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Autorrepresentação entre linguagens artísticas

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Artigo Publicado na Iniciação Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística
Edição Temática de Cultura e Comportamento - Vol. 4, nº1, Ano 2014

Publicação Científica do Centro Universitário Senac - ISSN 2179-474X

Autores: Leonardo Nones e Fernanda Romero Moreira


Acesse a edição na íntegra!

http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistainiciacao/?page_id=13

Resumo
A exploração do suporte fotográfico como forma de representar-se é cada vez mais corriqueira e com isso surgem indagações a respeito da origem e dos preceitos dessa prática. A fotografia interfere na percepção do indivíduo sobre si? Como os autorretratos revelam seu autor? O presente trabalho preocupa-se em acompanhar tais inquietações a partir de um panorama sobre as linguagens artísticas e suas relações com a autorrepresentação do indivíduo, bem como em discorrer sobre a expressão e estratégia autoral dos trabalhos com esta temática.
Palavras-chave: fotografia, autorrepresentação, autorretrato.

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  1. 1. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Cultura e Comportamento Vol. 4 no 1 - Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179474 X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Autorrepresentação entre linguagens artísticas1 Self-representation among artistic languages Leonardo Nones, Fernanda Romero Moreira Centro Universitário Senac Comunicação e Artes - Bacharelado em Fotografia nnesleonardo@gmail.com, fernanda.rmoreira@sp.senac.br Resumo. A exploração do suporte fotográfico como forma de representar-se é cada vez mais corriqueira e com isso surgem indagações a respeito da origem e dos preceitos dessa prática. A fotografia interfere na percepção do indivíduo sobre si? Como os autorretratos revelam seu autor? O presente trabalho preocupa-se em acompanhar tais inquietações a partir de um panorama sobre as linguagens artísticas e suas relações com a autorrepresentação do indivíduo, bem como em discorrer sobre a expressão e estratégia autoral dos trabalhos com esta temática. Palavras-chave: fotografia, autorrepresentação, autorretrato. Abstract. The exploration of the photographic language as a way to represent the self is becoming more common, and it questions about the origin and the precepts of this practice. Does the photograph interfere in one’s self-perception? How the self-portraits reveal its author? The present work deals with such concerns and follows a panorama of artistic languages and their relations with the self-representation of the human figure, as well as discusses the expression and authorial strategy of works with this theme. Key words: photography, self-representation, self-portrait. 1 O artigo abrange parte da pesquisa em andamento de iniciação científica de título Autorretrato: percurso histórico e recurso interativo, pelo Centro Universitário Senac, sob orientação da Profa Ms Fernanda Romero Moreira.
  2. 2. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 1 Introdução O trabalho da americana Cindy Sherman2 , desde o final da década de 1970, traduz em fotografias questões de identidade, estereótipo e gênero. Apesar da autora não caracterizar sua produção estritamente como autorretratos, as imagens que permeiam esses temas tem seu corpo como modelo. Dessa forma, configura uma interessante estratégia de projeção de elementos materiais regidos pela força da personalidade, compelindo o observador a relacionar e questionar a função do estereótipo no indivíduo. A figura 1, retirada de uma entrevista dada ao jornal The New York Times, ilustra o nó contido na representação do self em suas obras. Se a autora não produz autorretratos, seria a figura representada na imagem um estereótipo de fotógrafa, a fotógrafa Cindy Sherman disfarçada ou simplesmente um retrato da artista Cindy Sherman? Figura 1 – Cindy Sherman as herself, 2011. O ímpeto de se retratar acontece a partir da consciência de finitude do homem, então percebe-se necessária a criação das imagens como recursos para combater o medo da morte, esquecimento e da noção de dissolução de si. Desse modo, pode-se afirmar que tal conflito - medo da morte - enfrentado pela representação imagética para fins de substituição e superação do retratado acompanha a humanidade e, de forma mais profunda e perene, é o mote para a elaboração de estratégias representativas (MORIN, 1974). Assim, representar é o mesmo que substituir, evocar algo num plano em que este se encontra ausente (DEBRAY, 1992). Pensar na representação humana também implica em refletir sobre a maior preocupação da arte ocidental desde a Antiguidade até o início do século XX e, em certo ângulo, na principal produção imagética até então do século XXI 2 Cindy Sherman (1954, Nova Jersey, EUA) é conhecida por suas fotografias conceituais, famosa por promover a fotografia no cenário da arte contemporânea, alcançando cifras elevadas no mercado de arte. Não assume apenas o papel de operadora da câmera fotográfica, mas de figurinista, maquiadora, cenógrafa, diretora e modelo de suas produções. As principais obras são: Untitled Film Stills, History Portraits e Society Portraits (KRAUSS, 1993).
  3. 3. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 2 (LICHTEINSTEIN, 2006). A ansiedade pela elaboração da imagem de si ou do outro difere essa arte de outras tradições, como a oriental e a muçulmana, por exemplo. Assim como a divisão dessa se deu por sucessões alternadas ou sobrepostas de expressões apolíneas e dionisíacas, momentos de maior racionalidade ou emoção, respectivamente, a figura humana transita entre a busca de uma idealização da beleza dos elementos do corpo humano e a representação mais verídica e próxima do real possível. [...] os artistas, e depois deles os críticos, hesitaram entre dois partidos dificilmente conciliáveis: a busca da beleza ideal, isto é, da forma de um corpo humano perfeito, concebido abstratamente, ou, segundo a lenda construído por superposição dos mais belos traços de vários indivíduos; e a de uma verdade da representação, que dê a ilusão da presença de um personagem real. (LICHTEINSTEIN, 2006, p. 9) É interessante observar que, apesar de parecer simplificadora, essa diferença traz novos elementos para a linguagem usada para representar o homem, visto que a inclinação maior ou não de um artista para uma das vertentes citadas pode caracterizar seu trabalho num determinado período, comparar suas obras com a de outros artistas e tornar-se ponto de referência para perspectivas históricas. Assumindo que a maneira de ver do homem é condicionada pela cultura em que está inserido (LARAIA, 2010), há séculos vê-se uma perseguição a uma verdade poética por parte de artistas e, para tanto, estes criaram ferramentas e técnicas (o uso da câmara clara e escura, por exemplo) que permitiriam tal sucesso – assim como a ciência busca sua verdade, por meio de aparatos correlatos. Dessa forma, fica claro que a representação humana está vinculada a uma ideologia e até mesmo uma idolatria a preceitos estéticos, pautados muitas vezes por circunstâncias externas à arte. O panorama cultural desde o Renascimento, formado por novas tecnologias, ferramentas e sistemas, conduziu a arte a expressar gradativamente linguagens e valores, como seria chamado posteriormente, fotográficos. O estudo dessas mudanças, adicionalmente, viabiliza entender fenômenos do presente que podem precipitadamente ser julgados como naturais ou alheios à realidade. É importante ressaltar que “uma sociedade se define por seus amálgamas, não por suas ferramentas (...). As ferramentas só existem em relação às combinações que possibilitam ou que as tornam possíveis” (DELEUZE, 1995, p. 90) e, portanto, é impossível desunir a representação humana na arte de suas infiltrações sociais, políticas e culturais, bem como das relações que os meios representativos estabelecem com tais fatores. Logo, desde o mito da invenção da pintura3 com a personagem da filha do oleiro, tanto com Cindy Sherman, o retrato simboliza o distante, o alheio materializado num suporte a fim de eternizar sua imagem. 3 Também conhecido como o Mito de Butades, na Grécia Antiga do século VII a. C., considerado como o marco inicial das artes plásticas.
  4. 4. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 3 1. A prática da representação com o advento da fotografia Figura 2 – Self-Portrait, 1980, Andy Warhol. Figura 3 – Self-Portrait, 1986, Andy Warhol. As figuras 2 e 3, de autoria do artista americano Andy Warhol, trazem uma curiosa comparação entre as linguagens utilizadas para a produção do retrato. Nota-se que a figura 2, uma fotografia usando a técnica estroboscópica4 , foi capturada antes da figura 3, um desenho feito com papel e grafite. A relação temporal existente entre os 4 A fotografia estroboscópica é feita com o auxílio de um equipamento de iluminação estroboscópica, ou seja, permite emitir a luz a uma controlada velocidade à frequência intermitente, ao passo que a fotografia captura esses espasmos permitindo analisá-los como eventos estacionários. Um fotógrafo que utilizou-se de tal experimento, por exemplo, foi Lásló Moholy-Nagy. É importante ressalvar que essa não é a única técnica utilizada para se explorar a relação entre corpo e movimento. Os cubistas e futuristas, no início do século XX, retratavam tal tema por meio da pintura e escultura.
  5. 5. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 4 autorretratos mostra que uma maneira de enxergar, só possível com a técnica fotográfica aplicada, inspirou a criação de um desenho. O exemplo ilustra a interconexão entre as vias artísticas e a influência dos processos tecnológicos em tradicionais meios expressivos. Ou seja, no universo criativo, inúmeras formas de produzir atravessam influências que escapam à tradição e refletem perspectivas que só seriam imagináveis com o auxilio da intersecção de linguagens, como a fotográfica, por exemplo, para expressar uma ideia. No exemplo escolhido, percebe-se que a sobreposição das faces sugere a justaposição de identidades do artista, apoiadas pelas expressões e ângulos de cada rosto, que talvez possa sugerir os múltiplos encaminhamentos das atividades criativas de Warhol, como artista, apresentador, businessman. A contextualização das variáveis estéticas na arte é imprescindível para a relação com o presente. A fotografia, historicamente, causou furor entre artistas e críticos pois primeiramente colocou em questão a habilidade mecânica sobre a humana na produção imagética – em especial nas quais a figura do homem é presente. A partir de sua popularização, a velocidade na representação não só de indivíduos, mas também de grupos sociais, acarretou numa intensa reflexão sobre seu papel na ciência, antropologia, sociedade e nas artes visuais. É por volta de 1750 que se desenha, por surtos sucessivos, a subida das camadas médias no interior do aparelho social. A necessidade de ostentação dessas camadas cresce progressivamente, e o recurso ao retrato é uma manifestação característica desse procedimento, que está na razão direta do esforço para se afirmar e tomar consciência de si mesma. O retrato democratiza-se, isto é, torna-se um elo vulgarizado de afirmação, de reforço de uma autoimagem, correlativo do desejo de afirmação social, mas, também, de reivindicação de poder de um grupo que até aqui não tem lugar nos centros decisórios do poder econômico e político (MEDEIROS, 2000, p. 52). Embora seja revolucionária a maneira com que a fotografia populariza a imagem ou a autoafirmação da condição social, por meio principalmente do retrato, não há a exclusão de continuidades estéticas entre ela e a pintura. Estudos de autores como David Hockney (2001), Aaron Sharf (1968) e Joan Fontcuberta (2010) provam que muito antes da declaração de criação da fotografia, um grande número de artistas seguiam preceitos formais e temáticos similares aos encontrados na imagem fotográfica, como a preocupação com detalhes minuciosos, perspectiva central, tratamento dado à iluminação e enquadramento. Ou, de forma cronológica, muitos fotógrafos persistiram em reproduzir tais características herdadas. [...] la invención de la fotografia no debe considerarse un hecho aislado, sino consecuencia y culminación de la tradición pictórica que se inició en el Renacimiento y que se encaminó a la representación más fiel respecto de la percepción visual humana. Esto explicaria la existência de una pintura fotográfica antes de la irrupción de la fotografia (...) Desde el Renacimiento, pues, algunos pintores en los que se transluce una preocupación por el realismo intuyen la visión fotográfica: Lorrain, Canaletto, Constable, Turner, Corot etc. (...) el advenimiento de la fotografia representa el triunfo de determinado modo de comportamento en la contemplación del mundo material: la visión según la perspectiva central. Y este trunfo simbolizaria a su vez, al fijar un punto único de observación del que depende la imagen exterior, la hegemonia de la consciência del yo, del sujeto individual frente al objeto.5 (FONTCUBERTA, 2010, p. 17-18). 5 Em tradução livre: [...] a invenção da fotografia não deve ser considerada um feito isolado, senão a consequência e culminação da tradição pictórica que se iniciou no Renascimento e acarretou na representação mais fiel em relação a percepção visual humana. Isso explica a existência de uma pintura
  6. 6. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 5 A maneira de ver o mundo, como descrita, a partir da perspectiva única e central de um observador sobre seu objeto, é consolidada com o aparecimento da fotografia, todavia está radicada desde o Renascimento no ideário de artistas e autores. Assim, vê-se uma continuidade ou ao menos uma retificação das qualidades do retrato. Entretanto, não podemos excluir o poder ontológico da imagem fotográfica, muito discutido por Walter Benjamin, capaz de dessacralizar a pintura e de permitir uma nova percepção de mundo por meio daquela (BENJAMIN, 1987). Forma-se uma estrutura dicotômica: a estética fotográfica persiste, porém é impossível ignorar as revoluções na realidade social a partir do advento da fotografia. A simplificação histórica dos meios expressivos também erroneamente acarretou na ideia de verdade inerente à fotografia, carregada desde os primeiros passos de sua descoberta e muito influenciada pelos valores do momento. Pautando-se pela “fidelidade química” do meio representativo, a fotografia foi socialmente aceita como documento, prova. Um exemplo antigo dessa confiança pode ser a publicação da cidade americana de Boston, The Daguerreotype6 , que usava em meados de 1850 o nome para garantir aos leitores imparcialidade: a fotografia tem como sinônimos naquele contexto, portanto, credibilidade, honestidade e verdade (FONTCUBERTA, 2010). Sabe-se, por outro lado, que as manipulações das películas era prática comum e atualmente, o tratamento digital dado às imagens é a maior garantia da falibilidade da informação visual fotográfica. O surgimento da fotografia é um fenômeno de absoluta importância e a busca pela verdade representativa, entretanto, não é a única forma criada para alcançá-la. Uma grande parte desses estudos para o aperfeiçoamento da representação da figura humana está contida na obra de Jonathan Crary, Técnicas do Observador. O autor aponta um aplanamento histórico acerca dos mecanismos ópticos criados desde o século XVII, como o estereoscópio, taumatrópios e fenacistoscópio, que não necessariamente revela o real desenvolvimento da estratégia representativa por parte dos artistas e pouco considera o papel da mudança de percepção do observador a partir da popularização desses novos modos de ver (CRARY, 2012). A pesquisa aponta exemplos de artistas, assim como Andy Wahrol nas figuras 2 e 3, que inspiram-se em fotografias para criar pinturas, ou vice-versa, ou ainda fotografias inspiradas em pinturas, que por sua vez foram fruto de experiência com a câmara escura. Portanto, os limites entre formas representativas são absolutamente dissolvidos ao observar de perto a dinâmica criativa de cada artista. 2. A escolha do autor Andy Warhol declarou que gostaria de ser uma máquina de produção industrial (LUCIE-SMITH, 2006). A figura 7 mostra um de seus muitos autorretratos em cabines fotográficas ou photo booths, populares na década de 1960. A partir dessas imagens fotográfica antes da irrupção da fotografia (...) Desde o Renascimento, portanto, alguns pintores deixam transparecer uma preocupação com o realismo que intui a visão fotográfica: Lorrain, Canaletto, Constable, Turner, Corot etc. (...) o advento da fotografia representa o triunfo de um determinado modo de comportamento de contemplação do mundo material: a visão segundo uma perspectiva central. E esse triunfo simbolizaria, por sua vez, ao fixar um ponto único de observação da imagem exterior, a hegemonia da consciência do eu, do sujeito individual frente ao objeto. 6 O Daguerreótipo foi a criação de Louis Daguerre, anunciada em 1939, com o auxílio do deputado francês François Arago, convencionado como o marco inicial da história da fotografia. O processo consiste em sensibilizar uma placa prata polida com iodetos, expô-la na câmara escura e fixa-la com tiossulfato de sódio. A daguerreotipia permite a reprodutibilidade da imagem, sendo a primeira forma de popularização e uso comercial da fotografia. Inúmeros autores consideram, entretanto, que a fotografia, mesmo como estética, já existia desde o Renascimento (FONTCUBERTA, 2010).
  7. 7. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 6 em que “não usava as mãos” ou em fotografias instantâneas como as Polaroids, o artista criava suas telas por meio do processo de impressão serigráfica. O conceito contido na pop art de Warhol é de transpor a imagética urbana americana na qual estava inserido7 para o circuito da arte, mostrar a consciência comum de sua época (DANTO, 2012). A arte que produz responde à reação exageradamente capitalista do modo de vida do pós-guerra. Figura 4 – Self-Portrait, 1964, Andy Warhol. O uso que Warhol fazia da fotografia era não só pautado pela popularidade da mesma nas décadas de sua maturidade artística, mas também pelas possibilidades de reprodução e transcodificação da informação visual para outros suportes. Ou seja, ao se apropriar das imagens do mundo, por meio da fotografia, cria uma identidade própria para si e para o trabalho, pois difere o status dos objetos como arte ou não. Segundo Arthur Danto (2012, p. 44), o artista redefiniu a formulação sobre “O que é arte?” em “Qual a diferença entre duas coisas, exatamente iguais, das quais uma é arte e a outra não?”, elevando a discussão acerca da ontologia e materialidade da obra artística. Suas telas, por exemplo, continham os traços da captura fotográfica, bem como suas esculturas de caixas da Brillo Box. Uma forma que ilustra sua estratégia estética, que tornou-se uma forte característica de seu trabalho, é a repetição das imagens de criava, justapostas e em grande número. Esse último fator rememora o conceito tratado na obra de Walter Benjamin, na qual a obra de arte é, de certa forma, dissolvida pela propriedade reprodutível da imagem fotográfica. Andy Warhol, a partir da exploração dessa possibilidade, força os limites 7 Nova Iorque após a Segunda Guerra Mundial havia se tornado o maior polo artístico do mundo, sendo que os artistas americanos, especialmente os nova-iorquinos, estavam nos holofotes da crítica especializada e dos marchands devido ao movimento chamado Expressionismo Abstrato, iniciado nessa cidade.
  8. 8. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 7 do banal e vulgar, repetindo inúmeras vezes o mesmo retrato, ao passo que formam uma obra única e, ao mesmo tempo, decomposta. Os paralelos traçados a partir dessa nova concepção de produto de arte com a realidade consumista são praticamente incontáveis. O método usado pelo artista esvazia a chamada aura (BENJAMIN, 1987) contida no objeto de arte, transformando-o em algo que se assemelha a uma mercadoria, invalidando e, ao mesmo tempo, redefinindo seu papel. Adicionalmente, esgota sua própria imagem – sempre vinculada não só ao universo artístico, mas também ao mundo da moda, música, cinema – refletindo o vazio e o supérfluo do indivíduo naquela sociedade. Outro fator interessante a se analisar sobre o autorretrato fotográfico é que este concentra conceitos muito curiosos acerca da propriedade da imagem. O retrato, de forma singular, desafia a ideia da autoria da fotografia, uma vez que é difícil apontar quem é seu possuidor: o retratado ou o produtor da imagem? O fotógrafo, como quando captura a imagem de um objeto, entende que esta significa o fruto de seu esforço em dirigir o modelo, operar a câmera, disponibilizar materiais cenográficos etc. O fotografado, por sua vez, considera que a apropriação de sua imagem pela câmera, por si só, exprime a quem pertence. O conflito com a autoria da imagem fotográfica ocorre desde seu surgimento e envolve questões não só legais mas também de apropriação, tão presentes na arte atual (FABRIS, 2002). Por sua vez, o autorretrato fotográfico condensa e simplifica a noção de domínio da imagem e da autoimagem, sendo uma prática de cunho extremamente autoral e, de certa forma, mais íntima e particular. Ser, ao mesmo tempo, produtor, objeto e indivíduo que interage com a própria imagem é a característica mais singular do autorretrato. Além disso, o papel da fotografia na emancipação de temas cada vez mais subjetivos e autobiográficos também é uma manifestação de que essa pode ser uma diferença da intenção de seu uso em comparação a outras linguagens, reforçada pela ideia de exacerbação da autoria. A partir da premissa descrita que a fotografia “testemunha” o acontecimento retratado, esse meio torna-se extremamente útil para não apenas tornar sólido um ímpeto narcísico, mas também de dar conta da necessidade autorrepresentativa da situação vivida: Parece-me um tanto duro, mas indubitavelmente verdadeiro, o fato de que a fotografia talvez ainda mais que o vídeo artístico, no qual seu criador é o herói da própria peça teatral e, sem dúvida, o tema contínuo é o voyeurismo, tanto do espectador quanto do artista. (...) A força psicológica das fotos, em relação à das pinturas ou desenhos, quase sempre se encontra no que ainda costumamos chamar de credibilidade, ainda que a maioria já tenha se conscientizado, ao menos intelectualmente, da facilidade com que se podem alterar fotos por processos como a digitalização computadorizada. (LUCIE- SMITH, 2006, p. 247-248). Podemos mencionar o trabalho de Nan Goldin (Figura 5), artista americana que capturou durante décadas fotografias das pessoas mais íntimas de sua vida, compilado em diversos livros e exposições. Goldin, graduada pela School of the Museum of Fine Arts, em Boston, cita o pintor francês Gustave Courbet (1819-1877) como uma grande inspiração para suas composições, tanto para a iluminação de suas telas quanto para as texturas usadas e, ainda assim, escolhe o suporte fotográfico como forma de expressão, afirmando-se sobre a circunstância em que se encontra.
  9. 9. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 8 Figura 5 – Self- portrait in kimono with Brian, Nan Goldin, 1970. Segundo a própria autora, o desejo de se representar nas situações deriva da necessidade de preservar a sua versão da história de sua vida, sendo assim, uma forma de documentação de seus intricados momentos e a inserção de seu ponto de vista (GOLDIN, 1996). A compilação e edição do trabalho da artista se deu por meio de exposições, livros e na projeção das imagens com as músicas que costumava ouvir na época em que as situações retratadas ocorriam, aproximando-se assim da linguagem cinematográfica. Portanto, a autorrepresentação não necessariamente condiz na reprodução de si num suporte, mas na afirmação de uma identidade sobre meios que possam expressá-la. 3. Selfies A redefinição da imagem do artista feita por Warhol fundou-se na vida das celebridades, sempre rodeadas de indivíduos igualmente famosos e de elementos de promoção e reconhecimento, como os paparazzi, por exemplo. Somado a isso, espelhou-se na cultura da contemplação e curiosidade advinda dos espectadores (público) para tornar-se uma figura singular e altamente midiática. O decoro existente entre a obra, o artista e a projeção dessa figura acarretaram numa reflexão da sociedade americana, simbolizando seus principais motes. Ainda que Andy Warhol tivesse motivos subjetivos para tal comportamento, seu legado preconiza a superficialidade da vivência e maleabilidade da imagem, tão presentes na contemporaneidade: “Se você quer saber tudo sobre Andy Warhol, basta olhar a superfície: de minhas pinturas, de meus filmes e de mim, e lá estou eu. Não há nada por trás” (WARHOL, 2007, p. 190). Paralelamente, na atualidade, a popularização da autorrepresentação por meio da fotografia é tão notável que, segundo o dicionário inglês Oxford, a palavra do ano de 2013 foi Selfie. Por sua definição, trata-se de “uma fotografia que um indivíduo faz de si mesmo, tipicamente com aparelhos celulares ou webcams, compartilhada nas redes sociais da internet”8 (The Guardian, 2013). Assim como a imagem que Warhol gostaria de transmitir ao mundo, os selfies muitas vezes são criados a fim de 8 Tradução livre feita do texto original: "a photograph that one has taken of oneself, typically one taken with a smartphone or webcam and uploaded to a social media website".
  10. 10. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 9 expressar uma realidade positiva, repleta de simpatia e beleza. Revelam, entretanto, certa futilidade e simulação sobre a condição humana e são sintomas do esvaziamento do modelo de vida almejado. Trata-se de um fenômeno que tem se acentuado cada vez mais ao longo da última década e comprova, por vários veículos, o papel autoafirmativo desempenhado pela fotografia, que se faz presente devido a facilidade de difusão e interação proveniente das novas tecnologias comunicativas. 4. Conclusão Ao observar os motivos da autorrepresentação do indivíduo, temos clara a busca da humanidade em vencer o conflito existente na certeza da morte e do esquecimento. Dessa forma, a arte pode ser uma das alternativas a fim de substituir e eternizar a figura humana, numa busca por afirmação e identificação. No curso da história, a fotografia, desde sua descoberta, foi de imprescindível utilidade para tal ímpeto narcísico de indivíduos e grupos sociais, visto que reproduz de forma mais fiel a realidade por tratar-se de um processo mecânico-químico. A composição desses retratos, todavia, não diverge em termos estéticos do estilo de pintura vigente do período, visto que a ideologia predominante buscava o antropocentrismo, racionalidade e equilíbrio. Como visto, a linguagem fotográfica pode ser usada de forma a refletir sobre os valores do viver social, a realidade de cada indivíduo e a condição do produtor artístico. Os trabalhos de Cindy Sherman, Andy Warhol e Nan Goldin podem, cada um ao seu modo, ilustrar e explanar os seus significados. A fotografia causou impacto por propiciar uma nova forma de ver o mundo e ainda hoje esse fato é muito notável, visto que o fenômeno dos Selfies provam sua inegável presença na sociedade. A presente pesquisa, ainda em andamento, preocupa-se em abordar os caminhos que a autorrepresentação atravessa e também os possíveis desenvolvimentos e reações provenientes desse fenômeno. Sendo assim, olhar para a projeção do outro em relação à convicção de si e que sua autoimagem pode revelar traços cada vez mais contundentes da natureza humana na atualidade. Referências Bibliográficas BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política, ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. CRARY, Jonathan. Técnicas do Observador: Visão e Modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2012. DANTO, Arthur C. Andy Warhol. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2012. DEBRAY, Regis. Vie et mort de l’image. Paris: Editora Gallimard, 1992. DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1995. FABRIS, Annateresa. Reivindicação de Nadar a Sherrie Levine: autoria e direitos autorais na fotografia. Porto Alegre: XII Simpósio de Artes Plásticas “Direitos Autorais da imagem em tempos de apropriação”, 2002. FONTCUBERTA, Joan. Estética Fotográfica. Barcelona: Editora Gustavo Gili, 2010. GOLDIN, Nan. Nan Goldin: Iʼll be your mirror. Nova Iorque: Scalo, 1996. HOCKNEY, David. O conhecimento secreto - redescobrindo as técnicasperdidas dos grandes mestres. São Paulo: Cosac Naify, 2001.
  11. 11. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 - Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 10 KRAUSS, Rosalind. Cindy Sherman 1975-1993. Nova Iorque: Editora Rizzoli, 1993. LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2000. LICHTENSTEIN, Jacqueline (Org.). A pintura: textos essenciais. Vol. 6: A figura humana. São Paulo: Editora 34, 2006. LUCIE-SMITH, Edward. Os movimentos artísticos a partir de 1945. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006. MEDEIROS, Margarida. Fotografia e Narcisismo, o autorretrato contemporâneo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. MORIN, Edgar. O Paradigma Perdido - A Natureza Humana. Lisboa: Europa- América, 1974. SHARF, Aaron. Art and Photography. Nova Iorque: Penguin Books, 1968. The Guardian. Selfie is Oxford Dictionaries' word of the year. Acesso em 23/02/2014, disponível em <http://www.theguardian.com/books/2013/nov/19/selfie- word-of-the-year-oed-olinguito-twerk>. VOGEL, Carol. Cindy Sherman Unmasked. Acesso em 23/02/2014 disponível em <http://www.nytimes.com/2012/02/19/arts/design/moma-to-showcase-cindy- shermans-new-and-old-characters.html?pagewanted=all&_r=0>. WARHOL, Andy. The Philosophy of Andy Warhol. Nova Iorque: Editora Penguin, 2007. Referências das imagens Figura 1 – Cindy Sherman as Herself, 2011. Acesso em 23/02/2014 disponível em <http://www.nytimes.com/2012/02/19/arts/design/moma-to-showcase-cindy- shermans-new-and-old-characters.html?pagewanted=all&_r=0>. Figura 2 – Self-portrait, Andy Warhol, 1980. SOBIESZEK, Robert. The câmera I. Nova Iorque: Harry N. Abrams Inc, 1996. Figura 3 – Self-portrait, Andy Warhol, 1986. Acesso em 5/3/2014 disponível em <http://www.warhol.org/collection/art/selfportraits/1998-1-2190/>. Figura 4 – Self-portrait, Andy Warhol, 1964. SOBIESZEK, Robert. The camera I. Nova Iorque: Harry N. Abrams Inc, 1996. Figura 5 – Self-portrait in kimono with Brian, Nan Goldin, 1970. GOLDIN, Nan. Nan Goldin: Iʼll be your mirror. Nova Iorque: Scalo, 1996.

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