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Livro Contos Selecionados 2012
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Livro Contos Selecionados 2012

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Coletânea dos contos vencedores do Concurso de contos Cidade de Araçatuba - 2012

Coletânea dos contos vencedores do Concurso de contos Cidade de Araçatuba - 2012

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  • 1. 1
  • 2. Copyright © vários autores Edição e revisão: Hélio Consolaro Capa: Simone Leite Gava Editoração gráfica: Arlen Pontes CTP e Impressão: Editora Somos - (18) 3636.7790 Secretaria Municipal da Cultura Rua Anita Garibaldi, 75 - CEP 16010-280 Araçatuba - SP www.secretariacult@gmail.com - (18) 3636.1270Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Contos selecionados 2012. -- 1. ed. -- Araçatuba, SP : Editora Somos, 2012. Vários autores. “25º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba”. ISBN: 978-85-60886-55-5 1. Contos brasileiros - Coletâneas. 12-10979 CDD-869.9308Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Coletâneas : Literatura brasileira 869.9308
  • 3. Vários autores Contosselecionados 2012 Araçatuba, 2012
  • 4. PrefácioO tradicional Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, mais uma vez nos presenteou com histórias surpreendentes e com a satisfa- ção de ler textos de abrangência territorial: desde 2011, além doscontos regionais e de nível nacional, o concurso estendeu-se para as terrasestrangeiras que têm como sua língua, a portuguesa. Em meio aos mais deseiscentos contos recebidos, entramos em contato com belas produções lite-rárias, pois desse concurso participaram excelentes escritores, o que maiseleva o evento araçatubense. O trabalho de leitura e seleção de textos é árduo. Porém, para os quefazem da leitura um ato prazeroso, o contato com a diversidade regional,nacional e internacional passa a ser mais um processo de enriquecimentocultural. Pela amplitude de vocabulário e abundância de construções parase escrever os pensamentos, a Língua Portuguesa é um rico instrumento detrabalho. Assim, dentro de seu universo vocabular, seu estilo, seu conheci-mento sobre as técnicas de se escrever um conto e o domínio da língua pá-tria, suas vivências, suas leituras de mundo e sua criatividade, cada autorcolaborou com o sucesso deste concurso de 2012. Os contos apresentados enfocaram ângulos diferenciados da expe-riência humana, sintetizando costumes, mitos, sentimentos; também di-versificando linguagens, lugares, tempo, situações, e, às vezes, até mesmomexendo com as máscaras das tragédias, das comédias, dos dramas, oraapresentando-os como realmente são, ora manipulando-os ao bel-prazerdo autor. Os contos nacionais e estrangeiros apresentaram-se como o espera-do: uns surpreenderam pelo enredo, outros pela construção literária, outrospela simplicidade e infinitos fatores de fundo e forma. Destacaram-se, porém, os contos regionais interioranos, mesclados4
  • 5. de coisas da nossa terra, da nossa história. Concluímos que a nossa lite-ratura, antes chamada interiorana, caminha a extensos passos para umaprodução que merece reconhecimento nacional. E assim, entregamos a você, que aprecia a boa leitura, este livro quetraz os contos premiados e outros selecionados entre os melhores. Espera-mos que esse ler seja um incentivo para que nossa cultura se expanda e sefaça com a alegria de viver no mundo dos contos aqui apresentados. Marilurdes Martins Campezi Membro da comissão julgadora Vencedora da 1.ª edição do concurso Escritora da Academia Araçatubense de Letras 5
  • 6. Índice Categoria internacional1.º lugar - IntermezzoLiliana S. Ribeiro - Leça da Palmeira – Portugal............................................... 102.º lugar - HamelinMiguel Cruz Fernandes - Lisboa - Portugal...................................................... 133.º lugar - Morder-me os sonhosValentina Silva Ferreira - Ilha da Madeira – Portugal......................................... 22a) Menção honrosa - A bola LolaAna Rita Santos Brandão – S. João da Madeira – Portugal............................... 29b) Menção honrosa - O peixe encantadoVictor Manuel Capela Batista - Barreiro – Portugal........................................... 30c) Menção honrosa - O saberDinis Reis Subtil Muacho - Avis – Portugal....................................................... 35d) Menção honrosa - O vale dos sentimentosUmoi Melo de Souza - Parede – Portugal....................................................... 39e) Menção honrosa - Uma dependência invulgarAntônio Carloto - Lousã – Portugal.................................................................. 466
  • 7. Categoria nacional1.º lugar - A sestaSuzana Maggioni Bertuol - Farroupilha – RS................................................... 542.º lugar - O amor no tempo da solidãoCláudia Albers Avóglio - Pirassununga – SP..................................................... 573.º lugar - O ovoSara Meinard Begname - Mariana – MG......................................................... 60a) Menção honrosa - A árvoreRafael Vieira da Cal - Cachambi – RJ............................................................. 63b) Menção honrosa - Duas cruzesCândido Brasil - Cachoeirinha – RS................................................................ 66c) Menção honrosa - Em braileÉder Rodrigues - Belo Horizonte – MG............................................................ 68d) Menção honrosa - O lamento de IngridAlex Sens Fuziy - Delfim Moreira – MG........................................................... 72e) Menção honrosa - Passa azeite, se não racha!Arnaldo Devianna - Sete Lagoas – MG............................................................ 77 7
  • 8. Categoria regional1.º lugar - LussanviraFrancisco Carlos Pereira - Araçatuba-SP......................................................... 832.º lugar - O beijo da serpenteRita Lavoyer – Araçatuba-SP......................................................................... 873.º lugar - O loiro e o “Ouro Negro”Larissa Firmo Alves Marzinek - Araçatuba – SP.............................................. 94a) Menção honrosa – IluminadosJúnior Viana – Araçatuba- SP...................................................................... 101b) Menção honrosa – IncondicionalLaís Simone Sandrigo - Birigui-SP................................................................ 104c) Menção honrosa – O milagrePaulo Coelho - Araçatuba-SP........................................................................ 111d) Menção honrosa – Uma história de grilagemAdemar Bispo da Silva - Araçatuba-SP........................................................ 116e) Menção honrosa - Vidas MortasMarcelo Otávio de Souza - Birigui-SP.......................................................... 121 Contos da comissão julgadoraTio LucasMário César Rodrigues – Araçatuba - SP....................................................... 126Um urso à minha mesaEmília Goulart – Araçatua - SP...................................................................... 1288
  • 9. Categoriainternacional 9
  • 10. IntermezzoLiliana S. Ribeiro* - 1.º lugar – categoria internacionalLeça da Palmeira - PortugalA vó? A neta entrou no quarto. Passos lentos e bicudos. Pousou a mão na pa- rede. Certificou-se de que o seu peso era mínimo. A janela entreabertadeixava passar a luz do fim de tarde. A janela paralela à cama, ao lado, a mesa decabeceira, um copo de água, um relógio. A cômoda em linha reta dispondo assi-metricamente os guarda-joias, um retrato e um candeeiro. A toda a volta, o papelde parede cinzento. Cheirava a naftalina e aquele cheiro trazia movimento como seavó andasse pelo corredor, de rosário no bolso a cumprir uma prece. Avó? A neta chamou baixo. Mais uma vez pensou que ela tinha morrido. O corpo quieto, as pernasestopadas por não se conseguirem mexer já. Avó? Estás a ouvir-me? Os braços da avó saíam da dobra vincada do lençol amarelo. A neta sentou--se na beira da cama. Começou a entreter os dedos no casaco, fazendo crer aquem passava que estava ciente das mãos, ciente de que não queria assomar àssuas as mãos da avó. Mas queria, queria muito. Conteve-se no gesto. A neta observou aquele corpo ali despojado. Um movimento, uma respiraçãolenta e quase rala. A avó declinou a cabeça em direção à neta, foi um acento muito bre-ve. Uns espasmos de olhos que se mantiveram fechados. Não era quase nada já. Poucose manifestava, não denunciava a dor. Era uma ideia que balouçava em si. Um pêndulo. Os cabelos da avó surgiam brancos, de uma cor só. Era a velhice e o can-saço do pelo. A avó mantinha-se viva naquela cama há muito tempo e entretanto aneta já tinha dobrado a esquina para adolescência. O corpo crescia como uma plan-ta em busca do seu ar. O corpo maior que ela própria. Tratavam-na como mais velha10
  • 11. e isso era coisa boa. Enganava os olhares de quem a via. Crescia como se corresse. Avó, hoje comi peixe ao almoço. Um peixe gordo e com um olho caído parafora do prato. A mãe disse que se chamava dourada. Comi peixe dourado com umolho preto caído para fora do prato. Um olho preto e vivo. Como aquelas mulheresda televisão que olham acertadamente para o ecrã. A mãe diz que é maquilhagem.Um traço preto que rasga a visão e torna os olhos maiores do que o que são.Mulheres-peixes-douradas. Um dia vou ser como elas e ver de olhos grandes. A avó respirava rasteira. As pálpebras pousadas. A neta encostou o ouvidoao seu peito. Ouviu-lhe o coração, deixou-se ficar. Sentiu o seu corpo aquecer,havia calor entre elas. Deixou-se ficar e roubar aquele afeto para si. O rio Tâmegaentrava escuro no quarto, algum lodo. As duas, corpo contra corpo, protegendo-separa não se afundarem. À volta, as tardes quentes à beira-rio. Os trilhos repassa-dos. O sol alto, a casa no giestal muda e fechada. O terreiro, a cadeira vazia domarido onde a morte o apanhou sentado. Os filhos deixados à vida como se da vidafossem. Deus enorme cantando-lhe e fazendo as uvas amadurecer. Um outro abraço, corpo contra corpo, passando a memória para não se afundarem. Deixa a tua avó. Fazes peso. Disse a mãe passando no corredor. A mãe circunspeta, doméstica e confor-mada. A mãe filha avisando a filha. A mãe sem maquilhagem. A filha sentiu algum embaraço por ter sido apanhada desprevenida e cedidano peito da avó. O rio Tâmega esvaziou, algumas ervas definhavam juntamentecom o pasto. A avó recolhia as cabras de volta à corte. O sol ao longe. O regresso àcasa fria, sem mãe e sem pai. A casa sem comida. A avó pequena e criança de pésatados à cama para contrariar a fome e a morder os braços para calar os gritos. Aavó saltando da janela, a correr pelos sobreiros, a avó do tamanho do grito a gritara fome calada. A neta deixou-se ficar. Peso vivo sobre peso morto. Avó… ouço passos de noite. És tu pela casa? Eram passos breves e arrastados. Por vezes, assustavam-na. Mantinha-seatenta para saber onde iam. Não gostava de ser surpreendida no escuro. Sentava-se 11
  • 12. na cama à escuta. Deveria ser a morte. A morte com avó ao colo, ou ao contrário.Se não fosse tão nova, talvez não se deixasse vencer com estes truques onomato-peicos. Havia algum medo e sobretudo respeito por esses passos serem a delicadaanunciação de que a sua avó partiria. Queria ver a procissão passar. Estar preparadaera o que melhor fazia. Horas sem conta de olhos pretos abertos no escuro. As tias dizem que temos as mãos parecidas. Saíste à avó, estão sempre adizer. Saíste à avó. Nem pai, nem mãe. De onde saí, avó? E como se volta ao lugarde onde se saiu se o lugar deixar de existir? Será que vou ser uma mulher-peixe--dourada sem olhos, avó? Um declínio de cabeça como início da juventude. Nenhuma resposta. Acama oblíqua ao encontro delas. A neta com a vida por fazer. Vai lá para fora. A mãe chegou à porta. Panelas suspensas na mão, pano da loiça em busto,dedos torcidos ao detergente e à lixívia. Mãe sem maquilhagem, olho azul fora doprato. Talvez as coisas precisem de estar quietas para morrer. As três, sucessivas, imóveis por breves momentos. A rapariga entre elascomo um trecho menor desafinado. A filha recolhia o gesto do peito, o coração trazido às mãos. Olhava aspálpebras pousadas, descobria-lhe os olhos por baixo. Olhos como berlindes parajogarem a infância. Ali, aquela mulher pausada e paciente era uma falsa trajetória.Um falso afeto, uma falsa salvação. Um avô velho na infância é uma aproximação precoce à morte. A mãe repassando no corredor. A neta apertou a mão desenformada da avó. Um beijo à face e saiu pé antepé com medo de chamar a morte. Sentia-se quieta por dentro, muito quieta.*Liliana S. Ribeiro, Portugal , Leça da Palmeia, 33 anos, psicóloga, trabalha na SociedadePortuguesa de Psicodrama. Dinamiza o blog: www.ascoisasimperfeitas.com. Já participou devárias antologias e participa de concursos literários. E-mail: liliana.silva.ribeiro@gmail.com12
  • 13. HamelinMiguel Cruz Fernandes* – 2.º lugar – categoria internacionalLisboa, Portugal «Anno 1284 am dage Johannis et Pauli war der 26. Junii Dorch einen pi-per mit allerlei farve bekledet gewesen CXXX kinder verledet binnen Hamelengebo[re]n to calvarie bi den koppen verloren»1 1 «No ano de 1284, no dia de São João e São Paulo, a 26 de junho, 130crianças nascidas em Hamelin foram seduzidas por um flautista, vestido de todosos tipos de cor, e perderam-se no lugar da execução, perto de koppen.» Manuscrito de Lüneburg, c. 1440-50O comboio começou a abrandar. Um jovem de vinte anos ia sentado, numa das últimas carruagens, a ler um livro com aspeto notavelmente velho. À sua direita encontrava-se um senhor com o cabelo muito branco e os olhosde um azul impressionantemente claro. Lia o jornal. À sua frente uma senhora demeia-idade, muito loira, que ia a dormir. O jovem destoava um pouco do ambiente,bem germânico, que o rodeava. Chamava-se Afonso. Era moreno, magro e alto. Estava com um cachecole dois ou três casacos vestidos. O livro que trazia era um volume dos contos dosirmãos Grimm, e durante a viagem já lera várias vezes o mesmo conto. Por vezesinterrompia e contemplava a vista. Passava-se por paisagens deslumbrantes, na-quele comboio. Ouviu-se o apito, e o comboio parou. Tinham chegado a Hamelin. Ao sair daestação, inseriu a mão direita no bolso e após remexer bastante, retirou um papelalgo amachucado com uma morada escrita. Depois de ter perguntado a um políciaqual seria o melhor caminho para lá, seguiu as suas indicações. Daí as uns minutos encontrava-se perante uma livraria com aspeto pito-resco. Uma porta de madeira velha, vidraças incrivelmente sujas, e um letreiroamarelado que dizia: “Antiquariat Peters”. Entrou, fazendo soar a campaínha delatão. A livraria, ou alfarrabista, não era muito grande, mas as paredes estavamcobertas de livros de alto a baixo, muitos deles visivelmente antigos. Havia também 13
  • 14. várias estantes altas e bem recheadas. Dentro da loja, estavam só três pessoas: umsujeito alto e macilento, encostado a uma estante a folhear um livro de História, umsenhor baixinho, completamente calvo claramente à procura de algo nas prateleiras do fundo, e o próprio alfarrabista, por detrás do balcão,com os seus óculos grossos na ponta do nariz a ler atentamente um volume detamanho considerável com capa dura. Afonso dirigiu-se precisamente a este último, o Sr. Peters. – Sr. Peters, como está? – disse Afonso – sabe quem sou eu? – O rapaz português que ligou há dias? – Ora nem mais. O Sr. Peters esboçou um sorriso bem grande, e estendeu o braço dando umaperto de mão forte a Afonso. E Afonso, que nem conhecia bem o Sr. Peters, sentiuimediatamente uma grande simpatia pelo homem. Que cortesia, que amabilidade...O Sr. Peters devia ser com certeza uma pessoa fascinante. Devia saber muito:afinal, passava a vida a ler e a aconselhar livros, devia ser também muito paciente,e agora notava-se que era uma pessoa alegre, simpática, afável, bem ao contráriodo que Afonso esperava. Ele preparava-se para enfrentar um homem sábio, semdúvida, mas carrancudo, amargo. A verdade é que esta não era uma expectativabem fundamentada, mas antes um preconceito errado sobre o povo alemão. – Venha comigo. – disse Peters, e abriu uma portinhola que havia por detrásdo balcão. Entraram para uma sala pequena, escassamente mobilada, muitas pilhasde livros no chão, duas poltronas, e uma mesinha redonda. – Esteja à vontade. – disse o alfarrabista – Quer tomar alguma coisa? – Ah, não se preocupe, Sr. Peters. Estou ótimo. – Muito bem... vamos já direitos ao assunto? Terei todo o gosto em ajudá-lo. – Oh muito obrigado, Sr. Peters – após uns breves instantes de silêncio,para saber por onde começaria, Afonso iniciou a explicação do motivo da sua visita– Ahh... eu... o meu nome é Afonso, tenho uma paixão pela Literatura, e já conseguipublicar alguns poemas em jornais, mas o que é fato, é que não sou ainda... enfim... propriamentefamoso no meu país. Recentemente, enquanto procurava inspiração, resolvi leruns contos dos irmãos Grimm, e parei no famoso conto do flautista de Hamelin.Encantou-me a história. Achei-a muito curiosa... A versão que ouvira quando erapequeno era bastante mais inocente, e a original parece ser... Cruel, não é? Uma14
  • 15. praga de ratazanas ataca a cidade de Hamelin, e surge um homem misterioso quepromete salvar a cidade da praga por troca de uma certa quantia. Mas quandoacaba de matar todas as ratazanas, graças àquela flauta mágica, os homens nãopagam o prometido. Então, como vingança, leva todas as crianças para a montanhae nunca ninguém mais as vê. Bem.. exceto uma criança coxa que ficou para trás.O que também é terrível. É deixado um para trás. – Não só um. Na história verdadeira, ficaram três crianças para trás, umcoxo, um cego e um surdo-mudo. É impressionante. Mas não acha justo? – Como? De modo nenhum. Como não lhe pagam uns quantos xelins, leva--lhes todas as crianças? Ainda por cima, com certeza, não precisava do dinheiro,já que era mágico... – Ora, precisamente, não precisava do dinheiro! E por isso quis dar umalição aos cidadãos. Uma lição que eles precisavam de receber. – Mas as crianças! Que culpa tinham? – perguntou Afonso. – As crianças? Não se lembra do que lhes aconteceu? Ao chegarem à mon-tanha, conduzidas pelo flautista e pelo som mágico da sua flauta, abriu-se umarocha, e dentro da caverna surgiu uma paisagem maravilhosa, com prados verde-jantes, rios transparentes, um sol esplêndido. Fosse o que fosse aquilo, acho queaí ficaram melhor do que numa cidade habitada por hipócritas. – comentou o Sr.Peters – enfim... Mas com isto desviamo-nos do assunto. Interessou-se pelo conto,e depois? – Depois... ora, esse interesse levou-me a querer reescrever o conto. Equando comecei a investigar sobre Hamelin e as raízes históricas do conto, tive aideia, uma estupenda ideia, de fazer uma viagem até cá, o cenário real aonde se teria passado o enredooriginal, para tentar imaginar melhor a cena toda. – Muito interessante, a sua ideia. Mas... porque veio ter comigo? – Bem, como alfarrabista, pensei que talvez fosse a pessoa indicada parame ajudar a conhecer a cidade – disse Afonso – e sobretudo, a montanha. Devesaber imenso... Mas Peters não ligou ao elogio de Afonso: – A montanha... A montanha... Sabe, não sou a pessoa ideal para o ajudar.Posso apenas dizer que em primeiro lugar, a história do flautista de Hamelin podeter sido mais real do que pensa. Em segundo lugar, a montanha é um lugar temidonesta terra: terá dificuldade em arranjar guia. Finalmente, tenho a dizer-lhe que a 15
  • 16. cidade está muito diferente do que era no século treze. Para o que pretende, basta--lhe visitar a igreja. Não há muito mais da época. E a igreja é muito bonita. – Muito obrigado. – Ah. Tenho um amigo que o poderá ajudar. Ele gosta muito de ler, comoeu, e sabe muito sobre as histórias e lendas da região. Com certeza saberá maisdo que eu sobre o flautista. Chama-se Clemens Schulz. A morada... tem algumpapel? – levantou-se e retirou um pedaço papel de dentro de um daqueles livrosque enchiam a sala. – Aqui tem. – disse, escrevendo a morada no papel com umacaneta de tinta permanente, e entregando-o a Afonso. – Muito obrigado. – agradeceu Afonso, levantando-se. – Ora essa – disse Peters, abrindo a porta – tenha cuidado, rapaz. Quandotiver escrito o seu conto, envie para cá. Terei todo o gosto em lê-lo! – Muito agradecido, Sr. Peters. E com um aperto de mão, Afonso saiu da loja. Visitou de seguida a igreja. Era grande e bonita, mas simples. Um grandeórgão de tubos que impunha respeito. Tentou imaginar-se naquela igreja séculosatrás. Dia 26 de junho de 1284. Os adultos de Hamelin estariam assistindo ali àmissa de S. Pedro e S. João, que seria, com certeza, um belíssima celebração, comincenso e canto gregoriano. Ainda se parecia sentir o ecoar do canto e do órgãonaquelas paredes pétreas. Mas ao mesmo tempo que os adultos aí estavam, entra-va na cidade um sujeito alto e magro, com um sorriso no rosto, e vestido de umamaneira invulgar. Traria nas mãos uma pequena flauta. Talvez algumas criançasque estivessem a brincar na rua o tenham reconhecido imediatamente como sendoo flautista que os tinha libertado dos ratos... É então que ele eleva a flauta à bocae começa a soprar. Primeiro baixinho, e depois, gradualmente, cada vez mais alto.E tocaria uma música alegre, e ritmada. As crianças sentem-se irresistivelmenteatraídas por aquele som poderoso e começam a correr e a saltitar atrás do flautista.Mas o encantamento era ainda superior ao dos ratos. Porque desta vez, nenhumadulto pôde ouvir o som mágico da flauta. Um desfile com cento e trinta crianças, atranspirar alegria, e a afastarem-se da cidade, em direção à montanha... E Afonsoimaginou o que teriam sentido as pessoas ao saírem da igreja. O que teriam cho-rado amargamente as famílias. Que desgraça esta. Quanto tempo terá demoradoa ganhar alguma alegria aquela cidade? Durante quanto tempo esteve de luto? Erauma história triste, mas não deixava de fascinar Afonso. Seguidamente deu uma volta pela cidade, mas não se quis demorar muito.16
  • 17. De alguns pontos via-se a montanha, não era demasiado alta, mas ostentava umacerta majestade, e parecia atraí-lo com alguma força. Dirigiu-se para a casa doamigo do alfarrabista, o Sr. Clemens Schulz. Esta era uma pequena moradia, já um pouco isolada, e perto da floresta queantecedia a montanha. Daqui a montanha parecia mais grandiosa. Já começava aentardecer, e Afonso tinha dúvidas se partia para a montanha ainda naquela tarde,ou se esperava pelo dia seguinte. Mas ele queria explorá-la. E esse desejo parecia estar a ganharcada vez mais força. Parecia que havia um ímã a puxá-lo para lá, sentia uma ânsiade aventura crescente. Bateu à porta e abriu-a um velhote francamente baixo, e gordo, meio-care-ca. Afonso imediatamente, com um sorriso, disse: – Boa noite. Estive há pouco na livraria do seu amigo, o Sr. Peters, e elefalou-me de si. Disse-me que saberia com certeza de coisas sobre o famoso contoO Flautista de Hamelin. – Disse? – perguntou Clemens, e soltou uma gargalhada – entre. Sei, sim. Sem dúvida, que este senhor era também uma pessoa encantadora, à se-melhança do amigo Peters. Que terra extraordinária que era Hamelin. Afonso esta-va estupefato. Trazia mesmo uma ideia errada em relação aos alemães... – Muito obrigado – disse Afonso. Clemens conduziu Afonso para uma pequena sala de estar muito acolhedo-ra. Um sofá e uma poltrona voltados para uma lareira acesa. A sala estava escura,iluminada apenas pela luz quente do fogo. O crepitar da madeira era para Afonso,muito agradável. – Sente-se, homem! – exclamou o velho Clemens – Tenho chá. Vai querer? – Pode ser, muito obrigado. – respondeu Afonso. – Temos a casa por nossa conta, por isso esteja à vontade! – disse Cle-mens, entregando uma chávena de chá a Afonso – Quer açúcar? – Não muito obrigado, Sr. Clemens. – respondeu Afonso, um pouco surpre-endido com toda aquela hospitalidade. – A minha mulher está fora, foi internada anteontem, imagine. – disse Cle-mens, sentando-se – Mas o médico diz que não é grave, e que em princípio depoisde amanhã estará cá em casa. – Que chatice – comentou Afonso, sem saber bem o que haveria de repon-der. 17
  • 18. – Enfim, pergunte lá o que tem a perguntar! Então, Afonso contou todas as circunstâncias que o haviam levado até ali,de forma semelhante à de como tinha contado a Peters. Chegando ao fim, Clemenscomentou: – Aquela flauta, rapaz, aquela flauta... o som que produzia devia ser ter-rivelmente... terrível! É inimaginável. Todos os ratos que o ouviram morreram. Etodas as crianças que o ouviram ficaram profundamente afetadas. Só sobreviveuum cego, um coxo... – E um surdo-mudo. – interrompeu Afonso. – Sabe o que lhes aconteceu? – Não. – Os três regressaram à cidade. O surdo-mudo cresceu e tornou-se o sa-cristão da igreja. Foi sacristão até morrer, e morreu velho. Tinha seguido os outrospor curiosidade, mas não tinha ouvido a flauta, de modo que continuou a sua vida,para a frente. – E os outros dois? – perguntou Afonso. – Passado poucos meses desde o acontecimento, numa noite, o cego e ocoxo fugiram juntos das suas casas e dirigiram-se à montanha. O coxo conduziu ocego. Diz-se que a dada altura se separaram, e o cego perdeu-se, e nunca mais foivisto. – Clemens fez uma pausa e suspirou – Já o coxo, continuou a procurar a gru-ta e os companheiros durante anos e anos. Diz-se que viveu na montanha duranteséculos, que a sua vontade inflexível e a sua esperança inestinguível o mantinhamvivo. E há quem diga que ele ainda vive. – Ninguém os foi lá procurar? Não houve buscas? – Não... Para as pessoas, a montanha tornou-se um local amaldiçoado.Toda a espécie de lendas foram surgindo. Havia quem dissesse que se ouviam osrisos e o canto das crianças, havia quem jurasse ter visto um velho coxo a vaguearpor entre as rochas. Não. Uma sombra de morte cobriu esta montanha. Poucagente se aventura a sair da estrada. – Ainda hoje? * Miguel José da Fontoura da Cruz Fernandes – A montanha deixou uma ferida demasiado profunda em Hamelin. E estasferidas não se saram nem com séculos. Fez-se uma pausa. Afonso olhava pela janela, e via a montanha alta e bela.18
  • 19. Tinha, de fato, algo de sinistro. E nesse momento, de forma singular, apoderou-sedele um desejo irreprimível de aventura, mais forte do que todos os anteriores. Foicomo que instantâneo. E impelido por esse impulso, levantou-se e disse: – Pois eu vou para lá. – Quando? – Agora. – afirmou resolutamente Afonso. – Mas já é tarde. – Eu sei. Mas quero mesmo ir. Ela chama-me. – disse, olhando mais umavez pela janela. – Não faça isso. – Clemens levantou-se, olhando à volta – Se quiser podedormir aqui. A casa é pequena, mas tenho espaço para si. – Agradeço-lhe muito, mas a minha decisão é final. Vou para lá já. – Não tem medo? – Não. Eu vim a Hamelin para isto. Só sairei de Hamelin depois de conhecera montanha. – Agasalhe-se bem, então. – fez uma pausa – admiro a sua coragem. – Boa noite, e muitíssimo obrigado. – Boa sorte. – disse o velho Clemens, olhando fixamente para Afonso efranzindo a testa – que os santos o acompanhem. Afonso saiu da casa, deixando a chávena a meio, e iniciou a caminhada.Rapidamente a estrada começou a subir, e a expedição a tornar-se cansativa. Maso desejo que o guiava era mais forte que a sede, o cansaço e o frio. A noite estavafria, e havia pouco luar. As estrelas não se viam por causa das nuvens. À medidaque ia ganhando cota, havia cada vez mais vento, e a estrada tornava-se maisinclinada. A estrada estava rodeada de árvores, que rangiam sempre que surgia umarajada mais forte. Mas Afonso não sentia medo e prosseguia. Não lhe parecia loucoaquilo que estava a fazer. Ele era um aventureiro. Era um artista. Sabia apreciar asolidão e a escuridão. Passaram horas de caminhada. Abriram-se um pouco as nuvens, deixandoa lua espreitar. Era um espetáculo digno de se ver. Agora, já havia muito poucasárvores, e cada vez mais rochas salpicadas com arbustos e vegetação rasteira. Começava também a notar-se que a aparência era um pouco enganadoraquando vista da cidade: a montanha parecia mais alta do que era na realidade. Pornão ser assim tão alta, talvez nem se devesse chamar montanha. Era, na opinião 19
  • 20. de Afonso antes um monte, um monte alto, mas a terminologia pouco importava. Oque lhe importava mais era a beleza e a grandiosidade. Começou a trepar rochas e a abrir caminho entre os arbustos. E cerca deuma hora depois, abrandou e pôs-se à procura de um local alto, onde se podessesentar a contemplar a vista. Na quietude do monte, completamente só, Afonso sentiu-se insignificante,dada a sua pequenez perante a imponência das rochas que se erguiam para o céuescuro. Ao fundo, no meio da escuridão, distinguiam-se as luzes da cidade de Ha-melin. Ali em cima, enfrentando o vento, Afonso quis subir ainda mais, e sentou-sesobre uma pedra muito elevada como que sobre o vazio. Sentou-se e contemplou.Nenhum pensamento inoportuno conseguiu interromper aqueles momentos depura experiência estética. Não havia palavra para descrever tudo aquilo. Um vento frio e cortante soprava fortemente, tentando derrubar Afonso, masele não sentiu nem um pouco a baixa temperatura. Repentinamente, o vento ces-sou. E caiu sobre a montanha um profundo silêncio. E Afonso quis ouvir o silêncio. Podem ter passado minutos, talvez horas. Para Afonso, o tempo que passoufoi algo indescritível. Por um lado pareceu-lhe um instante, por outro, pareceu-lheter passado a eternidade inteira à frente. Muito lentamente, de forma gradual, a quietudefoi-se diluindo, mas o sabor de perpetuidade manteve-se. Afonso demorou muito aaperceber-se. Um zumbido distante e contínuo, um som quase inaudível começouemergir do silêncio, e foi ganhando força, até envolver Afonso completamente. Eraum som estranho. Agudo, semelhante a uma voz cristalina, mas ao mesmo tempomuito pouco humano. Entranhava-se na pedra e na vegetação, e fazia tudo vibrarvagarosamente. Trazia consigo uma poderosa nostalgia, transpirava amargura, masparadoxalmente parecia ao mesmo tempo produzir uma alegria louca. Um miste-rioso gozo começou a apoderar-se de Afonso, à medida que o som se tornava maispercetível. Quase sem notar, levantou-se e pôs-se de pé sobre a pedra. O seu olharfixou o infinito. Agora ia além do horizonte, ultrapassava as nuvens e as estrelas,percorria o Universo inteiro, e prolongava-se indefinidamente. E o som continuou acrescer e a crescer. Era o som de uma flauta. Mas que flauta... Desceu a rocha edeixou-se conduzir por ele. Parecia estar a ser puxado cada vez com mais força, edocilmente correspondia. Desceu mais, e seguiu por entre as pedras e os arbustos.Começou a correr. Não sabia para onde se dirigia, mas não tinha dúvidas de que20
  • 21. estava a ir para o destino certo. Foi então que, quando aquele singular ruído atingiuum auge de esplendor, Afonso estacou. O som desvaneceu-se instantaneamente.À sua frente erguia-se um fissura profunda na rocha. Dentro dela era tudo trevas. Sem qualquer espécie de medo, Afonso mergulhou na escuridão. Encontra-ra aquilo que procurava. Fez-se silêncio no monte. Lá em baixo, no limiar da cidade, Clemens olhava pela janela e via a mon-tanha. Estava a sorrir, e notavam-se lágrimas nas bochechas. Virou-se de costas e coxeando, ele era coxo, foi-se deitar.* Miguel José da Fontoura da Cruz Fernandes nasceu em Lisboa, Portugal, 19 anos. Des-de pequeno estuda música, e também pinta e desenha. Há três ou quatro anos descobriua escrita, e atualmente escreve contos. E-mail: miguelcruzf@gmail.com 21
  • 22. Morder-me os sonhosValentina Silva Ferreira* - 3.º lugar – categoria internacionalFunchal, Ilha da Madeira – PortugalM aio de 2003 Todos me olham por debaixo de um ponto de interrogação. Como se fosse errado estar aqui, no funeral do meu marido. As pessoas dispõem-se àvolta do buraco. O padre soletra o que já sabe de cor, de outros funerais. Escondo--me por detrás dos óculos de sol. É a necessidade selvagem que sinto em fugirda verdade que se desenrola diante de mim. Por fim, ele desce pelas tábuas demadeira que dois homens controlam com a ajuda de cordas grossas. Jogam-lheflores e, em pouco tempo, aquilo que era uma caixa da morte transforma-se numjardim colorido. Espero todos irem embora e permaneço, estática, diante da terraremexida que o guarda. Com cerimónia, dispo o meu dedo da aliança. Admiro-a,deixando os raios mornos de sol trespassarem a circunferência e dourarem o ouro.Num suspirar mais profundo jogo o anel e ele aterra, sem som, sem me doer ocoração. Viro as costas e dirijo-me ao carro. Maio de 1986 Viro as costas e dirijo-me ao carro. A meio do caminho paro e engulo oar doce da Primavera. Arrisco um rodar dos calcanhares e alcanço o olhar dele,despedindo-me, apressadamente, com um olhar tímido, um gosto muito de ti joga-do ao vento. O menino de olhos verdes e coração na boca: a minha alma gémea. Metade de mim chega a casa. O meu corpo desce do assento e corre esca-das acima. O coração e a cabeça ficam lá, com ele, com os reflexos pretos que osseus cabelos castanhos escondem, com as sardas que salpicam a sua pele branca,com a pulseira que eu roubei da loja e ofereci, cheia de emoção. Deito-me na camae inspiro fundo. Estou apaixonada, irremediavelmente apaixonada. Encosto a cabe-ça à almofada e respiro o silêncio.22
  • 23. Maio de 2003 Encosto a cabeça à almofada e respiro o silêncio. As paredes são de umcinzento desmaiado. A cama é coberta por um trapo castanho e a almofada nãopreenche a elevação do meu pescoço. Do teto pende uma lâmpada. A janela édemasiado alta para que eu possa entreter a vista com uma paisagem. Não tarda,o céu vestirá o seu vestido negro e, se não me engano, hoje a lua será redondacomo um queijo. O corredor encontra-se mergulhado num sossego deprimente,uma calma que, de vez em quando, é engolida por um gemido que foge da bocade alguém. Ao terceiro suspiro encaro a minha parceira de cela e ela responde--me com um sorriso malicioso. São as Torres, diz. Franzo o sobrolho e ela, logo,tira a minha dúvida. As Torres são casadas. Sinto-me emudecer. Ajeito-me melhorà cama e encosto o ouvido ao cimento frio. Parece que a cena se desenrola nomeu pescoço. Consigo desvendar todo o percurso das mãos de uma e a melodiaprazerosa da boca da outra. Podia não conseguir ver e, muito menos, sentir, masaprendia, agora, a ouvir e a separar cada sonância e a colocá-las ao lado de umaimagem. Mesmo encarcerada podia continuar a ver o mundo. Fecho os olhos edeixo a lágrima cair: a primeira vez é sempre emocionante. Janeiro de 1995 Fecho os olhos e deixo a lágrima cair: a primeira vez é sempre emocionan-te. Ele posiciona os lábios no meu ombro, já despido, e provoca uma ebulição naminha pele. Encosto-me a ele, ao meu namorado de há nove anos, o meu meninode olhos verdes e sardas castanhas que é agora um jovem atraente. Ficamos abra-çados durante a eternidade de um minuto; eu engolindo a vergonha do próximopasso, ele controlando o vulcão que o seu baixo-ventre suporta. A minha pele nãotoca em mais nada a não ser o corpo dele. Os nossos pelos enlaçam-se; as nossasbocas colam-se; os nossos corações aninham-se, conhecedores antigos um dooutro. Estamos nus e envolvidos numa seda de encantamento. Sem avisos, eleaperta o meu pequeno corpo e deslizamos, os dois, em direção a um lugar sagrado.Do lado de fora é possível ouvir os murmúrios de outras crianças: sons de purezae ingenuidade. Aqui dentro, ecoam, embora quase surdos, os latidos da paixão. Eleforça um caminho que será só seu daqui por diante. O céu ribomba luzes. Faz-senoite; uma noite permitida pelas nuvens quase pretas que cobrem o sol envergo-nhado de Inverno. As crianças, lá fora, gritam assustadas. Eu gemo sofridamente. Achuva derrama-se furiosamente. Finalmente, recebo um abraço meigo e mergulho 23
  • 24. a cabeça naquele peito que me conforta. Maio de 2003 Finalmente, recebo um abraço meigo e mergulho a cabeça naquele peitoque me conforta. Como estás, querida?, pergunta-me. Estou bem, mãe. Ela deixa--me encaixada no seu abraço por mais uns momentos e, depois, afasta o corpopara olhar no interior dos meus olhos. Tu não fizeste aquilo, diz-me serenamente.Empurro a cadeira velha e sento-me. Estou aqui, digo e aponto em volta. Elaencara-me com os dois olhos escuros. Coitada, envelheceu em tão pouco tempo.Afundo-me na cadeira e recebo um beijo na testa. Vai correr tudo bem, sussurra--me perto do ouvido. Abril de 1995 Vai correr tudo bem, sussurra-me perto do ouvido. Como podes ter tantacerteza?, pergunto. Uma gravidez não é o fim do mundo, responde-me, com osemblante pouco carregado, o que significa que não diz aquilo só para me sosse-gar. Eu suspiro: um filho. Sinto-me demasiado pequena para suportar uma criançano meu ventre. E depois? As noites mal dormidas, o ser mãe, namorada, filha, es-tudante: o crescente número de papéis e funções. Serei capaz disso? Terei de ser.Sempre me ensinaram a assumir as responsabilidades pelos meus atos. Maio de 2003 Sempre me ensinaram a assumir as responsabilidades pelos meus atos.Sabe, Dr., não me resta muita coisa na vida. Sei que sou nova e que poderiarefazer o meu futuro mas a verdade é que o destino traiu-me. Julguei que todaa minha vida tinha sido feita para acompanhar a vida do meu marido. Acheique o fato de nos termos conhecido muito novos e de termos namorado todaa nossa juventude só poderia querer dizer que éramos almas gémeas. Engulouma saliva que sabe a vidro cortado. Depois engravidei e, mais uma vez, encareiisso como um sinal de que nada nos poderia separar. Fecho os olhos e serenodiante do escuro que me preenche a visão. E depois?, pergunta-me o advogado.Liberto-me do negro e respondo-lhe secamente. Depois aprendi que não existemalmas gémeas. E, por isso, o matou?, questiona-me antes de eu levantar-mepara ser levada pelo guarda até à minha cela. Sim, Dr., por isso o matei. Saio. Umhomem bonito acompanha-me.24
  • 25. Maio de 1995 Um homem bonito acompanha-me. O meu querido pai, vestido de cinzentoe com os olhos molhados de alegria, leva-me até ao altar, onde ele me espera. Nãofoi uma decisão fácil mas, depois do resultado da gravidez dar positivo, nada maiscerto que casar. A igreja não está cheia: apenas a família e poucos amigos. Nãoestou nervosa pois sei, há muito tempo, que este seria o caminho a ser tomado,mais cedo ou mais tarde. O padre começa a missa. Eu entrego, discretamente, aminha mão à dele e ficamos assim durante toda a cerimónia. No momento exato,ele diz que sim, eu digo que sim e pedem que nos beijemos. Está um lindo dia desol - o dia perfeito para receber a minha nova vida. Junho de 2003 Está um lindo dia de sol - o dia perfeito para receber a minha nova vida. Asala de audiências quase vazia não me mete medo. Sento-me, ao lado do advoga-do, e espero pelo juiz que, entretanto, chega. Fazem-me perguntas para as quaiso advogado preparou-me. A acusação aponta-me o dedo com náusea e, diantede mim, desenrola-se uma cena dolorosa: os meus pais abraçados, amparando atristeza um do outro; os meus sogros lambendo as lágrimas um do outro; os paisda outra soluçando no ombro um do outro. Sinto uma angústia escalar as minhastripas e uma dor aguda instala-se no meu ventre. Junho de 1995 Sinto uma angústia escalar as minhas tripas e uma dor aguda instala-seno meu ventre. Leva-me ao hospital, suplico. Que tens?, pergunta-me ele. Umador, uma dor muito forte. Aqui, digo, apontando para a minha barriga. O rostodele transforma-se em sufoco. Chegamos às urgênciase colocam-me numa ca-deira de rodas. A médica pede-me que abra as pernas. Sinto-me escorregar parafora do mundo. Fique connosco, oiço. Mas a voz é demasiado distante e só meapetece deixar-me levar por esta magia sonolenta que me embala os cabelos. Osmeus olhos cedem. Deixo de ver pessoas estranhas e luzes fortes. Vejo a escuridãomesclada com sons de bebés. O meu filho está a nascer. Mas, depois, aquilo quesurge no meio do manto negro que me cobre os olhos, deixa-me assustada: umbebé ainda em formação, quase sem pele, coberto por vasos sanguíneos, pequeno,tão pequeno que me cabe na ponta do dedo. Não quero!, grito. Não quero essemonstro. Ele desaparece ao mesmo tempo que o desprezo. O meu coração abran- 25
  • 26. da. Oiço, novamente, vozes que me trazem de volta à realidade. Junho de 2003 Oiço, novamente, vozes que me trazem de volta à realidade. Matou o seumarido? Responda! O advogado de acusação grita na minha cara e eu desperto dainércia. Sim, matei. Uma sinfonia de choro preenche a sala. E matou a senhoritaSusi? Engulo em seco. Matei. As pessoas exaltam-se, chamam-me de assassina.O juiz pede meia hora de intervalo e, quando regressa, coloco-me em pé para ouvira minha sentença: pena de morte. Sinto um sopro agitar os meus pelos. É a morteque me abraça uma vez mais. No entanto, respiro fundo e sorrio. Há muito tempoque não me sinto tão leve; leve e livre. Junho de 1995 Há muito tempo que não me sinto tão leve; leve e livre. Que sono restau-rador. Ajeito o corpo à cama, suspiro e levo as mãos à barriga. O ambiente gelaà minha volta. O meu filho. Aperto a barriga e tudo o que sinto é pele e carne ear. Da minha garganta saem gritos de dor. Duas enfermeiras entram no quarto eseguram-me nos braços que tentam arrancar os tubos que se filtram nas minhasveias. A minha mãe entra logo em seguida, acompanhada pelo meu marido. Évisível a tristeza nas suas caras. O meu filho?, pergunto. Ninguém responde e eusei, instintivamente, o que aconteceu. Mergulho a cara na almofada e choro. Aquelesonho, aquele sonho do bebé-monstro que eu recusei. Ele morreu por minha causa.Sou uma assassina. Junho de 2003 Sou uma assassina. Assassina da minha própria vida porque acreditei emfalsos contos de fada e em juras de amor eterno. Deito-me na cama e deslizo osolhos pelo teto. Acabou a dor misturada com a fúria, e a pena de mim própria e dosoutros que vivem o mesmo. Acabou. Agora sou só eu. Sou eu que decido a minhavida. Decidi o caminho a partir do momento que eles tombaram, ensanguentados,aos meus pés. Acabou. Estou sozinha. Setembro de 2000 Estou sozinha. Deixei a depressão vencer o casamento e roubar-me o ho-mem. Perder um filho, seja em que idade for, é a maior dor que se pode sustentar26
  • 27. no coração. E mesmo sem conhecê-lo, sem experimentar o seu cheiro, tenho sau-dades. Saudades de tê-lo na minha barriga, saudades do que não tive depois disso,saudades do meu marido. A morte do meu filho trouxe a separação dos nossossentimentos enquanto homem e mulher, como se ele tivesse levado todo o amorque guardávamos dentro de nós. Estou vazia. Junho de 2003 Estou vazia, diz-me a minha mãe. Estamos abraçadas há mais de cincominutos. A cadeira engole o meu pai. Mãe, eu amo-te. Ela aperta-me com toda asua dor. As lágrimas sufocam-me. Apesar de querer a liberdade da morte, corrói--me fazê-los sofrer. Pai, vem cá, peço. Ele levanta-se com dificuldade. O desgostotoldara-lhe os movimentos. Abraça-me, pai. Repito as palavras que disse à minhamãe e permanecemos em silêncio. O guarda chama-os. A minha mãe mostra-meum rosto deformado pelo tormento; o meu pai definha-se à medida que caminhapara a porta. Lançam-me beijos no ar que eu recolho com as minhas mãos eguardo nos bolsos para mais tarde. A porta fecha-se atrás de mim e, finalmente,encaro a verdade. Abril de 2003 A porta fecha-se atrás de mim e, finalmente, encaro a verdade. O rabobranco do meu homem balança diante dos meus olhos e uma loira esbraceja pordebaixo dele: ele, de meias, e com gorduras que eu nunca vira antes; ela, nemmelhor nem pior que eu, talvez mais nova. O som da minha respiração moída pelasurpresa desagradável desperta-os para a presença de mais alguém no quarto. Eleretira-se do aconchego dela e embrulha-se no lençol. Como se isso fosse cobrir atraição. Ela abre a boca e encolhe-se na cama. Eu não digo nada. Fecho os olhos edeixo o destino que sempre me enganara seguir o seu caminho. Junho de 2003 Fecho os olhos e deixo o destino que sempre me enganara seguir o seucaminho. Os homens apertam-me os pulsos e os tornozelos na cadeira forte damorte. Um médico coloca-me a seringa na veia mais saliente. O veneno penetra omeu sangue e eu sinto a respiração dizer que está na hora de ir descansar. O corpopesa-me. Nos meus bolsos estão os beijos dos meus pais: vão comigo. No meucoração levo o meu filho. Na minha alma levo o peso de um destino: um destino 27
  • 28. que fez castelos de areia com a minha vida e, depois, destruiu-os com os pés.Eramgrutas de medo que eu guardava no coração. Foi assim depois da morte dele. Naverdade, foi assim depois de o conhecer: um destino que me mordeu os sonhos. Abril de 2003 Jonas corre, embrulhado no lençol até onde Bea permanece de olhos fecha-dos. Desculpa, querida, desculpa. Ela abre as pestanas longas e encara o maridoque se ajoelha diante de si. Querida, vamos voltar a ser felizes; vamos esquecera morte do nosso filho; vamos começar de novo. Susi sente o peso das palavrasesmagarem-na contra a cama. Ferida, levanta-se. Abre a sua mala e retira a armaque a sua profissão a obrigava a transportar. Vocês não vão ficar juntos!, grita,completamente nua - de roupa e de juízo. Susi, tem calma, diz Jonas. Calma?,tu prometeste que íamos ficar juntos. O dedo prime o gatilho e o chumbo voa nadireção do peito de Jonas. Ele tomba instantaneamente. Bea leva as mãos à boca.Susi, envergando a cara de uma demente, encosta a arma ao coração e mata-se.Bea desliza para perto do marido e chora no seu ombro. Depois, com a frieza ca-raterística de quem está habituado a dores profundas, levanta-se, pega na arma,guarda-a na sua bolsa e sai. Em breve, a polícia chegará e encontrará as suas impressões digitais portodo o quarto.Valentina Silva Ferreira, Funchal, Ilha da Madeira, Portugal.Licenciou-se em Direito e tem mestrado em Ciências Jurídico-Criminais. Autora de Distúr-bio e A Morte é uma Serial Killer (Ed. Estronho). Começou na Revista Magazon. Participaem mais de vinte antologias portuguesas e brasileiras. E-mail: vpsf88@hotmail.com28
  • 29. A bola LolaAna Brandão* - menção honrosa – categoria internacionalSão João da Madeira- PortugalE ra uma vez uma bola, que sonhava ser um quadrado, pois passava a vida a rolar, e nunca tombava de lado. Era uma vez uma bola, que queria ser triângulo, porque passava a vida aprocurar, e nunca encontrava um canto. Era uma vez uma bola, que gostava de ser rectângulo, para em comprimen-to crescer, e nunca ter de se encolher. Pobre bola Lola, não conseguia parar de sonhar, andava com a cabeça àroda, sempre a imaginar, em que figuras especiais, se podia transformar. Certo dia, Lola teve de ir à padaria, e pela estrada fora, girava tanto que atécorria. Mas que grande alegria. Afinal ser bola, também tem o que se lhe diga. Outro dia também, foi para a relva saltar, encontrou uma formiguinha, quea pós a rebolar. Que maravilha é poder brincar todo o dia. E numa bela noite, em que voltara a sonhar, olhou para o céu estrelado eviu algo redondo a brilhar. - Lola, para que queres tu mudar, se és linda como o Luar?* Ana Brandão, economista e técnica oficial de contas, gosta de trocar os números pelasletras nas horas vagas. E é nas pequenas histórias que descobriu como escrever o cami-nho da felicidade. E-mail: b_ana@hotmail.com 29
  • 30. O Peixe EncantadoVitor Batista* - menção honrosa – categoria internacionalBarreiro, PortugalA prole descendente dos meus pais, além de mim, tem mais duas pessoas. Significa dizer, sem que para tal fosse necessário fazer qualquer referência, que somos três os filhos do antiquado casal Valadares, que sendo pessoascuja idade está na parte final dos setenta, têm a sua pouco pensante cabecinhasituada na década de quarenta, do século passado. Claro está que a vida que nós os três filhos fazemos, é uma enorme pre-ocupação para os pais, porque o nosso “modus vivendi” está totalmente fora dospadrões pelos quais balizam a sua sebastianista maneira de pensar. Não percebem como, nem porque razão a minha irmã, por acaso a maisvelha do grupo, vive com o pai dos seus três filhos sem serem casados. Tambémlhes custa imenso aceitar que sou casado, já em segundas núpcias, sem que emalguma das vezes eu tenha passado, mesmo que por perto, pela porta da igreja. Quanto ao mais novo, que ainda está no princípio dos trinta, nem vale porfalar nele ou do seu modo de vida com os pais, que o apelidam de sem-vergonha,de desmiolado, de perdido da noite e por aí fora. Ele vive com os nossos pais,porque ainda é um rapaz novo, naturalmente solteiro. De qualquer maneira, osvelhos Valadares só o aceitam, ainda que com alguma frieza, porque é filho, pelocurso tirado e pelo seu bom emprego, o que quer dizer, de acordo com os arcaicosvalores defendidos pela parentela Valadares. A maldade e o vício chegam depois, quando entra em casa fora de horase, pior um um pouco, quando ele sem aparente razão troca de namorada com amesma facilida-de como uma outra qualquer pessoa troca de camisa, segundo ospais Valadares. Aqui é que a porca torce o rabo! Contudo e sendo ele um rapaz novo, faz muito bem se agarrar todas as boasoportunidades que lhe vão surgindo, pois, como é natural, para a bela idade queatravessa tem que aproveitar os prazeres que a vida lhe concede no dia a dia. Por30
  • 31. essa razão e em geral, à conversa dos pais diz nada. Nunca discorda dos bolorentos e gastos conselhos que o velho Valadaresteima em emitir, mas são palavras que já não o incomodam. De qualquer modonós até já conversamos sobre o assunto, na medida em que ele precisa ser maiscuidadoso em determinadas situações que se lhe deparam. Tem que retirar delaso proveito possível, mas deve ser bem mais comedido. Pode correr riscos, que nãosendo bem medidos, acabam por dar razão à litania do pai Valadares, a quem amãe, muito naturalamente, dá sempre o seu amém. Tudo isto vem a propósito do miúdo, como eu muitas vezes me refiro aomeu irmão, ter ido à menos de um mês visitar o norte de África. E então, fez-seacompanhar de uma nova candidata a minha cunhada, que ele julgava já conhecerbem, por ser a empregada da loja de modas onde costuma comprar a roupa daexcelente e conhecida marca que veste. Contudo e pelo que me contou, quase tudo lhe correu mal durante a se-mana que por lá andou. A origem da maioria dos percalços e das desagradáveisocorrências que marcaram a viagem, ficou a dever-se à sua acompanhante, nestemomento já ex-candidata a cunhada da minha irmã. A madame, é um adequadoapodo, entendeu ser ela a escolher o que deviam visitar durante o período da es-tadia no local. O miúdo acedeu e só depois deu pelo tremendo erro que cometeu. Foram visitar a parte velha da cidade, lugar labiríntico e demasiado con-fuso, onde é aconselhável entrar na companhia dum guia experimentado e bomconhecedor da zo-na, para evitar que as pessoas se percam naquele emaranhadode ruelas escuras e sujas. A decisão que ela tomou foi de tal maneira fortuita einopinada, que além de se terem perdido no interior da medina, foram assaltados edespojados de todos os valores que tinham em posse. Também foram ver os encantadores de serpentes, mas aqui por imposição domeu irmão, que desde criança sempre se deixou fascinar por aquele espetáculo. Eleansiava por ver ao vivo as serpentes, os tocadores de flauta, ouvir a música encanta-da, enfim, queria ter o supremo gozo de ver as cobras a sairem das cestas, enfeitiça-das pela música tocada pelos seus hábeis encantadores. Só a determinada injunçãodo miúdo permi-tiu que pudesse assistir a um brilhante show. Aqui correu quase tudobem. Só que ela conseguiu de tal maneira endrominar o meu irmão, que o convenceua trazer uma serpente, bem como tudo o resto que seria necessário para encantar oanimal, não podendo aqui confirmar-se qual, se o humano se o réptil. 31
  • 32. Por sorte, ao passarem na alfândega e quando lhes pediram para abrirema cesta, esta estava vazia. A serpente tinha fugido. Foi o que lhes valeu, pois, porcerto, teriam eles ficado encantados com o que aquilo que os esperava. O miúdo está de novo sózinho. Mas, pelo que me apercebi, não lhe sai da ideiao divertimento que teve, a agradável sensação que sentiu ao ouvir a música do feitiçoe ver as cobras a soerguerem-se vagarosamente, bailando. Era um sonho de criança! Realizado! E de tal maneira assim foi que neste momento o miúdo, usando o mesmotipo de música, mas não sendo possuidor de serpentes, está tentando encantardois peixes vermelhos de água fria, que tem num aquário lá em casa. Gasta váriashoras ao dia tocando uma flauta igual à dos encantadores do norte de África, a talque não ficou apreendida na alfândega, numa tentativa de os fazer saltar da água.Ele anda muito entusiasmado e já me disse que as coisas até nem estão a corrernada mal. Apenas precisa de dar um pouco mais de tempo, ao tempo. Os pais Valadares é que não estão a gostar nada do que ele está a fazer e até jádizem que o preferiam ter como sempre foi, um sem vergonha e um perdido da noite. Têm receio que possa vir a desmiolar! Entretanto, estão passados mais de dois anos desde quando o miúdo dei-tou mãos à obra e começou o difícil trabalho de enfeitiçar os peixes, que ele bemviu fazer no norte de África, mas apenas com serpentes. Estive à conversa com omeu encantador irmão, para com ele trocar algumas impressões sobre o modocomo estava a decorrer a sua já longa e bem avançada experiência. Queria sabercomo se estavam a comportar os peixes face à música que ele lhes dava todos osdias. De assarapantado, com o que comecei por escutar, a admirado, espantado eboquiaberto com as explicações que ele me fornecia com o passar dos dias, origi-naram as principais sensacões recolhidas durante a cavaqueira com o miúdo. Mase acima de tudo, fiquei convencido que o mano caçu-la ainda vai ter pela frente,imenso, direi mesmo um enorme trabalho, para atingir os seus propósitos, porqueé bem diferente o trabalho que é preciso desenvolver para as duas diferentes es-pécies animais. Muito mais difícil para os peixes. Disse-me ainda o meu irmão, que os peixes já saltavam e voltavam a mer-gulhar com alguma facilidade, havendo até um deles que já ficava fora da água umrazoável pedaço de tempo. Gostaria de adiantar aqui, e faço-o em nome do miúdo,que um dos peixes morreu, dado não ter suportado o tempo que era “obrigado” apassar fora de água, por força da música encantada que lhe era dada a ouvir. Na-32
  • 33. turalmente, o miúdo sentiu um grande desgosto pela perda deste peixe. O outro peixe é um caso invulgar, direi mesmo raro, raríssimo. Basta-lheouvir o soar das primeiras notas de música vindas da flauta encantada, para deimediato saltar do aquário para a mesa e aqui se bambolear a seu belprazer. Posso entretanto acrescentar que passaram mais dois anos de intenso tra-balho do meu mágico irmão e que o tal peixe, o invulgar, já fica bastante maistempo fora de água. E que, por uma ou duas vezes, até já foi com ele ao café, seguindo-o sempreao som da música de encantar serpentes africanas, entretanto adaptada para ospeixes vermelhos de àgua fria. O acesso ao café é fácil, por ficar mesmo ao lado da porta da casa dos pais,mas nem por isso deixa de ser relevante ver um peixe vermelho deslocar-se fora doseu habitat natural, visto ser grande e quase impensável o que a novidade encerra. Mas o casal Valadares tinha razão quando não gostava de ver o filho maisnovo sempre à volta, sempre agarrado aos peixes. Foi das poucas vezes que acer-taram sobre o que pensavam a respeito do filho. Com efeito, os nossos velhos paistemeram o que esteve para acontecer; o meu irmão quase amalucou. É a realidade! Contudo, convém realçar que não era para menos. Ele gastou anos de tra-balho, anos de intensa labuta para enfeitiçar os peixes. Atingiu o objectivo queperseguia, conseguindo que o peixe que ficou vivo, o raro peixe, ao ouvir a músicade encantar, logo saltasse do aquário para a mesa, saracoteando-se e bailandopronto para o acompanhar, para irem os dois fazer mais uma passeata, para sairde casa. Por isso não admira que ele, o miúdo, andasse sempre emproado e comrazão, pois o peixe até já passava mais tempo fora do aquário que dentro de água. Mas, quando menos se espera, aparecem as ocasiões propícias a determi-nados e inesperados sucessos. Foi o caso, o imprevisível aconteceu. O peixe que o meu irmão tanto estimava e adorava, o seu fiel companheiro,o que restava do par inicial, também se passou. Morreu! A situação, que parecia estar por ele, aparentemente, bem controlada, afinalapanhou-o de surpresa. O miúdo ficou arrasado com o acontecido. Nesta ocasião,pior coisa não havia que pudesse ocorrer. Ele ficou, sei lá, como que sem forças esem ânimo ao ponto de estar de fato, um tudo nada passado de ideias. Acima de tudo, porque o peixe teve uma morte inesperada e insólita. Foi para ele uma grande surpresa! Naquele dia, bem no pino do verão, o miúdo mais o seu companheiro peixe 33
  • 34. foram ao café, depois do almoço. O sol parecia queimar. Abrasava. Na volta, ao fazer o pequeno percurso que separava o café da casa do paiValadares, o peixe vermelho encontrou algumas dificuldades, por estar com imensocalor. Ele queria, precisava a todo o custo de se refrescar. E então, ao entrar emcasa deu de caras com o seu velho aquário, que continuava no mesmo lugar echeiinho de água. De imediato o vermelhusco se apercebeu e sentiu ter ali mesmoà mão de semear um bom lugar, talvez mesmo, o lugar ideal para suavizar o bemforte escaldão que apanhara. Se nisso pensou melhor o fez! Então, já muito aflito, o peixe saltou para o interior daquele que sempre forao seu habitat, na ocasião um verdadeiro chamariz aquífero. Foi então que aconte-ceu o inopinado. O imprevisto! O peixe vermelho, por andar constantemente na ramboia atrás do dono,sempre ao sabor da música enfeitiçada que o miúdo não se cansava de tocar, jáestava pouco habituado ao meio aquático onde sempre vivera. O meu irmão sentia um grande orgulho por todo aquele seu trabalho teratingido o fim a que se propusera. Contudo e apesar de se mostrar bem feliz como que fizera, o miúdo sempre considerou que era inevitável continuar, visto que umtrabalho deste calibre, nunca está terminado. Palavras certas e justas, para uma re-alidade diferente.De fato, se por um lado o miúdo deu a tão falada continuidade aoseu trabalho, pelo outro deixou aliviar um pouco a segurança do seu dançarino, demaneira que algumas vezes ele próprio se esquecia dos incómodos que uma ondade calor podia provocar ao seu vermelhusco peixe. Uma verdade que se confirmou! Com efeito, com a intenção única de arranjar um local bem mais fresco, demodo a que pudesse ficar bem melhor, o peixe raro e vermelho, deu um pinchopara o interior do seu velho aquário, que lhe foi funesto. Inelutável mesmo. Certo certo, é que o peixe encantado não resistiu a tanta água, acabandomesmo por morrer afogado. Foi uma tristeza! Foi uma pena! Talvez porque um dia tal teria que acontecer. Talvez! Acontece, é a vida!* Vitor Manuel Capela Batista, 62 anos, português de Barreiro, Portugal.Engenheiro químico, já foi radialista, possui atividades holísticas, participou de váriosconcursos literários, gosta de participar de coletâneas, foi premiado em 2011 por esteconcurso na mesma categoria, 2.º lugar. E-mail: vitorbatista@netvisao.pt34
  • 35. O Saber…Dinis Muacho*- menção honrosa – categoria internacionalAvis - PortugalU ma tasca como tantas outras. A venda da família Saboeiros é ao mesmo tempo tasca e venda. É um local rústico único. É único como todas as tas- cas e como todas as vendas existentes nas fortes planícies Transtaganas.Pintada de um azulão forte da cor do céu limpo na pele exterior e de neve caiada napele interior é assim a sua essência mais objectiva. O telhado é de telhas cerâmicasde canudo dos barros vermelhos do Redondo, de uma cor de fogo que se entranhana alma das gentes. Por baixo das telhas existe um ripado de madeira de pinheiramansa, que serve de teto falso, e abriga a casa do muito frio e do muito calor, meio--termo térmico não existe por estas bandas. Portas pequenas, uma para a venda,outra para a tasca e ainda outra para a habitação da família. Um portão grande deferro com espigões rendilhados dá as boas-vindas a quem se assoma à torre detijolo burro, altaneira, do forno da padaria, que fica nos fundos do quintal. Móveispintados de amarelo muito clarinho servem de colo aos mais variados produtosque tanta falta fazem ao povo das redondezas. O pão acabado de cozer – a pedirtiborna de azête – em forno de lenha de sobro vende-se ali. Vende-se por senhas,as mulheres chegam a estar um dia à espera na bicha para apanharem um quartode pão para alimentar oito bocas durante sete longos dias. O açúcar é igualmenteracionado, apenas uma quarta de açúcar para uma casa inteira prenhe de gente. A tasca é pois o local de eleição e socialização dos homens. Ali não faltamtodo o tipo de pseudoeruditos, malteses, fadistas e até bêbados! Fica na parte baixada velha aldeia, centro nevrálgico de conversas e ajuntamentos populares. Popu-lares sim, que os senhores da terra não se misturam com a arraia e criadagem,preferem ir até à vila beber chá ao Grémio ou ir a casa de parentes mais ou menosafastados. Na venda dos Saboeiros é um corrupio de homens, uns a bater o ás dacartada em cima das mesas com tampo de pedra, outros em amena cavaqueira,ouros encostados à ombreira para que a parede não caia! Venha de lá mais umcopo de vinho e um bagaço, que o vinho é que instrói e o fado é que induca! É já 35
  • 36. um dizer antigo, logo fado e fadistas, bêbados e vinho, é algo que nunca falta. Pipassempre cheias para os fregueses mais sequiosos. É um local em que as grossasparedes são confidentes dos segredos mais infames, dos boatos do amante desta edaquela, do filho que não é filho de fulano mas sim de sicrano… Elas é que sabemtudo, mas em seu claustro de fidelidade ouvem e calam. Os indivíduos cantam unscom os outros certas modas da região, ou então cantam à desgarrada, sempre àcapela, muitas vezes ao som da concertina do Zé da Enxara ou do Joaquim Barto-lomeu. Desta maneira matam por momentos as agruras da vida difícil levada de sola sol nos campos arroteados à força de braços e animais. Todas as sextas-feiras e domingos é dia certo de o Ti Manel Maravilhasaparecer ali pela tasca para beber o seu copinho e por vezes ser chacota das más--línguas do costume. O velho Maravilhas desde novo que não era como os demaisda sua geração. Já em cachopo gostava de falar com os velhos e de aprender assuas sábias lições de vida. Com eles aprendeu tudo: a afiar navalhas e machadasna pedra grossa de amolar, a fazer cestas e cadeiras de junca – que o junco nãopresta para isso – bem entrançadas, a fazer enxertias na altura das luas, e o regalodos olhos de toda a gente eram os seus batatais semeados à manta, que davam asmelhores batatas da aldeia. “Que maravilha”, diziam todos a respeito do cachopofeito homem desde muito novo, que tudo aprendera com primor. E por isso ficou oManel “Maravilhas”. Aprendeu a ler com um velho que vivia num monte ali perto,que o ensinou também a escrever no pequeno quadrinho de xisto. Era como um paipara si, ensinara-lhe tudo, e o resto aprendeu sozinho. Aos sete anos já era zagal,depois foi ajuda de porqueiro, onde aprendeu também com os animais o valor ea noção de família. Quando as marrãs pariam era a sua maior alegria, batizavatodos os quichos um a um, com nomes de tudo e mais alguma coisa. Os pais do TiMaravilhas morreram novos, pelo que ficara órfão de mãe e pai com três e quatroanos respectivamente. Mas seguiu em frente, sempre quis saber mais e mais, nãovirou a cara à luta e ao saber. Como lhe dizia o mestre Chico da Pedreira “Rapaz,saber não ocupa lugar!” e esse era o seu lema, seguido à risca por influência dessevelho que lhe ensinara a ler e a escrever, tantas vezes já a plenos pulmões da luzda candeia de azeite. Era pobre, comia uma pobre açorda de pão duro regada comum fio do néctar puro das oliveiras e alhos, e assim enganava a fome, sabe Deus!Quando era no tempo das boletas lá andava ao rabisco e metia mais alguma coisitano bucho, para além de couves e batatas! Cresceu e fez-se homem de barba feita!A melhor horta das redondezas era a do Maravilhas, que sempre humilde dizia que36
  • 37. o seu saber era pouco, tudo o que sabia era por graça de Deus Nosso Senhor. Pornão ser um homem alto, sempre que o arreliavam com isso na mangação respon-dia com uma espécie de verso que continha o nome de uma serra, que aprenderacom o velho Chico da Pedreira. De serras sabia o nome de todas de cor e salteado,mas da que gostava mais era da serra de Maltim – que era perto da sua aldeia –e da serra do Marão… soava-lhe bem o nome! Dizia então aos galfarrões que oapoquentavam o adágio: “Olha lá, grande é o Marão e não dá palha nem dá pão!”.Com esta é que calava logo toda a maledicência. Cantava mal o fado mas eraum exímio repentista de prosas de quarenta pontos. Um dos motes que mais lheouviam dizia: “Eu cá quero saber mais / Quero a todos e a ninguém / Lá por mor-rerem meus pais / Não deixo de ser alguém”. Levou uma vida pacata, casou como seu único amor, de quem teve três filhos e duas filhas e ainda criou mais umacriança de berço que lhe deixaram aos portados do Monte da Figueira Negra numanoite de invernia, andava a sua Adelaide prenha da sua da última cachopita. Nãopestanejou, “No prato onde comem cinco, hadem comer seis, sabem tanto de amorao próximo como eu sei cantar o fado” arrematava muitas vezes, sobre os ricaçosque haviam feito aquele belo serviço, qual roda dos enjeitados das gentes finas,talvez de uma filha que se envolvera com algum jovem ganhão que servia o pai! Jáhomem velho, depois dos filhos todos criados, sem nunca ter deixado de trabalharnos trabalhos do campo, já que as oportunidades eram nulas para os pobres doseu país rico mas oprimido por ditadores, lá ia todas as sextas-Feiras e somingosreligiosamente à tasca dos Saboeiros para umas desgarradas de poesia. Ao TiMaravilhas até havia quem lhe chamasse o Borda D’Água das poesias, já que emmestria não ficava atrás do primor dos grandes bailarinos de fandango ribatejanos.Qualquer assunto era tema para longa conversa, servindo de conselheiro a muitosdos seus camaradas de confraternização, e aos novos até escrevia cartas por elesa alguma cachopa de que eles gostassem. Toda a gente se admirava de o homemtoda a vida ter sabido e ainda saber de tanta coisa, e coisas tão distintas, mas altolá que em política não se tocava! Só de pensar já doía, o país não deixava! “Ahfilho duma real puta, que é mesmo um homem que sabe a valer”, dizia o JaquimMorcela, que ouvira dizer mais ou menos o mesmo na telefonia acerca do Eusébio.Mas o que disseram ao Eusébio não era por malcriadagem, era sim o maior louvorem palavras que se podia dizer a alguém, dito por quem não sabia ler nem escrever.Só quem sabia fazer coisas fora do normal, quase como que fenômenos do Entron-camento, é que era merecedor de tal elogio (para alguns doutos era mera falta de 37
  • 38. educação). Num outro aforismo, o do amigo que não empata amigo, lá na tasca lan-çava o mote: “Ora quem vai, vai / Ora quem está, está / Morreu-me mãe e pai / Nãochoro por eles já!”. Os Homens não choram e o Ti Manel Maravilhas já não tinhavida nem idade pra chorar, mas ao mesmo tempo que assacudia aqueles que nãolhe interessavam, jamais esquecia a sua mãe e o seu pai que tão precocementetinham partido deste mundo. Ele sabia que a família era o pilar da sociedade, erapois um homem muito à frente no seu tempo, e soube bem passar essa mensa-gem aos filhos e netos. Quem sabe, sabe e o Ti Maravilhas sabia, o que era o beme o mal, a verdade, a honra, a seriedade, o valor da palavra dada. E para saber ediscutir isto tudo e muito mais nunca precisou de se encharcar em vinho nem embagaço. Bebia os seus tintinhos em púcaro de lata carcomida e quando se sentia jábem, mais não bebia. O saboeiro, dono da tasca e da venda é que ficava a perdercom o negócio, era menos um bocado da pipa que esvaziava e menos uns tostõesamealhados ao fim da noite. Mas era menos um bêbado que aturava, e o Ti Maravi-lhas era sempre pessoa que dava gosto ter na sua pequena taberna. Para bêbadosjá lhe bastavam o Finfas e o Tonel que dia sim, dia sim, eram clientes habituais daembriaguez. Depois de bem pingados estes dois armavam de tourada com uns eoutros e o resultado era sempre o mesmo: o jogo do pouco tino! Morreu velhinho o Ti Manel Maravilhas, mas ainda hoje nas estreitas etortuosas ruas empedradas da velha aldeia, dizem que o saber da sua alma estáperpetuado em cada esquina, em cada pedra, em cada parede. O saber de umhomem que resistiu à guerra civil do país vizinho, à ditadura do seu próprio país, eviveu alguns dos anos de liberdade que se seguiram, prova de que quem sabe comhumildade, e não guarda o saber só para si, faz crescer a humanidade, nem queseja a de uma pequena aldeia, que hoje chora de saudade este ser humano tãosábio e maravilhoso…*Dinis Reis Subtil Muacho, 32 anos, mora em Avis-Portugal, tem um livro de poesiaeditado, é escritor premiado nacional e internacionalmente (poesia e prosa), alia a facetaliterária à sua profissao de engenheiro mecatrônico. E-mail: dinismuacho@hotmail.com38
  • 39. O Vale dos SentimentosUmoi Souza* - menção honrosa - categoria internacionalParede, PortugalJ anaína era nova, bela e sensível. Nascera numa família de pessoas nobres pela bondade dos seus corações. Morava num vale - uma vaidade da natu- reza que resolvera criar aquele local, longe de tudo o que pudesse ser feioe desprezível, enchendo-o de uma beleza luxuriante com suas montanhas de umverde capaz de humilhar a mais bela das esmeraldas e de um sol sempre atentoàs necessidades da vegetação, igualmente, rica em alimentos para os moradorese pasto para o gado. Janaína era feliz. Não conhecia o sentimento da tristeza ou do sofrimento,pois tudo o que a cercava fazia sentido, era belo e puro. Mesmo nos dias em quealguém seguia em viagem sem volta para o vale eterno. Corria solta por esse pequeno paraíso e conhecia cada árvore, cada rocha ecada nascente de águas claras e doces. Às vezes tinha a nítida impressão de quepodia falar com as árvores, com os pássaros e com toda espécie de criatura viva aoseu redor, tamanha era sua cumplicidade natural com o que a cercava. De vez em quando, atravessava todo o vale para ir à cabana do velho Man-du. Ele era como um avô, um professor de uma ciência simples chamada vida. Mas,acima de tudo, ele era seu amigo. Junto a Mandu, passava horas ouvindo o velho sábio divagar sobre coisasde um mundo, tão distante quanto sua imaginação pudesse alcançar. Mandu se divertia ao ver a expressão “cabulosa” , como ele chamava, es-tampada no rosto de Janaína, sempre que ele falava do mundo dos sonhos, o reinode Morfeu e os mundos além da nossa imaginação. 39
  • 40. Mandu falava a ela, com certa autoridade, que durante os sonhos, nossosespíritos eram libertos da cela da realidade e viajavam livres como cavalos naspradarias e velozes como a luz ou o pensamento para mundos desconhecidose podiam brincar com outros espíritos em estrelas de outras dimensões, cortaros mares que cobriam a terra e vislumbrar toda a divindade existente em cadacentímetro quadrado do imensurável universo. Mas, acima de tudo, podiam, naliberdade dos sonhos, enfrentar seus medos e seus temores, quer fossem de umremoto passado, do presente ou do inexorável futuro. Certa vez Janaína perguntou a Mandu de onde vinha a chuva. Era frequenteo vale ser lavado por uma chuva fina e, de vez em quando, salgada como água domar. Mandu olhou para os vivos olhos negros da pequena Janaína e, emborapudesse achar a pergunta ingênua, coçou a grisalha cabeça lhe perguntando semrodeios: - Quer mesmo saber a origem da chuva salgada, Janaína? A que ela,prontamente, respondeu que sim. - Ouça com atenção. Disse Mandu, estranhamente sério. Do lado norte no nosso vale fica nossa maior montanha. Também cha-mada de Guardiã. Por trás dela existe um mar tão bravio e selvagem em suaondulação que nem mesmo as grandes criaturas marinhas se atrevem a explo-rar aquelas águas. A chuva salgada que temos de vez em quando é o resultado da lutaentre o mar e nossa Guardiã. A constante tentativa do mar em atravessá-la faz com que o embateentre suas rochas e as águas produza uma verdadeira explosão de água que éatirada tão alto que se torna capaz de ultrapassar os picos mais altos da nossamontanha protetora. Mas o que poucos não sabem é que todo aquele que se banha nessa40
  • 41. chuva experimenta o mesmo sentimento que no momento é trazido pela chu-va. Já vi grupos inteiros de pessoas começarem a chorar, inexplicavelmente,quando, juntos, resolveram se “lavar” nas águas da chuva. Não entenderam oporquê e apenas concordaram que todos sentiram exatamente a mesma coisae resolveram não mais falar no assunto. Outros já relataram que o banho da chuva os fez experimentar outrossentimentos: de alegria, tristeza, nostalgia entre outros. Mas, não é sempre que a luta da Guardiã com o mar produz a chuva. Épreciso que o mar liberte sua onda maior. Ela é gigante, desafiadora e esfome-ada. Sua fome é de sentimentos. Ela se fortalece ao se alimentar dos sentimentos de quem é pego por ela.Ao se alimentar dos sentimentos de alguém a onda multiplica seu poder e issofaz com que ela use essa força adquirida para tentar ultrapassar a guardiã.Não conseguindo, explode e ultrapassa a muralha, caindo no vale em formade chuva salgada. Os sentimentos experimentados por todos são o mesmo, rou-bado pela onda a alguém que partiu para a grande viagem em suas águas,dando, a onda, força e sentimento em mais um combate com a guardiã que,como uma mãe, tem nos protegido da fúria da grande onda. Apenas a chuvaconsegue, de vez em quando, passar e cair no vale. - Mas porque as pessoas resolvem ir para perto desse mar tão bravio?Perguntou Janaína, num misto de curiosidade e certa ansiedade pela resposta. - Janaína – continuou Mandu – mesmo o mais belo dos paraísos pode, emdado momento, representar uma prisão para quem tem o desejo de uma liberdadedesconhecida. Pense comigo, pequena Janaína. O que é a liberdade? – é fazer oque se tem vontade. – Respondeu a menina. - De certa forma sim – Atalhou Mandu. - E como uma pessoa sabe mesmo o que realmente deseja? PerguntouJanaína. - Essa, minha cara, é a pergunta correta! Podemos perguntar a todo 41
  • 42. habitante do nosso vale o que é liberdade que teremos uma resposta diferentede cada um. Todavia, a essência do significado estará presente nas diferentesrespostas. Janaína coçou a cabeça fazendo uma careta que mostrava sua incapaci-dade em entender a filosofia de Mandú. Sabia que seu amigo estava filosofando etalvez, até, sabendo a verdade. E estava apenas provocando nela o despertar damente para uma visão mais clara. Pegando ingredientes para fazer pão, Mandu continuou, mas sorrindo aosentir a euforia de Janaína ao vê-lo se preparar para fazer pão. Janaína adoravaaqueles momentos de conversa com Mandu, que invariavelmente, terminavam empiquenique improvisado e comendo algum bolo, doce ou pão, feitos pelas mãoshábeis e dóceis de seu amigo. Mas mesmo com os olhos brilhando pela promessa de pão, quis saber mais,ao mesmo tempo em que preparava lenha para o forno. Já sabia toda a “missa”do pão e já conhecia o seu “trabalho”. Não demorou muito para que toda a cabanafosse invadida pelo característico, quente e delicioso cheiro de pão no forno. - Fala mais sobre a onda, Mandu – pediu Janaína, ao por, sobre a mesa,manteiga, doce e leite, imaginando o sabor conhecido daquele pão. Mandu olhava com carinho a pequena Janaína. Comparava-a a uma peque-na raposa órfã descobrindo, pela experiência, sua natureza experta. - A onda, Janaína, nada mais é do que uma das formas de expressãodo imenso mar. Seu poder destrutivo não é necessariamente a vontade do mar.Ela é apenas água em movimento com forças naturais que a impelem contra arocha. A onda não quer vencer a rocha e a rocha não quer defender nada. Elesapenas existem e cumprem seu papel na ordem das coisas e “sabem” dessa for-ma porque “nasceram” onda e rocha. Exercem apenas seu direito a existência,atuando como deve ser. - Mas se a montanha não existisse poderíamos ser mortos pela onda.Então ela nos guarda. E a onda faria uma coisa má ao inundar o vale. Disse42
  • 43. Janaína, mexendo no fogo com um tição. - Sim, você tem razão, mas não devemos nos esquecer de que o únicodesejo da onda é seguir seu caminho que tem, na guardiã, um obstáculo. Damesma forma não é desejo da guardiã nos proteger de nada. Ela apenas vêna onda algo que a recorda da própria existência ao lhe trazer a consciênciada sua força e majestade. Legitimam-se mutuamente pela própria naturezade existência. Para nós, que vivemos aqui, a montanha é um anjo protetor emconstante sentinela. Uma atalaia que mira fundo o horizonte a espera que ela,a onda, volte em mais uma batalha. Entre conversas sobre ondas, montanhas e mistérios, passaram o dia emmais um piquenique improvisado reforçando a amizade. Longe do vale, bem longe dos olhos e da compreensão humana, um outrodiálogo se realizava numa linguagem impossível à compreensão dos homens. A onda falava com a montanha... - Montanha, porque não me deixa passar? Tenho em minhas águas,sentimentos retirados de quem me alimentou e tenho que levá-los por essecaminho. - Onda, minha amiga, se te deixo passar significa que não sou maismontanha, o vale não será mais vale e aquelas pequenas criaturas deixarãode me cultuar como protetora. - Mas, ao não me deixar passar, montanha, meu destino de onda sealtera e volto a ser apenas água ordinária e sem poder. Aí tenho que voltara me fortalecer através de outras criaturas humanas que sempre tenho queprocurar, roubar-lhes os sentimentos, me tornar onda gigante e tentar, comosempre, seguir o caminho que me foi destinado e onde você se encontra, tam-bém cumprindo seu destino de montanha. - Seu destino, onda, é passar e o meu é não permitir. Seja sensata econtinue a tentar para continuar a existir, pois tentando, estarei também de-fendendo com minha existência e legitimando minha razão de ser montanha.Nossa luta, amiga, é o que nos fortalece e nos faz existir. Talvez estejamos, com 43
  • 44. essa conversa, descobrindo nossa verdadeira sina. A de se opor uma para aoutra. Você não nasceu para atravessar o vale e eu não nasci para protegê-lo.Nós nascemos para nos complementar e garantir a existência pela perpétuabatalha de luta que não pedimos para ter, mas que existe. - Eu compreendo montanha. Volto agora para me fortalecer. Viajareipor continentes, ceifarei vidas e me alimentarei dos seus sentimentos. Tornar--me-ei onda gigante mais uma vez e meu poder será tão grande que até emsonhos alguém há de me temer. Continue aí montanha, mas saiba que voltarei. - Vá, em paz, onda. Atravesse os continentes e se alimente de outrasvidas. Ficarei de prontidão à espera da sua volta, pois assim o destino meconfiou o poder de ser montanha. Totalmente alheios a esse diálogo, Mandu e Janaína comiam pão fresco,filosofavam sobre chuvas salgadas e sentimentos. A eufórica Janaína, debruçada na janela, olhava para a imponente monta-nha e imaginava-se escalando-a, de mãos nuas, chegando até o seu topo, mirandoo mar e gritando: - Venha onda! Estou aqui e não temo você. Sou Janaína. Ela veria a onda se aproximar e antes que essa batesse na montanha, Ja-naina, sorrindo, saltaria em suas águas revoltas, se fundindo à existência das águasrevoltas e a conduzindo para longe dali, na tentativa de uma salvação permanentepara o vale e, principalmente, para seu amigo Mandú. Com seu poder, Janaína se tornaria a própria onda, mas não amedrontarianinguém. Nem mesmo em sonho. Não mais ceifaria vidas e daria nova realidade àsua existência. A montanha choraria. Não pela perda de Janaína, mas pelo fim do combateeterno. Diminuiria e se nivelaria ao solo fértil do vale, se tornando, também, solo fér-til e abrindo uma janela por onde se poderia vislumbrar o mais azul e belo dos ma-44
  • 45. res e sem ondas ameaçadoras. Apenas dando a todos os moradores o espetáculodiário do mais belo e sereno pôr do sol... A chuva salgada não voltaria a cair, jamais.*Umoi Melo de Souza, 48 anos, brasileiro naturalizado português.Nasceu em Goiânia e se criou em Brasília. Hoje com dupla nacionalidade: brasileira e por-tuguesa. É licenciado em Animação Sociocultural pela Escola Superior de Educação JeanPiaget - Almada - Portugal e tem verdadeira paixão pela escrita de contos.E-mail: umoisouza@hotmail.com 45
  • 46. Uma dependência invulgarAntônio Carloto* - menção honrosa – categoria internacionalLousã, Portugal-D iga-me lá então doutor, qual é o diagnóstico? O médico coçou a têmpora, ajustou os óculos de armação metálica, fo- lheou as análises e fixou os seus olhos cinzentos no paciente sentadoà sua frente. - Sr. Joel, seja sincero, quando me disse que gostava de beber o seu copitode Vinho do Porto, estava a falar de que quantidades? Joel assumiu uma posição mais ereta na cadeira e entrelaçou as mãos nocolo para disfarçar as arreliadoras tremuras que o começavam a afligir logo pelamanhã. - Bem, como sabe doutor, o Vinho do Porto tem propriedades tônicas enutritivas que combatem as astenias e as depressões e como me tenho sentido embaixo, pela manhã... - Pela manhã... - Tomo dois ou três cálices. - Normais? - Hã...duplos. O médico coçou a testa. - E depois? - Ao almoço, claro está, como aperitivo, vai outro, bem fresquinho. Note quedurante a refeição acompanho com água, não gosto de outros vinhos e muito me-nos de cerveja. Tomo é depois um Branco seco com a sobremesa e se a conversaestá boa mais um ou outro Tawny como digestivo. E ao jantar... - Já percebi, Sr. Joel, e já agora, ao lanche, com um queijinho picante... - Nem sempre doutor, nem sempre... - Sr. Joel, os seus sintomas de desnutrição, dores abdominais, anemia,46
  • 47. tremura nas mãos - Joel apertou mais firmemente as mãos entrelaçadas - sãoreforçados pelas análises: o senhor está com uma hepatite alcoólica com sériosriscos de descambar para uma cirrose. Vou-lhe receitar uns medicamentos mas oprincipal é o Senhor... - Moderar o consumo? - alvitrou, esperançoso, Joel. - Não, cortar completamente. Para si, Sr. Joel Alfaiate, acabou-se o Vinhodo Porto. Para sempre. Quando voltou ao escritório, depois da consulta, vinha ainda abalado pelasentença. Sentou-se à secretária ainda em transe – “Meu Deus, meu Deus, não vouconseguir, estou perdido!” Foi com grande esforço que abriu a pasta do relatório decontas em que estava a trabalhar. Dentro, alguém tinha colocado um cartão, dessesoferecidos pelas beatas. De um lado estava a figura de São Onofre, padroeiro dosalcoólicos, com o corpo esquelético de eremita vestido apenas com os seus longoscabelos e barbas e uma tanga de ervas entrançadas. Do outro lado, uma oração: Ó Santo Onofre, que pela fé, penitência e força de vontade vencestes o vício do álcool, concedei-me a força e a graça de resistir à tentação da bebida do Vinho do Porto. Livrai do vício, que é uma verdadeira doença, também os meus familiares e os meus amigos. Virgem Maria, mãe compassiva dos pecadores, socorrei-nos! Santo Onofre, rogai por nós! Joel olhou desconfiado para os colegas nas secretárias vizinhas, tentandoidentificar o engraçadinho ou engraçadinhos. Pareciam, sem exceção, dedicar-seao trabalho com mais concentração e zelo do que o habitual, prova segura de queestavam todos envolvidos. Ostensivamente, rasgou a oração para o balde do lixomas não pôde impedir-se de a recitar mentalmente enquanto o fazia. Quando chegou à hora do almoço avisou os colegas de que não se jun-taria a eles como habitualmente, pois tinha de ir tratar uns assuntos ao banco.Precisava de estar só para pensar como ia abdicar do Vinho do Porto, seu fielcompanheiro desde os quinze anos e, por ironia, o seu ganha-pão, visto que traba-lhava numa empresa de exportação do Divino Néctar, sediada perto das suas caves 47
  • 48. de armazenamento e por essa via no local com maior concentração de álcool pormetro quadrado do Mundo: Vila Nova de Gaia. Escolheu para almoçar uma casa de petiscos na Baixa de Gaia que sa-bia não ser frequentada por ninguém conhecido. Sentou-se ao balcão e logo aoconsultar a ementa veio-lhe a necessidade do aperitivo. Não resistiu - "É para adespedida", racionalizou - e pediu um Ruby fresquinho. - O cavalheiro emprestar seu vinho para eu provar? O autor deste pedido descabido estava sentado à esquerda de Joel. Eracorpulento, trajava um fato completo algo fora de moda. mas o que o destacava,para além do sotaque britânico, era o seu penteado: um risco de lado a partir doqual se lançavam em sentido contrário dois volumosos cachos de cabelo negroencrespado. - Era o que faltava! Peça um para si! Parecendo não ter ouvido a negativa de Joel, o "bife" deitou a manápula aocálice e bebeu-o de um trago. Não gostou pois cuspiu-o de imediato, bradando: - Mas este vinho ser fortificado! Toda minha vida lutar contra Vinho do Dourofortificado. Que porcaria! Privado da sua dose, transido de cólera, Joel cometeu o erro de insultá-lo: - Que a filoxera e o oídio te consumam até à raiz, meu animal! Levou de imediato uma chapada monumental que o projetou do banco atéuma mesa onde duas empregadas da retrosaria da esquina tomavam tranquila-mente a sua bica. A confusão que se seguiu foi grande. Alguns clientes e empre-gados tentaram imobilizar o agressor mas este, ao mesmo tempo que batia emretirada, sacou do seu cinto e fê-lo voltear por cima da cabeça. O cinto pareciainvulgarmente pesado e abriu-se imediatamente uma clareira. Escapou sem deixarrasto. Quando voltou ao escritório, Joel vinha ainda mais alterado do que demanhã, depois da consulta: tinha o estômago vazio, pois como era natural, tinhaperdido todo o apetite depois da agressão; a cabeça ainda lhe retinia com o estaloque tinha levado; mas sobretudo, todo o surrealismo da cena o atormentava. Noentanto, o indivíduo era-lhe vagamente familiar...A figura, o sotaque britânico, orejeitar a adição de aguardente vínica durante o processo de fermentação do Vinhodo Porto, ou seja, a sua fortificação... - O BARÃO DE FORRESTER! ERA O BARÃO DE FORRESTER! TENHO A CER-48
  • 49. TEZA! SÓ PODIA SER ELE! E largou um violento murro no tampo da secretária. Os colegas tentaram acalmá-lo: - Epá, põe-te manso, olha o Borges! Mas tarde demais. O Patrão Borges emergiu do seu cubículo e, numa vozautoritária, chamou-o: - Sr. Joel Alfaiate, chegue-se imediatamente ao meu gabinete que eu pre-ciso de falar consigo! O Patrão Borges era um indivíduo com toda uma vida dedicada ao comérciodo Vinho do Porto. Com muitos poucos estudos, tinha começado por baixo, naestiva das pipas. À custa duma vontade férrea e de muita esperteza tinha subidoaté ao cargo de dirigente intermédio. Bem nutrido, de aspecto e feitio bonacheirão,sabia, no entanto, quando "pôr os pontos nos Is": - Sr. Joel Alfaiate, não gosto de me meter na vida particular dos meus fun-cionários. Como sabe, eu também não sou nenhum "bebe água" mas tudo tem osseus limites. Não posso admitir que Vossa Excelência se encharque ao ponto dese meter à pancada na hora do almoço - não me contradiga porque ainda tem asmarcas na cara - e de desatar aos berros e aos murros à secretária durante ashoras de expediente. Mas ainda pior, é que tenha começado a ter alucinações e aimaginar encontros com senhores falecidos em meados do século XIX! O senhor éum contabilista, carago! Por definição deveria ser um ser desprovido de qualquerimaginação, quanto mais deste tipo! Ou se organiza ou vou ter de tomar medidasradicais. Como sabe, a legislação laboral tem vindo a flexibilizar-se...Estamos en-tendidos? - Perfeitamente, pa… Sr. Borges. - Então vá para casa descansar, siga os conselhos do seu médico e amanhãquero vê-lo em forma para trabalhar, fresco como uma alface. - Cá estarei, Sr. Borges. Enquanto caminhava até ao seu modesto apartamento - tinha decididoprescindir do autocarro e ir a pé para desanuviar a cabeça - Joel começou a pôrem causa a sua sanidade mental. Não se sentia louco, mas só podia estar. Era aúnica explicação. De resto, os loucos não se tomam como loucos, funcionam coma sua própria lógica interna, distinta das outras pessoas. Por outro lado, ao admitira hipótese de loucura, demonstrava a sua racionalidade…Arre! 49
  • 50. Ao passar pelo Café Vesúvio sentiu fome. Entrou e pediu uma tosta mista.Conhecedor dos seus hábitos, o empregado trouxe-lhe imediatamente um cáliceduplo. Ainda teve um assomo de recusa, mas logo mudou de ideias - "Que sedane! Se calhar o meu problema é que ainda hoje não tomei uma única gota!" - Defato, por causa da consulta médica, tinha até prescindido da sua dose matinal.Antes de levar o copo à boca lançou um olhar receoso às mesas vizinhas. O Barãode Forrester não se encontrava à vista, mas na mesa ao lado, uma senhora dear austero encarava-o fixamente. Estava trajada como uma professora reformada,tinha o cabelo apanhado num carrapito e aparentava uns 60 anos. Era miudinha decorpo, toda pele e osso, mas o olhar profundo, acentuado por umas olheiras bemmarcadas emanava força e poder. Desta vez, Joel não foi apanhado de surpresa - o"incidente Forrester" tinha-o preparado. Compreendeu que agora tinha pela frenteoutra figura lendária da história do Vinho do Porto: nada mais, nada menos, que D.Antônia Adelaide Ferreira, a mítica "Ferreirinha". Foi ela que iniciou as hostilidades: - Jovem, o seu rosto é-me familiar e isso desagrada-me. Faz-me lembraro valdevinos do meu filho Antônio Bernardo. Foram as más companhias, mas so-bretudo o vinho que o perderam. Por favor não beba esse copo. - Minha senhora, lamento desapontá-la mas isso é problema seu. E ia beber de qualquer maneira, não tivesse a Ferreirinha começado a cho-rar. Chorava em silêncio, sem soluçar. Corriam grossas lágrimas pela sua face arre-panhada numa máscara de profunda dor. Isso era mais do que Joel podia suportar.Ele venerava a Senhora. Na parede da cabeceira da sua cama, onde outras pessoastinham a imagem de Cristo, tinha ele o retrato de D. Antônia. Bateu em retiradadesabrido, sem esperar pela tosta mista e sem pagar a conta. "Estou a ser perse-guido, estou a ser perseguido" - o seu coração bombava como se tivesse subidoao cimo da Torre dos Clérigos a correr - "mas não me vão vencer, não vão não!"E dirigiu-se à tasca mesmo por detrás do seu prédio. Antes de transpor as portasbatentes do estabelecimento, controlou a clientela. Parecia seguro. Nada de figurashistóricas do Douro, só três velhotes a jogarem ao dominó numa mesa de canto,partilhando uma garrafa. Foi ao balcão e pediu um Porto - desta vez é que ia ser. - Lamento, amigo. A garrafa que tinha foi comprada por aqueles senhores. Joel virou-se e os três velhotes - só então reparou nas suas farfalhudassuíças – voltaram-se para ele com um sorriso malandro e fizeram-lhe um brinde. Ser perseguido por gente já falecida era terrível, mas o assédio de figu-ras publicitárias que nunca tinham tido existência corpórea era ainda pior. Só lhe50
  • 51. restava uma hipótese, um último refúgio: a sua casa, o seu castelo. Para não terde esperar pelo elevador, subiu pelas escadas até ao quarto andar, galgando osdegraus dois a dois. Abriu a porta do apartamento e aguardou na soleira, arfandoe apurando o ouvido. Parecia que finalmente estava em segurança e que ia poderdescansar. Só quando se aproximou da cozinha é que percebeu que estava engana-do. Dzinn, Dzinn! - era o ruído que de lá vinha. Nesta fase, Joel já estava por tudoe, aceitando o seu destino, foi ao encontro desta última assombração. Tendo o seusentido da realidade muito anestesiado, quase não se surpreendeu com aquiloque viu: uma figura embuçada, vestida com uma capa de estudante português eum sombrero espanhol, dedicava-se a estilhaçar a coleção de Vintages de Joel.Metodicamente, pegava nas garrafas pelo gargalo e partia-as numa esquina dolavatório. Dava dó ver todo aquele precioso néctar, aquela mistura fina de verme-lhos granada e âmbar, escoar-se inexoravelmente por entre os cacos de vidro, emdireção ao ralo. O sacrílego rapidamente acabou com a última garrafa. - D. Sandeman...Por quê? A voz de Joel era um murmúrio queixoso. A figura voltou-se, ocultando o rosto com a capa, e justificou-se: - Durante muitos anos hesitei entre o Porto e o Xerez e, bueno, ganhou oXerez. Adios! E num ápice passou por Joel e desapareceu. Joel rendeu-se: de joelhos,alçando os braços e o rosto para cima, exclamou desesperado: - São Onofre, maldito, ganhaste! Podes crer que nunca mais provarei umagota que seja de Vinho do Porto! Um pouco depois, num bar do outro lado da cidade, numa mesa larga,juntavam-se personagens já nossos conhecidos. A presidir encontrava-se o PatrãoBorges e à sua volta dispunham-se "Forrester", trajando agora umas calças decouro pretas e uma t-shirt dos Moonspell; "A Ferreirinha", de calças de ganga,camisa amarela, lenço garrido ao pescoço e cabelos soltos; os "Três Velhotes", jásem as suíças; e um último personagem, alto e esgalgado, que não poderia seroutro senão "Sandman" livrado da capa e do sombrero. O Patrão Borges distribuíamaços de notas: - Ora meus amigos, tal como combinado, meia "milena" para cada um.Sem dúvida que o mereceram a avaliar pelo que vi através das câmaras ocultas. Oque eu me ri! Qual grupo de teatro amador, qual carapuça! São verdadeiros profis-sionais! Isto vendido à televisão seria sucesso garantido. 51
  • 52. - Pois, mas não vai mostrar as imagens a ninguém, pois não? É que daruma chapada a alguém não é propriamente legal - perguntou "Forrester", algoassustado. - Já para não falar da violação de domicílio - acrescentou "Sandman". - Meus amigos, não temam, dou-vos a minha palavra de honra que istonão sai daqui. Eu próprio não tenho interesse em que se saiba - o Joel não meperdoaria e além do mais gosto muito do meu emprego. Só corri este risco parasalvar o pobre rapaz. Quando há dias, o médico da empresa, que é meu amigo,me telefonou a dar conta do estado do Joel, percebi que os tratamentos comunsnão iam resultar. Com aquele maluco do meu filho, só um tratamento de choquepersonalizado. Foi então que me lembrei de vocês... - Mesmo assim - interveio "A Ferreirinha" - estou um bocado preocupadacom o Joel, pareceu-me muito perturbado, não tem receio que ele cometa umaloucura? - Está tudo controlado. Tenho homens no andar ao lado a vigiá-lo empermanência através das câmaras. Têm ordem para, durante duas semanas, oseguirem para todo o lado, mas, neste momento, posso garantir-vos que dormeque nem um anjo. E já agora, carago, o que é que os meus amigos bebem? - Um Porto, claro! - foi a resposta em uníssimo. Quando na manhã seguinte, Joel Alfaiate Borges saiu de casa e entrouno Café Vesúvio, não reparou no homem que o seguia discretamente e que entroulogo a seguir a ele. Sentou-se numa mesa distante e viu Joel recusar firmemente oPorto que o empregado, solícito, já lhe vinha trazendo. - Chegue-me para lá esse veneno e traga-me antes um Madeira, mas dobom!*Antônio Manuel Gouveia Carloto, 45 anos, moçambicano, mas vive em Portugal desde os7 anos. Licenciado em Bioquímica. Escreve desde pequeno, mas para tal precisa normal-mente do estímulo de um concurso. E-mail: antonio_carloto@sapo.pt52
  • 53. Categorianacional 53
  • 54. A sesta Suzana Maggioni Bertuol* - 1.º lugar – categoria nacional Farroupilha-RSS entada no degrau da escada de pedra, divertia-me a escutar, parecia uma serra motorizada cortando lenha. Os músculos da barriga subiam e des- ciam. A chaleira de ferro repousava ao lado da cuia. Se uma mosca paravaem seu rosto, o velho – como gostava de ser chamado – espantava-a, com umgesto bruto. Os pés cruzados davam acabamento às pernas finas. Finas, mas for-tes. Era ligeiro e hábil como poucos. A terra estendia-se para dentro das unhasquase nunca cortadas. Quebradas e sujas, confundiam-se com os calcanharesendurecidos. Os pés sacudiram-se, de novo, para espantar as moscas. Era bom o verão, o calor alegrava o dia, mas trazia consigo aquelas no-jentas. De onde vinham? Voavam em torno do rosto, se descuidasse, no embaloda sesta, entrariam em sua boca. Um vento fresco sacudiu os galhos do grandecinamomo que sombreava a casa. Virou para o lado o corpo deitado sobre as tábuas grossas do assoalho e,por alguns instantes, a serra cessou. Ajeitei-me de encontro às pedras da escadapara diminuir a dor. Ainda repercutia o pesadelo, quantas vezes já tivera aquelesonho, sempre o mesmo. Homens furiosos e armados que o perseguiam - por queprecisava matá-lo todas as noites? Acordei gritando, no momento em que suspen-deriam seu corpo no mesmo galho do cinamomo onde ele pendurava os bois nascarneadas. Antes de deitar, rezava para não sonhar e de nada adiantava, anjos e santosdormiam também num céu distante e inalcançável. Eram duras suas mãos, sentia o peso em cada palmada. Que tormento!Cansado do trabalho incessante do dia, não possuía, pelo menos, o direito de des-cansar? - Chega de tanto grito, Verônica! Basta, é! – berrava, enquanto batia. - Dos sonhos, a culpa era deles! – se conseguisse falar, explicaria, mas avoz trancava na garganta.54
  • 55. Ele não sabia do sonho, nem tinha tempo para escutar, e em mim, as pa-lavras morriam antes de serem ditas. Vivíamos num mundo surdo de sentimentos,com muita coisa a fazer. Precisavam pagar a dívida, levantar cedo e trabalhar, amãe voltava às onze e meia. Cuidando dos irmãos menores, ficava eu na casa,mantinha o fogo aceso para que a água estivesse fervendo quando chegasse e ascamas arrumadas. Às vezes, colhia uma margarida branca e colocava numa garra-fa de vidro só para ela que, cansada, ao voltar, espalhava ordens e cheiros, e nadavia. Então, no dia seguinte, desdobrava-me em lustrar o assoalho de madeira eestendia os lençóis bem esticados por sobre os colchões de palha cuidadosamenteremexidos. Houve uma vez em que roubei uma rosa vermelha do jardim da Eulália.- Não era bonito fazer aquilo! - ela disse. Como podia saber de tudo, e, ao mesmotempo, nada entender do que me era mais importante? Depois, chegava o velho.Jogava botas, gritos e gargalhadas no pátio - trabalharia até os quarenta e cinco nomáximo, gostava de repetir. Por que o perseguiam tanto? Aproximei-me devagar e olhei seu rosto duro, o bigode escuro e a barbapor fazer, as sobrancelhas espessas e negras como as noites e os pesadelos. Apele morena começava a vincar pelas agruras do sol de todo dia. Uma mão cruzadapor debaixo da cabeça apoiada na soleira da porta aberta, a outra mão liberta paraespantar as moscas, um sorriso desenhado no rosto. Deitei-me ao seu lado. Mais do que um homem a sestear, verdadeiromi-notauro - monstro forte e inatingível. Nos meus sonhos, indefeso contra os homensque o perseguiam. Se estivesse acordado, não tomaria coragem, mas dormia um sono larga-do. Pensei que soubesse e por isso deitava-se ali, à espera, e então passei meusdedos entre os seus cabelos negros e lisos, penteados para trás. Ele sorriu mais.Da cozinha, vinham os resmungos da mãe passando roupa, murmurava baixinho.Um dia, largaria tudo, que a esperassem, faria bem feito, também ninguém ajudavaem nada. E o pai roncava alto. Aproveitei... Beijei suas costas e depois seu rosto.Primeiro, beijos ligeiros e amedrontados. Como ele não se virou, nem me espantoucom a mão livre, deixei meus lábios abandonados sobre sua pele queimada do sol,o cheiro de suor preso em minhas narinas. As palmadas ensinaram-me a segurar só para mim o choro. E sonhei mui-tas outras noites. Às vezes, um touro enraivecido e bufante me perseguia. Noutras,caía num buraco infinito, caía e caía, sem nunca atingir o chão. A carroça descar-rilava e não adiantava gritar para os bois que a ninguém obedeciam. Rodopiavam 55
  • 56. rodas e seres para cair todos no precipício desgrenhado. Tentava eu segurar paraque a carroça não descarrilasse. Entretanto, sendo apenas uma menina, meusbraços não eram tão fortes e minhas mãos pequenas conseguiam apenas juntar-separa suplicar o carinho daqueles outros braços mais seguros e musculosos. Deixei--me ficar. Numa estranha prece, supliquei que não me batesse mais. - Te amo, pai, te amo! – sussurrei baixinho, com medo que acordasse denovo. Diante da noite escura, queria era falar do medo e da solidão, mas aprendi.Antes que, adormecida, fosse tarde demais, colocava entre os dentes a borda dotravesseiro e apertava-a. Pressionei ainda com mais força os lábios e, pela última vez, passei a mãoem seus cabelos. Quando me afastei, pude ver o sorriso de paz, eternamente preso, em seurosto enrugado pela lida, e percebi. Não eram moscas ao seu redor, e sim, borbo-letas. A mais pequena e colorida pousava em seus cabelos brancos e preparava--se para alçar seu grande voo ao sabor do vento. Liberta do casulo, escrevia peloar seu destino.* Suzana Maggioni Bertuol, nasceu em l970, em Caravaggieto, interior de Farroupilha,RS, onde vive até hoje. É agricultora, licenciada em História pela Universidade de Caxiasdo Sul e já conquistou vários prêmios literários locais e regionais.E-mail: suzana.bertuol@hotmail.com56
  • 57. O amor no tempo da solidãoCláudia Albers Avóglio* - 2.º lugar – categoria nacionalPirassununga-SP Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempes-tivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite– Clarice LispectorH erdei de meus pais as terras de Santa Clara. Os primeiros anos foram de arrebatamento e fartura. Calçava minhas botas, tomava meu chapéu de aba larga, montava o Negro e saía pela propriedade conferindo bois e rios,cercanias e operários. Voltava afogueada para a casa grande e sentava na varandacom o olhar ao longe pensando no sacrifício dos velhos e na responsabilidade demanter o quinhão que me pertencia. Na juventude, não me faltaram pretendentes,uma vez que o dote era convidativo, mas, por um motivo ou outro, os casamentosforam sempre adiados e eu me tornei a senhora de Santa Clara, com rugas na face,cabelos grisalhos, andar cansado e olhar sempre, sempre, ao longe. Acompanha-va-me a solidão. Não a solidão da falta de gente ao meu lado, nem da saudadede meus pais, nem tampouco do isolamento que me impusera, mas, vivia comi-go aquela solidão de ter-me perdido de mim e em vão buscar pela minha alma.Esforçava-me sem euforia para preparar natais e aniversários e convidava primosdistantes para encher de barulho os vazios daquela casa incrustada na serra. Num desses natais, o primo Pedro deu-me de presente um computadorportátil e passou horas ensinando seu funcionamento. Interessei-me pelo novobrinquedo e nos dias que se seguiram deixei botas, chapéus e rebenques de ladopara descobrir-lhe os segredos. Por uma dessas artimanhas do destino, encontreiem Portugal um ramo de nossa família e depois de buscas soube que morava entreeles, meu primo Antônio. Consegui seu endereço e passamos a nos comunicar. 57
  • 58. Nossas conversas eletrônicas encapelavam as recordações dos dias da infânciaquando nadávamos nos rios e andávamos a cavalo. Sentia-me feliz com esse novocontato e com o sentimento virtual que começava a tomar conta da vacuidade dosmeus dias. Povoei a carência que sentia do “faz-de-conta” e do “era uma vez” dajuventude, e aquela fantasia do amor ainda possível alimentou minha alma sedenta. No inverno de 2002, quando a geada pintava de branco os campos deSanta Clara, os bois mugiam soltos dos mourões e cercas, Antônio comunicou queme visitaria na primavera. Os dias seguintes foram de brilho na prataria e embele-zamento de Santa Clara. Mandei podar gramas, enfeitei os jardins, lavei o vestidovermelho e dei lustro nas gáspeas do par de sapatos de bico fino. Quando as últimas flores do ipê caíram e o gramado da frente da casa ficouatapetado de amarelo, um táxi deixou Antônio no portão. Os primeiros momentosforam de embaraço, suores, mãos frias e corações palpitando. Eu velara na cozinhapreparando o jantar, as velas, o vinho e a toalha branca para essa tão esperadaintimidade. As palavras eram poucas. Depois do jantar, sentamo-nos na varanda.Ainda havia no ar um fio de inverno e as samambaias exalavam o aroma fresco dosrebentos. Foi Antônio quem quebrou o impasse: — Que costuma fazer aqui em noites destas? Suspirei. O primo perceberia meu peito que subia no corpete do vestido enos meus olhos que brilhavam à luz do candeeiro próximo? Senti o corpo distender--se num desprendimento, um desejo mal escondido que me subia pelas pernas,pela barriga, pelo peito e brilhava no olhar. A voz soou rouca, vinda de longe, de noites e noites como esta, na varanda.Então respondi: — Penso na vida. No que foi e no que podia ter sido e no que háde ser ainda. Eu vivo aqui para sempre e você, brevemente, volta para Portugal. Nãoescolhi nada e nem estou em situação de escolher. Agarro o que passa e quandoconsigo, são as coisas que vêm ter comigo e não eu que vou ter com elas. Percebeo que digo? Antônio olhou-me na penumbra e senti que tinha pena. Sabia que o destinoabandonara-me ali, embora fosse claro que eu merecia e aspirava a mais do que58
  • 59. esse desterro. Vi que se comovia comigo. Em nossas conversas pelo computadoreu lhe contara a história da vida e agora ele estava ali. Então, no silêncio que se se-guiu, pensei comigo: “Quantas vezes eu vestiria aquele vestido vermelho e aquelecorpete que me segurava o peito pronto para saltar de alegria? Quantas vezes euacenderia os castiçais das velas, quantas vezes mandaria as criadas se enfardaremde goma? Quantas vezes mais, eu iria buscar a garrafa de Porto ao armário dacopa? Quantas vezes teria um homem civilizado com quem conversar numa noiteplácida de estrelas na varanda da casa que herdara, como se herda uma prisão”? Levantei-me e em pé, diante de Antonio, disse: — Agarro o que passa e quando consigo. Nem imagina como estou feliz porestar aqui na Santa Clara, tão tarde, no outono de nossas vidas. Espero que fiquepelo tempo que desejar. Boa noite! Morcegos atravessavam a varanda em voos silenciosos atraídos pela luz docandeeiro. Os grilos gemiam no jardim e os gritos dos pássaros noturnos ecoavamna escuridão da mata. Entrei na casa e Antônio continuou sentado no cadeirão dejunco, as pernas estendidas sobre a balaustrada da varanda, um cigarro aceso naescuridão da noite. Quando saí do banheiro, vi que a luz do candeeiro da varanda enfraquecera.Entrei no meu quarto e fechei a porta suavemente. Procurei no ar indício, aindaque distante, do capim cortado. Não havia apelos do mato, nem da minha solidão.Só sinais de uma noite que se apagava, com cheiro intenso das vacas no cio, desuores em repouso, de um desejo de mulher. Ouvi passos caminhando no soalho eparando por um breve instante à porta do quarto do fundo. Pela luz do abajur vi amaçaneta girar sob o movimento de mão resoluta. Antônio respirou fundo e entroude mansinho, como se fosse um ladrão.*Claudia Albers Avóglio, membro efetivo e perpétuo da Academia Pirassununguensede Letras, Artes, Ciências e Educação – Cadeira 30. Formada em Letras, possui livrospublicados e é detentora de vários prêmios literários, inclusive internacionais. E-mail:claudiaalb@terra.com.br 59
  • 60. O ovoSara Meynard* – 3.º lugar – categoria nacionalMariana-MGE u estava lá, sentada na sala, no sofá vermelho. O sol nascia, e pequenos raios entravam pelo feixe da cortina. Eles exibiam a poeira do ar de cidade grande. As pessoas começavam a acordar e fazer seus barulhos. Escutava ovizinho de cima andando, dando seus primeiros passos. Eu estava bem abaixo desua cama, e logo ali havia seu banheiro, em cima de minha copa. Como quase todapessoa de hoje, tinha seus hábitos. Levantava-se da cama, tossia uma ou duasvezes, bem alto. Dava passos pesados, até o banheiro, onde tomaria sua ducha ese aprontaria para o trabalho. Eu fiquei pensando onde será que estavam os meus hábitos. Porque eu nãoos tinha. Porque eu simplesmente não poderia me levantar e ir trabalhar, em umarotina confortável. Qual era minha dificuldade de adaptação? Minha dificuldadeestava bem ali, no cômodo no fim do corredor. Havia uma mesa de madeira barata.E sobre a mesa, uma velha máquina de escrever, que me aguardava há semanas. Acendi meu cigarro, enquanto ouvia a ducha do banheiro de cima ser liga-da. Há quanto tempo eu não tomava um banho? Não sabia. Não sabia nem que diaera, nem que horas eram, nem quanto eu dormia, ou qual foi a ultima vez que eucomera. Há muito tempo não sabia das minhas mais fúteis informações rotineiras. Talvez tudo que fizesse fosse mesmo sentar no sofá vermelho e fumar cigar-ros, esperando ânimo para me sentar em frente à máquina, escrever duas páginas,rasgá-las e ir ver algum filme tolo na TV. Rotina? Não. O que eu tinha era punição. Escrever é uma graça. Mas é quase um castigo. Escritores sofrem, e muito.Sofrem por perceberem demais, pensarem demais, e ainda serem judiados pelaspalavras. Quando pior, são agraciados. Mas nada disso importava agora. Foi quando parei de pensar nisso tudo, peguei nos meus pulsos finos, e mevendo frágil e cansada, decidi que deveria comer. Apaguei o cigarro, e logo constatei que deveria comprar mais. Mais tardetalvez fosse à venda da esquina. Ou talvez pegasse o bonde para dar uma volta no60
  • 61. centro, caminhar um pouco. Estão vendo? Perco o fio das coisas. Eu vivo atravésdo pensamento. Onde estávamos? Sim, fui até a cozinha. Nada de interessante, nada pa-recia apetitoso. Vi uma barata entrando no armário. Não me importei. Abri a portada geladeira: precisava de algo forte, que me passasse uma força para viver. Foiquando avistei o ovo. Sim. O ovo. O começo da vida, o embrião, o nascimento, a força. Era tudo.Era claro, vivo e forte. Oval, redondo, completo. Cheio. Mas o que eu faria? Que-braria o ovo e o comeria? Não seria cruel demais acabar com uma vida que estáapensa começando? Que pelo menos se respeite o começo. Foi quando percebi que falava completas bobagens. A vida já abandonarahá muito aquele ovo, e ninguém mais se importaria. Ele ali, abandonado no apar-tamento. Com certeza estava completamente livre de culpa. Outros já fizeram oserviço por mim. A gora só faltava eu me aproveitar disso. E fingir que era umainocente faminta e devoradora de assassinatos alheios. Bom, decidida, peguei o ovo. O analisei, em toda sua forma. Perfeição. Suascurvas eram proporcionais, harmônicas, e a casca irritantemente livre de defeitos.Especialmente branca. Fechei a geladeira lentamente, e coloquei o ovo sobre a pia. Sentei-me na cadeira e acendi meu último cigarro. Dali, via claramente oovo. Ele olhava pra mim, desafiador. Era mais que eu. Era natureza perfeita. Eramorto e parecia ingênuo. No começo de tudo, as coisas parecem mesmo assim, ingênuas. Mas nãodevemos esquecer que é uma formação, um estágio de uma transformação maior.Nem sempre tão ingênua. Não duvidava, portanto, da bondade do ovo, mas da sua veracidade. Mas dequalquer forma, estava com fome e iria devorá-lo. Justa causa. Levantei-me, passos fortes - o vizinho de baixo me ouviria? Não importa,não saberia descrever meu próximo passo. De inconstante eu era imprevisível- eassim, com toda minha liberdade inconstante, adquiri novas forças e me senti no-vamente bem. Toquei no ovo, e delicadamente, deitei-o. Queria que pensasse quetivesse medo dele. Não queria dar medo; eu iria assustá-lo de uma só vez: Abri a gaveta lentamente, aquela primeira gaveta. De lá puxei uma colher,em toda sua imperfeição de objeto e criação humana. E como imperfeição humanaeu quebraria o ovo. Em um susto. Em um golpe forte, bati com a colher no ovo. Senti toda sua inerência de co- 61
  • 62. meço. Toda sua incalculável reminiscência, que o atormentava. Suas inquietudes.Foi então que a casca se rompeu. Mas eu não tinha coragem para prosseguir. Estava espantada com tudo quedescobrira do ovo após feri-lo. Era difícil para mim. Era violar o trabalho árduo danatureza. E não sabendo o que sairia dali, quebrei o ovo, e sua gema pulou, envolvidaem sua clara, no chão. A casca ali na minha mão. Inútil. A gema, ainda forte, aindaextremamente ligada à clara, em uma relação que parecia inseparável. Em toda ainquestionável beleza do ovo, eu me calei. Seu nascimento na verdade aconteceraali. Antes fora proibido, mas eu o libertei usando meios estranhos a mim. Eu pro-vara a ele que posso rompê-lo. E fizera com que ele conhecesse o chão gélido daliberdade. Agora, eu tinha medo dele. Temia o ovo. Temia sua liberdade. Temia-me.Porque minha coragem me transbordava. O que seria do meu ovo interno agora?* Sara Meynard Begname, 17 anos, morou, cresceu e conheceu as bibliotecas emMariana,MG. Quando criança, tinha por mania escrever frases que não preenchiam aslinhas, que deixavam no fim da folha um espaço que atraía o olhar: arquitetura do vazio.Depois da poesia, a prosa também ganhou forma. Atualmente, conclui o ensino médio econtinua com a literatura. E-mail: saramb_1904@hotmail.com62
  • 63. A árvoreRafael Cal* – menção honrosa – categoria nacionalCachambi-RJM etáforas elaboradas não explicam sentimentos complexos, pensava. Era quente. O dia estava claro e o sol rebatia nos carros parados na rua, entrando pela janela entreaberta, causando um leve desconforto nosolhos. Era novidade. Quente, claro, sol e desconforto sucediam a queda. Antes,ainda que fosse quente e claro, havia uma sombra delicada e o sol que rebatia noscarros na rua era barrado, entrando pela janela um balançar cadenciado. Havia, em frente à janela, uma árvore. Com o tempo aprendera que era umflamboyant. Não que isso interessasse. Era uma árvore, isso bastava. Se era um ipêou uma macieira era irrelevante. Sempre fora sua árvore. Sempre esteve ali, oferecendo sombra como em um poema escrito sobreinfância e nostalgia. Não que gostasse de sentar aos pés da árvore, recostar emseu tronco e receber a brisa suave no rosto, olhando pro céu entre a copa do flam-boyant. Isso era poesia. Gostava de estar na sala e não ter os olhos desconfortáveisenquanto lia Tchecov no sofá. Não ser poesia não significou, em nenhum momento, desamor. Vivia umaintensa relação amorosa com aquele flamboyant. Todos os dias, chegava da ruae, ao entrar em casa, olhava pro alto, em direção à copa da árvore. Quando eracriança, carregava alguns galhos. De manhãzinha, juntava os bonecos e construíafortes e trincheiras nas raízes, que levantavam um pouco a calçada. Mais tarde,pegava algumas sementes pelo chão e juntava em uma caixa, sem muito sentido.Achava engraçada a sujeira que a árvore fazia e podia ver o céu entre as folhas. É,talvez de alguma maneira, fosse poesia. De certa forma, aquela quase poesia era também um prenuncio de tragédia.As raízes fortes iam aos poucos estourando a calçada e os canos em busca deágua. As sementes ficavam espalhadas pela rua, assim como as flores. As cigarrassumiram. Havia cupins. Um dia chegou o botânico. Nunca havia visto um botânico e nunca viu um 63
  • 64. depois disso. Se fosse teatro, diria que era uma solução dramatúrgica fraca do autor,colocar um botânico ali para explicar o inexplicável, como a empregada doméstica danovela das oito que faz uma pergunta a patroa, protagonista da história, pra que elapossa fazer uma cena tocante, que sirva de gancho para o capítulo seguinte e man-tenha a atenção do espectador. Não era preciso verbalizar a morte. Fez-se o silêncio. Dias depois, acordou com a trilha sonora do corte. Foi até a janela e con-templou a coreografia. A luz do sol banhava o cenário e lá em baixo havia umaespécie de diretor. Não conseguiu pensar em nada. Os dias seguiram angustiados. Era, sim, preciso verbalizar a morte, pensou.Pegou um caderninho que tinha guardado para essas ocasiões angustiadas. Co-meçou a escrever, nada que achasse gostável. Mas não estava interessado em serlido, mas em botar pra fora a angústia. Ele sabia, ou achava que sabia, que escreverera uma forma de superar. O que ele não sabia era que nada que escrevesse seria capaz de cobriraquele buraco aberto. Que nada voltaria, ainda que inconscientemente achassepossível que tudo voltasse, em breve, a ser como era antes. O que não sabia é quehá coisas que não se superam. Há coisas que não voltam. Não pelo que foram,mas pelo que deixaram de ser. Brincar com seus bonecos na raiz aparente do flam-boyant foi banal, mas foi. Não haveria mais aquela raiz para servir de trincheira naguerra imaginária. Não haveria sementes, galhos ou flores. Não haveria. O acordar seria diferente, assim como a sesta. As tardes e os cafés-da--manhã também. Não haveria escaladas, podas, arte naturalista. Não poderia secasar embaixo da árvore. As folhas pequenas, não poderiam ser postas pra secar,trituradas, enroladas em um guardanapo de bar e posteriormente fumadas, embusca de algum estado alterado de consciência, numa tentativa juvenil de fazerhaver alguma coisa. Não poderia construir uma casa na árvore, não naquela, pelomenos, e, se não naquela, em qual mais? Não importa, não poderia construir umacasa com a sua madeira nem tirar uma muda. Não seria possível, um dia, quandofosse avô, retirar um galho e fabricar uma espada de brinquedo para seus netos.Tampouco construir um arco e flecha. Não haveria a sombra e a poesia de olhar procéu entre as folhas da árvore. Os dias seriam claros e o sol rebateria nos carros parados na rua, entrandopela janela entreaberta, causando um leve desconforto nos olhos. Tchecov nuncamais seria o mesmo. Nem ele. Metáforas simples também não explicam nada, pensou.64
  • 65. * Rafael Vieira Cal mora em Cachambi-RJ, escreve pra teatro, sites e coletivos literários.Já teve colaborações publicadas nas revistas Carta Capital, Aguarrás e Desencontros,além de três textos montados no teatro. Atualmente, mantém o blogue fazendoumdrama.blogspot.com.br, é diretor artístico da Interferência Teatral e, nas horas vagas, é professor.E-mail: calrafael@yahoo.com.br 65
  • 66. Duas cruzesCândido Brasil* - menção honrosa – categoria nacionalCachoeirinha - RSO sol tremeluzindo no horizonte desenha uma figura negra, que balança, con- forme o bafo do ar quente que sobe da terra. O fio horizontal que define o alcance da visão é um braseiro, cozinhando o azul do céu. Não há nuvensno firmamento, só o astro rei jogando sobre a terra o seu calor. No pequeno povo-ado, chamado Cafundó, um lugar ermo, esquecido pelo tempo e mais ainda pelasautoridades, que só chegam por ali em época de eleição, tudo é seco. Açudes, san-gas, rios... Carcaças de gado estão espalhadas pelos campos e bandos de corvosproduzem sombras andarengas pela terra seca. Há meses que os habitantes deste lugar têm de buscar água de carroça norio Mirim, que fica léguas de distância. Nesta paisagem inóspita, na estrada batida, a sombra vem aproximando-se,negra, esquálida, de braços abertos como uma cruz, dançando no centro da via. Na sombra da parede dum casebre, a velha moradora recostada num bancode madeira, observa, do alto dos seus oitenta e tantos verões abrasadores, o vultoque chega. É uma mulher, trazendo às costas um bebê enrolado em panos para prote-ger do sol. Em cada mão um pedaço de pau, que serve como bengala, para apoiar--se e ter forças para seguir sua jornada em busca de água e salvação para o filho. Depois de horas dançando sobre a estrada, enfim chega à sombra da casa.Não fala nada, desce a criança das costas e deita na terra. A velha divide com o pequenino um gole de água do copo que segurava.Não há resposta da boca da criança. Os minutos envoltos em quietude, tempo emque ficam paradas as três figuras, parecem uma eternidade. A mãe ajeita o filho nos panos, o coloca sobre as costas e sai novamente. É uma cruz negra na estrada, que vai andando, andando e pára. A velha força a visão, postada ao lado do seu casebre e enxerga a mulherabaixando-se na beira da estrada e ali ficando.66
  • 67. A tarde vai caindo e depois de horas agachada sob o sol abrasador, a mu-lher enfim levanta-se, segura seus dois pedaços de pau que servem de apoio eprossegue estrada afora. Da beira do seu casebre a velha senhora fica observando a estrada, ondeuma cruz negra vai andando rumo à linha do horizonte e atrás dela, na beira daestrada, junto a um montículo de pedras, uma cruz pequena de paus secos ficaguardando o seu filho. A velha vê duas cruzes: uma que vai e outra que fica.Cândido Adalberto de Bastos Brasil, 53 anos, gaúcho de Cachoeirinha-RS, é empresário,curte a cultura gaúcha e gosta da poesia nativa. Possui livros publicados. Há muitos poe-mas de sua lavra postados na internet. E-mails: acandido@ghc.com.br / candido.brasil@pop.com.br 67
  • 68. Em braileÉder Rodrigues* – menção honrosa – categoria nacionalBelo Horizonte-MG Primeiro a palavra escolhe os cantos onde o significado não cicatriza. Depois, entregamos o corpo para ver se cura.S e eu ainda lecionasse, talvez inventasse um dicionário de silêncios, só para tornar a palavra mais precisa na ponta dos dedos onde poema o toque. Lembro-me de quando ele chegou, escorando como se os vãos confessas-sem a urgência que cerrava minhas vidraças. Jamais deduziria que tivesse vindopelo anúncio que postei. Depois de anos lendo Clarice, comecei a desafiar a solidãocom aulas avulsas sobre o sentido que contorna ou desaba romances. Chega umahora na vida que a paisagem pesa e deixar a janela fechada não é só mania ouesquecimento. Relutei para criar um anúncio menos antigo que “REFORÇO ESCO-LAR”, mas por falta de modismos adequados, o que se espalhou pela vizinhança foique eu, enfim, aceitava aulas particulares de qualquer matéria. No fundo era umamaneira até elegante de escrever com letra de forma que eu já tinha aposentadohá anos e, me sentia tão sozinha, que esta foi a alternativa encontrada para adoçaras tardes que insistiam acreditar que valia a pena ser de novo. O anúncio deve ter se espalhado por intermédio da piedade dos conheci-dos, das velhas diretoras que por verem minhas rugas como os estilhaços de umespelho próximo, perpetuaram aquele meu ensejo de forma digna, acredito. Sejacomo for, não deu certo o esforço pelos três longos meses de espera, até aqueledia em que já havia decidido tirar a placa do portão. Nunca poderei detalhar comoele chegou. Antes achava que o detalhe enriquecia as obras, mas ele insinuava quenão minuciar os meios, às vezes, alivia o fim. Digo ele, porque não tenho forçaspara pronunciar o nome, nem sei se devo. Há palavras que se amolam a ponto dese eternizarem afiadas, tal como a barba dele no ensejo de quando chegou, ras-68
  • 69. cunhando os sentidos que desde menino nunca leu. O trauma das lições tatuadasa giz acompanha a memória que se cansou antes de mim. Ainda assim, recordoque derramou o que bebia quando confirmou o endereço com a mesma fragilidadecom que se intui um título. Era desses que perderia todo o recreio se uma escolahouvesse ou se ele, um aluno fosse. Na primeira aula foi logo dizendo que nunca tinha lido bilhete escrito àmão, nem guardanapo amassado em noite de bar. Falava devagar como se medis-se a distância das coisas. Olhava para onde eu não estava e adivinhava feições como risco de quem se atreve. Alfinetou que não acreditava no sentido das palavras,mas no fundo gostava da silenciosa orgia delas. – “Pouca gente leu para mim.”Disse depois de atestar que provas de literatura o deixavam angustiado. Não pelodelírio da palavra, mas pela insistência da escola em diminuir os efeitos do silênciocom aquela dose insegura de questões e fichamentos. Tinha horas que ele pareciahomem demais para ser menino, já outras, tinha meninices pelas sutilezas que nãocaberiam jamais num homem feito. Não deixei me levar pelo que ele ortografavacom aquela sutileza de não me ver, até porque depois de uma vida usando guarda--pó, não era alguém sem a luz dos olhos que me faria pena. Antes de abrir o pre-sente, melhor desvencilhar dos ímpetos da surpresa. Talvez por isso começamospela coincidência sempre duvidosa que se assemelha ao corpo quando arrepiasem prevenção: Clarice. Foi como leitura obrigatória da prova que lhe assegurariaa despedida final do médio ensino rumo à monótona academia que partimos domenos claro deles: A maçã no escuro. No começo ouvia atento e parecia ir além da lonjura que a palavra al-cança. Fui esclarecendo as lacunas, iluminando contextos, tecendo comentáriosque luziam meus anos de especialista frente àqueles olhos que não seguiam osatalhos da luz. Confesso que principiei como uma canção tirada do piano só emnotas de dó. Talvez por isso tenha se cansado rápido e feito uma criança que osono engana, rezou: – Apenas leia. Não quero entender nada. Encerrei aquelaaula ferida no orgulho que me outorgava quinquênios e aposentos. Teria dormido seachasse que não voltaria. Também teria acordado se aquele corpo não me coçassea insônia com sopros de conturbado calão. Não adiantaram meu método, meusanos sem intervalos para dividir com alguém aquelas noites dormindo com Clarice,espantando as baratas do meu sonho. A boca dele luzia uma jovialidade invejável,principalmente quando contornava os pontos cardeais no cume onde parecia medira temperatura das palavras e não o significado delas. Naquela primeira noite senti 69
  • 70. Clarice me tocando por dentro, mas quando acordei, era a trilha dos dedos dele quetinham passeado pelas minhas rugas. Voltou uma semana depois. Continuei no velho esquema, sem perceber olivro que escorria dos olhos dele e fazia do corpo uma dessas lições que ninguémdecora. Expliquei do meu jeito o duplo sentido de algumas palavras enquanto quaseimóvel, ele parecia rumá-las para onde quisesse. O som lhe embriagava os dedosgrossos, coisa que a falta do olhar escondia. O lábio perdido era um atalho paraesquecer o literal do mundo. Não esboçou qualquer reação quando o toquei semio-ticamente distante e ele virou o rosto impaciente como se visse: – “Você só sabe lerdessa forma, como se entendesse?” Foi como um dia me advertiu para desesperodo meu antiquário de castigos. Pedi para ir embora como se forjasse um intervaloentre os abismos de quem sente o toque, mesmo sem ter sido tocado. Achei que nunca mais viria. Porém chegou um dia antes da hora, quandoeu ainda inventava notícias e cobria meu sexo com o jornal. Sentou-se e pediu queeu lesse só o final. Palavra nenhuma trouxe. Primeiro a superfície dos dedos, depoisa temperatura da palavra, como se o ilegível de nós fosse lido sem as lentes quea morte aumenta. Tudo sem significados, sem prévias ao entendimento. De tantoler com as certezas, as claricidências de errar-me no escuro dos dedos com quecegamente me lia, foi minha primeira palavra e a última dele. Ler era um exercíciodo corpo todo. Dentro e fora. No fundo e pela superfície. Terminamos e depois quese foi, embriaguei-me de copos d’água. Com os olhos cerrados e com a imagemdele me toquei até o fim. Depois daquele dia, nunca mais voltou. O corpo não é nada didático. En-gana os sentidos e pontua de um jeito que faz a palavra escorrer feito gozo impos-sível no lábio dos que se vão. Sigo os toques dele tentando me deixar legível a mimmesmo, mas escorrego nas incertezas, no escuro que se preza intocável no fundodas maçãs. Por vezes, repito insistente o nome de Clarice, como se esquecesse oabismo que a morte labia na imaginada presença dele. Quando os poros alfabetammeu desejo no cume dos seis minúsculos pontilhos, sinto-me sendo folheado detrás pra frente, como um deus aprendendo a ler-se. Fecho os olhos agora para imaginá-lo vendo e a campainha dispara comos alunos de uniforme branco me trazendo sopa e algumas gotas. Se ainda lem-brasse a placa que o trouxe, talvez pregasse no inventário desse último quarto equem sabe ele viesse para ler-me neste resto de tempo que ainda guardo comorecreio.70
  • 71. * Éder Rodrigues é poeta, ficcionista e dramaturgo com trabalhos publi-cados no Brasil e no exterior. Como contista recebeu o Prêmio Josué Guimarãesde Literatura em 2009 e o Prêmio José Cândido Carvalho em 2008. Possui umdestacado trabalho de produção e difusão da literatura, atuando como escritore coordenador de projetos culturais. Possui o título de mestre na área de dra-maturgia pela Universidade Federal de Minas Gerais, é ator, diretor e professoruniversitário. E-mail: ederdelrodrigues@yahoo.com.br 71
  • 72. O lamento de IngridAlex Sens Fuziy * - menção honrosa – categoria nacional – Delfim Moreira - MG “A julgar por nossos desejos inconscientes, nós mesmos não passamos de um bando de assassinos.” Sigmund FreudE m parte porque estavam no norte de Bergen, hospedados numa pequena casa de madeira de noventa anos que lembrava vagamente a do compositor norue- guês Edvard Grieg, em parte porque terminar de escrever um romance numpaís estrangeiro dava aquela deliciosa sensação ilusória de sucesso, às nove horasda noite os Müller decidiram comemorar com drinques e música clássica. EnquantoIngrid apanhava mirtilos e framboesas dos amentos que flanqueavam o terreno dacasa para preparar duas taças de clericot, Ernesto levou o gramofone do quarto paraa varanda, pôs um disco com a melhor seleção dramática de Grieg e escolheu umadas duas cadeiras mais confortáveis antes que a esposa chegasse com as bebidas.Também não quis esperar para ouvir a música e depois de espiá-la atravessando ogramado com uma pequena cesta de frutas vermelhas, fechou os olhos e sorriu. Antes de voltar para dentro da casa, Ingrid pôde ver o sorriso entre os balaús-tres. Na cozinha, abriu uma garrafa de seu Riesling francês preferido, encheu duastaças até a metade, mergulhou nelas os mirtilos e em seguida as framboesas. Como cabo de uma faca, apertou suavemente as frutas e viu com prazer os tons sanguí-neos se rompendo no álcool como fiapos de fogo. Na varanda, Ernesto arrastou suacadeira. Ela imaginou o corpo do marido aberto e deformado no jardim após cair láde cima, enquanto ele vislumbrava a mulher asfixiada por um escapamento de gás. Tudo isso aconteceu às nove horas e oito minutos, mas sete minutos depois,quando o sol ainda se punha na Noruega atrás de grandes nuvens que pareciamsuflê de laranja, Ingrid ainda sorvia seu clericot em goles epicuristas e a taça deErnesto estava no chão, com as frutas esparramadas como coágulos de sangue,o vinho derramado formando uma pequena poça na madeira e o escritor inerte, acabeça tombada, os braços ligeiramente tortos e a mancha da morte vazada em72
  • 73. seus olhinhos olivares entreabertos. Do gramofone se desprendia a doce e curiosa “I Dovregubbens hall”. Embora Ingrid não tivesse virado a cabeça para ver o marido quando a taçaexplodiu no chão, ela sabia o que havia acontecido. A despeito da música, o silêncio– silêncio humano, cujas raízes são sempre ruidosas enquanto há um coração ba-tendo e pulmões inchando – era tão frágil que caso fosse tocado, se fecharia numgrito, como o movimento nástico de uma flor. Por isso permaneceu imóvel, sentindocada gota da bebida e chupando as framboesas que nadavam no vinho como sefossem balas. Seus olhos haviam pousado além do murete que dividia os terrenos,na ponta de Flatøy, a ilha onde estavam, e diante da qual passava uma grande em-barcação que ela desejou por um segundo que a tirasse dali – que a levasse parao calor de uma lareira e a empanturrasse com pão de nozes, Jarlsberg e mole rojo. “I Dovregubbens hall” começou sua lenta ascensão ao mesmo tempo emque o sol desaparecia por completo. Com mais nuvens, o céu acendrado aumentoua sensação de frio que parecia trespassar as tranças de lã do suéter de Ingrid. Eram21h17 quando ela se permitiu um longo e satisfeito suspiro seguido do primeiroolhar sobre o marido morto. Nem morto Ernesto parecia relaxado. Foi com muito desagrado que Ingridviu que seu maxilar continuava saliente. Como psicanalista, ela acreditava que oprognatismo mandibular do marido era mais um desejo inconsciente de estar àfrente dos outros – embora sua barriga tratada à base de Malzbier já fizesse isso –do que uma desordem genética desfigurativa. Era como se aquilo lhe desse um arde sabedoria, mas Ingrid não entendia como. Assim como não entendia aquela es-tranha obsessão por Hemingway, ainda que tivessem o mesmo nome, mas isso nãojustificava o uso das calças largas, da barba branca ou o estilo literário semelhanteque ela tanto invejava. Talvez fosse outro desejo inconsciente – e Ingrid desejou,conscientemente, que ele também tivesse uma espingarda. Ela voltou os olhos para aquele início de noite e lembrou – como se tivesseesquecido alguma vez – do romance do marido. Eles haviam alugado aquela casi-nha porque lembrava a de Grieg, mas também porque pareceu o melhor lugar paraterminarem seus livros, no silencioso frio da ilha, além de ela cometer seu primeiroe último crime. Naquela quinta-feira ele escreveu as últimas oito páginas do seuromance sobre uma pianista que se isola numa floresta depois de enlouquecer,enquanto ela escreveu as últimas três páginas de uma novela para crianças. Eramconfusos os seus sentimentos sobre o próprio livro, afinal uma psicanalista não 73
  • 74. deveria escrever livros risíveis para um público que abominava enquanto o maridoconseguia espancar maravilhosas narrativas em sua velha Royal – idêntica a deHemingway. Esta era outra característica que Ingrid detestava no marido: o gostoirritante pela máquina de escrever. Enquanto ela digitava quarenta palavras porminuto, Ernesto podia escrever um longo parágrafo como se metralhasse o objeto. Ingrid virou o resto do clericot e mastigou todas as frutas de uma vez. Preci-sava se acalmar. Ainda tinha de voltar para o escritório ocupado pelo marido egoístae terminar seu plano. O efeito dos três últimos goles de vinho foi rápido, de repenteseus braços estavam mais pesados e o resto do Riesling na cozinha pareceu tenta-dor. Apesar do frio, sentia-se leve e quente como um prato raso de sopa. Era bem verdade que ela também tinha terminado seu romance estúpidosobre cachorros falantes que planejam fugir de um canil, que havia sido um traba-lho belicoso encarar aquele enredo por uma quantia de dinheiro que não compravanem a porta de uma doceria de luxo no coração de Paris, mas não estava satisfeita,por isso daria seguimento ao plano. Para isso precisava levantar, mas sentia-se so-nolenta. E começou a questionar o próprio talento quando sentiu o silêncio inchar. Assim como o livro era ruim, e sua vontade de escrevê-lo tivesse tido amesma intensidade emocional de um passeio de barco numa banheira de hidro-massagem, ela não podia negar que as últimas páginas eram as melhores queescrevera em toda a sua vida – e isso incluía seus seis livros sobre psicanálise naarte enquanto estética. Era inegável o poder criativo que aquele lugar lhe desper-tava, por isso podia apreciar, conforme seus humores mais ácidos de apreciação,aquelas três últimas páginas. Porque não poderia escrever daquele jeito em suaprópria casa. Não quando o vizinho de quase setenta anos com mal de Parkinsongostava de usar o antigo cortador de gramas movido à gasolina a cada cinco dias.O pior de tudo era o barulho da máquina, uma terrível oscilação sonora que pareciauma extensão do problema motor e neuronal do dono. Mas Ingrid sorriu ao lembrar--se das vezes em que sua bradicinesia, uma lentidão anormal dos movimentos, oimpedia de atormentá-la. Então ela colocou a taça no chão e fechou os olhos para ouvir a intensaascensão da música. Logo o sorriso desapareceu porque a lembrança do outrovizinho encobriu a composição de Grieg. Lembrou-se de quantas tardes perderaem seu escritório ouvindo a filha mais nova dos Holst brincar na cama elástica queganhara nas férias. Muito próxima da piscina e da cerca que separava as casas, acama elástica era usada por quase duas horas de forma ininterrupta. Ingrid tentava74
  • 75. fechar parágrafos impossíveis ao som da menina se jogando na lona como sepropositalmente. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti.Tchucunti. Sua imaginação involuntária geralmente fazia Talita cair na piscina de-pois de abrir o crânio na quina de granito ou ser dilacerada pelas pontas de açoinoxidável da cerca, embora os tchucuntis continuassem ecoando em sua mentecomo um anátema. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Tchucunti. Ingrid pegou a taça outra vez e arremessou-a sobre o jardim. Ouviu o somde vidro se espatifando, o eco parou. Novamente afundou na música de seu com-positor preferido, agora mais grave, mais potente, prestes a explodir o gramofone. Quando o eco da cama elástica começou a voltar em ondas muito sutis mis-turadas aos acordes da música, decidiu que era hora de entrar. Tanto porque estavamais frio como porque já escurecia e precisava terminar o que havia planejado. A casa estava misteriosamente quente. Abriu a porta com um último sorrisopara Ernesto e entrou. Quando visitou a casa pela primeira vez, na quarta-feira, Ingridpraguejou sobre o carpete branco que recobria todo o chão do segundo andar. Eraestranho e pouco prático um carpete tão claro. Mas agora, tirando os sapatos e sedirigindo ao escritório, agradeceu pelo calor nos pés e pela quietude dos seus passos. O escritório ficava num pequeno quarto que lembrava um depósito. Tinha oteto baixo e uma lucarna redonda sob a qual Ingrid sentou diante da máquina deescrever de Ernesto. Lá estavam no carpete as marcas dos pés do marido, cincohoras escrevendo sem mudar de posição. E lá estava a máquina sem nenhumafolha, pois o bloco com o romance datilografado havia sido simetricamente arruma-do. “O lamento de Ingrid” fora escrito à mão no centro da primeira folha, e abaixodo título havia um traço feito com grafite. Seu nome no título não era o verdadeiroproblema, ela sabia que o marido não tivera aquela ideia, mas que a “pegara em-prestado” de uma das composições de Grieg; o verdadeiro problema fora o dislateda justificativa: “É uma homenagem para uma linda mulher”. Asco. Ela sentiu aboca amarga. Até para inventar uma desculpa ele tinha de recorrer a um filme deJulia Roberts, chamando-a indiretamente de prostituta. Seus olhos brilharam ao encontrar o pedaço de grafite. Lá fora, “I Dovregub-bens hall” ia para os momentos finais, acelerada e intensa como seu único pensa-mento. Oscilou sobre aquelas centenas de folhas marcadas pela odiosa criatividadedo marido, saboreando com alguma náusea o que mais a irritava. Não eram sóos pelos das mãos e dos braços, que a certa distância faziam com que o marido 75
  • 76. parecesse sujo – de modo que qualquer um pudesse sentir vergonha por ela. Masa mania de limpar os dentes com fio dental como se dançasse uma dancinhaparticular, agitando as mãos para frente e para trás, e em seguida fazendo aquelesruídos irritantes com a língua para tirar os últimos pedaços de casca de pipoca.Ou quando batia a porta e culpava o vento. Ou quando tomava o café da manhãcom o prato afastado, sujando a mesa com migalhas de pão que não recolhia. Ouquando mexia demais na comida antes de colocá-la no prato não para ver o queera, mas para averiguar se ela havia colocado pedaços de pimentão no ensopado,ou temperado a salada com cominho, ou encharcado qualquer prato simples comseu azeite preferido de trufa branca. Num suspiro mais entediado que conformado, Ingrid pegou o grafite. Sentiuuma pontada no estômago ao lembrar de que naquela manhã, quando faziam com-pras no centro de Bergen, Ernesto havia confundido uma garrafa de água Voss comum vidro de perfume, dizendo em alto e bom som que nunca vira uma fragrânciatão barata. Por sorte, ninguém entendia a língua deles. Mas isso não diminuiu ocalor que subira em seu rosto, fazendo com que fugisse do marido antes que eleconfundisse pedaços de Brie com alguma sobremesa coberta de açúcar refinado. Ernesto tinha outra mania: assinar os originais dos seus romances comaquele pedaço de grafite. E como Ingrid o tinha em mãos, o que ela fez foi colocaro próprio nome sobre o traço cinza, planejando publicar o romance que dedicariaao tão saudoso marido. Porque o carpete do escritório abafava o som dos passos, e porque Ingridestava tão nauseada com o veneno que tomara quando Ernesto trocou as taças declericot, ela não ouviu o marido entrar nem o viu parado às suas costas. O corpo caiu pesado ao lado da escrivaninha, empurrando a cadeira e aspernas de Ernesto. Antes de afundar na escuridão, ela viu o marido balançar a ca-beça e pegar o grafite. Com ele, desenhou o contorno do corpo no carpete, e quan-do na varanda a música acelerou nos instrumentos de percussão para finalmenteestilhaçar-se, bem ao lado da cabeça escreveu a palavra “fim”. * Alex Sens Fuziy (Florianópolis/SC, 1988), mora em Delfim Moreira--MG. É escritor por ofício e prazer, eventualmente revisor e preparador de tex-tos, leitor e cinéfilo contumaz. Eventualmente, colabora com sites de literaturae de jornalismo cultural, além de ser colunista das revistas Bula e Acesso Total.Escreve em seu site http://alexsensfuziy.com76
  • 77. Passa azeite, senão racha!Arnaldo Devianna* - menção honrosa – categoria nacionalSete Lagoas - MG T al fato aconteceu num tempo roto, quase esquecido da lembrança daque- les que o presenciaram. Mas costurou um desfecho providente, serviçal de nosso irresponsável preconceito. João Palpitoso, com o tal negócio da jardineira a transportar a peonada paraa capital, havia conseguido alguma prosperidade que culminou na compra de umvelho jipe, daqueles modelos usados na 2ª guerra. Depois de uma boa reforma,ficou uma beleza. Só vendo! Um luxo só! E num dado dia, sábado de feira, resolveu juntar os mais chegados (Rei eZé da Noite) para uma volta; coisa de rapazes solteiros. Entusiasmados, tomaramo rumo da Rua do Morcego, ali perto, depois da ponte. Na dita, havia uma biroscafeia, mas que vendia a melhor branquinha desse mundo. Mercadoria de grandeimportância para a noite gélida que nascia. “Vai que na festa não tivesse fartura...Quem confia na panela alheia dorme sem ceia!” Decidiram, de comum acordo, poradquirir uma boa água que passarinho não bebia. “E quanto a não haver comida,deixe está...” – pensaram. Mas de dentro da tal bodega, surge quem: Mané de Isato. Sim! O temívelMané, famoso pela habilidade marcial. Não existia macho em Vai-Quem-Sabe ca-paz de enfrentá-lo numa briga. Até então, só se tinha notícia de uma luta perdida:o boi Corisco conseguira derrubá-lo numa primeira leva. Mas na revanche, Manélevou a melhor!... Imagine um homem de mãos nuas vencendo um touro assassino.Tal feito ganhou nota em jornais de Montes Claros, Diamantina e Conceição doMato Dentro. E só serviu para incendiar de vez a fama do açougueiro. O sujeito tinha o humor vacilante do cão: podia ser ignorante e brigador;mas por outro lado, um bom amigo. O certo é que ele não tolerava conversa atra-vessada e nem levava desaforo para casa. Mexer errado ou bater o pé era perda detempo... O bruto topava qualquer um. Aliás, podia juntar uma corja!... E sua armamortal era a cabeçada. Usava aquele enorme globo (achatado de baiano e duro 77
  • 78. como aroeira), que seu pescoço custava a separar-lhe do corpo musculoso, quenem um cabrito bravo. Bastava um único golpe para encerrar-se o banzé. Pois sim, foi justamente esse Mané de Isato que descansou o braço nomarco da porta da birosca, e depois de um tempo minguado a admirar a beleza doautomóvel, acenou com seu sotaque nordestino: - Oh, Palpitoso! Tarde! - Tarde! – responderam os dois, cismados. Aquilo não cheirava bem. E o Zéda Noite que sumira no interior da venda?!... - Os cabras estão indo onde assim, com esses panos limpos?! – indagou,referindo aos trajes “de ver Deus no domingo” dos interlocutores. João sorriu aquele seu sorriso mais amarelo enquanto sondava o semblantede Rei. Nisso, surgia finalmente o Zé também na porta do botequim com a enco-menda debaixo do braço, embrulhada numa folha de jornal. Naquele momento,arrependeram-se da idéia da cachaça. Estavam agora numa sinuca de bico: Casomentissem sobre o destino e o Mané descobrisse... Era confusão na certa. E issonão seria muito difícil de acontecer. Eta povo fofoqueiro aquele!... Ainda mais se otal fuxico acendesse um sururu medonho envolvendo o afamado Mané. A notíciacorreria como risco de pólvora... Viria gente de longe, a galope, para assistir o es-petáculo. Bom, já que não tinha jeito, entregaram os pontos: - Ah, nós estamos indo ali na Caveira, numa reza de terço e um leilão besta! - O quê, Leilão! Bom demais, sô! Vou com vocês! – divertiu-se. Sem pedirlicença, já foi tomando lugar no assento traseiro do carro. – E se duvidar, dá “inté”para ver umas moças!... – acrescentou animado, com ares de boa intenção. Assim, temerosos, partiram; inclusive o barulho do motor, posto em funcio-namento, parecia gargalhar da sorte deles. Nas calçadas de Vai-Quem-Sabe, demau agouro, tinha gente até fazendo sinal da cruz ao avistá-lo. O varão cultivavamesmo uma má fama assombrosa! E se foram pela estrada de terra estreita ao sabor do destino. No fundo, ostrês temiam uma encrenca. Caso houvesse briga, o Mané iria arrasar tudo. Pelomenos, tinham o consolo de que talvez lutasse ao lado deles... E se o dono da festanão gostasse do conviva sem convite?... Naquela confusão toda, acabaram chegando atrasados. As contas do rosá-rio já haviam passado do meio. O povoado da Caveira era um lugar à toa, com umapequena capela em honra a São Sebastião, uns poucos casebres de pau-a-pique.A maioria do povo da redondeza com bócio por causa da água do córrego homô-78
  • 79. nimo. Gente pobre, da roça, fraca mesmo. Num terreiro, ao lado de uma cruz, foraarmada uma pequena cobertura de capim, piso de terra batida com boa varrição eum palco de madeira. E Mané já desceu animado e ajuntou-se (surpreendentemente) ao coro da reza. - Rei, o que vamos fazer?! - Preocupe-se não, Palpitoso. Mané é boa praça! Mais: Ele nunca procuraencrenca... E se ninguém mexer torto, não haverá salseiro. E “tá” com a gente, “tá”com Deus! Fique tranqüilo, sô! - Será?!... - Pior se não “trazemos” o homem... Brigadista, e dos “bão” que é! Pegavamal!... Imagine se ele descobre tamanha desfeita?! - Tem razão! Deixemos isso de lado! – sugeriu, correndo as mãos pela roupapara expulsar a poeira - Vamos dar uma conferida nas “moça”! – Palpitoso sorriuentão aquele seu sorriso mais safado. Zé da noite, por sua vez, anuiu com um curto movimento de cabeça, elevan-do o copo de bebida clara para um brinde solitário. Depois da ladainha, Mané de Isato, mais uma vez sem pedir ordem deninguém, agarrou as ofertas e começou a gritar o leilão: Ora era um leitãzinho, oraum chapéu, uma garrafa térmica, e assim foi. E vai daqui, vai acolá!... “E dá-lheuma, dá-lhe duas!...” Até repente ele cantou para turma, denotando (zombeteiro)as características singulares de cada conviva. Quando um peãozinho fraco dava um lance, ele retrucava de mofa: - Lambari num pinica!... Lambari num pinica!... – e a audiência caía na garga-lhada. O ofendido não se importava, pois quem era doido para encará-lo num arranca--rabo?! Ficava por isso mesmo... Depois da brincadeira, a oferta era aceita de bom grado. A partir de então, muitos levantavam a mão num lance só para ouvir de novo afrase-feita do leiloeiro ou o improviso da rima que se seguiria. Mais risos e caçoadas... A tríade não acreditava em seus olhos. Quem diria: o temível Mané de Isatonum bom astral daquele. Fez uma bagunça danada, animou a festa, acabou venden-do tudo a bom preço e povo todo folgazão, satisfeito. Fora um sucesso estrondoso. Para finalizar, Mané pegou a última prenda, pôs debaixo do braço, e anun-ciou risonho e festivo: - Essa aqui gente é o meu quinhão! - Ninguém atinou. As risadas do públicoo acompanharam até que, num local retirado, a beira de uma fogueira para comba-ter a friagem, o viram assentado descascando o abacaxi de “paga”. Agradecidos, 79
  • 80. os festeiros levaram um prato de comida bem calculado. E ele ficou dali, plácido,deliciando-se com o calor das labaredas, bochechando o dente com quentão, en-quanto seus ouvidos libavam os primeiros acordes da sanfona do forró. E o arrasta--chinela animado evolucionava-se numa coreografia típica, recheada de sorrisos,abraços e muita alegria. A noite, apesar de fria, estava linda: o céu sem nuvens desnudavam o mantode estrelas a ornar a lua. O imenso disco de prata parecia sorrir para os habitantesda terra. Do camarote celeste assistia ao show de música e dança. Mas a festança (tempos idos) foi interrompida de forma abrupta pelos gritosdesesperados de algumas mulheres. Uma terrível briga iniciara-se. Tudo por queuma moça negou um bailado e um dedo de prosa. Aí, o sujeito (achando um desa-foro) quis tirá-la na marra... Primeiro vieram os tapas e beliscões da menina queresistia ao insulto. Em seguida, dois machos entraram para acudir e o pau quebrounum efeito dominó! Puseram abaixo a tal cobertura de palha, a mesa de comes ebebes, os enfeites... O lugar virou uma bola de poeira, socos, gravatas e pontapés. Mané de Isato, que terminava o prato de tropeiro com arroz, lambia os dedos.Afastado que estava, limitou-se a observar o ronca-ferro sem maior entusiasmo. Palpitoso, Rei e Zé da Noite, entraram no quebra-quebra com jeito (e demesquinharia), só para o Mané vir em socorro e fazer exibição (pois o que que-riam era ver uma justa bonita). Logo, experimentavam o maior aperto: Davam ummurro e tomavam quatro, cinco... Os olhares atarantados clamavam pela ajuda dacabeçada atômica de Isato. E este por sua vez, contrariando todas as previsões eapostas, continuava de cócoras à beira do fogo, de onde assistia a tudo. Dali, nãopuderam ouvir seu grito: “Gente, se precisar de mim aí nesse enguiço, é só chamar!” – prontificou--se, enquanto fazia um cigarrinho de palha, já com o sentido numa brasa perdida(vizinha da botina esquerda) para servir-lhe de isqueiro. Em pouco, soltava abun-dantes e prazerosas baforadas... A briga embrenhou-se numa praça de guerra: a moita de gente disformecontorcia-se revolucionária sobre o piso batido. Uma nuvem densa de terra e fu-maça, providencialmente, escondera a Rainha Lua, poupando-a de tal selvageria. De pronto, a festa acabou-se em destroços... --- - Oh, Mané! Mas “ocê”, hein?! Nem pra dar uma ajuda no esbregue! – pro-testou João Palpitoso.80
  • 81. - Isso mesmo, moço! Nós lá nos arrebentando e “ocê” aqui... “Quentando”fogo! – protestou Rei. Os três estavam sujos, rasgados, esfoladuras desencontradas, ponta deosso à mostra, titubeantes. - Ah! – introduziu o Mané - Eu achei que “ocês” davam conta sozinhos. Ealiás, ninguém me ofendeu aqui... Pelo contrário, trouxeram comida, bebida, doce...Fui muito bem tratado. - Pois é, mas vamos embora logo. Vai que um desses “filho-de-uma-égua”foi buscar o “berro”. E foram-se então, sujos, arretados. Antes, molharam a boca com a branqui-nha especial que descansava debaixo do banco do motorista. Do Zé da Noite aindavinha algo mal cheiroso a empestear o carro. E para completar, o porco matou asede com vários goles da aguardente. Desgraça pouca era bobagem!... Daquela noite, daquela confusão toda, restou-lhes a lição: Fizeram pouco doMané e foi logo ele quem melhor se comportou. Na viagem de volta, depois de conferir nossas esfoladuras com uma lanter-na, o açougueiro sugeriu: “Passa azeite, se não racha!” E o infeliz do Zé da Noite, já bêbado de tudo. Gostou tanto do conselho queveio o restante da viagem a repeti-lo, que nem um papagaio, naquele sotaquelastimável de língua inchada: “Passa azeite, se não racha!” “Passa azeite, se nãoracha!” Oscilante, em tempo de cair do jipe e provocar uma tragédia maior. Pior: O tremulento desceu em Vai-Quem-Sabe e continuou a ladainha pelosbecos e ladeiras do lugar pelo resto da madrugada: “Passa azeite, se não racha!”E ainda contou toda a história... E a carocha esparramou-se de boca em boca,de janela em janela, sempre acompanhada de bocas de riso. E cada vez a versãomudava, com os mais absurdos e maldosos contornos. Povinho ordinário aquele!... Tanto foi que esse negócio virou uma gíria ou uma piada pronta. Palpitoso eRei, a chacota do momento. “Antes, tivéssemos ido para perto da fogueira também!Mas não!...” – lamentaram-se. Já era tarde... Agora, por um bom tempo, era só um deles pisar na rua para os molequesiniciarem a caçoada lasciva: “Passa azeite, se não racha!...”*Arnaldo Pereira da Silva Júnior, Sete Lagoas-MG, advogado, não possui livros publicados.E-mail: arnaldodevianna@ig.com.br 81
  • 82. Categoria regional82
  • 83. LussanviraFrancisco Carlos Pereira *– 1.º lugar -categoria regionalAraçatuba-SPC omo se chama um caminho que nem é mais caminho? Um nada. Uma desesperança, mas que ainda serve de passagem, nem que seja das lem- branças. O fantasma de uma união, feito casamento desfeito. Um nó. Masnaquele tempo tinha nome, destes bem estranhos. Era o tronco da Lussanvira. Poiseste era o nome do lugarejo último ponto da estrada de ferro, antes de se pincharpara dentro do Mato Grosso. Uma razão, mas não uma origem. Diz que era junção de vários nomes, várias entidades formando uma só.Coisas de santíssimas trindades, que somente os doutores da lei é que entendem.Mas foi pra homenagear os que traçaram este rumo. Não os que o fizeram, os queo traçaram. Pois é, naquele tempo era um caminho de ferro que ligava os confinsdos emboabas até a barranca do rio Paraná, donde se atravessava por balsa asriquezas e as pessoas para o outro lado - Jupiá. O caminho se alongava mesmoera no meio das matas, porque aquilo tudo não era como hoje se vê. Quando muito,sementes de cidades, das quais nem todas vingaram. Culpa, muita vez, da sezão. Aquilo, meu senhor, eram terras da malária. Diz o povo que por obra de ummosquito, que antes do homem era senhor daquelas matas. Deu-se o caso dosvalentes se meterem, sabe lá por qual necessidade, no meio dos domínios da pra-ga. Ela, impiedosa, não perdoava nem os saguis que por ali montavam algazarra.Tamanha era a febre que era comum os pequenos se apincharem das árvores secontorcendo no chão. Mas parava. O mal dava uma trégua por uns dias, mas vol-tava ainda mais pernicioso. Era o impaludismo. Se voltasse no terceiro dia, a morteera quase certa. Se por misericórdia de Deus, aparecesse somente no quarto ovivente se salvava. Crendice? Qual nada! Era certeiro. Vá o homem se meter com as forças da natureza. Mas o progresso erapreciso, então dá-lhe sublastros, lastros, dormentes e trilhos, e a estrada de ferrorompendo os sertões à custa de muitas vidas, alimentando as febres e tudo quanto 83
  • 84. era doença brava daquela época. A pior, com certeza, a malária. O tal mal expulsoua estrada de ferro, que foi se alongar em outro leito, procurando caminho maistranquilo, de resto, como é do querer de todo mundo. Naqueles dias, assim como se lê na sagrada escritura, enquanto esperava ogole de São Tomé, com a guampa de tereré nas mãos, eu olhava a mãe estendendonossas poucas roupas no varal. As brancas, carinhosamente, descansavam sobrea grama. Era para quarar ao sol, ela dizia. Quando a erva findou de encorpar, deiteimais água, e sorvi um gole profundo, feito dó de peito ao contrário. Mãe, entremen-tes, me olhava, aproximava. — Que “ai-jesus” é esse? — Nada não mãe. Penso de ir embora. Ela nem me disse nada. O silêncio de minha mãe, como de todas as mães,chegava a ser um mistério. Era um silêncio sabedor de muitas coisas, que nemvaliam a pena falar. Não que fossem tonteiras. Não era isso. Era mais como sabe-doria que se cala, pois requer os arranhões da experiência para entender. Ela parouolhando ao longe, os campos, as plantações, as criações, e depois voltou para sualida. Eu, de volta a minha bebida amarga, ainda sem saber se era concordância oudiscordância. Ela veio em minha direção, caminho natural para os afazeres da cozinha. Aopassar por mim disse: Vai. Era uma oração, um verbo, uma ordem carregada de acídia. Aquele mesmosentimento que tinha percebido em meu irmão. Era um dia como esse, poucodefinido entre o sol e as nuvens pardoentas. Lidava ele com os burros, os dois queainda restavam, e nos serviam no transporte e no trabalho. — Olha estes animais — Não era um convite para ver, mas para enxergar. — Que tem? — Tem razão de ter esse nome mesmo — retorquiu ele, pausando parapassar a mão na crina dos bichos. São pobres diabos que trabalham de sol a sol,por conta de pouca comida, aliás, mato e água. — Que tem? — Eu, já desinteressado pelo rumo da conversa. — Que tem que eles, ainda que possam, não se desembestam por estemundo e se vão daqui. Procurei o olhar do meu irmão, e encontrei-o lá, perdido num horizontedonde não se via nada, mas que parecia a espera da coisa mais importantes domundo. Ele tinha destas coisas. Uma palavra carregada de raiva, mas sempre uma84
  • 85. ação contida. — São como nós. Bem que eu ia responder alguma coisa, para não interromper esse monó-logo intercalado. Mas já vinha nosso pai nos chamando para o serviço. Tínhamosque arrancar alguns tocos em umas terras próximas dali. Deixar nosso terreiro, pracuidar dos de outros que podiam pagar. Era assim. Meu irmão passou por mim edisse: “Vamos”. Na hora não tive entendimento, mas na mesma noite daquele dia, meuirmão se foi. Preparou uma beberagem com o veneno destinado às formigas, e nodia seguinte já tinha partido para dentro da terra que queria deixar. Era um modode dizer adeus, e nunca partir. Era lá o jeito dele. Tal qual o asno de Buridan, queimpossibilitado de escolher entre os dois feixes de feno, deixou-se morrer de fome. O corpo enterramos ali bem próximo dos dormentes abandonados. Foi aíque entendi. Alterar um caminho pode ser coisa de vida ou morte. Até mesmo umaestrada de ferro. E os que não tomam às rédeas de suas mudanças, perecem oumudam à força do querer de outros. Depois que os parentes e os poucos vizinhos despediram-se deixando seuspesares, nem houve conversa. Pai e mãe já não choravam mais, a morte era cor-riqueira naquelas bandas. A malária, como dizia. Ela mesma já tinha me levadoembora outros irmãos e conhecidos. Era assim e ponto. Quando não há o que dizer,é melhor calar. Fomos cada qual para os nossos afazeres, agora assombrados pormais um montinho de terra. A vida é assim. Uma planta franca, regada de desesperança, esperandoum chuvisco de alegrias. Elas vinham também. Naqueles momentos em que seouvia lá longe o apito da composição, em seu andar marchado, lento, rapidamentea meninada acorria aos trilhos para acenar aos que passavam. Não era raro querecolhíamos presentes lançados sabe-se lá por quem, uma bolacha, um pão, dealgum sabedor das dificuldades daquelas paragens, ou mesmo por que próximo dofim da linha, já não se achava serventia para aquilo. Vinha lento, mas sumia célerena próxima curva dos trilhos. Nós nos voltávamos para o que se havia de fazer. Até que um dia silenciou-se por completo. Houve rumores sim, mas quem éque haverá de crer, que um caminho deixaria de ser aquilo para o qual foi criado. Oser necessita da forma e da substância, a primeira foi sendo comida pelo coloniãoe a segunda foi ascendendo para memória, já vizinha do esquecimento. O caminhovoltou às costas para o seu destino e se foi. Acho que foi esta a minha cisma, sabe- 85
  • 86. doria das charadas que os antigos nos contavam. O burro sabendo o que o homemnão sabe. Os vivos andando, e os mortos cantando. Lembro que algum barulho ou movimento me tirou destas lembranças.Logo o pai chegaria ao casebre trazendo quem sabe a notícia de algum outro ser-viço para fazer amanhã. Outros tocos a desencravar para dar lugar às pastagensdos bois. Resoluto, fui ao quartinho, pus toda minha vida num saco e abracei minhamãe, ensaiando uma despedida. — Eu vou. Parti apenas com um sujeito e um verbo. Uma oração. Atrás um antigo caminho. Lussanvira.*Francisco Carlos Pereira mora em Araçatuba desde 2000, fiscal de renda, não possuilivros publicados. E-mail: Chico.dada@hotmail.com86
  • 87. O beijo da serpenteRita Lavoyer* – 2.º lugar – categoria regionalJ acobson tocava a sua harpa serenamente no alto da torre. Através de uma abertura assistia à paisagem do mundo. Era belo o mancebo que, imberbe, se apresentava músico para o universo. Sua musicalidade ecoava por entreos sons do movimento do vento. De quem herdara tanta beleza e quem lhe teriadado o instrumento, confinando tamanho talento entre paredes? Quando a músicacessava, ela forçava seu rastejar adentrando a mata. Era claro o dia, ele apareceu tangendo com seus dedos de brisa suaharpa, soltando ao tempo seus poemas em notas. Eles repercutiam um estímulo demarcha na serpente que vibrava ante a harmonia daquele som. Chegou rastejandoe se pôs de cabeça erguida querendo alçar o seu corpo longilíneo para alcançar omais alto do seu desejo. Mantinha-se ereta apoiando-se no pedestal de sua caudaenrolada e desenhava uma silhueta sedutora na dança que fazia para chamar aatenção do músico, sibilando. Sua língua bífida tateava a atmosfera sedutora queansiava produzir. Por quê? – Há tempo, vejo-te por aqui. O que pretendes, senhora cobra? – Oh, tuas melodias vibram-me o corpo e hipnotizam os meus olhos sempreabertos. Agradam-me deveras. Quero que saibas: tocam-me a alma – Tens uma alma? Por que eu acreditaria em uma cobra? – Há muito me encantas. Quem és e qual o teu nome, meu querido? _ Meu nome é Jacobson. Quem achas que sou? _ Certamente és um anjo. Vives nas alturas, meu querido anjo! – Não sou o teu anjo, cobra! Mas muito me admira saber que apreciasas minhas canções. É dom celeste, entendes? Ninguém me ensinou. Quando eucomeço a sentir alguma coisa que não sei nomear, dedilho as notas e o sentimentopassa. – E o que um anjo sabe sobre sentimentos? Anjo sente dor? – Sei que há os bons, puros, próprios dos anjos. – E como sabes distinguir os bons dos maus sentimentos, se os dos anjos, 87
  • 88. como dizes, são somente os bons? É por isso que tocas, por que te confundes como que se passa em ti? – Não, senhora cobra! Toco por que me foi dado este dom. Preciso aprovei-tá-lo a contento da criação. Não vens ouvir-me? Faço-te, pois, o bem. – Hum...não ouço, sinto vibrações. Queria ficar ao teu lado, apreciando-teenquanto tocas. Se me fazes o bem estando distante, juntos seria melhor ainda. – Não seria má ideia ter uma companhia por aqui. Mas se não ouves, comodialogas comigo? Estranho... Vivo tão só. Ninguém vem visitar-me. Sinto-me exclu-ído do plano das entidades, só porque nasci com uma anomalia. Percebes que nãotenho asas? Se eu as tivesse, voaria pelo espaço abençoando todas as criaturasque amam. – As asas não te seriam um fardo? Sentiste alguma vez uma ardência den-tro de ti? Aquela que se sobrepões à lucidez? Não gostarias de ser um anjo dapaixão, para unir os apaixonados, ajudando-os a decifrarem a língua um do outro,para, depois, se fortalecerem no amor? Do contrário, não perderias o teu tempo ea tua razão? – Perguntas demais, confundindo-me! Não sei o que é esta ardência aque te referes, mas... Só sei tocar este instrumento, presente de batismo. Quemquereria a companhia de um anjo que só sabe tocar harpa? Nem amigos tenho.Aceitarias um anjo por amigo? – Queres-me tua amiga?! Gostaria de voar para alcançar-te. Bater à cabe-ceira da tua cama, reanimar-te nas madrugadas febris, pois tocas nas madrugadastambém, já rastejei até aqui muitas vezes, vibrando com as tuas notas à luz do luar.Sentes que alguma coisa corre dentro de ti, por isso tocas melancolias enquanto abrisa do luar te lambe a testa. Estás sempre nu neste período. Serpentes causammedo, fazemos relação com o demônio. Devoramos os que nos afrontam. Somoso símbolo do pecado. Não temes as serpentes? Eu sou má! Quando toco a minhaboca... – Sim, eu as temo! Mas me pareces tão leal! Não és uma serpente. Vem aoencontro das minhas canções quando eu as toco. Se eu souber que virás, tocá-las--ei ainda melhor. És diferente aos meus olhos. –Toca uma das tuas canções. Quero dançar para ti, vibrando. O que pretendia? Aceitando aquela ordem, o anjo provocava com os dedosmovimentos delirantes nas cordas do seu objeto de trabalho. A serpente se con-torcia num êxtase incontido, arrastando sobre o solo parte do seu corpo. Saltava88
  • 89. do chão, escancarando a sua boca, cumprindo o dever de mostrar ao mundo assuas presas por onde escorria, abundante, a sua substância, umedecendo aquelasuperfície sobre a qual demarcava terreno. A sua língua degustava, de longe, arubra cor da face do anjo. – Preciso recolher-me agora, permites-me, senhora? – O movimento da minha dança te constrange? Sem resposta, a serpente ficou observando o clarão que ele deixou em seulugar. O que promovia tanta claridade que lhe ofuscava os olhos? Alguns dias sepassaram contaminados pelo silêncio massacrante que o anjo deixou. Não apare-cera, deixando aquele réptil incitado. Ela bailava seu corpo e silvava, fazendo pingarsobre o solo o seu veneno mortal. Insatisfeita por não ser ouvida e vista, debatia--se tentando transpor aquela construção, deixando em cada ataque obsessivo amarca da sua existência. Travou uma luta com aquelas pedras sobre pedras. Nãopodendo mais, rendeu-se àquela compulsão. Por que tamanha entrega? Quandopressentia o último suspiro, a sua fosseta captou uma nota musical chamando-apara a ressurreição. – Senhora cobra, estás ai? Senti a tua falta, única presença que me alegra-va o dia. Fiquei imensamente triste por não ter-te diante dos meus olhos. Fugiste?Sabia que não te teria por amiga, por isso adoeci. Uma parte do meu corpo tornou--se estranha. Orei muito sobre as escrituras para conseguir livrar-me da fadiga queme atormentava. Preciso de ti, do teu bailado no ar, como de uma santa. – Meu anjo, não saí daqui desde a última vez que tocaste. Entreguei-me aofim. As tuas canções são o meu pretexto. Mas és tu o meu motivo. Estive presente.Os teus olhos não enxergam a raiz do teu império? Não foi dado a mim o dom devoar. Encontras-te nas alturas, eu ao rés do chão. Queria eu ter nascido um anjo,para deixar de conviver com espécies tão vis como as que me rodeiam. – Não gostas dos teus iguais, por isso queres fugir de ti? Não desejas queos tire do mundo, mas que te livre do mal. Tens bondade, eu sei! – A minha ira é sincera, e eu não fujo de mim, mas do meu estado de réptil.Escalar esta parede seria em vão. Poderia rastejar sobre o teu corpo liso, me es-forçaria ao máximo, mas não conseguiria mudar minha condição, o que me seriamuito prazeroso, sentir o calor da tua escultura. – Sentia alguma coisa diferente. Os meus lábios tremiam. Nunca, antes,havia sentido isso. O exterior queria corromper-me o interior. Travei-me em luta. – Achas que foste acometido pelo medo de ficar só? 89
  • 90. – Então, eu tive medo de perder-te? Escondi-me, igualmente o meu talentomusical. Não sei quanto tempo é destinado a um anjo, mas quero que saibas quenão poderia sair desta existência sem ter te conhecido, incomparável senhora. – Precisas ser desejado com o fogo da paixão, esta que te faz levantar nasmadrugadas e prostrares nu nesta abertura, mas que não sabes nomear. Eu o te-nho. Acreditas que uma serpente pode desejar um anjo? Estou fraca. Tua ausêncialevou-me a vontade de viver. Agora, a delitescência proporcionada por tua revela-ção obriga-me demais retribuí-lo. – Desejas a mim, um anjo? Somos de espécies totalmente diferentes. Oque me dizes é nada mais do que uma fantasia bizarra. Mas... As cobras são vivas,inteligentes, sagazes. A senhora é muito boa. Confesso-te que começo a conhecero medo. Despertas em mim aquela ardência a que te referiste. Mudaste o meuritmo. Sei o quanto podemos, quando queremos. Queres a mim, não? Oh, divagueinum desejo incontido de ser amado, o que eu nunca fui. Vê! Não estou num templo.Estou quase nas nuvens. A mim nem preces, quanto mais oferendas. – Estás carente. Toque uma música, meu anjo. Irei retribuí-lo agora. Novamente, obedecendo à ordem, notas jorravam das alturas compondoum maquinismo que fazia funcionar um bailado de fricção na terra. O que se passa-va oculto lá em cima para que ele se deixasse induzir pelos impulsos da serpente,projetando uma correspondência entre terra e céu? – O que farias comigo se eu te permitisse? – O que queres que eu te faça, farei. Serei a tua serva. – Não te quero serva. Vou recolher-me agora. Sinto-me mal. Outra vezaquelas aflições me invadem. – Sim, meu senhor! Recolhe-te. Faze penitências, cumpre os teus desíg-nios, eleva-te. Quanto mais alto te mostras, mais ainda te desejo. – Preciso ir e não quero. Despertas em mim um sabor diferente do ar davida. Tuas cores vibrantes me atraem. Apesar de me vires anjo, não tenho potencialpara tanto. Quero-te, sim, como companhia enquanto toco solitário aqui em cima,acredite! O teu rastejar me fascina. Descer não posso. Tenho certeza que conse-guirás subir. Podes! – Encontras-te em uma altura além da minha capacidade. Rastejar é a mi-nha condição. Não tentes descer. Somente asas me permitiriam chegar a ti. – Podes tanto quanto queres. Não te deprecies, minha querida. O resulta-do do que desejas está na confiança que deves ter no teu potencial. Pois o tens.90
  • 91. Conheço-te minha senhora. Tua presença e as lembranças de ti alteram-me oraciocínio. As sensações que me atormentam as noites têm o teu nome, Rainhados Anjos. O caminho que escolheres para segui-lo, vendo nele a luz, ali estará atua verdade, e ela te libertará. Eu te espero, dividirei contigo a altura que me foiconcebida. Emprestar-te-ei os meus olhos para que, através deles, vejas o quecorre pelo universo. – Desperta em ti a paixão. Falas parecendo ter propriedades sobre o as-sunto. Começas a conhecer outros sentimentos, meu senhor. És uma entidade.Promove um milagre. Leva-me a ti. – Terás as asas que quiseres ter, se acreditares que conseguiras tê-las. De-seja-as com força e promove a tua metamorfose. Chegarás. Vem, eu preciso de ti! – Senhor, meu anjo, desejar-me colocaria a tua essência à prova. Apesar deas tuas palavras serem claras e seguras, pareces estar sob o domínio da fantasia. – Senhora, o desejo desconhece proibições. Serás minha tanto quanto a féé do meu Senhor. Conhecer a verdade é descobrir o sentido da vida. Advogo por ela. – Falas em fé?! Acredito que a tens em demasia. Rio ao mesmo tempo emque me atormento. Vejo-te criança e falas como gigante, embriagando-me. – O que fazes de mim? És, pois, a minha sombra. Andas ao meu encalço.Se aí embaixo eu estivesse, lamber-te-ia os pés, posto que não os tem, todo o teucorpo esguio, por compensação. Aqueles impulsos, por ambos questionados, dominaram a situação, e asmotivações celestiais conseguiram transformar o biotipo da serpente. Quanto eaté onde a crença pode arrastar o crente? Teve a sua temperatura alterada, des-pertando sensações incríveis naquele réptil ao ponto de não mais sentir as suaspresas, devido ao grande esforço de pensamento que fizera para que chegasse àtransformação que a levasse ao sagrado. O seu veneno parou de pingar. Melodias,as melhores até então nunca ouvidas pela natureza, eram ensaiadas pelo anjo,para celebrar a conquista que ambos tanto almejavam. Não tendo medo algumde se entregarem àquele encantamento, a serpente transcendeu e as suas asasapareceram um dia, enquanto o sol namorava o horizonte. Entorpecida naquelarealidade, ela tremia a sua nova fragilidade. – Percebes, meu senhor, que passo por transformações? Conseguiste pro-mover o teu milagre. Chegarei até ti para depositar em tua boca o meu beijo, emseguida arrancar-te a puríssima virgindade. – Rainha dos Anjos, foste audaz. Estive contigo, vibrei no mesmo plano, por 91
  • 92. isso conseguiste tão belo feito. Sobe. A altura te espera. Traze-me uma pedra quebrilhe. Ela pesará sobre a nossa história. Serás o meu Anjo Custódio. Não questionando aquele pedido, saiu à procura da pedra e lapidou-a. Numesforço incrível, forçou uma subida e caiu na primeira tentativa. – Não faças desta pedra um obstáculo. Terás que subir com ela, senhora. – Para colocar na tua boca o meu beijo, esta pedra não será pretexto paradesistência, mas tão somente outro motivo para a minha estada na altura. Concentrada no seu objetivo, abocanhou a pedra, forçou outra subida, equando chegava no alto faltaram-lhe as forças. Jacobson agarrou-a, deixando caira sua harpa, que foi batendo nas paredes daquela fortaleza, chegando esfaceladano chão. O anjo sentiu a perda do seu bem precioso, mas não deixou que a suaaflição atrapalhasse aquela apoteose. – Disse que conseguirias, serpente! Atravessa o umbral da eternidade agora. – Meu senhor, me chamas serpente? Fiz-me diferente para alcançar-te.Não me vês também um anjo? É grande a claridade aqui, quase machuca a minhavisão. Trouxeste-me ao teu patamar, acreditando em mim o que eu não supunhaexistir. Na minha fraqueza fizeste-me forte. Aqui está a pedra que pediste. Nestaaltura em que te encontras, há mais aberturas por onde podes ver outros lados domundo! Julgava apenas uma. Tocavas nestas outras fendas também, quando nãotocavas para mim? – Todas as aberturas são queridas. Conseguiste esta. A claridade é o teuponto de vista. Do mundo que vieste não vias a vida girar? – Não! Via apenas a vida subir e ganhei esta passagem. Tudo o que maisdesejo é beijar-te. Subi aqui para isso, meu senhor. – Não! Primeiro promove a realização dos sonhos que me ensinastes a so-nhar. Passeia sobre o meu corpo sem saíres dele. Arranca-me a virgindade, dá-meo prazer de conhecer a tua paixão neste nosso delírio. – Não sabes nada sobre prazer, meu anjo. És ainda uma criança e eu te tra-rei à vida. Quererás, depois deste momento, ser o anjo da paixão como te propus.Vejo-te tão igual a mim. Tens o corpo tão quente quanto o seio que amamenta acriação. Ele esquivava a sua boca das investidas dela. Naquele momento de entregamútua, a serpente gemeu revelações de amor e os corpos se entrelaçaram. Nãodava mais e ambos se pediam. Jacobson saboreou a boca da serpente cravandolhe as suas presas mortais, injetando nela o seu prazer, arrancando-lhe a língua.92
  • 93. Transmudando-se ao seu estágio primeiro de víbora, Jacobson condena-a, tentan-do emparedá-la no poço interno, para juntar-se aos muitos restos de outras vítimassuas. – Ficarás eternamente lá, na raiz do meu império, arrastando-te sobre osrestos dos teus iguais, por castigo, por teres traído a tua espécie, amando, cobraidiota! Concretizaste-me anjo a partir da tua visão ilusória. Soubesses de ti, teriasentendido o meu nome. Faço o que fiz para honrar a minha raça. Não traio. Eucumpro com propriedade, por experiência. Com esta pedra pura que me trouxeste,aumentarei este monumento que tanto vislumbraste. Respondo tuas perguntas? O que a serpente desejava dizer naquele momento? Cessado o seu trabalho, ele jogou-se do alto e saiu rastejando. Adentrou oseu berço e desapareceu sem olhar para trás, como sempre faz. Sem ter atingidoo solo interno da torre, a serpente jogou-se para alcançá-lo, mas o seu corpo aladode ilusões plainou no clarão das alturas. Ali, permaneceu buscando uma canção,até o tempo de enxergar Jacobson lá embaixo, entregue ao pé daquela fortaleza.Ela o supôs velando. Caindo, porém, em si, a queda dela foi evidente. E como pedra, um réptilsobrepôs-se ao outro.*Rita de Cássia Zuim Lavoyer mora em Araçatuba-SP, é formada em Letras, escritora comvários livros, militante contra a prática do bullying. E-mail: ritalavoyer@hotmail.com . Seublog: http://ritalavoyer.blogspot.com 93
  • 94. O Loiro e o “Ouro Negro”Larissa Alves* – 3.º lugar – categoria regionalAraçatuba-SPO uve-se um grito: - Pega essa! Loiro, presta atenção! Pega de canhota e toca baixinho! O menino franzino teve um segundo de dúvida e correu para atender aordem do companheiro. Viu Pretinhos receber bem a sua passada e perder o gol...Puxa! Quase! Era para ter sido um gol lindo... Ficou olhando ainda o menino chutaro chão com a chuteira remendada e gasta. E enquanto a bola ia deixando os limitesdo jogo ficou olhando para o estranho ritual de virar o boné de lado e beijar o dorsoda mão - três vezes: dizia que era pra espantar o azar. Pensou naquele apelido. Pretinhos era ruivo, de sardas e tudo o mais... E oapelido esdrúxulo ganhara quando, aos três anos, descera a rua gritando: eu vi ospretinhos da pretinha da D.ª Jocê! Eu vi, eu vi. Bem, a pretinha da Dª. Jocê cansou do emprego de doméstica e das indis-crições da molecada e, em um belo dia de sol, botou o pé na estrada: ia ser cantorade rádio lá na capital. A meninada ficara triste... Mais ainda o marido da patroa. Loiro pensou no próprio apelido: ainda não se acostumara e, às vezes, es-quecia-se de responder. Já não estava mais na escola perto da igreja dos patos.Mudara de lá e ia se acostumando no seu primeiro ano na escola nova, que era pú-blica e mais perto de casa. Nova escola, novos companheiros e novo apelido: Loiro. Antes, era o Gato, por conta de uma mancha de cabelo preto, logo acimada orelha, que se destacava nos cabelos loiros muito claros. De xampus a bonés, amãe havia tentado de tudo antes de reconhecer que teria que conviver com aqueladiferença. Quando alguém lhe perguntava, brincava, dizendo que nunca perderia ofilho em uma multidão. “Não tem graça, não tem graça”. A criança saía repetindoenquanto se afastava dos curiosos. É, estava feliz por terem mudado o apelido. Agora tinha que se acostumar ao novo, que soava mais como um nome deguerra e que recebera logo nos primeiros jogos da turminha. Os meninos estranha-ram no começo, um menino alto e franzino, de olhos cor de mel, cabelos muito cla-94
  • 95. ros, de um loiro quase suíço e que trazia de um lado da cabeça uma mancha pretade cabelos lisos e arrepiados, formada por alguma estranha norma da natureza. O corte de cabelo que a necessidade de ir ao barbeiro mais barato da ci-dade lhe impunha, aumentava o efeito da diferença. Mas tudo bem. Assim que anovidade passou, Loiro foi esquecido pelos outros de sua sala, misturando-se aosdemais e o novo apelido veio naturalmente, gritado pelo capitão do time no primeirojogo e repetido pelos outros dali em diante. Levantou-se e limpou o pó vermelho da calça desbotada. Era a terceira vezem que era derrubado por Cojó. Olhou feio para o piá, sentindo que o sangue co-meçava a lhe esquentar, deixando as bochechas vermelhas destacando-se na pelemuito clara. Não gostava de briga, mas também não fugia da necessidade. Davaum boi para não entrar e uma boiada para não sair - não entendia muito bem o queouvia o tio dizer nos domingos à tarde, mas gostava de repetir. Coçou a cabeça eaprumou as costas e o queixo. Queria passar indignação. Encarou firme para o guri, estufou o peito. Era magro, mas tinha boa es-tatura e os ombros largos junto com a camiseta grande, criavam uma figura queimpunha respeito. Por um segundo, pareceu que o outro ia encarar e Loiro respirouforte, esperando pelo movimento do adversário, mas Cojó olhou de soslaio, com oolho direito e depois com o esquerdo, passou pelo garoto à sua frente, uma veze meia seu tamanho, e de canto ainda pôde perceber o olhar belicoso dos outrosjogadores do timinho visitante. Todos esperavam sua reação e ele percebeu que estava em desvantagem.No fim... Desistiu de suas intenções, fingiu uma torção e saiu mancando com o péerrado. Loiro ficou vendo seu agressor atravessar o campinho esburacado, colocar--se atrás da enxada que marcava o escanteio e sentar-se na pedra caiada. Suspirousabendo que não adiantava pressionar o Zé da Garrafa, o juiz daquele campeonato.Ele não conseguiria colocar uma linha na agulha, não enxergava os nomes dosônibus e pedia a bênção para o dentista da ladeira das viúvas, quando ia à igreja. Além disso, só era juiz porque ninguém o queria no time. Suspirou de novo,às vezes, a tranquilidade vale mais do que a justiça, pensou. Sem falar que estavamempatados até agora, sem nenhum gol. Colocou a cabeça no lugar e viu qual eraseu verdadeiro desafio ali. Ele viera para jogar futebol e era isso o que iria fazer. Loiro pensava que as pessoas brigavam muito, e por coisas muito pequenascriavam feridas muito grandes, com suas palavras grosseiras e sua falta de con- 95
  • 96. trole. Ajeitou a camiseta muito grande e alongou os braços atrás das costas. Era sóum joguinho com a meninada, não valia à pena brigar. Olhou à sua volta. Tudo estava parado à espera da substituição. Reparouque o pessoal já não estava tão beligerante. O zero a zero, sem grandes lancese sem uma briga feia fazia o jogo perder a graça. O pessoal tentava convencero garoto ofendido a voltar para a sua posição. Ele não vai encrencar... É só vocêmaneirar um pouco... Tudo bem, sabemos que foi sem querer... E blá, blé, bló... Loiro também pegara leve porque Cojó era filho do professor de gramáticae, apesar de ser menor do que o resto da classe, costumava soltar ameaças vela-das e ninguém queria tirar zero na prova. Era bom sentir-se grandão... Mas sabia que ser menor tinha suas vanta-gens. O maior não podia bater e o menor não podia apanhar... O menor sempretinha febre e ganhava o último pedaço do bolo do domingo... O menor não tinhaque acompanhar a avó à missa, porque, afinal, era muito pequeno... O menor nãotinha que ir pra escola nem fazer lição de casa. Mas, afinal, por que é que a gentecrescia mesmo? Sacudiu a cabeça para esvaziar os pensamentos. Isso porque, às vezes, fi-cava tonto de tanto pensar e por que o pessoalzinho já estava voltando para o jogo. Cojó também veio, já não mancava mais, mas alisava o joelho como se hou-vesse uma lembrança, uma cicatriz de guerra ali. Olhou para Loiro sem, no entanto,sustentar seu olhar. Loiro fez um sinal com a mão dizendo ao menino que deixassepara lá. E ficou olhando enquanto o menino avançava lentamente. Colocou-se em sua posição e olhou para o lado, olhou o campinho marcadocom instrumentos estranhos, enxada, cordinha de varal, mais poeira do que gramae as traves que estavam enferrujadas e em que em uma faltava a rede (por issosempre sorteavam o lado do campo com uma moeda), olhou para os companhei-ros, acabara de entrar para o clubinho e ainda não podia dar sua palavra por eles,não os conhecia o suficiente ainda, mas em um jogo de futebol você conhece aspessoas de uma forma melhor do que vivendo ao seu lado por anos. Por fim, con-centrou-se no garoto ao seu lado, tinha que marcar o menino das chuteiras novas. Olhou bem para elas. Olhou o garoto de roupas limpas, o único ali que nãoestava coberto pela poeira vermelha. Estudavam na mesma escola pública, mas eleera o filho do dono da farmácia e todo o timinho comentara quando ele chegou alicom chuteiras brilhantes e novinhas. Era a inveja geral. Já fazia algum tempo quetodos eles descobriram que elas não viriam pelo Papai Noel (como acontece com96
  • 97. todas as crianças que crescem um dia). Este menino sempre aparecia com algo de novo nos encontros e brinca-deiras da turminha, mas não era sovina, sempre dividia os brinquedos com todos,e foi então que os outros meninos repararam que o menino limpinho era mesmoum tremendo azarão. Nunca pegava na bola, nunca acertava um passe, perdia amarcação e era tão ruim, que os meninos do outro time raramente perdiam tempocom ele, nem falta ele sofria. Foi com muita generosidade, assim, que substituírama frustração pela compaixão e decidiram unanimemente que um menino com tãopouco talento tinha que ter alguma compensação. E renovaram sua fé na justiçadivina. Reparou de novo nas chuteiras do outro e olhou para os próprios pés. O“conguinha” azul, desbotado e coberto de poeira aguentava firme mais um semes-tre, embora mostrando que, como todos os anteriores, iria abrir e rasgar bem emcima do dedinho. Ter uma chuteira garantia uma enorme vantagem competitiva(se estivesse nos pés certos) O “conguinha” calçava praticamente todos do time etodo mundo concordava: de conga não dava pra correr atrás da bola e, se estavacorrendo, não dava pra parar. Loiro tinha um sapato novo, preto e engraxado, cujo solado ainda estavanovinho, que era o sapato de domingo, mas fazia andar devagar porque a fivelaincomodava e marcava o peito do pé. Um dia pedira ao pai, que era sapateiro, pararetirá-la, mas ele lhe explicou que o sapato seria danificado. Por isso, depois dabronca que levara uma vez da “Baba” por ter ousado ir à missa de conga, decidiuque caminhar quatorze quadras não era um sofrimento tão grande assim, além doalívio de tirá-los depois. Lembrou-se da bronca de um mês atrás. Outra bronca que ainda lhe doíana lembrança. Pensou em como tudo era injusto e em como um sonho se desfazem menos de um dia. O tio veio para o feriado, lá do norte do estado, trazendo notícias dos seusoutros dois irmãos. Ele e o irmão caçula gostavam de ouvir, mas sempre pensavamna sorte dos outros. Para eles, dentro da sua perspectiva, no internamento da mãe,quando a família teve que ajudar com as crianças enquanto o pai ia com a espo-sa para resolver os aspectos burocráticos da hospitalização, dois de seus irmãostinham ido com a parte rica da família. Rica na perspectiva de seus 11 anos. Damesma forma que ele pensava que era rico seu tio. Quando ficasse adulto, iria verque um gerente de banco estava mais pra classe média. De qualquer forma, o tio 97
  • 98. sempre trazia presentes e doces. E quando ia embora, costumava deixar um troca-do para cada um e a vontade em cada um de seguir junto com ele. Bem, esse tio foi o mais próximo de papai Noel que o Loiro conhecera etrouxera desta vez o par mais brilhante, a chuteira mais perfeita, um par de kichu-tes. Tudo ficou para depois. Os doces, as notícias, o café com bolo que a avótinha feito. A criança abriu a caixa devagar, curtindo a sensação gostosa, prolongan-do ao máximo o prazer, como quando deixava o chocolate derreter em sua boca.Sentiu a textura, colocou os cordões, aproximou o rosto para sentir o cheiro dobrim e da borracha nova. Um perfume de que ele se lembraria muitos anos depois,porque cada sonho tem o seu perfume e nunca se esquece o perfume de um sonhorealizado. Era sábado e o menino já fizera a lição. Almoçou rápido, comeu a partida deabóbora refogada que a avó colocara no seu prato. Não brigou, quando viu o caçulausando seu chaveiro da sorte e olhou pelo menos cem vezes para o relógio da salaesperando a hora de poder sair para a rua. Quando a avó deu a permissão, já estava com a mão na maçaneta da portade trás (porque pela frente só as visitas), trazia nos pés o ouro negro. Loiro viu a turminha reunida na esquina. Caminhou devagar, pois aindaprovava a sensação da chuteira nos pés. Quando chegou perto, parou e ficou es-perando, de braços cruzados e um sorriso misterioso. Os meninos olharam, seuscompanheiros perceberam rápido, chegaram perto e logo formaram um pequenocírculo e se formou o zum-zum-zum... Loiro começou a explicar: - É, ganhei hoje. Foi, foi daquele meu tio. Pode ver: é nova mesmo! Olha astravas e sente o cheiro. Passada a emoção da novidade e combinada a brincadeira, Loiro correupara os fundos da casa da avó e, debaixo da casa e de perto das gaiolas tirou ocarrinho de rolimãs. Tinham passado a semana terminando de incrementar: novos rolimãs (éque o ajudante da oficina estava de férias e ficou mais fácil para os meninos conse-guirem os recursos... Da maneira alternativa que sempre faziam, mas sem precisarfugir às pressas do dono que agora não podia vigiar tão bem o armazém detrás).Além disso, Loiro tinha reforçado a parte da frente e o carrinho ganhara novo ali-98
  • 99. nhamento. Era a hora de ver quem era o melhor. Todos se colocaram em posição. Diferente do futebol, ali era cada um por si,embora, às vezes, tinham seus pares, com quem dividiam o carrinho, os esforços ea glória. Loiro estava sempre sozinho, seu irmão caçula ficava na calçada torcendo.Tinham tirado a sorte no palitinho e depois das três corridas que completavam todaa prova, Loiro ficara em segundo lugar. A corrida funcionava assim. Em um primeiro momento, todos os carrinhostinham que ser inspecionados, ali todos eram iguais e não valia a ajuda de adultos.Subiam até a ladeira entre a rua da Igreja e a rua da casa da mangueira, porqueera a mais íngreme e não tinha muito movimento (bom, naquele tempo, a cidadeinteira não tinha). Eram oito corredores, por isso formavam duas linhas de quatrocarros e sorteavam no palito quem ficava na frente e quem iria para trás. Faziamtrês corridas, na primeira, quatro eram eliminados, na segunda, dois, e na últimacorriam apenas os que ficaram e tinha-se um ganhador. Loiro passou por todas, teve a sorte de largar na linha de frente, mas nomeio da descida da última corrida, alguma coisa fez o carrinho pular e isso deixouuma vantagem para Vadinho chegar na sua frente e ser o vencedor desta vez. Isso não seria realmente grande coisa se fosse visto do ponto de vista deum adulto, pois as crianças repetiam essas corridas quase todos os dias, masperder sempre deixa um gosto amargo na boca. E não importa quantos anos vocêtenha, principalmente se for um menino, mesmo que seja um grande menino ouum menino grande, vai doer. Não muito satisfeito e ante o fim das luzes da tarde, juntou seu orgulho, oresto de vaidade e o carrinho que precisaria de novos reparos e entrou na casa daavó, batendo o portão que não fechava direito, atrás de si. Estava cansado e frustrado por não ter o primeiro lugar, mesmo assim, nãotinha noção do desastre que estava por vir. Não teve nem tempo para se preparar,pois quando abriu a porta e entrou na cozinha, a avó mal passou os olhos por ele, jálevantou e sacudiu as mãos com água e sabão, e o Loiro só percebeu a dimensãodo desastre quando ela arregalou os olhos até colocá-los quase para fora do rostoe começou a gritar: - O que aconteceu com o seu tênis novo?!?!?! E no meio de uma torrentede palavras, em que se misturavam duas línguas e que batiam e voltavam contrao estado de choque do menino, ele ficou ali parado, segurando ainda a porta dosfundos, sujo e suado, sem entender direito o que acontecia. 99
  • 100. A avó não parava de gritar e de sacudir as mãos, o sabão caindo por toda aparte e o menino tentando se recuperar do susto. Só então, Loiro olhou para seuspés e o que fora um momento de sonho, virou em uma coisa preta, suja, deforma-da, e com a sola totalmente gasta, mostrando a parte de uma unha do pé esquerdo. Só então, Loiro percebeu o preço de ter um freio eficiente e o cheiro de bor-racha. E as orgulhosas marcas no chão da ladeira foi o que restou para consolá-lo. Olhou de novo para o kichutes: olhou bem, levantou um pouco o pé e virou.Desligou a voz da avó que repetia alguma coisa sobre ser responsável e cuidadoso,e praguejava na sua língua natal, “será que não entendia como era difícil compraras coisas, e blá, blé, bló...”, pensou com alívio, que guardara o conguinha... Sen-timental, talvez... E uma emoção deliciosa veio com a lembrança do espanto dos meninosquando haviam visto as chuteiras novas e as marcas no chão que pareciam marcasde um carro. Isso, esta lembrança, ninguém poderia tirar dele, ninguém, nunca! Todos têm seus momentos de glória, ele teve um domingo inteiro.*Larissa Firmo Alves Marzinek está em Araçatuba há menos de dois anos, procedênciade Curitiba-PR. Professora de Filosofia do Direito, possui artigos publicados nas áreas deDireito e Administração. Escrever textos literários é passatempo.E-mail: lfam1969@gmail.com100
  • 101. IluminadosJúnior Viana* – menção honrosa – categoria regionalAraçatuba-SPC aminhavam pelas ruas, desvairados, olhando para os próprios dedos, aper- tadores insones daqueles objetos estranhos e reluzentes. Pareciam per- didos, alienados, expostos ao devir e, ao mesmo tempo, distantes de seupróprio eu. Aliás, não se podia perceber ao certo onde firmavam seus olhos, sefirmavam em algo, algum lugar ou coisa. Na verdade, pareciam nada olhar. Seusdedos? Seria um grau de autismo não condizente com suas outras posturas, apa-rentemente naturais. Aquele objeto estranho? O que de tão importante aquilo lhesmostrava? Sim, deviam olhar para o nada. Mas, como olhar para o nada olhandopara algo? Cabeças vazias... Típicas daqueles dias desprovidos de descanso, dosquais mal se espera o fim para enfim, olhar para o nada. Mas ainda não era o fim,pelo menos do dia. Não! Restavam ainda algumas horas de trabalho, ou de estudo,ou do que for, para depois, aí sim, chegar o tão aclamado descanso. Continuavam a andar, com pequenos lances de olhar para os lados, comoos de quem foge. Fuga? Seria a cena realmente uma fuga? Mas de quem fugiam?Às vezes de seu próprio eu... De sua própria realidade... Ou daquela que os cerca.Fugidios ou não, prosseguiam. Mas para qual rumo? Não se sabe... Afinal, prosse-guiam ou seguiam? Prosseguir leva a entender continuidade, e essa possibilidadeos olhares desatentos anulavam, visto a aparência de um nada interior. Já seguir, émais provável, ao se levar em consideração o fato de que quem nada tem, a algosegue. E, se seguem, é porque admiram. Contudo, ainda não se sabe. Seus passos se entrecruzavam aleatoriamente, como folhas secas soltasem meio a redemoinhos. Ora... Passos vazios... Como suas cabeças! Pisavam fir-mes sobre o nada acima do chão. Pisavam leves sobre o tudo abaixo de seuspés. Era como se flutuassem entremeio à complexidade existencial e à banalidadefuncional do ser. Ser... O quê? Como sacos vazios, acima de nossas cabeças e 101
  • 102. cheios de nada. Estampados por marcas, produzidos em escala e arrastados pelasalças quando cheios daquilo que nada lhes restará. Vagos... Vazios... Vagantes...Viajantes solitários, enfiados em meio à massa... Que os arrasta... E os oprime, eos espreme, e os deprime. Rimas... Poesia! Ainda existe... Arte? Seguem rumo à luz. Mas não há túnel. Há apenas o fim. E quanto à luz, estáem suas mãos. E continuam a olhar para ela, permeando aquele objeto estranho.Seus dedos, já não bastam o de uma mão. A necessidade é tão violenta que ambasse colidem em gestos ásperos e velozes, apertando vorazmente aquilo escondido ereluzente entre as brechas de seus dedos. O olhar atento, incólume, sacro, insosso.Destemperado, já não vê mais nada. Tudo é nada! Importa apenas o que lhe estáàs mãos e já nem vê quem lhe estende, à frente, a mão. Os olhares fixos, cada um em sua luz, não se cruzam. Olhos nos olhos...Ainda existem outros além dos meus? “Eu me basto”, diz o livro – “seja você mes-mo”. Em meio à autossustentações e afirmações, prevalece a luz. Siga-a! Ela é ogrande guia. Nada mais o é! O outro já não há, a não ser por tropeços involuntários,incomodantes, afinal não há mais toque. Tocar em outro como eu? Não... Remotodemais para nossa realidade. Basta a luz, a mais nada! O toque sobre ela... É elaquem me diz o que é ou não é, mesmo sendo eu o seu “não”. O outro, mesmo já não sendo, ainda o é, pelo menos para si. E se cada umé para si, tem de se conformar com o outro. A isso, um dia, chamou-se convivência.Assim, alucinados pela luz, convivem ou tentam. Mas não se tocam! Mesmo juntos.Entre olhadelas e grunhidos permanecem fixos na luz. É como um coro silencioso,no qual todos fazem o mesmo, sem, portanto, aparentemente fazer algo. Perma-necem. Ou perecem, um a um, lado a lado. Comparsas e opositores. Rumo a ela,rumo à luz. Cada um na sua, ou para a sua. Logo ali, na mesa do bar, quatro luzes se confundem em meio a oito mãosque as esmagam, mas não se tocam, senão aos pares. Conversa, não há. Pelomenos por palavras proferidas. Mas quem sabe, pela luz. Parece que elas se comu-nicam. Algo estranho, pois não há vida ali. Então, como essa “palavra de dois”, essediálogo? Só se levarmos em consideração a função morfológica do A, negando ovínculo entre o Di e o Logos. Aí sim, um não-dois, mas um. O um luminoso e nãovital. Virtual. Mas longe da possível explicação do “all” de toda, como uma espéciede virtude total. Longe disso... O um da luz escurecedora do Di que nos faz um.Um esse, não de único, mas de unidos, dependentes concomitantemente. O um102
  • 103. proveniente da somatória do eu, com o tu, com o ele, rumo ao nós. O um que unee aquece a frieza de tentarmos permanecer um. Ora, naquela mesa não há som. Apenas o uníssono toque de quarenta de-dos sobre as quatro luzes difusoras. Olhos para o centro, para baixo. Olhos não nosolhos. Isso não há. Pai, mãe, filho e filha, a velha e antiga única família, unida edesunida pela luz. Mostram-se apenas os eus desconexos dos seus, mas sem osnossos. Apenas um de cada vez, e ao mesmo tempo. Uma única mesa, quatroentes separados pela luz sedutora de olhares. Olhares para o centro. O centro damesa. O centro das mãos aos pares. O centro da luz de cada um. O centro de seupróprio eu já distante. Distante de si e do outro. Distante da luz. Diante do túnel,sem luz, que leva a escuridão do desconhecer de quem sou. Mas o que seria um? Caberia aqui relação com a palavra humanidade, naqual tomamos o Hum, como os dos talões de cheque, somados à unidade? Seria ahumanidade uma somatória de Uns em unidade, juntos ao H que proíbe a inclusãode algo antes do próprio um? Seríamos então os primeiros, únicos e imutáveis? Ànossa frente nada mais existiria, nem mesmo a luz? Seríamos os mais valorosose infalsificáveis? Sim... A luz não exerceria mais poder sobre nós. Nossos olhosnovamente se olhariam, nossas mãos se tocariam, pronunciaríamos palavras unsaos outros. Seríamos um, final e unicamente, um! A luz já cansa meus olhos, mesmo atrás das falsas lentes de descanso.Meus dedos já desgastados procuram uma forma de findar essas palavras. Meusgrunhidos de cansaço e sono ecoam pela sala. Aqui, apenas eu. Eu e a luz sob osom do silêncio e do apalpar de meus dez dedos. Cá estou, diante da luz, prostradoante a ela. Olho para o centro da mesa. Não emito palavras. Vejo o mundo e aomesmo tempo nada vejo. Apenas a luz e minhas mãos se digladiando sob ela. O si-lêncio me invade, ao tempo do finalizar de minhas palavras insones sob a luz da luz. Silêncio... Luz... Eu... Palavras... Um... Meus dedos... Um... Um... ? ... ? ...* Deusdedt Viana da Cruz Júnior mora em Araçatuba, é músico, produtor cultural, gosta daarte em todas as linguagens, jovem de 31 anos, bacharel em comunicação social, editorde revista, com livro publicado.E-mail: quiproquopio@gmail.com 103
  • 104. IncondicionalLaís Simone Sandrigo*- menção honrosa – categoria regionalBirigui-SPC heguei eufórico da escola naquela tarde. Nossa professora, a senhora He- lena, havia passado um dever de casa um pouco diferente e eu estava ansioso para contar a mamãe e pedir sua ajuda com o trabalho. Deixei minha mochila sob o sofá, ao lado de Catarina, minha irmã maisnova, que assistia a seu desenho favorito na TV. Caminhei até a cozinha, onde ma-mãe mexia alguma mistura na panela, e o aroma da comida se espalhava por todoo cômodo, fazendo meu estômago dar pontapés desesperados. Cerquei sua cinturacom meus braços e recostei a bochecha em suas costas, apertando-a levemente. – Olá David – ouvi sua voz macia assim que ela tocou uma de minhas mãos– Como foi seu dia, querido? – soltei seu corpo, e me sentei em uma das cadeiras,relaxando as pernas que doíam devido ao longo caminho que fazia a pé do colégioaté em casa. – Legal, mamãe... – batia meus dedos na mesa em um ritmo frenético,esperando que ela fizesse mais alguma pergunta. – Nenhuma novidade? Você devolveu o livro da biblioteca? Eu o coloqueina sua mochila. Ah, aliás, quando será a próxima reunião de pais? Preciso saber,David. Você esqueceu-se de avisar sobre a última, e sabe que eu não gosto deperder as reuniões... Sorri sem saber por qual questão começar, mas ela parecia tão entretidacom o jantar que eu resolvi responder a todas as perguntas com um “sim”, e final-mente contar sobre meu projeto. – Mãe, tenho que plantar e cuidar de um feijão. – Um feijão, David? Pra quê? Isso é coisa de jardim de infância, e não deum garoto de quase onze anos. – Faz parte de um projeto de ciências. Acho que vai ser divertido. Nós te-remos que anotar sua evolução todos os dias e depois levá-lo para que a senhoraHelena veja como ficou.104
  • 105. – Tudo bem, querido. Mais tarde eu te ajudo com isso. Agora vá para seuquarto, tome um banho, e venha jantar. Não queremos que seu pai brigue conosco,não é? – senti a voz dela estremecida, e assenti com a cabeça, calado. Eu sabia o quanto ela temia meu pai, e o quanto nós todos tentávamos nosempenhar para nunca aborrecê-lo, mas nem sempre dava certo. Às vezes, elechegava tão bêbado que se trancava no quarto com mamãe, e eu podia escutá-lachorando enquanto implorava-lhe para não machucá-la. Nós nunca comentávamossobre isso no dia seguinte ou em qualquer outro momento, mantendo o medoescondido embaixo de uma camada de acomodações e mentiras. Eu temia que aodizer algo ou tentar defendê-la, só piorasse as coisas, e não queria ser culpado pormais sofrimento. Então, me comportava sempre bem e seguia as ordens de mamãepara nunca deixá-lo irritado. Voltei à cozinha depois de um tempo, com os cabelos ainda molhados echeirando a morango, graças ao xampu que eu costumava “pegar emprestado”de minha irmãzinha. Ela tinha apenas quatro anos, mas era bem esperta pra umagarota com tão pouca idade. Catarina, que estava encolhida em uma das cadeiras, esticou os braços emminha direção, assim que me viu entrar no cômodo. Abri um sorriso afável, obser-vando-a por alguns instantes. Eu tinha que concordar quando todos os conhecidose familiares comentavam sobre o quanto ela e mamãe se pareciam. Nossa mãeera pequena, com uma estrutura tão frágil que ao abraçá-la era possível sentircada osso de seu corpo. Mas ela não tinha uma aparência doente ou algo do tipo.Era bonita, tinha as maçãs do rosto sempre bem avermelhadas e olhos castanhos,exatamente na mesma tonalidade que seus cabelos. Esses, por sua vez, caíam emfios retos na altura dos ombros, e estavam sempre bem cuidados e com um cheirobom de algum tipo de flor. Minha irmã era igualzinha a mamãe, bem magra também, de olhos escurose grandes, e com os cabelos da mesma cor, porém mais curtos. As duas possuíam até mesmo características psicológicas muito parecidas.Eram amorosas, delicadas, e acima de tudo, muito persistentes. Nunca desistiamse acreditavam numa remota chance, que fosse, de algo dar certo. Nossa mãe luta-va tanto para seu casamento durar quanto Catarina lutava para ganhar uma Barbienova no Natal. E eu admirava essa qualidade nelas, apesar de não ter certeza sequeria que as coisas entre meus pais continuassem da mesma forma. 105
  • 106. Sentei-me na cadeira, observando clinicamente o prato sob a mesa, logo aminha frente. Nessa noite tínhamos arroz, feijão, e bife acebolado. Fiz careta, reti-rando algumas rodelas de cebola frita e colocando-as no canto do prato. Mamãemantinha-se fiel à ideia de que um dia eu fosse aceitar aqueles alimentos, e sorrirao final da refeição. Eu poderia até sorrir, mas sem comer aquilo. Quando estava na minha terceira colherada, ouvi a porta da sala se abrir edepois fechar-se com força, causando um barulho alto que fez minha irmã arrega-lar os olhos. Mamãe estava de joelhos sob o chão, em frente à Catarina, tentandofazê-la comer alguma coisa. – De novo dando comida a essa garota? – ouvi a voz grave de meu pai. Olhei-o com o canto dos olhos, estava parado na porta da cozinha, comas mãos nos bolsos, e um semblante cansado. Mas eu sabia que tinha mais quecansaço ali. Muito mais. – Ah... É você Fernando – disse mamãe, sem nem levantar os olhos paravê-lo, continuando com sua tarefa de alimentar minha irmã. – Ela esta grandinha demais para isso, não acha Lorena? – podia sentir otom insinuante em sua voz, esperando alguma brecha para começarem mais umabriga sem sentido. – O jantar está servido, caso queira comer agora – ela disse, ignorando ocomentário. Continuei mastigando minha comida, um pouco mais rápido para que ter-minasse logo e pudesse subir até meu quarto. A presença dele me deixava inquieto,ainda mais se eles começassem a discutir. Observei-o andar até a geladeira, sem dizer qualquer outra palavra, e pegaruma das dezenas de latas de cerveja que colocara ali. Abriu-a, tossindo seco emseguida, e voltando até a porta novamente. – Você deveria comer algo... – Mamãe tentou ser dócil, tomando cuidadocom as palavras. – Fecha essa boca! – disse áspero, e dirigiu-se até a sala, jogando-se napoltrona de couro marrom. Depois que terminei o jantar, deixei o prato e os talheres na pia, e decidi iro mais rápido possível para meu quarto. Fechei a porta, e subi na cama, sentando--me em posição de índio. Os pensamentos submersos em como faria meu dever106
  • 107. de casa. Não queria esperar para isso. Queria começar já, naquele exato momento. Lembrei-me de um potinho de plástico de Danone que eu usava paraguardar insetos mortos. Uma antiga coleção que eu costumava ter. Não foi difícilencontrá-lo, e depois de jogar todos os insetos – que moravam ali – no lixo, lavei--o no banheiro e o trouxe de volta para o quarto, deixando-o sob o criado mudo.Então, mesmo não querendo voltar à cozinha, decidi descer novamente as escadase procurar por um feijão e algodão. Não vi meu pai ao passar pela sala, mas assim que entrei na cozinha depa-rei com mamãe debruçada sob a mesa, a cabeça escondida em baixo dos braços.Eu sabia que ela estava chorando. Mais uma vez. – Mamãe? – chamei-a. Ela deu um salto para trás com o corpo, espantada. – Ah David – tentou limpar os olhos com as mãos – Está tudo bem, filho –afirmou com a voz baixa, e nós sabíamos que não estava. – Onde está Catarina? – perguntei um pouco aflito, lembrando-me que daúltima vez que a vira ela estava ali jantando com minha mãe. – Já está dormindo, querido. Não se preocupe com isso. Porque você aindaestá acordado, aliás? – suas palavras saíram um pouco mais claras, sem o timbrechoroso. – Vim buscar algodão e feijão para o meu trabalho... Cadê o pai? – lembreidele, por fim. Rezando mentalmente para que estivesse dormindo também. – Ele precisou sair. Ligação urgente de um amigo – seu olhar estava fixo emalgum ponto da cozinha, distante e frio. Ela não acreditava naquilo. Tão pouco eu acreditaria. Podia até não sergente grande, e ela podia inventar qualquer história, mas eu sabia a verdade sobreele, sobre o casamento deles, e sobre tudo que acontecia naquela casa. Eu sabiaperfeitamente que os hematomas que apareciam no corpo dela não eram causadospor quedas ou acidentes domésticos. Sabia que ele passava noites foras e não erapor causa do trabalho. Sabia que ele a fazia chorar, e sabia que ele preferia estarem qualquer bar da cidade do que ali, em nossa casa. E sinceramente, eu preferiaque estivesse longe mesmo. Passou as mãos pelos olhos, secando algumas lágrimas presas nos cílios,e forçou um sorriso para mim. Parecia buscar forças em algum lugar dentro de si 107
  • 108. para levantar-se, e demorou longos segundos para que conseguisse. Então, cami-nhou até o armário e pegou um pequeno grão no saco de feijões. Colocou-o napalma de minha mão, e disse: – Pronto, filho. Tem algodão no armário do banheiro, em um pote lilás. Podepegar um pedaço, e depois suba para seu quarto. Agradeci e assenti com a cabeça. Ela acariciou meus cabelos por um ins-tante, fazendo com que eu me sentisse mais calmo e relaxado, apesar de aindatemer pelo seu bem estar. Não conseguia entender como alguém, nesse mundotodo, poderia fazer mal a ela. Caminhei até o banheiro e achei o que precisava bem onde ela tinha dito.Enchi uma das mãos com o algodão, fechando-a em seguida. Quando estava noúltimo degrau da escada, ouvi a porta da sala bater-se novamente. Eu deveria continuar andando, chegar ao meu quarto, e ignorar tudo quepoderia acontecer ali. Mas naquela noite, queria certificar-me de que ele não amachucaria. Observei entre os vãos de madeira da escada, sua sombra adentrar a co-zinha, e berrar alguma palavra sem nexo. Estremeci. Não conseguia escutar a vozde minha mãe. Talvez ela estivesse quieta, ou talvez falasse baixo para ele não sealterar mais ainda. De todo o modo, fiz uma prece mentalmente para que papai docéu cuidasse dela. Fechei os olhos com força, tentando me concentrar, mas fui interrompidopor mais gritos e xingamentos. Dessa vez ouvi sua voz. Aflita, desesperada, implo-rando por misericórdia. – Onde está? Eu a deixei aqui! – ouvi a porta da geladeira se fechar comtanta força que meu corpo deu um salto para trás, sem sair do lugar. Ele deveria estar procurando alguma de suas bebidas, e como sempre,jogava a culpa em sua mulher. Tudo que dava errado, em qualquer circunstânciaou lugar, era culpa de minha mãe. Até mesmo quando estava sóbrio tinha a incrívelcapacidade de humilhá-la o tempo todo, especialmente na frente de outras pes-soas, como se isso o tornasse melhor ou mais poderoso. Para mim só o tornavamais estúpido. – Eu já disse que não sei – respondeu ela alterada, mas ainda assim pon-derando cada palavra que saia de sua boca. – Você mexeu nas minhas coisas mais uma vez. Tenho certeza!108
  • 109. – Fale baixo, por favor, Fernando. E não, eu não mexi em nada. – Quem você pensa que é para dizer como eu devo falar? Comprimi os dedos, apertando o algodão que tinha em mãos, buscandoforças para continuar quieto. – As crianças estão dormindo – afirmou ela, buscando alguma compaixão. – Não faz diferença, Lorena. Agora me diga onde está a garrafa que eudeixei aqui. – Não sei. – Você é uma vadia imprestável mesmo! – sua voz ficou ainda mais alta,quase em um berro. Aquelas palavras fizeram algo dentro de mim se contorcer, edoía bem mais que ralar o joelho caindo de bicicleta. Ouvi um barulho de madeira se chocando contra o chão, e em seguida, elagritou assustada. Então eu não pude mais controlar meu corpo para permanecerparado, apenas escutando tudo. Ignorei todo o medo e sensatez, e desci os degrausem uma velocidade quase mágica, chegando à porta da cozinha dois segundosdepois. Uma das cadeiras estava jogada, de pernas pra cima, ao lado de minhamãe. Papai tinha os olhos vermelhos, e desviaram para me encarar assim queapareci diante a porta. Observou-me por uma fração de segundos sem dizer nada,e depois começou a andar em minha direção, desviando do meu corpo e indo atéa sala. Soltei um suspiro de alivio, e corri até mamãe que estendeu os braços paramim, abraçando-me fortemente. Senti o calor e a proteção que só sentia quandoestava assim, seguro em seu colo. Podia escutar seu coração bater acelerado, eentão ela deixou um soluço escapar, molhando minha camiseta com suas lágrimas. – Eu te amo, mamãe – disse em um sussurro, esperando que ela compre-endesse. Apertou-me mais ainda, respirando fundo, e o seu “também” saiu choroso,mas não importava. Tudo que eu queria era que ela estivesse protegida, e eu estariaali para cuidar, amparar, e curar as feridas que meu pai abria noite após noite. Eununca a abandonaria, e ela precisava de alguma forma tomar consciência disso.Se os super-heróis das histórias salvavam o mundo, eu queria ser o super-herói daminha casa, para salvar mamãe e minha irmã de todo o mal que pudesse existir. 109
  • 110. Mesmo sem saber o que nos aguardava no dia seguinte, ou na próximasemana, ou daqui um mês. Mesmo sem saber o quanto ela ainda iria chorar e oquanto eu teria que ser forte. Mas se precisasse, eu seria. Tiraria coragem de luga-res desconhecidos só pra mostrar que poderíamos superar tudo juntos. Ali, abraçados em uma noite dolorosa e escura, fixei meus olhos em umponto da parede, tentando encontrar uma luz no fim do túnel. Um vislumbre de fe-licidade que deveria existir, e eu sabia que merecíamos. Sem respostas imediatas,respirei fundo, sentindo seu perfume doce, e tendo a certeza de que a escuridãonão iria durar para sempre. Éramos uma família. Eu, ela e Catarina.*Laís Simone Sandrigo, Birigui-SP, 20 anos, cursa Publicidade e Propaganda.Apaixonada por romances, gosta de escrever. E-mail: soul-meetsbody@hotmail.com110
  • 111. O milagrePaulo Coelho* – menção honrosa - categoria regionalAraçatuba-SPE m um recanto do sertão conhecido por Veneno, existe o povoado do Mata Mata. De não mais que 30 casebres, incrustados em lugar horroroso e mi- serável; perdido por Deus e esquecido das autoridades. Casinha aqui, outra ali. Economia de subsistência, da terra quase infértil. Paragem de povo triste, sem eira nem beira, maltratado e sem perspectivas.Conformados e confortados pela ignorância. Plebe feia de dar dó. Em um belo dia triste, surgiu no Mata Mata, viajante desorientado buscandoo arraial do Guariba, buscando indicação do atalho certo, resolveu pedir informe nobarraco à beira da estrada. - Ô de casa! Ô de casa! Dona Joaninha dos Piolhos, que estava em sua rede, realizando a “sesta”pós-almoço, teve um sobressalto: - Oi, tô indo! E coçando os cabelos desgrenhados, rumou ao vestíbulo do lar. - Diga, moço? - Senhora sabe dizer a estrada pro Guariba? - Sim, sinhô, segue reto até a estrada fazê pé de galinha, lá pega o dedo daesquerda (apontava ao tempo que dizia em direção à direita). O viajante agradeceu, e compadecido da condição lascada de Joaninha,resolveu lhe fazer um agrado. Minha senhora, tenho aqui no embornal três ovos que catei na caminhada,vou dar a você. Os opacos olhos de Joaninha sorriram. - Deus lhe pague! Mal o viajante deu as costas correu para cozinha e guardou com todo cari-nho os ovos no fundo do saco de arroz. Voltou à rede, mas no resto da tarde foi impossível voltar a dormir, em sua 111
  • 112. cabeça agora além dos piolhos se passavam os três ovos, sonhou acordada comeles até o fim da tarde. Na boca da noite, chega a casa seu Chico das Lacraias, esposo de Joani-nha, e é recebido com euforia pela mulher: - Chico! Hoje um galego passô aqui e deu de presente três ovo! - Num diga! (Chico se enchendo de alegria). - Digo sim, verdade, oi cá (enquanto levantava triunfante o ovo com asmãos). - Acredito não, mulhé, tempão num como ovo! Faiz que vou comê dois. Neste momento, a felicidade se fez desavença: - Como assim come dois? (questionou Joaninha já suspeitosa). Com um ar de autoridade justifica Chico: - Oxente, sô! Carpi o dia inteiro, mereço comê pelo menos dois!! - Não, não! Eu ganhei os ovo, eu como dois! - História é essa, mulhé? - Os ovo são meu, Eu vô come dois. - Cê fica deitada dia intero, eu na roça, eu como dois. E Joaninha já muito azucrinada retrucou: - Eu como todos três! - Como assim? - Eu como todos três! Eu ganhei os três e como todos três! - Não mesmo! - Eu como todos três! A disputa tornou-se violenta com empurrões de lado a lado e a piolhentaque não era de fugir de briga, impeliu Chico com força, que se estatelou no chãoda cozinha, Chico em um impulso de raiva se levantou agarrado em um pedaço delenha, e desferiu com desmedida força um único golpe na fronte da infeliz. Joani-nha soltou um berro aterrorizante e foi ao chão desacordada. Chico das Lacraiasse desesperou: - Matei a mulhé! Pela porta observou que os vizinhos vinham ao socorro de Joaninha, tãorápido quanto pode empregou fuga dali. Seu Bastião Medalha e Mané Comprido que haviam escutado o pavorosogrito rumaram para a casa e encontraram o corpo, tentaram em vão reanimá-lo,mas Joaninha estava em estado comatoso, mais gente foi chegando e após várias112
  • 113. vezes auscultarem o peito, e tentarem sentir os pulsos chegaram à infeliz conclu-são: Joaninha dos Piolhos estava morta! Óbito confirmado, deu-se início aos preparativos do velório. Foram arriadasas redes do quarto e retiradas as cortinas que faziam as divisórias dos cômodos,aumentando assim a capacidade de lotação do barraco, foi trazida da cozinha umavelha mesa e posicionada no centro do grande cômodo, onde acomodaram a de-funta, por fim dispuseram as poucas cadeiras pelos cantos, aos pés do corpo foramreservadas três cadeiras para os rezadores. As notícias correm rápido no Mata Mata, de desgraça então nem se fala elogo toda população confluía em direção ao velório. Cada família que chegava erauma comoção só. A sentinela constituía-se de um ritual regido em seus pormenores: algumasmulheres chorando, outras fuxicando nos cantos, as crianças eram mantidas nacozinha do lado de fora do casebre, e os homens solvendo doses de cachaça ediscutindo sobre o ocorrido. Mané Comprido era o mais revoltado, Já encachaçado amaldiçoava Chicodas Lacraias: - Vou pegá esse desgraçado, onde se viu? Batê em mulhé? Mais vou pegáele e mostra o que é cabra homi de verdade. Com a noite caindo foram espalhadas velas por todo o casebre, e já comeste clima mais nuvioso chegaram os rezadores, que completariam a cerimônia,gente muito respeitada na comunidade, eram eles Seu Reginaldo Mata Junta, SeuRubão e Zizinho Perneta. Este último foi carregado da carroça e acomodado na ca-deira do centro, devido a uma deficiência física adquirida ainda na infância, quandopor curiosidade verteu um tacho de água fervente sobre suas pernas, por pouconão morreu, e depois de meses com as pernas enfaixadas feito múmia e litros debálsamo feitos por Tabajara Curandeiro se restabeleceu, mas teve como sequela aspernas grudadas, ao contrário de que todos arrazoavam levou uma vida normal, setornou artesão, casou-se com Ermelinda Babosa e teve onze filhos. Rezadores acomodados deram início as preces, tudo corria nos conformes,e até a rede que serviria de esquife à finada já havia sido separada. Já na madrugada, Seu Zizinho começou a ter uma inquietação, como quepressentindo o que estava por vir, uma sensação de medo começou a apoderar- sedo pobre coitado, começou a ter impressão que a defunta vez enquanto ajeitavapequenos movimentos, o forte odor de suor e aguardente misturado ao cheiro das 113
  • 114. velas, e o ambiente um tanto sombrio acentuavam o pavor de Zizinho, foi quandoele resolveu confidenciar seu medo aos outros rezadores. - Tem coisa errada, seu Rubão, tem coisa muito errada aqui, eu quero irembora. - Deixa disso, home, não tô vendo nada de errado. - Mais eu acho que a finada se mexeu, eu vou embora. Mas foi pressionado a ficar por Mata Junta: - Pode fazer desfeita dessa não, cê tá aqui pra encomendá a finada, deixade história! Zizinho se conformou com a situação, voltou a orar, mas agora de olhosfechados. Alheia a tudo e a todos, Joaninha começava a emergir do profundo sono,gosto de sangue na boca, têmporas doloridas, tomando consciência, porém aindadesorientada. O povoado inteiro ainda se concentrava no casebre, quando Joaninha emum movimento lento retraiu os braços e apoiou as plantas das mãos sobre a mesa,e iniciou com vagaroso movimento a alçar o tronco. Tão moroso quanto pavoroso,o movimento foi acompanhado por todos os presentes, ninguém teve a capacidadede se mover, jaziam todos petrificados, presenciavam algo surreal como que seestivessem em um sonho em preto e branco acompanhavam a cena em silêncio.Os segundos pareciam horas. Joaninha continuava a se alinhar, ascende à mesa,olhos ainda fechados, tentava se localizar, se entender. No silêncio ouviu-se a vozde Mané Comprido: - Me caguei todo! Dos Piolhos havia terminado o movimento, finalmente sentada, de olhosainda cerrados, cabelos desgrenhados, sangue seco nas comissuras da boca,vieram-lhe finalmente à mente: “os ovos”, arregalou os olhos e fitando os trêsrezadores aos seus pés disparou com grito medonho: -Eu como todos três! Do transe fez se o pavor, a desesperação, enfim o “estouro da boiada” forauns poucos que desmaiaram, todos desejavam escapar da tenebrosa arapuca queo destino lhes havia unido. O populacho desembestado com corpos trêmulos e pelos arrepiados con-fluiu para as duas rotas de fuga: as portas do barraco, mas os átrios não comporta-vam tamanha vazão, teve gente que empreendeu fuga pelas janelas, mas era povo114
  • 115. demais pra pouco buraco, então, sob tanta pressão o casebre fraquejou, as tábuasforam levadas “no peito” pelos desesperados. Uma vez fora do circo de horror, cadaum desempenhava escapada da melhor forma que suas pernas vacilantes lhespermitiam. Na deslavada carreira, foram deixados para trás velhos e crianças, eracada um por si. O grosso da horda a evadida morro acima pela estrada que ia pro Guaribaentre eles estava Mata Junta que, durante a fuga, teve sua consciência pesada:Zizinho, ninguém ajudou o Zizinho. Apresentou presença de espírito, parou e voltando-se à turma em fuga co-meçou a gritar: -Gente, temo que voltá, a ”bicha” vai comê o coitado do Zizinho! Mas ninguém cessava a fuga, até mesmo filhos do Perneta cruzaram emcorreria. Mata Junta fixou olhar nos desgarrados que vinham morro acima e sob aluz do luar foi então que, no meio do bando que subia, vislumbrou algo incrível; emvelocidade espantosa, ultrapassando a todos a largas pernadas era Zizinho Pernetaque gritava: - “Volta correr, as perna despregou”. Mata Junta ainda estático acompanhou com os olhos sua passada por ele,marcha firme, de fazer inveja a atleta de ofício, agora já transpunha os líderes damacabra maratona. Desaparecendo do campo de visão ainda pode se ouvir: - “Volta a correr, as perna despregou!”* Paulo Roberto Barros Coelho mora em Araçatuba, 36 anos, cirurgião dentista, tem ohábito de escrever, mas ainda não pensou em publicar livro.E-mail: paulorobertobcoelho@hotmail.com 115
  • 116. Uma história de grilagemAdemar Bispo – menção honrosa – categoria regionalAraçatuba-SPA inda é noite alta, pode-se ouvir o cricri dos grilos e o coaxar dos sapos, mas Acácio não consegue dormir. Levanta-se e vai para fora, para o terreno em frente ao rancho de pau-a-pique. Está cheio de tocos, dos coqueiros,cortados para a construção da moradia. As folhas formaram a cobertura. Ele estácom um mau pressentimento, de vez em quando tem visões ou sonhos que setransformam em realidade. Com um dos pés sobre um toco, o cachorro Tarzan aoseu lado, ele pica o fumo para o cigarro de palha. Estavam ali para proteger aquela“posse”. Eram terras ocupadas por quem chegava primeiro, geralmente terras semdonos ou sem documentos. O posseiro, quase sempre um fazendeiro, pagava paraque as defendessem dos grileiros. Os grileiros, usando capangas, invadiam estas terras e advogados inescru-pulosos falsificavam escrituras que colocavam em caixas com grilos, para que elescomessem alguns pedaços do documento e suas fezes as deixassem amarelecidascom aparência de antigas. Daí a origem do nome grileiros. Acácio conhecia estatécnica, era usada muito no seu estado de origem, no sul da Bahia, nas terras docacau. Lá os coronéis do cacau, contratavam advogados e compravam os donosdos cartórios, para fazerem o famoso “caxixe”, e ficarem com as terras dos peque-nos proprietários. Acácio não era do sul da Bahia, nasceu em Juazeiro, lá no alto, divisa comPetrolina. Já com o fumo picado passa a palha nos lábios para umedecer e enrolaro cigarro. Junto com a primeira tragada vem as lembranças de sua infância, ven-dendo cocada na orla de Juazeiro. Lembra-se do dia que Zé Bexiga, moleque mau,tomou-lhe os doces, mas seu irmão, Aurindo, mais velho, mais forte, viu e pegouZé Bexiga. Aurindo segurou o moleque e ele encheu-lhe a boca de areia e tapou--lhe o nariz. Tinha de comer a areia senão morria afogado. Eram oito irmãos, cincohomens e três mulheres, a mãe não tinha condições de criar a todos e deu algunspara os parentes. Foi morar com tio Chico, no sítio, na beira do rio, ajudava o tio a116
  • 117. levar os bodes para vender na feira. O tio ensinou-o a nadar... Amarrava uma cordana sua cintura e jogava-o no rio, quando estava bebendo água puxava. Na terceiravez saiu nadando. Com dezessete anos, no dia do Natal, ele, seu primo Emílio e um amigoapanharam o vapor em Juazeiro. Dormindo em redes e comendo paçoca de carneseca com rapadura foram até Pirapora, em Minas Gerais. Ali se separaram e Acá-cio fez o percurso a pé até o interior de São Paulo, parando em várias fazendas,trabalhando uns tempos e seguindo seu caminho quando já tinha um dinheirinho. Um estalar de galho o faz voltar à realidade. Observa, está escuro, tentaouvir mais algum barulho... Nada. Deve ter sido alguma paca ou outro animal, Tar-zan nem se mexeu, permanece deitado ao seu lado, com a cabeça sobre as patasdianteiras. Ouve é o ronco de Mané Vitor dentro da cabana. Todos dormem. Sãoseis, com ele, mas conhecer mesmo só Mané Vitor, que é vizinho na cidade. É umamigo, boa pessoa, mas muito medroso. Tem o paraguaio Solano, sisudo, quieto,de pouca conversa, passa o tempo todo azeitando a carabina e amolando as duasfacas que traz na cintura. Ribeiro vive rindo, ri de tudo, é maldoso, ri das maldadesque faz. Gosta de judiar dos animais. Um dia disse que ia cortar o rabo de Tarzan.Acácio meteu-lhe o parabélum no nariz e disse-lhe que lhe estourava os miolos...Saiu rindo. Todos gostam de Joaquim, rapaz novo, 18 anos. Educado, respeitador, ésim sinhô pra cá... É sim sinhô pra lá, muito obediente. Tem namorada na cidade.Quer juntar um dinheiro para casarem, não participa do jogo de pife-pafe, econo-miza cada tostão. É o melhor atirador de todos. Joaquim não sabe ler nem escrever,Acácio também não, mas diz que o filho vai estudar, vai ser doutor, se não for umneto ou uma neta será. O outro do grupo é Crescêncio, negro enorme, forte feito um touro, negrodos lábios finos, mas com um nariz achatado do tamanho de um jerimum. Feioque só a peste, com uma cicatriz que vai do lóbulo da orelha direita até o queixo.Na venda de Lurdinha, um caixeiro viajante disse que foi uma mulher, na zona deUberaba, que fez a cicatriz. Crescêncio comeu a mulher e disse que não ia pagar.Não se sabe de onde que surgiu uma navalha com um elástico na mão da rapariga,ela lançou a navalha para cortar-lhe a garganta. Ele conseguiu desviar, mas não osuficiente. Deu-lhe um soco, no meio da cara, verdadeiro coice de mula e ela caiumorta com a face afundada. Fugiu, amasiou-se com uma velha que cuidou deleaté ficar bom. Não se sabia mais nada dele e nem o que aconteceu com a velha. 117
  • 118. Agora o barulho não é de animal, seu ouvido treinado consegue distinguiro pisado de gente do de animal. Tarzan ergue-se, as orelhas em pé. Ele tambémpressentiu a movimentação. Acácio vai retrocedendo para o rancho, segurandoTarzan pela coleira, não quer que ele rosne ou dê um latido. Estava certo quantoao seu pressentimento. Tinha chegado a hora, não sentia medo, não tinha medode nada. Só um dia sentiu medo. Foi numa ocasião que sonhou que o filho estavamuito doente. Naquela ocasião, levantou-se de madrugada, calçou a bota, pegouo revólver, chamou Solano e disse para ele tomar conta do pessoal porque ia paraa cidade. Ao chegar numa encruzilhada viu um vulto esconder-se atrás de umaárvore. Pensou numa tocaia, tirou o revólver e gritou: - Saia daí! Já te vi! A pessoa saiu gritando: - Seu Acácio, não atire, é Expedito, vim atrás do senhor e graças a Deusencontro o senhor aqui, porque não sabia que caminho seguir mais. - O que vem fazer aqui? - Sua mulher, dona Flora, pediu para vir avisar que seu filho está muito mal,precisa levar para outra cidade. Respondeu: - Isto eu já sabia. - Sabia como? - Sabia, sabia, vamos logo senão perdemos a jardineira. Quando os médicos os chamaram na sala e disseram: - Voltem, levem o menino para morrer em casa porque não podemos fazermais nada. Ele sentiu medo, muito medo, as pernas amoleceram, as mãos começarama tremer. Ficou mudo, não sabia o que dizer... O que fazer... No trem, olhava fixopara o nada, seus olhos estavam secos, o choro da mulher estava irritando-o. Nãosabia rezar, no seu modo grosseiro pediu a Deus que salvasse o menino. Foi Deusque colocou seu Cassiano no seu caminho. Com três ramos de arruda, o bom ve-lhinho tirou o catarro do peito do menino e mandou a febre para o inferno.118
  • 119. Entrou no rancho, acordou os homens, em silêncio. - Os grileiros estão aí, queriam nos pegar dormindo, vamos tomar posiçãoe fazer-lhes uma surpresa. Ribeiro olhou por uma fresta e falou, rindo: -São nove ou dez, mas burros, porque estão vindo, todos, pela frente. Crescêncio falou: - Melhor assim, é mais fácil para acertar, nem precisa fazer pontaria. Os grileiros se aproximavam, certos de que pegariam todos desprevenidos.Um deles trazia uma tocha acesa, provavelmente iriam colocar fogo no teto e espe-rar que saíssem um por um pela porta, para fugirem do fogo. Acácio olhou e falou: -Filho de uma égua, olha quem os está chefiando.. É o zóio torto, vejam,aquele que até pagou uma pinga pra nós no boteco da Lurdinha. Passou a dar as ordens: - Joaquim, o cabra da tocha é seu. Solano pega o primeiro da esquerda eCrescêncio o primeiro da direita, eu acerto o zarolho e Ribeiro atira nos do meio. Mané Vitor acordou, esbaforido, assustado. - O que está acontecendo? O que foi? Alguém falou: - Os homens chegaram, acorda cabra. Mané Vitor começou a gritar: - Tô com dor de barriga, tô com dor de barriga. E queria plantar bananeirano meio do barraco. Acácio falou para Joaquim escolher a hora que devia atirar, ele daria o pri-meiro tiro, depois os outros iriam atirar. O tirombaço de Joaquim pegou no peito do cabra, que rodopiou e caiu delado com a tocha acessa em cima. Todos começaram a atirar. Foi um tiroteio que até Lurdinha, que morava acinco léguas de distância, acordou com o barulho. Solano gritou: - As balas estão acabando, não vou morrer aqui dentro não. Vou lambê-loscom minha faca. O paraguaio abriu a porta e pulou para detrás dos tocos de coqueiro, pulavafeito macaco de um para o outro, com uma faca na mão e o revólver na outra. Acá-cio também saiu, o parabélum numa mão e o punhal na outra. Mas foi Crescêncio 119
  • 120. que fez os homens correrem. Quando viram aquele negro enorme, correr para cimadeles, de peito aberto, atirando feito um louco e dizendo: - Tenho o corpo fechado, Padim Padre Cícero me benzeu....Eles debanda-ram. O cabra da tocha ficou, o zarolho também e Solano também cumpriu suamissão, deu um tiro de misericórdia no cabra que ainda agonizava. O barulho do tiroteio deu lugar a um silêncio mortal, os pássaros estavamquietos, os besouros não zumbiam, uma ou outra folha das árvores caia fazendoacrobacias. A fumaça ainda permanecia no ar. Os homens se olhavam, só Ribeirosorria. No barraco, o silêncio era quebrado pelo choramingo de Mané Vitor, com abunda para cima, todo cagado.*Ademar Bispo da Silva, Araçatuba-SP, professor por formação, bancário aposentado peloBanco do Brasil, nasceu em Mirandópolis. E-mail: ademar_bispo@hotmail.com120
  • 121. Vidas MortasMarcelo Souza* – menção honrosa - categoria regionalBirigui-SPA única gota d’água que aquela terra recebera nos últimos meses, foram as lágrimas dos seus olhos. Lágrimas de tristeza, de sofrimento. Lágrimas de não sei o quê. Seus últimos anos foram marcados por muito trabalho. Muitotrabalhou, muito plantou, mas, a chuva não veio e as lágrimas que jorraram dosseus olhos, apesar de não terem sido poucas, não foram suficientes para molhar aterra dura e seca do lugar. Ao olhar em volta, teve a certeza, de que, mais uma vez, tudo estava perdi-do. Não houve uma semente sequer que não sucumbira diante da estiagem. Nadabrotou, nada cresceu, nada floresceu. Tudo simplesmente se perdeu, inclusive aesperança, que apesar de ser molhada com o suor do seu trabalho e com as lágri-mas de esperança, também não brotou, sucumbindo à seca. Ajoelhado sobre a terra dura e seca, como se fosse fazer uma oração, cho-ra. Chora a falta de água, a falta de comida, a falta de esperança. Chora a falta defé. Fé que se foi junto com a esperança de dias melhores. Com a esperança de umfuturo melhor para ele, e para a sua família. À sua volta só há tristeza e desolação, não há qualquer resquício de vida,até os carcarás foram embora, voaram para longe em busca de comida. Nestemomento tenta se lembrar de quando vira pela última vez um teiú, ou um pássaroqualquer, mas, não consegue, sabe que os que não morreram de fome ou sede,também deixaram aquele local para tentarem sobreviver. De onde ele está, consegue ver os filhos brincando, alheios a tudo, brin-cando diante da casa de taipa, coberta de folhas de palmeiras. Brincam com ocachorro Abelha, um vira-lata tão magro, mas tão magro que sequer aguenta com 121
  • 122. o peso da própria cabeça e com seus brinquedos improvisados, feitos de madeira,barro e restos de quaisquer coisas que pudessem encontrar. Estão felizes. Correm, gritam, sorriem. Os meninos, três, estão magros e barrigudos. Suasroupas velhas se resumem a um calção e uma camisa, todos muito castigados pelotempo, velhos que só, mais velhos até que eles mesmos. Mas estão felizes, afinal,nada conhecem além da miséria em que se encontram. Quanto a ele, apesar de ter nascido e crescido naquele lugar, está cansado.Cansado de viver. Cansado de sonhar. Sonhar com a chuva no momento certo. Sonhar com uma verde e belaplantação. Sonhar com fartura na mesa. Sonhar com uma vida melhor que nuncaveio. Só ficou nos seus melhores sonhos. Aqueles do passado, de quando aindaconseguia sonhar. Para ele, tudo se perdeu. Os sonhos, a esperança, a vida. Nãohá mais razão para lutar, não ali. Não mais. Por muito tempo viveu de sonho e reza. E como rezou. Toda a noite rezava,implorava para que a chuva viesse no tempo certo, trazendo consigo força e saú-de para sua lavoura. Que viesse trazer água para seus animais, água para a suafamília. Água limpa e saudável. Mas, apesar de tanta reza a chuva não veio. Nadamolhou, nada brotou, nada viveu, tudo se perdeu. Sabia que a falta da chuva não era culpa de Deus ou da sua falta de fé,afinal, apesar de todas as dificuldades que passou, comida à mesa nunca faltou,a Providencia Divina sempre se fez presente, mas, agora, estava muito cansado,muito triste, muito infeliz. Não queria mais esperar. Não queria mais perder. Nãoaceitava mais perder. Não queria mais viver na miséria. Queria mudar sua vida, nãosó a sua, mas a vida de toda sua família. Por isso tomara uma decisão. No entanto, o que poderia lhe trazer esperan-ças, naquele momento trazia-lhe somente medo e insegurança. Sabia das agrurasem que vivia, mas as incertezas do futuro o amedrontavam. Ajoelhado na terrafirme e seca, olhou para o céu e viu somente o sol brilhando forte, onipotente, nãoviu uma nuvem sequer, nenhuma brisa soprou o seu rosto, sentiu somente ummormaço, um calor quase que insuportável. Um calor que destruía aos poucos sua122
  • 123. vida, um calor que destruiu por completo suas esperanças. Por isso, iria embora.Deixaria todo aquele sofrimento para trás. Deixaria aquela vida cheia de privaçõese provações. Deixaria para sempre seu lar. O único lugar que conhecera como lar em todaa sua vida. Onde estavam as suas raízes, a sua vida. Mas sabia também que sedemorasse muito tempo ali, suas raízes ficariam fracas e secas, e também sucum-biriam diante da seca. Como sua plantação, como seus animais. As incertezas quanto ao seu futuro o incomodavam. Várias perguntas semrespostas povoavam a sua mente, deixando-o muito apreensivo. Como seria o seu futuro? O que o esperava nessa nova etapa de sua vida?Mais sofrimentos? Mais privações? Mais provações? A verdade, era ele queria somente uma coisa: dar uma vida melhor paraseus filhos, para sua esposa e para si mesmo. E esta mudança poderia ser o iniciode tudo. Poderia!? Talvez!? Nada era certo. O presente, o futuro. Nada. Mas, eletinha que começar de alguma maneira. Força e vontade de trabalhar nunca lhefaltaram. Nunca. Vendo os restos dos animais mortos pela seca que estavam à sua vol-ta, mortos pela falta de comida, velhas carcaças espalhadas pela terra sem vida,transformando o local em um cemitério aberto no meio do nada. Vendo as árvoressecas, sem vida e restos secos da vegetação que completavam a triste paisagem,rezou. Pediu proteção a Deus, ao “Padim Cíço” e chorou novamente. Chorou poraqueles que já haviam partido daquele lugar, por aqueles que ficariam ali a sofrer,a rezar, a plantar sonhos e esperanças, sabendo que nunca hão de colher qualquerum dos dois. Chorou por ele e por sua família. Chorou por sua vida. Depois, apoiou as mãos no chão e beijou aquela terra morta, demonstrandotodo seu amor por ela. Se despedindo para sempre daquele chão feio e ao mesmotempo, para ele, tão belo. Ao se levantar, viu sua mulher, que, na porta de casa, observava a tudo,num silêncio impassível. Ao perceber que ele a vira, ela entrou. Ele sabia que elatambém sofria com todas as incertezas e privações em que viviam, mas nada dizia,nunca, simplesmente aceitava “seu destino”, em silêncio. Olhou à sua volta pela última vez, procurando absorver cada detalhe, cadasensação daquele lugar, mesmo as mais desagradáveis para que não as esque- 123
  • 124. cesse jamais, pois sabia que dificilmente voltaria ali e que logo, tudo aquilo nãopassaria de lembranças. Somente lembranças. Lembranças do que foi. Lembranças do que poderia ter sido. Após esta “cerimônia”, foi até seus filhos, beijou-os um a um e os abraçoujuntos, tornando-se um só corpo, um só coração, uma só vida. Sua mulher foi atéeles participando do grande e terno abraço. Agora, não eram mais cinco pessoas,cinco vidas, mas um só corpo, unidos pelo amor mútuo. Depois disso, entraram to-dos na casa simples, onde, após se lavarem na água suja e barrenta, fizeram a últi-ma refeição antes da partida: caldo de feijão, farinha e mandioca. De barriga cheia,rezaram com fé, e foram dormir, afinal, antes mesmo de o sol nascer, partiriamdali, para sempre, em busca de uma vida nova, em busca de novas oportunidades,encontrando, talvez, a tão sonhada felicidade.*Marcelo Otávio de Souza, 37 anos, atualmente mora na cidade de Birigui, onde trabalhacomo funcionário público. E-mail: marcsouz@yahoo.com.br. Amante das letras, usa seutempo livre para descrever a sua visão de mundo em vários gêneros literários.www.recantodasletras.com.br/autores/marcsouz.124
  • 125. Contoscomissãojulgadora 125
  • 126. Tio LucasMário César Rodrigues* – Araçatuba-SP – membro da comissão julgadorado 25.º Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba.E le me deixou no início da Paulista, ao lado do Belas Artes. Já estava acos- tumada a ficar sozinha. Tio Lucas recebera um chamado urgente, de um cliente antigo, fiel, não podia fazê-lo esperar. Pedi que me deixasse, fizessea corrida, depois voltasse para me apanhar. Era uma quinta-feira. Eu estava em São Paulo para o casamento da primaAdelaide. Na sexta. O tempo estava encoberto, um pouco frio, mas, na esquina da Paulista coma Consolação, qualquer luz tem sabor de futuro. De solução. Um poeta me disseque a Paulista, vista da Consolação, margeada pelos edifícios, faz-se uma vulvaaberta para céu, uma vagina parideira de promessas. Uma fotografia indispensávela quem tem o hábito de sonhar. Tio Lucas estava separado da Madalena havia apenas dois meses. Ele mecontou que nos últimos anos conversavam pouco e sorriam menos. Disse-me de Madalena e se calou. Como se o fato de me falar o levassea rever seus desacertos no casamento. Alguns assuntos escolhemos para pensar.Outros tomam conta de nós e deles não conseguimos fugir. São mais fortes. Fica-mos absortos, alheados, abstraídos, com o olhar vago. O cérebro se vê tão ocupadoque nos abandona. No calçamento do canteiro central da avenida, um corpo de modelo passouexibindo toda a sua graça, seu jeito espetacular de caminhar, de se ter como se fos-se uma obra-prima de anjos artesãos. Virei-me para o canteiro, empurrei as rodasaté o meio-fio. Eu e mais uma centena de vítimas olhávamos para uma mulher quedevia tudo a Deus. Pernas, joelhos, quadril, peitos, nariz, cabelos perfeitos. Eu nos via vítimas de acidentes genéticos, antropológicos, culturais, climáti-cos e, no meu caso, automobilístico. Quando percebi, uma lágrima já estava pronta. Deus nos trata como se fôssemos um. Que eu seja feliz com a felicidadedela. Que o seu prazer de ver tudo possível seja meu. Que outra razão teria Deus126
  • 127. para dar tudo a uns e tirar tanto de outros? Prefiro acreditar que Deus não tira,apenas dá. Mas não pode – ou ainda não pôde – dar tudo a todos. Provavelmentetambém sofra minha falta de felicidade. Talvez perceba seus próprios limites nosmeus. Difícil imaginar que Deus sofra. Mas também não é fácil entender que po-deria e não quis evitar que eu perdesse minhas pernas. Só porque alguém mostrouos olhos pro céu, estava feliz, no volante, contra o vento, quando trouxe os olhospra esquina, eu já estava no chão. Quando retomei o controle dos meus pensamentos, já se havia passadouma hora. Lembrei-me de que gostaria de ver um filme. Comprei um jornal para lera respeito das estreias. Um senhor me perguntou se eu queria ajuda para atravessar a Bela Cintra.Fiz que não e agradeci. Tio Lucas encostou o carro antes da banca, pegou-me nos braços, pôs-meno banco traseiro. Disse-me que vira Madalena com um namorado, no aeroporto.Permaneceu alguns instantes em silêncio, apoiando-se no carro, olhando para ochão. Depois, voltou para guardar minha cadeira no porta-malas. Um ônibus fez o vento que levou algumas folhas do meu jornal para a ave-nida. Tio Lucas correu atrás das folhas, abaixou-se para apanhá-las. Um para--choque bateu contra a sua cabeça. Que bateu contra o para-choque do táxi. Ouvias pancadas. Barulhos graves e breves. Vazios.*Mário César Rodrigues é professor de Literatura, escritor, dramaturgo,membro da Academia Araçatubense de Letras. 127
  • 128. Um urso à minha mesaEmília Goulart* – Araçatua-SP – membro da comissão julgadorado 25.º Concurso Internacional de Contos Cidade de AraçatubaA li existe um muro. Quando digo isso, as pessoas riem, zombam de mim. — É! De fato, ali existe um muro- repetem. Elas têm razão, evito discutir, elas falam daquele que quase todas as casastêm. O muro do fundo, que as separam dos vizinhos, de concreto. O que elas não entendem é que além daquele tem outro. Não sei mais o quefaço, aquele muro me atrai. Estou sempre sobre o muro de concreto observando-o.Apesar de invisível, ele também é concreto. Outro dia, estando sozinho, fui provar a mim mesmo que o muro invisívelexiste. Saltei para o outro lado e lá estava ele, toquei-o, queria ter a certeza de quenão era uma alucinação. Cheguei mesmo a tentar, de um modo súbito, arrancar umpedacinho de concreto e logo senti uma pressão, os dois muros foram se juntando,comprimindo, concreto e abstrato se fundiram. Senti que eles se abraçavam e euali, imóvel entre aquele abraço, me senti filho acolhido, protegido, porém, proteçãoem exagero sufoca. Abaixei para me livrar daquele abraço antes de ser transfor-mado em fragmentos. Meu maior receio no momento foi ser transformado em umterceiro muro. Enquanto os muros, no mais absoluto silêncio, trocavam insultos.Ninguém os podia ouvir. Eu sim! Mesmo sentindo as minhas pernas trêmulas, saltei novamente o muro. Es-tava livre, nunca meu quintal me pareceu tão grande. Naquele momento jurei quenão tornaria a provocar aquela situação. Afinal, o que era aquilo? Nunca ouvi falarde algo igual, qualquer semelhança com fantasmas estava fora de cogitação. Fan-tasmas são intocáveis, eu o toquei. Foi isso, eu toquei aquele muro, eu senti a frieza128
  • 129. mórbida daquela estrutura invisível oculta por trás de um muro sólido. Fui bem discreto, apesar do medo que me afligia, imediatamente percebique aquele era um segredo entre mim e os muros. Revelar estava fora dos pla-nos, seria, sem dúvida, tomado por louco, quem sabe até me internariam em umsanatório. Todavia, conviver com aquilo seria difícil, não é o tipo de coisa que dá paraignorar, teria que enfrentar a situação e voltar lá, querendo ou não, aqueles murosfaziam parte da minha vida, afinal nasci naquela casa. Desvendar aquele mistérioera um desafio que eu precisava enfrentar. Depois de algumas horas entre subidas e descidas do muro de concreto,observando detalhadamente o muro invisível, que me convidava a entrar por umaporta estranha de sorriso enigmático, não se abrindo totalmente, apenas o suficien-te para que um lenço branco se mostrasse. Tive certeza de que precisava voltar,mas faltava-me coragem. Decidi. Convidei meu irmão, relutante a princípio, desconfiando da história, masem solidariedade ao irmão mais novo, acabou aceitando o convite. Difícil mesmopara ele era entender como e quando surgiu aquele outro muro, longe da vista dosmoradores e tão próximos. Eu já passara pela fase das indagações e não lhe davaouvidos. Tornei a saltar o muro, desta vez, acompanhado de meu irmão. Acompa-nhado não é bem o termo certo, na verdade, ele foi sequestrado por mim, poisusei segredos que só irmãos conhecem para chantageá-lo e forçá-lo a embarcarnaquela aventura. Pressenti o perigo ao ver Diogo, meu irmão, tatear à procura domuro invisível. Tão poucas vezes estive ali e já era o dono da situação. Guardavadele um dos seus segredos, se tocado ele reagiria. Tarde demais para avisar, já havíamos penetrado o território invisível da-quele mistério que nos convidava, arrastando-nos. Nesse momento, duas mãossurgiram, estavam geladas e trêmulas, nada de estranho para mim, pois dentrodaqueles muros revestidos de cimento, não poderia ser diferente. As mãos come-çaram a nos afagar e logo nos vimos diante de nossa mãe que estava desapareci-da. Mesmo feliz com o reencontro, não foi possível conter o comentário uníssono: — Isto quer dizer que ficaremos aqui muitos anos. — A eternidade? — perguntou Diogo. 129
  • 130. O incrédulo, que até bem poucos minutos não se manifestara. — O que é a eternidade? — balbuciou o muro. Segurei forte, afastando de mim as mãos que me acariciavam: — Agora quero saber, que historia é essa? Vai me deixar passar por louco,ou vai nos explicar? - ela soltou minhas mãos, senti-me aliviado. —Assim como vocês, estou aqui por curiosidade. Desde que seu pai le-vantou este muro eu tentava entender o porquê, e acabei aqui dentro. Talvez eleme tivesse tirado, mas logo depois ele morreu. A certeza de que me libertariadesapareceu. A única coisa que eu sei foi revelada pelo próprio muro, que a me vermergulhada em grande tristeza disse: — Um outro tem que entrar para que você saia. Vou me tornar visível parao seu filho mais jovem e assim atraí-lo. O muro, tomando a palavra disse: — Não contava que entrassem os dois. Agora ficarão, para que ela saia.Muros invisíveis cumprem o que prometem. Tranquilizou-nos a promessa de que ela olharia como estava a casa e vol-taria. Por algum tempo ficamos imóveis, depois começamos a nos desesperar.A cada minuto a certeza de que ela não voltaria nos apavorava, e toda vez quetentávamos sair, luzes cadentes como estrelas iluminavam o interior do muro, pos-sibilitando-nos enxergarmos várias portas sem que nenhuma delas nos indicassea saída. Nunca fui assombrado por portas que se abrem e fecham sem nenhumauxilio, vi muitas, mas estas eram especiais, um vaivém sem fim, e quando batiamo eco se tornava insuportável e o muro invisível, que se tornou o nosso casulo,estremecia. Por um bom tempo, paramos as tentativas, ficamos inertes, qualquer inves-tida para tentarmos escapar dali era um suplício. Estávamos enjaulados, ou melhor,emparedados. Diogo balançava a cabeça de um lado para outro, e foi assim que ganhoutodas as características de urso. Do meu irmão restavam a voz e o firme propósitode sair dali. Tentamos juntos, muitas vezes, a cada tentativa meu irmão se tornava maisurso. Eu fui o responsável por aquela metamorfose, ver meu irmão se transforman-130
  • 131. do foi assustador. Comecei a temer a hora em que o urso cansado e com fome medevorasse. As luzes voltaram a piscar, saltei para fora pela primeira porta que surgiu,mas entre aquele vaivém fiquei preso por alguns segundos ou minutos, o tempo jánão importa quando a eternidade se prenuncia assustadora. Senti o urso rasgandominha roupa, suas garras ferindo minha pele na tentativa de me segurar, seguircomigo ou me devorar, pois eu era o único alimento à vista. Alguém me viu debatendo e socorreu-me, puxando. —O que você estava fazendo do lado do vizinho? Calei-me, há coisas que não adianta contar, eles jamais vão acreditar que oDiogo está dentro do muro invisível e que agora é um urso. Falei com mamãe queprecisávamos tirar o Diogo de lá. Ela disse que não acha isso possível, pois papaimorreu sem revelar o segredo. Eu sei como entrar e como sair do muro, mas, como tirar um urso de lá eunão sei. Mamãe arrumou uma coleira enorme, me entregou e disse: — Não temos escolha, boa sorte. Tirá-lo do muro até que não foi difícil, mas como explicar que um ursosenta-se e come conosco à mesa?* Emília Goulart dos Santos – Araçatuba - é escritora, com livros publicados,membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras. 131