9Marianice Paupitz Nucera e Wanilda Borghi (org.s)             Grupo Experimental       Academia Araçatubense de Letras
Capa:       Wanilda Borghi            “A Fisgada” – 2011            Colagem sobre lápis de corRevisão: Marilurdes Martins ...
ÍndicePrefácio .........................................................................................................7W...
Prefácio                   Nas Veredas LiteráriasPredestinado a contribuirNa preservação da Língua Pátria-num átimo de ins...
Por que escrevo?                  Wanilda Borghi - 2011Porque o papel é amigo, o papel é ouvido, o papel é espelho.Confide...
Creche                      Wanilda Borghi - 2005     Cresce a alma quando checa a calma     Que emana do servir e clama o...
Pastoral da criança                              Wanilda Borghi - 2005        Guardadora do rebanho infantil        Organi...
bem-Te-quero                             Wanilda Borghi - 2007        bem-Te-quero é um grupo muito amigo de Jesus.       ...
Na tela                     Wanilda Borghi - 2007desenho de Wanilda Borghi                                             13
Apelo                       Wanilda Borghi - 2005     Eu bato na porta do seu coração,     Que só se abre por dentro.     ...
Torre de Pizza                                  Wanilda Borghi          Veio da Itália, o meu amor          Em busca de um...
Chuva de Prata                       Marianice Paupitz Nucera     A chuva banhou o sol     Que na manhã ia nascendo.     A...
O Ermitão                      Marianice Paupitz Nucera       Certa vez um jornalista chegou a um vilarejo e soube que um ...
de estar falando muito naquela cerimônia.Então, bem baixinho, eu disse aminha cara companheira:        _ Como este padre o...
Herança                  Marianice PaupitzNuceraTu és sapateiro,ensina a teu filhoo valor do couro,ele guardará um pedaço....
Almas gêmeas                       Marianice Paupitz Nucera         -Vá em busca das emoções perdidas no labirinto da sua ...
A Procura... ou... o encontro?                      Marianice Pauptiz Nucera        Já não há esperança. Está na hora de p...
querido filho!       A noite mais uma vez surge, e o sono toma conta desta sofrida se-nhora, que, muito intimamente pensa:...
Semente do amor e da perfeição                      Isabel MouraNo campo do tempoPlantei a esperançaNasceu também a saudad...
O Conto                               Isabel Moura       Contaram-me um conto. Contado pelo conde Cotobom. Que como ocotur...
Vida esquecida                       Isabel MouraNa caatinga vai subindoPote d’água na cabeçaNos espinhos pés ferindoGrita...
Sentimento de um rejeitado                           Isabel Moura     Menino de rua que vive a pedir     Um pão para comer...
Encontrei com a vida                               Isabel Moura        Hoje é Domingo, oito horas da manhã, a cidade ainda...
Menina Poesia                          Isabel Moura     Na maternidade do coração     Romântico     Nasceu ao mundo a meni...
Gota doce               Carmem Silvia da CostaNo calçamentoAquecido pelo solEla pousouFicara ali por alguns instantesE ao ...
A praça                     Carmem Silvia da Costa     A praça dos vovôs,     Pais, mães e das moçadas.     Famílias...   ...
Hino - um testemunho               Carmem Silvia da CostaUm testemunho tenhoE quero compartilharEu sei que Jesus cristo vi...
O novo                     Carmem Silvia da Costa     Alongo minha mente     Alongo? Sim alongo.     Ela sai como uma pedr...
O casamento da cabrita                      (Dedico esta historinha às crianças)                        Carmem Silvia da C...
- Sabe da última? Uma tal cabrita pediu ao rei leão para realizar oseu casório aqui, e ainda disse que não se relacionam c...
Cipó dourado                Manuela Sant’ana TrujilioA saudade e a solidãoTêm me pegado de jeito.Essas lembranças profunda...
Transporte, o carro de boi,     Ali nada era chique     O barro era batido     Pra casa de pau a pique.     Cenário lá do ...
Colhendo valores               Manuela Sant’ana TrujilioAo sentar no meu banquinhoColocando as mãos sobre a mesaVejo a fam...
Praça do Boi                    Manuela Sant’ana Trujilio     A praça era simples, era alegre     Sapatos brilhando, menin...
A nordestina                       Manuela Sant’ana Trujilio        Dona Nete é uma nordestina arretada. Apesar de ela já ...
abrir o ba,        Nervoso, Di grita lá de dentro de casa:        - Mainha, mais que converse é esse aí fora. Chega a casa...
Jeito estúpido         Ana de Almeida dos Santos ZaherCom um jeito estúpido,Levou-me à loucura.Não tinha medo das aventura...
Só para contrariar              Ana de Almeida dos Santos Zaher     Ele não atendeu ao telefone.     Não respondeu às cart...
Mãos                 Ana de Almeida dos Santos Zaher         Abençoadas mãos, que encontradas e unidas, trouxeram-me ao en...
ças. Agora,já seguros de si, estão perdendo a inocência.        Aquelas gargalhadas estão se transformando em sorrisos mud...
Overdose de amor                 Ana de Almeida dos Santos Zaher        Overdose de amor...        Corpo e mente trabalhan...
Marcelo Augusto e Thales Eduardo               Ana de Almeida dos Santos Zaher      Filhos amados      Queridos e insubsti...
Duas lágrimas         Ana de Almeida dos Santos ZaherLágrimas que não foram derramadasDe tristezas ou abandonoMedo ou dorD...
Véspera de natal                    José Hamilton da Costa Brito        José e Cláudio, todos os anos, logo no primeiro di...
- Ah! Duas moças que disseram que somos bonitas e fizeram estamaquiagem na gente.        Para não ferir susceptibilidades,...
Leve-me também                 José Hamilton da Costa Brito     Fim de tarde. No horizonte, lumaréus de fogueira.     Mais...
Escombro                   José Hamilton da Costa Brito        Antigamente punha-me a olhar o céu...        Ficava horas e...
O que fazer ?                         José Hamilton Brito        Trabalhou a vida inteira.Amava o que fazia; era uma ativi...
A alternância entre os momentos de doçura e os de amargura era tãorepentina, que não havia tempo para o prazer ou o sofrer...
Pióses                   José Hamilton da Costa Brito        Voando lá nas alturas ou pousado em uma falésia, obedecendo a...
Apodrecendo Desejos                     Maria Rosa Dias                             2006Irei enterrar seu tesão pútrido,Or...
“Fantasma da Perdição”                         Maria Rosa Dias                                 2010     Fantasma das Sombr...
Feridas                    Maria Rosa Dias                            2006Eu tenho decepçõesQue me cortam os pulsos.Sorrat...
Ah, tanto que me soa tão pouco...     Quem dera.     Ah, quem dera que o destino me presenteasse com a sorte     De um amo...
Magnus Maledictus                 Maria Rosa Dias - 2006Fiz minha própria cova.Provoquei meu suicídio inconsciente,Psicoló...
“Te amarei até a morte”                         Maria Rosa Dias                                 2010     Na solidão de meu...
Onde que tu estejas,Para onde quer que os Ventos te guiem,Saiba que nunca te esquecereiE que teus gritos, ânsias e medos m...
A fumaça sombria de seu Véu.     Cegante, inebriante     Intoxicante em seu doce fel.     Encantadores passos perdidos    ...
Pôr do Sol                            Antenor Rosalino        Todas as tardes, ao pôr do sol, na tímida vilazinha de ruas ...
as mais diversas implicações com o pobre cego, chegando até mesmo a ati-rarem objetos em sua pessoa, seguidos de gargalhad...
que, após a perda do filho querido, adoeceu misteriosamente. O Índio, por suavez, após algum tempo de internação num refor...
Ametista                          Antenor Rosalino     Lapidada, polida...     Emoldurada pela mãe natureza,     Flameja o...
O que é que há?                    Antenor RosalinoO semblante dos teus olhos vívidos,Trouxe um quê, não sei por quê,De am...
Angústia                          Antenor Rosalino     Farto do teu silêncio,     Parto deixando rastros     Dos sonhos qu...
Súplica de um poeta                    Antenor RosalinoDeixo no tempo as nuançasDa minha ousadia poética:Meus versos líric...
Árvore enorme                      Vicente Marcolino Rosa     Há sessenta janeiros, a semente     Tão minúscula foi solta ...
Coração infatigável                Vicente Marcolino RosaPulsas há tanto tempo, jamais cessas!Nem falas dos segredos contu...
Desvelo de mãe                     Vicente Marcolino Rosa     Vocábulo pequeno e indefinito,     Grande pelo amor que algo...
Moradia fechada                Vicente Marcolino RosaNaquela rua larga em que transito,Existe a casa azul de brancas telha...
Na fronteira                     Vicente Marcolino Rosa     Sairei de madrugada e vai comigo     A lembrança sutil que se ...
Vítima da soledade                Vicente Marcolino RosaIgnoras o prazer que vem da vida!...Evitas dialogar com os amigosE...
O Inventário                      Emilia Goulart dos Santos        Em uma recente manhã do mês de julho, quando se aproxim...
Acordo o coitado que dorme em frente à televisão. E ele assustadopergunta:       — O quê... O que houve?       — Nada, bem...
Cadelinha                      Emilia Goulart dos Santos        Foi numa manhã até bonita, que a cadelinha sumiu.        A...
— Taí, agora está explicado.        — Não se meta Dora, que este assunto não é seu. Eu tratava muitobem a cadelinha e até ...
pouco encontram esta ordinariazinha morta e vão pensar logo em nós.       — Que tristeza, nem caridade podemos fazer nos d...
O caso do padre                       Emilia Goulart dos Santos        O caso que o padre nos contou foi de arrepiar, hoje...
voltou.        As horas se passaram, o amigo acordava, rezava e voltava a dormir, es-tava inquieto e angustiado, o amigo d...
Frutos do Século XX              Emilia Goulart dos SantosPisaram a luaTransplantaram coraçõesVulgarizaram o amorComeram o...
Medo                   Elaine Cristina de Alencar     Eu tenho medo:     Da solidão,     Da ausência que se instalou,     ...
Noite fria                      Elaine Cristina de Alencar      Uma triste noite...      Fria, enevoada, cinza...      Sin...
Lamento                    Elaine Cristina de Alencar     O lamento me corrói a alma,     Me escraviza na sensação de perd...
Não tive tempo              Elaine Cristina de AlencarNão tive tempo pra entender...Quando vi, já era tarde...Estava entre...
De um processo enraizado.     Não tive tempo de impedir...     Que as palavras entoadas,     De uma dor passada.     Viess...
Raiva                       Elaine Cristina de Alencar       Neste momento, eu queria ter superpoderes.       Queria poder...
Nós, nunca a sós                           Marisa Gomes     Seus olhos sempre carinhosos acompanhados da voz acalentadora ...
Você é pra mim                      Marisa GomesSinto sua falta em cada momentoSinto, tento não sentir, mas lamento!Sinto ...
No Mundo da Imaginação                    Mariluci Braz Gomes Correia        Era uma noite chuvosa. Todos saíram.        F...
toda mulher. Teria valido a pena a sua vida? Por que teve tanto medo de serfeliz? Mas... Agora era tarde demais.        Al...
Livro Experimentânea 9
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Livro Experimentânea 9

  1. 1. 9Marianice Paupitz Nucera e Wanilda Borghi (org.s) Grupo Experimental Academia Araçatubense de Letras
  2. 2. Capa: Wanilda Borghi “A Fisgada” – 2011 Colagem sobre lápis de corRevisão: Marilurdes Martins Campezi Coordenadora do Grupo Experimental (GE)Presidente da Academia Araçatubense de Letras (AAL) Maria Aparecida de Godoy BaracatMentor do Grupo Experimental: Hélio Consolaro - 1999 Secretário Municipal de Cultura de Araçatuba - SPCriação da Logomarca GE: Wanilda Maria Meira Costa Borghi - 2009 Representante do GE no CMPCAProjeto e Editoração Gráfica: Arlen PontesCTP e Impressão: Editora Somos 869.0(81)-1 Experimentânia 9: Grupo Experimental - 2011 E96 Academia Araçatubense de Letras / Wanilda Maria M. C. Borghi; Marianice Paupitz Nucera (orgs.) - Araçatuba: Somos, 2011. 128 p. ISBN: 978-85-60886-36-4 1. Literatura brasileira 2. Poemas 3.Poesia 4. Poemas e poesias – coletânea 5. Crônicas 6. Sonetos I.Título II. Academia Araçatubense de Letras III. Borghi, Wanilda Maria M. C. (org.) IV. Nucera, Marianice Paupitz (org.)Ficha Catalográfica elaborada por Meiri Dalva V. de Moraes CRB8 6574/0-2
  3. 3. ÍndicePrefácio .........................................................................................................7Wanilda Maria Meira Costa Borghi...................................................................9Marianice Paupitz Nucera .............................................................................16Isabel Moura ................................................................................................23Carmem Silvia da Costa ................................................................................29Manuela Sant’ana Trujilio ..............................................................................35Ana de Almeida dos Santos Zaher .................................................................41José Hamilton da Costa Brito ........................................................................48Maria Rosa Dias ...........................................................................................55Antenor Rosalino ..........................................................................................63Vicente Marcolino Rosa.................................................................................70Emilia Goulart dos Santos .............................................................................76Elaine Cristina Alencar ..................................................................................84Marisa Gomes Correia ..................................................................................90Mariluci Braz Gomes Correia .........................................................................92Aristheu Alves.............................................................................................100Anizio Canola .............................................................................................103Heitor Henrique Ribeiro Gomes....................................................................110Beatriz Ferreira do Nascimento ...................................................................121Logomarca do GE .......................................................................................127 5
  4. 4. Prefácio Nas Veredas LiteráriasPredestinado a contribuirNa preservação da Língua Pátria-num átimo de inspiração sublimadaO Grupo Experimental foi criado.Idealizado sob o signo da cultura plenaFomenta iniciativas altruísticas,Visando a aprimoramentosNa promoção de novos talentos.Traz à luz como por encanto,Pretéritas lembranças de imortais pensadores,E engenhosos exemplos são seguidosImpulsionando os rebentos!Os integrantes do Grupo criam ideiasNas veredas literáriasPrescrevendo a vida breveIntercalando o abstrato!São seres que evocam luzes- entre o chão e as estrelasPela literatura transcendenteE poesias que lhes acenam.Antenor Rosalino 7
  5. 5. Por que escrevo? Wanilda Borghi - 2011Porque o papel é amigo, o papel é ouvido, o papel é espelho.Confidente. Receptor. Reflexivo.Como num coral, abre meu texto em muitas vozes que ecoam.Por isso saio de perto. Escritor Wanilda Borghi - 2003Lápis e papel. Na mão, o que lhe vai à alma.O coração retratado, sentimento dividido,Amargura amaciada, e a sensação bipartidaDe se estar acompanhada!Escrever. Ato solitário amansador.Somos todos, qual galinho,No alto do campanário.Expostos. Ao lado do para-raios.Interiorizados. Externando sentimentosCompassados. Que vão e vêm com o vento!Aos quatro cantos. Cardeais. Pontos.Vigários por toda parte.Casamentos sólidos desfeitos.E a sensação permanece.Canetas: à prece! 9
  6. 6. Creche Wanilda Borghi - 2005 Cresce a alma quando checa a calma Que emana do servir e clama o crepitar da chama Que faz o bem e esquece Creche, creche Próximo à lagoa, em Assis, o brejo seco reclama Mexe, mexe Agite o lodo Turve a água Esvazie o engodo Depois... debalde o rodo, a calmaria, A translucidez, o raiar de um novo dia Que aclara a idéia Santa.10
  7. 7. Pastoral da criança Wanilda Borghi - 2005 Guardadora do rebanho infantil Organização Não Governamental Entidade sem fins lucrativos: Terceiro Setor. A pastorar o amor eterno ao desnutrido: Assistência pré-natal Catequese do ventre materno Aleitamento carinhoso e terno. Trabalho eficiente reanimador. Multimistura. Farelo: carro-chefe regional: rama de batata, folha de beterraba seca, cenoura, casca de ovo triturada..... Complemento alimentar! Pastoral da Criança. Espiral da esperança de um dia poder contar com a aliança de outros voluntários: Estudantes ou profissionais Que levem saúde bucal à infância! Ajudem a motivar! (Esta poesia foi ofertada à Dra. Zilda Arns, por uma amiga comum: Alessandra de Lima,para quem fiz esta epígrafe, publicada em sua Dissertação de Mestrado). 11
  8. 8. bem-Te-quero Wanilda Borghi - 2007 bem-Te-quero é um grupo muito amigo de Jesus. bem-Te-quero é sincero, pois a bíblia o conduz! Justiça, justiça! É o que, bem-Te quero, quer. bem-Te quero é um membro da Associação Jessé. O jejum de bem-Te-quero é todo dia vinte e sete. bem-Te-quero não quer dores: ora pelos investigadores. Silêncio! Um momento! O grupo é de crescimento. E o grupo tem um ideal: é a Polícia federal. Fubá, fubá! bem-Te-quero quer doar. E roupas decentes para todos os carentes. bem-Te-quero é uma família, unida e risonha, onde tudo começou com a Cleida e a Sonia. Tanta gente tão bonita compõe bem-Te-quero: Adriana, Anísia, Rodrigo, Ariele, Edna, Farlene, Jaqueline, Lucilene, Ivanilda, Wanilda, Sandra, Silvana, Rosa, Romicarla, Michele, Daniela, Osvaldo, Mara, Márcio, Elisângela, Leda, Juliana... na casa da Maria. bem-Te-quero, bem-Te-quero, o bem que brota do coração. bem-Te-quero, bem-Te-quero, vê o mundo como irmão. (“bem-Te-quero”: música composta - com pseudônimo -, para o Grupo de CrescimentoCristão “Aos Olhos do Pai”). 12
  9. 9. Na tela Wanilda Borghi - 2007desenho de Wanilda Borghi 13
  10. 10. Apelo Wanilda Borghi - 2005 Eu bato na porta do seu coração, Que só se abre por dentro. Aqui fora está bem frio, E não tem nenhum assento. Tenho sede, quero entrar. Quero te ver por inteiro. Solucionar tua dor, Amar-te por um momento, Até ver que se esgotou Todo e qualquer argumento. Futuro Wanilda Borghi - 2005/2011 Eu sempre corro, corro, corro E não consigo te alcançar! Quando chego bem pertinho, Já estás noutro lugar. Mas correndo tropecei E vi a paz, antes latente: O que me espera, o que me vem, Tenho certeza, é para o bem! E o futuro? Já chegou: Ele se chama Presente.14
  11. 11. Torre de Pizza Wanilda Borghi Veio da Itália, o meu amor Em busca de uma vida bem melhor Muita arte, fé e empolgação Trouxe pra enxugar o seu suor. Povo tão intenso aquele seu Onde bota o pé, bota emoção Tanta discussão, zero rancor, Tanta união e tanto amor (fraterno) O pai, provedor, Os filhos, bem juntinhos, (parece carrapatinho) Tanta alegria, tanta comunicação (parla com a mão, parla com a mão) A culinária, tão cheia de tradição E a pizza que veio vitoriosa, Pra acalmar a confusão.refrão: Na família italiana, A palavra final é da mamma, Que pra ver o aconchego do ninho, Serve a massa regada a vinho. Bota tomate, manjericão, O molho é feito no calor da emoção. Bota tomate, manjericão, E, como Nero, bota fogo no salão. (Quanta! É uma torre de pizza!) “Torre de Pizza”, concorreu ao samba-enredo oficial do Carnavaval 2011: “Mamma mia!Tudo acaba em pizza!” 15
  12. 12. Chuva de Prata Marianice Paupitz Nucera A chuva banhou o sol Que na manhã ia nascendo. A tarde não tardaria... Como a ostra esconde a pérola, a nuvem negra escondia dentro dela sem agonia pingos de prata certeiros. Almas caídas, carentes! O estampido da bala era o grito do insano que com voz rouca gritava : Olha a chuva! Olha a chuva! Poesia inspirada no genocídio do Rio de Janeiro: Realengo – 2011.16
  13. 13. O Ermitão Marianice Paupitz Nucera Certa vez um jornalista chegou a um vilarejo e soube que um bem su-cedido comerciante, havia se mudado da cidade deixando família e quase todasua economia; saíra de casa apenas com a roupa do corpo e algum dinheiropara comprar um pequeno sítio, onde dali em diante passaria a morar. O jornalista, que estava à procura de peculiaridades, quis saber mais:por que um homem bem situado na vida toma uma atitude desta? O comentário da pequena cidade, é que ele tinha tido uma decepçãocom algum fato ocorrido dentro de sua família tão bem constituída, mas nadaera muito bem explicado. O que se sabia é que o nosso amigo alimentava-sedo que plantava, tomava banho em uma cachoeira e vivia numa solidão total,apenas com um cachorrinho vira-lata que havia encontrado no abandono. A casa do pequeno sítio era bem modesta, flores do campo a seu redor,um coqueiro e várias outras árvores frutíferas. Toda tarde o nosso amigo se achegava junto a um rádio e ouvia aprogramação todinha até a hora de dormir. Durante o dia, a partir do primeiro raio solar, ele cuidava da plantaçãode onde tirava o seu sustento. O jornalista chegou até o sítio do ermitão e lhe faz várias perguntas:por que uma atitude tão radical? Por que largar um lar todo estruturado e seembrenhar em um lugar senão deserto, mas desprovido de todo e qualquerconforto ao qual ele estava acostumado? O nosso comerciante olha bem fixamente ao entrevistador e, apósuma pitada, diz: _ Meu caro amigo, vou lhe contar mais ou menos o que aconteceu:Sou ou fui muito correto em todas as minhas atitudes, sempre visava ao bemestar de minha mulher, filhos e agregados. Um dia, quando aconteceu o casamento da filha de um amigo, eupercebi que o padre celebrante; olhava muito para mim e minha mulher, além 17
  14. 14. de estar falando muito naquela cerimônia.Então, bem baixinho, eu disse aminha cara companheira: _ Como este padre olha prá gente, principalmente prá mim! Será queele está querendo me dizer alguma coisa? A mulher mui discretamente res-pondeu: _ Não se apoquente não, marido, ele é um padre muito legal! Há tem-pos atrás me confessei com ele. _ O quê? mulher ...que diabos você confessou? Para que ele me olhatanto? -Ah! Marido... Nada demais. Dali em diante, meu caro entrevistador, não tive mais sossego.A con-fiança que tinha em minha mulher acabou. Então para a desgraça não acon-tecer, resolvi me isolar. Entendeu? 18
  15. 15. Herança Marianice PaupitzNuceraTu és sapateiro,ensina a teu filhoo valor do couro,ele guardará um pedaço...Ourives tu ésmostra a teu filhoo brilho do ouro,ele deterá o póCortando o pano, ensina,alfaiate, a teu rebentoo valor do tecidoele guardará o retalhoO couro, o ouro, o retalho,relíquias que no atalhoda vida que surpreendeserão dos filhos trabalhomantenedor de teu sustento!3ª colocada no Concurso “Osmair Zanardi” da Academia Araçatubense de Letras – 2010. 19
  16. 16. Almas gêmeas Marianice Paupitz Nucera -Vá em busca das emoções perdidas no labirinto da sua vida! A frase ecoa no ar. É o vômito da esposa despejando todo o brejo alo-jado em seu âmago, onde adormecem sapos. Cansou da fraqueza humana, tanto dela, quanto do entediado cônjuge.O marido se faz de mouco, mergulhado no mar da depressão. Angustiada, a mulher apanha a bolsa. Coloca dentro dela alguma coi-sa. Sai a passos lentos. O pensamento cria asas e voa; logo, tenta uma aterrissagem, se nãofeliz, pelo menos tranquila. Sua alma se agita. Tem premonições. Sente a presença da morte. Está sendo seguida, mas não percebe. Sente-se flutuar. Houve a felicidade a dois, mas, um dia ela se foi, sem aviso prévio. Os filhos casaram, construíram família. E hoje, o lar é um ninho vazio. A dona de casa procura um lenitivo. Sua tez é séria; seus olhos, vidra-dos. Confere o conteúdo da bolsa. Na rua, crianças, adultos, idosos, todos num ritmo normal. De repente, um estampido, um grito de horror. Ela olha pra trás e vê omarido com os olhos esbugalhados, uma arma na mão, e, a alguns metros,uma criança estirada no solo. Seus olhos se dilatam, sua voz se embarga. Olha e não quer ver, mas,não tem jeito, vê um inocente atingido por uma bala perdida. Os olhares se encontram e cada um com sua dor e arma, atiram emseus próprios ouvidos. 20
  17. 17. A Procura... ou... o encontro? Marianice Pauptiz Nucera Já não há esperança. Está na hora de perder a vaidade. Ela, Dona Ernestina foi envolvida por uma onda dolorida, desde osumiço de seu único filho. Daquele dia em diante sua tez só foi tensão,seus lábios cerraram-se como porta de cofre do qual se perdeu o segredo,nunca mais se abriu. A senha para se ter o sorriso de volta seria seu filho, seaparecesse. Seus olhos tornaram-se leito de um rio seco. No primeiro momentochorou todas as lágrimas a que tinha direito. No instante seguinte, nenhum oásis, naquele olhar de um verde es-meralda , surgiu. Suas mãos se portam como gelatina: trêmulas desde o primeiro mo-mento do fato em si. Muitas vezes saiu a peregrinar por várias cidades, devido a telefone-mas, que depois concluíam-se serem trotes. Lá estava ela, o olhar perdido no infinito, os ouvidos à espera de umanoticia, seu corpo via –se agora, numa posição tétrica, esquelética, sempreem alerta. Desde quando seu rebento embrenhou-se pelo mundo, com catorzeanos, hoje já foram mais cinco. O que aconteceu com sua criança? A queaventura se jogou? O filho, que nunca lhe dera uma gota de preocupação, de repentesumira galope. Depois de muita procura Dona Ernestina hibernou –se , como umurso.. Para ela tanto faz noite ou dia, chuva ou seca, sol ou lua, amor ouódio. Ela está como uma baleia encalhada na beira da praia,que se a mortea levar sentir- se-á melhor.Quem sabe na outra dimensão encontrará seu tão 21
  18. 18. querido filho! A noite mais uma vez surge, e o sono toma conta desta sofrida se-nhora, que, muito intimamente pensa:- pelo menos dormindo posso ver emsonhos meu doce fruto. Embalada pelo sono, seu espírito se afasta à procura de um lenitivo,quando de repente, lá no fim do túnel vê luzir a última estrela. A Revolta Marianice Paupitz Nucera Dei um tapa na hipocrisia Relutei contra a mentira Avancei sem medir a linha Enunciei um limite Agonizei no risco tênue da vida Mergulhei no mar do universo Vi da moeda o inverso Transfigurei minha vida Pensando numa tainha Cai numa teia infernal De aranhas arranjadas Que ali enferrujadas Cercavam a alma humana! 22
  19. 19. Semente do amor e da perfeição Isabel MouraNo campo do tempoPlantei a esperançaNasceu também a saudadeCarregada de lembrançasReguei com as lágrimasDa fonte do coraçãoColhi a boa sementeDo amor e da perfeiçãoO amor é coisa sublimeSeu preço incalculávelNão se compara com ouroNem prata reciclávelEm tudo é bem perfeitoA perfeita perfeiçãoTudo perfeito fezO Autor da perfeição.No colégio me ensinouO tempo bom professorQue o segredo do campoÉ a paciência do plantadorA esperança nunca morreEstando no coraçãoSua sombra é um refúgioContra o mal e a solidão 23
  20. 20. O Conto Isabel Moura Contaram-me um conto. Contado pelo conde Cotobom. Que como ocoturno do comandante Conopon, caberia no canto do comboio colombiano.Coube colocar naquele compartimento com os cuidados conseguidos. Coisas corriqueiras como: colar, colarinhos, colatex, sem contar a coca-cola de Conrado. Coitado: No continente consumiram com o Cóti. E culparam o Core companheiro do Corófu, que é colega do Conradocoronel Contudoé. Condoído, coreano complicou-se, confrangido cobriu-se na congeladacorrenteza do consumo da confusão. 24
  21. 21. Vida esquecida Isabel MouraNa caatinga vai subindoPote d’água na cabeçaNos espinhos pés ferindoGrita a alma: não desfaleça!O eco no mundo respondeSalta no peito a esperançaVer o dia negrume escondeAi ai e nada se alcança.Chão seco longa caminhadaRastros de sangue são escritosNas linhas mal traçadasO destino de um pobre esquecido. 25
  22. 22. Sentimento de um rejeitado Isabel Moura Menino de rua que vive a pedir Um pão para comer roupa para vestir Ninguém te escuta ninguém te vê Com frio e fome sem lugar para viver. Se rouba é ladrão, se pede é mendigo, Vagabundo, nojento, futuro bandido Na sujeira do lixo esperança chorou Pra morte da fome o gatilho falhou. Segue sem rumo na selva perdido Buscando o nada num sonho ferido Qual o sol, sua vida, o brilho perdeu Num garimpo de ouro em que só espinho nasceu. No chão da calçada, negro véu te cobriu Entre a caladas eternas veio o sono sombrio O pranto e a flor o destino soprou Ao bueiro, a água, seu corpo arrastou.26
  23. 23. Encontrei com a vida Isabel Moura Hoje é Domingo, oito horas da manhã, a cidade ainda dorme. Dorme nos braços do silêncio. Embalado ao som contínuo do labirinto.Manhã muito fria. Sentada na sarjeta, sob uma luz pálida, estou a pensar. Pensamento vagueia tão rápido como os raios de um relâmpago. Vai cortando o espaço na amplidão de meu pequeno cérebro. Na fronteira do espaço e o tempo, meus olhos pararam. Pararam emdireção a um feliz prisioneiro que entrega ao Criador da natureza o seu gorjearretinido. Como o mais perfeito que pode ser, dentro de um espaço tão peque-no. Pendurado no galho de uma laranjeira. Pensamento se prende à melodiaque me vem aos ouvidos. Penso. Se sou livre para voar, porque vivo presanesta gaiola de solidão? Na cena real desta tela sem moldura me encontrei com a vida. Estejamtambém em minha garganta os mais altos louvores ao Criador. 27
  24. 24. Menina Poesia Isabel Moura Na maternidade do coração Romântico Nasceu ao mundo a menina Poesia. Ganhou de Drª inspiração Rima, semântica toda especial no berço da pediatria. Desde o campo, à universidade seu verso modelo corpinho de boneca. Rostinho atraente Amor em quantidade. Fez O mundo melodia, e o homem, Um poeta.28
  25. 25. Gota doce Carmem Silvia da CostaNo calçamentoAquecido pelo solEla pousouFicara ali por alguns instantesE ao acaso encontrouUma gota doceE provavelmente a sugou.Perdida em veste amarelaOnde os coraçõesNão se alegramCom a beleza das flores.Não há tempo de olharPara as penas coloridasE nem para as asas frágeisQue suplicam pelo néctar.Cansadas pelo pouco em poda,Em meio a concretos. 29
  26. 26. A praça Carmem Silvia da Costa A praça dos vovôs, Pais, mães e das moçadas. Famílias... A praça que fora das cantigas De rodas. De tão felizes meninas Com laços de fitas Nos vestidos e nos cabelos Que aprendeu a escutar Dos namorados seus segredos. A praça dos palhaços: Coitados Fabricam risos o tempo todo E ganham míseros trocados Que olhe lá se daria para Comprar um bom bocado. A praça do coreto, da banda Dos flautistas e dos gaiteiros. A praça dos ciganos A pescar as linhas das mãos. As praças dos políticos, dos artistas Dos camelôs, dos fazendeiros, Negociantes e trambiqueiros As pernas nuas e ousados decotes. Ah! Que pena, fora tomada Pela chuva de prata E no vai e vem dos que nela passam Consigo vão as saudosas estórias, Da praça do rui, onde o boi murgiu Mas não a viu.30
  27. 27. Hino - um testemunho Carmem Silvia da CostaUm testemunho tenhoE quero compartilharEu sei que Jesus cristo viveE vive a me amar.Que bênção maravilhosaE a bênção da salvaçãoJesus padeceu por mimEm cruel flagelação.Ao pai ele entregou o seu espíritoE consumou sua missão.Deixou a divina luzQue nos guia em nossas provações.A Jesus eu quero estar com o coraçãoRepleto de gratidão. 31
  28. 28. O novo Carmem Silvia da Costa Alongo minha mente Alongo? Sim alongo. Ela sai como uma pedra Presa a um estilingue E se solta para o alvo. Alvo? Que alvo? Não existe alvo. Sim, existe "o novo". Guardo tudo: rotina, labuta, neura E num chega prá la, o novo é o alvo Demarcado como um ponto e saindo Dali para muitas direções. Escolho uma e corro, corro e na velocidade Voo livremente, sem sofrimento E escravidão, porém algo interrompe: "pronto" você chegou, o novo que procura Já existe, pois tudo é vida, criação e ação. Respiro profundamente e retorno Com uma convicção de ter encontrado A palavra chave: "entusiasmo"32
  29. 29. O casamento da cabrita (Dedico esta historinha às crianças) Carmem Silvia da Costa Em um sítio próximo a uma floresta, morava uma pequena cabrita, euma tremenda confusão aconteceu; coisas que não dá nem para imaginar... A cabrita ao despertar pela manhã se sentiu feliz com o surgir do sol eo revoar dos pássaros. As flores a desabrocharem nos canteiros atraindo bei-ja- flores e borboletas. Tudo isso a motivou a realizar seu casamento. E achouque nada seria melhor que a selva. Para a festa ficar maravilhosa decidiuenviar uma carta para o leão. Sitio da Água Azul, maio... Caro leão: desculpe, majestade. Não nos relacionamos com vocês, porsermos domésticos. Marquei a data do meu casamento com as pretensões derealizá-lo aí. É com prazer que envio o convite. Caso permita, ficarei grata. Osconvidados são educados e não causarão dano algum ao seu ambiente. Atenciosamente, Cabrita. O leão leu e releu a carta, chamou os animais de sua confiança e lhescomunicou sobre seu consentimento a respeito do pedido da cabrita e queesta deixaria tudo em ordem após a festa. A cabrita foi até o galinheiro para pedir ajuda à galinha carijó. - Querida amiga carijó, conto com você para entregar esses convitesdo meu casório, e este é o seu em especial. A galinha ficou agradecida e saiu para a tal entrega, encontrando araposa que foi logo indagando: - A amiga galinha parece estar contente. - Estou mesmo, por se tratar da festa do casamento da cabrita para oqual estou convidada. A raposa, não perdeu tempo. Foi logo espalhar a sua discórdia entreos animais. 33
  30. 30. - Sabe da última? Uma tal cabrita pediu ao rei leão para realizar oseu casório aqui, e ainda disse que não se relacionam conosco por seremdomésticos e educados. - O que a cabrita quis dizer com isto, raposa? - Não sei, quem deve saber é a macaca. Ambas foram levar as novidades para a macaca, e esta querendo sedivertir disse: - Então não perceberam que são gente fina, melhor que a gente? A raposa e a onça ficaram furiosas com a explicação, e a macaca aovê-las saírem enfurecidas, caiu na gargalhada. No caminho a raposa falou: - Não vamos deixar assim, onça. Armaremos um plano e a festa serásomente nossa. Dito e feito. A pobre cabrita vinha toda sorridente acompanhada porum desfile de animais. Ao longe, a raposa e a onça estavam ansiosas. Daí araposa perguntou: - O que faremos para acabar com essa frescura? A raposa pensou, pensou... - Já sei! Vamos rápido. Laçaremos a perna do leão antes que ele acor-de e, no momento exato puxaremos a corda. Então, ele pensará que o casa-mento se tratava de um plano e nunca saberá o que foi. - Será que dará certo, raposa? - Claro que sim. Você abanará Sua Majestade enquanto eu lhe amarroa perna e me escondo atrás do trono. A cabrita ao chegar mencionou: - Como vai, Majestade? O leão levantou-se para cumprimentar os noivos e... puff no chão. E,ao perceber que sua perna foi laçada, deu um rugido tão forte que causou umgrande corre, corre. Só se ouvia: có có có corró có có, qui qui qui quiri qui qui,quá quá quá, au au au auau, miau miau miau... Quem podia voar, voou e os que corriam diziam: - Pernas pra que te quero! 34
  31. 31. Cipó dourado Manuela Sant’ana TrujilioA saudade e a solidãoTêm me pegado de jeito.Essas lembranças profundasVivem apertando meu peito.Daquele riacho lindoEu recordo com carinhoPaisagens exuberantesDos meus sonhos fizeram seu ninho.Relembro o cipó douradoRodeado de magiaNas manhãs ensolaradasChuva de ouro caiaOs raios de sol brilhantesEntre os galhos se perdiam.Orquídeas e trepadeirasPerfumavam nossos diasNa janela estreita, junto ao esteioO céu azul a gente viaAssentava o cabeloE para o sol dizia: Bom dia!No fogãozinho de barroDe um café eu me serviaPensando já no almoçoO feijãozinho fervia. 35
  32. 32. Transporte, o carro de boi, Ali nada era chique O barro era batido Pra casa de pau a pique. Cenário lá do lugar Deus sentou e construiu Foi um momento divino A estrela Dalva surgiu. Vivendo cá na cidade Do meu cantinho não esqueci Meus anos pesaram nos ombros Tudo é difícil aqui. Neste asfalto sem tesouro Não adianta insistir A simplicidade É perfume da natureza, Jamais deixará de existir!36
  33. 33. Colhendo valores Manuela Sant’ana TrujilioAo sentar no meu banquinhoColocando as mãos sobre a mesaVejo a família unidaA minha maior riquezaOs filhos estão crescidosAumentando os sonhos meusConservo esta construçãoCom a força que Deus me deuMinha morada é um jardimObservo cada flor: orquídeas, cravos, jasminsO céu fortalece a corMeu viver é tão felizA sorte assim me ensinaSer um sabiá que cantaNo pé de laranja limaFui semeando sementinhasColhendo os seus valoresO destino me ofereceuEste lindo buquê de floresFelicidade existeÉ bem adquiridoProcurando a gente achaTesouros escondidos 37
  34. 34. Praça do Boi Manuela Sant’ana Trujilio A praça era simples, era alegre Sapatos brilhando, menino engraxate Cintura bem fina, saiote engomado Blusinha de tule, saia pregueada Namoro escondido, beijo roubado Grampos nos cabelos, laquê no penteado. A praça devota, de grande riqueza... Velas acesas, hinos sagrados Procissão do Divino, Senhor amado Imagens de santo, andor enfeitado Fé na Virgem Santa, rezando o rosário Igreja Matriz, sinos repicados. A praça diz-que-diz, também diplomata Das belas lembranças, não se aparta Chapéu já gasto bengala do lado Abrindo o jornal, as pernas cruzavam Notícias de ontem, radinho ligado Filme do ano, Anselmo Duarte. A praça hoje é um mugido magoado Bons tempos aqueles, Maria, Maria das Graças A praça de pedra , está muito mudada Os olhos do boi só vivem inchados Chafariz de lágrimas rolam nas estradas. Transformou-se em canaviais, a sua invernada.38
  35. 35. A nordestina Manuela Sant’ana Trujilio Dona Nete é uma nordestina arretada. Apesar de ela já ter mais demeio século, usa os cabelos longos amarrados com fitas coloridas. Vive sem-pre sorrindo, só pra mostrar um dente de ouro que tem. Os lábios vivem pinta-dos de vermelho. Recém chegada do norte, se atrapalhava todinha com o jeitodos paulistas. Ela dizia assim: - Ochente, num me acustumo aqui não, o povo daqui é todo avexado.Parece fusmiga andando de lá pra cá, daqui pra acula. To abestalhada. Numsabe, na minha terra é diferente. Lá num tem desses negócios de andar decoletiva pra lá e pra ca, não. Lá a gente da cidadezinha de onde eu vim, lá agente anda é a pé mesmo ou intonce muntado num jegue. To todinha atrapa-lhada nessa cidade aqui, num sabe? Mais veja só, mulé de Deus. Minha irmãtinha que ir na Sandu tirar uma consulta, num sabe? Ela andava de olho todomelado, acho que era dordolho. Apois o dotô lhe receitô uma gota i, ela tá boa.Mais num dia que ela foi sem consulta, ela quase morre é do coração: quandoela saiu do consultório, muntou na primeira coletiva que passou, i num é queela pegô a coletiva errada, foi! E danou-se pro outro lado da cidade num bairropor nome de Nova Iorque. Ficou a tarde toda perdida. A bichinha precisou pediajuda pra políça pra achar o caminho de casa, foi! Olha mulé, eu tomem toprecisano de i no dotô, mas to é cum medo de sair suzinha e ficá perdida feiominha irmã. Vô pedi a meu filho que me leve ao dotô. Num ando me sentindomuito bem, num sabe? Adepois que Nó faleceu (o marido) dei pra ficar cufundinho da calcinha todinho molhado. Acho que to memo é com a bixigasolta. É uma mijadera, uma dô da muléstia no pé da barriga. To precisanu ditoma remédio. Óchente mulé, a conversa ta é boa, mais dá um tempo aí quevô chama Di pra i pro trabaio. E entra gritando: -Di, ó Di! Se aveche Home! Levanta e vá pro trabaio. Acorde que jáé tarde. Parece um lião quando adormece. Se aveche, home! Tá na hora de 39
  36. 36. abrir o ba, Nervoso, Di grita lá de dentro de casa: - Mainha, mais que converse é esse aí fora. Chega a casa tremê comtanta conversa. - É, eu tava cuntanu a Manela do dia que tua tia pegou a coletiva erra-da. Ma se aveche, home! Vá abrir o ba que já é tarde. - Mainha, eu já lhe disse que não é Ba. É bar! - Ochente! Apois só porque ta moranu aqui, em São Paulo, ficou todomitido, cheio de coisa, dizendo bar-bar. E eu falo cumu quero. É BÁ mesmo.É pur isso, Manuela, que eu queru voltar lá pro Norte prá minha cidadezinha.Num tem essas trapaieira que tem aqui, não. O povo daqui parece fusmigacarregando miolo di pão. Eu vô é si embora. To morrendo de saudade do povode lá e tumem, sabe do que é, de cume uma buchada de bode, carne secacom macaxera e jerimum. Chega dá água na boca, mulé. Quando me lembroda carne de sol com licor de jenipapo mais, Manuela, a depois a gente cunver-sa. Mais visse, dexa eu vê se Di se levantô pra ir abri o BÁ. Tiau. 40
  37. 37. Jeito estúpido Ana de Almeida dos Santos ZaherCom um jeito estúpido,Levou-me à loucura.Não tinha medo das aventuras.Sentia tanta paz.Colocava-me no colo.E fazia-me ver o azul do céu,O brilho das estrelas.Chegou invadindo meu ser.Com seu jeito estúpido,Deu-me tanto amor...Fez meu coração descobrirQue após a dor, vem o alívio. 41
  38. 38. Só para contrariar Ana de Almeida dos Santos Zaher Ele não atendeu ao telefone. Não respondeu às cartas. Fingiu-se de morto. Não admitiu o erro. Preferiu morar com o orgulho. Fechou-se para o amor. Ignorou a alegria Deu as costas para a felicidade. Tentou viver isolado. Não queria uma segunda chance. Desistiu... Mas só para contrariar... O anjo estava sempre atento, a vigiar.42
  39. 39. Mãos Ana de Almeida dos Santos Zaher Abençoadas mãos, que encontradas e unidas, trouxeram-me ao en-contro do amor sem medida. Mãos que a cada movimento, cada toque, faziam crescer a emoção eaumentava este sentimento maravilhoso,tornando nossa vida plena de felici-dade. Sei que não caminharemos juntos, de mãos dadas aos olhos da socie-dade, mas os laços que nos unem nunca vão nos separar. Cada gesto de carinho demonstrava o quanto era importante, parar,olhar, e perder tempo com o que realmente tinha importância. Eu sabia que as coisas mudariam um dia, que a correria do dia a diairiam nos distanciar, mas esquecer e abandonar, jamais. Dizer que estava preparada, minto; saber e prever algumas situações,é fácil, agora vivenciar e sentir na pele. Uma dor intransferível. Ver os exemplos de quem já passou por momentos parecidos, nosanima e fortalece, mas são experiências únicas. Portando cada um vive e secomporta à sua maneira. Todos querem dar receita, mas não tem jeito, cada ser tem sua perso-nalidade, submisso ou dominador...Calmo ou nervoso e assim segue... Filhos amados, filhos adolescentes... Mãos que te acariciavam, desde de quando habitavam meu ventre,eque depois o segurou firme e o abraçou, na chegada a este mundo. As portasdo paraíso, deste coração de mãe, nunca mais se fechou, e não continuou omesmo, pois de tanto amor, perdeu a chave e o controle. É difícil, mas não é impossível compreender que o tempo passa, os fru-tos nascem crescem, amadurem e... E assim são nossos filhos, nossas mãosentrelaçadas, protegendo-os da queda, ensinando os primeiros passos. E o tempo voa, numa velocidade que minhas mãos não conseguemalcançar. Ainda ontem, me deliciava com as brincadeiras e correrias das crian- 43
  40. 40. ças. Agora,já seguros de si, estão perdendo a inocência. Aquelas gargalhadas estão se transformando em sorrisos mudos. Cresceram de um tanto, estão maiores do que sua mãe, um dos mo-tivos que nos obriga a andar discretamente em público. Com a modernidade,eles sentem-se intimidados de serem confundidos e chamados de namoradoda própria mãe. Eles até acham graça, mas dizem que queimam seu filme. Ficam feli-zes e sabem que não estão sozinhos. Estas mesmas mãos que acenam dizendo adeus vão ser sempre asmesmas, que estarão sempre à espera dos abraços e da alegria do retorno. Filhos queridos e abençoados, legítimos ou adotados, onde quer queestejam ou aonde quer que vão. Mãos de mãe sempre vão estar direcionadas a vocês. Como o sangue que corre nas veias, assim são as mãos que semprevão tocar você, da cabeça aos pés... E tocarão seu coração, dando o entendi-mento e a compreensão, de que amor nunca é demais. 44
  41. 41. Overdose de amor Ana de Almeida dos Santos Zaher Overdose de amor... Corpo e mente trabalhando juntos, em busca do mesmo objetivo. A maioria das pessoas correm desesperadas, para obterem sua rea-lização profissional... E não estão erradas. Mas falham, ficam cegas e não enxergam a beleza que existe naspequenas coisas. Sufocando desejos, não viajam. Muitas morrem sem conhecer e sentir as águas do mar. O sol está sempre nos sorrindo. A lua, as estrelas dividindo o brilho delas com os humanos, que dificil-mente param para contemplá-las Overdose de amor... À disposição de todos, sem censura e de graça. O universo sempre de braços abertos, esperando nosso abraço e nada.A correria atrás dos tesouros, não deixa parar e ver o ouro que já trazemos aomundo, desde a fecundação. Somos escolhidos e privilegiados. Overdose de amor... Da qual muitos sábios abrem mão. Não conseguem o controle e fogem. Overdose de amor, um excesso que faz bem. Quando se tem a chance do encontro... com o equilíbrio. 45
  42. 42. Marcelo Augusto e Thales Eduardo Ana de Almeida dos Santos Zaher Filhos amados Queridos e insubstituíveis Razão do meu viver alegre Luz que ilumina meus dias Tesouros desejados Meus sonhos realizados. O complemento do meu ciclo Nesta vida...Plantei árvores Tenho filhos e escrevi meu livro. Assim a vida segue: Marcelo Augusto e Thales Eduardo, Filhos da minha alma Vocês são um pedaço do céu Em minhas mãos. Aconteça o que acontecer, Estarei sempre com vocês. Respeito suas opções. Abandoná-los? Jamais!46
  43. 43. Duas lágrimas Ana de Almeida dos Santos ZaherLágrimas que não foram derramadasDe tristezas ou abandonoMedo ou dorDuas lágrimasFelicidade!A emoção invadiu meu serA alegria cercou minha estradaO amor surgiu...Contaminou meu mundoEnfeitou os jardinsO vento leva o perfumeDas roseiras e dos jasminsDuas lágrimas que chegaramMolhando meu rostoExpressando o prazerQue sinto do amor sem medidaO universo me acolheDuas lágrimas caem:Uma da alma,Outra do coração 47
  44. 44. Véspera de natal José Hamilton da Costa Brito José e Cláudio, todos os anos, logo no primeiro dia das férias, coloca-vam as respectivas famílias nos carros e iam para alguma praia. Gostavammuito de Florianópolis. Alugavam sempre a mesma casa na Lagoa da Con-ceição, quase ali onde a beira-mar se divide, uma indo para as Canasvieiras ea outra para a Joaquina. Como se diz: na boca do gol. Um belo ano, as férias vieram com certo atraso e tiveram que viajarno dia 24 de dezembro, véspera do natal. Saíram já pelo meio do dia e “semandaram”, mas como íam com crianças e adolescentes, as paradas eramobrigatórias, o que atrasava a viagem. Eram férias, não havia pressa e a ale-gria reinava. Por volta das onze horas da noite, também conhecida por 23 horas,começaram a procurar um lugar decente para descansar e fazer a ceia na-talina. Rodaram mais um pouco e minutos antes da meia noite viram umrestaurante, típico de beira de estrada e: "é aqui mesmo né Zé". - Vamos nessa! Desceram, examinaram o local... meio esquisito - Você queria o quê, o meu! Um Fasano aqui neste fim de mundo? Não era bem o local, sua parte física... eram mais os frequentadores.Havia algo que, se não estava errado, também não estava muito explicado. - Quer saber?É época de confraternização, de aceitação do próximo,de desarmar os espíritos. Pediram lá o que comer e enquanto esperavam, ficaram se distraindocom as cervejas, que estavam bem geladas. Tanto a filha de um quanto a do outro, já meninotas, foram ao banheiroe demoraram mais que o normal; quando já iam ver o que estava aconte-cendo, as duas apareceram maquiadas. Uma maquiagem forte, típica dasmulheres da vida airosa: - Pô meu, que diabo é isso? - Quem fez isso em vocês? 48
  45. 45. - Ah! Duas moças que disseram que somos bonitas e fizeram estamaquiagem na gente. Para não ferir susceptibilidades, deixaram como estava. Assim quefossem embora, parariam para remover aquela desgraceira. O problema foiconvencer a mãe de uma das meninas a esperar: “elas estão com cara debiscate!” Enquanto discutiam o fato, o filho de um deles, aí por volta dos cincoanos, sem que os pais vissem, subiu por uma escada e sumiu lá pra cima. - Quem vai buscar? - Eu não vou, vai você. Vai você, não vou e de repente o menino desce: - Pai, tem um homem e uma mulher pelados lá em cima, ele está emcima dela, apertando a coitada na cama e acho que está batendo nela e... O menino não tinha terminado a palavra batendo e as mulheres saíramarrastando tudo, jogando pratos e copos no chão, na correria para o carro...morrendo de vergonha. - Ah! Meu Deus. Não tem e coisa nenhuma .Praga de menino, ele nãoestá matando ninguém. - Uai pai, o que eles estão fazendo, então? - Eles estão... estão... Já com a sua mãe lá no carro, coisa ruim! Havia um músico, sobrinho de um deles, grande cantor, tecladista eviolonista acompanhando-os na viagem que quase teve um "treco" de tantorir. Bem, alguém tinha que pagar as despesas. Houve uma certa demora, ain-da havia pratos solicitados que não tinham sido servidos. Procurava-se a pos-sibilidade de embalá-los para viagem, não havia esse tipo de atendimento. - E aí, vão morar no rende-vouz agora, seus safados. Gostaram dealguma "senhora"? Os dois chefes de família, homens honrados, saíram sob os xingamen-tos das “ damas" e das gargalhadas dos homens presentes. Vésp... quevéspera que nada, no dia de natal. E o Jesus menino vendo esta desgraceiratoda. Culpado? Só se foi Ele. Quem poderia imaginar que a gente estava pa-rando, para passar a virada de Natal, em um puteiro? 49
  46. 46. Leve-me também José Hamilton da Costa Brito Fim de tarde. No horizonte, lumaréus de fogueira. Mais um dia que se vai com o irmão sol. A natureza se prepara para o descanso. Tudo está calmo. Uma paz infinita dentro da alma. Os pássaros procuram os seus ninhos. Os namorados estão calados mas juntinhos. Adoro este fim de tarde em arrebol. A noite não será das mais escuras. As estrelas já estão no céu a pontilhar. A lua que vem de lá é suntuosa. Com os seus raios chega uma brisa gostosa. Um cenário perfeito para o amor. Na natureza, a mão de quem a criou. A tarde morre e aquela é uma hora divina. Perto ,alguém dedilha uma viola. Sirvo-me desse cálice. É paz deixando a vida fruir. Nessas horas sou feliz por pouco que seja. Deixo a tua imagem em mim se aconchegar. Deixo-me entorpecer pelo teu sorriso de magia. Sinto as tuas mãos em meus cabelos. Meu corpo reage. Enrijecem-me os pelos... A vontade de possuí-la supera todo o lirismo. O vento sul bate forte em minha face. Faz-me despertar do devaneio. Tomo consciência de que para vê-la só existe um meio: Que Deus tenha pena de mim e leve-me também.50
  47. 47. Escombro José Hamilton da Costa Brito Antigamente punha-me a olhar o céu... Ficava horas e horas a contemplá-lo. As nuvens em movimentos constantes formavam em inesperados ins-tantes as mais incríveis figuras. ...E eu ali, a sonhar. Faces formavam-se na coreografia e em vários momentos, eu via vocêa sorrir para mim. Tinha que ser na primavera. Deixei de ser quem eu era e para o céu, parei de olhar. Temia ver você lá no alto e entre nós uma distância sem fim. Não queria que me visse caído, derrotado e sofrido buscando o meu suspiro final. Mas um anjo apiedou-se de mim e sussurrou-me baixinho um con-selho: Filho, coloque-a no seu coração. Tire-a da cabeça. É escombro. Não a carregue no ombro. Vai ser feliz outra vez. 51
  48. 48. O que fazer ? José Hamilton Brito Trabalhou a vida inteira.Amava o que fazia; era uma atividade dinâ-mica. A competição, acirrada.Justificava-se tanta garra com a necessidadede ganhar o sustento da família. Havia no íntimo uma mola poderosa que oimpelia cada vez a dedicar-se mais. Queria na verdade ser o melhor. A estrelaque mais brilhasse. Ser apontado como o de carreira mais promissora. Haviasempre dois ou três que deveriam ser observados, pois eram os que com elemais competiam pelo lugar mais alto no podium. Não há quem não queira osucesso e isso não é pecado. Colocar o produto no melhor ponto de venda,fazer a operação mais lucrativa e fazer convergir sobre ele os olhos admira-dos dos superiores. Ganhar os prêmios e comissões, chegar em casa e vero orgulho estampado nos rostos da esposa e dos filhos. Quantas noites emclaro, lutando para entender o desgraçado do tal de ciclo RAA, uma malditade uma renina que sob a ação de um angiotensiógeno se tranformava emangiotensina um e que...puxa vida.E não soubesse essas desgraceiras todaspra ver. Mais era bom chegar nas convenções e ganhar o videocassete dadoao primeiro lugar na simulada médica. Quantas foram as madrugadas nas quais pegava o carro e ia cobrir osetor de trabalho ou para as reuniões de ciclo, nas quais os resultados eramcobrados, os novos objetivos traçados e as avaliações de conhecimento eramfeitas. Toda essa carga de responsabilidade, tendo em muitas ocasiões, umfilho doente no berço ou uma dívida pendente. Havia , é verdade, toda uma assessoria auxiliando na preparação doprofissional e dando-lhe suporte mas, em quantos momentos foi decisivo ofato dele bastar-se. Não tinha essa de tornar-se celebridade, mas quando osholofotes procuravam-no nos eventos internos da empresa, tudo se ajustavana cabeça, as emoções do reconhecimento fazendo esquecer todas as agru-ras. 52
  49. 49. A alternância entre os momentos de doçura e os de amargura era tãorepentina, que não havia tempo para o prazer ou o sofrer...Mas o pouquinhode prazer que se conseguia, era eterno. Esquecia-se do resto. Essas coisas,porém, não são próprias somente dessa atividade. E daí,não se está falando de todas, mas de uma só...a dele. De repente, um flash de amargura vem com o quantum de tempo jáido. Olha em volta, vê uma garotada, vê antigos colegas, competidores dig-nos já com os chinelos e pensa: está chegando a hora. Quando chegará aminha? - Deus, afaste este cálice de mim. Mas Ele não tem muito a ver com isso, tudo fruto da nossa própria or-ganização de vida. Será procurado para dar conforto nas horas de amargura,servir de lenitivo, fazer o papel de Pai. De repente ,e não mais que de repente.."cadê você, cadê você...outrosrepetem as suas jogadas...no vídeo taipe da vida,a história gravou" Um dia, levantou-se para a jornada diária de trabalho. Como faziasempre, foi barbear-se. No espelho, o "outro" lhe disse, quase que sussurrando: - Vai dormir, seu tonto. Você já era. 53
  50. 50. Pióses José Hamilton da Costa Brito Voando lá nas alturas ou pousado em uma falésia, obedecendo ao meuinstinto eu conseguia ser feliz. Sempre fui elegante apesar de nunca galante. ...Precisava sobreviver. Eis que voando bem alto notei correndo na relva um movimento de vidaque me daria vida. Seguindo o instinto predador atirei-me em ataque mortal. Assim cheguei até você. Contive o ímpeto a tempo impedido por um sorriso angelical. Como um passe de mágica começamos uma história trágica pois, depredador, em caça me tornei. Você foi alimento pra minhalma e amei como ninguém jamais amou. Mas como resistir ao carma? O meu: uma total liberdade. Assim eu fiz você infeliz em pobre infeliz, tornei-me. Deixa que eu siga o meu caminho. Preciso ganhar as alturas. Voltar ao que sou. Sim sou ave de rapina. É assim que sei viver. Então Peço em nome de Deus solte os pióses que me prendem Serei outravez falcão peregrino um ser em paz com o seu próprio destino. 54
  51. 51. Apodrecendo Desejos Maria Rosa Dias 2006Irei enterrar seu tesão pútrido,Orgasmo superficial e falido,Supostos desejos de uma noite apenas.Sem missas, sem novenas.Enterrados sem fúnebres homenagens,Enfraquecem, desfalecem.O que importa do que nunca existiu?Respirações excitadas e ofegantes oxidam-seEm meio a carícias imundas.Jogos malfadados.Sem nexo.Sentenças sem punição.Antonímia, contradição.Luxúria contida.Lascívia a flor da pele.Ironia, sadismo?Fantasias cremadas,Ao vento, rancorosamente ofertadas.Apodrecendo desejosSecos, sarcásticos,Quebrados, perdidos,Beijos sujos e carícias imundas.Olhares de lamaPerdidos e falidos. 55
  52. 52. “Fantasma da Perdição” Maria Rosa Dias 2010 Fantasma das Sombras Das sombras dos passos perdidos Passos que nunca foram percorridos. Fantasma da Mágoa Da tormentosa mágoa dorida Mágoa que se faz presente e despida. Fantasma das Lágrimas Das lágrimas ressecadas pelo Tempo E pela agonia derramadas. Fantasma do Sofrimento Do Sofrimento que esmaga o coração Coração pleno de arrependimento. Fantasma da Perdição Que constrói caminhos duvidosos E os envolve em calentadora ilusão.56
  53. 53. Feridas Maria Rosa Dias 2006Eu tenho decepçõesQue me cortam os pulsos.Sorrateiramente.Despertam minha insônia.Eu tenho decepçõesQue machucam a minha alma.E cortam fundo meu coração.Criam a sangrenta interrogação.Perdida na escuridão.Sem luz, sem resolução.Dúvidas amargamente despertadasDe uma tentativa de sono violentada.Mente frustrada.Eu tenho decepções.Eu tenho indecisões,Medos, fraquezas, impulsosQue me fazem retornar à mesma inércia, ao mesmo nada.Eu tenho decepções.Violentas tensões.Bruscas e repentinas carências.Eu tenho tanto... 57
  54. 54. Ah, tanto que me soa tão pouco... Quem dera. Ah, quem dera que o destino me presenteasse com a sorte De um amor verdadeiro, forte, Certeiro, que me abalasse E nunca me deixasse. Ah, quem dera que isso não fosse apenas um sonho Que retorna toda noite E caminha incerto. Incerto como as sofridas lembranças enganosas. E a certeza inútil Das inúteis decepções que tenho.58
  55. 55. Magnus Maledictus Maria Rosa Dias - 2006Fiz minha própria cova.Provoquei meu suicídio inconsciente,Psicológico à beira do abismoMergulhado em sombras.Lembranças vãs e vagas.O sangue de meu coração escorre sem poder ser estancado.Hemorragia interna sem socorro.Gosto salgado da alma perdida e amarga.Doces ressentimentos escorrem.A raiva que me causou orgasmos múltiplosEnterra-me, soterra-me, sufoca-meEm meus sentimentos escusos.Uma rosa para uma mortaSobre uma cova esquecida e fria.Vermes hão de me corroerO corpo e a alma.Provo meu sangue que me desperta da minha letargia.Falsa catalepsia.Sincera morte em fingida vida.Os espectros de minhas supostas certezas vagam.Tento em vão me libertar da imunda terra que me cobre.Por mais que eu lute, por mais que tente não enxergar,Os vermes fétidos eternamente hão de me acompanhar. 59
  56. 56. “Te amarei até a morte” Maria Rosa Dias 2010 Na solidão de meus pensamentos, No isolamento do meu quarto, Só consigo pensar em teu rosto E em tuas mãos tocando minha face. Sinto falta do teu calor Aquecendo meu corpo contra o teu. O gosto dos teus lábios ainda ficou preso nos meus E todos os meus pensamentos são voltados para ti Lábios flamejantes Que incendeiam todo o meu ser. Tuas palavras ainda vibram em mim Como uma doce brisa a me tocar. A minha solidão é guiada por lembranças vazias de nós dois E eu sigo. Eu sigo sentindo a presença da tua alma ao meu lado, Mesmo sabendo que tu ainda vives E não estás mais junto de mim. A minha alma grita, a minha alma clama. Pela tua presença aqui, Mesmo sabendo o quão longe tu estás E que nunca hás de me escutar. Nunca mais...60
  57. 57. Onde que tu estejas,Para onde quer que os Ventos te guiem,Saiba que nunca te esquecereiE que teus gritos, ânsias e medos morrerão comigo.Eu já estou marcadaPor todos os teus erros e enganos.A minha própria sombra já é meu tormentoE o prazer perdido é o meu purgatório.Ah! Eu estou fadada a amar-te eternamente.Ah! Eu estou predestinada a amar-te até a morte.Nenhum mortal é capaz de apagar esse amor.Te Amarei Até A Morte. “Vênus Decaída” Maria Rosa Dias 2010Frágil Amor que se esvai de meu ser.Aos poucosSem que em mim eu o consiga conter.Suas promessas me fogem repentinasArdilosas, desastrosas.Como o fogo das dúvidas vaporosasQue em meu peito desatina.Fugaz sombra de certezasImoladas, imaculadas.Que me envolve em suas asas queimadasE ateia sobre meus olhos 61
  58. 58. A fumaça sombria de seu Véu. Cegante, inebriante Intoxicante em seu doce fel. Encantadores passos perdidos Passos que nunca foram docemente percorridos. E que espalham em meus sonhos seus Vultos Resolutos, astutos. Querendo me derrubar com sua furtiva mão Sem ao menos me dedicar uma fúnebre canção Em honra ao meu trágico fim. Oh! Ironia ferina! Dor flamejante que em meu peito desatina! Sinto meus lábios ocos sem seu beijo E minhas mãos vazias sem o cheiro do seu toque. Eis-me aqui, perdida... Amargurada, ferida Sem amor... Prostrada aos seus pés Como uma imagem de Vênus decaída. Destruída... Em meu profano altar queimado.62
  59. 59. Pôr do Sol Antenor Rosalino Todas as tardes, ao pôr do sol, na tímida vilazinha de ruas estreitas ecasinhas simples, denotavam-se a figura gentil do cego Antônio, conhecidopor todos, pela sua apurada educação e sábios ensinamentos. Apesar de sua cegueira de nascença e de suas pobres vestes, às ve-zes ganhadas de alguns populares e vizinhos generosos, mantinha-se semprebem asseado por sua mãe, a bondosa dona Isaura, com quem vivia em umavelha casa de poucos cômodos, com uma varanda rodeada de arbustos, ro-seirais quase sempre floridos. Lá no fundo do quintal, vislumbrava-se uma ár-vore grande, frondosa, em cuja sombra os garotos vizinhos sempre brincavamalegremente, deliciando-se de todo aquele frescor, do belo cenário verdejantee da boa acolhida do senhor Antônio e de sua genitora. Apesar de sua bondade e resignação às intempéries da vida, Antôniosempre fora vítima dos mais diferentes tipos de deboches e humilhações,impostas geralmente por alguns garotos liderados por um tal de Índio, um ra-pazola viril, e de maus costumes,conhecido em toda a vila e adjacências peloseu mau caráter e total falta de respeito humano. Não estudava e tampoucoauxiliava a pobre mãe em algum trabalho doméstico. Era filho único de umahumilde senhora que, após a morte do marido, passou a ser o único susten-táculo da casa; trabalhava com afinco na confecção de bolos e doces enco-mendados por pessoas compadecidas com suas dificuldades financeiras, poistinha, sobretudo, esse filho garoto ainda, porém, muito peralta, o qual possuíaa alcunha de Índio, por ter aparência realmente indígena. Passavam-se os dias e sempre a mesma ladainha: a casa do portadorde deficiência visual, logo pela manhã, ficava repleta de crianças a brincaremem seu amplo quintal e, à tardinha, lá ia o senhor Antônio fazer a sua cos-tumeira caminhada com passadas lentas e às vezes cambaleantes, apoiadoem sua tão desgastada bengala. Porém, em determinado trecho do caminho,sempre surgiam os endiabrados garotos, tendo à frente o tal Índio, a fazerem 63
  60. 60. as mais diversas implicações com o pobre cego, chegando até mesmo a ati-rarem objetos em sua pessoa, seguidos de gargalhadas e ofensas inconce-bíveis. Quando alguns moradores, inconformados com tais atitudes, partiampara cima dos vândalos, estes fugiam rapidamente, tomando rumos total-mente desconhecidos e ao sentirem que a cada dia que se passava maisdificilmente se tornaria pegá-los, acentuavam-se cada vez mais as ofensase covardias. Um dia certo, porém, o cenário parecia ter tomado forma diferente: apassarada esvoaçante desencadeou-se em vôos acrobáticos e cantos melan-cólicos, como a pressentir algo trágico a acontecer. Vislumbrava-se ainda distante, a figura do senhor Antônio, enquanto oÍndio e sua turma se escondiam em espreitas e atalaias. Aos poucos, o desprotegido cego aproximou-se da turma, que a essaaltura já se postava para a bagunça e o vandalismo de sempre e eis que, derepente, um pequeno fragmento de madeira lançado pelo Índio atinge emcheio, impiedosa e cruelmente a sua fronte. Ele, após alguns passos camba-leantes, tomba ao chão, sendo atingido ainda num último ato, pela ponta desua inseparável bengala. Na queda, quase desfalecido, bate violentamentea cabeça numa pedra, tendo o seu rosto lívido, imediatamente banhado desangue. Enquanto isso, os vândalos fugiam em desabalada carreira. Acolhido por populares, Antônio foi transportado de imediato ao hos-pital mais próximo. Tudo em vão!... Faleceu antes mesmo de ser assistido nohospital. Ao tomar conhecimento do ocorrido, toda a vila saiu à caça dos pe-quenos marginais, os quais, ao que tudo indicava, teriam partido para fora dovilarejo. No dia seguinte, durante o féretro, toda a vila emudeceu, compadeci-da e revoltada com o ocorrido. Algo teria que ser feito ao Índio e sua turma, os quais, finalmente fo-ram apreendidos; porém, nada devolveria o senhor Antônio aos seus legítimosamigos e à doce candura dos braços de sua mãezinha, a amável dona Isaura, 64
  61. 61. que, após a perda do filho querido, adoeceu misteriosamente. O Índio, por suavez, após algum tempo de internação num reformatório (pois ainda era menorde idade), fora liberto. Não se sabe por que, após sua libertação, o seu com-portamento mudou completamente. Entristeceu-se, raramente conversava ejá ajudava a mãe em alguma tarefa de casa, embora ainda relutasse em nãofrequentar a escola. Com o passar do tempo, num dia claro, alabastrino, também ao pôrdo sol, o mesmo Índio de tantas arruaças de tempos atrás, num ato repentinoe insano, pôs fim à sua própria vida, talvez não suportando o peso esmagadorde sua consciência. E assim, com todos esses acontecimentos, o vilarejo entristeceu-se,mas as crianças ainda brincam à sombra dos arvoredos da velha casa, eos pássaros com seus cânticos harmoniosos vêm a cada pôr do sol, como aprestar homenagem póstuma ao saudoso Antônio, cuja vivência e penosa lida,ficarão para sempre incrustadas na memória de todos aqueles que o conhe-ceram e sentiram a sua dor, o seu penar. 65
  62. 62. Ametista Antenor Rosalino Lapidada, polida... Emoldurada pela mãe natureza, Flameja o seu encanto De jóia preciosa, Sob o sol que a diviniza E luares que a fazem A mais linda estrela guia, Encantadora ametista! Pétala advinda De vales e rochas profundas, Magnetiza a alma Como flor entre abrolhos Florescente e festiva! Energizando os céus Na mais cândida ternura, Aventa aos olhos Alegria infinita - pedra flor que me inspira -, Nas madrugadas serenas E nas selvas de granito! Alvorada de amores! Rutila tua luz envolvente como a brisa Na minha lágrima triste, Misteriosa ametista!66
  63. 63. O que é que há? Antenor RosalinoO semblante dos teus olhos vívidos,Trouxe um quê, não sei por quê,De amargor e melancoliaAos meus olhos que sempre te viamCom olhar de caxinguelê.Não percebo em teu sorrisoA singeleza da alegriaTraduzida em espiraisDe sedução que se faziaEntre paredes boreais.Minha inspiração em eclipseSuprimindo os meus vocábulosDeixa os meus versos no arE suplicante eu pergunto: o que é que há?Meu pensar ardente em chamasProcura-te sem cessarBuscando desvendar o eloDa tristeza fina incrustadaEm teus mistérios de mulher!O que é que há, linda pepita?Não deixemos que procelasDe asperezas do incertoDesfaça os laços de fitaDo nosso amor sempiterno! 67
  64. 64. Angústia Antenor Rosalino Farto do teu silêncio, Parto deixando rastros Dos sonhos que sonhei Na poesia do meu estro lastro! Seja bem vinda a insônia, A saudade, a solidão... A angústia funesta e insólita No pulsar do meu coração! Sob a face azul do infinito, E de estrelas sem donaire, Esquecerei os meus eus, Para ser eco de cantares! Já não sinto o perfume campestre, Nem vejo a brisa tremer! As estrelas choram comigo Pressagiando o meu viver! No incerto, sem rumo certo, Temo ver o seu perfil Refletir-se como um fantoche Nas águas do meu cantil!68
  65. 65. Súplica de um poeta Antenor RosalinoDeixo no tempo as nuançasDa minha ousadia poética:Meus versos líricos e odesEspelhando a minha alma em construtosQue a ilusão apetece!Busquei nas flores campestres,Nos sorrisos inocentes,No rito harmonioso da naturezaE nos amores transitórios e eternos,A inspiração desejadaPara os meus versos etéreos!Na brevidade do tempo que a tudo transmuda,Quando eu me tornar solitárioCom minhas obras esquecidas:Oh, Deus! Retorna este poetaPara o infinito do teu céu!E assim, unificado com a natureza- liberto e decantado no espaço -,Serei parte da poesia em lastroQue o tempo jamais ruiráNo ritual do seu compasso. 69
  66. 66. Árvore enorme Vicente Marcolino Rosa Há sessenta janeiros, a semente Tão minúscula foi solta do fruto E acolhida por bom adolescente Que a sepultou em áspero chão bruto. E longe de lugar de água corrente, Mas, seu líquido vinha de aqueduto A mil metros, em vaso transparente, No lôbrego bornal da cor de luto. Surgiram duas folhas verde-claras Presas ao caule débil, rubro e torto; A planta foi segura a esguias varas. Resistiu a frio, seca e tempestade! Agigantou-se e deu-nos o conforto. Agora sua sombra traz saudade.70
  67. 67. Coração infatigável Vicente Marcolino RosaPulsas há tanto tempo, jamais cessas!Nem falas dos segredos contumazesE enquanto me dedico a escrever frasesOu labuto, comandas, não tropeças.Possuis cadência e não ages às pressas!A vida tem em ti as suas bases,Percebes o rancor de homens falazes,Prontos para lutarem às avessas.Ouço-te pelo quedo travesseiroEm que repousa a mais pobre cabeçaSensível aos ruídos do orbe inteiro.O teu ritmo é monótono e me cansa,Dormito antes que a insônia prevaleça.De manhã vou à lida e à noite, à dança! 71
  68. 68. Desvelo de mãe Vicente Marcolino Rosa Vocábulo pequeno e indefinito, Grande pelo amor que algo representa; É o primeiro termo mais bonito Que o bebê diz mal, quando falar tenta. Mas antes da palavra vem o grito E o choro da criança; a mãe atenta, A esse ente suscetível e expedito, Dá seu remédio, sopa ou amamenta. Aspira a ver o filho com saúde, Supõe que seu aspecto logo mude, Sempre lhe verifica a altura e o peso. O minúsculo infante cresce tanto... Talvez seja, após décadas, talento E a mãe terá o afeto ou o desprezo!...72
  69. 69. Moradia fechada Vicente Marcolino RosaNaquela rua larga em que transito,Existe a casa azul de brancas telhas,Atrás do jardim simples e bonito,Onde gosto de ver rosas vermelhasQue expandem seu olor e já foi ditoQue naquele universo das abelhas,Hoje não há presença, nem o grito,De beija-flores: eram dez parelhas.Em verdade, o que agora a mim espanta,É não ver a cabocla que não usaChapéu de proteção para aguar planta.Minha cansada mente está confusa...Se ela mudou, não há ser que garanta,Mas, vejo no varal a sua blusa!... 73
  70. 70. Na fronteira Vicente Marcolino Rosa Sairei de madrugada e vai comigo A lembrança sutil que se incorpora A meu íntimo mesmo quando sigo Nesta jornada desde a bela aurora. Contra o abstrato jamais falo, nem brigo, Sou resignado, aquele que não chora, Refiro-me à saudade que é castigo, Fugirei dela sem muita demora, Quando eu beijar o chão que tanto quero. Longe, reverei quem não possui praias; Estarei no espaço álacre ou austero... Desejo ouvir guarânias da fronteira E ainda vou sambar com paraguaias Lá em Ponta Porã, que é brasileira!74
  71. 71. Vítima da soledade Vicente Marcolino RosaIgnoras o prazer que vem da vida!...Evitas dialogar com os amigosE gostas de lembrar fatos antigos;Tanatófilo, queres ser suicida.O ser humano afronta seus perigosPara que vença obstáculo e progrida,Não deixa os ideais, nem foge da lida,Se assim não for, irá seguir mendigos.Não buscas arte em teu mundo restrito,Nem miras o horizonte após o campoE contra a humanidade tens o grito.Vives acabrunhado há longe data,És noctívago, imitas pirilampo,Consideram-te mero psicopata. 75
  72. 72. O Inventário Emilia Goulart dos Santos Em uma recente manhã do mês de julho, quando se aproximava meuaniversário, estimei a perspectiva de vida para minha geração. Hoje ganhamosalguns anos, mas, quando nasci, certamente as apostas seriam de que, senão ocorresse nenhum infortúnio, eu viveria até os setenta anos, expectativaboa para aquele 21 de julho. Porém, naquela recente manhã, olhei-me no espelho e senti que erahora de fazer um testamento. Dispor em papel minhas últimas vontades. Pensei bem e cheguei à conclusão de que minha última vontade, comtoda certeza, é não morrer. Não quero ser cremada, nem enterrada tampouco jogada ao mar, nãome agrada a ideia de ser devorada por peixes e terminar na boca de alguém.Então escrevi assim: “Como não quero morrer, mas, tenho a certeza de que a morte aconte-cerá independente da minha vontade, os encarregados para darem sumiço nomeu corpo estão livres. Prometo não estar presente para dar palpites”. Pensei bem outra vez, olhei para o texto e novamente no espelho.Não... Não era nada disso que eu queria escrever. Eu, na verdade, queria erafazer o meu inventário. Agora sim, ia fazer o certo, do modo que eu queria. “A quem possa interessar deixo minhas máquinas de costura, não paraminhas filhas, elas já são atarefadas demais”. Meus livros deixá-los-ia para meu filho mais velho, ele gosta muito deler. Mas, não faz sentido, não há nada na minha humilde biblioteca que ele nãotenha lido, antes mesmo de mim. Meus poucos e velhos móveis. Quem os quer? Se nem eu os aguentomais. Poucos bens, bem poucos, mas e se esta não for a vontade do meumarido, afinal somos casados com comunhão de bens. Vou perguntar. 76
  73. 73. Acordo o coitado que dorme em frente à televisão. E ele assustadopergunta: — O quê... O que houve? — Nada, bem. Apenas gostaria que lesse isto aqui e me dissesse oque gostaria que fosse feito com nossos bens quando partirmos. Ele rapidamente respondeu: — Eu deixo tudo o que a vida me ensinou e tudo que a estúpida igno-rância não me permitiu conquistar. Acho que será o suficiente para que vivamtranquilos o resto de suas vidas. Rasguei a folha do inventário e escrevi com letras bem grandes: “Filhos, o que temos para deixar a vocês é o que trouxemos quandonos casamos. Amor muito amor”. Na parte relacionada ao testamento escrevi: “Nossa ultima vontade é que sejam felizes e unidos para sempre”. 77
  74. 74. Cadelinha Emilia Goulart dos Santos Foi numa manhã até bonita, que a cadelinha sumiu. Amigos, parentes, vizinhos foram avisados e empenhados a se organi-zaram na busca. Fizeram cartazes, colocaram anúncios no jornal. Faltava umafoto, mas, esta ninguém possuía para auxiliar na procura. Apenas um dado foiregistrado além da cor, altura e idade aproximada. Era dócil. Sempre que a família se preparava para uma foto, ela desaparecia, iabeber água, raspar uma vasilha... Uma foto ajudaria, mas ela nunca ocupoulugar nas fotos da família. As referências sobre ela eram mínimas. QuandoZeca a encontrou ela era bem novinha, perambulava pelas avenidas, estavasuja e parecia faminta. Ninguém nunca a procurou. Marcas da sua curta vida,já eram indicadoras do seu fim. As semanas foram passando, e quase não se falava mais no seu de-saparecimento. A princípio pensaram em sequestro. Mas com qual objetivosequestrariam a cadelinha? Ela valia muito pouco, na verdade, se perguntas-sem, quanto? Alguns diriam que ela não valia nada. — Pobre cadelinha, por onde andará?—perguntou Maroca, já saudo-sa da sua companheirinha. Agora quem comerá as aparas de bolo e limparáos respingos de recheio do chão? — Não vem não, você foi a primeira a escorraçar a coitada. —falouo Teodoro. — Ora, isso foi quando o Zeca a recolheu da rua. — Por pena, mamãe, mas você não queria entender. Só faltou exigir opedigree da coitada. — A culpa foi da sua irmã Zeca, que falou... — a mãe foi interrompidapela filha. — Falei mesmo, falei que ela ia encher esta casa de cadelinhas comoela. Depois me arrependi. A vizinha que participava daquele “disse me disse¨, soltou: 78
  75. 75. — Taí, agora está explicado. — Não se meta Dora, que este assunto não é seu. Eu tratava muitobem a cadelinha e até via nela boas qualidades; silenciosa, seus passos eramleves, nunca estragou uma peça de roupa e festejava cada visitante como sefosse velho conhecido seu. Certo que de alguns ela se escondia. — Pobre cadelinha por onde andará?—suspirou Maroca. Todo lugar foi rigorosamente vasculhado e nada, nem sinal. — Simplesmente ela resolveu abandoná-los. — disse o guarda darua, que a conhecia muito bem. — É assim mesmo, há ingratidão em todacriatura. A cadelinha já estava acostumada na rua, logo vi, ela não ia se acos-tumar. Até que demorou. — Que absurdo, a cadelinha era muito meiga e quando mostrava osdentes, era a coisa mais linda. — Foi isso então, alguém que se apaixonou pelo sorriso dela a levou.— disse o Teodoro, já cansado daquela conversa. Dias depois quando tudo parecia esquecido, o jornal noticiava. “Cade-linha desaparecida pode ser a mesma que está no hospital”. Todos correram para lá, e voltaram indignados, decepcionados. Nem mesmo queriam falar sobre o encontro, o que gerou suspeita. Comentários se espalharam: — Cadelinha foi dar sua cria longe, sabia que não iriam aceitá-la mais.Foram lá, mas, não a trouxeram para casa. — Claro, se uma cadelinha incomoda, imaginem duas ou três. O comentário trouxe desconforto para a família que não podia mais sairnem no portão sem que viessem as críticas e gozações: — Bom dia D. Maroca, tem notícias das netinhas? — perguntava oguarda num tom de pilhéria. Um dia, de uma clínica veterinária, uma pessoa ligou: — Tem uma cadelinha aqui, quem sabe? Maroca nem deixou a pessoa terminar e furiosa, desligou o telefone.Teceu suas considerações e chegou à seguinte conclusão. — Melhor pararmos a busca e esquecermos este assunto. Daqui a 79
  76. 76. pouco encontram esta ordinariazinha morta e vão pensar logo em nós. — Que tristeza, nem caridade podemos fazer nos dias de hoje. — Você nunca gostou de fazer caridade, você simplesmente não gostade perder o que julga ser seu. — Teodoro, será que você nunca vai me compreender? Mais um dia, e outro telefonema: — Estou ligando para avisar que estou bem, amo vocês. Todas as manhãs, passeio com os cachorros, dou banho em alguns, ecom muito carinho cuido deles. Sou cuidadora de cães. Estou no lugar certo...um pet shopping. Aqui, todos me chamam de Janice. Estranho e Delicado Emilia Goulart dos Santos Um pequenino ser, estranho e assustador, a princípio causou-me asco,depois uma curiosidade. Na tentativa de decifrar aquela coisa, aproximei-me,apesar do receio. Porém, a coisa enrolada e peluda, fugiu em desabaladacarreira. Fui bem esperta, alcançando aquela rara espécie de não sei o quê. Nãotive coragem para tocá-la. Encurralada, assustada, mas, disposta a defender-se até a morte. Os olhos enormes em uma criatura tão pequena pareciamimplorar por piedade. Aproximei-me e a coisa assustada recuou. Não a toquei, ela estava tãoindefesa, que tocá-la recairia sobre mim alguma maldição, pensei: — Como será a maldição da coisa? Rastejar ou flutuar por aí a deriva,como pluma solta de alguma ave? Em um segundo a perdi de vista, nem me atrevi a causar-lhe a morte.Aproveitando daquele momento de indecisão, refugiou-se sob a penteadeira,onde pude alcançá-la, e para minha surpresa, a coisa, era uma pena desgar-rada tentando alçar um vôo impossível. Que pena! 80
  77. 77. O caso do padre Emilia Goulart dos Santos O caso que o padre nos contou foi de arrepiar, hoje sei que ele queriaapenas nos fazer acreditar que o inferno e purgatório de fato existem. Mas oque nos passou foi a ideia de que espíritos voltavam e isto fugia do que aca-bávamos de aprender. È triste quando o caso contado foge da lógica pré-determinada. Crian-ças viajam, o melhor é que as informações sejam bem claras. O sobrenatural povoa suas mentes sem nenhum esforço. Depois o quefica na memória não desaparece tão facilmente. O que nos foi ensinado comocerto, já não nos parece tão certo. O padre era um bom padre, mas nos aterrorizava com seus casos.Seus discursos eram longos e ricos em detalhes. Éramos apenas crianças que se preparavam para a vida religiosa. Os dez mandamentos estavam na ponta da língua, já sabíamos todosos atos que nos preparam da confissão à comunhão. Restava algum tempoaté o dia da Primeira Comunhão e ele se empenhava para nos manter longedos pecados que rodeiam os jovens, ilustrando o paraíso, o inferno e o purga-tório. Dante Alighieri perdia para o padre em requinte e ousadia. Certo dia ele contou-nos o seguinte caso. Dois estudantes, muito amigos, vieram do interior para a capital a fimde estudarem e trabalharem. Inseparáveis, mas cada qual tinha seu modo devida. Um religioso demais o outro farrista, gostava de aproveitar a vida e erravanas doses, mentia para os pais, pois seu dinheiro nunca era suficiente. O jovem religioso observava os ensinamentos cristãos. —Exaltado opadre repetia com ênfase: — Seguia os ensinamentos cristãos! Enquanto um estudava fazendo jus à confiança dos pais, o outro, bem,farreava e escarnecia do colega dizendo que ele não passava de um tolo equando outro mencionava o inferno ou purgatório, ele se consumia em gar-galhadas. Até que uma noite, ao voltar para o quarto que dividiam, ele não 81
  78. 78. voltou. As horas se passaram, o amigo acordava, rezava e voltava a dormir, es-tava inquieto e angustiado, o amigo deveria ter voltado. Apesar das diferenças,ele queria bem ao amigo e estava preocupado. De repente o vento escancarou a janela e para dentro salta o amigoem chamas. Desesperado ele joga sobre o outro um cobertor para apagar o foga-réu, o cobertor caiu no vazio e ele ouviu a voz do amigo a implorar: — O inferno existe, reze para que eu vá para o purgatório, você disseque lá ainda se tem uma chance. Por estar embriagado o rapaz acabara atropelado e morto. O padre era maluco, mas até hoje eu tenho comigo que o inferno e opurgatório existem. 82
  79. 79. Frutos do Século XX Emilia Goulart dos SantosPisaram a luaTransplantaram coraçõesVulgarizaram o amorComeram o sexoDançaram o lago,Contaminaram a água,Beberam o carro.Fumaram maconha,Poluíram o ar.Cheiraram o pó,Entupiram o nariz.Contrataram o crack.Roubaram do próximo,Sequestraram os irmãos,Abortaram os filhos.Mataram os pais,Gastaram a liberdade.Lotaram as prisões, e agora Mané? 83
  80. 80. Medo Elaine Cristina de Alencar Eu tenho medo: Da solidão, Da ausência que se instalou, Da incompreensão dos atos falhos, Da falta do sorriso no rosto, Da dor latente que invade meu peito, Da minha falta de coragem de dizer ao meu coração que tudo acabou, Da minha insensatez como mulher, Da falta das palavras trocadas, Da falta da troca de energia, Da falsidade e da mentira, De não saber me recompor, De perder a calma e fazer besteira De sonhar alto e cair das nuvens, De pensar na tua sordidez, Enfim... Do medo de ter medo!84
  81. 81. Noite fria Elaine Cristina de Alencar Uma triste noite... Fria, enevoada, cinza... Sinto o breu me absorver, Meus músculos retesam e contraem... O pensamento vagueia e busca uma forma de aquecer, A alma flutua no espaço da memória e recorda os bons momentos, De um café com conhaque no início da Avenida Paulista... O borbulhar da névoa solta pela boca, mostrando que o frio a pino seriao nosso companheiro pela madrugada a fora... Um violão, muitas vozes... Pessoas ilustres, andarilhos da madrugada, Tempo de aguçar a sagacidade da juventude. Olhos embotados em lágrimas... Estimulam a dor da saudade, Corrompem os laços da idade e se movem ao passado, Trazendo enfim o saudosismo dos tempos de outrora, Dos amigos idos, perdidos pelo mundo todo. Gente que faz falta, mas que preenchem um momento necessário. No tempo do crescimento o mesmo frio traduz a vontade de um ombroamigo para aquecer... Lembranças fortes, coisas boas, guardadas no baú da memória... E neste frio, Meus músculos retesam e contraem... 85
  82. 82. Lamento Elaine Cristina de Alencar O lamento me corrói a alma, Me escraviza na sensação de perda e abandono. Quisera pode identificar tal sentimento como espúria, Alojá-lo no mais profundo âmago e lá deixá-lo expurgar. Romper as amarras do meu peito, Que teima em explodir em sentimentos, Identificar todas os enlaces, soltá-los um a um e dar-lhes nova vida! Saber que o novo sempre vem... Pra nos preparar para o caminho. Que por mais as dores tardias são somente aprendizado. Servem para o crescimento diário e assim Tornam-se mais fortes, em cor, graça, revelação. Para que no final de tudo nos engrandeça Em possantes e maduras manifestações de paz e aconchego.86
  83. 83. Não tive tempo Elaine Cristina de AlencarNão tive tempo pra entender...Quando vi, já era tarde...Estava entregue as suas artimanhas.Não tive tempo pra pensar...No que poderia acontecer,Em um pedido fútil,Que se tornou realidade.Não tive tempo de discernir...Meu “eu” invadido de algo fugaz,Corrompeu-me as amarras internas,Trouxe um alento envolto em palavras doces.Não tive tempo de distinguir...As palavras, dos toques, da sensação...De ter chegado ao limite,Sem mesmo ter exagerado.Não tive tempo de distinguir...Sua fala, de suas atitudes adversas,Mas de certa forma envolventes e intrigantes.Não tive tempo de advertir...Minha índole não sabe ser cordeirinho,Ela é adversa e satisfaz a curiosidade...Não tive tempo de reagir...Meus pensamentos transgrediram minh’alma,Deixaram-me sem ação, de dizer ‘não’Pro meu coração.Não tive tempo de corrigir...As atitudes imperiosas,Das palavras impostas, 87
  84. 84. De um processo enraizado. Não tive tempo de impedir... Que as palavras entoadas, De uma dor passada. Viesse à tona e mostrasse o medo. Ah... Não tive tempo de conter... Quando vi meus lábios estavam nos teus, A imagem se fez presente em minha memória. E o teu sabor enfim, ficou em mim. A Lua Elaine Cristina de Alencar O esplendor do seu brilho transparece a minh’alma... Clareia e ofusca meu olhar desnudo... Deflora meu sorriso ao máximo, Aprisiona-me os olhos em direção certeira ao centro de sua luminosidade prateada... Ofusca-me, Embriaga-me, Revela-me, Transmita-me o seu grande astral de paz e Deixa-me viver eternamente resguardada, Dentro de sua clarividência, Que me conduz em sonhos ao auge!88
  85. 85. Raiva Elaine Cristina de Alencar Neste momento, eu queria ter superpoderes. Queria poder saber voar, para chegar mais rápido ao meu destino. Que tal um tele transporte? Uma viagem na imaginação, através do "pirlipimpim" da Emília. Um estalo de dedo e olha eu ali, defronte do necessário... Ah, imaginação não me falta. Vontade então? Vixeeee! Se eu tivesse mesmo estes tais super-poderes, ninguém se atreveriacomigo, nem com meus amigos. Atrevimento é o que mais tem, neste mundão de meu Deus. Aiiii, mas que eu queria, queria, chegar até defronte da tua face e sentiro seu coração pular pela boca. Ah! Como eu queria! O coração palpitar de tanto medo. Ver o seu corpo todo tremer como geléia e se esfacelar no chão. É... imaginação, me leve e me deixe leve! Assim mesmo, criando na mente o momento, eu posso extravasarmeus sentimentos contrários... Abastecer minha mente de super poderes pra poder eliminar este sen-timento. Quem dera mesmo eu pudesse... Ai... ai...ai...ai...ai... Mas na intrínseca vontade me resta somente manter na memória ocaso, pra na hora certa poder verter em fatos a cobiça. 89
  86. 86. Nós, nunca a sós Marisa Gomes Seus olhos sempre carinhosos acompanhados da voz acalentadora São essas as lembranças que tenho de você Sei que mudei o rumo da vida Que não sou mais a neném de casa Afinal saí de lá. Mas aqui estou, lembrando nossas risadas Eu e você sempre juntas, no mercado, na escola Assistindo TV até tarde do dia... Emendando a noite com o dia E das conversas e dos conselhos Da sua falta chego a pensar que não vale a pena tentar Mas vejo que é por você que estou tentando ser feliz Aprendi com você a nunca desistir, Persistir é essa a lição que tiro de você Essa nova vida é dura Sem você, o dia se torna menos colorido Não sei o que se passa no seu dia e isso me incomoda Não ser mais a pessoa a quem você confessa seus medos antes de dormir Não repartir com você o último bis da caixinha é muito triste Mas da distância que for, você e eu Nós, Juntas Sempre seremos Filha e Mãe Mãe e Filha Também “tiadoro” e “tiamo” MUITO!90
  87. 87. Você é pra mim Marisa GomesSinto sua falta em cada momentoSinto, tento não sentir, mas lamento!Sinto tanto que me incomodaNão sei decifrar o que sintoSe estou na rua, procuro seu rosto,Pra fazer meu gosto, olho uma foto suaMato a saudade que teima ficar em meu peitoMas deito nos murmúrios dos meus pensamentos quando não te ouçoDecifrar o que sinto é tão difícil!Sei que apenas sinto, acho que é amor ou carinhoMas carinho é sentimento ou expressão de sentimento?Meu querido, eu quero te dizer que você é muito importante pra mimVocê é meu amigo? Meu namorado? Meu amante?Não consigo dar significado, rotular o que sinto por vocêApenas quero sentir, e agradecer o fato de que você existe,Pois apenas a sua existência dá sentido à minha vida sem graçaTe admiro, te adoro. Será que te amo?Será que também pensa assim como eu?Só quero que saiba que te quero bem, meu bem!E que seja eterno enquanto dure o que sentimos! 91
  88. 88. No Mundo da Imaginação Mariluci Braz Gomes Correia Era uma noite chuvosa. Todos saíram. Ficara sozinha. O telefone toca. Alguém do outro lado da linha diz: - Você está só? Esperei tanto por este momento... A voz parecia meio afeminada, mas ficara em dúvida. - Sim, quer dizer, não. Meu marido dorme. Mentiu. Estava só. Corre-lhe um calafrio pela espinha. Lembrara doque sempre dizia às filhas se alguém lhes fizesse tal pergunta. A voz insiste: - Você mente, sei que está sozinha. Vi a hora em que todos saíram. Ela fica em pânico. Pensa em tudo de ruim. Vem a sua mente imagensdaquele filme horrível. Imagina que viveria situação parecida. Pensa até quealguém já está dentro de sua casa e liga de um telefone celular. As pernasfalham, não as sente mais. Não consegue mais sair do lugar. Tenta disfarçar omedo, e num esforço subumano... - Sim, todos, menos meu marido que está meio adoentado. - Mentirosa, ele foi o primeiro a sair. Eu vi. Ela não consegue mais falar. Desliga o telefone. Ele toca de novo. Nãoatende. Toca o celular. Não atende. Toca o outro telefone. Não atende. Derepente, todos tocam ao mesmo tempo, os três. Ela já não consegue mais semover. Seria seu fim? Morreria?! Começam a passar em sua mente cenas de sua vida. Momentos bons,ruins, momentos de desespero, de angústia, de perda, de paixão, de felicida-de, de muita tristeza...Já não estava mais ali, na poltrona. Viajava no mundoda imaginação. Não sofria mais. Relembrava cenas de sua vida morna. Pen-sava em tudo que poderia ter feito e não fez, tudo que poderia ter sido – enão foi. Por medo, covardia... Em o quanto poderia ter sido feliz.... Quantavez renunciava a vida para satisfazer caprichos de outras pessoas, para nãodesestruturar seu lar, para fazer os outros felizes. Não conhecia nada ainda.Nem o mar. Apesar de corajosa, valente, “independente”, era submissa, como 92
  89. 89. toda mulher. Teria valido a pena a sua vida? Por que teve tanto medo de serfeliz? Mas... Agora era tarde demais. Alguém lhe toca os ombros. Ela olha. - Meu Senhor!!! Um gênero textual no contexto de produção Mariluci Braz Gomes Correia O texto é sempre o mesmo. As leituras é que são diferentes. Cada umlê com seus próprios olhos. Há um gênero textual que demoramos uma vida para produzi-lo equando o terminamos não há mais tempo para refacção. Como corrigi-lo atempo? A vida é uma escola, como já sabemos. É um texto em construção queprecisa ser refeito a cada dia, a cada fase, mas corrigir esses parágrafos sócabe a nós mesmos, com o discernimento que o Mestre nos deu. A introdução desse texto maior, nossa passagem pela Terra, somenteela não está a nosso cargo, pois os nossos coautores, nossos pais, estão en-carregados de fazê-la. Se esse “início” não for bem elaborado, fica complicadoo desenvolvimento dos outros parágrafos, das outras fases, pois o alicerceficou abalado. No entanto, nem tudo está perdido. Enquanto a vida pulsa, a sequên-cia textual pode ser corrigida. Há muitas possibilidades de “apagar” o erro,de refazê-lo, retornar, não podemos desistir ou persistir no erro, perdendo aoportunidade de correção dos contextos sociointeracionais. É só “mexer” naintrodução, mas com muita cautela, sem mudar a idéia. Geralmente, nessescasos faz-se necessário a ajuda de um especialista e aceitar a injunção. Durante o desenvolvimento desse texto, que ora é uma crônica, ora éum poema, ora é um conto, ora memórias e noutras um texto de opinião, não 93

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