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O Amor Segundo B. Schianberg: a relação de coautoria entre direção e atuação

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Artigo publicado na Revista Iniciação – edição Vol. 3, nº1, Ano 2014
Publicação Científica do Centro Universitário Senac - ISSN 2179-474X

Resumo

Este artigo tem como interesse estudar a coautoria que se estabelece entre diretor e atores em obras audiovisuais e como essa relação funciona. Primeiramente, tem-se a ideia de autoria dentro da obra do diretor e a partir disso, como essa autoria é passada para os atores e o que faz um ator um autor. Para isso, foi estudada a obra O Amor Segundo B. Schianberg, minissérie dirigida por Beto Brant e atuada por Marina Previato e Gustavo Machado.

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O Amor Segundo B. Schianberg: a relação de coautoria entre direção e atuação

  1. 1. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 1 O Amor Segundo B. Schianberg: a relação de coautoria entre direção e atuação O Amor Segundo B. Schianberg: the co-authoring relation between direction and acting Ana Lígia Carraro Guimarães Centro Universitário SENAC Bacharelado em Audiovisual (anacarraro.ac@gmail.com) Este artigo resulta do projeto de pesquisa O papel do digital nos limites entre realidade e ficção sob o ponto de vista da atuação: O amor segundo B.Schianberg, desenvolvido sob a orientação da Profa.Ms. Nanci Rodrigues Barbosa Resumo. Este artigo tem como interesse estudar a coautoria que se estabelece entre diretor e atores em obras audiovisuais e como essa relação funciona. Primeiramente, tem-se a ideia de autoria dentro da obra do diretor e a partir disso, como essa autoria é passada para os atores e o que faz um ator um autor. Para isso, foi estudada a obra O Amor Segundo B. Schianberg, minissérie dirigida por Beto Brant e atuada por Marina Previato e Gustavo Machado. Palavras-chave: coautoria, atuação, direção, autoria. Abstract. This article has the interest to study co-authoring established between director and actors in audiovisual works and how this relationship works. First, there is the idea of authorship in the director’s work and, from this, how this authorship is passed to the actors and what makes an actor an author. To do so, the tv serie O Amo Segundo B. Schianberg, directed by Beto Brant and actuated by Marina Previato and Gustavo Machado, was studied. Key words: co-authoring, acting, directing, authorship. 1. Introdução A minissérie O Amor Segundo B. Schiangerb, de Beto Brant, foi escolhida como objeto de estudo para o processo de Iniciação Científica. A obra chama a atenção por sua estética diferenciada (o uso de câmeras de segurança para captar as imagens) e pelo hibridismo, fazendo uso de cenas ficcionais e não ficcionais. Porém, entre a estética e o hibridismo havia algo que se destacava: o trabalho de direção e atuação ali presentes, já que era essa relação diferenciada entre diretor e atores que dava sentido a estética adotada e tornava o hibridismo tão harmônico. A partir dessa relação estabelecida, diversas questões surgiram, como o modo de direção de atores adotada, a criação dos personagens, a interferência dos atores na concepção da obra e o uso de situações não ficcionais que se mesclavam com as ficcionais. Assim, foi-se estabelecido que existia ali uma relação de coautoria entre diretor e atores, e fazendo dela o tema deste artigo. Durante a década de 1950, os críticos da revista Cahiers du Cinèma criaram a Política dos Autores, que compreendia a autoria dentro do cinema. O autor seria o diretor do filme, porém para isso, teria ele que possuir uma expressão pessoal dentro deste, uma visão criativa sobre tudo que envolva uma obra audiovisual, como a iluminação, composição de um plano, atuação, som. O que os críticos defendiam era um diretor que também fosse produtor e roteirista, criando uma unidade.
  2. 2. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 2 O ator, por sua vez, também possui um trabalho de autor dentro do cinema: ele é criador físico do personagem. Seu trabalho compreende a personificação de um personagem criado pelo roteirista, dando uma personalidade para a obra. Uma relação tradicional entre ator e diretor é focada na encenação dentro do filme. A atuação pode ser entendida como um dos elementos mais importantes dentro de uma obra audiovisual, como explicita David Bordwell em Figuras Traçadas na Luz: Em quase toda a história do cinema, a encenação foi essencial para a construção de um filme. Desde o começo do século XX, até os anos 1970, os diretores da indústria cinematográfica em todos os continentes tinham de transformar roteiros em cenas, e essa tafera evolvia detalhar, momento a momento, as relações dos personagens no espaço. No sistema de estúdio, a encenação era o fundamento do ofício de diretor. Havia especialistas em iluminação e figurino, cenografia e montagem, mas o diretor era responsável por dar forma às representações dentro do espaço-tempo da cena. (BORDWELL, 2005, p.25) Muitas vezes, essa relação diretor-ator não se encerra na encenação, e o ator ganha o papel de autor dentro da obra, criando uma relação de coautoria. Essa coautoria pode ser entendida de diversas formas, desde a contribuição do ator na realização do roteiro até na mise-en-scène. Quando esse trabalho de coautoria é criado, a relação diretor-ator deixa de ser tradicional, na qual o diretor é a cabeça criadora, e os atores os corpos representantes, e passa ser uma relação de criação em parceria. O ator ultrapassa o papel da atuação e passa a influenciar na concepção da obra como um todo, tendo um papel tão importante quanto o do diretor. Seu trabalho passa a ser mais livre, já que ele possui mais autoridade na obra que está sendo realizada. Walmeri Ribeiro, em seu artigo O ator cocriador e suas contribuições no cinema brasileiro contemporâneo, explicita esse trabalho não tradicional: Fruto de um projeto poético proposto pelo diretor, a inserção do ator como cocriador da obra audiovisual implica em uma ética não tradicional de direção e criação, o que ocasiona rupturas e deslocamentos de uma práxis cinematográfica hegemônica. (RIBEIRO, 2011, p.01) Um ator cocriador é a mescla existente entre ator e obra, pois ele, sendo criador, também é parte desta como ator. Segundo Patrick McGillligan, o ator se torna uma forma fílmica, como componente da mise-en-scène, juntamente com a luz e os enquadramentos. Por vezes, a mise-en-scène fica dependente dele: os enquadramentos são realizados devido ao posicionamento do ator dentro de cena, a luz igualmente, os figurinos podem ser escolhidos ou palpitados por ele. Um ator-autor ganha tamanha liberdade dentro da obra que suas experiências pessoais podem ser trazidas para o personagem e se abre então um grande espaço para improvisação. Isto pode ser gerado a partir de experiências pessoais trazidas pelo ator para dentro de cena, e assim, tem-se um ator que não está totalmente emergido no personagem, mas dividido entre personagem e ator. Esses conceitos de coexistência de ator e personagem no mesmo corpo são defendidos por Edgar Morin, Luis Miguel Cintra e Luc Moullet e se encontram explicitadas no projeto de Pós-Doutorado pela Universidade de São Paulo, O ator-autor no cinema brasileiro e no artigo O caipira o travesti. O programa gestual de um ator-autor: Matheus Nachtergaele, ambos de Pedro Maciel Guimarães. Edgar Morin fala de uma não absorção do ator pelo personagem, denominando isso de “osmose entre ator e personagem” (GUIMARÃES, 2012, p. 09), na qual o ator engloba o personagem, mas não deixa de existir dentro de cena, chegando a influenciar neste. Ideia esta muito parecida com a do ator português Luis Miguel Cintra, na qual o ator não
  3. 3. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 3 é engolido totalmente pelo personagem, tendo uma coexistência no mesmo corpo. Por fim, Luc Moullet defende que a vida privada pode ser uma grande influência na composição fílmica, criando uma forte relação entre ator e personagem, tanto na criação como na execução deste último. Como exemplo de uma obra audiovisual que faz uso da relação de cocriação entre diretor e ator, tem-se O Amor Segundo B. Schianberg, uma minissérie dirigida por Beto Brant dentro do Projeto Direções III da TV Cultura, em parceria com o SESC TV e a Drama Filmes. A minissérie é dividida em quatro capítulos e foi exibida em 2009 pela TV Cultura, porém está disponível no site da emissora dentro do Projeto Direções III. B. Schianberg é personagem do livro Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino. Na literatura, ele aparece como um psiquiatra e autor de um livro lido por Cauby, personagem principal da trama. Na minissérie, Schianberg, como um psiquiatra, decide fazer um estudo sobre as etapas de um relacionamento amoroso e a chegada do amor nessa relação. Para isso, ele faz um acordo com Gala (Marina Previato), uma videoartista: que ela convide um homem a fazer uma videoarte com ela e que, com isso, ele more por um período de tempo em seu apartamento. Para total observação de B. Schianberg e, logo, dos espectadores, foram espalhadas diversas câmeras pelo apartamento. O homem em questão é Felix (Gustavo Machado), um ator. Gala o encontra durante uma apresentação da peça Navalha na Carne, em que ele atua. Felix concorda com a proposta de Gala e os dois começam a morar na mesma casa. B. Schianberg não aparece fisicamente. Ele se torna presente por meio de uma narração onde comenta as diferentes etapas do amor de acordo com as situações apresentadas pelo casal e por meio de sua caligrafia em anotações que aparecem sobrepostas às imagens, que ora servem para transcrever suas falas, ora as falas de Gala e Felix. Essa falta de aparência física do psiquiatra faz com que ele ganhe um caráter voyeurístico, já que ele está ali somente observando os dois se relacionando e, salvo Gala que encara as câmeras diversas vezes como se estivesse encarando o próprio B. Schainberg, Felix parece não desconfiar de nada. Para que a coautoria exista é preciso que exista então um autor. Beto Brant se encaixa na denominação de autor gerada pela Política dos Autores, assim como por definições criadas na literatura, como as de Michel Foucault e Roland Barthes, e aquela própria à sétima arte, de Jean-Claude Bernadet. 2. O autor Beto Brant e sua trajetória filmográfica O trabalho de Beto Brant como diretor de longas-metragens começou com o cinema de Pós-retomada na década de 1990. São sete filmes que constituem sua filmografia [Os Matadores (1997), Ação Entre Amigos (1998), O Invasor (2002), Crime Delicado (2005), Cão Sem Dono (2007), O Amor Segundo B. Schianberg (2010) e Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (2011)]. É possível perceber a existência de duas temáticas de enfoque no trabalho de Brant. A primeira diz respeito aos três primeiros filmes de sua carreira, tratando de temas direcionados à crítica social, como o tráfico existente na fronteira Brasil-Paraguai em Os Matadores. A segunda é mais intimista, trata de relações entre casais, contudo estes nunca são ditos como casais vindos de “contos-de-fadas”, com um final alegre e emocionante. As relações são sempre difíceis, conturbadas e intensas. Os modos de se realizar uma obra que se repetem constantemente, assim como as temáticas dos filmes, traz ao trabalho de Beto Brant um caráter de autoria. A ideia de autor aparece no texto de Roland Barthes, A Morte do Autor, no qual o autor nasce antes do livro, ele é concebido num tempo anterior ao livro. O autor é aquele que o alimenta,
  4. 4. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 4 que pensa, sofre e vive com ele. Diz também que ao se dar uma autoria a um texto é dar-lhe um significado último. Michel Foucault em O que é um Autor, partindo também do pensamento de um autor originário da literatura, associa autoria a um poder criador. Essa associação se dá pela criação de um status de um ser de razão, criado pela função-autor. Essa, por sua vez, pode ser entendida como o modo de funcionamento de um discurso dentro da sociedade. Pode-se tratar a autoria no cinema baseada na ideia de Política dos Autores, proposta pelos críticos da revista Cahiers du Cinéma na década de 1950, que buscava uma expressão pessoal do cineasta dentro do filme e um realizador que fosse diretor, produtor e roteirista, criando uma unidade. Jean-Claude Bernardet, no capítulo O Domínio Francês – Anos 50 do livro O Autor no Cinema, fala da ideia de matriz, que é constituída a partir da análise de um conjunto de filmes do autor, e as repetições presentes neles são o que a delimitam. Essas repetições ajudam a formar o autor. Brant acaba criando essa unidade em muitos de seus filmes, já que ele dirige, roteiriza e a produção é feita por sua produtora, a Drama Filmes. Em Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, Lavínia, uma mulher casada com um pastor religioso, tem um caso com Cauby, um homem solteiro que chega a cidade onde aquela mora. Em Cão Sem Dono, Marcela, uma jovem modelo que se envolve com Ciro, um jovem tradutor que passa por problemas financeiros e pessoais, descobre um câncer e durante todo o tratamento, some da vida daquele. E existe ainda a paixão obsessiva de Antônio, um crítico de arte, por Inês, uma mulher que possui uma perna amputada e é modelo viva para um pintor, Campanela, cujos quadros retratam cenas de sexo, que causa a dúvida do ato de um estupro em Crime Delicado. Outro aspecto importante nas obras de Brant é o fato de os casais conviverem muito dentro de suas casas e apartamentos, principalmente no interior do quarto, seja por ser um relacionamento extraconjugal, como no caso de Lavínia e Cauby, ou por um incômodo gerado pelo mundo exterior como no caso de Ciro. O relacionamento, então, passa a existir dentro das quatro paredes. Esse estilo enclausurado de se relacionar remete muito ao que acontece na minissérie, onde o exterior só é visto na videoarte feita por Gala, que é mostrada no final do último episódio, porém ele está sempre presente sonoramente, com os sons de carros e pássaros que invadem o apartamento. O modo como os relacionamentos acontecem também segue uma linha. Eles começam com as relações sexuais muito presentes e fortes e com o tempo, o sexo perde um pouco a importância e o sentimento amoroso vem à tona. Isso fica muito evidente em Cão Sem Dono, quando, logo no início da relação de Ciro com Marcela, ela lhe pede que faça uma poesia para ela. Ciro só consegue falar sobre os atributos físicos da moça e ela então lhe pede para que ele olhe dentro de sua alma. Com tempo e a ida de Marcela para o lugar onde faria o tratamento contra o câncer, Ciro percebe que a atração sexual foi deixada para trás, e que agora estava apaixonado. Isso é mostrado na forma de um sofrimento intenso, onde o título do filme se faz ideal: Ciro era como um cão sem dono. O Amor Segundo B. Schienberg tenta mostrar essa mudança de sentimentos de um modo mais didático, mostrando passo a passo e por meio de falas e anotações do psiquiatra sobre o comportamento do casal, se referindo ao amor como uma doença. O sexo é também um item presente em quase todos os filmes e na minissérie de Brant. O Invasor e Crime Delicado mostram o sexo um pouco de longe, de maneira rápida. Neste último, o sexo é ligado ao crime, estupro. A delicadeza usada por Brant em seus outros filmes para cenas onde o ato sexual é consumado se transforma em uma cena fria, com poucos planos e sendo estes muito abertos, fazendo com que todo o ato quase
  5. 5. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 5 não seja visto. Já em Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, Cão Sem Dono e O Amor Segundo B. Schianberg, o sexo é mostrado de perto, é mais explícito, a câmera passeia pela cena. O ato se torna algo delicado, bonito e natural. Uma das principais características de Brant é seu gosto por fazer livros virarem filmes. Isso acontece em: O Invasor, Crime Delicado, Cão Sem Dono, Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios e em O Amor Segundo B. Schianberg. E essa adaptação nunca é feita somente por Brant, a maioria dos seus roteiros são escritos por ele, Marçal Aquino e Renato Ciasca, além da contribuição de outros roteiristas. Sua parceria com Marçal Aquino também é importante, já que muitas das adaptações provêm de livros do próprio Aquino, como é o caso de O Invasor, O Amor Segundo B. Schianberg e Eu Reberia As Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. Essas constantes adaptações que tomam conta de sua filmografia contribuem para uma unidade do autor. Uma questão comum a Crime Delicado, Eu Receberia As Piores Notícias os Seus Lindos Lábios, O Amor Segundo B. Scianberg e Cão Sem Dono é a presença de outras artes dentro dos filmes. O teatro e as artes plásticas no primeiro, a fotografia no segundo, a videoarte e artes plásticas nos dois últimos, respectivamente. Essa presença é muito forte em todos os casos já que elas têm uma importância grande dentro da trama. São os quadros e a relação de Inês e do pintor Campana, em Crime Delicado, que provocam o ciúme de Antonio levando à suposta tentativa de estupro. As fotos de Lavínia tiradas por Cauby e que se espalham por toda a casa e se tornam a lembrança da relação dos dois. O quadro de Marcela pintado por Elomar, porteiro do prédio onde mora Ciro, em Cão Sem Dono, que permanece em sua casa durante todo o relacionamento dos dois e só é levado embora quando a moça se vai; sem contar que a pintura é uma visão sobre Marcela diferente da de Ciro: ela é uma luz. E em O Amor Segundo B. Schianberg, com a vídeoarte de Gala. A quebra da quarta parede também é algo constante na obra de Brant. Em O Invasor, Anísio brinca com uma arma imaginária, vira para a câmera, encara-a, e assim encarando o espectador, atira. Em Crime Delicado, Campanela discursa sobre Inês com o espectador e o encara também, assumindo, por suas falas e pela estética escolhida, como um documentário dentro do próprio filme. Esse olhar dirigido à câmera pode ser constatado também em O Amor Segundo B. Schianberg, no qual Gala chega até a “brincar” com a câmera. Nos filmes de Brant, o personagem que a câmera acompanha, podendo este ser o principal ou não, é sempre o homem. É o homem que sofre por amor, por dilemas pessoais e por seus próprios erros. É o caso de Ciro, Cauby, Ivan e Antonio. Porém não é possível declarar que Felix seja o personagem principal na minissérie. Por muitas vezes é possível falar que na obra Gala ganha destaque e isso talvez se dê pelo fato de tudo acontecer dentro do apartamento desta, de modo que ela, vivendo ali, entre em evidência com mais facilidade que Felix. Contudo uma maior presença física em cena não interfere, necessariamente, na importância do personagem dentro da trama. Ou seja, O Amor Segundo B. Schianberg possui dois personagens principais: Gala e Felix, e muitas vezes, um só: o casal. O que se pode observar na obra de Brant é a liberdade dada aos atores. A improvisação aparenta ser algo recorrente em seus filmes, dando uma liberdade de criação maior aos atores. A liberdade criativa também se dá por sua parceria com Renato Ciasca em alguns de seus filmes, assim como na roteirização de seus filmes, que na maioria é feita em duplas ou trios. O modo de fazer cinema de Brant se torna diferente do tradicional. De suas obras, a que mais se diferencia é a minissérie. O Amor Segundo B. Schianberg, mesmo tendo muitos elementos em comum com os outros filmes, se diferencia pelo modo como foi produzido. As oito câmeras de segurança foram espalhadas pelo apartamento, porém a estética de vigilância, com planos plongée
  6. 6. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 6 e distantes, não foi adotada. Elas se mostram muito mais como um objetivo de observação voyeurística de B. Schianberg, de querer ver tudo mais de perto e em ângulos que favorecessem as situações que ali sucediam. As câmeras foram colocadas em lugares estratégicos; a do banheiro capta somente o que reflete no espelho, a do quarto se utiliza de planos mais fechados, como pedem as situações que ali sucedem, já que são momentos de maior intimidade do casal, e a da sala mostra um plano aberto, lateral, que faz com o que o ambiente, com a ajuda dos móveis espalhados pelo local, pareça um palco de teatro. Essa ideia de teatro é muito utilizada no ambiente, já que é ali que as brigas acontecem, como as danças e brincadeiras dos dois. A localização das câmeras também foi muito importante para a desconstrução espacial do apartamento. É praticamente impossível, para quem assiste a minissérie, construir mentalmente a planta baixa do lugar. Essa desconstrução torna-se interessante visual e esteticamente. Outro diferencial foi o fato de a equipe se alojar no apartamento ao lado daquele onde acontecia as gravações, durante as duas semanas que se sucederam. Tudo o que se passava no apartamento de Gala era acompanhado pela equipe. A edição das imagens era feita como em programas de televisão ao vivo, enquanto a ação acontecia. A estadia da equipe ao lado do apartamento era necessária, principalmente pelo modo de direção feito por Beto Brant. Ele decidiu interferir o mínimo possível nas ações que aconteciam no apartamento ao lado, dirigindo Marina Previato e Gustavo Machado por meio de mensagens no celular e e-mails. A comunicação entre direção e atores se tornou estritamente virtual, salvo uma única vez quando Gustavo Machado e Marina Previato discutiram e ele quis desistir da produção e Brant teve que intervir e convencer Machado a ficar. Esse estilo de direção também deixou uma dependência maior da equipe para com eles, já que os planos escolhidos, a montagem e o roteiro dependiam da ação do casal dentro do apartamento. Como as cenas não eram marcadas e tudo acontecia no cômodo onde os atores estavam no exato momento, a mise-en-scéne era feita em tempo real, pelos próprios atores e o roteiro era, muitas vezes, criado ali, por eles mesmos. Cabia à direção e a equipe de montagem escolher quais planos seriam usados, mas até isso dependia da localização das câmeras. 3. A Coautoria em O Amor Segundo B. Schianberg Ao analisar a direção de Beto Brant, o trabalho feito por Gustavo Machado e Marina Previato e a minissérie em si, é possível notar o uso de um trabalho de cocriação entre os atores e o diretor. O modo de direção escolhido por Brant, um estilo mais livre que abriu uma grande possibilidade para a improvisação e o uso de experiências pessoais dentro das cenas, permitiu que essa parceria fosse bem realizada. Os limites entre realidade e ficção não estavam visivelmente traçados. Não é possível afirmar quais cenas foram dirigidas e quais foram improvisadas ou somente aconteceram. Esses limites invisíveis se davam, tanto pela estética usada, com as câmeras de segurança em lugares estratégicos e a qualidade da imagem gerada muito similar a um reality show, a voz de B. Schianberg e suas anotações que ao mesmo tempo se faz aproximar de um filme de ficção, mas ao mesmo tempo dá à obra um ar de objeto de estudo, como pelo trabalho de atuação feita pelos dois atores em conjunto com Beto Brant. Como não existia um roteiro tradicional, onde as cenas e falas têm lugar e tempo certo, ou elas tinham que ser criadas instantaneamente e com a colaboração de Beto Brant ou realmente aconteciam, ou seja, não eram cenas atuadas.
  7. 7. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 7 O segundo episódio é fechado por um diálogo muito interessante que explicita esse uso de falas criadas a partir de experiências pessoais. Felix fala sobre o choro dentro atuação e Gala tenta chorar como ele a ensina. Então lhe é proposto um desafio: que ela vá até o quarto e fique lá por um tempo, buscando situações que a façam chorar, depois que volte para onde ele está de um jeito muito triste. Ela volta do jeito que ele falou e Felix, então, lhe fala que ela é uma atriz e que “viverá todos os prantos e todos os risos...” (MACHADO, Gustavo. 44’47”). Ela diz que está triste de verdade e que acha que não é uma atriz. O diálogo dos dois é metalinguístico: conversam sobre atuação. Felix denomina então Gala como uma atriz, que era o que Mariana Previato, antes uma videoartista, estava se tornando ao fazer a minissérie. O episódio termina com uma fala de B. Schianberg que acaba por exemplificar o processo de atuação, envolvendo uma não-atriz e improvisação, presente na minissérie: “Talvez ela esteja dizendo que também sabe representar. Sabe portanto simular e dissimular a dor. Talvez ele, o ator, esteja vivendo de verdade o seu papel, o risco para ambos é não perceber que toda representação contém sua própria verdade”. Nos últimos quinze minutos do quarto episódio da minissérie há a videoarte Começo em Ti; Termino, feito por Mariana Previato e/ou Gala durante os episódios. A videoarte tem Felix e Gustavo Machado como personagem principal, objeto de observação e pra quem o vídeo é dedicado (ao final dele tem-se uma cartela com os dizeres “Com amor, de Gala para Felix”). Surge, nessa videoarte, um terceiro personagem: é o personagem criado por Marina Previato/Gala para Gustavo Machado/Felix e a função de diretora dada a Marina Previato fica evidente e Beto Brant perde seu posto de diretor dentro da videoarte. É uma das poucas vezes que casal aparece interagindo com o mundo exterior, mas essa interação é pouca e quase insignificante. Existe então uma obra audiovisual dentro de outra e toda a feitura daquela é mostrada durante as gravações da última. As duas, contudo, se diferenciam explicitamente e há uma razão para isso: são realizadas por autores diferentes. Não é possível falar que Beto Brant é autor da videoarte no último episódio, ele não interfere nela em momento algum, salvo a ideia de que se teria uma videoarte ao final da série. Começo em Ti; Termino exemplifica a ideia de criação e de coexistência de ator e personagem num só corpo ao mesmo tempo. A minissérie não engloba somente as situações de Felix e Gala dentro do apartamento; a ela diz respeito também à videoarte. Esta não é só o desfecho do enredo, finalizando ali a história de Gala e Felix, mas também serve de justificativa para que o casal se forme, já que Gala o conhece quando lhe faz a proposta para participar da obra. Há uma coexistência de personagens e atores no mesmo corpo, como acontece durante toda a minissérie, mas se torna explícito aqui: é possível ver que quem grava e edita a vídeoarte é Gala, mas ao mesmo tempo é Mariana Previato; quem aparece nas imagens é Felix, mas também é Gustavo Machado e seu terceiro personagem criado para o vídeo. A ideia de coautoria também está presente na criação da mise-en-scène. A definição de mise-en-scène para os críticos da Cahiers du Cinéma (ideia explicitada por David Bordwell), é a de que ela compreende a interpretação, a iluminação, o enquadramento, os posicionamentos de câmera. As câmeras estavam colocadas nos lugares definidos por Beto Brant e a edição também era feita por ele, mas os enquadramentos e a iluminação eram definidos, principal e indiretamente, por Marina Previato e Gustavo Machado. Tudo dependia do posicionamento dos dois dentro do apartamento e, consequentemente, diante das câmeras. A mise-en-scène estava sendo, então, criada enquanto as cenas aconteciam, sem que nada, que não fosse o posicionamento das câmeras, estivesse premeditado. Isso não faz com o que trabalho de direção fosse menosprezado, já que existia uma decupagem ali. É possível perceber que Brant tinha
  8. 8. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 8 um conceito na hora de editar as cenas e de escolher as câmeras e enquadramentos que seriam usados. As cenas de cotidiano, com os dois cozinhando, lavando a louça ou simplesmente ociosos eram compostas por planos abertos, principalmente planos gerais, americanos e médios. As cenas de brigas ou de sexo do casal possuem planos bem fechados e essas últimas possuem uma característica interessante: os planos eram extremamente fechados e na maioria deles somente partes do corpo eram mostrados, havendo uma fragmentação do mesmo. Os planos fechados e a fragmentação trazem uma sensação de intimidade e de voyeurismo principalmente. Este está ligado à ideia do olhar observador de B. Schianberg e são nessas cenas principalmente, salvo as que possuem a narração do psiquiatra, que o espectador tem a sensação de que aquilo é uma experiência e que o casal está sendo observado. Outro fator que traz à tona a ideia de experimento são os momentos em que Gala encara a câmera conscientemente ou fala com ela. Além disso, esses momentos também atuam como quebra da ficção, que não está muito delineada durante toda minissérie. Por causa do modo de atuação muito realista e das situações ali presentes, sendo essas encenadas ou não, o que se tem é uma obra híbrida, com cenas roteirizadas e não roteirizadas, podendo chamá-las de ficcionais e não ficcionais. É difícil classificá-las como cenas que tiveram um roteiro pré-estabelecido e cenas que foram criadas no momento em que estavam acontecendo. Esse hibridismo é também uma evidência da liberdade ali existente e essa liberdade coopera para que a coautoria exista. É possível concluir que a relação de cocriação só tem a acrescentar numa obra audiovisual, na qual o trabalho em equipe sempre prevalece, mas somente o diretor é quem assina a autoria. Essa coautoria colabora ainda mais no cinema que preza pelo realismo, por causa da encenação com maior poder de criação. Referências BARTHES, Roland. A Morte do Autor. In: _____. O Rumor da Língua. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004. BERNARDET, Jean-Claude. O Autor no Cinema. 1ª Edição. Editora Brasiliente, São Paulo, 1992. BORDWELL, David. Figuras Traçadas na Luz – A Encenação no Cinema. 1ª Edição. Editora Papirus, São Paulo, 2009. FOUCAULT, Michel. O Que é um Autor. Bulletin de la Societé Française de Philosofic, 63º ano, no 3, França, 1969. GUIMARÃES, Pedro Maciel. O Caipira e o Travesti. O Programa Gestual do Ator-autor: Matheus Nachtergaele. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2012. GUIMARÃES, Pedro Maciel. Projeto de Pós-doutorado: O Ator-autor no Cinema Brasileiro. Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, São Paulo.
  9. 9. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 3 no 1 – janeiro de 2014 Edição Temática: Comunicação, Arquitetura e Design 9 NAGIB, Lúcia. O Cinema na Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90. 1ª Edição. Editora 34, São Paulo, 2002. RIBEIRO, Walmeri. À Procura da Essência do Ator: Um Estudo Sobre a Preparação do Ator para a Cena Cinematográfica. Instituto de Artes da UNICAMP. São Paulo, 2005. RIBEIRO, Walmeri. O Ator Cocriador e Suas Contribuições no Cinema Brasileiro Contemporâneo. [S.I.: s.n.] Filmografia Dov’è Meneguetti. Filme. Produção de Boby Costa, direção de Beto Brant. Brasil, 1989. DVD, 12min. Som. Os Matadores. Filme. Produção de Beto Brant e Renato Bucão, direção de Beto Brant, 1997. DVD, 90min. Som.Cor O Invasor. Filme. Produção de DramaFilmes, direção de Beto Brant. Brasil, 2002. DVD, 97min. Som. Cor. Crime Delicado. Filme. Produção de DramaFilmes, direção de Beto Brant. Brasil, 2005. DVD, 87min. Som. Cor. Cão Sem Dono. Filme. Produção de DramaFIlmes, direção de Beto Brant. Brasil, 2007. DVD, 82min. Som. Cor. O Amor Segundo B. Schianberg. Série de TV. Produção de DramaFilmes, TV Cultura e TV SESC, direção de Beto Brant. Brasil, 2009. Som. Cor. O Amor Segundo B. Schianberg. Filme. Produção de DramaFilmes, direção de Beto Brant. Brasil, 2010. DVD, 80min. Som. Cor. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. Filme. Produção de DramaFilmes, direção de Beto Brant e Renato Ciasca. Brasil, 2011. DVD, 100min. Som. Cor.

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