ressaltando o “elevado caráter” de Ramos de Azevedo – a quem o vereador Silva Telles dedicava “amizade verdadeiramente fraternal desde a infância” –, a Câmara recuou, e em seguida propôs novo projeto – que, agora, sim, incluía o nome de Claudio e Domiziano Rossi nos dizeres da placa. Homenagem da Municipalidade de São Paulo ao arquiteto deste Theatro e aos seus colaboradores – Claudio e Domiziano Rossi. A reação de Ramos à tentativa de homenageá-lo revela um homem reservado e, como ressaltavam amigos e colaboradores, com a virtude de reconhecer qualidades alheias: “Afivelava ao rosto máscara de austeridade concentrada e grave, que lhe deu sempre certo ar de indiferença. Debaixo dessa máscara impassível, a sua alma, boa, pura, vibrava com as vibrações dos outros”, descreveu o engenheiro Alexandre D’Alessandro, aluno de Ramos. “Sabia estimular os méritos dos recomendados, fazendo deles companheiros, sócios, confidentes”, definiu Pelágio Lobo, que continua: “Companheiros e amigos passavam a ser os mais veementes pregoeiros das suas virtudes e os mais devotados dos seus colaboradores”. O projeto do busto em homenagem ao trio de construtores voltou à Câmara, mas ficou no papel. Novas polêmicas surgiram – qual espetáculo inauguraria o teatro, quem teria acesso aos convites vendidos, para que conceder novos custos ao valor da obra –, e a discussão sobre a homenagem deixou de existir. Ao final da obra, uma pequena inscrição foi gravada na fachada do teatro, citando Ramos de Azevedo e, sem distinguir um de outro, “Claudius Domitianusque Rossius” como arquitetos do teatro. O busto que celebraria o trabalho conjunto não passou de projeto de lei. Para tão eminente homem, não deve ter feito diferença: Ramos de Azevedo logo foi convidado a fazer parte da comissão de inauguração do Municipal e, ainda em 1910, sua equipe emendou outro projeto, do Palácio das Indústrias, no Parque Dom Pedro II. Na noite de abertura do Municipal, 19 Livro Teatro Municipal.indd 19 06/08/2013 11:59:45
  • 20. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS 12 de setembro de 1911, assistiu à apresentação dos artistas que ajudara a escolher – Titta Ruffo e sua companhia –, de um dos camarotes do primeiro andar, ao lado de notáveis como o banqueiro Numa de Oliveira, o acadêmico Alfredo Pujol e o empresário Ernesto de Castro. Nessa data, o arquiteto tinha 59 anos. A ideia de homenagear Ramos de Azevedo no Municipal só voltou a aparecer em 1928, quando ele não poderia mais opinar: em 8 de dezembro daquele ano, seis meses depois de sua morte, um busto do arquiteto foi finalmente inaugurado no Municipal. No ano do centenário da obra, a representação de seu semblante continuava lá, solenemente disposta no quinto andar do teatro, ao lado de seis outros notáveis. Claudio e Domiziano Rossi não estão entre eles – sem que o patrão pudesse defendê-los, os outros dois responsáveis pelo projeto do Municipal acabaram ficando de fora. Mesmo sem nunca ter visto o tributo, Ramos não pode ser acusado de tê-lo negado por desdém. Um detalhe pessoal demonstra o valor que o arquiteto atribuía à obra do teatro. Em 1904, ele construiu um prédio anexo à sua casa, na rua Pirapitingui, no bairro paulistano da Liberdade. Abrigaria ali seu escritório e, para decorá-lo, encomendou um vitral no qual retrata a musa da Arquitetura. Jogada aos pés da musa, ao lado de um esquadro, está uma prancheta – nela, um esboço indisfarçável: o Municipal. Entre as tantas obras que construiu em São Paulo, foi a do Theatro Municipal que Ramos de Azevedo levou para dentro de casa. Não o julgava apenas como mais um projeto, como uma obra comum. O teatro era especial. 20 Livro Teatro Municipal.indd 20 06/08/2013 11:59:45
  • 21. ELEAZAR DE CARVALHO Futebol, jovens e reinaugurações – Atuar no Municipal é como vestir a camisa da seleção brasileira e ganhar de goleada. Não importa qual foi o jogo ou o espetáculo, o que importa é a seleção. Grande divulgador da obra de Villa-Lobos na Europa e nos Estados Unidos, o maestro Eleazar de Carvalho era um apaixonado pelo teatro. E por futebol. Em 1975, aos 63 anos, foi no Municipal que ele regeu a apresentação de Santos Football Music, peça de vanguarda composta por Gilberto Mendes, talvez a única obra sinfônica do mundo que homenageia um time. Santos Football Music foi composta em homenagem à grande equipe santista de Pelé, Coutinho, Pepe e companhia. Mendes nem é dos maiores fãs do esporte, mas inspirou-se quando descia a serra e ouviu a narração de uma partida no rádio de seu carro. No espetáculo, o público é comandado pelo maestro e se comporta como torcida em estádio. A voz de um locutor esportivo, gravada e narrando jogadas inesquecíveis, alterna-se com a música e a vibração da “torcida”. Eleazar caprichou na regência. Sem se desconcentrar da batuta, ele cabeceava a bola para os bastidores ao fim da peça. Inesquecível para amantes da cultura e do esporte. 21 Livro Teatro Municipal.indd 21 06/08/2013 11:59:45
  • 22. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS A ligação do maestro com o Municipal, entretanto, já era antiga. Ele começou a atuar ali nos anos 1940, regendo um ciclo de Beethoven. E o fato de, como maestro, ter reinaugurado o local após duas de suas grandes reformas – em 1955 e em 1988 – enchia-o de orgulho, talvez até mais do que ter estado à frente de importantíssimas orquestras do mundo, como as filarmônicas de Viena e de Berlim. – Já sou o reinaugurador tradicional deste teatro. Em 1955, foi com a ópera Lo Schiavo, de Carlos Gomes, que foi muito aplaudida, com elenco internacional e casa cheia. No mesmo ano, o maestro participou do movimento Juventudes Musicais, que por uma semana reuniu no Municipal mais de 100 mil moços e moças – com uma programação de concertos feitos e explicados para os estudantes. Cinco anos mais tarde, o evento se repetiu. – Foi quando eu trouxe para cá representantes da música internacional contemporânea. Entre eles, o italiano Luciano Berio, o grego Xenakis, o belga Henri Pousseur. Não era a primeira vez que se apresentava música contemporânea no Brasil, mas naquela ocasião a coisa foi mais organizada. Um dos concertos provocou uma reação curiosa na plateia. Xenakis tinha duas orquestras ao seu dispor e um placar eletrônico, no qual se apertava um número de um a dez. Os músicos, então, tocavam a peça correspondente ao número. Um grupo de quatro rapazes da plateia decidiu se manifestar: – Houve uma reação curiosa, mas até esperada. Entre comentários e manifestações, eles se levantaram e, em protesto, começaram a cantar uma canção que na época estava em moda, que se chamava qualquer coisa como Chiquita Bacana. Era como se, de repente, cantassem num concerto Mamãe, eu quero mamar. Eleazar mandou parar o espetáculo e convidou-os ao palco. Deixou-os cantar, e, em seguida, retomou a apresentação. Na reabertura de 1988, o maestro regeu Trompetes voluntários, do inglês Purcell. Depois, Tchaikovsky, Beethoven... Na plateia, repleta de figurões, estavam o prefeito Jânio Quadros e o presidente José Sarney. 22 Livro Teatro Municipal.indd 22 06/08/2013 11:59:45
  • 23. Eleazar de Carvalho Retornar à velha casa, para Eleazar, sempre tinha sabor especial. Como regente, pisou aquele palco mais de duzentas vezes durante a carreira – ele morreu em 1996. Mas seus trabalhos não se limitaram ao palco. Em 1974 e 1975, acompanhou o dia a dia do Municipal, ocupando ali o posto de diretor. Ele resumia o período com um pensamento cheio de sabedoria, uma lição aos seus sucessores: “Geralmente, não existem problemas para quem dirige, mas, sim, soluções. Quem se preocupa com os problemas não dirige nada”. 23 Livro Teatro Municipal.indd 23 06/08/2013 11:59:45
  • 24. Livro Teatro Municipal.indd 24 06/08/2013 11:59:45
  • 25. LUCIANO CERRI Salvou a história do lixo Da amarga falência, uma grande oportunidade. A empresa em que Luciano Cerri trabalhava fechou, e o produtor cultural foi parar na rua. E agora, rapaz? Ficou sem emprego, caiu do cavalo – vai desistir? Mas Cerri viu no problema um desafio – e até mais do que isso. Ele encontrou ali uma nova missão de vida. Em 1973, a Publicidade Ribeiro, empresa que imprimia os programas do Municipal desde 1914, declarou falência. Foi fechada. Por semanas, caixas e caixas dos livretos que indicavam os espetáculos do teatro ao longo de sessenta anos ficaram largadas no prédio vazio. Já eram tratadas como entulho. Dezenas de caixas de papelão, com milhares de programas, acabariam no lixo. Luciano Cerri pediu e conseguiu. – Os proprietários não sabiam o que fazer com todos aqueles papéis. Corri e guardei-os comigo. Não sabia exatamente o que fazer com eles, mas não pude admitir que parte da história da cidade fosse jogada fora. Cerri levou algum tempo para perceber o que tinha em mãos. Dezenas de revistas, centenas de programas e quase 7 mil fotografias – era claro que tinha de virar livro. Eis a missão que o produtor, amante de óperas e 25 Livro Teatro Municipal.indd 25 06/08/2013 11:59:45
  • 26. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS orquestras, que tinha o inesperado título de “comendador”, arranjou quando salvou da lata do lixo a história do Municipal. Iria “imortalizar” aquilo tudo em livro. – Será uma verdadeira ata da vida teatral de São Paulo. São documentos que contam toda a história do teatro. Desde o primeiro programa. Década a década, o livro vai mostrar um lado fértil da sociedade paulistana. Resgatará a memória cultural e artística da cidade. Cerri criou o título Palco e plateia da sociedade paulistana, catalogou programas e fotos e, segundo afirmou, consultou museólogos, arquitetos, historiadores. Queria escrever o mais completo livro já publicado sobre o Municipal. Sempre falou do projeto com esperança – mesmo quando começou a se deparar com a falta de patrocínio. 1986: o Theatro Municipal comemora 75 anos. E Cerri anuncia que o livro sairá até o fim do ano. 1988: termina a reforma no teatro: “Agora vai” – é a época ideal para lançar o livro. 1991: octogésimo aniversário da casa. E lá foi Cerri mostrar novamente o projeto para a imprensa. Mas nada de conseguir patrocínio. O produtor idealizou o livro cronologicamente, sendo os principais acontecimentos divididos por década, sempre a partir dos programas que salvara. Nos anos 1910, falaria da inauguração; em 1920, da Semana de Arte Moderna de 1922; 1930, dos bailes de carnaval no teatro; 1940, do Municipal em tempos de guerra... era uma boa ideia. Mas o livro de Cerri nunca saiu. Não enquanto viveu. Em 1998, aquele homem que cultivava a tradição morreu sem ver a obra publicada. Deixou o projeto pronto – no ano do centenário, foi lançado pelos familiares que herdaram o material; dessa vez, finalmente com patrocínio. Quem levou a cabo o projeto de Cerri foi a jornalista e pesquisadora Márcia Camargos. Se havia algo nessa história toda, porém, que amenizava a frustração do produtor – e isso ele repetia sempre à família –, era a chance de participar 26 Livro Teatro Municipal.indd 26 06/08/2013 11:59:45
  • 27. Luciano Cerri da criação do Museu do Theatro Municipal, inaugurado em 1983 nos baixos do Viaduto do Chá. O comendador dizia que, no momento em que o livro finalmente fosse publicado, as dezenas e dezenas de caixas que salvou reforçariam o acervo do museu, criado por decreto em 1968, mas que demorara quinze anos para sair do papel. Programas que estampam gravuras criadas por Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Candido Portinari, Anita Malfatti, Clóvis Graciano, Lasar Segall; fotografias dos primeiros sessenta anos do Theatro Municipal – tudo isso está a salvo, guardado e catalogado. Por seus próprios méritos. Certamente, a missão foi cumprida. 27 Livro Teatro Municipal.indd 27 06/08/2013 11:59:45
  • 28. Livro Teatro Municipal.indd 28 06/08/2013 11:59:45
  • 29. DIOGO PACHECO Guerra de bolotas contra o maestro pop Música contemporânea no Municipal. E, para piorar, de improviso. Diogo Pacheco, maestro de espetáculos alternativos, acenava com uma nota qualquer e a orquestra entrava com o que desse na telha. Os puristas, claro, remexiam quadris nas cadeiras do teatro – pés inquietos, mãos nervosas amassando os programas do concerto. O maestro deu um dó maior. E o pianista – não! – começou a tocar Mozart. “Não toquem no meu Mozart!”, bradou, irada, uma espectadora tradicionalista. Ela segurava entre as mãos o que fora um programa do concerto – transformado em uma grande bolota de papel. A sala de espetáculos do teatro virou campo de batalha. Uma saraivada de bolotas cruzou a plateia, atingindo em cheio maestro e músicos. Contra-ataque: rompendo qualquer protocolo, jovens espectadores saltaram das cadeiras e invadiram o palco. Lá de cima, veio uma chuva de bolotas na “velharada”, nos “caretões”. E a orquestra seguiu firme: sonata de Mozart sem trégua! – Foi o espetáculo mais fantástico do Municipal. Os jovens gostavam muito e aplaudiam. Já os tradicionais não gostavam. Foi uma guerra de 29 Livro Teatro Municipal.indd 29 06/08/2013 11:59:45
  • 30. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS bolotas interessantíssima. Fui muito vaiado, mas acho que fiz muita coisa importante. O concerto Ouviver a Música, de Willy Corrêa de Oliveira, em 1965, foi apenas um entre tantos espetáculos não ortodoxos que o maestro Diogo Pacheco – tão popular que era “mais conhecido pela frente do que pelas costas”, coisa rara em sua classe – promoveu no Municipal. E apenas mais um que acabou em vaias. Diogo Pacheco preza a divulgação da música. Do jeito que for. De 1971 a 1972, como diretor artístico da Secretaria da Cultura, tinha liberdade total para criar: fez com que um tenor descesse de balão entre mocinhas assanhadas em Il Matrimonio Segreto (Domenico Cimarosa), levou o Coral Lírico para o fosso da orquestra em L’Elisir D’Amore (Gaetano Donizetti) e transportou o enredo de I Pagliacci (Ruggero Leoncavallo), que originalmente se passa na Calábria, para a nada pacata marginal do Tietê. Os habitués novamente espernearam. Vaiaram-no como nunca, exigiram sua saída da secretaria. Para quem prezava a tradição, não deveria mesmo ser fácil aceitar as promoções de Diogo Pacheco. Em 1964, o maestro de 39 anos quis trazer uma cantora de MPB para interpretar Villa-Lobos. Elizeth Cardoso, “A divina”, foi convocada para cantar no Municipal. Justo ela, que nunca havia cantado música erudita, entoaria as Bachianas Brasileiras no 5. Isso rendeu uma polêmica enorme – e também uma inesquecível união entre erudito e popular, algo raramente visto pelo público paulistano. Pacheco relembra: – Pouca gente sabia que essa peça é baseada em um texto de Manuel Bandeira, sobre passarinhos. E ninguém nunca entendeu. Porque cantor erudito está mais preocupado com a voz do que com o texto que canta. Mas uma cantora popular teria a capacidade de transmitir o texto. Naquela época, a Elizeth Cardoso era a maior cantora de música popular. Eu a convidei, e já no primeiro ensaio soltou a voz. “Irerê meu passarinho do sertão do Cariri. E ele é meu companheiro...” 30 Livro Teatro Municipal.indd 30 06/08/2013 11:59:45
  • 31. Diogo Pacheco – Foi a coisa mais bonita que fiz na minha vida. O Flávio [Rangel, diretor] fez uma coisa incrível e linda: ele fez a Elizeth entrar toda de branco com uma rosa vermelha na mão. Ela avançou e me entregou a rosa. Regi com a rosa na mão em vez da batuta. Foi muito bonito. Exuberante e polêmico, Diogo Pacheco cultivou uma legião de amigos e admiradores ao longo da carreira, mas também diversos inimigos. Audácias como Elizeth Cardoso no Municipal, acredita o maestro, trouxeram-lhe até problemas políticos. – Chegaram a dizer que, por causa desse atrevimento de ter levado o povo ao Municipal, eu estava registrado no DOI-CODI [órgão de repressão dos anos de chumbo] como subversivo. Mas o que me interessava era divulgar Villa-Lobos. Se depois desse concerto, apenas uma pessoa que nunca tinha ido ao Municipal voltasse ao teatro, a parada estava ganha. Desde que estreou na regência da Orquestra Sinfônica Municipal, na década de 1960, Diogo Pacheco calcula ter regido mais de mil concertos – grande parte no Theatro Municipal – e também levou suas inovadoras apresentações a estádios, praças e até a boates de todo o país. Um dos regentes mais conhecidos de sua época, Diogo Pacheco virou sinônimo de maestro, especialmente por causa de programas na Rádio Eldorado, na rede Globo e na TV Cultura. Durante boa parte da carreira, foi visto como grande entertainer, espécie de regente pop que gostava de conversar com o público e explicar o que havia apresentado. E também se dedicou a ensinar. – Me orgulho de ter lecionado no Senai da rua do Manifesto, no bairro do Ipiranga. Eu formei um coral com estudantes e operários metalúrgicos. Repito: um coral de estudantes e metalúrgicos! Anos mais tarde, veio-lhe a curiosidade. Será que haveria um metalúrgico mais, digamos, “conhecido”, entre seus alunos daquela época? – Até fiz uma pesquisa para ver se estava entre os meus cantores. Mas ele não poderia cantar com aquela voz. 31 Livro Teatro Municipal.indd 31 06/08/2013 11:59:45
  • 32. Livro Teatro Municipal.indd 32 06/08/2013 11:59:45
  • 33. LULA Condenou os generais Em 1983, a caminho do fim da ditadura militar, o Municipal de São Paulo foi transformado em tribunal. No banco dos réus, o regime vigente. Faixas e cartazes nas galerias indicavam em maiúsculas a direção do clamor popular: “Sou contra! Hora do Povo!”. Do palco do teatro, ressoavam palavras fortes – abuso, injustiça, tortura e morte. O Municipal foi o lugar escolhido para um julgamento simbólico da Lei de Segurança Nacional, decreto militar de 1969 que impedia o direito à oposição no Brasil. Quatorze anos depois da publicação da lei, em evento batizado de Tribunal Tiradentes, 2 mil pessoas lotaram o Municipal para protestar. Entre as seis testemunhas que prestariam depoimento – torturados, presos políticos, trabalhadores –, ninguém foi mais aplaudido que um homem barbudo, de calça jeans e camisa listrada azul e branca, que subiu correndo da plateia ao palco do teatro. Microfone em punho, tentou falar. Foi interrompido pelos gritos da multidão. “Lula! Lula! Lula!” Aos poucos, a plateia silenciou. Muito calmo, Luiz Inácio Lula da Silva, representante dos trabalhadores urbanos do país naquele tribunal, explicou por que acreditava que a lei deveria ser “condenada” pelo simbólico júri. – Antes da Lei da Segurança Nacional, eu era torneiro mecânico na Villares e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do 33 Livro Teatro Municipal.indd 33 06/08/2013 11:59:45
  • 34. O THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO: HISTÓRIAS SURPREENDENTES E CASOS INSÓLITOS Campo. Depois, perdi as duas condições. Aconteceu não apenas comigo, mas com muitos outros companheiros. Sob o pretexto de proteger o Estado contra “inimigos internos e externos”, a Lei de Segurança exterminava liberdades individuais. Trabalhadores foram presos e condenados pela Justiça por participar de manifestações, mesmo em tempos de abertura política. A sociedade não suportava mais aquilo. Lula conta: – Fizemos greves e trabalhadores conheceram o dissabor da Lei de Segurança Nacional. E o que é absurdo em tudo isso é que os conflitos que existem neste país, sejam na área urbana ou rural, nunca levaram um grande empresário, um grande latifundiário do norte do país, a ser enquadrado na Lei de Segurança. Os trabalhadores é que foram enquadrados. Foi o mais aplaudido de uma noite em que o Theatro Municipal foi cenário de histórias tristes. Diante de relatos de tortura com choque elétrico, desaparecimento e assassinato de estudantes, o senador Teotônio Vilela, que presidia o tribunal, não precisou nem bater martelo. “A Lei de Segurança Nacional está condenada. Agora, vamos executar nossa tarefa de cidadãos, vamos tirá-la do nosso ambiente e jogá-la no lixo. Vamos julgar com a LSN aqueles que nos oprimem. Pela paz e pela justiça.” Também foi aplaudidíssimo. O Tribunal Tiradentes fez parte de um movimento nacional organizado em São Paulo pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Subiram ao palco do Municipal: Márcio Thomaz Bastos (promotor de acusação), Luiz Eduardo Greenhalgh (que lutava para libertar perseguidos políticos, mas aceitou o “ingrato papel” de advogado de defesa da LSN) e Goffredo da Silva Telles Junior, como jurado. Outro integrante do júri foi Hélio Bicudo, advogado e jurista, defensor dos direitos humanos. “Queríamos algo que empolgasse o povo. E o Tribunal Tiradentes, uma homenagem ao primeiro mártir da liberdade do país, conseguiu encher o teatro. Franqueamos a casa para falar do que estava afligindo a população”, contou Bicudo. 34 Livro Teatro Municipal.indd 34 06/08/2013 11:59:45

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