Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística
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Iniciação Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística tem como objetivos principais: publicar artigos originais que apresentem resultados relevantes de pesquisas e desenvolvimentos realizados por alunos do ensino técnico ou superior, propiciar debate entre autores e leitores para o desenvolvimento do conhecimento nas áreas de pesquisa, além de contribuir com a formação acadêmica, científica e profissional de alunos de Iniciação Científica.

Publicação Científica do Centro Universitário Senac - ISSN 2179-474X

Confira a Edição Temática de Cultura e Comportamento na íntegra!

http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistainiciacao/?page_id=13

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Revista Iniciação Vol. 4 nº 1 Ano 2014

  1. 1. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Cultura e Comportamento Vol. 4 no 1 - Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179474 X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Editorial Quando fui convidado a assumir e reformular a Revista Iniciação decidi dar um passo ousado, aumentando sua periodicidade de uma edição anual para cinco. Aparentemente um contrassenso, dada a dificuldade que já tínhamos para completar uma edição anual, a estratégia está sendo bem-sucedida. Com edições temáticas e coeditores especializados (na verdade coeditoras, pois tenho o privilégio de ser o único representante masculino no comitê editorial), a revista ganhou foco e dinamismo. O retorno que estamos tendo, tanto em submissões quanto em repercussão, nos mostra estarmos no caminho certo. Outro ponto a destacar é a qualidade dos artigos científicos escritos por jovens universitários, como o leitor poderá comprovar nesta edição dedica a Cultura e Comportamento e nas demais edições deste periódico. Isso nos mostra que os programas de iniciação científica, hoje presentes em todas as instituições de ensino brasileira de qualidade, estão trazendo resultados positivos para a Ciência nacional. Mas não apenas a Ciência se beneficia. A sociedade como um todo recebe profissionais mais bem qualificados, com competência para investigar e criar, além dos próprios resultados das pesquisas e desenvolvimentos produzidos por esses jovens cientistas, artistas e profissionais. Deixo aqui meus agradecimentos e cumprimentos à coeditora desta edição, Profa. Dra. Maria Eduarda Araújo Guimarães, aos revisores que avaliaram os artigos com competência e primor e à equipe de produção, pelo cuidado e capricho que dedicaram a todas as etapas que possibilitaram chegarmos a mais uma edição impecável. Por fim agradeço e parabenizo autores, e respectivos orientadores, pelos trabalhos de destaque que realizaram e por decidirem compartilhar seus resultados e conhecimentos. Boa leitura! Romero Tori Editor
  2. 2. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Cultura e Comportamento Vol. 4 no 1 - Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179474 X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Apresentação do Dossiê Caros Leitores, Ao aceitarmos o desafio de publicar uma revista inteiramente dedicada à produção discente, não tínhamos a dimensão da diversidade e qualidade dos trabalhos que encontraríamos. É muito gratificante como editora, mas principalmente como docente e pesquisadora, poder conhecer o trabalho feito por nossos jovens pesquisadores em todo o Brasil. Esta edição apresenta uma diversidade temática que vai da arte à moda, do corpo à educação, pois em um recorte tão amplo como o que nos propusemos a fazer com o tema Cultura e Comportamento, não poderíamos ter um resultado diferente. Quero aproveitar também este espaço para convidar a todos aqueles que se dedicam à pesquisa nessa área, seja em iniciação científica ou em seus trabalhos de conclusão de curso, para contribuírem com as nossas futuras edições, pois nosso intuito é continuar e fortalecer a divulgação do pesquisa científica produzidas pelos alunos e seus orientadores. Nosso especial agradecimento aos autores desta edição, seus orientadores e todos os avaliadores que nos ajudaram na tarefa de produzir o presente número da Iniciação, Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística. Quero agradecer ao Professor Dr. Romero Tori, editor da revista, que ao me convidar para participar como coeditora desta edição me brindou com o presente de poder conhecer e contribuir com a divulgação de tantos trabalhos de qualidade e também à toda a equipe da revista, em especial à Anielly Rosa, nossa secretária executiva, sem a qual não teríamos condições de realizar esta edição. Desejo a todos uma ótima leitura. Maria Eduarda Araujo Guimarães
  3. 3. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Cultura e Comportamento Vol. 4 no 1 - Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179474 X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br A VIA LÁCTEA E URBANIA: A Subjetividade Imersa na Metrópole Voraz, Incessante e Multifacetada A VIA LÁCTEA AND URBANIA: Subjectivity Immersed in the Greedy, Incessant and Multifaceted Metropolis Heloísa Pimentel Ravache Centro Universitário SENAC Bacharelado em Audiovisual helopr@gmail.com Artigo resultante do projeto de Iniciação Científica PAULICÉIA AUDIOVISUAL: Olhares Particulares sobre uma Cidade Multifacetada, orientado pela Profa . Ms. Nanci Rodrigues Barbosa. Resumo. A partir de textos que investigam questões artísticas, culturais e históricas inerentes à cidade de São Paulo, o presente artigo destrincha sua representação nas obras Urbania e A Via Láctea, ambas correspondentes ao período da Retomada do cinema brasileiro. Analisa a cidade retratada não apenas cenograficamente, mas também como participante ativa dos respectivos processos de construção narrativa. Desta forma, identifica em cada obra a existência de elementos específicos de São Paulo, que a diferencie de outras metrópoles e a torne imediatamente reconhecível em suas representações audiovisuais, dentre eles seu caráter multimidiático. Além disso, outras questões específicas aos filmes analisados, como a memória, a realização romântica em contraste com a iminência de morte, os limites entre ficção e documentário, bem como outras relações espaço-temporais, também se demonstram pertinentes, ao se levar em consideração que representam, nos filmes, a cidade sob as perspectivas subjetivas de seus respectivos protagonistas. Palavras-chave: São Paulo, Cidades, Cinema, Retomada, Audiovisual. Abstract. Starting from theoretical texts that investigate artistic, cultural and historical issues inherent in the city of Sao Paulo, this article details its representation in the works Urbania and A Via Láctea (“The Milky Way”), both produced during the Brazilian Cinema’s Resumption. It analyzes the city portrayed not only scenographically, but also as an active participant of the respective processes of narrative constructions. Thus, it also identifies in each work the existence of specific elements of Sao Paulo, that differentiates it from other metropolises and made it instantly recognizable in its visual representations, including its multimedia character. In addition, other issues which are specific to the analyzed films, such as memory, romantic accomplishment in contrast to the death’s threat, the boundaries between fiction and documentary, as well as spatiotemporal issues, became relevant to notice how the city, in the movies, is represented according to the subjective perspectives of their respective protagonists. Key words: Sao Paulo, Cities, Brazilian Cinema, Resumption, Audio-Visual.
  4. 4. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 2 1. Introdução A cidade de São Paulo, justamente por sua complexidade artística que alia influências culturais de diversas procedências, desperta o interesse para uma melhor compreensão de seus aspectos. Logo, ela se torna objeto de análise, não somente em várias mídias, como também sob distintos olhares. E, indo além das famigeradas perspectivas política e econômica, interpretações inerentes à visão metropolitana que geralmente se tem deste espaço, também há outras, divergentes tanto nos caminhos pelos quais seguem quanto nos repertórios que lhes deram origem. Aqui se sobressai o olhar subjetivo, possível, sobretudo, através dos vínculos afetivos estabelecidos entre os paulistanos e São Paulo e que, embora aparentemente particulares, também constituem um imaginário coletivo. Primeiramente, com o objetivo de investigar como se organiza conceitualmente o espaço urbano, pode se recorrer ao texto Nossa selva de pedra, de Mariângela Paraizo, que traz reflexões inerentes aos fundamentos de uma cidade cosmopolita. A autora (PARAIZO, 2005, p. 166-167) defende que estes locais se distinguem em duas ideias complementares: a urbe, relativa ao território, e a polis, referente aos códigos éticos, estipulados pela legislação, e morais, subentendidos através de reações cotidianas às mais diversas situações. Especificamente em São Paulo, enquanto o primeiro elemento é conturbado, devido à incessante expansão e constantes mudanças físicas, o segundo confere identidade interna e externa à cidade, mas não necessariamente, como já foi visto, de maneira unificada ou unânime. “Na realidade, o próprio conceito de urbano, em sua virtualidade, estrutura-se como uma linguagem, por possuir um conjunto e uma ordem da mesma natureza que o código linguístico. Nesta maneira de conceber o urbano, entrelaça-se o espaço físico da urbe ao espaço político e moral da polis, sem particularizar a cidade como um território delimitado. (...) Assim, o conceito de urbe – segundo Fuzil de Coulanges, o território sagrado onde se erguia a cidade antiga – engloba o conceito de polis – as regras compartilhadas que lhe conferem organização política e moral – e, por sua vez, desvanece-se, transposto de um lugar no espaço para um lugar no discurso” (PARAIZO, 2005, p. 166) Paraizo (2005, p. 168-169) também aponta, como igualmente fundamental para a constituição do ambiente urbano, a relação primordial entre o espaço e o elemento humano que o ocupa. Esta, em vez de ocorrer harmoniosamente, se dá por conflitos, nos quais se disputam a preponderância de uma das partes sobre a outra. Assim, para que o homem possa obter o status de habitante, ele deve tanto “estar” no lugar – ou seja, sujeito à temporalidade e espacialidade da urbe –, como também na condição de “ser”, que, ao passar pelas disposições, éticas, morais e comportamentais da polis, corrobora a concepção de como estas relações se dão inclusive subjetivamente. “O habitar, então, situa-se ao lado do Logos, que seria justamente ‘a coletividade originária, a que se confere origem e se contém na origem, enquanto essência do próprio ser.’ A relação entre o logos humano e o Logos traduziria a própria essência do habitar, pela maneira com que, guiado por uma ética, o homem situa-se no mundo em que pode vir a ser.” (PARAIZO, 2005, p. 169) O processo de ultrapassar a condição de ocupante para se legitimar como habitante frequentemente envolve deslocamento, forma pela qual os indivíduos estabelecem um contato intimista com aquele ambiente. A perambulação, da tese de doutorado de Marta Moraes Nehring, enfoca as consequências audiovisuais deste fenômeno e investiga algumas narrativas que se desenvolvem tendo como temática básica os
  5. 5. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 3 percursos pelo espaço urbano. Inicialmente, a autora (NEHRING, 2007, p. 86) salienta a escolha do termo “perambular”: este, em oposição a “deambular” (cujas origens etimológicas apontam para uma locomoção desnorteada) se aproximaria mais de seu sentido primordial, de “penetrar” ou caminhar com rumo definido. Este, além de se relacionar, simultaneamente, à já citada saga para se converter em habitante e às buscas pessoais dos protagonistas nos filmes que serão analisados adiante, também evidencia a importância das escolhas cênicas em uma obra, que, assim como devem evocar um repertório de características no imaginário do público para situá-lo naquele espaço, também é encarregada de orientá-lo adequadamente pela progressão narrativa pretendida pela trama. “(...) a diversidade dos locais por onde os protagonistas circulam sinaliza, por parte de quem concebeu o filme, uma grande familiaridade com São Paulo. Indica também, pela variedade de gêneros musicais e de estilos, uma cidade cosmopolita. A representação das grandes metrópoles contemporâneas inclui sua parcela de fascínio pela noção de uma atividade urbana frenética, que percorre as 24 horas do dia – e se tornou um parâmetro para diferenciar a cidade cosmopolita da provinciana.” (NEHRING, 2007, p. 88) Plano em grande-angular de uma São Paulo fugidia, de Rubens Machado Jr., abrange especificamente as representações audiovisuais da cidade. Ao corroborar a ideia do texto anterior e defender que os retratos compõem um mosaico inestimável dos eventos culturais e históricos da metrópole, ele também aponta para a falta de repercussão destes filmes no imaginário do público. “A pujança furiosa que moderniza, arrasando o que é tradicional, foi aqui a tradição que afinal se consagrou. (...) Isso explica a vocação, também no cinema, de predomínio de uma São Paulo recentemente construída – a tradição de filmar o não tradicional e os espaços há pouco erigidos. (...) Conflui nessa imagem a ideia de uma cidade que não para, sempre em obras, a São Paulo do trabalho, que no diz do poeta, ‘destrói e constrói coisas belas’. Esta perpétua renovação mantém a possibilidade de se deparar com o não visto, o não frequentado, ou seja, a possibilidade de exercitar a visão mais voltada para o futuro, esperançosa, e algo exótica.” (MACHADO JÚNIOR, 2008, p. 193) Apesar de inicialmente criticar a pouca visibilidade e a baixa circulação de tais obras, o autor (MACHADO JÚNIOR, 2008, p. 192-193) acaba destacando estes elementos como reverberações do caráter poliformo da cidade, presente na paisagem urbana e nas memórias que tentam reconstruí-la. Especificamente ao tratar dos filmes realizados após a Retomada (MACHADO JÚNIOR, 2008, p. 196), outros dois fatores contribuem para agravar este quadro: a falta de um rumo unificador para as produções paulistanas do período e a atual impossibilidade de um olhar historicamente distanciado. Tendo todas estas questões em vista, a seguir serão analisadas as obras Urbania (dirigida por Flavio Frederico, 2001) e A Via Láctea (dirigida por Lina Chamie, 2006), ambas correspondentes ao período pós-Retomada. Dos aspectos aqui elencados, investigar-se-ão como se dá a perambulação pelo território da cidade, qual é a relação entre o paulistano e seu habitat e se é possível, apesar das dificuldades, apontar para a formação de uma memória audiovisual mais consolidada, principalmente no cinema mais recente. A estes filmes, está intimamente ligada a representação de várias localidades que identificam São Paulo, como o Viaduto Santa Ifigênia, o Teatro Oficina, o Teatro Municipal, a Torre do Banespa, a Estação da Luz, a Avenida Paulista, a Praça da Sé e a Marginal Pinheiros, levando em conta as diferentes nuances narrativas e divergências de trajetos às quais estão submetidas em cada caso particular.
  6. 6. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 4 2. Subjetividade, Tempo e Memória Além de ter São Paulo como temática básica, estes dois filmes também convergem em alguns subtemas e conceitos estéticos. Ao desenrolar da trama, torna-se perceptível a influência da subjetividade dos respectivos protagonistas, de suas memórias, da passagem do tempo e de outros elementos próximos para a construção narrativa de ambas as obras. Ainda, a presença de subtramas como a realização amorosa e a iminência da morte, se comparadas à questão da cidade e do paulistano, contribuem para um aprimoramento da discussão. Em Urbania, temos a história de Seu Edmundo, um paulistano que, entre os anos 50 e 60, abandonou sua amada Teresa e fugiu da cidade. Várias décadas depois, já idoso e cego, ele retorna a São Paulo com seu carro da época, guiado pelo motorista Zé Carlos, para tentar reviver a história de amor, entre outras lembranças que deixou para trás. Apesar de se deparar com uma cidade espacialmente conflitante com a de sua memória, Seu Edmundo utiliza a cegueira de forma a defender-se das influências externas e manter suas convicções intactas. A partir daí, instaura-se o conflito central da trama. A cidade dos anos 1950/60, preservada em sua memória, é bem diferente da atual. Neste momento, ela é representada tanto através do relato oral de Seu Edmundo (“Campos Elíseos? É um bairro muito chique.”) quanto pela descrição visual de seus fluxos de pensamento. Para o último caso, a opção do diretor foi por utilizar imagens oriundas de arquivos e filmes em preto e branco, que, guiadas pela narração, são dotadas de um sentido próprio. Em relação a estas, aliás, há uma fragmentação assumida: seja por uma opção subjetiva de narração, que prioriza um fio condutor do pensamento em detrimento da continuidade cênica, seja por uma facilidade de produção aliada a uma memória cinematográfica de São Paulo já consagrada, aqui não há preocupação em manter os mesmos atores representando o casal. Apesar desta e de outras divergências entre as partes, o conjunto mantém uma unidade cenográfica da São Paulo dos anos 1950/60, tanto pelos objetos e figurinos das personagens nas internas, quanto pela paisagem vista nas cenas de descolamento pelas ruas – a pé, de carro ou de bonde. Forma-se um contraponto entre o perambular do protagonista pela cidade antiga e pela atual, já que, no segundo caso, ele só pode efetua-lo de carro e acaba mais representado em planos fechados, para mostrá-lo divagando sobre as mudanças que fisicamente não pode enxergar, assim como para mostrá-lo “aprisionado” e pouco confortável se comparado à situação anterior. Quanto a seu posicionamento diante de São Paulo, o protagonista é ambíguo: em determinado momento afirma que finge ser cego para não encarar São Paulo, na qual reflete sua escuridão e seu vazio interior; já em outro alega ser um eterno apaixonado pela cidade e ter adiado seu retorno por todos estes anos. Sua desilusão reflete de tal forma na trama que, a partir do momento em que este sentimento se torna mais forte, abre espaço para que o motorista Zé Carlos gradualmente ganhe maior peso narrativo. Em A Via Láctea, acompanhamos os conflitos de Heitor que, após brigar com a namorada Julia por telefone, atravessa o trânsito de São Paulo até a casa dela, para que façam as pazes. Durante o caminho, temos contato com suas lembranças e sensações, como quando conheceu sua namorada, de como se desenvolveu o relacionamento e, principalmente, dos ciúmes que sente de Thiago, ex-colega de teatro de Julia, homem mais jovem e que por ela também é apaixonado. Logo percebemos que a narrativa, ao invés de se guiar por um tradicional encadeamento lógico, privilegia uma construção baseada nos vínculos de pensamentos do próprio protagonista. Desta forma, as cenas seguem uma sequência formada de acordo com o trânsito de suas lembranças que, mesmo temporal e espacialmente distantes, se organizam de maneira a constituir uma espécie de progressão emocional do Heitor. Isto
  7. 7. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 5 permite, por exemplo, que algumas cenas sejam momentaneamente interrompidas por outras e só se concluam posteriormente; ou que cenas se repitam várias vezes para que cada nova visão traga uma reinterpretação dos fatos. Aliás, por causa da cena de atropelamento que ocorre disfarçadamente no início e só é retomada ao final, a própria essência do filme pode ser considerada um eterno looping. A estrutura da trama depende da mente de Heitor, que, devido ao atual estado em que se encontra, confunde o real, a memória, a possibilidade e o completamente imaginado. Como recurso estético que evidencia a importância desta interpretação para se guiar pela história, empregam-se os primeiros planos e as subjetivas de Heitor, além de sua voz over que frequentemente dialoga com a própria voz on/off e com as das demais personagens. Além disso, para criar pontes entre este recorte e a compreensão do espectador, o filme acaba adotando figuras de linguagem que se desdobram, ao longo da narrativa, sobre si mesmas, gerando significados cada vez mais complexos e profundos. Com este fim, além de metáforas relacionando os pensamentos e sentimentos das personagens a elementos simbólicos e/ou cenográficos (as flores, a caixinha de música, etc.), também se utilizam diversas referências artísticas, levando em conta que Heitor, por ser professor de literatura, é extremamente ligado a este universo. As obras citadas vão desde escritores como Manuel Bandeira, Platão e Mario Chamie (o pai da diretora) até o programa de televisão Tom & Jerry, ainda passando pela música de Gilberto Gil e pela montagem d’As Bacantes no Teatro Oficina. Desta forma, apesar de A Via Láctea apresentar uma visão de São Paulo mais fluente e coesa do que a de Urbania, também trabalha com uma cidade muito mais labiríntica, repleta de “becos sem saída” nos quais Heitor fica preso, cabendo ao espectador desvendar os ocorridos. Isto se dá, principalmente, pelas condições às quais as interpretações particulares de cada protagonista estão sujeitas. Se levarmos em conta que Seu Edmundo trabalha com uma memória muito mais longa, de décadas, e o objetivo de seu filme é justamente evidenciar as discrepâncias entre o passado e o presente, naturalmente o conceito estético e a própria condução da narrativa funcionarão de forma a tornar isto claro, com a oposição entre imagens de arquivo em preto e branco e imagens coloridas e captadas para o projeto. Igualmente, por Heitor estar compenetrado em buscar segurança em lembranças mais recentes, A Via Láctea se concretiza numa estrutura em círculos, cujos diálogos, cenas e elementos, após lançados, são constantemente retomados e reinterpretados, gerando uma miríade de significados que se intercalam. 3. Realização Romântica e Iminência de Morte Além desta, outra questão também integra as duas obras e constitui ponto fundamental para que se compreenda a visão de cada filme sobre si e sobre a cidade: o desejo de realização amorosa dos protagonistas em contraposição ao latente obstáculo oferecido pela morte. Esta característica, por ser representada em ambas as situações pelo mesmo viés subjetivo já descrito, assim como por desenvolver as tramas de forma a localizar e destrinchar, conforme cada uma demanda, certos aspectos notáveis de São Paulo, deve ser observada com mais afinco. Em diversos momentos de Urbania, as lembranças do Seu Edmundo ressaltam as saudades que ele sente de Teresa, da época em que eram jovens e de seu arrependimento em ter ido embora, fugido da cidade e dela. Já em outros, ele alega sentir que Teresa está viva, ainda o ama, que há a esperança de reencontrá-la. Isto, associado a algumas falas contraditórias dele, criam um clima de ambiguidade em torno da existência da amada, o que nos leva a perceber que ele voltou a São Paulo tanto para possivelmente revê-la quanto para reconquistar a cidade e, consequentemente, fortalecer suas memórias e poder se recordar dos bons momentos que lá viveu, com e sem Teresa.
  8. 8. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 6 Logo no início do filme, a trilha musical acompanha esta ideia: a “Prova de Fogo” não é apenas um clássico da Jovem Guarda e, por consequência, da época das lembranças de Seu Edmundo, como a letra também demonstraria, conforme o ponto de vista dele, uma expectativa de Teresa – e por que não da própria cidade de São Paulo. Ambas estariam o esperando, saudosas do tempo em que com ele viviam, e acreditariam descobrir, com este reencontro, se o sentimento deixado para trás ainda é recíproco. Posteriormente, retoma-se esta ideia tanto durante as recordações de Seu Edmundo quanto através de ações. Podemos tomar a cena no Largo do Arouche como um exemplo representativo: sendo, a princípio, um local para o qual Zé Carlos guia a pedido de Seu Edmundo, lá se localiza uma estátua de uma mulher nua. Ao tateá-la, num ato quase erótico, o protagonista se lembra de como fazia amor com Teresa e imagina uma relação sexual com a amada (o enquadramento enfatiza o rosto dela). Ainda passa a mão sobre o seio e a face da escultura antes de sentenciar que “Ela ainda esta aqui”. A escolha do local, um ponto tradicional da cidade e que aparentemente partiu de uma lembrança inusitada de Seu Edmundo, assim como as memórias que a passagem despertou, levam à ambígua conclusão de que o “ela” da frase se refere tanto à relação com Teresa quanto às reminiscências da São Paulo que Seu Edmundo deixou há muitos anos. Contudo, nas cenas em preto e branco, presenciamos a convivência do casal, ainda sob o ponto de vista do protagonista. Como há uma diversidade de planos mostrando o rosto ou detalhes de Teresa, geralmente pensativa e angustiada, em oposição à ausência de expressão ou distanciamento de seu Edmundo, chega-se à interpretação de que este, atualmente, se julga como o responsável pela decadência da relação. Assim, sua busca pelo passado em São Paulo/Teresa tem como objetivo, além de comemorar os êxitos, assumir as consequências de suas falhas e tentar dar-lhes um novo rumo, nem que seja através de novas memórias que eventualmente lhe surjam ou antigas que se alterem. Enquanto presencia o desenrolar dos eventos e a visão do protagonista sobre os ocorridos, não há outras evidências que levem o espectador à certeza de que Teresa realmente existiu ou de que foi amante de Seu Edmundo. Este último, em alguns momentos, a vê como pura fantasia: “Ela não existe. Teria eu inventado Teresa?”. E, enquanto divaga, levanta uma série de outras questões que permanecem inconclusivas: se Teresa está viva, se ela se suicidou, se está desaparecida, etc. Em determinado momento da trama, quando Seu Edmundo se refere à amada dizendo que “... devia tê-la matado naquela noite, assim não passaria todos estes anos pensando nela”, evidencia como a preocupação em tê-la perdido e não poder mais consertar o passado seria inexistente, caso Teresa tivesse partido décadas antes ou ele simplesmente a tivesse esquecido. Esta relação estabelecida entre os dois é interessante, pois, se invertida, pode relevar um temor ainda maior de Seu Edmundo: ser em vez de Teresa morrer, que ele, cuja idade avança e o tempo se esgota, faleça sem reencontrá-la. Se em Urbania a preocupação com a morte é até então latente para Seu Edmundo, em A Via Láctea já se configura como uma ameaça de fato. O objetivo de reencontrar Júlia e resolver os mal-entendidos se desenvolve, a partir atropelamento, pela tênue esperança de Heitor em sobreviver. Esta cena, aliás, representa uma espécie de subjetiva inicial do protagonista: por se dar fora de quadro, quando podemos ouvir apenas o som do freio, o espectador também não percebe que Heitor foi atropelado. A partir daqui, penetramos em seus pensamentos, perambulamos por detalhes e nuances da relação e, por fim, percebemos que, apesar das condições em que se encontra, ainda prioriza o amor que sente por Júlia. Entre diversas memórias e emoções, somos remetidos ao dia em que o casal se conheceu. Heitor como espectador passivo de uma orgia dionisíaca e Julia como a ex- atriz, a Desdêmona que, após ser esfaqueada 257 vezes por um Otelo ciumento, trocou o espetáculo da morte pela responsabilidade de cuidar da vida (como veterinária). “É impossível ser feliz sozinho”, o canto entoado pelas bacantes, transmite uma mensagem à plateia que atinge diretamente Heitor. Isto fica ainda mais claro na releitura da cena,
  9. 9. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 7 quando Heitor é deslocado de sua posição de mero público e integrado ao espetáculo contra a sua vontade. Não havendo lugar para a plena realização nos palcos, perante olhos e julgamentos alheios, ele encontra o amor nos bastidores do teatro, justamente por ser um espaço reservado a modificações interiores, à transição do ator para incorporar o personagem. Deste primeiro contato, sob o ponto de vista de Heitor, estava se plantando uma conexão emocional extremamente forte entre o futuro casal, através da qual um poderia intuir o outro. De acordo com os eventos ocorridos durante a passagem no Viaduto Santa Ifigênia, aliás, esse pressentimento foi uma espécie de pré-requisito para que o relacionamento entre duas pessoas tão diferentes pudesse florescer. Nota-se como Julia, perambulando pelo Viaduto, olha aos arredores como se estivesse procurando por algo. Isto é intercalado com trechos, nomes de autores e capas de livros, como se Heitor, que está na livraria vendo estes títulos, “sentisse” a amada à distância. Conforme Julia se aproxima, vai ficando mais alegre e sorridente. Finalmente, após percorrer um corredor estreito dentro de um prédio, adentra a livraria, encontra Heitor e, entre as prateleiras, espontaneamente se inicia um jogo de esconde-esconde entre ambos, em que a câmera intercala planos fechados e planos conjuntos das personagens. A livraria, sob uma perspectiva que representaria o interior fechado e escondido, porém cheio de ideias de Heitor, é invadida por Julia numa iniciativa de explorar o íntimo do outro e conhecê-lo melhor. Em contrapartida, o pensamento de Heitor também teria sido bem permissivo, por atraí-la intuitivamente e de forma que ela se sentisse confortável o suficiente para iniciar os jogos de sedução. A seguir, com o relacionamento já avançado, Heitor ganha uma caixinha de músicas de Julia e a guarda como símbolo do amor que pela namorada sente, capaz de lhe trazer, quando está escrevendo, mais inspiração do que livros de grandes autores. Ele a recebeu no alto da torre do Banespa, sendo esta cena representada primeiramente por uma câmera em plongée, mostrando uma São Paulo coberta por asfalto e sem céu. Após receber o presente, Heitor brinca que eles deveriam passar o resto da vida juntos e, diante das expressões incrédulas de Julia, gradativamente reduz o tempo estimado de relação para três anos – que, por causa do óbito deste, é o período durante o qual de fato namoram. Após ela se perturbar e ele se afastar para ouvir a música da caixinha, o quadro dá espaço ao céu nublado e a um horizonte repleto de prédios, como se Heitor se recusasse a brigar com Julia e preferisse manter a lembrança do amor puro que por ela sente. Posteriormente, na inversão da cena, Julia é quem sugere que eles fiquem eternamente juntos. A releitura teria, sob uma perspectiva que privilegia Heitor, um final mais satisfatório do que a da primeira versão, por preencher uma necessidade de afeto dele, em sua atual situação de moribundo, e lhe trazer a certeza de que Julia também o manterá nos pensamentos como uma lembrança boa. Percebe-se, através das três situações citadas, como o relacionamento do casal se desenvolve tomando como referência pontos identificáveis da cidade. Isto ocorre até mesmo quando Heitor compete com Thiago, na cena em que ambos estão presos no congestionamento e a pista de Thiago, além de andar mais rápido, é por onde passa um vendedor de flores. Desta forma, em A Via Láctea, a cidade de São Paulo desempenha dois papéis simultaneamente: enquanto constitui uma antagonista para a realização amorosa, já que seu trânsito impede o protagonista de chegar à casa da amada, também representa um espaço de resistência, no qual Heitor se apoia para permanecer vivo e realizar seu objetivo. Além da evidente relação afetiva que mantém com a cidade, este tipo de associação também realça uma busca de Heitor em preservar sua sanidade, ao continuar reconhecendo os espaços em que se deram os eventos recordados. Já durante as cenas que detonam a partida de Heitor deste mundo, além de se fortalecer a subjetividade, abole-se a identificação dos espaços imediatamente reconhecíveis como paulistanos. Aqui, se destaca o interior da ambulância, no qual Heitor permanece desacordado e, ao notar a presença de mais máquinas e equipamentos do que de seres
  10. 10. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 8 humanos, também escuta que está sendo levado para a Santa Casa (alusão à morada de Deus). Da mesma maneira, somos remetidos ao lar do personagem quando criança, decorado em cores suaves, porém extremamente espaçoso para apenas duas pessoas – já que tudo parece maior quando somos pequenos. Lá a mãe o põe para dormir e conta ovelhas, enquanto na cena imediatamente a seguir, Heitor adulto a observa falecendo num hospital, sendo esta a única morte assistida com clareza pelo espectador durante o filme – através da visão do protagonista, seria impossível testemunhar seu próprio atropelamento da mesma forma. E ainda há o pasto com as ovelhas que, embora praticamente sem humanos, é evidenciado como uma alusão ao paraíso na fala de Julia: “o céu começa na copa das árvores e toca a relva a nossos pés”. Este princípio, aliás, dialoga diretamente com a cena do anoitecer. Realizada em dois planos da Avenida Paulista, no qual os faróis dos carros presos no congestionamento simbolizam as estrelas da Via Láctea, temos tanto a ideia da chegada do frio, da solidão e da morte de Heitor quanto a de que a própria Via Láctea é extremamente influente no universo diegético daquelas personagens, semelhante à mais importante avenida de uma cidade. Posteriormente, na imagem cósmica que a representa, uma narração de Heitor embasa: “Astrônomos ignoraram, por muito tempo, a Via Láctea, considerando-a uma emanação da terra, permanecendo assim um mistério. A Via Láctea sustenta a noite. Sem ela, fragmentos de escuridão viriam espatifar-se a nossos pés.” Se não houvesse a Via Láctea para carregar as almas dos que se foram e as lembranças dos que aqui ficaram, a escuridão mergulharia a Terra, incapacitando os indivíduos de se guiarem por seus destinos. Complementando os exemplos até agora citados, há uma exceção de cena referente à morte que se passa em ambiente evidentemente paulistano. Quando Heitor circula pelo Centro à noite e atropela o cão, o seu “eu criança” aparece e, vendo a situação, foge por uma passarela sobre uma linha de trem. Aqui, encontram-se três facetas do mesmo personagem: o garoto, que representa a juventude e o início da vida, o cão morto, que simboliza seu final e Heitor adulto e moribundo, elo entre a introdução e o epílogo da existência. A partir daí, as entidades se dispersam e cada uma toma seu rumo. Adiante, o casal se reúne, mesmo que de maneira irônica: o óbito e a realização romântica se encontram quando percebemos que Julia estava ao lado de Heitor na ambulância, porém este falece e a namorada permanece em prantos, segurando sua mão. Heitor, por fim, não distingue mais a dualidade amor/morte e considera ambos os elementos complementares, levando-o à simples gratidão por continuar preservando seu sentimento. Esta ideia, aliás, é introduzida e retomada ao longo do filme através de citações do poema Campo de Flores, do Carlos Drummond de Andrade, e da própria simbologia à qual a flor, como objeto cênico, é aplicada. Enquanto em certo momento Thiago compra flores no congestionamento para levar a Júlia e demonstrar-lhe seu amor, Heitor passa por uma série de barracas de flores frente ao cemitério após cruzar com um cortejo fúnebre. Da mesma forma em Urbania, Seu Edmundo acredita que, ao ser “recebido por São Paulo com flores”, está tendo um bom presságio de que Teresa ainda o ama, embora isto também possa representar um luto, no sentido de que a cidade da qual se lembra passou a existir somente em memória. Outro símbolo comum às duas obras, contudo com outro significado, são os túneis. Enquanto passam por eles, os protagonistas atingem ápices de reflexão acerca de seus objetivos e do destino. Em Urbania, é o momento em que Seu Edmundo se vê mais aprisionado pela falta de respostas trazida pela sua saga do que definitivamente liberto, levando-o a cogitar a possibilidade de recuar e desistir de reencontrar Teresa. Aqui, surge um vínculo com o mesmo dilema que ele enfrentou anos antes e o fez sair da cidade. Já em A Via Láctea, é nas paredes de um túnel que Heitor lê as pichações de “sentimentos à deriva” e “basta avançar para viver” que, associadas ao lema que está entoando – “O olhar, a palavra, o fato que eu te amo, tudo está em movimento. Seguir em linha reta, em direção a tudo que amamos.” – o estimulam a continuar.
  11. 11. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 9 4. O Paulistano à Mercê da Cidade Esta perambulação pela cidade, se observada sob uma perspectiva que supera sua condição aparentemente cenográfica, revela uma personalidade própria de São Paulo, divergente daquelas já analisadas e igualmente sujeita a constantes mudanças temporais, espaciais e sociais. A característica mais notável da metrópole, comum às duas situações, é a sua predominância quase absoluta sobre a autonomia de Seu Edmundo, Heitor e das demais personagens em relação a seus próprios destinos. Os espaços, mais do que os relacionamentos (e isto de deve, em parte, ao fato dos protagonistas serem solitários), interveem ativamente na narrativa, alteram rumos e geram diálogos entre eles mesmos, indivíduos e sociedade. Desta forma, reduzem a influência das tais associações mentais, cujas contribuições se limitam a representar os sintomas aos eventos ocorridos em seus arredores. Em Urbania, nas cenas externas e em preto e branco, temos o deslocamento de Seu Edmundo, evidentemente mais jovem, realizado de várias formas: de ônibus, bonde, trem, a pé e até mesmo por avião. Da multidão, que permanece anônima, apenas sua imagem se destaca. Também há planos da cidade vistos por cima, nas quais uma profusão de edifícios se estende para além dos limites da tela. E até o momento, pudemos reconhecer o Viaduto do Chá e a Praça Patriarca, que aparece como destino de um dos ônibus. Quanto à representação de São Paulo feita durante o filme, observa-se que o deslocamento de valores, a aquisição de privilégio de alguns lugares perante o detrimento de outros, não se dá de acordo com o território que a cidade veio a ocupar, mas por todas as ações desenvolvidas em uma dimensão temporal. Por Seu Edmundo acreditar que a cidade permanece da mesma maneira que deixou, sua convicção é falsa, “fictícia”. Entretanto, se a considerarmos como uma recordação, ela é percebida como um registro documental da metrópole. Logo, o fator determinante da veracidade é o contexto histórico que se assume. O mesmo se dá com a preservação física dos ambientes: aqueles que, conforme julga a sociedade, perderam seu requinte, serão abandonados e obterão, gradualmente, uma aparência suja. Pelo caminho, Zé Carlos e seu chefe encontram paredes pichadas e descascadas, pisos forrados de lixo e urina, peças de metal enferrujadas e outros elementos de poluição visual que demonstram a degradação qualitativa dos espaços em questão. Neste aspecto, o lixão e o banheiro do posto se destacam como pontos de referência estético- temporal para a ambientação geral do filme, pois jamais abrigaram valores sociais considerados elevados e, portanto, acabam mantendo a mesma aparência e expandindo- a para os outros lugares qualitativamente semelhantes. Com exceção destes dois espaços, praticamente todos os outros entram em conflito com a concepção original de Seu Edmundo. Aqueles que melhor se encaixam nessa contradição, dentre outros, são a região em torno do Teatro Municipal e o Casarão Histórico. A cena referente à primeira situação demonstra como o Teatro, ponto que identifica a cidade e é referência artística e arquitetônica até os dias atuais, é reconhecido pelo homem cego, justamente por causa da sua deficiência, através odor fétido das ruas. Aqui, os valores extremos coabitam, a São Paulo do luxo e a da miséria dividem o mesmo espaço. Isto é reforçado pelos discursos dos meninos que limpam para-brisas no semáforo: enquanto eles relatam oralmente o desamparo e a discriminação que sofrem, intercalam-se primeiros planos destes com planos que evidenciam a indiferença e eventual rejeição dos motoristas para os quais trabalham. Já o Casarão é o lugar em que Seu Edmundo recorda ter vivido com Teresa e a abandonado. Intercalado aos planos em que ele anda pela casa, tateia suas paredes e janelas, há o depoimento de uma das moradoras, que se refere ao ambiente, um atual cortiço, como depredado por pessoas sem noção do dever de preservação daquele ambiente histórico, por levaram suas peças mais valiosas e não cuidarem do local
  12. 12. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 10 adequadamente, deixando juntar entulho e lixo. Apesar disso, a senhora também descreve o esforço dos habitantes em reformar os prédios antigos para torná-los escolas e em dedicar o terreno restante a construções residências. Desta forma, há uma mobilização coletiva para se desvencilhar do valor deteriorado daquele ambiente e, no lugar, agregar-lhe um valor socialmente benéfico. Do espaço físico, aliás, emanam estas já citadas e ainda outras personagens secundárias, documentais, cujos depoimentos geram fortes contrapontos com a visão que Seu Edmundo tem de determinados ambientes paulistanos e corrobora-se uma veracidade para a ideia de degradação física. A fala do dono do bar no Campos Elíseos, por exemplo, se refere ao bairro, para o lamento do protagonista, como violento e praticamente inóspito. Já outros discursos revelam que estas personagens, em Urbania, transferem os valores sociais da cidade de uma área para outra, exatamente como o já referido processo histórico-temporal: ao se deslocar pelo espaço, eles carregam consigo as cargas que a si são atribuídas. Em determinado momento, um garoto que vigia carros relata que, por ser morador de rua, se vê jogado de uma calçada para outra diariamente, forçado a perambular pela vida. Aqui é extremamente perceptível como a sociedade agrega à personagem uma característica tão forte que o exime de sua própria humanidade e, indo além, faz com que ele se comporte como qualquer outra carga positiva ou negativa já citada e esteja em constante locomoção, em busca de um espaço que o acolha. Isto ainda é reforçado através do discurso de uma prostituta, pelo qual ficamos sabendo que esta, de carona em carona, viajou por todo o Brasil e se estabeleceu em São Paulo. Aqui é apontada a questão dos migrantes e dos viajantes que, mesmo sem destino, pretendem se encontrar na metrópole paulistana. Ela também conta que prefere trabalhar na rua a ficar presa na boate, sendo assim outra personagem que perambula e transporta seus valores atribuídos. Neste filme, coabitam dois extremos: personagens principais encenados e o relacionamento entre eles como ficção sem vínculo documental e, em contrapartida, personagens reais desfavorecidas depondo sobre si como documentário sem qualquer associação ficcional. Ambos possuem peso narrativo em momentos diferentes, que se distribuem de forma concomitantemente equilibrada e conflituosa ao longo da trama, já que o discurso proferido pelo segundo grupo se choca diretamente com as crenças de Seu Edmundo. Ao se aprofundar na questão ficção versus documentário, percebemos como esta é tratada de forma extremamente complexa na obra. A lembrança imagética do cinema paulistano, que coincide com o imaginário do protagonista, reutiliza fragmentos de materiais de outros projetos, portanto se constitui como documentário ao representar fidedignamente a paisagem paulistana dos anos 1950/60 (mesmo que, em alguns casos, o objetivo original da captação fosse para projetos de ficção); mas, exatamente por remeter o público a imagens que este já viu, atribui ao arrependimento de seu Edmundo, ou seja, à trama principal, um caráter que corrobora a “encenação”, a ficção do filme. E, por fim, nos momentos presentes, ficção e documentário se mesclam. Embora o aspecto ficcional de Urbania permaneça inconcludente, o documental fornece um ótimo registro da cidade, ainda a distinguindo em épocas e classes sociais. Em oposição ao senso comum, é quase como o lado ficcional fosse um pretexto para a plena realização do lado documental e para que este último supra a falta de conclusões da trama principal. Afinal, de acordo com o último pensamento de Seu Edmundo, simultâneo ao plano em que recorda sua partida da cidade, observando os trilhos do trem, “O que é viver sem respostas?”. Paralelamente ao forte aspecto documental de Urbania, A Via Láctea possui alguns pequenos momentos com o mesmo viés: enquanto Heitor calcula se, de acordo com a
  13. 13. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 11 velocidade dos outros carros, terá tempo de passar no semáforo, suas reflexões se tornam estatísticas, que aliam as imagens do trânsito a cenas de pessoas necessitadas e vendedores de produtos pirateados, claramente numa postura irônica que, além de ilustrar o que é dito, condiz com sua raiva em não conseguir avançar o sinal. Em outro instante, à noite, retrata-se, através de uma subjetiva de dentro do carro, catadores de papel, trabalhadores do Mercado Municipal e mendigos. Ainda, durante o dia, observamos motociclistas, pessoas esperando na fila do ônibus, clientes de um barzinho, uma moça grávida sentada na calçada, uma senhora carregando um bebê, entre outros. Apesar disso, em oposição a Urbania, estas personagens não chegam a falar por si ou contrastar com o protagonista, já que este filme é predominantemente ficcional. Além disso, em A Via Láctea, também nota-se a presença de personagens secundárias que não representam emanações da cidade para falar por esta, mas constituem projeções de figuras comuns do cenário paulistano que acabam surgindo pelo caminho de Heitor e interferindo de alguma forma. Poucas cenas antes de atropelar o cão, por exemplo, Heitor é abordado por um assaltante, que, armado, leva seu relógio e lhe repete uma frase do início do filme: “Você está nesse inferno de cidade, sem sol e sem saída. Entre a vida e a morte”. Por fim, ressalta que o protagonista não precisa do objeto roubado porque não vai durar muito e o manda seguir em frente, para aproveitar o tempo que ainda lhe resta. Também merece destaque, em uma cena anterior, a menina que pede dinheiro para Heitor e lhe pergunta as horas. Eles conversam sobre o namoro dele com a Julia e, em seguida, enquanto este explica que “Quando a gente dorme, ficamos mais perto das estrelas” e “Muitas vezes, podemos estar vendo estrelas que não existem mais”, a imagem atrasa em relação ao som, fazendo uma alusão à luz que, ao chegar a Terra, pode ter sido emitida por uma estrela já extinta. Em seguida, a menina vai embora e Heitor vê, pelo retrovisor, que ela está sendo explorada por um adulto. Bravo, ele prossegue e se depara com um Outdoor, com imagens de criminosos sendo presos e os dizeres “A Vida é traição”. O uso de sinais gráficos da própria cidade, elemento forte em A Via Láctea, gera um vínculo ambiente/personagem, no qual as personagens Heitor e São Paulo interagem diretamente entre si. Além da situação acima referida, também há outra envolvendo a mesma mídia: logo no início do filme, quando Heitor está saindo de casa, um Outdoor cita a Divina Comédia de Dante – “No meio do caminho desta vida me vi perdido, numa selva escura sem sol e sem saída” – e, em seguida, dá espaço para Júlia, que surge na tela e exclama “Eu to aqui, Heitor!”, “Não vá embora, Heitor!”, sendo estas mensagens retomadas ao final, quando a namorada as repete para o moribundo na ambulância. Além disso, tem as já citadas pichações no túnel, uma placa de “Nunca feche o cruzamento” e uma de “Pare”, para a qual Heitor responde “Não paro!”. A cidade também se comunica com Heitor pelo rádio de seu carro. Aqui, evidencia-se o forte vínculo que não apenas o protagonista, mas que o paulistano preso no trânsito possui com este aparelho: quando Heitor procura pelo melhor caminho que deve seguir para encontrar Júlia, acaba ouvindo uma informação sobre um atropelamento. Esta passa tão despercebida em meio a suas preocupações, que ele nem percebe se tratar da própria causa de óbito. Ele, inclusive, dialoga mentalmente com outra notícia que ouve na rádio: “As condições de tráfego melhoraram.” – “Mas as humanas não!”. E quando se pergunta em pensamento “Será que ela ligou para ele?”, o locutor responde “É, a situação vai ficando um pouquinho mais difícil. Não se iluda”. Com o desenrolar da trama, a presença do rádio se intensifica e, nele, os pensamentos inquietos de Heitor se projetam. Assim escuta uma repetição da briga com a namorada por telefone e o reflexo dos próprios batimentos cardíacos, que na verdade advém da ambulância passando ao lado do carro naquele exato momento. Já a relação de Seu Edmundo e Zé Carlos com o aparelho, quando este aparece em Urbania, é distanciada, embora o filme a traga em um momento documental,
  14. 14. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 12 justamente para criticar a forma como a mídia cria um discurso genérico para os cidadãos. Na primeira situação, um locutor religioso acusa de desgraçados todos que não escutam a voz de Deus, ao mesmo tempo em que vemos dezenas de moradores de rua debaixo das pontes. Já a segunda mostra cidadãos de classe média presos em um engarrafamento, dentro de carros ou dos ônibus, enquanto, na rádio, fala-se sobre o ato de dar esmolas. De certa forma, é o processo inverso daquele que ocorre durante as entrevistas documentais, nas quais as personagens têm a oportunidade de falar por si. Apesar de ser um elemento compartilhado entre os dois filmes, suas referências midiáticas ultrapassam a influência do rádio. Seja através das imagens de arquivo trazendo uma memória imagética já consolidada para a cidade em Urbania, ou pelas associações geradas entre cinema, televisão, teatro, literatura e música em A Via Láctea, esta multiplicidade diegética de meios difusores acaba por deslocar, desdobrar e resignificar os símbolos a princípio fornecidos pela narrativa cinematográfica, originando, desta maneira, uma variedade de interpretações que se agregam àquelas proporcionados pelo suporte audiovisual. Além disso, a própria pluralidade de relatos e visões presentes nas duas obras, que se realiza mesmo apesar das tramas serem inicialmente pautadas nas perspectivas de protagonistas únicos, também contribui para corroborar o caráter heterogêneo e multimidiático da própria cidade. 5. Considerações Finais Todos os elementos até aqui destrinchados evidenciam certos aspectos da cidade, sobre como se dão as relações temporais e espaciais na mesma. Inclusive, a proximidade de escolhas narrativas entre os roteiristas e diretores das duas obras é curiosa, ainda mais ao se considerar a ausência de uma corrente forte e unificadora para a produção do período pós-Retomada. Desta forma, o objetivo de realização romântica e de manutenção da memória, a ameaça de morte e até mesmo a opção em representar a cidade por um viés em constante deslocamento, frequentemente realizado pela predominância de um olhar partindo de dentro de um carro em detrimento do à pé, demonstram a existência de elementos paulistanos parcialmente consagrados no imaginário do público. É necessário observar, contudo, que estas características só surgiram porque tanto Urbania quanto A Via Láctea se pautam numa perspectiva subjetiva, podendo variar se a comparação for feita entre outras produções. Assim, da mesma forma que a cidade apresenta várias facetas para quem a vivencia, os filmes que a retratam, por conseguinte, indiretamente assumem suas construções e apontam para o a possibilidade de muitas outras interpretações que São Paulo propicia sobre si mesma. Referências Bibliográficas MACHADO JÚNIOR, Rubens L. R. . Plano em grande-angular de uma São Paulo fugidia. Comunicação & Informação (UFG), v. 11, 2008. p. 192-196. NEHRING, Marta Moraes. A perambulação. In: __________. São Paulo no cinema: a representação da cidade nos anos 1960. 2007. 237 f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. p. 88-94. PARAIZO, Mariângela. Nossa selva de pedra. In: NAZARIO, L. (Org.). A cidade imaginária. 1. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005. v. 1. p. 161-172.
  15. 15. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 13 Filmográficas URBANIA. Direção: Flavio Frederico. Produção: Adriano Stuart, Zita Carvalhosa e outros. Intérpretes: Adriano Stuart; Turibio Ruiz e outros. Roteiro: Flavio Frederico e Rodrigo Penteado. São Paulo: Superfilmes. Kinoscópio, 2001. 1 DVD (70min), son., color.. VIA LÁCTEA, A. Direção: Lina Chamie. Produção: Lina Chamie e Rui Pires. Intérpretes: Marco Ricca; Alice Braga; Fernando Alves Pinto e outros. Roteiro: Aleksei Abib e Lina Chamie. São Paulo: 2007. 1 DVD (88min), son., color..
  16. 16. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design Vol. 4 no 1 – Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179474 X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Street Style Kids: um novo paradigma da infância, moldado pela moda e pela publicidade. Street Style Kids: a new paradigm of childhood, shaped by fashion and advertising Fernanda Morais e Silva, Maria Eduarda Araújo Guimarães. Centro Universitário SENAC Departamento de Humanas - Bacharelado em Design de Moda fernms@live.com, maria.eaguimaraes@sp.senac.br Resumo. O capitalismo, baseado no ato de consumir, preza seus consumidores assim como sua própria existência. Este necessita adquirir clientes para continuar no seu ciclo cada vez maior de rentabilidade. E assim, no cenário atual, surgiu um debate antes impensado, a adultização infantil, que é o processo através do qual incentivamos o público infantil a comprar cada vez mais cedo, chegando muitas vezes, até a compulsividade e a agressão. Podemos perceber esse fenômeno no mundo da moda e a criação de um novo estilo, inspirado no vestuário adulto, feito até mesmo para bebes. A grande preocupação deste trabalho é perceber como de maneira tão mágica a publicidade guia a todos para a padronização. Palavras-chave: moda, rua, consumo, internet, infância, publicidade. Abstract. The capitalism, based in the act of consume, prizes its consumers as well as its own existence. It needs to get clients to keep in its cycle of growing profitability. And that way, in current scenario, emerged a debate before unthought, the children’s adultizing, which is the process whereby encourage the infant public to buy increasingly earlier, coming often until compulsivity and aggression. We can see this phenomenon in fashion’s world and the creation of a new style, inspired by adult clothing, done until even for babies. The major concern of this work is to realize so as magic; advertising guides us all to standardization. Key words: fashion, street, consumption, internet, childhood, advertising.
  17. 17. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 2 1. Introdução A demanda cada vez maior de produtos especificamente para o público infantil gera questões sobre a sociedade do futuro e de seus possíveis posicionamentos, para melhor mapeá-los é necessário que se identifique a origem e as motivações dos movimentos sociais que norteiam tais mudanças. Desse modo, para entender como os blogs de streetstyle se propuseram a dirigir seus conteúdos para pais que estivessem dispostos a vestir seus filhos como mini adultos precisamos analisar o contexto histórico ao qual a infância vem sendo construída e de que maneira ela permeia o imaginário social atualmente, sobretudo no mundo da moda. Durante a Idade Média, as pessoas não tinham profunda consciência das fases da vida porque não se era instituída uma noção tão forte de tempo como possuímos hoje e isso é uma consequência de diversos acontecimentos como, por exemplo, a globalização, a revolução industrial, a invenção do marketing, a sociedade da informação. Assim, na chamada Idade das Trevas, as crianças eram consideradas apenas adultos mal formados levando em consideração que as taxas de mortalidade infantil eram altas e poucos percorriam as diversas idades da vida. Mais a frente, veremos também outro fenômeno relevante que é a popularização do World Wide Web que traduzido para o português “teia mundial” significa de maneira satisfatória o que a internet é para nós nos dias atuais e o quanto a cibercultura popularizou e acelerou o acesso a informações em tempo real por diversas mídias diferentes. Somos, hoje em dia, determinados pelo tempo e pelo consumo, implícita e explicitamente, a todo o momento, persuadidos a sucessivas mudanças que permeiam a criatividade destrutiva. Investigar a adultização infantil e a erotização precoce envolve entender como a publicidade atua não só na cabeça das crianças, mas também na vida de seus pais. Fazê-las agirem com comportamentos adultos é uma forma de obter consumidores mais cedo e também, um estímulo a adquirir bens de maneira compulsiva, uma vez que não possuem maturidade suficiente para discernir o que é necessário e o que é supérfluo. É então, proposto que a aceitação na sociedade é realizada através do ato de consumir, a criança é tida como um receptor passivo sendo possível criar em sua memória reflexos condicionados que a torna incapaz de analisar criticamente informações que recebem. Esse streetstyle infantil se aplica de modos diferentes nas diversas ruas, classes sociais e faixas etárias, tendo formado dentro de si estereótipos e ícones de estilo que atuam em editoriais e campanhas de moda, veiculados nas principais magazines da área e motivando o imaginário social a adotar um padrão de beleza cada vez mais jovem. De outro lado, temos o enfraquecimento da confiança do leitor para com o blogueiro, que passou a ser parte de um undercover marketing, aonde anunciava produtos sem deixar sinalizado que aquela postagem era uma propaganda que estava sendo financiada pela marca e uma grande onda de pessoas querendo ter um blog com intuito de fazer parte desse tipo de negócio abalou a credibilidade da plataforma e fez surgirem páginas em outras redes como Facebook e o Instagram. A caminho da solução, temos a moda lúdica que se preocupa em proporcionar no vestir uma atividade prazerosa para as crianças, partindo do princípio da usabilidade que uma roupa pode oferecer tanto no sentido ergonômico como estético, que busque proporcionar a esse público alvo a construção de uma identidade a partir da experimentação com a vestimenta. Com a moda sendo uma das maiores formas de expressão da sociedade atual, partimos de questionamentos sobre o rumo que toma a sociedade e como esse fenômeno atua no desenrolar da infância.
  18. 18. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 3 1. Contexto Histórico O surgimento da infância A identidade é um assunto novo que só adquiriu relevância a partir do século XVII, através de Francisco I e foi de extrema importância para que com os registros de nascimentos e a noção de idade, pudessem separar a vida em fases e assim entender a especificidade dos seus períodos. A vida nas escolas é algo que revela a evolução do sentimento de infância no senso comum, um meio de separar cada vez mais as crianças dos adultos durante o período da formação moral e intelectual. Era algo, que no princípio, servia para domesticar: os estudantes só tiveram acesso a bancos no século XIV, antes eles ficavam sentados no chão forrado com palha, quando se conseguia uma sala. O traje do século XIII comprova o quanto a infância era pouco valorizada no cotidiano. Assim que a criança abandonava os cueiros, passava a se vestir, de acordo com o seu gênero, com peças como a de outros homens e mulheres adultos. A vestimenta da Idade Média tinha a função de destacar a classe social de quem a portasse e não havia tamanha preocupação com a definição das idades. Até o fim do século XVIII, as roupas eram desconfortáveis, adultizadas e serviam para destacar o gênero, mas principalmente a classe social do individuo. As peças só adquiriram leveza após a primeira guerra e esta relacionada à mudança de mentalidade típica do pós-guerra. Como diversas vezes ao longo da história, essa mudança só aconteceu privilegiando o sexo masculino, cuja roupa era inspirada nos uniformes navais. As meninas tiveram que aguardar ainda mais tempo para receberem roupas que as caracterizassem como crianças. Introdução a Cibercultura e aos Blogs A internet surgiu em 1969, durante a Guerra Fria, para atender necessidades comunicacionais militares, chamada ARPANET. Nas décadas de 70 e 80, foi uma ferramenta de comunicação no meio acadêmico, entre estudantes e professores americanos. Somente a partir de 1990, tornou-se popular nos lares com o desenvolvimento do World Wide Web, crescendo cada vez mais desde então, com o surgimento das redes sociais e dos sites de compra coletiva. Segundo Lévy: A palavra ‘ciberespaço’ foi inventada em 1984 por William Gibson em seu romance de ficção científica Neuromante. No livro, esse termo designa o universo das redes digitais, descrito como campo de batalha entre as multinacionais, palco de conflitos mundiais, nova fronteira econômica e cultural... Eu defino o ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Essa definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização” (Pierre Lévy, Cibercultura, pág. 92). Essa economia da informação em rede, com a digitalização da produção simbólica da sociedade, autorregula o capitalismo devido à liberdade de competição e a grande oferta e procura que existe no mundo virtual. A emissão de conteúdos é liberada: tem de tudo na internet, ou pelo menos, referência para tudo, à rede se encontra em todos os lugares e é comunicável e permite de certa maneira, a reconfiguração midiática através da possibilidade de interação entre usuários.
  19. 19. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 4 Dessa forma, a reedição de conteúdos construída a partir de processadores baratos interconectados em rede permite a crescente produção descentralizada e fora de mercado nas áreas de informação e cultura. Tornou-se possível a produção independente e por conta própria, a criatividade por si só, sem a necessidade de tirar proveito de tal. Como nos sugere Claudia Castelo Branco (2009) no seu capítulo dedicado a Benkler em Olhares da rede: As produções de informação, conhecimento e cultura não estão mais necessariamente veiculadas a propriedade, hierarquia e mercado e os próprios usuários moderam a relevância e a qualidade de uma Peer Production, como todos possuem o direito de falar, a credibilidade fica restrita a poucos sites que detém maior numero de acessos e atenção. Os fatores sociais que levam a produção de um bem comum apenas pelo reconhecimento e livres de questões financeiras não seriam viáveis sem a internet. É importante perceber que foram criados laços sentimentais nas redes, como o weblog que criado em 1997 por Jorn Barger designou uma comunidade social que mais tarde seria motivada apenas pela confiança entre quem lê e quem publica: o blog. Em 2004, a então plataforma Blogger foi comprada pelo Google e desde então os posts se transformaram em uma importante ferramenta de persuasão. Uma forma vantajosa de uso dessa ferramenta é a que organizações tem usado. Assim, existem, no mínimo, três tipos de uso de blogs: com fins institucionais, denominados corporativos, que permitem interatividade tanto entre os próprios membros da organização como com o meio externo, tem a finalidade de possibilitar um dialogo informal e transparente com seu público. A segunda maneira consiste a atender fins promocionais das organizações, como método de pesquisa mercadológica do público e para promover produtos e serviços com ações de marketing. O terceiro, busca na quantidade existente de blogs, uma oportunidade de analisá-los como fonte de percepção e análise da imagem da própria organização, procurando a área de interesse do cliente. O individualismo característico da moda está presente na cibercultura, à internet facilita a separação e a comunicação entre os grupos e seus membros e os blogs ajudam no estudo da relação entre produto, preço, comunicação, disponibilidade e principalmente, a imagem que o cliente vai ter da marca depois de efetuada a compra. Esse espaço virtual facilita a comunicação das tribos e dessa maneira, as pessoas deixam de ter milhões de informações e procuram por recomendações, que são como atalhos. Os leitores costumam ser fiéis a dicas e opiniões e dessa maneira, as marcas vêm blogueiros como possíveis aliados. O retrato da sociedade atual Segundo “A modernidade líquida” de Bauman (2001), a sociedade anterior a nossa foi considerada sólida: um estado de busca da perfeição, sem conflitos, o equilíbrio entre oferta, procura e satisfação das necessidades, da transparência e do total domínio do futuro – sem consequências imprevistas, determinados pelo espaço. Nós somos os líquidos, o apelo à velocidade, a produção, ao consumismo. Viver atualmente é inconstante, incoerente, sucessões de renovação antes que possamos transformar referências em verdades, determinados pelo tempo. A sensação é que esse processo de modernização estará sempre incompleto: a criatividade destrutiva que anseia pelo novo que no segundo que se tornar existente, se tornará também obsoleto. Ainda nas afirmações de Bauman (2001), percebemos que não há mais “grandes líderes” indicando um caminho a ser seguido, não há ninguém em quem botar a culpa final de uma decisão mal tomada. O que nos faz tomar consciência de que nem tudo é possível, ou seja, nossa capacidade de representar as falhas, essa simbologia é adquirida através do representante paterno que põe fim no poder absoluto do prazer e mostra que plena satisfação é inalcançável.
  20. 20. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 5 A família ocidental do século XXI passa pela invasão do feminino e uma valorização da posição conferida à mãe, culminando na queda da autoridade do pai. Presenciamos maior falta de limites: vivenciado o princípio da autonomia, uma vez que grande parte dos pais trabalha fora, uma despreocupação com a duração das coisas e com o declínio da função paterna, a castração dos prazeres é sempre levada a diante. É falado também na dificuldade em lidar com a dor e o anseio por anestesiar qualquer conflito interno resultado da cultura massificada, ou seja, a concepção da vida como entretenimento, a mídia trata os acontecimentos como eventos descartáveis, indiferentes aos interesses dos cidadãos concretos. Novas patologias e dentro disso, a adultização infantil, surgem pela impossibilidade de construção representativa pelo aparelho psíquico. A característica comum é uma carência narcísica constitutiva e por isso são nomeadas patologias do narcisismo, envolvendo problemas de identidade, identificação, vivência do vazio e da falta de sentido. A criança é afetada pelos pais, que são os significantes da relação, assim as frustrações das crianças revelam os problemas que afetam a família e como a criança é vista no imaginário do casal. Acontece que um é significante simultâneo do outro: os pais significam na criança aquilo que para eles é um modelo de imagem a ser seguida, que quiseram seguir um dia e que podem ter sido reprimidos por um fator físico, social ou cultural e a criança, recém-chegada ao mundo simbólico, vê nos pais um exemplo de comportamento a ser desvendado. As psicopatologias surgem na infância e para combatê-las é preciso estabelecer com clareza quem é o causador do problema é qual é o problema, entender acontecimentos do passado que ainda causam problemas no presente. 2. A raiz do problema A publicidade agressiva e a construção do real na criança A publicidade usa da fase de formação simbólica das crianças a fim de promover suas mercadorias. A ausência dos pais é um importante fator nessa coercitividade, a televisão acabou se transformando em uma companhia que incentiva o consumo. O conceito de felicidade é, através da propaganda, atribuído a esses produtos ditados pela moda, pois atualmente a ostentação se transformou na chave de aceite para a participação em diversos grupos. A mídia gera uma competição entre os determinados consumidores de uma imagem conceitual e um dos problemas é que crianças de diversas classes sociais distintas estão expostas aos mesmos estímulos, sem a mesma condição de consumir. Nos estudos de Piaget (1970), temos basicamente que o Processo de Adaptação é a organização das estruturas em sistemas coerentes. Esse processo se da através da assimilação, ou integração de um novo dado – portanto um processo quantitativo- e a acomodação, ou o desenvolvimento de dados já armazenados – portanto um processo qualitativo. Esses dados são aos poucos transformados em esquemas que nada mais são que um conjunto de processos no sistema nervoso, funcionando como um banco de dados de tudo aquilo que apreendemos do meio. Durante esse desenvolvimento, a criança passa por quatro períodos: sensório- motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório-formal. Nessa pesquisa, tomaremos como base crianças de sete a dez anos que passam da fase pré para a operatório concreta.
  21. 21. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 6 Dentro de características detalhadas dessas fases, vemos como atributos a noção mal formada do conceito de desejo, o pensamento egocêntrico, a incapacidade de se colocar no lugar do outro, dificuldade de formular regras e principalmente a questão da aparência, pois não é capaz de relacionar significados; Assim, a publicidade faz uso dessas brechas para capturar a atenção das crianças. Estereótipos e ícones de estilo infantis Construímos a imagem de celebridades, no geral, dotada de carga mítica cujo agente transformador é a mídia, que nos transporta através do tempo e do espaço, criando situações surreais de poder, beleza, satisfação plenos que são valores contrafluxos a vida cotidiana, reforçando a perseguição pelo belo, repetindo a ação dia a dia e valorizando esse fenômeno cultural. Foram escolhidas para esse trabalho como representantes do street style infantil Suri Cruise, filha de Katie Holmes e Tom Cruise e a pequena Rafaella Justus, filha de Ticiane Pinheiro e Roberto Justus. Suri foi eleita à celebridade mirim mais influente do ano, segundo o site Daily Beast, virando referência para meninas com um estilo considerado chique e sofisticado. Rafaella Justus é considerada uma das crianças mais estilosas do Brasil, estreou como modelo da marca Pop Up da irmã que possui roupas estilosas e recriam modelos iguais aos da mãe. 3. Problema e consequência A adultização infantil e a erotização precoce O termo adultização foi criado para conceituar comportamentos adultos em crianças. Postman (1999) em “O desaparecimento da Infância” sugere que utilizemos a televisão como mídia para a análise do fenômeno, a linha divisória entre ser criança e ser adulto é destruída em: “Primeiro, porque não requer treinamento para apreender sua forma; segundo porque não faz exigências complexas nem à mente nem ao comportamento; e terceiro porque não segrega seu público”. O brincar por brincar é algo que vem aos poucos desaparecendo do cotidiano, não se vê mais crianças nas ruas, a atividade lúdica se transformou na especialização de uma habilidade em prol de algum beneficiamento que ela possa trazer para a vida adulta. Como consequência desse amadurecimento forçado, ainda em Postman (1999), temos o adulto-criança: “O adultocriança pode ser definido como um adulto cujas potencialidades intelectuais e emocionais não se realizaram e, sobretudo, não são significativamente diferentes daquelas associadas às crianças”. A mídia induz a criança a comportamentos erotizados como forma de autopromoção. Segundo Puggina (sem data), as crianças são estimuladas a erotização quando utilizam produtos cosméticos e se submetem a tratamentos estéticos, quando tem contato com alguns tipos de músicas e programas e consequentemente, quando deixam isso implícito na vestimenta. Ao mesmo tempo em que o mercado incita o público infantil a adotar comportamentos erotizados, desperta a libido dos adultos influenciada pela grande quantidade de imagens de pessoas cada vez mais jovens com apelo erótico, ou seja, cria um estímulo e logo em seguida, um público-alvo.
  22. 22. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 7 Pedofilia infantil na rede Acerca da pedofilia infantil é importante explicar sempre as dúvidas das crianças mesmo que isso acarrete em momentos desconcertantes e estar sempre atento sobre comportamentos estranhos que possam ser indícios de estarem sofrendo abusos. Em nível legislativo, molestadores são divididos em pedófilos e incestuosos. Os pedófilos não necessariamente são molestadores, o ato sexual propriamente dito pode vir a nunca acontecer. Estes são divididos entre predadores: sádicos, assassinos sexuais que geralmente tornam o caso digno de imprensa; E não predadores, que por sua vez são divididos em regressivos, ou seja, estabelecem relações normais, mas por uma questão de inadequação sexual regridem ao abuso; e compulsivos, que criam fantasias distorcidas em torno da situação, não consideram a atitude errada. O antagônico da questão é que de um lado temos a mídia incitando a erotização precoce e do outro, a tentativa de criar leis que preservem a criança. 4. O movimento O blog e a rua A rua ganhou destaque a partir dos anos 50, se transformando em um lugar valorizado aonde movimentos essencialmente surgiam, era o lugar para ver e ser visto, não demorou muito para que o street style fosse incorporado na moda. A blogsfera se apropriou desse movimento como uma forma de divulgação de expressão criativa. Os pioneiros foram The Sartorialist, Face Hunter e Garance Doré. Sua principal função era revelar a moda longe dos trâmites da passarela, mostrando uma criatividade despretensiosa. Os blogs infantis cujas ruas foram analisadas são Bambino Street Style de Berlim, Mini Hipster de Melbourne, Nova Iorque, Londres e Barcelona e Planet Awesome Kid de Nova Iorque e pontos no mundo todo. As cidades confirmam a necessidade das pessoas dos grandes centros de se identificarem a partir da vestimenta, seja para determinar a classe social ou a pertença a certo grupo. A roupa tem grande influência sobre a definição das características de determinada pessoa. Nesse caso, são combinações que sustentam um status tanto social como cultural da família, mas principalmente dos pais, através da imagem da criança: bem vestida, comportada, inserida nos padrões de aceitação ditados pela mídia e com atitudes da idade adulta no seu cotidiano. Dizer que este estilo é imposto parte da atual discussão que questiona blogs de street style como não tão espontâneos assim. Esse espaço foi dominado por pessoas que procuram um lugar de destaque na rede e criam produções não baseadas no estilo como essência ou contestação, mas como uma autopromoção. A criança transmite, apesar de tudo, inocência, essa construção aparenta ser instintiva, mas carrega elementos culturais que de acordo com a teoria de Piaget (1970), citada anteriormente, estão ainda sendo construídos pelas crianças através do processo de assimilação e acomodação. Adaptação A Ópera Fashion Kids, é um evento atacadista de roupa infantil, dos empresários Fernanda de Menezes e Frederico De Cunto e se estabeleceu como uma das maiores plataformas de lançamentos de tendências para o mercado brasileiro. Com dois eventos anuais, projeta marcas e integra compradores, contando com
  23. 23. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 8 marcas nacionais expressivas e as internacionais de maior destaque no Brasil, movimentando cerca de 180 milhões de reais. A FIT que é uma feira internacional de expositores e uma fonte geradora de negócios presente há 20 anos no mercado, com 168 marcas e duração de três dias, os quais movimentam em média 350 milhões em volume de negócios. As marcas que se destacaram como pertinentes a esse público a partir da análise da propaganda foram: Dior, com peças sérias, Zara que abdicou inclusive do uso das cores nos editoriais selecionados e Brandili, que ficou evidente na adultização das poses. 5. Desgaste das plataformas de base A efemeridade dos blogs de moda A rede facilita a difusão da informação de moda, fazendo com que de uma maneira ou de outra, ela acabe chegando a todas as classes sociais. Dessa maneira, o ciclo de uma tendência é consumido rapidamente fazendo com que os blogs sejam uma das plataformas que acompanhem a efemeridade do sistema da moda, conforme já explicado por Lipovetsky(1987). Podemos comparar esses dois fenômenos, moda e rede, quanto à velocidade, a multiplicidade, a atualização, o individualismo e a tendência comportamental. O auge do blog de moda se deu quando as marcas perceberam nele um canal muito persuasivo com o consumidor e começaram a pagar blogueiras para que fizessem publipost, o problema é que como estes não eram sinalizados como propaganda, acabaram por afetar a relação de confiança entre escritor e leitor. O meio acabou saturado e com muitas pessoas interessadas em autopromoção e dinheiro fácil. Apenas os que possuíam mais credibilidade resistiram. Novas redes como suporte A plataforma criada em 2004 por Mark Zuckerberg, Dustin Moskovitz, Eduardo Saverin e Chris Hughes para ser apenas um suporte para experiências sociais online de estudantes de Harvard, se tornou sucesso entre os jovens do mundo todo. Uma página na rede engloba novos elementos e uma vivência mais completa sobre determinado estímulo, isso acontece devido a comentários, compartilhamentos, publicações, indicações, marcações e o chat. Basta perceber o sucesso que essas imagens fazem nas redes sociais, ganham quantidades exorbitantes de likes em questão de minutos e isso nos dá um panorama de quão relevante é essa situação no cenário atual. Dentro do facebook foram escolhidas duas páginas de street style infantil que servem como referência para o entendimento dessa nova forma de exposição de conteúdo na web.
  24. 24. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 9 Fashion Kids Figura 1 Print Screen da página do Instagram. A “Fashion Kids” é uma página recente que teve início com um perfil no Instagram, em fevereiro de 2012, com o objetivo de inspirar pais ou qualquer um que se identificasse com moda infantil com o rápido compartilhamento de imagens da rede. No começo eram postadas fotos de campanhas e street style e atualmente 95% das imagens são os próprios pais que enviam os “looks do dia” para serem publicados para mais de 700.000 pessoas. A equipe recebe uma média de 400 fotos por dia e essas são selecionadas. A partir dessas imagens no Instagram foram escolhidas quatro crianças cujo perfil das mães havia sido marcado na legenda da foto, tornando assim possível uma análise comparativa entre as mães. Figura 2: Fotos de mães e filhos dos respectivos perfis - @lucies142, @miss_kaacey, @maliks_awesome_mom e @finleydaltonx. Segundo nos sugerem as imagens, percebemos que as mães são jovens, mas especificamente na casa dos 20 anos de idade e que possuem uma forte relação com as tendências da moda, ainda que possamos encontrar singularidades nos estilos de cada uma. Ambas apresentam a partir das fotos dos perfis, uma boa condição social e consequentemente acesso a informações de interesse pessoal. Algo perceptível é que todas assumem um estilo blogueira, descontraído e um dos problemas que podem ser citados é o do adulto-criança de Postman (1999), que em paralelo a adultização infantil, trata-se de pessoas que tem grande dificuldade em aceitar o amadurecimento pertinente a cada fase da vida e continuam agindo como se estivessem na adolescência, onde estabelecem um vínculo com a fase da curtição. A participação dos pais nesses perfis é quase nula e quando aparece a imagem não tem sentido apelativo forte o suficiente para a utilização neste trabalho, não são pertinentes para justificar esse tipo de assunto. Logo, percebemos um tipo de enfraquecimento da imagem dos pais no que diz respeito a escolhas nas vidas dos
  25. 25. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 10 filhos. Como dito anteriormente, em regimes passados, como o totalitarismo, por exemplo, era parte das responsabilidades do pai, a castração do prazer, o impor limites. Com a maior independência das mulheres, sua saída ao mercado de trabalho e sua influência no setor financeiro da casa, vemos o quanto elas intercedem na questão do impor limites, o quanto tornam esse vínculo enfraquecido em algumas situações. O vestuário é uma delas. As mulheres são mais influenciadas em relação à moda, como se vestem, como se portam e a imagem do filho, como continuação da imagem delas, lhes são cobradas pela sociedade. É como um espelho, e o filho, reflete o quanto aquela mãe é dedicada, relacionamos o estar dentro de um estereótipo de sucesso a estar dentro de grupos bem estruturados psicologicamente. Quando ainda não possuímos uma estrutura cognitiva bem formada, é uma atividade complexa e que exige muito manter uma imagem como tal, isso porque essas crianças não tem total controle do que está acontecendo e nem são capazes de relacionar isso com outras coisas, criar ligação entre o que ela usa com uma mensagem a transmitir, ela ainda não está preparada para o caráter comunicacional de indumentárias. “Olha como aquela mãe larga o filho desleixado”, muito provavelmente, em algum momento da vida já ouvimos alguém proferir essa frase típica do nosso cotidiano e talvez não tenhamos dado grande importância a ela. Não relacionamos a imagem do pai ao vestuário do filho, não cabe a ele a decisão de escolha quanto a isso. A adultização infantil tem um caráter de aceitação muito grande na sociedade atual, que é fluida e que as coisas acontecem rápido, as pessoas consideram benéfica a inserção de uma criança desde tão jovem a um estilo considerado sofisticado. Figura 3: Print Screen da página de street style infantil "Fashion Kids"no Facebook. É possível perceber a influência que a página possui a partir da quantidade de “likes” que ela recebe diariamente desde seu início. No total são 340 mil likes no Facebook e 689.994 seguidores no Instagram, cujas fotos chegam a receber em média 25 mil likes. Para enviar as fotos basta postar com a hashtag “#postmyfashionkid” e esperar que ela seja escolhida, o perfil fica marcado na página do Fashion Kid, dando a possibilidade de quem visualizar a foto entrar em contato diretamente com o dono da mesma.
  26. 26. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 11 Segue uma seleção de comentários sobre as fotos: Figura 4: Comentários sobre uma imagem do Fashion Kids Figura 5: Comentários sobre uma imagem do Fashion Kids A minoria dos pais propõem debates questionando a adultização do comportamento das crianças e quando isso acontece são considerados “exagerados”, boa parte não tem consciência do discurso implícito nas roupas e se contentam em comentar apenas elogios sem grandes fundamentos. Encontramos ainda comentários de adolescentes que idealizam os filhos. Figura 6: Fotos publicadas no Fashion Kids.
  27. 27. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 12 Figura 7: Fotos publicadas no Fashion Kids. Mini Hipsters Figura 8: Print Screen da página Mini Hipsters O Mini Hipsters é uma página com menor alcance, criada por brasileiros e não informa se possui alguma relação com o blog de mesmo nome, a página começou em outubro de 2012 e já possui 7548 likes. Descreve-se como um guia de estilo e as imagens são selecionadas na internet, diminuindo o nível de interação com os leitores. Figura 9: Comentários sobre uma imagem do Mini Hipster
  28. 28. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 13 Nesse printscreen podemos observar como uma das maneiras de interação acontece: o usuário consegue marcar nos comentários outros usuários e dessa maneira, divulga o post. Na página brasileira o número de comentários é menor e consequentemente, menos debates contra a adultização são criados. Figura 10: Fotos publicadas no Mini Hipster Comparando a interação usuário/ blog e usuário/facebook é perceptível que no facebook o conteúdo é mais duradouro e rende mais comentários. A proposta continua a mesma dos blogs, basicamente um guia de estilo, mas o clima de descontração da rede leva o assunto a um maior número de usuários que estão mais dispostos a interagir. Toddlers & Tiaras Lançado em 2009 no canal americano TLC, o reality mostra um concurso e a vida de garotas e suas mães em busca de um prêmio em dinheiro e está em sua quinta temporada, é exibido também na Inglaterra. Um dos casos de maior notoriedade é da garotinha Alana Thompson, que tem entre 7 e 9 anos, que ficou famosa como “Honey Boo Boo” e atualmente possui um reality apenas sobre sua família na mesma emissora. Figura 11: Alana e sua mãe June Shannon no concurso.
  29. 29. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 14 Durante as competições a mãe incentiva a garota a ingerir uma bebida energética conhecida como Go Go Juice, que contem RedBull na composição. Os requisitos básicos para a participação do programa são bronzeamento artificial, dentes falsos, cílios postiços, apliques de cabelo, maquiagem pesada e roupas erotizadas. Figura 12: Alana minutos antes de se apresentar ingerindo a bebida A pequena Destiny Ellis teve suas fotos exibidas em jornais e sites do mundo todo após realizar uma performance com cigarro na boca. Ela tinha na época do episódio 5 anos e representava o musical “Grease”.O júri considerou o ato totalmente inadequado. Figura 13: Destiny encenando o ato de fumar no reality show. Figura 14: Cenas do reality show
  30. 30. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 15 Durante os episódios percebemos a obsessão das mães em realizar nas suas filhas um sonho pessoal, podemos ver o quanto à família é desestruturada, alguns pais são muito jovens, outros sofrem com obesidade, o que pode explicar a necessidade de encaixar os filhos em um estereótipo como esse. Há cenas em que chorando as crianças pediam para que a mãe não as colocasse cílios postiços ou que não participassem das sessões de bronzeamento artificial. São crianças irritadiças, que vivem em um mundo baseado nas aparências, sem estrutura forte o suficiente para que desenvolvam uma identidade baseada no principio já descrito por Piaget (1970) em seus estudos. A justificativa das mães é de que o dinheiro dos prêmios será todo investido no estudo das crianças, levando em consideração o quanto é caro estudar no exterior, esse é o maior argumento delas. Muitas meninas chegam a ficar ricas apenas com esse tipo de exibição. É perceptível o quanto essa imposição cria um distanciamento entre mães e filhas, diversas vezes aparecem cenas de ambas exaltadas e crianças, que mal sabem lidar com frustrações ainda, dizendo que já não gostam das mães ou que não querem se apresentar. Figura 15: Cenas do reality show Essas são imagens que comprovam a insatisfação das crianças. Devemos sempre levar em consideração que programas como este são manipulados e não há como saber o quanto essas cenas são ou não espontâneas.
  31. 31. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 16 VOGUE PARIS DEZEMBRO 2010 Coeditada por Tom Ford, a edição apresentou uma seleção de editoriais polêmicos que causaram alvoroço entre sites especializados. Tinha um casal de idosos em cenas quentes, a modelo Crystal Renn toda enfaixada, um beijo gay entre Ford com o fotografo Terry Richardson, conhecido por aliciar as modelos que fotografa. Além de tudo isso, fotos de Sharif Hamza captavam garotas entre 5 e 10 anos em poses completamente adultizadas e ao invés de crianças brincando naturalmente com peças da mãe, sugeria ao contrário, que elas estavam crescendo rápido demais. Ambientadas em um divã, uma cama, espelhos, roupas da Versace, Lanvin e Yves Saint Laurent, complementadas com saltos e maquiagem pesada. Muitos interpretaram como um incentivo a pedofilia, inclusive o ilustrador humorístico de moda AleXsandro Palombo, cujas imagens serão anexadas abaixo. O stylist é de Melanie Huynh e as modelos são Lea, Prune e Thylane. Figura 16: Editorial da revista Vogue. Figura 17: Editorial da revista Vogue.
  32. 32. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 17 Figura 18: Editorial da revista Vogue. Abaixo as imagens de Palombo sobre o editorial: Figura 19: Critica de Palombo à Carine Roitfeld. 6. Em direção à solução A roupa como brinquedo: A importância do lúdico na moda A principal missão do lúdico é alcançar prazer durante o processo de uma atividade. Segundo Piaget (1970), os jogos base desse método são: Jogos do exercício (curiosidade sensorial), do simbólico (da significação), da construção e das regras(da delimitação). O mais importante é deixar que durante as brincadeiras a criança se auto- avalie. Em grande parte desse processo é observada a imitação natural das atividades
  33. 33. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 18 adultas e a utilização da roupa como um figurino que ajuda na construção do espaço, do tempo e principalmente do personagem, auxiliando na liberação de arquétipos. Usabilidade no vestuário infantil Concluímos que uma peça tem usabilidade quando seus efeitos estéticos e suas necessidades de conforto são alcançados, mostrando que houve projeção e flexibilidade durante o processo de criação. As especificações partiram dos estudos de Heinrich(2007), como a questão das fraldas que exige que o gancho seja maior, o abdômen avantajado que elimina pences na frente da peça, a cabeça desproporcional que exige uma gola maior e adereços que podem ser facilmente engolidos devem ser evitados. Uma sugestão da ABNT é que se utilizem tecidos antialérgicos para o forro. 7. Conclusões Durante o ano que participei dessa pesquisa e agora, com o finalizar do projeto, devo acrescentar que nenhuma resposta única pode ser formada a cerca do assunto, levei diversas vezes em consideração a análise da linguagem de uma fotografia, ou os estudos de determinados autores e acredito que o que torna o conhecimento algo desafiador é que ainda assim, ao longo dos anos, todas as vezes que ler algo sobre o assunto dessa Iniciação Cientifica vou relacioná-lo imediatamente com todo o conteúdo aqui presente, essa informação, ao diferir da linha de raciocínio usada, vai me abrir um novo caminho, um novo começo e consecutivamente, a construção de um novo ponto de vista, complementar ou de um ângulo completamente diferente. Levando em consideração que o interesse pela idade tenha surgido apenas no século XVII, podemos classificar essa sociedade como sólida. Para eles, o espaço era mais importante que o tempo, o espaço garantia a certeza do amanhã e hoje, vivemos submersos na insegurança, o aqui e o agora, sem muito controle sobre o futuro, vivemos o presente e adiamos a castração dos prazeres. A publicidade agressiva é um perigoso fruto disso, os produtos que ela oferece são perecíveis, não por uma questão de qualidade, mas porque no momento de criatividade destrutiva atual, precisamos do giro, precisamos do leque. Faz parte do nosso sistema, esfregar de forma desumana em nossas caras o quanto somos incompletos e no segundo seguinte, que eles possuem aquilo que nos falta, que está na loja tal e custa tanto. O problema é que no segundo adiante e no posterior e no próximo haverá mais e mais coisas. Nesse período, que para o trabalho vai de 7 a 10 anos, as crianças não tem condição de interpretar uma propaganda – entendendo propaganda como algo que propaga- vemos que dela podem surgir diversos conceitos, diversas mensagens, diversos estímulos. Dois deles, patologias do narcisismo, são incentivados hoje pela mídia. A adultização infantil é um processo que visa gerar público-alvo cada vez mais cedo para as empresas e mais que isso, um cliente sem a menor condição de compreensão da mensagem vendida. E a erotização precoce, que ao mesmo tempo em que é gerado um estímulo – crianças utilizando uma roupa erotizada, uma música, um programa que gera o desejo de imitação – é gerado um público alvo, que tem o despertar de sua libido para rostos cada vez mais jovens. Aceitar que as crianças se tornem parte disso, é simultaneamente, fornecer a pedófilos um prato cheio. Outro despreparo, pois este não vem só da criança, é o despreparo dos pais. Eles também têm a sua libido despertada para isso, se adentram nesse meio e significam isso em suas crianças. Como pode ser visto na analise das imagens de mães do Fashion Kids: Não são pessoas sem condição a informação. Pelo contrário, são pessoas que estão em busca dela, porque se manter atualizado de tendências

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